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Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
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Artigo publicado em 2013/06/04, em: http://hist-socialismo.blogs.sapo.pt/29514.html
Tradução do russo e edição por CN, 8.05.2013 (original em: http: http://marksizm.ucoz.ru/publ/13-1-0-295)
Parte 2 (última) – Colocado em linha em: 2014/07/18
Sobre algumas causas da
restauração do capitalismo na URSS
As relações de produção na URSS (1960-1980) - II
N.O. Arkhanguelskaia
[Este artigo é publicado em 2 partes. Hoje publica-se a parte 2 (última):
O aumento fictício da produção, A destruição do colectivismo, A
alteração da forma de propriedade, Salários e produtividade, As
ligações da economia paralela, Conclusão]
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O aumento fictício da produção
A busca de benefícios pessoais impelia as direcções das empresas a aumentar
ficticiamente os volumes de produção: «A contabilização dupla do valor das
matérias-primas, dos semi-acabados, com frequência até da produção acabada;25 o
aumento da incorporação de materiais e o encarecimento dos artigos; a diminuição
da gama de artigos de baixo preço; os registos adicionais:26 eis os expedientes a que
recorriam as direcções das empresas».27 Os primeiros três métodos não eram
considerados inadmissíveis, apesar de constituírem práticas claramente prejudiciais
ao interesse da sociedade, por parte dos colectivos, que apenas visavam a obter
benefícios para o grupo. O último abria o caminho ao desenvolvimento da economia
25 Por exemplo, uma fábrica de automóveis recebia 100 toneladas de metal no valor de quatro
milhões de rublos, produzindo com esse metal viaturas no valor de dez milhões de rublos. A
contabilização dupla, neste caso do metal (metal + mais viaturas) elevava artificialmente o valor total
da produção para 14 milhões de rublos. Ora, o verdadeiro valor produzido (o valor acrescentado)
obtêm-se descontando o valor dos chamados consumos intermédios, isto é, produtos e serviços
consumidos na produção. No nosso exemplo, isso significa que em vez de 14 milhões, o valor real das
viaturas é de dez milhões e o valor acrescentado pela fábrica de seis milhões (4 + 6 = 10). (N. Ed.)
26 Como a autora explica na pág, 18, os registos adicionais (приписки) permitiam cumprir e
ultrapassar artificialmente o plano, mediante a venda de materiais excedentes acumulados.
27 D.V. Valovoi, От застоя к развалу (Da Estagnação à Derrocada), Мoscovo, 1991, p. 112.
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paralela. Mas até o código penal não constituía um obstáculo, se se verificasse que o
colectivo tinha sido forçado pelas relações económicas reais a agir apenas segundo os
seus interesses de grupo.
A destruição do colectivismo
Tais relações impediam o desenvolvimento do espírito colectivista no conjunto da
sociedade. A vontade de alguns colectivos de trabalharem para o interesse de toda a
sociedade colocava-os numa situação desvantajosa em relação aos outros. Podia
acontecer que uma empresa, tendo cumprido os compromissos acordados e os
objectivos de produção em toda a gama de produtos, fosse considerada como não
cumpridora do plano, apenas porque a sua produção ficara abaixo do valor
estipulado, o que se reflectia nos salários dos trabalhadores. Contudo, bastava
cumprir o plano de produção em valor e lucros para que todos os indicadores
subissem, mesmo que os contratantes não recebessem a produção de que
precisavam.28
Também o desejo de trabalhar com todo o empenho, de utilizar todas as
potencialidades para aumentar a produção, etc., podia resultar em grandes
dissabores para o colectivo, uma vez que, segundo a prática instalada naquela época,
os objectivos eram fixados «a partir do nível atingido», por isso, explorando-se todas
as potencialidades, corria-se o risco de não se conseguir cumprir os objectivos mais
elevados do próximo plano. Aqueles que não utilizavam plenamente as
potencialidades ao seu dispor ficavam em melhor situação. Neste quadro, os
colectivos evitavam esgotar as capacidades de produção de modo a poderem dar
resposta ao plano que lhes era proposto. A situação era similar em todos os ramos da
economia. Por exemplo, N. Kuznetsov, director do sovkhoz «40 anos do
Cazaquistão», do oblast de Tselinograd, afirmou que «o sistema existente de
incentivos conduzia não à descoberta de novas potencialidades, mas à sua
ocultação».29
Pode-se concluir que a direcção do país fez tudo para destruir a proclamada, pela
ideologia oficial, unidade da sociedade, unidade de interesses de todos os
trabalhadores, e habituar os colectivos a pensar apenas nos seus próprios interesses,
sem olhar aos interesses dos outros colectivos. Praticando a contabilização dupla e
enganando a sociedade, aumentando a incorporação material da produção, as
empresas contavam com a atitude tolerante do Estado, uma vez que este recebia uma
parte dos lucros, os quais na realidade constituíam uma parte dos custos de
produção.
As relações económicas realmente existentes mostram que a propriedade,
oficialmente considerada de todo o povo, era de facto utilizada no interesse de
colectivos isolados, que estavam em contradição com os interesses da sociedade. Por
isso a propriedade não podia considerar-se verdadeiramente como pertença de todo o
28 Idem, ibidem, p. 387.
29 Citado em A.P. Tiurina, Социально-экономическое развитие советской деревни 1965-1980, (O
Desenvolvimento Socioeconómico dos Campos Soviéticos), Moscovo, 1982. p. 39.
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povo. Também não se pode designá-la como de grupo, porquanto o colectivo não
podia dispor dela em plenitude e, agindo no quadro do plano, também servia em
certo grau o interesse geral da sociedade. Conclui-se que a «propriedade
estatal», no período em análise, não era nem de todo o povo, nem de
grupo, mas combinava em si traços das duas formas. E como estas formas de
propriedade estão ligadas a dois tipos distintos de relações sociais, os seus traços
misturavam-se na vida real. Contudo, a tendência de desenvolvimento levou a que os
traços da propriedade de grupo começassem a prevalecer. Um número cada vez
maior de indicadores do plano, em vez de vir de cima, passou a ser definido pelas
próprias empresas segundo os seus interesses; a correcção do plano, e portanto o seu
incumprimento, tornou-se uma prática corrente; aumentaram os atrasos nos
projectos de construção. Estes fenómenos atestam que os colectivos agiam cada vez
mais nos seus próprios interesses, considerando cada vez menos o interesse geral da
sociedade.
A alteração da forma de propriedade
A alteração da forma de propriedade dos meios de produção, verificada entre os anos
60 e 80, era vista pelos investigadores da época como uma aproximação da
propriedade kolkhoziana à propriedade de todo o povo. Na realidade produziu-se um
processo inverso. Vejamos os argumentos dos partidários do primeiro ponto de vista.
M.N. Rutkevitch afirmou que a aproximação das formas de propriedade foi
propiciada pelos seguintes momentos:30
1) Aumento da dimensão dos kolkhozes e atribuição dos meios técnicos. (Cabe
replicar que o aumento da dimensão não influencia a forma de propriedade,
enquanto a transmissão dos meios técnicos aos kolkhozes apenas conduziu ao
alargamento da propriedade cooperativa-kolkhoziana e não à sua aproximação à
propriedade estatal. Assim, estes factos não podem provar uma aproximação das
formas de propriedade).
2) A integração dos kolkhozes juntamente com empresas estatais em agro-cidades. (A
associação de kolkhozes a empresas estatais contribuía naturalmente para a
aproximação das formas de propriedade, no que respeita ao seu funcionamento no
quadro do mecanismo económico existente, e pode ser vista como um dos aspectos
da aproximação).
3) A mecanização do trabalho, elevação da qualificação dos kolkhozianos. (Este
argumento relaciona-se com a aproximação do carácter do trabalho e não das
formas de propriedade. A alteração do carácter do trabalho verificou-se
efectivamente em toda a economia nacional e permitiu a aproximação de
diferentes grupos de trabalhadores, o que é justamente assinalado pelo autor, mas
daqui não decorre qualquer aproximação nas formas de propriedade).
30 M. N. Rutkevitch Становление социальной однородности (O Estabelecimento da
Homogeneidade Social), Moscovo, 1982, pp. 90-91, 113-116.
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4) A aproximação das formas de remuneração do trabalho com a introdução nos
kolkhozes do sistema de salários garantidos e do mesmo tipo de segurança social
que existia no sector estatal. (Esta afirmação merece total acordo).31
A estes argumentos, A.R. Turina acrescenta o seguinte:
1) Cerca de um terço dos fundos de produção e capitais circulantes dos kolkhozes
provinham de créditos concedidos pelos bancos estatais, constituindo na sua
essência propriedade de todo o povo.32 (Pode-se objectar que o recurso a
empréstimos traduz mais uma interacção do que uma aproximação das diferentes
formas de propriedade).
2) Parte dos kolkhozes mais débeis (cerca de 26 mil) foram concentrados em oito mil
sovkhozes entre 1954 e 1974.33 (Neste caso trata-se não de um aproximação das
formas de propriedade, mas de uma pura decisão voluntariosa que alterou as
formas de propriedade).
Deste modo, os argumentos referidos não podem ser considerados como prova da
aproximação das duas formas de propriedades, uma vez que não tocam os principais
aspectos deste processo. Os principais aspectos desta aproximação foram os
seguintes:
a) A propriedade cooperativa-kolkhoziana adquiriu um carácter social com a sua
integração no sistema de relações económicas planificadas, o que é assinalado na
literatura soviética. A uniformidade dos dois tipos de propriedade «manifesta-se na
organização planificada da produção social, na unidade de objectivos, na entrega
da terra aos kolkhozes para utilização gratuita e sem prazo, na garantia da
circulação planificada de recursos materiais e financeiros entre os sectores estatal e
kolkhoziano de produção».34 A integração do trabalho dos kolkhozianos no trabalho
de toda a sociedade, segundo um plano único, transformou-o em trabalho
directamente social, não se distinguindo neste aspecto do trabalho dos operários.
Sem a sua integração no processo de trabalho organizado de forma planificada, a
actividade dos kolkhozianos teria um carácter completamente diferente e a
propriedade dos meios de produção seria de grupo. A propriedade dos kolkhozes, tal
como a propriedade das empresas estatais, começou a transformar-se em
propriedade de grupo só a partir dos anos 60, quando a planificação se tornou cada
vez menos rigorosa, facilitando-se cada vez mais a alteração dos planos de acordo
com os interesses de cada colectivo.
31 M. N. Rutkevitch Становление социальной однородности (O Estabelecimento da
Homogeneidade Social), Moscovo, 1983, pp. 152-153.
32 A.P. Tiurina , op. cit, p. 137.
33 Idem, ibidem, p. 144.
34 Общественный характер производства и социалистическая собственность (O Carácter
Social da Produção e a Propriedade Socialista), Moscovo, 1985, p. 227. Ver igualmente: N.A.
Moisseienko, M.V. Popov, Управление социалистической экономикой (политэкономический
аспект) (A Administração da Economia Socialista – O Aspecto Político-Económico), Leningrado,
1981, pp. 14-15.
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b) A aproximação das formas de propriedade produziu-se não por via de uma maior
socialização das cooperativas-kolkhozes, mas por via da aproximação da propriedade
social à propriedade de grupo. Estas formas de propriedade tornaram-se
efectivamente semelhantes através do desenvolvimento dos traços de grupo na
propriedade social, o que serviu de base à aproximação dos operários e empregados,
por um lado, e dos kolkhozianos, por outro. Esta aproximação fez com que a divisão
tradicional dos grupos sociais perdesse importância, em particular no que respeita às
relações distributivas, ganhando relevo de primeiro plano a pertença a um
determinado colectivo.
