Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
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Publicado no ‘Avante!’ n.º 2133, em 2014/10/16 e em: http://www.avante.pt/pt/2133/opiniao/132497/
Colocado em linha em: 2014/10/20
Pirómanos
Jorge Cadima
Há quase um mês, Obama anunciou ataques aéreos no Iraque e Síria, alegadamente
para «atacar alvos do ISIL», o movimento terrorista também conhecido pela sigla
ISIS. O saldo é relatado pelo jornalista P. Cockburn no Independent(12.10.14): «Os
jihadistas estão prestes a tomar [a cidade de] Kobani, na Síria, e a parte ocidental
de Bagdade está em sério perigo». E acrescenta: «Numa ofensiva [...] desencadeada
a 2 de Outubro, mas pouco noticiada no resto do mundo, o ISIS capturou quase
todas as cidades e vilas que ainda não controlava na província de Anbar, uma vasta
região do Iraque ocidental que cobre quase um quarto do país». No vizinho Líbano
os jihadistas do ISIL atacaram a importante cidade de Baalbeck (Independent,
6.10.14). Tudo isto, apesar dos bombardeamentos norte-americanos (com numerosas
vítimas civis) e do regresso ao Iraque de 1600 soldados dos EUA e «dezenas de
soldados das forças especiais» do Canadá (Al Jazeera, 3.10.14). Pouco admira que
«no Iraque, [haja] profundas suspeitas de que a CIA e o Estado Islâmico estão
unidos», como titulava um artigo noNew York Times (20.9.14).
Se dúvidas houvesse sobre as origens do ISIL, o vice-presidente dos EUA Joseph
Biden, trouxe uma confissão de peso ao falar na Universidade de Harvard a 2 de
Outubro: «Os nossos aliados da região têm sido o nosso maior problema na Síria.
Os turcos [… e] os sauditas, os dos Emirados, etc. [...] Estavam tão decididos a
abater Assad […] que despejaram centenas de milhões de dólares e dezenas de
toneladas de armas nas mãos de quem quer que lutasse contra Assad – só que as
pessoas que estavam a ser abastecidas eram a [Frente] al-Nusra, e a Al-Qaeda, e os
elementos extremistas do jihadismo que vinham de todas as partes do mundo.
Pensam que estou a exagerar? Olhem bem. Onde foi tudo isto parar? [...] esta
organização chamada ISIL, que era a Al-Qaeda no Iraque, quando foi expulsa do
Iraque encontrou espaço e território aberto na Síria oriental […]. E nós não
conseguimos convencer os nossos aliados a parar de os abastecer» (Washington
Post, 6.10.14). A confissão de Biden, que o Washington Post considera
«surpreendente», não pelo seu conteúdo, mas por «ter sido expressa em público», é
duma falsa inocência. Biden culpa os serventuários. Mas é preciso muita ingenuidade
para acreditar que a todo-poderosa superpotência mundial, sempre pronta a castigar
recalcitrantes países ou dirigentes em qualquer parte do globo, «não conseguia
convencer» os seus aliados. A realidade – que o planeta inteiro conhece bem – é que desde há três anos os EUA e as potências imperialistas europeias – e não só os seus
aliados da região – estão empenhados em financiar e armar o jihadismo para abater
Assad. Criaram o ISIL, tal como criaram Bin Laden. Agora mostram-nos vídeos de
cidadãos ocidentais decapitados. Mas durante anos ignoraram todos os vídeos que os
próprios «rebeldes» colocavam na Internet, vangloriando-se de decapitar soldados,
civis, padres cristãos. Pior: a BBC (5.7.13) deu-se ao trabalho de entrevistar um
«rebelde» que pôs na Internet o vídeo em que, não contente com esfolar vivo um
soldado sírio, comia os seus órgãos. E até arranjou motivos para «compreender» o
canibalismo. A culpa, claro, era de Assad.
É inteiramente legítima a suspeita de se estar perante uma manobra que, longe de
querer combater o ISIL, visa elevar o patamar de intervenção imperialista.
O Independent (12.10.14) levanta uma ponta do véu (de novo apontando o dedo a
outros): «A Turquia está a exigir [...] uma zona tampão […], dentro da Síria, onde
viveriam refugiados sírios e seriam treinados os rebeldes anti-Assad. O Sr. Erdogan
quer uma zona de interdição aérea que também seria dirigida contra o governo de
Damasco, uma vez que o ISIL não tem força aérea. Se concretizado, este plano
significaria que a Turquia entraria na guerra civil síria, ao lado dos rebeldes». Os
pretextos vão variando e tornam-se cada vez mais delirantes. Mas o imperialismo
continua a atear fogo ao planeta, no seu afã de dominação.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Vira o disco e toca o mesmo
As últimas sondagens apontam para a probabilidade de uma maioria absoluta do PS nas próximas eleições legislativas (que podem ser antecipadas ou não). Tal alteração nas inclinações do eleitorado resulta da vitória de A. Costa nas "primárias". Basta uma figura messiânica (apadrinhada pelos media) e uma aparente participação do cidadão comum na escolha do candidato a 1º ministro (figurino norte-americano altamente eficaz) para o PS ampliar a sua base social de apoio. O que fez o PS até à data para forçar a demissão deste governo? Nada, bem pelo contrário. Com facilidade e um golpe de astúcia cai-lhe no colo uma maioria absoluta. Ou seja: entendimentos à esquerda só para "inglês ver", virar as políticas à esquerda nem promete nem se compromete. Quer-se o mesmo rumo "europeísta"? A maioria absoluta é garantia. Foi assim no passado, porque não ser no futuro?José Sócrates, o das PPP e outros negócios, já canta de galo e lava a mão com a outra: o Costa fez parte do seu governo que, de mão dada com o PSD e o CDS, trouxe a tróika...
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
"Perdoe-nos para a existência do nosso país no meio de suas bases militares" - Discurso do Ministro das Relações Exteriores russo Lavrov na ONU
Por Carla Stea
Em um discurso corajoso e brilhante para a Assembleia Geral das Nações Unidas em 27 de setembro de 2014, o chanceler russo, Sergei Lavrov rasgou o véu da ofuscação que caracteriza muitos discursos nas Nações Unidas, e entregue uma denúncia contundente do imperialismo ocidental, o imperialismo que pode apenas ser descrito com precisão como o roubo global. Lavrov, em nome da Federação Russa implicitamente alertou que os EUA / NATO está arriscando uma guerra global em embarcar em sua campanha para conquistar e dominar territórios imensos, enquanto inexorável e implacável determinado a conquistar e subjugar a Rússia, depois de ter aprendido nada com a realidade histórica que Napoleão de esforço para dominar a Rússia levou ao colapso da França napoleônica, ea tentativa de Hitler de subjugar a Rússia levou à obliteração de seu Terceiro Reich.
