segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Entrevista com Pablo Catatumbo
A paz na Colômbia exige compromissos

Felipe Morales Mogollón*
22.Feb.16 :: Outros autores
“Não estamos a julgar, estamos a propor um acordo político em que não misturemos novamente armas com política, mas o Estado também deve fazê-lo. É aí que reside o compromisso de não reincidência. Durante anos, disse-se que as FARC eram responsáveis ​​e que éramos sequestradores, mas não fala das pessoas que desapareceram por acção do Estado”, diz Pablo Catatumbo, negociador plenipotenciário das FARC-EP em Havana.

Um dos temas principais a respeito de um final para o conflito é o combate a fenómenos criminais como o paramilitarismo.
O Governo e as FARC disseram que o acordo para acabar com o conflito está próximo, que os avanços não têm precedentes, e fala-se de 23 de Março como a data para a assinatura. Apesar do optimismo, os pontos pendentes da discussão apresentam grandes dificuldades. Um deles é o fim do conflito, que envolve questões como o cessar-fogo bilateral, o desarmamento, a reincorporação das FARC e outros dois, prioritários: a luta contra outras formas de criminalidade e as suas redes de apoio, e garantias de segurança.
Nesta discussão, um dos temas transversais é o crescimento de gangues criminosos ou paramilitares no país. Assim, o presidente Juan Manuel Santos anunciou que as Bacrim [1] serão um alvo de grande valor para as forças de segurança. Mas a questão vai além disso. As FARC dizem que os paramilitares não apenas actuam no teatro de guerra, mas têm as receitas do Estado capturadas e gerem toda uma economia paralela.
Numa entrevista ao El Espectador, Pablo Catatumbo, negociador plenipotenciário das FARC, falou da necessidade de enfrentar este fenómeno e da obrigação do Estado impedir que os membros das FARC sejam assassinados quando a paz for assinada, como aconteceu noutros processos, e argumentou que uma das principais contribuições das negociações em curso será que todas as partes envolvidas no conflito digam a verdade.
Vocês dizem que um juízo histórico da violência na Colômbia deve recuar até antes da década de 1950. Um acordo de paz implica abordar coisas que aconteceram há tanto tempo?
Não, mas o debate político tem que ir até esse ponto. O povo não se preocupa com estas questões, mas nós, que aspiramos dirigir os destinos da nação, sim, devemos falar sobre isso. Há uma história da Colômbia que eu conheço e eu gostaria de falar com os líderes de partidos tradicionais, e até mesmo com o ex-presidente Álvaro Uribe, para que contem a sua. Aqui se matou gente, entre conservadores e liberais, e eles também são responsáveis, não podem enganar as pessoas. É por isso que insistimos numa comissão histórica para explicar por que temos toda essa história de guerra.
Isso tem a ver com a insistência no tema do paramilitarismo?
A Colômbia está ligada ao paramilitarismo desde as suas origens como país, e isso representa um grande risco para a paz. O paramilitarismo está vivo e é a principal ameaça à paz e à democracia. Não desdenhemos o perigo que ele representa. Não são apenas as Bacrim, mas um fenómeno complexo e multidimensional que tem vários componentes. Por exemplo, a doutrina da segurança nacional, uma vez que se enfrenta um inimigo que, de acordo com essa concepção, ameaça a própria instituição. Começou assim, mas hoje em dia temos um paramilitarismo que controla a política paralela, a economia paralela e as empresas de segurança privada, onde estão os piores criminosos e violadores de direitos humanos, aqueles que tiraram a terra aos camponeses e conduziram à deslocação das pessoas e a massacres. Vale a pena debater estas questões. Por exemplo: Que fazia José Félix Lafourie em 2005? Foi super-intendente de notariado e registo e de aí passou à Fedegán. Se isso não é uma porta giratória, então o que é?
Mas devemos reconhecer que o paramilitarismo é uma resposta à ineficácia do Estado para proteger os cidadãos da guerrilha…
Isto é o que se diz, mas o paramilitarismo é anterior a isso. Como também se diz que Carlos Castaño era um pobre camponês trabalhador e que as FARC mataram o seu pai, pelo que, como ofendido, criou os paramilitares e cometeu uma série de horrores. A verdade é que Castaño já era paramilitar e narcotraficante do grupo de Pablo Escobar. As FARC sequestraram seu pai por ser traficante de droga, o exército tentou resgatá-lo e ele morreu nesse combate como também morreram guerrilheiros. Essa é que é a verdade.
E a morte do pai do antigo presidente Álvaro Uribe?
Não matámos o pai de Uribe. Isso é falso, não tínhamos guerrilheiros naquela zona. A irmã de Uribe disse que ele chegou num helicóptero, escondeu-se e houve um tiroteio. Se sequestramos um tipo que chegou num helicóptero, não enviamos dois guerrilheiros, mesmo que fôssemos parvos. O pai de Uribe não foi assassinado pelas FARC, não tínhamos unidades ali. Onde está o juiz ou a investigação séria que diga que fomos nós?
Hoje fala-se de grupos criminosos paramilitares, mas…
O Estado nunca reconheceu o paramilitarismo, apesar de haver provas claras, como a existência de Yahir Klein ou o assassinato de Luis Carlos Galán, que se diz terem sido narcotraficantes, e nunca aceitaram que o Estado estava por trás disso. É por isso que damos tanta importância à verdade e a que se descubram as ligações entre o Estado e os paramilitares. Essa é a importância duma justiça em prol da Paz, porque obriga todos aqueles que enganaram o país a dizer a verdade. As nossas verdades são simples: somos guerrilheiros e temos agido sob as circunstâncias de guerra. Eu não matei os deputados do Valle, mas as FARC dão a cara. Vemos o antigo presidente César Gaviria explicando por que ficou do lado de Pepes para matar Pablo Escobar. Eles querem ver as FARC a reparar danos causados, e nós concordamos, mas todos os participantes do conflito tem de se comprometer. O que está claro é que não temos tido ministros ou cargos públicos, mas aqueles que os têm ocupado devem muitas explicações ao país.
Para si, a desmobilização paramilitar foi uma farsa?
No caso do dos paramilitares que não desmobilizaram houve uma armadilha. Se vir os nomes dos Úsuga, correspondem exactamente aos dos que foram chamados de Heróis de Araúca. Ernesto Baez reconheceu, disse que apenas 21 líderes paramilitares desmobilizaram. O nome Jorge 40 não é gratuito, era o seu número, e Carlos Castaño era o comandante zero. Vinte e um desmobilizaram. Onde estão os outros dezanove? O que aconteceu com a desmobilização dos paramilitares foi uma partida de carnaval.
Já há uma data para a assinatura da paz, mas o que vai acontecer aos paramilitares?
Não estamos a dizer que o governo tem de acabar imediatamente com os paramilitares. O que estamos a dizer é que devem tomar-se medidas credíveis que dêem um sinal que aponte para o combate frontal. O problema não é Otoniel, nem eram Pijarbey ou Megateo; o problema é que este é um fenómeno político que não terminou com o escândalo da política paralela, e que está vivo e bem de saúde.
Que medidas entende que são necessárias?
O primeiro é depurar as forças armadas, tem de ser feito. Em segundo lugar, eliminar uma série de leis e decretos que defendem os paramilitares. Em terceiro lugar, tomar medidas contra a política paralela como a regulação das formas de participação política, combatendo a corrupção, ou impor sanções drásticas. O Estado colombiano deveria ter explicações para a economia paralela, não disse nada sobre isso. Eles controlam a saúde, o mercado do ouro, a mineração ilegal, sectores inteiros da economia. As Bacrim são o componente armado, mas há coisas que são invisíveis e o paramilitarismo tem outros componentes. O que precisamos saber é se o governo tem uma vontade real de acabar com o paramilitarismo.
Não é muita ousadia falar em depurar as Forças Armadas?
É um problema que o Estado deve enfrentar. O que dizemos é que é necessário definir para que se quer as Forças Armadas. É preciso defender a Constituição e a soberania, que haja princípios; não é bom que haja militares envolvidos no narcotráfico. Como é que Óscar Naranjo destacou 11 000 polícias para combater os cartéis? Essa foi uma decisão política. Vejo alguns militares que estão cientes disso. Conheço militares patriotas, guerreiros, têm sofrido em combate e respeito-os pelo seu sacrifício, mas hoje percebem que não estamos tão afastados uns dos outros, queremos uma Colômbia honesta, que não esteja nas mãos de ladrões. Eles devem apoiar o presidente, têm sofrido com a guerra e estão a ser traídos pelos líderes políticos.
Claro que o paramilitarismo, de acordo com o que você mesmo disse, não vai acabar da noite para o dia…
O que acordarmos será respeitado. Não podemos ser cegos e dizer que enquanto o último paramilitar desaparecer o conflito não acabará, mas pedimos que haja medidas que tragam a confiança de que estão a trabalhar nesse sentido. Mas também não podemos depor as armas e participar na política com um paramilitarismo crescente, apoiado pelas forças armadas e espalhado pelo país. Esse é o maior desafio do governo de Santos: mostrar ao país que quer a paz, tomando decisões para a acabar com o fenómeno paramilitar, que inclui uma política e uma economia paralelas.

