quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

FÁBULAS – SARA



FÁBULAS – SARA
Vasco de Espinosa fora meu condiscípulo no Liceu de António Enes, na então Lourenço Marques. Adolescente, embora, era já alto, quase gordo (este “quase” perdê-lo-ia com a idade), eu mal lhe dava pelos ombros. Vasco tinha uns olhos escuros e mansos, inteligentes e constantemente observadores. Nada neles havia de astúcia ou “esperteza”. Leal na amizade mas teimoso como uma mula. Verbo fácil mas seco, frases enxutas até ao osso, de sintaxe perfeita. Encarava-me fixamente quando falava, enquanto eu, ao invés, fixava um ponto inalcançável no horizonte e ali me quedava. Enquanto eu jogava o jogo das metáforas e metonímias, ele encadeava os raciocínios à maneira dos geómetras. Dizia que o método dos geómetras era o único que permitia escapar aos preconceitos: “ E só esta razão teria por certo bastado para que a verdade permanecesse para sempre oculta para o género humano, se a matemática, que se ocupa não dos fins, mas das essências e das propriedades das figuras, não tivesse mostrado aos homens uma outra verdade.”
Quando pelo meu emérito professor de filosofia, de nome Cansado Gonçalves, banido para a colónia pelo Salazar, ouvi falar de Baruch Espinosa, o filósofo judeu holandês filho de portugueses, questionei o Vasco sobre as suas origens. Que sim, muito provavelmente descendia de um primo de Baruch, marrano que se instalara cautelosamente no Alto Douro, conforme seu pai investigara em arquivos. Havia até em casa uma reprodução emoldurada de um célebre retrato do “Príncipe dos filósofos”. Percebi então que ele citava de memória trechos das obras do judeu “embriagado de Deus” como alguém o descreveu. E que os seus olhos evocavam os grandes olhos de Baruch, no retrato, o prenúncio de um sorriso indecifrável.
Adolescentes, namorámos à vez a mesma moça. Primeiramente eu, depois ele. Sara era uma morenita de belíssimos olhos verdes (por causa deles chamavam-lhe no Liceu a “Soraya”, fulgurante esposa do Xá da Pérsia), uma doçura em pessoa, que os pais, de origem modesta, vigiavam à maneira antiga sem motivo algum que não fosse a inferioridade protegida das mulheres. Troquei-a (terrível expressão!) sem apelo e muito agravo por um mocetona de olhos celestes e cabelos de trigo maduro, nem mais inteligente, nem melhor pessoa, apenas atrevida e irremediavelmente sedutora. Mergulhei uns parcos meses nas ondas oceânicas da perdição. Largou-me com a tranquilidade esfíngica de Afrodite e passou-se com armas e bagagens para os braços atléticos de um campeão de basquetebol. Quando quis regressar à espuma de açúcar da Sara, com a corda ao pescoço como o Egas Moniz, fez-se tarde: já o Vasco se enamorara dela (suspeitei que sempre estivera enamorado) e reciprocamente julgo eu.
Até ao termo dos estudos liceais convivemos puco, talvez por essa razão. Via-os sempre juntos e isso não me dava jeito nenhum. Contudo, conversávamos durante e após algumas palestras a que assistíamos sobre cinema ou teatro (artes muito frequentadas na cidade, ao tempo do crítico Eugénio Lisboa e do saudoso Mário Barradas). A propósito de assuntos que viramos tratados em filmes ou livros, lembro-me de alguns ditos dele: “Todos os preconceitos (…) dependem de um só, os homens supõem comummente que todas as coisas naturais agem como eles próprios, tendo em vista um fim e, mais ainda, consideram coisa certa que o próprio Deus tudo dispõe em vista de um determinado fim, pois dizem que Deus fez todas as coisas para o homem (…) todos os homens nascem ignorantes das causas das coisas e todos têm vontade de buscar o que lhes é útil, disso tendo consciência. Daqui decorre, em primeiro lugar, que os homens se julgam livres, porque têm consciência da sua volição e do seu apetite, e que não cuidam, nem mesmo em sonhos, das causas que os predispõem a desejar e a querer, posto que as ignoram. Decorre, em segundo lugar, que os homens agem tendo em vista um fim, ou seja, tendo em vista o que de útil desejam (…) Além disso, encontram em si próprios e fora de si próprios um grande número de meios que lhes servem excelentemente para obter o que lhes é útil (…) Acabam assim por considerar todas as coisas naturais como meios ao serviço da sua própria utilização.” Creem-se meios para Deus e tomam Este como um meio.
O tempo passou. Vim estudar Letras para a Metrópole, o Vasco ingressou em Engenharia, aluno que fora excecional nas matemáticas. Envolvi-me na urgência de um combate contra a ditadura, combate que se afigurava mais legítimo que o imperativo categórico de Kant. Renunciei a prazeres da juventude para não perder tempo nem vacilar, esticando a corda da “ potência de ação” até ao limite da minha natureza, diria Espinosa. Quando após um fatídico desastre de automóvel estive internado seis meses num hospital, recebi a visita do Vasco. Estava mais alto, mais gordo, mais inteligente. Como eu me encontrava detido sob a vigilância da PIDE, evitou-se falar de política. Apenas proferiu estra sentença que bem lembro: “ Ao homem nada é mais útil do que o homem; os homens (…) nada podem desejar de melhor para conservarem o seu ser do que estarem todos de acordo sobre todas as coisas, de tal maneira que os espíritos e os corpos de todos componham por assim dizer um único espírito e um único corpo, e todos se esforcem ao mesmo tempo, tanto quanto possam, por conservarem o seu ser, e todos procurem ao mesmo tempo o que é útil a todos”. Tens escutas aqui no quarto do hospital? - Não, as enfermeiras já vistoriaram tudo. Então, disse subtilmente, bem a seu modo: a causa essencial da degradação dos Estados reside na corrupção das leis que preservam a igualdade e a liberdade, e de que quanto maior é a liberdade melhor se defende a segurança do Estado e a sua estabilidade. Na Democracia autêntica, os cidadãos ao delegarem no Estado direitos e deveres não perdem, por isso, os seus direitos naturais, são tanto mais ativos e criadores quanto mais o Estado preservar a liberdade e a segurança de todos. E os deveres? - Pois, está por redigir-se uma Declaração Universal dos Deveres do Homem e do Cidadão, retorquiu.