Talvez esta terceira tentativa de conquistar e subjugar a Rússia pode levar não só a guerra que abrange grandes territórios do globo, mas, dialeticamente, pode ser o catalisador que leva ao declínio final do capitalismo, um sistema econômico que vive quase inteiramente sobre o imperialismo, e é passando por uma crise, possivelmente terminal, como descrito pelo economista francês, Thomas Piketty em sua obra best-seller "Capital no século 21." Em desespero, o capitalismo ocidental disfuncional está atacando de forma imprudente e irracionalmente, sem vontade e incapaz de impedir as conseqüências desastrosas das suas políticas míopes. E uma possível conseqüência das atuais políticas dos EUA / NATO é uma guerra termonuclear.
Lavrov declarou: "A aliança ocidental liderada pelos Estados Unidos que se retrata como um campeão da democracia, do Estado de direito e dos direitos humanos em cada país, atua a partir de posições diretamente opostas na arena internacional, rejeitando o princípio democrático da igualdade soberana dos Estados consagrados na Carta das Nações Unidas e tentando decidir por todos o que é bom ou mau ".No total desprezo pela verdade e do direito internacional, a escalada da crise ucraniana de Kiev está sendo implacavelmente preparado, num último ato de fraude, como ucraniano Presidente Poroshenko assume regalia militar, ameaçando a sobrevivência da Rússia, e, na verdade, a sobrevivência de seu país à falência, e agora está falando de uma guerra com a Rússia.
"Washington declarou abertamente o seu direito de uso unilateral da força em qualquer lugar para defender seus próprios interesses. Interferência militar tornou-se uma norma - mesmo apesar do resultado desanimador de todas as operações de poder que os EUA tem realizado ao longo dos últimos anos ".
"A sustentabilidade do sistema internacional foi severamente abalada por bombardeios da OTAN da Jugoslávia, a intervenção no Iraque, o ataque contra a Líbia eo fracasso da operação no Afeganistão. Só devido a intensos esforços diplomáticos a agressão contra a Síria foi impedido em 2013, há uma impressão involuntário que o objetivo de várias "revoluções coloridas 'e outros projetos para mudar regimes inadequados é provocar o caos e instabilidade."
"Hoje a Ucrânia foi vítima de uma política tão arrogante. A situação não revelou os restantes falhas sistêmicas profundas da arquitetura existente na área euro-atlântica. O Ocidente embarcou o curso no sentido de 'estruturação vertical da humanidade "adaptada às suas normas quase inofensivos. Depois, eles declararam a vitória na Guerra Fria eo "fim da história", os EUA ea UE optaram por expandir a área geopolítica sob seu controle, sem levar em conta o equilíbrio de interesses legítimos de todos os povos da Europa [...] NATO alargamento a Leste continuou, apesar das promessas em contrário dada anteriormente. O interruptor instantâneo da NATO à retórica hostil e ao levantamento da sua cooperação com a Rússia, mesmo em detrimento de interesses próprios do Ocidente, e acumulação adicional de infra-estrutura militar nas fronteiras russas - se óbvia a incapacidade da aliança para mudar a genética Código-lo incorporado durante a era da Guerra Fria. "
"Os EUA ea UE apoiou o golpe de Estado na Ucrânia e reverteu a justificativa pura e simples de todos os actos das autoridades auto-proclamados Kiev que optaram por supressão por força da parte do povo ucraniano, que havia rejeitado as tentativas de impor o anti -constitutional maneira de vida para todo o país e queria defender os seus direitos para a língua nativa, cultura e história. É precisamente o ataque agressivo sobre esses direitos que obrigaram a população da Criméia para tomar o destino em suas próprias mãos e fazer uma escolha em favor da auto-determinação. Esta foi uma escolha absolutamente livre, não importa o que foi inventado por aqueles que são responsáveis, em primeiro lugar para o conflito interno na Ucrânia. "
"As tentativas de distorcer a verdade e esconder os fatos por trás acusações cobertor foram realizadas em todas as fases da crise ucraniana. Nada foi feito para rastrear e processar os responsáveis por fevereiro eventos sangrentos em Maidan e enorme perda de vidas humanas em Odessa, Mariupol e outras regiões da Ucrânia. A escala do desastre humanitário terrível provocada pelos atos do exército ucraniano, na Ucrânia, do Sudeste foi deliberadamente subestimados. Recentemente, novos fatos horríveis foram trazidos à luz quando valas comuns foram descobertas no subúrbio de Donetsk. Apesar da Resolução SG da ONU 2166 uma investigação completa e independente das circunstâncias da perda do avião da Malásia sobre o território da Ucrânia foi prolongada. Os culpados de todos esses crimes devem ser identificados e levados à justiça. Caso contrário, a reconciliação nacional na Ucrânia não se pode esperar. "
No mês passado, Washington prometeu e entregou 53 milhões de dólares do dinheiro dos contribuintes dos EUA para fornecer ajuda militar ao regime de Kiev, que está usando o cessar-fogo organizado pelo presidente russo Putin e da OSCE como uma oportunidade para adquirir armas mais sofisticadas e mortíferas e se preparar para mais um bárbaro ataque contra civis no leste e sudeste da Ucrânia, onde o massacre de quase 4.000 cidadãos de Leste Ucrânia ea situação desesperada de mais de um milhão de refugiados seguiu o "segredo" visita a Kiev, (sob um nome falso) de diretor da CIA, John Brennan última Abril.
Mas talvez o anúncio mais descarada de US / intenção NATO para infligir ainda mais carnificina contra os cidadãos de Leste Ucrânia, cuja rejeição do Nazi infestada e ocidental regime controlado em Kiev resultou na campanha de extermínio dos seus cidadãos dissidentes ucranianos de Kiev, é o retorno Kiev para este mês do Secretário de Estado dos EUA para assuntos europeus e euro-asiáticos, Victoria Nuland. Ms. Nuland foi feito mundialmente famoso (ou infame mundo) por sua declaração de Fevereiro "Foda-se a União Europeia", enquanto, em nome de seus patrocinadores neoconservadores em Washington, ela projetou a desestabilização e derrubada do da Ucrânia democraticamente eleito presidente Viktor Yanukovich, mergulhando Ucrânia na guerra civil que tem o potencial de engolindo o mundo de uma conflagração que será conhecido como a Terceira Guerra Mundial.
