
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
sábado, 14 de novembro de 2015
O legado do ateísmo
No contexto do lançamento do aguardado O absoluto frágil, ou, porque vale a pena lutar pelo legado cristão,
de Slavoj Žižek, recuperamos este artigo do filósofo esloveno que
procura reabilitar, da perversa ética multiculturalista do capitalismo
contemporâneo, o núcleo emancipatório do ateísmo. Ao invés de se
relacionar de forma exterior com a religião – sucumbindo assim à
armadilha da “tolerância” –, Žižek subverte a abordagem e
propõe levarmos a crença a sério e cobrar dos crentes a responsabilidade
sobre aquilo em que creem. É esta perspectiva avessa ao lugar comum que
anima também O absoluto frágil,
um ensaio explosivo que defende uma aproximação entre o cristianismo e o
marxismo num projeto político emancipatório renovado. Nas palavras do
esloveno: “O primeiro paradoxo da crítica materialista da religião é
este: às vezes é muito mais subversivo destruir a religião a partir de
dentro, aceitando sua premissa básica para depois revelar suas
consequências inesperadas, do que negar por completo a existência de
Deus.” Confira!
* * *
Por séculos,
nos foi dito que sem religião não somos mais do que animais egoístas
lutando pelo nosso quinhão, nossa única moralidade a de uma matilha de
lobos; apenas a religião, dizem, pode nos elevar a um nível espiritual
mais alto. Hoje, quando a religião emerge como a fonte de violência
homicida ao redor do mundo, garantias de que fundamentalistas cristãos
ou muçulmanos ou hinduístas estão apenas abusando e pervertendo as
nobres mensagens espirituais de seus credos soam cada vez mais vazias.
Que tal restaurar a dignidade do ateísmo, um dos maiores legados da
Europa e talvez nossa única chance de paz?
Mais de um século atrás, em Os Irmãos Karamazov e
outras obras, Dostoiévski alertava sobre os perigos de um niilismo
moral sem deus, defendendo essencialmente que, se Deus não existe, então
tudo é permitido. O filósofo francês André Glucksmann até mesmo aplicou
a crítica de Dostoiévski do niilismo sem deus ao 11 de setembro, como
sugere o título de seu livro, Dostoiévski em Manhattan.
O argumento
não poderia estar mais errado: A lição do terrorismo atual é que, se
Deus existe, então tudo, incluindo explodir milhares de espectadores
inocentes, é permitido – pelo menos àqueles que alegam agir diretamente
em nome de Deus, já que, claramente, uma ligação direta com Deus
justifica a violação de quaisquer refreamentos e considerações meramente
humanos. Resumindo, os fundamentalistas não se tornaram diferentes dos
comunistas Stalinistas “sem deus”, para os quais tudo foi permitido, já
que viam a si mesmos como instrumentos diretos de sua divindade, a
Necessidade Histórica do Progresso em Direção ao Comunismo.
Fundamentalistas
fazem o que veem como boas ações de forma a satisfazer o desejo de Deus
e ganhar a salvação; ateus o fazem simplesmente porque é a coisa certa a
fazer. Não seria essa também nossa experiência mais elementar de
moralidade? Quando faço uma boa ação, não a faço visando ganhar um favor
de Deus; faço porque, se não fizesse, não poderia me olhar no espelho.
Uma atitude moral é por definição sua própria recompensa. David Hume
argumentou isso pungentemente quando escreveu que a única maneira de
demonstrar verdadeiro respeito a Deus é agir moralmente ignorando sua
existência.
Dez anos
atrás, Europeus debatiam se o preâmbulo da Constituição Europeia deveria
mencionar o cristianismo. Como de costume, um meio termo foi arranjado,
uma referência em termos gerais à “herança religiosa” da Europa. Mas
onde estava o legado mais precioso da Europa, o do ateísmo? O que faz da
Europa moderna única é que ela é a primeira e única civilização em que o
ateísmo é uma opção plenamente legítima, e não um obstáculo a qualquer
posição pública.
