sexta-feira, 4 de março de 2016

 

Clinton e Wall Street: 24 anos de enriquecimento mútuo

Os bancos lucraram centenas de milhares de milhões de dólares em práticas que anteriormente eram proibidas, mas que a administração Clinton conseguiu legalizar. Artigo de Richard W. Behan, do CounterPunch.  3 de Março, 2016 - 14:57h
http://www.esquerda.net/sites/default/files/styles/480y/public/17941958468_c9c8cfebee_z_0.jpg?itok=qcel13pENos últimos vinte e quatro anos, os Clinton estão envolvidos numa relação conjugal com Wall Street, de imenso benefício financeiro para ambas as partes. Eles receberam $68,72 milhões dos bancos de Nova York em contribuições de campanha e outros $8,85 milhões em honorários de palestras. Em contrapartida, os bancos lucraram centenas de milhares de milhões de dólares em práticas que anteriormente eram proibidas, mas que a administração Clinton conseguiu legalizar. A extraordinária ambição das carreiras de Bill e Hillary Clinton desafiam qualquer tentativa de descrição. Eles passaram boa parte das suas vidas adultas solicitando dinheiro dos outros para seu próprio benefício. Um artigo de 2014 na revista Time dizia: "Poucos na história americana foram beneficiados com tantos recursos de tantas maneiras distintas durante tanto tempo(...). Os Clinton receberam pelo menos $1,4 mil milhões em contribuições..."A Time não cavou a fundo. Uma investigação mais exaustivamente detalhada no Washington Post, apenas um ano depois, duplicou essa estimativa para $3 mil milhões.
Essa ambição impiedosa, que colocou Bill Clinton na Casa Branca duas vezes e que enviou Hillary Clinton duas vezes ao Senado, precipita-se mais uma vez sobre a presidência americana. Ela também fez dos Clinton um dos casais mais ricos do país.                                                                                                              Hillary Clinton detém um património líquido de $45 milhões de dólares; Bill Clinton detém $80 milhões. Se medido pela riqueza da família, isso coloca o casal no top 1% dos EUA.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Como os Clinton reconfiguraram o Partido Democrata             Os Clinton reconfiguraram o Partido Democrata a seu gosto,antes defensor dos trabalhadores, agora mero cãozinho de Wall Street e das grandes corporações. Inteligentemente, os Clinton ainda apelam ao seu eleitorado tradicional; mas, para servir a sua nova clientela, o partido abandonou os estratos menos favorecidos da sociedade americana, especialmente as comunidades negras.Bill Clinton teve grande importância no Democratic Leadership Council (Conselho da Liderança Democrata) e se tornou o primeiro presidente eleito em seus moldes.
Depois de uma vitória esmagadora dos republicanos em 1984, alguns líderes democratas propuseram uma viragem ao centro, isto é, uma postura mais conservadora para o partido. Seria uma política menos ameaçadora para interesses empresariais e poderia inclusive atrair apoio financeiro das corporações. O Conselho da Liderança Democrata nasceu para promover essa nova visão dentro do partido e gradualmente conquistou influência, até que a presidência de Bill Clinton tornou o centrismo conservador dos democratas uma postura quase definitiva. Como governador do Arkansas, Bill Clinton presidiu ao Conselho da Liderança Democrata de 1990 a 1991, cortejando empresas americanas que mais tarde lhe serviriam muitíssimo bem. Amparado por $11,17 milhões em contribuições de campanha de Wall Street, Clinton tornou-se o primeiro presidente do DLC em 1993. Hillary Clinton estava ao seu lado como ministra de facto, embora sem-pasta.  Aquele era o "Novo Partido Democrata", disse o presidente Clinton. E ele logo demonstraria o quão longe para a direita ele direcionaria sua agenda. Alegando que "a era do grande governo acabou", o presidente Clinton prometeu "acabar com o Estado de bem-estar social como o conhecemos". E assim ele fez, mediante assinatura do Personal Responsibility and Work Opportunity Reconciliation Act. A lei prejudicou severamente as famílias de baixo rendimento, sobretudo as comunidades negras. Clinton também se orgulhou do Violent Crime Control and Law Enforcement Act, que vertiginosamente culminou no encarceramento em massa contemporâneo e gerou o atual complexo prisional privado com fins lucrativos. Mais uma vez, uma lei que impactou profundamente sobre as comunidades negras e latinas. Era a hora, então, de favorecer a América corporativa. O presidente Clinton promoveu vigorosamente o "livre comércio", assinando o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA) e apoiando fortemente a Organização Mundial do Comércio. Esse “livre comércio" foi extremamente benéfico para as grandes corporações americanas. Entre as exportações do país, durante os anos Clinton, incluem-se os postos de trabalho industrial de 9,2 milhões de trabalhadores americanos.                                                                                                                                                                                      A desregulação que abriu a porta aos especuladores O amplo favorecimento a Wall Street veio em seguida. Em janeiro de 1995, Clinton nomeou Robert Rubin, o copresidente da Goldman-Sachs, como seu secretário do Tesouro. Rubin trabalhou arduamente em duas leis de estupendo valor para os bancos de Nova York, mas o primeiro mandato do presidente Clinton terminou antes que pudessem ser promulgadas. Diante da necessidade de garantir a reeleição de Clinton, Wall Street quase triplicou seus investimentos de campanha, de $11,17 milhões em 1992 para $28,37 milhões em 1996. Prosseguindo com sua pasta, o secretário Rubin triunfou com a aprovação da Lei de Modernização dos Serviços Financeiros de 1999 [Gramm–Leach–Bliley Act], que revogou a legislação de Glass-Steagall (1933). Agora era mais uma vez legal que as instituições financeiras combinassem bancos comerciais, bancos de investimento e seguradoras; em essência, permitiu a utilização dos fundos dos depositantes para negociações do próprio banco no mercado de ações.                                                                                                                                                 O Presidente Clinton assinou a Commodity Futures Modernization Act. Esta lei acabou com a regulamentação sobre os derivados, libertando Wall Street para fabricar títulos indexados em hipotecas e vendê-los sem restrições. Esses derivados complexos iriam alimentar a fraude do "subprime" que explodiria em breve. Um ano mais tarde, o Presidente Clinton assinou a Commodity Futures Modernization Act. Esta lei acabou com a regulamentação sobre os derivados, libertando Wall Street para fabricar títulos indexados em hipotecas e vendê-los sem restrições. Esses derivados complexos iriam alimentar a fraude do "subprime" que explodiria em breve. Enquanto isso, no Departamento de Justiça de Clinton, um vice-procurador-geral nomeado Eric Holder, em 1999, escreveu um memorando intitulado Bringing Criminal Charges Against Corporations ["Entrando com ações penais contra corporações”]. Essa tornou-se a Doutrina Holder, que depois da crise financeira de 2008 seria de valor incalculável para os bancos de Wall Street. Ao deixar a Administração, Holder entrou na Covington Burling, o maior escritório de advocacia em Washington, DC. Entre os seus clientes, estavam Morgan Stanley, Citigroup, JP Morgan Chase, UBS, Bank of New York Mellon, Deutsche Bank, Wells Fargo e o Bank of America.                                           Fora da Casa Branca: palestras milionárias e cheques para Hillary A gratidão de Wall Street rapidamente encontrou sua expressão. Quando os Clinton deixaram a Casa Branca, eles compraram uma residência de 7 cómodos perto do Embassy Row em Washington, com uma hipoteca no valor de $1,995 milhões. Deve ter sido um protótipo de "subprime", porque os Clintons "(...)não apenas estavam falidos, mas tinham uma grande dívida", como o Sr.Clinton recordou mais tarde. Robert Rubin, no entanto, tinha saído do Departamento do Tesouro e entrado para o Citigroup, onde os quase $2 milhões em crédito foram rapidamente concedidos.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       Dezasseis dias depois de deixar a Casa Branca, Bill Clinton fez uma palestra para um das empresas de Wall Street, Morgan Stanley, em que recebeu $125 mil dólares. Esse foi apenas o primeiro de muitos discursos que proferiu aos bancos de Wall Street nos anos seguintes. Até maio de 2015, o Sr. Clinton tinha recebido $1,69 milhão da UBS, $1,55 milhão da Goldman Sachs, $1,075 milhão do Bank of America, $770 mil do Deutsche Bank e $700 mil do Citigroup. No total, $5.91 milhões. Os Clinton deram conta dos pagamentos da hipoteca. Dezasseis dias depois de deixar a Casa Branca, Bill Clinton fez uma palestra para um das empresas de Wall Street, Morgan Stanley, em que recebeu $125 mil dólares. Esse foi apenas o primeiro de muitos discursos que proferiu aos bancos de Wall Street nos anos seguintes. Até maio de 2015, o Sr. Clinton tinha recebido $1,69 milhão da UBS, $1,55 milhão da Goldman Sachs, $1,075 milhão do Bank of America, $770 mil do Deutsche Bank e $700 mil do Citigroup. No total, $5.91 milhões. Mas Hillary Clinton ainda embarcaria em sua própria carreira política.  