Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
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Publicado em 2014/12/15, em: http://www.voltairenet.org/article186203.html
Colocado em linha em: 2014/12/26
Relatório do Congresso sobre a tortura confirma que a alQaida
não está implicada nos atentados do 11 de setembro
Thierry Meyssan*
Os extractos tornados públicos do relatório da Comissão senatorial sobre o
programa secreto de tortura da CIA fazem surgir à luz do dia uma vasta
organização criminosa. Thierry Meyssan leu, por vós, as 525 páginas deste
documento. Ele encontrou, lá, as provas do que veem antecipando desde
há vários anos.
[No original, foto com a seguinte legenda:
Dianne Feinstein, presidente da Comissão senatorial da Inteligência, tornou público, a 9 de
dezembro de 2014, um extracto do seu relatório classificado sobre o programa secreto de tortura da
CIA1
.]
Apresentação do relatório
A parte desclassificada não corresponde senão a uma décima-segunda parte do
relatório inicial.
O relatório, em si mesmo, não aborda o vasto sistema de rapto e sequestro que a
Marinha dos E.U.A. colocou em prática durante os mandatos do presidente George
W. Bush; um programa que levou a raptar, no mundo inteiro, e a sequestrar mais de
80. 000 pessoas, em 17 barcos de fundo chato, estacionados em águas internacionais
(estes navios são: o USS Bataan:, USS Peleliu, USS Ashland, USNS Stockham, USNS
Watson, USNS Watkins, USNS Sister, USNS Charlton, USNS Pomeroy, USNS Red
Cloud, USNS Soderman, USNS Dahl, MV PFC William B Baugh, MV Alex
Bonnyman, MV Franklin J Phillips, MV Louis J Huage Jr, MV James Anderson Jr.).
Ele limita-se a analisar o conteúdo de 119 casos de cobaias humanas, submetidas a
experiências psicológicas em Guantanamo e em cerca de cinquenta prisões secretas,
entre 2002 e final de 2009, ou seja, um ano após a eleição de Barack Obama.
1
“Study of the CIA’s Detention and Interrogation Program - Foreword, Findings and Conclusions,
and Executive Summary”, US Senate Select Committee on Intelligence (Ing- «Análise do Programa
de Prisões e Interrogatórios da CIA— Prefácio, Resultados, Conclusões e Sumário Final» — Comité
restrito de Inteligência do Senado dos E.U.A.— ndT), 9 de dezembro de 2014.Os extractos do relatório não indicam quais os critérios de escolha destas cobaias
humanas. Limitam-se a afirmar que todos os prisioneiros denunciaram o que se
segue, indicando, ao mesmo tempo, que as confissões não foram extorquidas mas sim
captadas sem mais. Por outras palavras, a CIA quis justificar as suas escolhas
fabricando denúncias a posteriori.
No relatório inicial, os nomes dos agentes e contratados da CIA envolvidos foram
substituídos por pseudónimos. Além disso, os extractos desclassificados foram
grandemente censurados, principalmente, para apagar os nomes dos cúmplices
estrangeiros da CIA.
O conteúdo do relatório
[No original, digitalização da capa do relatório]
Eu li, de forma completa, as 525 páginas dos extractos do relatório tornados públicos.
No entanto, fiquei longe de ter tirado deles todas as informações, já que são
necessárias numerosas pesquisas para interpretar as passagens censuradas.
As sessões de condicionamento (mental - ndT) foram efectuadas em cerca de
cinquenta prisões secretas, sob a responsabilidade da «Alec Station», a unidade da
CIA encarregada de seguir Osama bin Laden. As infra-estruturas, o pessoal e os
transportes eram da responsabilidade do «Grupo de logística e detenção» da CIA. As
sessões eram concebidas e realizadas sob a supervisão de dois psicólogos contratados,
que formaram uma sociedade em 2005. As autorizações de utilização de técnicas de
condicionamento foram dadas ao mais alto nível, sem especificar que essas torturas
tinham por fim condicionar e não extrair informações.
O vice-presidente Dick Cheney, a conselheira de Segurança Nacional Condoleezza
Rice, o secretário da Justiça John Ashcroft, o secretário da Defesa Donald Rumsfeld,
o secretário de Estado Colin Powell e o director da CIA George Tenet participaram em
reuniões sobre este assunto na Casa Branca. Eles assistiram a simulações na Casa
Branca, e visionaram gravações de algumas sessões; gravações que foram
posteriormente, e ilegalmente, destruídas. Estas reuniões tinham, evidentemente, por
objectivo «molhar» estas personalidades, mas, não é possível determinar qual delas
sabia para que efeito eram usadas essas técnicas.
Entretanto, em junho de 2007, Condoleezza Rice foi, pessoalmente, informada, em
resumo, pelo contratado da CIA que supervisionava as experiências. A conselheira de
segurança nacional autorizou a continuação das experiências, mas diminuiu o
número de torturas autorizadas.
Os extractos do relatório, publicados, contêm uma análise detalhada do modo como a
CIA mentiu aos outros ramos da administração Bush, aos média (mídia - br) e ao
Congresso.
[No original, foto com a seguinte legenda: James Mitchell e Bruce Jensen, supervisores do programa de condicionamento da CIA.
Mitchell havia sido designado em 2012 bispo mórmon, mas foi obrigado a resignar logo que a
Igreja de Jesus Cristo dos santos dos últimos dias soube das suas actividades.]
