quinta-feira, 21 de maio de 2015

Pós-modernismo, marxismo e feminismo

Por Maria Lygia Quartim de Moraes.
Este artigo integra a revista semestral Margem Esquerda – ensaios marxistas, número 2, é publicado aqui, no Blog da Boitempo, no contexto do especial “Dia da mulher, dia da luta feminista“. Clique aqui para ler o artigo na diagramação da publicação impressa. Além de reflexões diárias no Blog, a Boitempo disponibliza ao longo da semana de 2.3.2015–9.3.2015 todos seus títulos escritos por mulheres e todos seus livros de temática feminista a preços especiais de desconto. Saiba mais aqui.
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En todo caso, las causas de la deserción de los intelectuales del campo de la crítica y la revolución (…) son muchas, y no pueden ser exploradas aquí. Baste con decir que la formidable hegemonia ideologico-política del neoliberalismo el afianzamiento de la “sensibilidade posmoderna” se cuenta entre los principales factores, los cuales se combinaron para dar ímpetus a un talante “antiteórico” fuertemente instalado en las postrimerías del nuestro siglo. Todo esto tuvo el efecto de potenciar extraordinariamente la masiva capitulación ideológica de la gran mayoría de los intelectuales, um fenómeno que adquirió singular densidad en América Latina.1
Como já observaram diversos marxistas, são muitas as causas que subjazem à deserção, por parte da intelectualidade, do exercício da crítica e de uma transformação radical da sociedade. Parte desse abandono se deve à adesão maciça aos postulados do pós-modernismo, concomitantes ao avanço do ideário neoliberal, do qual seja talvez a manifestação teórica. Ao mesmo tempo, uma parcela da intelectualidade que permaneceu ligada ao marxismo associa, equivocadamente, os novos movimentos sociais aos postulados pós-modernos, igualando-os assim a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, abdicaram da revolução.
A crítica ao pós-modernismo é tão mais relevante uma vez que o projeto iluminista, matriz do modernismo e de suas palavras de ordem liberdade, igualdade e fraternidade, objeto de rejeição do pós-modernismo, é uma promessa ainda não cumprida. E, ao mesmo tempo, as premissas pós-modernistas, que se pretendem tão avançadas e despidas de ilusões, não deixam de ser uma operação ideológica de desqualificação das lutas sociais e dos projetos de uma nova sociedade. Negam as possibilidades da autonomia dos sujeitos e reduzem o destino humano ao aprisionamento, seja nas estruturas da linguagem, seja nas micro e macroestruturas da sociedade. A consequência política das teses pós-modernistas é um misto de conformismo e acomodamento ao status quo.
É exatamente por seu pretenso apolitismo, que se traduz numa absoluta falta de entusiasmo pelos direitos universais, que as teorias pós-modernas não apresentam quaisquer afinidades com as lutas e os temas das opressões sociais. Por isso, não dá para aceitar que intelectuais marxistas coloquem no mesmo saco pós-modernismos e movimentos sociais, agrupando-os sob as mesmas matrizes teóricas da desconstrução e da fragmentação. Ao considerar a ambos movimentos “identitários”, tal argumento enfatiza os limites dos movimentos sociais como reivindicações particularistas e, em oposição, restringe a compreensão do verdadeiro alcance do pós-modernismo.
Um olhar mais atento à história das lutas de classe contemporâneas comprova, ao contrário, que uma parcela expressiva dos movimentos sociais surgidos nas décadas de 1960 e 1970 tinha (e continua tendo) uma perspectiva anticapitalista ou, mais genericamente, como propõe Wallerstein, uma perspectiva anti-sistêmica. Assim, algumas observações merecem ser feitas em defesa do feminismo e do movimento de mulheres em geral, muitas vezes designado como “movimento identitário”, o que certamente deixaria Simone de Beauvoir estupefata.
Em primeiro lugar, o feminismo, um dos mais expressivos movimentos sociais da segunda metade do século passado, variou enormemente segundo o país e as circunstâncias históricas. Desde seus primórdios, esteve dividido em ao menos duas grandes tendências: a liberal e a socialista. Ambas afirmavam a opressão da mulher e a necessidade de sua superação. Mas, enquanto o feminismo liberal não tinha uma visão anticapitalista, o feminismo socialista afirmava a importância da dupla dimensão: classe e gênero.
Desconhecer as condições históricas em que tais movimentos surgiram, bem como as circunstâncias do maior ou menor sucesso que conheceram, é perder de vista o campo da luta de classes na vida cotidiana. Em outras palavras, a crítica de um certo marxismo aos “novos” movimentos sociais parte do pressuposto de que a superação do capitalismo é condição essencial para que a democracia possa ser governo ou poder do povo – com o que estou de acordo –, mas nega a dimensão anticapitalista dos movimentos sociais. É como se existisse um padrão universal de movimento, com registro e carteira assinada, respeitando cânones estabelecidos por algum supremo tribunal dos movimentos verdadeiramente socialistas. Não há ideia de processo, de idas e vindas, de acertos e erros, de lutas entre tendências, enfim, de todos os complexos mecanismos que põem em marcha as associações humanas em torno de projetos de maior ou menor alcance. O movimento socialista pode não nascer de um manifesto político, mas crescer na radicalização das lutas até chegar a uma plataforma revolucionária, declaradamente anticapitalista.
Ellen Meiksins Wood, pós-modernismo e “movimentos identitários”
Entre os muitos críticos dos movimentos sociais contemporâneos, escolhi a obra da marxista Ellen Meiksins Wood2, não somente por sua inegável importância, mas também por dar continuidade à tradição das intelectuais teóricas do marxismo, iniciada com Rosa de Luxemburgo. Ambas destacaram-se pelo seu rigor teórico, com a diferença de que Rosa de Luxemburgo, também militante do movimento socialista, escapou do teoricismo e dos “tipos ideais” de socialismo presentes na obra de Ellen M. Wood.
Na sua crítica contundente ao pós-modernismo, Ellen Wood parte das temáticas prioritárias do pós-modernismo, destacando seu interesse por linguagem, cultura e discurso 3Segundo a autora, parte dos pós-modernistas considera que os seres humanos são constituídos pela linguagem; outros que as regras que constituem nossa vida social são governadas pela estrutura da linguagem. Nessa ótica, a sociedade não é simplesmente semelhante à língua. Ela é língua; e uma vez que todos nós somos dela cativos, nenhum padrão externo de verdade, nenhum referente externo para o conhecimento existe, para nós, fora dos “discursos” específicos em que vivemos4. Para Wood, o fio condutor “que perpassa todos esses princípios pós-modernos é a ênfase na natureza fragmentada do conhecimento humano”5. Quais as consequências teóricas e políticas de tais pressupostos? Segundo Ellen, “um ceticismo epistemológico e um derrotismo político profundos”.
As implicações políticas de tudo isso são bem claras: o self humano é tão fluido e fragmentado (o “sujeito descentrado”) e nossas identidades, tão variáveis, incertas e frágeis que não pode haver base para solidariedade e ação coletiva fundamentadas em uma “identidade social comum (uma classe), em uma experiência comum, em interesses comuns”.6
