domingo, 30 de novembro de 2014

FÁBULAS

FÁBULAS – O extraterrestre

Tudo aconteceu inesperadamente num outono que hesitava entre a chuva e o bom tempo. A velocidade da nave alienígena fora tal que os astrónomos e os satélites não tiveram tempo de esfregar um olho. Aterrou no deserto do Saara e ocupou-o todo. Meia dúzia de beduínos viram-se de súbito sob um tecto gigantesco de sombra que apagou trilhos e dunas. Os jornalistas acorreram à pressa para captarem o instante supremo em que uma porta colossal se abriu no casco da nave e um gigante desceu, tranquilo e imponente, para as areias do deserto. Espalhada a notícia aos quatro ventos, o planeta parou, multidões imensas aglomeram-se frente aos ecrãs colocados nas praças das capitais, famílias juntaram-se nos lares temendo o juízo final. Os exércitos imperiais confluíram para o local com os seus porta-aviões, couraçados, bombardeiros. Baterias de mísseis atómicos acertaram as coordenadas para disparos letais ao primeiro sinal de perigo.
O gigante tinha pernas e braços e uns olhos doces e claros como o céu do deserto. Pareceu aguardar que o máximo de jornalistas se acotovelasse aos seus pés (todo o mundo tremia, suspenso entre a curiosidade e o terror). Por fim, o gigante colocou na boca um aparelho que lhe permitiu falar como os humanos. E disse:
-“ Saudações! Venho de um planeta longínquo que os vossos mapas astrais não rastrearam, da nebulosa de Andrómeda. Venho em paz e espero ser recebido em paz. Acompanhamos o vosso percurso neste mundo que habitais desde que os peixes saltaram para a terra, as araucárias deram flor há 150 milhões de anos, os répteis ganharam asas, cinco cataclismos extinguiram a vida, criaturinhas inofensivas saíram das tocas e iluminaram o planeta com a luz da inteligência; das florestas profundas, das savanas que emergiram do gelo, a vossa espécie evoluiu mercê do trabalho e do engenho, domou o trigo e a cevada, os rios e os estuários, ergueu cidades e fortins, pirâmides contra a morte e o esquecimento, organizou exércitos e escravizou os vencidos, inventou a escrita, a ciência e todos os sortilégios contra o sofrimento. Entre subordinados e senhores, entre escravos e patrícios, entre bárbaros e civilizados, entre plebeus e morgados, reis e vassalos, proletários e capitalistas, a vossa história é um longo e sofrido rol de contradições. Talvez por isso possuís um talento que desconhecemos: a arte! Do húmus sangrento das vossas atrocidades e vãs glórias brotou o génio dos vossos Leonardos e Picassos, Bach e Beethoven, Homero e Ésquilo! Como se a vossa miséria fosse a vossa grandeza. Com o último urro quando abandonastes as árvores, com o último guincho com que abandonastes as tocas, com os primeiros hieróglifos que inventastes para venerar deuses e homens, com a primeira espada com que degolaste mulheres e crianças, com a primeira greve, a primeira barricada, com a primeira proclamação dos direitos de todos os homens sem distinção de raça e fortuna, uma chama, uma exigência, uma utopia, iluminou as vossas vidas miseráveis, brutas e tortuosas: a liberdade!
Com a vossa ciência e muito mais do que ela construímos a nossa casa comum sem fomes e epidemias, sem dominadores e dominados; por isso surpreende que com a vossa experiência acumulada de milénios permaneceis os mesmos. Qual a diferença entre os tolos marinheiros que se enfeitiçaram com as sereias na “Odisseia” e o feitiço de hoje das mercadorias? Apenas mudastes o escravo em assalariado “livre”, as contas de vidro em dinheiro virtual, as coroas dos reis em gravatas de seda, os aristocratas em banqueiros, os coches em jatos particulares, os castelos em palácios na Quinta da Marinha. Para que vos serviu terdes conhecido dois santos universais: Jesus e Espinosa? Que saibamos não existe outra raça mais contraditória do que a vossa! Do mal fazeis o bem, do bem fazeis o mal. Que prodígios detendes na vossa posse com a vossa ciência, a vossa técnica, o vosso génio artístico! Não faltará muito, sei-o eu, para que decifreis os mais profundos enigmas do universo; contudo, o vosso mundo não resistirá muito mais às calamidades que lhe infligis; o vosso abjeto desprezo pela vida alheia; a vossa ganância sem limites; a vossa incontrolada loucura que vos conduz para novas e intermináveis guerras; cada passo que dais em frente, dois passos para trás. O vosso século vinte deu-vos, ao mesmo tempo, Einstein e o socialismo, duas guerras que mataram mais gente que em toda a história da humanidade.
Se acabais de saber que ocupais um lugar periférico em uma das 170 biliões de galáxias do universo observável, que o vosso Sol não é mais do que uma estrela média em triliões de estrelas da Via Láctea, que a vossa vida singular não dura mais que a chama de uma vela, que a Vida assim como brotou, assim se pode extinguir, porque não arrepiais caminho? Porque a matéria dos sonhos dos miseráveis, a Esperança, não se traduz em realidade?”
O gigante assim falou. Depois, recolheu o dispositivo tradutor e começou a subir a rampa para regressar à nave colossal. Estacou. Colocou de novo a máquina tradutora e acrescentou estas palavras: “Recebemos o disco com a mensagem gravada que enviastes para o espaço há mais de 36 anos na sonda Voyager 1. Por causa dela decidimos retribuir. Tranquilizai-vos: não tencionamos colonizar ninguém. Nem tão pouco salvar-vos! Saudações!”
E, num movimento suavíssimo, brilhando como um sol, a nave descolou. Atónitos, os militares afastaram o dedo do gatilho.