Meses depois de ter alta do hospital, apoiado em muletas, a PIDE veio prender-me em casa pelas sete horas da manhã. Nessa primeira prisão não festejei o Natal e o Ano Novo, enjaulado nos calabouços da Rua do Heroísmo, na cidade do Porto. Algum tempo após esse “batismo de fogo” encontrava-me eu no Café Ceuta que os antifascistas frequentavam e nele se distribuíam panfletos escondidos em livros de estudo quando me apareceu o Vasco. Vinha saber do meu estado de saúde e de ânimo. Dessa conversa recordo o seguinte dito: “Todo o homem sofre afeções e, sobre elas, afetos. Chama-se desejo quando tem consciência dos apetites, esse é o seu estado comum e natural. Todos nós temos tendência para ser, ou seja, para agir, e devemos distinguir entre os afetos aqueles que aumentam a nossa potência de agir, ou, pelo contrário, a diminuem. Daí resulta que a nossa luta é sempre entre a submissão e a liberdade. Encontramo-nos sempre submetidos a paixões como parte da natureza que somos. Quando o corpo encontra outros corpos que se adequam à nossa natureza, sentimos alegria; em caso contrário, é tristeza que sentimos, ou ódio, ou inveja; o amor é a alegria acompanhada pela ideia de uma causa exterior que realiza um encontro positivo; a esperança, alegria inconstante, nascida da imagem de uma coisa futura ou passada cujo desfecho nos parece duvidoso; e é o medo o sentimento mais comum e com o qual aqueles que nos submetem nos manipulam.
Em suma: Sara, de olhos oceânicos, fora para o meu amigo o tal raro “encontro adequado”.
Vasco convidou-me para o seu casamento. Com Sara evidentemente. Realizou-se no restaurante panorâmico no Bom Jesus do Monte, Braga. Pude dizer que ambos se mostravam abençoados por uma “paixão alegre”.
Cada um seguiu o destino que escolheu “com a sua circunstância”. De quando em vez ia sabendo dos sucessos do amigo Vasco na sua qualidade de engenheiro. Dirigia obras espetaculares nos quatro cantos do planeta. Imaginava-o no seu vasto ateliê, compenetrado, a tentar descobrir os materiais mais revolucionários, exatos, perfeitos, expressões criadoras da Razão, capazes de vencer todos e quaisquer “constrangimentos externos”, à maneira do seu ilustríssimo primo. A sua bela Sara a chamá-lo para o jantar e ele, distraído dos prazeres mundanos, a teimar penetrar nos segredos do infinitamente pequeno. A paixão da Razão.
Dez anos depois esperava-me em casa uma missiva do Vasco. Duas curtas frases, em letra firme e geométrica: “Sara morreu-me. Doença incurável. Vou residir para o Brasil onde o meu trabalho é reconhecido. Até sempre meu amigo.”
Nunca mais soube nada dele. Até que, certo dia, à beira da passagem do milénio, estava eu em casa rememorando a ÉTICA de Espinosa, minha mulher mostrou-me a página de um jornal onde se lia: “Faleceu o engenheiro Vasco de Espinosa. O funeral realiza-se amanhã pelas 10h. “ Em cima uma fotografia.
Vasco teria regressado a Portugal e eu ignorava! Talvez sabendo-se sofrer de doença incurável veio para a sua pátria para morrer. Fui. Algumas dezenas de pessoas acompanharam o féretro para o Cemitério dos Prazeres. Deixei-me ficar postado a um canto vendo os grupos escoarem-se aos poucos. Chuviscava. O sol, indiferente na sua natureza, não lhe prestou homenagem. Ao dirigir-me para o carro fui interpelado por um indivíduo envergando um fato austero de ocasião, óculos escuros, que me perguntou delicadamente se eu era…(disse o nome), aquiesci, e desfechou-me esta seta mortal: “ O falecido era muito seu amigo. Eu sou, quero dizer, fui, o seu advogado desde sempre. Um mês antes da sua morte, Vasco pediu-me que fosse o senhor a tratar do destino da sua biblioteca e escritos. Acha-se capaz dessa tarefa?”. Fiquei abismado. Estive demasiado tempo a olhar fixamente o indivíduo para acreditar no que ouvia, por fim consegui balbuciar: De que morreu o Vasco? Doença fulminante? Sofreu muito? O homem desenhou a custo um sorriso triste e redarguiu com estas palavras misteriosas: “Morreu…ou deixou-se morrer simplesmente.” Talvez se tenha matado, pressenti. Trágico fim para um espinosista que tem o suicídio como um ato absurdo, na medida em que não existe em nós força maior do que conservar o nosso próprio ser, e o verdadeiro filósofo pensa mais na vida do que na morte …
Logo que pude dirigi-me à morada que me fora indicada, moradia de arquitetura sóbria mas elegante, ao redor um amplo jardim abandonado. O escritório: enorme ateliê, milhares de livros e dossiês. Procurei horas a fio o que ansiosamente buscava: Cadernos onde se espelhariam os frutos revolucionários de uma mente excecional, equações e cálculos matemáticos a que eu me vergaria impotente, construções utópicas, nanotecnologias de ponta, realidades virtuais com as quais deixaríamos de saber qual seja a verdadeira, pontes visionárias e réplicas exatas de órgãos humanos…
Encontrei. Eram dezenas de pastas contendo folhas soltas. Li na primeira: “Sara”. Li na segunda, terceira, centésima: “Sara”. Em todas elas uma data. Nada mais do que isto. O sentido da vida. Um nome.
Um nome para a eternidade.
NOZES PIRES


