quinta-feira, 12 de março de 2015


O ressurgimento do fascismo, uma questão actual

John Pilger
12.Mar.15 :: Outros autores
Desde 1945 mais de um terço dos membros das Nações Unidas — 69 países — sofreram de um modo ou de outro às mãos do moderno fascismo americano. Foram invadidas, os seus governos derrubados, os seus movimentos populares reprimidos, as suas eleições subvertidas, os seus povos bombardeados e as suas economias espoliadas de toda a protecção e as suas populações submetidas a um assédio paralisante com as chamadas «sanções»


O recente 70.o aniversário da libertação de Auschwitz foi um reavivar do imenso crime do fascismo, cuja iconografia nazi se inscreveu na nossa consciência colectiva. O fascismo permanece como história, como o terror perante os camisas-negras em passo de ganso, a sua terrível e indiscutível criminalidade. Mas, nas mesmas sociedades liberais, cujas elites fazedoras de guerra nos instam a não esquecer, o perigo crescente de um género de fascismo moderno é ocultado, porque esse é o seu fascismo.
Os juízes do Tribunal de Nuremberga afirmavam em 1946: «O início ou começo de uma guerra de agressão… não é apenas um crime internacional, é o supremo crime internacional, e só difere de outros crimes de guerra porque contem em si o mal acumulado de todos eles».
Se os nazis não tivessem invadido a Europa, nem Auschwitz nem o Holocausto teriam acontecido. Se os Estados Unidos e os seus satélites não tivessem iniciado a sua guerra de agressão no Iraque em 2003, quase um milhão de pessoas estaria hoje viva, e nem o estado islâmico, ou ISIS, nos teriam hoje submetidos à sua selvajaria. Eles são os filhos do fascismo moderno, criados com as bombas, os banhos de sangue e as mentiras que constituem esse teatro surrealista conhecido como noticiário.
Como no fascismo dos anos 30 e 40, grandes mentiras são espalhadas com a precisão de um cronómetro, graças a uns omnipresentes media repetitivos e à sua virulenta censura por omissão. Veja-se a catástrofe na Líbia.
Em 2011, a OTAN efectuou 9700 ataques aéreos contra a Líbia dos quais mais de um terço foi dirigido a alvos civis. Utilizaram-se ogivas de urânio, as cidades de Misrata e Sirte foram arrasadas à bomba. A Cruz Vermelha identificou valas comuns e a Unicef informou que a maioria das crianças assassinadas tinha idade inferior a dez anos.
A sodomização pública com uma baioneta «rebelde» de que foi objecto o presidente líbio Muammar Kadhafi foi recebida pela secretária de estado da época, Hillary Clinton, com as palavras «Viemos, vimos, ele morreu». O seu assassínio, tal como a destruição do seu país, foi justificado com a grande mentira habitual de que estava planeando um genocídio contra o seu próprio povo. «Sabíamos — declarou Obama — que se aguardássemos mais um dia, Bengasi, uma cidade do tamanho de Charlotte, poderia sofrer um massacre que teria ressoado em toda a região e manchado a consciência do mundo».
Foi uma patranha das milícias islamitas ante a sua derrota perante as forças governamentais líbias. Afirmaram à Reuters que iria verificar-se «um verdadeiro banho de sangue, um massacre, como o que vimos no Ruanda». Difundida a 14 de Março de 2011, a mentira propiciou a primeira chispa para o inferno da intervenção da NATO, descrito por David Cameron como uma «intervenção humanitária».
Abastecidos e treinados em segredo pelo serviço de operações especiais aerotransportadas britânico, o SAS, muitos dos «rebeldes» passariam para o ISIS, cuja última entrega de vídeo mostra a decapitação de 21 trabalhadores cristãos coptas sequestrados em Sirte, a cidade destruída a pedido seu, pelos bombardeiros da NATO.
Para Obama, David Cameron, e o então presidente francês Nicolas Sarkozy, o verdadeiro crime de Kadhafi era a independência económica da Líbia e a sua intenção declarada de parar a venda das maiores reservas do petróleo da África em dólares norte-americanos. O petrodólar é um pilar do poder imperial americano. Kadhafi atreveu-se a planificar a criação de uma moeda comum africana convertível em ouro, estabelecer um banco universal para a África e promover a união económica entre países pobres com recursos naturais valiosos. Fosse isto viável ou não, só a ideia tornava-se intolerável para os Estados Unidos precisamente quando se dispunham a entrar em África e subornar governos africanos com «parcerias» militares.
Após o ataque da NATO ao abrigo de uma resolução do Conselho de Segurança Obama, segundo Garika Chengu, «confiscou mais de 30 mil milhões de dólares do Banco Central da Líbia, que Kadhafi tinha destinado à criação de um banco central africano e todo o ouro destinado a garantir o dinar africano.»
A «guerra humanitária» contra a Líbia baseou-se num modelo muito aceitável para os sentimentos liberais ocidentais, especialmente dos meios de comunicação. Em 1999 Bill Clinton e Tony Blair enviaram a NATO a bombardear a Sérvia, porque segundo a sua mentira, os sérvios estavam a cometer «genocídio» contra a população albanesa na província separatista do Kosovo. David Scheffer, embaixador em missão especial para crimes de guerra [sic], afirmou que uns «225.000 homens de etnia albanesa de idades compreendidas entre 14 e 59 poderiam ter sido assassinados». Tanto Clinton como Blair evocaram o Holocausto e «o espírito da Segunda Guerra Mundial». Os heróicos aliados do Ocidente eram o Exército de Libertação do Kosovo (ELK), cujo cadastro de crimes foi deixado de lado. O ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Robin Cook, declarou-lhes que podiam ligar a qualquer hora para o seu telemóvel pessoal.
Com o bombardeamento da NATO sobre a Sérvia grande parte da infra-estrutura sérvia ficou em ruínas, juntamente com escolas, hospitais, mosteiros e a estação de televisão nacional. Equipas forenses internacionais desceram sobre o Kosovo para exumar as provas do «holocausto». O FBI não encontrou uma única vala comum e foi-se embora. A equipa espanhola fez o mesmo, o seu chefe furioso denunciou «uma pirueta semântica da máquina de propaganda da guerra». Um ano mais tarde, um tribunal das Nações Unidas sobre a Jugoslávia publicou um relatório final dos mortos no Kosovo: 2788, entre combatentes dos dois lados, sérvios e ciganos, assassinados pelo ELK. Não era genocídio. O «holocausto» era uma mentira. A justificação para o ataque da OTAN fora uma fraude.
Por detrás dessas mentiras havia uma intenção séria. A Jugoslávia era uma federação excepcionalmente independente, multi-étnica, que se destacara como uma ponte política e económica durante a Guerra Fria. A maior parte dos seus serviços e empresas eram propriedade pública. Isso era inaceitável para uma Comunidade Europeia em expansão, sobretudo para a Alemanha recém-unificada, que planeava a sua incursão para este lado a fim de captar o seu «mercado natural» nas províncias jugoslavas da Croácia e Eslovénia. Pela altura em que os europeus se reuniram em Maastricht, em 1991, para planificar a sua desastrosa zona euro, já um acordo secreto estava formado; a Alemanha reconhecia a Croácia. A Jugoslávia estava condenada.
Em Washington, os Estados Unidos conseguiram que fossem negados empréstimos do Banco Mundial à aflita economia jugoslava. Por seu lado a NATO, na altura uma relíquia quase extinta da Guerra-Fria, foi reinventada como braço armado imperial. Em 1999 na conferência da «paz» de Rambouillet sobre o Kosovo, celebrada em França, os sérvios foram submetidos a tácticas dúplices. O acordo de Rambouillet incluía um anexo B secreto que a delegação dos Estados Unidos inseriu no último dia. Implicava a ocupação militar da totalidade da Jugoslávia — um país com amargas recordações da ocupação nazi — e a prática de uma «economia de livre comércio» mais a privatização de todos os activos do governo. Nenhum estado soberano poderia assinar aquilo. O castigo foi imediato, bombas da NATO caíram sobre um país indefeso. Foi o prelúdio das catástrofes do Afeganistão e do Iraque, da Síria e da Líbia, e da Ucrânia.
Desde 1945 mais de um terço dos membros das Nações Unidas — 69 países — sofreram de um modo ou de outro às mãos do moderno fascismo americano. Foram invadidas, os seus governos derrubados, os seus movimentos populares reprimidos, as suas eleições subvertidas, os seus povos bombardeados e as suas economias espoliadas de toda a protecção e as suas populações submetidas a um assédio paralisante com as chamadas «sanções». O historiador britânico Mark Curtis calcula que o número de mortos se conta em milhões. Em todos os casos, foi previamente difundida uma grande mentira.
«Esta noite pela primeira vez desde o 11 de Setembro, a nossa missão de combate no Afeganistão terminou». Estas foram as palavras com que Obama abriu a conferência em 2015 sobre o Estado da União. No entanto, cerca de 10 mil soldados e 20 mil funcionários militares a contrato (mercenários) permaneceram no Afeganistão numa missão indefinida. «A guerra mais longa da história dos Estados Unidos está a chegar a uma conclusão responsável» declarou Obama. De facto, morreram mais civis no Afeganistão em 2014 do que em qualquer outro ano desde que a ONU tem registo. A maioria — civis e militares — mortos no período da presidência de Obama.
A tragédia do Afeganistão rivaliza com o épico europeu cometido na Indochina. No seu muito elogiado e citado livro «O Grande Tabuleiro de Xadrez: primazia americana e os seus imperativos geoestratégicos», Zbigniew Brzezinski, o padrinho da política dos Estados Unidos do Afeganistão à actualidade, escreve que se os Estados Unidos controlarem a Eurásia e dominarem o mundo, não podem manter uma democracia popular, já que a «busca do poder não é um objectivo que desperte a paixão popular… A democracia é inimiga da mobilização imperial». E tem razão. Tal como a WikiLeaks e Edward Snowden revelaram, a vigilância e o estado policial estão a usurpar a democracia. Em 1976, Brzezinski, então Conselheiro de Segurança Nacional do presidente Carter, demonstrou o seu ponto de vista ao assestar um golpe mortal na primeira e única democracia do Afeganistão. Quem conhece esta história decisiva?