Em sua 07 outubro de 2014 discurso ao Taras Shevchenko Universidade Nacional de Kiev, Ms. Nuland se gabou: "A Ucrânia este ano recebeu US $ 290 milhões em apoio financeiro dos Estados Unidos mais uma garantia de empréstimo de bilhões de dólares. E agora você tem o que muitos de vocês estavam na Maidan para, você tem um acordo de associação com a Europa e um acordo de comércio livre abrangente e aprofundada. "Isso" Acordo de Associação "detém Ucrânia refém virtual para a NATO e do FMI, cuja imposição de "medidas de austeridade" irá degradar ainda mais as condições de vida dos ucranianos já empobrecidas. Ms. Nuland traz um Cavalo de Tróia para a Ucrânia, untuosamente lisonjeiro estudantes ucranianos crédulos, que acabará por fornecer carne para canhão para a guerra que os EUA / NATO está incitando.
Mais adiante, em seu discurso de 27 de setembro a Assembléia Geral da ONU, o chanceler russo, Lavrov afirma:
"Deixe-me lembrar uma história de não tão longe atrás. Como condição para o estabelecimento de relações diplomáticas com a União Soviética em 1933, o governo dos Estados Unidos exigiu de Moscou as garantias de não interferência em assuntos internos de os EUA ea obrigação de não tomar quaisquer medidas com vista a alterar a ordem política ou social nos Estados Unidos. Naquela época Washington temia um vírus revolucionário e as garantias acima foram colocados no registro com base na reciprocidade. Talvez, não faz sentido voltar a este tema e reproduzir que a demanda do governo norte-americano em uma escala universal. A Assembléia Geral não deveria adotar uma declaração sobre a inadmissibilidade de interferência em assuntos internos de estados soberanos e não reconhecimento de golpe de Estado como um método da mudança de poder? Chegou a hora de excluir totalmente a partir da interação internacional as tentativas de pressão ilegítima de alguns estados sobre os outros. A natureza sem sentido e contraproducente de sanções unilaterais é óbvio, se tomamos um exemplo do bloqueio dos EUA a Cuba "."A política de ultimatos e filosofia de supremacia e dominação não atendem às exigências do século 21 e contrário ao processo objetivo de desenvolvimento de uma ordem mundial policêntrica e democrática."
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terça-feira, 14 de outubro de 2014
1
Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
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Publicado em 2014/10/05, em: http://manifesto74.blogspot.pt/2014/10/o-imperialismo-existe.html#more
Colocado em linha em: 2014/10/13
O IMPERIALISMO EXISTE
Bruno de Carvalho
O processo mental de construção daquilo que quero escrever é uma espécie de nuvem
que se vai alimentando de factos até crescer de tal forma que desagua numa
tormentosa necessidade de escrever. Acontecimentos tão distantes geograficamente
como os que se passam no Curdistão, na Venezuela e em Portugal cruzam-se com
outros cuja distância não se mede em quilómetros mas em anos. Há pouco tempo,
com um amigo colombiano que visitava a capital portuguesa pela primeira vez,
debatíamos sobre a miserável assepsia que brotava da ideia dominante de que a
Europa era um continente exemplar. Meses antes, havíamos estado num remodelado
mercado de uma cidade europeia que já fora palco de violentos combates entre o
operariado e as forças da repressão. Depois de um processo de reconfiguração, o que
havia sido um importante centro industrial era agora um cartão de visita para o
turismo. Do fumo das granadas de gás e dos fortes cheiros que cuspiam as fábricas
envolventes aos estaleiros, agora o ar que se respira é quase impoluto.
Quando entrámos no mercado deparámo-nos com a existência de escadas rolantes e
o espaço era tão limpo que ao meu companheiro de viagem não lhe coube mais do
que dizer: «No joda, esto en Colombia no seria un mercado. Seria un hospital».
Pensei no mesmo. E também cheguei à conclusão que é aquilo no que querem
transformar Lisboa. Depois da privatização da indústria e do seu desmantelamento, a
Lisboa já não cabe mais do que o simpático epíteto de «a cidade que está na moda».
Dizia-nos há poucos dias Paulo Portas, irrevogável vice-primeiro-ministro, que fomos
beneficiados pelas 'primaveras árabes' mas que também nos tínhamos esforçado por
conquistar o turismo. E as duas coisas são verdade. O facto é que durante décadas o
processo contra-revolucionário exigiu um esforço tremendo dos grandes grupos
económicos e financeiros para entregar o país à União Europeia e aprisioná-lo à
lógica imperialista do mercado europeu: a Portugal não lhe cabe mais do que o
turismo e a construção.
Enquanto debatíamos o tema no Miradouro de Santa Luzia, aproximou-se um
vendedor de óculos e relógios. Perguntámos-lhe donde era e respondeu-nos que
vinha do Burkina Faso. Levei a mão à cabeça, fiz a continência e em francês disse-lhe
«Viva o capitão Thomas Sankara!». Surpreendido e emocionado agarrou no
telemóvel e mostrou-nos a música que tinha como toque de chamada. Numa das
2
partes mais velhas de Lisboa, soava a canção dos Alpha Blondy dedicada a um dos
mais desconhecidos líderes revolucionários africanos que acabou assassinado pelo
seu camarada Blaise Compaore, comprado pelo imperialismo francês.
Os discursos de Thomas Sankara eram verdadeiras lições de dignidade. À antiga
colónia Alto Volta, o jovem capitão decidiu propor que se chamasse Burkina Faso,
terra de homens íntegros. As transformações operadas naquele país foram tão
profundas que o imperialismo não teve outra opção. Numa sessão da Organização da
Unidade Africana, posteriormente União Africana, deixou em cima da mesa a
proposta de suspender o pagamento da dívida e apelou a que todos o seguissem. Se
ele fosse o único presidente a fazê-lo, a probabilidade de não estar vivo na seguinte
sessão seria elevada.
Thomas Sankara surgiu-me há dias na minha nuvem mental quando recordei um
discurso que fez nos anos 80 em Ouagadougou. «Há gente que me pergunta o que é o
imperialismo», contava à assistência, «olha simplesmente para o prato que comes. O
milho e o arroz importado, isso é o imperialismo. Não há que ir mais longe. Aquele
que te alimenta impõe a sua vontade sobre ti». É dessa mesma realidade que se
alimenta a revolta dos pescadores portugueses impedidos pela União Europeia de
pescar sardinhas no mar português enquanto as nossas mesas se enchem de produtos
estrangeiros.
