sábado, 27 de setembro de 2014

Opinião

O episódio das "despesas de representação" que o 1º ministro recebeu de uma empresa privada quando desempenhava funções de deputado em regime de exclusividade vem demonstrar que, afinal, a imagem de "salvador da pátria" que os serviços de propaganda lhe colocaram era, de facto, apenas uma imagem fabricada. É habitual na pátria de todos nós: já o actual presidente da república fora alvo de uma operação semelhante. Por via desses mitos Oliveira Salazar ascendera ao poder absoluto. 
O azar do 1º ministro foi ter sofrido este percalço num tempo em que figuras públicas são condenadas a penas pesadas pelo tribunal e um banqueiro super poderoso desfalcou empresas. Uma grossa nuvem de descrédito paira sobre o regime. A desconfiança instala-se. Inesperadamente as lutas intestinas do PS recebem um bónus. É o PS que arrecada os benefícios. Ambos os candidatos oferecem a um eleitorado descontente uma imagem de alternativa impoluta. A ver vamos.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net

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Publicado em 2014/09/16, em: http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_09_16/Tribunal-Russell-est-amea-ando-
Am-rica-e-Europa-de-s-ndrome-ucraniana-9421/
Colocado em linha em: 2014/09/22

Tribunal Russell está ameaçando América e
Europa de “síndrome da Ucrânia”
Andrei Ivanov

Os presidentes da Ucrânia, Piotr Poroshenko, e dos Estados Unidos,
Barack Obama, o chefe da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, e o
secretário-geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, são reconhecidos
culpados de crimes militares cometidos em Donbass. A sentença foi
proclamada pelo Tribunal Russell, reunido no sábado passado1 em
Veneza.
Destaque-se que uma prisão não ameaça por enquanto as personalidades referidas
acima. O Tribunal Russell é uma entidade informal e as suas resoluções não são
obrigatórias para a execução. Foi convocado pela primeira vez em 1967, por iniciativa
do filósofo Bertrand Russel e Jean-Paul Sartre, para reprovar os crimes militares
cometidos por americanos e seus aliados no Vietname. Uma das suas tarefas foi
“estabelecer a verdade sobre aquela guerra sem dar atenção ao medo e simpatias”.
Atualmente, um júri formado por quatro juízes do povo, liderado por Albert Gardin,
presidente do comité organizativo do Tribunal Russell em Veneza e um dos dirigentes
do movimento pelo restabelecimento da independência da República de Veneza,
tentou estabelecer a verdade sobre a guerra no Sudeste da Ucrânia.
Não é fácil de fazer para as pessoas que vivem na Europa ou na América. Os média
locais estão a deturpar os acontecimentos reais, afirmando que em Kiev teria
decorrido uma revolução democrática pacífica, que as unidades militares enviadas
pelas novas autoridades teriam lutado no sudeste contra os terroristas financiados
pelo Kremlin, tentando com a ajuda de militares russos separar aquela região da
Ucrânia e anexá-la à Rússia, a exemplo da Crimeia, ocupada ilegalmente pela Rússia.
Muitos americanos e europeus, sem falar de ucranianos, não acreditam nesses
comunicados absurdos.
1 2014/09/13. Fizeram-se algumas ligeiras alterações à variante do português do Brasil. – [NE]
2
Os ucranianos que não haviam concordado com a “revolução democrática” de Kiev
tentaram provar aos europeus que as autoridades ucranianas fazem uma guerra
bárbara contra a população do sudeste, com o apoio moral e financeiro dos EUA e da
UE, inclusive com a ajuda de mercenários americanos e europeus.
Em países da União Europeia foi apresentada uma mostra móvel de fotografias em
que são fixadas imagens de cadáveres queimados na Casa de Sindicatos em Odessa,
incendiada por nacionalistas ucranianos, de cidades e aldeias de Donbass, destruídas
por artilharia e aviação da Ucrânia, de crianças em refúgios antiaéreos, de corpos
humanos dilacerados em ruas. Mas essas fotografias cruéis e francas não foram vistas
por muitas pessoas, para esperar que os europeus mudem sua atitude para com os
acontecimentos na Ucrânia.
Possivelmente, o Tribunal Russel ajudará os europeus e americanos a tomar
consciência dos acontecimentos na Ucrânia. Ao ter ouvido as declarações de
testemunhas sobre os horrores da guerra civil no sudeste, o tribunal reconheceu
culpados desse pesadelo: os presidentes da Ucrânia, Piotr Poroshenko, e dos Estados
Unidos, Barack Obama, o chefe da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, e o
secretário-geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen. O veredicto de culpa e as
respetivas provas serão encaminhados para a ONU, a OSCE e o Tribunal Penal
Internacional.
Naturalmente, só as pessoas ingénuas podem supor que, após a sessão, os culpados
vão ocupar o banco dos réus, o que não aconteceu também depois do Tribunal de
1967, dedicado a Vietname. Mas aquela sessão contribuiu para o surgimento de um
amplo movimento antimilitarista nos EUA e na Europa, cuja envergadura, tal como
os êxitos dos guerrilheiros vietnamitas que haviam lutado contra americanos e seus
fantoches vietnamitas, obrigaram, no final de contas, os Estados Unidos a deixar o
Vietname em paz. É muito provável que na Ucrânia aconteça o mesmo. É interessante
se a América irá experimentar depois disso uma “síndrome da Ucrânia” à
semelhança da “síndrome do Vietname”?