As experiências do professor Martin Seligman
O extracto, publicado, do relatório confirma que a CIA realizou experiências baseadas
nos trabalhos do professor Martin Seligman (teoria da «impotência assumida»). Elas
não tinham por objectivo obter confissões ou informações, mas, sim, incutir um
discurso ou um comportamento aos sujeitos. A maior parte das citações que a
imprensa fez, dos trechos do relatório, presta-se à confusão. Com efeito, a CIA fala de
«métodos de condicionamento», sob o nome de «métodos extra-padrão de
interrogatório» (non-standard means of interrogation). Fora de contexto, pode-se,
pois, pensar que o termo «interrogatório» designa a pesquisa de informação, quando
ele significa sessões de condicionamento dos sujeitos.
Todos os nomes dos torturadores foram censurados no extracto desclassificado do
relatório. Porém, reconhece-se Bruce Jessen sob o pseudónimo de «Grayson
Swigert», e James Mitchell sob o de «Hammond Dunbar». A partir de 12 de abril de
2002, os dois homens supervisionaram o programa. Eles estavam presentes nas
prisões secretas, fisicamente. Em 2005, eles estabeleceram uma sociedade comercial,
Mitchell, Jessen & Associates (designada como «Companhia Y» no relatório). A sua
empresa recebeu pagamento de 81 milhões de dólares, de 2005 a 2010.
Seguidamente, eles foram contratados pelo Exército de Terra para dirigir um
programa sobre comportamento em 1,1 milhões de soldados norte-americanos.
Em maio de 2003, um oficial sénior da CIA questionou o inspector-geral da Agência,
mostrando que os trabalhos do professor Seligman eram baseados nas torturas
praticadas pelo Vietname do Norte, a fim de obter «confissões para efeitos de
propaganda». O oficial punha em causa o programa de condicionamento. A sua
chamada de atenção não teve qualquer efeito. No entanto, ele cometeu um pequeno
erro citando o Vietname do Norte, sendo que as pesquisas de Seligman eram
baseadas, tal como as práticas dos norte-vietnamitas, em trabalhos coreanos.
O modo como os torcionários se protegeram
Segundo a Comissão senatorial, o programa de tortura da CIA foi ordenado pelo
presidente George W. Bush, a 17 de setembro de 2001, seis dias após os atentados.
Ele tinha como único objectivo fornecer meios extra ao inquérito sobre os atentados
de 11 de Setembro de 2001. No entanto, este programa foi, imediatamente,
desenvolvido em violação de certas instruções do Presidente. Por consequência, logo
que terminados os atentados, a CIA, à revelia da Casa Branca, esforçou-se em fabricar
falsos testemunhos atestando, mentirosamente, a culpabilidade da al-Qaida.
O presidente George Bush e os parlamentares foram enganados pela CIA que:
. obteve autorizações para a prática de certos actos de tortura mascarando, para isso,
a sua verdadeira finalidade . e, falsamente, apresentou confissões inculcadas, como se elas tivessem sido
extorquidas sob tortura.
Quando o presidente Bush reconheceu, a 6 de setembro de 2006, a existência do
programa de torturas secretas da CIA ele defendeu esta prática, argumentando que
ela tinha permitido obter informações que salvaram vidas. Ele baseou-se nos falsos
relatórios da CIA, e ignorava que esta fabricava provas em vez de as procurar. De
imediato, a imprensa atlantista mergulhou na barbárie e debateu o mérito ou não da
tortura, apresentando-o como um mal necessário para obter o bem.
Os torturadores trataram de se garantir cobertura legal. Assim sendo, eles pediram
autorização para a praticar ao Departamento de Justiça. Mas, este apenas se
pronunciou sobre a legalidade dos métodos utilizados (isolamento, confinamento
numa pequena caixa, simulação de enterro, utilização de insectos, etc.), e não sobre o
programa no seu conjunto. A maior parte dos juristas só autorizava posturas
particulares, ignorando, aqui, as suas consequências psicológicas uma vez
combinadas. Todas as autorizações foram reunidas em agosto de 2002.
Os dirigentes da CIA que autorizaram estas experimentações especificaram, por
escrito, que as cobaias humanas deviam ser incineradas se sucumbissem durante o
condicionamento, ou que elas deveriam ficar em prisão perpétua se sobrevivessem.
«Confissões» fabricadas
[No original, digitalização da capa do livro de T. Meyssan “11 de setembro de 2001
– uma terrível farsa”]
Que fique bem claro: a Comissão Senatorial não diz que as confissões dos prisioneiros
da CIA são legalmente incorrectas, por terem sido obtidas sob tortura, ela mostra que
a CIA não interrogou estes prisioneiros, mas, sim, que os condicionou para que eles
confessem situações e actos que lhes são estranhos. A Comissão precisa que os
agentes da CIA nem sequer procuraram saber o que os detidos haviam confessado,
aquando dos interrogatórios precedentes, às autoridades que os prenderam. Por
outras palavras, não só a CIA não procurou saber se a al-Qaida estava envolvida, ou
não, nos atentados, como a sua acção não teve outro propósito senão o de fabricar
falsos testemunhos atestando, mentirosamente, a implicação da al-Qaida nos
atentados de 11 de Setembro.
A Comissão Senatorial não se preocupa em saber se as confissõesdas cobaias
humanas foram extorquidas ou inculcadas, mas, depois de explicar que os
supervisores eram peritos do condicionamento e não de interrogatórios, ela detalha,
longamente, o facto que nenhum desses «testemunhos» permitiu antecipar fosse o
que fosse. Ela demonstra que a CIA mentiu ao pretender que eles tinham permitido
evitar outros atentados. A Comissão não escreve que as informações sobre a al-Qaida
contidas nessas confissões são fabricações, mas ela ressalta que tudo o que era
comprovável era falso. Ao fazê-lo, a Comissão desmente explicitamente os
argumentos que foram utilizados para justificar a tortura e anula, implicitamente, os testemunhos que foram utilizados para ligar a al-Qaida aos atentados do 11 de
Setembro.
