A Razão não é una nem única. Possui a suprema capacidade de se disfarçar, isto é, de disfarçar os seus interesses mundanos.
Os argumentos segundo os quais o próximo governo do PS é ilegítimo é coxo: falta-lhe a sustentação da letra constitucional; baseia-se numa dita "tradição" lusa na qual não houve nunca governos de esquerda (abstraem o período revolucionário que, é claro, não lhes serve); as constituições e o Direito submetem-se, pois, a tradições. O argumento de que é ilegal é maneta : falta-lhe a força dos factos: os eleitores elegem deputados e não primeiro-ministros; cabe à Assembleia da República formar um governo com apoio maioritário.
Sobra, porém, um argumento aos inteligentes: estes acordos não servem, pois que deviam acordar sobre matérias como o Orçamento (que ninguém soube, nem agora nem no passado, qual seja antes de o ser), o défice, a obediência aos tratados da UE, à NATO, etc., etc. Ou seja: as matérias divergentes entre os quatro partidos que assinaram acordos. Somente assim seria um governo "sólido, estável, consistente", que apaziguaria o presidente da República. Que significa? Significa que os inteligentes apelam (ou mais do que isto) ao dito cujo para não empossar António Costa. Como é que um acordo se faz sem que não haja matéria divergente? Teriam os partidos de esquerda de assinar por baixo do programa do PS??
Os inteligentes são assim: criticavam por vezes o governo ultra-liberal destes últimos quatro anos por "erros" e "desvios", personalizando aqui e acolá (como gostam de proceder os inteligentes), porém, na verdade, gostavam dele, como aqueles maridos ou esposas que chateiam mas no fundo até gostam.
Ora pôrra para os inteligentes!
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Os inteligentes
João Miguel Tavares faz parte do elenco do "Governo Sombra", programa semanal da TVI, com o já célebre humorista Ricardo Araújo Pereira e o poeta Pedro Mexia. Inteligência não é coisa que ali falte. Um grande humorista e talentoso cronista de costumes, um crítico literário erudito e penetrante, um jornalista inteligente.
O problema é que, por vezes, a inteligência pisca o olho ao cinismo e disfarça sob o manto diáfano da crítica "independente" uma tremenda dependência ideológica. É o caso de João M. Tavares. Com um argumentário pretensamente diferente dos apelos ao golpe de estado que a coligação de direita anda por aí a exigir sem máscara, ataca um governo do PS, legítimo e legal, com apoio na Assembleia da República. “O acordo da esquerda não pode ser um Frankenstein keynesiano-leninista colado a cuspo. O acordo da esquerda não pode ser uma fraude intelectual. O acordo da esquerda não pode ser um discurso de Miss Universo, composto em exclusivo de suspiros por um mundo melhor.” Ora, o acordo de esquerda, que não é sequer um acordo mas três desacordos, é tudo isto, mas em pior. E só mesmo a carneirização da pátria e o nosso notável talento para ir atrás do primeiro flautista de Hamelin que se atravessa no caminho é que pode conduzir à suspensão, tanto à direita como à esquerda, dos mais básicos critérios de exigência intelectual e de honestidade política, e a uma espécie de aceitação conformada da inevitabilidade de António Costa ter de vir a ser indigitado primeiro-ministro.", "A opção de Cavaco não tem de ser um governo de gestão, nem de iniciativa presidencial. O que ele tem de fazer é ater-se aos critérios de solidez e estabilidade que enunciou e pedir a António Costa para parar de brincar connosco e assinar alguma coisa séria, se quer ser primeiro-ministro. Aceitar aqueles três desacordos daria uma grande felicidade à esquerda. Mas transformaria o presidente da República num triste notário, obrigado a carimbar qualquer papel que lhe pusessem à frente. A bem da salubridade do regime, não pode ser." O palavreado pretensamente irrefutável (o homem mostra-se arrogante e vaidoso no tal "Governo Sombra" e provoca permanentemente o Ricardo, querendo-se fazer passar por humorista também...Pobrezito!) resume-se ao mesmo que a direita trauliteira apregoa desesperada: Governo de esquerda nunca, jamais!
Nestes meandros sinuosos vão certos "liberais" desvelando a sua ideologia reaccionária. Anti-humanista se quisermos confrontá-la com as misérias que os trabalhadores têm sofrido nestes últimos quatro anos. O que é ser liberal hoje?