Na década de 60, uma revolução popular atravessou o Afeganistão, o país mais pobre do mundo, acabando por derrubar, em 1978, os vestígios do velho regime aristocrático. O Partido Democrático Popular do Afeganistão (PDPA) formou um governo e apresentou um programa de reformas que incluía a abolição do feudalismo, a liberdade de todas as religiões, a igualdade de direitos para as mulheres e a justiça social para as minorias étnicas. Mais de 13 mil presos políticos foram libertados e os arquivos da polícia queimados publicamente.
O novo governo introduziu os cuidados médicos gratuitos para os mais pobres, aboliu-se a peonagem, pôs-se em marcha um programa de alfabetização maciça. Para as mulheres, os ganhos foram inauditos. Em finais de 1980 metade dos estudantes universitários eram mulheres e as mulheres representavam quase metade dos médicos no Afeganistão, uma terça parte dos funcionários públicos e a maioria dos docentes. «Todas as raparigas» lembrou Saira Noorani, uma cirurgiã, «podiam frequentar a escola secundária e a universidade. Podíamos ir onde quiséssemos e vestir a nosso gosto, íamos aos cafés e ao cinema ver o último filme da Índia às sextas feiras e ouvir a musica mais actual. Tudo começou a correr mal quando os mujahidines começaram a ganhar. Puseram-se a matar professores e a queimar escolas. Estávamos aterrorizados. Foi curioso e triste ver que eram estas as pessoas que o Ocidente apoiava.»
O governo do PDPA era apoiado pela União Soviética apesar de, como mais tarde admitiu o ex-secretário de Estado Cyrus Vance, «não existir prova de cumplicidade soviética [na revolução]». Alarmados pela confiança crescente dos movimentos de libertação em todo o mundo, Brzezinski decidiu que se o Afeganistão tivesse sucesso sob a direcção do PDPA, a sua independência e progresso iriam representar «a ameaça de um exemplo promissor».
Em 3 de Julho de 1979 a Casa Branca autorizou em segredo o apoio em armas e logística aos grupos tribais «fundamentalistas» conhecidos como mujahidines, um programa que cresceu até mais de 500 milhões de dólares anuais em armas e outra ajuda por parte dos EUA. O objectivo era o derrubamento do primeiro governo laico e reformista do Afeganistão. Em Agosto de 1979 a embaixada dos Estados Unidos em Cabul informou que «a queda do governo do PDPA seria favorável aos interesses mais amplos dos Estados Unidos…, independentemente dos reveses que isso poderia significar para futuras reformas sociais e económicas no Afeganistão». O itálico é do autor.
Os mujahidines foram os antecessores da Al-Qaeda e do Estado Islâmico. Incluindo o líder mujahidine Gulbuddin Hekmatyar, que recebeu dezenas de milhões de dólares em efectivo da CIA. A especialidade de Hekmatyar era o tráfico de ópio o lançamento de ácido à cara das mulheres que se negavam a usar véu. Convidado para ir a Londres, foi celebrado pela primeira-ministra Thatcher como um «lutador pela liberdade».
Estes fanáticos poderiam ter permanecido no seu mundo tribal se Brzezinki não tivesse lançado um movimento internacional para promover o fundamentalismo islâmico na Ásia Central e assim destruir a libertação politica laica e «desestabilizar» a União Soviética, com a criação, como escreveu na sua autobiografia, «uns quantos muçulmanos exaltados». O seu grande plano coincidiu com as ambições do ditador paquistanês, general Zia ul-Haq, de dominar a região. Em 1986, a CIA e a agência de inteligência do Paquistão, o ISI, começaram a recrutar gente de todo o mundo para se juntar à jihad afegã. O multimilionário saudita Osama bin Laden era um deles. Os operacionais que eventualmente se iriam juntar aos talibãs e à Al-Qaeda foram recrutados numa universidade islâmica em Brooklyn, Nova Iorque, e foi-lhes dado treino paramilitar num acampamento da CIA na Virgínia. Foi a chamada «Operação Ciclone». O seu triunfo teve lugar em 1996, quando o último presidente PDPA do Afeganistão, Mohamed Najibullah — que tinha ido anteriormente à Assembleia Geral da ONU para pedir ajuda — foi enforcado num candeeiro de rua pelos talibãs.
O «ricochete» da Operação Ciclone e de alguns dos seus muçulmanos exaltados» foi o 11 de Setembro de 2001. A Operação Ciclone transformou-se na «guerra contra o terror», em que inumeráveis homens, mulheres e crianças perderiam as suas vidas no mundo muçulmano, do Afeganistão ao Iraque, Iémen, Somália e Síria. A mensagem do executor [the enforcer] era e continua a ser «Ou estás connosco ou contra nós»
O fio comum do fascismo, passado ou presente, é o assassínio em massa. A invasão norte americana do Vietname teve as suas «zonas de fogo à vontade», «contagem de vítimas» e «danos colaterais». Na província de Quang Ngai, muitos milhares de civis [“gooks”] foram assassinados pelos Estados Unidos, no entanto apenas o massacre de My Lai é recordado. No Laos e no Camboja o maior bombardeamento aéreo na história originou um período de terror assinalada ainda hoje pelo espectáculo de sucessivas crateras de bombas que visto do ar, parecem colares monstruosos. O bombardeamento criou no Camboja o seu próprio ISIS, liderado por Pol-Pot.
Hoje em dia, a maior campanha do mundo contra o terror exige a imolação de famílias inteiras, de convidados para uma boda ou participantes de um funeral. São as vítimas de Obama. Segundo o New York Times, Obama faz a sua selecção a partir de uma «lista de matança» que a CIA lhe apresenta todas as quartas feiras na Sala da Situação da Casa Branca. Decide então, sem a menor justificação legal, quem viverá e quem morrerá. A sua arma de execução é o míssil Hellfire lançado de um avião não tripulado conhecido como drone, este míssil queima as suas vítimas e adorna a zona com os seus restos. Cada «êxito» é registado num monitor distante como um “Bugsplat” [mata-moscas].
«Em lugar de soldados a marchar em passo de ganso, temos hoje uma aparentemente mais inócua militarização da cultura total» — escreveu o historiador Norman Pullock. «E em lugar do líder grandiloquente e demiúrgico temos um reformista falhado, trabalhando jovialmente na planificação e execução de assassínios, sempre sorridente.»
O culto da superioridade une o velho fascismo com o novo. «Acredito no excepcionalismo americano com cada fibra do meu ser» — declarou Obama evocando as declarações de fetichismo nacional da década dos anos 30. Tal como afirmou o historiador Alfred W. McCoy , foi o devoto de Hitler, Carl Schmidt, que disse «é o soberano quem decide a excepção». Isso resume o americanismo, a ideologia dominante no mundo. Que não tenha sido reconhecida como uma ideologia depredadora é o sucesso, igualmente não reconhecido, de uma lavagem ao cérebro. Insidiosa, não declarada, espirituosamente apresentada como a ilustração em curso, a sua presunção impregna a cultura ocidental. Cresceu num regime cinematográfico de glória americana, quase toda ela distorção. Não tinha ideia de que fora o Exército Vermelho que destruíra a maior parte da máquina de guerra nazi ao preço de 13 milhões de soldados. Numero que contrasta com o das perdas norte americanas que, incluindo no Pacífico, foram 400 mil. Hollywood inverteu estes factos.
A diferença agora é que se convidam os espectadores a retorcer as mãos perante a «tragédia» dos psicopatas norte-americanos que têm de matar pessoas em lugares distantes — tal como o próprio Presidente mata. A encarnação da violência de Hollywood, o actor e realizador Clint Eastwood, foi nomeado este ano para um Óscar pelo seu filme «American Sniper», cujo tema é um assassino autorizado e louco. O New York Times descreveu-o como um «filme patriótico, pró-família, que quebrou todos os recordes de bilheteira na altura da estreia».
Não há filmes heróicos que tratem da ligação ao fascismo por parte dos Estados Unidos. Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e (a Grã Bretanha) foram à guerra contra os gregos, que tinham lutado heroicamente contra o nazismo e que resistiam ao avanço do fascismo grego. Em 1967, a CIA ajudou a subir ao poder uma junta militar fascista em Atenas — como fez no Brasil e na maior parte da América Latina. A alemães e europeus de leste que tinham pactuado com a agressão nazi e crimes contra a humanidade deram refúgio nos Estados Unidos; Muitos foram mimados e os seus talentos recompensados. Werner von Braun, por exemplo, foi o «pai» tanto da terrível bomba V-2 nazi como do programa espacial dos Estados Unidos.
Na década de 1990, quando as ex. repúblicas soviéticas, a Europa de leste e os Balcãs se transformaram em postos avançados militares da NATO, foi dada a oportunidade aos herdeiros do movimento nazi na Ucrânia. Responsável pela morte de milhares de judeus, polacos e russos durante a invasão nazi da União Soviética, o fascismo ucraniano foi reabilitado e a sua «nova onda» saudada pelo executor como «nacionalista».
Teve o seu apogeu em 2014, quando o governo de Obama gastou 5 mil milhões de dólares num golpe de Estado contra o governo eleito. As tropas de choque eram neonazis conhecidos como o Sector de Direita e Svoboda. Entre os seus líderes, estava Oleh Tyahnybok que apelou a uma purga da «máfia judaico-moscovita» e «outra escória», incluindo os gays, as feministas e a esquerda política.
Estes fascistas fazem agora parte do governo golpista de Kiev. O primeiro vice-presidente do Parlamento da Ucrânia, Andriy Parubiy, um dos líderes do partido do governo, é co-fundador do Svoboda. A 14 de Fevereiro, Paruby anunciou que ia a Washington para conseguir «que os Estados Unidos nos dêem armas modernas de alta precisão». Se o conseguir isso será visto como um acto de guerra por parte da Rússia.
