segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Serpa 2010


COMUNICAÇÕES

Declaração final do III Encontro Civilização ou Barbárie
Declaración Final del III encuentro Internacional Civilização ou Barbárie
Declaração final do III Encontro Civilização ou Barbárie - Árabe
IIIème Rencontre Internationale Civilisation ou Barbarie - Declaration finale
Declaration of the III International Conference on Civilization or Barbarism

III ENCONTRO CIVILIZAÇÃO OU BARBÁRIE
-Os desafios do mundo contemporâneo

Promovido por odiario.info e a Revista Vértice realizar-se-á em Serpa, de 30 de Outubro a 1 de Novembro, o III Encontro Internacional «Civilização ou Barbárie» – os desafios do mundo contemporâneo.
A iniciativa reunirá naquela cidade alentejana pensadores e cientistas políticos de 16 países: Argentina, Bolívia, Brasil, Canadá, Colômbia, Cuba, Espanha, Estados Unidos da América, França, Líbano, México, Portugal, El Salvador, Reino Unido e Venezuela.
TEMAS A DEBATER:
O agravamento da crise estrutural do capitalismo. O socialismo como única alternativa à barbárie
Lutas de movimentos sociais progressistas e de organizações revolucionárias. Actualidade de Marx e Lenine.
A estratégia de dominação planetária de Obama e as guerras de agressão imperiais.
Revolução e contra-revolução na América Latina
Lutas sociais e politicas na União Europeia. Agudização da crise portuguesa. O Centenário da República Portuguesa
A perversão mediática e a hegemonia das transnacionais na comunicação social.

PARTICIPANTES ESTRANGEIROS

Alexandr Droban (Rússia); Angeles Maestro (Espanha); Carlos Aznarez (Argentina); Carlos Lozano (Colômbia); Carolus Wimmer (Venezuela); Domenico Losurdo (Itália); Georges Gastaud (França); James Petras (EUA); Jean Salem (França);John Catalinotto (EUA); José Paulo Netto (Brasil) ;Leila Ghanem (Líbano); Luciano Alzaga (El Salvador); Marcos Domich (Bolívia) ;Michel Chossudovsky (Canadá);Osvaldo Martinez (Cuba); Piedad Córdoba (Colômbia); Remy Herrera (França); Thierry Labica (França); Virginia Fontes (Brasil).

PARTICIPANTES PORTUGUESES

Anabela Fino, André Levy, Avelãs Nunes, Carlos Lopes Pereira, Correia da Fonseca, Eduardo Chitas, Fernando Correia, Filipe Diniz, Francisco Melo, João Aguiar, João Fagundes, José Paulo Gascão, Luís Gomes, Manuel Gusmão, Miguel Urbano Rodrigues, Nozes Pires, Pedro Carvalho, Rui Namorado Rosa, Sérgio Vinagre, Silvestre Lacerda.

À primeira volta

A vitória do
«entertainer» político



O título deste post é obviamente simplificador mas com ele o que pretendo significar é que, no resultado de Marcelo Rebelo de Sousa, o que mais pesa, sobretudo em relação ao que terá conseguido acima da votação do PAF em 4/10) não pertence ao território da política (ou, pelo menos, como a temos concebido) mas sim ao território de uma incomparável notoriedade, de uma longuíssima exposição mediática, da simpatia pessoal e da prolongada visita dominical aos lares dos portugueses a que há que acrescentar a ajuda da construída maquilhagem e opacidade políticas do candidato durante a campanha. Antes não o poderia escrever mas agora nada obsta a que insista na ideia de que, sendo uma parte decisiva das intenções de voto em MRS pertencente a este último território da não-política, todos os justos argumentos e críticas feitas por outros candidatos a MRS pertenciam a um mundo diferente e não podiam ter um efeito significativo ou decisivo do ponto de vista da necessária erosão das intenções de voto em Marcelo. Eram territórios ou mundos diferentes praticamente impermeabilizados a efeitos de um sobre o outro.