Não é ingénuo pensar que o acordo de Havana trará as mudanças profundas que ambicionam?

Não se trata de decretos ou leis. Tem de haver uma pedagogia da paz e um compromisso político com partidos, sindicatos e outros sectores, para um pacto que possa manter-se. Não estamos a julgar, estamos a propor um acordo político em que não misturemos novamente armas com política, mas o Estado também deve fazê-lo. É aí que reside o compromisso de não reincidência. Durante anos, disse-se que as FARC eram responsáveis ​​e que éramos sequestradores, mas não fala das pessoas que desapareceram por acção do Estado.
Houve no passado casos que geraram milhares de mortes de pessoas que depuseram as armas e vocês confirmam que o paramilitarismo está vivo. É possível baixar as armas neste contexto?
Isso cabe ao presidente, se não, não há paz. O maior fracasso que pode ocorrer na política colombiana é não poder garantir a paz. Se o Estado não é capaz de garantir a vida dos comandantes da guerrilha uma vez que os acordos sejam assinados, se acontecer novamente o que aconteceu com Carlos Pizarro, isso é o fracasso. É esse o desafio que têm Santos e as Forças Armadas.
Nota:
[1] A reestruturação do crime organizado, depois de uma desmobilização de 32.000 combatentes das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC)

* Jornalista de El Espectador, jornal colombiano
Este texto foi publicado em:
http://www.elespectador.com/noticias/politica/nosotros-no-matamos-al-papa-de-uribe-pablo-catatumbo-articulo-611111
Tradução: André Rodrigues

domingo, 21 de fevereiro de 2016

HOMENAGEM A UM GRANDE INTELECTUAL

Com Umberto Eco aprendi, como professor de filosofia, que uma boa forma de enfrentar os media não era competir com eles (derrota inevitável) mas ensinar a utilizar conceitos como ferramentas. Se possuíssemos uma chave-mestra abriríamos todas as portas blindadas. Não apenas com ele, evidentemente (não é a boa filosofia outra coisa). Os seus romances históricos (e os manuais magníficos sobre a história da Beleza e da Fealdade ou sobre a Idade das Trevas) ensinariam os professores de história a ensiná-la com sucesso. 

sábado, 20 de fevereiro de 2016

A morte de UMBERTO ECO


Romances

Ensaios

Obras nas áreas de filosofiasemióticalinguística, estética traduzidas para a língua portuguesa:[2]
  • Obra aberta (1962)
  • Diário mínimo (1963)
  • Apocalípticos e integrados (1964)
  • A definição da arte (1968)
  • A estrutura ausente (1968)
  • As formas do conteúdo (1971)
  • Mentiras que parecem verdades (1972) (co-autoria de Marisa Bonazzi)
  • O super-homem de massa (1978)
  • Lector in fábula (1979)
  • A semiotic Landscape. Panorama sémiotique. Proceedings of the Ist Congress of the International Association for Semiotic Studies (1979) (co-autoria de Seymour Chatman e Jean-Marie Klinkenberg).
  • Viagem na irrealidade cotidiana (1983)
  • O conceito de texto (1984)
  • Semiótica e filosofia da linguagem (1984)
  • Sobre o espelho e outros ensaios (1985)
  • Arte e beleza na estética medieval (1987)
  • Os limites da interpretação (1990)
  • O signo de três (1991*) (co-autoria de Thomas A. Sebeok)
  • Segundo diário mínimo (1992)
  • Interpretação e superinterpretação (1992)
  • Seis passeios pelos bosques da ficção (1994)
  • Como se faz uma tese (1995*)
  • Kant e o ornitorrinco (1997)
  • Cinco escritos morais (1997)
  • Entre a mentira e a ironia (1998)
  • Em que creem os que não creem? (1999*) (co-autoria de Carlo Maria Martini)
  • A busca da língua perfeita (2001*)
  • Sobre a literatura (2002)
  • Quase a mesma coisa (2003)
  • História da beleza (2004) (direcção)
  • La production des signes (2005 em francês)
  • Le signe (2005; em francês)
  • Storia della Brutezza (2007). Em Portugal, traduzido como História do feio e , no Brasil, como História da Feiúra.
  • Dall’albero al labirinto (2007)
  • A vertigem das listas (2009)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Barata-Moura – marxista, filósofo e… músico