A aproximação da propriedade social à propriedade de grupo, a partir dos anos 60,
foi acompanhada pelo desenvolvimento das relações monetário-mercantis. A
separação dos produtores, a prevalência dos interesses de grupo sobre os interesses
da sociedade e a orientação para a obtenção de lucro num elo separado da economia
nacional alteraram a forma de distribuição do trabalho entre as diferentes
actividades. Esta distribuição passou a processar-se não em correspondência com um
plano, reflectindo as necessidades sociais, mas consoante os interesses de grupo.
A fragmentação do complexo da economia nacional e a busca do lucro alteraram o
carácter das relações sociais. Aqui teve um papel decisivo não a propriedade formal
dos meios de produção, mas a separação dos produtores. Enquanto produtores
separados, o seu trabalho deixou de ser directamente social e transformou-se em
trabalho privado. A sua independência, embora não total, apresentava elementos
evidentes. Além disso, os elementos de independência aumentaram constantemente
com as mudanças na planificação e com o número crescente de violações do plano. O
desenvolvimento contínuo das relações mercantis de produção conduziu à mudança
do regime social, uma vez que uma economia desenvolvida de mercado é uma
economia capitalista.
No nosso país procurou-se combinar as relações monetário-mercantis com as
relações da economia planificada, ignorando-se o facto de que estas formas de
distribuição dos trabalhadores pelos diversos sectores de actividade pertencem a
diferentes tipos de relações de produção, sendo que se trata de relações de produção
directamente opostas entre si. Por conseguinte, a sua combinação é indicadora da
existência de dois tipos de relações de produção na sociedade real, o que é possível
apenas no decurso de um curto período de transição de um tipo de sociedade para
outro.
O segundo aspecto da separação dos colectivos, e do apagamento das diferenças
sociais anteriormente existentes, são as relações distributivas do resultado da
produção. A distribuição efectua-se ou segundo o trabalho ou segundo o lucro, o que
mais uma vez está ligado a diferentes tipos de sociedade. Na prática, no período em
análise, assistiu-se a uma combinação destes dois princípios. As remunerações que os
trabalhadores recebiam podiam resultar de vários componentes: o salário base,
prémios e outras remunerações. Isto acontecia sobretudo na esfera da produção
material. O montante das remunerações, e consequentemente o bem-estar material
do trabalhador, dependia mais da sua pertença a um determinado colectivo do que
propriamente à qualidade e quantidade do seu trabalho. Em particular, o montante
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da remuneração dependia da importância da empresa. «A nossa economia chegou a
um ponto em que qualquer trabalhador de uma empresa do sector da Defesa, por
trabalho igual, recebe uma remuneração monetária significativamente superior à
de um operário do sector dos bens de consumo».35 A variação do salário consoante os
ramos e colectivos comprova a não observação do mais importante princípio
distributivo no socialismo: a distribuição segundo o trabalho.
Com a reforma de 1979 rompeu-se a relação que existia entre o fundo de salários e os
gastos reais de trabalho. De 1931 até 1979, o fundo de salários era calculado com base
no número de trabalhadores e no salário médio, e o seu montante era fixado
centralmente. A Resolução do CC do PCUS e do Conselho de Ministros, de 12 de
Julho de 1979, «Sobre o melhoramento da planificação e o reforço da acção do
mecanismo económico na elevação da eficiência da produção e na qualidade do
trabalho», introduziu a norma de cálculo do salário por cada rublo produzido. Desta
forma, o fundo de salários passou a depender não da intensidade da mão-de-obra
incorporada nos artigos produzidos, mas do seu preço. Isto fazia com que a alteração
do preço se reflectisse no fundo de salários, por conseguinte, o colectivo tinha
interesse em que o preço fosse mais elevado. «Segundo as normas do plano, o
aumento do volume de produção, apenas à custa de uma maior incorporação de
material nos artigos ou da violação da gama planificada de produtos, eleva
automaticamente o fundo de salários».36 Naturalmente que, numa tal situação, o
colectivo fazia valer os seus interesses, independentemente de contrariarem os
interesses dos membros da sociedade no seu conjunto, enquanto consumidores da
produção de uma dada empresa.
As particularidades das relações distributivas geraram desmotivação nos
trabalhadores. Isto estava ligado com a prática de revisão anual das normas de
trabalho, efectuada em muitas produções sem ter por base a mudança de tecnologia.
Por exemplo, nas empresas de construção de máquinas do oblast de Irkutsk, 65 a 80
por cento do aumento das normas de trabalho não corresponderam ao
aperfeiçoamento da tecnologia e incidiram principalmente sobre as brigadas mais
empenhadas.37 Diferentes critérios na revisão das normas resultavam em diferentes
níveis de intensificação do trabalho. Por isso, os trabalhadores perderam interesse em
desenvolver as potencialidades da produção. Além disso, as revisões
infundamentadas das normas socavavam o princípio da distribuição segundo o
trabalho.
Salários e produtividade
35 N.M. Rimachevskaia, A.A. Rimachevski Равенство или справедливость? (Igualdade ou
Justiça?), Moscovo, 1991, p. 48.
36 A. Steklova, A. Goldman, Нормативное планирование фонда заработной платы.
Преимущества. Проблемы (Os Normativos da Planificação do Fundo de Salários: Vantagens e
Problemas)/ Sostialistitcheski Trud, 1983, n.º 3, p. 56.
37 V.V. Bronstein Бригада в зеркале социологии (A Brigada no Espelho da Sociologia), Moscovo,
1988, p. 48.
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O montante do salário era influenciado pelo aumento da produção expresso
monetariamente (o aumento da produção na sua expressão natural tinha uma muito
menor influência). Daí que, «no sector da construção de máquinas, o aumento
fictício da produção representava no mínimo cinco por cento por ano. Um tal
crescimento pressupunha um aumento do fundo de salários em três por cento, o que
era feito».38 Temos como consequência que o aumento dos salários dependia do
aumento dos preços e do lucro: quanto maior o resultado monetário, maior o salário.
Uma situação análoga criou-se no sector do abastecimento com a criação de
entidades intermediárias.39 Também neste caso, o salário dependia de trabalho
fictício, que não correspondia de forma alguma à distribuição segundo o trabalho.
O crescimento dos salários superava o crescimento da produtividade do trabalho (na
sua expressão natural). Os economistas assinalam este facto como um dos factores
que contribuíram para o desenvolvimento do mercado negro.
Do ponto de vista do tipo de relações de produção, deve-se referir a perda da relação
entre o montante do salário e o contributo laboral do trabalhador e, inversamente, a
ligação do salário com o aumento dos lucros e do volume monetário da produção. O
desligamento do montante da remuneração da quantidade e qualidade do trabalho é
indicador do enfraquecimento das características socialistas na sociedade. A conexão
do salário com o volume monetário da produção gerou desinteresse dos colectivos
laborais em aumentar a produtividade do trabalho (na sua expressão natural), o que
significou uma travagem no desenvolvimento das forças produtivas.
A relação entre a remuneração do trabalho e a pertença a um determinado colectivo
manifestava-se também no papel que desempenhavam os prémios. Do fundo de
salários eram pagos entre 80 e 85 por cento dos montantes efectivamente auferidos
pelos trabalhadores.40 Por conseguinte, 15 a 20 por cento dos vencimentos
provinham de outros fundos, designadamente, cerca de dez por cento do fundo de
incentivos materiais, o qual era constituído a partir do lucro obtido.
A razão da existência de tais relações distributivas residia no facto de dependerem
dos restantes componentes das relações de produção. Se as últimas se aproximavam
das relações de produção de grupo, então também as relações distributivas teriam de
lhes corresponder, o que significa que o isolamento da empresa se manifesta na
distribuição.
A ligação entre o trabalhador e o colectivo realiza-se através das relações
distributivas, a pessoa assume como seu o interesse do colectivo, uma vez que do
êxito do seu colectivo depende os prémios que recebe, o alojamento, etc. O êxito dos
restantes colectivos não influenciava em nada os rendimentos de um trabalhador, por
isso, do ponto de vista material, aqueles eram-lhe indiferentes. A ligação entre cada
empresa era demasiado fraca para que o êxito de um ramo ou da economia no seu
38 V. Seliunin, G. Khanin, Лукавая цифра (Um número astucioso), Novi Mir, 1987, n.º 2, p. 187.
39 Idem, ibidem.
40 Z.P. Korovina, План, технический прогресс, стимулы (Plano, Progresso Técnico, Incentivos),
Moscovo, 1986, p. 216.
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conjunto exercesse uma influência assinalável na situação material dos membros de
um determinado colectivo. É precisamente esta situação que distingue tão
radicalmente os anos 60-80 do período precedente, entre o final dos anos 40 e o
início dos anos 50, quando toda a população do país estava interessada no êxito de
qualquer empresa, porquanto isso se reflectia directamente na sua situação material
através da redução de preços.
No limiar dos anos 60 ocorreu uma mudança radical nas relações entre os colectivos,
que se reflectiu na situação de cada trabalhador por via das relações distributivas.
Esse sistema de relações distributivas estimulou igualmente o desenvolvimento de
certas características nos trabalhadores. Passaram a empenhar-se menos no trabalho,
de modo a suportarem o aumento regular das normas. Tinham interesse em que o
plano fosse fácil de cumprir e que a produção da sua empresa fosse lucrativa, uma vez
que isso lhe garantia um salário maior e prémios. Deixaram de sentir-se como
representantes da classe operária ou dos trabalhadores em geral, mas apenas como
membro do colectivo de uma dada empresa, dado que eficiência do trabalho de
outros colectivos não os afectava.
As ligações da economia paralela
A economia paralela desempenhou um importante papel na alteração das relações de
produção no último período de existência da URSS. Ultimamente, o estudo da
economia paralela tem sido objecto de grande atenção por parte dos investigadores,
muitos dos quais consideram que foi precisamente a partir dos anos 60 que começou
o seu crescimento. Por exemplo, A.A. Serguéiev afirma: «A economia paralela
intensificou-se no nosso país há cerca de 30 anos».41 A mesma posição é defendida
por A. Gurov,42 V.I. Sigov e A.A. Smirnov,43 e A.M. Eremine.44
A economia paralela é um fenómeno característico da sociedade capitalista
contemporânea. I.N. Vavenko e I.A. Kuzine consideram que a economia paralela
existe em qualquer sociedade onde existe propriedade privada.45 Mas neste caso não
há diferença entre os tipos de relações sociais que se formam na base da economia
legal e na paralela, a sociedade é uniforme. Na sociedade soviética, porém, criou-se
uma situação diferente, em que as relações sociais dominantes não eram capitalistas,
mas apenas se aproximavam a estas.
41 A.A. Serguéiev, Пир состояться не должен! / Альтернатива: выбор пути. Перестройка
управления и горизонты рынка. (O Festim Não Pode ter Lugar!) in colectânea Alternativa:
Escolher o Caminho. A Reorganização da Administração e os Horizontes do Mercado), Moscovo,
1990, p. 63.
42 A.I. Gurov, Организованная преступность в СССР./ Погружение в трясину (A
Criminalidade Organizada na URSS, Um mergulho no Pântano), Moscovo, 1991, p. 177.
43 V.I. Sigov e A.A. Smirnov, Теневая экономика (A Economia Paralela), São Petersburgo, 1999, p.
37, ver também pp. 40-42.
44 A.M. Eremine, В дебрях реставрации капитализма (от перестройки к деградации
экономики) (No Labirinto da Restauração do Capitalismo (Da Perestroika à Degradação da
Economia), Izm, n.º 2 (13), 1997, p. 37.
45 I.N. Vavenko e I.A. Kuzine, Теневая экономика и государство (A Economia Paralela e o
Estado), Moscovo, 2002, p. 6.