O ateísmo é
um legado europeu pelo qual vale a pena lutar, não menos por criar um
espaço público seguro para os que creem. Considere o debate que
inflamou-se em Ljubljana, a capital da Eslovênia, meu país natal,
conforme a controvérsia constitucional fervia: muçulmanos (em sua
maioria trabalhadores imigrantes das antigas repúblicas Iugoslavas)
devem ter permissão para construir uma mesquita? Enquanto os
conservadores opunham-se à mesquita por razões culturais, políticas e
até arquitetônicas, a revista semanal liberal Mladina foi
consistentemente explícita em seu apoio à mesquita, em continuar com
suas preocupações pelos direitos daqueles que vinham de outras antigas
repúblicas Iugoslavas.
Não
surpreendentemente, dadas as atitudes liberais, Mladina também foi uma
das poucas publicações eslovenas a republicar as caricaturas de Maomé.
E, reciprocamente, aqueles que demonstraram maior “compreensão” pelos
violentos protestos muçulmanos causados por aqueles cartuns foram também
aqueles que regularmente expressavam sua preocupação com o futuro do
cristianismo na Europa.
Estas
alianças estranhas confrontam os muçulmanos da Europa com uma escolha
difícil: A única força política que não os reduz a cidadãos de segunda
classe e os concede o espaço para expressar sua identidade religiosa são
liberais ateus “sem deus”, enquanto aqueles mais próximos a suas
práticas religiosas sociais, seu reflexo cristão, são seus maiores
inimigos políticos.
O paradoxo é
que os únicos verdadeiros aliados dos muçulmanos não são aqueles que
primeiramente publicaram as caricaturas para chocar, mas aqueles que, em
defesa do ideal da liberdade de expressão, republicaram-nas.
Enquanto um
verdadeiro ateu não tem necessidade de apoiar sua própria posição
provocando crentes com blasfêmia, ele também se recusa a reduzir o
problema das caricaturas de Maomé ao respeito às crenças de outras
pessoas. O respeito às crenças dos outros como o valor maior só pode
significar uma de duas coisas: Ou tratamos o outro de forma
condescendente, evitando magoá-lo para não arruinar suas ilusões, ou
adotamos a posição relativista de vários “regimes da verdade”,
desqualificando como imposição violenta qualquer posição clara em
relação à verdade.
Mas que tal
submeter o Islã – junto com todas as outras religiões – a uma
respeitosa, mas por isso mesmo não menos implacável, análise crítica?
Essa, e apenas essa, é a maneira de mostrar verdadeiro respeito aos
muçulmanos: tratá-los como adultos responsáveis por suas crenças.
* Publicado originalmente em inglês no The New York Times em 13 de março de 2006. A tradução, ligeiramente modificada, é de Ale GM para o Bule Voador.
Cuba no enfrentamento Ao Ébola em Vários Países da África, Bem Como SEUS avanços na Ciência e na Educação.»
PARIS.—
A Unesco destacou a cooperação de Cuba no enfrentamento ao Ébola em
vários países da África, bem como seus avanços na ciência e na educação.
No
relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e
a Cultura (Unesco) sobre a Ciência: para 2030, apresentado no contexto
da 38ª Conferência Geral desta instituição, reconheceu-se que a Ilha
enviou centenas de doutores e doentes, como expressão de solidariedade
com o povo africano.
Os
profissionais da saúde da nação caribenha cumpriram uma missão de honra
nesse continente, salvando mais de 400 vidas e conseguindo que a taxa
de letalidade geral não ultrapassasse 24,4%, precisou.
Nessa região, a epidemia do Ébola matou umas oito mil pessoas, de março a dezembro de 2014, indica a Prensa Latina.
O
relatório destaca, ainda, que Cuba é o país da América Latina que
dedica mais de 1% do Produto Interno Bruto ao Ensino Superior, com
4,47%, seguido da Bolívia com 1,61 pontos.
Ainda,
continua sendo a nação de destino preferida pelos estudantes de outros
países do continente. No quinquênio mais recente acolheu em seus centros
de ensino superior a uns 17 mil, sublinhou.
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Os Inteligentes 2
A Razão não é una nem única. Possui a suprema capacidade de se disfarçar, isto é, de disfarçar os seus interesses mundanos.