Na coluna do mês passado, disse aos meus eventuais leitores algo sobre Magalhães-Vilhena, o grande exemplo da geração de filósofos marxistas portugueses que encontrou melhores condições para o seu desenvolvimento na sequência da Revolução dos Cravos. Retorno de novo a portugueses, fazendo rápida menção a um dos vários pensadores daquela geração, para a qual Magalhães-Vilhena é um verdadeiro ícone – a que talvez apenas se ombreie a figura do matemático e homem de cultura Bento de Jesus Caraça (1901-1948, outro notável intelectual vinculado ao Partido Comunista Português/PCP). O pretexto para a coluna deste mês é a minha revisitação a um livro publicado há quase 40 anos, Totalidade e contradição. Acerca da dialética (Lisboa: Horizonte, 1977; reedição, aumentada e revista: Lisboa: Avante!, 2012), de José Barata-Moura.
No domínio da cultura, reconhece-se hoje Barata-Moura como um filósofo consagrado. Consagrado nacional e internacionalmente: tendo sido reitor da Universidade de Lisboa (1998-2006), em cujo Departamento de Filosofia leciona como professor catedrático, é membro de respeitadas associações e academias científico-filosóficas europeias, participa de congressos e simpósios em todo o mundo (já esteve inclusive entre nós) e tem a seu crédito substantiva bibliografia.*
barata moura pcp
Nem mesmo a sua permanente e ativa militância política foi capaz de travar ou, menos ainda, impedir a constituição do amplo consenso que respalda aquele reconhecimento – Barata-Moura não vive somente no gabinete de pesquisas: é bem provável que, se o meu eventual leitor qualquer dia desses visitar Lisboa, vá encontrá-lo numa popular “sessão de esclarecimento” do PCP, numa passeata/comício ou à frente de intervenções políticas de maior ressonância (em 2010, ele foi o “mandatário nacional” da campanha do candidato comunista, Francisco Lopes, à Presidência da República). Em suma: o filósofo, comprometido com a luta pelo socialismo desde muito jovem, nunca foi um “radical de ocasião”; ao contrário, tipifica mesmo aquele militante que, num célebre poema de combate, Brecht caracterizou como imprescindível.
Exímio conhecedor do idioma alemão, Barata-Moura tem se destacado, igualmente, como seguro tradutor de Marx-Engels. Já em meados dos anos 1970, ele passou a compor o “coletivo Avante!” de tradutores, que verteu ao português, entre outras, as Obras escolhidas de Marx-Engels em três tomos e que, atualmente, está finalizando uma nova tradução d’O capital, dirigida por ele e Francisco Melo – foram editados, pela Avante!, entre 1990-2012, seis dos oito tomos em que a edição apresentará os três livros de que se constitui modernamente a obra máxima de Marx).
totalidade e contradição zé paulo
Deixemos, porém, o presente e voltemos a 1977, voltemos a Totalidade e contradição, um livrinho de capa verde, com modesta aparência e pouco menos de 200 páginas em tamanho reduzido. Não se está diante de texto leve: a linguagem é densa e castigada, mas a forma amolda-se com justeza ao conteúdo que, embora centrado em duas categorias nucleares da dialética materialista, permite-se excursos de extrema erudição (p. ex., na seção II do livro, onde o autor esboça elementos para uma história da dialética, arrancando dos gregos e chegando ao materialismo dialético). O tratamento daquelas duas categorias nucleares (totalidade e contradição) supõe, evidente e preliminarmente, uma elaboração – mesmo que ainda num alto grau de abstração – da dialética, posta já a diferenciação entre os princípios (o histórico e o sistemático) que comandam os modos de abordá-la e a distinção entre conceito e categoria (na seção I, “em jeito de introdução”, os econômicos parágrafos em que tais diferenciação e distinção se operam são suficientes).
Tal elaboração faz-se na seção III do livro. Se o meu eventual leitor suspeita que não se pode, em 30 páginas, cuidar com rigor da “determinação geral da dialética” (eis o título da seção), posso garantir-lhe que a suspeição, neste caso, carece de sentido. A argumentação do jovem (no ano da publicação de Totalidade e contradição, o autor, nascido em 1948, ainda não completara 30 anos, mas já exercitava desde antes o seu labor analítico em ensaios como Kant e o conceito de filosofia, de 1972, e Da redução das causas em Aristóteles, de 1973) Barata-Moura é solidamente fundada. Essencialmente ontológica, como diria o último Lukács, a concepção de dialética desenvolvida por Barata-Moura – compreendendo-a simultaneamente como processo objetivo e como assunção subjetiva (na consciência teórico-filosófica) – dista anos-luz da vulgarização/divulgação manualesca. É uma concepção na qual “a dialética encontra-se aberta e fundada numa realidade que está ela própria em constante movimento, no quadro de um desenvolvimento que não é caprichoso nem irracional – isto é, no quadro de um desenvolvimento que é possível conhecer e, em boa medida, dentro de certos limites, determinar” (p. 108-109). Mais: uma concepção, objetiva e subjetiva, de dialética colada à práxis transformadora:
“Uma transformação que a própria verdade do real impõe e que é exigida pela prática material em que a dialética surgiu sistematicamente e em que continua a inscrever-se: o movimento operário internacional e a sua luta pela emancipação que, necessariamente, passa pela abolição do capitalismo, enquanto forma contemporânea da exploração de uma classe por outra” (idem).
