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| REFLEXÕES SOBRE O LIBERALISMO | |
| Prezar a liberdade, defender a escravidão | |
Os partidários do liberalismo atribuem ao neoliberalismo o mérito de transformações emancipatórias às quais na verdade ele se opõe
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| por Lucien Sève | |
![]() Quem faz do liberalismo a imagem dada pelos liberais terá duras surpresas ao ler esta obra magistral de Domenico Losurdo, Contre-histoire du libéralisme[Contra-história do liberalismo] (Laterza, Roma/Bari, 2006), que já de saída nos apresenta um extraordinário paradoxo. Ser liberal, em princípio, significa militar, seguindo a escola de grandes escritores como Hugo Grotius e John Locke, Adam Smith e Alexis de Tocqueville, pelas liberdades do indivíduo contra o absolutismo político, o intervencionismo econômico, a intolerância filosófica. Poderoso movimento de pensamento e ação que, do século XVI ao século XVIII, e através de três gloriosas revoluções na Holanda, Inglaterra e América, moldou toda a história contemporânea. Mas é justamente com ele que a escravidão conheceu seu maior desenvolvimento. Na América, havia 330 mil escravos em 1700, cerca de 3 milhões em 1800 e o dobro na metade do século XIX. A Holanda só aboliu a escravidão em suas colônias em 1863. Em meados do século XVIII, era a Grã-Bretanha que tinha o maior número de escravos: quase 900 mil. E tratava-se do pior tipo de escravidão, a chattel racial slavery, na qual o escravo negro é simplesmente um “bem móvel”. Não se poderia imaginar uma negação mais radical da liberdade individual. Onde está o erro? É isso que o livro se dedica a explicar, de cabo a rabo, com uma impressionante oferta de fatos sangrentos e citações sufocantes. Não, não se trata de um erro. A doutrina liberal nasceu com duas faces e nunca as abandonou: mensagem inflamada de liberdade pessoal apenas para os cidadãos, homens brancos proprietários que formavam um Herrenvolk, um “povo de senhores” – germanismo adotado sem medo por essa ideologia amplamente anglófona; negação cínica da humanidade não apenas para os negros nas colônias, mas também para aquelas consideradas “bárbaras”, como os irlandeses e os índios americanos, e toda a massa de servos e trabalhadores nas próprias metrópoles – ou seja, para a grande maioria. Essa contra-história do liberalismo, sem negar a face luminosa, revela desde o princípio, em toda a sua extensão, o lado escuro que a hagiografia liberal não cansa de esconder. Quando, por exemplo, apenas para ficar em um detalhe, aprendemos que o grande filósofo liberal Locke era acionista da Royal African Company, grande organizadora do tráfico de negros, começamos a entender melhor muitas coisas em nossa história moderna. Mas também entendemos que esse livro iconoclasta levou tempo para chegar até nós. E que aquilo que nossa grande mídia fala dele, mesquinhamente, revela com frequência um mau humor envergonhado. A obra é erudita demais e ao mesmo tempo muito clara para ser recusada com propriedade. Por isso é atacada por meio dos desgastados expedientes da polêmica. Questionam-se as posições do autor sobre qualquer outro assunto, quando é perfeitamente admissível não concordar com ele. Acusam-no de unilateralismo, quando ele não perde nenhuma oportunidade de mostrar a diversidade de aspectos do liberalismo, a complexidade de suas correntes, muitas vezes a ambiguidade de seus pensadores. Por fim, lança-se o golpe do “mas todo mundo já sabia!”, quando a ideologia dominante age incessantemente para dar vida, em sua grosseira parcialidade, à lenda dourada do liberalismo. Novo Mundo, um “berço vazio” É preciso dizer que o livro de Losurdo está cheio de citações que fazem muito mal à lenda. Como este texto de Tocqueville legitimando o extermínio dos peles-vermelhas: “A Providência, colocando-os em meio às riquezas do Novo Mundo, parecia não lhes ter oferecido mais que um curto usufruto. Eles estavam lá, de alguma forma, apenasesperando. As costas tão bem preparadas para o comércio e a indústria, os rios tão profundos, o inesgotável vale do Mississípi, o continente inteiro, tudo isso aparecia então como o berço ainda vazio de uma grande nação”. O “berço vazio”: eis como um célebre liberal legitima com sua pena leve um dos maiores genocídios da história, fornecendo por antecipação uma justificativa muito apreciada aos doutrinários da “terra sem povo” oferecida por Deus a um povo sem terra... Textos dessa seara existem em grande número, e outros ainda mais inesperados, nessa contra-história. Oferecendo-nos muito a aprender, o autor ainda mais nos dá a pensar. Por exemplo, e de maneira central, exibindo a proposição de um George Washington ou de um John Adams verdadeiramente reveladora a respeito da Revolução Norte-Americana realizada no fim do século XVIII por colonos liberais proprietários de escravos, absolutamente conscientes de serem “súditos britânicos brancos e nascidos livres”, no último grito contra os ingleses da metrópole que os oprimia: “Não queremos ser seus negros!”. O que logo salta aos olhos aqui é que o pensamento liberal nunca foi autenticamente universalista. As liberdades exigidas “para o indivíduo” não são, em absoluto, para todos os seres humanos, mas apenas para o pequeno número de eleitos, no duplo sentido bíblico e cívico do termo. “Há homens nascidos para a servidão” E esse particularismo agressivo é fundador. Hugo Grotius, um dos pais da doutrina liberal no século XVII, legitima sem reservas a instituição da escravidão (“há homens nascidos para a servidão”, escreveu, reivindicando Aristóteles), chama os cidadãos das colônias holandesas de “bestas selvagens” e, qualificando sua religião de “rebelião contra Deus”, justifica a mais cruel “punição dos culpados”. Não há, portanto, desvios da prática: é a própria ideia liberal que traz em si um aristocratismo antropológico diretamente segregador e desumanizador. O francês Alexis de Tocqueville, aristocrata-democrata, tem muitos pensamentos bastante parecidos. Losurdo cita a seguinte afirmação: “A raça europeia recebeu do céu ou adquiriu por seus esforços uma tão incontestável superioridade sobre todas as outras raças que compõem a grande família humana, que aquele entre nós que esteja no último nível da escala social, por seus vícios e sua ignorância, será ainda o primeiro entre os selvagens”. Muitos hoje se surpreendem com a arrogância de casta ostentada por vários membros, homens ou mulheres, dos meios dirigentes; lendo essa contra-história, entendemos que, mais que um traço psicossocial dos indivíduos, essa é uma característica fundamental da própria doutrina liberal e da postura prática que ela sempre comandou. Liberalismo e democracia nunca foram sinônimos. A conclusão de Losurdo é que “se trata de um discurso inteiramente centrado naquilo que, para a comunidade dos homens livres, é o espaço sagrado restrito” – espaço sagrado tal como o legitima uma cultura ético-religiosa protestante fundamentalmente nutrida pelo Antigo Testamento. E basta fazer intervir na análise o “espaço profano” (os escravos das colônias e os servos da metrópole) para perceber o caráter inadequado e enganoso das categorias habitualmente utilizadas para traçar a história do Ocidente liberal: primado absoluto da liberdade individual, antiestatismo, individualismo. A Inglaterra dos séculos XVIII e XIX é o país da liberdade religiosa? Sobre a Irlanda, o liberal Gustave de Beaumont, companheiro de Tocqueville durante sua viagem à América, fala de uma “opressão religiosa que supera qualquer imaginação”. Acompanhar o liberalismo em sua longa história implica também interessar-se, pelo menos de maneira secundária, por aquilo que veio a contestá-lo, ou até combatê-lo. Através do livro de Losurdo, vemos formarem-se as diversas figuras de um universalismo, segundo ele, católico e monárquico, de um Jean Bodin, no século XVI, ao radicalismo anticolonial e abolicionista algumas vezes alcançado pelos liberais avançados do século XIX, e até a crítica fundamental de Karl Marx, que se destaca em revelar o “caráter conservador da revolução inglesa”. A emancipação política burguesa foi na verdade o sinal de um furor social não apenas contra os povos coloniais, mas também contra o próprio campesinato inglês, antes de atacar o proletariado urbano incrivelmente maltratado dasworkhouses − uma análise que Losurdo, no entanto, não segue integralmente, esboçando uma visão de conjunto pessoal das revoluções liberais latino-americanas e europeias. Porém, por mais significativas que sejam essas posições antiliberais, mais concretamente produtivos foram os movimentos dos próprios povos, entre os quais Losurdo coloca em primeiro lugar a revolta de Santo Domingo, com a figura de proa de Toussaint Louverture, verdadeiro tiro de canhão no concerto dominante da época – um povo negro tem a inacreditável audácia de querer ser livre! –, uma revolta que, ao mesmo tempo que a Revolução Francesa, provocou uma virada decisiva na independência crioula e na abolição da escravatura na América Latina. Cento e vinte e cinco anos depois, um poderoso impulso no mesmo sentido foi dado pela Revolução de Outubro na Rússia. “Tudo bem considerado, foram a revolta de Santo Domingo e a Revolução de Outubro que colocaram em crise, respectivamente, a escravidão e o regime terrorista de dominação branca”: dois capítulos históricos “majoritariamente odiados pela cultura liberal da época”. Sem abordar a história recente do neoliberalismo, Losurdo termina questionando-se sobre a responsabilidade do liberalismo nas “catástrofes do século XX” e, de modo totalmente convincente, considera-a pesada. Evocando a tese de Hannah Arendt, que parte “das colônias do Império Britânico para explicar a gênese do totalitarismo do século XX”, ele lembra que os campos de concentração e outras instituições antidemocráticas “começaram a ser esboçadas bem antes do fim da chamada Belle Époque”, citando, por exemplo, as “deportações sangrentas e repetidas dos índios, a partir daquela colocada em prática pelos Estados Unidos de Jackson (designado por Tocqueville como um modelo de democracia)”. Com o tratamento infligido aos negros do Novo Mundo, alcançaram-se em matéria de desumanização “picos difíceis de igualar”. Na Jamaica britânica, “um escravo foi obrigado a defecar na boca do escravo culpado, que foi então costurada durante quatro ou cinco horas”. Nos Estados Unidos, crianças em idade escolar podiam ganhar um dia de folga para assistir a um linchamento. O título de um livro publicado em Boston em 1913 evoca a “solução final” (ultimate solution) da questão negra. Um pesquisador norte-americano, Ashley Montagu, escreveu sobre o racismo e o nazismo que “o monstro que conseguiu saltar livremente para o mundo é em grande parte nossa criação [...], e somos responsáveis pela forma horrenda que ele tomou”. Está errado o autor, portanto, em pedir o fim da falsa hagiografia do liberalismo, administrada em altas doses por três décadas desde o início do reinado de Margaret Thatcher?
