domingo, 26 de junho de 2016


Depois do Brexit, a UE terá de se reconsiderar

O resultado das eleições na Inglaterra, para mim surpreendente atendendo à pressão feita sobre os eleitores, expressa um descontentamento de fundo de que não apenas a extrema direita pode apresentar-se (ou ser apresentada) como beneficiária. A questão não parece ainda estar fechada com a recuperação de iniciativa política por parte dos que perderam o referendo. Mas a decisão dos ingleses deve ser respeitada.
Esse resultado obriga a reflectir, uma vez mais, sobre o modelo de União Europeia que se construiu nestas décadas.
Construído numa lógica capitalista, ela levou ao sempre previsto resultado de os países com menos recursos serem tão só usados como expansões dos mercados dos países mais fortes cujas produções, devidamente amortizadas por esse facto, apresentariam preços de bens e serviços mais competitivos – dimensões da união que basta aos seus promotores – enquanto a liberdade de circulação de pessoas foi permitida q.b. e a elevação dos níveis de vida e de direitos alinhados tendencialmente por cima nunca se verificou.
A moeda única, criando a ilusão de todos os países terem uma moeda forte, agravou a situação, transformando-se em factor de amarração a um centro decisor cada vez mais afastado dos cidadãos, que se apetrechou de tratados, incluindo o Tratado Orçamental,  não votados em cada país, que na prática reduziram a quase nada as soberanias nacionais.
Moeda forte exigiria economia forte e isso foi crescentemente retirado aos mais fracos.
Ela acentuou a redução do crescimento dos países do euro, com os países europeus que estão de fora da Zona Euro a resistirem melhor à crise. Desde 1999 só a Alemanha tem tido um crescimento contínuo do PIB entre todos os países europeus. As quedas foram particularmente graves na Grécia, na Finlândia, Espanha, Portugal e Itália. O euro contribuiu para o empobrecimento de grande parte da Europa e o mesmo efeito destrutivo teve sobre o investimento produtivo. Prosseguindo esta via, a Europa será destruída pelo euro.
Salientando-se neste momento a importância da saída da Grã-Bretanha da UE, e atendendo à necessidade de o governo acautelar os interesses do país e dos seus imigrantes nela, importa não retirar da ordem do dia a questão da reconsideração da posição de Portugal em relação ao euro.
Países como Portugal, viram, na voragem da lógica dos mercados capitalistas, desaparecer as suas pescas, o valor, que poderia ter sido acrescido numa lógica de modernidade, da agricultura em que trabalhou a maioria da população do interior e de boa parte do litoral, a indústria metalúrgica e metalomecânica, a indústria naval (de que os mais ricos obviamente não prescindiram) e indústrias de diversos sectores como as extractivas. Os próprios fundos estruturais não tiveram um efeito significativo no contrariar dessa lógica, tendo mesmo servido, no crescimento da rodovia de longo curso, para descer o valor dos preços dos produtos, face aos praticados pelos nossos produtores, para quem demandava os nossos mercados, que não resistiram à concorrência desleal.
A amarração a um centro cada vez menos democrático fez da UE a NATO económica. Mesmo no sentido militar do termo. A UE foi amarrada pelos EUA a um dos mais loucos projectos da história contemporânea de manter uma situação de guerra permanente do Mar Adriático ao Mar Negro, no Médio Oriente e parte do Próximo Oriente, no Magrebe com as “primaveras árabes”, África Central e Corno de África.
Alternativas de acordos, já em curso ou potenciais, mutuamente vantajosos de países europeus com um tão largo número de países foram destruídas.
Portugal e os restantes países europeus enfrentaram duas grades vagas de imigrantes neste século: económicos dos países do leste europeu depois das privatizações selvagens depois da queda do socialismo, e de refugiados com imigrantes económicos dos países sujeitos a guerras no Médio e Próximo Oriente. Esta UE teve altas responsabilidades nas causas destes acontecimentos. O seu acolhimento em condições adequadas pelo governos da UE impõe-se. Mas a dimensão do fenómeno criou acantonamentos de refugiados, por vezes já existentes dentro de alguns países europeus, não permite ainda avaliar as consequências. A direita tirará proveito deles mas a esquerda irá lutar para que sejam democracias renovadas e não fascismos reciclados a influenciar os processos políticos à escala de cada país e do continente.
Os EUA há muito que discutem com a Europa – uma vez mais no segredo dos deuses –  a criação do TTIP (Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento).
Com o TTIP estaria a porta aberta à liberalização e privatização dos serviços públicos em áreas como a educação, a água, a energia, os resíduos sólidos. A liberalização dos serviços financeiros e da circulação de capitais, provocaria a diminuição de mecanismos de controlo, de supervisão e salvaguarda. E seria remetida para instâncias internacionais o julgamento dos conflitos com as multinacionais que poderiam interpor acções contra os estados. O TTIP prevê ainda recuos nos padrões de exigência e controlo na área da segurança e higiene alimentar, assim como no campo ambiental, abolindo regras em áreas como a obrigatoriedade de avaliações de impacto ambiental ou princípio da precaução. Enfim perderíamos a voz neste lamaçal.
Em contrapartida, mais a oriente a paz consolida-se com a cooperação e o desenvolvimento.
Os dirigentes russos apostam na  cooperação bilateral entre Moscovo e Pequim, que cobre já uma razoável variedade de áreas, incluindo o comércio, energia e infraestruturas.
Embora no passado tenha havido relações menos conseguidas, hoje o campo de cooperação mùtuamente vantajosa e aberto a outros países está firme.
Por isso Putin reconheceu que, por exemplo,  os membros da União Económica da Eurásia (EEU) concordam em reforçar a cooperação com a China dentro do quadro de cooperação “A rota da seda” proposto pelo presidente chinês, Xi Jinping. Para Putin, a Rota da Seda económica é uma iniciativa “muito bem cronometrada e atraente”, que tem “grande potencial”.  Afirmou-o recentemente numa reunião da EEU em Astana, capital do Cazaquistão, com a Arménia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão e Rússia, que manifestou o seu apoio à realização da cooperação com a China no âmbito da Rota da Seda.
Na primeira fase de cooperação, quer a EEU quer a China podem configurar uma zona de comércio livre, sendo que o caminho fundamental do desenvolvimento económico mundial e da cooperação EEU-China é promover a abertura a mais países da região interessados em entrar no projecto. Putin afirmou que desejariam ” tentar evitar o estabelecimento de um bloco económico e comercial fechado”.
Via: antreus http://bit.ly/28YTgkj