Porque muitos eleitores infelizmente o não compreenderam  e há o perigo certo de nas redes sociais e nos media aparecerem cidadãos e comentadores a insistir num grande equívoco, quero salientar que a vitória de MRS à primeira volta nada tem que ver com a diversidade  de candidatos à sua esquerda. De um ponto de vista aritmético (atenção, é aquele que conta para haver ou segunda volta) não eram deslocações de votos entre os candidatos à esquerda de Marcelo que mudavam ou alteravam as intenções maioritárias de voto em Marcelo. Todos os votos desses candidatos não iam para Marcelo e, portanto, todos contribuiam numericamente para o forçar a uma segunda volta. Para que este objectivo fosse alcançado era indispensável sim que intenções de voto fixadas em MRS se deslocassem para outros candidatos.

Quero sinceramente saudar Edgar Silva, porventura o mais injustiçado dos candidatos,  (e todos os que ergueram a sua combativa e corajosa campanha) e manifestar um imenso apreço pelas suas qualidades de humanismo e poderoso compromisso com os ideais de Abril manifestados numa batalha extraordináriamente díficil onde o preconceito médiático anticomunista voltou a exibir-se e cujo resultado, a meu ver,  foi muito provavelmente afectado pelo facto de um segmento do eleitorado da CDU ter preferido usar o seu voto para resolver a competição  entre Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém.

A vida e a luta continuam, amanhã é outro dia e há muitas outras batalhas para travar. De ciência certa, lá estaremos.

P.S.: apesar de este ser um post sintético, seria absurdo não referir o excelente resultado de Marisa Matias e o impressionante afundamento da candidatura de Maria de Belém.
Via: O Tempo das Cerejas

