sábado, 12 de julho de 2014

Ainda o “caso Pavel”: comentário ao novo livro de Edmundo Pedro
09/07/2014 - 03:33 Público
Temos presente o livro Pavel – Um Homem não se Apaga, de Edmundo Pedro (E.P.). Neste IV volume das suas memórias, E.P. continua as críticas ao PCP (e a Álvaro Cunhal), desta vez através do fio condutor da vida de Pavel, um militante revolucionário empenhado.
Nesta fúria crítica arrasta o nosso pai, Ludgero Pinto Basto (L.P.B.), a quem ofende com acusações gratuitas de “inventar”, ”animosidade”, ”má vontade”, tratar “da saúde às burguesas ricas de Lisboa”, falta de “intervenção no plano social e cultural”, etc. Tudo isto a pretexto de comentários a um artigo de jornal de há 20 (!) anos, e nove (!) anos após L.P.B. ter morrido. Julgamos difícil classificar isto como coragem cívica ou intelectual.
O nosso pai costumava dizer sempre que se falava do “caso Pavel” que era necessário, previamente, esclarecer o “caso Magalhães”. Quem era Magalhães? O Magalhães era Armando Magalhães, agente provocador, infiltrado no PCP, ao serviço da PDVE.
Magalhães era um homem inteligente, ardiloso, insidioso e muito ambicioso, que em Maio de 1938, recém-chegado da URSS, onde frequentara a Escola Leninista de Quadros, era um responsável máximo do Partido, uma espécie de secretário-geral “interino”. O relatório da fuga de Pavel da cadeia do Aljube que chegou ao responsável da Internacional Comunista em Paris (e ao PC francês) foi da responsabilidade pessoal e exclusiva de Magalhães. Este relatório desonesto e traiçoeiro salienta, muito intencionalmente, não a extrema dificuldade de fugir de uma prisão tão segura como era o Aljube (dificuldade que nunca fora vencida anteriormente) [Nota: parece que nem isto era verdade, pois teria havido uma fuga coletiva em 1932 de que fez parte Emídio Guerreiro], mas também a particularidade de a fuga ter sido executada com a decisiva ajuda e mesmo com a comparticipação de um "elemento da Polícia", o enfermeiro da prisão.
Magalhães foi “presopouco tempo depois de ter enviado o seu relatório para Paris, o que veio dar mais verosimilhança às suspeitas que ele próprio havia sugerido acerca da fuga de Pavel e da grave infiltração policial na organização do partido. Magalhães passou a colaborar diligentemente com a PVDE na “prisão”, onde casou, pela igreja, com uma russa branca que trouxera consigo para a clandestinidade em Portugal. Como recompensa, a PVDE “libertou-o” ao fim de alguns meses, tendo-lhe facilitado a ida para o Brasil, onde, segundo consta, refez a sua vida.
L.P.B., que, na altura, pertencia ao secretariado nacional do PCP, desempenhou na fuga de Pavel um importante papel e atribuía todas as culpas individualizáveis neste caso ao Magalhães.
Os fugitivos (Pavel, o enfermeiro Augusto Rodrigues e o jovem António Gomes Pereira) foram viver para a casa clandestina onde vivia L.P.B. com a sua mulher, Brízida, e o seu (na altura único) filho Ernâni, a fim de serem tratados dos graves ferimentos que apresentavam e da afeção pulmonar de que Pavel padecia.
O tratamento dos evadidos e posteriormente o seu encaminhamento para França demorou vários meses e o relacionamento com eles foi sempre de grande amizade e respeito, pelo que L.P.B. considerava Pavel um militante revolucionário empenhado e um homem honrado.
No que respeita a Álvaro Cunhal, não teve qualquer interferência no processo porque estava preso e no período de 1940-1948 (data da nova prisão de Cunhal) seria difícil, para não dizer impossível, o contacto com Pavel, de quem se desconhecia o paradeiro.
Após o responsável em Paris da Internacional Comunista ter reportado o relatório do Magalhães, esta cortou relações com o PC Português e abandonou Pavel, em Paris. Pavel, como homem honesto que era, sofreu o enorme traumatismo ocasionado pela injustiça de se ver caluniado e repelido, reagiu à sua maneira, seguiu a sua vida, foi para o México.
No seu livro O Partido com Paredes de Vidro (Edições Avante!, 1985, pág. 252 da 6.ª edição de 2002) Cunhal, com a sua autoridade, critica a Internacional Comunista e denuncia, explicitamente, a “injusta suspeita criada”.
Depois da evasão de Peniche, e depois da retomada de funções de Cunhal (após 12 anos de cadeia), L.P.B. consegue fazer chegar ao PCP uma sugestão para que se ocupe do “assunto Pavel”. A sugestão é aceite e é o próprio Álvaro Cunhal que toma a iniciativa de convidar Pavel a regressar a Portugal e reocupar o lugar que de direito lhe pertencia na direção do partido. Pavel não aceitou, sentia-se mais mexicano que português, tinha mulher e filhos, tornara-se famoso como crítico de arte bem integrado nos meios intelectuais mexicanos, e... (segundo L.P.B.) não manteria as mesmas convicções político-ideológicas.

