sábado, 9 de maio de 2015

Opinião
‘Público’ 08/05/2015
http://imagens0.publico.pt/imagens.aspx/860960?tp=UH&db=IMAGENS&w=171&h=171&act=cropResize
Ontem esquerdistas, hoje notários
António Guerreiro
Reconhecemo-los à distância, mal aparecem no pequeno ecrã a comentar, nos jornais como escritores subalternos e nos postos oficiais onde o culto do arrivismo passa por razão de Estado: são os eternos ex-, os renegados da extrema-esquerda que renunciaram à utopia, os arrependidos de ideias, agora tão realistas por princípio que o seu realismo é uma nova ideologia, tão autoritária como a anterior. Eles constituem uma categoria, uma classe intelectual. Que tenham mudado, é normal, e nem se imagina que pudessem hoje estar no mesmo sítio, imobilizados nas mesmas ideias, indiferentes ao andamento do mundo. Não é a apostasia que deve ser criticada. Espantoso e criticável é que se tenham conformado aos mesmos estereótipos e repitam a disposição mental de notários que o escritor Marcel Jouhandeau (figura merecedora de muitas reservas, mas neste aspecto tão certeira) previu que seria a evolução dos manifestantes de Maio de 68: “Voltem para casa! Daqui a dez anos serão todos notários”. Eles, sim, constituem uma “geração”, palavra horrível para designar um coágulo de ideias colectivas, de gestos gregários e de camaradagens. Na verdade, uma geração só se sente e representa enquanto tal quando chega ao momento em que começa a fazer o balanço das derrotas e das vitórias, das fidelidades e das traições, das mudanças e das permanências; e quando passa a nomear os outros, os que vieram depois, como geração. Os membros desta classe conhecem-se muito bem uns aos outros e continuam a cultivar a mesma camaradagem de outrora, talvez um pouco menos marialva, mas solidificada por um comum desejo de conformismo, fundamental ao culto do realismo, da política das coisas. Eles podem ser arrependidos quanto às ideias, mas não quanto às pretensões e à vontade de poder e de auto-celebração. Esse conformismo é responsável por pensamentos curtos e cultos vulgares. Esta classe é na verdade composta por filisteus, orgulhosos de o ser, que desprezam todas as ideias e todos os discursos que não participam da feição moralista, do discurso chão e dos conceitos sumários desses eternos arrependidos. “Ética” é geralmente o nome que estes novos teólogos dão à sua ideologia. E é instalados nessa “ética” que ministram as suas lições. Tendo feitos acentuadas viragens à direita, eles não se confundem no entanto com a velha direita: acumulam o que há de pior de um lado e de outro. Podem ter renegado tudo, podem ter feito um enorme esforço de reciclagem, podem estar treinados para triunfar no novo ambiente, mas há uma coisa de que não se libertam: as suas estruturas mentais e os seus métodos. Por isso é que são eternos ex-. Nos casos mais caricatos, o único reflexo mental que têm é o reflexo condicionado: perante uma determinada situação, respondem sempre da mesma maneira e em uníssono. Falam todos a mesma linguagem e caracterizam-se por um espírito reactivo. Têm um estilo. É, aliás, aquilo que neles emerge em primeiro lugar, o que mais se nota: o estilo, um conjunto de traços estereotipados e levados ao estado de exasperação, uma repetição monótona dos mesmos argumentos e dispositivos retóricos (vejam-se dois casos extremos: Helena Matos e João Carlos Espada). A personalidade destes ex-esquerdistas convertidos com devoção à nova ordem (não apenas política, também social, familiar e moral) é também uma estética e confirma-se num gosto por todos os valores seguros: pelo neo-classicismo kitsch; pelos escritores que “escrevem bem”; pelos cineastas que sabem contar histórias; pelos artistas que exibem o savoir-faire da tradição.

terça-feira, 5 de maio de 2015


JISR ASH-SHUGHUR
O título deste apontamento corresponde ao nome de uma pequena cidade do extremo nordeste da Síria, a cerca de oito quilómetros da fronteira com a Turquia – perceberão que este pormenor não tem a ver com qualquer sintoma de obsessão geográfica – que no dia 25 de Abril caiu nas mãos de bandos de uma coligação de mercenários formada pela Frente Al-Nusra (um alter-ego da Al Qaida actuando na Síria), pelo grupo Ahrar al Sham (sustentado pelo Qatar, com ligações à Al Qaida e ao Estado Islâmico) e por grupúsculos ditos “moderados” que giram na órbita dos anteriormente citados e cujo apoio é publicamente assumido pelos Estados Unidos da América e dóceis seguidores da União Europeia.
http://4.bp.blogspot.com/-r1v74TRX6rk/VUYr0P_uxYI/AAAAAAAAALY/Tpc6oV7Ua-w/s1600/misseisTOWterroristas.jpg
A queda de Jisr Ash-Shugur parece corresponder ao desenvolvimento de uma nova ofensiva manipulada por Washington, Riade, Ancara e Bruxelas (leia-se à uma NATO e União Europeia) para derrubar o regime de Damasco, desígnio falhado ao cabo de quarto anos e centenas de milhares de mortos. O que parece ter inclinado o balanço de forças a favor dos mercenários islamitas foi, desta feita, a utilização de mísseis anti-tanque TOW (opticamente teleguiados) que abalaram a habitual superioridade do exército sírio em blindados e outros outros veículos pesados de combate. Esta interpretação dos factos da batalha pode ler-se nas páginas do Wall Street Journal, citando fontes terroristas, certificando assim a cooperação mutuamente vantajosa entre a alta finança e os quadros do terrorismo islamita.

Pois bem, os mísseis TOW desequilibraram a balança a favor do terrorismo neste ressuscitar da guerra de agressão à Síria. Como entraram em combate? Não é muito difícil de adivinhar. A fronteira da Turquia é mesmo ao lado de Jisr Ash-Shugur e, por muito que o governo fundamentalista e da NATO instalado em Ancara proclame o contrário, os terroristas servem-se do seu território como da própria casa.

Os mísseis TOW não andam por aí aos pontapés nas redes de contrabando internacional de armas, nem estão em saldo. Então quem os comprou e ofereceu aos bandidos islâmicos? Adivinharam se responderam Arábia Saudita. Adquiriu-os oficialmente na fonte, a Raytheon Corp – um dos maiores gigantes da indústria norte-americana da morte – em finais de 2013: um modesto lote de 15 mil por uma quantia módica que excedeu mil milhões de euros. Nos pitorescos dizeres da imprensa norte-americana da altura, a Raytheon “franziu o sobrolho” por saber que a Arábia Saudita não precisa de TOW’s desde os tempos do falecido Saddam Hussein, mas business as usual, o negócio fez-se.