O problema é que, por vezes, a inteligência pisca o olho ao cinismo e disfarça sob o manto diáfano da crítica "independente" uma tremenda dependência ideológica. É o caso de João M. Tavares. Com um argumentário pretensamente diferente dos apelos ao golpe de estado que a coligação de direita anda por aí a exigir sem máscara, ataca um governo do PS, legítimo e legal, com apoio na Assembleia da República. “O acordo da esquerda não pode ser um Frankenstein keynesiano-leninista colado a cuspo. O acordo da esquerda não pode ser uma fraude intelectual. O acordo da esquerda não pode ser um discurso de Miss Universo, composto em exclusivo de suspiros por um mundo melhor.” Ora, o acordo de esquerda, que não é sequer um acordo mas três desacordos, é tudo isto, mas em pior. E só mesmo a carneirização da pátria e o nosso notável talento para ir atrás do primeiro flautista de Hamelin que se atravessa no caminho é que pode conduzir à suspensão, tanto à direita como à esquerda, dos mais básicos critérios de exigência intelectual e de honestidade política, e a uma espécie de aceitação conformada da inevitabilidade de António Costa ter de vir a ser indigitado primeiro-ministro.", "A opção de Cavaco não tem de ser um governo de gestão, nem de iniciativa presidencial. O que ele tem de fazer é ater-se aos critérios de solidez e estabilidade que enunciou e pedir a António Costa para parar de brincar connosco e assinar alguma coisa séria, se quer ser primeiro-ministro. Aceitar aqueles três desacordos daria uma grande felicidade à esquerda. Mas transformaria o presidente da República num triste notário, obrigado a carimbar qualquer papel que lhe pusessem à frente. A bem da salubridade do regime, não pode ser." O palavreado pretensamente irrefutável (o homem mostra-se arrogante e vaidoso no tal "Governo Sombra" e provoca permanentemente o Ricardo, querendo-se fazer passar por humorista também...Pobrezito!) resume-se ao mesmo que a direita trauliteira apregoa desesperada: Governo de esquerda nunca, jamais!
Nestes meandros sinuosos vão certos "liberais" desvelando a sua ideologia reaccionária. Anti-humanista se quisermos confrontá-la com as misérias que os trabalhadores têm sofrido nestes últimos quatro anos. O que é ser liberal hoje?
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Os produtos com que a Monsanto contamina o planeta
O envenenamento do meio
ambiente e de populações com PCB's, a aplicação massiva de Agente
Laranja no Vietname, os perigos para a saúde pública causados pela
hormona de crescimento bovino, a contaminação de culturas pelos OGM ou
os efeitos do herbicida Roundup nas células humanas são algumas das
matérias que a Monsanto procura branquear a todo o custo.
23 de Março, 2014 - 13:00h

Foto eco-logical photography/Flickr (recortada)
Tentando, por todos os meios - manipulação de estudos, técnicas de marketing agressivas, entre outros -, limpar a sua imagem, a Monsanto auto intitula-se como “uma companhia de agricultura sustentável”i com o objetivo "produzir melhores alimentos para os consumidores e uma melhor alimentação para os animais".
A empresa oculta da sua históriaii “pequenos pormenores”, como as consequências profundamente dramáticas para o meio ambiente e a saúde pública da produção de PCB's, a contaminação de vietnamitas e veteranos de guerra com o Agente Laranja ou a toxicidade do Roundup, o herbicida que se transformou numa mina de ouro.
PCB's: Consequências dramáticas para o meio ambiente e a saúde pública
Cerca de 99% dos PCB'siii utilizados nos EUA foram produzidos pela Monsanto na sua fábrica de Sauget, em Illinois - que apresenta a taxa mais elevada de morte fetal e de nascimentos prematuros do estadoiv -, até terem sido totalmente proibidos pelo Congresso norte americano em 1976.
Estes compostos, produzidos desde 1930 e utilizados como refrigerantes e lubrificantes em equipamentos elétricos, são cancerígenos, e têm efeitos prejudiciais para o fígado, sistema endócrino, sistema imunológico, sistema reprodutor, sistema de desenvolvimento, pele, olhos e cérebrov.
Em janeiro de 2002, o jornalista Michael Grunwald, do Washington Post, descrevia no seu artigo, intitulado “Monsanto Hid Decades of Pollution”, a forma como, durante cerca de quatro décadas, a Monsanto envenenou a população de Anniston, despejando regularmente lixo tóxico num riacho na zona Oeste desta pequena cidade americana.
Em 1966, os administradores da Monsanto aperceberam-se que os peixes do riacho estavam a morrer. Três anos depois, encontraram peixes noutro riacho com 7.500 vezes os níveis legais de PCB's. Em 1975, um estudo verificou que os PCB's causavam tumores em ratos. Os responsáveis da Monsanto ordenaram a alteração dos resultados.
Vários memorandos internos, classificados como “confidenciais” comprovam que a Monsanto sabia quais as consequências das suas práticas, mas isso não a impediu de lucrar durante quatro décadas com a produção de PCB's. "Nós não nos podemos dar ao luxo de perder um dólar de negócios", frisava um dos documentos.
As indemnizações pagas décadas depois representaram somente uma pequena fração dos lucros, demonstrando que, de facto, o crime compensou.
Quase 30 anos depois de os PCB's serem proibidos nos EUA, continuam a aparecer no sangue de mulheres grávidas, conforme avança um estudo de 2011 da Universidade da Califórnia, em San Francisco. Outras pesquisas apontam um paralelo entre PCB's e autismo.
DDT: O inseticida proibido nos EUA em 1972
Em 1944, a Monsanto tornou-se num dos primeiros fabricantes do pesticida DDT, utilizado para combater os mosquitos transmissores da malária e do tifo e que foi massivamente utilizado na agricultura.
Ainda que durante décadas a Monsanto tenha assegurado veementemente que o DDT era seguro, em 1972, o inseticida foi proibido em todo os EUA, após terem ficado provados os verdadeiros efeitos da toxicidade do produto.