Este comentário é subscrito pelos filhos de (Ludgero Pinto Basto e de Brizida Barata Pinto Basto) Ludgero Barata Pinto Basto, Eugénio Barata Pinto Basto, Ernâni Barata Pinto Basto.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

GERARD DUMÉNIL , um dos mais importantes cientistas sociais contemporâneos (V. "A crise do neo-liberalismo")

Duménil e os mantras neoliberais: cortar gastos sociais, reduzir custos do trabalho

09.05.2014

Carta Maior | Economia
Marco Aurélio Weissheimer
Porto Alegre - No capitalismo, há cada período de cinco anos, aproximadamente, temos uma recessão, onde a produção diminui durante um ano mais ou menos. Mas há outro tipo de problema, mais grave, que são as crises estruturais que trazem perturbações para a economia do mundo inteiro. Desde 2007 estamos vivendo uma dessas crises que atingiu o modelo neoliberal como um todo e ainda não terminou.
A avaliação é do economista francês Gérard Duménil, pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), que esteve em Porto Alegre para lançar seu livro “A Crise do Neoliberalismo”, lançado no Brasil pela Boitempo Editorial. Duménil teve um dia cheio em Porto Alegre na quinta-feira: gravou uma entrevista para o programa Frente a Frente, na TVE, e fez palestras na Fundação de Economia e Estatística (FEE) e na PUC-RS. Antes de Porto Alegre, Duménil também lançou o livro em São Paulo (dia 24 de abril) e em Foz do Iguaçu (dia 5 de maio).
Escrito em conjunto com o também pesquisador Dominique Lévy, a obra analisa a atual crise econômica global e os fatores que deram origem a ela. Duménil defende que a crise iniciada em 2008 poderá se estender por um período superior a dez anos, em função dos problemas vividos pelas economias dos Estados Unidos e da União Europeia, em especial o aumento da dívida pública.
A crise do neoliberalismo discute temas como a financeirização econômica, a reestruturação produtiva, as lutas de classes e as relações internacionais às portas de uma nova ordem global multipolar. O livro analisa a chamada “Grande Contração” de 2007-2010 no contexto da globalização neoliberal. Entre os problemas enfrentados hoje pelos Estados Unidos, os autores citam a queda do investimento interno na indústria, uma dívida doméstica insustentável e a crescente dependência de importações, que aliados ao desenvolvimento de uma estrutura financeira global frágil, ameaçam a força do dólar. Duménil e Lévy preveem que, a menos que haja uma alteração radical da organização político-econômica dos EUA, o centro político e econômico o neoliberalismo, haverá um declínio agudo da economia norte-americana, com implicações para todo o mundo.
O economista francês caracteriza a crise atual como uma crise de hegemonia financeira, similar a que ocorreu no período da Grande Depressão, nos anos 30. Neste tipo de crise, explicou, o capitalismo explode por falta de controle. “Sempre há um aspecto financeiro muito importante neste tipo de crise. Corresponde ao que Marx e Engels chamaram no Manifesto Comunista de aprendizes de feiticeiros, que são os capitalistas que acabam perdendo o controle sobre um certo tipo de mágica financeira que inventam”. No caso atual, a mágica girou em torno do mercado de fundos derivados que escapou completamente do controle de seus criadores. O capitalismo, assinalou, sempre se recuperou de todas essas crises, mas isso sempre provocou também mudanças importantes no funcionamento do sistema.
Intelectual de formação marxista, Duménil defende que o neoliberalismo deve ser pensado levando em conta a existência de relações de poder entre as classes sociais. No período da Grande Depressão, exemplificou, a renda das classes capitalistas diminuiu enormemente. Já o período do pós-guerra teve como novidade mais importante a criação do Estado de Bem-Estar Social e o fortalecimento da social-democracia europeia. Com a crise dos anos 70, as classes capitalistas conseguiram de novo impor seu poder e deram origem ao neoliberalismo. Entre cada crise, resume, há o surgimento de uma nova ordem econômica social, mais à esquerda ou mais à direita.
O que há em comum em todos esses processos, sustenta ainda o economista francês, é a permanência de uma lógica de classe. “As palavras esquerda e direita seguem tendo um significado de classe. Após a crise dos anos 70, as classes capitalistas conseguiram impor uma nova ordem social, gerando uma grande acumulação de riqueza, cujo montante não temos como conhecer em função da existência dos paraísos fiscais”.
O centro do mundo neoliberal está nos Estados Unidos, aponta Duménil. Na Europa, esse modelo apresenta algumas variações. “A Alemanha tem hoje um governo de direita, mas é um país menos neoliberal que a França, por exemplo, onde houve um processo de financeirização muito grande, o que ocorreu também na Espanha”, exemplifica. Ao falar da situação desses países, Duménil detalha com mais precisão o que define, afinal de contas, o neoliberalismo.