A crítica que a autora faz do pós-modernismo, com a qual tenho a maior concordância, não é acompanhada por igual rigor no que concerne às lutas sociais de nossos dias, pois estas envolvem um conglomerado de movimentos, dos quais fazem parte milhões dos chamados “excluídos” e marginalizados, opostos ao polo desenvolvido do capitalismo. São os milhões de sem-terra, sem-teto, sem escola, os milhões de desempregados que vegetam no setor de “serviços”, os milhões de imigrantes clandestinos, filhos do aumento indecente da desigualdade social. Implica esquecer a importância, na América Latina e na maior parte do mundo, dos componentes não puramente capitalistas das revoltas sociais que, contraditoriamente, se acirram com o próprio desenvolvimento capitalista, com o aumento da mais-valia relativa, isto é, com o aumento da produtividade do trabalho e o crescente desemprego.
Por outro lado, convém lembrar que aplicar ao feminismo a denominação de movimento “identitário”, uma constante nos trabalhos de Ellen Wood, implica fazer tábula rasa de toda uma tradição marxista e socialista do feminismo contemporâneo, de Clara Zetkin e Alexandra Kollontai a Juliet Mitchell e Sheila Robowtan.
Embora o capitalismo possa usar e faça uso ideológico e econômico da opressão de gênero, essa opressão não tem um status privilegiado na estrutura do capitalismo. Ele poderia sobreviver à erradicação de todas as opressões específicas das mulheres, na condição de mulheres – embora não pudesse, por definição, sobreviver à erradicação da exploração de classe. Isso não quer dizer que o capitalismo tenha passado a considerar a liberação da mulher…7
O primeiro argumento de Ellen é que o capitalismo, forma de extração puramente econômica da mais-valia, diferentemente dos demais modos históricos de apropriação dos frutos do trabalho, a rigor prescinde de outras formas de extorsão. A consequência desse raciocínio é que a autora ignora a variedade das formas de opressão. Afinal, se Marx nos dá o modelo abstrato do desenvolvimento capitalista, na dura realidade prática, o capital tira lucro como pode e quando pode. 
Se os capitalistas puderem pagar menores salários para mulheres e negros, aproveitando-se do sexismo e do racismo, porque deixariam de fazê-lo? Se puderem diminuir os custos de reprodução da força de trabalho, aproveitando-se da dupla jornada das mulheres, por que investiriam em creches e equipamentos coletivos que minorem os trabalhos domésticos?
De fato, as mulheres constituem hoje parcela importante da força de trabalho explorada pelo capitalismo, que se aproveita do sexismo para aumentar a extração da mais-valia. Milhões de mulheres trabalhadoras, em várias partes do mundo, conhecem a dupla face da opressão de classe e gênero, na esfera privada e na pública. São os homens os suportes da dominação de gênero e também são os homens os grandes detentores das riquezas materiais. O capital, teoricamente, pode até prescindir do sexismo, mas, no cotidiano, as opressões de classe e de gênero se mesclam. Por isso, uma das mais fortes e permanentes bandeiras do feminismo é o fim da “dupla jornada” de trabalho8.
Arakcy Martins Rodrigues, nos anos 1970, escreveu o primeiro trabalho sobre a importância da categoria de gênero para a compreensão das práticas e representações que, na classe operária, diferenciam homens e mulheres. Hoje, inúmeros trabalhos como os de Helena Hirata, Liliana Segnini e Laís Abramo, entre outras estudiosas, comprovam as diferenças estruturais, mantidas em todo o mundo, entre as oportunidades de trabalho, salários e planos de carreira que discriminam as mulheres.
Na verdade, como mostra Marx no terceiro livro de O capital, quando analisa as classes sociais no campo e a divisão das riquezas, o capitalismo teoricamente também deveria acabar com a renda da terra para diminuir os custos dos “bens salários”, mas a “objetividade do modelo” não é igual à do capitalista em carne e osso, cujo maior pavor é tocar no sagrado direito da propriedade. É por isso que as classes dominantes estarão sempre unidas para defender intransigentemente a propriedade privada.
A esmagadora maioria da população é constituída por expropriados dos meios de produção, obrigados a vender sua força de trabalho no mercado. Diante da proletarização da sociedade e do aumento da produtividade do trabalho, acirra-se também a competição entre os diferentes segmentos da força de trabalho. Como comprovam os dados, o incremento da participação da mulher no mercado de trabalho tem pressionado os salários para baixo. Aos poucos, o contingente feminino vai ocupando postos antes reservados aos homens. O capitalismo cria inexoravelmente uma força de trabalho excedente e este é um dos melhores instrumentos de sujeição da mão-de-obra. Ao ignorar a especificidade do contingente feminino dentro da força de trabalho mundial, Ellen demonstra ter uma visão abstrata da “classe operária” e de sua dinâmica de transformação. O que significa, nessas condições, afirmar que o capitalismo pode resolver a questão de gênero, mas não a de classe, quando a esmagadora maioria das mulheres sofre de ambas as opressões?
No interior dos diferentes “movimentos identitários” existem divisões, tensões e lutas pela hegemonia. Os movimentos de mulheres não fogem à regra e, com isso, podem estar mais ou menos integrados ao sistema capitalista. Em alguns países, como o Brasil, ainda são predominantemente anticapitalistas. Meu argumento é que Ellen Wood tem uma visão economicista da política e, também, geograficamente autocentrada. Toma o feminismo liberal americano como se fosse “o” feminismo, ignorando a realidade europeia e, especialmente, a latino-americana.
O segundo aspecto, consequência do anterior, é subestimar a dimensão anti-sistêmica dos movimentos sociais. As críticas de Ellen revelam um profundo distanciamento das questões postuladas pelas lutas anti-sistêmicas contemporâneas. Ignoram que movimentos “identitários” possam ser radicalmente pela luta de classes e, em contrapartida, rechaçam também a noção da “experiência” como fundamental para a compreensão do crescimento dos movimentos sociais.
Pois as lutas sociais assumem formas distintas e têm diferentes fôlegos. Os partidos e sindicatos ainda são peças importantes, mas os movimentos sociais são canais fortes de intervenção no social e de pressão, não obstante a diversidade de suas demandas. Subestimando o papel dos movimentos “identitários”, Ellen perde de vista a luta de classes em sua dinâmica. Suas considerações desqualificam movimentos como o das Mães da Praça de Maio, iniciado com algumas mulheres obstinadas na busca de seus filhos e filhas sequestrados pela ditadura militar argentina, que é hoje internacionalmente conhecido e respeitado, extremamente ativo na vida política argentina, mantendo uma orientação declaradamente revolucionária e anticapitalista. A revisão da história “dos vencidos” na Argentina faz parte do movimento social contrário à política neoliberal. A conscientização se faz por várias facetas; ignorar qualquer uma delas é incorrer no risco de um dogmatismo estéril, porque distanciado das questões da atualidade em função de um “ideal” socialista.
