terça-feira, 14 de junho de 2016

ntrevista com Ahmed Bensaada

Não houve primaveras nem foram árabes



11.Jun.16 :: Outros autores
Esta importante entrevista com Ahmed Bensaada, académico argelino radicado no Canadá, conhecedor profundo da realidade, desmascara o caráter democrático das chamadas «Primaveras Árabes», a sua origem e verdadeiros objetivos. E pergunta: por que razão as chamadas Primaveras árabes deixaram intocadas as antidemocráticas monarquias árabes?
Autor de dois livros sobre este tema, «Arabesco americano», em 2011, e Arabesco$, em 2015, Ahmed Bensaada defende e prova que as chamadas «Primaveras árabes», nada tiveram de primaveril e muito menos de árabe…



Ahmed Bensaada**, universitário argelino vivendo no Canadá há vários anos, segue atentamente as mudanças e perturbações no Magrebe e no Médio Oriente, às quais consagrou vários artigos, colóquios e conferências. Sobre as “primaveras” árabes assumiu desde o início um olhar muito crítico, tendo mesmo escrito um livro, Arabesco americano, a que se seguiu há pouco Arabesco$, uma nova edição, corrigida e enriquecida, de uma actualidade gritante. Cinco anos depois das “primaveras árabes!
– Cinco anos são passados desde as chamadas “primaveras árabes”. O balanço é não muito satisfatório, em muitos dos países envolvidos é mesmo catastrófico. Porquê, em sua opinião?
– “Não muito satisfatório”, diz? Estas perturbações maiores que o pensamento ocidental precipitada e falaciosamente baptizou como “primaveras” não geraram senão o caos, a morte, a raiva, o exílio e a desolação em vários países árabes. Seria necessário talvez perguntar aos cidadãos dos países árabes “primaverados” se a situação desastrosa em que eles hoje vivem pode ser qualificada de primaveril.
Os dados são eloquentes. Um estudo recente mostrou que esta funesta estação causou, em cinco anos, mais de 1 milhão e 400 mil vítimas (mortos e feridos), às quais é preciso ajuntar mais de 14 milhões de refugiados. Esta “primavera” custou aos países árabes mais de 833 mil milhões de dólares, dos quais 461 mil milhões em infra-estruturas destruídas e em locais históricos devastados. Por outro lado, a região MENA (Middle East and North Africa) perdeu mais de 103 milhões de turistas, uma verdadeira calamidade para a sua economia.
Na primeira versão do meu livro, “Arabesco americano” (Abril de 2011), pus em evidência a ingerência estrangeira nestas revoltas que tocaram a rua árabe, assim como a falta de espontaneidade desses movimentos. Antes destes acontecimentos os países árabes estavam num estado efectiva de decrepitude: ausência de alternativa política, desemprego elevado, democracia embrionária, uma vida má, direitos fundamentais não respeitados, falta de liberdade de expressão, corrupção a todos os níveis, nepotismo, fuga de cérebros, etc.. Tudo “terreno fértil” para a desestabilização. Mas embora as reivindicações da rua árabe sejam reais, as pesquisas realizadas mostraram que os jovens manifestantes e ciberactivistas árabes eram formados e financiados por organismos americanos especializados na “exportação” da democracia, tais como a USAID, a NED, a Freedom House ou a Open Society do multimilionário George Soros. E tudo isso antes da imolação pelo fogo de Mohamed Bouazizi.
Esses manifestantes, que paralisaram as cidades árabes e que expulsaram os velhos autocratas árabes instalados no poder há decénios, representavam uma juventude cheia de arrebatamento e de promessas.
Uma juventude instruída, manejando com brio as técnicas da resistência não-violenta e com slogans incisivos. Essas mesmas técnicas que foram teorizadas pelo filósofo americano Gene Sharp e postas em prática pelos activistas sérvios do Otpor nas revoluções coloridas do Leste da Europa. Técnicas ensinadas aos jovens manifestantes árabes pelos fundadores do Otpor, no seu centro CANVAS (Center for Applied Non Violent Action and Strategies), especialmente concebido para formação de dissidentes.
Uma juventude viciada em novas tecnologias, cujos líderes foram seleccionados, formados, organizados em rede, e apoiados pelos gigantes americanos da Net por intermédio de organismos americanos como a AYM (Alliance of Youth Movements).
Mas, tal como os activistas das “revoluções coloridas” [1], os ciberdissidentes árabes foram treinados apenas para decapitar os regimes. Eles são “comandados” – provavelmente sem o saberem – para levar a cabo a queda do topo da pirâmide do poder. Mas não têm nenhuma interferência na marcha dos acontecimentos que se seguem depois de os autocratas serem expulsos e provocarem o vazio no poder. Não têm nenhuma aptidão política para concretizar a transição democrática que deveria seguir-se a essa mudança maior.
Num artigo sobre as “revoluções coloridas”, escrito em 2007 pelo jornalista Hernando Calvo Ospina nas colunas do Le Monde Diplomatique, pode ler-se: “A distância entre governantes e governados facilita a tarefa da NED [2] e da sua rede de organizações, que fabricam milhares de ‘dissidentes’ graças aos dólares e à propaganda. Uma vez alcançada a mudança, a maior parte desses ‘dissidentes’ e das suas organizações de todo o género, desaparecem da circulação, sem honra nem glória”.
Assim, quando o papel atribuído aos ciberactivistas termina, são as forças políticas locais, contrárias a qualquer mudança profunda, que ocupam o vazio criado pelo desaparecimento do antigo poder. No caso da Tunísia e do Egipto, foram os movimentos islamistas que, num primeiro momento, aproveitaram a situação, evidentemente ajudados pelos seus aliados, como os Estados Unidos, certos países ocidentais e árabes e a Turquia, que devia servir de modelo.
É claro que esta “primavera” não tem nada a ver com os slogans corajosamente entoados pelos jovens ciberactivistas nas ruas árabes e o abuso da palavra democracia não passa de uma armadilha. De facto, como não colocar sérias interrogações sobre esta “primavera” quando se sabe que os únicos países que sofreram esta estação foram repúblicas? Será por mero acaso que nenhuma monarquia árabe tenha sido atingida por este tsunami “primaveril”, como se esses países fossem santuários da democracia, da liberdade e dos direitos humanos?
A única tentativa de sublevação anti-monárquica, a do Bahrein, foi violentamente sufocada pela colaboração militar do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), o silêncio cúmplice dos media dominantes e a conivência de certos políticos, sempre tão loquazes quando acontecimentos análogos tocaram certas repúblicas árabes.
Estas “primaveras” visam desestabilizar países árabes bem identificados num quadro geopolítico muito mais vasto, certamente o “Grande Médio Oriente”. Esta doutrina preconiza a reformulação das fronteiras de uma região geográfica reagrupando os países árabes e certos países da vizinhança, pondo assim fim às fronteiras herdadas dos acordos Sykes-Picot. Embora lançado sob a liderança do presidente G. W. Bush e dos seus falcões neoconservadores, este projecto inspira-se numa ideia teorizada em 1982 por Oded Yinon, um alto funcionário do ministério dos Negócios Estrangeiros israelita. O “Plano Yinon”, como é originalmente chamado, tinha o objectivo de “desfazer todos os estados árabes existentes e reorganizar o conjunto da região em pequenas entidades frágeis, maleáveis e incapazes de enfrentar os israelitas”.
E essa divisão está infelizmente em curso…
– Neste quadro, ainda assim a Tunísia é uma excepção. Como explica isso?