“As empresas hoje nos Estados Unidos recompram suas próprias ações para aumentar a cotação das mesmas nas bolsas de valores. Com a globalização financeira, o Banco Central dos EUA acabou perdendo o controle sobre o comportamento do sistema financeiro. Some-se a isso, o desequilíbrio do comércio exterior e o processo de endividamento das famílias e temos os ingredientes que fizeram a crise explodir.”
O economista ressaltou que nem todos os países foram atingidos do mesmo modo pela crise. “Essa não é uma crise mundial, não há uma crise na China ou no Brasil, por exemplo. O mais grave é que nos Estados Unidos e na Europa há uma tendência de declínio da taxa de investimentos. Se essa tendência continuar eles vão perder seu domínio mundial”.
O que há de diferente na crise atual, em comparação ao que ocorreu nos anos de 1930, destacou Duménil, é que agora não ocorreu uma grande depressão por causa de políticas muito fortes que foram aplicadas rapidamente. “Não esperaram três ou quatro anos para tomar medidas, como ocorreu na crise dos 30. Foram feitas grandes operações de empréstimos para socorrer o sistema financeiro e adotadas políticas orçamentárias muito fortes. Houve um preço a pagar. A dívida dos EUA aumentou 37% por causa do crescimento do déficit fiscal do governo, mas com isso conseguiram evitar uma grande depressão”.
E o que acontece agora? Duménil responde:
“Nos EUA, continua enorme o poder das grandes corporações capitalistas e financeiras. Por outro lado, temos uma atuação muito forte o governo Obama. Neste sentido, temos um neoliberalismo (financeirização) menos liberal, com forte intervenção do Estado, adoção de práticas comerciais protecionistas mais ou menos disfarçadas e uma política orçamentária muito forte, geradora de um grande déficit também. Além isso, a Reserva Federal (Banco Central dos EUA) está usando políticas muito fortes para controlar as taxas de juro de longo prazo. Com isso, os EUA conseguiram retomar um crescimento de 2%. Devemos considerar aí também a existência do fator nacional, que é a preocupação norteamericana com a manutenção da hegemonia no mundo. Mas eles não conseguirão manter esse ritmo sem mudar as regras do neoliberalismo”.
A Europa, segundo a análise de Duménil, tem uma política mais à direita do que aquela praticada hoje pelos EUA. “Na Europa, os governos só se preocupam em tranquilizar os bancos e diminuir os déficits dos governos. O problema é que cada vez que se diminui o déficit orçamentário, o país entra em recessão. No caso da Europa, não há o fator nacional operando como no caso dos EUA”.
A situação da China e do Brasil é diferente, apontou. “A China está criando um sistema capitalista sob o comando do Partido Comunista. Não é um capitalismo neoliberal pois o governo controla tudo. Assim como nos EUA, há um forte fator nacional operando nas decisões do governo chinês. A situação do Brasil é um pouco intermediária. A economia do país tem elementos neoliberais, como a presença forte do sistema financeiro e seus agentes, mas tem também políticas sociais importantes, como o Bolsa Família e a valorização do salário mínimo, além de ter também um fator nacional operando, um projeto nacional. O Brasil conseguiu se inserir na globalização de um modo eficaz”.
Diante deste cenário, Duménil previu dificuldades para o Brasil nos próximos anos, mas apontou diferenças existentes no conjunto das políticas implementadas aqui, em relação ao que ocorre hoje principalmente na Europa, onde a preocupação central é reduzir os gastos dos governos, discurso adotado pela oposição ao governo Dilma e pela maioria dos meios de comunicação. O economista francês, aliás, manifestou surpresa com a manchete da entrevista que concedeu ao jornal Zero Hora: “Na entrevista, eu falei mais de 20 minutos e na última frase levantei uma hipótese sobre as dificuldades que o Brasil pode enfrentar. Pois essa última frase virou a manchete da entrevista”. Questionado sobre o papel da mídia no sistema neoliberal, Duménil disse:
“É horrível. Eu tomo meu café da manhã na França ouvindo rádio. Não sei como meu estômago aguenta. Tento ler um pouco o Le Monde, mas está cada vez pior. É pura propaganda. Repetem o mesmo mantra: diminuir os custos do trabalho e cortar os gastos sociais. Não há alternativa, repetem à exaustão”.
“Nós precisamos sair do neoliberalismo”, concluiu Duménil. “Isso significa mudar a forma de administrar as empresas, mudar as regras do comércio exterior e controlar os movimentos de capitais. Isso exige uma luta política muito forte”. O neoliberalismo, assinalou, é resultado de uma construção de muitos anos, que começou no pós-guerra e se consolidou a partir dos anos 70. Hoje, apesar da crise, esse modelo segue forte e conta com um trabalho de propaganda diário executado pelos meios de comunicação, que se tornaram um braço ideológico e também econômico do neoliberalismo. É isso que explica que, no café da manhã que Duménil toma na França ou no café da manhã que alguém toma em Porto Alegre, escute-se o mesmo mantra no rádio, nas televisões ou nos jornais (ou na internet): diminuir os gastos do governo, cortar gastos sociais, diminuir os custos do trabalho. Aí está o resumo da disputa eleitoral deste ano no Brasil.
in blog Carta Maior, com a devida vénia.