Os argumentos segundo os quais o próximo governo do PS é ilegítimo é coxo: falta-lhe a sustentação da letra constitucional; baseia-se numa dita "tradição" lusa na qual não houve nunca governos de esquerda (abstraem o período revolucionário que, é claro, não lhes serve); as constituições e o Direito submetem-se, pois, a tradições. O argumento de que é ilegal é maneta : falta-lhe a força dos factos: os eleitores elegem deputados e não primeiro-ministros; cabe à Assembleia da República formar um governo com apoio maioritário.
Sobra, porém, um argumento aos inteligentes: estes acordos não servem, pois que deviam acordar sobre matérias como o Orçamento (que ninguém soube, nem agora nem no passado, qual seja antes de o ser), o défice, a obediência aos tratados da UE, à NATO, etc., etc. Ou seja: as matérias divergentes entre os quatro partidos que assinaram acordos. Somente assim seria um governo "sólido, estável, consistente", que apaziguaria o presidente da República. Que significa? Significa que os inteligentes apelam (ou mais do que isto) ao dito cujo para não empossar António Costa. Como é que um acordo se faz sem que não haja matéria divergente? Teriam os partidos de esquerda de assinar por baixo do programa do PS??
Os inteligentes são assim: criticavam por vezes o governo ultra-liberal destes últimos quatro anos por "erros" e "desvios", personalizando aqui e acolá (como gostam de proceder os inteligentes), porém, na verdade, gostavam dele, como aqueles maridos ou esposas que chateiam mas no fundo até gostam.
Ora pôrra para os inteligentes!
Os argumentos segundo os quais o próximo governo do PS é ilegítimo é coxo: falta-lhe a sustentação da letra constitucional; baseia-se numa dita "tradição" lusa na qual não houve nunca governos de esquerda (abstraem o período revolucionário que, é claro, não lhes serve); as constituições e o Direito submetem-se, pois, a tradições. O argumento de que é ilegal é maneta : falta-lhe a força dos factos: os eleitores elegem deputados e não primeiro-ministros; cabe à Assembleia da República formar um governo com apoio maioritário.
Sobra, porém, um argumento aos inteligentes: estes acordos não servem, pois que deviam acordar sobre matérias como o Orçamento (que ninguém soube, nem agora nem no passado, qual seja antes de o ser), o défice, a obediência aos tratados da UE, à NATO, etc., etc. Ou seja: as matérias divergentes entre os quatro partidos que assinaram acordos. Somente assim seria um governo "sólido, estável, consistente", que apaziguaria o presidente da República. Que significa? Significa que os inteligentes apelam (ou mais do que isto) ao dito cujo para não empossar António Costa. Como é que um acordo se faz sem que não haja matéria divergente? Teriam os partidos de esquerda de assinar por baixo do programa do PS??
Os inteligentes são assim: criticavam por vezes o governo ultra-liberal destes últimos quatro anos por "erros" e "desvios", personalizando aqui e acolá (como gostam de proceder os inteligentes), porém, na verdade, gostavam dele, como aqueles maridos ou esposas que chateiam mas no fundo até gostam.
Ora pôrra para os inteligentes!
Os inteligentes
João Miguel Tavares faz parte do elenco do "Governo Sombra", programa semanal da TVI, com o já célebre humorista Ricardo Araújo Pereira e o poeta Pedro Mexia. Inteligência não é coisa que ali falte. Um grande humorista e talentoso cronista de costumes, um crítico literário erudito e penetrante, um jornalista inteligente.