A referência da dialética à intervenção prático-política emancipadora não tergiversa a análise teórico-filosófica que Barata-Moura empreende – antes, potencializa esta análise, que, na sequência expositiva (seção IV), aborda a categoria da totalidade e seu fundamento objetivo. O filósofo pensa a totalidade ontologicamente: ela não se constitui como “hipostasiação de uma entidade abstrata transcendente ou imanente” (p. 118), nem é um artifício intelectivo para organizar o conhecimento da realidade: seu “fundamento real” é “o processo histórico no seu conjunto e desenvolvimento” (p. 119). Dada a sua inequívoca complexidade e diversidade, tal processo exige a determinação de diferentes níveis de totalização; a diferencialidade do real exige do pensamento dialético “determinar a qualidade respectiva das diversas modalidades de diferença que ele [o processo real objetivo] inegavelmente patenteia” (p. 133). Com efeito, “o real é uma totalidade, sem dúvida, mas uma totalidade contraditória, nos próprios termos e elementos em e por que se constitui e desenvolve” (idem).
Daí a necessidade de perquirir a relação dialética/contradição (objeto da seção V do livro). Barata-Moura assevera que é, no “contexto de unidade fundamental do real”, que “a contradição interna assume o seu papel constitutivo de princípio estrutural do movimento” (p. 139); e, de forma peremptória: “a contradição se encontra […] no centro de toda a dialética” (p. 140). São várias as distinções que, nesta seção, o filósofo desenvolve – citem-se particularmente duas: entre o “polo dominante” o “polo determinante” da contradição e entre a “contradição dialética” e a “contradição lógica”. No que toca à contradição dialética, ele salienta que “há que pensar essencialmente a contradição no quadro do devir da realidade objetiva”, que é o seu “horizonte primordial”. E faz uma determinação axial, que reproduzo devido às suas relevantes implicações: “[…]A dialética que subjetivamente nos aparece, nomeadamente ao nível do saber, não apenas se estabelece como reflexo da realidade objetiva, mas faz ela própria parte integrante dessa mesma realidade, ainda que no plano e no nível que lhe são específicos. A consciência que reflete o mundo, de uma maneira adequada ou não, não se encontra ela própria fora ou ao lado ou paralela ao mundo. Muito pelo contrário, na medida em que encarna num viver concreto que a sustenta, na medida em que enraíza numa prática que, em última análise, lhe define verdadeiramente o sentido e a determina, a consciência encontra-se mergulhada no mundo” (p. 159).
barata moura biblioteca ze paulo
Por estas pequenas amostras, certamente que o leitor percebe que Totalidade e contradição. Acerca da dialética não é um manual a divulgar a “dialética” em poucas dezenas de páginas ou a resumi-la facilmente com o recurso mecânico e abstrato a “leis fundamentais”. É um texto erudito, construído com base na recorrência sistemática aos clássicos do marxismo (Marx, Engels e Lenin, com o obrigatório tributo a Hegel), mas sensível à tradição filosófica antiga (Platão, Aristóteles) e à dos séculos XVII-XVIII (Spinoza e Kant) e também tangenciando autores do século XX (de G. Gurvitch a K. Popper, de Mao-Tsé-Tung a Della Volpe). Não é um livro para iniciantes nem para os já “convertidos” à dialética: supõe algum conhecimento prévio da problemática nele abordada e interpela quaisquer intelectuais abertos ao debate da ontologia e da epistemologia.
Lido (ou relido) à distância de quase quatro décadas, ele chama a atenção por duas razões: a primeira é a sua solidez teórico-filosófica, que então tornava Barata-Moura uma promessa intelectual. A segunda é, para aqueles que acompanharam a trajetória do autor, a constatação de que a plena realização daquela promessa se concretizou num desenvolvimento que, visto do presente para o passado, revela que ali já estavam postas as dimensões básicas da rica e sistemática reflexão que Barata-Moura ampliaria nos muitos anos seguintes. De fato, a meu juízo, em Totalidade e contradição encontra-se o projeto intelectual de toda a vida de Barata-Moura.
barata moura obra infantil
Uma observação final: na segunda metade da década de 1970, minha filha divertia-se, em Lisboa, com uma curiosa canção infantil (“Fungagá da bicharada”). Em 2009, estudante de pós-graduação em Berlim, assistiu lá a uma conferência de Barata-Moura, impressionou-se vivamente e, viajando pela memória, surpreendeu-se: era o compositor-cantor que alegrou os seus mais tenros anos. É isto mesmo, meu caro leitor: quem tem a rara vocação para estudar Hegel e Marx possui também a sensibilidade necessária para tocar a alma das crianças. A propósito, quando Barata-Moura ainda era reitor da mais importante universidade portuguesa, o seu cancioneiro infantil foi reeditado em DVD (Obra infantil completa, 2004) – e ele alegra, hoje, a vida dos meus netos.
NOTAS
* São inúmeros os títulos (livros, ensaios, conferências) de Barata-Moura; eis apenas alguns dos que me parecem mais destacáveis: Ideologia e prática, 1978; Para uma crítica da “filosofia dos valores”, 1982; Da representação à “práxis”, 1986; Materialismo e subjetividade. Estudos em torno de Marx, 1997; Estudos de filosofia portuguesa, 1998; O outro Kant, 2007; Estudos sobre a ontologia de Hegel. Ser, verdade, contradição, 2010; Sobre Lenin e a filosofia. A reivindicação de uma ontologia materialista dialética com projeto, 2010; Filosofia em O capital. Uma aproximação, 2013.