É tremendamente doloroso explicar o que é o imperialismo às consciências
colonizadas pela assepsia europeísta. Se o conceito de luta de classes lhes cheira a
mofo e lhes faz lembrar a roupa coçada dos avós que suavam na Sorefame e na
Cometna como não hão-de preferir Jacques Delors a Jerónimo de Sousa? As
consignas do Maio de 68 soam sempre melhores que as do operariado da Amadora
ou do Barreiro e Lénine teve azar de ter nascido russo porque se tem nascido em
Roma ou em Berlim, e, claro, se não tem encabeçado a revolução, faria parte da
bibliografia da esquerda tolerável. Falar da necessidade de recuperar a soberania
nacional é para eles um sacrilégio que equivale a todo o tipo de impropérios contra a
esquerda que supostamente convive com o nacionalismo quando se sabe que a
direita, a que representa os grandes grupos económicos e financeiros, aquela que tem
de ser derrotada, convive muito melhor com o europeísmo e tolera muito melhor
aqueles que à esquerda se digam a favor do projecto europeu.
Num continente em que o grito pátria ou morte é património da esquerda, esta
discussão é praticamente inexistente. Os grandes heróis latino-americanos não foram
académicos. Foram, na sua maioria, combatentes que lutaram pela independência e
pelo socialismo. Não se chamam Toni Negri ou Daniel Bensaid. Sobre isto, tive a
oportunidade de conversar muitas vezes com Juan Contreras, destacado dirigente do
23 de Enero, bairro simultaneamente bastião e símbolo do sector mais combativo da
revolução bolivariana. De noite e de dia, os militantes da Coordinadora Simón Bolívar
montavam guarda ao busto de Manuel Marulanda Vélez, líder histórico das FARC. A
qualquer momento, o paramilitarismo colombiano infiltrado na Venezuela podia
atentar contra o monumento. Isso nunca aconteceu mas Robert Serra, o jovem
3
deputado venezuelano caiu assassinado mais a sua companheira pela navalha do
imperialismo.
Eu vivi de perto a eleição de Robert Serra para a Assembleia Nacional venezuelana
precisamente porque Juan Contreras se candidatava como suplente de Serra. Ambos
encabeçavam a candidatura à parte ocidental de Caracas, zona profundamente
chavista. Não consigo imaginar o que deve ser para Juan assumir nestas
circunstâncias o lugar de Serra mas como qualquer revolucionário as declarações que
fez à imprensa só podiam ser as que fez: «Nunca desejei que fosse numa situação
como esta de dor e tristeza para o país. Darei todo o meu empenho». Será
provavelmente o primeiro militante dos colectivos do 23 de Enero, tão temidos pela
burguesia venezuelana, a sentar-se nas bancadas parlamentares.
Há dias, num outro artigo, comentava que talvez houvesse muita gente que só venha
a acreditar na interferência imperialista em processos soberanos, quando se
desclassifiquem documentos da CIA dentro de várias décadas. Mas há declarações
que denotam o óbvio. O vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, admitia,
anteontem, que a União Europeia não queria sancionar a Rússia e que Washington
impôs essa solução. Um dia antes, na escola Harvard Kennedy, Biden afirmava que o
presidente turco tinha admitido o erro de financiar com milhões de dólares e dezenas
de milhares de toneladas de armas para qualquer grupo que combatesse Bashar al-
Assad e que o grupo mais beneficiado havia sido o Estado Islâmico (ISIS). Ante a
confissão, Erdogan respondeu de forma intempestiva, o que obrigou o vicepresidente
norte-americano a pedir desculpa.
Portanto, o Estado Islâmico não tem nada, mesmo nada a ver com os Estados Unidos.
Deve ser por isso que não se atreve a atacar nenhum dos aliados do imperialismo que
partilham fronteira com o Iraque ou com a Síria: Turquia, Arábia Saudita e Israel. Só
não vê quem não quer. É tão descarado que a própria Euronews noticiava esta manhã
que a Turquia está a travar curdos que querem atravessar a fronteira que divide o
Curdistão turco e o Curdistão sírio para combater o ISIS em Kobani. O líder da
guerrilha curda PKK, Abdullah Ocalan, ameaçou romper o processo de paz se a
Turquia for conivente com a invasão de Kobani e com o massacre da população. Há
vários dias que a cidade curda está a ser assediada pelas forças do ISIS com a
resistência heróica de um povo habituado a ser maltratado.
É mais do que hora de rebentar com o muro ideológico que nos impõe todos os
preconceitos que nos fazem duvidar quase sempre das quase certezas em relação
àquilo que o imperialismo é capaz de fazer. Por que é mais fácil acreditar que Bashar
al-Assad é responsável por bombardeamentos químicos do que o contrário? Por que
teriam mais credibilidade os representantes da oligarquia europeia do que Muammar
Kadhaffi? Porque vivia numa tenda rodeado de uma guarda feminina de elite? É tão
difícil perceber que há uma estratégia concertada do imperialismo que golpeia neste
momento, simultaneamente, povos que resistem com toda a legitimidade? De entre
todas as contradições, por que não conseguimos compreender como já havia
formulado Lénine, há um século, que «os homens sempre foram na política vítimas
ingénuas do engano dos outros e do próprio, e continuarão a sê-lo, enquanto não
4
aprenderem a descobrir que por trás de todas as frases, declarações e promessas
morais, religiosas, políticas e sociais estão os interesses de uma ou de outra classe»?
Pelo Socialismo
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O IMPERIALISMO EXISTE
Bruno de Carvalho
O processo mental de construção daquilo que quero escrever é uma espécie de nuvem
que se vai alimentando de factos até crescer de tal forma que desagua numa
tormentosa necessidade de escrever. Acontecimentos tão distantes geograficamente
como os que se passam no Curdistão, na Venezuela e em Portugal cruzam-se com
outros cuja distância não se mede em quilómetros mas em anos. Há pouco tempo,
com um amigo colombiano que visitava a capital portuguesa pela primeira vez,
debatíamos sobre a miserável assepsia que brotava da ideia dominante de que a
Europa era um continente exemplar. Meses antes, havíamos estado num remodelado
mercado de uma cidade europeia que já fora palco de violentos combates entre o
operariado e as forças da repressão. Depois de um processo de reconfiguração, o que
havia sido um importante centro industrial era agora um cartão de visita para o
turismo. Do fumo das granadas de gás e dos fortes cheiros que cuspiam as fábricas
envolventes aos estaleiros, agora o ar que se respira é quase impoluto.