– Comparativamente com a Líbia, a Síria ou o Iémen, a situação na Tunísia pode parecer interessante. Mas de facto a Tunísia não representa um modelo conseguido como nos querem fazer crer os media dominantes. E não é o Prémio Nobel da Paz recentemente outorgado à Tunísia que muda o que quer que seja. Quando se vê a quem foi atribuído nestes últimos anos, pergunta-se para que serve este prémio. E os tunisinos, que vivem há cinco anos a “primaverização” do seu país, conhecem bem este assunto. Comentando este quinto aniversário, alguns bloggers não estiveram com meias medidas. “Único país democrático do Magrebe+Prémio Nobel, tudo o resto é pior do que o período ZABA (Zine el-Abidine Ben Ali)”. Ou então, com uma ponta de humor: “Injustiça social, tortura, impunidade, estamos nas tintas, temos o Prémio Nobel”.
Numa recente entrevista ao Figaro, um meu amigo tunisino, o filósofo Mezri Haddad, declarou: “Em toda a parte – incluindo na Tunísia, que se apresenta como o paradigma revolucionário bom, e o país a que se atribuiu o Prémio Nobel da Paz em vez de perdoar a dívida externa que se tornou vertiginosa em menos de cinco anos e apoiar a sua economia hoje agonizante – a ‘Primavera árabe’ destruiu mais do que construiu”. Antes de acrescentar: “Depois de 2011, a Tunísia tornou-se o primeiro país exportador de mão-de-obra islâmica-terrorista tanto para a Líbia como para a Síria. Os relatórios das Nações Unidas são esmagadores para o tunisino que sou. O autor do último atentado suicida em Zliten, na Líbia, é um tunisino, como o que atacou a mesquita de Valência ou o que acaba de ser abatido diante do comissariado de polícia do 18.º distrito de Paris”.
Com efeito, a Tunísia ainda é, de longe, o maior fornecedor de jihadistas do Estado Islâmico na Síria. Triste recorde para um país que quer passar pela excepção que justifica a terminologia primaveril. E tudo isso sem contar os assassínios políticos, os atentados terroristas cegos que enlutaram o país e as sórdidas histórias de “jihad al-nikah”, popularizada pelos jovens tunisinos radicalizados.
E também não será a mudança da família do Goncourt para o Museu do Bardo, ainda marcado pelos estigmas do atentado de 18 de Março de 2015, que dará à Tunísia o rótulo de um país que conseguiu a sua transição democrática. Este “empurrão” francês não apagará de maneira nenhuma o lapso da ministra francesa Michèle Alliot-Marie que ofereceu o saber-fazer francês à polícia de Ben Ali para “resolver situações securitárias” e pôr fim à impertinência dos manifestantes que tinham invadido a Avenida Bourguiba.
Estes manifestantes que arvoravam a sua juventude como bandeira de um futuro radioso, o que pensam da idade dos “dinossauros políticos” actuais depois de terem afastado o presidente Ben Ali? Vejam só: Moncef Marzouki (71 anos), Rached Ghannouchi (75 anos) e, sobretudo, o presidente actual, Béji Caid Essebsi (90 anos).
Podem aqueles manifestantes acreditar realmente que uma revolta fundamentalmente jovem, qualificada de “facebookiana”, possa ser representada por gerontocratas, velhos caciques de regimes odiados, islamistas belicosos ou pelos que confundem o interesse do país com o interesse supranacional, da sua confraria?
Pensavam eles que um dia uma lei eleitoral seria aprovada para reabilitar os antigos apoiantes de Ben Ali, contra quem combateram com determinação?
Teriam eles imaginado que, cinco anos depois da partida de Ben Ali, um jovem diplomado tunisino, Ridha Yahyaoui, se mataria em Kasserine para protestar contra o favoritismo na admissão para um emprego, flagelo que eles tinham denunciado e contra o qual se tinham batido? E que os distúrbios que se seguiram a este drama seriam tão duramente reprimidos?
O que houve de tão positivo nesta “Primavera” tunisina se, cinco anos passados, Yahyaoui pelas mesmas razões imita Bouazizi?
– Na sua opinião que diferenças há nas realidades actuais de países como a Síria ou a Líbia, se tivermos em conta que este último país tanto diz à Tunísia, dada a sua proximidade?
– A guerra civil que devasta actualmente a Síria tem curiosas similitudes com a que prevaleceu na Líbia: a) o epicentro inicial da revolta síria não se encontrava na capital mas numa região fronteiriça (contrariamente ao que aconteceu na Tunísia e no Egipto); b) uma “nova antiga” bandeira apareceu com estandarte dos insurrectos; c) a fase não-violenta da revolta foi muito curta; d) a implicação militar estrangeira (directa ou indirecta) rapidamente transformou os tumultos não-violentos numa sangrenta guerra civil. Com efeito, quando a teoria de Gene Sharp [3] não funciona e os ensinamentos da CANVAS não dão frutos, como nos casos da Líbia e da Síria, as manifestações transformam-se muito rapidamente numa guerra civil. Esta metamorfose ocorre graças a uma ostensiva ingerência estrangeira dos países antes referidos, através da NATO no caso da Líbia, ou de coligações heteróclitas como sucedeu na Síria).
Assim, ajudados pelos seus aliados árabes e regionais, os países ocidentais podem passar, sem quaisquer problemas de consciência, duma abordagem não-violenta à Gene Sharp a uma guerra mortífera e sangrenta onde correm rios de sangue árabe.
A efémera fase sharpiana de manifestações populares foi mesmo utilizada para justificar a intervenção militar da NATO na Líbia ou da coligação anti-Bachar na Síria. A resolução 1973 da ONU que permitiu a destruição da Líbia foi justificada pela falsa acusação que as forças leais a Kadhafi tinham feito entre a população civil, pelo menos 6.000 mortos. Na verdade, numerosos países entenderam que os Estados Unidos, a França, a Grã-Bretanha e seus aliados deturparam e abusaram desta resolução permitindo à NATO violar o mandato do Conselho de Segurança. Tendo em conta «a lição da Resolução 1973» países como a Rússia e a China opõem-se hoje a uma resolução das Nações Unidas de condenação da Síria ou do seu presidente, Bachar al-Assad. Se não fosse isso, os media de dominantes de todo o mundo ter-nos-iam mostrado imagens do presidente Bachar com o coração ou a cabeça arrancados pelos especialistas jihadistas no assunto que pululam na Síria graças à activa colaboração dos ocidentais e dos seus aliados.
Acrescente-se que o estudo dos e-mails da senhora Hillary Clinton mostrou que as motivações para eliminar Kadhafi nada tinham a ver com qualquer democratização da Líbia, mas sim com interesses estratégicos, económicos, políticos, e do ouro de um tesouro famoso. O mesmo se pode dizer em relação ao presidente sírio.
É também interessante notar que investigações muito sérias realizadas por especialistas americanos mostraram que a guerra na Líbia não era necessária, que ela podia ter sido evitada se essa fosse a vontade dos Estados Unidos. Mostraram também que a administração americana possibilitou o fornecimento de armas e apoio militar a grupos ligados à Al-Qaida.
Por outro lado, o contra-almirante americano Charles R. Kubic, na reforma, revelou que Kadhafi estava disposto a abandonar a Líbia e permitir o estabelecimento de um governo de transição, sob duas condições: assegurar que após a sua saída permanecesse uma força militar para expulsar a Al-Qaida; e a concessão de um livre-trânsito e o levantamento das sanções contra ele, a sua família e os seus colaboradores mais próximos.