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

David Harvey: Os limites do capital

O objetivo inicial de David Harvey, preservado e expandido ao longo de sua trajetória e de sua vasta obra, consistia basicamente em tentar entender a urbanização no capitalismo. Nessa direção, dedicou-se, nos anos 1960 e nos primórdios dos anos 1970, a estudar os desenvolvimentos históricos das principais cidades da Grã-Bretanha, da França e dos Estados Unidos, percurso sintetizado parcialmente no livro A justiça social e a cidade (1973).
Harvey atribuiu as carências dessa primeira versão a uma compreensão insuficiente da teoria marxiana. Para sanar esse déficit procurou se posicionar no debate, então aceso por conta de argumentações marcadamente contraditórias sobre o sentido da interpretação e a necessária atualização da obra de Marx. Concentrou seus esforços – numa época em que ainda ressoavam as polêmicas em torno do significado dos textos de juventude de Marx – nos livros e manuscritos posteriores a 1850, um conjunto que Roman Rosdolsky denominou de “crítica da economia política”.
Em Os limites do capital, publicado em 1982, Harvey buscou não se afastar muito de seu interesse original. Avaliava que esse aparente desvio consistia apenas numa propedêutica indispensável à abordagem marxista do processo urbano. Tanto assim que, na Introdução descreve o livro como “um tratado sobre a teoria marxiana em geral, prestando atenção na circulação do capital nas áreas construídas e na produção das configurações espaciais” (p.36).
De modo geral, o livro procura integrar os aspectos financeiro (temporal) e geográfico (global e espacial) sob uma teoria do sentido do movimento de acumulação do capital. Não prescinde, no entanto, de um exame acurado do papel ali desempenhado pela intervenção do Estado, concebendo esta, de certo modo, como um “momento vital na dialética e na dinâmica contraditória da acumulação do capital” (p.21).
As questões suscitadas em suas pesquisas acerca da dinâmica urbana, desdobradas na investigação dos procedimentos do mercado imobiliário e dos desenvolvimentos geográficos desiguais demandaram o esclarecimento do papel desempenhado, no interior da teoria marxiana, por fatores como capital fixo, finanças, crédito, gastos públicos etc. Desse modo, a motivação prévia de buscar fundamentos para uma explicação mais adequada da circulação do capital no mundo urbano, do modo como a renda se relaciona com os processos básicos de produção e distribuição, em suma, dos mecanismos que determinam a configuração espacial característica do capitalismo, desembocou numa reconstituição da “crítica da economia política”.
Nesse afã, Os limites do capital se constituiu como uma exposição eminentemente teórica. Harvey não deixa de ressaltar, no entanto, que o livro prescinde das dimensões históricas, geográficas e políticas da obra de Marx tão somente por conta do recorte do objeto.
No decorrer do tempo, aquilo que a princípio parecia menos, revelou-se mais. O demorado mergulho nos “deserto de gelo da abstração”* estabeleceu um reservatório que possibilitou a Harvey, desde então, intervir com pertinácia em diversos debates políticos e teóricos. Municiado como poucos, propôs reflexões instigantes nas sucessivas pautas desencadeadas pelas profundas modificações históricas do capitalismo nos últimos quarenta anos. Emergiram assim uma série de indagações que ele procurou, na sequência, resolver, moldando inflexões inesperadas por meio das quais, sem abandonar o solo original, sua obra ultrapassou a condição de mera geografia do capital.
Os passos de Harvey reiteram um procedimento recorrente na linhagem do marxismo. Os autores dessa vertente, desde Friedrich Engels, conduziram a tarefa de atualização do materialismo histórico, exigência inerente a um movimento que se concebe como eminentemente histórico, combinando o diagnóstico do presente histórico com uma revisitação da obra de Marx – revisão que resultou, nos casos bem-sucedidos, tanto numa interpretação original da teoria marxiana como na ampliação do escopo da doutrina.**
A ordem dos fatores é indiferente. Embora Harvey tenha começado com uma apresentação da teoria marxiana, ele próprio reconhece que sua preocupação primordial consistia em buscar respostas para os desafios impostos ao marxismo pela crise econômica que eclodiu, com uma intensidade inaudita desde 1929, nos primeiros anos da década de 1970.