As revoluções dos anos 1960 e os novos movimentos sociais: Immanuel Wallerstein versus Ellen M. Wood
Em artigo recente, Immanuel Wallerstein9, interrogando-se sobre a dimensão anti-sistêmica dos movimentos sociais atuais, comenta que cunhou a expressão “movimentos anti-sistêmicos” para caracterizar dois movimentos populares que, no período 1850/1970, competiam e se opunham em muitas dimensões mas, ao mesmo tempo, também compartilhavam de características comuns. Esses dois movimentos seriam os “movimentos sociais” (organizações sindicais e partidos políticos) e os “movimentos nacionais” (aqueles que viam no imperialismo e no colonialismo o inimigo principal, como no caso da Ásia). Ambos os movimentos diziam-se revolucionários e pretendiam mudar o sistema capitalista. Ambos constituíram partidos que foram por muito tempo perseguidos e, via de regra, colocaram na pauta a questão da tomada do poder, entendida como tomada do poder do Estado. Uma vez no poder, suas atitudes e projetos mudaram (não estaríamos vendo exatamente isso no governo Lula?). Quando mais permaneciam no poder, diz Wallerstein, mais postergavam o cumprimento de suas promessas.
Na medida em que os quadros dirigentes do partido tornavam-se os quadros dirigentes do poder, suas posições sociais transformavam-se, como também mudaram suas psicologias individuais. Em outras palavras, tendiam a se transformar numa casta com mais poder e mais riqueza do que o resto do povo, como se tornou regra nos países do bloco soviético10.
A dificuldade de construir sociedades mais democráticas foi, com certeza, o grande problema enfrentado por todas as revoluções socialistas, não obstante estabelecerem políticas que ampliaram o acesso à educação e à saúde, diminuindo também as desigualdades sociais. Wallerstein continua sua enumeração da sequência de movimentos anti-sistêmicos, fazendo referência a um segundo tipo, que constitui também o ponto de partida de nossa caracterização de movimento social dos anos 1960 e 1970. Diz ele:
Uma segunda e mais duradoura variedade de movimentos anti-sistêmicos foram os da New Left (Nova Esquerda) – os Verdes e outros movimentos ecológicos, os movimentos feministas, os movimentos de “minorias” raciais/ étnicas […]. As características comuns destes movimentos eram basicamente duas. Em primeiro lugar, rechaçavam os movimentos da Velha Esquerda – por sua estratégia em duas etapas, por suas hierarquias internas […]. E também suspeitavam dos estados […].11
A crítica ao imobilismo dos partidos comunistas oficiais tem um longo histórico no Brasil. Nos anos 1960, a falta de liberdade política nos países socialistas e outras degenerescências já eram rechaçadas por muitos jovens, homens e mulheres, que aderiram à luta armada, precisamente egressos dos partidos oficiais. Nos anos seguintes, a América Latina compartilharia da pesada herança do terrorismo de Estado, que se inicia no Brasil em 1964, irrompe brutalmente no Chile em 1973 e, em 1976, emerge também na Argentina, deixando um rastro de sangue e irreversíveis sequelas sociais. A longa permanência da tutela militar, o assassinato e o desaparecimento de oponentes políticos, a crise econômica internacional e as desastrosas políticas neoliberais foram processos comuns a essas nações, assim como a lenta (re)emergência da esquerda e dos movimentos sociais.
Não obstante a transição para a democracia ter se realizado, nestes três países, sob tutela militar, a presença ativa dos movimentos sociais criou novas alternativas políticas de reconstrução da esquerda latinoamericana. Nesse sentido, os movimentos liderados ou integrados majoritariamente por mulheres, quer na defesa dos direitos humanos, quer nas propostas feministas, constituíram um fato novo, cuja potencialidade ainda permanece viva nos dias de hoje.
Na verdade, o feminismo, um dos movimentos sociais mais importantes do século XX – como o reconhecem intelectuais marxistas, como Hobsbawm, Mészáros e o próprio Perry Anderson –, abrange um largo espectro de tendências. Foi objeto de inúmeros estudos, muitos dos quais reconhecem que o feminismo socialista ou anticapitalista é forte na Itália, na França e em muitos países da América Latina. As considerações de Ellen revelam, assim, um desconhecimento da realidade do marxismo e das lutas sociais na “periferia” do capitalismo. Ademais de desconhecer obras mestras do feminismo marxista, como Mulheres, a revolução mais longa, de Juliet Mitchell.
Ninguém nasce mulher. Torna-se mulher
A consagrada frase de Simone de Beauvoir sobre a “construção” da mulher constitui o ponto de partida para a perspectiva feminista de análise, pois levanta a questão da maneira, ou melhor, dos ingredientes que produzem as diferenças de gênero. Simone, como já fizera a inglesa Virginia Woolf, reivindicava o direito a uma vida intelectual autônoma, à possibilidade de as mulheres desenvolverem sua potencialidade criadora. Ambas partiam das restrições culturais e sociais impostas às mulheres, sem contudo nunca se referirem a uma “identidade” feminina superior à masculina. Convém observar, igualmente, que alguns autores, sem defenderem a existência de uma “essência” feminina, vão um passo além e afirmam a existência de especificidades de gênero. Ao longo da história da humanidade, a concentração do poder econômico e da coerção física nas mãos masculinas tornou femininos os valores relacionados à criação e aos cuidados da vida. Assim Herbert Marcuse, por exemplo, acredita que as potencialidades revolucionárias do feminismo têm a ver com o predomínio dos valores do “cuidar” sobre os do “dominar”12.
A crítica ao patriarcalismo e a denúncia da situação discriminada da mulher podem gerar dois tipos de feminismo, que conflitam em algumas dimensões importantes. As feministas francesas, Simone de Beauvoir e Luce Irigaray13, que chegaram a ser contemporâneas, não concordam quanto à existência de uma essência feminina, nem sobre a valorização do “feminino”. É interessante observar que ambas fundamentam sua análise histórica sobre a opressão da mulher em Bachofen e Engels, que advogam a tese de que o domínio masculino inscreve-se na violência e no controle das riquezas. Mas, enquanto Simone pensa que a emancipação da mulher deveria se realizar por meio da aquisição dos valores masculinos (com ênfase no trabalho), Luce argumenta que a dominação masculina desequilibrou o necessário equilíbrio entre os sexos. As consequências dessa dominação são profundas e estão ancoradas na própria linguagem – o sexo está inscrito na língua – em que os valores atribuídos à mulher são sempre desqualificados ante os valores masculinos, dominantes. Luce acentua a importância de uma retomada do princípio feminino, soterrado pela dominação masculina e fálica. Aqui também Ellen Wood comete um equívoco ao incluir no pós-modernismo o feminismo de Luce Irigaray, que é essencialista (e idealista), quando a própria análise de Ellen Wood afirma ser uma característica pós-moderna a negação de essências duradouras.