No livro Silent Spring a bióloga norte Americana Rachel Carson demonstra como o DDT pode provocar cancro em seres humanos e interfere com a vida animal, causando, por exemplo, o aumento de mortalidade entre os pássaros. Carson chegou a comparar o efeito das pulverizações massivas de DDT ao de uma nova bomba atómica. Vários estudos assinalaram que o DDT estava a matar vários insetos inofensivos essenciais para os ecossistemas e o pesticida chegou a ser responsabilizado pela quase extinção de, pelo menos, uma ave, o falcão-peregrino.
Em 23 de maio de 2001, 122 países assinaram a Convenção de Estocolmo sobre poluentes orgânicos persistentes (POPs), com o objetivo de eliminar uma lista inicial de 12 substâncias tóxicas, na qual se incluía o DDT.
Desenvolvimento das primeiras armas nucleares
Pouco depois de adquirir, em 1936, a Thomas e Hochwalt Laboratories, em Dayton , Ohio, a Monsanto transformou esta divisão no seu Departamento de Investigação Central, que, entre 1943 e 1945, teve uma participação significativa no Projeto Manhattan, cujo objetivo era desenvolver a primeira bomba atómica.
O Dr. Charles Thomas, que veio a assumir a presidência da Monsanto, era responsável pela purificação final do plutónio e esteve presente no primeiro teste de explosão da bomba atómica.
Utilização do Agente Laranja aos EUA durante a Guerra do Vietname
Entre 1961 e 1971, a Monsanto forneceu Agente Laranjavi, resultante da combinação entre os herbicidas 2,4-D e 2, 4, 5-T, ao exército norte americano, que o utilizou para desfolhar as árvores da selva tropical do Vietname durante a guerra. Os cerca de 80 milhões de litros deste desfolhante despejados no país pela Força Aérea dos EUA foram contaminados com dioxina, uma substância altamente tóxica e cancerígena criada como um subproduto do processo de fabrico do Agente Laranjavii.
Até hoje, a utilização do desfolhante durante a Guerra do Vietname traduz-se em consequências devastadoras para a população vietnamita e para os veteranos de guerra norte americanos, que vieram a processar a Monsanto.
Os Veteranos do Vietname da América identificaram pelo menos 50 doenças associadas à exposição ao Agente Laranja, bem como 20 tipos de defeitos de nascençaviii.
Segundo a Rede de Agricultura Sustentável (RAS)ix, algumas estimativas dão conta da existência de mais de 500 mil crianças nascidas no Vietname desde os anos 60 com deformidades relacionadas à dioxina contida no Agente Laranja.
A RAS refere ainda que uma ação judicial, originada pela denuncia de trabalhadores ferroviários expostos a dioxinas em consequência de um descarrilamento, evidenciou a manipulação de estudos para apoiar a posição da Monsanto. Um funcionário da Agência de Proteção Ambiental Americana (EPA) chegou à conclusão que os estudos foram manipulados por forma a levarem a crer que os efeitos da dioxina se limitava à cloroacne - uma enfermidade da pele. A Monsanto acabou por ser multada em 16 milhões de dólares, verificando-se ainda que muito dos produtos da empresa estavam contaminados por dioxina.
No artigo “A Obscura História da Monsanto”x, publicado pela RAS, é também citado um memorando da Dra. Cate Jenkins, da EPA, de 1990, onde se pode ler que "a Monsanto remeteu informações falsas à EPA”. “A empresa adulterou amostras de herbicida que remeteram ao Departamento do Ministério da Agricultura dos EUA para registar o 2,4-D e vários clorofenóis; ocultou provas sobre a contaminação do Lysol, além de excluir centenas dos seus antigos trabalhadores doentes dos seus estudos comparados de saúde”, avança a RAS.
BST: Degradação da saúde dos animais e perigo para a saúde pública
Em 1993, a Monsanto conseguiu a aprovação, por parte da Food and Drug Administration (FDA), da comercialização da BST, uma substância com efeito hormonal utilizada para fazer aumentar, entre 10% a 20%, a lactação nas vacas.
Em 1994, o Government Accountability Office (GAO) chegou a promover uma investigação a três funcionários da FDA envolvidos na aprovação da BST, por existirem suspeitas de conflito de interesses. Michael Taylor, Margaret Miller e Suzanne Sechen estiveram envolvidos nos estudos iniciais da Monsanto sobre a BST, tendo mais tarde vindo a integrar a FDA e a avaliar esses mesmos estudos. Ainda que tenham ficado perfeitamente demonstradas as inúmeras ligações entre a Monsanto e a FDA, o GAO acabou por concluir que nenhum destes funcionários tinha violado qualquer regra sobre conflito de interesses, defendendo não existir base legal para qualquer processoxi.
Um estudo da comissão científica da União Europeia veio, entretanto, a concluir que a utilização da BST aumenta substancialmente a incidência de problemas de saúde nos animais, entre os quais problemas nas patas, processos infecciosos agudos das glândulas mamárias (mastite) e doenças do aparelho reprodutor. No caso das vacas com mastite, o leite produzido apresenta pus, sendo que são administrados antibióticos que trazem problemas para os animais e enormes perigos sobre os seres humanosxii.
Por outro lado, quando se administra BST na vaca é estimulada a produção de outra hormona, o Fator de Crescimento 1 (IGF1). Em 1996, um estudo da Universidade de Illinois, Chicago, mostrou que as concentrações de IGF1 que se verificam no leite das vacas tratadas com a BST multiplicam por quatro o risco de cancro da próstata nos homens e por sete o risco de cancro da mama nas mulheresxiii.
