terça-feira, 19 de abril de 2016


Povo brasileiro continua a resistir ao golpe
Foto de António Abreu.A votação no Congresso de ontem era esperada, se bem que estivesse há dias quase à tangente, depois de vários pequenos partidos terem transacionado para o “não” o seu voto. Para Onofre Gonçalves, presidente da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB-São Paulo) o resultado e a forma como ocorreu a votação deste domingo no plenário da Câmara dos Deputados apenas confirmou que a atual legislatura pode ser considerada uma das piores da história e sem compromisso com a democracia brasileira. Para o dirigente da CTB nada está perdido mesmo depois de tudo o que aconteceu ontem. Para ele, o importante é que essa reaproximação da presidenta Dilma da sua base social precisa ser ampliada. Para o dirigente do MST – Movimento dos Trabalhadores RuraisSem Terra do Estado deste estado, João Paulo, é preciso ampliar a participação nas manifestações de rua daqueles que votaram na presidenta, “é preciso aumentar a capacidade de mobilização e construir uma posição de maioria na sociedade”. De acordo com o editor do site Opera Mundi, Breno Altman, a mobilização social é a única forma de se contrapor, em curto prazo, ao monopólio dos media. “É preciso intensificar a disputa das ruas, a disputa no boca a boca da militância, manter mobilizadas as forças democráticas do pais”. Segundo Altman, “estamos pagando” hoje pelo “gravíssimo erro” de não ter enfrentado nos 13 anos de governos de Lula e Dilma a concentração dos monopólios de comunicação. “O campo comunicacional que não está no monopólio das famílias é muito pequeno. Tem certo impacto na internet, é lido pelos formadores de opinião mas não tem caráter de massa ao contrário dos meios que a oligarquia controla”. Para Breno, a médio e longo prazo, em caso de se esmagar o golpe, é preciso enfrentar o que designou como “cancro” da democracia brasileira, que é o monopólio da comunicação. Entretanto a Frente Brasil Popular e a Frente Brasil Sem Medo dirigiram-se ao povo brasileiro: “Não aceitamos o golpe contra a democracia e nossos direitos! Vamos derrotar o golpe nas ruas! Este 17 de abril, data que lembramos o massacre de Eldorado dos Carajás, entrará mais uma vez para a história da nação brasileira como o dia da vergonha. Isso porque uma maioria circunstancial de uma Câmara de Deputados manchada pela corrupção ousou autorizar o impeachment fraudulento de uma presidenta da República contra a qual não pesa qualquer crime de responsabilidade.  As forças econômicas, políticas conservadoras e reacionárias que alimentaram essa farsa têm o objetivo de liquidar direitos trabalhistas e sociais do povo brasileiro.  São as entidades empresariais, políticos como Eduardo Cunha, réu no STF por crime de corrupção, partidos derrotados nas urnas como o PSDB, forças exteriores ao Brasil interessadas em pilhar nossas riquezas e privatizar empresas estatais como a Petrobras e entregar o pré-sal às multinacionais. E fazem isso com a ajuda de uma mídia golpista, que tem como o centro de propaganda ideológica golpista a Rede Globo, e com a cobertura de uma operação jurídico-policial voltada para atacar determinados partidos e lideranças e não outros. Por isso, a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo conclamam os trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, e as forças democráticas e progressistas, juristas, advogados, artistas, religiosos a não saírem das ruas e continuar o combate contra o golpe através de todas as formas de mobilização dentro e fora do país. Faremos pressão agora sobre o Senado, instância que julgará o impeachment da presidenta Dilma sob a condução do ministro Lewandowski do STF. A luta continua contra o golpe em defesa da democracia e nossos direitos arrancados na luta, em nome de um falso combate à corrupção e de um impeachment sem crime de responsabilidade. A Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo desde já afirmam que não reconhecerão legitimidade de um pretenso governo Temer, fruto de um golpe institucional, como pretende a maioria da Câmara ao aprovar a admissibilidade do impeachment golpista. Não reconhecerão e lutarão contra tal governo ilegítimo, combaterão cada uma das medidas que ele vier a adotar contra nossos empregos e salários, programas sociais, direitos trabalhistas duramente conquistados e em defesa da democracia, da soberania nacional. Não nos deixaremos intimidar pelo voto majoritário de uma Câmara recheada de corruptos comprovados, cujo chefe, Eduardo Cunha, é réu no STF e ainda assim comandou a farsa do impeachment de Dilma. Continuaremos na luta para reverter o golpe, agora em curso no Senado Federal, e avançar à plena democracia em nosso país, o que passa por uma profunda reforma do sistema político atual, verdadeira forma de combater efetivamente a corrupção. Na história na República, em vários confrontos as forças do povo e da democracia sofreram revezes, mas logo em seguida, alcançaram a vitória. O mesmo se dará agora: venceremos o golpismo nas ruas!  Portanto, a nossa luta continuará com paralisações, atos, ocupações já nas próximas semanas e a realização de uma grande Assembleia Nacional da Classe Trabalhadora, no próximo 1º de Maio.  A luta continua! Não ao retrocesso! Viva a democracia! “ Nota – A Frente é constituída pelo PT – Partido dos Trabalhadores, pelo PC do B – Partido Comunista do Brasil, movimento sindical, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e dezenas de associações cívicas muito diversificadas