Ooops! Mas então as leis norte-americanas – as leis, sempre essas malvadas das leis – não impedem a revenda ou oferenda de armas a terceiros? Impedir, impedem, mas há sempre a lei suprema, a do pragmatisno e do interesse nacional, como perceberemos se dermos a palavra ao Washington Post. Segundo fontes da administraçao Obama que se confessaram ao jornal que já derrubou presidentes – o que aconteceu noutra encarnação, por certo – o senhor presidente está mesmo preocupado com o facto de tais armas terem caído em mãos da Al Qaida porque a política de Washington, recordou, é apenas a de apoiar “moderados”. O problema é que os “moderados”, apesar do apoio do império, são fracos e caem sob influência dos radicais. Essa é, afinal, a realidade que se impõe nos campos de batalha e perante a qual Washington nada pode fazer apesar de os comuns dos mortais estarem convencidos de que Washington tudo pode. Ou seja, Washington sabe que armas de últimas gerações produzidas exclusivamente nos Estados Unidos seguem para as mãos da Al Qaeda e do Estado Islâmico, contra a vontade do senhor presidente, é claro, um conhecido cumpridor das leis internacionais.

E que faz o senhor presidente perante tal abuso de confiança? A fonte do Washington Post explica: não se cansa de chamar a atenção para o assunto nas conversas que tem com os seus aliados da Arábia Saudita, da Turquia, do Qatar, etc., etc.

Ficamos todos descansados. Os terroristas irão devolver as armas que por engano lhes chegaram. Portanto o que aconteceu em Jisr Ash-Shugur foi igualmente um equívoco e não irá repetir-se…
----   via email

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Memories of Empire: Remembering the Fall of Saigon

Global Research, May 01, 2015
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http://www.globalresearch.ca/selective-memories-of-empire-remembering-the-fall-of-saigon/5446666

Despite sharing the same diplomatic table as the United States, and forging ahead with trade agreements, Vietnam still remembers. Remembers, that is, those “countless barbarous crimes,” as the country’s prime minister calls them, committed by the United States during the long wars of the 1960s and 1970s. On April 30, 1975, Saigon was stricken by scenes of evacuation and panic. “Our homeland,” explained Nguyen Tan Dung, “had to undergo extremely serious challenges.”
Both countries provided mirrors of violent change, a form of toxic exchange that seemed share more with disease than nutrition. A distant country that was supposedly off the radar of American homes became a round-the-clock transmission feast of gore and depravity. Then came the battlefield traumas and the counter-cultural response.
The words from President Gerald R. Ford a week before the fall of Saigon before an audience at Tulane University spoke of America regaining “the sense of pride that existed before Vietnam, but it cannot be achieved by refighting a war that is finished as far as America is concerned.” The crowds began gathering for the evacuation – 130,000 Vietnamese leaving the South that April, a projection that made State Department predictions woefully inadequate. Bing Crosby’s White Christmas did the rounds on radio on April 29, triggering the airlift evacuation “Operation Frequent Wind”.
An all to quiet theme behind the commemorations has been one of waste. Waste of life, of resources. In Tim O’Brien’s words on the fall of Saigon and a slew of images, it was “the waste of it all. The dead, the wounded, the money, the psychic energy and the moral energy [...] just everything.” Poor planning for the evacuation also saw a prolonging of suffering – the separation of families, the special, God-like power of who would join in the evacuation and who could not. “We separated families in a wink,” remembers Frank Snepp, one of the CIA’s top strategists working in Vietnam, “because we hadn’t planned adequately.”
But a response to defeat and trauma tends to be that of the reassuring fairy tale, the inventive scribe who finds better ways of reimagining horror. “Think of them,” suggests Bill Moyers, “as silver-lining tributes to good intentions and last-ditch heroism that may come in handy in the years ahead.”[1] Hence the fall of Saigon being deemed humanitarian and worthy of remembrance in its tragic meter. American aggression, noted Christian Appy, was given a different pigmentation: that of “a tragic humanitarian rescue mission.”[2]
The very idea of defeat that somehow masquerades as honourable exit started the show. The peace accords of 1973 served as a masking agent. The brutality began to disappear from the screens beaming into the homes. But scores were going to be settled, and vacillation before the advancing North Vietnamese forces would see compromising records fall into the hands of the victors. The CIA, as tends to be the usual pattern, could not be trusted to be reliable on this one – those on their payroll were found in undestroyed records, captured, sent for re-education, be it through ideological patching up or traditional execution.
As Moyers notes, a response of selective remembrance reverberates in the halls of quaint, if somewhat dangerous delusion. Spin doctors with dusters and gloves have gone back into the archives, reshaping defeats as strategic wind downs and “exists”. America, after all, cannot lose, and certainly can’t be seen to sport a broken nose. Corrupt regimes installed by the grace of superpowers become mechanisms of stability. Gambles pay off even when they are ignominious failures. That is the modern legacy of Vietnam, visible in Iraq, Afghanistan and Libya.
Euphemistic bureaucracy thrived in South Vietnam, and has given birth to some terrifying monsters. The language of “body counts” and “free fire zones” entailing practical desserts have not lost their appeal in any shape or form. They have found shape in the broader objectives of the modern American Republic.
Vietnam also provided another pertinent reminder in the context of refugees. The first makeover of anniversary thought was to neglect the enormous internal displacement created by US operations – those arising from the “strategic hamlet program” designed to “pacify” local populations. In a technique all too reminiscent of British strategy towards the Boers in South Africa, millions were forced off their land, herded, encamped. “I never flew refugees back in,” remembers flight chief Jim Soular. “I always flew them out.”
Refugees arising from the conflict chose the sea as a means of passage. They were the “boat people” snaking their way in danger via the Mekong and the South China Sea to make it to countries like Australia. Many were ethnic Chinese that formed the bulk of those expelled by the Vietnamese government in 1979. Government policy to them from Australia, an ally of the southern government, resisted cultural and racial angst. There was no Pacific or extra-territorial repulsion, despite the fear in some circles that white purity was being muddied. But tens of thousands would languish for years in refugee camps in Southeast Asia.
Even now, as the fall of South Vietnam is being remembered, it is providing moments of selective reflection. Whatever happens at these points, the strategists and the dream factory merchants should be kept away from the planning rooms about military interventions. Any reference to Vietnam as precedent is bound to be foolish and misguided, because the wrong questions are bound to be asked.
Dr. Binoy Kampmark was a Commonwealth Scholar at Selwyn College, Cambridge. He lectures at RMIT University, Melbourne. Email: [email protected]
Copyright © 2015 Global Research

domingo, 3 de maio de 2015

ECONOMIA

Serão assim tão diferentes o programa do governo PSD/CDS e o programa do grupo de economistas PS?
 Eugénio Rosa – economista – este e outros estudos disponíveis em www.eugeniorosa.com

Página 1 O PROGRAMA DO GOVERNO PSD/CDS E O PROGRAMA GRUPO DE ECONOMISTAS DO PS NÃO SÃO TÃO DIFERENTES COMO OS MEDIA PRETENDEM FAZER
CRER
António Costa tem insistido na ideia, repetida quase até à exaustão, de que as medidas constantes do documento do grupo de economistas do PS resolvem a “quadratura do circulo”, ou seja, permitem a Portugal ter uma politica de crescimento económico, de criação de emprego e de redução rápida do desemprego, etc., mantendo-se na zona euro e respeitando as regras do Tratado Orçamental (reduzir rapidamente o défice orçamental e, ao mesmo tempo, reduzir a divida pública para 60% do PIB num prazo de 20 anos), sendo mesmo “uma alternativa estratégica da atual maioria”, como afirma João Galamba.
Por outro lado, aproveitando o facto da maioria dos portugueses não conhecerem detalhadamente os conteúdo do “Programa de Estabilidade 2015-2019” do governo PSD/CDS e do documento elaborado pelo grupo de economistas do PS, órgãos da comunicação social assim como comentadores que têm acesso privilegiado a eles têm procurado fazer passar a mensagem junto da opinião pública que são documentos muito diferentes, cuja aplicação dariam origem a politicas muito diferentes e também a resultados muito diferentes. Por isso interessa analisá-los com objetividade fornecendo informação que permita a cada leitor tirar as suas próprias conclusões.