A partir de 1999, a BST começou a ser proibida em vários países: primeiro no Canadá, depois na Austrália, na Nova Zelândia, no Japão, em Israel e em toda a União Europeia.
Em 2000, a BST já se tinha tornado no produto farmacêutico mais vendido na história da indústria de laticíniosxiv.
Sacarina: Um produto cancerígeno?
No início da sua atividade, a Monsanto dedicou-se à produção do adoçante sacarina. Em pouco tempo, a empresa tornou-se na principal fornecedora de matérias primas da Coca-Cola.
Em 1977, a Food and Drug Administration (FDA) tentou retirar a sacarina do mercado após Arnold D.L. e outros autores terem assinalado que este produto induzia cancro da bexiga. Esta mesma conclusão foi corroborada, em 1980, num estudo do National Cancer Institute, que assinalou ainda que a sacarina produzia também vários outros tipos de tumores em ratos. Em 1981, a sacarina foi, inclusive, incluída na lista de substâncias carcinogénicas em humanos da NTP National Toxicology Program (NTP).
A sacarina continuou, contudo, a ser comercializada, mediante a pressão da indústria de alimentos dietéticos e dos próprios consumidores exibindo, contudo, e até ao final da década de 90, uma advertência com a indicação de que tinha apresentado sinais cancerígenos.
Posteriormente, alguns estudos revelaram que os resultados dos estudos apenas se aplicavam a ratos, na medida em que os tumores nestes animais se deviam a um mecanismo não relevante em humanos. Em 2000, esta substância foi retirada da lista de substâncias carcinogénicas.
Vários cientistas desaconselharam a retirada da sacarina desta lista. O documento oficial tem, até à data, a seguinte redação: "embora seja impossível concluir com certeza que não representa uma ameaça para a saúde humana, não se pode afirmar razoavelmente que a sacarina sódica é um carcinógeno humano em condições de uso geral como um adoçante artificial”.
OGM: Contaminação de culturas e perseguição aos agricultores
Os Organismos Geneticamente Modificados (OGM) são organismos cujo material genético foi manipulado de modo a favorecer alguma característica desejada. No caso das sementes produzidas pela Monsanto, as mesmas foram geneticamente modificadas por forma a repelirem pragas ou a resistirem exclusivamente aos herbicidas comercializados pela empresa.
O milho transgénico, por exemplo, liberta um forte inseticida que não só aniquila os insetos passíveis de destruir as colheitas como também aqueles que lhes são benéficos, e essenciais para os ecossistemas, como borboletas e abelhas.
Uma das preocupações no que se refere ao cultivo de plantas transgénicas prende-se com a polinização cruzada entre estas espécies e as espécies nativas ou as culturas que não foram manipuladas geneticamente. O pólen transportado por insetos ou pelo vento pode implicar a contaminação de campos situados até dezenas de quilómetros, dependendo da distância percorrida pelo mesmo e da própria planta em causa.
Esta contaminação pode ter consequências bastante preocupantes. Em meados dos anos 90, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) descobriu que o milho Starlink, da empresa Aventis, era alergénico, interditando a sua comercialização para consumo humano. Contudo, entre 2000 e 2001, foram recolhidos mais de 300 produtos alimentares que continham traços do produto e 44 pessoas queixaram-se de reações alérgicas como consequência do consumo desses alimentosxv.
Por forma a espalhar a sua tecnologia por todo o mercado de fornecimento de sementes, a Monsanto não só comercializa as suas próprias sementes patenteadas, como também, tal como refere o Food & Water Watchxvi, utiliza acordos de licenciamento com outras empresas e distribuidores permitindo, nomeadamente, que a concorrência utilize características genéticas desenvolvidas pela Monsanto nos seus produtos.
Em documentários como "Food, Inc." e "The Future of Food" é abordada a perseguição da Monsanto contra os agricultores. A Monsanto não se coíbe de processar pequenos agricultores por quebrarem o acordo de licenciamento da tecnologia da empresa ao qual se vinculam quando, tão simplesmente, adquirem um saco de sementes da multinacional.
Este acordo estipula, por exemplo, que os agricultores não podem guardar e replantar as sementes e são responsáveis pelo acompanhamento de todos os procedimentos incluídos no Guia de Utilização da Tecnologia da Monsanto, bem como que a Monsanto pode investigar as plantações dos agricultores e aceder aos seus registos na USDA Farm Service Agency. A Monsanto criou, inclusive, uma linha gratuita para que qualquer cidadão possa denunciar os agricultores que utilizam a tecnologia da Monsanto sem licençaxvii.
Não só os agricultores que adquiriram produtos da Monsanto são alvo de processos como também aqueles que, inadvertidamente, acabam por encontrar características genéticas desenvolvidas pela empresa nas suas culturas graças à polinização cruzada.
As mais valias tão propaladas do cultivo de OGM, como aumentar a produtividade ou diminuir a necessidade da aplicação de pesticidas e herbicidas, têm vindo a ser desmentidas pela comunidade científica. Ao invés de "produzir melhores alimentos para os consumidores e uma melhor alimentação para os animais", a Monsanto procura encher os seus cofres impondo uma alteração radical dos sistemas agrícolas a nível mundial e dos hábitos alimentares das populações.