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O desenvolvimento da economia paralela, capitalista na sua essência, provocou
uma alteração nas relações sociais no país. A par da propriedade que combinava
traços da propriedade de grupo e da propriedade social, ganhou um peso crescente a
propriedade privada. Em conformidade alteraram-se as restantes componentes das
relações de produção, desenvolveram-se as relações monetário-mercantis e a
distribuição ligada ao emprego na economia paralela. Na maior parte do «mercado
negro», a exploração efectua-se sobretudo à custa de trocas desiguais. Surge assim
um grupo social novo, que garante a sua prosperidade, em parte significativa ou
totalmente, por via da apropriação do trabalho de outras pessoas. De igual modo
formam-se grupos de grandes e pequenos especuladores, que constituem uma
camada influente na sociedade através da sua fusão, por via da corrupção, com o
aparelho administrativo. O desenvolvimento da corrupção foi também propiciado
pelas relações económicas dominantes no país. Não se podia obter um plano
vantajoso para a empresa ou conseguir a sua correcção sem a ajuda de funcionários
que estavam longe de agir desinteressadamente. Por esta via, as relações da economia
clandestina penetraram no aparelho de Estado.46
A conexão entre as relações económicas criminais e oficiais fazia-se de várias formas.
Uma delas era o registo adicional, que se tornou comum a partir do final dos anos
50.47 Os registos adicionais permitiam cumprir e ultrapassar artificialmente o plano,
mediante a venda de materiais excedentes. Por exemplo, em 1977, os kolkhozes e
sovkhozes do oblast de Tiumen venderam 637 toneladas de diesel e 2830 toneladas
de gasolina.48 Este caso revela o mecanismo que permitia o desenvolvimento da
economia paralela na base da economia legal. E nestas condições, em que uma
empresa podia obter lucros através do «consumo» adicional de materiais, tornava-se
vantajoso aumentar a sua quantidade não só de facto em reserva, como até de forma
fictícia. Estes materiais foram a base para o desenvolvimento do mercado
clandestino. A economia oficial e a ilegal «abasteciam-se» mutuamente, o que
acelerou o processo de formação de capitais, e ao mesmo tempo o processo de
estratificação da sociedade. Na prática as relações económicas dominantes
favoreciam o crescimento da economia criminosa, isto é, eram o meio nutriente para
o desenvolvimento da nova classe de proprietários.
A origem criminal dos capitais deixou a sua marca nas reformas realizadas no país no
final dos anos 80, cujo primeiro passo, segundo constatam os especialistas, foi o
branqueamento dos capitais clandestinos, que depois puderam participar nas
privatizações e apropriarem-se «legalmente» dos sectores produtivos mais lucrativos.
O sistema de relações de produção criado entre 1960 e 1980 encerrava contradições
tanto dentro da sua forma dominante, que resultou da transição da propriedade
social para a propriedade de grupo, como entre esta propriedade e a propriedade
privada dos especuladores da economia clandestina.
46 V.M. Essipov, Теневая экономика (A Economia Clandestina), Мoscovo, 1997, p. 17.
47 D.V. Valovoi, op. cit. p. 256.
48 M.V. Slavkina Триумф и трагедия: Развитие нефтегазового комплекса СССР (Triunfo e
Tragédia: O Desenvolvimento do Complexo Gasopetrolífero), Moscovo, 2002, p. 176.
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Na União Soviética, o processo de transformação da sociedade baseada numa
propriedade próxima à propriedade de grupo em sociedade capitalista decorreu
durante um longo período de tempo (cerca de 30 anos), devido a um conjunto de
razões:
1) A propriedade de grupo não existia no nosso país na sua forma pura;
2) A economia existente estava suficientemente desenvolvida e gozava de uma
significativa «reserva de estabilidade»;
3) A venda de petróleo permitiu ao Estado compensar durante um longo período a
gestão ineficaz da economia.49
***
Pode-se tirar a seguinte conclusão. As relações económicas reais criadas neste
período resultaram da propriedade, que oficialmente era declarada como de todo o
povo, mas na prática tinha um carácter duplo, combinando traços da propriedade de
grupo e da propriedade social. Na realidade, a propriedade era utilizada, antes de
mais, no interesse dos respectivos colectivos, que entraram em contradição com os
interesses da sociedade. Não se pode chamar-lhe propriedade de grupo, uma vez que
o colectivo não podia dispor dela plenamente e, agindo no quadro do plano, num
certo grau, perseguia também os interesses de todo o povo.
As duas formas de propriedade (estatal e cooperativa-kolkhoziana) que existiam na
nossa sociedade no período anterior e se distinguiam entre si pelo nível de
socialização dos meios de produção, aproximaram-se efectivamente, mas não no
sentido da aproximação da propriedade cooperativa-kolkhoziana à propriedade
estatal, pelo contrário, no sentido da aproximação da última à primeira. A
propriedade estatal começou a ser utilizada, antes de mais, no interesse de cada
colectivo. E a tendência de desenvolvimento permitiu que os traços da propriedade de
grupo começassem gradualmente a prevalecer.
O carácter híbrido da propriedade decorreu da mudança em todos os aspectos das
relações de produção (troca e distribuição), nas quais coexistiam traços de dois tipos
de relações. Na distribuição dos trabalhadores e dos meios de produção entre os
diferentes sectores misturavam-se as relações planificadas com as relações
monetário-mercantis. A distribuição do produto realizava-se segundo o trabalho e de
acordo com o lucro obtido. Violou-se a lei do desenvolvimento harmonioso
(planificado), característico do socialismo, que foi substituída pela lei do valor,
própria à sociedade pré-socialista. Uma tal situação conduziu à destruição dos
princípios colectivistas da sociedade e gerou o egoísmo de grupo. Acresce que certos
49 Como refere a investigação de M.V. Slavkina, entre 1976 e 1985, as receitas da venda de petróleo
representaram pelo menos 107 mil milhões de dólares. Estes recursos eram utilizados para importar
cereais, frutas e vegetais, artigos de consumo (principalmente vestuário e calçado). Apenas uma parte
insignificante era destinada à aquisição de equipamentos. Na compra de material informático gastouse
menos de 0,5 por cento daquelas receitas. Ver M.V. Slavkina, op. cit., pp. 126, 133-144, 155.
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grupos se apropriavam parcialmente do trabalho de outros, por isso deixou de existir
uma comunidade unida de trabalhadores.
O colectivo de produção deixou de ser apenas o elemento de base da estrutura
económica para, em consequência da crescente separação, se tornar cada vez mais
num importante elemento da estrutura social da sociedade. Isto deveu-se à mudança
nas relações distributivas, nas quais a entidade que tutelava a empresa tinha um
papel importante na determinação da remuneração do trabalho e na atribuição de
incentivos suplementares aos trabalhadores, consoante a importância da produção e
o lucro obtido.
A propriedade, próxima da propriedade de grupo, bem como as relações monetário mercantis
propiciaram o desenvolvimento da economia paralela, o que, por sua vez,
aproximou a sociedade soviética à sociedade capitalista e serviu de base ao processo
de reconstituição das classes. A sociedade começou a dividir-se: de um lado cresciam
e reforçavam as suas posições os grupos de especuladores da economia paralela,
ligados à cúpula de funcionários do Estado e do partido. Do outro estava a massa de
trabalhadores, cuja situação material era muito semelhante por força do nivelamento
das remunerações do trabalho. Poderiam representar um poderoso grupo se não
estivessem divididos em colectivos separados com interesses diferentes. A situação
destes colectivos não era uniforme. Na realidade constituíam uma espécie de
hierarquia, ainda que com contornos pouco definidos, onde o lugar que cada colectivo
ocupava era determinado pela capacidade de se apropriar de trabalho suplementar de
outros membros da sociedade. Acresce que as diferenças entre estes dois grupos
aumentaram constantemente. Todos estes processos conduziram ao desenvolvimento
da burguesia e à restauração do capitalismo.
terça-feira, 22 de julho de 2014
sábado, 19 de julho de 2014
Uma perspectiva sobre o célebre livro "Da Alvorada à Decadência"
Best-seller nos EUA, "Da Alvorada à Decadência" traça um quadro parcial e conservador dos últimos 500 anos
O tempo morto da história
Marco Antonio Villa
especial para a Folha
especial para a Folha
Impressiona qualquer leitor a proposta de um livro que trate de 500 anos da cultura ocidental. Esse é o desafio enfrentado pelo historiador americano Jacques Barzun em "Da Alvorada à Decadência - A História da Cultura Ocidental de 1500 aos Nossos Dias". O livro é dividido em quatro partes e tem 928 páginas. Pretende dar um apanhado geral da cultura e, segundo a editora, fez parte da lista dos livros mais vendidos do "New York Times", o que é lembrado ao leitor na própria capa do livro. Logo na apresentação, o autor faz uma afirmação que causa perplexidade: diz que procurou "escrever como se estivesse falando, com apenas um toque de exibicionismo, aqui e ali, para mostrar que entendo e estou por dentro dos gostos modernos". O livro tem um enorme conjunto de informações nem sempre devidamente concatenadas e algumas vezes escolhidas a esmo. Logo na primeira linha, o autor afirma que a Reforma protestante dá início à era moderna, numa primeira manifestação de eurocentrismo, ignorando que os efeitos da conquista da América, em 1492, são muito mais relevantes. Porém, os capítulos que tratam dos séculos 16 e 17 têm lá seu interesse, mas, quando chega ao século 19, o autor comete uma série de equívocos que acabam prejudicando seriamente o livro.
"Atrativos sexuais"
Um deles é o desconhecimento do marxismo e da história do movimento operário. Barzun diz que o livro "A Guerra Civil na França", de Karl Marx, "era uma peça de propaganda deliberadamente mentirosa, à medida que os comunardos não eram nem proletários nem comunistas". De acordo com o autor, os comunardos realizaram uma matança indiscriminada quando tomaram Paris, em 1871, de tal forma que a retomada da cidade "só poderia terminar num selvático e mútuo banho de sangue". Convenhamos, as duas afirmações são absolutamente incorretas e a segunda justifica o massacre de 20 mil comunardos. Ao tratar do período entreguerras, afirma estranhamente que no Ocidente "Marx foi resumido e popularizado de novo, formaram-se "células" do Partido Comunista sob controle de gerentes treinados em Moscou, e os recrutas tomavam gosto pela disciplina com a ajuda de atrativos mentais ou sexuais, conforme as preferências". A frase sem sentido não foi precedida de nenhuma análise da Revolução Russa e de suas repercussões no mundo da cultura. Isso não mereceu nem sequer um parágrafo por parte de Barzun. Excetuando o século 16, quando Portugal mereceu uma página e a Espanha, um capítulo, a Península Ibérica vai desaparecendo do livro, chegando ao ponto de o autor comentar os atentados a chefes de Estado entre o final do século 19 e início do século 20, na Europa e Estados Unidos (Said Carnot, McKinley, o rei da Itália, o arquiduque Francisco Fernando), e não mencionar que em Portugal, em 1908, o rei d. Carlos foi assassinado por dois republicanos e que, em 1910, o presidente Sidônio Pais foi morto por um ex-sargento. O apagamento da cultura de alguns países da Europa Ocidental, especialmente no século 20, é tão acentuado que à cultura italiana é reservado somente um lugar para Marinetti, com míseras duas linhas. Antonio Gramsci (1891-1937), por exemplo, é ignorado. O autor centra a sua análise na Inglaterra e na França, especialmente nesta última. E, por incrível que pareça, defende o fascista e colaboracionista Pierre Laval, que foi fuzilado em 1945, considerando-o "um patriota num posto de duplo perigo". Laval foi um dos principais líderes da França de Vichy, que não só colaborou com os nazistas, desde 1940, mas também assassinou milhares de judeus. Os Estados Unidos mereceram dezenas e dezenas de páginas. A superestimação da sua importância chega ao ponto de considerar que, com a abolição da escravidão (1865), no final da Guerra Civil, a "paz e reconstrução puseram fim à escravatura na sociedade ocidental" -lembre-se o leitor que a escravidão seria extinta no Brasil mais de 20 anos depois. Ou ainda quando afirma que o americano Henri George, autor de "Progresso e Pobreza", teve uma influência mundial igual ou superior à de Marx! Como exemplo, diz que George inspirou uma reforma agrária na Áustria-Hungria. Mas, estranhamente, não faz nenhuma menção ao cinema americano, este sim um instrumento fundamental na conquista dos corações e mentes de todo o mundo.