SERÃO OS PROGRAMAS DO PSD/CDS (PEC:2015/2019) E O PROGRAMA DO GRUPO DE ECONOMISTAS DO PS ASSIM TÃO DIFERENTES?

 - Governo PSD/CDS 2019 RUBRICAS 2015 2016 2017 2018
Comecemos pelo crescimento económico, ou seja, o crescimento real do PIB.
Se calcularmos a média dos 5 anos, conclui-se que a taxa média de crescimento real do PIB prevista no Programa de Estabilidade do governo PSD/CDS é de 2,2% ao ano, enquanto a prevista pelo grupo de economista do PS é 2,4% ao ano, portanto a diferença de crescimento é muito reduzida. Mesmo calculando o valor nominal do PIB em 2019, o qual incorpora o aumento de preços, obtém-se, ao fim dos 5 anos, para a proposta do PSD/CDS, 206.123 milhões € e para a proposta do grupo de economista do PS 210.107 milhões €, ou seja, mais 3.984 milhões €, portanto também a diferença de crescimento nominal da riqueza não é significativa. Serão assim tão diferentes o programa do governo PSD/CDS e o programa do grupo de economistas PS?
Eugénio Rosa – economista – este e outros estudos disponíveis em www.eugeniorosa.com
 Página 2

 Em relação à remuneração por trabalhador, se fizermos as mesmas contas, ou seja, se calcularmos a média dos 5 anos, obtém-se para o PSD/CDS um aumento médio anual de 1,2% e para o do grupo de economistas do PS uma subida da remuneração média de apenas 0,2% por ano, prevendo-se no documento do grupo PS simultaneamente uma redução média dos custos unitários do trabalho de -0,8% ao ano (no do PSD/CDS tal previsão não consta; para os economistas do PS, pelo menos para estes, parece que temos novamente a defesa da teoria do aumento da competitividade através da redução dos custos do trabalho, à custa da redução da TSU, tão criticada pelo SG do PS).

A nível de criação anual de emprego (0,8% ano no programa do PSD/CDS, e de 1,4% ao ano no programa do grupo de economistas do PS), e da redução da taxa de desemprego (em 2019, atingir-se-ia 11,1% segundo o PSD/CDS, e 7,4% segundo o grupo do PS) é que as diferenças seriam maiores. É uma área importante, por isso exige maior reflexão. E a questão que se coloca para reflexão é a seguinte: Como se poderá obter a diferença de 3,7 pontos percentuais na taxa de desemprego (são mais 194.000 empregos) entre a previsão do PSD/CDS e a do grupo de economistas do PS com apenas 0,2 pontos percentuais de diferença de crescimento económico?

Para além disso, se analisarmos as taxas de crescimento do investimento e do consumo públicos, que são efetivamente as variáveis mais importantes sobre as quais o governo pode atuar, as conclusões a que se chegam não são animadoras. Assim calculando a média dos cinco anos chega-se à conclusão que, em ambos os programas (PSD/CDS e PS), a taxa média de investimento publico corresponde apenas a 2,2% do PIB (tenha-se presente que, segundo o Eurostat, em 2010, a taxa de investimento público foi de 5,3% do PIB - no período 2013/2009 a taxa média anual foi de 3,9% - e que em 2014 a taxa de investimento público correspondeu a 2% do PIB quando a média na U.E foi 2,9% do PIB).
Em relação ao consumo público a previsão é ainda pior. No Programa de Estabilidade do PSD/CDS defende-se um crescimento médio anual de 0%, e no Programa do grupo de economistas do PS uma redução média anual de - 0,2% no período 2005-2019. São certamente valores que têm de ser alterados. Para além da taxa desemprego, as outras diferenças entre os dois programas (o Programa de Estabilidade 2015-2019 do PSD e Programa do grupo de economistas PS) situam-se nos valores do saldo orçamental final (em 2019, PSD/CDS: +0,2%; Grupo PS:- 1%), no saldo primário final (em 2019: PSD/CDS: +3,7%; Grupo PS: +3,2%); na divida pública (em 2019, PSD/CDS: 220.758M€; grupo PS: 247.086M€); no consumo privado (taxa de crescimento medio anual no período 2015/2019: PSD/CDS:2%; grupo PS: 2,4%); e no investimento (FBCF) total (taxa média anual de crescimento no período: PSD/CDS: 4,4%; grupo PS: 5,6%). E como rapidamente se conclui as diferenças ou não são grandes (ex: saldos orçamentais, divida pública, consumo privado), ou então não dependem de fatores controláveis pelo governo (investimento privado, exportações).

O CARATER MAIS SOCIAL DO PROGRAMA DO GRUPO DE ECONOMISTAS PS
João Galamba, um dos economistas que integrou o grupo dos doze, num artigo que publicou no Diário Económico de 27.4.2015, com o título “Uma alternativa para Portugal”, refere o carácter social do programa do grupo já que ele dá “prioridade à reposição dos mínimos sociais (abonos, CSI, RSI), à reposição integral dos cortes salariais da função pública, ao fim da sobretaxa, à redução da TSU para os trabalhadores e ao complemento salarial para os trabalhadores pobres”.
E fala também que “é possível ter um PIB maior e mais sustentável; é possível mais e melhor emprego; é possível ter menos pobreza e menos desigualdade; é possível ter melhores serviços públicos” Já analisamos anteriormente a consistência de alguns destes últimos objetivos, nomeadamente “ter um maior PIB e mais sustentável “ (o objetivo anual de crescimento real do PIB para o PSD/CDS é de 2,2%, enquanto para o grupo PS é de 2,4%, portanto a diferença de crescimento não é muito “maior”); “mais e melhor emprego” (será possível ter melhor emprego com menores custos unitário do trabalho, como pretende o PS?).Após a reflexão anterior, interessa agora fazer o mesmo em relação à consistência dos outros objetivos. Afirma-se que se pretende “repor os mínimos sociais (abonos, CDI e RSI)”, e “ter menos pobreza e desigualdade”, que são objetivos importantes partilhados por milhões de portugueses.
No entanto, e como consta do quadro 1, as despesas com “prestações Serão assim tão diferentes o programa do governo PSD/CDS e o programa do grupo de economistas PS?
Eugénio Rosa – economista – este e outros estudos disponíveis em www.eugeniorosa.com Página 3