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Magalhães-Vilhena: um marxista erudito – e não só

Saiba o meu eventual leitor, desde já, que dois motivos me levam a trazer à baila o nome de Vasco de Magalhães-Vilhena (1916-1993), no instante mesmo em que localizo, entre meus velhos livros, a sua obra – seminal e clássica – sobre Sócrates (e Platão). O primeiro motivo é lembrar que, neste ano, decorrerá o centenário de nascimento do filósofo, quando certamente os círculos mais lúcidos da cultura portuguesa (e não apenas dela) haverão de homenageá-lo devidamente; o segundo é registrar a recente publicação de um conjunto de apontamentos seus acerca de uma questão central do pensamento marxista, a questão da ideologia.
Devo confessar que a minha primeira aproximação à obra de Magalhães-Vilhena não foi propriamente das mais fecundas – e agora, corrido tanto tempo, ouso desculpar-me pela leitura pouco produtiva invocando a (in)desculpável ignorância filosófica dos meus verdes anos… Aconteceu na década de 1960 o meu contacto inicial com o pensamento de Magalhães-Vilhena: então, em Belo Horizonte (num espaço livreiro que não sei se ainda existe – na minha memória ficou algo como “Livraria J. M. Gomes”, que vendia livros novos e usados, instalado em sala de um prédio da Rua da Bahia), deparei-me com um exemplar do seu Le problème de Socrate e logo o comprei. Retornando dias depois àquela livraria, pude adquirir Socrate et la légende platonicienne (ambos os livros publicados em Paris, em 1952, pelas Presses Universitaires de France; estão hoje traduzidos sob os títulos O problema de Sócrates e Platão e a lenda socrática, editados pela Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, respectivamente em 1984 e 1998). Seguramente já imagina o leitor que sobra dizer que o estudante pouco letrado percorreu com avidez e com a atenção possível os dois volumes… mas aproveitou pouquíssimo, ou quase nada, do que continham aquelas largas centenas de páginas.
Somente uns anos mais tarde, com uma cuidadosa releitura, pude ter alguma consciência da relevância desses textos de Magalhães-Vilhena – resultantes, com efeito, da sua tese de doutoramento (defendida em 1949, na Sorbonne), tese que o tornou reconhecido como um qualificado analista da filosofia antiga: em 1954, foi agraciado com o máximo prêmio da Association des Études Grecques, respeitada instituição ligada à academia francesa. Aquela releitura, feita ao fim do primeiro terço dos anos 1970, fixou para mim a imagem de Magalhães-Vilhena como um notável erudito, cuidadoso pesquisador marxista que revolucionou com brilhantismo a visão tradicionalmente estabelecida de um capítulo extremamente significativo da filosofia ocidental.
magalhaes vilhena socrates
Essa imagem, embora com elementos de verdade, logo se revelaria unilateral, como pude verificar no período em que estive trabalhando em Portugal, na sequência da Revolução dos Cravos. Só então constatei que Magalhães-Vilhena foi muito mais que um erudito: foi, sem qualquer prejuízo do seu específico trabalho acadêmico, antes estimulando-o, um exemplar militante comunista – na década de 1930, muito jovem, já ingressara no Partido Comunista Português/PCP, em cujas fileiras haveria de permanecer até à morte.
Obrigado ao exílio em 1945, quando foi excluído do corpo docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (lecionava então a disciplina História da Filosofia Antiga), radicou-se em Paris; aí se doutorou e construiu sólida carreira intelectual, vinculando-se, na Sorbonne, ao Centre de Recherches sur la Pensée Antique (1946-1974) e ao Centre National de la Recherche Scientifique (1947-1967). Com o processo revolucionário aberto pelo 25 de Abril, pôde enfim retornar a Portugal, assumindo uma cátedra na Universidade de Lisboa, na qual se aposentou em 1980, por razões de saúde. Ao longo das três décadas de exílio, nunca esmoreceu na luta antifascista: integrado na ação do PCP no exterior, denunciou corajosa e sistematicamente o regime de Salazar e, desde 1950, atuou no Conselho Mundial da Paz.
No seu regresso a Portugal, a intelectualidade marxista mais jovem já tinha em Magalhães-Vilhena o seu maître à penser, de um lado pelo seu descortínio no trato da história da filosofia (expresso na obra coletiva que organizou e que a censura fascista não pôde impedir de circular: Panorama do pensamento filosófico. Lisboa: Cosmos, I-II-III, 1956, 1958 e 1960) e, doutro lado e sobretudo, pelo seu seguríssimo domínio da textualidade de Marx e Engels (atestada, por exemplo, na sua intervenção à edição do Manifesto do partido comunista. Lisboa: Avante!, 1975). Ademais, figuras daquela intelectualidade, também forçadas ao exílio, haviam anteriormente contactado com Magalhães-Vilhena e com ele estabelecido relações de colaboração científica que prosseguiriam no Portugal libertado em abril de 1974 – com destaque para Eduardo Chitas (1937-2011) e Hernâni Resende (1942), que responderiam com zelo por parte do seu espólio literário.
