quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Serge Latouche

Serge Latouche, o precursor da teoria do decrescimento, defende uma sociedade que produza menos e consuma menos

Era o ano 2001, quando ao economista Serge Latouche coube moderar um debate organizado pela UNESCO. Na mesa, à sua esquerda, lembra, estava sentado o ativista antiglobalização José Bové; e um pouco além, o pensador austríaco Ivan Illich. Naquele momento, Latouche já havia tido a oportunidade de comprovar em campo, no continente africano, os efeitos que a ocidentalização produzia sobre o chamado Terceiro Mundo.
A reportagem é publicada no sítio Redes Cristianas, 31-08-2013. A tradução é do Cepat.
Naqueles anos, o que estava em moda era falar de desenvolvimento sustentável. Entretanto, para os que discordavam deste conceito, o que o desenvolvimento conseguia era tudo, menos a sustentabilidade.
Foi nesse colóquio que a teoria do decrescimento começou a alçar voo. Um conceito que um grupo de mentes com inquietudes ecológicas resgataram do título de uma coleção de ensaios do matemático romeno Nicholas Georgescu-Roegen. A palavra decrescimento foi escolhida para provocar. Para despertar as consciências. “Era preciso sair da religião do crescimento”, diz o professor Latouche...
Foi assim que nasceu esta linha de pensamento... Um movimento que poderia se enquadrar dentro de certo tipo de ecossocialismo para bradar contra a cultura do usar e jogar, da obsolescência programada, o crédito sem tom, nem som e os atropelos que ameaçam o futuro do planeta.
Estamos imersos em plena crise. Para onde você acredita que o mundo caminha?
“Atualmente, a crise que estamos vivendo vem se somar com muitas outras, e todas se misturam. Já não se trata de uma crise econômica e financeira, mas é uma crise ecológica, social, cultural..., ou seja, uma crise de civilização. Alguns falam de crise antropológica...”.
É uma crise do capitalismo?
“Sim. O capitalismo sempre esteve em crise. É um sistema cujo equilíbrio é como o do ciclista, que nunca pode deixar de pedalar, caso contrário, cai no chão. O capitalismo sempre deve estar em crescimento, caso contrário é a catástrofe. Há trinta anos não há crescimento, desde a primeira crise do petróleo; desde então, temos pedalado no vazio. Não houve um crescimento real, mas um crescimento da especulação imobiliária, das bolsas. E agora esse crescimento também está em crise”.
Latouche defende uma sociedade que produza menos e consuma menos. Sustenta que é a única maneira de frear a destruição do meio ambiente, que ameaça seriamente o futuro da humanidade. “É preciso uma revolução. Porém, isso não quer dizer que haja que massacrar e apertar as pessoas. É preciso uma mudança radical de orientação”. Em seu último livro, “A sociedade da abundância frugal”, editado por Icaria, explica que é necessário almejar uma melhor qualidade de vida e não um crescimento ilimitado do Produto Interno Bruto. Não se trata de defender o crescimento negativo, mas um reordenamento de prioridades. A aposta no decrescimento é a aposta na saída da sociedade de consumo.
E como seria um Estado que apostasse no decrescimento?
“O decrescimento não é uma alternativa, mas uma matriz de alternativa. Não é um programa. E seria muito diferente a forma de construir a sociedade no Texas ou em Chiapas”.
Entretanto, em seu livro, você explica algumas medidas concretas, como os impostos sobre os consumos excessivos ou a limitação dos créditos que são concedidos. Também diz que é preciso trabalhar menos. É necessário trabalhar menos?