O problema é que, por vezes, a inteligência pisca o olho ao cinismo e disfarça sob o manto diáfano da crítica "independente" uma tremenda dependência ideológica. É o caso de João M. Tavares. Com um argumentário pretensamente diferente dos apelos ao golpe de estado que a coligação de direita anda por aí a exigir sem máscara, ataca um governo do PS, legítimo e legal, com apoio na Assembleia da República. “O acordo da esquerda não pode ser um Frankenstein keynesiano-leninista colado a cuspo. O acordo da esquerda não pode ser uma fraude intelectual. O acordo da esquerda não pode ser um discurso de Miss Universo, composto em exclusivo de suspiros por um mundo melhor.” Ora, o acordo de esquerda, que não é sequer um acordo mas três desacordos, é tudo isto, mas em pior. E só mesmo a carneirização da pátria e o nosso notável talento para ir atrás do primeiro flautista de Hamelin que se atravessa no caminho é que pode conduzir à suspensão, tanto à direita como à esquerda, dos mais básicos critérios de exigência intelectual e de honestidade política, e a uma espécie de aceitação conformada da inevitabilidade de António Costa ter de vir a ser indigitado primeiro-ministro.", "A opção de Cavaco não tem de ser um governo de gestão, nem de iniciativa presidencial. O que ele tem de fazer é ater-se aos critérios de solidez e estabilidade que enunciou e pedir a António Costa para parar de brincar connosco e assinar alguma coisa séria, se quer ser primeiro-ministro. Aceitar aqueles três desacordos daria uma grande felicidade à esquerda. Mas transformaria o presidente da República num triste notário, obrigado a carimbar qualquer papel que lhe pusessem à frente. A bem da salubridade do regime, não pode ser." O palavreado pretensamente irrefutável (o homem mostra-se arrogante e vaidoso no tal "Governo Sombra" e provoca permanentemente o Ricardo, querendo-se fazer passar por humorista também...Pobrezito!) resume-se ao mesmo que a direita trauliteira apregoa desesperada: Governo de esquerda nunca, jamais!
Nestes meandros sinuosos vão certos "liberais" desvelando a sua ideologia reaccionária. Anti-humanista se quisermos confrontá-la com as misérias que os trabalhadores têm sofrido nestes últimos quatro anos. O que é ser liberal hoje?
O problema é que, por vezes, a inteligência pisca o olho ao cinismo e disfarça sob o manto diáfano da crítica "independente" uma tremenda dependência ideológica. É o caso de João M. Tavares. Com um argumentário pretensamente diferente dos apelos ao golpe de estado que a coligação de direita anda por aí a exigir sem máscara, ataca um governo do PS, legítimo e legal, com apoio na Assembleia da República. “O acordo da esquerda não pode ser um Frankenstein keynesiano-leninista colado a cuspo. O acordo da esquerda não pode ser uma fraude intelectual. O acordo da esquerda não pode ser um discurso de Miss Universo, composto em exclusivo de suspiros por um mundo melhor.” Ora, o acordo de esquerda, que não é sequer um acordo mas três desacordos, é tudo isto, mas em pior. E só mesmo a carneirização da pátria e o nosso notável talento para ir atrás do primeiro flautista de Hamelin que se atravessa no caminho é que pode conduzir à suspensão, tanto à direita como à esquerda, dos mais básicos critérios de exigência intelectual e de honestidade política, e a uma espécie de aceitação conformada da inevitabilidade de António Costa ter de vir a ser indigitado primeiro-ministro.", "A opção de Cavaco não tem de ser um governo de gestão, nem de iniciativa presidencial. O que ele tem de fazer é ater-se aos critérios de solidez e estabilidade que enunciou e pedir a António Costa para parar de brincar connosco e assinar alguma coisa séria, se quer ser primeiro-ministro. Aceitar aqueles três desacordos daria uma grande felicidade à esquerda. Mas transformaria o presidente da República num triste notário, obrigado a carimbar qualquer papel que lhe pusessem à frente. A bem da salubridade do regime, não pode ser." O palavreado pretensamente irrefutável (o homem mostra-se arrogante e vaidoso no tal "Governo Sombra" e provoca permanentemente o Ricardo, querendo-se fazer passar por humorista também...Pobrezito!) resume-se ao mesmo que a direita trauliteira apregoa desesperada: Governo de esquerda nunca, jamais!
Nestes meandros sinuosos vão certos "liberais" desvelando a sua ideologia reaccionária. Anti-humanista se quisermos confrontá-la com as misérias que os trabalhadores têm sofrido nestes últimos quatro anos. O que é ser liberal hoje?
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Os produtos com que a Monsanto contamina o planeta
O envenenamento do meio
ambiente e de populações com PCB's, a aplicação massiva de Agente
Laranja no Vietname, os perigos para a saúde pública causados pela
hormona de crescimento bovino, a contaminação de culturas pelos OGM ou
os efeitos do herbicida Roundup nas células humanas são algumas das
matérias que a Monsanto procura branquear a todo o custo.