Este relatório confirma, de modo oficial, as várias informações que nós havíamos
apresentado aos nossos leitores e que contradizem e invalidam o trabalho dos “thinks
tanks” (círculos de pensamento político - ndT) atlantistas, das universidades e da
imprensa, desde o 11 de Setembro, tanto no que diz respeito aos atentados de 2.001,
em si mesmos, como no que diz respeito à al-Qaida.
Na sequência da publicação de trechos deste relatório, parece que todos os
testemunhos, citados no relatório da Comissão Presidencial de inquérito sobre o 11 de
Setembro, ligando estes atentados à al-Qaida são falsos. Já não existe mais, nesta
altura, o menor indicio permitindo atribuir estes atentados à al-Qaida: não existe
nenhuma prova que as 19 pessoas acusadas de ser os piratas do ar se tenham
encontrado, naquele dia, num destes quatro aviões, e nenhuma das confissões de
antigos membros da al-Qaida reivindicando os atentados é genuína2.
[No original, foto com a seguinte legenda:
Martin Seligman, mentor do programa de condicionamento da CIA.]
O relatório confirma o que nós reveláramos em 2009
Em outubro de 2009, eu havia publicado um estudo sobre este assunto na revista
russa Odnako3. Aí, afirmava que Guantanamo não era um centro de interrogatório,
mas sim de condicionamento. Por outro lado, eu colocava em causa, pessoalmente, o
Professor Seligman. Um ano mais tarde, após o artigo ter sido traduzido para inglês,
psicólogos norte-americanos desencadearam uma campanha para exigir a Martin
Seligman que se explicasse. Como resposta, este negou o seu papel de torturador e
lançou um processo judicial contra mim e contra a Rede Voltaire, em França e no
Líbano, onde eu morava. Em última análise, o professor Seligman instruiu os seus
advogados para parar os procedimentos depois de termos publicado uma das suas
cartas, seguida de uma explicação de texto4. Martin Seligman demandou
identicamente todos aqueles que trataram deste assunto, como Bryant Weich do
Hunffington Post5.
[No original, foto com a seguinte legenda:
John O. Brennan foi director-adjunto da CIA (2001-05) e nesta qualidade director do Centro
nacional anti-terrorista. Ele foi o principal artesão do programa secreto de fabrico de
2
“11 de Setembro de 2001 - Uma Terrível Farsa”, Thierry Meyssan, Usina do livro (Brasil) / “11 de
Setembro, 2001 - A Terrível impostura”, Thierry Meyssan, Frenesi (Portugal).
3
“O Segredo de Guantanamo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Odnako (Rússia), Rede Voltaire, 10
de Setembro de 2014.
4
“Carta de Martin Seligman”, Martin Seligman, Tradução Alva, Rede Voltaire, 11 de Dezembro de
2014.
5
“Fort Hood: A Harbinger of Things to Come?” (Ing- «Fort Hood : Um prenúncio do que está para
acontecer ?» - ndT), Bryant Welch, Hunffington Post, 18 de março de 2010. E o direito de resposta :
“A Response to Bryant Welch” (Ing- «Uma resposta a Bryant Welch» - ndT), Martin Seligman. confissões sob tortura. Em 2009, ele tornou-se conselheiro do presidente Barack Obama para
as questões de Segurança da Pátria. Foi nomeado director da CIA em 2013.]
E agora
A senadora Diane Feinstein veio, corajosamente, publicar uma parte do seu relatório,
apesar da oposição do actual director da CIA, John Brennan, anteriormente
encarregado de controlar este programa de tortura.
O Presidente Barak Obama anunciou que ele não demandaria nenhum dos
responsáveis destes crimes, enquanto os defensores dos direitos humanos se batem
para que os torturadores sejam levados perante a justiça. É o mínimo que se pode
fazer.
No entanto, as reais perguntas estão algures: porque é que a CIA cometeu tais
crimes? Porque é que ela fabricou confissões, permitindo conectar artificialmente a
al-Qaida aos atentados de 11 de Setembro? E, por conseguinte, não tendo a al-Qaida
nenhuma relação com os atentados de 11 de Setembro, quem é que a CIA procurou
proteger?
Por fim, o programa da CIA só visou 119 cobaias humanas, que se passa, pois, com os
80. 000 prisioneiros secretos da US Navy (Marinha dos EUA - ndT) ?
Tradução
Alva
* Thierry Meyssan: intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da
conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na
imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: “L’Effroyable
imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations” (ed. JP Bertrand, 2007). Última
obra publicada em Castelhano (espanhol): “La gran impostura II. Manipulación y
desinformación en los medios de comunicación” (Monte Ávila Editores, 2008).
sábado, 27 de dezembro de 2014
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
24 DE DEZEMBRO DE 2014
Pepe Escobar: Rússia e China zombam do velho “dividir para governar”
23/12/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online ‒ The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
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| Roma e Pequim |
Roma e Pequim – O Império Romano fez. O Império Britânico copiou-lhe o estilo O Empire of Chaos [Império do Caos] sempre fez. Todos eles fazem. Divide et impera. Divide e governa – ou divide e conquista. É repugnante, brutal e eficaz. Mas não vivem para sempre, eternos como os diamantes, porque impérios vêm abaixo.
Quarto com janela para a rua, para o Panteão, pode ser celebração de Vênus – mas é também espiadela nos trabalhos de Marte. Estive em Roma, de fato, essencialmente, para um simpósio – Global WARning [Alerta de Guerra Global] – organizado por um grupo engajado, comprometido e talentoso, coordenado por um ex-membro do Parlamento Europeu, Giulietto Chiesa. Três dias depois, quando foi lançado o ataque ao rublo, Chiesa foi preso e expulso da Estônia como persona non grata, mais uma ilustração claríssima da histeria anti-Rússia que está tomando conta das nações do Báltico e do jugo orwelliano que a OTAN impõe aos elos europeus fracos. Absolutamente não se admite opinião divergente.