in Blogue da BoiTempo

POR QUE SOCIALISMO? - Albert Einstein, 1949

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Tradução: Ralf Rickli, 2015 (ver nota introdutória)
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A internet me trouxe ontem esta agradável surpresa: um artigo de Einstein (sim, ele mesmo, o do E=mc²) defendendo incondicionalmente o socialismo. Escrito aos 70 anos, 6 antes de sua morte, 16 depois de sua chegada aos Estados Unidos com 54 anos, 4 anos após o término da 2ª Guerra Mundial. Vou deixar aos leitores, elucubrar sobre esse posicionamento nesse momento, depois de Einstein ter se sentido obrigado a colaborar com o governo dos EUA contra os nazistas, durante a Guerra, porém não sem dramas de consciência.
O artigo foi escrito especialmente para o primeiro número da revista marxista estadunidense Monthly Review, lançada em maio de 1949, e está disponível em http://monthlyreview.org/2009/05/01/why-socialism/
O texto já existia disponível em português em https://www.marxists.org/portugues/einstein/1949/05/socialismo.htm , numa tradução não sem méritos, porém perceptivelmente feita de uma tradução prévia ao espanhol, e que com certeza inadvertidamente deixou escapar palavras, frases e até um parágrafo inteiro. Com isso, decidi fazer esta nova tradução, do zero, disponibilizando-a em https://tr.im/EinsteinSocialismoBlog e também, em apresentação bilíngue, em https://tr.im/EinsteinSocialismoPDF
Esta tradução pode ser reproduzida à vontade, desde que sempre mencionando o nome do tradutor (e do autor, obviamente), e pelo menos um dos endereços eletrônicos tr.im como referência de fonte. Caso seja feita alguma modificação no texto transcrito, também é indispensável que a pessoa responsável pela alteração declare seu nome e descreva com exatidão o que alterou.
Vitória (ES, Brasil), 07.06.2015 - Ralf Rickli
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Será aconselhável que um não especialista em assuntos econômicos e sociais manifeste pontos de vista sobre o tema “socialismo”? Por várias razões, eu acredito que sim.
Comecemos considerando a questão pelo ponto de vista epistemológico [isto é, que analisa o próprio conhecimento científico]. Poderia parecer que não houvesse diferenças metodológicas essenciais entre a Astronomia e a Ciência da Economia: nos dois campos, os cientistas tentam descobrir leis que sejam aceitáveis de modo generalizado para um determinado grupo de fenômenos, com a finalidade de tornar compreensível a interconexão desses fenômenos do modo mais claro possível.
Na realidade, diferenças metodológicas existem. No campo da Economia, a descoberta de leis gerais é dificultada pela circunstância de que os fenômenos econômicos observáveis são com frequência afetados por muitos fatores que é muito difícil avaliar separadamente.
Além disso, como é bem sabido, a experiência acumulada desde o início do assim chamado período civilizado da história humana tem sido grandemente influenciada ­e limitada por fatores cuja natureza de nenhum modo é exclusivamente econômica.
Por exemplo, a maioria dos grandes Estados da história deveu sua existência à conquista. Os povos conquistadores estabeleceram a si mesmos, legal e economicamente, como a classe privilegiada do território conquistado; apossaram-se do monopólio da propriedade da terra e designaram uma classe sacerdotal a partir de suas próprias fileiras. Os sacerdotes, no controle da educação, fizeram da divisão da sociedade em classes uma instituição permanente, criando um sistema de valores pelo qual o comportamento social das pessoas passou a ser guiado desde então, em grande medida em nível inconsciente.
Mas a tradição histórica começou ontem, por assim dizer. Em nenhum lugar nós superamos de fato o que Thorstein Veblen chamou de “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os fatos econômicos observáveis pertencem a essa fase, e as leis que podemos derivar deles não são aplicáveis a outras fases. Como o verdadeiro propósito do socialismo é precisamente superar a fase predatória do desenvolvimento humano e avançar para além dela, a Ciência Econômica em seu estado atual pode esclarecer bem pouco sobre a sociedade socialista do futuro.
Em segundo lugar, o socialismo se direciona para uma finalidade socioética. A ciência, no entanto, não tem o poder de criar finalidades, e muito menos de instilá-las nos seres humanos; a ciência pode, no máximo, fornecer os meios com que atingir certas finalidades. As finalidades são concebidas por personalidades com ideais éticos elevados – ideais esses que, quando não são natimortos e sim cheios de vida e vigor – são adotados e levados adiante por aquela multitude de seres humanos que, de modo parcialmente inconsciente, terminam por determinar a evolução da sociedade.
Por essas razões, deveríamos nos precaver no sentido de não superestimar a ciência e os métodos científicos quando o que está em questão são problemas humanos - e não deveríamos presumir que somente especialistas têm direito a se manifestar sobre as questões que afetam a organização da sociedade.
[A CRISE HUMANA ATUAL E A RELAÇÃO INDIVÍDUO-SOCIEDADE]
Incontáveis vozes vêm afirmando, já desde há algum tempo, que a sociedade humana está passando por uma crise; que sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico dessa situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou até mesmo hostis ao grupo a que pertencem, seja o pequeno grupo ou ao grupo de maior escala. Permitam-me recordar aqui uma experiência pessoal para ilustrar o que quero dizer: não faz muito, eu debatia com um homem inteligente e de boa disposição sobre a ameaça de mais uma guerra – o que, na minha opinião, poria em sério perigo a existência da humanidade – e observei que somente uma organização supranacional ofereceria proteção contra esse perigo. Nesse ponto o meu visitante me disse, com toda calma e indiferença: “Mas por que você se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?”
Tenho certeza que apenas um século atrás ninguém teria declarado algo desse tipo com toda essa despreocupação. Temos aí uma declaração de um homem que lutou em vão para alcançar um equilíbrio interior e mais ou menos perdeu a esperança de alcançá-lo. É expressão de uma dolorosa solidão e isolamento, de que tanta gente sofre hoje em dia. Qual é a causa? Existe saída?
É fácil levantar essas perguntas, mas é difícil respondê-las com qualquer grau de segurança. No entanto eu preciso tentar, o melhor que puder, embora esteja bem consciente de que nossos sentimentos e aspirações são muitas vezes contraditórios e obscuros, e não podem ser expressos em nenhuma fórmula simples e fácil.
O homem é ao mesmo tempo um ser solitário e um ser social. Como ser solitário, ele tenta proteger sua própria existência e a dos que lhe são mais próximos, satisfazer seus desejos pessoais, desenvolver suas habilidades inatas. Como ser social, busca conquistar o reconhecimento e afeição dos seus companheiros de humanidade, compartilhar de seus prazeres, confortá-los em seus sofrimentos, melhorar suas condições de vida. Somente a existência dessas diferentes aspirações, muitas vezes conflitantes, já responde pelo caráter especial de uma pessoa, e sua combinação específica determina a medida em que o indivíduo consegue, por um lado, alcançar um equilíbrio interior e, por outro lado, consegue contribuir para o bem-estar da sociedade.
É bem possível que a intensidade relativa desses dois impulsos seja, em seu principal, determinada pela hereditariedade – mas a personalidade que termina emergindo é formada em ampla medida pelo ambiente em que acontece de a pessoa se encontrar durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que ela cresce, pela tradição daquela sociedade, e pelo valor que a sociedade atribui a este ou àquele tipo de comportamento.