The Banker - Legendado em Português

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Heidegger

21.2.10

Heidegger e o nazismo




O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", daFolha de São Paulo, no sábado, 20 de fevereiro.


Heidegger e o nazismo


LOGO QUE li, anos atrás, uma observação do filósofo Martin Heidegger segundo a qual o sentido da filosofia não era tornar as coisas mais fáceis, mas mais difíceis, não pude deixar de me lembrar do merecidamente famoso bordão de Chacrinha: "Eu não vim para explicar, mas para confundir".

Na verdade, é claro que "tornar as coisas mais difíceis" é muito diferente de confundi-las. A palavra alemã que traduzi por "mais difíceis", "schwerer", tem em primeiro lugar o significado de "mais pesadas". Heidegger quer dizer que a filosofia conhece o peso de cada coisa. Isso implica que ela as diferencia, que as torna mais complexas. De fato, o que a filosofia faz não é simplificar as coisas, mas complicá-las. Se entendermos "confundir" como fundir numa coisa só, então seu sentido está mais próximo do de "simplificar" que do de "complicar", e é praticamente o oposto do sentido desta.

Enquanto simplificar um pensamento, por exemplo, é empobrecê-lo, complicar um pensamento é torná-lo ou revelá-lo como mais complexo, mais diferenciado, mais rico do que parecia ser. Tal é, de fato, um dos mais importantes benefícios que podemos auferir da filosofia.

É exatamente por isso que se pode ler com proveito um filósofo que pensa o oposto daquilo que pensamos, daquilo que pensamos pensar, ou daquilo que queremos inicialmente pensar. Mesmo que jamais concordemos, por exemplo, com as teses manifestamente defendidas pelo Sócrates de Platão em "A República", a leitura desse diálogo nos ensina a refletir e especular com maior profundidade e consistência.

Mas volto a Heidegger. Ninguém ignora que esse filósofo apoiou Hitler e o nazismo. Parece-me ademais inacreditável que alguém que tenha lido e compreendido a obra maior de Heidegger, "Ser e Tempo", de 1927, seja capaz de negar a impressionante afinidade entre o teor de certas pretensões desse livro e grande parte da ideologia nazista, que ele estranhamente antecipa. Basta lembrar que ambos rejeitam a modernidade filosófica, o iluminismo, o individualismo, o humanismo e o universalismo, enquanto exaltam o que consideram a autenticidade do indivíduo que se sacrifica em prol do destino particular da comunidade e do Estado a que pertence. A partir da ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, em 1933, Heidegger explicitamente articula seu pensamento com as concepções nazistas.

Essa articulação é o tema do livro extremamente informativo do filósofo francês Emmanuel Faye, "Heidegger: A Introdução do Nazismo na Filosofia", cuja recente tradução americana desencadeou uma intensa polêmica nos Estados Unidos. Por um lado, houve quem, como o professor de filosofia Carlin Romano, sugerisse banir os livros de Heidegger da academia; por outro lado, os discípulos do mestre da Floresta Negra tentaram, como aliás ocorrera à época da publicação do livro na França, desmoralizar Faye, de modo a desacreditar seu livro antes que ele pudesse ser seriamente discutido.