Cultura ignorada
O Brasil não recebeu nem uma linha sequer, o que leva o leitor a algumas indagações: o Brasil faz parte do Ocidente? Tem cultura? Ou não tem cultura nem faz parte do Ocidente? Mas não é só o Brasil: toda a cultura da América Latina é absolutamente ignorada, como se fosse um povo sem história. A única menção a Jorge Luis Borges e Pablo Neruda é que seriam "vorazes consumidores de histórias de detetives". Sobre Diego Rivera, Gabriel García Marquez, Machado de Assis, Domingo Sarmiento, Sor Juana de la Cruz, Fernando Botero, Alejo Carpentier, Euclides da Cunha, Octavio Paz, entre dezenas de nomes, paira o silêncio. Paradoxalmente, reservou à escritora inglesa [de policiais" Dorothy Sayers cinco páginas.
Depois de mais de 900 páginas o leitor não sabe os significados, para Barzun, de cultura, Ocidente, alvorada e decadência (até se insinua uma simpatia em relação a Spengler [historiador alemão (1880-1936), autor de "A Decadência do Ocidente""), entre tantos outros conceitos, mas fica ciente do seu conservadorismo político.
Além disso, é evidente que a temporalidade como critério principal para estudar a cultura é um equívoco. O movimento da cultura não segue a linha cronológica do tempo nem pode ser apresado em décadas ou séculos. Resta mais uma pergunta: traduzir um livro de quase mil páginas para quê? Simplesmente porque fez parte da lista dos mais vendidos do "New York Times"?
"Atrativos sexuais"
Um deles é o desconhecimento do marxismo e da história do movimento operário. Barzun diz que o livro "A Guerra Civil na França", de Karl Marx, "era uma peça de propaganda deliberadamente mentirosa, à medida que os comunardos não eram nem proletários nem comunistas". De acordo com o autor, os comunardos realizaram uma matança indiscriminada quando tomaram Paris, em 1871, de tal forma que a retomada da cidade "só poderia terminar num selvático e mútuo banho de sangue". Convenhamos, as duas afirmações são absolutamente incorretas e a segunda justifica o massacre de 20 mil comunardos. Ao tratar do período entreguerras, afirma estranhamente que no Ocidente "Marx foi resumido e popularizado de novo, formaram-se "células" do Partido Comunista sob controle de gerentes treinados em Moscou, e os recrutas tomavam gosto pela disciplina com a ajuda de atrativos mentais ou sexuais, conforme as preferências". A frase sem sentido não foi precedida de nenhuma análise da Revolução Russa e de suas repercussões no mundo da cultura. Isso não mereceu nem sequer um parágrafo por parte de Barzun. Excetuando o século 16, quando Portugal mereceu uma página e a Espanha, um capítulo, a Península Ibérica vai desaparecendo do livro, chegando ao ponto de o autor comentar os atentados a chefes de Estado entre o final do século 19 e início do século 20, na Europa e Estados Unidos (Said Carnot, McKinley, o rei da Itália, o arquiduque Francisco Fernando), e não mencionar que em Portugal, em 1908, o rei d. Carlos foi assassinado por dois republicanos e que, em 1910, o presidente Sidônio Pais foi morto por um ex-sargento. O apagamento da cultura de alguns países da Europa Ocidental, especialmente no século 20, é tão acentuado que à cultura italiana é reservado somente um lugar para Marinetti, com míseras duas linhas. Antonio Gramsci (1891-1937), por exemplo, é ignorado. O autor centra a sua análise na Inglaterra e na França, especialmente nesta última. E, por incrível que pareça, defende o fascista e colaboracionista Pierre Laval, que foi fuzilado em 1945, considerando-o "um patriota num posto de duplo perigo". Laval foi um dos principais líderes da França de Vichy, que não só colaborou com os nazistas, desde 1940, mas também assassinou milhares de judeus. Os Estados Unidos mereceram dezenas e dezenas de páginas. A superestimação da sua importância chega ao ponto de considerar que, com a abolição da escravidão (1865), no final da Guerra Civil, a "paz e reconstrução puseram fim à escravatura na sociedade ocidental" -lembre-se o leitor que a escravidão seria extinta no Brasil mais de 20 anos depois. Ou ainda quando afirma que o americano Henri George, autor de "Progresso e Pobreza", teve uma influência mundial igual ou superior à de Marx! Como exemplo, diz que George inspirou uma reforma agrária na Áustria-Hungria. Mas, estranhamente, não faz nenhuma menção ao cinema americano, este sim um instrumento fundamental na conquista dos corações e mentes de todo o mundo.
Cultura ignorada
O Brasil não recebeu nem uma linha sequer, o que leva o leitor a algumas indagações: o Brasil faz parte do Ocidente? Tem cultura? Ou não tem cultura nem faz parte do Ocidente? Mas não é só o Brasil: toda a cultura da América Latina é absolutamente ignorada, como se fosse um povo sem história. A única menção a Jorge Luis Borges e Pablo Neruda é que seriam "vorazes consumidores de histórias de detetives". Sobre Diego Rivera, Gabriel García Marquez, Machado de Assis, Domingo Sarmiento, Sor Juana de la Cruz, Fernando Botero, Alejo Carpentier, Euclides da Cunha, Octavio Paz, entre dezenas de nomes, paira o silêncio. Paradoxalmente, reservou à escritora inglesa [de policiais" Dorothy Sayers cinco páginas.
Depois de mais de 900 páginas o leitor não sabe os significados, para Barzun, de cultura, Ocidente, alvorada e decadência (até se insinua uma simpatia em relação a Spengler [historiador alemão (1880-1936), autor de "A Decadência do Ocidente""), entre tantos outros conceitos, mas fica ciente do seu conservadorismo político.
Além disso, é evidente que a temporalidade como critério principal para estudar a cultura é um equívoco. O movimento da cultura não segue a linha cronológica do tempo nem pode ser apresado em décadas ou séculos. Resta mais uma pergunta: traduzir um livro de quase mil páginas para quê? Simplesmente porque fez parte da lista dos mais vendidos do "New York Times"?
Marco Antonio Villa é professor de história da Universidade Federal de São Carlos e autor de, entre outros, "Vida e Morte no Sertão - História das Secas no Nordeste nos Séculos 19 e 20" (Ática).
Da Alvorada à Decadência
928 págs., R$ 119,00 de Jacques Barzun. Trad. Álvaro Cabral. Editora Campus (r. Sete de Setembro, 111, 16º andar, CEP 20050-002, RJ, tel. 0/xx/ 21/ 3970-9300)
Existe edição da GRADIVA.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Um artigo de Michel Chossudovsky
"Vengeance Justified", o pretexto para o bombardeio de Gaza: foi o governo Netanyahu por trás dos assassinatos dos Três adolescentes israelenses?
Global Research, 13 de julho, 2014
O pretexto para bombardear e descascar Gaza foi a morte de três adolescentes israelenses supostamente mortos pelo Hamas.
'Operação Borda de Proteção Individual (OPE) dirigido contra Gaza é uma reminiscência do infame 2001 Plano Dagan intitulada "Operação Vingança Justificada" em que havia sido previsto e previsto pelos planejadores militares das FDI as mortes de civis israelenses inocentes.
As mortes são então utilizados para reunir o apoio do público israelense, bem como fornecer uma justificativa para uma operação de contra-terrorismo "legítimo" aos olhos da comunidade internacional contra os territórios palestinos ocupados.
Além disso, semelhante à lógica do Plano Dagan, o chefe da inteligência israelense (Mossad) tinha "previsto" o seqüestro dos três adolescentes. Sob o título assustadoramente presciente profecia sequestro do chefe do Mossad , Haaretz confirma que
Foram os três rapazes mortos pelo Hamas?
Imprensa israelense informa íntimo que os três adolescentes poderia ter sido executado pela Al Qaeda afiliada entidade jihadista o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL), que só acontece a ser suportado "secretamente" bem "abertamente" pelo Estado de Israel .
Sob o título grupo J ihadist leva o crédito pelas mortes dos adolescentes, o Times of Israel confirma que:
Enquanto ISIL é uma entidade afiliada Al Qaeda financiado pela Arábia Saudita e Qatar, retaliação por parte de Israel para as mortes dos adolescentes foi dirigida contra Gaza, em vez de a Arábia Saudita e os Estados do Golfo.
O papel de apoio de os EUA e Israel para a entidade afiliada Al Qaeda não se limita à esfera de operações encobertas. O Exército de Israel (IDF) está a apoiar a entidade jihadista fora das Colinas de Golã ocupados. Além disso, amplamente documentada, há forças especiais ocidentais e israelenses bem dentro das fileiras rebeldes ISIL.
Em março, um oficial militar austríaco da Força das Nações Unidas desocupação Observer (UNDOF) nos territórios ocupados Colinas de Golã ", confirmou que Israel tem fornecido apoio logístico e militar em grande escala para o [ISIL e Al Nusrah] terroristas e rebeldes em diferentes partes do Síria "
O funcionário UNDOF confirmou a existência de "uma sala de operação conjunta" entre Israel e os rebeldes da Al Qaeda que pertencem à "prestação de assistência [israelense] para os terroristas".
Esta assistência não se limita a logística:
Em fevereiro, The Jerusalem Post informou que o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu visitou o hospital do campo IDF nos Montes Golan ocupados, que foi criado para apoiar os rebeldes jihadistas que operam na Síria. O hospital foi criado para tratar feridas rebeldes da Al Qaeda.
The Jerusalem Post reconhece que o hospital está sendo usado para apoiar a insurgência jihadista. Netanyahu referiu-se ao Hospital como o lugar que "separa o bem no mundo do mal no mundo."
"O bom", de acordo com Netanyahu "é Israel", que em uma amarga ironia apoia plenamente os da Al Qaeda "combatentes da liberdade" na Síria; "O mau" refere-se ao Irã que apoia Bashar Al Assad.
Não Netanyau não negar o apoio do seu governo dos jihadistas. O IDF cúpula tacitamente reconheceu que "elementos jihad global dentro da Síria" são apoiadas por Israel:
O primeiro-ministro israelense Netanyahu aperta a mão com um terrorista Al Qaeda
É o terrorista ferido um activo de inteligência israelense? Na imagem abaixo:
Ironicamente, o mesmo grupo jihadista que é relatado para ter seqüestrado e matado os três adolescentes é suportado pelo IDF de Israel fora das Colinas de Golã ocupados.
Uma mera coincidência.
'Operação Borda de Proteção Individual (OPE) dirigido contra Gaza é uma reminiscência do infame 2001 Plano Dagan intitulada "Operação Vingança Justificada" em que havia sido previsto e previsto pelos planejadores militares das FDI as mortes de civis israelenses inocentes.
As mortes são então utilizados para reunir o apoio do público israelense, bem como fornecer uma justificativa para uma operação de contra-terrorismo "legítimo" aos olhos da comunidade internacional contra os territórios palestinos ocupados.