Lucien Sève é filósofo, autor de Penser avec Marx aujourd’hui. Tome 2: L’Homme, La Dispute, Paris, 2008.
Ilustração: Lollo | |
| 03 de Junho de 2013 | |
| Palavras chave: Liberalismo, Neoliberalismo, escravidão, trabalho, Locke, Adam Smith, filosofia, ideologia,doutrina, capitalismo, Europa, Estados Unidos, Hannah Arendt | |
domingo, 21 de dezembro de 2014
LUCIEN SÈVE
sábado, 20 de dezembro de 2014
Claudio Katz
El Imperialismo del Siglo XXI
El resurgimiento
de la teoría del imperialismo está modificando el análisis de la globalización.
Esta concepción explica la polarización mundial de ingresospor la transferencia
sistemática de recursos de los países periféricos hacia los capitalistas del
centro. Esta asimetría acentúa la dependencia y provoca agudas crisis en
Latinoamérica, que se profundizarán si se consuma el proyecto del ALCA. El
correlato político de esta iniciativa es un proceso de recolonización política
y su consecuencia militar es la intervención más abierta del gendarme
norteamericano. La dominación imperialista no es una fatalidad, ni obedece a
una superioridad cultural de los países avanzados.
La mayor
asociación entre las clases dominantes del centro y la periferia coexiste con
la profundización de la brecha entre ambas regiones. Esta fractura desmiente la
existencia de un proceso de transnacionalización uniforme. La incapacidad de
las burguesías del Tercer Mundo para erigir sistemas capitalistas prósperos no
puede ser corregida por otros grupos sociales.
Un segundo
aspecto de la teoría del imperialismo esclarece las relaciones prevalecientes
entre las potencias en cada etapa del capitalismo. Existe un intenso debate
sobre la evolución contemporánea de estas vinculaciones. La tesis de la
concurrencia interimperialista refuta los mitos neoliberales de la
globalización, pero no explica las razones que inhiben la confrontación bélica
entre estados rivales. El enfoque transnacionalista registra la creciente
integración de capitales, pero desconoce que la competencia continúa mediada
por las clases y los estados nacionales. Esta omisión adopta formas extremas en
la teoría del Imperio de A. Negri. La visión superimperialista constata la
evidente hegemonía norteamericana, pero desconoce que este liderazgo no ha
creado relaciones de dominación entre los países desarrollados comparables a
las vigentes en la periferia.
Un enfoque
adecuado del imperialismo contemporáneo requiere interpretar cómo se combinan
las tendencias a la rivalidad, la integración y la hegemonía con las nuevas
formas de funcionamiento del capitalismo. Las analogías corrientes con la
decadencia romana oscurecen esta indagación.
Los antagonistas
sociales y políticos del imperialismo están recobrando fuerzas en todo el
mundo, a través de la protesta global, la recuperación de la clase obrera y las
rebeliones en la periferia. Un proceso de maduración política socialista
comienza a notarse en las discusiones sobre el internacionalismo, el programa antiimperialista,
el carácter del estado y los sujetos de la transformación social.
EL IMPERIALISMO
DEL SIGLO XXI.
Claudio Katz
El renovado
interés que suscita el estudio del imperialismo está modificando el debate
sobre la globalización, hasta ahora exclusivamente centrado en la crítica al
neoliberalismo y el análisis de los rasgos novedosos de la mundialización. Una
noción desarrollada por los teóricos marxistas de principios del siglo XX -que
alcanzó gran difusión durante los 70- despierta nuevamente la atención de los
investigadores, ante el agravamiento de la crisis social del Tercer Mundo, la
multiplicación de conflictos bélicos y la competencia descarnada entre
corporaciones.
El imperialismo
es una noción que conceptualiza dos tipos de problemas.. Por un lado, las
relaciones de dominación vigentes entre los capitalistas del centro y los
pueblos periféricos y por otra parte, las vinculaciones prevalecientes entre
las grandes potencias en cada etapa del capitalismo. ¿Qué actualidad presenta
esta teoría? ¿En qué medida contribuye a esclarecer la realidad contemporánea?
UNA EXPLICACIÓN
DE LA POLARIZACIÓN MUNDIAL.
La polarización
mundial de los ingresos confirma la importancia de esta concepción en su primer
sentido. Cuándo la fortuna de 3 multimillonarios sobrepasa el PBI de 48
naciones y cada cuatro segundos un individuo de la periferia muere de hambre,
resulta difícil ocultar que el ensanchamiento de la brecha entre los países
avanzados y subdesarrollados obedece a relaciones de opresión. Ya es indiscutible
que esta asimetría no es un acontecimiento “pasajero”, ni será corregida por el
“derrame” de los beneficios de la globalización. Los países periféricos no son
sólo “perdedores” de la mundialización, sino que soportan una intensificación
de las transferencias de recursos que históricamente frustraron su crecimiento.
Este drenaje ha
provocado la duplicación de la miseria extrema en las 49 naciones más
empobrecidas y mayores deformaciones en la acumulación fragmentaria de los
países dependientes semiindustrializados. En este segundo caso, la prosperidad
de los sectores insertos en la división internacional del trabajo se consuma en
desmedro de las actividades económicas destinadas a los mercados internos.
El análisis del
imperialismo no ofrece una interpretación conspirativa del subdesarrollo, ni
exculpa a los gobiernos locales de esta situación. Simplemente aporta una
explicación de porqué la acumulación se polariza a escala mundial, reduciendo
las posibilidades de nivelación entre economías disímiles. El margen de
crecimiento acelerado que permitió en el siglo XIX a Alemania o Japón alcanzar
el status de potencia que ya detentaban Francia o Gran Bretaña, no se encuentra
hoy al alcance de Brasil, la India o Corea.
El mapa mundial
ha quedado moldeado por una ”arquitectura estable” del centro y una “geografía
variable” del subdesarrollo, dónde sólo caben modificaciones del status
periférico de cada país dependiente .