Em 2009, os produtos da Monsanto cresciam em 282 hectares a nível mundial e em 40% da área cultivada nos EUA. Perto de 93% de toda a plantação de soja e 80% da plantação do milho nos EUA foram cultivadas com sementes contendo material genético patenteado pela Monsantoxviii. A Monsanto controla mais de 90 por cento da produção de OGM no mundo.
A expansão da utilização de OGM traduz-se na perda permanente de biodiversidade e numa ameaça à soberania e segurança alimentar, principalmente nos países mais pobres, onde as populações sobrevivem à custa da conservação de sementes.
Roundup: O veneno que se transformou numa mina de ouro
Criando sementes transgénicas que resistem unicamente a este herbicida, a Monsanto obriga os agricultores a adquirir o Roundup, tornando a sua comercialização numa verdadeira mina de ouro. Em 2011, as vendas do Roundup e de outros herbicidas representaram 27 por cento do total das vendas líquidas da Monsanto.
No documentário “O Mundo Segundo a Monsanto”, Marie-Monique Robin reproduz a peça publicitária na qual a Monsanto apresenta o Roundup, como um produto “biodegradável, (que) deixa o solo limpo e respeita o meio ambiente”. “O glifosfato é menos tóxico para os ratos do que o sal de mesa ingerido em grande quantidade” , acrescenta a Monsanto, esquecendo-se de referir que o Roundap é muito mais tóxico na sua fórmula global.
Na realidade, os estudos que justificaram a homologação do Roundup foram produzidos somente com base na análise do princípio ativo, não sendo tidas em conta as características da fórmula final.
O professor Robert Bellé, do Centro Nacional de Investigação Científica francês, citado por Robin, concluiu que o Roundap desencadeia a primeira etapa que pode conduzir a situações de cancro 30 a 40 anos mais tarde. “O Roundap é um assassino de embriões e em concentrações mais fracas é um perturbador endócrino para os fetos”, escreveu.
Gilles-Eric Seralini, professor de biologia molecular na Universidad de Caen (Francia), que desenvolveu várias investigações para a Comissão Europeia sobre os efeitos dos alimentos transgénicos na saúde, foi taxativo quanto aos efeitos do Roundup nas células humanas: “mata-as diretamente”xix.
Vários estudosxx têm associado ainda a utilização do Roundup ao desenvolvimento de problemas do sistema reprodutor.
terça-feira, 10 de novembro de 2015
Governo de esquerda
Para os meus caros visitantes de outras nacionalidades quero comunicar-vos que temos por estes dias em Portugal um governo do Partido Socialista Português apoiado na Assembleia da República pelos Partidos Bloco de Esquerda (BE) e Partido Comunista Português. O apoio para quatro anos de legislatura fica garantido através de três acordos assinados pelos respectivos líderes hoje. O Presidente da República terá de dar seguimento ao processo, muito embora contra a sua vontade.
É uma novidade absoluta desde que a Democracia regressou no dia 25 de Abril de 1974. Partidos comunistas a apoiarem governos ou mesmo a fazerem parte deles não foi nunca, nem é nos dias de hoje, invulgar, como se sabe.
Para dois terços de portugueses é um dia festivo. A manifestação popular que decorreu hoje, sem violências!, em frente do parlamento já corre nos meios de comunicação internacionais.
É uma novidade absoluta desde que a Democracia regressou no dia 25 de Abril de 1974. Partidos comunistas a apoiarem governos ou mesmo a fazerem parte deles não foi nunca, nem é nos dias de hoje, invulgar, como se sabe.
Para dois terços de portugueses é um dia festivo. A manifestação popular que decorreu hoje, sem violências!, em frente do parlamento já corre nos meios de comunicação internacionais.
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
Chomsky: nos EUA, eleição sem alternativas
Noam Chomsky
Filósofo dissidente vê país em desolação democrática: temas centrais
(inclusive a guerra) estão vetados, conservadores apelam ao medo,
“libertários” abraçam anarco-capitalismo. Ele simpatiza com Bernie
Sanders
Qual
a amplitude das escolhas possíveis, na disputa pela presidência dos
EUA? Parece haver grande uniformidade no apoio à “guerra ao terror”, na
postura diante da América Latina, nas sanções contra o Irá. Não há um
candidato que realmente condene as políticas de guerra, embora boa parte
da opinião pública o faça. Por que ninguém toca nesse assunto?
O
espectro é amplo, mas num sentido estranho… Vai do centro à extrema
direita. Há vinte anos, o Partido Republicano abandonou qualquer
pretensão de ser um partido político normal. Comentaristas conservadores
respeitáveis, como Norman Orstein, do American Enterprise Institute –
um think thak de direita – descreveram o Partido Republicano como uma
insurgência radical que abandonou a política parlamentar. Eles
simplesmente não querem que aconteça nada. Sua única política é não
fazer coisa nenhuma, a não ser soltar bombas. Isso não é um partido
político. Ocorre
que durante todo o período neoliberal, os partidos tradicionais
moveram-se para a direita em todo o mundo, e os republicanos
simplesmente foram muito além do espectro. Eles tornaram-se tão
dedicados aos interesses dos extremamente ricos e poderosos que perderam
a capacidade de atrair o eleitorado normal. Por isso, tiveram que se
voltar para outros setores, que antes não haviam sido mobilizados
politicamente. Os fundamentalistas evangélicos, os nativistas
que têm medo de perder seu país, pessoas tão apavoradas que têm de
carregar armas pra ir na lanchonete. Essa é sua base, essencialmente.