Artificial por trás de portas fechadas, em julho de 2001, o Plano Dagan (em homenagem a chefe do Mossad, Meir Dagan) foi marcada por seus arquitetos IDF e do Mossad "ser lançado imediatamente após a próxima vítima de alta atentados suicidas, duraria cerca de um mês e espera-se . resultar na morte de centenas de israelenses e de milhares de palestinos "(Veja Ellis Shuman," Operação Vingança Justificada ": um plano secreto para destruir a Autoridade Palestina, Inteligência Ploy trás os" atentados suicidas ", Global Research, 1 de fevereiro de 2006 )'Operação Borda de Proteção Individual (OPE) dirigido contra Gaza foi planejado com bastante antecedência do seqüestro e assassinato de três adolescentes israelenses. O primeiro-ministro Netanyahu convocou 40.000 reservistas. Na esteira dos bombardeios e bombardeios, prevê um cenário de operação terrestre major.
Além disso, semelhante à lógica do Plano Dagan, o chefe da inteligência israelense (Mossad) tinha "previsto" o seqüestro dos três adolescentes. Sob o título assustadoramente presciente profecia sequestro do chefe do Mossad , Haaretz confirma que
"Tamir Pardo chefe do Mossad tinha" delineou um cenário que era spookily [sic] semelhante ao seqüestro de três adolescentes desaparecidas na Cisjordânia "(Haaretz, Julho 13, 2014, grifo nosso)Mortes de civis israelenses são acusados o Hamas sem evidência para justificar uma ação militar contra Gaza. O objectivo final da "Operação Borda de proteção" é quebrar a base institucional da liderança do Hamas e destruir a infra-estrutura civil de Gaza, com o objectivo de, eventualmente, levar a cabo a anexação da Faixa de Gaza para Israel. A partir de 13 de julho de Israel é relatado para ter atingido 1.320 sites dentro de Gaza, resultando em 167 mortes e mais de 1.000 feridos (Mannam Notícias , Julho 13, 2014)
Foram os três rapazes mortos pelo Hamas?
Imprensa israelense informa íntimo que os três adolescentes poderia ter sido executado pela Al Qaeda afiliada entidade jihadista o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL), que só acontece a ser suportado "secretamente" bem "abertamente" pelo Estado de Israel .
Sob o título grupo J ihadist leva o crédito pelas mortes dos adolescentes, o Times of Israel confirma que:
Um novo grupo jihadista palestino prometendo lealdade ao Estado Islâmico (anteriormente conhecido como ISIL) assumiu a responsabilidade pela morte de três adolescentes israelenses no mês passado, na Cisjordânia, ... bem como outros ataques mortais recentes contra soldados e civis israelenses .....O ISIL (rebatizado o Estado Islâmico) (ver imagem) constitui a principal força de combate rebelde Al Qaeda na Síria contra o governo de Bashar Al Assad. Mais recentemente, as brigadas ISIL entraram Iraque, enfrentando as forças do governo.
As ações foram realizadas em honra de Abu Bakr al-Baghdadi, o "califa" auto-proclamado do Estado Islâmico, a reencarnação do Estado islâmico na Síria e do Levante (ISIL) declarou no mês passado, disse o comunicado. "( Tempos de Israel, 03 de julho de 2014)
Enquanto ISIL é uma entidade afiliada Al Qaeda financiado pela Arábia Saudita e Qatar, retaliação por parte de Israel para as mortes dos adolescentes foi dirigida contra Gaza, em vez de a Arábia Saudita e os Estados do Golfo.O papel de apoio de os EUA e Israel para a entidade afiliada Al Qaeda não se limita à esfera de operações encobertas. O Exército de Israel (IDF) está a apoiar a entidade jihadista fora das Colinas de Golã ocupados. Além disso, amplamente documentada, há forças especiais ocidentais e israelenses bem dentro das fileiras rebeldes ISIL.
Em março, um oficial militar austríaco da Força das Nações Unidas desocupação Observer (UNDOF) nos territórios ocupados Colinas de Golã ", confirmou que Israel tem fornecido apoio logístico e militar em grande escala para o [ISIL e Al Nusrah] terroristas e rebeldes em diferentes partes do Síria "
O funcionário UNDOF confirmou a existência de "uma sala de operação conjunta" entre Israel e os rebeldes da Al Qaeda que pertencem à "prestação de assistência [israelense] para os terroristas".
Esta assistência não se limita a logística:
"De acordo com o israelense Canal 1 da televisão," fontes de segurança "informados de um novo sistema de mísseis chamado 'Mitar', criado em Golan para dar cobertura de backup para anti-Síria grupos militantes.Um hospital militar IDF na ocupados Montes Golã foi criado para tratar feridas rebeldes da Al Qaeda.
O sistema inclui de médio alcance e mísseis de longo alcance, de acordo com o relatório. "( Al Alam 03 de maio de 2014 grifo nosso)
Em fevereiro, The Jerusalem Post informou que o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu visitou o hospital do campo IDF nos Montes Golan ocupados, que foi criado para apoiar os rebeldes jihadistas que operam na Síria. O hospital foi criado para tratar feridas rebeldes da Al Qaeda.
The Jerusalem Post reconhece que o hospital está sendo usado para apoiar a insurgência jihadista. Netanyahu referiu-se ao Hospital como o lugar que "separa o bem no mundo do mal no mundo."
"O bom", de acordo com Netanyahu "é Israel", que em uma amarga ironia apoia plenamente os da Al Qaeda "combatentes da liberdade" na Síria; "O mau" refere-se ao Irã que apoia Bashar Al Assad.
O bom, o primeiro-ministro disse, é Israel, que "salva vidas desde a tomada abate diária na Síria. Esta é a verdadeira face de Israel ".Enquanto o campo hospitalar IDF foi criado para apoiar a Al Qaeda em uma operação coordenada pelo IDF Forças Especiais, Netanyahu casualmente acusa o Irã de "seu apoio a grupos terroristas ao redor do mundo." (JP, 19, Fevereiro de 2014)
O mal, continuou, é o Irã, que é armar aqueles que realizam o abate. (Jerusalem Post, 19, Fevereiro de 2014)
Não Netanyau não negar o apoio do seu governo dos jihadistas. O IDF cúpula tacitamente reconheceu que "elementos jihad global dentro da Síria" são apoiadas por Israel:
Netanyahu visitou as Colinas de Golã com o ministro da Defesa Moshe Ya'alon e IDF Chefe do Estado Maior Tenente-Gen. Benny Gantz.
Em um mirante com vista para a fronteira com a Síria, OC Northern Command major-general. Yair Golan informou Netanyahu sobre a presença de elementos jihad global dentro da Síria, bem como sobre o trabalho que está sendo feito para fortalecer a cerca da fronteira entre Israel e Síria. (Ibid)
O primeiro-ministro israelense Netanyahu aperta a mão com um terrorista Al QaedaÉ o terrorista ferido um activo de inteligência israelense? Na imagem abaixo:
"O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu eo ministro da Defesa, Moshe Yaalon ao lado de um mercenário ferido, hospital de campanha militar israelense na fronteira ocupada Golan Heights 'com a Síria, 18 de fevereiro de 2014" (ibid, grifo nosso)Quem matou os três adolescentes israelenses?
Ironicamente, o mesmo grupo jihadista que é relatado para ter seqüestrado e matado os três adolescentes é suportado pelo IDF de Israel fora das Colinas de Golã ocupados.
Uma mera coincidência.
Copyright © 2014 Global Research
(tradução automática)
terça-feira, 15 de julho de 2014
Publicado em 01.05.1994
A psicologia materialista dialética de Vygotsky
Por Loren Graham*
Os processos mentais são autônomos ou condicionados pela interação com o meio? Vygotsky tentou responder essa questão e deu novo rumo à compreensão da mente humana
A biografia ora traduzida presta-se a objetivos mais amplos que assinalar os sessenta anos de desaparecimento de Vygotsky cuja obra desperta vasto e diferenciado interesse em todo o mundo, e não só entre o público especializado em psicologia. A análise das circunstâncias da produção, e da acolhida, de sua obra pode nos instruir sobre as peculiaridades que caracterizam o socialismo soviético, em suas diversas fases e facetas. Para o público brasileiro já familiarizado com sua obra, a leitura desta nota contribuirá para a compreensão multilateral do alcance e da dimensão de Vygotsky.
Esse público notará que a primeira edição ocidental de Pensamento e Linguagem, edição norte-americana de 1962, é aqui criticada por excluir as referências, do próprio Vygotsky, ao marxismo como referencial teórico da sua produção em psicologia. O fragmento que publicamos foi extraído do livro Science in Russia and the Soviet Union – A Short History, capítulo 5 (“O papel do materialismo dialético: a fase autêntica”), p. 103-108, de autoria de Loren R. Graham, publicado em 1993 pela Cambridge University Press, Nova Iorque; livro que foi objeto de nossa resenha na edição anterior da revista Princípios. A tradução é de Luciana Cristina Ruy, com revisão técnica de Verônica M. Bercht. Nossos agradecimentos ao autor e a Cambridge University Press pela cessão de direitos autorais para esta publicação. Loren Graham é um renomado estudioso da história da ciência soviética, autor de Science and Philosophy in the Soviet Union, The Soviet Academy of Science and the Communist Party, 1927-1932, entre outros livros e artigos sobre o assunto.
Olival Freire Jr.
Talvez nenhum outro pensador soviético represente melhor a geração de marxistas que tentaram revolucionar o conhecimento das décadas de 1920 e 1930 do que o psicólogo Lev Semenovich Vygotsky. O atual interesse sobre Vygotsky deve-se ao fato de suas idéias exercerem grande influência na educação e nas ciências sociais. O filósofo da ciência norte-americano Stephen Toulmin chamou Vygotsky de “o Mozart da psicologia”, comparando-o a Freud e Piaget (1). Jerome Bruner observou que “Vygotsky foi indiscutivelmente um gênio” (2). James Wertsch indagou, em 1988: “por que ele é o pensador soviético que está tendo influência no pensamento do Ocidente, mais de meio século após a sua morte?” (3).
Os poucos estudiosos que examinaram cuidadosamente os escritos originais e a vida de Vygotsky concordam que o marxismo foi um estímulo importante ao seu pensamento. Porém muitos psicólogos em países de língua inglesa perderam esse elemento do trabalho de Vygotsky. Eles conheciam somente a primeira tradução americana de seu clássico Pensamento e Linguagem, uma edição resumida na qual as referências ao marxismo foram sistematicamente omitidas. Evidentemente os tradutores acreditavam que essas referências não eram tão importantes em relação às idéias principais de Vygotsky (4). Todas as referências a Lênin, por exemplo, foram eliminadas. Somente em 1986, meio século após ter sido escrito, o texto completo de Pensamento e linguagem foi publicado em inglês (5). Nele o papel do marxismo aparece com clareza. Wertsch, um psicólogo norte-americano que estudou a fundo a obra de Vygotsky, salientou seu “sincero esforço em criar um modo marxista de analisar a mente” (6).
No original russo fica claro que o empenho de Vygotsky em mostrar a importância do contexto sócio-cultural para uma teoria da mente apoiava-se no conceito marxista de que é a “existência que determina a consciência”. Vygotsky acreditava que o desenvolvimento do pensamento nas crianças podia ser compreendido com base na epistemologia de Lênin, que enfatizava a influência da realidade objetiva na mente inteligente. Em particular, essa ênfase de Lênin forneceu as bases para suas críticas à visão do mais importante psicólogo francês, Jean Piaget, que falou do uso “autista” que a criança faz da linguagem, sem se referir à influência do meio desde o início de seu desenvolvimento. Vygotsky acreditava que os pontos de vista de Piaget eram baseados numa forma de dualismo e idealismo epistemológicos incompatíveis com o marxismo. Uma abordagem marxista, afirmou Vygotsky, dá mais importância às origens “externas” ou “sociais” da linguagem, em vez de considerá-la uma atividade isolada e independente da mente. Na análise de Friedrich Engels sobre a importância das ferramentas na evolução humana, Vygotsky encontrou uma ênfase marxista que bem se adapta ao estudo do funcionamento mental superior, que é mediado pelo meio ambiente – neste caso, as ferramentas são desenvolvidas socioculturalmente. Vygotsky chegou a citar as leis da dialética de Engels, mencionando a “unidade e conflito dos opostos pensamento/fantasia” na cognição (7).