segunda-feira, 18 de abril de 2016

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The Lessons of History
By Global Research News
Global Research, March 27, 2016
 
Url of this article:
http://www.globalresearch.ca/selected-articles-the-lessons-of-history/5516880
By Prof Michel Chossudovsky, March 27 2016
It is now well established that the war on Yugoslavia was waged on a fabricated humanitarian pretext and that extensive war crimes were committed by NATO and the US.
By Sungur Savran, January 28, 2016
April 24, 1915, hundreds of Armenian intellectuals, politicians and community leaders were rounded in Istanbul (or Constantinople as it was then called in the West) by the Ottoman state, to be subsequently sent to exile from which most never returned. This was the signal that set off a chain of events that ended in a tragedy the like of which has rarely been witnessed in the annals of modern history.
By Mahdi Darius Nazemroaya, March 04, 2016
In 2011, as the entire world watched the Arab Spring in amazement, the US and its allies, predominantly  working under the banner of the North Atlantic Treaty Organization (NATO) and the Gulf Cooperation Council (GCC), militarily overran the Libyan Arab Jamahiriya.
By Michael Jabara Carley, March 24, 2016
The title of this article is intended to be ironic because of course the Red Army did play the predominant role in destroying Nazi Germany during World War II. You would not know it, however, reading the western Mainstream Media (MSM), or watching television, or going to the cinema in the west where the Soviet role in the war has almost entirely disappeared.
By Michael Jabara Carley, March 27 2016
While MSM lays the blame on Stalin’s «alliance» with Hitler for starting World War II, it takes the opposite tack in the fighting of the war by ignoring the Soviet role in destroying Nazi Germany.

E uma vez mais, sobre a França (3)

Apesar das observações críticas colocadas no post anterior e que poderão ser motivo da vossa reflexão, lendo o site do La Nuit debout, o acto de cidadania e de revolta é a questão mais importante.
Esta presença permanente na rua arrasta a sensação que a política pertence a todos, numa espécie de reconquista da soberania no espaço público“, como refere o ex-deputado do PS, Pouria Amirshahi, em entrevista ao L´Humanité.
Apesar das medidas positivas para os jovens e o recuo em alguns pontos do projecto de Lei do Trabalho, “os sindicatos denunciam o governo por teimosamente manter a sua proposta de lei. Ele deve receber e ouvir as reivindicações dos assalariados: emprego, salários e pensões, tempo de trabalho, protecção social, garantias colectivas, condições de trabalho, a igualdade profissional profissionais de mulheres e homens, saúde e medicina no trabalho, formação que permita a criação de empregos estáveis e de qualidade, direitos e liberdades sindicais … propostas portadoras
do progresso social e correspondentes à realidade do trabalho hoje e no futuro..
Porque no contexto de uma crise agravada por políticas de austeridade, a luta contra a flexibilidade contra a precarização é uma necessidade.
As organizações sindicais (CGT, FO, FSU, Solidaires, UNEF, UNL, LDIFs) apelam a todos os assalariados, privados de emprego, aos estudantes com ensino secundárion e aposentados para se mobilizarem novamente pela greve e participar massivamente nas manifestações no próximo 28 de abril
É certo que a ocupação da rua à noite, na Praça da República e noutras cidades francesas animada pelo Nuit debout, colide com a possibilidade de participação de quem trabalha e tem muito a ver com a saída à noite para um espaço animado culturalmente, num ambiente seguro, diferente do dos bares, mais acessível. A manutenção nos debates de temas de trabalho pode romper com a lógica de uma participação exclusiva de intelectuais da pequena e média burguesia, nos chamados « temas fracturantes » que são frequentemente a forma de alienar os movimentos da centralidade das condições de remuneração do trabalho, de forma não precária, as ameaças ao estado social, a natureza de classe do governo francês e a sua cumplicidade com o imperialismo.
 