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Milhares de universitários californianos passam fome, ou a democracia à americana

Milhares de universitários californianos passam fome


Mais de 50 mil estudantes no Estado da Califórnia não têm domicílio fixo e muitos passam fome, segundo um estudo da rede universitária Cal State, que está a ser objeto de discussão pública esta semana.
Segundo a rede pública de universidades Cal State, a maior do país, o problema é nacional e muito subestimado.
O inquérito apurou que entre 8,7% e 12% dos 460 mil estudantes da rede Cal State, que conta 23 'campus', não têm domicílio fixo e entre 21% e 24% não têm acesso regular a alimentação.
"Quando vemos os números, ficamos estupefactos", admitiu o dirigente da rede universitária Timothy White, durante uma discussão pública, na segunda-feira, em Long Beach, nos arredores de Los Angeles.
Adiantou que o estudo tinha sido encomendado, "depois de comentários isolados aos quais se quis colocar números".
O estudo citou testemunhos de estudantes, como o de Yvette: "Penso que quando tiver o meu diploma, posso avançar. Mas, no fundo de mim, tenho a impressão de me estar a afogar".
Uma outra estudante, Nikki, lembrou que "quis discutir o facto de ser uma sem-abrigo durante as férias", tendo recebido como resposta "se se fizesse isso (dar-lhe abrigo), ter-se-ia de fazer para todos".
Os estudantes que responderam não ter alojamento fixo mudam na maioria de uma habitação para outra, recorrendo a amigos ou família. Mas há outros que dormem em viaturas, tendas, estações ferroviárias ou rodoviárias, parques de estacionamento, motéis, parques de campismo ou refúgios.
O estudo salientou que os estudantes que não têm acesso a alimentação e não têm domicílio fixo são "invisíveis e há muito pouca investigação sobre esta população".
A Cal State, que está a estudar soluções mais globais e de longo prazo, avançou já ter disponibilizado "cupões para compra de alimentação" e ajudas para os estudantes acederem a habitações de preço moderado, entre outras ajudas sociais.
Timothy White manifestou a esperança que o estudo faça falar do problema nos EUA.
A Cal State, que se define como "a mais vasta rede universitária do país, a mais diversa e uma das mais acessíveis", oferece estudos por um pouco mais de cinco mil euros (4,4 mil euros) por ano, menos do que a prestigiada rede de universidades públicas, designada Universidade da Califórnia, que cobra mais de 12 mil dólares anuais, mas bem menos do que exige uma universidade privada.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Os media ou os merdia?

Vitor Dias sempre atento ao embuste dos media, publica no seu blog “o tempo das cerejas” estas fraudes esclarecedoras:

(Na capa de hoje do DN, não houve manifestação)
 (A manif das tias amarelas, que belas...)
 (O Público do Belmiro, hoje)
(Aqui até houve multidão e fotos e muitos amarelos)
São jornais ditos de referência, e são-no de facto, referência do jornalismo venenoso e de classe.
in as palavras são armas.blogspot.com

quinta-feira, 16 de junho de 2016

América, crise do capitalismo, crise do progressismo



16.Jun.16 :: Outros autores
O desassombrado documento que hoje publicamos é um sereno exercício de crítica revolucionária sobre a preocupante situação de regressão existente na América Latina e no Caribe.
Esta análise debruça-se, sem subterfúgios nem subentendidos e com inusual frontalidade, sobre as derrotas que se avizinham para os povos daquela região, e daí se parte para a conclusão que «o PCM deve manter a sua política de contra-ataque, de rutura radical com o capitalismo e a luta pelo poder operário»; e se prevê o advento de uma crise política e ideológica que «pode apresentar semelhanças com a crise política e ideológica dos anos 90 que se seguiu ao triunfo da contrarrevolução na URSS».



As eleições na Venezuela confirmam a previsão do nosso V Congresso, e a encruzilhada não foi apenas uma hipótese, mas é uma dura realidade. Dissemos então que as forças bolivarianas, PSUV, PCV, movimento popular teriam de definir entre radicalizar o processo ou retroceder perante a contrarrevolução. As indefinições permitiram o avanço das forças oligárquicas ao obterem uma esmagadora maioria nas eleições legislativas.
Hoje, a contrarrelógio, Maduro e o PSUV procuram algumas medidas que continuam com as hesitações marcadas pelo mesmo quadro ideológico em que se movimentam. O PCV comporta-se com maturidade e dentro de uma política revolucionária, procurando conquistar uma influência decisiva, que neste momento não tem.
O triunfo de Macri na Argentina e a derrota de Evo Morales apresentam, na generalidade, um quadro de derrota do progressismo e do bolivarianismo, bem como a recuperação de espaço por parte da contrarrevolução.
A isto temos de acrescentar a situação em Cuba e na Colômbia. Por mais retórica a favor do socialismo, o que hoje temos em Cuba é a reinstalação de relações mercantis, por agora de monopólios brasileiros, latino-americanos, russos e chineses, mas prepara-se o terreno para a chegada massiva de monopólios norte-americanos, o que se acelerará após a visita de Obama a Havana no mês de Março onde, entre outros aspetos da agenda, se prevê uma reunião com o setor empresarial. Isto é, já existe uma camada que acumula, que investe, que explora.
No campo ideológico, em Cuba o socialismo é praticamente inexistente, o que se observa nos seus debates, na prioridade das suas publicações, nas suas diretrizes económicas nas suas relações políticas. A nossa Comissão Ideológica deve seguir atentamente o dia-a-dia, mas as perspetivas são negativas.
Nesse mesmo contexto latino-americano e caribenho há a possibilidade de as FARC-EP abandonarem as armas; entrar na vida política é um direito que ninguém pode questionar a uma organização revolucionária que há mais de 50 anos, com heroicidade sem limite, enfrentou todo o peso da oligarquia e do imperialismo. Preocupa-nos, no entanto, que o programa que agora se elabora seja de reformas e já não de rutura e pelo socialismo, um programa «por um Estado social de direito», onde não procuram destruir o exército sanguinário que ao longo de décadas combateram, mas a reconciliação com ele. O Acordo de Paz não é nas melhores condições para o movimento revolucionário colombiano nem internacional.
Em conclusão, temos um panorama onde a crise do progressismo é a favor da reinstalação da contrarrevolução e, além disso, onde o progressismo auxiliado por partidos comunistas de prestígio está a condenar a crítica revolucionária. Mas o tempo trabalha a nosso favor, e foi correto deligarmo-nos do Fórum de S. Paulo, e não colaborarmos em projetos pró-capitalistas como o MERCOSUR, A ALBA OU O CELAC como oposição ao centro imperialista norte-americano.
Nesse cenário é previsível a desmoralização de setores aliados que depositaram as suas esperanças nesses processos e a desmobilização de vários movimentos populares.
É neste contexto que o PCM deve manter a sua política de contra-ataque, de rutura radical com o capitalismo e a luta pelo poder operário, que mesmo na adversidade pode apresentar semelhanças com a crise política e ideológica dos anos 90 que se seguiu ao triunfo da contrarrevolução na URSS.
Nota dos editores:
Este texto é um extrato do Informe ao VII Plenário do Comité Central do Partido Comunista do México, reunido em Fevereiro de 2016 na Cidade do México.
Tradução de José Paulo Gascão