É inaceitável tanto a atitude dos primeiros quanto a dos segundos. Estes são desonestos não apenas porque todo encobrimento dessa natureza é desonesto, mas porque o que tentam encobrir é um comprometimento político que o próprio Heidegger, até o fim da vida, recusou-se a renegar. Ora, é importante – em primeiro lugar exatamente para quem se interessa pela filosofia de Heidegger – saber como ele mesmo entendia e vivia as consequências políticas do seu pensamento.

E que dizer da tentativa de excluir as obras de Heidegger das universidades? Não somente qualquer censura dessa natureza é inteiramente inadmissível numa sociedade aberta, como a verdade é que, a despeito das repugnantes afinidades políticas de Heidegger, sua obra não pode deixar de ser lida e discutida por quem quer que leve a sério o pensamento filosófico.

A filosofia de Heidegger é a culminação do pensamento antimoderno desenvolvido na Alemanha desde o romantismo, no início do século 19. São profundas suas intuições sobre os objetos do ataque que desfere, admiráveis suas interpretações e poderosos seus argumentos. Ninguém que hoje queira pensar seriamente sobre a modernidade, sobre a filosofia moderna ou sobre a filosofia "tout court" poderá ir muito longe, a menos que considere tais intuições, critique tais interpretações e enfrente tais argumentos que, como convém à filosofia, longe de simplificar, complicam as coisas. Que eles desemboquem na pior das ideologias totalitárias é mais uma razão para não os ignorar.
in Acontecimentos, blog de António Cícero. Com a devida vénia. Um blog a seguir.

segunda-feira, 7 de julho de 2014


http://www.pelosocialismo.net
_____________________________________________
Publicado em 2014/06/25, em: http://port.pravda.ru/busines/25-06-2014/36941-ira_eua-0/
Colocado em linha em: 2014/07/04

O Irão não pagará pelos pecados dos EUA no Iraque


MK Bhadrakumar 

No que tem a ver com o Irão, há uma história muito, muito longa, tão longa quanto a
revolução islâmica de 1979 e a propaganda ocidental contra Teerão, sempre pintada
em espessos tons de fantasia. Apesar do “bem-estar” que reina nas conversações do
P5+1 e o Irão, essa propaganda mal-intencionada continua. O Irão encolhe os ombros
e diz que não passa de guerra psicológica (“guerra-psi”); mas a influenciável opinião
pública quase sempre acaba enrolada no “conto-do-vigário” da propaganda do dia.
A primeira grande história da semana passada foi a de que o Irão teria mandado
tropas para o Iraque para combater contra militantes do Estado Islâmico do Iraque e
Levante [ing. ISIL]. O Wall Street Journal liderou essa campanha de desinformação,
provavelmente num esforço para empurrar o presidente Barack Obama dos EUA a
“fazer alguma coisa”.
É claro que os EUA têm os recursos humanos e eletrónicos dos serviços secretos para
avaliar a real situação no terreno. Mas, por via das dúvidas, os iranianos caíram como
uma tonelada de pedras sobre o WSJ e desmentiram tudo.
Veio então a segunda onda de ataque: Os EUA e o Irão “cooperariam” no Iraque. A
Reuters lançou a história, citando, de início, um funcionário iraniano não identificado
(que poderia ser qualquer um). Sem dúvida, notícias arrepiantes - o Grande Satã e os
persas, ombro a ombro nas barricadas da Mesopotâmia, em luta contra a al-Qaeda. O
mundo mediático agarrou a “coisa” como se fosse um facto. O secretário de Estado
dos EUA, John Kerry, correu a lançar gasolina na fogueira, encorajando os
especulativos média a escalar os mais altos píncaros da não notícia. A imprensaempresa
mundial parecia zonza - até na Índia3.
Porém, como sempre acontece no que tem a ver com o Irão, houve um total boicote,
em toda a imprensa-empresa ocidental, da versão iraniana sobre os ditos “factos”.
1
Original publicado em 2014/06/17, em:
http://blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/2014/06/17/iran-wont-bite-american-bullet-in-iraq/.
2 Procedeu-se à correção de alguns erros gramaticais e sintáticos, confrontando com o original. – [NE]
3 http://www.thehindu.com/news/international/world/obama-open-to-discussing-iraq-crisis-withteheran/
article6120458.ece
2
Ora, a regra básica, essencial, é que não há tango, se não houver dois. E onde estaria o
dançarino persa? Pois o facto real é que o dançarino persa não passou nem por perto
daquele palco no qual Kerry se colocou, solitário, com ar de desamparado.
Um exame atento das declarações de Teerão, ao longo de toda a semana passada,
mostra uma história muito diferente da versão que Kerry tanto gostaria de nos fazer
engolir. Examinemos aqui o que disseram alguns dos principais atores do governo
iraniano:
a) Presidente Hassan Rouhani (9/6, em Ankara): "A violência e o terrorismo
cresceram e tornaram-se mais complicados, por causa da interferência de
potências trans-regionais 4."