NOZES PIRES

Documentos de história

Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
_____________________________________________
Publicado em: http://www.initiative-communiste.fr/articles/luttes/propriete-privee-propriete-personnelle-enurss-ic-n147-lisez-abonnez-initiative-communiste/
Tradução do francês de TAM
Colocado em linha em: 2014/11/28

Propriedade privada e propriedade pessoal na URSS1

Os caricaturistas anticomunistas dissertaram durante muito tempo sobre uma ideia
feita acerca da propriedade privada na URSS. O cliché dizia que tudo pertencia ao
Estado, mesmo as crianças, as roupas e os animais domésticos. Na realidade, esta
propaganda, muitas vezes de extrema-direita e promovida pelos círculos patronais,
repousava sobre a ignorância, fictícia ou real, da realidade do direito de propriedade
neste regime socialista. Para o compreender, é preciso introduzir uma distinção
pouco familiar entre dois tipos de propriedade: a propriedade privada e a
propriedade pessoal.
A propriedade pessoal respeitava a todos os bens que um indivíduo podia usar:
“casas de habitação e pequenos anexos, objetos de uso caseiro e de utilização diária,
objetos de uso e de conforto pessoal” (Artigo 10 da Constituição de 1936). Assim,
podia-se ser proprietário de uma casa, eventualmente de uma casa de férias, de um
automóvel, de mobiliário, de um pequeno barco de recreio, e possuir uma poupança
proveniente do trabalho. O Código Civil socialista protegia este direito à propriedade.
A fonte principal destes bens deveria ser o trabalho e apenas às subvenções do
Estado, como a reforma ou os subsídios às famílias, não era aplicada esta lei. Estes
bens podiam também ser transmitidos por herança. As medidas de coletivização não
se lhes aplicavam.
Em contrapartida, a propriedade privada, essa, foi abolida em 1917. Corresponde à
posse de meios de produção dos quais se pode tirar um lucro. Em direito socialista, o
rendimento sem trabalho é considerado roubo. Assim, em 1917, foram abolidas as
ações, os títulos de dívida pública e mesmo as terras dos proprietários especuladores
ou os “imóveis sistematicamente para arrendar” foram confiscados.
Quanto mais alargada é a definição de propriedade pessoal, mais a da propriedade
privada é intransigente. Por exemplo, um indivíduo podia possuir uma máquina de
costura para seu uso pessoal. Mas, a partir do momento em que era utilizada para
comercializar produtos, o direito considerava que retirava um lucro do seu capital
para além do seu trabalho e que, consequentemente, o objeto se tornava propriedade
privada e não pessoal. No caso, admitia-se que o indivíduo considerava que era