Quando entrámos no mercado deparámo-nos com a existência de escadas rolantes e
o espaço era tão limpo que ao meu companheiro de viagem não lhe coube mais do
que dizer: «No joda, esto en Colombia no seria un mercado. Seria un hospital».
Pensei no mesmo. E também cheguei à conclusão que é aquilo no que querem
transformar Lisboa. Depois da privatização da indústria e do seu desmantelamento, a
Lisboa já não cabe mais do que o simpático epíteto de «a cidade que está na moda».
Dizia-nos há poucos dias Paulo Portas, irrevogável vice-primeiro-ministro, que fomos
beneficiados pelas 'primaveras árabes' mas que também nos tínhamos esforçado por
conquistar o turismo. E as duas coisas são verdade. O facto é que durante décadas o
processo contra-revolucionário exigiu um esforço tremendo dos grandes grupos
económicos e financeiros para entregar o país à União Europeia e aprisioná-lo à
lógica imperialista do mercado europeu: a Portugal não lhe cabe mais do que o
turismo e a construção.
Enquanto debatíamos o tema no Miradouro de Santa Luzia, aproximou-se um
vendedor de óculos e relógios. Perguntámos-lhe donde era e respondeu-nos que
vinha do Burkina Faso. Levei a mão à cabeça, fiz a continência e em francês disse-lhe
«Viva o capitão Thomas Sankara!». Surpreendido e emocionado agarrou no
telemóvel e mostrou-nos a música que tinha como toque de chamada. Numa das
2
partes mais velhas de Lisboa, soava a canção dos Alpha Blondy dedicada a um dos
mais desconhecidos líderes revolucionários africanos que acabou assassinado pelo
seu camarada Blaise Compaore, comprado pelo imperialismo francês.
Os discursos de Thomas Sankara eram verdadeiras lições de dignidade. À antiga
colónia Alto Volta, o jovem capitão decidiu propor que se chamasse Burkina Faso,
terra de homens íntegros. As transformações operadas naquele país foram tão
profundas que o imperialismo não teve outra opção. Numa sessão da Organização da
Unidade Africana, posteriormente União Africana, deixou em cima da mesa a
proposta de suspender o pagamento da dívida e apelou a que todos o seguissem. Se
ele fosse o único presidente a fazê-lo, a probabilidade de não estar vivo na seguinte
sessão seria elevada.
Thomas Sankara surgiu-me há dias na minha nuvem mental quando recordei um
discurso que fez nos anos 80 em Ouagadougou. «Há gente que me pergunta o que é o
imperialismo», contava à assistência, «olha simplesmente para o prato que comes. O
milho e o arroz importado, isso é o imperialismo. Não há que ir mais longe. Aquele
que te alimenta impõe a sua vontade sobre ti». É dessa mesma realidade que se
alimenta a revolta dos pescadores portugueses impedidos pela União Europeia de
pescar sardinhas no mar português enquanto as nossas mesas se enchem de produtos
estrangeiros.
É tremendamente doloroso explicar o que é o imperialismo às consciências
colonizadas pela assepsia europeísta. Se o conceito de luta de classes lhes cheira a
mofo e lhes faz lembrar a roupa coçada dos avós que suavam na Sorefame e na
Cometna como não hão-de preferir Jacques Delors a Jerónimo de Sousa? As
consignas do Maio de 68 soam sempre melhores que as do operariado da Amadora
ou do Barreiro e Lénine teve azar de ter nascido russo porque se tem nascido em
Roma ou em Berlim, e, claro, se não tem encabeçado a revolução, faria parte da
bibliografia da esquerda tolerável. Falar da necessidade de recuperar a soberania
nacional é para eles um sacrilégio que equivale a todo o tipo de impropérios contra a
esquerda que supostamente convive com o nacionalismo quando se sabe que a
direita, a que representa os grandes grupos económicos e financeiros, aquela que tem
de ser derrotada, convive muito melhor com o europeísmo e tolera muito melhor
aqueles que à esquerda se digam a favor do projecto europeu.
Num continente em que o grito pátria ou morte é património da esquerda, esta
discussão é praticamente inexistente. Os grandes heróis latino-americanos não foram
académicos. Foram, na sua maioria, combatentes que lutaram pela independência e
pelo socialismo. Não se chamam Toni Negri ou Daniel Bensaid. Sobre isto, tive a
oportunidade de conversar muitas vezes com Juan Contreras, destacado dirigente do
23 de Enero, bairro simultaneamente bastião e símbolo do sector mais combativo da
revolução bolivariana. De noite e de dia, os militantes da Coordinadora Simón Bolívar
montavam guarda ao busto de Manuel Marulanda Vélez, líder histórico das FARC. A
qualquer momento, o paramilitarismo colombiano infiltrado na Venezuela podia
atentar contra o monumento. Isso nunca aconteceu mas Robert Serra, o jovem
3
deputado venezuelano caiu assassinado mais a sua companheira pela navalha do
imperialismo.
Eu vivi de perto a eleição de Robert Serra para a Assembleia Nacional venezuelana
precisamente porque Juan Contreras se candidatava como suplente de Serra. Ambos
encabeçavam a candidatura à parte ocidental de Caracas, zona profundamente
chavista. Não consigo imaginar o que deve ser para Juan assumir nestas
circunstâncias o lugar de Serra mas como qualquer revolucionário as declarações que
fez à imprensa só podiam ser as que fez: «Nunca desejei que fosse numa situação
como esta de dor e tristeza para o país. Darei todo o meu empenho». Será
provavelmente o primeiro militante dos colectivos do 23 de Enero, tão temidos pela
burguesia venezuelana, a sentar-se nas bancadas parlamentares.
Há dias, num outro artigo, comentava que talvez houvesse muita gente que só venha
a acreditar na interferência imperialista em processos soberanos, quando se
desclassifiquem documentos da CIA dentro de várias décadas. Mas há declarações
que denotam o óbvio. O vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, admitia,
anteontem, que a União Europeia não queria sancionar a Rússia e que Washington
impôs essa solução. Um dia antes, na escola Harvard Kennedy, Biden afirmava que o
presidente turco tinha admitido o erro de financiar com milhões de dólares e dezenas
de milhares de toneladas de armas para qualquer grupo que combatesse Bashar al-
Assad e que o grupo mais beneficiado havia sido o Estado Islâmico (ISIS). Ante a
confissão, Erdogan respondeu de forma intempestiva, o que obrigou o vicepresidente
norte-americano a pedir desculpa.