O grande segmento já de conhecimento público do espólio de Magalhães-Vilhena documenta que a sua obra não se restringe, absolutamente, aos limites da erudição acadêmica própria ao especialista que ele foi da filosofia antiga (com muitos outros desenvolvimentos para além da sua tese de 1949). O filósofo discutiu Bacon e Hegel, polemizou com figuras decisivas do pensamento português do século XX (p. ex., com Antônio Sérgio) e tematizou questões epistemológicas de interesse contemporâneo.* Entretanto, parte desse espólio – conservado por sua companheira, Hélène Lanièce de Magalhães-Vilhena, falecida em 1996, e em seguida entregue aos cuidados do PCP – contém ainda materiais inéditos. E agora, nestas últimas linhas, o meu eventual leitor tem o segundo motivo que me leva a recordar Magalhães-Vilhena.
Poucos anos antes de sua morte precoce e inesperada, Eduardo Chitas ocupava-se de examinar originais constantes do espólio de Magalhães-Vilhena, com atenção especial a textos eventualmente inéditos. Chitas, prestigiado professor da Universidade de Lisboa – um dos fundadores do Grupo de estudos marxistas/GEM, que nucleia pesquisadores marxistas e já é bem conhecido pelos seminários internacionais que promove em Lisboa (os colóquios Marx em maio) –, convocou para trabalhar com ele no exame mencionado o jovem filósofo João Vasco Fagundes, ativo membro do GEM (é autor de um ensaio precioso: A dialética do abstrato e do concreto em Karl Marx. Lisboa: GEM, 2014). Entre os vários materiais inéditos que chamaram a atenção de ambos estava um original, redigido em francês e vazado em 135 páginas datilografadas; nelas, provavelmente escritas em meados dos anos 1960, Magalhães-Vilhena, deixando sem título o texto, aponta o seu objeto com a seguinte notação: “Ideologia e sociedade; ideologia e ciência; papel da ideologia na direção científica dos processos sociais”.
magalhaes v livros
Pois é este o material que foi há pouco publicado, em volume intitulado Fragmentos sobre ideologia (Lisboa: GEM, 2015). A confiável tradução é de João Vasco Fagundes, que manteve a estrutura expositiva formalmente assistemática do original, apôs-lhe notas esclarecedoras e antecedeu-a com um longo (quase 40 páginas) e eficiente prefácio. Nele, Fagundes não apenas dá conta dos procedimentos de que se valeu para editar o texto, socorrendo-se inclusive do recurso a outras obras de Magalhães-Vilhena; especialmente sustenta, com argumentação persuasiva, que o caráter formalmente assistemático da exposição (donde, no título, a referência a fragmentos), provavelmente devido ao seu inacabamento, não impede que nas reflexões constitutivas do volume se patenteie “um conteúdo recheado de sistematicidade”, evidenciando “uma concepção de fundo que lhes oferece [aos fragmentos] nexo e coerência” (p. XIX). E, a meu juízo, a leitura cuidadosa dos apontamentos de Magalhães-Vilhena demonstra que esta interpretação de Fagundes é procedente.
O importante, todavia, é considerar aquele “conteúdo” e aquela “concepção de fundo” que as reflexões de Magalhães-Vilhena extraem e inferem da minuciosa análise textual dos “pais fundadores” (os “clássicos” Marx e Engels, mas também Lenin), análise que combina criticamente o trato imanente da escritura “clássica” com a abertura à sua historicidade histórico-cultural concreta. Das elaborações de Magalhães-Vilhena resultam determinações essenciais – portanto, atuais – para a dilucidação da ideologia, de suas relações com a ciência e de sua funcionalidade social.
Resumidamente, o certo é que a leitura desses Fragmentos sobre ideologia, na passagem do centenário de nascimento de Vasco de Magalhães-Vilhena, permite compreender por que o insigne marxista português ainda permanece um maître à penser – para todos nós.
NOTAS
* Remeto o leitor interessado na biobibliografia de Magalhães-Vilhena aos vários trabalhos contidos em E. Chitas e H. Resende, coords., Filosofia. História. Conhecimento. Homenagem a Vasco de Magalhães-Vilhena. Lisboa: Caminho, 1980. Posteriormente, tanto Eduardo Chitas quanto Hernâni Resende publicaram textos referidos a seu mestre comum.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Apontamento sobre a metamorfose de Pacheco Pereira