OPINIÃO

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

Pode-se dizer que Marcelo Rebelo de Sousa venceu porque é um epifenómeno dos media, que não precisou de fazer campanha, que os dois milhões e meio de portugueses que nele votaram não foram nem são eleitores de Passos Coelho e de Paulo Portas mas sim eleitores do charme televisual do vencedor.
Pode-se dizer que o o principal derrotado é o Partido Socialista porque não se mobilizou à volta de Nóvoa, ou quem realmente foi destroçada foi a sua ala direita e Costa saiu incólume, ou que o PS foi o principal responsável pela vitória da Direita.
Pode-se dizer que o Bloco de Esquerda (BE) sai sempre a ganhar com a aposta em mulheres, simpáticas e empáticas que ficam muito bem nos pequenos ecrãs.
Pode-se dizer que quem realmente mais perdeu fomos todos nós, povo trabalhador, as maiorias que trabalham no Estado ou na economia privada, reformados ou desempregados. Foi o povo português. Marcelo Rebelo de Sousa não nos representa, é de outra classe, doutra elite, doutros interesses.
Contudo, deve-se dizer que o PCP perdeu e não foi pouco. Em casa e por culpa própria.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Ventos de esperança!    Por Cauê Seignemartin Ameni
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Nos EUA, nova arrancada de Bernie Sanders revela: é possível vencer preconceitos da mídia — desde que se apresente propostas concretas, em vez de discurso doutrinário
Diminui a cada dia, nos EUA, a distância que separava a candidata oligárquica do Partido Democrata à Casa Branca, Hillary Clinton, do outsider à sua esquerda, o senador Bernie Sanders. O próprio New York Times reconhece: em um mês, Hillary viu sua vantagem de 20 pontos percentuais, entre os membros do partido aptos a votar nas eleições primárias, derreter para 7 pontos. Outras sondagens já mostram uma virada na primárias de dois estados importantes. Em Iowa, onde começa a disputa (em 1º/2) e New Hampshire (9/2), Sanders está à frente com 5 pontos de vantagem. Sua liderança concentra-se entre os candidatos mais jovens, onde tem o dobro de preferência. Quais as razões? A esquerda brasileira teria algo a aprender com elas?A primeira grande barreira que Sanders parece saber enfrentar é a do preconceito. Para frear o ascensão do candidato, seus adversários apostam no desgaste da palavra que o senador emprega para definir a si mesmo: “socialista”. Contudo, Sanders não se presta ao papel de espantalho, analisa Robert Reich, professor de Políticas Públicas da Universidade de Berkeley e ex-ministro do Trabalho (no governo de Bill Clinto). Segundo ele, as pessoas começaram a entender que o senador não é o socialista retratado nas caricaturas da Fox News, mas alguém semelhante a Franklin Roosevelt.“Há um século, Roosevelt quebrou a Standard Oil porque ela representava um perigo à economia dos EUA. Hoje, os bancos de Wall Street representam um perigo ainda maior”, diz Reich. Refere-se a uma proposta de Sanders, que pretende restabelecer a lei rooseveltiana Glass-Steagall, revogada em 1999 pelo lobby de Wall Street. A lei tem dois objetivos: 1) combater a cartelização bancária; e 2) impedir a especulação desenfreada com ativos financeiros. Joseph Stiglitz, Nobel de Econômica, e Nouriel Roubini, o economista que previu a crise de 2008, concordam com a reforma em Wall Street proposta pelo senador. “O plano mais modesto de Hillay Clinton é inadequado” conclui Reich.O colapso financeiro de 2008, causado por Wall Street, parece não ter promovido apenas instabilidade econômica. Também abriu as portas para o que o sociólogo Immanuel Wallerstein chama de “o colapso do centro”, em muitas “democracias” ocidentais. As pesquisas norte-americanas revelam um cenário eleitoral semelhante ao registrado nas urnas espanholas, portuguesas e gregas, onde parte da esquerda conseguiu se reinventar e transformar a revolta dos 99% em novas esperanças.Como na Europa, há dois grandes desafios. O primeiro é formular propostas mais ousadas e atraentes que os pré-candidatos da nova direita. Nos EUA, são hoje mais carismáticos e nacionalistas, gente como o bilionário Donald Trump e o religioso Ted Cruz. O segundo é superar velha esquerda, insossa porém poderosa, representada por Hillary Clinton.Aparentemente, Sanders progride. Não decola somente nas pesquisas eleitorais, mas também nos sinais de um engajamento social massivo. O senador atingiu, há dias, nova marca histórica de doações individuais: 2 milhões de apoiadores. Bateu o recorde ao dobrar o inédito desempenho de Obama em 2008. Nos últimos três meses, angariou US$ 33 milhões para sua campanha, apenas US$ 4 milhões a menos que Hillary — que aceitou doações de Wall Street e de lobistas das grandes redes de prisões privadas. Na soma total Sanders continua em desvantagem: obteve U$ 73 milhões, enquanto Clinton angariou US$ 112 milhões.Do lado do Partido Republicano, a maior dificuldade dos pré-candidatos tem sido propor saídas para estancar o aumento da pobreza, segundo aponta Eduardo Porter no New York Times. Entre os países da OCDE, os EUA figuram entre as piores colocações quando o assunto é desigualdade de renda e pobreza. Estão atrás até mesmo dos estigmatizados “PIGS” da Europa (Portugal, Itália, Grécia e Espanha), e à frente apenas do México. Porter mostra como o plano de mais austeridade do histriônico bilionário Donald Trump e Ted Cruz, ligado ao movimento ultradireitista Tea Party e ex-assessor de George W. Bush, só aprofundariam ainda mais a crise no país. E, para azar dos dois, aliados do 1% da elite financeira, 63% dos norte-americanos acham a questão da desigualdade muito importante, mostra pesquisa recente do Gallup. Por isso, mesmo tendo uma cobertura midiática 23 vezes menor que Trump, o socialista Bernie Sanders tem um potencial de vitória crescente, com uma vantagem de 13% nas eleições gerais sobre a principal liderança republicana; e uma rejeição nacional menor que Clinton (59% dos americanos a consideram “desonesta e nada confiável”). Isso explica porque Sanders foi capaz de reunir multidões – mais de 100 mil pessoas, na soma de seus últimos comícios — além de uma onda de seguidores nas redes sociais. Tornou-se, de longe, a maior atração na campanha eleitoral. Enquanto os ventos sopram à direita nos países afetados recentemente pela crise, como na América Latina, parecem empurrar à esquerda nos países que hoje lutam contra a recessão imposta após a crise.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