Nenhum líder ocidental se pronunciou sobre o ressurgimento do fascismo no coração da Europa — com excepção de Vladimir Putin, cujo povo perdeu 22 milhões de pessoas com a invasão nazi através da fronteira da Ucrânia. Na recente Conferência de Segurança de Munique, a Subsecretária de Estado de Assuntos Europeus e da Eurásia de Obama, Victoria Nuland, ralhou contra os lideres europeus por se oporem ao armamento norte americano do regime de Kiev. Referiu-se ao ministro de Defesa alemão, como o «ministro do derrotismo». Foi Nuland quem planeou o golpe de Estado de Kiev. A esposa de Robert D. Kagan, uma importante figura «neocon» e co-fundadora do Projecto de para um Novo Século Americano, um projecto de extrema-direita, foi assessora de política externa de Dick Cheney.
O golpe de Nuland não decorreu como fora planeado. A NATO foi impedida de se apoderar da histórica e legítima base russa de águas quentes, a base naval na Crimeia. A população maioritariamente russa da Crimeia — ilegalmente anexada à Ucrânia por Nikita Kruschev em 1954 — votou esmagadoramente pela volta à Rússia, tal como o tinha feito na década de 1990. O referendo foi voluntário, popular e sob observação internacional. Não houve invasão.
Ao mesmo tempo o regime de Kiev voltou-se contra a população de etnia russa no leste com a ferocidade de uma limpeza étnica. Movimentando milícias neonazis à maneira das Waffen-SS, bombardearam e cercaram cidades e vilas. Utilizaram como arma a fome em massa, cortaram a electricidade, congelaram as contas bancárias, suspenderam a segurança social e as pensões. Mais de um milhão de refugiados fugiu através da fronteira com a Rússia. Nos meios de comunicação ocidentais, toda esta gente se transformou num povo que procurava escapar à «violência» causada pela «invasão russa». O comandante da NATO, o general Breedlove — cujo nome e acções poderiam ter sido inspirados no Dr. Strangelove de Stanley Kubrick — anunciou que 40 mil soldados russos se tinham «concentrado». Na era em que os satélites disponibilizam provas irrefutáveis, não apresentou uma única.
Estas pessoas que falam russo e são bilingues na Ucrânia — um terço da população — há muito lutam por uma federação que reflicta a diversidade étnica do país e que seja ao mesmo tempo autónoma e independente de Moscovo. Muitos são, não «separatistas», mas cidadãos que querem viver em segurança na sua pátria e se opõem à tomada golpista do poder em Kiev. A sua rebelião e a autoproclamarão de «estados» autónomos são uma reacção aos ataques de Kiev contra eles. Pouco se explicou disto ao público ocidental.
Em 2 de Maio de 2014, em Odessa, 41 pessoas de etnia russa foram queimadas vivas na sede sindical, com a polícia a assistir. O líder do Sector de Direita Dmytro Yarosh saudou o massacre como «outro dia brilhante na nossa história nacional». Nos meios de comunicação norte americanos e britânicos este caso foi encarado como uma «tragédia horrível», resultado de «confrontos» entre «nacionalistas» (neonazis) e «separatistas» (gente que estava a recolher assinaturas para um referendo por uma Ucrânia federal).
O New York Times enterrou a história desvalorizando como mensagens de propaganda russas as advertências sobre as políticas fascistas e anti-semitas dos novos clientes de Washington. O Wall Street Journal condenou as vítimas — «Incêndio mortal provavelmente provocado pelos rebeldes», declarou o Governo. Obama felicitou a Junta pela sua «moderação».
Se Putin puder ser provocado a ponto de vir em sua ajuda, o seu papel de «pária» pré-julgado pelo Ocidente terá justificado a mentira de que a Rússia está a invadir a Ucrânia. A 29 de Janeiro, o comandante máximo da Ucrânia, o general Viktor Muzhemko, sem se aperceber, desautorizou a própria base do argumento dos Estados unidos e da UE para as sanções contra a Rússia, quando declarou enfaticamente numa conferência de imprensa: «O exército ucraniano não está a lutar contra unidades regulares do exército russo». Havia «cidadãos individuais» que eram membros de «grupos armados ilegais» mas não havia invasão russa. Isso não foi notícia. Vadym Prystaiko, vice-ministro de Negócios Estrangeiros de Kiev, apelou a uma guerra «em grande escala» contra uma Rússia armada com armas nucleares.
A 21 de Fevereiro, o senador republicano pelo estado de Oklahoma, James Inhofe apresentou um projecto de lei que autorizava o envio de armas americanas ao regime de Kiev. Na sua apresentação no Senado, Inhofe utilizou fotografias onde alegava que tropas russas passavam para a Ucrânia, fotos que há muito está provado serem falsas. Era uma reminiscência das fotografias falsas de Ronald Reagan de uma instalação soviética na Nicarágua ou das provas falsas de Colin Powell apresentadas à ONU sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque.
A intensidade da campanha de calúnias contra a Rússia e a apresentação do seu presidente como um vilão de pantomima é algo de diferente de tudo o que já vi como repórter. Robert Parry, um dos jornalistas de investigação mais destacados dos Estados Unidos, que revelou o escândalo Irão-Contra, escreveu recentemente: «Nenhum governo europeu, desde a Alemanha de Adolf Hitler, chegou ao ponto de tropas de assalto nazis para fazer a guerra contra a própria população nacional, mas o regime de Kiev fê-lo e continua a fazê-lo deliberadamente. Todavia, através do espectro político/mediático ocidental, tem havido um cuidadoso esforço para encobrir essa realidade até ao ponto de ignorar factos perfeitamente documentados. Se nos interrogarmos como poderá o mundo tropeçar numa terceira guerra mundial — tal como foi o caso da I Guerra Mundial há um século — só temos de olhar para loucura na Ucrânia, manifestamente indiferente a factos ou à razão».
Em 1945, o acusador do Tribunal de Nuremberga afirmou aos media alemães: «A utilização que os conspiradores nazis fizeram da guerra psicológica é bem conhecida. Antes de cada grande agressão, com poucas excepções baseadas na conveniência, iniciavam uma campanha de imprensa calculada para debilitar as suas vítimas e preparar psicologicamente o povo alemão para o ataque… No sistema de propaganda de Hitler a imprensa diária e a rádio eram as armas mais importantes». No The Guardian de 2 de Fevereiro, Timothy Garton-Ash apela na realidade a uma guerra mundial. «Putin deve ser parado» dizia o título. «Por vezes apenas as armas podem parar as armas». Reconheceu que a ameaça de guerra podia «alimentar uma paranóia russa de cerco», mas não havia problema. Fez uma verificação do equipamento militar necessário para o trabalho e assegurou aos seus leitores que «os Estados Unidos têm o melhor equipamento».
Em 2003, Garton-Ash, professor em Oxford, insistia na propaganda que levou ao massacre no Iraque. «Sadam, como [Collin] Powell documentou, tem armazenadas grandes quantidades de armas químicas e biológicas horripilantes, e esconde o que resta delas. Continua a tentar obter armas nucleares». Aplaudiu Blair como um «intervencionista liberal cristão gladstoniano». Em 2996, escreveu: «Depois do Iraque, enfrentamos agora o próximo grande teste do Ocidente: o Irão».
Estes arrebatamentos — ou como o próprio Garton-Ash prefere dizer a sua «torturada ambivalência liberal» — não são atípicos dos dessa elite liberal transatlântica que chegou a um acordo fáustico. O criminoso de guerra Blair é o seu líder perdido. The Guardian, onde foi publicado o artigo de Garton-Ash, apareceu com um anúncio de página inteira do bombardeiro American Stealth. Junto da imagem ameaçadora do monstro da fábrica Lockheed Martin, estavam as palavras: «O F-35. BOM para a Grã-Bretanha». Este «kit» americano custará aos contribuintes britânicos 1,3 mil milhões de libras, os seus predecessores F tendo já massacrado pelo mundo fora. Em sintonia com a sua publicidade, um editorial do The Guardian exigia um aumento nas despesas militares.
Mais uma vez há um objectivo sério. Os governantes do mundo querem a Ucrânia não só como uma base de mísseis mas também querem a sua economia. O novo ministro de Finanças de Kiev, Natalie Jaresko, é um alto funcionário do Departamento de Estado dos Estados Unidos encarregado de «investimentos» dos Estados Unidos no estrangeiro. Foi-lha atribuída cidadania ucraniana de forma expedita. Também querem a Ucrânia pelo seu gás abundante. O filho do vice-presidente Joe Biden está na administração da maior companhia de petróleo, gás e fracking da Ucrânia. Os fabricantes de sementes transgénicas, empresas como a infame Monsanto, também querem o rico solo agrícola da Ucrânia.
Mas acima de tudo, o que querem é o poderoso vizinho da Ucrânia, a Rússia. Querem balcanizar ou desmembrar a Rússia e explorar a maior fonte de gás natural do planeta. Como o gelo do Árctico está a derreter, querem o controlo do Oceano Árctico e as suas riquezas energéticas e a longa fronteira terrestre árctica da Rússia. O seu homem em Moscovo era dantes Boris Yeltsin, um bêbado que entregou a economia do seu país ao Ocidente. O seu sucessor Putin restabeleceu a Rússia como nação soberana, é este o seu crime.
A responsabilidade de todos nós é clara. Consiste em identificar e expor as insensatas mentiras dos belicistas e nunca sermos coniventes com eles. Há que tornar a despertar os grandes movimentos populares que trouxeram uma frágil civilização aos estados imperiais modernos. O mais importante é evitar que conquistem a nossa mente, a nossa humanidade, o nosso amor-próprio. Se permanecermos em silêncio eles ganham a batalha, e um holocausto espreita.
Tradução: Manuela Antunes
in ODiário.info
¿Qué traman los BRICS y Alemania?