quarta-feira, 15 de junho de 2016


Baixa dos preços do petróleo muda o xadrez geo-político

A baixa dos preços do petróleo desmentiu a teoria do «Pico de Hubbert». Não deverá haver penúria energética no século vindouro. Provavelmente, a baixa dos preços do petróleo também iniciou o desmantelamento da teoria da «origem humana do aquecimento climático». Ela privou de qualquer rentabilidade as fontes de energia alternativas, os investimentos nos hidrocarbonetos de xisto e as perfurações em águas profundas. Mudando o xadrez geo-político, ela é susceptível de fazer regressar os militares U.S. ao Próximo-Oriente e forçar o Pentágono a abandonar, definitivamente, a teoria do «caos construtivo».

| Damasco (Síria)
+
JPEG - 45 kb
No último ano, os patrões das maiores companhias petrolíferas do mundo ocidental advogavam por uma redução de emissões de CO2. Pensavam ainda obter fundos públicos para desenvolver fontes de energia alternativas ao petróleo. Mas, actualmente o preço do petróleo priva esses investimentos de rentabilidade.
Em dois anos, o mercado mundial das fontes de energia foi revolucionado. Primeiro, a oferta e a procura mudaram consideravelmente, depois os fluxos comerciais, finalmente os preços afundaram. Estas mudanças radicais colocam em causa todos os princípios da geo-política do petróleo.

O mito da penúria

O abrandamento da economia dos países ocidentais, e a de alguns países emergentes, traduziu-se por uma baixa na procura, enquanto o crescimento contínuo na Ásia tem pelo contrário aumentado. Em última análise, a procura global prossegue a sua lenta subida. Do lado da oferta, não só nenhum Estado produtor viu as suas capacidades afundarem, mas, alguns até a puderam aumentar como a China, que acumula agora importantes reservas estratégicas. De tal modo que, em geral, o mercado é muito excedentário.
Esta primeira constatação contradiz o que era a ortodoxia dos meios científicos, e profissionais, durante os anos 2000: a produção mundial aproximava-se do seu pico, o mundo ia conhecer um período de penúria, no decurso do qual alguns Estados se iam afundar e guerras por recursos naturais iam estourar. Desde o seu regresso à Casa Branca, em janeiro de 2001, o Vice-presidente Dick Cheney havia formado um grupo de trabalho sobre o desenvolvimento da política nacional de Energia (National Energy Policy Development — NEPD), qualificado de «sociedade secreta» pelo Washington Post [1]. Num ambiente de alta-segurança, os conselheiros da Presidência auscultaram os patrões das grandes empresas do sector, os cientistas mais reconhecidos, e os chefes dos serviços Secretos. Chegaram à conclusão que o tempo urgia e que o Pentágono devia garantir a sobrevivência da economia norte-americana apoderando-se para tal, sem esperar, dos recursos do «Médio-Oriente Alargado». Ignora-se exactamente quem participou neste grupo de trabalho, sobre que dados trabalhou, e quais as etapas da sua reflexão. Todos os documentos internos foram destruídos, para que ninguém conhecesse as estatísticas às quais ele teve acesso.
Foi este grupo que aconselhou lançar as guerras contra o Afeganistão, o Irão, o Iraque, a Síria, o Líbano, a Líbia, a Somália e o Sudão; um programa que foi, oficialmente, adoptado pelo Presidente George W. Bush aquando de uma reunião, a 15 de Setembro de 2001, em Camp David.
Eu lembro-me de ter encontrado em Lisboa, aquando de um congresso da APFOA (associação entretanto extinta- ndA), o secretário-geral do grupo de trabalho da Casa Branca. Ele tinha uma apresentado uma exposição sobre o estudo de reservas anunciadas, a iminência do «Pico de Hubbert» e as medidas a tomar para limitar o consumo de energia nos EUA. Eu tinha, então, ficado convencido —erradamente— pela sua lógica e pelas suas certezas.
Constatamos com o tempo que esta análise é completamente falsa, e que as cinco primeiras guerras (contra o Afeganistão, o Iraque, o Líbano, a Líbia e a Síria) foram, deste ponto de vista, inúteis, mesmo se este programa prossegue até hoje. Este enorme erro de prospectivação não deve surpreender-nos. É a consequência do «pensamento de grupo». Progressivamente uma ideia impõe-se no seio de um grupo, a qual ninguém ousa colocar em questão pelo risco de se ver excluído do «círculo da verdade». É o «pensamento único». Neste caso, os conselheiros da Casa Branca começaram e desembocaram na teoria malthusiana, a qual dominou a cultura anglicana do século XIX. Segundo ela, a população aumenta a um ritmo exponencial enquanto os recursos apenas a um ritmo aritmético. A prazo, não haverá recursos disponíveis para toda a gente.
Thomas Malthus entendia opôr-se à teoria de Adam Smith, segundo a qual, quando livre de qualquer regulamentação, o mercado se regula a si mesmo. Na realidade, o pastor Malthus encontrava na sua teoria —não demonstrada— a justificação para a sua recusa em atender às necessidades de inumeráveis pobres da sua paróquia. De que serviria alimentar esta gente se, no futuro, os seus muitos filhos morreriam de fome? O governo de George W. Bush era, então, amplamente formado por WASP.s e incluía muitas gente oriunda da indústria petrolífera, a começar pelo Vice-presidente Cheney, antigo patrão da empresa fornecedora Halliburton.
Se o petróleo é um recurso não renovável e que terá, portanto, um fim, nada permite pensar que este está próximo. Em 2001, raciocinava-se em função do petróleo de tipo Saudita, que se sabia refinar. Não se considerava exploráveis as reservas da Venezuela, por exemplo, sobre as quais se admite, hoje em dia, que são suficientes para prover o conjunto das necessidades mundiais, pelo menos por um século.
Tomemos em atenção que a teoria do «aquecimento global provocado pelo homem» não é, provavelmente, mais séria que a do pico petrolífero. Ela procede da mesma origem malthusiana, e tem, por outro lado, a vantagem de enriquecer os seus promotores através da Bolsa dos direitos de emissão de Chicago [2]. Ela foi popularizada com o objectivo de ensinar os Ocidentais a diminuir o seu consumo de energia de origem fóssil, portanto, para se preparem para um mundo onde o petróleo se teria tornado escasso e caro.