Por seu turno, o antigo presidente da Finlândia (1994-2000) e Prémio Nobel da Paz (2008), Martti Ahtisaari, disse ter sido mandatado pela administração russa, no começo do ano de 2012, para encontrar uma solução pacífica para o conflito sírio.
O plano da resolução do conflito sírio proposto aos representantes dos cinco países membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas compreendia três pontos:
1) não armar a oposição;
2) organizar o diálogo entre a oposição e Bachar al-Assad;
3) permitir uma retirada digna de Bachar al-Assad.
Segundo Marti Ahtisaari, nada foi feito após a apresentação desta proposta aos representantes americano, britânico e francês.
Parece claro que o objectivo desta “Primavera” não tem nada a ver com a democracia e os direitos humanos na Líbia e na Síria ou Médio Oriente e Norte de África, mas sim com a eliminação física dos presidentes Kadhafi e Bachar al-Assad, que permite destruir estes dois países, liquidar milhares de árabes, e financiar jihadistas comedores de corações e degoladores.
Nos casos líbio e sírio, o que chamam “primaveras” são exemplos pedagógicos de guerras civis fomentadas a partir do estrangeiro sob a capa de direitos humanos e humanismo.
Actualmente, estes dois países são terras de instabilidade geopolítica, covis de jihadistas daechianos abertamente financiados por países ocidentais, países árabes e potências regionais [3].
No quadro desta forte turbulência política e de agressiva ingerência estrangeira, a Argélia foi e continua a ser um dos principais alvos. Lembremos que jovens argelinos também participaram em formações de sérvios da CANVAS e que numerosos países apostaram na “primaverização” (violenta ou não) da Argélia. As más recordações do decénio negro e a efemeridade da CNCD (Coordenação Nacional para a Mudança e a Democracia) forçaram uma decisão diferente.
Hoje, a situação líbia é evidentemente muito preocupante para a segurança e estabilidade da Argélia. Alguns observadores calculam que haja 300 grupos de milícias armadas na Líbia e notam que elas estão fortemente ligadas às suas congéneres tunisinas. De facto, segundo um relatório da Comissão de Negócios Estrangeiros da Assembleia Nacional Francesa, datado de Novembro de 2015, “o conjunto de atentados recentes na Tunísia foram organizados e planificados a partir da Líbia”.
Contrariamente às declarações belicosas e mal-intencionadas de Nicolas Sarkozy – um dos maiores responsáveis pela destruição da Líbia –, deveria ser a Argélia a lamentar-se da sua localização geográfica fronteiriça com a Tunísia e a Líbia. Isso é tanto mais verdade quanto é certo que a colaboração entre o Daech na Líbia e os movimentos terroristas do Sahel é cada vez mais evidente, o que dá ainda mais razões à Argélia para tornar seguro o sul do país.
Vê-se bemque mesmo que a Argélia não tenha sido tocada directamente por esta lúgubre estação, a “primaverização” a que foram sujeitos os seus vizinhos coloca-lhe enormes desafios.
– No seu livro Arabesque$, de que acaba de aparecer uma nova edição revista e enriquecida, a tese que defende é a de uma grande implicação e de uma grande responsabilidade dos Estados Unidos nas “primaveras árabes”, um envolvimento norte-americano que classifica, nada mais, nada menos, como operações de desestabilização de Estados e de regimes instalados no mundo árabe. Até que ponto continua a defender esta análise?
– Quando a primeira versão do meu livro intitulado Arabesco americano, foi publicada, em Abril de 2011, ela foi acolhida com muito cepticismo porque a tese que ali era desenvolvida opunha-se à euforia “primaveril” dominante e introduzia uma nota discordante no unanimismo inebriante. Esta benevolência face a uma “revolução” árabe imaculada, orquestrada por uma bela juventude instruída e impetuosa, não devia em nenhuma circunstância ser manchada por acusações que, de toda a maneira, não podiam ser senão caluniosas. Este discurso foi repetido pelos media dominantes e por numerosos especialistas “catódicos”, dos quais subsistem ainda alguns espécimes recalcitrantes.
É preciso reconhecer que opor-se ao romantismo revolucionário no seu auge, algumas semanas apenas depois da queda de Ben Ali e de Moubarak, relevava certamente de uma inconsciência temerária.
Contudo, a tese apresentada neste livro – que inclui mais de 260 referências facilmente comprováveis – foi meticulosamente elaborada graças à análise de numerosos livros, documentos oficiais, relatórios de actividades, telegramas Wikileaks, etc..
É claro que não foram os Estados Unidos que provocaram a “Primavera” árabe. Como foi explicado antes, a situação política e sócio-económica dos países árabes é um terreno fértil para a dissidência e a revolta. Contudo, a implicação americana no processo não é inócua, longe disso. Confirmam-no o papel primordial dos organismos especializados na “exportação” da democracia e maioritariamente subvencionados pelo governo americano, as formações teóricas e práticas sobre a resistência não-violenta dadas pela CANVAS, a constituição de uma “liga árabe da Net” dominando as novas tecnologias, a elaboração de ferramentas de navegação anónima distribuídas gratuitamente aos ciberactivistas, a estreita colaboração entre os ciberdissidentes e as embaixadas norte-americanas nos países árabes, as enormes somas investidas, o envolvimento militar e as manobras diplomáticas a alto nível. E como a política externa dos Estados Unidos nunca foi um modelo de filantropia, é preciso reconhecer a evidência de que os americanos influenciaram fortemente o curso dos acontecimentos. Não se pode esquecer que todas estas acções foram empreendidas durante anos, antes do começo da “Primavera” árabe.
À medida que o tempo avançava, a natureza pérfida destas “revoluções” foi revelada, as línguas soltaram-se e novos documentos apareceram. Nada do a partir de então apareceu desmente a minha tese, pelo contrário ela foi amplamente confirmada. Foi isso que justificou a redacção de uma nova versão do livro, intitulada Arabesco$ – Inquérito sobre o papel dos Estados Unidos nas revoltas árabes, editada em Setembro de 2015. Em comparação com a obra anterior, o novo livro inclui mais de 600 documentos e o número de páginas quase triplicou. Entre outros documentos explícitos, citemos, por exemplo, o estudo realizado em 2008 pela corporação RAND (gabinete de estudos do Exército dos Estados Unidos), que serviu de fundamento à política americana de “exportação” da democracia para os países árabes, baseada na formação, apoio e organização em rede de activistas provenientes desses países.
Um outro documento merece também ser mencionado. Trata-se de um relatório saído do Departamento de Estado americano, redigido em 2010 e obtido em 2014 graças à lei para a liberdade de informação.
Esse relatório explica claramente “a estrutura elaborada de programas do Departamento de Estado visando criar organizações da ‘sociedade civil’, em particular as organizações não-governamentais (ONG), para modificar a política interna dos países seleccionados a favor da política estrangeira dos Estados Unidos e dos seus objectivos de segurança nacional”. Utilizando uma linguagem diplomática, o documento precisa que o objectivo é “a promoção e a monitorização de mudanças políticas nos países alvos”.
A implicação dos Estados Unidos na “Primavera” árabe não é uma especulação intelectual. A sua existência é abertamente reconhecida pela própria administração americana. É o que explico pormenorizadamente no livro Arabesco$.