A leitura da imprensa francesa permite identificar motivações, modos de estar.
Lendo o Le Monde, damos uma volta pelas várias iniciativas nocturnas mas também diurnas realizadas, ou o Le Figaro, que reflecte sobre o presente e futuro de Hollande, ou o Libération que se refere à expulsão da Praça da República, de que os nuitdéboutistes se apoderaram literalmente, do filósofo Alain Finkielkraut, que talvez pretendesse ser “adoptado” como enfant térrible que há décadas deixou de ser.
Ao longo dos dias, depois da carga policial de 9 de Março, a partir da Praça da República, grupos de provocadores marginais têm destruído montras, caixotes de lixo a que a polícia tem respondido, logo nesse dia de forma particularmente violenta que causou um grande repúdio na cidade e respostas por parte de alguns manifestantes. A polícia aproveitou o facto para, a pretexto desses comportamentos usar medidas previstas no estado de excepção que extravasaram largamente o âmbito desses actos e respectivos protagonistas. Esta praga de provocadores existe hoje universalmente e é em geral de iniciativa de infiltrados da própria polícia. Vários governos procuram,  com tais comportamentos marginais, retirar simpatia pelos manifestantes e seus objectivos, limitando-lhes o alcance e possibilidades de êxito.
 
É um tema a acompanhar.
Via: antreus http://ift.tt/1W9MN54

terça-feira, 12 de abril de 2016

AO LADO DE LULA, CHICO DIZ: NÃO VAI TER GOLPE

Ricardo Stuckert/Instituto Lula:
Milhares de pessoas participam na noite desta segunda-feira (11) do ato da Cultura pela Democracia, na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro; o evento é liderado pelo cantor e compositor Chico Buarque e conta com a presença do ex-presidente Lula, do teólogo Leonardo Boff, do ator e humorista Gregório Duvivier, do ex-ministro Juca Ferreira, de Eric Nepomuceno, da cantora Beth Carvalho, entre outros; “Estaremos juntos em defesa da democracia. Não vai ter golpe”, afirmou Chico Buarque; a cantora Beth Carvalho defendeu a construção de uma rede democrática de comunicação em defesa da legalidade.
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FACTOS OCULTADOS A NÃO ESQUECER

Portugal está agora a pagar o regabofe das privatizações da banca.
As receitas das privatizações do Sector Bancário do período 1989/1997 foram avaliadas em 3,63 mil milhões de euros a preços correntes, ou seja, 3,6% do PIB (1997), como recordou Agostinho Lopes no seminário "Controle público da banca".
Há que comparar este montante e esta percentagem com o que o Estado português já gastou a salvar bancos privados. Segundo o BCE (2015) no período 2008-2014 foram gastos 19,5 mil milhões de euros, ou seja, 11,3% do PIB (e ainda falta contabilizar os custos com o Banif).
Mas os "comentaristas económicos" que peroram na TV & jornais portugueses nunca falam destas coisas – ou seguem a voz do dono ou são dispensados.

» http://resistir.info/

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Žižek: Os Panama Papers e a corrupção legalizada

Ou, "Por que o cachorro lambe suas bolas?"