FÁBULAS – SARA



FÁBULAS – SARA
Vasco de Espinosa fora meu condiscípulo no Liceu de António Enes, na então Lourenço Marques. Adolescente, embora, era já alto, quase gordo (este “quase” perdê-lo-ia com a idade), eu mal lhe dava pelos ombros. Vasco tinha uns olhos escuros e mansos, inteligentes e constantemente observadores. Nada neles havia de astúcia ou “esperteza”. Leal na amizade mas teimoso como uma mula. Verbo fácil mas seco, frases enxutas até ao osso, de sintaxe perfeita. Encarava-me fixamente quando falava, enquanto eu, ao invés, fixava um ponto inalcançável no horizonte e ali me quedava. Enquanto eu jogava o jogo das metáforas e metonímias, ele encadeava os raciocínios à maneira dos geómetras. Dizia que o método dos geómetras era o único que permitia escapar aos preconceitos: “ E só esta razão teria por certo bastado para que a verdade permanecesse para sempre oculta para o género humano, se a matemática, que se ocupa não dos fins, mas das essências e das propriedades das figuras, não tivesse mostrado aos homens uma outra verdade.”
Quando pelo meu emérito professor de filosofia, de nome Cansado Gonçalves, banido para a colónia pelo Salazar, ouvi falar de Baruch Espinosa, o filósofo judeu holandês filho de portugueses, questionei o Vasco sobre as suas origens. Que sim, muito provavelmente descendia de um primo de Baruch, marrano que se instalara cautelosamente no Alto Douro, conforme seu pai investigara em arquivos. Havia até em casa uma reprodução emoldurada de um célebre retrato do “Príncipe dos filósofos”. Percebi então que ele citava de memória trechos das obras do judeu “embriagado de Deus” como alguém o descreveu. E que os seus olhos evocavam os grandes olhos de Baruch, no retrato, o prenúncio de um sorriso indecifrável.
Adolescentes, namorámos à vez a mesma moça. Primeiramente eu, depois ele. Sara era uma morenita de belíssimos olhos verdes (por causa deles chamavam-lhe no Liceu a “Soraya”, fulgurante esposa do Xá da Pérsia), uma doçura em pessoa, que os pais, de origem modesta, vigiavam à maneira antiga sem motivo algum que não fosse a inferioridade protegida das mulheres. Troquei-a (terrível expressão!) sem apelo e muito agravo por um mocetona de olhos celestes e cabelos de trigo maduro, nem mais inteligente, nem melhor pessoa, apenas atrevida e irremediavelmente sedutora. Mergulhei uns parcos meses nas ondas oceânicas da perdição. Largou-me com a tranquilidade esfíngica de Afrodite e passou-se com armas e bagagens para os braços atléticos de um campeão de basquetebol. Quando quis regressar à espuma de açúcar da Sara, com a corda ao pescoço como o Egas Moniz, fez-se tarde: já o Vasco se enamorara dela (suspeitei que sempre estivera enamorado) e reciprocamente julgo eu.
Até ao termo dos estudos liceais convivemos puco, talvez por essa razão. Via-os sempre juntos e isso não me dava jeito nenhum. Contudo, conversávamos durante e após algumas palestras a que assistíamos sobre cinema ou teatro (artes muito frequentadas na cidade, ao tempo do crítico Eugénio Lisboa e do saudoso Mário Barradas). A propósito de assuntos que viramos tratados em filmes ou livros, lembro-me de alguns ditos dele: “Todos os preconceitos (…) dependem de um só, os homens supõem comummente que todas as coisas naturais agem como eles próprios, tendo em vista um fim e, mais ainda, consideram coisa certa que o próprio Deus tudo dispõe em vista de um determinado fim, pois dizem que Deus fez todas as coisas para o homem (…) todos os homens nascem ignorantes das causas das coisas e todos têm vontade de buscar o que lhes é útil, disso tendo consciência. Daqui decorre, em primeiro lugar, que os homens se julgam livres, porque têm consciência da sua volição e do seu apetite, e que não cuidam, nem mesmo em sonhos, das causas que os predispõem a desejar e a querer, posto que as ignoram. Decorre, em segundo lugar, que os homens agem tendo em vista um fim, ou seja, tendo em vista o que de útil desejam (…) Além disso, encontram em si próprios e fora de si próprios um grande número de meios que lhes servem excelentemente para obter o que lhes é útil (…) Acabam assim por considerar todas as coisas naturais como meios ao serviço da sua própria utilização.” Creem-se meios para Deus e tomam Este como um meio.