sábado, 2 de maio de 2015

InfoEscola
ALBERT CAMUS
Por Ana Lucia Santana
Albert Camus, futuro escritor e filósofo francês, nasceu na cidade de Mondovi, na Argélia, neste momento colônia da França, no dia 7 de novembro de 1913. Três elementos fundamentais de sua terra natal marcariam definitivamente sua obra – a guerra, a fome e a pobreza -, bem como a inclemência solar.
Seu pai era francês; a mãe, descendente de espanhóis. Sua família era pobre e logo cedo foi visitada pelo fantasma da morte, que levou seu genitor em 1914, durante árdua batalha na Primeira Guerra Mundial. Sem opções, sua mãe teve que se transferir para a capital argelina, Argel, hospedando-se na casa da avó materna de Camus. Nesta localidade, anos depois, o processo de independência da Argélia provocaria o extermínio de inúmeros árabes.
Ele cresceu em meio à Natureza, o que propiciaria à sua infância pobre uma dose de felicidade, a qual também influencia sua obra, principalmente o livro Avesso e o Direito. Ele residia com o irmão, a mãe, a avó e um tio que exercia o ofício de tanoeiro – aquele que conserta pipas, tonéis, entre outros. Camus pretendia seguir este caminho, mas um professor, M. Germain, o incentiva a seguir os estudos secundários, o que deixou o jovem em um dilema crucial – continuar a estudar ou trabalhar para sustentar a família. Durante sua jornada intelectual ele se viu constantemente ameaçado pelo fantasma das dificuldades monetárias, mas outro mestre, Jean Grenier o ajudou a prosseguir, até alcançar a graduação em filosofia na Universidade da Argélia. Albert finalmente defende sua tese de doutorado, discorrendo sobre Santo Agostinho.
Em 1930, prestes a assumir a carreira de professor, outra provação, uma séria crise de tuberculose, o distancia da profissão e também do esporte pelo qual ele era apaixonado, o futebol – ele era goleiro da seleção da Universidade. Sua viagem ao Brasil, em 1949, comprova seu amor por esta modalidade esportiva, pois seu primeiro desejo ao desembarcar neste país foi assistir uma partida futebolística. Mas a tuberculose também permitiu que Camus não fosse obrigado a servir o Exército francês.
As presenças constantes da morte e do paradoxo na vida de Albert Camus marcam profundamente sua obra, tanto a filosófica quanto a literária. Seus escritos narram os absurdos de sua era, os choques e desordens que assolaram o tempo em que ele viveu. Ele e outros autores, como Kafka e Dostoievski, criaram o que se conhece como a estética do absurdo.
No ano de 1934 ele entra no Partido Comunista Francês e contrai matrimônio com Simone Hie, mas logo depois se divorcia. Um ano depois, ele cursa licenciatura em Filosofia e organiza o Teatro do Trabalho. Camus realiza uma tese sobre Plotino e ingressa no Partido do Povo da Argélia, passando a escrever para dois veículos socialistas. Ele trava conhecimento com Sartre, de quem se torna grande amigo. Nesta época, Camus ingressa na Resistência Francesa e lança o jornal clandestino Combat.
O filósofo tinha escrito uma crítica muito positiva sobre a obra O Estrangeiro, de Camus. Um livro os une, outro os separa. Em 1952, com a publicação de O Homem Revoltado, na qual ele renega o Comunismo, ocorre um sério desacordo público entre ambos. Ele se casa novamente, em 1940, com Francine Faure, e neste mesmo período ele trabalha no veículo Paris-Soir, transferindo-se para Bordeaux um ano depois, com toda a equipe da revista. O Estrangeiro e O Mito de Sísifo, seus dois principais romances, são publicados em 1942. Ele atuou igualmente no veículo semanal L’Express, de 1955 a 1956. Ele conquista, em 1957, o maior prêmio literário, o Prêmio Nobel de Literatura.
Camus morre em 1960, em razão de um acidente automobilístico. Na sua bagagem, paradoxalmente, estava o manuscrito de sua obra autobiográfica, O Primeiro Homem, da qual ele afirmara que deveria ficar inconclusa. Sua mãe morre igualmente neste mesmo ano. Ele seguia para Paris quando ocorreu o desastre, no carro da família Gallimard. Mais uma obra do absurdo – ele já tinha comprado o bilhete para viajar de trem com o poeta René Char, mas no último instante decidiu aceitar o convite dos amigos. Camus deixou dois gêmeos, Catherine e Jean.
Fontes
http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u233.jhtm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Albert_Camus
Arquivado em: BiografiasEscritoresFilósofos

quinta-feira, 30 de abril de 2015

ONDE PÕEM AS MÃOS FICA O CAOS

http://1.bp.blogspot.com/-aprKPuniYxQ/VUDZ9bpkJCI/AAAAAAAAAKw/jwFHDN2zih0/s1600/batalh%C3%A3oazov01.jpg
Efectivos do batalhão nazi Azov e suas bandeiras


Pouco mais de um ano depois da grande explosão dita democrática em Kiev, dirigida por bandos neonazis, motivada alegadamente pela necessidade de travar e expulsar os oligarcas que tinham tomado conta da Ucrânia, o país mudou. Quem disser o contrário mente. Os oligarcas foram expulsos e substituídos por outros, aliás com muito mais prestigiadas relações, como o senhor Ihor Kolomoysky, íntimo da administração Obama, conhecido também por ter o saudável hábito de resolver os diferendos empresariais a murro e generoso empregador do senhor Hunter Biden, por acaso filho do senhor vice-presidente dos Estados Unidos da América.

O mínimo que pode escrever-se é que a Ucrânia vende saúde… Para ficar sem nenhuma. Depois de a junta fascista governante ter entregue o ministério das Finanças à cidadã norte-americana Natalija Jaresko, que só depois disso obteve cidadania ucraniana – nada que deva surpreender os incautos, porque o ministro da Economia é lituano e o da Saúde é georgiano – o FMI entrou no costumeiro processo de ajuda ao país, que por enquanto vai em 40 mil milhões de dólares, em troca das habituais reformas ao estilo das troikas. Neste caso específico, uma fatia de 17500 milhões teve como contrapartida a invasão do país pela deusa universal da contaminação, a omnipresente Monsanto, agora com mãos livres para semear transgénicos onde lhe apetecer - que não no sudeste, obviamente – e aspergir o cancerígeno roundup onde lhe aprouver. A Ucrânia governada por nazis mereceu até uma distinção especial do FMI da senhora Lagarde, que decidiu ajudar Kiev à revelia dos estatutos da organização, que a impedem de conceder empréstimos a países em guerra. Mas quem se vai lembrar dessas coisas sem importância como as leis internacionais.