Se há algo que une os vários “novos revisionismos” – desde as mais herméticas teorias “pós-marxistas” e “pós-modernistas” até o ativismo dos “novos movimentos” é a ênfase na diversidade, no pluralismo. De três maneiras o novo pluralismo supera o reconhecimento liberal de interesses divergentes e tolerância (em princípio) de opiniões diversas: 1) sua concepção de diversidade penetra as externalidades dos “interesses” e vai até a profundidade psíquica da “subjetividade ou identidade”14 e avança para além da opinião ou do “comportamento” político até a totalidade dos “estilos de vida”; 2) ele não pressupõe que alguns princípios universais do direito podem acomodar todas as diferentes identidades e estilos de vida […]; e 3) apoia-se numa visão cuja característica essencial, a diferença específica histórica do mundo contemporâneo […] não é a força totalizadora e homogênea do capitalismo, mas a heterogeneidade única da sociedade “pós-moderna” […].15
Em artigo escrito para a New Left Review, “De Beauvoir and Modern Feminism”, Kate Soper16 observa que Simone de Beauvoir rejeitou com veemência o “feminismo da diferença” personificado em Luce Irigaray. Em nome do universalismo e do igualitarismo, com receio de retomarmos a armadilha da “natureza biológica”, feministas de várias partes do mundo também rejeitaram aquilo que consideram ser um retorno ao “essencialismo”. As consequências políticas do essencialismo, quando combinadas à problemática da fragmentação e da indefinição, são assim descritas pela antropóloga argentina Mónica Tarducci:
Las feministas culturales creen que la lucha contra el patriarcado comienza consiguiendo que las mujeres exorcicemos lo masculino que hay em nosotras y maximizemos nuestra femineidad. En esa crítica a los valores masculinos convergen no sólo las características opresivas que sufrimos todos los días sino también la política y la ciencia. Al contrario de lo que creían las radicales, que criticaban a la izquierda desde la izquierda, ciertas feministas declaran hoy que el feminismo es incompatible no solamente con la política sino con la razón en general.17
Com base na pretensa aceitação de todas as particularidades, as novas teorias das “identidades” obscurecem o peso determinante do capitalismo na configuração dos destinos e valores de nossa sociedade. Em oposição, convém assinalar que a corrente “pós-moderna” do feminismo é pouco atuante na América Latina, concentrando-se principalmente nos Estados Unidos, onde, diga-se, a francesa Luce Irigaray pontifica.
Em compensação, trata-se de uma autora praticamente desconhecida no Brasil, onde sua obra jamais foi lançada. O feminismo marxista, via de regra, criticou o “essencialismo” no intuito de evitar a biologização das desigualdades sociais implícitas no sexismo.
Outra dimensão do problema diz respeito ao anticapitalismo do feminismo marxista. Se as feministas em geral defendem o fim dos “fundamentalismos”, as feministas socialistas e comunistas também são contra o fundamentalismo do Mercado e do Capital. Como observa a militante argentina Alda Facio, o feminismo concerne especificamente às relações de gênero. Nesse sentido, existem feministas de direita ou pouco preocupadas com a luta de classes, mas elas constituem uma minoria dentro dos movimentos de mulheres latino-americanas:
No estoy planteando que no pueda haber mujeres que se sientan o se definan como feministas y que también sean de derecha o de centro o de lo que sea. Es más, posiblemente haya muchas mujeres de derecha que en su vida personal sean más feministas que muchas de nosotras. Mujeres que hayan trabajado el sexismo interiorizado con más ahínco y determinación. Y esto es una parte importantísima de ser feminista. Sin embargo, ser feminista a nivel individual no es lo mismo que ser parte de un movimiento. Las feministas podemos estar en todos lados: en el Estado, en las agencias de cooperación, en la ONU, en las ONGs, y hasta en movimientos religiosos, artísticos, o que luchan contra otras formas de discriminación e intolerancia. Pero sostengo que el movimiento feminista, como tal, tiene que ser progresista, es decir, de izquierda, como lo fue desde sus inicios y en sus distintas etapas, de lo contrario tiene poco que ofrecerle a la gran mayoría de las mujeres que siguen siendo pobres.18
Na verdade, os trabalhos de Ellen Wood revelam o intelectualismo da autora, que termina por não distinguir a prática teórica pós-modernista (com seu relativismo cultural e niilismo político) da prática militante dos movimentos sociais. Isso porque reduz as lutas sociais às lutas de classes; tem uma visão estereotipada do que seja a classe operária, permanecendo fiel a uma representação da classe operária – masculina e branca – completamente superada no centro e na periferia do capitalismo. O belo modelo teórico de Ellen não dá conta da complexidade do real. Permanece no Olimpo das verdades universais.
As críticas que faz ao marxismo ocidental, ao afirmar que talvez o “sabor particular do marxismo ocidental e de seus sucessores não seja resultado apenas do fato negativo de sua separação da política operária, mas também de sua tendência a preencher o vácuo, substituindo a luta de classes pela atividade intelectual”19, aplicam-se como uma luva ao seu próprio teoricismo e afastamento da luta de classes.
Feminismo e anticapitalismo
Na prática política, não basta reconhecer a luta de classes como motor da história e a superação das classes como objetivo supremo. O fracasso do socialismo real teve algumas vantagens para os marxistas. A primeira delas é que comprovou várias teses de Marx, com respeito às condições técnicas e políticas relacionadas com a lógica do modo de produção capitalista e sua superação. Afinal, Marx previu a revolução nos países capitalistas desenvolvidos, sempre acreditou na escala mundial da revolução socialista (não é dele a invenção do “socialismo em um só país”). Ademais, sempre afirmou que o socialismo seria um período de transição para o comunismo no qual o Estado desapareceria dando lugar à associação dos produtores diretos. Como será que isso se dá na prática?
O legado histórico das revoluções “clássicas” do século XX, como as revoluções de 1917 (Rússia), 1949 (China) e 1959 (Cuba), inclui a compreensão das razões pelas quais nenhuma dessas tentativas chegou a transformar o mundo nem os impedimentos existentes para que fossem criadas sociedades em que, de fato, “o poder seja do povo e exercido pelo povo”, de acordo com a fórmula de Ellen M. Wood.
O real problema das esquerdas hoje é, antes de mais nada, superar criticamente as experiências das revoluções passadas e contribuir e viabilizar uma proposta de nova sociedade que incorpore desde o começo o povo em nome do qual o poder é exercido. Como se sabe, na atual dinâmica eleitoral, o partido vencedor tem um enorme poder em termos de cargos e cooptação. A carteirinha política transforma-se em possibilidade de emprego, daí o apreço à permanência nos cargos.
A História oferece infinitos exemplos da burocratização dos partidos socialistas e comunistas e dos males que isso causa, especialmente em países em que o “socialismo/comunismo” foi imposto de cima para baixo, países estes sem tradição democrática. A Coréia do Norte e a Albânia, que foi a grande referência do PC do B, constituem exemplos conspícuos desta degenerescência.