No simpósio, realizado num refeitório dos Dominicanos do século XV divinamente decorado com afrescos e que hoje está incorporado à biblioteca do Parlamento italiano, Sergey Glazyev, por telefone, de Moscou, ofereceu interpretação clara da Guerra Fria 2.0. Não há “governo” real em Kiev: quem governa é o embaixador dos EUA. Uma doutrina anti-Rússia foi lançada em Washington para fomentar a guerra na Europa – e políticos europeus operam como colaboracionistas. Washington quer guerra na Europa, porque está perdendo a competição para a China.
Glazyev falou da demência das sanções: a Rússia está tentando simultaneamente reorganizar a política do Fundo Monetário Internacional, combater a fuga de capitais e minimizar o efeito de os bancos terem fechado linhas de créditos para muitos empresários. Mas o resultado final das sanções, diz ele, é que a Europa perderá sempre mais, economicamente; a burocracia europeia perdeu o próprio foco econômico, a partir do instante em que os planejadores geopolíticos norte-americanos assumiram o comando.
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| Sergey Glaziev |
Apenas três dias antes do ataque ao rublo, perguntei a Mikhail Leontyev (Secretário de Imprensa, Diretor do Departamento de Informação e Divulgação) da Rosneft sobre os crescentes rumores de que o governo russo preparava-se para aplicar controles sobre a moeda. Naquele momento, ninguém sabia que o ataque ao rublo seria tão rápido, concebido como xeque-mate para destruir a economia russa. Depois de sublimes espressos na Tazza d'Oro, em frente ao Panteão, Leontyev disse que controles monetários eram uma possibilidade. Mas não ainda.
Enfatizou, isso sim, que se tratava de guerra financeira total, sem trégua, ajudada por uma 5ª-coluna dentro do establishment russo. O único componente igual para os dois lados, nessa guerra assimétrica, eram as forças nucleares. Mas a Rússia de modo algum se renderia. Para Leontyev, a Europa não é sujeito histórico, mas objeto: “O projeto europeu é projeto norte-americano”. E “democracia” virou ficção.
O ataque ao rublo veio e foi-se, como devastador furacão econômico. Fato é que não se tenta xeque-mate contra enxadrista treinado, a menos que nosso poder de fogo seja equivalente ao do feixe de raios de Júpiter. Moscou sobreviveu. Gazprom acedeu à solicitação do presidente Vladimir Putin e venderá suas reservas de dólares norte-americanos no mercado doméstico. O Ministro alemão de Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier falou à mídia contra a União Europeia “apertar novamente os parafusos” em mais sanções contraproducentes contra Moscou. E em sua conferência anual com a imprensa, Putin enfatizou como a Rússia atravessaria, sim, a tormenta. Pessoalmente, muito mais me intrigou o que Putin não disse.
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| Vladimir Putin na Crimeia em 18/3/2014 |
Com Marte assumindo o centro do palco, em frenética aceleração da história, retirei-me para meu quarto Pantheon tentando incorporar Sêneca: da eutimia – serenidade interior – para aquele estado de imperturbabilidade que os estoicos definiram como aponia. Mas não é fácil manter-se eutímico, com a Guerra Fria 2.0 comendo solta.
Mostra-me teu imperturbável míssil
A Rússia sempre poderá servir-se de uma opção econômica “nuclear”, declarando em moratória a dívida externa russa. Então, se bancos ocidentais confiscarem patrimônio russo, Moscou poderia confiscar todos os investimentos ocidentais na Rússia. Seja como for, o objetivo do Pentágono e da OTAN, de fazer guerra no teatro europeu, não se realizaria; a menos que Washington seja suficientemente imbecil para dar o primeiro tiro.
Mas permanece aí, como séria possibilidade, com o Império do Caos acusando a Rússia de violar o Tratado das Forças Nucleares de Médio Alcance [orig. Intermediate-Range Nuclear Forces Treaty (INF)], apesar de o Império do Caos preparar-se para forçar a Europa, em2015, a aceitar a instalação de mísseis cruzadores nucleares dos EUA.
A Rússia pode passar a perna nos mercados financeiros ocidentais, cortando o fornecimento de petróleo e gás natural. Os mercados inevitavelmente desabariam – caos não controlado para o Império do Caos (ou “caos controlado”, nas palavras do próprio Putin). Imaginem o desabamento de mais de um quatrilhão de derivativos. Passar-se-iam anos até que o “ocidente” substituísse o petróleo e o gás natural russos, mas a economia da União Europeia seria devastada instantaneamente.
Só o ataque-relâmpago do ocidente contra o rublo – e os preços do petróleo – usando o esmagador poder das empresas de Wall Street já sacudiram os bancos europeus expostos à Rússia até o âmago: os CDS [1] subiram à estratosfera. Imaginem aqueles bancos desabados como o castelo Lehman Brothers de cartas, se a Rússia optar pelo calote – disparando uma reação em cadeia. Pensem numa Mutually Assured Destruction (MAD), Destruição Mútua Garantida – de fato, mesmo, sem guerra. Ainda assim, a Rússia é autossuficiente em todos os tipos de energia, minérios e agricultura; a Europa não é. O efeito mais letal da guerra de sanções pode ser esse.
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| Sanções |
Essencialmente, o Império do Caos está blefando, jogando com a Europa como peões. O Império do Caos é muito ruim no xadrez, tão ruim quanto em história. A única coisa que sabe fazer é subir o tom da ameaça, para forçar a Rússia a recuar. A Rússia não recuará.