“É preciso trabalhar menos para ganhar mais, porque quanto mais se trabalha, menos se recebe. É a lei do mercado. Se você trabalha mais, aumenta a oferta de trabalho, e como a demanda não aumenta, os salários baixam. Quanto mais se trabalha, mais se provoca a baixa dos salários. É necessário trabalhar menos horas para que todos trabalhem, mas, sobretudo, trabalhar menos para viver melhor. Isto é mais importante e mais subversivo. Temos ficado doentes, toxicodependentes do trabalho. E o que as pessoas fazem quando lhes reduzem o tempo de trabalho? Assistem televisão. A televisão é o veneno por excelência, o veículo para a colonização do imaginário”.
Trabalhar menos ajudaria a reduzir o desemprego?
“É claro. É necessário reduzir as horas de trabalho e relocalizá-lo. É preciso fazer uma reconversão ecológica da agricultura, por exemplo. É necessário passar da agricultura produtivista à agricultura ecológica campesina”.
Dirão que isto significaria voltar na História...
“Nada. De qualquer modo, não haveria razão para ser obrigatoriamente algo ruim. Não é uma volta ao passado, já que há pessoas que fazem permacultura e isso não tem nada a ver com a forma como era a agricultura de outrora. Este tipo de agricultura requer muita mão de obra, e se trata justamente disso, de encontrar empregos para as pessoas. É necessário comer melhor, consumir produtos sadios e respeitar os ciclos naturais. Para tudo isso é preciso uma mudança de mentalidade. Caso se consiga os apoios suficientes, medidas concretas poderão ser tomadas para provocar uma mudança”.
Você disse que a teoria do decrescimento não é tecnófoba, mas ao mesmo tempo propõe uma moratória das inovações tecnológicas. Como essas coisas casam?
Isto foi um mal-entendido. Queremos uma moratória, uma reavaliação para ver com quais inovações é preciso prosseguir e quais outras não possuem grande interesse. Hoje em dia, importantes linhas de pesquisa são abandonadas, como as de biologia do solo, porque não possuem uma saída econômica. É necessário escolher. E quem escolhe? As empresas multinacionais”.
Latouche considera que as democracias, na atualidade, estão ameaçadas pelo poder dos mercados. “Já não possuímos democracia”, proclama... “Estamos dominados pela oligarquia econômica e financeira que tem a seu serviço toda uma série de funcionários que são os chefes de Estado dos países”. E sustenta que a prova mais óbvia está no que a Europa fez com a Grécia, submetendo-a a estritos programas de austeridade. “Eu sou europeísta convencido, teria que se construir uma Europa, mas não assim. Teríamos que ter construído, primeiro, uma Europa cultural e política, e ao final, um par de séculos mais tarde, adotar uma moeda única”.
Latouche sustenta que a Grécia deveria declarar a suspensão dos pagamentos, como as empresas fazem. “Na Espanha, o rei Carlos V quebrou duas vezes e o país não morreu, pelo contrário. Com a Argentina isto aconteceu após a ruína do peso. O presidente da Islândia, e isto não foi dito de forma suficiente, disse no ano passado, em Davos, que a solução para a crise é fácil: anula-se a dívida e, em seguida, a recuperação vem muito rápido”.
E essa também seria uma solução para outros países, como a Espanha?
“É a solução para todos, e acabará sendo realizada, não há outra. Faz-se de conta que está se tentando pagar a dívida, esmagando as populações, e é dito que deste modo são liberados os excedentes que permitem resolver a dívida, mas, na realidade, entra-se no círculo infernal, no qual cada vez é preciso liberar mais excedentes. A oligarquia financeira tenta prolongar sua vida o máximo tempo possível, é fácil de compreender, mas é em detrimento do povo”.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A utopia necessária