Em seu esforço para compreender a crise da década de 1970, ele testou as principais explicações prevalecentes no interior da linhagem marxista, identificando problemas em cada uma delas.
Harvey considera que a tese do “esmagamento do lucro” – aquela que “encara que a organização da força de trabalho e a escassez de mão de obra reduzem a taxa de acumulação até o ponto de crise da classe capitalista e, por extensão do sistema capitalista como um todo” (p.28) – explica parcialmente a situação, mas não consegue fornecer respostas convincentes para alguns dos pontos decisivos da crise.
Ele rejeita também a tese de que a crise seria provocada por “subconsumo” ou, numa terminologia não-marxista, por deficiências na demanda efetiva. Essa teoria, apresentada inicialmente por Rosa Luxemburgo, defendida e desenvolvida por adeptos do marxismo keynesiano, também lhe pareceu incapaz de explicar os fenômenos específicos da crise dos anos 1970.
Por fim, Harvey discorda da teoria da “queda tendencial da taxa de lucro”, que consistiria num resultado não previsto pelos capitalistas em seu denodo para introduzir na indústria inovações tecnológicas e reduzir a força de trabalho. Afirma que, “o próprio Marx anexou tantas advertências, condicionalidades e circunstâncias mitigadoras a essa teoria que é difícil sustentá-la como uma teoria geral da crise” (p.28).
A teoria delineada por Harvey procura, no entanto, incorporar dimensões dessas três correntes. Em sua busca de uma explicação mais abrangente considera que as crises econômicas do capitalismo derivam, em última instância, de sua tendência congênita à superacumulação de capitais. Nas palavras de Harvey: “as crises surgem quando as quantidades sempre crescentes de mais-valia que os capitalistas produzem não podem ser absorvidas lucrativamente” (p.28).
Para explicar o pós-modernismo, Harvey recorre ainda ao arsenal teórico da “escola da regulação”, em particular, à sua famosa distinção entre “regime de acumulação” e o “modo de regulação” social e política que lhe é associado. Nesse diapasão, Harvey identifica no pós-modernismo uma ruptura com o modelo de desenvolvimento capitalista prevalecente desde 1945. A partir da recessão de 1973, a forma de acumulação predominante, o fordismo, foi minada pela crescente competição internacional e pela combinação de baixas taxas de lucros corporativos e de um processo inflacionário em aceleração. A soma desses fatores desencadeou uma crise de superacumulação.
A resposta da classe capitalista e dos governos dos países centrais a essa situação desdobrou um novo regime de acumulação. Nesse regime, denominado “flexível” por Harvey, o capital retomou sua margem de manobra e seu controle sobre o mercado de trabalho. Sua principal estratégia foi a “precarização” das relações trabalhistas, com o estabelecimento de contratos temporários e a incorporação de força de trabalho imigrante.
Contribuíram para tanto outros fatores como a transposição – em busca de custos reduzidos – de unidades fabris para outros países ou regiões. A produção de mercadorias também foi revolucionada por processos just in time, pela prioridade dada aos lotes de encomendas etc. A principal transformação, no entanto, ocorreu nos mercados financeiros com a desregulamentação das transações em moedas (câmbio), crédito e investimentos. Esse novo regime de acumulação forneceu o solo para a cultura pós-moderna, para uma nova sensibilidade moldada pela desmaterialização do dinheiro, pelo teor efêmero da referência monetária, pela instabilidade econômica.
NOTAS
* A expressão “deserto de gelo da abstração” é de Walter Benjamin, como lembra Adorno no Prefácio da Dialética negativa (Rio de Janeiro: Zahar, 2009).
** Sobre o papel de Engels na determinação dos procedimentos típicos da tradição marxista, ver  “O primeiro marxista”. Em: Boito, Armando & Toledo, Caio Navarro et al. (orgs.). A obra teórica de Marx. São Paulo: Xamã/Editora da Unicamp, 2000 p.81-89.
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Ricardo Musse é professor no departamento de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Doutor em filosofia pela USP (1998) e mestre em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992). Atualmente, integra o Laboratório de Estudos Marxistas da USP (LEMARX-USP) e colabora para a revista Margem Esquerda: ensaios marxistas, publicação da Boitempo Editorial. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas.
in Boitempo, com a devida vénia