O tempo passou. Vim estudar Letras para a Metrópole, o Vasco ingressou em Engenharia, aluno que fora excecional nas matemáticas. Envolvi-me na urgência de um combate contra a ditadura, combate que se afigurava mais legítimo que o imperativo categórico de Kant. Renunciei a prazeres da juventude para não perder tempo nem vacilar, esticando a corda da “ potência de ação” até ao limite da minha natureza, diria Espinosa. Quando após um fatídico desastre de automóvel estive internado seis meses num hospital, recebi a visita do Vasco. Estava mais alto, mais gordo, mais inteligente. Como eu me encontrava detido sob a vigilância da PIDE, evitou-se falar de política. Apenas proferiu estra sentença que bem lembro: “ Ao homem nada é mais útil do que o homem; os homens (…) nada podem desejar de melhor para conservarem o seu ser do que estarem todos de acordo sobre todas as coisas, de tal maneira que os espíritos e os corpos de todos componham por assim dizer um único espírito e um único corpo, e todos se esforcem ao mesmo tempo, tanto quanto possam, por conservarem o seu ser, e todos procurem ao mesmo tempo o que é útil a todos”. Tens escutas aqui no quarto do hospital? - Não, as enfermeiras já vistoriaram tudo. Então, disse subtilmente, bem a seu modo: a causa essencial da degradação dos Estados reside na corrupção das leis que preservam a igualdade e a liberdade, e de que quanto maior é a liberdade melhor se defende a segurança do Estado e a sua estabilidade. Na Democracia autêntica, os cidadãos ao delegarem no Estado direitos e deveres não perdem, por isso, os seus direitos naturais, são tanto mais ativos e criadores quanto mais o Estado preservar a liberdade e a segurança de todos. E os deveres? - Pois, está por redigir-se uma Declaração Universal dos Deveres do Homem e do Cidadão, retorquiu.
Meses depois de ter alta do hospital, apoiado em muletas, a PIDE veio prender-me em casa pelas sete horas da manhã. Nessa primeira prisão não festejei o Natal e o Ano Novo, enjaulado nos calabouços da Rua do Heroísmo, na cidade do Porto. Algum tempo após esse “batismo de fogo” encontrava-me eu no Café Ceuta que os antifascistas frequentavam e nele se distribuíam panfletos escondidos em livros de estudo quando me apareceu o Vasco. Vinha saber do meu estado de saúde e de ânimo. Dessa conversa recordo o seguinte dito: “Todo o homem sofre afeções e, sobre elas, afetos. Chama-se desejo quando tem consciência dos apetites, esse é o seu estado comum e natural. Todos nós temos tendência para ser, ou seja, para agir, e devemos distinguir entre os afetos aqueles que aumentam a nossa potência de agir, ou, pelo contrário, a diminuem. Daí resulta que a nossa luta é sempre entre a submissão e a liberdade. Encontramo-nos sempre submetidos a paixões como parte da natureza que somos. Quando o corpo encontra outros corpos que se adequam à nossa natureza, sentimos alegria; em caso contrário, é tristeza que sentimos, ou ódio, ou inveja; o amor é a alegria acompanhada pela ideia de uma causa exterior que realiza um encontro positivo; a esperança, alegria inconstante, nascida da imagem de uma coisa futura ou passada cujo desfecho nos parece duvidoso; e é o medo o sentimento mais comum e com o qual aqueles que nos submetem nos manipulam.