Em 2016, são comemorados os 500 anos da redação de A Utopia, de Thomas More. Verdadeiro best-seller na sua época, o livro legou a nós uma palavra – o não lugar ou o lugar feliz, graças à etimologia dupla presente nela – e também uma forma de pensar. Participa da coincidência histórica que fez com que, em curto espaço de tempo, no começo do século XVI, um conjunto de obras e eventos redefinisse nossa compreensão da política: em 1513, com O príncipe, Maquiavel assentou as bases do entendimento moderno e contemporâneo dos dilemas envolvidos na relação entre moral e política. Em 1517, Martinho Lutero realizou o gesto inaugural da reforma protestante, ao afixar suas 95 teses sobre a venda de indulgências na porta da Catedral de Wittenberg, desencadeando o processo que levaria à separação entre Igreja e Estado, que é crucial para a política contemporânea e, em particular, para a própria possibilidade da democracia.
A obra de Thomas More apresenta outra faceta desta redefinição da política, ao enfatizar os elementos de indefinição e de liberdade na maneira pela qual homens e mulheres produzem sua vida em sociedade. Quando, na segunda parte do livro, o narrador descreve um mundo organizado de forma diferente, na Ilha de Utopia, o que ele está dizendo a seu público é que a sociedade não precisa ser obrigatoriamente do jeito que é. Muitas das instituições que More descreve parecem pouco atraentes para leitores contemporâneos. Há excessivo controle sobre a vida privada, com escassa liberdade individual. As relações entre os sexos eram revolucionariamente simétricas para a época em que A Utopia foi escrita, mas muito longe da igualdade que reivindicamos hoje. Existe trabalho escravo, única maneira que o autor encontrou para resolver o problema da escassez e do conflito distributivo. A despeito destes e de outros problemas, a lição central do livro continua a falar a nosso tempo.
Há alguns anos, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman fez uma observação muito pertinente sobre um paradoxo da sociedade contemporânea, ao menos da sociedade ocidental: nós achamos que a questão da liberdade está resolvida, isto é, que vivemos numa sociedade tão livre quanto é possível. Mas, ao mesmo tempo, tendemos a crer que o mundo é do jeito que é e nada, ou muito pouco, pode ser mudado. A “estrutura básica” da sociedade – as relações sociais de produção, as formas de gestão do poder político – está dada. Ou seja, somos livres, mas não podemos mudar o curso do mundo.
Mas que liberdade é essa, em que a possibilidade de transformar o mundo está afastada?
O pensamento utópico nos ensina o contrário. A primeira lição de Thomas More é que a sociedade é organizada da forma que surge das interações entre as mulheres e os homens que a compõem. Não é possível ver na organização social um reflexo da vontade de deus (ou do mercado, que aqui cumpre a mesma função). Ela é fruto da nossa vontade coletiva – o que inclui, certamente, o fato de que algumas vontades têm hoje mais condições de se impor do que outras. Mas se trata exatamente da possibilidade de projetar uma organização social diferente, em que esse quadro seja mudado.
É por isso que é necessário um elemento utópico nas lutas pela transformação social: a visualização de um mundo diferente, alimentada pela convicção (que é correta, que é bem embasada) de que o mundo não está condenado a permanecer do jeito que é.
Em parte da tradição da esquerda, o utopismo guarda um sentido pejorativo. Marx e Engels fizeram questão de diferenciar sua visão, “científica”, dos socialismos anteriores, nos quais grudaram o adjetivo “utópico” para marcá-los como irrealistas e infundados. Mas é possível entender de outra forma, vendo a utopia como sendo (nas palavras do filósofo francês André Gorz), “a visão de futuro sobre a qual uma civilização pauta seus projetos, funda seus objetivos ideais e suas esperanças”. Se é assim, o socialismo marxista também é utópico.
Como regra, porém, a crítica à utopia costuma vir do pensamento conservador, que nela vê ou uma evasão, ou, pior, uma inimiga da liberdade individual. Um sociólogo alemão, Ralf Dahrendorf, sintetizou as críticas ao afirmar que a utopia “é, pela natureza da ideia, uma sociedade totalitarista”. É um julgamento que aparece também em obras clássicas do pensamento de direita, como A sociedade aberta e seus inimigos, de Karl Popper, ou Anarquia, Estado e utopia, de Robert Nozick. Ao descrever uma sociedade ideal, a utopia negaria legitimidade a outros arranjos sociais. E ao descrever uma sociedade perfeita, exigiria a adaptação total de cada um a ela, para que nada trave seu mecanismo. A perfeição exige que o comportamento de todos seja predizível, logo não pode ser livre.
A crítica ao utopismo reflete, assim, duas ideias básicas do pensamento conservador. Primeiro, que a liberdade humana se realiza de acordo com o modelo do mercado, em que trocas autointeressadas levam a resultados indeterminados e assimétricos. Depois, que é necessário tomar cuidado com o racionalismo. A hunanidade deve evitar a ideia de que o uso da razão pode levar à solução dos problemas da organização social. Todos os grandes teóricos conservadores, do setecentista Edmund Burke ao recente Michael Oakeshott, batem na mesma tecla: a razão é limitada. Devemos nos apoiar na sabedoria da experiência, acumulada durante gerações e cristalizada nas tradições e mesmo nos preconceitos. A utopia aponta na direção inversa, propondo exatamente reinventar o mundo.
A crítica ao caráter totalitário, feita pelo pensamento conservador, não é inteiramente desprovida de sentido. Há experiências históricas terríveis – da Revolução Cultural maoísta ao regime de Pol Pot, no Camboja – que mostram os perigo de um voluntarismo absoluto, disposto a implantar um novo mundo sem olhar para as circunstâncias ou para os custos humanos. A ideia do “novo homem”, o ser humano aprimorado para um mundo aprimorado, que emerge já nas utopias do Renascimento (mais do que em More, na Cidade do Sol, de Tommaso Campanella), carrega um inegável perigo autoritário.
Mas é igualmente autoritário congelar as pessoas e o mundo social naquilo que são hoje, como se fossem inevitáveis e imutáveis. Recusar desta forma o utopismo é, assim, negar legitimidade a qualquer alternativa ao já existente e tentar eliminar da política o dever-ser. Nas palavras do historiador polonês Bronisław Baczko, “a invenção utópica se mostra cúmplice da invenção do espaço democrático. De fato, é apenas com a invenção deste espaço que a sociedade se dá a representação de ser fundada apenas sobre ela mesma, sobre sua ‘vontade’ livremente expressa e fundadora de sua ordem. De pronto, este espaço se oferece como um espaço social a modelar, a gerar, a reinventar”.
A narrativa utópica afirma a sociedade humana como auto-instituída – regida por normas que os homens e mulheres se deram e que, se quiserem, podem alterar. As forças conservadoras tentam, ao contrário, indicar que o mundo que temos é o único mundo possível. Em todo o projeto político transformador, há, ao menos em germe, a visão de uma sociedade nova, que ainda não existe em lugar nenhum. Sem isto, a humanidade estaria condenada a permanecer com o já existente e a disputa política seria reduzida à mera alocação de recursos.