¿Berlín-Moscú-Pekín?
Y también está el tema de Alemania
Alemania exporta hoy en día el 50% de su producto bruto interno
 (PBI) mientras que en 1990 era solo el 24%. Durante los 
últimos 10 años el crecimiento de Alemania se ha basado en 
las exportaciones. He aquí, por lo tanto, una economía 
colosal que necesita los mercados mundiales para seguir prosperando.
 La Unión europea (UE), ya está exangüe, por definición, para responder 
a esas expectativas.
Los destinatarios de las exportaciones alemanas están cambiando.
 Solo el 40% de las exportaciones se destinan a la UE, con tendencia a
 reducirse. El verdadero crecimiento se encuentra en Asia. En 
consecuencia en la práctica Alemania se está alejando de la zona euro.
 Eso no significa, sin embargo, que la esté abandonando, lo que se 
interpretaría como una vil traición hacia el tan cacareado proyecto europeo.
Esta situación comercial pone en evidencia la verdadera razón por la que Alemania
 se muestra tan dura con Grecia: o capituláis totalmente o abandonáis la zona
 euro. Lo que quiere Alemania es mantener su asociación con Francia y su dominio
 sobre los países europeos del este en tanto que economías satélites, incluyendo
 a Polonia. Es de esperar por lo tanto que Grecia, España, Portugal e Italia se
 enfrenten a un muro de intransigencia. Una ilustración elocuente de que la 
integración europea solo funciona mientras Alemania dicta todas las reglas.
El doble fiasco comprobado en Grecia y Ucrania ha puesto palos en las ruedas
 que han dejado al descubierto todas las fallas de la hegemonía de Berlín en
 Europa, es lo menos que puede decirse. Berlín se ha desvelado a menudo 
a causa de la real pesadilla de una guerra fomentada por los estadounidenses 
contra Rusia en las regiones fronterizas del este de Europa. No es sorpresivo
 por lo tanto que Angela Merkel haya emprendido un apresurado viaje a Moscú.
En el plano diplomático Moscú ha salido ganando. Rusia también ha ganado 
a causa de que Turquía, cansada de ver bloqueados sus esfuerzos para unirse
 a Europa por (¿quién si no?) Alemania y Francia, ha decidido girar hacia Eurasia, 
burlándose de la OTAN e incrementando sus relaciones con Rusia y China.
Todo esto se ha producido en el marco de un giro mayor sobre el tablero del 
“ductistán” (la trama de oleoductos de la región, N. de T.). Luego de haber 
negociado hábilmente el reordenamiento del gasoducto South Stream para
 instalar un Turk Stream, hasta la frontera griega, Putin y el primer ministro 
griego Tsipras han acordado prolongar un gasoducto desde la frontera turca
 hasta el sur de Europa pasando por Grecia. De modo que Gazprom no solo se 
hallará sólidamente instalado en Turquía, sino también en Grecia y por lo tanto 
con una enorme importancia estratégica para el “ductistán” europeo.
Tarde o temprano Alemania deberá responder a un imperativo categórico: 
¿cómo mantener masivos superávit comerciales si deja desmoronarse a sus 
socios comerciales europeos? La única respuesta posible es aumentando
 los intercambios comerciales con Rusia, China y el sureste asiático. Tardará 
tiempo y el camino se hallará sembrado de obstáculos salvo que se cree 
un eje económico comercial Berlín-Moscú-Pekín (los “RC” de los BRICS y Alemania)
 sea inevitable.
Y no, este tipo de cosas no se leerán en las delirantes previsiones del reino de
 la charlatanería estadounidense.
Traducido del inglés al francés por Daniel y revisado por jj y Diane para Le Saker fr
Pepe Escobar es un periodista brasileño de Asia Times y Al-Jazeera.
 Es también autor de Globalistan: How the Globalized World is Dissolving
 into Liquid War (Nimble Books, 2007); Obama does Globalistan (
Nimble Books, 2009) y Empire of Chaos (Nimble Books, 2014).