Ao deixar a Casa Branca, os Clintons não ocuparam sua casa em Washington de imediato. Ao invés disso, mudaram-se para uma casa de 5 quartos em Chappaqua, Nova York, no valor de $1,7 milhões de dólares. Porquê Nova York? Os últimos seis ex-presidentes tinham regressado aos seus estados de origem, tranquilamente fora do olhar público. Mas Hillary Clinton queria concorrer ao Senado, e de Nova York, não do Arkansas. Será que a simpatia de Wall Street ainda esperava mais dos Clintons? Certamente que sim. Os bancos de Wall Street subscreveram a ambição senatorial da Sra. Clinton, contribuindo com $2,13 milhões para sua campanha. Entre os agradáveis bancos estavam Citigroup, Goldman Sachs, UBS, JP Morgan Chase, CIBC e Credit Suisse. Com o novo século, desenrolava-se o esquema das hipotecas subprime habilitado pelas leis de "modernização" do Clinton e inflava uma bolha épica nos preços dos imóveis. Em 2008, a bolha estourou. Os valores de propriedade caíram, seguidos pela economia americana. $13 biliões em riqueza das famílias americanas desapareceram. Nove milhões de trabalhadores perderam seus empregos. Cinco milhões de famílias foram expulsas de suas casas. Isto é o que “Novo Partido Democrata” de Bill Clinton acarretou. Os trabalhadores como um todo foram prejudicados, com destaque para as comunidades negras. Muitos bancos de Nova York enfrentaram insolvência, com carteiras inchadas de títulos indexados em hipotecas quase sem valor - os chamados "ativos problemáticos". No entanto, os bancos tinham um campeão. O presidente George Bush, seguindo a linha de Bill Clinton, também nomeou um CEO da Goldman Sachs como seu secretário do Tesouro. Henry Paulson não perdeu tempo em obrigar os contribuintes norte-americanos a cobrir as perdas dos bancos nova-iorquinos - a sua própria perda enquanto Goldman Sachs e a do restante dos vigaristas. A Lei de Estabilização Económica de Emergência de 2008 - o "Troubled Asset Relief Program" [ou “programa de apoio aos ativos depreciados”] - foi promulgada a 1 de outubro pelo presidente Bush. A lei destinou $700 mil milhões para que Paulson comprasse títulos depreciados dos bancos. A senadora Clinton votou a favor do projeto de lei, dizendo a uma emissora de rádio de Nova York no dia seguinte: "Eu acho que os bancos de Nova York (...)provavelmente são os maiores vencedores nesta situação(...)". Paulson começou a comprar ativos problemáticos imediatamente e a observação da senadora Clinton mostrou-se correta. Um painel de supervisão do Congresso mais tarde descobriu que Paulson estava a superfaturar o pagamento aos bancos: o Tesouro, por exemplo, comprou um pacote de "ativos problemáticos" por $254 mil milhões, cujo valor de mercado era de $176 mil milhões; o Tesouro pagou ao Citigroup $25 mil milhões por títulos no valor de $15,5 mil milhões. E assim se deram tantos outros casos. Um partidário dos democratas poderia dizer: "O que mais você esperava da administração de Bush?"                                                                                                                              A administração Obama repetiu influência de Wall Street  Mas a campanha presidencial de 2008 já estava em andamento. A lista dos candidatos democratas incluíam Hillary Clinton e Barack Obama. Wall Street ficou impressionada com ambos os candidatos. A Goldman Sachs contribuiu com $1.035 milhão para a campanha de Obama; a JP Morgan Chase, com $847,855 mil; o Citigroup, com $755.057 mil; o UBS, com $534.166 mil; e a Morgan Stanley, com $528.182 mil. Foram $3,7 milhões de dólares no total. Mas Wall Street estava mais impressionada com a senhora Clinton: os bancos ofereceram-lhe $14,6 milhões.  Barack Obama tomou posse como outro "Novo Democrata", infundido pelo legado da presidência de Bill Clinton. Os $3,7 milhões de Wall Street não seriam esquecidos. Nunca foi debatida na campanha do Obama (ou na de Hillary), no entanto, a transformação do partido democrata que Bill Clinton engendrou. Os bancos de Wall Street, que despejaram cerca de $18,3 milhões nas campanhas presidenciais, seriam recompensados pela Administração Obama de uma forma verdadeiramente espetacular, e naturalmente o eleitorado histórico das famílias trabalhadoras dos EUA e as suas comunidades negras seriam largamente ignorados. E, assim, o eleitorado tradicional votou no Obama, com um entusiasmo sem precedentes no caso das comunidades negras.                                                                                                                             Os dois postos mais importantes do gabinete, para os interesses de Wall Street, foram o Tesouro e a Justiça. O presidente Obama indicou os ex-nomeados Clinton: Timothy Geithner para chefiar o Departamento do Tesouro e o Eric Holder para a procuradoria-geral. Assim, a continuidade do favoritismo para Wall Street estava assegurada. Timothy Geithner foi uma exigência de Wall Street, então presidente do Federal Reserve Bank of New York no momento da sua nomeação. Eric Holder veio direto do Covington Burling, escritório de advocacia dos gigantes de Wall Street. Hillary Clinton tornou-se Secretária de Estado. O investimento da Wall Street nela tampouco seria desperdiçado. Agora era a vez do Geithner de administrar o programa de apoio aos ativos depreciados. Ele não foi menos eficaz do que o Paulson em regar Wall Street com dinheiro dos contribuintes. Neil Barofsky, um promotor federal, foi nomeado Inspetor Geral Especial do programa. O seu trabalho consistia em auditar a execução da lei, a fim de inibir fraudes, e em garantir a responsabilidade dos bancos. Sendo repetidamente frustrado pelo secretário Geithner, Barofsky finalmente renunciou em desgosto e escreveu uma exposição intitulada “Bailout: An Inside Account of How Washington Abandoned Main Street While Rescuing Wall Street” [“Resgate Financeiro: um relato interno sobre como Washington privilegiou Wall Street”]. A contracapa do livro diz o seguinte: “Barofsky revela como, ao servir os interesses dos bancos, o secretário Geithner(...) compactuou com executivos de Wall Street para projetar programas que canalizassem vastos recursos do contribuinte para suas empresas, permitindo que jogassem com os mercados e fizessem enormes quantidades de dinheiro, com quase nenhuma responsabilidade, (...)enquanto repetidamente burlavam os esforços de Barofsky para instituir as proteções necessárias contra fraude”.                          Salvar os bancos e absolver os responsáveis pela fraude nos mercados Enquanto Geithner distorcia o programa para beneficiar os bancos, o Departamento de Justiça protegia os seus executivos de qualquer tipo de sanção, fossem multas ou encarceramento. Não há dúvida de que os bancos de Nova York agiram criminosamente, mas o procurador-geral apenas reafirmou a diretiva que ele havia escrito oito anos atrás, na administração Clinton. A Doutrina Holder levou o Departamento de Justiça a considerar "consequências colaterais" em seus processos. Se essas consequências fossem suficientemente graves, acusações criminais deveriam ser rejeitadas em favor de outras remediações. O departamento de Holder escolheu, portanto, negociar com cada banco uma sanção financeira, em vez de avançar com um processo penal. Os acordos não exigiam admissão de culpa ou continuidade da acusação. E a documentação da conduta ilegal foi permanentemente lacrada. As sanções foram pagos com fundos das empresas. (A multa da Goldman Sachs foi de $550 milhões, que poderiam ser recuperados tranquilamente em cerca de três semanas de negócios). Nenhum executivo foi preso, nenhum registo pessoal de comportamento doloso foi estabelecido, nenhuma sanção pessoal foi cobrada, nenhum salário foi reduzido, nenhum bónus foi negado. Em abril de 2015, após autorizar todas as ilegalidades de Wall Street, Holder deixou a administração de Obama e voltou para o Covington Burling.  Hoje os bancos são maiores e mais poderosos do que nunca.                                                                                                                                                                                                                                                                        Algumas semanas após a tomada de posse, a secretária de Estado Clinton foi chamada à Suíça pelo ministro dos Negócios Estrangeiros do país. Eles discutiram uma ação movida pela Receita Federal americana contra o UBS, o gigante internacional bancário suíço (com 761 unidades nos EUA). De volta a Washington, a secretária Hillary Clinton intercedeu. O impacto da ação foi reduzido em 90%. Nos anos seguintes, o UBS pagou a Bill Clinton $1,5 milhão pelas suas palestras. Hillary Clinton recebeu $225 mil por um discurso. Também nos anos subsequentes, o UBS contribuiu com $540 mil para a Fundação Clinton.                                                                                                                                                                       Hillary em campanha: nova oportunidade para Wall Street A secretária Clinton renunciou no final do primeiro mandato do presidente Obama, provavelmente para preparar terreno e levantar recursos para sua campanha presidencial. Desde então, ela recebeu $2,9 milhões em palestras para Goldman Sachs, Bank of America/ Merrill Lynch, Morgan Stanley, Deutsche Bank, Ameriprise, Apollo Management Holdings, CIBC, Fidelity Investments, Golden Tree Asset Management e UBS. Hillary Clinton anunciou a sua candidatura presidencial em 12 de abril de 2015. Até 30 de Setembro, os bancos de Wall Street haviam contribuído para sua campanha com um total de $6,42 milhões. Durante os 24 anos das últimas três administrações de Washington, Wall Street floresceu enquanto vandalizava a economia americana, os contribuintes e a justiça. Com um secretário do Tesouro de Wall Street, a administração Clinton aprovou leis que permitiam aos bancos que lançassem foguetes financeiros. A administração Bush, também com um secretário do Tesouro de Wall Street, cobriu as perdas com dinheiro dos contribuintes quando esses foguetes caíram por terra. A administração de Obama, novamente com um secretário do Tesouro de Wall Street (e também com um procurador-geral de Wall Street) concedeu grandes favores financeiros para os bancos e absolveu suas condutas criminosas.                                                                                                         Durante todos esses anos, os Clinton se beneficiaram imensamente com as contribuições políticas de Wall Street: $11,17 milhões para a campanha de Bill de 1992; $28,37 milhões para a sua reeleição em 1996; $2,13 milhões para o financiamento de Hillary (Senado, 2000); $6,02 milhões para sua reeleição em 2006; e $14,61 milhões para a sua primeira campanha presidencial. Sem contar os $8,85 milhões pagos pela indústria financeira em palestras. A interação íntima da ambição e da cobiça entre os Clinton e Wall Street continuou por quase um quarto de século. É uma história de mau gosto, ignorada ou banalizada pelos Clinton, que anseiam por obscurecer esse debate. Mas agora, com uma nova infusão dos bancos de Nova York no valor de de $6,42 milhões (por enquanto), Hillary Clinton está a concorrer à presidência mais uma vez.              Em 13 de julho de 2015, ela disse o seguinte:  "O nosso sistema bancário ainda é demasiado complexo e arriscado. (...)Embora as instituições tenham pagado pesadas multas, (...) muitas vezes os responsáveis saíram impunes ou embolsaram os ganhos. Isso é errado e, na minha administração, isso vai mudar”.  Aparentemente, Hillary Clinton espera que acreditemos nela.                                                                                                                                    Artigo publicado no portal Counterpunch. Tradução por Allan Brum para o portal Carta Maior. Termos relacionados Presidenciais americanas 2016, Notícias internacional