Vygotsky atingiu a maturidade na Rússia soviética dos anos 1920, um tempo de grande entusiasmo entre os jovens estudantes e professores no esforço de reconstrução marxista do conhecimento. A Rússia acabara por passar por uma guerra que deixara perdas enormes, uma revolução traumática e uma guerra civil que provocou divisões no país; os problemas de falta de instrução e atraso econômico que enfrentava eram enormes. Psicólogos como Vygotsky, que concordavam com os objetivos do novo regime, esperavam encontrar uma forma de criar “um novo homem soviético” apoiados numa teoria da mente que desse importância essencial ao papel da sociedade. Se o desenvolvimento dos indivíduos se dá fundamentalmente a partir das características que lhes são inerentes, o panorama para o progresso rápido parece pequeno. Mas se uma sociedade reorganizada puder exercer forte influência no desenvolvimento da personalidade de seus cidadãos, as chances de uma transformação rápida são muito maiores. Essa questão explica a oposição de Vygotsky aos conceitos de Piaget sobre “comportamento autista” e “discurso interior” (ambos resistentes à influência social) e seu apoio ao ponto de vista segundo o qual o desenvolvimento mental é fortemente condicionado pelo contexto sociocultural ao qual está submetido.
“Divergência com Piaget estava na compreensão da origem da linguagem e da atividade mental”.
A questão central de grande parte da obra de Vygotsky é a relação entre discurso e pensamento. Ele faz objeções à descrição de Piaget sobre o discurso da criança como fruto da evolução de um estágio inicialmente individualista para um estágio social posterior. Vygotsky via a abordagem de Piaget fundamentada na distinção cartesiana entre corpo e mente, que os marxistas rejeitavam. Descreveu assim suas diferenças com Piaget:
“Para Piaget, o desenvolvimento do pensamento é a história da socialização gradual dos estados mentais autísticos, profundamente íntimos e pessoais. Até mesmo a fala social é representada como sendo subsequente, e não anterior, à fala egocêntrica”.
“A hipótese que propomos inverte esse percurso (…). Consideramos que o desenvolvimento total evolui da seguinte maneira: a função primordial da fala, tanto nas crianças como nos adultos, é a comunicação, o contato social. A fala mais primitiva da criança é, portanto, essencialmente social. Em princípio, é global e multifuncional; posteriormente, suas funções tornam-se diferenciadas. Numa certa idade, a fala social da criança dividi-se nitidamente em fala egocêntrica e fala comunicativa. (Preferimos utilizar o termo ‘comunicativa’ para o tipo de fala que Piaget denomina ‘socializada’, como se tivesse sido outra coisa antes de se tornar social. Do nosso ponto de vista, as duas formas, a comunicativa e a egocêntrica, são sociais, embora suas funções sejam diferentes.) A fala egocêntrica emerge quando a criança transfere formas sociais e cooperativas de comportamento para a esfera das funções psíquicas interiores e pessoais…) Segundo nossa concepção, o verdadeiro curso do desenvolvimento do pensamento não vai do individual para o socializado, mas do social para o individual” (8).
A essa transição da linguagem do meio social para a mente da criança, que causa impacto em muitas teorias sobre o pensamento infantil, Vygotsky denominou “internalização da fala”, conceito pelo qual ele é mais conhecido.
“Piaget acredita que a fala egocêntrica deriva da socialização insuficiente da fala, e que só tem uma forma possível de evolução: o declínio e a morte. A sua culminação ocorre no passado. A fala interior é algo novo, trazido do exterior juntamente com a socialização. Acreditamos que a fala egocêntrica origina-se da individualização insuficiente da fala social primária. A culminação ocorre no futuro, e desenvolve-se no sentido da fala interior” (9).
“Pensamento pré-linguístico tem origens materiais e pode ser exposto em termos marxistas”.
O conceito sobre internalização do discurso social trouxe para Vygotsky um problema diferente do enfrentado por Piaget. Uma criança, nos primeiros meses, antes de ter internalizado algum discurso, é capaz de pensar? Vygotsky acreditava que tal criança pudesse de fato pensar, embora não possuísse a linguagem média para fazê-lo; era necessário, então, que Vygotsky descobrisse raízes diferentes para pensamento e linguagem. O pensamento poderia vir originalmente do “interior”, enquanto a linguagem poderia vir originalmente do “exterior”. Contudo, mais tarde, pensamento e linguagem teriam um sobre o outro influência tão íntima que o fato de terem raízes diferentes tornar-se-ia quase imperceptível.
Se o pensamento pré-linguístico vem do “interior”, como a psicologia de Vygotsky poderia ser menos “dualista” ou cartesiana que a de Piaget? Esse conceito de origem interior do pensamento pré-linguístico não seria uma variação do que Lênin enfatiza como reflexo da realidade exterior na mente? Vygotsky esforçou-se para mostrar que o pensamento pré-linguístico tem origens materiais na evolução biológica e pode também ser exposto em termos marxistas:
“A tese de que as raízes do intelecto humano podem ser encontradas no reino animal já foi há muito aceita pelo marxismo; encontramos sua elaboração em Plekhanov (um marxista russo pioneiro). Engels escreveu que o homem e os animais têm as mesmas formas de atividade intelectual e que somente o seu grau de desenvolvimento difere: os animais são capazes de raciocinar num nível elementar, de analisar (quebrar uma noz é um início de análise), de experimentar quando deparam com um problema ou situação difícil (…) É desnecessário dizer que Engels não atribui aos animais a capacidade de pensar e falar ao nível humano (10).
O pensamento pré-linguístico na criança, de acordo com Vygotsky, é então, de alguma forma, similar ao pensamento embrionário de alguns animais. Desse modo, Vygotsky não estaria se desviando para o materialismo vulgar, sem perceber que o materialismo dialético chamou a atenção contra a redução da atividade “social” humana das atividades “biológicas”, animais? Vygotsky voltou ao marxismo para sua explicação enfatizando que a interação dialética de pensamento e linguagem transforma os processos do pensamento infantil em algo qualitativamente distinto do pensamento dos animais.
Vygotsky acreditava que o momento crucial chegava para a criança quando esta percebia que cada objeto tinha um nome. Neste momento as curvas de desenvolvimento do pensamento e do discurso se encontravam pela primeira vez, e daí em diante não se desenvolveriam mais separadamente. “A fala começa a servir ao intelecto, e os pensamentos começam a ser verbalizados” (11). Uma vez que a criança percebe a ligação entre palavra e objeto, o pensamento se torna verbal e a fala, racional.
Mais uma vez Vygotsky apresentou seus pontos de vista em termos marxistas, colocando o desenvolvimento psicológico da criança na moldura dos irredutíveis “níveis biológicos e sócio-históricos de existência” da dialética materialista. Observando a descoberta pela criança da conexão entre objetos e nomes, ele escreveu:
“A natureza do próprio desenvolvimento se transforma, do biológico para o sócio-histórico. O pensamento verbal não é uma forma de comportamento natural e inata, mas é determinado por um processo histórico-cultural e tem propriedades e leis específicas, que não podem ser encontradas nas formas naturais de pensamento e fala. Uma vez admitido o caráter histórico do pensamento verbal, devemos considerá-lo sujeito a todas as premissas do materialismo histórico, que são válidas para qualquer fenômeno histórico da sociedade humana. Espera-se apenas que, neste nível, o desenvolvimento do comportamento seja regido essencialmente pelas leis gerais da evolução histórico da sociedade humana” (12).
Assim, o esquema que Vygotsky desenvolveu para a explicação da relação mútua entre pensamento e linguagem continha um alto grau de consciência interior e eventualmente chegava a concepções marxistas de desenvolvimento social.
Vygotsky então levou a análise de pensamento e linguagem para um estágio mais elevado, no qual o funcionamento mental superior é fortemente influenciado pela linguagem culturalmente condicionada. Quando a criança aprende a ler e se torna mais sofisticada, a linguagem influencia seu pensamento por meio de formas muito mais sutis. Tornando-se adulta, seu modo de pensar é fortemente influenciado por toda a mídia cultural de seu ambiente. Uma consequência natural dessa tese é que as pessoas em ambientes nitidamente diferentes, como, por exemplo, sociedades industriais avançadas ou tribos primitivas, pensam de formas nitidamente diferentes.
Para entender melhor como pensamento e linguagem interagem em seu estágio adulto mais avançado na sociedade moderna, Vygotsky prestou atenção às análises literárias, semióticas e linguísticas. Seu trabalho inicial foi conhecido pelo grande linguista soviético Mikhail Bakhtin, que salientava, de maneira semelhante, a influência da sociedade nos métodos do pensamento. Bakhtin, que também atraíra grande atenção no Ocidente, tornou-se quase uma figura cultuada entre alguns intelectuais (13).
As idéias de Vygotsky representaram uma brilhante novidade na análise do pensamento e linguagem entre o final dos anos 1920 e início dos anos 1930, época em que ele as desenvolveu. Sua teoria abriu espaço para novas áreas de pesquisa na União Soviética e em outros países. Vygotsky lançou a principal escola da nova psicologia soviética. Muitos de seus alunos, incluindo A. R. Lúria e A. N. Leontiev, dominaram a psicologia soviética no período após a Segunda Guerra Mundial. Lúria, antes de sua morte, em 1977, tornou-se internacionalmente conhecido na neuropsicologia.
“Após a morte de Stalin, a influência da obra de Vygotsky aumentou gradualmente na URSS”.
As teorias de Vygotsky sobre o início do desenvolvimento psicológico infantil estavam claramente ligadas ao marxismo, como ele o interpretava. Mas, sob o governo Stalin, pensadores independentes como ele sofreram com frequência. Stalin via-se como um intelectual e não hesitava em dar opinião sobre as várias teorias científicas, No período que as influências stalinistas foram dominantes no pensamento soviético, de 1936 a 1956, os escritos de Vygotsky não eram aprovados. Em 1950, no seu artigo “Marxismo e linguística”, Stalin escreveu: “pensamentos nus, livres da linguagem material (…) não existem”, contradizendo a concepção de Vygotsky de pensamento pré-linguístico (14).
Após a morte de Stalin, a influência de Vygotsky ressurgiu gradualmente. Lá pelos anos 1960, trinta anos após a sua morte, ele era a principal força da psicologia soviética. A. R. Lúria observou: “tudo o que é bom na psicologia russa de hoje vem de Vygotsky (15). Lúria dedicou sua importante monografia “Funções corticais superiores do homem”, publicada em Moscou, em 1962, à memória do grande mestre e afirmou que seu próprio trabalho podia, de muitas maneiras, “ser visto como uma continuação das idéias de Vygotsky” (16).
O interesse do Ocidente por Vygotsky começou em 1962 com a publicação inglesa da versão resumida de Pensamento e linguagem, tornou-se mais forte com a atenção que Jerome Bruner deu às suas idéias nos anos 1960 e cresceu ainda mais com o trabalho de Michael Cole e de seus co-autores (Cole é um norte-americano que estudou em Moscou nos anos 1960 com Lúria, que havia sido aluno de Vygotsky (17). No final dos anos 1980 Vygotsky estava sendo tão discutido nos Estados Unidos que Wertsch objetou: “distorções já se tornam manifestas quando psicólogos americanos tentam usar partes da abordagem de Vygotsky para inconscientemente ‘individualizar’ uma teoria fundamentada em hipóteses inerentemente coletivistas” (18).