quarta-feira, 11 de março de 2015

President Obama Declares Venezuela “A Threat to National Security”, Seeks Regime-Change

Global Research, March 10, 2015
venezuela-us43
The Obama Administration, which in 2009 provided the crucial assistance that enabled the progressive democratic President of Honduras to be overthrown and a junta of oligarchs to replace him; and which in 2014 perpetrated a bloody coup that replaced the corrupt but democratically elected Ukrainian President Viktor Yanukovych, replaced by a rabidly anti-Russian equally corrupt Government, and thus sparked Ukraine’s civil war against the area of Ukraine that had voted 90% for Yanukovych; is now again trying to overthrow Venezuela’s democratically elected President, Nicolas Maduro.
Reuters on Monday March 9th headlined “U.S. Declares Venezuela a National Security Threat, Sanctions Top Officials,”and their report gives its closing word to an opposition politician, whom Obama supports and who says: ”It’s not a problem with Venezuela or with Venezuelans; it’s a problem for the corrupt ones” (i.e., Maduro and his Government).
In other words, yet again, the idea Obama is pushing is: we’re just trying to replace a ‘corrupt’ elected head-of-state.
The White House explains its Executive Order on March 9th by saying: “President Obama today issued a new Executive Order (E.O.) declaring a national emergency with respect to the unusual and extraordinary threat to the national security and foreign policy of the United States posed by the situation in Venezuela. ... Specifically, the E.O. targets those determined by the Department of the Treasury, in consultation with the Department of State, to be involved in … actions or policies that undermine democratic processes or institutions.”
The Executive Order itself declares that the existing Government of Venezuela limits rights and is corrupt, which “constitutes an unusual and extraordinary threat to the national security and foreign policy of the United States, and I hereby declare a national emergency to deal with that threat.”
On 14 February 2015, President Maduro had thwarted a coup-attempt against him by the Governments of Canada and the UK. This followed almost exactly a year after he had already thwarted such an attempt by the U.S. Government. In December 2013, the Maduro Government presented detailed evidence that the U.S. was planning a coup against him.
On 15 January 2015, Maduro met with Russian President Vladimir Putin in the Kremlin. The Obama Administration is, of course, especially trying to bring down President Putin.
President Obama is also trying to bring down Syria’s President Bashar al-Assad. In 2011, he had bombed away the regime of Libya’s President Muammar Gaddafi. Both Assad and Gaddafi also are/were allies of Russia, as is Iran. The Obama Administration is now assisting ISIS in its war against Assad, even while bombing ISIS.
Investigative historian Eric Zuesse is the author, most recently, of They’re Not Even Close: The Democratic vs. Republican Economic Records, 1910-2010, and of CHRIST’S VENTRILOQUISTS: The Event that Created Christianity.
Copyright © 2015 Global Research

segunda-feira, 9 de março de 2015

A fogueira

Conflito EUA enviam armamento para o Báltico para conter Rússia

Os Estados Unidos forneceram hoje mais de 100 peças de equipamento militar aos Estados do Báltico, aliados na NATO, uma medida destinada a fornecer-lhes maior capacidade para enfrentar uma potencial ameaça da Rússia.
O envio do armamento pesado pretende "demonstrar ao [Presidente Vladimir] Putin e à Rússia a determinação de que podemos atuar coletivamente", disse à agência noticiosa AFP o general John O'Connor, quando assistia à entrega do equipamento no porto de Riga, capital da Letónia.

domingo, 8 de março de 2015

Pelo Socialismo Questões político-ideológicas com atualidade
 http://www.pelosocialismo.net _____________________________________________ Publicado em: http://www.insurgente.org/index.php/2012-04-11-10-03-53/mundo/item/14938-china-unsocio-para-no-imitar Tradução do castelhano de RG Colocado em linha em: 2015/01/19 

China, um parceiro a não imitar1 Claudio Katz*/Argenpress 

A China tem passado por sucessivos períodos de transformação anticapitalista, adaptação comercial e formação de uma classe dominante. A dinâmica da acumulação, da desigualdade e do trabalho precário ilustra uma avançada etapa de restauração capitalista. Mas esta regressão não é definitiva pelos desequilíbrios que gera e pelas resistências sociais que enfrenta. Este factor introduz uma diferença comparativamente ao que se passou na antiga URSS. O entrelaçamento com capitais estrangeiros e a estratégia de livre comércio impedem que a China forje um bloco cooperativo internacional. Mas a América Latina precisa do contrapeso dessa potência como parceiro comercial e aliado geopolítico contra a hegemonia dos Estados Unidos. Cuba introduz um importante antecedente de estratégias revolucionárias autónomas. As reformas económicas são discutidas em Cuba à luz da gigantesca transformação registada na China. A nova potência asiática não é apenas um parceiro comercial de primeira ordem. Devido à sua importância económica e relevância internacional tornou-se um importante aliado geopolítico para contrabalançar as agressões norteamericanas. Mas, numa análise de esquerda, interessa questionar a China por uma questão adicional: mantém o seu modelo atual matrizes socialistas?2 Duas diferentes etapas A China ocupa hoje um lugar tão significativo como o alcançado pela URSS no passado. Não é somente uma economia em crescimento. A sua expansão introduziu nas últimas décadas mudanças significativas na ordem internacional. O país já faz parte das economias centrais após multiplicar por 13 vezes o seu PIB (1978-2010). Conseguiu prosperar no meio de três grandes convulsões 1 Publica-se este artigo por considerarmos que fornece importantes elementos de reflexão sobre a evolução do processo chinês, mas não acompanhamos na íntegra as teses do seu autor, nomeadamente a expressa no final do texto. – [NE] 2 Este texto continua a análise abordada em: Katz (2014). contemporâneas. Não foi afetado pelas décadas perdidas que arrasaram os países subdesenvolvidos nos anos 80-90, manteve-se à margem do colapso sofrido pelo bloco soviético e agiu como um salvador de bancos internacionais na recente crise de 2008 (Lo, Zhang, 2011). 

O seu crescimento não começou do zero, uma vez que já tinha nos anos 80 um PIB superior a muitos dos países emergentes actuais. Mas, posteriormente, atingiu um patamar histórico que aproxima, equipara ou situa a China acima de várias potências. É evidente a importância do acervo acumulado durante as prévias transformações anticapitalistas. Sem a industrialização, a alfabetização, a superação da fome, a modernização produtiva e a acumulação extensiva tinha sido impossível a expansão extraordinária posterior. Basta comparar estas mutações com o subdesenvolvimento continuado que, por exemplo, afectou a Índia (Amin, 2012). Mas a incógnita reside no que aconteceu depois. Esta nova trajetória reforçou ou abandonou o projeto socialista? A tese oficial enfatiza a continuidade. O Partido Comunista continua a dirigir os destinos do país e os seus líderes declaram oficialmente a preeminência de um modelo de “socialismo de mercado”, compatível com os princípios do marxismo. Esta visão destaca a presença de elementos póscapitalistas, juntamente com as regras de acumulação e lucro vigentes na economia. A abordagem oficial ressalta que os princípios socialistas introduzidos nos anos 50- 70 foram posteriormente ajustados às necessidades de modernização. Considera que essa evolução se adapta à tradição milenar de uma civilização que tem seguido caminhos de desenvolvimento muito diferentes dos do padrão ocidental. O diagnóstico oposto sublinha a vigência de um processo de restauração capitalista, assente na exploração do trabalho, na polarização social e na corrupção das elites (Hart-Landeberg, 2011). Outras abordagens intermédias caracterizam o processo atual como uma etapa de acumulação primitiva transitória, o que pode levar à estabilização capitalista ou à renovação do socialismo (Yi, 2009).

 Quem tem razão? Para clarificar este complexo problema importa reconhecer a existência das duas diferentes situações. Entre 1978 e 1992 reintroduziu-se de forma limitada o mercado dentro de um sistema de propriedade pública. Procurava-se com isto fomentar o desenvolvimento agrícola, a expansão do consumo e a gravitação da pequena empresa, num quadro de preços parcialmente livres. Nessa fase, registou-se um crescimento equilibrado impulsionado pelo mercado interno e a flexibilização dos preços agrícolas. Esta mudança aumentou o poder de compra no setor rural e originou uma descompressão no setor urbano. A taxa de crescimento subiu rapidamente e o investimento foi incentivado mediante uma rigorosa seleção estatal dos setores prioritários. Este modelo incluía alguma diferenciação social e zonas francas para as multinacionais, mas mantinha restrições compatíveis com uma construção socialista. Porém, no início dos anos 90 foi implementada uma orientação diferente. Começaram as privatizações em grande escala, a generalização dos padrões de gestãocapitalista e a formação de uma classe de grandes empresários com representantes diretos nos organismos dirigentes. Este novo regime começou com investimentos destinados ao mercado interno e fortaleceu-se privilegiando as exportações. Na última década e num cenário de crescente desigualdade e insegurança no emprego, a apropriação privada das grandes empresas cresceu. A principal transformação social gerada por essa reconversão foi o surgimento de uma classe capitalista local, associada às empresas multinacionais e promotora de uma ideologia neoliberal. A gravitação deste setor nas altas esferas do regime político verifica-se no pragmatismo desta condução. A tradição maoísta da revolução cultural é rejeitada e os empresários são bem-vindos no partido. O pensamento de Marx e Confúcio são combinados, consoante as necessidades políticas do momento (Xie, 2009). 