1
 Publicado na Initiative Communiste n.º 147, agosto de 2014 – Revista mensal do Pólo do
Renascimento Comunista em França (PRCF). – [NT]

sábado, 29 de novembro de 2014

EL NUEVO IMPERIALISMO - DAVID HARVEY

"La estrategia militar del capitalismo mundial - iniciada con la primera guerra del Golfo en 1991, afianzada durante la década de 1990 en los Balcanes y en África central, y culminada con la invasión de Iraq en 2003 - y las políticas de privatización de buena parte de los servicios públicos y los recursos comunes a escala planetaria - desmantelamiento del Estado del bienestar en los países desarrollados y ajuste estrutural en los países pobres - indican com precisión los dos vectores de intervención del sistema capitalista en nuestros días. La guerra y la acumulación por desposesión son los mecanismos primordiales que el capitalismo histórico está empleando en la actualidade para resolver sus crisis sistémicas y para modelar un mundo quizá más injusto que el que hemos conocido durante los últimos 100 anos."
DAVID HARVEY é professor de Geografia na City University of New York (CUNY), assim como Miliband Fellow da London School of Economics. Destaquemos as seguintes obras de fama mundial: O Enigma do Capital; A Condição da Pós-Modernidade; As Cidades Rebeldes. Ver entrevistas no Youtub.

O eterno cócó

Passos Coelho e a gestão do momento. O outro é que é o mau, eu é que
 sou o bom. Aproveitar a prisão de Sócrates para insinuar a necessidade de
 voltara tentar criminalizar o enriquecimento ilícito é uma excelente ideia se 
incluir os vários parágrafos que este camarada saltou, um para cada
 privatização a preço de amigos que o seu Governo conduziu, outro para
 cada SWAP, outro para cada negócio em que o Governo pagou a
 multinacionais para o ajudarem a definir as condições de venda do 
produto que essas empresas depois apareceram a comprar e outro
 ainda sobre telhados de vidro da marca Tecnoforma. A nacionalização 
do amontoado de prejuízos da delinquência banqueira merece um capítulo
 com muitos parágrafos, por isso deixei para o final a nacionalização do
 BES, que este senhor diz ter falido por má gestão e não por falhas de supervisão,
 versão vagamente semelhante à que o seu colega de Évora forneceu sobre a 
nacionalização do BPN. Eles vão-se plagiando na disputa de fiéis que lhes 
agradeçam a governação do país. O Sócrates é melhor “có” Passos e o Passos
 é melhor “có” Sócrates. 
O cocó da alternância. Vamo-lo pagando.

DAQUI

O Estado Egípcio foi condenado por um tribunal arbitral a pagar uma indemnização brutal à multinacional Voelia que alegou ter sido prejudicada por o governo ter aumentado o salário mínimo dos trabalhadores egípcios (e tem “razão”: se não houvesse trabalho escravo as pirâmides não tinham sido erigidas…). E lembremo-nos que em Portugal o aumento do salário mínimo foi bloqueado pelo governo a pretexto de que as organizações de credores (EU, FMI, OCDE,BCE, etc) “não deixavam”.
 CID SIMÕES- via SAPO

Dia Internacional com a Palestina

Palestina

Palestina

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Para Thomas Piketty, autor de 'O Capital no Século XXI' a Europa está à beira do abismo de uma grave..

Thomas Piketty retoma nesta entrevista recente as propostas que desenvolve no seu já célebre livro. Não se trata para mim aqui de aprová-las ou reprová-las, mas de, com elas, reflectir sobre a UE, o presente e o futuro. Na minha perspectiva as propostas de Piketty - mais União e federalismo - são reformas possíveis no quadro da dominação capitalista e, portanto, dirigem-se sobretudo aos partidos sociais-democratas. Porquê, então, não são prosseguidas? É a resposta  a esta pergunta que não encontramos na entrevista.
(Mantive a grafia brasileira)
23 de Novembro de 2014 8:13
Europa está à beira de uma grave crise política, econômica e financeira !