Portanto, o Estado Islâmico não tem nada, mesmo nada a ver com os Estados Unidos.
Deve ser por isso que não se atreve a atacar nenhum dos aliados do imperialismo que
partilham fronteira com o Iraque ou com a Síria: Turquia, Arábia Saudita e Israel. Só
não vê quem não quer. É tão descarado que a própria Euronews noticiava esta manhã
que a Turquia está a travar curdos que querem atravessar a fronteira que divide o
Curdistão turco e o Curdistão sírio para combater o ISIS em Kobani. O líder da
guerrilha curda PKK, Abdullah Ocalan, ameaçou romper o processo de paz se a
Turquia for conivente com a invasão de Kobani e com o massacre da população. Há
vários dias que a cidade curda está a ser assediada pelas forças do ISIS com a
resistência heróica de um povo habituado a ser maltratado.
É mais do que hora de rebentar com o muro ideológico que nos impõe todos os
preconceitos que nos fazem duvidar quase sempre das quase certezas em relação
àquilo que o imperialismo é capaz de fazer. Por que é mais fácil acreditar que Bashar
al-Assad é responsável por bombardeamentos químicos do que o contrário? Por que
teriam mais credibilidade os representantes da oligarquia europeia do que Muammar
Kadhaffi? Porque vivia numa tenda rodeado de uma guarda feminina de elite? É tão
difícil perceber que há uma estratégia concertada do imperialismo que golpeia neste
momento, simultaneamente, povos que resistem com toda a legitimidade? De entre
todas as contradições, por que não conseguimos compreender como já havia
formulado Lénine, há um século, que «os homens sempre foram na política vítimas
ingénuas do engano dos outros e do próprio, e continuarão a sê-lo, enquanto não
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aprenderem a descobrir que por trás de todas as frases, declarações e promessas
morais, religiosas, políticas e sociais estão os interesses de uma ou de outra classe»?
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
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A comercialização da alma
Robert Kurz
Foi-se o tempo em que as pessoas de vez em quando ainda ousavam pensar, envergonhadas, em outra coisa senão na sua própria venalidade e na de seu produto. Cada vez mais os indivíduos se transformam, de fato, naquele "homo economicus" que outrora era uma simples imagem da economia política clássica. Com a economização de todas as esferas da vida, a economização da consciência avançou num grau até havia pouco inconcebível -e isso, graças à globalização, nos quatro cantos do mundo, não só nos centros capitalistas. Quando até mesmo amor e sexualidade, tanto na ciência quanto no cotidiano, são pensados cada vez mais como categorias econômicas e estimados segundo critérios econômicos, a "comercialização da alma" parece irresistível. Não há mais, é lícito pensar, nenhum oásis emocional, cultural ou comunitário alheio às garras econômicas: o cálculo orientado pelo lucro abstrato e a política empresarial de custos perfazem, no início do século 21, todo o circuito da existência. Dessa tendência social à plena economização nasceu, evidentemente, um novo tipo de socialização: o modelo da família nuclear fordista (mãe, pai, um filho, um cachorro, um carro) foi reduzido ao modelo do celibatário pós-moderno assexuado ("mônada hermética", um computador, um celular). Aqui estamos às voltas, em certa medida, com indivíduos-concorrência solitários, municiados de alta tecnologia, que, ao mesmo tempo, regrediram socialmente ao estágio do ego infantil: "Célere, flexível, pronta para o trabalho, egoísta, traiçoeira, superficial" -assim descreve uma revista econômica alemã as qualidades essenciais da chamada "geração @". Pessoas com tal estrutura de caráter e forma de consciência teriam sido consideradas ainda nos anos 70 como perturbadas mentais e habilitadas a um tratamento sociopedagógico; hoje foram alçadas a modelo social. Isso porque somente uma combinação de inteligência tecnicamente reduzida a consertos domésticos, absoluto sangue-frio e imaturidade emocional pode possibilitar que a "adaptação ao mercado" por parte da pessoa chegue a extremos -e é justamente essa norma de conduta que requer o capitalismo global em crise. Não é à toa que se vêem com frequência sempre maior figuras púberes com a máscara do sucesso estampada no rosto. Esses são os supostos "fundadores" do novo empresariado na Internet, que trabalham feito loucos e se identificam com sua empresa a ponto de renunciarem a si mesmos. Regalando-se em suas fantasias de onipotência, imaginam mudar a face do mundo, embora seu conteúdo pessoal seja caracterizado por lastimável banalidade e redunde em efeitos tecnológicos mínimos ou em alguma forma de propaganda sem graça. Com o palavrório de entrevistadores pop, eles se vêem fazendo uma "revolução", ao passo que na verdade são acríticos e conformistas ao extremo perante a ordem dominante, num grau jamais alcançado por nenhuma geração nos últimos 200 anos.
Excentricidade estapafúrdia
Claro que semelhante tipo de pobreza intelectual e emocional, que no fundo representa uma curiosidade digna de compaixão, não pode de forma nenhuma se impor como realidade social. A maioria das pessoas não está em condições de promover tal afronta a sua personalidade, ainda que se empenhem. Mas, mesmo a excentricidade intelectual ou espiritual mais estapafúrdia pode parecer um modelo a ser seguido quando a sociedade a eleva a uma espécie de culto. Na sociedade da mídia não há nada que não possa ser em breve intervalo encenado como moda de massas, porque a consciência dos consumidores há muito perdeu o gume e se acha indefesa.
Daí por que, de início, não se "ganha" consciência do "Zeitgeist". Ao contrário, o cego processo de desenvolvimento nas sociedades de mercado produz sempre novas tendências e gostos a princípio pouco claros, farejados pela mídia como cães na trilha de um odor desconhecido. E aos poucos é destilado um perfil que, muitas vezes, cedo é abafado, mas em outras se fortalece como modelo de uma determinada época ou formação do mercado. Isso pode valer para esferas isoladas como política, cultura popular, ideologia, produtos e marcas, incluindo doenças da moda ou demais histerias de massa, mas pode-se tratar também de um fenômeno abrangente, que dita as ordens a toda uma sociedade. Um certo tipo espiritual, cultural e social, que simboliza para um meio social em ascensão o segmento social dirigente, é de súbito guindado então ao trono do "Zeitgeist".