Para o indivíduo humano, o conceito abstrato “sociedade” significa a soma de suas relações diretas e indiretas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas das gerações anteriores. O indivíduo é capaz de pensar, sentir, aspirar e trabalhar por si mesmo; mas [ao mesmo tempo] ele depende tanto da sociedade – em sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensá-lo ou entendê-lo fora da moldura que é o contexto social. É “a sociedade” o que lhe proporciona comida, roupas, um lar, a ferramentas do seu trabalho, a linguagem, as formas de pensar, e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida se faz possível mediante o trabalho e realizações dos muitos milhões, passados e presentes, que estão escondidos por trás da pequena palavra “sociedade”.
É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um fato da natureza que não pode ser abolido – tanto quanto o é no caso das formigas e abelhas. No entanto, enquanto o inteiro processo de vida das formigas e abelhas é determinado nos mínimos detalhes por instintos hereditários rígidos, o padrão social e os inter-relacionamentos dos seres humanos são altamente variáveis e suscetíveis de mudanças. A memória, a capacidade de realizar novas combinações e o dom da comunicação verbal possibilitaram desenvolvimentos, entre os seres humanos, que não são ditados por necessidades biológicas. Tais desenvolvimentos se manifestam em tradições, instituições e organizações; em literatura; em realizações científicas e técnicas; em obras de arte. Isso explica como acontece de o ser humano ser capaz de, em certo sentido, influir em sua vida mediante a sua própria conduta, e de que nesse processo o pensamento e a vontade conscientes consigam desempenhar um papel.
O ser humano adquire ao nascer, através da hereditariedade, uma constituição biológica que precisamos considerar determinada e inalterável, inclusive os impulsos naturais que são característicos da espécie humana. Em acréscimo, ao longo de sua vida ele adquire uma constituição cultural que ele adota da sociedade por meio da comunicação e de muitos outros tipos de influências. É a sua constituição cultural que está sujeita a mudanças com a passagem do tempo, e que determina em vasta medida a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna nos ensinou, através da investigação comparativa das culturas chamadas de primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode diferir grandemente, dependendo dos padrões culturais e dos tipos de organização que predominam na sociedade. Os que se empenham em melhorar a condição humana podem fundamentar suas esperanças nisso: seres humanos não estão condenados por sua constituição biológica a aniquilarem uns aos outros, nem a estar à mercê de um destino cruel autoinfligido.
Se nos perguntarmos de que modo a estrutura da sociedade e a atitude cultural do ser humano deveriam ser mudados para tornar a vida humana tão satisfatória quanto possível, deveríamos estar sempre conscientes de que há certas condições que somos incapazes de modificar. Como já foi mencionado, para todos os efeitos práticos a natureza biológica do ser humano não é modificável. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que estão aqui para ficar. Em populações assentadas com considerável densidade, levando em conta os bens que são indispensáveis para a continuidade de sua existência, tornam-se absolutamente indispensáveis uma extrema divisão de trabalho e um aparato produtivo altamente centralizado. Foi-se para sempre o tempo – que, olhando-se para trás, parece tão idílico – em que indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente autossuficientes. Há pouco exagero em dizer que a humanidade já constitui uma comunidade planetária de produção e consumo.
[A ANARQUIA ECONÔMICA CAPITALISTA COMO ORIGEM DA CRISE HUMANA]
Cheguei agora ao ponto em que posso indicar brevemente o que, para mim, constitui a essência da crise do nosso tempo: refere-se à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo se tornou mais consciente do que nunca de sua dependência da sociedade - mas sua experiência dessa dependência não é a de um bem positivo, um laço orgânico, uma força protetora, e sim a de uma ameaça aos seus direitos naturais, ou até mesmo à sua existência econômica. Além disso, o indivíduo está posicionado na sociedade de modo tal, que os impulsos egoístas da sua constituição recebem reforço constante, enquanto que os seus impulsos sociais, que por natureza já são mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, qualquer que seja sua posição na sociedade, vêm sofrendo esse processo de deterioração. Prisioneiros de seu próprio egoísmo sem saber disso, sentem-se inseguros, sozinhos e privados de todo desfrute da vida que seja inocente, simples, não sofisticado. O ser humano somente pode encontrar sentido na vida, curta e arriscada como é, mediante sua dedicação à sociedade.
A anarquia econômica da sociedade capitalista como existe hoje é, na minha opinião, a verdadeira fonte do mal. Vemos diante de nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros se empenham sem cessar em privar uns aos outros dos frutos de seu trabalho coletivo – não por força, mas em inteiro e fiel cumprimento de regras estabelecidas legalmente. A respeito disso, é importante dar-se conta [do papel do fato] de que os meios de produção – quer dizer, tudo o que dá capacidade de produzir bens para os consumidores, bem como bens de capital adicionais – possam ser propriedade privada de indivíduos (e de fato o sejam, em sua maior parte).
Pelo bem da simplicidade, na discussão a seguir chamarei de “trabalhadores” todos os que não têm parte na propriedade dos meios de produção – embora isso não corresponda com exatidão ao uso costumeiro do termo. O proprietário dos meios de produção está em posição de comprar a força de trabalho do trabalhador. Usando os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que se tornam propriedade do capitalista. O ponto essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e aquilo que lhe pagam, ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que a contratação do trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe não é determinado pelo valor real dos bens que ele produz, e sim por quais são suas necessidade mínimas, bem como pela relação entre a demanda por força de trabalho por parte dos capitalistas e o número de trabalhadores que competem por empregos. É importante entender que nem mesmo na teoria o pagamento do trabalhador é determinado pelo valor do seu produto.
Capital privado tende a se concentrar em poucas mãos, em parte devido à competição entre os capitalistas, em parte porque o desenvolvimento tecnológico e o crescimento da divisão do trabalho estimulam a formação de unidades de produção maiores, em prejuízo das menores. O resultado desses desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado, cujo enorme poder não pode ser efetivamente controlado sequer por uma sociedade política democraticamente organizada.
Isso é assim porque os membros dos corpos legislativos são selecionados por partidos políticos, que são amplamente financiados, ou influenciados de algum outro modo, por capitalistas privados que, para todos os propósitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não protegem de fato e de modo suficiente os interesses dos setores menos privilegiados da população. Além disso, nas condições atuais os capitalistas privados inevitavelmente controlam, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). Torna-se assim extremamente difícil para o cidadão individual, e de fato impossível na maioria dos casos, chegar a conclusões objetivas e fazer uso inteligente dos seus direitos políticos.