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Fogueiras que podem incendiar o mundo

Washington irá lançar ataques aéreos contra os grupos terroristas na Síria como uma justificativa para entrar em território sírio.

O mundo precisa de parar esta guerra. Se os EUA lançarem ataques aéreos na Síria para atingir as organizações terroristas, será considerado uma agressão contra o governo Assad. Se os civis inocentes ou as forças governamentais sírias são mortos nos ataques, o governo Assad provavelmente responderá com uma acção militar. Rússia, China e a maioria dos países ao redor do mundo condenam acções no território soberano da Síria. Os EUA querem Assad fora do poder. ISIL foi criado pelos EUA e seus aliados na região. Este é o início da Terceira Guerra Mundial? Esperemos que não. O governo sírio pode derrotar ISIL por conta própria se Washington parar de enviar armas para a região. A pergunta que devemos fazer é: quem vai receber os carregamentos de armas americanas agora. ISIL?

domingo, 14 de setembro de 2014

HTTP://WWW.PUBLICO.PT/MUNDO/NOTICIA/CRITICA-DA-RAZAO-IMPURA-1669253?PAGE=-1


OPINIÃO

Crítica da razão impura


Não se pode duvidar de que todos os nossos conhecimentos começam com a experiência, são as palavras com que Immanuel Kant inicia o seu monumental tratado publicado em 1781. «A experiência é madre das cousas…» já lembrava o grande universalista Duarte Pacheco Pereira nos dias venturosos de 1508. Devemos pois considerar seriamente a experiência.
De facto, a experiência que estamos a viver nesta crise prolongada tem-nos ensinado e feito reflectir muito sobre o estado das coisas neste mundo. Um estado a que presentemente assiste uma razão muito impura. Porque não acredito que os males que nos afligem sejam apenas obra e graça dos Espírito Santos.
Fomos fracos. Ano após ano, década atrás de década de propaganda sistemática e envolvente levaram-nos a não querer ver nos Estados Unidos o centro de uma organização hegemónica quase-imperial -- que ordenou o sistema-mundo durante a maior parte do século XX -- e a não aceitar os europeus ocidentais como seus satélites. Não, nós éramos os ‘aliados’. Satélites eram os países do leste europeu em relação à União Soviética. E como num filme, assistimos de olhos esbugalhados à implosão do ‘império’ soviético, de cujo fragor ideológico a esquerda ainda não se recompôs. Porém a Rússia continua a desempenhar um papel de peso na cena internacional, embora com outros contornos.
Apelidar as nossas sociedades de capitalistas era coisa que parecia mal, que só podia significar apoio à causa do comunismo internacional, enfim, ao diabo! Era uma traição à ordem democrática do nosso mundo. E, no entanto, o capitalismo não é apenas um regime do poder económico como nos quiseram impingir mas sim uma verdadeira ordem social institucionalizada, tal como o feudalismo de outos tempos. Tanta foi a propaganda e a desinformação que ainda nos custa admitir que o sistema-mundo em que vivemos desde o século XVII e que tantas glórias (e desgraças) trouxe às Europas foi impulsionado pela acumulação consentida de capital. O capitalismo é um produto histórico, como todas as outras estruturas e instituições que os humanos criaram e utilizaram. Assim como teve um começo, terá um fim.
O problema é que o fim do capitalismo tem sido anunciado desde há mais de um século a esta parte. E ainda que a morte do capitalismo será o ponto de partida para uma sociedade mais justa e melhor. Mas nada disto parece ter acontecido. Ou seja, provavelmente teremos de deixar de pensar nestes termos.
A última transição histórica, do feudalismo para o capitalismo, demorou uns duzentos anos, dois longos séculos de grandes incertezas e complexidade. Ninguém adivinharia que uma sociedade capitalista ia surgir dos escombros do mundo feudal. Assim deveremos pensar hoje. O fim do capitalismo corresponde a uma época de fragmentação, de descoordenação, de retorno a um capitalismo selvagem que só ajuda à desordem instalada. O seu estertor não resulta de uma decisão colectiva em direcção a um futuro melhor. Antes fosse… pobre Ocidente, que inventou a história como base para compreender a transformação social, que agora vê a evolução não ter sentido e os valores que apregoou como universais serem pisados e abusados.
Um projecto de investigação plurianual coordenado por Immanuel Wallerstein, apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e cujos resultados são publicados neste mês de Setembro num livro com o título “The Time is Out of Joint” (O Tempo está Desconjuntado -- uma citação bem conhecida doHamlet) ao analisar a evolução do sistema-mundo nos últimos quatrocentos anos conclui exactamente que o efeito das sucessivas e sistemáticas polarizações induzidas pelo funcionamento capitalista das nossas sociedades gerou uma situação de enormes incertezas e onde a complexidade impera.
É este o mundo em que vivemos. Porque durou tanto (ou tão pouco) esta situação a manifestar-se? O capitalismo, que no topo privilegia apenas um pequeno número de seres humanos, precisa para sobreviver da cumplicidade activa da sociedade que domina, como muito bem explicou Fernand Braudel. O Estado-nação moderno não criou o capitalismo, mas herdou-o. E o capitalismo triunfou porque conseguiu identificar-se com o Estado no processo de expansão das nações europeias pelo mundo. A acumulação indefinida de capital ‘casava’ bem com a noção de progresso iluminista de que ‘mais é melhor’.