Dali em diante, a tendência antes espontânea se transforma em programa e propaganda. Na mesma medida em que os protagonistas da nova economia, movidos a água mineral, foram forjados como estrelas pop, começaram também as "histórias econômicas" a dominar as ações da indústria de entretenimento e a se fundir numa espécie de novela do neoliberalismo. "Nada mais divertido que a economia" -esse o slogan de um semanário alemão para investidores. Os acontecimentos na Bolsa, áridos e desinteressantes como são, não somente absorveram cada vez mais a economia e a política, mas nos anos 90 foram alçados ainda -para além dos tópicos da programação das emissoras privadas- à cultura pop de ampla difusão: quem não comungar desse espírito, assim dizia a mensagem em todos os canais, é besta e antiquado.
O "daytrader" transformou-se, como figura da mídia, em aventureiro na selva dos mercados, o capitalista impúbere em príncipe de conto de fadas, a esperta marqueteira em heroína da emancipação. Enquanto isso as batalhas dos "global players" pelas fusões e "aquisições hostis" são encenadas como um faroeste, um campeonato de futebol ou um episódio da empreitada espacial. E, nas festas infantis, os petizes (como sugere um anúncio) não se mascaram mais como caubóis, mas como Bill Gates.
Paralelamente à indústria pop, e com coerência lógica, o economismo desenfreado vira programa também na pedagogia. Claro que o sistema educacional e pedagógico sempre seguiu os imperativos da visão de mundo oficial. Mas nesse caso as diretrizes oriundas das elites funcionais permaneceram estáveis por longo intervalo de tempo, e a pedagogia, como instância de socialização que transcendia a família, detinha um inegável monopólio. Hoje, ao contrário, a matriz dos "valores", objetivos e conteúdos a serem transmitidos pelo sistema educacional não somente se tornou insegura e instável como também escolas e universidades foram obliteradas em sua tarefa de socialização pela empresa midiática universal e a seus ditames têm de prestar contas.
E na mídia o fator da economização já avançou bem mais do que na pedagogia: segundo sua forma, se tornaram nesse meio tempo (em sua maioria) puras empresas comerciais e, segundo seu conteúdo, passaram a ser as grandes propagandistas de uma cultura pop orientada pelo dinheiro e pelo capitalismo-cassino -e, portanto, fomentadoras da total economização. Sob a pressão desse desenvolvimento, a própria pedagogia tradicional começa a se dissolver no totalitarismo econômico, estimulada e assistida não só pela mídia, mas também por todas as instituições oficiais.
Por volta de meados dos anos 90 -na maior parte dos países europeus e em conformidade ao modelo anglo-saxão- foram promovidas grandes campanhas para orientar todo o setor pedagógico e educacional para as exigências de uma "economização e comercialização da vida". Numa ação concertada de governos e partidos políticos, bancos e caixas econômicas, cartéis e associações de empresários, comunas, diretorias de escolas e grêmios universitários, abateu-se sobre todos os setores pedagógicos uma onda inaudita de propaganda favorável à mentalidade economista e comercial.
Num amálgama de instrução econômica e lavagem cerebral ideológica, inculca-se a imagem de uma pessoa que vive automaticamente, 24 horas por dia, segundo critérios empresariais e introjeta "o mercado" como destino e oportunidade, como conteúdo de vida e identidade, como inarredável círculo de vida unidimensional. Do diretor de museu ao enfermeiro, do artista ao mendigo nas ruas, todas as atividades e ocupações, mesmo aquelas que até hoje não eram entendidas como "econômicas", devem ser vivenciadas do ponto de vista do marketing, sendo essa visão de mundo exercitada desde a infância. O objetivo é a pessoa como "empreendedor próprio": todas as relações sociais devem se transformar em relações de oferta e demanda, todos os contatos em "contatos com clientes". Essa dissolução da vida no economismo capitalista não substitui simplesmente, como novo modelo abstrato da educação, o cânone tradicional da ética burguesa, mas é também exercitada na prática. No topo do sistema pedagógico e institucional, nas universidades, impôs-se tanto nas pesquisas como no aprendizado de várias disciplinas uma orientação comercial imediata. Numa sociedade economizada, assim diz o postulado, cada disciplina científica, independentemente de seu respectivo conteúdo, é também uma disciplina econômica. Todas as matérias científicas rebaixam-se a subcategorias. Não importa se se trata de linguística, geologia, física, psicologia ou mesmo filosofia: os estudantes devem ser levados desde o início a considerar tudo o quanto aprendem sob o ponto de vista da venalidade. Estudantes de todas as faculdades frequentam cursos econômicos nos quais aprendem como classificar o saber de acordo com sua avaliação pela "economia". Em parte são encorajados a exercitar diretamente a comercialização de conteúdos científicos em simulações empresariais. E não são poucos os estudantes que, de fato, montam seus negócios ainda durante os estudos, para abreviar o caminho que leva do aprendizado ao mercado. O mesmo vale para a pesquisa. Um número crescente de professores executa não somente pesquisas sob encomenda para empresas, mas já considera a própria instituição científica como uma espécie de firma a ser organizada segundo os pontos de vista empresariais. E onde os cientistas não seguem voluntariamente uma tal orientação, isso lhes é exigido cada vez mais pelas instituições estatais: assim é que o governo federal alemão, ante a encarniçada resistência dos interessados, quer obrigar toda pesquisa de vulto a trabalhar segundo critérios de imediata comercialização. Um passo além já foi dado há tempos pelo ensino público. O jogo das Bolsas como matéria de aula faz parte do dia-a-dia de muitas grades curriculares. Em Paris, Gilbert Molinier, professor de filosofia no colégio Auguste Blanqui, protestou no ano passado, numa carta aberta publicada pela imprensa, contra essa pedagogia das Bolsas: "Para grande espanto meu, ouvi dizer que o colégio Auguste Blanqui, em colaboração com um banco, tomou parte num "jogo" chamado "Les Masters de l'Economie". Consta esse jogo de distribuir um portfólio de ações virtuais aos alunos. Estes se obrigam, com a ajuda de seus professores, chamados "padrinhos" (!), a maximizar o valor dessas ações num prazo de três meses. Entre os inúmeros prêmios aos vencedores, o primeiro é uma viagem para conhecer a Bolsa de Nova York, o templo das finanças mundiais... Será que poderiam me dizer qual o interesse pedagógico de semelhante "jogo'? Se nele aprendemos que importa somente o que traz dinheiro, queiram por favor responder a esta pergunta: somos obrigados, por dever de ofício, a ministrar as aulas? Será também esse colégio outro cemitério da cultura?".