23 de Março, 2014 - 13:00h

Foto eco-logical photography/Flickr (recortada)
Tentando, por todos os meios - manipulação de estudos, técnicas de marketing agressivas, entre outros -, limpar a sua imagem, a Monsanto auto intitula-se como “uma companhia de agricultura sustentável”i com o objetivo "produzir melhores alimentos para os consumidores e uma melhor alimentação para os animais".
A empresa oculta da sua históriaii “pequenos pormenores”, como as consequências profundamente dramáticas para o meio ambiente e a saúde pública da produção de PCB's, a contaminação de vietnamitas e veteranos de guerra com o Agente Laranja ou a toxicidade do Roundup, o herbicida que se transformou numa mina de ouro.
PCB's: Consequências dramáticas para o meio ambiente e a saúde pública
Cerca de 99% dos PCB'siii utilizados nos EUA foram produzidos pela Monsanto na sua fábrica de Sauget, em Illinois - que apresenta a taxa mais elevada de morte fetal e de nascimentos prematuros do estadoiv -, até terem sido totalmente proibidos pelo Congresso norte americano em 1976.
Estes compostos, produzidos desde 1930 e utilizados como refrigerantes e lubrificantes em equipamentos elétricos, são cancerígenos, e têm efeitos prejudiciais para o fígado, sistema endócrino, sistema imunológico, sistema reprodutor, sistema de desenvolvimento, pele, olhos e cérebrov.
Em janeiro de 2002, o jornalista Michael Grunwald, do Washington Post, descrevia no seu artigo, intitulado “Monsanto Hid Decades of Pollution”, a forma como, durante cerca de quatro décadas, a Monsanto envenenou a população de Anniston, despejando regularmente lixo tóxico num riacho na zona Oeste desta pequena cidade americana.
Em 1966, os administradores da Monsanto aperceberam-se que os peixes do riacho estavam a morrer. Três anos depois, encontraram peixes noutro riacho com 7.500 vezes os níveis legais de PCB's. Em 1975, um estudo verificou que os PCB's causavam tumores em ratos. Os responsáveis da Monsanto ordenaram a alteração dos resultados.
Vários memorandos internos, classificados como “confidenciais” comprovam que a Monsanto sabia quais as consequências das suas práticas, mas isso não a impediu de lucrar durante quatro décadas com a produção de PCB's. "Nós não nos podemos dar ao luxo de perder um dólar de negócios", frisava um dos documentos.
As indemnizações pagas décadas depois representaram somente uma pequena fração dos lucros, demonstrando que, de facto, o crime compensou.
Quase 30 anos depois de os PCB's serem proibidos nos EUA, continuam a aparecer no sangue de mulheres grávidas, conforme avança um estudo de 2011 da Universidade da Califórnia, em San Francisco. Outras pesquisas apontam um paralelo entre PCB's e autismo.
DDT: O inseticida proibido nos EUA em 1972
Em 1944, a Monsanto tornou-se num dos primeiros fabricantes do pesticida DDT, utilizado para combater os mosquitos transmissores da malária e do tifo e que foi massivamente utilizado na agricultura.
Ainda que durante décadas a Monsanto tenha assegurado veementemente que o DDT era seguro, em 1972, o inseticida foi proibido em todo os EUA, após terem ficado provados os verdadeiros efeitos da toxicidade do produto.
No livro Silent Spring a bióloga norte Americana Rachel Carson demonstra como o DDT pode provocar cancro em seres humanos e interfere com a vida animal, causando, por exemplo, o aumento de mortalidade entre os pássaros. Carson chegou a comparar o efeito das pulverizações massivas de DDT ao de uma nova bomba atómica. Vários estudos assinalaram que o DDT estava a matar vários insetos inofensivos essenciais para os ecossistemas e o pesticida chegou a ser responsabilizado pela quase extinção de, pelo menos, uma ave, o falcão-peregrino.
Em 23 de maio de 2001, 122 países assinaram a Convenção de Estocolmo sobre poluentes orgânicos persistentes (POPs), com o objetivo de eliminar uma lista inicial de 12 substâncias tóxicas, na qual se incluía o DDT.