Em suma: Sara, de olhos oceânicos, fora para o meu amigo o tal raro “encontro adequado”.
Vasco convidou-me para o seu casamento. Com Sara evidentemente. Realizou-se no restaurante panorâmico no Bom Jesus do Monte, Braga. Pude dizer que ambos se mostravam abençoados por uma “paixão alegre”.
Cada um seguiu o destino que escolheu “com a sua circunstância”. De quando em vez ia sabendo dos sucessos do amigo Vasco na sua qualidade de engenheiro. Dirigia obras espetaculares nos quatro cantos do planeta. Imaginava-o no seu vasto ateliê, compenetrado, a tentar descobrir os materiais mais revolucionários, exatos, perfeitos, expressões criadoras da Razão, capazes de vencer todos e quaisquer “constrangimentos externos”, à maneira do seu ilustríssimo primo. A sua bela Sara a chamá-lo para o jantar e ele, distraído dos prazeres mundanos, a teimar penetrar nos segredos do infinitamente pequeno. A paixão da Razão.
Dez anos depois esperava-me em casa uma missiva do Vasco. Duas curtas frases, em letra firme e geométrica: “Sara morreu-me. Doença incurável. Vou residir para o Brasil onde o meu trabalho é reconhecido. Até sempre meu amigo.”
Nunca mais soube nada dele. Até que, certo dia, à beira da passagem do milénio, estava eu em casa rememorando a ÉTICA de Espinosa, minha mulher mostrou-me a página de um jornal onde se lia: “Faleceu o engenheiro Vasco de Espinosa. O funeral realiza-se amanhã pelas 10h. “ Em cima uma fotografia.
Vasco teria regressado a Portugal e eu ignorava! Talvez sabendo-se sofrer de doença incurável veio para a sua pátria para morrer. Fui. Algumas dezenas de pessoas acompanharam o féretro para o Cemitério dos Prazeres. Deixei-me ficar postado a um canto vendo os grupos escoarem-se aos poucos. Chuviscava. O sol, indiferente na sua natureza, não lhe prestou homenagem. Ao dirigir-me para o carro fui interpelado por um indivíduo envergando um fato austero de ocasião, óculos escuros, que me perguntou delicadamente se eu era…(disse o nome), aquiesci, e desfechou-me esta seta mortal: “ O falecido era muito seu amigo. Eu sou, quero dizer, fui, o seu advogado desde sempre. Um mês antes da sua morte, Vasco pediu-me que fosse o senhor a tratar do destino da sua biblioteca e escritos. Acha-se capaz dessa tarefa?”. Fiquei abismado. Estive demasiado tempo a olhar fixamente o indivíduo para acreditar no que ouvia, por fim consegui balbuciar: De que morreu o Vasco? Doença fulminante? Sofreu muito? O homem desenhou a custo um sorriso triste e redarguiu com estas palavras misteriosas: “Morreu…ou deixou-se morrer simplesmente.” Talvez se tenha matado, pressenti. Trágico fim para um espinosista que tem o suicídio como um ato absurdo, na medida em que não existe em nós força maior do que conservar o nosso próprio ser, e o verdadeiro filósofo pensa mais na vida do que na morte …
Logo que pude dirigi-me à morada que me fora indicada, moradia de arquitetura sóbria mas elegante, ao redor um amplo jardim abandonado. O escritório: enorme ateliê, milhares de livros e dossiês. Procurei horas a fio o que ansiosamente buscava: Cadernos onde se espelhariam os frutos revolucionários de uma mente excecional, equações e cálculos matemáticos a que eu me vergaria impotente, construções utópicas, nanotecnologias de ponta, realidades virtuais com as quais deixaríamos de saber qual seja a verdadeira, pontes visionárias e réplicas exatas de órgãos humanos…
Encontrei. Eram dezenas de pastas contendo folhas soltas. Li na primeira: “Sara”. Li na segunda, terceira, centésima: “Sara”. Em todas elas uma data. Nada mais do que isto. O sentido da vida. Um nome.
Um nome para a eternidade.
NOZES PIRES