La teoría del
imperialismo atribuye estas asimetrías a la transferencia sistemática del valor
creado en la periferia hacia los capitalistas del centro. Estas traslaciones se
concretan a través del deterioro de los términos de intercambio comercial, la
succión de recursos financieros y la remisión de utilidades industriales. El
correlato político de este drenaje es la pérdida de autonomía política de las
clases dominantes periféricas y la intervención militar creciente del gendarme
norteamericano. Estos tres rasgos del imperialismo contemporáneo se observan
con nitidez en la realidad latinoamericana.(...)
Texto completo em Página Oficial de Claudio Katz
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Pelo SocialismoQuestões político-ideológicas com atualidadehttp://www.pelosocialismo.net_____________________________________________Publicado em 2014/12/14, em: http://www.odiario.info/?p=3491&print=1Colocado em linha em: 2014/12/19Atenas, 1944 : um segredo vergonhoso da InglaterraEd Vulliamy e Helena SmithEm Atenas, há 70 anos, o Exército Britânico, ainda em guerra com aAlemanha, abriu fogo (e deu armas aos locais que haviam colaborado com osNazis para o fazerem) sobre uma multidão de civis que se manifestavam afavor dos partisans. Para colocar de novo o rei grego no poder e manter oComunismo à distância, Churchill muda as alianças para passar a estar dolado dos apoiantes de Hitler, contra aqueles que haviam sido os seus aliados.Quando 28 civis foram assassinados em Atenas, a responsabilidade não foi dos Nazis, mas dosIngleses. Ed Vulliamy e Helena Smith revelam de que modo a vergonhosa decisão de Churchill deentregar os partisans que haviam lutado pelos Aliados constituiu a semente da ascensão da extremadireitana Grécia de hoje.“Ainda consigo ver muito claramente, não me esqueci”, afirma Titos Patríkios. “APolícia de Atenas a disparar sobre a multidão, do telhado do Parlamento, na PraçaSintagma. Os jovens homens e mulheres jaziam em poças de sangue, toda a gente acorrer escada abaixo, tomados de choque, em pânico total.”E então ocorreu o momento decisivo: a irreverência da juventude, a convicção deacreditar numa causa tão profundamente justa: “Saltei para a fonte no meio daPraça, que ainda lá está, e comecei a gritar: ‘Camaradas, não dispersem! A vitóriaserá nossa! Não se afastem. Chegou o momento, venceremos!’”.“Eu estava”, diz-nos agora, “profundamente convicto de que venceríamos”. Mas avitória não chegou nesse dia, tal como não se pretendeu que o que acontecera nãomudaria a história de um país que, libertado do Reich de Hitler havia umas merasseis semanas, estava agora a caminho de uma sangrenta guerra civil.Mesmo agora, aos 86 anos, quando Patríkios se ri “de mim para comigo por terchegado a esta idade”, o poeta recorda, cada cena, cada disparo, o que aconteceu napraça principal da vida política grega, na manhã de 3 de Dezembro de 1944.Foi neste dia, faz agora 70 anos, que o Exército Britânico, ainda em guerra com aAlemanha, abriu fogo (e deu armas aos locais que haviam colaborado com os Nazispara o fazerem) sobre uma multidão de civis que se manifestavam a favor dospartisans, de quem a Inglaterra fora aliada durante três anos. Ver o texto completo em http://www.odiario.info/?p=3491&print=1
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
quinta-feira, dezembro 18, 2014
Pedro e o mexilhão (com os percebes a salvo)
Nada como convidar um génio da laracha para falar num seminário anunciado como sendo sobre economia. A laracha acaba promovida a economia. O génio da laracha acaba promovido a sábio da economia. Vá, aquela que se despromoveu ao promover-se a laracha para se promover o seu génio a entendido em economia, está bem, mas convidam-se uns parolos para animarem a coisa com palmas e umas gargalhadas alarves e a coisa passa nas televisões mesmo por seminário de economia. E o sábio por sábio. O génio do mexilhão. A economia do bivalve. O seminário aconteceu por estes dias em Braga. O génio disse, e atenção à aprumada linguagem técnica, que “ao contrário daquilo que é o jargão popular de que quem se lixa é o mexilhão”, quem contribuiu mais, em altura de crise social, “foi quem tinha mais” e não “os mesmos de sempre”. Ficámos a saber que os funcionários públicos e todos os aposentados a quem o senhor passou os últimos anos a cortar salários e reformas afinal são amêijoas. As centenas de milhar que perderam direito a prestações sociais como RSI, abono de família e subsídio de desemprego são berbigões. Os 350 mil que emigraram fizeram-no por serem as conquilhas que mais tinham. Não desapareceram mais de dez mil milhões dos orçamentos da Escola pública e do Serviço Nacional de Saúde, nem aumentaram as ajudas aos colégios privados, a saúde de mercado também não lucrou nada com o pandemónio que reina nos hospitais públicos. As rendas da energia, dos combustíveis e das PPP das auto-estradas e da Saúde não aumentaram. O IRS não subiu brutalmente ao mesmo tempo que o IRC das grandes empresas diminuía. As piranhas não engordaram como já não havia memória a engolir a multidão de desempregados que puderam contratar e despedir ao sabor de uma gula que o sábio consagrou com letra de lei como tendencialmente gratuita, com feriados a trabalhar à borla e horas extraordinárias com desconto e tudo. Os tubarões que engoliram a EDP, a REN, a ANA, os CTT, os Estaleiros de Viana e outras pérolas que o sábio vendeu ao preço da uva mexilhona fizeram péssimos negócios. Os novos milionários não enriqueceram a comer os mexilhões que o sábio lhes serviu em bandeja de troika. Exprimindo-me na sua apuradíssima linguagem técnica, gostava que este filho de uma chaputa tivesse a coragem de dizer o que disse na feira que organizaram para lhe promover a vaidade num lugar cheio de gente, gente daquela mesmo gente, da que se sente. O bandalho sabe porque não o faz. Não saía de lá com os percebes inteiros. Chamem-lhe sábio.
DAQUI
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terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Modernidade de Marx
No Rio de Janeiro, em casa de uma amiga, caiu-me nas mãos por acaso um daqueles livros raros que nos lançam em meditação inesperada.
O título da edição brasileira, A Armadilha da Globalização, não é esclarecedor. Foi editado em 1998 pela Globo. Os autores são dois jornalistas alemães, Hans Peter Martin e Harald Schumann.
Hans Peter foi um dos três jornalistas convidados a acompanhar um estranho evento internacional realizado num hotel de luxo em São Francisco, em 1995. O promotor do Encontro, que não mereceu atenção dos media estadunidenses, foi Mikhail Gorbatchov. O tema era muito ambicioso: O futuro da Humanidade.
Participaram 500 representantes da chamada elite mundial, entre os quais George Bush pai, Margaret Thatcher, Ted Turner, da CNN, eminentes professores de Harvard e Oxford e economistas e sociólogos vindos da Europa, de Tóquio e Pequim.
Os debates duraram três dias e as intervenções não podiam exceder 5 minutos, com os pedidos de apartes limitados a 2 minutos.
Houve consenso relativamente a uma “tese” de David Packard, o poderoso patrão da Hewlett Packard. Apoiado em previsões estatísticas, afirmou com convicção que em meados do século XXI 20% da população mundial será suficiente, graças aos progressos da ciência e da técnica, para garantir o bom funcionamento da economia. Ficou implícito que uns 40% das classes médias então existentes terão uma vida agradável, mais ou menos ociosa por serem supérfluos para a produção.
Não ficou, porém, claro qual seria a função dos restantes 40%.
Nenhum participante defendeu a necessidade de eliminar essa fracção sobrante da humanidade. Mas de algumas intervenções, aplaudidas, transpareceu que guerras, secas, inundações e epidemias incontroláveis contribuiriam para que a população do planeta Terra fosse reduzida ao nível considerado adequado.
Interessado em conhecer a repercussão desse Seminário da elite da Finança mundial, soube por um amigo americano que Gorbatchov foi, no final, efusivamente felicitado.
A HISTÓRIA NÃO ACABOU
A previsão sobre o Fim da História foi formulada pelo norte-americano Francis Fukuyama em l989. Esse funcionário do Departamento de Estado, hegeliano fora de tempo, festejou prematuramente a morte do comunismo, proclamando a eternidade do neoliberalismo. Transcorridas décadas, o seu exercício de futurologia é ridicularizado inclusive por acadêmicos de direita.