Desenvolvimento das primeiras armas nucleares
Pouco depois de adquirir, em 1936, a Thomas e Hochwalt Laboratories, em Dayton , Ohio, a Monsanto transformou esta divisão no seu Departamento de Investigação Central, que, entre 1943 e 1945, teve uma participação significativa no Projeto Manhattan, cujo objetivo era desenvolver a primeira bomba atómica.
O Dr. Charles Thomas, que veio a assumir a presidência da Monsanto, era responsável pela purificação final do plutónio e esteve presente no primeiro teste de explosão da bomba atómica.
Utilização do Agente Laranja aos EUA durante a Guerra do Vietname
Entre 1961 e 1971, a Monsanto forneceu Agente Laranjavi, resultante da combinação entre os herbicidas 2,4-D e 2, 4, 5-T, ao exército norte americano, que o utilizou para desfolhar as árvores da selva tropical do Vietname durante a guerra. Os cerca de 80 milhões de litros deste desfolhante despejados no país pela Força Aérea dos EUA foram contaminados com dioxina, uma substância altamente tóxica e cancerígena criada como um subproduto do processo de fabrico do Agente Laranjavii.
Até hoje, a utilização do desfolhante durante a Guerra do Vietname traduz-se em consequências devastadoras para a população vietnamita e para os veteranos de guerra norte americanos, que vieram a processar a Monsanto.
Os Veteranos do Vietname da América identificaram pelo menos 50 doenças associadas à exposição ao Agente Laranja, bem como 20 tipos de defeitos de nascençaviii.
Segundo a Rede de Agricultura Sustentável (RAS)ix, algumas estimativas dão conta da existência de mais de 500 mil crianças nascidas no Vietname desde os anos 60 com deformidades relacionadas à dioxina contida no Agente Laranja.
A RAS refere ainda que uma ação judicial, originada pela denuncia de trabalhadores ferroviários expostos a dioxinas em consequência de um descarrilamento, evidenciou a manipulação de estudos para apoiar a posição da Monsanto. Um funcionário da Agência de Proteção Ambiental Americana (EPA) chegou à conclusão que os estudos foram manipulados por forma a levarem a crer que os efeitos da dioxina se limitava à cloroacne - uma enfermidade da pele. A Monsanto acabou por ser multada em 16 milhões de dólares, verificando-se ainda que muito dos produtos da empresa estavam contaminados por dioxina.
No artigo “A Obscura História da Monsanto”x, publicado pela RAS, é também citado um memorando da Dra. Cate Jenkins, da EPA, de 1990, onde se pode ler que "a Monsanto remeteu informações falsas à EPA”. “A empresa adulterou amostras de herbicida que remeteram ao Departamento do Ministério da Agricultura dos EUA para registar o 2,4-D e vários clorofenóis; ocultou provas sobre a contaminação do Lysol, além de excluir centenas dos seus antigos trabalhadores doentes dos seus estudos comparados de saúde”, avança a RAS.
BST: Degradação da saúde dos animais e perigo para a saúde pública
Em 1993, a Monsanto conseguiu a aprovação, por parte da Food and Drug Administration (FDA), da comercialização da BST, uma substância com efeito hormonal utilizada para fazer aumentar, entre 10% a 20%, a lactação nas vacas.
Em 1994, o Government Accountability Office (GAO) chegou a promover uma investigação a três funcionários da FDA envolvidos na aprovação da BST, por existirem suspeitas de conflito de interesses. Michael Taylor, Margaret Miller e Suzanne Sechen estiveram envolvidos nos estudos iniciais da Monsanto sobre a BST, tendo mais tarde vindo a integrar a FDA e a avaliar esses mesmos estudos. Ainda que tenham ficado perfeitamente demonstradas as inúmeras ligações entre a Monsanto e a FDA, o GAO acabou por concluir que nenhum destes funcionários tinha violado qualquer regra sobre conflito de interesses, defendendo não existir base legal para qualquer processoxi.