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Magalhães-Vilhena: um marxista erudito – e não só

Saiba o meu eventual leitor, desde já, que dois motivos me levam a trazer à baila o nome de Vasco de Magalhães-Vilhena (1916-1993), no instante mesmo em que localizo, entre meus velhos livros, a sua obra – seminal e clássica – sobre Sócrates (e Platão). O primeiro motivo é lembrar que, neste ano, decorrerá o centenário de nascimento do filósofo, quando certamente os círculos mais lúcidos da cultura portuguesa (e não apenas dela) haverão de homenageá-lo devidamente; o segundo é registrar a recente publicação de um conjunto de apontamentos seus acerca de uma questão central do pensamento marxista, a questão da ideologia.
Devo confessar que a minha primeira aproximação à obra de Magalhães-Vilhena não foi propriamente das mais fecundas – e agora, corrido tanto tempo, ouso desculpar-me pela leitura pouco produtiva invocando a (in)desculpável ignorância filosófica dos meus verdes anos… Aconteceu na década de 1960 o meu contacto inicial com o pensamento de Magalhães-Vilhena: então, em Belo Horizonte (num espaço livreiro que não sei se ainda existe – na minha memória ficou algo como “Livraria J. M. Gomes”, que vendia livros novos e usados, instalado em sala de um prédio da Rua da Bahia), deparei-me com um exemplar do seu Le problème de Socrate e logo o comprei. Retornando dias depois àquela livraria, pude adquirir Socrate et la légende platonicienne (ambos os livros publicados em Paris, em 1952, pelas Presses Universitaires de France; estão hoje traduzidos sob os títulos O problema de Sócrates e Platão e a lenda socrática, editados pela Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, respectivamente em 1984 e 1998). Seguramente já imagina o leitor que sobra dizer que o estudante pouco letrado percorreu com avidez e com a atenção possível os dois volumes… mas aproveitou pouquíssimo, ou quase nada, do que continham aquelas largas centenas de páginas.
Somente uns anos mais tarde, com uma cuidadosa releitura, pude ter alguma consciência da relevância desses textos de Magalhães-Vilhena – resultantes, com efeito, da sua tese de doutoramento (defendida em 1949, na Sorbonne), tese que o tornou reconhecido como um qualificado analista da filosofia antiga: em 1954, foi agraciado com o máximo prêmio da Association des Études Grecques, respeitada instituição ligada à academia francesa. Aquela releitura, feita ao fim do primeiro terço dos anos 1970, fixou para mim a imagem de Magalhães-Vilhena como um notável erudito, cuidadoso pesquisador marxista que revolucionou com brilhantismo a visão tradicionalmente estabelecida de um capítulo extremamente significativo da filosofia ocidental.
magalhaes vilhena socrates
Essa imagem, embora com elementos de verdade, logo se revelaria unilateral, como pude verificar no período em que estive trabalhando em Portugal, na sequência da Revolução dos Cravos. Só então constatei que Magalhães-Vilhena foi muito mais que um erudito: foi, sem qualquer prejuízo do seu específico trabalho acadêmico, antes estimulando-o, um exemplar militante comunista – na década de 1930, muito jovem, já ingressara no Partido Comunista Português/PCP, em cujas fileiras haveria de permanecer até à morte.
Obrigado ao exílio em 1945, quando foi excluído do corpo docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (lecionava então a disciplina História da Filosofia Antiga), radicou-se em Paris; aí se doutorou e construiu sólida carreira intelectual, vinculando-se, na Sorbonne, ao Centre de Recherches sur la Pensée Antique (1946-1974) e ao Centre National de la Recherche Scientifique (1947-1967). Com o processo revolucionário aberto pelo 25 de Abril, pôde enfim retornar a Portugal, assumindo uma cátedra na Universidade de Lisboa, na qual se aposentou em 1980, por razões de saúde. Ao longo das três décadas de exílio, nunca esmoreceu na luta antifascista: integrado na ação do PCP no exterior, denunciou corajosa e sistematicamente o regime de Salazar e, desde 1950, atuou no Conselho Mundial da Paz.
No seu regresso a Portugal, a intelectualidade marxista mais jovem já tinha em Magalhães-Vilhena o seu maître à penser, de um lado pelo seu descortínio no trato da história da filosofia (expresso na obra coletiva que organizou e que a censura fascista não pôde impedir de circular: Panorama do pensamento filosófico. Lisboa: Cosmos, I-II-III, 1956, 1958 e 1960) e, doutro lado e sobretudo, pelo seu seguríssimo domínio da textualidade de Marx e Engels (atestada, por exemplo, na sua intervenção à edição do Manifesto do partido comunista. Lisboa: Avante!, 1975). Ademais, figuras daquela intelectualidade, também forçadas ao exílio, haviam anteriormente contactado com Magalhães-Vilhena e com ele estabelecido relações de colaboração científica que prosseguiriam no Portugal libertado em abril de 1974 – com destaque para Eduardo Chitas (1937-2011) e Hernâni Resende (1942), que responderiam com zelo por parte do seu espólio literário.