Para Thomas Piketty, autor de 'O Capital no Século XXI' a Europa está à beira do abismo de uma grave crise política, econômica e financeira.

O economista autor do influente livro "O capital no século XXI" reflete sobre o auge da extrema direita em seu país. "França e Alemanha demonstraram ser egoisticamente míopes em relação à Espanha e à Itália ao renunciar a compartilhar seus tipos de interesse". "É preciso se acostumar a viver com um crescimento fraco". "A ideia segundo a qual é preciso insistir em secar os orçamentos com base em mais austeridade para curar o doente me parece completamente insensata".

Thomas Piketty (Clichy, Francç, 1971), economista da Paris School of Economics, é especialista no estudo das desigualdades econômicas por uma perspectiva comparada. É autor de "O capital no século XXI", obra que vendeu mais de um milhão de exemplares em todo o mundo e que ao ter sido recentemente editado para espanhol e catalão lhe transformou em um dos economistas mais influentes da atualidade.

A Paris School of Economics, de criação recente, tem sua sede nos locais da École Normal Supérieure (13 prêmios Nobel e 10 medalhas Fields nas costas), no bulevar Jourdan. Não é um dos colossais edifícios do século XIX, de pedra talhada, onde outras instituições como a Sorbonne ou a faculdade de Direito de Panthéon-Assas ainda conservam suas sedes históricas. Trata-se de um conjunto de edifícios relativamente moderno, mas avelhentado. O vinílico desgastado do solo e a cor amarelada de algumas paredes revelam que, se falamos em capital, não é físico, mas sim humano.

Três percevejos da porta do escritório de Piketty seguram uma folha de papel com seu nome. Do quarto só restou a agulha. Seu escritório mede cerca de 15 metros quadrados, 20, se muito, e está cheio de estantes repletas de livros. Não tem assistente pessoal. Não veste terno, nem gravata. Desde o primeiro momento, mostra-se amável, sorridente e natural. Um pouco tímido. Ainda que dê a sensação de não nunca ter quebrado um prato na vida, se expressa sem titubear e com veemência em alguns momentos.

Há quem veja no título “O capital no século XXI” pisca para a obra de Karl Marx “O capital”. Você considera que a confrontação ideológica entre capitalismo e marxismo continua vigente?

A disjuntiva não é capitalismo ou marxismo. Há diferentes maneiras de organizar o capitalismo e há diferentes maneiras de superá-lo. O que meu livro tenta é contribuir com este debate. Quanto ao marxismo, faço parte da primeira geração posterior à Guerra Fria, a primeira geração pós-marxismo. Completei 18 anos com a queda do Muro de Berlim (no dia da entrevista fazia exatamente 25 anos). Li Marx e há ideias interessantes nele, contribuições notórias, mas O capital foi escrito em 1867 e estamos em 2014. O que eu tento é introduzir no século XXI a questão do capital, de seu estudo, isto é, para mim, o que o título do meu livro significa.

Não se pode esquecer que este trabalho teria sido impossível sem as tecnologias da informação, que permitem reunir e tratar dados históricos em uma escala impossível para Marx e até mesmo Kuznets. É fácil criticar os economistas do passado, mas eles trabalhavam na mão. Não contavam com as ferramentas que nós temos e, sobretudo, não tinham a perspectiva histórica que hoje temos e que nos permite contar a história do capital e das desigualdades. Isto é o que meu livro tenta fazer. Não pretende anunciar uma revolução, tenta apenas colocar à disposição dos leitores as pesquisas históricas que pudemos reunir sobre mais de vinte países e que englobam três séculos. O livro é, antes de qualquer coisa, uma história do capital.

Seu livro estuda de maneira empírica, entre outras coisas, a relação entre distribuição de renda do crescimento. Pode-se falar de causalidade direta no sentido de que uma melhor distribuição da renda produzindo uma taxa de crescimento maior como efeito?