Um estudo da comissão científica da União Europeia veio, entretanto, a concluir que a utilização da BST aumenta substancialmente a incidência de problemas de saúde nos animais, entre os quais problemas nas patas, processos infecciosos agudos das glândulas mamárias (mastite) e doenças do aparelho reprodutor. No caso das vacas com mastite, o leite produzido apresenta pus, sendo que são administrados antibióticos que trazem problemas para os animais e enormes perigos sobre os seres humanosxii.
Por outro lado, quando se administra BST na vaca é estimulada a produção de outra hormona, o Fator de Crescimento 1 (IGF1). Em 1996, um estudo da Universidade de Illinois, Chicago, mostrou que as concentrações de IGF1 que se verificam no leite das vacas tratadas com a BST multiplicam por quatro o risco de cancro da próstata nos homens e por sete o risco de cancro da mama nas mulheresxiii.
A partir de 1999, a BST começou a ser proibida em vários países: primeiro no Canadá, depois na Austrália, na Nova Zelândia, no Japão, em Israel e em toda a União Europeia.
Em 2000, a BST já se tinha tornado no produto farmacêutico mais vendido na história da indústria de laticíniosxiv.
Sacarina: Um produto cancerígeno?
No início da sua atividade, a Monsanto dedicou-se à produção do adoçante sacarina. Em pouco tempo, a empresa tornou-se na principal fornecedora de matérias primas da Coca-Cola.
Em 1977, a Food and Drug Administration (FDA) tentou retirar a sacarina do mercado após Arnold D.L. e outros autores terem assinalado que este produto induzia cancro da bexiga. Esta mesma conclusão foi corroborada, em 1980, num estudo do National Cancer Institute, que assinalou ainda que a sacarina produzia também vários outros tipos de tumores em ratos. Em 1981, a sacarina foi, inclusive, incluída na lista de substâncias carcinogénicas em humanos da NTP National Toxicology Program (NTP).
A sacarina continuou, contudo, a ser comercializada, mediante a pressão da indústria de alimentos dietéticos e dos próprios consumidores exibindo, contudo, e até ao final da década de 90, uma advertência com a indicação de que tinha apresentado sinais cancerígenos.
Posteriormente, alguns estudos revelaram que os resultados dos estudos apenas se aplicavam a ratos, na medida em que os tumores nestes animais se deviam a um mecanismo não relevante em humanos. Em 2000, esta substância foi retirada da lista de substâncias carcinogénicas.
Vários cientistas desaconselharam a retirada da sacarina desta lista. O documento oficial tem, até à data, a seguinte redação: "embora seja impossível concluir com certeza que não representa uma ameaça para a saúde humana, não se pode afirmar razoavelmente que a sacarina sódica é um carcinógeno humano em condições de uso geral como um adoçante artificial”.
OGM: Contaminação de culturas e perseguição aos agricultores
Os Organismos Geneticamente Modificados (OGM) são organismos cujo material genético foi manipulado de modo a favorecer alguma característica desejada. No caso das sementes produzidas pela Monsanto, as mesmas foram geneticamente modificadas por forma a repelirem pragas ou a resistirem exclusivamente aos herbicidas comercializados pela empresa.
O milho transgénico, por exemplo, liberta um forte inseticida que não só aniquila os insetos passíveis de destruir as colheitas como também aqueles que lhes são benéficos, e essenciais para os ecossistemas, como borboletas e abelhas.
Uma das preocupações no que se refere ao cultivo de plantas transgénicas prende-se com a polinização cruzada entre estas espécies e as espécies nativas ou as culturas que não foram manipuladas geneticamente. O pólen transportado por insetos ou pelo vento pode implicar a contaminação de campos situados até dezenas de quilómetros, dependendo da distância percorrida pelo mesmo e da própria planta em causa.
Esta contaminação pode ter consequências bastante preocupantes. Em meados dos anos 90, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) descobriu que o milho Starlink, da empresa Aventis, era alergénico, interditando a sua comercialização para consumo humano. Contudo, entre 2000 e 2001, foram recolhidos mais de 300 produtos alimentares que continham traços do produto e 44 pessoas queixaram-se de reações alérgicas como consequência do consumo desses alimentosxv.