quarta-feira, 2 de março de 2016


Putin não pode ceder, as tensões com os EUA irão aumentar

M K Bhadrakumar*
02.Mar.16 :: Outros autores
O autor, o embaixador indiano Bhadrakamur, analisa as difíceis relações da Rússia com os EUA e a intervenção da inteligência norte-americana na Rússia tomando como referência o discurso de Putin na reunião anual do Serviço de Segurança Federal (FSB) da Rússia.
«Fundamentalmente, a questão central para a Rússia é que os EUA interferem nas suas políticas internas tendo em vista criar desarmonia política e enfraquecer o Kremlin, forçando-o a adoptar políticas que estejam em consonância com as estratégias americanas regionais e global.»


A reunião anual do Serviço de Segurança Federal (FSB) da Rússia, que é a organização que sucedeu ao KGB da era soviética, é uma ocasião importante para avaliar a temperatura nas relações “Este-oeste” (o cliché “Guerra Fria” está de novo a tornar-se útil). Na sexta-feira, em Moscovo, o habitual discurso do presidente Vladimir Putin na reunião do FSB foi o momento culminante deste evento.
A parte sensacional do discurso de Putin é a revelação de que o FSB está na posse de informação clara de que no ocidente vêm sendo elaboradas tramas no sentido de provocar confusão política na Rússia num momento em que o país se encaminha para uma crucial eleição do Parlamento, em Outubro. Putin evitou utilizar a expressão “revolução colorida”, mas sugeriu-o. Citando-o:
“Naturalmente que vós (FSB) deveis também impedir quaisquer tentativas do exterior para intervir na nossa eleição e na vida política do nosso país. Como sabeis, tais métodos existem e foram postos em prática num certo número de países. Deixem-me reiterar que isto constitui uma ameaça directa à nossa soberania e responder-lhe-emos em conformidade.”
“Leio os documentos que vocês (FSB) preparam regularmente, leio os sumários e vejo as indicações concretas do que, lamentavelmente, os que nos querem mal no exterior estão a preparar para estas eleições. Todos deveriam portanto estar conscientes de que defenderemos com determinação os nossos interesses de acordo com as nossas leis”.
Mais adiante, Putin notou que agências de inteligência estrangeiras “aumentaram a sua actividade” e que isto foi “convincentemente confirmado” quando no ano passado a contra-inteligência do FSB interditou mais de 400 operacionais de agências de inteligência e instaurou processos criminais contra 23 deles. Mencionou organizações governamentais, instalações militares, empresas industriais da defesa, o sector de energia e “destacados centros de investigação” como particularmente vulneráveis. Disse Putin: “Precisamos de cortar todos os canais de acesso a informação confidencial”.
No conjunto, foi aqui projectado um cenário sombrio no que diz respeito às relações russo-americanas no decurso do período que resta da presidência de Barack Obama. Fundamentalmente, a questão central para a Rússia é que os EUA interferem nas suas políticas internas tendo em vista criar desarmonia política e enfraquecer o Kremlin, forçando-o a adoptar políticas que estejam em consonância com as estratégias americanas regionais e global.
O lado russo, evidentemente, deve também ser responsabilizado por este estranho paradigma. O facto é que na eleição presidencial de 1996 Boris Yeltsin procurou dinheiro, apoio político e patrocínio americano para travar a maré, que naquele momento quase parecia uma vitória certa, do líder do Partido Comunista Gennady Zyuganov.
Houve naquele momento interferência em grande escala por parte dos EUA e dos seus aliados europeus (e do FMI) e os “especialistas” americanos desempenharam certamente um papel crucial para assegurar a vitória de Yeltsin. Quando a campanha começou, a popularidade de Yeltsin andava pelos 6 por cento e acabou por vencer a eleição com 54 por cento dos votos após uma contundente primeira volta com Zyuganov (um relato contemporâneo, aqui , da revista Monthly Review proporciona pormenores fascinantes sob o subtítulo “Americans to the Rescue – a Russian Assignement”).
Na verdade, hoje há uma grande diferença. Se em meados dos anos noventa os EUA precisavam que Yeltsin continuasse no poder, a ênfase hoje está na “mudança de regime”. O ressurgimento da Rússia sob a liderança de Putin é anátema para Washington.
Os EUA não podem suportar que a Rússia (ou qualquer outro país, a bem dizer) assuma uma orientação tão nacionalista que se apresente como um formidável vento contrário às suas estratégias globais. Ao contrário da China, que pode dar um efeito à bola como Beckam , a Rússia não está com vontade de se inclinar para obter resultados. A sua orgulhosa história simplesmente não lhe permite fazer isso (a propósito: falta ver se Moscovo acompanhará os duros termos do acordo EUA-China impondo bloqueio naval à Coreia do Norte).
No contexto actual, as sanções ocidentais contra a Rússia são efectivamente dirigidas contra o Kremlin. Os cálculos estado-unidenses depositam as suas esperanças numa recessão económica na Rússia que conduza ao descontentamento social, que comprometeria as possibilidades do partido do governo nas eleições e desencadearia por sua vez protestos em massa.
Putin advertiu que Moscovo derrotará quaisquer intenções dos EUA de instigar confusão política na Rússia, sejam quais forem os meios necessários. Nisto Putin é para levar a sério. Contudo, a grande questão permanece: Como poderão ser abordados conflitos regionais como a Síria ou a Ucrânia quando as duas grandes potências estão concentradas numa luta existencial?
Idealmente, da perspectiva dos EUA, a confusão na Síria deveria ascender até um crescendo no Verão, colocando na mira da opinião pública russa a intervenção russa naquele país, em vésperas da eleição no Outono. Curiosamente, Putin encarregou o FSB de assegurar três coisas: uma, garantir “a segurança dos nossos pilotos… na Síria e das unidades antiterroristas que trabalham no interior da Rússia”; dois, “selar eficazmente” territórios russos da infiltração por terroristas; e, três, “impedir as actividades de grupos clandestinos” dentro da Rússia que pudessem estar a planear ataques terroristas.
Certamente, comparando com o entusiasmo que Putin inicialmente manifestou na segunda-feira acerca do entendimento EUA-Rússia sobre o acordo de cessar-fogo na Síria, ele foi ontem nitidamente reservado quando discursava para o FSB. Moscovo teria entretanto sentido que Washington está a colocar directamente sobre o Kremlin o ónus de que o cessar-fogo permaneça intacto, enquanto os EUA estão ou sem capacidade ou sem vontade de controlar os seus militantes aliados regionais, como a Turquia.
Na quinta-feira Obama sublinhou que “boa parte disso (a manutenção do cessar-fogo) vai depender de o regime sírio, a Rússia e os seus aliados cumprirem os seus compromissos. Os próximos dias serão críticos e o mundo estará a observar”.
Acrescentou então: “muitos sírios nunca cessarão de combater até que Assad esteja fora do poder. Não há alternativa a uma transição gerida sem Assad. É o único caminho para acabar a guerra civil e unir o povo sírio contra os terroristas”.
* M. K. Bhadrakumar é diplomata jubilado e colaborador assíduo do Ásia Times
O original encontra-se em blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/…
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/.
Tradução revista por odiario.info.