O “RENASCIMENTO” DO MARXISMO
A História continua e a crise mundial iniciada nos EUA desacreditou o neoliberalismo. Quanto ao marxismo, voltou a despertar um enorme interesse em escala mundial.
O Manifesto Comunista tem sido reeditado em dezenas de países. Congressos sobre Marx e a sua obra são promovidos na Europa, na América Latina, na Ásia. Em França, um Seminário sobre História do Marxismo, promovido por Jean Salem, é acompanhado na Internet por umas 30.000 pessoas. Nos últimos anos, Salem tem corrido o mundo para falar sobre Marx em universidades europeias, asiáticas, africanas e latino-americanas. Ensaios sobre o pensamento do autor de O Capital são editados em muitas línguas.
Marxistas como o húngaro István Mészáros, o italiano Domenico Losurdo, o inglês David Harvey, o alemão Michael Krakte, o argentino Claudio Katz, os franceses Georges Labica e Jean Salem adquiriram prestígio mundial com a publicação de trabalhos que confirmam a extraordinária atualidade da obra de Marx.
A ofensiva do capital contra as grandes conquistas dos trabalhadores posteriores à da II Guerra Mundial, desencadeada após 1973, acentuou-se depois do fim da URSS. A contrarrevolução neoliberal, liderada por Thatcher e Reagan, tirou da gaveta as teses ultramontanas de Hayek e em poucos anos desmantelou na União Europeia o chamado “estado do bem-estar social”.
A DESIGUALDADE AUMENTOU
Os mais ricos enriqueceram prodigiosamente, as massas oprimidas empobreceram e uma percentagem considerável vegeta hoje na pobreza ou numa miséria absoluta.
Um relatório da ONU divulgado em 1990 informava que 358 bilionários concentravam na época um patrimônio equivalente à renda total de 45% dos cidadãos mais pobres do mundo 2.300 milhões de pessoas. Os três primeiros da lista tinham fortunas superiores ao PIB de países com 600 milhões de habitantes. Desde então o fosso aprofundou-se e houve mudanças na pirâmide dos bilionários. Hoje o homem mais rico do mundo é o mexicano Slim, que ultrapassou o americano Bill Gates, da Microsoft. Essa troca de lugares é esclarecedora do nível da exploração a que são submetidos os trabalhadores do México.
As relações de poder alteraram-se profundamente no último quarto de século. A URSS desagregou-se, a Rússia e os países da Europa Oriental não são mais socialistas; a China, sob a direção de um partido comunista, é um gigante mundial que pratica um capitalismo atípico; e os EUA, incapazes de superar a crise estrutural do capitalismo, desencadeiam guerras de saque na Ásia e na África no âmbito de uma estratégia de dominação planetária.
Um sistema midiático perverso, que desinforma a Humanidade, tornou-se o instrumento de poder fundamental para o imperialismo. O desencadeamento das agressões contra países que os EUA pretendem ocupar e saquear é sempre precedido de campanhas que as justificam em defesa das liberdades, da democracia, dos direitos humanos…
Desmontar a falsificação da Historia é, portanto, hoje uma exigência na luta contra a alienação dos povos. Nunca foi tão necessário compreender o mundo e a estratégia da ideologia hegemônica, o capitalismo. Essa situação favoreceu o “renascimento” do marxismo. Daí a importância dos intelectuais que contribuem para a modernidade de Marx neste início do século XXI.
DAVID HARVEY
Em recente visita ao Brasil, Ivana Jinkings ofereceu-me parte da monumental obra de David Harvey, nomeadamente a segunda edição de Os Limites do Capital.
Publicado em 1982, esse livro não se desatualizou, pelo contrário. Ajuda-nos a compreender uma humanidade diferente, ameaçada de extinção por um sistema que, sob a máscara da democracia, é tão perigoso como o nazismo.
Harvey não é um revisionista. Em Os Limites do Capital propõe-se a facilitar o entendimento dos textos do genial filósofo alemão, “adaptá-los de maneira que possam lidar com as complexidades da nossa época”.
O objetivo é compreender um tempo em que o capitalismo, como ele afirma, se consolidou em países como o México, a Africa do Sul e a India e conseguiu implantar-se na Rússia e na China.
Harvey nos lembra que “o significado do Estado mudou dramaticamente nos últimos 30 anos e que o principal agente de pressão nessa mudança foi algo chamado globalização”. Alinha com aqueles que “consideram o Estado como um momento vital no dialéctica e na função contraditória da acumulação do capital”.
Noutro dos seus livros, o geógrafo britânico define o novo imperialismo como “fusão contraditória da política do Estado e do império e dos processos moleculares da acumulação do capital no espaço e no tempo”.
Harvey, creio, cumpre hoje um papel que lembra o do francês Georges Politzer no início do século XX quando tornou o marxismo acessível a milhões de operários. Harvey dirige-se a um público diferente, de intelectuais e jovens estudiosos do marxismo, mas isso não retira importância à sua obra.
Nestes dias de confusão ideológica em que partidos como o Syriza grego e o Podemos espanhol, semeiam a confusão em meios progressistas ao surgirem com máscara de esquerda, os livros de David Harvey representam uma valiosa contribuição para o regresso de Marx.
Verifiquei, sem surpresa, no Brasil que a intelectualidade burguesa promove ali com entusiasmo o livro O capital no século XXI, de Thomas Piketty. Tal como em Portugal, tentam apresentar o autor como um continuador de Marx quando, na realidade, o acadêmico francês é um reformador do capitalismo com uma mundividência antagônica à marxista.
Neste tempo de barbárie capitalista e de luta creio que a leitura da obra de David Harvey seria útil a dirigentes de partidos comunistas europeus que acreditam ingenuamente na possibilidade de contribuírem para a futura construção do socialismo utilizando em benefício próprio as instituições criadas pela burguesia.
Vila Nova de Gaia, 5 de Dezembro de 2014
***
Miguel Urbano Rodrigues é um jornalista e historiador português. Nascido em Moura, em 1925, passou 20 anos exilado no Brasil entre as décadas de 50 e 70. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.
Discurso de Vladimir Putin no Clube Valdai
Colegas, senhoras e senhores, amigos,
É um prazer recebê-los no XI Encontro do Clube Internacional de Debate Valdai.
É um prazer recebê-los no XI Encontro do Clube Internacional de Debate Valdai.
Foi já mencionado que o clube tem este ano novos co-organizadores. Incluem organizações não-governamentais russas, grupos de especialistas e importantes universidades. Surgiu igualmente a ideia de alargar as discussões para inclusão não apenas de assuntos relativos à Rússia, mas também de política global e economia.
Espero que estas alterações na organização e no conteúdo reforcem a influência do clube como importante fórum de debate e encontro de especialistas. Ao mesmo tempo, espero que o “espírito de Valdai” se mantenha – esta atmosfera livre e aberta e oportunidade para expressão de todo o tipo de opiniões muito diferentes e francas.
Deixem-me dizer, a esse respeito, que não os vou desiludir e que falarei directa e francamente. Alguma coisa do que vou dizer poderá parecer um pouco dura, mas, se não falarmos directa e honestamente sobre o que realmente pensamos, não há grande razão sequer para nos reunirmos desta maneira. Seria preferível então limitarmo-nos a encontros diplomáticos, onde ninguém diz nada com significado real e onde, lembrando as palavras de um famoso diplomata, se chega à conclusão de que os diplomatas têm boca para não dizerem a verdade.
Reunimo-nos por outras razões. Reunimo-nos para falar com franqueza uns com os outros. Precisamos hoje de ser francos e directos não para nos atacarmos, mas para tentarmos chegar ao fundo do que actualmente acontece no mundo, tentarmos compreender porque se está o mundo a tornar menos seguro e mais imprevisível e porque estão os riscos a aumentar por todo o lado à nossa volta.
A discussão de hoje teve lugar à volta do tema: Novas Regras ou um Jogo sem Regras. Penso que esta fórmula descreve com rigor o ponto de viragem histórico ao qual chegámos hoje e a escolha que se nos apresenta. Não há nada de novo evidentemente na ideia de que o mundo muda muito rapidamente. Sei que é algo de que falaram nos debates de hoje. É certamente difícil que não se notem as dramáticas transformações na política global e na economia, na vida pública, na indústria, na informação e nas tecnologias sociais.
Deixem-me pedir-lhes desde já que me desculpem se acabar por repetir o que alguns dos participantes nas discussões disseram já. É praticamente impossível evitá-lo. Tiveram já debates detalhados, mas vou estabelecer o meu ponto de vista. Vai coincidir com o de outros participantes nuns pontos e deles diferir noutros.