Nesta segunda etapa, várias características clássicas do capitalismo foram incorporadas na economia chinesa. Há competição, lucro, exploração e acumulação. A desigualdade aumenta a um ritmo mais rápido do que no resto da região e os níveis de exploração ultrapassam os da Coreia, Taiwan ou Singapura. O alcance da restauração Os teóricos do “socialismo de mercado” reivindicam a acelerada industrialização e o desenvolvimento tecnológico autónomo, o que permitiu à China ter, em primeiro lugar, os resguardos defensivos necessários para enfrentar a pressão imperialista. O país construiu primeiro uma bomba atómica (1964), depois outra de hidrogênio (1970) e, finalmente, colocou um satélite no espaço (1970). Sobre estes pilares negociou a abertura ao Ocidente, a partir da icónica viagem de Nixon (1972). Também consideram que esse período de economia planificada se esgotou e foi secundado por mecanismos de gestão mercantil que revitalizaram o socialismo, dando azo ao grande desenvolvimento das últimas décadas (Yang, 2009). Mas este argumento confunde a extensão da gestão mercantil com a introdução de normas capitalistas. Desde os anos 90, não só se flexibilizou a mexida nos preços, mas também se afirmou a nova propriedade dos capitalistas sobre um setor importante da economia. Esta mudança de propriedade das empresas estratégicas é incompatível com qualquer perspetiva do socialismo. 

Uma transição rumo à sociedade igualitária pode incluir formas de gestão centralizadas ou descentralizadas, com formatos mais ou menos flexíveis de planificação. Contudo, a manutenção de classes proprietárias e de classes despojadas dos meios de produção só augura a vigência do capitalismo. Os teóricos das misturas entre os dois sistemas afirmam que esta combinação é, de facto, consumada através de mudanças paralelas no capitalismo mundial, que teria incorporado formas do estado de bem-estar e valores de igualdade (Yang, 2009).Porém, omitem que a tendência contemporânea predominante deste sistema tem sido diametralmente oposta. O neoliberalismo, nas últimas décadas, tem enterrado as conquistas sociais do pós-guerra, garantindo, assim, os lucros dos grandes bancos e empresas. Em vez de uma adaptação do capitalismo ao ímpeto socialista da China, ocorre um processo inverso: aumenta a gravitação dos padrões de rentabilidade e de exploração na economia asiática. Esta incidência é inegável, mesmo para os defensores do processo em curso. Reconhecem a magnitude das diferenças de salário e esperam que seja a própria dinâmica do mercado a nivelar essas desigualdades (Yang, 2009). Mas nunca explicam como é que esse mecanismo lograria corrigir o defeito que inseriu. A sua expetativa é inconsistente e desconhece que as brechas sociais têm origem na existência de uma nova classe capitalista interessada em manter essas diferenças. 

Outras abordagens do mesmo tipo aceitam a existência de segmentos patronais mas relativizam a sua influência. Apresentam a incorporação de empresários no Partido Comunista como um sinal de patriotismo dos ricos e uma demonstração de maturidade do serviço público (Ding, 2009). Mas, de facto, os novos capitalistas consolidam a sua posição social ao ganhar influência nas cúpulas do sistema político. Seja qual for o grau de veracidade das suas intenções patrióticas, reforçam uma fratura de classes, o que contraria os enunciados básicos do socialismo. Pode-se discutir qual o grau de intercâmbio mercantil que deve prevalecer numa sociedade pós-capitalista avançada, mas seria insólito imaginar que esse estádio incluísse a exploração, a mais-valia e altos níveis de desigualdade social. Essas incongruências foram destacadas por muitos críticos do atual rumo, que apresentam contundentes indícios da rota da restauração. As mudanças no sistema de fixação de preços planificados são disso um exemplo. O declínio nesses números em benefício de cotações comerciais foi monumental. O primeiro tipo de preços diminuiu de 97,8% (1978) para 2,6% (2003) para a categoria de retalho e de 100% (1978) para 10% (2003), no sector industrial. Outra evidência da mesma tendência verifica-se ao nível da perda da propriedade estatal na indústria, que decresceu de 100% (1978) para 41,9% (2003). O Estado só mantém a supremacia em cinco setores e perdeu peso nas 23 atividades mais dinâmicas (HartLandeberg, 2011).

 Esta evolução pró-capitalista é confirmada com a erosão do tecido social gerada pelo avanço da precarização e do declínio do emprego tradicional. Dos 30 milhões de operários que foram demitidos entre 1998 e 2004, 21,8 milhões passaram a auferir o salário mínimo. Em muitas empresas praticam-se, aliás, horários de trabalho de 11 horas, durante mais de 26 dias por mês. A superexploração afeta duramente 200 milhões detrabalhadores rurais que migraram para as cidades nos últimos 25 anos, sem alcançar autorização de residência (Hart-Landeberg, 2011). A China colocou-se no topo dos índices de desigualdade medidos pelo coeficiente de Gini. Na região – só é superada pelo Nepal e, logo após, os Estados Unidos – alberga o maior número de bilionários do mundo. Por esta razão florescem os negócios de luxo e os “Yacht clubs”. Toda a geração de afilhados da velha liderança comunista gere as grandes empresas. É aí que a nova elite está concentrada. Basta notar que um terço das 800 pessoas mais ricas do país são membros da PCC [Partido Comunista da China – NT]. Estes dados económicos, sociais e políticos não deixam margem para dúvidas sobre a tendência para a restauração do capitalismo que orienta a China. Os neoliberais congratulam-se com esta mudança e os heterodoxos limitam-se a apresentá-lo apenas como um momento necessário à acumulação. Mas muitos teóricos do marxismo enfrentam este cenário com perplexidade. Alguns recorrem a malabarismos para apresentar os dados da China como sinais de modernização do socialismo. Além do desgastado argumento de sublinhar as singularidades do país (“socialismo com características chinesas”), não conseguem demonstrar como se conjuga esse sistema com a crescente hegemonia dos ricos. A linguagem diplomática, as abstrações e a substituição do termo capitalismo por mercado, não são suficientes para disfarçar uma rota evidente. O grau de consolidação alcançado pela restauração capitalista é discutível, mas não a primazia desta tendência (Weil, 2009).

 As novas resistências 
Ao caracterizar a existência de dois períodos distintos – introdução do mercado numa economia planificada (1978-1992) e mudança pró-capitalista (1992-2014) – pode entender-se a natureza da transformação em curso. A passagem do primeiro modelo para o segundo marca uma rutura qualitativa, que bloqueou (ou enterrou) qualquer transição socialista. Esta mudança não implicou apenas uma outra política económica (de primazia do consumo para o investimento) ou do entrelaçamento do setor financeiro com o produtivo. Também não se resume a uma passagem das comunas rurais a unidades agro-industriais ou à constituição de zonas francas no litoral para produzir bens exportáveis através de investimento estrangeiro. A modificação fulcral entre os dois períodos foi uma mudança nas regras de propriedade, o que facilitou a conversão de funcionários de elite em donos de grandes empresas. Esta mudança foi acompanhada pela concessão de mais poderes aos gestores para reorganizar as unidades de produção. Embora o elevado crescimento económico tenha reduzido a pobreza, o esquema de profunda desigualdade em vigor impede as famílias operárias de suportar os gastos correntes de saúde e educação (Li, Piovani, 2011).A segunda fase económica da China foi marcada por um crescimento económico explosivo e acompanhada por agudas manifestações de corrupção. Por esse meio, a nova classe privilegiada apropria-se de uma fatia leonina do desenvolvimento atual. Esses grupos da alta burocracia fizeram por tolerar – durante o longo período que sucedeu à revolução – a supremacia de grandes conquistas populares, que obstruíam o seu enriquecimento. Quando alcançaram poder bastante para arrebatar essas conquistas, começou o assalto ao seu novo status capitalista. Atualmente detêm o seu poder na gestão do Estado e contam com apoio social de uma uma classe média que ascendeu socialmente, sonhando alcançar o modo de vida norte-americano (Li, 2009). Entre os autores que destacam este nítido curso pró-capitalista muitos deixam em aberto uma definição da maturidade desta regressão. Ter-se-á inteiramente consumado a restauração, como aconteceu na Rússia ou nos países da Europa Oriental? 

O carácter irreversível desta mutação é posto em causa por aqueles que questionam a solidez da nova classe capitalista. Alegam que o Estado mantém um grande poder de intervenção e uma consequente capacidade para introduzir mudanças nas tendências (Lin, 2009; Lo, Zhang, 2011). Outros enfatizam a persistência do legado socialista na vida cotidiana e a sensibilidade (ou medo) das autoridades perante qualquer expressão de descontentamento popular. Apontam que a reacção destas elites é muito diferente do comportamento das classes opressoras no Ocidente, que acumulam séculos de experiência no exercício da sua dominação (Wang, 2009). Finalmente, as novas resistências populares que brotaram nos últimos anos são vistas como mais um sintoma de grandes reservas de oposição ao curso capitalista, subjacentes à sociedade chinesa (Li, Li Xie, 2012). Esta variedade de argumentos ilustra o quão complexo é definir o grau de concretização da restauração capitalista. Este processo não envolve somente transformações objetivas à escala da propriedade privada vigente, mas também mudanças drásticas ao nível de aceitação subjetiva do capitalismo. A restauração implica um processo dual de consolidação de ambos os componentes. Na caracterização que fazemos destes processos estabelecemos cinco critérios para medir esta restauração, destacando três aspetos económicos (preços livres, planificação reduzida, crise por acumulação), um pilar político (modalidade institucional) e um elemento social-subjetivo de resistência e defesa do ideal socialista (Katz, 2006: 72-76).