Síria e Líbia falsa gémeas









"Preparávamo-nos para escrever mais uma vez sobre a Síria, com a tristeza e indignação que nos causa a catástrofe que assola aquele país e que a História certamente irá assinalar como dos mais injustos, cruéis e sanguinolentos conflitos, quando li um e-mail enviado por uma querida amiga, onde me falava da Líbia e dos tempos de Kadafi.
Dizia ela acerca da Líbia:
01. Não havia conta de luz na Líbia, porque a electricidade era gratuita para todos. 
02. Créditos bancários, dos bancos estatais, eram sem juros (para todos, por lei expressa).
03. Casa própria era considerada direito humano, universal, e o governo fornecia uma casa ou apartamento para cada família. 
04. Recém casados recebiam US$ 50.000,00 para comprar casa e iniciar a vida familiar.
05. Educação e saúde eram gratuitas, da pré-escola à universidade. Antes de Kadafi: 25% dos líbios eram alfabetizados. Até o ano de 2010, 83% eram alfabetizados.
06. Agricultores iniciantes recebiam terra, casa, equipamentos, sementes e gado gratuitamente.
07. Quem não encontrou formação ou tratamento desejados recebia financiamento para ir ao exterior, adicionalmente US$ 2.300,00 mensais para moradia e carro.
08. Na compra de automóvel, o estado contribui com subvenção de 50%.
09. O preço de gasolina, o litro: 0,10 Euro = R$ 0,23.
10. Faltando emprego após a formação profissional, o estado pagava salário médio da classe até conseguir a vaga desejada.
11. A Líbia não tinha dívida externa - as reservas de U$ 150 bilhões. Após a ocupação os valores foram retidos ou desviados pelos bancos estrangeiros, incluindo investimentos em bancos estrangeiros e reservas em ouro.
12. Parte de toda venda de petróleo era directamente creditada na conta de cada cidadão.
13. Mãe que dava a luz, recebia US$ 5.000,00.
14. 25 % da população líbia tem curso superior.
15. Kadhafi construiu o projecto GMMR (O Grande Rio Artificial), transportando água dos lençóis subterrâneos do Rio Nilo para as cidades e agricultura, irrigando as principais cidades do país e parte do deserto.

De imediato me assaltou ao espírito a semelhança das tragédias que avassalam estes dois países, a Síria e a Líbia.
- Ambos tinham uma população com um excepcional padrão de vida, nomeadamente a Líbia, que era indiscutivelmente o melhor de toda a África.
- Por outro lado as mulheres sírias eram particularmente bafejadas em termos árabes, já que tinham os mesmos direitos que os homens, nomeadamente no estudo,  na saúde e em muitas outras actividades.
- Do ponto de vista religioso, a Síria é o único país árabe com uma constituição laica e não tolera os movimentos extremistas islâmicos. Notavelmente na Síria a Chária (lei Islâmica) é tida como inconstitucional e as mulheres não são obrigadas a usar burca.
Cerca de 10% da população síria pertence a confissões cristãs, presentes desde sempre na vida política e social. Ao longo da história, cinco Papas tiveram a sua origem na Síria, onde a tolerância religiosa é total, o que a torna uma excepção do Magreb ao oriente árabe. Nos países árabes, a população cristã não ultrapassa o 1%, em consequência das perseguições e hostilidade que são vítimas.
- Numa prespectiva económica, a Síria tem reservas de petróleo na ordem dos 2.500 milhões de barris. A sua exploração, antes da guerra, era exclusivamente reservada a empresas do Estado. Como a Síria era proprietária de todo o seu potencial petrolífero, os seus benefícios revertiam totalmente para o povo, tal como na Líbia, embora de maneira menos directa, pelos vistos.
- A Síria tem uma abertura à sociedade e à cultura ocidental, superior a qualquer outro país árabe. Antes da guerra civil, era o único país pacífico da zona, sem guerras nem conflitos internos, chegando a admitir refugiados iraquianos sem nenhuma discriminação social, política ou religiosa. O suporte popular de Bashar Al Assad, sempre foi extremamente elevado e promete continuar a ser, como se irá confirmar brevemente em eleições já anunciadas.
- Perante estes factos, fácil será chegar à conclusão que ambos os países, a Síria e a Líbia, são vítimas da cobiça de governos que tiveram, ou presumiram que tinham, os seus interesses económicos e geoestratégicos afectados.
Curiosamente ambos, pouco tempo antes de rebentarem os conflitos, (no caso da Líbia estamos a falar de apenas dias), mantinham relações normais e até amigáveis com aqueles que hoje, são reconhecidamente os responsáveis pelas tragédias que os dilaceram.
Lembremos apenas as “fraternas” relações de Sarcozi, Belusconi com Kadafi e de uma forma geral de todos políticos ocidentais, nomeadamente dos portugueses, que pouco tempo antes o tinham convidado a visitar o nosso país, tendo estado “acampado” no Forte de S.Julião da Barra.
 - A resolução da ONU de 1973 que autorizou atacar a Líbia e proibiu a aviação Líbia de actuar, reservando o seu espaço aéreo, aconteceu “por coincidência” 3 dias depois de se ter conhecimento que  Kadafi tinha reunido com os embaixadores dos BRICS, China, Rússia e Índia e lhes anunciara que ia requisitar companhias chinesas e indianas, para substituir as ocidentais.
 De facto a Líbia, já tinha adjudicado à China gigantescas obras de construção civil (excluindo completamente os ocidentais, tal como dissera) no valor de 18 biliões de dólares, nomeadamente na rede de autoestradas, portos, aeroportos e outras infraestruturas que já nessa altura ocupavam 35.000 chineses, que foram repatriados logo que rebentaram os conflitos. A contrapartida era fornecida em petróleo.
- As razões da guerra suja que fomentaram nestes países, são várias, mas a mais “popular” era o facto dos presidentes da Líbia e da Síria serem autoritários e ditatoriais. Na realidade pretendiam juntar o útil ao agradável, isto é, em ambos os casos serviam-se daquele argumento para camuflar uma das principais intenções que era a de atingir China e a Rússia respectivamente.
De facto, no caso da Síria, Bashar El-Assad não autorizou a passagem pelo seu território do gasoduto, a partir do Qatar e Arábia Saudita para abastecer Europa de petróleo e gaz, para evitar os prejuízos que essa passagem acarretaria para a Rússia, sua aliada preferencial, habitual fornecedora da Europa, desses produtos.
Já em 2013, o Financial Times noticiava que o Qatar gastara mais de três biliões de dólares em dois anos, para patrocinar a rebelião na Síria.
- Quanto à Libia, a justificação norte-americano do ponto de vista geoestratégico, era que os colossais compromissos económicos, técnicos e financeiros assumidos, com a China, iriam objectivamente proporcionar a chegada desse país às margens do Mediterrâneo.
A justificar esta visão dos Estados Unidos e dos seus aliados mais chegados, tal proximidade da potência asiática, era um perigo potencial, tendo em consideração a sua já assinalável presença em África, onde contava com cerca de 5 milhões de técnicos, peritos e trabalhadores, apoiando o desenvolvimento de numerosos países africanos, a quem estava a fornecer mão-de-obra e financiamento em condições de equidade, bastante diferente, que tornava difícil de acompanhar pelos países “ocidentais”, ainda vestidos da sua roupagem colonialista.
- Finalmente falta acrescentar a tudo isto, o facto de Muamar Kadafi também ter cometido o mesmo erro de Sadam Hussein, ao ameaçar os Estados Unidos de deixar de vender o petróleo em dólares. Bem nos lembramos neste caso, do célebre argumento das armas de destruição maciça, que esteve na base da invasão do Iraque.
No caso da Líbia, a diferença é que Kadafi queria substituir os dólares e os euros por moeda de ouro e as interferências do Ocidente, como acima foi dito e provado, pela “interesseira” mas fraterna colaboração chinesa.
De resto, não lhe seria difícil fazê-lo, pois era sabido em relação à moeda o Banco Central da Líbia era 100% do Estado e de acordo com o FMI, estimava-se que além das imensas reservas financeiras, o banco tinha cerca de 144 toneladas de ouro em seus cofres.
Em relação à geoestratégia em geral e à economia especificamente, danados estão os chines por se verem livres das montanhas de dólares que possuem e que a proximidade de um cataclismo financeiro que se adivinha no ocidente e particularmente nos Estados Unidos, aconselha a que se desfaçam dos dólares o mais rapidamente possível."