Ao analisarmos a situação actual não esqueçamos as lições da história. Em primeiro lugar, as mudanças na ordem mundial – e o que vemos hoje são acontecimentos a essa escala – foram normalmente acompanhadas, senão de guerra e conflito globais, pelo menos pela sucessão de intensos conflitos a nível local. Em segundo lugar, a política global é acima de tudo acerca de liderança económica, das questões de guerra e paz, e da dimensão humanitária, incluindo os direitos humanos.
O mundo está hoje cheio de contradições. Precisamos de ser francos ao perguntar-nos uns aos outros se temos uma rede de segurança fiável instalada. Tristemente, não há qualquer garantia e nenhuma certeza de que o actual sistema de segurança global e regional seja capaz de nos proteger de convulsões. Este sistema ficou seriamente enfraquecido, fragmentado e deformado. As organizações de cooperação política internacional e regional, económicas e culturais passam por tempos difíceis.
Sim, muitos dos mecanismos que temos para assegurar a ordem mundial foram criados há já bastante tempo, incluindo e acima de tudo no período imediatamente a seguir a II Guerra Mundial. Deixem-me salientar que a solidez do sistema então criado assentava não apenas no equilíbrio de poder e nos direitos dos países vencedores, mas no facto de os “pais fundadores” deste sistema se respeitarem mutuamente, não tentarem chantagear, mas procurarem alcançar acordos.
O mais importante é que este sistema precisa ser desenvolvido e, apesar das suas várias limitações, precisa de ser pelo menos capaz de manter os atuais problemas mundiais dentro de certos limites e de regular a intensidade da competição natural entre os países.
É minha convicção que não poderíamos pegar neste mecanismo de pesos e contrapesos construído durante as últimas décadas , por vezes com tanto esforço e dificuldades, e simplesmente deitá-lo fora sem construir outra coisa em seu lugar. De outro modo, ficaríamos privados de outros instrumentos que não a força bruta.
O que precisávamos de fazer era desenvolver uma reconstrução racional e adaptá-la às novas realidades do sistema de relações internacionais.
Mas, os Estados Unidos, declarando-se vencedores da Guerra Fria, não viram necessidade disso. Em vez de estabelecerem um novo equilíbrio de poder, essencial para manter a ordem e a estabilidade, deram passos que lançaram o sistema num grave e profundo desequilíbrio.
A Guerra Fria terminou, mas não terminou com a assinatura de qualquer tratado de paz estabelecendo acordos claros e transparentes sobre o respeito das regras existentes ou a criação de novas regras e normas. Isso criou a impressão de que os chamados ”vencedores” da Guerra Fria tinham decidido pressionar os acontecimentos e remodelar o mundo de acordo com as suas próprias necessidades e interesses. Se o sistema existente de relações internacionais, a lei internacional e os pesos e contrapesos instalados eram obstáculo para esses objectivos, o sistema era declarado inválido, ultrapassado e exigida a sua imediata demolição.
Desculpem-me a analogia, mas esta é a forma como os novos-ricos se comportam quando de repente se vêem com uma grande fortuna, neste caso, sob a forma da liderança e domínio mundiais. Em vez de gerirem a sua riqueza com sensatez, claro que também para seu próprio benefício, fizeram muitas loucuras, segundo penso.
Entrámos num período de interpretações diversas e deliberados silêncios na política mundial. A lei internacional foi forçada a recuar cada vez mais perante a ofensiva do niilismo legal. A objectividade e a justiça foram sacrificadas no altar da conveniência política. Interpretações arbitrárias e avaliações enviesadas substituíram as normas legais. Ao mesmo tempo, o controle total dos meios de comunicação globais tornaram possível sempre que pretendido fazer passar o branco por negro e o negro por branco.
Numa situação em que se tinha o domínio de um único país e seus aliados, ou antes, seus satélites, a procura de soluções globais transformou-se muitas vezes numa tentativa de imposição das suas próprias receitas universais. Estas ambições de grupo aumentaram tanto que as políticas combinadas nos seus corredores do poder começaram a ser apresentadas como posições de toda a comunidade internacional. Mas, não é assim.
A própria noção de “soberania nacional” tornou-se um valor relativo para a maior parte dos países. Em essência, o que estava sendo proposto era a fórmula: quanto maior a lealdade para com o único centro de poder mundial, maior a legitimidade deste ou daquele regime de governo.
Vamos ter uma discussão livre a seguir e terei todo o prazer em responder às vossas perguntas, assim como gostaria de usar do meu direito de também vos fazer perguntas. Esperemos que durante a próxima discussão haja quem tente contestar os argumentos que acabo de apresentar .
As medidas tomadas contra aqueles que recusam submeter-se são bem conhecidas e foram experimentadas e testadas com frequência. Incluem o uso da força, a pressão económica e da propaganda, a interferência nos assuntos internos e a invocação de uma espécie de legitimidade “super-legal” quando precisam de justificar intervenção ilegal neste ou naquele conflito ou no derrube de regimes inconvenientes. Ultimamente temos também crescentes provas de que tem sido usada chantagem directa em relação a certo número de líderes. Não é por nada que o “grande irmão” tem gasto milhares de milhões de dólares para manter o mundo inteiro sob vigilância, incluindo os seus mais próximos aliados.
Perguntemo-nos quão à vontade nos sentimos com isto, quanto estamos seguros, quão felizes a viver neste mundo e quão justo e racional é ele. Talvez não tenhamos qualquer razão real para nos preocuparmos, contestar e fazer perguntas inconvenientes. Será que a posição excepcional dos Estados Unidos e a maneira como exercem a sua liderança é realmente uma bênção para todos nós e a sua intromissão nos acontecimentos em todo o mundo para trazer paz, prosperidade, progresso, crescimento e democracia e teremos nós simplesmente de relaxar e gozar de tudo isso?
Permitam-me dizer que não, de modo nenhum.
Ditames unilaterais e imposição de modelos próprios produzem o resultado oposto. Em vez da resolução de conflitos, leva à sua escalada, em vez de estados soberanos e estáveis, vemos o crescente alargar do caos e em vez de democracia, há o apoio a gente muito duvidosa, desde declarados neofascistas a radicais islâmicos.
Porque apoiam essa gente? Fazem-no porque decidem usá-la como instrumentos para atingirem os seus objectivos, mas depois queimam os dedos e encolhem-se. Nunca deixo de me espantar com a maneira como os nossos parceiros continuam a tropeçar sempre no mesmo degrau, como dizemos aqui na Rússia quando se repete o mesmo erro uma e outra vez.
A dada altura, apoiaram movimentos extremistas islâmicos para lutarem contra a União Soviética. Esses grupos ganharam experiência de combate no Afeganistão e mais tarde deram origem aos Taliban e à Al-Qaeda. O Ocidente, se não apoiou, pelo menos fechou os olhos e, diria eu, deu informações, apoio político e financeiro à invasão por terroristas internacionais da Rússia (não esquecemos isto) e dos países da região da Ásia Central. Só depois de horríveis ataques terem sido cometidos em solo americano os Estados Unidos acordaram para a comum ameaça do terrorismo. Deixem-me lembrar-vos que fomos o primeiro país a apoiar o povo americano nessa ocasião, os primeiros a reagir à terrível tragédia do 11 de Setembro como amigos e parceiros.
Durante as minhas conversas com líderes americanos e europeus, sempre falei da necessidade de se combater em conjunto o terrorismo como desafio à escala global. Não nos podemos conformar e aceitar essa ameaça, não podemos dividi-la em partes separadas usando duas medidas. Os nossos parceiros exprimiram concordância, mas passado pouco tempo voltávamos onde tínhamos começado. Primeiro, houve a operação militar no Iraque e depois na Líbia, que foi levada à beira da desagregação. Porque foi a Líbia levada até essa situação? Hoje, é um país em perigo de desintegração e tornou-se um campo de treino para terroristas.
Só a determinação e sensatez da actual liderança egípcia salvaram esse país-chave árabe do caos e do domínio total por extremistas. Na Síria, os Estados Unidos e seus aliados começaram como no passado a financiar e armar rebeldes, deixando-os engrossarem fileiras com mercenários de vários países. Deixem-me perguntar onde vão esses rebeldes buscar o dinheiro, as armas e os conselheiros militares? De onde vem tudo isso? Como conseguiu o notório ISIL tornar-se um grupo tão poderoso, essencialmente uma verdadeira força armada?