Hoje algumas das idéias de Vygotsky estão sendo questionadas por teóricos que dão maior ênfase aos fundamentos genéticos da psicologia. Para o historiador, o importante é ele ter desenvolvido uma teoria brilhante da psicologia, na qual as influências sociais, e particularmente a teoria marxista, desempenham um papel central. Esse fato é um valioso antídoto para a visão ocidental comum, segundo a qual a influência do marxismo na ciência soviética foi uniformemente destrutiva, como ocorreu no caso de Lysenko.
* Autor de diversos livros sobre a história da ciência soviética.
Notas
(1) Citado em WERTSCH, James. “L. S. Vygotsky ‘New’ Theory of Mind” (“A nova teoria da mente de L. S. Vygotsky”), in American Scholar, Inverno de 1988, p. 81.
(2) BRUNER, Jerome S. “Introduction”, in Thought and Language (Pensamento e linguagem), L. S. Vygotsky, Cambridge, Masachussetts, MIT Press, 1962, p. VI e X, edição brasileira Pensamento e Linguagem, tradução de Jeferson Luiz Camargo, revisão técnica de José Cipolla Neto. Martins Fontes, São Paulo, 1987.
(3) WERTSCH, J. “L. S. Vygotsky ‘New’ Theory of Mind”, p. 87.
(4) Os tradutores comentaram que, “embora nossa tradução mais compacta pudesse ser considerada uma aversão simplificada do original, sentimos que a condensação aumentou a clareza e a legibilidade do texto, sem qualquer perda quanto ao conteúdo do pensamento ou à informação factual”. HANFMANN, Eugenia e VAKAR, Gertrude. “Prefácio à tradução inglesa”, in Pensamento e linguagem, Brasileira, p. XIV.
(5) Lev VYGOTSKY, L. S. Thought and Language (“Pensamento e Linguagem”), traduzido e ditado por Alex Kozulin, Cambridge, Massachussetts, MIT Press, 1986.
(6) WERTSCH, J. “L. S. Vygotsky ‘New’ Theory of Mind”, p. 83.
(7) VYGOTSKY, L. S. Isbrannye ppsikhologicheskie issledovaniia, Moscou, 1956, p. 91-92, 105.
(8) VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem, editado e traduzido por E. Hanfmann e G. Vakar, Brasileira, p. 17.
(9) Ibid, p. 117.
(10) Ibid, p. 42.
(11) Ibid, p. 37.
(12) Ibid, p. 44.
(13) CLARK, Katerina e HOLQUIST, Michel. Mikhail Barhtin, Cambridge, Massachussetts, Harvard University Press, 1984, p. 229-230,
(14) STALIN, Joseph. Marxism and linguitics (“Marxismo e linguística”), Nova Iorque, International Publishers, 1951, p. 36.
(15) Citado por ZANGWILL, O. L. “Psychology: Current Approaches” (“Psicologia: abordagens correntes”) in The State of Soviet Science (“O estado da ciência soviética”). Cambridge, Massachussetts, MIT Press, 1965, p. 122.
(16) LÚRIA, A. R. Higher Cortical Functions in Man (“Funções corticais superiores no homem”), Nova Iorque, Basic Books, 1966, p. 540.
(17) COLE, Michael, JOHN-STEINER, Vera, SCRIBNER, Sylvia e SOUBERMAN, Ellen (ed.). Mind in Society: The Development of Higher Psychological Processes – L. S. Vygotsky (“Mente e sociedade: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores – L. S.Vygotsky”), Cambridge, Massachussetts, Harvard University Press, 1978; COLE, Michael e SCRIBNER, Sylvia. The Psychology of Literacy (“A psicologia da escrita”), Cambridge, Massachussetts, Harvard University Press, 1981; COLE, Michael e COLE, Sheila (ed.). The Making of Mind: A Personal Account of Soviet Psychology (“A construção da mente: um balanço pessoal da psicologia soviética”), Cambridge, Massachussetts, Harvard University Press, 1979.
(18) WERTSCH, J. “L. S. Vygotsky ‘New’ Theory of Mind”, p. 89.
EDIÇÃO 33, MAI/JUN/JUL, 1994, PÁGINAS 52, 53, 54, 55
Esse público notará que a primeira edição ocidental de Pensamento e Linguagem, edição norte-americana de 1962, é aqui criticada por excluir as referências, do próprio Vygotsky, ao marxismo como referencial teórico da sua produção em psicologia. O fragmento que publicamos foi extraído do livro Science in Russia and the Soviet Union – A Short History, capítulo 5 (“O papel do materialismo dialético: a fase autêntica”), p. 103-108, de autoria de Loren R. Graham, publicado em 1993 pela Cambridge University Press, Nova Iorque; livro que foi objeto de nossa resenha na edição anterior da revista Princípios. A tradução é de Luciana Cristina Ruy, com revisão técnica de Verônica M. Bercht. Nossos agradecimentos ao autor e a Cambridge University Press pela cessão de direitos autorais para esta publicação. Loren Graham é um renomado estudioso da história da ciência soviética, autor de Science and Philosophy in the Soviet Union, The Soviet Academy of Science and the Communist Party, 1927-1932, entre outros livros e artigos sobre o assunto.
Olival Freire Jr.
Talvez nenhum outro pensador soviético represente melhor a geração de marxistas que tentaram revolucionar o conhecimento das décadas de 1920 e 1930 do que o psicólogo Lev Semenovich Vygotsky. O atual interesse sobre Vygotsky deve-se ao fato de suas idéias exercerem grande influência na educação e nas ciências sociais. O filósofo da ciência norte-americano Stephen Toulmin chamou Vygotsky de “o Mozart da psicologia”, comparando-o a Freud e Piaget (1). Jerome Bruner observou que “Vygotsky foi indiscutivelmente um gênio” (2). James Wertsch indagou, em 1988: “por que ele é o pensador soviético que está tendo influência no pensamento do Ocidente, mais de meio século após a sua morte?” (3).
Os poucos estudiosos que examinaram cuidadosamente os escritos originais e a vida de Vygotsky concordam que o marxismo foi um estímulo importante ao seu pensamento. Porém muitos psicólogos em países de língua inglesa perderam esse elemento do trabalho de Vygotsky. Eles conheciam somente a primeira tradução americana de seu clássico Pensamento e Linguagem, uma edição resumida na qual as referências ao marxismo foram sistematicamente omitidas. Evidentemente os tradutores acreditavam que essas referências não eram tão importantes em relação às idéias principais de Vygotsky (4). Todas as referências a Lênin, por exemplo, foram eliminadas. Somente em 1986, meio século após ter sido escrito, o texto completo de Pensamento e linguagem foi publicado em inglês (5). Nele o papel do marxismo aparece com clareza. Wertsch, um psicólogo norte-americano que estudou a fundo a obra de Vygotsky, salientou seu “sincero esforço em criar um modo marxista de analisar a mente” (6).
No original russo fica claro que o empenho de Vygotsky em mostrar a importância do contexto sócio-cultural para uma teoria da mente apoiava-se no conceito marxista de que é a “existência que determina a consciência”. Vygotsky acreditava que o desenvolvimento do pensamento nas crianças podia ser compreendido com base na epistemologia de Lênin, que enfatizava a influência da realidade objetiva na mente inteligente. Em particular, essa ênfase de Lênin forneceu as bases para suas críticas à visão do mais importante psicólogo francês, Jean Piaget, que falou do uso “autista” que a criança faz da linguagem, sem se referir à influência do meio desde o início de seu desenvolvimento. Vygotsky acreditava que os pontos de vista de Piaget eram baseados numa forma de dualismo e idealismo epistemológicos incompatíveis com o marxismo. Uma abordagem marxista, afirmou Vygotsky, dá mais importância às origens “externas” ou “sociais” da linguagem, em vez de considerá-la uma atividade isolada e independente da mente. Na análise de Friedrich Engels sobre a importância das ferramentas na evolução humana, Vygotsky encontrou uma ênfase marxista que bem se adapta ao estudo do funcionamento mental superior, que é mediado pelo meio ambiente – neste caso, as ferramentas são desenvolvidas socioculturalmente. Vygotsky chegou a citar as leis da dialética de Engels, mencionando a “unidade e conflito dos opostos pensamento/fantasia” na cognição (7).
Vygotsky atingiu a maturidade na Rússia soviética dos anos 1920, um tempo de grande entusiasmo entre os jovens estudantes e professores no esforço de reconstrução marxista do conhecimento. A Rússia acabara por passar por uma guerra que deixara perdas enormes, uma revolução traumática e uma guerra civil que provocou divisões no país; os problemas de falta de instrução e atraso econômico que enfrentava eram enormes. Psicólogos como Vygotsky, que concordavam com os objetivos do novo regime, esperavam encontrar uma forma de criar “um novo homem soviético” apoiados numa teoria da mente que desse importância essencial ao papel da sociedade. Se o desenvolvimento dos indivíduos se dá fundamentalmente a partir das características que lhes são inerentes, o panorama para o progresso rápido parece pequeno. Mas se uma sociedade reorganizada puder exercer forte influência no desenvolvimento da personalidade de seus cidadãos, as chances de uma transformação rápida são muito maiores. Essa questão explica a oposição de Vygotsky aos conceitos de Piaget sobre “comportamento autista” e “discurso interior” (ambos resistentes à influência social) e seu apoio ao ponto de vista segundo o qual o desenvolvimento mental é fortemente condicionado pelo contexto sociocultural ao qual está submetido.
“Divergência com Piaget estava na compreensão da origem da linguagem e da atividade mental”.
A questão central de grande parte da obra de Vygotsky é a relação entre discurso e pensamento. Ele faz objeções à descrição de Piaget sobre o discurso da criança como fruto da evolução de um estágio inicialmente individualista para um estágio social posterior. Vygotsky via a abordagem de Piaget fundamentada na distinção cartesiana entre corpo e mente, que os marxistas rejeitavam. Descreveu assim suas diferenças com Piaget:
“Para Piaget, o desenvolvimento do pensamento é a história da socialização gradual dos estados mentais autísticos, profundamente íntimos e pessoais. Até mesmo a fala social é representada como sendo subsequente, e não anterior, à fala egocêntrica”.
“A hipótese que propomos inverte esse percurso (…). Consideramos que o desenvolvimento total evolui da seguinte maneira: a função primordial da fala, tanto nas crianças como nos adultos, é a comunicação, o contato social. A fala mais primitiva da criança é, portanto, essencialmente social. Em princípio, é global e multifuncional; posteriormente, suas funções tornam-se diferenciadas. Numa certa idade, a fala social da criança dividi-se nitidamente em fala egocêntrica e fala comunicativa. (Preferimos utilizar o termo ‘comunicativa’ para o tipo de fala que Piaget denomina ‘socializada’, como se tivesse sido outra coisa antes de se tornar social. Do nosso ponto de vista, as duas formas, a comunicativa e a egocêntrica, são sociais, embora suas funções sejam diferentes.) A fala egocêntrica emerge quando a criança transfere formas sociais e cooperativas de comportamento para a esfera das funções psíquicas interiores e pessoais…) Segundo nossa concepção, o verdadeiro curso do desenvolvimento do pensamento não vai do individual para o socializado, mas do social para o individual” (8).
A essa transição da linguagem do meio social para a mente da criança, que causa impacto em muitas teorias sobre o pensamento infantil, Vygotsky denominou “internalização da fala”, conceito pelo qual ele é mais conhecido.
“Piaget acredita que a fala egocêntrica deriva da socialização insuficiente da fala, e que só tem uma forma possível de evolução: o declínio e a morte. A sua culminação ocorre no passado. A fala interior é algo novo, trazido do exterior juntamente com a socialização. Acreditamos que a fala egocêntrica origina-se da individualização insuficiente da fala social primária. A culminação ocorre no futuro, e desenvolve-se no sentido da fala interior” (9).
“Pensamento pré-linguístico tem origens materiais e pode ser exposto em termos marxistas”.