A correlação e a causalidade são ambas muito complexas e não vão em um sentido apenas. A desigualdade pode ajudar o crescimento até certo ponto, mas para além de um determinado nível de desigualdade, obtém-se principalmente um efeito negativo que reduz a mobilidade na sociedade e conduz à perpetuação da estratificação social no tempo. Isto tem um impacto negativo sobre o crescimento.

O outro efeito negativo se produz através das instituições políticas: uma desigualdade muito forte pode levar ao sequestro das instituições democráticas por parte de uma pequena elite que não vai necessariamente investir na sociedade pensando no conjunto da população. Por isso, o crescimento no século XXI vai depender em grande medida do investimento em educação e formação, e não unicamente para uma pequena elite, mas para uma imensa maioria da população.

Para além das previsões de conjuntura econômica, o que se pode esperar do crescimento nos próximos anos? O que as expressões desenvolvimento sustentável e decrescimento lhe sugerem?

Acredito que tenhamos que nos acostumar a viver de maneira sustentável com um crescimento fraco. O problema é que tanto na França como em outros países europeus continuamos tendo em mente essa espécie de fantasia dos "trinta gloriosos" (expressão que faz referência às três décadas transcorridas entre a Segunda Guerra Mundial e a crise do petróleo em 1973), segundo a qual precisamos de pelo menos três, quatro ou cinco porcento de crescimento para sermos felizes. Isto não tem sentido. Somente nas fases corretivas em que alguns países recuperam os atrasos em relação a outros, ou em fases de reconstrução, acontecem taxas de crescimento tão elevadas.

É preciso colocar na cabeça que uma taxa de crescimento de 1% ou 1,5% ao ano é um crescimento muito rápido, se prolongado no tempo. Com taxas de crescimento assim durante um período de trinta anos, que é o equivalente a uma geração, acontecerá um crescimento da renda que equivale a um terço ou até mesmo à metade do PIB.

Por outro lado, ter que viver de maneira sustentável não é argumento para defender crescimento nulo. Uma taxa de crescimento entre 1% e 1,5% ao ano no longo prazo é fonte de progresso e não é um objetivo impossível. Agora, para alcançar um ritmo de crescimento assim, é preciso abandonar a atual política de austeridade. Isso em primeiro lugar. E sobretudo é preciso investir em ensino superior, em inovação e meio ambiente... Falo de investir em meio ambiente porque é evidente que terá que encontrar novas fontes de energia renováveis, visto que com as fontes atuais não poderemos manter uma taxa de crescimento de 1% ou 1,5% ao ano indefinidamente.

Considerando as últimas previsões da Comissão Europeia, não parece que estejamos perto de alcançar essa velocidade de cruzada. Você acredita que a austeridade seja um mal necessário para retomar o ritmo de crescimento?

A realidade é que caminhamos rumo a uma década imersos em um clima de recessão e de austeridade. Digo isto porque o PIB por habitante estimado para a França em 2014 ou 2015 é inferior ao de 2006 ou 2007. Esta é a situação. Estamos há quase dez anos em estancamento da renda per capita, da riqueza do país, do poder aquisitivo... A partir daqui podemos discutir tudo o que quisermos sobre qual precisa ser a arrecadação do Estado, quanto deve ser o gasto público ou qual deve ser o peso do setor privado na economia, mas o fato é que a riqueza total disponível é inferior à de 2007. Não recuperamos o nível anterior à crise. É normal que, em uma situação como esta, o ambiente seja depressivo.

A ideia segundo a qual é preciso enxugar os orçamentos com base em mais austeridade para curar o paciente me parece completamente insensata. Digo isto pensando na França, mas o mesmo vale para a Itália, com taxas de crescimento negativas em 2013 e em 2014. É verdade que o crescimento na Espanha está um pouco melhor agora, mas não nos esqueçamos que ela ainda sofre um atraso considerável em termos de renda per capita em comparação a outras grandes economias da Europa.