Analisando a maneira pela qual as bandeiras revolucionárias são retomadas – e transformadas pelas revoluções seguintes –, Perry Anderson aponta o impacto da Revolução Francesa de 1789, que se transformou no paradigma revolucionário. Assim, em 1848,
[…] o socialismo apresentou-se como herdeiro da Revolução, o único programa capaz de dar realidade efetiva a liberdade, igualdade e fraternidade. Mas era também uma genuína mutação. Tratava-se de um movimento de uma espécie diferente do jacobino […] na medida em que envolvia um rompimento com o seu respeito pela propriedade privada, uma crítica de sua interpretação do passado, um reordenamento da trindade de 1789, e uma aposta num novo agente social que só surgiu com a expansão da indústria moderna, depois que a Revolução Francesa chegou a seu termo. […] o socialismo também sofreria por sua vez uma mutação semelhante – com o surgimento coincidente de uma nova espécie de movimento para a transformação radical da sociedade, reconhecendo em alguns aspectos sua dívida para com o socialismo, mas em outros criticando-o e repudiando-o com veemência. Isso, é claro, é algo como o papel que as feministas atribuem frequentemente à luta pela igualdade social.20
O socialismo tem que dar resposta às questões e tensões existentes no cenário mundial, decorrentes da expansão capitalista, levando em conta os limites impostos pela própria dinâmica da acumulação, que é prescindir de força de trabalho. A contradição de interesses não somente opõe Norte e Sul do planeta, como envolve lutas pela emancipação das populações pré-colombianas em todas as Américas e dos enormes contingentes de mulheres que estão entre os setores mais pobres do mundo. Afinal, quem lucra com a exploração do trabalho infantil e os miseráveis salários pagos na periferia do capitalismo, especialmente para as mulheres? Se o capitalismo, como modelo teórico, pode abrir mão de todos os demais tipos de exploração (gênero, etnia, raça), o capitalismo que conhecemos dificilmente abdicaria de toda e qualquer possibilidade de aumentar seus lucros. Não por acaso os Estados Unidos, onde o movimento socialista nunca foi forte, são um dos países capitalistas avançados em que as trabalhadoras têm menos direitos relacionados à gravidez e cuidados com crianças.
Os limites do teorismo
Na sua defesa de história, Ellen Wood acaba sendo superada pela história real. Tão preocupada está com a rejeição ao pós-modernismo, que se descuida de aprofundar as consequências do neoliberalismo com respeito à desestruturação do mercado de trabalho e dos resquícios do Estado de bem-estar para nos fixarmos em algumas consequências sociais das políticas impostas pelo FMI e pela hegemonia norte-americana. Mas como os fatos são teimosos, a melhor comprovação dos limites de sua análise sobre os “novos” movimentos sociais é que seu livro, publicado nos EUA em 1997, não soube prever o vigoroso movimento social antiglobalização que despontaria um ano depois. A globalização, como retórica dos defensores neoliberais do livre-comércio de bens e capital, tornou-se uma força poderosa durante os anos 1990, e os acontecimentos de Seattle constituíram um rude golpe para os donos do mundo em 1999. Para grande surpresa da maioria, comenta Wallerstein, houve um expressivo protesto que desestabilizou a reunião:
Entre aqueles que protestavam encontrava-se uma grande quantidade de organizações norte-americanas (as organizações sindicais) e da New Left, assim como grupos anarquistas. Certamente o próprio fato de que a AFL-CIO estivesse pronta para colocar-se do mesmo lado que as organizações ambientalistas em uma ação tão militante foi algo de novo, com mais forte razão por se tratar de organizações norte-americanas.21
A continuidade dos movimentos antiglobalização foi facilitada, em 2001, pela criação do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, reunindo milhares de pessoas e organizações. Com respeito às expectativas do fórum, Wallerstein observa que a originalidade deste movimento reside no fato de que busca reunir todos os tipos precedentes de movimentos anti-sistêmicos. O que inclui não somente a “Velha” e “Nova” Esquerda, como também o conjunto de “novos” movimentos tão desvalorizados por um certo tipo de marxismo representando em Ellen M. Wood, como o feminismo, os verdes, os movimentos étnicos assim como organizações filantrópicas, grupos de direitos humanos, vários tipos de organizações não-governamentais, entre outros. Os pontos básicos de acordo são: luta contra os males sociais originados pelo neoliberalismo e respeito comum pelas prioridades de cada uma das categorias envolvidas. A outra menção digna de nota é a reunião de movimentos do Norte e do Sul do hemisfério. Isso não implica a ausência de tensões políticas e lutas pela hegemonia. O movimento zapatista não pode participar, assim como as FARC. A preponderância (e ingerência) do PT foi especialmente forte na última edição, tampouco se pode esquecer a hegemonia da Igreja Católica, que tem um papel progressista em uma série de questões, mas é conservadora com respeito à sexualidade, direitos reprodutivos e casamento.
Mais recentemente, a reação mundial ao ataque comandado pelos norte-americanos ao Iraque, a constituição de novos blocos de alianças internacionais, como a política externa brasileira de maior proximidade com a América Latina e abertura para países como China, Índia e África do Sul, a própria incapacidade norte-americana de intervir diretamente na Venezuela, são sinais positivos da capacidade de contestação dos movimentos sociais. Da mesma maneira, é promissora a continuidade das lutas pela reforma agrária no México e no Brasil onde, diga-se, estão a cargo de movimentos sociais. Ou qual é a definição que se dá ao MST?
A experiência brasileira em curso mostra a força de cooptação dos aparelhos de Estado e do poder político e também a importância de que, diante do poder econômico e seus aliados no Congresso, haja uma pressão das demandas populares. Vale ressaltar que os parlamentares do PT têm votado a favor das “reformas”, bem como os representantes do PC do B. Isso talvez diga muito sobre o potencial dos movimentos sociais desvinculados de uma estrutura partidária.
Também é importante entender a notável influência ainda exercida pela Igreja Católica, que “justifica” os compromissos fechados com partidos de esquerda para coibir a legalização do aborto, uma antiga reivindicação dos movimentos feministas. O conservadorismo dos partidos reflete o conservadorismo dos aparelhos ideológicos de Estado, vale dizer, escola, família, religião. Daí a importância de uma concepção ampla de socialismo que permita, de fato, a transformação radical da ordem econômica e social. Assim, é preciso enfrentar os limites da concepção cristã de luta de classes hoje predominante no PT através da radicalização da democracia em todas as instâncias. O povo brasileiro, ao derrubar, dentro da ordem vigente, um presidente eleito que comprovou ser chefe de quadrilha, com certeza deu provas de sua maturidade política. Esperemos que a esquerda no poder não o decepcione.