. No plano económico, as regras do capitalismo estão muito avançadas na China, tanto na forma que assume o ciclo e a gestão macroeconómica, como na gestão das empresas. Este facto é reconhecido pelos próprios defensores do modelo actual, que descrevem o comportamento de uma classe capitalista com influência preponderante sobre todas as instituições e meios de comunicação. Mas as elites mais neoliberaisnão dominam o aparelho do Estado na sua totalidade e os grandes desequilíbrios regionais, sociais e agrários, causados pela acumulação, põem em causa a consistência do capitalismo nascente. O culminar deste processo é incerto, uma vez que, ao contrário do que aconteceu na URSS, a classe operária tem vindo a ganhar protagonismo. Ocorrem grandes greves que impõem concessões aos governantes. O número de protestos cresceu de 58.000 (2003) para 87.000 (2005) e 94.000 (2006). Desde 2009, o aumento destas resistências determinou uma mutação no comportamento dos líderes, que optaram por substituir a reação repressiva inicial por negociações e concessões (Yu, 2012). Esta mudança dá-se em simultâneo com a multiplicação de correntes críticas e tomadas de posição anticapitalistas de tendências de esquerda, que exigem medidas de renacionalização e reversão das privatizações. Exigem o restauro da educação e saúde grátis e entram em choque com os que enriqueceram. (Zhu, Kotz, 2011).

 Estas franjas militantes são mais influentes do que o se supõe no Ocidente. Costumam combinar reivindicações básicas com reivindicações de mudanças nos impostos e nos padrões de crescimento. Muitos mesclam a defesa do igualitarismo com propostas de democratização política. Todas as referências a um “modelo chinês de socialismo” deveriam ser identificadas com estas vertentes de resistência das bases à restauração (Choi, 2009). A política internacional Alguns analistas registam linhas de continuidade da China com o seu passado antiimperialista. Consideram que o país resgata os princípios de soberania e de cooperação impulsionados durante a emblemática reunião de 1955 com o Egito (Nasser) e com a Índia (Nehru) (Revista Bandung, 2011). Mas é muito difícil corroborar algum resquício desses projetos. A China encetou um caminho radicalmente oposto, de expansão dos investimentos no estrangeiro e de fortalecimento dos tratados de livre-comércio. Outros autores estimam que o país está a construir as bases do novo modelo global, que substituirá a hegemonia dos Estados Unidos em declínio. Supõem que edificará um esquema de cooperação favorável à maioria dos países periféricos. Este ponto de vista foi difundido por Arrighi, ao contrapor o belicismo ianque em declínio, com um ascendente “Consenso de Pequim”, baseado no pacifismo da potência asiática (Arrighi, 2007: cap 5-6).
 Esta mesma abordagem é apresentada por aqueles que assumem que este país vai orientar a economia mundial em direcção ao igualitarismo, encabeçando o novo bloco contrahegemónico dos BRICS. 
Contudo, não é sensato conceber um futuro pós-capitalista sob a direção de uma potência que emerge em termos capitalistas e com tanto de rivalidade como de associação com os Estados Unidos. Os próprios dirigentes chineses enfatizam este perfil em todas as iniciativas à escala global nas quais participam. Têm por hábitoostentar uma ideologia mais próxima da idolatria mercantil-liberal do que exibirem qualquer vestígio de mensagens socialistas. A significativa associação das elites chinesas aos principais bancos e empresas do Ocidente contradiz a almejada formação de um bloco de economia cooperativa global. Esse entrelaçamento com o capital estrangeiro verifica-se, dentro da China, na incidência desse setor nas vendas industriais. Também se expressa na fanática adoção de princípios do livre-comércio logo após a adesão à OMC. 
O país sobe ao palco mundial como um parceiro das grandes corporações e é um natural guardião do status quo em vigor. Este importante vínculo com a produção e com o comércio e a finança globalizados impede que a nova potência cumpra um papel progressista. Tornou-se num dos pilares da globalização neoliberal e não pode atuar simultaneamente como gestor de modelos pós-capitalistas. As próprias tendências geradas pela crise de 2008 desmentem essa possibilidade. Se a China decide reforçar a sua posição no cenário mundial – transformando em propriedades os seus enormes créditos em dólares – consolidará a sua parceria com grandes empresas capitalistas. Os ativos adquiridos ao seu rival seriam reciclados sob o mesmo esquema da globalização neoliberal, afetando assim todos os perdedores da reorganização capitalista

3. Mas não é necessário analisar estas hipóteses para verificar qual é o comportamento predominante das elites chinesas no plano internacional. Os acordos com os fornecedores de matérias-primas são regulados por rigorosos critérios de livrecomércio. A associação dos capitalistas chineses com os seus homólogos ocidentais obstruiu, aliás, a esperada dissociação internacional e a consequente mudança chinesa para o crescimento interno. Os efeitos desta limitação pesam severamente sobre uma economia que reduziu significativamente o seu ritmo de crescimento. Os laços transnacionais interditam as margens de manobra autónoma da nova potência. Na própria direcção chinesa, os partidários de estreitar relações com o Ocidente (elite da Costa) colidem com os críticos dessa associação (elite do Interior). Todavia nenhuma das duas promove as matrizes de rutura anti-imperialista necessárias para dar azo a um modelo de cooperação internacional. Neste âmbito verifica-se uma significativa diferença com a estratégia defendida pelos líderes da antiga URSS. Também aqui todos os sectores da burocracia governante tinham posto de lado qualquer perspetiva de estratégia socialista. Mas a coexistência pacífica que mantinham com o imperialismo baseava-se num princípio de divisão territorial (“áreas de influência”), que recriava os conflitos permanentes da Guerra Fria. Os campos de ação económica estavam inteiramente separados e as ligações comerciais, financeiras ou comerciais entre os dois contendores eram mínimas.

 3 Esta possibilidade é analisada com outras conclusões por Dos Santos (2011).

Durante as últimas décadas a burocracia chinesa seguiu um caminho diferente de plena integração no mercado mundial. Por esta razão, o programa da Nova Ordem Internacional (NOEI) – que a URSS impulsionava para associar o Segundo e Terceiro Mundo – não tem continuidade na liderança chinesa. Esta direção concebe todas as suas ações internacionais baseada no entrelaçamento estabelecido com as empresas e bancos do Primeiro Mundo. Por isso desenvolve uma política externa mais cautelosa que os soviéticos, de low profile, alto realismo e convivência com a economia estado-unidense. Alianças sem imitação Na sua configuração actual a China pode ser vista como um parceiro dos processos transformadores da América Latina, mas nunca como o modelo a seguir para a construção do socialismo. O gigante asiático distanciou-se estruturalmente desse objetivo. Como a União Soviética no passado, a China é hoje muito importante para Cuba e a América Latina. A região precisa de aliados para qualquer batalha contra o imperialismo estado-unidense. O gigante do Norte continua a tratar as nações a sul do Rio Grande como parte do seu quintal. Os EUA nunca abandonaram as suas pretensões de anexação da América Central e de custodiar a América do Sul. Enviaram marines, organizaram golpes de estado e projetaram todos os massacres necessários para perpetuar sua dominação. Os Estados Unidos responderam ao surgimento de projetos socialistas no hemisfério com sabotagens, invasões e conspirações. Encabeçaram uma rigorosa monitorização anticomunista e levaram a cabo ações de intervenção explícita contra o Chile e a Nicarágua. As décadas de bloqueio que Cuba suporta ou as conspirações que a Venezuela enfrenta atestam essa ingerência. É totalmente falsa a crença de que os EUA se esqueceram da América Latina e que renunciaram ao intervencionismo. Basta atentar no protagonismo ianque no golpe de Estado nas Honduras, na implantação geral da IV Frota ou nas novas bases na Colômbia para dissipar estas ilusões. Há mudanças na linguagem (do anticomunismo ao antiterrorismo) e uma maior delegação de ações nos militares locais. Mas o Pentágono persiste como a principal barreira para qualquer perspetiva não só de socialismo, mas de independência efetiva. O alívio observado nos últimos anos (declínio da OEA, aparecimento da CELAC, o regresso de Cuba à diplomacia regional) é um resultado temporário do cenário criado pelas rebeliões populares. Há governos mais autónomos, mas a obstrução imperial a qualquer projeto de emancipação da América Latina não mudou. Portanto, é essencial sustentar alianças internacionais que permitam proteger os processos anti-imperialistas na região do esmagador poderio do Pentágono. Pelo seu peso geopolítico à escala global, a China pode atuar como um contrapeso a essa ameaça. A trajectória seguida por Cuba desde os anos 60 constitui um interessante antecedente de como implementar uma política externa revolucionária, sem subordinação aos mandatos dos grandes jogadores mundiais. Che colocou em prática uma estratégia de expansão internacional do socialismo, em oposição ao status quo permanente com o imperialismo que os líderes da antiga União Soviética praticavam. No seu discurso na Argélia foi particularmente crítico em relação à escassa solidariedade destes dirigentes para com os levantamentos no Terceiro Mundo. Guevara exortou a que se forjassem “um, dois, três, muitos Vietnames”, em oposição à passividade do Kremlin. Impulsionava estes levantamentos contra a utopia de restringir a construção do socialismo a um único país ou região. No Congo deu o corpo e na Bolívia deu a sua vida por estes ideais (Katz, 2008; Sánchez Vázquez, 2007). Além do resultado dessas acções, a experiência cubana ilustrou como a aliança com uma potência para contrabalançar o peso do imperialismo não implica uma submissão ou imitação do parceiro. Esse modelo fornece um importante ponto de partida para conceber as relações da China com os processos radicais atuais e futuros da América Latina.