A única coisa verdadeiramente surpreendente do episódio dos “Panama Papers” é que sua revelação não trouxe nada de surpreendente: não aprendemos exatamente o que esperávamos aprender? Mas, é claro, uma coisa é saber de forma geral, outra é ter dados concretos do que se passava. É um pouco como descobrir que seu parceiro sexual está pulando a cerca – pode-se até aceitar o conhecimento abstrato do caso, mas a dor surge quando descobrimos os detalhes picantes, quando vemos as fotos do que estavam fazendo… então agora, com os Panama Papers, nos revelaram algumas das fotos obscenas da pornografia financeira, e não podemos mais fingir que não sabemos.
Em 1843, o jovem Marx já alegava que o ancien regime alemão “supõe apenas que acredita em si e pede a todo mundo para compartilhar a sua ilusão.” (Crítica da filosofia do direito de Hegel, p.148) Em uma situação como essa, envergonhar quem está no poder se torna uma arma – ou, nas palavras de Marx: “A pressão deve ainda tornar-se mais premente pelo fato de se despertar a consciência dela e a ignomínia tem ainda de tornar-se mais ignominiosa pelo fato de ser trazida à luz pública”. (p.148). E essa é exatamente nossa situação hoje: estamos diante do desavergonhado cinismo da atual ordem global cujos agentes apenas supõem que acreditam nas suas próprias ideias de democracia, direitos humanos, etc., e através de ações como as do WikiLeaks e revelações como os Panama Papers, a vergonha (nossa vergonha de ter tolerado tal opressão sobre nós) torna-se ainda mais vergonhosa ao ser publicizada.
Uma breve passada de olhos pelos documentos dos Panama Papers revela dois elementos sobressalientes, um positivo e outro negativo. O positivo é a amplamente abarcadora solidariedade dos participantes: no mundo das sombras do capital global, todos são irmãos, o mundo desenvolvido ocidental está lá, incluindo os incorruptíveis escandinavos, de mãos dadas com Putin e o Presidente Chinês Xi, Irã e a Coreia do Norte também estão lá, mulçumanos e judeus trocando olhares amigáveis – é um verdadeiro reino de multiculturalismo onde todos são iguais e todos são diferentes. O negativo: a dura ausência dos EUA, que dá certo respaldo às alegações Russas e Chinesas de que haviam interesses políticos particulares envolvidos na investigação.
Então, o que fazer com todos esses dados? Há uma piada clássica sobre um marido que retorna à sua casa mais cedo do que o esperado e se depara com a esposa na cama com outro homem. Surpresa, a mulher pergunta: “O que aconteceu? Você me disse que estaria em casa só daqui a três horas!” O marido explode de volta: “Fala sério, o que você está fazendo na cama com esse cara?!” A esposa responde calmamente: “Não mude de assunto, primeiro responda minha pergunta.” Será que algo semelhante não está acontecendo com as reações aos Panama Papers? A primeira (e hegemônica) é a explosão de raiva moralista: “Horrível, quanta ganância e desonestidade há nas pessoas, onde estão os valores básicos da nossa sociedade?” O que devemos fazer é mudar o tópico imediatamente da moralidade ao nosso sistema econômico: políticos, banqueiros e empresários sempre foram “gananciosos”, então o que acontece com nosso sistema econômico e judicial que os permitiu levar a cabo sua ganância neste nível.
Desde o colapso financeiro de 2008, figuras públicas do Papa para baixo nos bombardeiam com injunções para combatermos a cultura da ganância e do consumo excessivos – esse deplorável espetáculo de moralização barata tem a forma de uma clássica operação ideológica: a compulsão de expansão inscrita no próprio sistema é traduzida como pecado individual, em propensão psicológica pessoal, ou, nas palavras de um dos teólogos próximos ao Papa: “A atual crise não é uma crise do capitalismo, mas uma crise de moralidade”. Até alguns setores da esquerda têm seguido essa linha. Não falta “anti-capitalismo” hoje: os protestos Occupy! explodiram alguns anos atrás, e estamos ainda testemunhando uma profusão de críticas aos horrores do capitalismo: livros, investigações jornalísticas mais aprofundadas e matérias televisivas sobre corporações poluindo descaradamente nosso meio-ambiente, sobre banqueiros corruptos que continuam a receber gratificações generosos enquanto seus bancos precisam ser salvos por dinheiro público, de casos de trabalho escravo infantil, e por aí vai…
Há, no entanto, um porém a essa profusão de críticas: o que, via de regra, jamais é questionado nessas críticas, por mais forte que possa parecer, é o próprio quadro liberal-democrático de combater esses excessos. O objetivo (explícito ou implícito) é o de democratizar o capitalismo, de estender o controle democrático à economia através da pressão da mídia pública, de inquisições parlamentares, leis mais duras, investigações policiais honestas… mas o sistema como tal em sua totalidade não é questionado, e seu quadro institucional jurídico permanece a vaca sagrada que mesmo as formas mais radicais de “anti-capitalismo ético” como o movimento Occupy!, o Fórum de Porto Alegre, o movimento de Seattle, não tocam.