Quanto às fontes de financiamento, o dinheiro vem hoje não apenas da droga, cuja produção aumentou não de alguns pontos percentuais, mas várias vezes, desde que as forças da coligação internacional estão presentes no Afeganistão. Julgo que estão cientes disto. Os terroristas estão a obter dinheiro também da venda de petróleo. O petróleo é produzido em território controlado pelos terroristas, que o produzem, vendem a preços de dumping e transportam. Mas, alguém o compra, o revende e lucra com ele, não pensando no facto de assim estar a financiar terroristas que podem mais tarde ou mais cedo chegar à sua própria terra e semear a destruição nas suas próprias cidades.
Onde conseguem eles novos recrutas? No Iraque, depois de Saddam ter sido derrubado, as instituições do estado incluindo o exército ficaram em ruínas. Dissemos então para terem muito, muito cuidado. Atirando as pessoas para a rua, o que vão elas fazer? Não esquecer que, bem ou mal, estavam à frente de uma grande potência regional. E em que estão a fazer agora que elas se tornem?
Qual foi o resultado? Dezenas de milhares de soldados, oficiais e antigos activistas do partido Baath foram lançados para a rua e hoje juntaram-se às fileiras dos rebeldes. Talvez seja isto que explique porque o grupo do Estado Islâmico se tornou tão eficaz. Em termos militares, atua com muita eficiência e tem alguns elementos muito profissionais. A Rússia avisou repetidamente sobre os perigos de acções militares unilaterais, intervindo nos assuntos de estados soberanos e cortejando extremistas e radicais. Insistimos em pôr os grupos que combatem o governo sírio, sobretudo o Estado Islâmico, nas listas de organizações terroristas. Viu-se algum resultado? Apelámos em vão.
Ficamos por vezes com a impressão de que os nossos colegas e amigos estão constantemente a lutar contra as consequências da sua própria política, aplicando todo o seu esforço para tratarem de riscos que eles próprios criaram e pagando um preço cada vez mais elevado por isso.
Colegas, este período de dominação unipolar demonstrou convincentemente que com apenas um centro de poder os processos globais não se tornam mais governáveis. Pelo contrário, esse tipo de construção instável mostrou a sua incapacidade para combater ameaças reais como os conflitos regionais, o terrorismo, o tráfico de droga, o fanatismo religioso, o chauvinismo e o neonazismo. Ao mesmo tempo, escancarou as portas ao orgulho nacional desmedido, manipulando a opinião pública e permitindo aos fortes perseguirem e eliminarem os fracos.
Em essência, o mundo unipolar é um simples meio para justificar a ditadura sobre pessoas e países. O mundo unipolar tornou-se uma carga demasiado incómoda, pesada e intratável, mesmo para o autoproclamado líder. Foram aqui feitos anteriormente comentários de acordo com esta ideia, com os quais concordo totalmente. Por isso, vemos nesta nova etapa histórica tentativas para se recriar uma espécie de mundo quase-bipolar como modelo conveniente para a perpetuação da liderança americana. Não interessa quem ocupa o lugar do centro do mal na propaganda americana, o velho lugar da URSS como principal adversário: pode ser o Irão como país a tentar adquirir tecnologia nuclear, a China como a maior economia mundial ou a Rússia como superpotência nuclear.
Hoje, assistimos a novas tentativas de fragmentação do mundo, traçado de novas linhas divisórias, montagem de coligações não para construir qualquer coisa, mas dirigidas contra alguém, quem quer que seja, criação da imagem de um inimigo como nos anos da Guerra Fria, e obtenção do direito a essa liderança ou diktat, se quiserem. A situação apresentou-se dessa maneira durante a Guerra Fria, todos entendemos e sabemos isso. Os Estados Unidos disseram sempre aos seus aliados: “Temos um inimigo comum, um inimigo terrível, o centro do mal, e estamos a defender-vos desse inimigo como vossos aliados e por isso temos o direito de vos dar ordens, de vos obrigar a sacrificarem os vossos interesses políticos e económicos e a pagarem a vossa parte dos custos desta defesa colectiva, mas evidentemente seremos nós que mandamos.“ Em resumo, assistimos hoje a tentativas de reproduzir num mundo novo e em mudança modelos de administração global conhecidos e tudo isso para assegurar a sua [dos EUA] posição de excepção e beneficiar de dividendos políticos e económicos.
Porém, estas tentativas estão cada vez mais divorciadas da realidade e estão em contradição com a diversidade do mundo. Passos neste sentido geram confronto e contramedidas e têm o efeito oposto aos objectivos pretendidos. Vemos o que acontece quando a política começa imprudentemente a misturar-se com a economia e a lógica das decisões racionais dá lugar à lógica do confronto que só fere as próprias posições e interesses económicos, incluindo os interesses do comércio nacional.
Projectos económicos conjuntos e investimento mútuo aproximam os países e ajudam a atenuar os problemas correntes nas relações entre os estados. Contudo, hoje a comunidade do comércio global enfrenta pressões sem precedentes dos governos ocidentais. De que negócios, eficácia económica e pragmatismo podemos falar quando ouvimos slogans como “a pátria está em perigo”, “o mundo livre está ameaçado” e “a democracia está em risco”? E assim todos começam a mobilizar-se. É com uma verdadeira política de mobilização que isto se parece.
As sanções já começaram a minar as bases do comércio mundial, as regras da Organização Mundial do Comércio e o princípio da inviolabilidade da propriedade privada. Estão a arrasar o modelo liberal da globalização baseado nos mercados, na liberdade e na competição, o qual, diga-se de passagem, é um modelo que beneficiou em primeiro lugar precisamente os países ocidentais. E agora, arriscam-se a perder a confiança como líderes da globalização. Temos de nos perguntar: qual a necessidade disso? Ao fim e ao cabo, a prosperidade dos Estados Unidos reside em grande parte na confiança dos investidores e titulares estrangeiros de dólares e títulos financeiros americanos. Esta confiança está claramente a ser minada e são visíveis agora em muitos países os sinais de desapontamento com os frutos da globalização.
O bem conhecido precedente de Chipre e as sanções por motivos políticos não fizeram mais que reforçar a tendência para se procurar dar apoio à soberania económica e financeira e à vontade dos países ou seus grupos regionais de encontrarem maneiras de se protegerem dos riscos de pressões externas. Vemos já que há cada vez mais países que procuram caminhos para se tornarem menos dependentes do dólar e estabelecem sistemas financeiros e de pagamento e moedas de reserva alternativos. Penso que os nossos amigos americanos estão muito simplesmente a cortar o ramo em que estão sentados. Não se pode misturar política com economia, mas é isso que está a acontecer agora. Sempre pensei e ainda hoje penso que sanções por motivos políticos eram um erro que prejudica todos, mas estou certo que voltaremos a este assunto mais tarde.
Sabemos como estas decisões foram tomadas e quem fez pressão. Mas, deixem-me dizer que a Rússia não vai querer remexer no assunto das sanções, ficar ofendida ou bater à porta de ninguém. A Rússia é um país auto-suficiente. Trabalharemos dentro do panorama económico internacional que se constituiu, desenvolveremos a produção interna e a tecnologia e actuaremos mais decididamente para conseguir as transformações necessárias. A pressão externa, como aconteceu noutras ocasiões do passado, só irá consolidar a nossa sociedade, manter-nos alerta e fazer-nos concentrar nos nossos principais objectivos de desenvolvimento.
É evidente que as sanções constituem um entrave. Estão a tentar atingir-nos com essas sanções, bloquear o nosso desenvolvimento e empurrar-nos para o isolamento político, económico e cultural, noutras palavras, condenar-nos ao atraso. Mas, deixem-me dizer novamente que o mundo é hoje muito diferente. Não temos qualquer intenção de nos fechar de ninguém e escolher algum género de estrada de desenvolvimento fechada, tentando viver em autarcia. Estamos sempre abertos ao diálogo, incluindo a normalização de relações económicas e políticas. Contamos aqui com a abordagem pragmática e a posição dos meios de negócios nos principais países.