– Partilha a ideia de que as “primaveras árabes” acabaram? Que cenários possíveis prevê, sobretudo para a Líbia, país em que os actores não conseguem entender-se sobre uma solução política promovida por uma já prevista intervenção militar europeia?

– Que se diga: a “Primavera” árabe nunca foi uma Primavera, se tivermos em conta as consequências desastrosas para as populações, nem intrinsecamente árabe, porque os movimentos de contestação foram infiltrados decisivamente por organismos estrangeiros, nomeadamente estadounidenses.
O processo de “primaverização” do mundo árabe chega ao fim? Certamente.
Os povos árabes não são cegos. Os exemplos da selvagem destruição da Líbia, da Síria e do Iémen são suficientes para convencer mesmo os mais renitentes.
O mundo árabe tem imperativamente necessidade de fazer enormes transformações em diferentes domínios da sociedade; político, sócio-económico, cultural, de liberdade de expressão, dos direitos humanos, etc.. Mas para realizar estas mudanças é preciso destrui os países e fomentar o ressurgimento de práticas medievais, de semear a morte, o ódio e a desolação? É evidente que não.
Por outro lado, estas mudanças de forma alguma devem obedecer ou beneficiar agendas estrangeiras; os países árabes não devem agir de modo que as suas terras se tornem o campo de jogo das potências, no qual se travem guerras “low cost”, onde só sangue é derramado.
É o caso da Síria, na medida em que este país é actualmente o cenário de confrontos (directos e indirectos) de numerosos beligerantes, cada um tendo as suas próprias agendas e ambições, distantes das dos sírios.
No que diz respeito à Líbia, qualquer nova intervenção militar ocidental neste país corre o risco de provocar consequências indesejáveis no território argelino. É por esta razão que a Argélia se opõe firmemente a tal eventualidade e não exclui nenhum esforço para encontrar uma solução política para o conflito e fazer sentar-se à volta da mesma mesa as diferentes facções.
Apenas permitindo aos cidadãos de um país discutir em conjunto, de boa-fé, tendo em conta os seus interesses nacionais e não os de outros países, o mundo árabe conseguirá sair da situação de decadência para onde foi empurrado.
Notas do tradutor:
[1] Movimentos ocorridos a partir de 2000 em alguns países saídos do desmembramento da União Soviética e que em geral substituíram os regimes pró-russos por governos pró-ocidentais. Como por exemplo a “Revolução Rosa”, na Geórgia (2003), a “Revolução Laranja”, na Ucrânia (2004) ou a “Revolução das Tulipas”, no Quirguistão (2005). Esses e outros golpes de estado, mais contra-revoluções do que revoluções, quer tenham tido êxito ou não, foram apoiados pelos Estados Unidos e seus aliados locais.
[2] NED – National Endowment for Democracy, organização privada norte-americana, criada em 1983 (entre outros, pelo presidente Ronald Reagan), com o apoio financeiro do Congresso dos EUA e de agências governamentais como a USAID, com o objectivo de “fortalecer as instituições democráticas em todo o mundo”. A NED é suspeita de ser um instrumento da CIA, não de promoção mas de subversão da democracia, e para tal financia organizações não-governamentais (ONG) e grupos “pró-democracia” em mais de 90 países.
[3] Sharp, importa recordar, é um académico norte-americano, acusado de estar ligado à CIA, autor de um muito difundido livro (Da ditadura à democracia) sobre as técnicas e os meios “pacíficos” de se chegar à “democracia”, um autêntico manual de golpes de estado suaves, cujas recomendações foram seguidas, com êxito, em várias “revoluções coloridas”, e com menos sucesso noutros casos, como, recentemente, em Hong Kong ou em Angola…
[4] Quando insiste nas “potências regionais”, o autor refere-se provavelmente a Israel, que ocupa território sírio desde 1967 e é o grande aliado dos Estados Unidos no Médio Oriente, e ao Irão, país que, não sendo árabe, é de maioria muçulmana xiita e que apoia política e militarmente o regime sírio.