A situação predominante em uma economia baseada na propriedade privada de capital caracteriza-se então por dois princípios centrais: primeiro, os meios de produção (capital) são possuídos privadamente, e os proprietários dispõem deles como acham melhor; segundo, a contratação de trabalho é livre [isto é, não regulada]. É claro que não há sociedade capitalista pura nesse sentido. Em especial, é preciso registar que os trabalhadores, através de longas e amargas lutas políticas, conseguiram assegurar uma forma um tanto melhorada de “livre contrato de trabalho” para algumas categorias de trabalhadores. Mas, tomada em seu conjunto, a economia atual não difere muito de um capitalismo “puro”.
A produção é realizada com a finalidade do lucro, não com a do uso. Não existem disposições para garantir que todas as pessoas capazes e dispostas a trabalhar sempre consigam achar emprego; quase sempre existe um “exército de desempregados”. O trabalhador está perpetuamente com medo de perder seu emprego. Devido ao fato de que desempregados e trabalhadores mal pagos não formam um mercado rendoso, a produção de bens de consumo é restrita, o que resulta em grandes privações. O progresso tecnológico resulta com frequência em mais desemprego, em lugar de aliviar a carga de trabalho para todos. O lucro como motivação, em conjunto com a concorrência entre os capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital, a qual leva a crises cada vez mais graves. A competição irrestrita leva a um gigantesco desperdício de força de trabalho, e também àquela deformação da consciência social dos indivíduos, que eu mencionei anteriormente.
Essa deformação dos indivíduos, eu a considero o pior dos males do capitalismo. Nosso sistema educacional inteiro sofre desse mal. Uma atitude competitiva exagerada é inculcada no estudante, que, como preparação para sua futura carreira, é treinado para idolatrar um sucesso aquisitivo.
[A SAÍDA PELO SOCIALISMO E SUAS DIFICULDADES]
Estou convencido de que existe apenas um caminho para eliminar esses graves males, e esse é o estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educacional orientado para objetivos sociais. Em uma economia tal, os meios de produção são propriedade da própria sociedade, e utilizados de modo planejado. Uma economia planejada, que ajusta a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre todos os capazes de trabalhar, e garantiria o sustento de cada homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, além de desenvolver suas próprias habilidades inatas, se empenharia em desenvolver nele um senso de responsabilidade por seus companheiros de humanidade, em lugar da glorificação do poder e do sucesso, como temos na sociedade atual.
Contudo é preciso lembrar que uma economia planejada ainda não é socialismo. Uma economia planejada pode ser acompanhada por uma escravização completa do indivíduo. A realização do socialismo requer a solução de alguns problemas sociopolíticos extremamente difíceis: como é possível, em face da centralização abrangente do poder político e econômico, impedir que a burocracia se torne todo-poderosa e prepotente? Como se podem proteger os direitos do indivíduo e garantir com isso um contrapeso democrático ao poder da burocracia?
A clareza quanto às metas e aos problemas do socialismo é da mais alta significação em nossa era de transição. Como, na conjuntura atual, a discussão livre e sem barreiras destes problemas se tornou um grande tabu, eu considero a fundação desta revista um relevante ato de interesse público.
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Disponível em PDF e apresentação bilíngue em https://tr.im/EinsteinSocialismoPDF
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Foto: Casa das América
O ex-presidente uruguaio José Mujica ministrou uma longa e intensa conferência magistral, em 26 de janeiro passado, na sala Che Guevara da Casa das Américas, da qual reproduzimos alguns parágrafos:
“Caros amigos,
Amontoaram-se os anos, os pensamentos, os dizeres, os sofrimentos. Para mim é uma merecida honra estar neste templo da cultura, da escultura do escrever, do pintar, do sentir, de transformá-la em saudade e em sentimento; em poesia, em sensação que se transmite ao longo do tempo, que intercomunica os seres humanos.
Porque eu sou um paisano que algum dia se apaixonou e sonhou — como muitos dos que estão aqui — em mudar o mundo. E foi assim. Ah! Mas, alguma coisa nós aprendemos a transmitir às novas gerações: que cometam os erros de seu tempo, não os nossos.
Até os 22 anos eu era um apaixonado da literatura. Lia até o guia telefônico... Mas, quando entrei neste negócio de mudar o mundo, mudou a história: os livrinhos ficaram a um lado, foi preciso procurar armas de calibre 38 e 45 e etc. E acabou a literatura para nós e se amontoaram os anos e as penúrias. E tivemos que estar terrivelmente afastados da cultura. E não fomos bem tratados nos anos de presídio, tivemos que estar muitos anos sem livros.
Não dediquei à cultura o respeito que merece e o tempo que merece. Estar aqui para mim é uma honra não merecida, porque isto é um templo que simboliza o esforço mais comprometido da cultura latino-americana, com a qual temos uma dívida velha. E isto foi algo levantado entre o redobre de um velho sonho e de uma muito velha bandeira que nos diz — em termos sintéticos: conseguimos fundar nestes últimos duzentos anos vários países, mas a nação ainda é uma dívida.
Esta é a dívida que temos com José Martí, com Simón Bolívar, com nossa história. Mas antes era por um sonho, por uma defesa, uma atitude de defesa perante o Império. Sou dos que interpreta que a luta por uma integração da América Latina é pelo espanto. Por quê? As batalhas de nossa humanidade, ser ou não ser, agora penduram do que está em perigo: a própria existência da espécie neste planeta.
A vida vai embora e já não acreditamos — não podemos acreditar nestas sociedades laicas — que este mundo é um vale de lágrimas para ir ao paraíso.
E nossa vida vai embora e temos sede de felicidade, e não queremos confundir — pelo menos muitos — felicidade com comprar coisas novas todos os dias.
O sentimento de felicidade está unido a coisas entranháveis, antigas, eternas: tempo para os filhos, para a família, para um grupo de amigos. Tempo livre que não se vende; que não se compra. Sabemos perfeitamente, por obrigação, que neste mundo temos que trabalhar para acompanhar e enfrentar as necessidades materiais; mas a vida não é apenas trabalhar. A vida é a luta pela liberdade, e liberdade é ter tempo livre para dedicá-lo às coisas que nos comovem.
Bom, por isso vamos à história. Não é a liturgia de lembrar Martí apenas por fazer uma homenagem. Vamos ao baú procurar ferramentas intelectuais que nos sirvam para esta luta de hoje... Nossas lições estão nas raízes de nossa história. Mas o futuro não é saudade. O futuro é sempre um mundo novo.
Aqueles que nos chamamos, mais ou menos, de esquerda, temos necessidade de ir a fontes como as de José Martí... Não sei, nem tenho autoridade para dizer, se era pré-modernista ou algo pelo estilo, tanto faz. O que me interessa é que era um sonhador, um construtor e não ficava escrevendo papéis. Escrevia papeis para impulsionar a vida e a ação.
E este homem singular se define por aí que quer jogar sua sorte com os pobres, que fala de uma enorme sensibilidade social. Mas que, por sua vez, perante as dificuldades de seu tempo, sabe que a luta pela independência é dupla.