Miguel Urbano Rodrigues
14.Jan.16 :: Colaboradores
O 4º tomo da biografia política de Álvaro Cunhal é, como os anteriores, uma obra semeada de contradições. É entretanto indiscutível que Pacheco Pereira realizou um importante trabalho de investigação, sem precedentes no tocante ao tema. Contém erros, deturpações, omissões, juízos de pessoas e análises (para mim inaceitáveis) de acontecimentos históricos. Umas vezes por atribuir crédito a fontes que o não justificam, outras por insuficiente ou deficiente informação, como sucede nomeadamente com a posição do PCP face à guerra colonial e o muito importante trabalho político desenvolvido pelos antifascistas exilados no Brasil.

O 4º tomo da obra biográfica que Pacheco Pereira dedicou a Álvaro Cunhal recebeu da intelectualidade burguesa um coro de elogios muito superior ao que ela dispensara aos anteriores.
Uma nota prévia sobre o autor.
Conheci- o em casa de Manuel Sertório, em 1975. Apresentou-o como um estudioso do marxismo muito talentoso. Estava ligado a uma organização maoista, o PCPML, e era ainda quase desconhecido fora do Porto.
Reencontrei-o quinze anos depois na Assembleia da Republica como líder da bancada do PSD. Tinha trocado o maoismo pelo partido de Sá Carneiro no qual ascendeu rapidamente como estrela. Muitas das suas intervenções destilavam anticomunismo.
A sua metamorfose fora rápida e complexa. O admirador de Mao, Marx, Lenin e Ho Chi Minh tinha aderido no final dos anos 80 ao PSD e assumira como seu deputado a defesa e apologia do liberalismo rotulado de social-democracia. Mas não era, ao contrário de outros companheiros da sua bancada, um parlamentar truculento.
Na Assembleia da Republica, mantivemos relações frias, mas corteses. Recordo que, para surpresa minha, contribuiu para viabilizar a ida a Cuba de uma delegação multipartidária da Assembleia que foi a primeira de um parlamento europeu a visitar a Ilha revolucionária.
Nos últimos anos, apos ter regressado a Portugal – depois de renunciar ao seu mandato de deputado no Parlamento Europeu - passou a criticar com dureza o governo de Passos Coelho-Portas, condenando como negativa a sua política de austeridade. Mas permanece no PSD como militante.
É dos intelectuais da direita que conheço o mais inteligente e culto.
CONTRADIÇÕES.
O 4º tomo da biografia política de Álvaro Cunhal é, como os anteriores, uma obra semeada de contradições, algumas de compreensão difícil.
Os primeiros capítulos incidem sobre o esforço de AC para reorganizar o Partido apos a fuga de Peniche. A clandestinidade rigorosa em que viveu, mudando repetidamente de residência, não o impediu de desenvolver uma atividade intensa, orientada prioritariamente para o combate ao desvio de direita que caracterizara a estratégia do PCP sob a direção de Fogaça.
Pacheco evoca os acontecimentos do ano 60 na perspetiva de historiador. Recorre aliás às Obras Escolhidas para as transcrições de textos de AC.
Essa tentativa de objetividade transparece nas páginas dedicadas à instalação de AC em Moscovo, em 61, ao seu trabalho politico na URSS e à sua vida familiar ali.
Pacheco Pereira, para escrever a sua biografia política de AC, terá tido acesso a documentos desclassificados dos Arquivos Soviéticos. Daí a minucia e o volume da informação sobre os contactos de AC com as mais destacadas personalidades do PCUS. Transcorrido apenas um ano, já era um dos dirigentes comunistas estrangeiros mais respeitados e admirados pela hierarquia do Estado e do partido soviéticos. O Pravda e outros órgãos da imprensa soviética publicavam com frequência artigos seus e a televisão e a radio abriram-lhe as portas.
Utilizando um passaporte checo, pôde visitar as democracias populares do leste europeu, reforçando as relações do PCP com os partidos da RDA, da Polonia, da Hungria, da Bulgária, da Roménia e da Checoslováquia. Em Praga instalou membros influentes do PCP em tarefas internacionalistas.
Fica transparente para os leitores que Pacheco, superando antagonismos ideológicos, sente uma admiração grande por Álvaro Cunhal, pela sua inteligência fulgurante, pela profundidade do seu conhecimento do marxismo–leninismo, pela seriedade no respeito dos compromissos, pelo rigor com que aplicava a teoria à prática, e também pela amplitude da sua cultura humanista, pela sua enorme capacidade de trabalho e uma abertura à arte pouco comum na URSS que naqueles anos acusava ainda a herança pesada do jdanovismo.
O conhecimento dos clássicos do marxismo é identificável no discurso de Pacheco e na sua escrita, diferentes do habitual nos políticos anticomunistas.
Reservado no tocante à sua vida privada, mesmo em conversas com os camaradas mais íntimos, Álvaro Cunhal – refere Pacheco Pereira mais de uma vez - tinha um amor profundo pela filha, Anita, e aproveitava as férias para a visitar na Roménia onde ela vivia com a mãe.
Não é porem surpreendente que os intelectuais da burguesia, incluindo escritores da direita, tenham recebido com entusiasmo este 4º tomo da biografia política de AC.
Essa atitude não seria possível se o autor do livro, em muitos capítulos, não deturpasse acontecimentos políticos importantes, atribuindo a Álvaro Cunhal comportamentos, atitudes e até opiniões incompatíveis com o seu pensamento, caracter e mundividência de comunista.
O confuso capítulo relacionado com conflitos que precederam a instalação em Argel da Frente Portuguesa de Libertação Nacional-FPLN, como prólogo de cisões que golpearam a oposição antifascista, deforma ostensivamente a realidade.
Pacheco não esconde aliás simpatia e antipatia por alguns dos participantes em acontecimentos que envolveram o general Humberto Delgado. Nos capítulos em que aborda o tema do choque URSS-China e os seus reflexos no movimento comunista internacional e a vaga de anti sovietismo que então irrompeu, Pacheco Pereira, que é sempre benevolente nas referências aos ex-comunistas portugueses que posteriormente se deslocaram para a direita (como Silva Marques e o Chico da CUF), concede espaço e atenção a intelectuais camaleónicos como Manuel de Lucena (que anos depois elogiaria os coronéis gregos).
O tom de seriedade que se esforçou por imprimir ao texto é prejudicado por afirmações grotescas como o disparate calunioso de que a PIDE e o KGB trocavam presentes.
Mas é sobretudo no tratamento dos acontecimentos de 1968 na Checoslováquia que Pacheco Pereira abandona a postura de historiador. Deturpa a atitude de Álvaro Cunhal, atribui-lhe hesitações imaginárias perante a grave crise gerada pela entrada na Checoslováquia das tropas do Tratado de Varsóvia, crise que abalou então o movimento comunista internacional e assinalou o início da social-democratização do PCI, do PCF e do PCE. Citando opiniões de gente sem credibilidade, insinua que Álvaro Cunhal sentiu inicialmente muita simpatia por Alexandr Dubcek.