* Nordine Azzouz é director do diário argelino Reporters
** odiario.info publicou já um texto de Ahmed Bensaada em:
http://www.odiario.info/index.php?autman=Ahmed+Bensaada
Este texto foi publicado em:
http://www.afrique-asie.fr/component/content/article/75-a-la-une/9837-ahmed-bensaada-les-printemps-n-ont-genere-que-le-chaos-la-mort-la-haine-l-exil-et-la-desolation-dans-plusieurs-pays-arabes

domingo, 12 de junho de 2016

Brasil inteiro se uniu para gritar “Fora Temer”

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Perto de completar um mês de governo ilegítimo, Michel Temer é alvo de protestos que aconteceram no Brasil e em dezenas de cidades fora do país. São Paulo reuniu 100 mil pessoas; Minas Gerais 40 mil; Rio de Janeiro 30 mil, Pernambuco 30 mil; Brasília 10 mil. Centenas de milhares de pessoas gritaram Fora Temer nesta sexta-feira, (10).
O ato unificado nacional organizado pela Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo teve como mote as bandeiras Fora Temer; Não ao golpe; Nenhum Direito a Menos e começou na véspera com uma série de paralisações e ocupações em sedes do Incra e agências do INSS. No final da noite, a TV Verdes Mares, afiliada da Rede Globo no Ceára também foi ocupada.
Em São Paulo, o ato contou com a participação do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva e artistas do movimento #OcupaCultura que desde o início do governo interino estão ocupados nos 27 estados.
Lula criticou os cortes que Temer está fazendo em áreas estratégicas como educação e saúde e também os cortes nos ministérios.
“Não é possível imaginar que alguém não tenha sensibilidade para entender a questão dos negros da nossa sociedade que foi escravizada por muitos anos. Não é possível que não reconheça a violência contra os direitos humanos, a violência na periferia, contra os pobres e acaba com ministério dos Direitos Humanos”, indignou-se Lula.
A sede de poder de Michel Temer também criticada por Lula. Segundo o ex-presidente, o pemedebista não respeitou a interinidade. “Eu fico imaginando a atitude do Temer que deu um golpe na decisão do Senado. Ele pegou a interinidade e não agiu como um presidente interino”.
Lula ainda apelou para o senso de advogado criminalista do atual presidente. “Não vou dizer Fora Temer, não pega bem. Temer é um advogado constitucionalista, deve devolver o poder para uma presidenta legitimamente eleita”
Unidade
De acordo com Vagner Freitas, presidente da CUT, “a coisa mais importante que foi construída nesse processo todo foi essa linda unidade da esquerda e dos movimentos sociais para impedir o impeachment e retomar a democracia”.
A presidenta da União Nacional dos Estudantes, Carina Vitral, afirmou que esse é um momento de valorizar as bandeiras que unificam as entidades do movimento social. “Hoje estamos na rua para pedir Fora Temer, essa é a bandeira que nos unifica e esse é o objetivo principal dos movimentos sociais”.
Fonte:
Com informações de agencias e Portal Vermelho.
Via: Divulgue a Verdade
O ateísmo de Michel Onfray

O ateísmo de Michel Onfray

Pressupostos filosóficos da ateologia

Novas Edições Acadêmicas ( 08.10.2014 )
€ 32,90
O que é o verdadeiro ateísmo? Quais as origens do ateísmo pós-modernos? A partir de quais valores o ateísmo onfrayano quer propor sua ética? O que Onfray quer dizer quando propõe uma Ateologia? Qual a missão, visão e valores do ateísmo de Michel Onfray? Esta obra investiga o conceito de ateologia adotado por Onfray em sua obra O Tratado de Ateologia. Apesar das críticas ao cristianismo, exitem algumas categorias básicas do postulado ateu que são comuns aos da religião. A Ateologia quer mudar o mundo, reconfigurar as bases da Filosofia e consequentemente mudar a maneira das pessoas pensarem sua existência.