Teve a grandeza pragmática de ver o ambiente e expor um partido para todos, com todos... Entendeu que tinha que fundar uma ferramenta, um partido revolucionário, inclusivo, que tentasse levar todas as classes sociais possíveis a essa luta. E que, talvez, premonitoriamente, deu a nós sua vida como uma maneira de subscrever seu compromisso. É um personagem informado em sua época: escritor, ensaísta, poeta, apaixonado “como pata de catre” — é um refrão uruguaio, não posso deixar de falar em linguagem muito paisana —. Amava a vida e sentia-a.
Martí representa um momento preciso da história. Estabelece o compromisso do intelectual com uma causa vivente. Por um lado se trata de um pensar, mas, pelo outro, coloca a vida ao serviço do que pensa. E sinceramente é fácil pensar, é fácil para a gente intelectualmente bem dotada escrever romances que podem ser apaixonantes, mas fazer tudo isso e dar a vida convencido por uma causa, não é comum. Este homem é uma coisa que sacode as entranhas. Aqui o chamam de Apóstolo, para mim é uma ponte entre os velhos gestores da independência latino-americana e os desafios do futuro.
Eu não penso que a segunda independência seja esta. Mas se esta é a segunda então nos falta a terceira, e a terceira é a propriedade do conhecimento que nos torne livre. E a criação de uma cultura libertária, não submetida aos valores do capitalismo. Não importa a natureza da propriedade e a distribuição, o que importa é a conduta das massas, a conduta normal do homem, e temos a dívida com a construção de uma cultura contestatária diferente.
O eterno problema das forças da mudança é a luta pela unidade, que significa respeitar a diversidade e aprender a compor colunas com pessoas que tenham matizes, mas não dividir as forças da mudança porque isso é enfraquecer-se face à direita. Devemos ter bem claro qual é a batalha principal. No caso de Martí a batalha principal era conseguir, por um lado, a independência do império colonial e, por outro, frear a ambição norte-americana que era manifesta sobre esta parte da América, ser cientes de que se o conseguiam estavam cumprindo um serviço a favor da América Latina… Daí a luta diplomática e as representações consulares.
Claro que para Cuba, Martí é muito mais que isto. Para Cuba, Martí é o símbolo da construção da República. É, como o chamam vocês, o Apóstolo. Porque impressiona que quase buscou com a alegria, a morte como uma maneira de subscrever o que pensava e o que sentia. Tinha dado tudo, ou quase tudo, faltava-lhe dar a vida pelo eterno.
Gostaria de assinalar a ideia dos equilíbrios que nos legou, porque acredito que estamos na conjuntura dessa lição, dessa luta pelo equilíbrio. O equilíbrio para assegurar a independência dos países latino-americanos. Se Cuba caía, ou era anexada aos Estados Unidos, todo o Caribe ficava comprometido. Era evidente e claro que os Estados Unidos tinham vontade. Ele percebeu que romper com o império colonial e, por sua vez, frear a ambição norte-americana era uma causa a favor da América Latina. Buscou a diplomacia interna, percebeu o contubérnio que tinha a República da Argentina com a Inglaterra e desconfiou da política que trazia o Brasil desde a época de Dom Pedro com uma aproximação ao grande mercado ianque. Tentou mover-se nas contradições em toda essa América, e nunca se esqueceu do México, como corresponde.
Mas essa ideia do equilíbrio não é apenas uma questão de tática política, é uma visão do mundo, um mundo de equilíbrio que acho que é uma mensagem moderna e que tem que ser examinada em cada circunstância histórica como se apresenta a luta pelo equilíbrio e as forças, num mundo que está totalmente desequilibrado e que parece de doidos, não de desequilibrados.
Com uma civilização que nos domina e que, com uma enorme genialidade acumulamos disparates. Há pouco latíamos contra a mudança climática... Estivemos latindo desde Kyoto até aqui inutilmente. Dessas contradições estamos cheios... Eu poderia passar horas falando destes disparates que estamos cometendo como humanidade. Tem razão Fidel, em algum discurso por aí, que há anos dizia: “O que está em jogo é a vida humana”.
Porque chegamos a uma etapa de interdependência, de interrelação onde o mundo precisa de decisões globais, inapeláveis, que têm que ser tomadas... Precisamos de acordos mundiais porque nunca o homem teve a força que teve hoje. Nunca teve os meios que tem hoje. Dois milhões de dólares por minuto são gastos no mundo para orçamentos militares... Dizer que não há recursos é não ter vergonha.
Temos que começar a racionalizar como espécies responsáveis pela vida deste navio que se chama Terra. Mas este mundo não tem direção, ou melhor, tem direção através da acumulação capitalista. Não a favor da vida.
Martí teve o desafio do transbordo norte-americano, a independência das colônias e preservar à América Latina. Nosso desafio é a luta pela vida na terra. Acho que muitas vezes não somos cientes porque vivemos numa sociedade de marketing… Estamos entretidos. Os romanos inventaram o pão e o circo, aqui temos a televisão e o entretenimento para estarmos embasbacados. É uma civilização midiática a maneira de nos dominar.
Eu não advogo por um homem que volte às cavernas ou que viva em baixo de uma folha de palmeira. Não defendo a pobreza como ideal de vida, defendo até à morte a sobriedade. Viver leves de bagagem, ter tempo para viver, lembrar que a felicidade humana é a relação com outros seres humanos. Que o homem não é uma mercadoria, nem se compra nem se vende.
Acho sinceramente — e o resumo — que nosso dever é lutar por uma cultura contestatária, libertária, diferente, não sujeitável. Vão-me dizer que não se pode, eu acho que este bicho humano é o único animal capaz de se reprogramar em sua conduta, de exercer vontade sobre si próprio.
O homem tem capacidade de se autoprogramar. O homem tem capacidade de de se autoprogramar e é a parte que tem a ver com a construção do futuro.
Acredito até a morte que é preciso lutar por uma libertação, uma libertação de nós mesmos, da cultura que nos sujeita no mais profundo de nossas decisões, nós devemos lutar pela felicidade humana e a felicidade humana não é amontoar coisas… A vida vai embora, e estas coisas que estou dizendo são tão elementares e, por elementares, são esquecidas. Quando você compra algo com dinheiro, não está comprando com dinheiro, está comprando com o tempo de sua vida que teve que gastar para ter esse dinheiro.
Mas o tempo na vida não pode comprá-lo... Por favor, não esbanjem o único milagre que vocês têm, o milagre de estarem vivos.
Obrigado”. (Excertos de La Ventana)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016


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Tribuna Popular

El Comunista. Prensa ROJA


LA PRENSA BURGUESA, CONTROLADA Y MANIPULADA NO NOS TRANSMITE LA VERDAD DE LAS REALIDADES SOCIALES, POLÍTICAS Y ECONÓMICAS. TERGIVERSAN LOS ACONTECIMIENTOS INTERNACIONALES SIGUIENDO EL INTERÉS IMPERIALISTA Y DE DEFENSA DEL CAPITALISMO.
POR ESO NACE ELCOMUNISTA.NET, MEDIO DE ORIENTACIÓN ANTI CAPITALISTA Y ANTI IMPERIALISTA
EL COMUNISTA ES UN MEDIO PARA CONTRARRESTAR ESA PRENSA DE MANIPULACIÓN DE MASAS. COLABORA, LEYENDO, ESCRIBIENDO Y DIFUNDIENDO.
POR LA CLASE OBRERA INTERNACIONAL. POR EL SOCIALISMO. CONTRA EL CAPITALISMO.
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Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

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Pupis

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Forum Romano

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Roma-Vaticano

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Coliseu de Roma

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Grécia

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