in Boitempo. blog

Uma autora e uma leitura urgentes

Arundhati Roy

Traducción de Carmen Valle
comparte:
La India es un país de mil doscientos millones de personas y es la «democracia» más grande del mundo, con más de 800 millones de votantes. Pero las 100 personas más ricas del país poseen activos que equivalen a una cuarta parte del Producto Interior Bruto. El resto de la población son fantasmas en un sistema más allá de su control. Millones de personas viven con menos de dos dólares al día. Cientos de miles de agricultores se suicidan cada año incapaces de hacer frente a sus deudas. Los dalits son expulsados de sus aldeas porque los propietarios, que les arrebataron sus tierras por no tener escrituras de propiedad, quieren dedicar la tierra a la agroindustria. Estos son sólo algunos ejemplos de los «brotes verdes» de una economía que ha corrompido a la India contemporánea.
Arundhati Roy examina el lado oscuro de la democracia y muestra cómo las exigencias del capitalismo globalizado han sometido a miles de millones de personas al racismo y a la explotación. La autora expone cómo las megacorporaciones han desposeído de recursos naturales al país y han sido capaces de influir a través del Gobierno en todas las partes del país, utilizando habitualmente al ejército y su fuerza bruta con fines lucrativos, así como a una amplia gama de ONG y fundaciones, para decidir la formulación de políticas en la India.
» Roy ha recibido el Premio Booker y el Premio Sídney de la Paz por sus campañas sociales