Quem examina as eleições primárias dos republicanos percebe: qualquer
candidato que tenha alguma aparência de racionalidade não está sequer
competindo. Os democratas também deslocaram-se para a direita. Hoje, os democratas mainstream são mais ou menos o que se costumava chamar de republicanos moderados. Alguém como o ex-presidente Eisenhower
seria considerado bem à esquerda. Ele deixou bem claro, por exemplo,
que qualquer um que questionasse os programas keynesianos do New Deal
não fazia parte da vida política norte-americana. Hoje, o único
candidato à esquerda é Bernie Sanders, mas seu programa assemelha-se ao
de Eisenhower. Quanto a um candidato antiguerra, é preciso perguntar o
que isso significa. Por exemplo, Obama é considerado um presidente
antiguerra. Ele descreveu a guerra do Iraque como um erro estratégico,
uma tolice. Mas isso é uma postura semelhante à dos generais russos no
Afeganistão nos anos 1980, que criticaram a invasão como uma bobagem
estratégica – “vocês estão cometendo um erro” –, não uma crítica à
política de guerra. Ao
mesmo tempo, ele promove um programa global de terror nunca imaginado
antes: o programa de assassinatos por meio de drones, que veio à luz
agora, até certo ponto, devido aos vazamentos de informações. Mas o que
muita gente questiona é: vocês estão matando muito civis. O programa dos
drones assassina pessoas apenas por se supor que elas poderão, algum
dia, fazer um mal aos Estados Unidos. Por comparação, suponha, por
exemplo, que o Irã começasse a matar gente nos Estados Unidos por pensar
que estas pessoas poderiam agredir seu país. Os editores do New York Times e do Washington Post,
que publicam constantemente artigos clamando pelo bombardeio do Irã,
diriam que é uma ameaça iminente. Nós aceitaríamos este ato dos
iranianos? A ideia de que temos o direito de usar força e violência
conforme nossa vontade é aceita mais ou menos por todo o espectro
político. Examine, por exemplo, as negociações com Irã. Virtualmente
todos — presidente, líderes políticos, comentaristas na imprensa,
pacifistas – dizem que se nós detectarmos alguma violação dos acordos
pelo Irã, temos direito de usar força militar para atacá-los. Isso é
esdrúxulo, em termos do direito internacional, mas é virtualmente
universal na política institucional dos EUA. Você precisa ir longe nas
margens pra encontrar alguém que questione esta ideia. Não
há, entre os candidatos, a mais leve crítica ao programa de
assassinatos ou mesmo à “guerra ao terror”. A cada quatro anos você é
levada a pensar que está participando da grande prática democrática na
tomada de decisões, em que celebramos a eleição de líderes que governam
por nós. Como o poder funciona de verdade, em nossa sociedade? Há estudos muito bons sobre isso, de cientistas políticos mainstream. Um
dos principais tópicos estudados na ciência política acadêmica é a
relação entre a atitude das pessoas e as políticas públicas. Por
exemplo, durante cerca de quarenta anos, uma considerável maioria do
público pensou que os impostos deveriam subir, para os mais ricos – e
agora, os impostos pagos por eles estão caindo. Parte substancial do
público, frequentemente uma grande maioria, julga que nós deveríamos ter
um sistema nacional de saúde. Impossível. Quando a imprensa discute
isso, diz que é politicamente inviável, porque a indústria farmacêutica e
o setor de seguros não irão aceitar. Basicamente, não importa o que o
povo pensa. Cerca de 70% do público, os que estão mais na base da
pirâmide social, são desprivilegiados, suas atitudes não têm influência
sensível sobre as políticas de seus próprios representantes. Se
você sobe um pouco na escala, encontra um pouco mais de influência.
Quando chega ao topo, é onde as políticas são feitas, e o topo significa
uma fração do 1% mais rico. É, portanto, um tipo de plutocracia com
formas democráticas. E as eleições – bem, agora tornaram-se quase uma
piada, mas sempre foi verdade que o financiamento de campanhas
desempenha um papel substancial, não apenas para definir quem será
eleito mas que políticas serão praticadas. Isso remete a cem anos atrás,
quando um grande gestor de campanhas políticas Mark Anna, questionado
sobre o que era importante para fazer uma campanha, respondeu que há
três coisas: a primeira é dinheiro, a segunda é dinheiro, e esqueci qual
é a terceira (risos)… E isso é bem verdade… Com a atual posição
reacionária da Suprema Corte, qualquer controle simplesmente foi para o
espaço, os gastos de campanha foram para bilhões e bilhões de dólares. E
as pessoas argumentam que os problemas devem-se a muita interferência
do governo; que se deve ampliar o mercado; que o capitalismo precisa de
liberdade, enquanto você afirma que, em qualquer cenário, o capitalismo é
incompatível com a democracia. Há
um estudo recente do FMI sobre os lucros dos grandes bancos nos EUA. O
setor financeiro tornou-se enorme durante o período neoliberal, abocanha
quase metade dos lucros das corporações. De onde vem esse lucro? Ficou
claro que vem dos contribuintes. Há uma garantia implícita do Estado
contra falências. Não está na lei, mas todos compreendem que, se uma
grande instituição financeira se vir em apuros, o governo a resgata – o
que aconteceu repetidamente no período neoliberal. Não houve grandes
falências nos anos 1950 e 1960, quando as políticas do New Deal
começaram a ser instituídas. Com a desregulamentação do setor
financeiro, veio uma série de crises financeiras. E cada vez que o
público paga a conta, isso tem consequências. Por um lado, as agências
de risco entendem que essas corporações têm muito mais valor do que na
realidade – porque serão sempre protegidas. Exatamente devido a isso,
elas pagam taxas de juros favoráveis. Podem obter crédito barato e fazer
transações de risco que são lucrativas porque, se algo der errado, o
contribuinte paga. Vem daí uma boa parte dos seus lucros. Isso é
capitalismo?Há outro estudo do FMI sobre os subsídios do governo para
empresas do setor de combustíveis em todo o mundo, não apenas nos EUA.