Há quem diga que hoje a Rússia está supostamente a voltar as costas à Europa – palavras provavelmente também hoje aqui ouvidas durante os debates – e que procura novos parceiros comerciais, sobretudo na Ásia. Deixem-me dizer que não é de maneira nenhuma esse o caso. A nossa activa política na região Ásia-Pacífico não começou só ontem e não é uma resposta às sanções, mas sim uma política que temos seguido já há uns bons anos. Como muitos outros países, incluindo países ocidentais, vimos que a Ásia está a desempenhar um papel cada vez mais importante no mundo, na economia e na política e que não há modo de nos permitirmos não reparar nessa evolução.
Deixem-me dizer de novo que todos fazem o mesmo e que também nós o faremos, tanto mais assim quanto uma grande parte do nosso país se encontra geograficamente na Ásia. Porque não faríamos uso das nossas vantagens competitivas na área? Seria extrema curteza de vistas não o fazer.
Desenvolver laços económicos com esses países e realizar projectos de integração conjunta também cria grandes incentivos para o nosso desenvolvimento interno. As tendências demográficas, económicas e culturais de hoje em dia sugerem todas que a dependência de uma única superpotência vai objectivamente diminuir. Trata-se de qualquer coisa sobre a qual especialistas europeus e americanos têm falado e escrito.
Talvez a evolução da política global venha a reflectir a evolução a que assistimos na economia global, nomeadamente a intensa competição por nichos específicos e a frequente mudança de dirigentes em áreas específicas. É inteiramente possível.
Não há dúvida que factores humanos como a educação, a ciência, a saúde e a cultura desempenham um maior papel na competição global. Também isso tem grande impacto nas relações internacionais, inclusivamente porque este recurso de “soft power” (conceito ligado à ideia de persuasão vs. coerção nas relações internacionais – N.T.) vai depender em grande medida de reais avanços no desenvolvimento de capital humano e não de truques de sofisticada propaganda.
Ao mesmo tempo, a formação de um chamado mundo policêntrico em si mesmo e por si mesmo (gostaria também de chamar a atenção para isto, caros colegas) não melhora a estabilidade. De facto, bem mais provável é acontecer o contrário. O objectivo de se atingir um equilíbrio global está a tornar-se um puzzle difícil, uma equação com muitas incógnitas.
Assim, se escolhermos não aceitar regras, mesmo que limitadas e inconvenientes, que nos resta senão viver sem regras? Dadas as tensões na situação actual, esse cenário é possível e não o podemos excluir. Podem ser desde já feitas muitas previsões tendo em conta as tendências atuais e infelizmente elas não são optimistas. Se não criarmos um sistema transparente de mútuos compromissos e acordos, se não construirmos mecanismos para a gestão e resolução de situações de crise, os sintomas de anarquia global vão inevitavelmente aumentar.
Assistimos já hoje a um rápido aumento da possibilidade de todo um conjunto de conflitos violentos com participação directa ou indirecta das maiores potências mundiais. E os factores de risco incluem não apenas conflitos multinacionais tradicionais, mas também a instabilidade interna de alguns países, especialmente quando falamos de países situados na intersecção dos interesses geopolíticos dos países mais importantes, ou na fronteira de grandes zonas culturais, históricas, económicas e civilizacionais.
A Ucrânia, que tenho a certeza de ter sido já largamente discutida e que continuaremos a discutir, é um dos exemplos dessa espécie de conflitos que afectam o equilíbrio internacional de poder e penso que não será o último. Daqui resulta o próximo perigo real de destruição do actual sistema de acordos sobre controlo de armamento. E este perigoso processo foi lançado pelos Estados Unidos da América quando unilateralmente se retiraram do Tratado de Mísseis Antibalísticos em 2002, começando então e continuando hoje a dedicar-se à criação do seu sistema global de mísseis de defesa.
Colegas, amigos,
Pretendo salientar que não fomos nós que começámos. Uma vez mais, estamos a arrastar-nos para tempos em que, em vez de um balanço de interesses e mútuas garantias, é o medo e o balanço da mútua destruição que evita que os países se envolvam em conflito directo. Na ausência de instrumentos legais e políticos, as armas estão a tornar-se mais uma vez o centro da agenda global. São usadas por todo o lado e no entanto sem quaisquer sanções do Conselho de Segurança da ONU. E se o Conselho de Segurança se recusa a produzir tais decisões, imediatamente é declarado como instrumento ultrapassado e ineficaz.
Muitos países não vêem outro modo de garantir a sua soberania que não seja conseguindo as suas próprias bombas. Isto é extremamente perigoso. Insistimos em conversações permanentes. Somos não apenas a favor de conversações, mas insistimos em conversações contínuas para a redução dos arsenais nucleares. Quanto menos armas nucleares existirem no mundo, melhor. E estamos prontos para as mais sérias e concretas discussões sobre desarmamento nuclear, mas apenas discussões sérias, não com dois pesos e duas medidas.
Que quero eu dizer? Hoje em dia, muitos tipos de armas de alta precisão estão já próximo das armas de destruição em massa em termos de capacidade e, na eventualidade de inteira renúncia às armas nucleares ou redução radical do potencial nuclear, países que são líderes na criação e produção de sistemas de alta precisão terão clara vantagem militar. A paridade estratégica desaparecerá, o que é provável que traga desestabilização. A utilização do chamado primeiro ataque preventivo global pode ser tentadora. Em resumo, os riscos não diminuíram, mas aumentaram.
A próxima ameaça óbvia é a escalada de conflitos étnicos, religiosos e sociais. Esses conflitos são perigosos não apenas enquanto tal, mas também porque criam zonas de anarquia, sem lei e mergulhadas no caos, sítios confortáveis para terroristas e criminosos, onde a pirataria, o tráfico humano e o tráfico de droga florescem.
Incidentalmente, na altura própria, os nossos colegas tentaram de certa maneira administrar esses processos, utilizar os conflitos regionais e chamar-lhes “revoluções coloridas” para servirem os seus interesses, mas o génio escapou da garrafa. Parece que os pais da teoria do caos controlado não sabem o que fazer com ele e estão desorientados.
Seguimos de perto as discussões tanto da elite no poder, como da comunidade dos especialistas. Basta olhar para os títulos da imprensa ocidental no último ano. Os mesmos que são chamados combatentes da liberdade são depois chamados islamitas. Primeiro, falam de revoluções e depois chamam-lhes motins e levantamentos. O resultado é óbvio: a expansão do caos global.
Colegas, dada a situação global, é tempo de começarmos a chegar a acordo sobre coisas fundamentais. É incrivelmente importante e necessário e é muito melhor do que cada um ir para o seu canto. Quanto mais todos encararmos os problemas comuns, mais nos encontramos no mesmo barco, por assim dizer. E a maneira lógica é em cooperação entre os países e sociedades, no encontrar respostas colectivas aos crescentes desafios e na gestão de riscos em conjunto. Na verdade, alguns dos nossos parceiros por qualquer razão só se lembram disto quando serve os seus interesses.
A experiência prática mostra que as respostas conjuntas aos desafios nem sempre são uma panaceia e precisamos de perceber isso. Além disso, na maior parte dos casos são difíceis de alcançar. Não é fácil ultrapassar as diferenças nos interesses nacionais e a subjectividade das diferentes abordagens, particularmente quando se trata de países com diferentes tradições culturais e históricas. De qualquer modo, temos exemplos de quando, com objectivos comuns e actuando com base nos mesmos critérios, alcançámos em conjunto reais sucessos.
Deixem-me lembrar o problema das armas químicas na Síria e o diálogo consistente sobre o programa nuclear iraniano, tal como o nosso trabalho na questão da Coreia do Norte, que obteve igualmente resultados positivos. Porque não usar esta experiência no futuro para resolver problemas locais e regionais?
O que poderia ser a base legal, política e económica para uma nova ordem mundial, que permitisse estabilidade e segurança, encorajando ao mesmo tempo a competição saudável e não permitindo a formação de novos monopólios que entravam o desenvolvimento? É improvável que alguém possa fornecer agora soluções já feitas e absolutamente exaustivas. Precisamos de muito trabalho com a participação de uma larga gama de governos, do comércio global, da sociedade civil e de plataformas de especialistas como a nossa.
Contudo, é óbvio que o êxito e os resultados reais só são possíveis se os participantes-chave nos assuntos internacionais puderem chegar a acordo sobre a harmonização dos interesses básicos, sobre um razoável autocontrolo, e derem um exemplo de liderança positiva e responsável. Temos que identificar claramente onde terminam as acções unilaterais e precisamos de aplicar mecanismos multilaterais e, como parte do melhoramento da eficácia da lei internacional, temos que resolver o dilema entre as acções da comunidade internacional para garantir a segurança e os direitos humanos e o princípio da soberania nacional e não-interferência nos assuntos internos de qualquer estado.