O resultado global das políticas de austeridade nos últimos quatro ou cinco anos é, de maneira objetiva, muito ruim. Os Estados Unidos tinham uma taxa de desemprego muito similar à da zona do euro de alguns anos atrás e atualmente a diferença é enorme. O desemprego diminuiu ali, apesar de o nível da dívida de ambas economias ser muito semelhante na situação de partida. Não há dúvidas sobre quem escolheu a estratégia adequada.

Que outra estratégia a zona do euro deveria ter seguido para sair da crise?

Acredito que seja necessário tornar comum as dívidas públicas e os juros da dívida pública. França e Alemanha forma extremamente egoístas. Demonstraram ser egoisticamente míopes em relação à Espanha e Itália ao renunciar e compartilhar seus juros. Uma moeda única com 18 dívidas públicas e 18 tipos de juros associados a essa dívida não funciona. Os atores financeiros não têm confiança neste sistema. Poderemos sair desta crise somente se criarmos um fundo comum de dívida pública com apenas um tipo de juro. O Banco Central Europeu poderá, então, estabilizar esse tipo de juros com menor dificuldade do que atualmente com 18 diferentes.

Agora, se quisermos gerir a dívida de maneira comum, precisamos também de um Parlamento da zona do euro que tome decisões a este respeito, entre outras coisas, sobre o nível de déficit comum. Isto é o que faltou até agora nas proposições de reorientação da construção europeia que Hollande esboçou na França, e do que também se falou na Espanha e na Itália. Finalmente, isso não se traduziu em uma proposta concreta de união política e, ao mesmo tempo, orçamentária. Ambas são coisas necessárias.

Você fala em reformar o desenho institucional da zona do euro. Que diferenças haveria entre o atual Parlamento Europeu e esse Parlamento orçamentário a que você se refere na última parte de seu livro?

Atualmente, temos um Parlamento Europeu em que estão representados 28 países e, por outro lado, o Conselho Europeu de Chefes de Estado ou de Governo e o Conselho de Assuntos Econômicos e Financeiros (integrados pelos ministros de Economia e Finanças). São vários os problemas desta arquitetura democrática. O primeiro é que nem todos os 28 países representados no Parlamento Europeu querem avançar rumo a uma maior integração política, fiscal e orçamentária. O segundo, que o Parlamento Europeu não representa absolutamente as instituições dos Estado-nação e, concretamente, os parlamentos nacionais.

Por isso, acredito que faz falta, paralelamente ao atual Parlamento Europeu, uma câmara parlamentar da zona do euro ou, em todo caso, uma câmara formada pelos países da zona do euro que queiram avançar em direção a uma união política, orçamentária e fiscal, e que teria que se construir a partir dos diferentes parlamentos nacionais. Cada país estaria representado proporcionalmente à sua população, nem mais, nem menos. O mesmo para Alemanha e França e os demais. A atribuição desta nova Câmara consistiria em votar questões como um imposto comum sobre sociedade ou o nível de déficit comunitário.

Não são poucos os que pensam que, em vez de mais integração, o razoável seria retomar as moedas nacionais.

Não, para mim não é a boa solução. Agora, sem propostas alternativas rápidas, acredito que o retorno às moedas nacionais será um cenário cada vez mais difícil de descartar. Concretamente, a única resposta dada na França aos que querem sair do euro consiste em dizer que é impossível, que está proibido, que agora que entramos não se pode retroceder... Esta resposta é extraordinariamente fraca e não vai durar muito tempo mais.

A saída da crise está em avançar na união dos países da zona do euro. De certa forma, a pior das situações é a atual, porque perdemos a possibilidade de desvalorizar a moeda, perdemos a soberania monetária nacional, em troca teríamos que ganhar novas formas de soberania fiscal e orçamentária, maior capacidade para arrecadar imposta de maneira mais justa, mais capacidade de resistência para proteger frente ao risco de especulação sobre os tipos de juros da dívida pública. Até agora, França e Alemanha ganharam neste jogo, mas a única alternativa para a saída do euro é uma união da dívida, uma união fiscal. Se não nos apressarmos, acredito que as forças políticas a favor da saída do euro vão ganhar a partida.