O fim dos preços artificiais

A subida do preços do barril a 110 dólares pareceu reforçar a teoria da equipe de Dick Cheney, mas a sua queda brutal a 35 dólares mostra que não se tratava de nada disso. Tal como em 2008, esta queda começou com as sanções Europeias contra a Rússia, que desorganizaram as trocas mundiais, deslocaram os capitais e, finalmente, rebentaram a bolha especulativa do petróleo. Desta vez, os preços baixos foram incentivados pelos Estados Unidos, que viram nisso um meio suplementar de afundar a economia russa.
A queda agravou-se quando a Arábia Saudita viu nela a sua oportunidade. Ao inundar o mercado com a sua produção, Riade manteve o preço do barril Arabian Light entre 20 e 30 dólares. Desta forma, destruía a rentabilidade dos investimentos em fontes alternativas de energia, e, garantia o seu poder e as suas receitas a longo prazo. Ela conseguiu convencer os seus parceiros da OPEP a apoiar esta política. Os membros do cartel tomaram a decisão de salvar o seu poder, a longo prazo, mesmo às custas de de ganhar muito menos dinheiro durante alguns anos.
Por conseguinte, a baixa dos preços incentivada por Washington contra Moscovo, acabou por atingi-la também. Se mais de 250. 000 postos de trabalho foram destruídos nas indústrias de energia, em dois anos, no mundo inteiro, cerca de metade foram-no nos Estados Unidos. Foram fechadas 78% das plataformas de petróleo dos EUA. Mesmo que o recuo da produção não seja tão espectacular, não é de somenos que os Estados Unidos não sejam mais, provavelmente, energeticamente independentes ou, então, não irão tardar a ser, em breve, novamente dependentes.
E, não são apenas os Estados Unidos : todo o sistema capitalista ocidental foi atingido. Em 2015, a Total perdeu 2,3 mil milhões (bilhões-br) de dólares, a ConocoPhillips 4,4 mil milhões, a BP 5,2 mil milhões, a Shell 13 mil milhões, a Exxon 16,2 mil milhões, a Chevron perto de 23 mil milhões.
Esta situação leva-nos de volta à «Doutrina Carter», de 1980. À época, Washington tinha-se atribuído o direito de intervir militarmente no Próximo-Oriente para garantir o seu acesso ao petróleo. Em seguida, o Presidente Reagan tinha criado o CentCom para aplicar esta doutrina. Hoje em dia, extrai-se petróleo um pouco por todo o lado, no mundo, e sob formas assaz diferentes. O fantasma do «Pico de Hubbert» dissipou-se. De tal modo que o Presidente Obama pôde ordenar a deslocação das tropas do CentCom para o PaCom (teoria de «bascular para a Ásia»). Pode observar-se que este plano foi modificado com a acumulação de forças na Europa do Leste (EuCom), no entanto, ele poderá ser ainda retomado se os preços estagnarem entre 20 e 30 dólares por barril. Neste caso, deixará de se explorar certos tipos de petróleo e irá regressar-se ao Arabian Light. A questão do reposicionamento de forças no Próximo-Oriente coloca-se, portanto, desde já.
Se Washington se empenha nesta via, deverá provavelmente, também, modificar os métodos do Pentágono. Se a teoria Straussiana do «caos construtivo» permite governar territórios imensos, com muito poucos homens no terreno, exige muito tempo para permitir a exploração de vastos recursos, como se vê no Afeganistão, no Iraque e na Líbia. Talvez seja preciso regressar a uma política mais sábia, parar de organizar o terrorismo, admitir a paz para poder comerciar com os Estados ou com o que deles resta.
Tradução
Alva


[1] “Energy Task Force Works in Secret” («Força Tarefa da Energia Trabalha em Segredo»- ndT), Dana Milbank & Eric Pianin, Washington Post, April 16th, 2001.
[2] « 1997-2010 : L’écologie financière » («1997-2010 : A ecologia financeira»- ndT), par Thierry Meyssan, Оdnako (Russie) , Réseau Voltaire, 26 avril 2010.

terça-feira, 14 de junho de 2016

ntrevista com Ahmed Bensaada

Não houve primaveras nem foram árabes



11.Jun.16 :: Outros autores
Esta importante entrevista com Ahmed Bensaada, académico argelino radicado no Canadá, conhecedor profundo da realidade, desmascara o caráter democrático das chamadas «Primaveras Árabes», a sua origem e verdadeiros objetivos. E pergunta: por que razão as chamadas Primaveras árabes deixaram intocadas as antidemocráticas monarquias árabes?
Autor de dois livros sobre este tema, «Arabesco americano», em 2011, e Arabesco$, em 2015, Ahmed Bensaada defende e prova que as chamadas «Primaveras árabes», nada tiveram de primaveril e muito menos de árabe…