Amanhece a treva ao raiar do caos [2]
Parafraseando Bob Dylan em When I Paint My Masterpiece, deixei Roma e pousei em Pequim. Marco Polo de hoje viaja Air China; em dez anos, voarão na direção oposta, por trem-de-alta-velocidade, de Xangai a Berlim.
De um quarto na Roma imperial, para um quarto num pacato hutong – reminiscência lateral da China imperial. Em Roma, os bárbaros enxameiam por trás dos portões, pilhando suavemente as migalhas de tão rica herança, e aí se inclui, sim, a Máfia local. Em Pequim, os bárbaros são mantidos sob estrita vigilância; claro que há um elemento Panopticon aí, essencial para assegurar a paz social interna. A liderança do Partido Comunista Chinês (PCC) – sempre, desde as reformas empreendidas pelo Pequeno Timoneiro, Deng Xiaoping que sacudiram a placas tectônicas – é perfeitamente cônscia de que seu Mandato Divino é diretamente condicionado pela harmonização perfeita entre nacionalismo e o que se pode chamar de “neoliberalismo com características chinesas”.
Em outra veia diferente, tipo “os coxins do oriente são macios” [3] para seduzir Marco Antônio, as sedas chinesas esplendorosas da Pequim chique oferecem uma faísca de potência emergente muito segura dela mesma. Afinal, a Europa nada é além de catálogo de esclerose múltipla, e o Japão já está sob a sexta recessão em 20 anos.
Para culminar, em 2014 o presidente Xi Jinping empreendeu atividade diplomática/ geoestratégica frenética – conectada, no fundo, ao projeto de longo prazo para, devagar mas sem falhas, apagar a supremacia dos EUA na Ásia e rearranjar o tabuleiro global de xadrez. O que Xi disse em Xangai em maio resume o projeto: “É tempo de os asiáticos administrarem os negócios da Ásia.” Na reunião da Associação dos Países Exportadores de Petróleo (APEC) em novembro, pegou mais leve, e promoveu um “sonho Ásia-Pacífico”.
Mas a regra é o frenesi. À parte dos dois negócios-monstro, de US$ 725 bilhões de gás – gasodutos “Poder da Sibéria” e “Altai” – e uma recente ofensiva relacionada à Nova Rota da Seda (China set to make tracks for Europe) no Leste Europeu, virtualmente ninguém no ocidente parece lembrar que em setembro o Primeiro-Ministro chinês assinou nada menos que 38 acordos comerciais com os russos, incluído um swap e um negócio de benefícios fiscais, que implicam total harmonização e interjogo econômico.
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| Presidente da China, Xi Jinping por Maurício Porto |
Já há quem diga que a deriva geopolítica na direção da integração Rússia-China é a mais importante manobra estratégica dos últimos 100 anos. O grande plano máster de Xi nada tem de ambíguo ou difícil de compreender: quer uma aliança Rússia-China-Alemanha comercial/de negócios. O empresariado/indústria alemães querem muito ver acontecer; mas os políticos alemães não dão sinais de ter captado a mensagem. Xi – e Putin – estão construindo uma nova realidade econômica no campo eurasiano, plena de ramificações políticas, econômicas e estratégicas crucialmente importantes.
Claro, é estrada extremamente pedregosa. Nada vazou, até agora, para a imprensa-empresa ocidental, mas cabeças pensantes independentes no meio acadêmico europeu (ah, sim, existem, como uma espécie de sociedade secreta) estão mais assustadas, a cada dia, ante o nenhum modelo alternativo, alternativa-zero para o capitalismo-de-cassino e o neoliberalismo entrópico mais hardcore promovidos pelos Masters of the Universe.
Ainda que a integração eurasiana venha a prevalecer no longo prazo, e Wall Street passe a ser uma espécie de bolsa de ações locais, os chineses e o mundo multipolar emergente ainda assim parecem estar-se autocondenando ao modelo neoliberal existente.
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| Nova Rota da Seda (terra e mar) China-Alemanha |
Fato é que, assim como Lao Tze, já octogenário, aplicou uma bofetada (intelectual) na cara do jovem Confúcio, o “ocidente” muito teria a aprender com algumas bofetadas de alerta.
Divide et impera? Não. Não está funcionando. Está condenado a falhar miseravelmente.
No pé em que estão as coisas, o que sabemos é que 2015 será ano de arrepiar os cabelos em muitos aspectos. Porque da Europa à Ásia, das ruínas do império romano ao re-emergente Império do Meio, permanecemos todos ainda sob o signo do perigoso, assustador, de irracionalismo rampante, Império do Caos.
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Notas dos tradutores
[1] CDS (Credit Default Swap) é um acordo de troca financeira pelo qual o vendedor do CDS compromete-se a compensar o comprador (credor do empréstimo referência), no evento de calote do devedor ou outro evento do crédito.
[2] Orig. “Darkness dawns at the break of chaos”. Down of darkness é um videogame, RPG. Difícil traduzir, sem essa referência.
[3] Orig. “soft beds of the East” – é expressão de Shakespeare em Antônio e Cleópatra. Leitura interessante...Prôs que se interessem.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War, Nimble Books, 2007.
− Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the Surge, Nimble Books, 2007.