Entrevista com Eduardo Lourenço

A cultura não pode ser uma luz que ilumina uns quantos enquanto o resto permanece na sombra. Para Eduardo Lourenço, a cultura é, antes, “o diálogo da humanidade consigo própria”. Porém, esse diálogo está hoje a ser esvaziado em função de uma distração sublime, de um olhar em frente que confunde com a realidade as sombras projetadas no fundo da caverna. Sim, Platão é para aqui chamado. E Comte, Lévi-Strauss, Kierkegaard. O professor prefaciou Schwanitz e imprimiu-lhe um tom mais cauteloso. Afinal, de que falamos quando falamos de cultura?
O título do livro de Dietrich Schwanitz é “Cultura — Tudo o Que É Preciso Saber”. O que é preciso para ser-se culto?
Seria melhor se fosse “tudo o que convém saber”. Porque a cultura não tem o monopólio do que é preciso ou não saber. Ela é o lugar onde se discute o sentido de tudo quanto somos capazes de fazer. E, como tal, a cultura não é a resposta, é a questão. A questão que a humanidade tem consigo própria. Antes dos gregos, civilizações mais arcaizantes não tinham essa exigência autocrítica, de se discutirem a elas próprias. E nós, enquanto herdeiros dos gregos, reservamos-lhe um lugar matricial. Nascemos de uma cultura de diálogo, ou pelo menos essa era a nossa convicção no século XIX. É por isso que o título do livro é importante: porque descobrimos que a cultura também é aquilo que separa, que divide os homens entre cultos e não cultos. Hoje, cada um pensa que a cultura é dele. Mas nada justifica esta pretensão de que os outros estão numa espécie de sombra. Uma das pessoas mais lúcidas a pensar sobre isto foi Claude Lévi-Strauss. Para ele, tudo é cultural. Porque o homem é um ser falante e pensante.
A cultura é uma construção?
É uma construção que nunca esteve ausente. E em vez de ser a maneira mais autocompreensiva de a humanidade se entender e de entender tudo quanto faz, de ser uma leitura do mundo, está a transformar-se numa espécie de luz imposta, tão ofuscante que acaba sendo rejeitada. Por outro lado, cultura é também isso: a tentativa de separar o que é sombra do que é luminoso, o aceitável do inaceitável.
Uma espécie de validador?
É uma espécie de diálogo, o da humanidade consigo própria. Veja que, de alguns anos para cá, apareceu o conceito de ‘contracultura’. Ou seja, uma parte da humanidade, particularmente os jovens, exprime o que sente de uma forma diferente da chamada ‘cultura culta’ — tradicional, herdada da Grécia e, no Renascimento, mitificada e promovida a um ideal. Esta contracultura pode parece bárbara, mas é uma cultura. Não podemos escapar ao cultural.
Hoje temos acesso a quase tudo. Somos mais cultos?
A cultura não tem um padrão. Não há nada que meça o que é ou não cultural. Em todo o caso, o destino da humanidade é o de distinguir sem cessar, e o ser humano é o ser da escolha. E o que é cultura depende daquilo que somos, em termos individuais e coletivos. Não há um paradigma, ‘uma’ cultura.
Porém, Dietrich Schwanitz tenta defini-la, ao dizer que a cultura é “a compreensão da nossa civilização” ou “o conhecimento que sabe avaliar-se a si mesmo”.
Penso que todas as grandes culturas, e não só a ocidental — que a certa altura parecia uma exceção no meio de culturas confrontadas com questões de sobrevivência vital — são um espaço de ócio. A cultura nasceu quando os homens criaram uma resposta à coisa mais insuportável de todas: o tédio. O tédio é um tempo sem matéria, uma matéria nula em que nada se passa. Pascal disse que a infelicidade da humanidade é a incapacidade de estar sozinha num quarto. É não se contentar com o que está à volta ou com as coisas urgentes que a solicitam e que deveriam ocupá-la. A cultura é, assim, a invenção contínua de respostas para a expulsão do não-sentido.
O autor dedica o livro aos que se sentem desiludidos com um sistema educativo em crise e sem relação com a vida. Da educação advém a cultura?
Essa espécie de música, de lengalenga, sempre existiu. Mas houve um tempo em que a educação era um privilégio de certas classes, e a distribuição do saber não era igualitária ou codificada de forma a todos poderem participar. Isso modificou-se quando Rousseau a colocou no centro da formação humana. A educação passa a ser o espaço — e a prática — através do qual o homem se vive a si mesmo e se torna exigente em relação ao que lhe é proposto como sendo evidências, que se podem discutir e até transformar.
A cultura implica um passado e uma memória. Ter cultura não significa sempre recuar?
Somos herdeiros de uma série de discursos sobre nós próprios. E pouco a pouco ficou assente que há um caminho real e outros subalternos, saberes de segunda ordem, que aparecem em relação aos dominantes como qualquer coisa de inferior. Ora, a cultura verdadeira não é secundarizante. Temos de evitar duas coisas: a apologia de um saber que, de forma mitificada, se assume como o incontornável absoluto para os iniciados na cultura; e a determinação do que seria um ‘mínimo vital’ na ordem da cultura, ou seja, as migalhas distribuídas generosa e caritativamente ao resto da humanidade menos privilegiada. Não, a cultura é, em si, o absoluto que o homem pode atingir.
O livro divide-se em duas partes, saber e poder. Juntos, estes termos têm um significado político: evocam a função da cultura como capacitação do indivíduo para fazer as suas escolhas.
A divisa do positivismo de Auguste Comte era ‘saber é poder’. No tempo das sociedades antigas, guerreiras, o poder era um poder fáctico, era a capacidade de dominar o outro. A história não é um conto de fadas, é extremamente violenta. E a cultura, digamos, é uma resposta que estabelece um espaço diferente dessa violência radical, original, do mundo. A cultura é a barca que construímos para acedermos a um destino que pensamos ser mais adequado à humanidade.