Ahmed Bensaada**, universitário argelino vivendo no Canadá há vários anos, segue atentamente as mudanças e perturbações no Magrebe e no Médio Oriente, às quais consagrou vários artigos, colóquios e conferências. Sobre as “primaveras” árabes assumiu desde o início um olhar muito crítico, tendo mesmo escrito um livro, Arabesco americano, a que se seguiu há pouco Arabesco$, uma nova edição, corrigida e enriquecida, de uma actualidade gritante. Cinco anos depois das “primaveras árabes!
– Cinco anos são passados desde as chamadas “primaveras árabes”. O balanço é não muito satisfatório, em muitos dos países envolvidos é mesmo catastrófico. Porquê, em sua opinião?
– “Não muito satisfatório”, diz? Estas perturbações maiores que o pensamento ocidental precipitada e falaciosamente baptizou como “primaveras” não geraram senão o caos, a morte, a raiva, o exílio e a desolação em vários países árabes. Seria necessário talvez perguntar aos cidadãos dos países árabes “primaverados” se a situação desastrosa em que eles hoje vivem pode ser qualificada de primaveril.
Os dados são eloquentes. Um estudo recente mostrou que esta funesta estação causou, em cinco anos, mais de 1 milhão e 400 mil vítimas (mortos e feridos), às quais é preciso ajuntar mais de 14 milhões de refugiados. Esta “primavera” custou aos países árabes mais de 833 mil milhões de dólares, dos quais 461 mil milhões em infra-estruturas destruídas e em locais históricos devastados. Por outro lado, a região MENA (Middle East and North Africa) perdeu mais de 103 milhões de turistas, uma verdadeira calamidade para a sua economia.
Na primeira versão do meu livro, “Arabesco americano” (Abril de 2011), pus em evidência a ingerência estrangeira nestas revoltas que tocaram a rua árabe, assim como a falta de espontaneidade desses movimentos. Antes destes acontecimentos os países árabes estavam num estado efectiva de decrepitude: ausência de alternativa política, desemprego elevado, democracia embrionária, uma vida má, direitos fundamentais não respeitados, falta de liberdade de expressão, corrupção a todos os níveis, nepotismo, fuga de cérebros, etc.. Tudo “terreno fértil” para a desestabilização. Mas embora as reivindicações da rua árabe sejam reais, as pesquisas realizadas mostraram que os jovens manifestantes e ciberactivistas árabes eram formados e financiados por organismos americanos especializados na “exportação” da democracia, tais como a USAID, a NED, a Freedom House ou a Open Society do multimilionário George Soros. E tudo isso antes da imolação pelo fogo de Mohamed Bouazizi.
Esses manifestantes, que paralisaram as cidades árabes e que expulsaram os velhos autocratas árabes instalados no poder há decénios, representavam uma juventude cheia de arrebatamento e de promessas.
Uma juventude instruída, manejando com brio as técnicas da resistência não-violenta e com slogans incisivos. Essas mesmas técnicas que foram teorizadas pelo filósofo americano Gene Sharp e postas em prática pelos activistas sérvios do Otpor nas revoluções coloridas do Leste da Europa. Técnicas ensinadas aos jovens manifestantes árabes pelos fundadores do Otpor, no seu centro CANVAS (Center for Applied Non Violent Action and Strategies), especialmente concebido para formação de dissidentes.
Uma juventude viciada em novas tecnologias, cujos líderes foram seleccionados, formados, organizados em rede, e apoiados pelos gigantes americanos da Net por intermédio de organismos americanos como a AYM (Alliance of Youth Movements).
Mas, tal como os activistas das “revoluções coloridas” [1], os ciberdissidentes árabes foram treinados apenas para decapitar os regimes. Eles são “comandados” – provavelmente sem o saberem – para levar a cabo a queda do topo da pirâmide do poder. Mas não têm nenhuma interferência na marcha dos acontecimentos que se seguem depois de os autocratas serem expulsos e provocarem o vazio no poder. Não têm nenhuma aptidão política para concretizar a transição democrática que deveria seguir-se a essa mudança maior.
Num artigo sobre as “revoluções coloridas”, escrito em 2007 pelo jornalista Hernando Calvo Ospina nas colunas do Le Monde Diplomatique, pode ler-se: “A distância entre governantes e governados facilita a tarefa da NED [2] e da sua rede de organizações, que fabricam milhares de ‘dissidentes’ graças aos dólares e à propaganda. Uma vez alcançada a mudança, a maior parte desses ‘dissidentes’ e das suas organizações de todo o género, desaparecem da circulação, sem honra nem glória”.
Assim, quando o papel atribuído aos ciberactivistas termina, são as forças políticas locais, contrárias a qualquer mudança profunda, que ocupam o vazio criado pelo desaparecimento do antigo poder. No caso da Tunísia e do Egipto, foram os movimentos islamistas que, num primeiro momento, aproveitaram a situação, evidentemente ajudados pelos seus aliados, como os Estados Unidos, certos países ocidentais e árabes e a Turquia, que devia servir de modelo.
É claro que esta “primavera” não tem nada a ver com os slogans corajosamente entoados pelos jovens ciberactivistas nas ruas árabes e o abuso da palavra democracia não passa de uma armadilha. De facto, como não colocar sérias interrogações sobre esta “primavera” quando se sabe que os únicos países que sofreram esta estação foram repúblicas? Será por mero acaso que nenhuma monarquia árabe tenha sido atingida por este tsunami “primaveril”, como se esses países fossem santuários da democracia, da liberdade e dos direitos humanos?
A única tentativa de sublevação anti-monárquica, a do Bahrein, foi violentamente sufocada pela colaboração militar do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), o silêncio cúmplice dos media dominantes e a conivência de certos políticos, sempre tão loquazes quando acontecimentos análogos tocaram certas repúblicas árabes.
Estas “primaveras” visam desestabilizar países árabes bem identificados num quadro geopolítico muito mais vasto, certamente o “Grande Médio Oriente”. Esta doutrina preconiza a reformulação das fronteiras de uma região geográfica reagrupando os países árabes e certos países da vizinhança, pondo assim fim às fronteiras herdadas dos acordos Sykes-Picot. Embora lançado sob a liderança do presidente G. W. Bush e dos seus falcões neoconservadores, este projecto inspira-se numa ideia teorizada em 1982 por Oded Yinon, um alto funcionário do ministério dos Negócios Estrangeiros israelita. O “Plano Yinon”, como é originalmente chamado, tinha o objectivo de “desfazer todos os estados árabes existentes e reorganizar o conjunto da região em pequenas entidades frágeis, maleáveis e incapazes de enfrentar os israelitas”.
E essa divisão está infelizmente em curso…
– Neste quadro, ainda assim a Tunísia é uma excepção. Como explica isso?
– Comparativamente com a Líbia, a Síria ou o Iémen, a situação na Tunísia pode parecer interessante. Mas de facto a Tunísia não representa um modelo conseguido como nos querem fazer crer os media dominantes. E não é o Prémio Nobel da Paz recentemente outorgado à Tunísia que muda o que quer que seja. Quando se vê a quem foi atribuído nestes últimos anos, pergunta-se para que serve este prémio. E os tunisinos, que vivem há cinco anos a “primaverização” do seu país, conhecem bem este assunto. Comentando este quinto aniversário, alguns bloggers não estiveram com meias medidas. “Único país democrático do Magrebe+Prémio Nobel, tudo o resto é pior do que o período ZABA (Zine el-Abidine Ben Ali)”. Ou então, com uma ponta de humor: “Injustiça social, tortura, impunidade, estamos nas tintas, temos o Prémio Nobel”.