É uma inverdade. Julgo útil recordar que Dubcek, alguns anos apos a desagregação da URSS, quando a Rússia era já uns país capitalista, declarou em entrevista a um jornal francês - de Grenoble, se a memória não me atraiçoa - que nunca se sentiu marxista. Confissão esclarecedora do aventureirismo e da ambição de um político que foi secretário-geral do Partido Comunista da Eslováquia e, depois, do Partido Comunista da Checoslováquia.
Os ataques a Álvaro Cunhal de Flausino Torres e de outros portugueses residentes na Checoslováquia, que na época eram membros do PCP, merecem atenção especial de Pacheco Pereira, que evoca com simpatia a adesão desse grupo à chamada «Primavera de Praga».
Recordo que a incompatibilidade de Dubcek com o socialismo não pôde mais ser negada quando Ota Sik - o seu super ministro da Economia - em conferências em capitais do Ocidente teceu tais elogios ao capitalismo que até John Kenneth Galbraith o denunciou como político reacionário.
A GUERRA COLONIAL
O capítulo sobre a Guerra Colonial e a atitude do PCP perante a luta dos Movimentos de Libertação é aquele em que Pacheco Pereira, independentemente do seu posicionamento, revela, por erros cometidos e omissões, a insuficiência das informações de que dispunha sobre o tema.
Fica óbvio que desconhece o importante papel que as organizações da oposição democrática portuguesa do Brasil desempenharam na luta contra o fascismo, nomeadamente na solidariedade com os movimentos de libertação africanos.
Faz uma referência breve ao jornal Portugal Democrático e lembra que foi no Brasil que a A Questão Agrária em Portugal foi editada pela primeira vez. Cita com frequência a luta dos exilados portugueses em França e noutros países, mas ignora a dimensão do combate da diáspora portuguesa antifascista do Brasil.
Sem consulta à coleção do Portugal Democrático – unitário, mas dirigido por um coletivo de comunistas - não é possível avaliar o significado e importância desse trabalho. O jornal foi durante anos o polo aglutinador da resistência da oposição antifascista em diferentes países da América, do Canadá à Argentina.
A edição da Resistência em Portugal, da Questão Agrária em Portugal, de Angola Cinco Seculos de Colonização Portuguesa, (de Américo Boavida), A Guerra em Angola (de Mário Moutinho de Pádua) partiu de iniciativas da organização do PCP em São Paulo, coordenadas com o Comité Central do Partido. Centenas de exemplares desses livros foram introduzidos clandestinamente em Portugal.
Uma dessas iniciativas alcançou repercussão mundial: o Memorando que as organizações de seis países do Continente Americano enviavam todos os anos à Assembleia Geral da ONU, denunciando os crimes do fascismo e exigindo o fim da guerra colonial.
Tendo, inicialmente, como primeiros signatários o general Humberto Delgado e Rui Luis Gomes, esse Documento, era reproduzido por grandes jornais da América. Incomodava tanto o fascismo que o embaixador de Salazar em Washington promoveu uma conferência de imprensa no Waldorf Astoria de Nova York para tentar responder ao memorando.
Álvaro Cunhal acompanhou sempre todas essas iniciativas.
Contrariamente ao que aconteceu em França, na Itália, e noutros países da Europa Ocidental, o Portugal Democrático e a Unidade Democrática Portuguesa, organização que desempenhou um papel importante na divulgação de documentos sobre a guerra colonial e lutas em Portugal, permaneceram imunes ao vírus do esquerdismo.
Na oposição portuguesa surgiram como era inevitável problemas e conflitos pessoais, mais notórios apos a chegada ao Brasil de Humberto Delgado e Henrique Galvão, mas não resultaram de tensões no Movimento Comunista Internacional. O Partido Comunista do Brasil, inicialmente maoista, e as organizações brasileiras que preconizavam a luta armada, sob a forma da guerrilha rural ou da guerrilha urbana, não conquistaram adeptos entre os antifascistas portugueses. As clivagens que afetaram a unidade de ação tiveram motivações diferentes. A queda de Salazar da cadeira e o advento de Marcelo Caetano contribuíram para que se distanciassem do núcleo do Portugal Democrático, recusando participar em ações unitárias com o PCP, entre outras personalidades, o comandante Sarmento Pimental e os jornalistas Vitor da Cunha Rego e Paulo de Castro. O marcelismo foi uma fonte de ilusões e o discurso de Mário Soares nas suas visitas a São Paulo atraiu para o Partido Socialista exilados seduzidos pela chamada democracia representativa. Mas não houve agressividade, nem criticas ao PCP nesse distanciamento.
A INDEFINIÇAO ATUAL DE PACHECO PEREIRA
Os reparos críticos ao livro de Pacheco Pereira não afetam a minha convicção de que este 4º tomo da sua ambiciosa biografia do dirigente comunista reflete uma evolução positiva da sua posição perante o PCP. Creio que a mudança resultou do fascínio que sobre ele exerce Álvaro Cunhal, numa estranha relação amor-ódio.
Registo que, não obstante erros, deturpações, omissões, juízos de pessoas e análises (para mim inaceitáveis) de acontecimentos históricos – Pacheco Pereira realizou um importante trabalho de investigação, sem precedentes no tocante ao tema.
Sou levado a uma conclusão de cariz especulativo. O seu absorvente interesse pela vida, personalidade e obra de Álvaro Cunhal terá contribuído para um distanciamento progressivo do ideário que durante anos o fez porta-voz no PSD de uma estratégia contra revolucionária.
Pacheco Pereira não abdicou de uma postura anticomunista, da sua tolerância perante o imperialismo, e de um anti sovietismo exacerbado. Mas, a sua incompatibilidade com a política reacionária do PSD, a sua reflexão sobre a obra devastadora de Passos, Portas, Maria Luis e quejandos, e as consequências trágicas da «austeridade», empurraram-no gradualmente para críticas lucidas e cada vez mais profundas ao calamitoso desgoverno que estava a destruir o pais.
Os seus artigos em jornais e revistas, as suas entrevistas e intervenções em mesas redondas da TV são hoje globalmente positivos.
Não está próximo de uma rutura com o sistema. Mas contempla-o agora com um olhar muito diferente. Como historiador e académico.
Não sinto a tentação de prever o rumo de José Pacheco Pereira.
O político e o intelectual aparecem-me como imprevisíveis pelas suas contradições e indefinições.
Tive o privilégio de trabalhar com Álvaro Cunhal durante uma dúzia de anos. O livro de Pacheco Pereira, apesar do muito de que discordo, contribuiu para aumentar a minha admiração pelo comunista e pelo homem.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Carta de Marcelo Rebelo de Sousa a Marcelo Caetano, 12 de abril de 1973