 * Claudio Katz é economista, investigador do CONICET4, professor da UBA5, membro do EDI6. Referências: - Amin, Samir, (2012), “El mundo visto desde el Sur”, ALAI, 30-3. - Arrighi Giovanni, (2007), Adam Smith en Pekín, Akal, Madrid. - Choi, Wai Kit, (2009), “Toward a Communist immnent critique”, Science and Society, vol 73, April. - Ding, Xiaoqin, (2009), “The socialist market world economy, china and the world”, Science and Society, vol 73, April. - Dos Santos, Theotonio, (2011), “Algunos comentarios a la entrevista de Wallerstein”, ALAI, 18/8. - Hart-Landeberg Martin, (2011), “The Chinese Reform experience: A critical assessment”, Review of Radical Political Economics, vol 43, n 1. - Katz Claudio (2014), “La epopeya de Cuba”, www.lahaine.org/katz. - Katz Claudio, (2008), “El legado del Che”, 2008, www.lahaine.org/katz. - Katz, Claudio, (2006), El porvenir del socialismo, Edición venezolana: Monte Ávila, Caracas, 2006 - Li, An; Li, Zhongjin; Xie, Fuaheng, (2012), “Guojinmintui: China new public-private debate”, Science and Society, vol 76, n 3, july. - Li, Minqi, (2009), “A harmony of capitalism and socialism?, Science and Society, vol 73, April. - Li, Minqui; Piovani, Chiara, (2011), “One hundred millón jobs for the chinese workers”, Review of Radical Political Economics, vol 43, n 1. - Lin, Chun, (2009), “The socialist market economy, Step forward or backward”, Science and Society, vol 73, April. - Lo, Dic; Zhang, Yu, (2011), “Making sense of China´s economic transformation”, Review of Radical Political Economics, vol 43, n 1. - Revista Bandung, (2011), Vol 1, setembro 2011, Cedebras, Belo Horizonte. 4 CONICET – Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas: é o principal organismo dedicado à promoção da ciência e da tecnologia na Argentina. – [NT] 5 UBA – Universidade Bicentenária de Aragua, na Venzuela. – [NT] 6 EDI – Intercâmbio Eletrónico de Dados. [NT] 11 - Sánchez Vázquez, Adolfo, (2007), “La revolución cubana y el socialismo”, El marxismo en América Latina, Antología. Editorial LOM, Santiago de Chile. - Wang, Fengzhen, (2009), “Crossroads: China´s future under debate”, Science and Society, vol 73, April. - Weil, Robert, (2009), “Class bases of Chinese marxisms todays”, Science and Society, vol 73, April. - Xie, Shaobo, (2009), “Crossroads: China´s future under debate”, Science and Society, vol 73, April. - Yang, Jinhai, (2009), “The historical significance of the combination of socialism and market economy”, Science and Society, vol 73, April. - Yi, Jiexiong, (2009), “A marxist perspective on chinese reforms”, Science and Society, vol 73, April. - Yu Au, Loong, (2012), “De maitre a serviteur”, Inprecor 588-589, novembre-décembre. - Zhu, Andong; Kotz, David (2011), “The dependence of China´s economic growth on exports and investment”, Review of Radical Political Economics, vol 43, n 1.

sexta-feira, 6 de março de 2015

A quem interessar

Pelo Socialismo Questões político-ideológicas com atualidade http://www.pelosocialismo.net _____________________________________________ Publicado em : http://inter.kke.gr/en/articles/Mass-rally-of-the-KKE-against-the-new-anti-people-agreement/ Tradução do inglês de TAM Colocado em linha em: 2015/03/06 
Comício do KKE contra o novo acordo antipopular Partido Comunista da Grécia (KKE)

 Milhares de pessoas participaram na manifestação do KKE, na noite do dia 27 de fevereiro, junto ao Parlamento, contra o novo acordo antipopular do governo SYRIZA-ANEL com a UE, o BCE e o FMI. O grande comício tinha como palavras de ordem centrais: «Nenhuma tolerância com o novo acordo entre o governo e a UE para o prolongamento do memorando; abolição imediata dos memorandos e das leis que os aplicam; recuperação das perdas; rotura com a União Europeia, com o capital e o seu poder.» No seu discurso na manifestação, o secretário-geral do KKE, Dimitris Koutsoumpas, entre outras afirmações, fez referência ao facto de o governo, um mês depois das eleições, ainda não ter trazido ao Parlamento um projeto de lei para a abolição dos memorandos e das leis que os aplicam, tal como uma parte muito significativa do povo grego acreditou que faria; mas, ao invés, regressou a um novo acordo com a UE, o BCE e o FMI. Isto é, na forma e no conteúdo, uma extensão dos memorandos existentes e dos compromissos com os credores, ou seja, a continuação da linha política antipopular dos governos anteriores. O Secretário-geral do CC do KKE declarou que, findos os quatro meses da prorrogação do prazo, haverá um novo programa de entendimento, isto é, um novo memorando, seja qual for o nome que venha a ter, para os próximos anos. D. Koutsoumpas fez um apelo ao governo para que informe imediatamente o Parlamento sobre o acordo da extensão do prazo para quatro meses e agende um debate para a sua votação, que o KKE exige que seja nominal. Acrescentou: «O governo chamou peixe à carne, designa-o como acordo para o prolongamento do empréstimo e não como memorando. Porém, todos nós sabemos que o acordo de empréstimo e o memorando são inseparáveis. Não passou muito tempo desde que o senhor Tsipras dizia a mesma coisa na oposição. O memorando também tem leis para ser aplicado. Novas leis antipopulares serão agendadas para que o governo possa passar na avaliação e receber a prestação em junho. E este governo, com a sua linha política, não só não tenciona devolver ao povo tudo o que perdeu com os memorandos, como não tenciona dar-lhe as migalhas que prometeu. Diz agora que vai dar estas migalhas gradualmente, ao longo do tempo, se e quando as condições, 2 os objetivos fiscais e, com certeza, os credores, o permitirem. A troika foi baptizada de “as três instituições”, como se não estivéssemos a falar sobre a mesma Comissão Europeia, o mesmo BCE e o mesmo FMI. Todas estas medidas tomadas pelo capital e os seus governos continuam em vigor e são reforçadas. São medidas tomadas em conjunto com a UE nas condições da crise económica e fazem recair as suas consequências sobre os trabalhadores reforçando a rentabilidade capitalista. E toda esta conversa sobre uma negociação “firme” é um grande embuste publicitário.» O Secretário-geral do CC do KKE fez referência ao projeto de lei agendado pelo KKE para abolir os memorandos e as medidas antipopulares, e também à necessidade de organizar a luta por medidas que aliviem os trabalhadores e as camadas populares, pela recuperação dos direitos e rendimentos, pela rotura com os monopólios e a saída da UE. Também sublinhou que: «A soberania do povo está indissoluvelmente ligada à rotura com a UE e à saída deste bloco. Está indissoluvelmente ligada à necessidade urgente de nós, o povo trabalhador, controlarmos a riqueza, as forças produtivas e os meios de produção que existem no nosso país. Isto significa que o povo deve tomar as rédeas do poder e ser dono do seu próprio destino».

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

CLAUSTROFOBIA