Pois bem, a economia ucraniana exibe hoje relevantes efeitos da intervenção de choque em nome da liberdade e da democracia. O desemprego cresceu em flecha, a inflação é de 65 por cento ao mês, a produção industrial caiu 21%, segundo a imprensa norte-americana, a moeda nacional desvalorizou-se 70% em relação ao dólar e a recessão está à beira dos 7%. Diz-se que, em paralelo, grande parte das contribuições do FMI ajudam preferencialmente os oligarcas democráticos, muito ágeis a negociar as armas que a Ucrânia recebe para afrontar o diabólico Putin com várias nações do Médio Oriente, por seu turno empenhadas em animar grupos terroristas, sempre a bem da democracia. Consta também que a generosidade da senhora Lagarde serve para ressarcir os bancos franceses e alemães expostos ao caos ucraniano, mas como dirá qualquer comentador encartado, tudo isso não passa de teorias da conspiração.

Ao cabo de um ano e pouco de liberdade e democracia, quando agora se assinala o aniversário da chacina de Odessa cometida por bandos neonazis – entretanto a receber treino militar de tropas especiais norte-americanas – e que marcou o início da operação militar contra a minoria russófona, a Ucrânia é um país fragmentado, comandado em Kiev por grupos fascistas, sofrendo uma profunda crise humanitária, onde desaparecem pessoas, se assassinam jornalistas e fecham jornais, se impõem leis banindo forças políticas de oposição, como é o caso dos comunistas, onde a economia se debate num estertor sem conserto.

A Ucrânia mergulhou no caos, a exemplo do que acontece na Síria, na Líbia, no Iraque, no Afeganistão, no Iémen… Onde os cruzados ambulantes da liberdade e da democracia põem as mãos, seja sob as bandeiras dos Estados Unidos da América, da NATO ou da União Europeia, o que fica é morte, destruição, crises humanitárias, nações aos pedaços… O caos, em suma. O mais provável é que seja uma infeliz coincidência.
 (Recebido via email)
BES - Na hora da verdade, separou-se o trigo do joio e o resultado é este!
QUARTA-FEIRA, 29 DE ABRIL DE 2015
Publicado por Manifesto 74
http://1.bp.blogspot.com/-GCbCv_qpjnQ/VUDs3owq8GI/AAAAAAAAAIE/XZziZFVWRTE/s1600/dossier_comissao_inquerito_bes.jpg
O PCP votou contra o Relatório apresentado pelo Deputado Relator à Comissão de Inquérito. PSD, PS e CDS votaram a favor, BE absteve-se. Para quem quiser conhecer, aqui fica a declaração de voto do PCP.

«Ora, o Relatório ignora que o Banco Espírito Santo e a Tranquilidade foram entregues à família Espírito Santo no processo de restauração capitalista e monopolista desencadeado contra as conquistas daa Revolução de Abril. (...) Tal como a família adquiriu o Grupo sem capitais, com financiamento da Caixa Geral de Depósitos e com apoio do Crédit Agricóle, angariado por Mário Soares, o Grupo veio a ser constituído como império precisamente da mesma forma, sobre crédito e dívida, predação dos sectores produtivos, benefícios fiscais e especulação financeira. O Relatório ignora que o BES foi entregue à família e financiado com apoios públicos e que o BES – apenas o BES – distribuiu 4 mil milhões em dividendos ao longo de pouco mais de duas décadas, fazendo deles um usufruto estritamente privado, apesar de ter sido socializado o prejuízo resultante.»

Declaração de Voto ao Relatório Final da Comissão de Inquérito à gestão do BES e do Grupo Espírito Santo

Considerações iniciais

O Grupo Parlamentar do Partido Comunista Português salienta, antes de mais, o relevo e a importância política que teve a proposta do PCP para a constituição da Comissão Parlamentar de Inquérito à gestão do BES e do Grupo Espírito Santo, ao processo que conduziu à aplicação da medida de resolução e às suas consequências, nomeadamente quanto aos desenvolvimentos e opções relativos ao GES, ao BES e ao Novo Banco. Relevo e importância políticos que permitiram uma perceção pública sobre a realidade do mundo do capital financeiro, bem como sobre o comportamento e funcionamento do interior de um grupo monopolista que foi, durante décadas, alimentado pelos próprios governos, fazendo uso de instrumentos do Estado. Ao mesmo tempo, a constituição desta Comissão de Inquérito permitiu à Assembleia da República aprofundar muito o conhecimento sobre procedimentos, insuficiências matriciais e conjunturais do sistema financeiro e do chamado sistema de supervisão, bem como compreender a natureza predatória dos grandes grupos económicos e financeiros.

Os trabalhos da Comissão estão efetivamente refletidos no relatório apresentado pelo Sr. Deputado Relator Pedro Saraiva, sendo que o capítulo sobre o apuramento dos factos resume, de forma tanto quanto possível, fiel, o conjunto de práticas identificadas como características do Grupo Espírito Santo e Grupo Banco Espírito Santo, apesar das eventuais divergências que se verificam entre as perspetivas ideológicas do Grupo Parlamentar do PCP e do próprio Relator. A disponibilidade de tempo reduzida impediu um debate mais profundo sobre o apuramento dos factos, mas o PCP entende estar esse capítulo composto de forma objetiva, sem dedução política e muitas vezes, como aliás, se saúda, meramente descritivo. O capítulo sobre “apuramento de factos” constitui por isso, um importante instrumento de trabalho para a Assembleia da República, para os Governos e para os que pretendam debruçar-se sobre as formas de funcionamento de um grande grupo económico, formas essas que aliás, reproduzem e mimetizam o comportamento de inúmeros grupos nacionais e transnacionais, alguns deles já detetados em Portugal e igualmente alvos de inquéritos parlamentares. Igualmente, o referido capítulo indica factos que em boa parte não correspondem a ilegalidades – antes estão devidamente chancelados pela legislação vigente – mas que resultam claramente na degradação da estabilidade financeira, da economia, do interesse nacional, em prejuízo do bem-estar comum e em função apenas da concentração de lucros e riqueza, obtida muitas vezes apenas através de mecanismos de especulação capitalista – como rendas e juros – outras vezes da artificialização e branqueamento de balanços, evasão fiscal e outras formas de maximização do processo de acumulação, mas sempre tendo como base a riqueza produzida por quem trabalha e a predação do sector produtivo da economia. Aliás, isso mesmo se verificou no interior do próprio grupo.