Partilhado do

PREPARAR A SAÍDA DO EURO   por João Ferreira*
Foto de João Fróis.
PREPARAR A SAÍDA DO EURO   por João Ferreira*
Afastada das manchetes dos jornais desde há largos meses, a crise do euro, e particularmente a sua expressão ao níve...l da crise das dívidas soberanas, é um assunto que está longe de estar arrumado.
A razão da relativa acalmia das taxas de juro cobradas pelos "mercados", face aos picos insanos de há dois ou três anos, não será tanto a "caixa-de-ferramentas" do Banco Central Europeu, nem as declarações do seu presidente de que se avançaria, se preciso fosse, para a compra ilimitada de dívida no mercado secundário. Sem menosprezar os efeitos desta decisão, a razão principal da relativa acalmia será outra.
A sobre acumulação de capital e a baixa tendencial da taxa de lucro – marcas de uma crise capitalista sem fim à vista – atraem investidores ao negócio das dívidas soberanas. Investidores em busca de rentabilidades que não encontram noutras áreas. A persistência de fracas rentabilidades à escala global leva a que certos capitais se disponham a arriscar "estacionar" nalgumas dívidas soberanas, por muito insolventes que a médio prazo se afigurem os respetivos Estados. E acontece que este até se tem revelado um excelente negócio para muitos! Que o digam os bancos nacionais que, tendo recebido milhões do BCE a juros módicos, mantêm a economia real seca de crédito ao mesmo tempo que foram compondo os seus balanços com generosos resultados de investimentos em dívida soberana.
Entretanto, os juros impostos a países como Portugal e Grécia, ou mesmo a Irlanda, a Espanha, Chipre e outros, sendo mais baixos do que há dois ou três anos, são ainda insuportavelmente altos – como ficou aliás bem à vista com a recente emissão de dívida portuguesa. A recessão ou estagnação que estes países enfrentam, agravada pelos programas UE-FMI, e a perspectiva de estagnação (ou mesmo ainda recessão) no futuro próximo, levam ao inexorável e imparável aumento do peso da dívida e dos encargos com o seu serviço. A dinâmica de insolvência persiste e só se agravou com as intervenções da UE e do FMI. Ademais, nada foi feito para, por um lado, acabar com a dependência dos Estados face aos "mercados", nem, por outro lado, superar a divergência (os "desequilíbrios macroeconómicos") entre os países da zona euro. Pelo contrário, as medidas postas em marcha no âmbito do Tratado Orçamental e da chamada Governação Económica acentuarão desequilíbrios e desigualdades.
Mais tarde ou mais cedo, inevitavelmente, efeitos bruscos desta imparável dinâmica de divergência (e de insolvência para vários Estados) irromperão. A reconfiguração da zona euro será, com grande probabilidade, um deles. Sejamos claros: quando o ganho que a Alemanha tiver com a configuração actual da Zona Euro for menor do que os custos de manutenção no "clube" de economias periféricas (algumas delas arrasadas), com mercados pequenos e deprimidos, então a reconfiguração – atirando borda fora os pesos-mortos – será uma possibilidade bem real.
Daí a importância da adopção de medidas que preparem o País (desde já) face a qualquer reconfiguração da zona euro. Uma preparação que deve ser feita não apenas em face destes possíveis desenvolvimentos da crise da UE, mas também em nome de uma saída de Portugal do euro por decisão própria – dada a incompatibilidade radical hoje evidente entre a permanência no euro/União Económica e Monetária e um projecto de desenvolvimento democrático, autónomo (que não autárcico) e soberano do País, estribado na Constituição da República.
Esta preparação deverá juntar à recusa de ilusões federalistas quanto à viabilidade de uma política alternativa no quadro da manutenção do País no euro e na UEM (sobretudo uma política de esquerda e patriótica), também a recusa da ideia de que tudo se resolve com uma saída pura e simples do euro, qualquer que seja a forma como se sai e as condições de saída. É a extrema importância da forma como se sai que torna imperiosa uma cuidadosa preparação.
É hoje evidente que a integração de Portugal na UEM e a adesão ao euro foram decisões erradas, com consequências devastadoras para o nosso país. Como é evidente que o futuro do País é inviável dentro do euro. Não devíamos ter entrado. Mas a saída, hoje, não nos leva ao ponto de partida.     A saída do euro pode ser do interesse do povo português, mas pode também vir a ser do interesse dos que ganharam com o euro ao longo de todos estes anos e que continuam a ganhar – interesses irremediavelmente antagónicos. Ora, a questão fundamental é que interesses prevalecerão na condução do necessariamente complexo (mas, a prazo, inevitável) processo de saída.
É absolutamente claro que uma coisa será uma saída do euro conduzida por um governo patriótico e de esquerda, que afirme o primado dos interesses nacionais nas relações com a União Europeia, que proteja os trabalhadores e o povo dos inevitáveis custos da decisão, e outra, bem diferente, seria uma saída conduzida pelas mesmas forças que nos vêm impondo incontáveis, injustos e infrutíferos sacrifícios em nome de uma "manutenção no euro" que amarra o País ao caminho de empobrecimento, subordinação e dependência que tem percorrido.
29/Janeiro/2014 [*] Deputado ao Parlamento Europeu  O original encontra-se no Diário de Notícias    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016


A mulher mais violenta que trabalhou na PIDE
https://external.xx.fbcdn.net/safe_image.php?d=AQD7lXJAXie2Vymb&w=487&h=255&url=http%3A%2F%2Fwww.sabado.pt%2Fimg.aspx%3Fimg%3D2015-10%252Fimg_999x556%25242015_10_22_19_21_37_141204.jpg&cfs=1&upscale=1&ext=png2jpg