Burocratas da educação
Mas professores como Molinier são hoje vistos apenas como "desmancha-prazeres". Por toda a parte as matérias letivas são programadas pelos burocratas da educação para servir de foco a "jovens empresários". Classes inteiras já se exercitam em cursos preparatórios de constituição de empresas, valor de ações e movimentos de mercado. Seguindo o modelo das "firmas escolares" inglesas e irlandesas, a "Fundação Alemã para a Criança e a Juventude" lançou uma campanha em 1997, na cidade de Berlim, intitulada "Espírito Empresarial - Um Ensino": aos alunos cumpria fundar "autênticas" microempresas e aprender a pensar em função dos lucros.
Na mídia circulam histórias de sucesso, daquelas bem kitsch, sobre adolescentes sedentos de lucros, cujas microempresas programam websites, organizam viagens ou vendem sanduíches. Uma conversa fiada e tanto, suspeitosamente afim ao culto propagandista do "operário padrão" no socialismo de Estado. Toda criança que não conseguir acompanhar o pensamento mercantil deve se sentir mal. Nos Estados Unidos, cursos foram criados na escola primária sob o lema "Crianças Aprendem Capitalismo", nos quais meninos de sete a dez anos enfiam na cabeça as regras de compra e venda de ações e como operar derivativos.
E por último a própria escola é abandonada, como instituição, à "liberdade empresarial". Se é possível privatizar infra-estrutura e prisões, por que não o ensino público? O exemplo é dado por empresários, como o norte-americano David Henry, que quer administrar jardins-de-infância como uma rede de fast-food e levá-los à Bolsa. Mas as próprias escolas estatais devem "prover seu sustento" por meio da atividade econômica. Na maioria dos países cai por terra a proibição de anúncios dentro dos estabelecimentos de ensino. Quem, como professor, se habituou a que os corredores e os ginásios da escola sejam usados como área de propaganda, em breve não achará mal nenhum em circular ele mesmo como garoto propaganda. Na imprensa alemã muito se elogiou o diretor de um colégio bávaro que não se considerava mais um "pedagogo", mas sim um "administrador de empresa de porte médio".
O consolo de tudo isso é um só: as instituições de ensino são em toda a parte a lanterna de popa da sociedade, pois são as mais conservadoras de todas as instituições. Quando uma inovação chega à escola e ao ensino em geral, normalmente já se acha fora de moda. Desse prisma, a inflação de economismo nas instituições de ensino talvez indique que a era do comércio totalitário já se esgota.
Fevereiro, 2001.
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domingo, 12 de outubro de 2014
Condição pós-moderna
FÁBULAS
As fábulas com animais perderam o
lugar na galeria dos géneros de crítica dos costumes. Exceto para as crianças.
Nesta pós-modernidade o pensamento é demasiado cético e niilista. O Rei Leão
que governa com sensata majestade? Só para crianças. A verdade é que o leão
come tudo que seja carne em movimento, ainda que apenas o faça para saciar a
fome; satisfeito, abandona as carcaças para os chacais, hienas, abutres. Não
tem amigos nem aliados. Entre ele e os necrófagos não se estabelece relação
alguma. Entre os chacais e as hienas, competição feroz. Fingir um diálogo entre
predador e presa, entre o lobo e o cordeiro, somente com muita boa vontade nos
fariam entrar nesse jogo. A criança sabe que é um jogo, um faz-de-conta, mas
acredita, ou finge que acredita. Para nós, o lobo é apenas um pobre-diabo marginal
que procuramos vislumbrar com binóculos.
Faz algum sentido supor que os
leões são grandes acionistas que especulam e açambarcam milhões,
administradores que arquitetam artimanhas formidáveis para se safarem de
impostos, gestores superlativamente astutos mas que de vez em quando a
aldrabice falha e levam um reino à falência? Não faz. Os leões perseguem as
manadas com espantosa paciência e limitam as vítimas ao número estritamente
necessário. Não assaltam os rendimentos modestíssimos das populações dos
herbívoros, não conspiram em fóruns mundiais, não chamam para o almoço
ministros e generais. Os verdadeiros leões vagueiam a sua soberana indiferença
e de finanças nada sabem.
Faz algum sentido supor que
chacais decapitem criaturas inocentes para a televisão, exterminem irmãos
apenas porque os separa uma frase, uma vírgula, num pergaminho velho de
séculos? Não faz. Por conseguinte, não são chacais. São criaturas humanas, o
que é bem pior. Municiados e financiados por outros seres humanos envolvidos em
engenharias geoestratégicas. Os animais ao lado deles são tristes foragidos à
procura da selva perdida.
Faz algum sentido imaginar um
corvo com um queijo no bico a deixar-se ludibriar pela lábia de uma raposa? Não
faz. As modestas raposas não dispõem de uma infinitésima fração da lábia de um
grande escritório de advogados e as galinhas são de aviário.
Faz algum sentido efabular uma
assembleia de ratitos a discutir a forma de se livrarem de um gato: “Coloca-se
uma sineta no pescoço do dito, assim damos logo conta da aproximação do
malandrim. – Pois seja – diz o rato velho- e quem vai lá pôr-lhe a sineta ao
pescoço?” Os ratitos não realizam assembleias, nem recorrem a eleições primárias,
na esperança de amedrontarem um felino voraz. São-lhes inoculadas em
laboratórios assépticos as mais mortíferas pandemias. São cobaias.
Faz algum sentido acreditar que
as formiguinhas são como os homens que trabalham obedientemente a vida toda
para reaverem na velhice o que descontaram, enquanto a cigarra, dançarina e
fadista, não se cuidou? Não faz. As formiguinhas e as cigarras não sabem porque
o fazem, enquanto os humanos deviam saber o que fazem quando depositam o voto
nas urnas. Não vale a pena no inverno arrependerem-se do gesto consumado.
Faz algum sentido imaginar que o
cão e o lobo sejam amigos como naquela fábula em que o cão, bem nutrido, de
pelo luzidio, convida o lobo hospedar-se na casa do dono, mas o lobo, vendo-lhe
a coleira no pescoço, recusa com estas palavras imortais: “Amigo, prefiro mil
vezes a liberdade à tua coleira!”. Não faz.
Ou fará?
NOZES PIRES
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