Por outro lado, os Estados-nação liberais – impondo por intrínseca necessidade uma divisão dos poderes por diferentes órgãos de soberania – tornaram mais fácil a sua captura por parte do poder financeiro. O recurso periódico a eleições obriga os representantes políticos a apresentarem-se para escrutínio pelo povo todos os 4 ou 5 anos – criando a oportunidade de uma avaliação primária regular dos seus préstimos pelas elites do capital, que não se coíbem de interferir nas campanhas eleitorais quando os seus superiores interesses estão em causa. O prazo é curto: a rédea também.
O capitalismo adaptou-se bem à luta pela vida no mundo moderno. Recorre e provoca sistematicamente crises, no decorrer das quais se metamorfoseia e apura, eliminando as peles mortas. Mas é condicionado pelas oscilações e roturas que limitam o sistema-mundo.
Na primeira metade do século XX o centro do sistema-mundo deslocou-se de Londres para a costa leste dos Estados Unidos, no rescaldo das guerras mundiais que derrotaram a Europa. As sociedades capitalistas modernas americanizaram-se – a maior ou menor contragosto – e o capitalismo adoptou como figura central a grande empresa industrial, hierarquizada e integrada. Contudo, a dinâmica da sociedade industrial estava esgotada, já dera os seus frutos, e o mecanismo ‘gripou’, com a abertura da China à economia mundial e a nova demografia do globo, com as ‘crises do petróleo’ e as novas tecnologias da informação. O capitalismo financeiro reagiu, transmutou-se em ‘informacional’, tomou a liderança do sistema e continuou a fazer mais do mesmo: acumular até não poder mais, agora através da globalização das finanças, da deslocalização da indústria, dos direitos da propriedade intelectual e do crédito barato – uma ‘perestroika’ à americana. Os paraísos fiscais multiplicaram-se… e as grandes fraudes também.
E nós, crédulos, acreditámos na propaganda do grande sucesso americano, que tão somente ocultava a enorme ineficiência e desperdício da economia no centro do sistema-mundo. Alguém teria finalmente de pagar a factura: caiu em sorte (ou melhor dizendo, azar) aos suspeitos do costume: aos ‘aliados’ da Europa e aos mais ou menos dependentes latino-americanos e asiáticos. Iludidos ou não com o génio, o conhecimento e a audácia dos financeiros globais dos reinados de Bush, Clinton & Bush, os povos da periferia têm de pagar sempre, e com juros… a dívida da cupidez privada do centro deve ser irrevogavelmente transferida para a esfera da responsabilidade pública indígena. Está nos manuais. E a razão - impura – impera: a punição é devida por uma ‘vida acima das possibilidades’.
Só que o tempo joga contra o capitalismo financeiro: assim como o feudalismo foi destruído pelo aparecimento da artilharia, o capital sem fronteiras já foi vencido (embora se recuse a admiti-lo) pela introdução das armas nucleares, que funcionam como a garantia final da soberania territorial. Afinal, este é um segredo de Polichinelo: nenhuma potência nuclear vai admitir que as suas fronteiras sejam violadas através de operações que não controlem ou que as destabilizem. Por enquanto isso poderá não parecer evidente, pois a Índia e o Paquistão ainda não emergiram completamente do 3º mundo e as ogivas nucleares das forças inglesas são americanas. No continente europeu apenas os russos e os franceses possuem um poder nuclear autónomo (estes, graças ao general de Gaulle); o resto ‘repousa’ maioritariamente sob a égide da aliança atlântica ou mesmo na existência de bases militares americanas, como acontece em solo alemão. Mas o mundo não pára - talvez nesta perspectiva melhor se percebam os porquês da questão nuclear iraniana e porventura se entenda como a guerra no Médio Oriente traz um tão perigoso potencial de disrupção.
Creio que o capitalismo como sistema histórico encontrou o seu fim (o que não quer dizer que desapareça de hoje para amanhã) e que Francis Fukuyama se enganou redondamente ao não qualificar o seu “fim da história” como “o fim da história moderna”. A acumulação (pretensamente) infinita de capital financeiro intangível já não engana nem seduz ninguém – é apenas mais um Eldorado estafado cujos destroços atravancam o caminho do futuro. Futuro esse que aos olhos de hoje parece tão incerto e complexo como o ‘Destino’ que assombrava as mentes dos nossos antepassados de Quinhentos. A crise revela apenas a transição; a complexidade traduz a magnitude da transformação. Esta ‘crise’ é civilizacional. O período à nossa frente é de luta sem quartel. Há que estar equipados, intelectual, material e fisicamente para a travar.
No meio disto tudo, quem eram os Espírito Santos? Ninguém, tal como o romeiro da célebre peça de Almeida Garrett. Uns desenraizados, vivendo (estes sim) acima das suas possibilidades, apenas porque nos anos 1980 a CIA e um ex-embaixador americano entenderam que o governo português devia trazer uns cacos das antigas elites financeiras da paróquia para legitimar a reprivatização da banca. Sem controlo de qualidade. Claro que ia dar asneira. Uma má educação sai sempre cara.
O que poderemos então antever? O século XVII viu o aparecimento da ciência moderna – e todo um mundo novo começou a fazer sentido. Assim esperemos que aconteça, no decurso mais ou menos longínquo deste século. Só podemos aspirar a que a bifurcação por onde estamos a enveredar seja a de uma nova ciência e a de uma nova educação que nos voltem a encantar com o que descobrirmos no universo e na vida.