Castoriadis, Cornelius (1922-1997)

Cornelius Castoriadis (1922—1997)

Cornelius Castoriadis was an important intellectual figure in France for many decades, beginning in the late-1940s. Trained in philosophy, Castoriadis also worked as a practicing economist and psychologist while authoring over twenty major works and numerous articles spanning many traditional philosophical subjects, including politics, economics, psychology, anthropology, and ontology. His oeuvre can be understood broadly as a reflection on the concept of creativity and its implications in various fields. Perhaps most importantly he warned of the dangerous political and ethical consequences of a contemporary world that has lost sight of autonomy, i.e. of the need to set limits or laws for oneself.


bibliografia:

[1968]
Mai 68. La brèche,
Fayard, Paris , l968
 
+Morin, Edgar +Lefort, C.
[1973]
La société bureaucratique, l. Les rapports de productions en Russie, Union Générale d'Éditions, l0/l8, Paris, l973
A sociedade burocrática. I - As relações de produção na Rússia,
(trad. port., Porto, Edições Afrontamento, 1979)
[1974]
L'expérience du mouvement ouvrier, UGE, l0/l8, Paris, l974
[1973]
La société bureaucratique, 2. La révolution contre la bureacratie, UGE, l0/l8, Paris, l973
[1975]
L’Institution Imaginaire de la Societé
(Paris, Éditions du Seuil).
[1978]
Les Carrefours du Labyrinthe, 2 vols., Paris, Éditions du Seuil, 1978
[ As encruzilhadas do labirinto, trad. port., Rio de Janeiro, Rumos da Cultura Moderna, 1987] .
[1981]
Devant la guerre, Paris, l981
[1981]
De l'écologie à l'autonomie, Paris, l981
[1986]
Domaines de l'homme, Seuil, Paris, l986
[1989]
Le Monde Morcellé.
Les Carrefours du Labyrinthe, vol. III,
(Paris, Éditions du Seuil)
[1983]
Da Ecologia à Autonomia
 
(Lisboa, Fora do Texto, 1983. Com Daniel Cohn-Benedit)
La montée de l'insignifiance, Paris, l996.