O que se pode esperar da França na construção desta nova arquitetura institucional Europeia, exatamente agora em que a extrema direita lidera as pesquisas? A Europa deve se preocupar?

É preciso se preocupar, absolutamente. Não acredito que a Frente Nacional chegará ao poder no Eliseu ou à presidência da República, mas pode conseguir a presidência de várias regiões. No próximo ano, há eleições regionais, e dado o modo de distribuição das cadeiras, é perfeitamente possível que duas ou três regionais, ou até mais, caiam do lado da Frente Nacional.

Em um sistema eleitoral como o das eleições presidenciais, estamos acostumados que a Frente Nacional perca, inclusive se for o partido mais votado do primeiro turno. Entretanto, nas regionais, o partido mais votado obtém uma parte equivalente a um quarto das cadeiras (o resto se divide de maneira proporcional). Se a Frente Nacional conseguir 30% ou 35% dos votos em uma região, a direita 25% e a esquerda 20%, por exemplo, a parte do partido mais votado faz com que a Frente Nacional aspire ter maioria absoluta nessa região.

Será um choque enorme na Europa. Até agora, a Frente Nacional ganhou somente em algumas cidades pequenas, mas se regiões inteiras passarem a ser governadas pela extrema direita, a história será outra. Não vai ser uma piada. Vão criar tensões em algumas regiões do país e o resultado pode ser extremamente violento.

Até esse ponto?

Estamos de fato à beira do abismo de uma crise política, econômica e financeira. A crise é responsabilidade de todos os países, mas não entendo como a Alemanha continua pensando que tem interesse em manter esta visão tão rígida da austeridade... Afinal de contas, nem sequer lá o crescimento é elevado. Que consta que a responsabilidade também é da França, por não fazermos verdadeiras propostas progressivas e de refundação democrática da Europa. E continuamos esperando propostas da Espanha e da Itália. Em todo caso, acredito que a situação seja grave e que as eleições regionais na França no próximo ano serão um choque.

Muitos eleitores se incomodam porque interpretam seu livro como a evidência de um futuro com menor crescimento e pior distribuição da riqueza. Há argumentos para o otimismo?

Claro que sim. Essa é minha maneira de ser. Sinto muito se alguns chegam a conclusões pessimistas após a leitura do livro! Eu acredito no progresso social, econômico e democrático e no crescimento. Mas é preciso se acostumar a viver com crescimento menor. Insisto em que um crescimento mais fraco, se mantido no tempo, é compatível com o progresso. Há trinta anos, não dispúnhamos das atuais tecnologias da informação, por exemplo. Se nos organizarmos bem, nos dotarmos das instituições adequadas para que todo mundo possa se beneficiar, essas tecnologias serão uma enorme fonte de riquezas.

Acredito no progresso técnico e na mundialização, e o livro não é pessimista em relação ao futuro. Simplesmente, para que estas coisas beneficiem a todos, fazem falta instituições democráticas, sociais, educativas, fiscais e financeiras que funcionam corretamente. O problema é que, depois da queda do Muro de Berlim, nós imaginamos, por um momento, que era suficiente se basear nas forças naturais do mercado para que o processo de globalização e de competitividade beneficiasse a todos. Acredito que o erro esteja aí. É preciso repensar os limites do mercado, do capitalismo, e repensar também as instituições democráticas."

Tradução: Daniella Cambaúva , 21/11/2014

http://www.cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FEconomia%2FPiketty-Estamos-a-beira-de-uma-grave-crise-politica-economica-e-financeira%0A%2F7%2F32284
Piketty: Europa está à beira de uma grave crise política, econômica e financeira
www.cartamaior.com.br

Para Thomas Piketty, autor de 'O Capital no Século XXI' a Europa está à beira do abismo de uma grave...
Piketty: Europa está à beira de uma grave crise política, econômica e financeira
www.cartamaior.com.br

Para Thomas Piketty, autor de 'O Capital no Século XXI' a Europa está à beira do abismo de uma grave..

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

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Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

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Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

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Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

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Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

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