Excelentíssimo Senhor Presidente, Excelência:
Pedindo desculpa do tempo que tomo a Vossa Excelência, vinha solicitar alguns minutos de audiência (…) Seria possível, Senhor Presidente, conceder-me os escassos minutos que solicito? (…) Acompanhei de perto (como Vossa Excelência calcula), as vicissitudes relacionadas com o Congresso de Aveiro, e pude, de facto, tomar conhecimento de características de estrutura, funcionamento e ligações, que marcaram nitidamente um controle (inesperado antes da efectuação) pelo PCP.
Aliás, ao que parece, a actividade iniciada em Aveiro tem-se prolongado com deslocações no país e para fora dele, e com reuniões com meios mais jovens.
Como Vossa Excelência apontou, Aveiro representou, um pouco mais do que seria legítimo esperar, uma expressão política da posição do PC e o esbatimento das veleidades “soaristas”.
O discurso de Vossa Excelência antecipou-se ao rescaldo de Aveiro e às futuras manobras pré-eleitorais, e penso que caiu muito bem em vários sectores da opinião pública.
Com os mais respeitosos e gratos cumprimentos,
Marcelo Nuno Rebelo de Sousa
(José Freire Antunes , Cartas Particulares a Marcello Caetano, vol.2, Lisboa 1985, p.353)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016


Opinião

Virar o bico ao prego sem aprender nada com a História

Com a resolução do PE, todos os problemas foram agravados e a Líbia mergulhou no inferno.