Uma sociedade culta é uma sociedade mais justa, menos violenta?
Já vimos que não há padrões. Os gregos fizeram uma separação entre eles e os bárbaros. E o que é o bárbaro? É um outro, com outra cultura e outra linguagem. Aquela linguagem que nós não entendemos. E eles podiam dizer de nós a mesma coisa. É como a relação entre patrões e criados: os patrões pensam que dispõem da lucidez, das boas maneiras, e que os criados são cegos. Não, foram é silenciados durante parte da história. Até que se revoltam, de forma violenta como Espártaco, ou caseiramente como nos romances do século XIX.
Na introdução que escreveu, quebra um pouco o otimismo do autor. Este diz-nos que a cultura está ao nosso alcance e o professor contrapõe que o nosso tempo é o da caverna de Platão, um tempo de aparências. Porquê?
Porque é o preço que pagámos por pensar que estávamos já na luz plena. A humanidade tem tendência a pensar que o ponto onde está é ponto ómega da história, e tal não existe. Na ordem cultural, não há como separar o positivo do negativo, o que nos perde do que nos salva, o que nos engrandece do que nos diminui. Essa é uma luta interna, e é uma luta que não tem sujeito. A humanidade inteira é assim.
Mas viver na caverna não significa vivermos enganados?
Só nos salvamos da caverna com a consciência de estarmos na caverna. Isto aplica-se à televisão: pensa-se que aquelas imagens são reais mas o real está lá fora, é o que ilumina o fundo da caverna. Para vermos o real, temos de voltar a cabeça para trás.
E estamos a olhar para a frente?
Estamos sempre a ver as imagens, em vez de estarmos em contacto com a realidade.
A dada altura, constata que nunca como hoje houve de forma tão marcada o oposto da cultura, que existe para nos distrair dela.
Em vez de a cultura ser aquilo que nos acorda, é aquilo que nos distrai — uma espécie de distração sublime. Nós podemos ser sufocados pela riqueza, como as abelhas no seu mel. Kierkegaard, autor que aprecio muito, ficou muito indignado porque o protestantismo na Dinamarca era vivido como se fosse água, como algo comum. Em vez de ser qualquer coisa que pusesse as pessoas em causa, era recebido como um caramelo.
É assim que vivemos hoje? Como “personagens de jogos de vídeo”, num presente que se basta a si próprio?
Um presente contínuo. Se a humanidade tem uma essência qualquer, é justamente ter memória de si mesma. Portanto, estamos a roubar a memória a nós próprios. Recorrendo a um exemplo extremo: a humanidade podia, praticamente desde que nasce até que morre, estar a olhar para a televisão. Poderíamos passar uma vida inteira a assistir a um filme no qual somos os atores principais, sem vivermos nada. Este é um pesadelo tão grande como o de Kafka. Porém, não se deve fazer uma leitura totalmente negativista, porque nessa nova atividade o futuro está implicado.
Isso é, como preconiza, o fim do sujeito cultural, com memória.
É para onde tendemos, nesta espécie de ludismo universal. O que não significa que não existam hoje pessoas que possam vir a ser os próximos Dante ou Proust. Penso que todos nós somos atores do cultural. Todos queremos estar nessa situação — nem que seja pela aberração ou pela diferença — que não faça de nós um robô, antes que as nossas invenções nos convertam num tipo de existência robótica.
Como se sai daqui?
Em última instância, o importante é a nossa relação com o outro. É não falhar a relação que estabelecemos com uma só pessoa. O resto virá por acréscimo.
Diz que o “fim da história” diagnosticado por Fukuyama é o fim do tempo europeu e o início de um “antitempo” americano. Quer explicar?
O “fim da história” é uma ideia que vem de Hegel e que foi retomada por Marx. É o fim de nós enquanto incapazes de nos apropriarmos plenamente do nosso destino. Até agora, a história humana é a história da nossa própria escravidão. O fim da história é o acordar desse longo período de escravidão para reconhecer as exigências do real. A história é uma luta entre quem tem e não tem poder. E os EUA, já na Grande Guerra mas sobretudo na II Guerra Mundial, ficaram com a possibilidade de condicionar o destino da humanidade. Assumiram esse papel, que originou um paradigma cultural. A expressão mais lúdica de todas, o cinema, mostra-o bem. O grande acontecimento deste ano foi o “Star Wars”. Quando estava a ver o filme, pensava para mim: na Europa andamos há muito vestidos de americanos. É que, mesmo que os europeus quisessem — e não por falta de talento —, não poderiam fazer um filme como aquele. A América sente-se mesmo responsável pela marcha do mundo.
E a Europa não?
A Europa esteve várias vezes à beira do abismo. E agora estamos à espera que acorde. Tem um passado que é como as asas longas do albatroz de Baudelaire: impede-a de marchar. A humanidade habituou-se a conhecer a sua própria história como uma sucessão de impérios, e cada um pretendia ser o último. Desta vez, os Estados Unidos são mesmo o último império — ainda que provavelmente já numa fase crepuscular. Mas, sabe, no outro dia, no centenário de Frank Sinatra, prometi nunca mais dizer nada de negativo contra os americanos.
Porquê?
Porque pessoas como Sinatra são um fenómeno só americano. É um sujeito que parte do nada, europeu, e que por uma qualidade, um talento, conquista aquele país. Este é o triunfo da Europa na América, mas também da América sobre a Europa