b) Vice-ministro de Relações Exteriores Hossein Amir Abdollahian (10/6):
O papel de alguns "lados estrangeiros" nos eventos de Mossul é óbvio. "Esses
lados que estão a apoiar os Takfiris5 devem estar seriamente preocupados com as
medidas atentatórias da segurança, por parte desta corrente terrorista, nos seus
próprios países."

c) Comandante dos Guardas Revolucionários do Irã0 (Basij), general
Mohammad Reza Naqudi (11/6): (i) grupos takfiri cometem crimes alinhados
com os mais sórdidos objetivos das potências arrogantes e obedecem aos thinktanks
ocidentais e israelenses, todos eles apoiados pelos petrodólares de alguns
países árabes regionais. (ii) "A Arábia Saudita está armando terroristas na Síria
com armamento leve e pesado diferenciado, violando todos os regulamentos e
convenções internacionais." (iii) Grupos takfiri e salafistas, em diferentes estados
da região, especialmente na Síria e no Iraque, são apoiados pelos EUA. (iv) Os EUA
estão manipulando os terroristas takfiri para comprometer a imagem do Islão e
dos muçulmanos.

d) Porta-voz do ministério de Relações Exteriores, Marziyeh Afkham
(11/6): Conclamou que alguns estados pusessem fim imediatamente ao apoio que
dão a grupos terroristas e exigiu que todos os países adotassem medidas coletivas
de combate ao terrorismo.
e) Vice-ministro de Relações Exteriores, Hossein Amir Abdollahian
(11/6): "Apoiaremos firmemente o Iraque no seu confronto com o terrorismo."

f) Presidente do Parlamento (Majlis) Ali Larijani (13/6): "É perfeitamente
óbvio que os norte-americanos e demais países aqui à nossa volta são
responsáveis pelo que hoje se vê no Iraque. (...) O terrorismo converteu-se em
ferramenta que as grandes potências usam para promover seus objetivos."6
4 http://www.islamicinvitationturkey.com/2014/06/10/president-rouhani-iran-turkey-shouldcooperate-
in-fighting-violence-extremism/
5 Takfiri é o muçulmano que acusa outro de apostasia - a acusação é chamada takfir, palavra derivada
de kafir ( não crente). – [NE]
6 http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/06/eua-gaguejam-sobre-o-iraque-o-ira-poe.html
3
g) Presidente Rouhani (13/6): (i) "Se o governo do Iraque quer ajuda, vamos
estudar o pedido (...) Claro, ajuda e assistência é uma coisa, interferência e ação
no campo de batalha é outra (...). A entrada de tropas iranianas [em campo de
batalha no Iraque] jamais foi cogitada (...) jamais enviamos soldados para
combater fora do Irão (...) Se um grupo terrorista se aproxima das nossas
fronteiras, sim, com certeza lhe daremos combate.” (ii) Alertou os estados que
estão dando apoio financeiro e armas ao ISIL e a outros grupos terroristas, e disse
que esses grupos voltariam, para incendiar também esses países. (iii) Desmentiu e
desautorizou relatórios da Reuters sobre a cooperação EUA-Irão, no caso do
Iraque. "Os norte-americanos talvez façam alguma coisa, mas não estou
informado sobre ação alguma." (iv) Os eventos recentes no Iraque devem-se ao
fato de que os terroristas estão furiosos ante os resultados das eleições no Iraque,
que mantiveram os xiitas e o primeiro-ministro Nouri Al-Maliki no poder, por
meios e procedimentos democráticos.

h) Ala'eddin Broujerdi, presidente da Comissão de Política Externa e
Segurança do Majlis (14/6): "O apoio dos EUA, em armas e treino militar [aos
grupos takfiri) são a causa-raiz da disseminação do terrorismo e seus crimes na
região (...) A Ummah muçulmana tem de pôr um fim nas intervenções dos EUA
na região."