O Grupo Parlamentar do PCP empenhou todos os esforços, não apenas para que o mais vasto possível conjunto de factos relevantes fosse apurado, como para que resultasse evidente a natureza sistémica dos problemas que originam a instabilidade do sistema financeiro com custos para os portugueses. Essa natureza é incompatível com teses de que os problemas têm origem em casos isolados, em questões comportamentais, morais ou de carácter individual, em falhas pontuais do sistema, quer sejam no plano político, quer sejam no plano da supervisão. Além disso, destaca a forma como decorreram os trabalhos da comissão no que à sua esfera de competências diz respeito, sendo que não existiram obstáculos políticos, com exceção do bloqueio imposto pela maioria parlamentar PSD/CDS à obtenção de esclarecimentos por parte do Sr. Presidente da República. Todavia, o mesmo não se pode dizer sobre as condicionantes externas ao trabalho da comissão: o atraso nas respostas, a invocação constante de segredos e formas várias de sigilo, o truncamento de documentos e a introdução de constantes obstáculos ao real apuramento de beneficiários da delapidação do BES foram um ruído persistente que tolheu, objetivamente as capacidades da CPI. Daí que tenha o PCP proposto na Assembleia da República, através de Projeto de Resolução, a constituição de uma unidade técnica para o apuramento desses beneficiários, complementando o escopo e as capacidades da CPI. Tal iniciativa, lamentavelmente, não obteve o apoio da maioria e contou com a abstenção do Partido Socialista.

O Grupo Parlamentar do PCP partiu para o trabalho nesta Comissão de Inquérito sem iludir as conceções e propostas que sempre apresentou sobre o sistema financeiro e a necessidade de o colocar ao serviço do povo e do país, rompendo com o dogma e preconceito da banca privada como virtude da economia desenvolvida. O caso BES mostra com inolvidável transparência a incompatibilidade racional e prática entre a banca privada e uma política de investimento e de crédito ao serviço de interesses comuns e coletivos.

O Grupo Parlamentar do PCP não apresentaria um relatório semelhante ao que ora se vota, por motivos vários. Contudo, não deixa de referenciar a síntese realizada pelo Relator, nem tampouco o esforço concreto real que foi levado a cabo para que as conclusões fossem tanto mais amplas quanto possível. Tal esforço, porém, não pode iludir questões políticas, nem discordâncias de fundo, políticas, ideológicas, pragmáticas e conceptuais. Tais questões e divergências não podem igualmente ser suprimidas por uma necessidade de consenso parlamentar como forma de credibilização do trabalho da CPI, como tem sido sugerido. Antes pelo contrário, de uma análise de factos indicados por unanimidade, devem decorrer conclusões e recomendações políticas necessariamente diferentes por ser diversa a composição política da comissão e por ser natural que dos mesmos factos não se retirem as mesmas conclusões. A riqueza de um trabalho de inquérito parlamentar também assenta na multiplicidade de pontos de vista, base aliás da sua democraticidade. O PCP não aceitou, por exemplo, desde o primeiro momento, que a visão de PSD, mas também – em boa medida de PS e CDS – passasse como forma única de intervenção, consistindo na construção de um monstro moral, no sacrifício de um banqueiro caído em desgraça, independentemente das suas grandes responsabilidades reais e aliás bem descritas e identificadas, para assegurar a salvação de responsáveis políticos vários e do sistema financeiro privado em geral. Tal divergência não poderia deixar de estar presente no momento das votações sobre um Relatório que, apesar da sua riqueza, continua a branquear uma componente fundamental das responsabilidades: a política.

Se é verdade que o Relatório apresentado faz uma descrição exaustiva de factos e de práticas legais e ilegais, bem como aponta falhas e deficiências mais ou menos circunstanciais no sistema de supervisão, não deixa de ser verdade que é exclusivamente nesses pilares que o Relatório faz assentar as suas conclusões. Ora, o Relatório ignora que o Banco Espírito Santo e a Tranquilidade foram entregues à família Espírito Santo no processo de restauração capitalista e monopolista desencadeado contra as conquistas daa Revolução de Abril. É sintomático que o relator consiga mesmo aceitar um vasto conjunto de propostas de alteração apresentadas pelo Grupo Parlamentar do PCP – o que saudamos e valorizamos – mas não integre quaisquer considerações sobre o papel de sucessivos Governos, PS, PSD, com ou sem CDS, no que toca à consolidação e promoção do Grupo GBES/GES. Tal apagamento de responsabilidades não é compatível, na visão do PCP com um relatório de Comissão de Inquérito que visa precisamente apurar o conjunto dos atos públicos e políticos que originaram a situação que agora se deve relatar. A entrega da Tranquilidade em 1990 e depois do BES, em 1991, à família, pela mão do Governo PSD de Cavaco Silva como Primeiro-Ministro e de Mário Soares como Presidente da República, marcam um momento determinante para o que viria a suceder. Tal como a família adquiriu o Grupo sem capitais, com financiamento da Caixa Geral de Depósitos e com apoio do Crédit Agricóle, angariado por Mário Soares, o Grupo veio a ser constituído como império precisamente da mesma forma, sobre crédito e dívida, predação dos sectores produtivos, benefícios fiscais e especulação financeira.

O Relatório ignora que o BES foi entregue à família e financiado com apoios públicos e que o BES – apenas o BES – distribuiu 4 mil milhões em dividendos ao longo de pouco mais de duas décadas, fazendo deles um usufruto estritamente privado, apesar de ter sido socializado o prejuízo resultante.

Da natureza sistémica das crises no sistema financeiro

A predação do capital produtivo pelo capital financeiro, resultado direto do desenvolvimento do capitalismo, tornou cativas das instituições de crédito praticamente todas as atividades económicas, independentemente da sua dimensão. As operações que geram esse fenómeno são várias e prendem-se com aspetos e dimensões diversos do capitalismo, estando, no entanto, a quase totalidade descrita e até mesmo prevista por Marx e outros teóricos marxistas. Lenine, no seu estudo sobre a fase superior do capitalismo, aponta como natural a fusão entre o capital bancário e o capital produtivo (industrial), fusão que cria o designado capital financeiro, e que subordina o segundo ao primeiro com custos para a economia e com graves consequências na divisão internacional do trabalho e no equilíbrio económico e social, abrindo ainda mais o caminho para os conflitos, a agressividade e a guerra, resultados diretos das contradições geradas pelas disputas regionais e económicas. A criação e crescimento de grupos de génese monopolista é uma das fases do desenvolvimento da organização capitalista. Pela sua própria natureza de acumulação, o capitalismo tende para o monopólio, ainda que assimptoticamente em alguns casos e, nesses, ficando pelo oligopólio. Em todo o caso, os grandes grupos económicos e financeiros constituem-se, a escalas diversas como grupos monopolistas na medida em que a sua matriz é a da acumulação e o seu funcionamento, o da canalização do crédito e do dinheiro em função estrita dos seu interesse de maximização dos lucros.

A capacidade de condicionar os fluxos, as direções e os sentidos do crédito influencia no concreto o desenvolvimento das forças produtivas, as opções económicas e políticas e o sucesso ou falhanço de uma determinada atividade. A concentração dessa capacidade, como sucede em Portugal e nos restantes países da União Europeia, nas mãos de entidades privadas, de acionistas mais ou menos concentrados ou pulverizados, cotadas ou não em bolsas, deduz-se, implica o poder de determinar o sentido do desenvolvimento das forças produtivas, as opções económicas e políticas e o sucesso ou falhanço de uma determinada atividade.