Enquanto despia, humilhava e espancava as suas vítimas na sede da polícia política, perguntava: Fala ou não fala, sua puta? Chamavam-lhe Pide Leninha
É uma delicada senhora de 72 anos, mas não se contém e sussurra: "Ai esta cabra!" Já passaram 44 anos sobre aquele dia, em Abril de 1965, em que Conceição Matos foi espancada e humilhada pela agente Madalena, na sala de interrogatórios do terceiro andar da sede da PIDE. É muito tempo, mas a histórica militante comunista ainda hoje sofre de insónias. Quando a SÁBADO lhe mostra as declarações da antiga funcionária da PIDE à justiça, nas quais esta desmente o seu depoimento, inquieta-se, agita-se na cadeira, deixa escapar o desabafo, quase impercetível, e depois leva logo as mãos à boca como quem pede desculpa. Conceição Matos tinha 29 anos quando foi detida no Montijo. Levaram-na para a sede da Polícia Internacional de Defesa do Estado, onde não a deixaram dormir nem ir à casa de banho – teve de fazer as necessidades à frente de toda a gente e ainda limparam os excrementos e a urina na sua roupa. Ao fim de três dias, uma agente entrou na sala e comentou com o chefe: "Esta ainda cá está? Meu inspector, ela não fala connosco mas, se chamar a Leninha, talvez fale." Quando voltou ao edifício da Rua António Maria Cardoso, Conceição Matos percebeu que esta Leninha era a agente Madalena, "uma mulher tenebrosa", como lhe chamou durante a conversa com a SÁBADO. Perante a sua recusa em delatar as atividades do PCP, um inspector avisou: "Então vamos começar com o espetáculo!"  "Chora, sua puta, não te podes rir"  "Fala ou não fala, sua puta?", perguntava Madalena, enquanto a despia, peça por peça, com a ajuda de uma colega. Uma dezena de homens da PIDE entrou na sala, para ver uma mulher sem roupa, que tentava esconder-se atrás de uma secretária mas era puxada pela agente Madalena, para ser vista por todos. Conceição Matos desatou aos gritos, a contar o número de agentes que se encontravam na sala – quando chegou ao décimo, os polícias sentiram-se intimidados e saíram. "Ela começou a dar-me pontapés nas canelas, bofetadas e murros na cara, deu-me um ataque de riso nervoso e ela só dizia: ‘Chora, sua puta, não te podes rir, tens de chorar.’" Entrou na sala um agente com uma máquina fotográfica, que ficou desiludido por ver a presa já vestida, e Madalena respondeu-lhe com "uma série de ordinarices", recorda Conceição Matos: "Ver nua, esta merda? Ela não vale nada. Para os comunistas qualquer merda serve. Basta ter um buraco e fazer os movimentos."http://cdn.sabado.pt/2015-10/img_472x263$2015_10_22_19_16_23_141201.jpgA violência acabou quando a agente se cansou. "Vamos embora que esta merda não fala. Se eu ficar mais tempo espatifo-a toda." São as últimas palavras que a militante comunista se lembra de ter ouvido de Madalena. Só voltou a vê-la mais de 10 anos depois, quando depôs no julgamento. Quando falou com a SÁBADO, nem sabia que Madalena já morreu há seis anos.
"Nem te lembras do teu filho"
Conceição Matos foi uma das cinco pessoas que testemunharam contra Madalena Oliveira no Tribunal Militar, em 1977, de acordo com o processo consultado pela SÁBADO no Arquivo Histórico-Militar. Maria Madalena Castanha, camponesa analfabeta do Couço, no Ribatejo, acusou a ré de lhe ter dado uma "sova assustadora", que a deixou a sangrar do nariz e com várias feridas na cara, provocadas pelo impacto dos anéis de Madalena na sua pele. Maria Custódia Chibante registou o "porte altivo e olhar cínico" da agente, que lhe deu pancadas na nuca. "Esta está à Camões", terá dito Madalena quando a viu já com um olho negro, depois de ter sido espancada por outra agente por se recusar a comer. Maria da Conceição Figueiredo também se queixou de ter sido espancada e esbofeteada com um depoimento pleno de rancor: "É mal empregado empregar-se o termo de mulher porque não o era, era uma fera, uma víbora venenosa. (...) Era tão vil essa fera que quando me espancava falava no meu filho. Como eu nada dizia nem chorava, pelo contrário até parecia que ganhava mais coragem, dizia: ‘Puta, que nem te lembras do teu filho.’" Madalena Oliveira e os seus advogados foram desmentindo ao longo do processo que tivesse torturado qualquer presa e alegaram que todas as testemunhas de acusação estavam a ser manobradas pela "máquina montada pelo PCP" em busca de uma vingança contra a perseguição da PIDE. Mas o tribunal valorizou a espontaneidade das queixosas, "algumas delas simples mulheres do povo". A sentença, lida a 25 de Julho de 1977, condenou-a a uma pena de quatro anos e quatro meses de prisão, por ter cometido crimes de violências desnecessárias no exercício de funções e por ter sido chefe de brigada – foi, aliás, a única mulher a atingir um posto tão elevado na hierarquia.
http://cdn.sabado.pt/2015-10/img_472x263$2015_10_22_19_15_39_141198.jpgA promoção foi justificada com "méritos extraordinários" num despacho assinado pelo diretor da PIDE, Silva Pais, em 1968, quando Madalena tinha apenas 31 anos. Filha de uma doméstica e de um eletricista, e sobrinha de um simpatizante comunista que passava informações à polícia, Madalena Oliveira entrou na polícia política como escriturária em 1955. Conheceu pouco depois o homem com quem iria casar-se, quando se deslocou a Braga para assistir a um jogo de futebol do Benfica, de que era adepta ferrenha. Após uma lua-de-mel no Hotel Estoril-Sol, apenas viveram juntos dois anos. Madalena Oliveira descobriu, entretanto, que o marido tinha outra família no Minho, com várias crianças, uma das quais nasceu na mesma altura que o seu filho. A relação foi sempre tumultuosa, ao ponto de o marido ter sido detido pela PIDE, depois de vários episódios de violência doméstica. "Ela chegou a ter os óculos postos noite e dia para disfarçar os olhos pretos, por causa das murraças que ele lhe dava", recorda Maria Lucinda, 61 anos, uma das melhores amigas de Madalena desde a infância e sua testemunha de defesa no julgamento – ainda se recorda do alarido das sirenes e polícias armados que rodeavam a ré à chegada a tribunal. "Impressionou-me bastante. Pensei que vinha lá uma assassina e afinal era a minha Nani." Era esta a alcunha da agente Madalena junto da família, onde nunca foi conhecida por Leninha. A seguir à revolução, Maria Lucinda viu na comunicação social acusações terríveis à amiga, mas não teve coragem de lhe perguntar nada sobre elas. Também nunca falaram sobre a PIDE. "Pensei: ‘Ó meu Deus, será que fazia estas coisas?’ Eu não acredito. Mas se fez mal a alguém, foi bem castigada porque teve uma vida muito difícil."
Sempre de pistola na mala
O filho da agente, Luís Marques, 53 anos, lembra-se de que a mãe aproveitava a regalia de não pagar bilhete no cinema para ir ver todos os filmes de ação, violência e espionagem. Mas raramente contava histórias do trabalho em casa. Apenas recorda à SÁBADO uma operação que a mãe lhe descreveu e que pode ter justificado a promoção: "Recebeu um louvor porque ajudou na detenção de um elemento perigoso no Montijo – ele ia de bicicleta e quando mudou de direção a minha mãe saiu do carro de arma na mão para o prender."
http://cdn.sabado.pt/2015-10/img_472x263$2015_10_22_19_16_29_141203.jpgMadalena Oliveira andava sempre com a pistola na mala, desde que passou à categoria de agente, em 1961 – foi nessa altura que as mulheres entraram em força na polícia