in Boitempo, com a devida vénia.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Noam Chomsky

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É um conceituado linguista, filósofo, cientista cognitivo, lógico, comentador político, socialista libertário, ativista norte-americano contra a política externa do seu próprio país. Veio a Lisboa dar uma aula sobre como pensar o...

segunda-feira, 18 de maio de 2015

José Goulão  Aldo Moro, 37 anos depois

aldo moro.png
Mundo Cão, 8 de Maio de 2015
   Nestes dias em que se celebra o fim da Segunda Guerra Mundial passam também 37 anos sobre o assassínio do antigo primeiro-ministro italiano e dirigente democrata cristão Aldo Moro.
Aldo Moro, morto pelo grupo esquerdista Brigadas Vermelhas, é o que reza a História, mentindo, pois os contadores da História oficial também mentem ou, pelo menos, como acontece neste caso, omitem parte dos acontecimentos, por sinal os fundamentais.
Os assassinos a soldo que invocaram as Brigadas Vermelhas poderiam ter invocado outra coisa qualquer, a Mafia, uma lógica maçónica como a Propaganda Due (P2) quando reivindicaram o sequestro de Moro e a sua execução, 55 dias depois. Jamais poderiam, porém, ter invocado os que de facto os manipularam, os serviços secretos italianos e os braços tentaculares de grupos clandestinos dentro da NATO, como a Gladio, cuja existência foi confirmada em 1990 pelo antigo primeiro ministro italiano Giulio Andreotti, que foi, na prática, um dos mandantes da morte do seu companheiro de partido.
Qual foi o crime cometido por Aldo Moro para ser executado, sem culpa formada nem julgamento, por serviços do Estado italiano e de uma aliança militar que leva a democracia a todos os cantos do globo? Um só: defendeu uma coligação entre os dois maiores partidos, a Democracia Cristã e o Partido Comunista, para governar Itália.
Aldo Moro pisou assim um risco vermelho e fatal. Ele, como qualquer outro dirigente do arco da governação, na altura não se dizia assim com tanta desvergonha mas o conceito existia implicitamente, sabia que não poderia, em situação alguma de resultados eleitorais ou crise política, abrir as portas do governo aos comunistas. Nem quando os comunistas fossem o partido mais votado, como chegou a acontecer em Itália. Nem a CIA, nem a NATO o permitiam. Todos os dirigentes que poderiam facilmente formar maiorias com os comunistas em países da Europa Ocidental obedeceram a essas ordens. Em Portugal também, como se sabe, desde que o PREC passou à história e a situação se “estabilizou”. Aldo Moro desafiou as ordens. E foi abatido.
“Vai pagar muito caro por isso”, ameaçou Henry Kissinger quando a estratégia de governo defendida por Aldo Moro se tornou pública. Foi Eleonora, a viúva de Moro, quem revelou a sentença ditada pelo então secretário de Estado norte-americano, Nobel da Paz e padrinho do grande pacifista chileno Augusto Pinochet.
“Matámos Moro”, confessou Steve Pieczenik, “negociador” enviado pelo Departamento de Estado norte-americano e pelo presidente James Carter para impedir que houvesse qualquer outra saída que não fosse a eliminação. Moro foi “sacrificado pela estabilidade de Itália”, admitiu Pieczenik em livro. Estabilidade? Onde já ouvimos isto? Mal chegou a Roma, Pieczenik integrou a “comissão” de crise que incluía o ministro do Interior Francesco Cossiga e os chefes dos três serviços secretos, todos eles membros da P2 e tutores, por inerência, das Brigadas Vermelhas. Foi a Comissão de Crise que lançou um primeiro anúncio público, e falso, atribuído às Brigadas Vermelhas, de que Moro estava morto. Cossiga, igualmente dirigente democrata cristão, confessou mais tarde que essa manobra foi uma maneira de preparar a opinião pública para o desfecho já determinado.
A execução de Aldo Moro é um episódio de guerra. De uma guerra que não acabou em 9 de Maio de 1945, nem com a queda do Muro de Berlim, uma guerra na qual os poderes financeiros ocultos ditam as regras através de marionetas políticas e militares descartáveis para acumularem sempre mais lucros, escorra o sangue humano que tiver de escorrer como garantia da sua “estabilidade”.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Quais os países onde se trabalha mais? Um inventário para tirar o tira-teimas!



Theodor W. Adorno

Publicado pela primeira vez Mon 05 de maio de 2003; revisão de fundo Mon 10 de outubro de 2011
Theodor W. Adorno foi um dos mais importantes filósofos e críticos sociais na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial. Embora menos conhecido entre os filósofos anglófonos do que seu contemporâneo Hans-Georg Gadamer, Adorno tinha ainda maior influência sobre os estudiosos e intelectuais na Alemanha pós-guerra. Na década de 1960 ele era o adversário mais proeminente à filosofia de ambos Sir Karl Popper da ciência e da filosofia da existência de Martin Heidegger.Jürgen Habermas, filósofo social mais importante da Alemanha depois de 1970, foi aluno e assistente de Adorno. O escopo de influência de Adorno decorre do caráter interdisciplinar de sua pesquisa e da Escola de Frankfurt a que pertencia. Também decorre do rigor com que ele examinou tradições filosóficas ocidentais, especialmente a partir de Kant em diante, ea radicalidade de sua crítica da sociedade ocidental contemporânea. Ele era um filósofo social seminal e um dos principais membros da primeira geração da Teoria Crítica.
Traduções não confiáveis ​​dificultou a recepção inicial da obra publicada de Adorno em países de língua inglesa. Desde os anos 1990, no entanto, melhores traduções apareceram, juntamente com palestras recém-traduzido e outras obras póstumas que ainda estão sendo publicados. Estes materiais não só facilitar a avaliação emergente de seu trabalho na ética e epistemologia, mas também fortalecer uma recepção já avançada de seu trabalho em estética e teoria cultural.