Numa recente entrevista ao Figaro, um meu amigo tunisino, o filósofo Mezri Haddad, declarou: “Em toda a parte – incluindo na Tunísia, que se apresenta como o paradigma revolucionário bom, e o país a que se atribuiu o Prémio Nobel da Paz em vez de perdoar a dívida externa que se tornou vertiginosa em menos de cinco anos e apoiar a sua economia hoje agonizante – a ‘Primavera árabe’ destruiu mais do que construiu”. Antes de acrescentar: “Depois de 2011, a Tunísia tornou-se o primeiro país exportador de mão-de-obra islâmica-terrorista tanto para a Líbia como para a Síria. Os relatórios das Nações Unidas são esmagadores para o tunisino que sou. O autor do último atentado suicida em Zliten, na Líbia, é um tunisino, como o que atacou a mesquita de Valência ou o que acaba de ser abatido diante do comissariado de polícia do 18.º distrito de Paris”.
Com efeito, a Tunísia ainda é, de longe, o maior fornecedor de jihadistas do Estado Islâmico na Síria. Triste recorde para um país que quer passar pela excepção que justifica a terminologia primaveril. E tudo isso sem contar os assassínios políticos, os atentados terroristas cegos que enlutaram o país e as sórdidas histórias de “jihad al-nikah”, popularizada pelos jovens tunisinos radicalizados.
E também não será a mudança da família do Goncourt para o Museu do Bardo, ainda marcado pelos estigmas do atentado de 18 de Março de 2015, que dará à Tunísia o rótulo de um país que conseguiu a sua transição democrática. Este “empurrão” francês não apagará de maneira nenhuma o lapso da ministra francesa Michèle Alliot-Marie que ofereceu o saber-fazer francês à polícia de Ben Ali para “resolver situações securitárias” e pôr fim à impertinência dos manifestantes que tinham invadido a Avenida Bourguiba.
Estes manifestantes que arvoravam a sua juventude como bandeira de um futuro radioso, o que pensam da idade dos “dinossauros políticos” actuais depois de terem afastado o presidente Ben Ali? Vejam só: Moncef Marzouki (71 anos), Rached Ghannouchi (75 anos) e, sobretudo, o presidente actual, Béji Caid Essebsi (90 anos).
Podem aqueles manifestantes acreditar realmente que uma revolta fundamentalmente jovem, qualificada de “facebookiana”, possa ser representada por gerontocratas, velhos caciques de regimes odiados, islamistas belicosos ou pelos que confundem o interesse do país com o interesse supranacional, da sua confraria?
Pensavam eles que um dia uma lei eleitoral seria aprovada para reabilitar os antigos apoiantes de Ben Ali, contra quem combateram com determinação?
Teriam eles imaginado que, cinco anos depois da partida de Ben Ali, um jovem diplomado tunisino, Ridha Yahyaoui, se mataria em Kasserine para protestar contra o favoritismo na admissão para um emprego, flagelo que eles tinham denunciado e contra o qual se tinham batido? E que os distúrbios que se seguiram a este drama seriam tão duramente reprimidos?
O que houve de tão positivo nesta “Primavera” tunisina se, cinco anos passados, Yahyaoui pelas mesmas razões imita Bouazizi?
– Na sua opinião que diferenças há nas realidades actuais de países como a Síria ou a Líbia, se tivermos em conta que este último país tanto diz à Tunísia, dada a sua proximidade?
– A guerra civil que devasta actualmente a Síria tem curiosas similitudes com a que prevaleceu na Líbia: a) o epicentro inicial da revolta síria não se encontrava na capital mas numa região fronteiriça (contrariamente ao que aconteceu na Tunísia e no Egipto); b) uma “nova antiga” bandeira apareceu com estandarte dos insurrectos; c) a fase não-violenta da revolta foi muito curta; d) a implicação militar estrangeira (directa ou indirecta) rapidamente transformou os tumultos não-violentos numa sangrenta guerra civil. Com efeito, quando a teoria de Gene Sharp [3] não funciona e os ensinamentos da CANVAS não dão frutos, como nos casos da Líbia e da Síria, as manifestações transformam-se muito rapidamente numa guerra civil. Esta metamorfose ocorre graças a uma ostensiva ingerência estrangeira dos países antes referidos, através da NATO no caso da Líbia, ou de coligações heteróclitas como sucedeu na Síria).
Assim, ajudados pelos seus aliados árabes e regionais, os países ocidentais podem passar, sem quaisquer problemas de consciência, duma abordagem não-violenta à Gene Sharp a uma guerra mortífera e sangrenta onde correm rios de sangue árabe.
A efémera fase sharpiana de manifestações populares foi mesmo utilizada para justificar a intervenção militar da NATO na Líbia ou da coligação anti-Bachar na Síria. A resolução 1973 da ONU que permitiu a destruição da Líbia foi justificada pela falsa acusação que as forças leais a Kadhafi tinham feito entre a população civil, pelo menos 6.000 mortos. Na verdade, numerosos países entenderam que os Estados Unidos, a França, a Grã-Bretanha e seus aliados deturparam e abusaram desta resolução permitindo à NATO violar o mandato do Conselho de Segurança. Tendo em conta «a lição da Resolução 1973» países como a Rússia e a China opõem-se hoje a uma resolução das Nações Unidas de condenação da Síria ou do seu presidente, Bachar al-Assad. Se não fosse isso, os media de dominantes de todo o mundo ter-nos-iam mostrado imagens do presidente Bachar com o coração ou a cabeça arrancados pelos especialistas jihadistas no assunto que pululam na Síria graças à activa colaboração dos ocidentais e dos seus aliados.
Acrescente-se que o estudo dos e-mails da senhora Hillary Clinton mostrou que as motivações para eliminar Kadhafi nada tinham a ver com qualquer democratização da Líbia, mas sim com interesses estratégicos, económicos, políticos, e do ouro de um tesouro famoso. O mesmo se pode dizer em relação ao presidente sírio.
É também interessante notar que investigações muito sérias realizadas por especialistas americanos mostraram que a guerra na Líbia não era necessária, que ela podia ter sido evitada se essa fosse a vontade dos Estados Unidos. Mostraram também que a administração americana possibilitou o fornecimento de armas e apoio militar a grupos ligados à Al-Qaida.
Por outro lado, o contra-almirante americano Charles R. Kubic, na reforma, revelou que Kadhafi estava disposto a abandonar a Líbia e permitir o estabelecimento de um governo de transição, sob duas condições: assegurar que após a sua saída permanecesse uma força militar para expulsar a Al-Qaida; e a concessão de um livre-trânsito e o levantamento das sanções contra ele, a sua família e os seus colaboradores mais próximos.
Por seu turno, o antigo presidente da Finlândia (1994-2000) e Prémio Nobel da Paz (2008), Martti Ahtisaari, disse ter sido mandatado pela administração russa, no começo do ano de 2012, para encontrar uma solução pacífica para o conflito sírio.