Por forma a espalhar a sua tecnologia por todo o mercado de fornecimento de sementes, a Monsanto não só comercializa as suas próprias sementes patenteadas, como também, tal como refere o Food & Water Watchxvi, utiliza acordos de licenciamento com outras empresas e distribuidores permitindo, nomeadamente, que a concorrência utilize características genéticas desenvolvidas pela Monsanto nos seus produtos.
Em documentários como "Food, Inc." e "The Future of Food" é abordada a perseguição da Monsanto contra os agricultores. A Monsanto não se coíbe de processar pequenos agricultores por quebrarem o acordo de licenciamento da tecnologia da empresa ao qual se vinculam quando, tão simplesmente, adquirem um saco de sementes da multinacional.
Este acordo estipula, por exemplo, que os agricultores não podem guardar e replantar as sementes e são responsáveis pelo acompanhamento de todos os procedimentos incluídos no Guia de Utilização da Tecnologia da Monsanto, bem como que a Monsanto pode investigar as plantações dos agricultores e aceder aos seus registos na USDA Farm Service Agency. A Monsanto criou, inclusive, uma linha gratuita para que qualquer cidadão possa denunciar os agricultores que utilizam a tecnologia da Monsanto sem licençaxvii.
Não só os agricultores que adquiriram produtos da Monsanto são alvo de processos como também aqueles que, inadvertidamente, acabam por encontrar características genéticas desenvolvidas pela empresa nas suas culturas graças à polinização cruzada.
As mais valias tão propaladas do cultivo de OGM, como aumentar a produtividade ou diminuir a necessidade da aplicação de pesticidas e herbicidas, têm vindo a ser desmentidas pela comunidade científica. Ao invés de "produzir melhores alimentos para os consumidores e uma melhor alimentação para os animais", a Monsanto procura encher os seus cofres impondo uma alteração radical dos sistemas agrícolas a nível mundial e dos hábitos alimentares das populações.
Em 2009, os produtos da Monsanto cresciam em 282 hectares a nível mundial e em 40% da área cultivada nos EUA. Perto de 93% de toda a plantação de soja e 80% da plantação do milho nos EUA foram cultivadas com sementes contendo material genético patenteado pela Monsantoxviii. A Monsanto controla mais de 90 por cento da produção de OGM no mundo.
A expansão da utilização de OGM traduz-se na perda permanente de biodiversidade e numa ameaça à soberania e segurança alimentar, principalmente nos países mais pobres, onde as populações sobrevivem à custa da conservação de sementes.
Roundup: O veneno que se transformou numa mina de ouro
Criando sementes transgénicas que resistem unicamente a este herbicida, a Monsanto obriga os agricultores a adquirir o Roundup, tornando a sua comercialização numa verdadeira mina de ouro. Em 2011, as vendas do Roundup e de outros herbicidas representaram 27 por cento do total das vendas líquidas da Monsanto.
No documentário “O Mundo Segundo a Monsanto”, Marie-Monique Robin reproduz a peça publicitária na qual a Monsanto apresenta o Roundup, como um produto “biodegradável, (que) deixa o solo limpo e respeita o meio ambiente”. “O glifosfato é menos tóxico para os ratos do que o sal de mesa ingerido em grande quantidade” , acrescenta a Monsanto, esquecendo-se de referir que o Roundap é muito mais tóxico na sua fórmula global.
Na realidade, os estudos que justificaram a homologação do Roundup foram produzidos somente com base na análise do princípio ativo, não sendo tidas em conta as características da fórmula final.
O professor Robert Bellé, do Centro Nacional de Investigação Científica francês, citado por Robin, concluiu que o Roundap desencadeia a primeira etapa que pode conduzir a situações de cancro 30 a 40 anos mais tarde. “O Roundap é um assassino de embriões e em concentrações mais fracas é um perturbador endócrino para os fetos”, escreveu.
Gilles-Eric Seralini, professor de biologia molecular na Universidad de Caen (Francia), que desenvolveu várias investigações para a Comissão Europeia sobre os efeitos dos alimentos transgénicos na saúde, foi taxativo quanto aos efeitos do Roundup nas células humanas: “mata-as diretamente”xix.
Vários estudosxx têm associado ainda a utilização do Roundup ao desenvolvimento de problemas do sistema reprodutor.
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