As próprias colisões levam crescentemente a interferências externas arbitrárias em processos internos complexos e, vez após vez, provocam perigosos conflitos entre os principais intervenientes globais. A questão da manutenção da soberania torna-se quase crítica para a conservação e o reforço da estabilidade global.
Claramente, a discussão de critérios para o uso de força externa é extremamente difícil. É praticamente impossível separá-la dos interesses de determinados países. No entanto, é muito mais perigoso quando não há acordos claros para todos, quando não foram estabelecidas quaisquer condições para interferências necessárias e legais.
Acrescentaria que as relações internacionais devem ser baseadas na lei internacional, a qual por sua vez deve assentar em princípios morais, como justiça, igualdade e verdade. Talvez o mais importante seja o respeito pelos parceiros e seus interesses. É uma fórmula óbvia, mas simplesmente segui-la podia mudar radicalmente a situação global.
Estou certo de que, se houver vontade, podemos restaurar a eficácia do sistema das instituições internacionais e regionais. Nem sequer precisamos de construir nada de novo, de raiz. Não estamos em terreno virgem, especialmente uma vez que as instituições criadas depois da II Guerra Mundial são bastante universais e pode-se-lhes ser dado conteúdo moderno, adequado à gestão da situação actual.
Isto é verdade no que respeita ao melhoramento do trabalho da ONU, cujo papel central é insubstituível, assim como da OSCE, a qual ao longo de 40 anos mostrou ser um mecanismo necessário para assegurar a segurança e cooperação na região euro-atlântica. Devo dizer que mesmo hoje, ao tentar resolver a crise no sueste da Ucrânia, a OSCE está a desempenhar um papel muito positivo.
À luz das alterações fundamentais na cena internacional, com o aumento da incontrolabilidade e as várias ameaças, precisamos de um novo consenso global de forças responsáveis. Não sobre alguns acordos locais ou sobre uma divisão de esferas de influência no espírito da diplomacia clássica, ou sobre o completo domínio global por parte de alguém. Penso que precisamos de uma nova versão da interdependência. Não devemos ter medo dela. Pelo contrário, trata-se de um bom instrumento para a harmonização de posições.
Isto é particularmente relevante dado o fortalecimento e crescimento de certas regiões do planeta cujo processo requer objectivamente a institucionalização de tais novos polos, criando organizações regionais poderosas e desenvolvendo regras para a sua interacção. A cooperação entre estes centros contribuiria seriamente para a estabilidade da segurança, da política e da economia globais. Mas, para se estabelecer tal diálogo, precisamos de partir do princípio de que todos os centros regionais e os projectos de integração formados à sua volta terão iguais direitos de desenvolvimento, de modo a complementarem-se mutuamente e que ninguém os possa forçar a entrar em conflitos ou oposições artificiais. Essas acções destrutivas quebrariam laços entre estados e os próprios estados passariam por situações muito difíceis ou talvez mesmo pela total destruição.
Gostaria de lembrar os acontecimentos do último ano. Dissemos aos nossos parceiros americanos e europeus que decisões de bastidores apressadas, por exemplo, sobre a associação da Ucrânia com a UE, comportam grandes riscos para a economia. Nem sequer falámos sobre a política. Falámos apenas de economia, dizendo que esses passos, dados sem qualquer preparação prévia, tocam nos interesses de muitos outros países, incluindo a Rússia como maior parceiro comercial da Ucrânia, e que é necessária uma larga discussão das questões. Incidentalmente, a este respeito, lembro que por exemplo as conversações sobre a entrada da Rússia na OMC (Organização Mundial do Comércio – N.T.) duraram 19 anos. Foi um trabalho muito difícil e atingiu-se um certo consenso.
Porque trago isto para aqui? Porque, ao aplicarem o projecto de associação da Ucrânia, os nossos parceiros virão com os seus bens e serviços até nós pela porta de trás, digamos assim, e não concordámos com isso, ninguém nos perguntou qual a nossa opinião. Tivemos discussões sobre todos os temas relacionados com a associação da Ucrânia à UE, discussões persistentes, mas quero salientar que tal foi feito de modo inteiramente civilizado, indicando possíveis problemas, mostrando os argumentos e razões óbvias. Ninguém nos quis ouvir, nem falar connosco. Disseram-nos simplesmente: isto não é da sua conta, ponto, fim de discussão. Em vez de um diálogo amplo, mas (sublinho) civilizado, foi tudo parar a um derrube do governo. Lançaram o país no caos, no colapso económico e social, numa guerra civil com enormes baixas.
Porquê? Quando pergunto aos meus colegas porquê, já não têm resposta, ninguém diz nada. Foi assim. Toda a gente está perplexa, dizendo que aconteceu assim. Essas acções não devia ter sido encorajadas, não deviam ter sido feitas. Ao fim e ao cabo, o presidente ucraniano Yanukovych assinou tudo e concordou com tudo. Porquê fazer o que foi feito? Para quê? Será esta uma maneira civilizada de resolver problemas? Aparentemente, aqueles que constantemente lançam novas “revoluções coloridas” consideram-se “artistas brilhantes” e simplesmente não conseguem parar.
Estou certo que o trabalho das associações integradas e a cooperação de estruturas regionais devem ser erguidos sobre bases claras e transparentes. O processo de formação da União Económica Eurasiática é um bom exemplo dessa transparência. Os países parceiros deste projecto informaram antecipadamente as outras partes sobre os seus planos, especificando os parâmetros da nossa associação e os princípios de trabalho que correspondem inteiramente às regras da Organização Mundial do Comércio.
Acrescentarei que acolheríamos também com prazer o arranque de um diálogo concreto entre a União Eurasiática e a União Europeia. Diga-se que também isto nos recusaram quase totalmente e não é claro porquê. O que há de tão assustador nisso?
E, claro, com esse trabalho conjunto, pensávamos precisar de estabelecer o diálogo sobre a necessidade de criar um espaço comum de cooperação económica e humanitária estendendo-se do Atlântico ao Pacífico (falei sobre isto muitas vezes e recebi concordância de muitos dos nossos parceiros ocidentais, pelo menos na Europa).
Colegas, a Rússia fez a sua escolha. As nossas prioridades são melhorar mais as nossas instituições democráticas e a economia aberta, acelerar o desenvolvimento interno tendo em conta todas as modernas tendências positivas no mundo e consolidar uma sociedade com base nos valores tradicionais e no patriotismo.
Temos uma agenda orientada para a integração positiva e pacífica. Trabalhamos activamente com os nossos colegas da União Económica Eurasiática, a Organização de Cooperação de Xangai, os BRICS e outros parceiros. Esta agenda está apontada ao desenvolvimento de laços entre governos, não ao seu afastamento. Não planeamos formar nenhum bloco ou vermo-nos envolvidos em troca de golpes.
As alegações e afirmações de que a Rússia tenta estabelecer qualquer espécie de império, abusando da soberania dos seus vizinhos, não tem qualquer fundamento. A Rússia não precisa de nenhum lugar especial e exclusivo no mundo, quero salientar. Com respeito pelos interesses dos outros, queremos simplesmente que os nossos próprios interesses sejam considerados e a nossa posição respeitada.
Estamos bem cientes de que o mundo entrou numa era de mudança e transformação globais em que precisamos todos de um especial cuidado e da capacidade de evitar passos impensados. Nos anos a seguir à Guerra Fria, os participantes da política global perderam de certa maneira essas qualidades. Precisamos agora de as ter presentes. De outro modo, a esperança num desenvolvimento pacífico e estável será uma ilusão perigosa, ao mesmo tempo que as atuais perturbações não serão mais que o prelúdio do colapso da ordem mundial.
Sim, claro, disse já que a construção de uma ordem mundial mais estável é uma tarefa difícil. Estamos a falar de um caminho árduo e longo. Fomos capazes de desenvolver regras de interacção depois da II Guerra Mundial e fomos capazes de alcançar um acordo em Helsínquia nos anos 70. O nosso dever comum é resolver este desafio fundamental nesta nova etapa de desenvolvimento.
Muito obrigado pela vossa atenção..
Fonte: http://valdaiclub.com/valdai_club/73300.html
Tradução da versão inglesa publicada no sítio do Clube de Debate Valdai http://valdaiclub.com/valdai_club/73300.html
por Jorge Vasconcelos
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