sábado, 11 de junho de 2016

Os Fundamentos do Ateísmo

André Cancian
Por simples bom senso, não acredito em Deus; em nenhum.Charles Chaplin
Etimologicamente, a palavra ateu é formada pelo prefixo a — que denota ausência — e pelo radical grego theós — que significa Deus, divindade ou teísmo; ou seja, a palavra ateu pode significar sem deus ou sem teísmo. Como a imprecisão desse primeiro significado o torna impróprio para representar a noção de descrença ateística, usa-se como base a acepção teísmo, que significa crença na existência de algum tipo de deus ou deuses de natureza pessoal. Nesse caso, chegamos a uma definição mais coerente e clara de indivíduo ateu: aquele que não acredita na existência de qualquer deus ou deuses. Assim, quando queremos uma palavra que representa tal perspectiva, usamos o termo ateu ligado ao sufixo ismo, que, na língua portuguesa, é usado com o significado de doutrina, escola, teoria ou princípio artístico, filosófico, político ou religioso. Deste modo, chegamos a uma definição bastante nítida do que é ateísmo: estado de ausência de crença na existência de qualquer deus ou deuses.
É importante salientar que, comumente, a maioria dos ateus, quando se refere à sua posição, diz apenas que não acredita em deus/deuses. Isso não está incorreto, mas, na verdade, com isso quer dizer que não acredita na existência de deus/deuses. Afirmar apenas “não acredito em Deus” pode dar margem à interpretação errônea de que a pessoa em questão acredita em sua existência, mas é contra Deus, contra seus mandamentos, ou então que não lhe dá qualquer crédito, que o desacredita, o difama, fato este que, não raro, dá origem a vários preconceitos em relação à posição ateísta. Esclarecido esse ponto, vejamos quais são os tipos de ateísmo existentes.
Há várias modalidades de ateísmo, as quais diferem fundamentalmente quanto à atitude do indivíduo para com a ideia de uma divindade. Vale lembrar que tais classificações são meramente didáticas, feitas apenas para delinear as circunstâncias mais comuns em que o ateísmo pode ser encontrado. As duas modalidades-tronco são: 1.0) ateísmo implícito; 2.0) ateísmo explícito. A primeira, filosoficamente, é pouco relevante, e subdivide-se em: 1.1) ateísmo natural; 1.2) ateísmo prático. A segunda subdivide-se em outras duas variedades que são comumente denominadas: 2.1) ateísmo negativo ou ateísmo cético; 2.2) ateísmo positivo ou ateísmo crítico.
1.0) O ateísmo implícito, como o próprio nome indica, é a variedade de ateísmo que existe tacitamente. Nesse caso, o ateísmo não se fundamenta na rejeição consciente e deliberada da ideia de deus, baseada em conceitos filosóficos e/ou científicos, mas simplesmente existe enquanto um estilo de vida que não leva em consideração a hipótese da existência de algum deus para se guiar. O ateísmo implícito pode ser dividido em ateísmo natural e ateísmo prático.
1.1) O ateísmo natural é o estado de ausência de crença devido à ignorância ou à incapacidade intelectual para posicionar-se ante a noção de existência de uma divindade. Nessa categoria entram todos os indivíduos que nunca tiveram contato com a ideia de um deus; por exemplo, alguma tribo, grupo ou povo que se encontre isolado da civilização e que seja alheio à ideia de um deus. Também se enquadram nessa categoria os indivíduos incapazes de conceber a ideia de um deus, seja isso por imaturidade intelectual ou por deficiências mentais; por exemplo, poderíamos citar crianças de pouca idade; pessoas que sofrem de alguma enfermidade mental incapacitante também se enquadram nessa categoria.
1.2) O ateísmo prático enquadra aqueles que tiveram contato com a ideia de deus, ou seja, que conhecem as teorias sobre as divindades, mas não tomam qualquer atitude no sentido de negá-la, rejeitá-la ou afirmá-la, permanecendo, deste modo, neutros sobre o assunto. Os integrantes dessa categoria comumente se classificam como agnósticos, isto é, aqueles que julgam impossível saber com certeza se há ou não uma divindade. Sob essa ótica, devido a essa impossibilidade, afirmam que seria inútil qualquer esforço intelectual no sentido de comprovar ou refutar a existência de um deus. Qualquer pessoa que tem conhecimento da existência das religiões e de suas teorias, mas vive sem se preocupar se há ou não algum deus, ou julga impossível sabê-lo com certeza, sem rejeitar ou afirmar explicitamente a ideia de deus, é classificada como pertencente ao ateísmo prático.
2.0) O ateísmo explícito é a rejeição consciente da ideia de deus. A causa dessa rejeição frequentemente é fruto de uma deliberação filosófica; contudo, não é possível fazer qualquer espécie de generalização quanto à causa específica da descrença, pois cada pessoa julga individualmente quais razões são válidas ou inválidas para corroborar ou refutar a ideia da existência de um deus. O ateísmo explícito pode ser dividido em duas outras categorias.
2.1) O ateísmo negativo ou cético é a descrença na existência de deus(es) devido à ausência de evidências em seu favor. Essa variedade também pode ser encontrada sob a denominação de posição cética padrão, pois reflete um dos axiomas mais fundamentais do pensamento cético, que é: não devemos aceitar uma proposição como verdadeira se não tivermos motivos para fazê-lo; ou, em sua versão lacônica: sem evidência, sem crença. O ateu dessa categoria limita-se a encontrar motivos para justificar sua rejeição da ideia de deus, por vezes esforçando-se em demonstrar por que as supostas provas da existência divina são inválidas, mas sem se preocupar com a negação da possibilidade da existência de um deus.
2.2) O ateísmo positivo ou crítico é a variedade mais difícil de ser defendida, pois é uma descrença que envolve a negação da possibilidade de existência de um deus. Os ateus dessa categoria tipicamente se intitulam racionalistas e seguem o princípio de que o ataque é a melhor defesa; ou seja, literalmente atacam a ideia de deus, evidenciando as contradições e as incongruências presentes nesse conceito, empenhando-se em demonstrar, através de argumentos racionais, por que a existência de um deus — como definido pelas religiões — é logicamente impossível.
À primeira vista, talvez pareça que tais definições são demasiado singelas para serem capazes de abarcar todas as possibilidades, mas não são. Isso porque a posição ateísta, em si mesma, não é positiva, não possui qualquer conteúdo, pois não representa algo, mas apenas a ausência de algo, inclusive no caso do ateísmo positivo; em suas categorias mais elaboradas, o ateísmo é uma ausência vinculada a uma rejeição ou a uma negação de algo largamente aceito, que, no caso, é o teísmo, em suas variadas formas.
Deste modo, a definição de ateísmo não subentende qualquer espécie de descrição prática do indivíduo. Nessa classificação, aquilo que os ateus fazem de suas vidas não é levado em consideração absolutamente. Ao contrário de outros ismos — como cristianismo, judaísmo, espiritismo, xintoísmo, hinduísmo, islamismo —, o ateísmo não é um estilo de vida nem uma doutrina dotada de um corpo de conhecimentos ou princípios, mas somente uma classificação acerca do posicionamento ou estado intelectual do indivíduo em relação à ideia de deus. Portanto, o ateísmo não possui natureza análoga às religiões teístas.
Uma vez que o ateísmo é apenas uma classificação — e não uma doutrina ou uma cosmovisão —, logicamente não incorpora qualquer espécie de valores, princípios morais ou noções de ética. É exatamente devido a esse fato que muitos indivíduos, inadvertidamente, classificam os ateus como imorais. Deve ficar claro, entretanto, que a ausência de um conjunto de valores morais, na verdade, refere-se somente ao ateísmo em si mesmo, de modo que, na prática, isso não implica qualquer incompatibilidade entre ambas as coisas.