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro, Empire of Chaos, acaba de ser publicado pela Nimble Books
domingo, 21 de dezembro de 2014
LUCIEN SÈVE
| ARTIGO | |
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| REFLEXÕES SOBRE O LIBERALISMO | |
| Prezar a liberdade, defender a escravidão | |
Os partidários do liberalismo atribuem ao neoliberalismo o mérito de transformações emancipatórias às quais na verdade ele se opõe
| |
| por Lucien Sève | |
![]() Quem faz do liberalismo a imagem dada pelos liberais terá duras surpresas ao ler esta obra magistral de Domenico Losurdo, Contre-histoire du libéralisme[Contra-história do liberalismo] (Laterza, Roma/Bari, 2006), que já de saída nos apresenta um extraordinário paradoxo. Ser liberal, em princípio, significa militar, seguindo a escola de grandes escritores como Hugo Grotius e John Locke, Adam Smith e Alexis de Tocqueville, pelas liberdades do indivíduo contra o absolutismo político, o intervencionismo econômico, a intolerância filosófica. Poderoso movimento de pensamento e ação que, do século XVI ao século XVIII, e através de três gloriosas revoluções na Holanda, Inglaterra e América, moldou toda a história contemporânea. Mas é justamente com ele que a escravidão conheceu seu maior desenvolvimento. Na América, havia 330 mil escravos em 1700, cerca de 3 milhões em 1800 e o dobro na metade do século XIX. A Holanda só aboliu a escravidão em suas colônias em 1863. Em meados do século XVIII, era a Grã-Bretanha que tinha o maior número de escravos: quase 900 mil. E tratava-se do pior tipo de escravidão, a chattel racial slavery, na qual o escravo negro é simplesmente um “bem móvel”. Não se poderia imaginar uma negação mais radical da liberdade individual. Onde está o erro? É isso que o livro se dedica a explicar, de cabo a rabo, com uma impressionante oferta de fatos sangrentos e citações sufocantes. Não, não se trata de um erro. A doutrina liberal nasceu com duas faces e nunca as abandonou: mensagem inflamada de liberdade pessoal apenas para os cidadãos, homens brancos proprietários que formavam um Herrenvolk, um “povo de senhores” – germanismo adotado sem medo por essa ideologia amplamente anglófona; negação cínica da humanidade não apenas para os negros nas colônias, mas também para aquelas consideradas “bárbaras”, como os irlandeses e os índios americanos, e toda a massa de servos e trabalhadores nas próprias metrópoles – ou seja, para a grande maioria. Essa contra-história do liberalismo, sem negar a face luminosa, revela desde o princípio, em toda a sua extensão, o lado escuro que a hagiografia liberal não cansa de esconder. Quando, por exemplo, apenas para ficar em um detalhe, aprendemos que o grande filósofo liberal Locke era acionista da Royal African Company, grande organizadora do tráfico de negros, começamos a entender melhor muitas coisas em nossa história moderna. Mas também entendemos que esse livro iconoclasta levou tempo para chegar até nós. E que aquilo que nossa grande mídia fala dele, mesquinhamente, revela com frequência um mau humor envergonhado. A obra é erudita demais e ao mesmo tempo muito clara para ser recusada com propriedade. Por isso é atacada por meio dos desgastados expedientes da polêmica. Questionam-se as posições do autor sobre qualquer outro assunto, quando é perfeitamente admissível não concordar com ele. Acusam-no de unilateralismo, quando ele não perde nenhuma oportunidade de mostrar a diversidade de aspectos do liberalismo, a complexidade de suas correntes, muitas vezes a ambiguidade de seus pensadores. Por fim, lança-se o golpe do “mas todo mundo já sabia!”, quando a ideologia dominante age incessantemente para dar vida, em sua grosseira parcialidade, à lenda dourada do liberalismo. Novo Mundo, um “berço vazio” É preciso dizer que o livro de Losurdo está cheio de citações que fazem muito mal à lenda. Como este texto de Tocqueville legitimando o extermínio dos peles-vermelhas: “A Providência, colocando-os em meio às riquezas do Novo Mundo, parecia não lhes ter oferecido mais que um curto usufruto. Eles estavam lá, de alguma forma, apenasesperando. As costas tão bem preparadas para o comércio e a indústria, os rios tão profundos, o inesgotável vale do Mississípi, o continente inteiro, tudo isso aparecia então como o berço ainda vazio de uma grande nação”. O “berço vazio”: eis como um célebre liberal legitima com sua pena leve um dos maiores genocídios da história, fornecendo por antecipação uma justificativa muito apreciada aos doutrinários da “terra sem povo” oferecida por Deus a um povo sem terra... Textos dessa seara existem em grande número, e outros ainda mais inesperados, nessa contra-história. Oferecendo-nos muito a aprender, o autor ainda mais nos dá a pensar. Por exemplo, e de maneira central, exibindo a proposição de um George Washington ou de um John Adams verdadeiramente reveladora a respeito da Revolução Norte-Americana realizada no fim do século XVIII por colonos liberais proprietários de escravos, absolutamente conscientes de serem “súditos britânicos brancos e nascidos livres”, no último grito contra os ingleses da metrópole que os oprimia: “Não queremos ser seus negros!”