O conceito sobre internalização do discurso social trouxe para Vygotsky um problema diferente do enfrentado por Piaget. Uma criança, nos primeiros meses, antes de ter internalizado algum discurso, é capaz de pensar? Vygotsky acreditava que tal criança pudesse de fato pensar, embora não possuísse a linguagem média para fazê-lo; era necessário, então, que Vygotsky descobrisse raízes diferentes para pensamento e linguagem. O pensamento poderia vir originalmente do “interior”, enquanto a linguagem poderia vir originalmente do “exterior”. Contudo, mais tarde, pensamento e linguagem teriam um sobre o outro influência tão íntima que o fato de terem raízes diferentes tornar-se-ia quase imperceptível.
Se o pensamento pré-linguístico vem do “interior”, como a psicologia de Vygotsky poderia ser menos “dualista” ou cartesiana que a de Piaget? Esse conceito de origem interior do pensamento pré-linguístico não seria uma variação do que Lênin enfatiza como reflexo da realidade exterior na mente? Vygotsky esforçou-se para mostrar que o pensamento pré-linguístico tem origens materiais na evolução biológica e pode também ser exposto em termos marxistas:
“A tese de que as raízes do intelecto humano podem ser encontradas no reino animal já foi há muito aceita pelo marxismo; encontramos sua elaboração em Plekhanov (um marxista russo pioneiro). Engels escreveu que o homem e os animais têm as mesmas formas de atividade intelectual e que somente o seu grau de desenvolvimento difere: os animais são capazes de raciocinar num nível elementar, de analisar (quebrar uma noz é um início de análise), de experimentar quando deparam com um problema ou situação difícil (…) É desnecessário dizer que Engels não atribui aos animais a capacidade de pensar e falar ao nível humano (10).
O pensamento pré-linguístico na criança, de acordo com Vygotsky, é então, de alguma forma, similar ao pensamento embrionário de alguns animais. Desse modo, Vygotsky não estaria se desviando para o materialismo vulgar, sem perceber que o materialismo dialético chamou a atenção contra a redução da atividade “social” humana das atividades “biológicas”, animais? Vygotsky voltou ao marxismo para sua explicação enfatizando que a interação dialética de pensamento e linguagem transforma os processos do pensamento infantil em algo qualitativamente distinto do pensamento dos animais.
Vygotsky acreditava que o momento crucial chegava para a criança quando esta percebia que cada objeto tinha um nome. Neste momento as curvas de desenvolvimento do pensamento e do discurso se encontravam pela primeira vez, e daí em diante não se desenvolveriam mais separadamente. “A fala começa a servir ao intelecto, e os pensamentos começam a ser verbalizados” (11). Uma vez que a criança percebe a ligação entre palavra e objeto, o pensamento se torna verbal e a fala, racional.
Mais uma vez Vygotsky apresentou seus pontos de vista em termos marxistas, colocando o desenvolvimento psicológico da criança na moldura dos irredutíveis “níveis biológicos e sócio-históricos de existência” da dialética materialista. Observando a descoberta pela criança da conexão entre objetos e nomes, ele escreveu:
“A natureza do próprio desenvolvimento se transforma, do biológico para o sócio-histórico. O pensamento verbal não é uma forma de comportamento natural e inata, mas é determinado por um processo histórico-cultural e tem propriedades e leis específicas, que não podem ser encontradas nas formas naturais de pensamento e fala. Uma vez admitido o caráter histórico do pensamento verbal, devemos considerá-lo sujeito a todas as premissas do materialismo histórico, que são válidas para qualquer fenômeno histórico da sociedade humana. Espera-se apenas que, neste nível, o desenvolvimento do comportamento seja regido essencialmente pelas leis gerais da evolução histórico da sociedade humana” (12).
Assim, o esquema que Vygotsky desenvolveu para a explicação da relação mútua entre pensamento e linguagem continha um alto grau de consciência interior e eventualmente chegava a concepções marxistas de desenvolvimento social.
Vygotsky então levou a análise de pensamento e linguagem para um estágio mais elevado, no qual o funcionamento mental superior é fortemente influenciado pela linguagem culturalmente condicionada. Quando a criança aprende a ler e se torna mais sofisticada, a linguagem influencia seu pensamento por meio de formas muito mais sutis. Tornando-se adulta, seu modo de pensar é fortemente influenciado por toda a mídia cultural de seu ambiente. Uma consequência natural dessa tese é que as pessoas em ambientes nitidamente diferentes, como, por exemplo, sociedades industriais avançadas ou tribos primitivas, pensam de formas nitidamente diferentes.
Para entender melhor como pensamento e linguagem interagem em seu estágio adulto mais avançado na sociedade moderna, Vygotsky prestou atenção às análises literárias, semióticas e linguísticas. Seu trabalho inicial foi conhecido pelo grande linguista soviético Mikhail Bakhtin, que salientava, de maneira semelhante, a influência da sociedade nos métodos do pensamento. Bakhtin, que também atraíra grande atenção no Ocidente, tornou-se quase uma figura cultuada entre alguns intelectuais (13).
As idéias de Vygotsky representaram uma brilhante novidade na análise do pensamento e linguagem entre o final dos anos 1920 e início dos anos 1930, época em que ele as desenvolveu. Sua teoria abriu espaço para novas áreas de pesquisa na União Soviética e em outros países. Vygotsky lançou a principal escola da nova psicologia soviética. Muitos de seus alunos, incluindo A. R. Lúria e A. N. Leontiev, dominaram a psicologia soviética no período após a Segunda Guerra Mundial. Lúria, antes de sua morte, em 1977, tornou-se internacionalmente conhecido na neuropsicologia.
“Após a morte de Stalin, a influência da obra de Vygotsky aumentou gradualmente na URSS”.
As teorias de Vygotsky sobre o início do desenvolvimento psicológico infantil estavam claramente ligadas ao marxismo, como ele o interpretava. Mas, sob o governo Stalin, pensadores independentes como ele sofreram com frequência. Stalin via-se como um intelectual e não hesitava em dar opinião sobre as várias teorias científicas, No período que as influências stalinistas foram dominantes no pensamento soviético, de 1936 a 1956, os escritos de Vygotsky não eram aprovados. Em 1950, no seu artigo “Marxismo e linguística”, Stalin escreveu: “pensamentos nus, livres da linguagem material (…) não existem”, contradizendo a concepção de Vygotsky de pensamento pré-linguístico (14).
Após a morte de Stalin, a influência de Vygotsky ressurgiu gradualmente. Lá pelos anos 1960, trinta anos após a sua morte, ele era a principal força da psicologia soviética. A. R. Lúria observou: “tudo o que é bom na psicologia russa de hoje vem de Vygotsky (15). Lúria dedicou sua importante monografia “Funções corticais superiores do homem”, publicada em Moscou, em 1962, à memória do grande mestre e afirmou que seu próprio trabalho podia, de muitas maneiras, “ser visto como uma continuação das idéias de Vygotsky” (16).
O interesse do Ocidente por Vygotsky começou em 1962 com a publicação inglesa da versão resumida de Pensamento e linguagem, tornou-se mais forte com a atenção que Jerome Bruner deu às suas idéias nos anos 1960 e cresceu ainda mais com o trabalho de Michael Cole e de seus co-autores (Cole é um norte-americano que estudou em Moscou nos anos 1960 com Lúria, que havia sido aluno de Vygotsky (17). No final dos anos 1980 Vygotsky estava sendo tão discutido nos Estados Unidos que Wertsch objetou: “distorções já se tornam manifestas quando psicólogos americanos tentam usar partes da abordagem de Vygotsky para inconscientemente ‘individualizar’ uma teoria fundamentada em hipóteses inerentemente coletivistas” (18).
Hoje algumas das idéias de Vygotsky estão sendo questionadas por teóricos que dão maior ênfase aos fundamentos genéticos da psicologia. Para o historiador, o importante é ele ter desenvolvido uma teoria brilhante da psicologia, na qual as influências sociais, e particularmente a teoria marxista, desempenham um papel central. Esse fato é um valioso antídoto para a visão ocidental comum, segundo a qual a influência do marxismo na ciência soviética foi uniformemente destrutiva, como ocorreu no caso de Lysenko.
* Autor de diversos livros sobre a história da ciência soviética.
Notas
(1) Citado em WERTSCH, James. “L. S. Vygotsky ‘New’ Theory of Mind” (“A nova teoria da mente de L. S. Vygotsky”), in American Scholar, Inverno de 1988, p. 81.
(2) BRUNER, Jerome S. “Introduction”, in Thought and Language (Pensamento e linguagem), L. S. Vygotsky, Cambridge, Masachussetts, MIT Press, 1962, p. VI e X, edição brasileira Pensamento e Linguagem, tradução de Jeferson Luiz Camargo, revisão técnica de José Cipolla Neto. Martins Fontes, São Paulo, 1987.
(3) WERTSCH, J. “L. S. Vygotsky ‘New’ Theory of Mind”, p. 87.
(4) Os tradutores comentaram que, “embora nossa tradução mais compacta pudesse ser considerada uma aversão simplificada do original, sentimos que a condensação aumentou a clareza e a legibilidade do texto, sem qualquer perda quanto ao conteúdo do pensamento ou à informação factual”. HANFMANN, Eugenia e VAKAR, Gertrude. “Prefácio à tradução inglesa”, in Pensamento e linguagem, Brasileira, p. XIV.
(5) Lev VYGOTSKY, L. S. Thought and Language (“Pensamento e Linguagem”), traduzido e ditado por Alex Kozulin, Cambridge, Massachussetts, MIT Press, 1986.
(6) WERTSCH, J. “L. S. Vygotsky ‘New’ Theory of Mind”, p. 83.
(7) VYGOTSKY, L. S. Isbrannye ppsikhologicheskie issledovaniia, Moscou, 1956, p. 91-92, 105.
(8) VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem, editado e traduzido por E. Hanfmann e G. Vakar, Brasileira, p. 17.
(9) Ibid, p. 117.
(10) Ibid, p. 42.
(11) Ibid, p. 37.
(12) Ibid, p. 44.
(13) CLARK, Katerina e HOLQUIST, Michel. Mikhail Barhtin, Cambridge, Massachussetts, Harvard University Press, 1984, p. 229-230,
(14) STALIN, Joseph. Marxism and linguitics (“Marxismo e linguística”), Nova Iorque, International Publishers, 1951, p. 36.
(15) Citado por ZANGWILL, O. L. “Psychology: Current Approaches” (“Psicologia: abordagens correntes”) in The State of Soviet Science (“O estado da ciência soviética”). Cambridge, Massachussetts, MIT Press, 1965, p. 122.
(16) LÚRIA, A. R. Higher Cortical Functions in Man (“Funções corticais superiores no homem”), Nova Iorque, Basic Books, 1966, p. 540.
(17) COLE, Michael, JOHN-STEINER, Vera, SCRIBNER, Sylvia e SOUBERMAN, Ellen (ed.). Mind in Society: The Development of Higher Psychological Processes – L. S. Vygotsky (“Mente e sociedade: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores – L. S.Vygotsky”), Cambridge, Massachussetts, Harvard University Press, 1978; COLE, Michael e SCRIBNER, Sylvia. The Psychology of Literacy (“A psicologia da escrita”), Cambridge, Massachussetts, Harvard University Press, 1981; COLE, Michael e COLE, Sheila (ed.). The Making of Mind: A Personal Account of Soviet Psychology (“A construção da mente: um balanço pessoal da psicologia soviética”), Cambridge, Massachussetts, Harvard University Press, 1979.
(18) WERTSCH, J. “L. S. Vygotsky ‘New’ Theory of Mind”, p. 89.
EDIÇÃO 33, MAI/JUN/JUL, 1994, PÁGINAS 52, 53, 54, 55
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