i) Gen. Mohammed Naqdi, comandante do Basij, (14/6): Os ataques
do ISIL no Iraque são novo golpe dos EUA, depois que Washington foi derrotada
no confronto com grupos da resistência na região. Os EUA conheceram a derrota
nos confrontos e golpes contra os aliados do Irão na Palestina, no Líbano e na
Síria, e agora "começam a conhecer a mesma experiência no Iraque (...) Uma
imensa força popular cresce na região e fará gorar os escandalosos golpes do
inimigo." Essas forças populares que se formaram nos estados regionais cresceram
numa corrente que se estende por todo o Oriente Médio.

j) Afkham, porta-voz do Foreign Office (14/6): O Irão opõe-se a intervenções
militares no Iraque. "O Iraque tem o potencial necessário e a prontidão militar
requerida para combater os elementos terroristas e extremistas (...) Qualquer
outra ação que complique a situação no Iraque não se faz no interesse do Iraque
ou da região."

k) Ministro Mohammed Zarif, das Relações Exteriores, em entrevista à
revista New Yorker: "É do interesse de todos estabilizar o governo do Iraque. Se
os EUA entenderam que esses grupos [ISIL] representam ameaça à segurança da
região, e se os EUA realmente desejam combater o terrorismo e o extremismo,
então há aí uma causa global comum."7

l) Contra-almirante Ali Shamkhani, secretário do Conselho Supremo de
Segurança Nacional do Irão (15/6): Culpou Washington pela criação do ISIL.
Refutou veementemente matérias que sugerem a possibilidade de cooperação
EUA-Irão, no caso do Iraque; essas matérias são parte da “guerra psicológica”
[guerra-psi] do ocidente contra o Irão e são "completamente irreais". Criar terror e
instabilidade e incitar a campanhas armadas e violentas contra o desejo do povo
[iraquiano], já manifesto em eleições livres e justas no Iraque, são alguns dos
objetivos dos EUA, por trás da criação de grupos terroristas como o ISIL. Os EUA e
alguns dos seus aliados têm cooperação financeira, de serviços secretos e de
logística para implementar tal política. Conclamou os xiitas e os sunitas iraquianos
e os curdos a permanecerem alerta, contra os golpes das potências exteriores, para
defenderem o seu país. Qualquer ajuda iraniana ao Iraque acontecerá em bases
bilaterais "e nada tem a ver com algum terceiro país."

m) Contra-almirante Ali Shamkhani (15/6): Os estados ocidentais e regionais
são responsáveis pela atual crise no Iraque.
Considerados os pronunciamentos acima, todos inequívocos, feitos por altas
autoridades de Teerão, ao longo da semana passada, parece altamente improvável,
para dizer o mínimo, que venha a haver qualquer tipo de operação aberta de
coordenação EUA-Irão para o Iraque. O que faz toda a diferença é que Teerão
realmente está a ver uma mão ativa dos EUA, direta ou indiretamente, no
crescimento de grupos islamistas extremistas patrocinados por sauditas, como o ISIL,
na Síria e no Iraque.
De igual modo, Teerão também não acredita na disposição e na capacidade dos EUA
para se afastarem completamente das suas políticas anteriores na Síria e no Iraque; e,
ainda mais importante, para confrontarem a Arábia Saudita. Claro que tudo mudaria
completamente de figura, se o governo Obama assumisse a firme decisão de renegar
completamente a trajetória passada das políticas dos EUA para a Síria e o Iraque;
nesse caso, sim, Teerão responderá positivamente. Mas é difícil ver acontecer tal
coisa, no curto prazo.
O governo de Obama está hoje tão gravemente enfraquecido, no quadro da política
interna dos EUA, que a Casa Branca não terá a coragem política para 'reiniciar'
[orig. reset] tão audaciosamente as políticas dos EUA para o Oriente Médio, em
direção virtualmente oposta, do dia para a noite, aplicando punições aos seus aliados
regionais, sobretudo à Arábia Saudita. O Irão compreende perfeitamente a realidade
geopolítica que a aliança EUA-sauditas gera. Em resumo, Teerão sempre desconfiaria
das intenções dos EUA.
A cautela extrema com que Teerão se movimenta em relação aos desenvolvimentos
no Iraque sugere que o país se tem cuidado, para não se deixar prender na armadilha
de um labirinto sectário, o que teria profundas consequências para a posição regional
do Irão como um todo.
Teerão não vê uma convergência de interesses com os EUA, hoje, quanto à situação
no Iraque. Na perspetiva de Teerão, o poder dos xiitas no Iraque não é negociável.
Tampouco o Irão parece disposto a aceitar uma mudança de liderança em Bagdad, na
atual conjuntura.
5

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sociólogo falecido em 2009 foi um dos grandes cientistas sociais do século XX