O plano da resolução do conflito sírio proposto aos representantes dos cinco países membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas compreendia três pontos:
1) não armar a oposição;
2) organizar o diálogo entre a oposição e Bachar al-Assad;
3) permitir uma retirada digna de Bachar al-Assad.
Segundo Marti Ahtisaari, nada foi feito após a apresentação desta proposta aos representantes americano, britânico e francês.
Parece claro que o objectivo desta “Primavera” não tem nada a ver com a democracia e os direitos humanos na Líbia e na Síria ou Médio Oriente e Norte de África, mas sim com a eliminação física dos presidentes Kadhafi e Bachar al-Assad, que permite destruir estes dois países, liquidar milhares de árabes, e financiar jihadistas comedores de corações e degoladores.
Nos casos líbio e sírio, o que chamam “primaveras” são exemplos pedagógicos de guerras civis fomentadas a partir do estrangeiro sob a capa de direitos humanos e humanismo.
Actualmente, estes dois países são terras de instabilidade geopolítica, covis de jihadistas daechianos abertamente financiados por países ocidentais, países árabes e potências regionais [3].
No quadro desta forte turbulência política e de agressiva ingerência estrangeira, a Argélia foi e continua a ser um dos principais alvos. Lembremos que jovens argelinos também participaram em formações de sérvios da CANVAS e que numerosos países apostaram na “primaverização” (violenta ou não) da Argélia. As más recordações do decénio negro e a efemeridade da CNCD (Coordenação Nacional para a Mudança e a Democracia) forçaram uma decisão diferente.
Hoje, a situação líbia é evidentemente muito preocupante para a segurança e estabilidade da Argélia. Alguns observadores calculam que haja 300 grupos de milícias armadas na Líbia e notam que elas estão fortemente ligadas às suas congéneres tunisinas. De facto, segundo um relatório da Comissão de Negócios Estrangeiros da Assembleia Nacional Francesa, datado de Novembro de 2015, “o conjunto de atentados recentes na Tunísia foram organizados e planificados a partir da Líbia”.
Contrariamente às declarações belicosas e mal-intencionadas de Nicolas Sarkozy – um dos maiores responsáveis pela destruição da Líbia –, deveria ser a Argélia a lamentar-se da sua localização geográfica fronteiriça com a Tunísia e a Líbia. Isso é tanto mais verdade quanto é certo que a colaboração entre o Daech na Líbia e os movimentos terroristas do Sahel é cada vez mais evidente, o que dá ainda mais razões à Argélia para tornar seguro o sul do país.
Vê-se bemque mesmo que a Argélia não tenha sido tocada directamente por esta lúgubre estação, a “primaverização” a que foram sujeitos os seus vizinhos coloca-lhe enormes desafios.
– No seu livro Arabesque$, de que acaba de aparecer uma nova edição revista e enriquecida, a tese que defende é a de uma grande implicação e de uma grande responsabilidade dos Estados Unidos nas “primaveras árabes”, um envolvimento norte-americano que classifica, nada mais, nada menos, como operações de desestabilização de Estados e de regimes instalados no mundo árabe. Até que ponto continua a defender esta análise?
– Quando a primeira versão do meu livro intitulado Arabesco americano, foi publicada, em Abril de 2011, ela foi acolhida com muito cepticismo porque a tese que ali era desenvolvida opunha-se à euforia “primaveril” dominante e introduzia uma nota discordante no unanimismo inebriante. Esta benevolência face a uma “revolução” árabe imaculada, orquestrada por uma bela juventude instruída e impetuosa, não devia em nenhuma circunstância ser manchada por acusações que, de toda a maneira, não podiam ser senão caluniosas. Este discurso foi repetido pelos media dominantes e por numerosos especialistas “catódicos”, dos quais subsistem ainda alguns espécimes recalcitrantes.
É preciso reconhecer que opor-se ao romantismo revolucionário no seu auge, algumas semanas apenas depois da queda de Ben Ali e de Moubarak, relevava certamente de uma inconsciência temerária.
Contudo, a tese apresentada neste livro – que inclui mais de 260 referências facilmente comprováveis – foi meticulosamente elaborada graças à análise de numerosos livros, documentos oficiais, relatórios de actividades, telegramas Wikileaks, etc..
É claro que não foram os Estados Unidos que provocaram a “Primavera” árabe. Como foi explicado antes, a situação política e sócio-económica dos países árabes é um terreno fértil para a dissidência e a revolta. Contudo, a implicação americana no processo não é inócua, longe disso. Confirmam-no o papel primordial dos organismos especializados na “exportação” da democracia e maioritariamente subvencionados pelo governo americano, as formações teóricas e práticas sobre a resistência não-violenta dadas pela CANVAS, a constituição de uma “liga árabe da Net” dominando as novas tecnologias, a elaboração de ferramentas de navegação anónima distribuídas gratuitamente aos ciberactivistas, a estreita colaboração entre os ciberdissidentes e as embaixadas norte-americanas nos países árabes, as enormes somas investidas, o envolvimento militar e as manobras diplomáticas a alto nível. E como a política externa dos Estados Unidos nunca foi um modelo de filantropia, é preciso reconhecer a evidência de que os americanos influenciaram fortemente o curso dos acontecimentos. Não se pode esquecer que todas estas acções foram empreendidas durante anos, antes do começo da “Primavera” árabe.
À medida que o tempo avançava, a natureza pérfida destas “revoluções” foi revelada, as línguas soltaram-se e novos documentos apareceram. Nada do a partir de então apareceu desmente a minha tese, pelo contrário ela foi amplamente confirmada. Foi isso que justificou a redacção de uma nova versão do livro, intitulada Arabesco$ – Inquérito sobre o papel dos Estados Unidos nas revoltas árabes, editada em Setembro de 2015. Em comparação com a obra anterior, o novo livro inclui mais de 600 documentos e o número de páginas quase triplicou. Entre outros documentos explícitos, citemos, por exemplo, o estudo realizado em 2008 pela corporação RAND (gabinete de estudos do Exército dos Estados Unidos), que serviu de fundamento à política americana de “exportação” da democracia para os países árabes, baseada na formação, apoio e organização em rede de activistas provenientes desses países.
Um outro documento merece também ser mencionado. Trata-se de um relatório saído do Departamento de Estado americano, redigido em 2010 e obtido em 2014 graças à lei para a liberdade de informação.
Esse relatório explica claramente “a estrutura elaborada de programas do Departamento de Estado visando criar organizações da ‘sociedade civil’, em particular as organizações não-governamentais (ONG), para modificar a política interna dos países seleccionados a favor da política estrangeira dos Estados Unidos e dos seus objectivos de segurança nacional”. Utilizando uma linguagem diplomática, o documento precisa que o objectivo é “a promoção e a monitorização de mudanças políticas nos países alvos”.
A implicação dos Estados Unidos na “Primavera” árabe não é uma especulação intelectual. A sua existência é abertamente reconhecida pela própria administração americana. É o que explico pormenorizadamente no livro Arabesco$.