Assim como os teístas, os ateístas possuem valores morais que norteiam suas ações. Não há quaisquer evidências empíricas para sustentar a acusação de imoralidade tão frequentemente lançada contra os descrentes. É claro que os ateus, como um todo, não compartilham um código moral único, não possuem uma moral baseada na autoridade de princípios ateísticos, que seriam absolutos ou superiores como os valores vinculados ao teísmo. Na realidade, os ateus escolhem individualmente — visando seus objetivos, suas necessidades — quais são os valores que melhor lhes servirão para guiar suas vidas em função do sentido que escolheram para elas; ou seja, o que não existe é uma moral ateísta no sentido em que falamos de uma moral cristã. Entretanto, há, por certo, ateístas morais, os quais se baseiam em fatores de natureza humana para fundamentar seus valores de modo racional; pois é claro que, sem um deus, tais fatores não poderiam ser absolutos ou transcendentais.
A grande frequência com que se tenta corroborar ou refutar o ateísmo através de julgamentos e valores morais apenas demonstra uma lamentável leviandade (ex: “ateus também fazem caridades” ou “muitos ateus são criminosos”). É claro que, se desejarem, alguns ateus podem ser bondosos, compassivos, solidários etc. Talvez devido ao fato de a maioria dos religiosos se identificar com esse tipo de moral sua típica ojeriza à palavra ateu possa ser um pouco amenizada; todavia, pretender que a bondade tenha, em si mesma, algum valor, que ofereça qualquer verossimilhança à posição, é, no mínimo, um absurdo. O mais “dogmático” dos ateísmos ainda não passa de uma mera negação (“Deus não existe”, afirmativamente). Sendo assim, assumir um posicionamento ateísta remete-nos a um plano muito mais fundamental, muito mais abrangente. Em outras palavras, além de ser independente da moral, o ateísmo a precede em profundidade filosófica; ou seja, na melhor das hipóteses, somente será possível deduzir, individualmente, valores a partir do ateísmo, mas nunca o ateísmo a partir dos valores. Daí a impossibilidade de a bondade, por exemplo, servir de respaldo a ele; e o mesmo vale para objeções ao ateísmo baseadas em delitos cometidos por indivíduos ateus.
Há também uma grande tendência de se querer vincular a responsabilidade das ações à visão de mundo do indivíduo, e tal tendência está ligada à ideia de que esta vem sempre carregada de valores e deveres; nesse caso, também vinculada ao mal-entendido de que o ateísmo é uma crença positiva. Por exemplo, se um cristão faz caridade em nome de Deus e usa a Bíblia para justificar tal feito, então se pode dizer que o cristianismo é, em certo grau, responsável por tal ação. Isso porque toda religião tem seus dogmas, suas verdades, seus princípios superiores, em suma, seu tu deves. Portanto, ela define o que é o bem e o que é o mal, o que é certo e o que é errado, e assim por diante. Diferentemente, o ateísmo encontra-se alheio a todo esse rebuliço de valores que os humanos cultivam. Se um ateu faz algo bom ou mau, isso não se deve ao ateísmo, pois o ateísmo não diz coisa alguma a respeito do que devemos ou não fazer. O ateísmo não diz o que é o bem nem o que é o mal, muito menos o que é certo ou errado. Ele não arrasta consigo nenhuma espécie de valor, e é por isso que não se pode atribuir-lhe qualquer tipo de culpa ou responsabilidade. Tudo recai tão-somente sobre os ombros do arbítrio individual, não sendo possível qualquer espécie de generalização da causa de seu ato que venha a abarcar o ateísmo.
Por isso, todo ateu que defende valores morais específicos — mesmo se forem de benevolência e de caridade — sem deixar claro que isso não tem qualquer relação com sua descrença, estará, sem perceber, prestando um grande desserviço aos ateus. Talvez a intenção seja boa, isto é, pense que com isso está revertendo o estereótipo negativo que tipicamente se tem dos ateus — de que são todos pervertidos, frustrados, imorais, insensíveis, criminosos. O problema, naturalmente, reside no fato de que esse contra-ataque pressupõe a falsa ideia de que o ateísmo deve se defender de acusações morais, e isso só termina por gerar mais confusão ainda. A personalidade dos ateus não tem qualquer relação direta com o ateísmo. Todos esses estereótipos sociais sobre como os ateus são não passam de preconceito, fantasia, pois, como vimos, o ateísmo não é capaz de justificar nada disso.
O fato de algum ateu ser altruísta ou egoísta, bondoso ou maldoso, compassivo ou cruel é apenas reflexo de seu temperamento e dos valores adotados pelo indivíduo em particular. Não delinear essa distinção entre o ateísmo e a moral faz com que as pessoas pouco aprofundadas no assunto se acostumem a encarar os padrões comportamentais dos indivíduos descrentes como uma consequência de seu ateísmo; ou seja, do mesmo modo que os ateus caridosos darão uma boa imagem ao ateísmo, os ateus criminosos irão macular e infamar sua imagem. Além de isso dar luz a diversos e indesejáveis estereótipos, estes ainda ocultam a verdadeira face do ateísmo, a neutralidade.
Portanto, ateus não compartilham necessariamente qualquer similaridade, exceto a descrença, é claro. Ateus podem ser bons ou maus, santos ou pervertidos, altruístas ou egoístas, individualistas ou coletivistas; podem ser democratas, socialistas, anarquistas ou monarquistas; podem ser filósofos, médicos, psicólogos, professores, eletricistas, lixeiros, escritores, comerciantes, alpinistas, atores ou qualquer outra coisa. O ateísmo, em si mesmo, é estritamente neutro, e, portanto, vazio de quaisquer implicações morais ou filosóficas. Ateísmo é apenas o nome que se dá ao estado de ausência de teísmo, ou seja, tão-somente a ausência de crença na existência de quaisquer deuses. Se pode ser dito que os ateus têm algo em comum, esse algo é exatamente o não-ter-nada-em-comum, pelo menos não necessariamente, como uma regra geral.
Todos os animais são ateus, e todas as pessoas, um dia, já foram ateias; sem exceção. Todos os bebês nascem sem discernimento suficiente para compreender a noção de deus. Como vimos acima, esse estado é enquadrado como uma categoria de ateísmo. É claro que não se trata de uma descrença deliberada, mas demonstra quão absurdo é tentar derivar qualquer espécie de consequência do fato de alguém ser ateu. Certamente os religiosos fervorosos objetarão essa ideia, dizendo que é injusto taxar qualquer pessoa incapaz de formar seu juízo a respeito do assunto como uma ateísta. Contudo, vejamos: injusto por quê? Há algo de errado em ser ateu? É sinal de perversão, de insanidade? É claro que não (talvez sim, mas apenas para alguns teístas intolerantes, que só gostam da lógica quando esta está em seu favor). Nesta situação, a palavra está descrevendo perfeitamente a perspectiva do indivíduo em relação à ideia da existência de divindades. Por exemplo, certamente ninguém levantaria objeções à pretensão de classificar um bebê como um indivíduo apolítico por ser incapaz de conceber o que é política e de posicionar-se em relação a ela; tampouco à ideia de que todos eles são analfabetos. Como se pode dizer, afirmou Richard Dawkins, que uma criança de quatro anos seja muçulmana, cristã, hindu ou judia? É possível falar de um economista de quatro anos de idade? O que você diria sobre um neoisolacionista de quatro anos ou um liberal republicano de quatro anos? A questão está na incoerência de imputar posições positivas a quem não pode responder por elas, sequer pode concebê-las. Em nossa sociedade, entretanto, a palavra ateu encontra-se tão carregada de preconceitos, tão estigmatizada, que chamar um indivíduo de ateu, longe de ser uma mera classificação neutra, na verdade aparenta ser uma espécie de insulto.
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