O mero exercício de dedução, sem considerações subjetivas, conduz-nos a uma conclusão incontornável: a propriedade privada da banca significa a colocação de um tremendo poder político, económico, financeiro, nas mãos dos acionistas da instituição bancária, poder esse que bule e se sobrepõe – em muitos casos já domina – ao exercício do poder político, em sentido contrário ao disposto na lei, principalmente na Constituição da República Portuguesa, onde se pode ler claramente que o poder económico se subordina ao poder político e não o inverso. Também daí decorre que, no âmbito da organização económica, a mesma Constituição preveja como papel do estado o combate a formas de organização monopolista.

Do contexto nacional – a Privatização como abdicação do interesse nacional

A nacionalização da banca comercial nacional, em 14 de Março de 1975 foi uma necessidade imposta pelo comportamento que os grupos económicos assumiam contra a revolução, assim usando o poder económico como forma de conter os avanços democráticos mas veio também a constituir-se como elemento fundamental da política económica do país. A capacidade de intervir e controlar como propriedade pública e democraticamente escrutinada e condicionada a banca, veio a significar também a capacidade de fazer uma gestão política do crédito, da dívida, do investimento, em função dos interesses nacionais, do interesse colectivo, num exercício de soberania e democracia como até aí nunca tinha sido visto em Portugal.

A recuperação capitalista, monopolista e latifundista que se inicia com os governos de PS/Mário Soares e segue com os seguintes, que vêm mantendo a forma em alternância até aos dias de hoje – PS, PSD, com ou sem o CDS – impôs a perda dessa componente da soberania popular sobre a gestão do crédito e do dinheiro com a entrega dos principais bancos às famílias a que pertenciam antes de Abril de 1974 ou a outros novos acionistas.

O ataque às conquistas de Abril pelas mãos dos de governos PS, PSD e CDS ao mesmo tempo que faziam a apologia e a imposição do modernismo de uma nova estirpe de capitalismo: um capitalismo aberto e moderno, globalizado e humano. Eis os resultados do prosseguimento das políticas de direita. Ao longo das décadas, as privatizações das principais alavancas da economia, das que aqui destacamos a banca, traduziram-se em efeitos concretos junto dos trabalhadores, da política e da economia nacional e esses efeitos estão hoje à vista de quem puder debruçar-se sobre o sistema financeiro português e a economia em geral.

Um olhar sobre o sistema financeiro português, partindo de uma perspetiva crítica, mas sempre objetiva e sem mistificações, levar-nos-á a uma viagem que se inicia com a privatização das grandes instituições financeiras e de crédito e com a forma como foram utilizadas como bolsas de acumulação à custa da produção nacional, com a especulação e a extorsão como instrumentos preferenciais e o apoio do Estado como chancela de sempre. O enquadramento europeu, legislativo e político, a união económica e monetária e as fundas implicações nos custos de capital em cada país são paragens obrigatórias e pontos de referência históricos na forma como o capital financeiro consolidou o seu domínio sobre a economia. A captura do poder político e a completa incapacidade – natural e matricial – dos ditos reguladores e supervisores pelo poder económico, seja por submissão opcional e interesse de classe, seja por insuficiência ante o gigantismo de uma parte desses grupos resultou na denúncia da farsa montada em torno de um sistema eminentemente fiduciário nas mãos de privados. O caso do Banco Espírito Santo e do Grupo Espírito Santo, é um dos que, como poucos, reúne com tanta clareza o conjunto de aspetos que resultam do funcionamento do sistema financeiro em capitalismo, desde o funcionamento interno do banco e do grupo, às suas relações com o chamado sistema de supervisão, passando pela sua relação com o tecido económico onde atua e onde tem interesses. A parada de ilegalidades cometidas, o desfile de ricos fabricados pela evasão fiscal e pela concessão de crédito sem garantias, são acompanhados de um vasto conjunto de operações consideradas, para todos os efeitos, legais que concorrem igualmente para o cenário final: o do colapso de um grupo económico e financeiro que, só pela sua dimensão, representava – como ficou claro além de quaisquer dúvidas – uma ameaça para a estabilidade do sistema financeiro.

A história do BES e do GES, das componentes financeira e não financeira desta miríade empresarial, pode constituir um elemento documental que ilustra com grande nitidez e à escala nacional, o papel e a natureza do capitalismo, aprofundando e consolidando teses e concepções dos comunistas, desde a definição de Capital por Karl Marx. A história do desenvolvimento do capitalismo em Portugal está intimamente ligada aos grupos económicos que dominaram durante longos períodos de tempo a economia, a produção e a finança, com governos colocando o Estado integralmente ao seu serviço. A promiscuidade entre os grupos económicos e o Estado durante o fascismo atingiu proporções quase totais. Tal como Álvaro Cunhal denuncia com grande pormenor no Relatório ao Comité Central que vem a dar origem ao documento “Rumo à Vitória”, os membros do Conselho e altos dirigentes do Estado eram simultaneamente acionistas de uma boa parte das grandes empresas portuguesas em cujo capital social o Estado chegava mesmo a participar, não para exercer um poder público ao serviço da população, mas para amparar as aventuras e os lucros dos grandes patrões. A colocação do Estado ao serviço dos monopólios serviu os grandes grupos que se implantaram em Portugal, bem como os alimentou e defendeu numa relação de mútuo fortalecimento. Entre esses Grupos, encontra-se incontornavelmente o Grupo Espírito Santo.

Ao olhar para o que sucedeu no caso BES/GES, é imprescindível observar a génese, o desenvolvimento, os fluxos e refluxos, a nacionalização em 75, a privatização em 91, o crescimento sem limites e com o apoio das políticas de sucessivos Governos, a promiscuidade com outras grandes empresas de dimensão nacional e internacional, a ramificação tentacular do grupo por vários sectores de atividade, pela esfera política e a captura de uma boa parte do tecido económico nacional constituído por pequenas e médias empresas através de rendas e juros, finalmente, o seu colapso por descapitalização do BES que era a base de um império constituído sobre dívida e crédito.

Da atuação do XIX Governo Constitucional

A forma como o Governo PSD/CDS não só não cumpriu o seu dever de ser garante último da estabilidade financeira, como contribuiu para empenhar recursos públicos na salvação de uma instituição, socializando prejuízos e funcionando como agente de limpeza de ativos financeiros não pode, de forma alguma, ser minimizada no âmbito das conclusões da Comissão. Em primeiro lugar porque tal branqueamento das responsabilidades políticas não corresponde nem responde à realidade, e em segundo lugar porque não refletir sobre o enquadramento político e ideológico, que se traduz no legislativo, é ignorar uma necessidade absolutamente fundamental: a de tomar medidas para que nunca mais possa suceder o que sucedeu no BPN, no BPP, no Banif, no BCP e no BES. Ora, para tal, as conclusões desta Comissão, não podem deixar de fora as questões políticas e as responsabilidades políticas, tal como, em parte, já sucedeu em passadas Comissões de Inquérito Parlamentar.