política, para substituir os agentes destacados em comissões de serviço para África, por causa da guerra colonial. O seu trabalho principal quando deixou as tarefas burocráticas passou a ser o acompanhamento e vigilância de detidas. "As agentes estavam nos piquetes da tortura de sono, para não deixar os presos dormir, participavam nos espancamentos e revezavam-se de quatro em quatro horas. Depois vinha o inspector mais responsável pela instrução do processo, para fazer as perguntas", explica à SÁBADO a historiadora Irene Pimentel, autora do livro A História da PIDE. Segundo a investigadora, as agentes destacavam-se ainda por rebaixarem os presos com provocações sexuais. Citado no livro Memórias da Resistência Rural no Sul, Couço 1958-62, de Paula Godinho, Jerónimo Bom conta que a agente Madalena o despiu e lhe mexeu em todo o lado, chamando-lhe "paneleiro e panasca" para o humilhar. Também Helena Neves relatou em 1994 à Visão a forma humilhante como Madalena a revistou à entrada de Caxias – "Enfiou-me dois dedos na vagina e comentou: ‘Sabe-se lá onde vocês metem as coisas!’" Eugénia Varela Gomes, outra presa política, relatou uma proeza: como conseguiu não ser agredida pela agente Madalena, que a vigiava num dos turnos da noite, quando foi interrogada em 1962. "A raiva dela crescia, massacrava-me com insultos, era a agente mais malcriada e mais violenta, mas ainda não me tinha tocado." Eugénia foi presa depois de o marido ter liderado o "golpe de Beja", um assalto ao quartel daquela cidade para iniciar o derrube do regime de Salazar. A todas as perguntas da PIDE, nos sete dias em que a mantiveram retida no edifício da Rua António Maria Cardoso, respondia o mesmo: "Não participei nem na preparação nem no assalto ao quartel de Beja, mas estou de alma e coração com o meu marido e os companheiros dele."  Numa das noites, quando percebeu que a agente Madalena a ia atacar, teve reflexos para se esquivar: "Ela vinha furiosa para me bater, já com a mão levantada, e eu disse-lhe, sem mostrar nervos: ‘Há uma coisa que gostava que me explicasse: parece que tem uma raiva pessoal contra mim. Foi maltratada em pequena?’" A pergunta desorientou a agente, que baixou a mão: "Eu, maltratada? Nunca." E começou a contar a história da sua vida. "Devo tê-la atingido. A partir dessa noite, parece que ganhou medo de mim. Deixou de estar à vontade para me massacrar. E o murro que eu ia levar ficou no ar", conta à SÁBADO Eugénia Varela Gomes, atualmente com 83 anos, 47 depois de ter estado presa.
O encontro com Salazar
Eugénia já não se lembra da história que Madalena lhe contou, mas dificilmente a agente terá partilhado com a presa um dos episódios que mais lhe marcaram a infância: a primeira vez que viu Salazar. "Ela era menininha e estava na rua com os pais a ver um cortejo. Salazar passou, aproximou-se, falou-lhe, deu-lhe um beijo e ela ficou com uma grande admiração pelo senhor, por lhe ter dado importância. Aquilo ficou na cabeça dela. Era muito salazarista", admite à SÁBADO o filho de Madalena, Luís Marques. Quase 30 anos depois, quando o ditador morreu, em 1970, a chefe de brigada ficou transtornada com a notícia e fez questão de participar no velório. Atualmente ainda há uma estatueta de Salazar exposta no armário principal da sala da casa que Madalena habitou até morrer, há seis anos, e que lhe foi oferecida pelo filho.
http://cdn.sabado.pt/2015-10/img_472x263$2015_10_22_19_16_21_141200.jpgLogo a seguir ao 25 de Abril, dois homens invadiram a casa da chefe de brigada para a levar à cadeia. "Um deles foi preso mais tarde por ser informador da PIDE", recorda Luís Marques, que afugentou os assaltantes – e acha que o informador estava a tentar evitar a própria detenção.
A líder das reclusas após a revolução
A 28 de Abril de 1974, precisamente 85 anos depois do nascimento de Salazar, foi Madalena Oliveira quem se entregou na esquadra da PSP de Oeiras. Enquanto esteve em Caxias com as outras funcionárias da PIDE manteve a hierarquia e era uma espécie de líder das presas, segundo a descrição de uma testemunha detida nessa altura (e que pediu para não ser identificada). Madalena contou depois à nora (a mulher do filho também pediu para o seu nome não ser publicado) que impediu várias presas ligadas ao MRPP de serem espancadas na cadeia depois do 25 de Abril.  Quando cumpriu dois anos de prisão preventiva, foi-lhe concedida liberdade condicional e Madalena fugiu – conseguiu passar a fronteira no carro de um amigo e instalou-se com o filho em Madrid. Na capital espanhola teve a ajuda de antigos altos responsáveis da PIDE, como Barbieri Cardoso e Cunha Passo: primeiro arranjaram-lhe alojamento numa zona frequentada por prostitutas, depois colocaram-na a trabalhar na moradia de uma basca, a tomar conta de duas crianças. Mas durou pouco tempo.  "A minha mãe andava descontente, tínhamos deixado cá a minha avó, e estava sempre a pensar em voltar", explica o filho. Madalena escreveu então ao cônsul de Portugal em Madrid a admitir que tinha "abandonado precipitadamente o país" e que queria regressar. Foi presa novamente, julgada e condenada a quatro anos e quatro meses de prisão, mas o filho continua a defender a inocência da mãe: "Acho que o julgamento foi uma fraude. Elas testemunharam aquilo para que foram orientadas pelo PCP. A minha mãe pode ter batido numa presa mas sei que não era capaz de cometer aquelas atrocidades." A nora de Madalena perguntou-lhe directamente pelas agressões e a agente admitiu ter recorrido à legítima defesa ao responder-lhe com nova pergunta: "Se você fosse polícia e uma presa avançasse para si e a agredisse, o que é que fazia?"
Um balde de água em cima
Madalena saiu da cadeia a 16 de Dezembro de 1977. Passou os últimos anos a tomar conta de crianças, mas antes ainda foi secretária numa oficina de Caxias, na Docapesca, no MIRN (Movimento Independente para a Reconstrução Nacional, um partido de direita) e no escritório de um supermercado na Avenida de Roma – numa manhã, quando ia a chegar ao trabalho, encontrou uma série de cartazes à porta, com o aviso: "A PIDE está a trabalhar aqui." Alguns colegas do escritório ajudaram-na a arrancar tudo. Passou por um enxovalho maior quando passeava no bairro onde vivia: uma vizinha que estava à janela começou a insultá-la na rua e Madalena ameaçou: "Cale-se imediatamente ou eu atiro-a daí para baixo." A filha da vizinha que soltou os primeiros insultos pegou num balde de água e despejou-o em cima da antiga chefe de brigada da polícia política. E outras pessoas desataram a gritar e a apontar: "É a PIDE, olha a PIDE." Já passaram 44 anos desde que foi despida e agredida, mas Conceição Matos não se esquece. Admite que dificilmente resistiria a insultar a PIDE Leninha se a visse na rua, tal como chamou instintivamente "malandro" e "bandido" quando se cruzou por acaso com o informador que a denunciou. "E ela teve o descaramento de negar que me espancou", indigna-se. "Não pode ter perdão. Eles estavam conscientes do que estavam a fazer." Madalena Oliveira não resistiu a um cancro nos ovários e morreu a 22 de Novembro de 2003. Nenhum antigo colega da polícia foi ao funeral. A nora acompanhou-a mais nos últimos anos, nas sessões de quimioterapia no Instituto Português de Oncologia, e nunca lhe notou qualquer tipo de remorso em relação aos tempos da PIDE: "Nada, ela achava que não tinha de se arrepender de nada do que tinha feito." (artigo publicado na edição 284, de 8 de Outubro de 2009, e agora republicado para assinalar os 70 anos da PIDE, que nasceu formalmente em 22 de Outubro de 1945)