. O que logo salta aos olhos aqui é que o pensamento liberal nunca foi autenticamente universalista. As liberdades exigidas “para o indivíduo” não são, em absoluto, para todos os seres humanos, mas apenas para o pequeno número de eleitos, no duplo sentido bíblico e cívico do termo. “Há homens nascidos para a servidão” E esse particularismo agressivo é fundador. Hugo Grotius, um dos pais da doutrina liberal no século XVII, legitima sem reservas a instituição da escravidão (“há homens nascidos para a servidão”, escreveu, reivindicando Aristóteles), chama os cidadãos das colônias holandesas de “bestas selvagens” e, qualificando sua religião de “rebelião contra Deus”, justifica a mais cruel “punição dos culpados”. Não há, portanto, desvios da prática: é a própria ideia liberal que traz em si um aristocratismo antropológico diretamente segregador e desumanizador. O francês Alexis de Tocqueville, aristocrata-democrata, tem muitos pensamentos bastante parecidos. Losurdo cita a seguinte afirmação: “A raça europeia recebeu do céu ou adquiriu por seus esforços uma tão incontestável superioridade sobre todas as outras raças que compõem a grande família humana, que aquele entre nós que esteja no último nível da escala social, por seus vícios e sua ignorância, será ainda o primeiro entre os selvagens”. Muitos hoje se surpreendem com a arrogância de casta ostentada por vários membros, homens ou mulheres, dos meios dirigentes; lendo essa contra-história, entendemos que, mais que um traço psicossocial dos indivíduos, essa é uma característica fundamental da própria doutrina liberal e da postura prática que ela sempre comandou. Liberalismo e democracia nunca foram sinônimos. A conclusão de Losurdo é que “se trata de um discurso inteiramente centrado naquilo que, para a comunidade dos homens livres, é o espaço sagrado restrito” – espaço sagrado tal como o legitima uma cultura ético-religiosa protestante fundamentalmente nutrida pelo Antigo Testamento. E basta fazer intervir na análise o “espaço profano” (os escravos das colônias e os servos da metrópole) para perceber o caráter inadequado e enganoso das categorias habitualmente utilizadas para traçar a história do Ocidente liberal: primado absoluto da liberdade individual, antiestatismo, individualismo. A Inglaterra dos séculos XVIII e XIX é o país da liberdade religiosa? Sobre a Irlanda, o liberal Gustave de Beaumont, companheiro de Tocqueville durante sua viagem à América, fala de uma “opressão religiosa que supera qualquer imaginação”. Acompanhar o liberalismo em sua longa história implica também interessar-se, pelo menos de maneira secundária, por aquilo que veio a contestá-lo, ou até combatê-lo. Através do livro de Losurdo, vemos formarem-se as diversas figuras de um universalismo, segundo ele, católico e monárquico, de um Jean Bodin, no século XVI, ao radicalismo anticolonial e abolicionista algumas vezes alcançado pelos liberais avançados do século XIX, e até a crítica fundamental de Karl Marx, que se destaca em revelar o “caráter conservador da revolução inglesa”. A emancipação política burguesa foi na verdade o sinal de um furor social não apenas contra os povos coloniais, mas também contra o próprio campesinato inglês, antes de atacar o proletariado urbano incrivelmente maltratado dasworkhouses − uma análise que Losurdo, no entanto, não segue integralmente, esboçando uma visão de conjunto pessoal das revoluções liberais latino-americanas e europeias. Porém, por mais significativas que sejam essas posições antiliberais, mais concretamente produtivos foram os movimentos dos próprios povos, entre os quais Losurdo coloca em primeiro lugar a revolta de Santo Domingo, com a figura de proa de Toussaint Louverture, verdadeiro tiro de canhão no concerto dominante da época – um povo negro tem a inacreditável audácia de querer ser livre! –, uma revolta que, ao mesmo tempo que a Revolução Francesa, provocou uma virada decisiva na independência crioula e na abolição da escravatura na América Latina. Cento e vinte e cinco anos depois, um poderoso impulso no mesmo sentido foi dado pela Revolução de Outubro na Rússia. “Tudo bem considerado, foram a revolta de Santo Domingo e a Revolução de Outubro que colocaram em crise, respectivamente, a escravidão e o regime terrorista de dominação branca”: dois capítulos históricos “majoritariamente odiados pela cultura liberal da época”. Sem abordar a história recente do neoliberalismo, Losurdo termina questionando-se sobre a responsabilidade do liberalismo nas “catástrofes do século XX” e, de modo totalmente convincente, considera-a pesada. Evocando a tese de Hannah Arendt, que parte “das colônias do Império Britânico para explicar a gênese do totalitarismo do século XX”, ele lembra que os campos de concentração e outras instituições antidemocráticas “começaram a ser esboçadas bem antes do fim da chamada Belle Époque”, citando, por exemplo, as “deportações sangrentas e repetidas dos índios, a partir daquela colocada em prática pelos Estados Unidos de Jackson (designado por Tocqueville como um modelo de democracia)”. Com o tratamento infligido aos negros do Novo Mundo, alcançaram-se em matéria de desumanização “picos difíceis de igualar”. Na Jamaica britânica, “um escravo foi obrigado a defecar na boca do escravo culpado, que foi então costurada durante quatro ou cinco horas”. Nos Estados Unidos, crianças em idade escolar podiam ganhar um dia de folga para assistir a um linchamento. O título de um livro publicado em Boston em 1913 evoca a “solução final” (ultimate solution) da questão negra. Um pesquisador norte-americano, Ashley Montagu, escreveu sobre o racismo e o nazismo que “o monstro que conseguiu saltar livremente para o mundo é em grande parte nossa criação [...], e somos responsáveis pela forma horrenda que ele tomou”. Está errado o autor, portanto, em pedir o fim da falsa hagiografia do liberalismo, administrada em altas doses por três décadas desde o início do reinado de Margaret Thatcher?
Lucien Sève é filósofo, autor de Penser avec Marx aujourd’hui. Tome 2: L’Homme, La Dispute, Paris, 2008.
Ilustração: Lollo | |
| 03 de Junho de 2013 | |
| Palavras chave: Liberalismo, Neoliberalismo, escravidão, trabalho, Locke, Adam Smith, filosofia, ideologia,doutrina, capitalismo, Europa, Estados Unidos, Hannah Arendt | |
sábado, 20 de dezembro de 2014
Claudio Katz
El Imperialismo del Siglo XXI
El resurgimiento
de la teoría del imperialismo está modificando el análisis de la globalización.