Físico e professor universitário

sábado, 13 de setembro de 2014

Perguntas

É difícil evitar uma associação entre racismo e nazi-fascismos. O desenvolvimento de uma mentalidade racista conduz, no seu radicalismo, quase sempre (ou sempre?) a teorias nazi-fascistas. Na acção, na acção política sobretudo, uma teoria conduz quase sempre (ou sempre?) a práticas que a realizam. O sionismo, pelo seu chauvinismo exacerbado de "raça superior", "justifica" as práticas da nação judaica de genocídio dos palestinianos ("árabes" de maneira geral), o que o aproximou, ou mesmo confundiu, com o nazismo que exterminou milhões de judeus. Já não se sabe se foi esse judaísmo que copia os anteriores carrascos nazis, se foram estes que copiaram esse sionismo (antes do nazismo os "pais" do sionismo já se exprimiam em termos que vieram a ser replicados pelos nazis).
Parece suceder outro tanto com o fundamentalismo muçulmano. A doutrina expansionista racista do fundamentalismo religioso islamista decalca a doutrina nazi-fascista. A sua prática não se diferencia do racismo terrorista do sionismo, nem do expansionismo genocida dos nazis.
É o mal da guerra (os seus efeitos monstruosos sobre a conduta humana) que explica, ou uma mentalidade, uma justificação ideológica?