Entrevista com Pablo Catatumbo
A paz na Colômbia exige compromissos

Felipe Morales Mogollón*
22.Feb.16 :: Outros autores
“Não estamos a julgar, estamos a propor um acordo político em que não misturemos novamente armas com política, mas o Estado também deve fazê-lo. É aí que reside o compromisso de não reincidência. Durante anos, disse-se que as FARC eram responsáveis ​​e que éramos sequestradores, mas não fala das pessoas que desapareceram por acção do Estado”, diz Pablo Catatumbo, negociador plenipotenciário das FARC-EP em Havana.

Um dos temas principais a respeito de um final para o conflito é o combate a fenómenos criminais como o paramilitarismo.
O Governo e as FARC disseram que o acordo para acabar com o conflito está próximo, que os avanços não têm precedentes, e fala-se de 23 de Março como a data para a assinatura. Apesar do optimismo, os pontos pendentes da discussão apresentam grandes dificuldades. Um deles é o fim do conflito, que envolve questões como o cessar-fogo bilateral, o desarmamento, a reincorporação das FARC e outros dois, prioritários: a luta contra outras formas de criminalidade e as suas redes de apoio, e garantias de segurança.
Nesta discussão, um dos temas transversais é o crescimento de gangues criminosos ou paramilitares no país. Assim, o presidente Juan Manuel Santos anunciou que as Bacrim [1] serão um alvo de grande valor para as forças de segurança. Mas a questão vai além disso. As FARC dizem que os paramilitares não apenas actuam no teatro de guerra, mas têm as receitas do Estado capturadas e gerem toda uma economia paralela.
Numa entrevista ao El Espectador, Pablo Catatumbo, negociador plenipotenciário das FARC, falou da necessidade de enfrentar este fenómeno e da obrigação do Estado impedir que os membros das FARC sejam assassinados quando a paz for assinada, como aconteceu noutros processos, e argumentou que uma das principais contribuições das negociações em curso será que todas as partes envolvidas no conflito digam a verdade.
Vocês dizem que um juízo histórico da violência na Colômbia deve recuar até antes da década de 1950. Um acordo de paz implica abordar coisas que aconteceram há tanto tempo?
Não, mas o debate político tem que ir até esse ponto. O povo não se preocupa com estas questões, mas nós, que aspiramos dirigir os destinos da nação, sim, devemos falar sobre isso. Há uma história da Colômbia que eu conheço e eu gostaria de falar com os líderes de partidos tradicionais, e até mesmo com o ex-presidente Álvaro Uribe, para que contem a sua. Aqui se matou gente, entre conservadores e liberais, e eles também são responsáveis, não podem enganar as pessoas. É por isso que insistimos numa comissão histórica para explicar por que temos toda essa história de guerra.
Isso tem a ver com a insistência no tema do paramilitarismo?
A Colômbia está ligada ao paramilitarismo desde as suas origens como país, e isso representa um grande risco para a paz. O paramilitarismo está vivo e é a principal ameaça à paz e à democracia. Não desdenhemos o perigo que ele representa. Não são apenas as Bacrim, mas um fenómeno complexo e multidimensional que tem vários componentes. Por exemplo, a doutrina da segurança nacional, uma vez que se enfrenta um inimigo que, de acordo com essa concepção, ameaça a própria instituição. Começou assim, mas hoje em dia temos um paramilitarismo que controla a política paralela, a economia paralela e as empresas de segurança privada, onde estão os piores criminosos e violadores de direitos humanos, aqueles que tiraram a terra aos camponeses e conduziram à deslocação das pessoas e a massacres. Vale a pena debater estas questões. Por exemplo: Que fazia José Félix Lafourie em 2005? Foi super-intendente de notariado e registo e de aí passou à Fedegán. Se isso não é uma porta giratória, então o que é?
Mas devemos reconhecer que o paramilitarismo é uma resposta à ineficácia do Estado para proteger os cidadãos da guerrilha…
Isto é o que se diz, mas o paramilitarismo é anterior a isso. Como também se diz que Carlos Castaño era um pobre camponês trabalhador e que as FARC mataram o seu pai, pelo que, como ofendido, criou os paramilitares e cometeu uma série de horrores. A verdade é que Castaño já era paramilitar e narcotraficante do grupo de Pablo Escobar. As FARC sequestraram seu pai por ser traficante de droga, o exército tentou resgatá-lo e ele morreu nesse combate como também morreram guerrilheiros. Essa é que é a verdade.
E a morte do pai do antigo presidente Álvaro Uribe?
Não matámos o pai de Uribe. Isso é falso, não tínhamos guerrilheiros naquela zona. A irmã de Uribe disse que ele chegou num helicóptero, escondeu-se e houve um tiroteio. Se sequestramos um tipo que chegou num helicóptero, não enviamos dois guerrilheiros, mesmo que fôssemos parvos. O pai de Uribe não foi assassinado pelas FARC, não tínhamos unidades ali. Onde está o juiz ou a investigação séria que diga que fomos nós?
Hoje fala-se de grupos criminosos paramilitares, mas…
O Estado nunca reconheceu o paramilitarismo, apesar de haver provas claras, como a existência de Yahir Klein ou o assassinato de Luis Carlos Galán, que se diz terem sido narcotraficantes, e nunca aceitaram que o Estado estava por trás disso. É por isso que damos tanta importância à verdade e a que se descubram as ligações entre o Estado e os paramilitares. Essa é a importância duma justiça em prol da Paz, porque obriga todos aqueles que enganaram o país a dizer a verdade. As nossas verdades são simples: somos guerrilheiros e temos agido sob as circunstâncias de guerra. Eu não matei os deputados do Valle, mas as FARC dão a cara. Vemos o antigo presidente César Gaviria explicando por que ficou do lado de Pepes para matar Pablo Escobar. Eles querem ver as FARC a reparar danos causados, e nós concordamos, mas todos os participantes do conflito tem de se comprometer. O que está claro é que não temos tido ministros ou cargos públicos, mas aqueles que os têm ocupado devem muitas explicações ao país.
Para si, a desmobilização paramilitar foi uma farsa?
No caso do dos paramilitares que não desmobilizaram houve uma armadilha. Se vir os nomes dos Úsuga, correspondem exactamente aos dos que foram chamados de Heróis de Araúca. Ernesto Baez reconheceu, disse que apenas 21 líderes paramilitares desmobilizaram. O nome Jorge 40 não é gratuito, era o seu número, e Carlos Castaño era o comandante zero. Vinte e um desmobilizaram. Onde estão os outros dezanove? O que aconteceu com a desmobilização dos paramilitares foi uma partida de carnaval.
Já há uma data para a assinatura da paz, mas o que vai acontecer aos paramilitares?
Não estamos a dizer que o governo tem de acabar imediatamente com os paramilitares. O que estamos a dizer é que devem tomar-se medidas credíveis que dêem um sinal que aponte para o combate frontal. O problema não é Otoniel, nem eram Pijarbey ou Megateo; o problema é que este é um fenómeno político que não terminou com o escândalo da política paralela, e que está vivo e bem de saúde.
Que medidas entende que são necessárias?
O primeiro é depurar as forças armadas, tem de ser feito. Em segundo lugar, eliminar uma série de leis e decretos que defendem os paramilitares. Em terceiro lugar, tomar medidas contra a política paralela como a regulação das formas de participação política, combatendo a corrupção, ou impor sanções drásticas. O Estado colombiano deveria ter explicações para a economia paralela, não disse nada sobre isso. Eles controlam a saúde, o mercado do ouro, a mineração ilegal, sectores inteiros da economia. As Bacrim são o componente armado, mas há coisas que são invisíveis e o paramilitarismo tem outros componentes. O que precisamos saber é se o governo tem uma vontade real de acabar com o paramilitarismo.
Não é muita ousadia falar em depurar as Forças Armadas?
É um problema que o Estado deve enfrentar. O que dizemos é que é necessário definir para que se quer as Forças Armadas. É preciso defender a Constituição e a soberania, que haja princípios; não é bom que haja militares envolvidos no narcotráfico. Como é que Óscar Naranjo destacou 11 000 polícias para combater os cartéis? Essa foi uma decisão política. Vejo alguns militares que estão cientes disso. Conheço militares patriotas, guerreiros, têm sofrido em combate e respeito-os pelo seu sacrifício, mas hoje percebem que não estamos tão afastados uns dos outros, queremos uma Colômbia honesta, que não esteja nas mãos de ladrões. Eles devem apoiar o presidente, têm sofrido com a guerra e estão a ser traídos pelos líderes políticos.
Claro que o paramilitarismo, de acordo com o que você mesmo disse, não vai acabar da noite para o dia…
O que acordarmos será respeitado. Não podemos ser cegos e dizer que enquanto o último paramilitar desaparecer o conflito não acabará, mas pedimos que haja medidas que tragam a confiança de que estão a trabalhar nesse sentido. Mas também não podemos depor as armas e participar na política com um paramilitarismo crescente, apoiado pelas forças armadas e espalhado pelo país. Esse é o maior desafio do governo de Santos: mostrar ao país que quer a paz, tomando decisões para a acabar com o fenómeno paramilitar, que inclui uma política e uma economia paralelas.

Não é ingénuo pensar que o acordo de Havana trará as mudanças profundas que ambicionam?

Não se trata de decretos ou leis. Tem de haver uma pedagogia da paz e um compromisso político com partidos, sindicatos e outros sectores, para um pacto que possa manter-se. Não estamos a julgar, estamos a propor um acordo político em que não misturemos novamente armas com política, mas o Estado também deve fazê-lo. É aí que reside o compromisso de não reincidência. Durante anos, disse-se que as FARC eram responsáveis ​​e que éramos sequestradores, mas não fala das pessoas que desapareceram por acção do Estado.
Houve no passado casos que geraram milhares de mortes de pessoas que depuseram as armas e vocês confirmam que o paramilitarismo está vivo. É possível baixar as armas neste contexto?
Isso cabe ao presidente, se não, não há paz. O maior fracasso que pode ocorrer na política colombiana é não poder garantir a paz. Se o Estado não é capaz de garantir a vida dos comandantes da guerrilha uma vez que os acordos sejam assinados, se acontecer novamente o que aconteceu com Carlos Pizarro, isso é o fracasso. É esse o desafio que têm Santos e as Forças Armadas.
Nota:
[1] A reestruturação do crime organizado, depois de uma desmobilização de 32.000 combatentes das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC)

* Jornalista de El Espectador, jornal colombiano
Este texto foi publicado em:
http://www.elespectador.com/noticias/politica/nosotros-no-matamos-al-papa-de-uribe-pablo-catatumbo-articulo-611111
Tradução: André Rodrigues

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

CLAUSTROFOBIA