Alejandro Nadal
A crise financeira e económica que estalou em 2007-08 não se pode entender sem uma análise histórica do capitalismo ao longo do século XX. Essa referência é proporcionada por Giovanni Arrighi, economista italiano e professor da Universidade Johns Hopkins, falecido recentemente na cidade de Baltimore. A sua obra O Longo Século XX é um extraordinário edifício intelectual que abarca 500 anos de uma história cujas personagens centrais são os ciclos de acumulação de capital. Trata-se de leitura obrigatória para entender não só a crise actual, mas o ponto de inflexão do capitalismo mundial.
A inovação analítica de Arrighi consiste em examinar comparativamente as características dos sucessivos ciclos de acumulação ao longo de cinco séculos de história económica. No seu percurso, identifica quatro etapas fundamentais. A primeira é o ciclo genovês, que vai do século XV até princípios do século XVII. Segue-se o ciclo holandês, que decorre até finais do século XVIII. Vem depois a etapa britânica, que domina o século XIX, e sucede-lhe o ciclo estadunidense, que se consolida no século XX. Cada etapa é a expressão da tendência geral para a expansão do mercado capitalista.
Na cada ciclo ergue-se um centro hegemónico de acumulação que organiza as relações políticas, económicas, comerciais e financeiras (à escala mundial) em função das suas necessidades. Ao longo deste processo, o capital mostra uma grande capacidade de adaptação e de flexibilidade, deslocando-se continuamente para os espaços mais rentáveis. E, quando os ganhos decaem, seja porque a concorrência intercapitalista se intensifica, ou porque o acesso a certos recursos naturais se torna difícil, ou porque é impossível encontrar mercados para dar saída às mercadorias, o capital procura o refúgio da liquidez.
Em outros termos, quando se reduz a rentabilidade nos sectores reais da economia, o capital adopta preferencialmente a forma de capital financeiro. É a lição de história nesta vista panorâmica da história do capitalismo. No primeiro ciclo, Amsterdão abandona o comércio em meados do século XVIII e converte-se no banqueiro da Europa. Mais tarde, no final do século XIX, Londres converte-se no centro financeiro, abandonando o que Braudel designou como «a fantástica aventura da Revolução Industrial».
O último ciclo de acumulación de capital, dominado pelos Estados Unidos, é a história do “longo século XX” que começa com a Grande Depressão de 1873-1896 e a expansão financeira de finais do século XIX. Nesse lapso de tempo, as estruturas do regime de acumulação organizado em torno do Império britânico foram eliminadas ao mesmo tempo que se assentavam as bases de um novo sistema hegemónico. Evidentemente, este processo de mudança não foi levado a cabo sem convulsões. E, a partir desta perspectiva, as duas guerras mundiais não são mais que uma só (uma nova guerra de 30 anos) que vai de 1914 a 1945. Os contendentes foram os aspirantes a ocupar o centro de um novo sistema hegemónico de concentração de capital.
A expansão material das décadas de 1950 a 1970 corresponde à época dourada do sistema hegemónico estadunidense. Nessas décadas, a taxa de crescimento das economias capitalistas é superior a tudo o que foi experimentado no resto do século XX. O capitalismo made in USA impõe-se como padrão de organização do “sistema-mundo-capitalista”. Mas os antigos pretendentes a ser centros de um sistema hegemónico, o Japão e a Alemanha, ressurgem como competidores económicos e acabam por socavar as bases da hegemonia estadunidense. O período que arranca em 1970 está marcado pela expansão do sector financeiro. E, a partir desse momento, a “financiarização” da economia capitalista é a pauta central, enquanto são destruídas as bases que tinham favorecido a acumulação no período dourado. O fortalecimento do sector financeiro conduz à liberalização financeira à escala mundial e ao assentar das bases da actual crise.
Duas lições importantes se desprendem do trabalho de Arrighi. Primeira: o Estado não é o inimigo do capitalismo (ao invés, este só triunfa quando as redes de poder se subordinam aos ditames das redes da acumulação capitalista). Segunda: o mercado e o capitalismo não são equivalentes. A circulação monetária, que é a essência do capital, é inimiga mortal do mercado (utiliza-o e destrói-o). Aqui nota-se o forte contraste entre o trabalhador intelectual e a mediocridade de uma parte muito importante do establishment académico.
Em Arrighi observamos uma história do capitalismo mais definida por períodos de crise e destruição, que pelos plácidos interlúdios de construção de novas bases de expansão. O longo século XX é um excelente exemplo, com as suas guerras devastadoras e a sucessão interminável de crise financeiras. O epílogo é uma questão em aberto: poderá a China ser o novo centro hegemónico de acumulação capitalista?
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