Esta concepción explica la polarización mundial de ingresospor la transferencia
sistemática de recursos de los países periféricos hacia los capitalistas del
centro. Esta asimetría acentúa la dependencia y provoca agudas crisis en
Latinoamérica, que se profundizarán si se consuma el proyecto del ALCA. El
correlato político de esta iniciativa es un proceso de recolonización política
y su consecuencia militar es la intervención más abierta del gendarme
norteamericano. La dominación imperialista no es una fatalidad, ni obedece a
una superioridad cultural de los países avanzados.
La mayor
asociación entre las clases dominantes del centro y la periferia coexiste con
la profundización de la brecha entre ambas regiones. Esta fractura desmiente la
existencia de un proceso de transnacionalización uniforme. La incapacidad de
las burguesías del Tercer Mundo para erigir sistemas capitalistas prósperos no
puede ser corregida por otros grupos sociales.
Un segundo
aspecto de la teoría del imperialismo esclarece las relaciones prevalecientes
entre las potencias en cada etapa del capitalismo. Existe un intenso debate
sobre la evolución contemporánea de estas vinculaciones. La tesis de la
concurrencia interimperialista refuta los mitos neoliberales de la
globalización, pero no explica las razones que inhiben la confrontación bélica
entre estados rivales. El enfoque transnacionalista registra la creciente
integración de capitales, pero desconoce que la competencia continúa mediada
por las clases y los estados nacionales. Esta omisión adopta formas extremas en
la teoría del Imperio de A. Negri. La visión superimperialista constata la
evidente hegemonía norteamericana, pero desconoce que este liderazgo no ha
creado relaciones de dominación entre los países desarrollados comparables a
las vigentes en la periferia.
Un enfoque
adecuado del imperialismo contemporáneo requiere interpretar cómo se combinan
las tendencias a la rivalidad, la integración y la hegemonía con las nuevas
formas de funcionamiento del capitalismo. Las analogías corrientes con la
decadencia romana oscurecen esta indagación.
Los antagonistas
sociales y políticos del imperialismo están recobrando fuerzas en todo el
mundo, a través de la protesta global, la recuperación de la clase obrera y las
rebeliones en la periferia. Un proceso de maduración política socialista
comienza a notarse en las discusiones sobre el internacionalismo, el programa antiimperialista,
el carácter del estado y los sujetos de la transformación social.
EL IMPERIALISMO
DEL SIGLO XXI.
Claudio Katz
El renovado
interés que suscita el estudio del imperialismo está modificando el debate
sobre la globalización, hasta ahora exclusivamente centrado en la crítica al
neoliberalismo y el análisis de los rasgos novedosos de la mundialización. Una
noción desarrollada por los teóricos marxistas de principios del siglo XX -que
alcanzó gran difusión durante los 70- despierta nuevamente la atención de los
investigadores, ante el agravamiento de la crisis social del Tercer Mundo, la
multiplicación de conflictos bélicos y la competencia descarnada entre
corporaciones.
El imperialismo
es una noción que conceptualiza dos tipos de problemas.. Por un lado, las
relaciones de dominación vigentes entre los capitalistas del centro y los
pueblos periféricos y por otra parte, las vinculaciones prevalecientes entre
las grandes potencias en cada etapa del capitalismo. ¿Qué actualidad presenta
esta teoría? ¿En qué medida contribuye a esclarecer la realidad contemporánea?
UNA EXPLICACIÓN
DE LA POLARIZACIÓN MUNDIAL.
La polarización
mundial de los ingresos confirma la importancia de esta concepción en su primer
sentido. Cuándo la fortuna de 3 multimillonarios sobrepasa el PBI de 48
naciones y cada cuatro segundos un individuo de la periferia muere de hambre,
resulta difícil ocultar que el ensanchamiento de la brecha entre los países
avanzados y subdesarrollados obedece a relaciones de opresión. Ya es indiscutible
que esta asimetría no es un acontecimiento “pasajero”, ni será corregida por el
“derrame” de los beneficios de la globalización. Los países periféricos no son
sólo “perdedores” de la mundialización, sino que soportan una intensificación
de las transferencias de recursos que históricamente frustraron su crecimiento.
Este drenaje ha
provocado la duplicación de la miseria extrema en las 49 naciones más
empobrecidas y mayores deformaciones en la acumulación fragmentaria de los
países dependientes semiindustrializados. En este segundo caso, la prosperidad
de los sectores insertos en la división internacional del trabajo se consuma en
desmedro de las actividades económicas destinadas a los mercados internos.
El análisis del
imperialismo no ofrece una interpretación conspirativa del subdesarrollo, ni
exculpa a los gobiernos locales de esta situación. Simplemente aporta una
explicación de porqué la acumulación se polariza a escala mundial, reduciendo
las posibilidades de nivelación entre economías disímiles. El margen de
crecimiento acelerado que permitió en el siglo XIX a Alemania o Japón alcanzar
el status de potencia que ya detentaban Francia o Gran Bretaña, no se encuentra
hoy al alcance de Brasil, la India o Corea.
El mapa mundial
ha quedado moldeado por una ”arquitectura estable” del centro y una “geografía
variable” del subdesarrollo, dónde sólo caben modificaciones del status
periférico de cada país dependiente .
La teoría del
imperialismo atribuye estas asimetrías a la transferencia sistemática del valor
creado en la periferia hacia los capitalistas del centro. Estas traslaciones se
concretan a través del deterioro de los términos de intercambio comercial, la
succión de recursos financieros y la remisión de utilidades industriales. El
correlato político de este drenaje es la pérdida de autonomía política de las
clases dominantes periféricas y la intervención militar creciente del gendarme
norteamericano. Estos tres rasgos del imperialismo contemporáneo se observan
con nitidez en la realidad latinoamericana.(...)
Texto completo em Página Oficial de Claudio Katz
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