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

ma antiga realidade sociológica e política

O mapa que os jornais não publicaram e que mostram algo que nem Marcelo conseguiu mudar

Uma antiga realidade sociológica e política

O mapa que os jornais não publicaram e que mostram algo que nem Marcelo conseguiu mudar


Debruados a vermelho os distritos em que Marcelo rebelo de Sousa não alcançou a maioria absoluta. E Santarém não entra nele por uma unha de 1,11 pontos percentuais.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O quarto poder

Os quase dois milhões e meio de votos no candidato da direita vencedor não vieram das hostes revanchistas dos partidos que nos infernizaram a vida durante quatro anos, estes sofreram uma derrota clamorosa (em votos) nas legislativas. Não vieram dos convictos reaccionários das políticas de agressão ao povo, de extorsão e saque dos contribuintes, dos convictos neoliberais. Vieram do meu vizinho que abre a oficina de bate-chapas às oito da manhã, dos reformados do café do meu bairro que folheiam de borla o Correio da Manhã, da Dona Otília que vende na mercearia o pãozinho quente, da professora que, numa corrida nervosa, deixa o filho no jardim de infância, dá um beijinho cordial e fugidio na sua colega educadora e abre a sala de aula com o coração aos pulos. Vieram do médico bem ou mal pago, temeroso das mudanças que façam perigar o seu rendimento, do paciente da terceira idade que adormece nas telenovelas que distraem a mulher. Vieram do senhor Faustino que labuta de sol a sol na courela ingrata e que não lê coisa nenhuma desde os bancos da escola. Vieram de muitos eleitores que até simpatizam com o primeiro-ministro e com aquilo que o governo promete.
Vieram através do jornal e da estação de televisão mais vistos. Vieram não do quarto poder, mas do segundo que faz o primeiro.

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

CLAUSTROFOBIA