O erro a ser evitado aqui é melhor exemplificado por uma anedota (apócrifa, talvez) do economista John Galbraith, um keynesiano de esquerda: antes de uma viagem à URSS no final da década de 1950, ele escreveu a seu amigo anti-comunista Sidney Hook: “Não se preocupe, não serei seduzido pelos russos e voltar pra casa alegando que eles atingiram o socialismo!” Ao que Hook respondeu prontamente: “Mas é exatamente isso que me preocupa – que você voltará dizendo que a URSS não é socialista!” O que preocupava seu interlocutor anti-comunista era a defesa ingênua da pureza do conceito: se as coisas derem completamente errado na construção de uma sociedade socialista, isso não invalida a ideia em si, só significa que não a implementamos adequadamente… Não detectamos a mesma ingenuidade nos fundamentalistas do livre-mercado de hoje?
Quando, durante um debate televisivo na França alguns anos atrás, Guy Sorman alegou que a democracia e o capitalismo necessariamente andam de mãos dadas, não pude resistir fazer a óbvia provocação: “Mas e a China hoje?” Ao que ele rebateu imediatamente: “Na China não há capitalismo!” Para um apologeta fanático do capitalismo como Sorman, se um país não é democrático, isso simplesmente significa que ele não é verdadeiramente capitalista, mas pratica uma versão deturpada de capitalismo, da exata maneira que para um comunista democrático, o stalinismo simplesmente não era uma forma autêntica de comunismo. “Minha noiva nunca se atrasa para nenhum compromisso, porque assim que ela o fizer, deixará de ser minha noiva!” É assim que os apologetas do livre mercado hoje, em uma forma inaudita de apropriação ideológica, explicam a crise de 2008: não foi a falência do livre mercado que a causou, mas a excessiva regulação estatal, isto é, o fato de que nossa economia de mercado nunca foi uma verdadeira economia de mercado, que ainda estava nas garras de algum resquício do Welfare State… A lição dos Panama Papers é justamente que este não é o caso: a corrupção não é um desvio do sistema capitalista global, ela é parte de seu funcionamento básico.
A realidade que emerge dos Panama Papers é uma de divisão de classes, pura e simples. Eles demonstram como uma casta de ricos vive em um mundo separado em que regras diferentes se aplicam, em que o sistema legal e a autoridade policial são intensamente torcidos e não apenas protegem os ricos, mas estão prontos a sistematicamente moldar a lei para acomodá-los. A piada cruel em Ser ou não ser, de Lubitch, cai como uma luva aqui: quando questionado sobre os campos de concentração na Polônia ocupada, o oficial nazista encarregado, “Erhard campo-de-concentração”, rebate: “Nós apenas fazemos a concentração, são os poloneses que acampam.” E o mesmo não vale para a falência da Enron em janeiro de 2002, que pode ser interpretada como uma espécie de comentário irônico sobre a noção de sociedade de risco? Milhares de funcionários que perderam seus trabalhos e economias estavam certamente expostos a um risco, mas sem uma verdadeira escolha – o risco apareceu a eles como fé cega. Por outro lado, aqueles que efetivamente tinham um vislumbre sobre os riscos e uma possibilidade de intervir na situação (a alta gerência), minimizaram seus riscos ao venderem suas ações antes da falência ser declarada – então é verdade sim que vivemos em uma sociedade de escolhas arriscadas, só que há aqueles (a alta gerência de Wall Street) que escolhem, e aqueles (as pessoas comuns pagando suas hipotecas) que assumem os riscos…
Há já muitas reações da direita liberal aos Panama Papers que jogam a culpa nos excessos de nosso Welfare State (ou o que restou dele): afinal, como há tantos impostos, não é de surpreender que os proprietários tentem deslocar seus recursos financeiros para lugares com menos taxação, uma “planejamento tributário” que em última instância não chega a ser ilegal… Por mais ridícula que essa desculpa possa parecer (afinal, o que os Panama Papers revelam são transações que de fato ferem a lei), esse argumento tem algo de verdadeiro. Dois pontos que merecem ser destacados nesse raciocínio. Primeiro, a linha que separa as transações legais das ilegais está ficando cada vez mais esfumaçada, e muitas vezes se reduz a uma mera questão de interpretação. Em segundo lugar, os sujeitos que deslocaram seu dinheiro para contas offshore e paraísos fiscais não aparecem mais como monstros gananciosos, mas sim como meros indivíduos que simplesmente agem como sujeitos racionais na busca de salvaguardar suas posses. No capitalismo, não se pode jogar fora a água suja da especulação financeira e guardar o bebê saudável da verdadeira economia: a água suja é o próprio aporte vital do bebê. E não devemos ter medo de ir às últimas consequências aqui: o sistema legal capitalista global em si é, em sua dimensão mais fundamental, corrupção legalizada. A questão de onde começa o crime (quais operações financeiras são de fato ilegais ou não) não é portanto uma questão legal, mas uma questão eminentemente política – é uma questão de disputa de poder.
Então por que é que milhares de empresários e políticos fizeram aquilo que está documentado nos Panama Papers? A resposta é a mesma que a do velho chiste de mal gosto: por que é que os cachorros lambem suas bolas (e nós, homens comuns não)? Porque eles podem.
* Artigo enviado pelo autor diretamente ao Blog da Boitempo. A tradução é de Artur Renzo.
***
Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013), Violência (2014) e o mais recente O absoluto frágil (2015). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

CLAUSTROFOBIA