– Partilha a ideia de que as “primaveras árabes” acabaram? Que cenários possíveis prevê, sobretudo para a Líbia, país em que os actores não conseguem entender-se sobre uma solução política promovida por uma já prevista intervenção militar europeia?

– Que se diga: a “Primavera” árabe nunca foi uma Primavera, se tivermos em conta as consequências desastrosas para as populações, nem intrinsecamente árabe, porque os movimentos de contestação foram infiltrados decisivamente por organismos estrangeiros, nomeadamente estadounidenses.
O processo de “primaverização” do mundo árabe chega ao fim? Certamente.
Os povos árabes não são cegos. Os exemplos da selvagem destruição da Líbia, da Síria e do Iémen são suficientes para convencer mesmo os mais renitentes.
O mundo árabe tem imperativamente necessidade de fazer enormes transformações em diferentes domínios da sociedade; político, sócio-económico, cultural, de liberdade de expressão, dos direitos humanos, etc.. Mas para realizar estas mudanças é preciso destrui os países e fomentar o ressurgimento de práticas medievais, de semear a morte, o ódio e a desolação? É evidente que não.
Por outro lado, estas mudanças de forma alguma devem obedecer ou beneficiar agendas estrangeiras; os países árabes não devem agir de modo que as suas terras se tornem o campo de jogo das potências, no qual se travem guerras “low cost”, onde só sangue é derramado.
É o caso da Síria, na medida em que este país é actualmente o cenário de confrontos (directos e indirectos) de numerosos beligerantes, cada um tendo as suas próprias agendas e ambições, distantes das dos sírios.
No que diz respeito à Líbia, qualquer nova intervenção militar ocidental neste país corre o risco de provocar consequências indesejáveis no território argelino. É por esta razão que a Argélia se opõe firmemente a tal eventualidade e não exclui nenhum esforço para encontrar uma solução política para o conflito e fazer sentar-se à volta da mesma mesa as diferentes facções.
Apenas permitindo aos cidadãos de um país discutir em conjunto, de boa-fé, tendo em conta os seus interesses nacionais e não os de outros países, o mundo árabe conseguirá sair da situação de decadência para onde foi empurrado.
Notas do tradutor:
[1] Movimentos ocorridos a partir de 2000 em alguns países saídos do desmembramento da União Soviética e que em geral substituíram os regimes pró-russos por governos pró-ocidentais. Como por exemplo a “Revolução Rosa”, na Geórgia (2003), a “Revolução Laranja”, na Ucrânia (2004) ou a “Revolução das Tulipas”, no Quirguistão (2005). Esses e outros golpes de estado, mais contra-revoluções do que revoluções, quer tenham tido êxito ou não, foram apoiados pelos Estados Unidos e seus aliados locais.
[2] NED – National Endowment for Democracy, organização privada norte-americana, criada em 1983 (entre outros, pelo presidente Ronald Reagan), com o apoio financeiro do Congresso dos EUA e de agências governamentais como a USAID, com o objectivo de “fortalecer as instituições democráticas em todo o mundo”. A NED é suspeita de ser um instrumento da CIA, não de promoção mas de subversão da democracia, e para tal financia organizações não-governamentais (ONG) e grupos “pró-democracia” em mais de 90 países.
[3] Sharp, importa recordar, é um académico norte-americano, acusado de estar ligado à CIA, autor de um muito difundido livro (Da ditadura à democracia) sobre as técnicas e os meios “pacíficos” de se chegar à “democracia”, um autêntico manual de golpes de estado suaves, cujas recomendações foram seguidas, com êxito, em várias “revoluções coloridas”, e com menos sucesso noutros casos, como, recentemente, em Hong Kong ou em Angola…
[4] Quando insiste nas “potências regionais”, o autor refere-se provavelmente a Israel, que ocupa território sírio desde 1967 e é o grande aliado dos Estados Unidos no Médio Oriente, e ao Irão, país que, não sendo árabe, é de maioria muçulmana xiita e que apoia política e militarmente o regime sírio.

* Nordine Azzouz é director do diário argelino Reporters
** odiario.info publicou já um texto de Ahmed Bensaada em:
http://www.odiario.info/index.php?autman=Ahmed+Bensaada
Este texto foi publicado em:
http://www.afrique-asie.fr/component/content/article/75-a-la-une/9837-ahmed-bensaada-les-printemps-n-ont-genere-que-le-chaos-la-mort-la-haine-l-exil-et-la-desolation-dans-plusieurs-pays-arabes

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

CLAUSTROFOBIA