Estima-se que cheguem a 5 trilhões de dólares por ano. Mas o movimento ultra-liberal (libertarian) não
diria, precisamente, que o governo está sendo usado como extensão do
mercado para proteger um certo tipo de capitalismo? Que precisamos de um
governo livre de regulação, para deixar o capitalismo trabalhar por si
mesmo? A posição dos libertarians dos
EUA não tem nada a ver com a tradição libertária. É um tipo de
capitalismo de ultra-direita, que chamam de anarco-capitalismo. Se fosse
permitido que isso funcionasse, toda a sociedade entraria em colapso, e
teríamos uma tirania de instituições privadas sem qualquer
responsabilidade ou prestação de contas. A concentração privada de
capital torna a sociedade totalmente fora de controle, para o público.
Significa tirania absoluta. A única coisa que protege a sociedade do
capitalismo predatório é algum nível de intervenção do Estado. É verdade
que ela dá suporte a instituições capitalistas, mas também protege a
sociedade da destruição total pelo sistema capitalista predatório, ao
qual simplesmente não poderíamos sobreviver, por razões óbvias. Não se
poderia cuidar das externalidades, dos efeitos da produção sobre outros
aspectos da vida social. Em pouco tempo, se destruiria o meio ambiente,
detonando recursos e explodindo o volume de dióxido de carbono na
atmosfera. Quem poderia fazer algo? Além disso, não haveria bens
públicos. Há uma ideologia segundo a qual o mercado provê liberdade de
escolha, seria algo democrático. Sabemos que evidentemente não é
verdade. Suponha que eu queira chegar em casa esta noite: o mercado
oferece escolhas de marcas de carro, mas não oferece o que quero
realmente, que é um sistema público de transporte. O mercado olha pra
você como um consumidor individual de bens de consumo, ponto final. É
isso que queremos da vida, mais e mais gadgets? Há muitas outras coisas
na vida, que o mercado jamais oferecerá. Então, o que é chamado nos EUA
de libertarianismo é uma prescrição para o desastre completo. Não penso
que as pessoas que advogam em favor da proposta saibam disso. E devo
dizer, é muito antilibertário. O libertarianismo tradicional, que é
sempre de esquerda, opunha-se à relação senhor-servo, ao fato de algumas
pessoas darem ordens e as outras receberem. Isso é libertarianismo, não
essa versão anarco-capitalista. Algumas
semanas atrás, militares dos EUA bombearam intencionalmente um hospital
em Kunduz, Afeganistão, e o governo achou suficiente pedir desculpas.
Há gente capaz de se apresentar para defender o establishment,
dizendo que ou deve ter havido alguma boa razão, foi um acidente –
sabemos que não –, ou devia haver membros do Talibã escondidos no
hospital. Esse exemplo específico ilustra como o excepcionalismo
norte-americano funciona? Precisamos
ter cuidado com o termo excepcionalismo americano. Não é absolutamente
excepcional: todo poder imperial comportou-se da mesma forma, às vezes
pior. É apenas prática imperial normal. Claro, é excepcional, porque
supostamente temos os mais altos ideais; ou seja, podemos cometer erros,
mas sempre com os mais altos ideais… Esse é o excepcionalismo
norte-americano. Mas
isso também vale para quase todo poder imperial. Quando os britânicos
estavam destruindo o mundo, faziam isso sempre pelos mais altos ideais.