1. Esboço Biográfico

Nascido em 11 de setembro de 1903 como Theodor Ludwig Wiesengrund Adorno viveu em Frankfurt am Main para as três primeiras décadas de sua vida e os dois últimos (Müller-Doohm de 2005, Claussen 2008). Ele era o único filho de um rico comerciante de vinho alemão de origem judaica assimilada e um músico de ascendência católica corso. Adorno estudou filosofia com a composição neo-kantiana Hans Cornelius e música com Alban Berg. Ele completou a suaHabilitationsschrift na estética de Kierkegaard em 1931, sob a supervisão do cristão socialista Paul Tillich. Depois de apenas dois anos como professor universitário ( Privatdozent ), ele foi expulso pelos nazistas, juntamente com outros professores da herança judaica ou na esquerda política. Alguns anos mais tarde, ele virou o sobrenome de seu pai em um meio inicial e adoptou "Adorno," o sobrenome materno pelo qual ele é mais conhecido.
Adorno deixou a Alemanha, na primavera de 1934. Durante a era nazista, ele residiu em Oxford, New York City, e no sul da Califórnia. Lá, ele escreveu vários livros para que mais tarde se tornou famoso, incluindo Dialética do Esclarecimento (com Max Horkheimer), Filosofia da Nova Música , a personalidade autoritária (um projeto colaborativo), e Minima Moralia . A partir desses anos vêm suas críticas provocativas da cultura de massa e da indústria cultural. Retornando a Frankfurt em 1949 para ocupar uma posição no departamento de filosofia, Adorno rapidamente se estabeleceu como um líder intelectual alemão e uma figura central no Instituto de Pesquisa Social. Fundado como um centro de free-standing para bolsa de estudos marxista em 1923, o Instituto tinha sido liderada por Max Horkheimer desde 1930. Ele forneceu o hub para o que veio a ser conhecido como a Escola de Frankfurt. Adorno tornou-se diretor do Instituto em 1958. A partir da década de 1950 haste In Search of Wagner , ideologia-crítica do compositor favorito dos nazistas de Adorno; Prismas , um conjunto de estudos sociais e culturais; Contra Epistemologia , uma crítica antifoundationalist da fenomenologia de Husserl; eo primeiro volume de notas à literatura , uma coleção de ensaios em crítica literária.
Conflitos e consolidação marcou a última década da vida de Adorno. A figura de destaque na "disputa positivismo" na sociologia alemã, Adorno foi um jogador-chave nos debates sobre a reestruturação universidades alemãs e um pára-raios para ambos os ativistas estudantis e seus críticos de direita. Essas controvérsias não o impediu de publicar numerosos volumes de crítica de música, mais dois volumes de notas à literatura , livros sobre Hegel e sobre filosofia existencial e ensaios reunidos na sociologia e na estética. Dialética Negativa , magnum opus de Adorno sobre epistemologia e metafísica, apareceu em 1966. Teoria Estética , os outros opus magnum no qual ele havia trabalhado durante toda a década de 1960, apareceu postumamente em 1970. Ele morreu de um ataque cardíaco em 06 de agosto de 1969, um mês antes de seu sexagésimo sexto aniversário.

2. Dialética do Esclarecimento

Muito antes de "pós-modernismo" tornou-se moda, Adorno e Horkheimer escreveu uma das mais críticas de pesquisa da modernidade ter surgido entre os intelectuais europeus progressistas.Dialética do Esclarecimento é um produto de seu exílio em tempo de guerra. Ele apareceu pela primeira vez como um mimeógrafo intitulado Philosophical Fragments em 1944. Este título tornou-se a legenda quando o livro foi publicado em 1947. Seu livro abre com uma avaliação sombria do Ocidente moderno: "Enlightenment, entendida no sentido mais amplo como o avanço do pensamento , sempre destinada a libertar os seres humanos do medo e instalá-los como mestres. Mas a terra totalmente iluminada irradia sob o signo da triunfante desastre "(DE 1, tradução modificada). Como pode ser isso, os autores perguntar. Como pode o progresso da ciência moderna e da medicina e indústria promessa de libertar as pessoas da ignorância, doença e brutal, o trabalho de entorpecimento mental, mas ajudar a criar um mundo onde as pessoas de boa vontade engolir ideologia fascista, conscientemente praticar genocídio deliberado, e energicamente desenvolver armas letais de destruição em massa? A razão, eles respondem, tornou-se irracional.
Apesar de citar Francis Bacon como um porta-voz do líder por uma razão instrumentalizada que se torna irracional, Horkheimer e Adorno não acho que a ciência moderna e cientificismo são os únicos culpados. A tendência do progresso racional para se tornar regressão irracional surge muito antes. Na verdade, eles citam ambas as escrituras hebraicas e filósofos gregos como contribuindo para regressivas tendências. Se Horkheimer e Adorno estão certos, então uma crítica da modernidade deve ser também uma crítica da pré-modernidade, e uma virada para o pós-moderno não pode ser simplesmente um retorno ao pré-moderno. Caso contrário, as falhas da modernidade vai continuar em uma nova roupagem em condições contemporâneas. A sociedade como um todo precisa ser transformado.
Horkheimer e Adorno acredita que a sociedade ea cultura formam uma totalidade histórica, de modo que a busca da liberdade na sociedade é inseparável da busca da iluminação na cultura (DE xvi). Há um outro lado disso: a falta ou perda de liberdade na sociedade-nas estruturas políticas, económicas e jurídicas em que vivemos-sinais de uma falha concomitante na filosofia do Iluminismo-in cultural, as artes, religião e similares . Os campos de extermínio nazistas não são uma aberração, nem são filmes de estúdio estúpidos entretenimento inocente. Ambos indicam que algo fundamental deu errado no Ocidente moderno.
De acordo com Horkheimer e Adorno, a fonte de desastres de hoje é um padrão de dominação cega, dominação em um triplo sentido: a dominação da natureza pelos seres humanos, a dominação da natureza dentro dos seres humanos, e, em ambas as formas de dominação, a dominação de alguns seres humanos por outros. O que motiva tal dominação triplo é um medo irracional do desconhecido: "Os seres humanos acreditam-se livre do medo quando há alguma coisa não está mais desconhecido. Isso determinou que o caminho de demitização .... A iluminação é medo mítico radicalizada "(DE 11). Em uma sociedade sem liberdade cuja cultura prossegue chamado progresso, não importa o que o custo, o que é "outro", sejam eles humanos ou não-humanos, fica posta de lado, explorado, ou destruídos. Os meios de destruição pode ser mais sofisticada no Ocidente moderno, ea exploração pode ser menos directo do que a escravidão pura e simples, mas cego, dominação dirigida pelo medo continua, com cada vez maiores conseqüências globais. O motor de todos os consumidores de condução deste processo é uma economia capitalista em constante expansão, alimentado pela investigação científica e as mais recentes tecnologias.
Ao contrário de algumas interpretações, Horkheimer e Adorno não rejeitam o Iluminismo do século XVIII. Nem fornecem uma "metanarrativa" negativo do declínio histórico universal. Em vez disso, através de uma combinação altamente incomum de argumento filosófico, reflexão sociológica, e comentário literária e cultural, eles constroem uma "dupla perspectiva" no Ocidente moderno como uma formação histórica (Jarvis 1998, 23). Eles resumem esta dupla perspectiva em duas teses interligados: "Mito já está a iluminação, iluminação e reverte à mitologia" (DE xviii). A primeira tese lhes permite sugerir que, apesar de ser declarado mítico e ultrapassada pelas forças da secularização, rituais mais antigos, religiões, filosofias e pode ter contribuído para o processo de iluminação e ainda pode ter algo de valor para contribuir. A segunda tese lhes permite expor tendências ideológicas e destrutivas dentro das forças modernas de secularização, mas sem negar ou que essas forças são progressivas e esclarecedora ou que as concepções mais velhos que eram eles mesmos deslocam ideológica e destrutiva.
Um erro fundamental em muitas interpretações da Dialética do Esclarecimento ocorre quando os leitores tomar tais teses ser definições teóricas de categorias imutáveis ​​em vez de juízos críticos sobre tendências históricas. Os autores não estão dizendo que o mito é "por natureza" uma força de iluminação. Nem eles estão reivindicando que a iluminação "inevitavelmente" reverte a mitologia. Na verdade, o que eles acham realmente mítico tanto mito e da iluminação é o pensamento de que a mudança fundamental é impossível. Essa resistência à mudança caracteriza os dois mitos antigos do destino e devoção moderna para os fatos.
Assim, na construção de uma "dialética do esclarecimento", os autores visam, simultaneamente, a realização de um esclarecimento dialética do esclarecimento e não ao contrário de HegelFenomenologia do Espírito . Dois conceitos hegelianos ancorar este projeto, ou seja, negação determinada e conceptual auto-reflexão. "Negação determinada" ( bestimmte Negação ) indica que a crítica imanente é o caminho para arrancar a verdade da ideologia. A iluminação dialética do esclarecimento "revela cada imagem como script. Ela nos ensina a ler a partir de [a imagem de] apresenta a admissão de falsidade que anula o seu poder e entregá-la sobre a verdade "(DE 18).Além e através de tal negação determinada, uma iluminação dialética do esclarecimento também lembra a origem eo objetivo do próprio pensamento. Essa lembrança é o trabalho do conceito como a auto-reflexão do pensamento ( als der Begriff Selbstbesinnung des Denkens , DE 32).Conceptual auto-reflexão revela que o pensamento surge a partir das necessidades e desejos muito corporais que são esquecidas quando o pensamento se torna um mero instrumento de auto-preservação humano. Ela também revela que o objetivo do pensamento é não continuar a dominação cega da natureza e seres humanos, mas para apontar em direção à reconciliação.Adorno trabalha fora os detalhes desta concepção em suas palestras subsequentes sobre Kant (KC), ética (PMP), e da metafísica (MCP) e em seus livros sobre Husserl (AE), Hegel (H), e Heidegger (JA). Sua declaração mais abrangente ocorre em Dialética negativa , que é discutido mais tarde.