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

OPINIÃO

Ode ao conflito

O capitalismo tende a impor uma sociedade de consumo e a criar uma globalização de cidadãos que devem estar predispostos a consumir, abdicando da reclamação e do confronto de interesses ou de posições.
A experiência do conflito faz parte do campo social onde ele se manifesta de uma forma transversal que pode ir da política à literatura. Não terão o mesmo impacto, sequer o mesmo valor colectivo, uma greve de operários e a relação de confronto com um texto ou um filme ou uma doença (embora, individualmente, estes conflitos possam tomar proporções dolorosas). E, contudo, na actualidade o conflito é tomado como algo remanescente, arcaico e até bárbaro. Como coisa a ser diabolizada, sobretudo porque os conflituosos são geralmente associados aos que reivindicam, contestam, reclamam, ocupam, propõem o dissensus.No estádio actual, o capitalismo tende a impor uma sociedade de consumo e a criar uma globalização de cidadãos que devem estar predispostos a consumir, abdicando da reclamação e do confronto de interesses ou de posições. Isto é tanto mais evidente quanto os governos ou reclamam o fim da conflitualidade ou a escamoteiam. Em qualquer dos casos, transferem para o lado dos opositores – sejam eles os sindicatos, os manifestantes da oposição ou os intelectuais – o ónus da criação do conflito, escamoteando também que o conflito resulta sempre do confronto de interesses e que os interesses estão associados a valores. Ao trabalho intelectual que deve subentender aquilo a que os gregos chamavam aletheia (a desocultação e a justiça das coisas) cabe não só assumir o conflito como, se necessário, produzi-lo. E ele é tão ou mais relevante quanto muitos outros o não podem fazer por receios vários.Não se trata de reeditar a ideia do intelectual orgânico de Gramsci, uma ideia vanguardista de fusão do intelectual com o povo. Trata-se de fazer política com as palavras, repondo a ideia expressa na teoria da política de J.L Austin segundo a qual os actos da fala podem ser de enorme força reclamativa.
Uma das tarefas prementes do tempo presente é entender, desconstruir e explicar os mecanismos de dominação que passaram de fases de primarismo pós-industrial para a globalização financeira suportada pela proximidade e entreajuda entre os governos nacionais e os governos financeiros. Porém, nem tudo é igual e as proposições generalistas e a longo prazo falham por transferirem para o futuro impensado projecções que olvidam o presente.
Por isto, a análise dos mecanismos de dominação deve ser feita compreendendo e intervindo na conjuntura precisa.
Era isto o que preconizava Stuart Hall ao afirmar que “o terreno complexo e historicamente específico de uma crise que afecta – mas de formas desiguais – uma formação específica social-nacional como um todo” deve ser tomado como o momento em que se acumulam coisas, se intensificam contradições, se fundem ou separam pensamentos e actos ou acontecimentos – havendo em todos eles conflito. Daí a importância de trabalhar sobre a conjuntura e nela intervir intelectualmente, até porque as forças dos conflitos estão em contante mutação.
Não estamos condenados a conflitos internos e por vezes surge algum equilíbrio entre as forças. Deste momento pode dizer-se ser de compromisso entre as partes, o que pode ter alguma durabilidade exterior; mas em qualquer conjuntura o conflito está ou latente ou manifesto.
Importa nunca confundir compromisso com consenso. Enquanto o primeiro resulta de negociação cultural na mais abrangente definição deste termo, o segundo – o consenso – é o adiamento de um conflito, um modo cínico de enfraquecer a energia potencial e criadora que existe no conflito quando este está ainda muito longe de ser guerra.
A este propósito, e para evitar a culpa que a noção de conflito pode inculcar em alguns intelectuais, será oportuno reler a peça Mãe Coragem de Bertolt Brecht – onde, para evitar assumir o conflito, a heroína conduz à morte os dois filhos. Também oportuna será a leitura de Na solidão dos campos de algodãode Bernard-Marie Koltés, onde fica explícito que é prioritário assumir o conflito como inevitabilidade entre sujeitos opostos e só enfrentando-o se pode conseguir uma paz episódica. Só assim se entende que o que define o intelectual e lhe dá autoridade é a sua capacidade de criar alteridade. Caso contrario, o intelectual não é necessário. 
in jornal PÚBLICO

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

CLAUSTROFOBIA