Intelectuais renomados como John Stuart Mill, pessoas estimáveis
descreviam a Inglaterra como um país angélico. Com os franceses,
acontecia o mesmo – é difícil encontrar uma exceção. No
caso do hospital de Kunduz, os detalhes acabarão vindo à tona, mas
aparentemente os militares norte-americanos estavam tentando matar
pessoas que consideravam líderes ou combatentes talibãs; ocorreu estarem
no hospital, então mataram todo mundo. Há muita crítica sobre matar a
população em geral, mas, e quanto a matar pessoas tidas como alvos? Que
direito temos de matar alguém em outro país porque não gostamos dele? Eu
também não gosto dos talibãs, mas isso me dá o direito de ir lá e
matá-los? Eles também têm o direito de nos matar, porque não gostam de
nós? Isso
não é absolutamente questionado. O que é questionado é atacar um
hospital, matar os pacientes, a equipe… Mas não é a primeira vez. Uma
das realizações mais louvadas do exército americano no Iraque é a
conquista de Fallujah, em novembro de 2004. Dê uma olhada no New York Times nos dias do ataque a Fallujah. No primeiro dia do ataque, há um foto na capa do Hospital Geral da cidade. Mariners atacaram o Hospital Geral, tiraram os pacientes de suas camas e os puseram no chão, algemaram-nos, puseram os médicos no chão… Atacar
hospital é uma tremenda violação do direito internacional. Os
comandantes foram questionados: por que atacaram? Responderam que o
hospital era uma agência de propaganda para os rebeldes. Como? Disseram
que o hospital divulgava os números de mortos e feridos na guerra… E
tudo bem, isso é considerado um grande feito. Para além disso: o que os mariners estão fazendo em Fallujah? Quer dizer, há marinheiros iranianos em Cambridge? O que a Marinha dos EUA está fazendo no Iraque? A
invasão do Iraque é o maior crime deste século. Teve efeitos horrendos,
desencadeando conflitos sectários e dilacerando o país. Mas suponha que
tivesse dado certo, que tivesse pacificado o Iraque e não houvesse
esses desastres. Ainda assim seria um grande crime. Que direito temos de
invadir outro país? Se
você olha pra trás há um outro crime que nunca é discutido. Nos anos
1990, as sanções ao Iraque eram tão severas que destruíram virtualmente a
sociedade. Eram aplicadas pelas Nações Unidas e o diplomata
internacional que as administrava era respeitado — Denis Halliday, um
irlandês. Renunciou com base no fato de as sanções serem genocidas –
palavra dele, não minha. Ele afirmou: as sanções estão destruindo a
sociedade, fortalecem o ditador e forçam a população a depender dele
para conseguir sobreviver; provavelmente, livram-no de ser deposto a
partir de dentro. Isso ocorreu nos anos 90 e não é considerado um
problema – é considerado democracia liberal. No momento em que o
presidente dos EUA, George W. Bush e o primeiro-ministro britânico, Tony
Blair, decidiram invadir o Iraque a sociedade já estava semi-devastada.
Ou seja, atacaram uma sociedade com um sistema muito frágil e obtiveram
resultados horríveis. A própria ideia de invasão é criminosa. Obama é
louvado porque a descreve como um erro. Ele a descreve como crime?
Alguém faz isso, a não ser longe, nas franjas do pensamento político? É chamada de guerra burra, uma palavra esperta…É
como os generais alemães que disseram, depois de Stalingrado: é
realmente estúpido fazer uma guerra em duas frentes, deveríamos ter
destruído a Inglaterra primeiro…
Acho
interessante que as pessoas, ao lembrar que não encontramos armas de
destruição em massa, julguem que, se estas existissem, teria sido
racional invadir e ocupar um país. Se
a preocupação fosse com armas de destruição em massa, haveria modos de
proceder: os inspetores da ONU fazem um ótimo trabalho. Uma questão
semelhante surgiu no caso do enriquecimento de urano do Irã. De acordo
com os EUA, o Irã representa uma grande ameaça para o mundo. Isso é
muito mais uma obsessão norte-americana e de Israel, e a maior parte do
mundo não enxerga dessa forma. Mas vamos supor que Irã seja uma ameaça:
há maneiras simples de lidar com isso, na verdade muito populares. O
melhor modo seria trabalhar no sentido de instituir uma zona livre de
armas nucleares na região. Isso tem o apoio de quase todo o mundo e é
fortemente apoiado pelo Irã – na verdade o país era o maior advogado da
ideia. Nem sequer se reconhece que Israel tem armas nucleares. Esse
é o problema. Os EUA não permitirão, porque não querem que as armas
nucleares de Israel sejam abertas para inspeção. Em consequência,
bloqueamos a maneira óbvia de lidar com o problema, apoiada virtualmente
pelo mundo inteiro. A questão surge a cada cinco anos, por ocasião da
conferência de revisão do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares
(TnP). Esse é o mais importante acordo de controle de armamentos que
há; se ele entrar em colapso, ficaremos mal, todo mundo vai ter armas
nucleares, e usá-las. Mas os Estados Unidos empenham-se tanto em
proteger as armas nucleares de Israel que estão dispostos a colocar em
risco o tratado. Você ouve uma palavra sobre isso fora da literatura a
respeito do controle de armas nucleares? Eu leio alguns artigos, mas de
gente distante, bem além das margens. Nada que venha do mainstream. Uma
grande quantidade de energia é empregada em ações que visam eleger
pessoas consideradas capazes de encontrar soluções para os problemas que
enfrentamos. Em que acha que devemos focar nossa energia?Na
campanha de Bernie Sanders. É impressionante, ele está se saindo bem,
fazendo coisas boas e corajosas e organizando um monte de gente. Essa
campanha deveria ser voltada para sustentar um movimento popular que
usasse a eleições como uma espécie de incentivo, para em seguida ir
adiante. A única coisa que vai trazer uma mudança significativa são
movimentos populares contínuos e dedicados, que não prestem atenção ao
ciclo eleitoral – é uma extravagância que ocorre a cada quatro anos e é
preciso se envolver, então tudo bem, eles se envolvem. Mas então
seguimos adiante. Se isso for feito, conseguiremos fazer mudanças.
sábado, 7 de novembro de 2015
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