Stanford Encyclopedia of Philosophy



As ideias de Walter Benjamin

Por Ana Lucia Santana


Walter Benjamin  é um dos filósofos mais significativos da modernidade, somente reconhecido enquanto tal após sua trágica morte, durante a fuga das forças nazistas. Em vida ele era respeitado enquanto intelectual apenas em seu círculo de pensadores, como Ernst Bloch e T. W. Adorno, que tomou a iniciativa de editar toda sua obra postumamente.
Benjamin discorreu principalmente sobre a Arte, particularmente em seu texto A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica, no qual ele defende uma visão materialista, segundo a qual toda produção artística é circundada por uma certa ‘aura’, que revela sua singularidade.
Com o advento de produtos culturais de massa como o cinema, que implicam na reprodutibilidade da arte, esta ‘aura’ se dilui nas cópias produzidas e, assim, destrói a qualidade de objeto único e individual da qual a obra artística podia se revestir. Quando ocorre este fenômeno, a arte deixa de ser uma criação exclusiva para um grupo restrito, perde seu caráter sagrado e consequentemente atinge uma repercussão na sociedade como um todo.

Estabelece-se uma nova interação entre o povo e a produção artística; percebe-se esta mudança especialmente na modalidade cinematográfica, uma vez que ela implica em uma alteração na qualidade das relações com o público consumidor. Mas, nesta produção cultural, apesar de sua elaboração demandar a projeção de toda a expressão vital do ser criador, a ‘aura’ já não está mais presente.
Enquanto no teatro o intérprete está inegavelmente vinculado a sua ‘aura’, a qual é, sem dúvida, captada pela plateia, não se pode dizer que no cinema o mesmo se repita, pois neste meio o público está ausente, e em seu lugar está a câmera, ou seja, uma máquina, a qual prevalece inclusive sobre os próprios atores, uma vez que os equipamentos técnicos são capazes até mesmo de representar seu papel.
Benjamin também acreditava que havia uma diferença radical entre o que o Homem podia visualizar por meio de seu olhar e o que a câmara podia captar artificialmente. Desta forma, uma visão que era consciente se transforma em um ponto de vista inconsciente, gerando um processo semelhante ao da Psicanálise, que desperta a inconsciência instintiva, enquanto uma arte como o cinema produz a vivência do inconsciente visual.
Por outro lado, o pensador defendia que o cinema poderia ser de imenso valor para o indivíduo, no sentido material, porque seria um instrumento político e ideológico em benefício da classe proletária quando esta estivesse pronta para assumir a liderança política, pois ele lhe traria incríveis expectativas na construção de uma nova história da camada popular.
Assim, para resumir, Benjamin via na tecnologia de reprodução das produções artísticas uma faca de dois gumes; por um lado, ela destruía o legado da cultura ancestral e, por outro, propiciava à população uma nova interação com a obra de arte, a qual previa que esta produção poderia se converter em um meio poderoso de sublevação dos mecanismos sociais. Era, certamente, um ponto de vista muito positivo, que depois seria revisto até mesmo por companheiros como Adorno.
Da obra de Benjamin destacam-se as reflexões sobre a literatura, a arte, as tecnologias, as estruturas sociais, entre outras temáticas similares, todas elaboradas com uma profunda exatidão metodológica. Ele examinou criticamente e com uma bela linguagem metafórica a obra de Goethe, o legado de Baudelaire, a filosofia da história, e outros temas afins. Hoje o filósofo que segue mais de perto seus parâmetros é o tradutor de seus trabalhos para o idioma italiano, Giorgio Agamben.
Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Benjamin
http://educacao.uol.com.br/biografias/walter-benjamin.jhtm
Arquivado em: Filosofia
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Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

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Viagem à Polónia

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Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

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