O grande segmento já de conhecimento público do espólio de Magalhães-Vilhena documenta que a sua obra não se restringe, absolutamente, aos limites da erudição acadêmica própria ao especialista que ele foi da filosofia antiga (com muitos outros desenvolvimentos para além da sua tese de 1949). O filósofo discutiu Bacon e Hegel, polemizou com figuras decisivas do pensamento português do século XX (p. ex., com Antônio Sérgio) e tematizou questões epistemológicas de interesse contemporâneo.* Entretanto, parte desse espólio – conservado por sua companheira, Hélène Lanièce de Magalhães-Vilhena, falecida em 1996, e em seguida entregue aos cuidados do PCP – contém ainda materiais inéditos. E agora, nestas últimas linhas, o meu eventual leitor tem o segundo motivo que me leva a recordar Magalhães-Vilhena.
Poucos anos antes de sua morte precoce e inesperada, Eduardo Chitas ocupava-se de examinar originais constantes do espólio de Magalhães-Vilhena, com atenção especial a textos eventualmente inéditos. Chitas, prestigiado professor da Universidade de Lisboa – um dos fundadores do Grupo de estudos marxistas/GEM, que nucleia pesquisadores marxistas e já é bem conhecido pelos seminários internacionais que promove em Lisboa (os colóquios Marx em maio) –, convocou para trabalhar com ele no exame mencionado o jovem filósofo João Vasco Fagundes, ativo membro do GEM (é autor de um ensaio precioso: A dialética do abstrato e do concreto em Karl Marx. Lisboa: GEM, 2014). Entre os vários materiais inéditos que chamaram a atenção de ambos estava um original, redigido em francês e vazado em 135 páginas datilografadas; nelas, provavelmente escritas em meados dos anos 1960, Magalhães-Vilhena, deixando sem título o texto, aponta o seu objeto com a seguinte notação: “Ideologia e sociedade; ideologia e ciência; papel da ideologia na direção científica dos processos sociais”.
magalhaes v livros
Pois é este o material que foi há pouco publicado, em volume intitulado Fragmentos sobre ideologia (Lisboa: GEM, 2015). A confiável tradução é de João Vasco Fagundes, que manteve a estrutura expositiva formalmente assistemática do original, apôs-lhe notas esclarecedoras e antecedeu-a com um longo (quase 40 páginas) e eficiente prefácio. Nele, Fagundes não apenas dá conta dos procedimentos de que se valeu para editar o texto, socorrendo-se inclusive do recurso a outras obras de Magalhães-Vilhena; especialmente sustenta, com argumentação persuasiva, que o caráter formalmente assistemático da exposição (donde, no título, a referência a fragmentos), provavelmente devido ao seu inacabamento, não impede que nas reflexões constitutivas do volume se patenteie “um conteúdo recheado de sistematicidade”, evidenciando “uma concepção de fundo que lhes oferece [aos fragmentos] nexo e coerência” (p. XIX). E, a meu juízo, a leitura cuidadosa dos apontamentos de Magalhães-Vilhena demonstra que esta interpretação de Fagundes é procedente.
O importante, todavia, é considerar aquele “conteúdo” e aquela “concepção de fundo” que as reflexões de Magalhães-Vilhena extraem e inferem da minuciosa análise textual dos “pais fundadores” (os “clássicos” Marx e Engels, mas também Lenin), análise que combina criticamente o trato imanente da escritura “clássica” com a abertura à sua historicidade histórico-cultural concreta. Das elaborações de Magalhães-Vilhena resultam determinações essenciais – portanto, atuais – para a dilucidação da ideologia, de suas relações com a ciência e de sua funcionalidade social.
Resumidamente, o certo é que a leitura desses Fragmentos sobre ideologia, na passagem do centenário de nascimento de Vasco de Magalhães-Vilhena, permite compreender por que o insigne marxista português ainda permanece um maître à penser – para todos nós.
NOTAS
* Remeto o leitor interessado na biobibliografia de Magalhães-Vilhena aos vários trabalhos contidos em E. Chitas e H. Resende, coords., Filosofia. História. Conhecimento. Homenagem a Vasco de Magalhães-Vilhena. Lisboa: Caminho, 1980. Posteriormente, tanto Eduardo Chitas quanto Hernâni Resende publicaram textos referidos a seu mestre comum.

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

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Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

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NOSTALGIA

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CLAUSTROFOBIA

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