A verdade é como o azeite, acaba sempre por vir ao de cima. Novamente se cumpre o adágio.
Marisa Matias, no debate televisivo com Edgar Silva, respondendo à crítica de que tinha votado favoravelmente no Parlamento Europeu (PE) a intervenção militar externa na Líbia, afirmou e repetiu categoricamente três vezes que votou contra, por voto nominal, e aconselhou a consulta das respectivas actas.
A resolução em discussão no PE, em Março de 2011, continha um parágrafo que solicitava à Alta Representante da UE e aos Estados-Membros a disponibilidade para uma decisão do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) sobre uma zona de exclusão aérea na Líbia (com a justificação demagógica de impedir o regime de atacar a população civil).
Uma tal zona era o pretexto para a intervenção militar, pois assegurá-la exige meios militares. O parágrafo, com a habitual linguagem diplomática, instava na verdade a Alta Representante e os Estados-Membros a cumprir a provável decisão do CSNU de impor essa zona e, mais do que isso, a reclamar essa decisão, através dos Estados-Membros que aí tinham assento (França e Reino Unido, membros permanentes, Alemanha e Portugal) e das pressões que a UE poderia fazer sobre alguns dos restantes.
Marisa Matias, tal como eu, Ilda Figueiredo e outros, votou contra a inclusão deste parágrafo na proposta de resolução a submeter ao Parlamento. Mas o parágrafo foi mantido.
Na votação final da resolução, que constituiu a deliberação do PE (Resolução RC-B7-0169/2011, de 10/03/2011) e que inclui o funesto parágrafo, Marisa Matias votou a favor, como se vê na acta a que aconselhou a consulta (p. 6). É transparente que faltou à verdade quando disse que votou contra.
Além do mais contradiz-se. Invocou o facto de ter votado contra esse parágrafo, na votação prévia, para mostrar que votou contra a intervenção militar, reconhecendo assim que o parágrafo abria o caminho. Mas quando votou a favor da resolução final, que o continha, a intervenção militar desaparece, como se o parágrafo não constasse. Muito conveniente, mas inconsistente. O parágrafo é o mesmo nas duas votações. Só que a segunda era a definitiva e constituía a deliberação oficial da resolução do PE.
Confrontada com o facto, em vez de admitir o duplo erro, o voto a favor e a falta à verdade, tenta virar o bico ao prego e acusa quem foi coerente do princípio ao fim. E fá-lo disparatando: afirma que o PCP decidiu legitimar o regime de Khadafi.
Sucede que a resolução não tratava de legitimar ou deslegitimar o regime de Khadafi. O que pretendia, ocultando-o demagogicamente, era legitimar a intervenção militar.
Como consta da declaração de voto dos deputados do PCP, disse Ilda Figueiredo na declaração de voto, “lamentavelmente, a Resolução do PE defende a intervenção militar, dado que não pode haver zona de exclusão aérea sem intervenção militar. Por isso, esta resolução, em vez de contribuir para uma solução pacífica, parece visar a preparação de actos de agressão, pelos EUA, a NATO e talvez da União Europeia, contra a Líbia, pelo que expressamos a nossa firme oposição a qualquer intervenção militar externa neste país.”
Aprovada a resolução, os acontecimentos seguiram exactamente o guião estabelecido pelos falcões da guerra. Uma semana depois, o CSNU decidiu a imposição da “zona de exclusão aérea” e as forças militares, já em estado de prontidão, iniciaram em dois dias os ataques.
Todos os problemas foram agravados e a Líbia mergulhou no inferno. O curso posterior dos acontecimentos, nomeadamente as vagas de refugiados que procuram atravessar o Mediterrâneo daí provenientes, são como pedras lançadas à cara da UE a recordar-lhe as responsabilidades na instabilidade, na guerra, na devastação e no colapso de um Estado agora muito mais falhado do que alguma vez o possa ter sido.
O controlo dos recursos naturais líbios foi o motivo fundamental da intervenção militar, que nunca teve como verdadeira preocupação o povo líbio, tal como a intervenção militar foi o motivo fundamental da resolução (aprovada por Marisa Matias), que nunca teve como verdadeira preocupação os direitos humanos.
Deputado do PCP no Parlamento Europeu

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

DAVID BOWIE

Foi um génio. Um criador visionário. Diz-se e eu repito. Um ícone da chamada pós-modernidade. Da Modernidade tardia e em completa crise e confusão. Vem de trás, mas representou superlativamente a terrível década de oitenta. Dos sonhos achados e perdidos. Da queda do Muro, do colapso de um mundo, do termo dramático da Guerra Fria. Vem da derrota no Vietnam e da recuperação chauvinista e imperialista dos EUA. Mas era britânico, da brutal ofensiva de Tatcher e das sinuosidades da "terceira via" de Tony Blair que liquidou a New Left. Passou por tudo e não ficou incólume, agitou, inovou, exprimiu cada época como reflexos diferentes em múltiplos espelhos. Não se vendeu e, contudo, não pôde deixar de ser vendável, pura mercadoria, marca e fétiche. Não cantava o triunfo do neoliberalismo  e, no entanto, foi consumido no mercado e pelo mercado. Actor extraordinário, foi-o de si próprio, personagem fora do mundo que este mundo real absorveu com pouco incómodo. Por isso não foi subversivo, numa época em que quase nada já é subversivo, excepto ameaçar os interesses dos donos do Mercado.
Não foi maior que o seu tempo, o nosso tempo. Foi do seu tempo e do nosso. Mas permanecerá para além dele.
Público

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

CLAUSTROFOBIA