O Governo PSD e CDS não se limitou, como o relatório de certa forma tenta insinuar, a não intervir no sentido de salvar um Grupo Privado. Aliás, as responsabilidades de PSD e CDS na ajuda e alimentação deste Grupo vão muito além das deste Governo, sendo que perpassam vários mandatos governamentais em que a concessão, contratação, parceria, atribuição de negócios por parte do Estado, criaram uma autêntica hidra económica e financeira, cuja dimensão, por si só, ameaçava a estabilidade do sistema financeiro.

Mas mais do que isso, tal como se pode verificar nas propostas de alteração apresentadas pelo PCP ao Relatório proposto pelo Sr. Deputado Relator (anexas a esta declaração de voto), a atuação do Governo foi fonte de problemas concretos. Entre esses problemas concretos encontra-se o resultado do processo de reembolso de investimentos em papel comercial do GES, gerado em parte pela incapacidade do Governo para salvaguardar esses interesses aquando da aplicação da medida de resolução. Mas as responsabilidades do Governo vão muito mais longe: o Governo não agiu em defesa do interesse nacional, mas apenas em sintonia com a sua matriz de Governo ao serviço dos grandes grupos económicos, não de um ou outro grupo específico, mas do sistema no seu conjunto. Por isso mesmo, apesar de ser claro desde há muito, que a medida que se impunha era o congelamento e imobilização de ativos, empresas e até património, do GES e dos seus principais acionistas, bem como a nacionalização de empresas como a Tranquilidade e a ES Saúde, o Governo limitou-se a “deixar o mercado funcionar”, remetendo-se para o papel de “entidade reguladora”, papel esse que a Constituição da República Portuguesa não lhe atribui. O Governo não ponderou intervir nos privilégios dos banqueiros e dos grandes acionistas do BES, não tanto por um compromisso com os próprios – que a Comissão não pôde comprovar nem negar – mas por um compromisso de fundo com o sistema capitalista e o domínio do capital monopolista que coloca a economia ao serviço da acumulação, fazendo da banca um dos mais importantes e cruciais instrumentos, não tendo sequer equacionado uma solução que pudesse – de facto – não comprometer recursos retirados aos portugueses.

A própria inépcia e incapacidade de atuação do Banco de Portugal e da CMVM estão intimamente ligadas a uma política que consiste em fazer-nos crer confiável aquilo que jamais pode merecer confiança. A simples conceção de que o Banco de Portugal e a CMVM, aliás o conjunto dos supervisores, regulam ou supervisionam seja o que for cai por terra observando a sucessão de casos de colapso de bancos privados em Portugal. O Banco de Portugal, particularmente, neste caso como em outros, não garantiu fiabilidade no sistema bancário, apenas a forjou publicamente, para evitar uma corrida aos depósitos, assim mostrando à última consequência que é impossível assegurar a estabilidade do sistema financeiro através de um supervisor enquanto essa estabilidade for uma prerrogativa do supervisionado. Ora, nesta construção, neste sistema legislativo, têm também responsabilidade o Governo que legisla, o Governo que submete o país às imposições da União Europeia, o Governo que coloca o funcionamento do mercado de capitais e a liberdade de acumulação por um grupo reduzido de grandes capitalistas acima da liberdade de um povo inteiro.

O Voto do Grupo Parlamentar do PCP

Por tudo o acima exposto, o Grupo Parlamentar do PCP não pode votar favoravelmente as conclusões do Relatório apresentado à Comissão de Inquérito, não deixando de votar favoravelmente o capítulo sobre o “apuramento dos factos”. Já sobre as recomendações apresentadas pelo Relatório, o Grupo Parlamentar do PCP afirma que, apesar de não ter oposição determinada à partida quanto à sua generalidade, é importante que tais recomendações não sejam confundidas com uma solução.

Ou seja, o momento é o da assumpção de uma política de recuperação da soberania política e económica, colocando o sistema financeiro como instrumento dessa política. Ao mesmo tempo, essa é a única solução. Cada vez se torna mais evidente que o esforço coletivo e o prejuízo que o país e os trabalhadores realizam e sofrem não justificam o benefício privado de um conjunto reduzido de indivíduos. O Estado não pode dar-se ao luxo de pagar o privilégio de um grupo de cidadãos poder ser dono de um banco.

Nenhum relatório de Comissão Parlamentar de Inquérito, que tenha sido capaz de reunir o conjunto de factos e testemunhos que esta Comissão reuniu, pode omitir os reais responsáveis pela situação a que chegou o BES e o GES. Os verdadeiros responsáveis são aqueles que ao longo de muitos anos foram os seus principais acionistas e os seus gestores. Mas igualmente responsáveis são aqueles que, ao longo de décadas, protegeram e elevaram o Grupo a colosso económico e financeiro, bem como os que ao longo de décadas sustentaram as opções políticas de direita que alimentaram a ilusão de que a banca privada pode ser disciplinada, apesar de serem visíveis os comportamentos lesivos do interesse coletivo no interior de várias instituições bancárias. O simples reconhecimento que há várias formas de escapar ao controlo de supervisão deve responsabilizar aqueles que, nos sucessivos Governos, foram tentando convencer os portugueses de que a Banca – apesar de não terem os elementos que fundamentem essa posição, antes pelo contrário, saberem que os não tinham – pode ser fiável e ao mesmo tempo constituir propriedade privada, gerida ao sabor dos interesses privados dos acionistas e dos grupos que esses acionistas influenciam. Desse grupos, atentas as relações múltiplas com o poder político, não se excluem partidos políticos com responsabilidades governativas, nem Governos propriamente ditos, dirigidos por PS e PSD, com ou sem o CDS.

Da mesma forma, o contexto da União Europeia, particularmente o que resulta do desenvolvimento do processo de liberalização financeira, inscrito na Agenda de Lisboa e intimamente associado à moeda única, enquadram um sistema financeiro que funciona em paralelo com um sistema de banca sombra, como no caso BES/GES se verificou. A ausência de tutela e fiscalização está intrinsecamente ligada aos graus de liberdade com que a banca atua, sem limitações, muitas vezes sem qualquer espécie de escrutínio e com múltiplas formas de lhe não estar sujeita. O presente relatório descreve bem esses expedientes e procedimentos mas falha na responsabilização política da União Europeia e dos Governos da República que com essa política alinham sem defender a soberania nacional nos seus diversos planos.

Igualmente importante é afirmar que mais do que melhorar o desempenho dos agentes de supervisão, é preciso acabar com a farsa da supervisão cativa do próprio sistema financeiro. Mais do que agravar as penas para a prevaricação ou para a má-gestão, importa acabar com a possibilidade de esses comportamentos se verificarem. Mais do que acrescentar camadas de verniz a um sistema financeiro podre, para melhor encobrir as suas práticas de acumulação, ou para criar a ilusão de que são legítimas, importa afirmar com audácia que nenhuma extorsão é legítima, que nenhuma especulação sobre o trabalho e o interesse nacional são legítimas, independentemente do quadro regulatório em que se realizem.

Assembleia da República, 29 de abril de 2015

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

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Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

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Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

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Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

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Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

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Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

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CLAUSTROFOBIA

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