Desconstruindo a russofobia
“A
Russofobia é composta de ignorância, falha de cepticismo e raciocínio,
orgulho, hipocrisia, condescendência e grosseria, tudo colocado ao
serviço do complexo militar-industruial e da NATO: apoia uma Guerra Fria
de um só lado, contra um país que só agora começa a erguer-se depois da
queda, está mais interessada em melhorar as condições de vida do seu
povo, não quer a guerra e não deseja ser nosso inimigo a menos que tenha
de defender-se. “

Imaginem que Vladimir Putin não era um autocrata assassino e cleptocrata
que passou os últimos catorze anos no poder a viver à conta do seu
passado no KGB e a empurrar a Rússia cada vez mais para trás, para a
autocracia do comunismo, iliberalismo e expansionismo. Imaginem que em
vez de ele ser um dos maiores lideres que a Rússia já teve, cujas
políticas tem auxiliado a produzir uma subida maciça dos níveis de vida e
da esperança de vida, recuperação do orgulho nacional e reforço das
leis, que se agarrou sabiamente a cleptocratas e gangsters, cuja
política externa tem sido em geral realística, diplomata e pacífica, que
preside a um país em que os direitos humanos estão bem melhor do que
nos Estados Unidos e em que os direitos civis estão a melhorar, e que
tem um apoio permanente de 65% — actualmente em relação à Ucrânia de 83%
— da sua população. Na minha opinião ele está mais próximo do primeiro
cenário do que do segundo — e digo isto como alguém que não tem ligações
étnicas, financeiras, profissionais ou políticas com a Rússia. Na
realidade não sou uma especialista na Rússia, mas também não tenho
ideias preconcebidas. Sou uma observadora amigável, do país.
Deixem-me começar por explicar a história da minha ligação ao país.
Quando era adolescente a minha escola um tanto tímida e sem imaginação
decidiu organizar uma viagem descaracterizada a um local louco como a
Rússia, onde, parecia, que tinham acontecido muitas mudanças politicas.
Assim visitei a União Soviética durante o ultimo mês da sua existência,
sem nenhum conhecimento dela com centenas de milhões não apenas com umas
centenas. Após formação em Inglês, nem do que iria substitui-la. Alguns
anos mais tarde, no meu ano antes da universidade, descobri-me a viver
na margem sul do Danúbio em Ruse, Bulgária, a aprender búlgaro mas a
pensar que se alguma vez aprendesse a sério uma língua eslava seria para
me entender com centenas de milhões e não apenas com sete milhões.
Depois de uma licenciatura em Inglês, fiz um movimento em diagonal para
um mestrado em Russo e Estudos Pós-Soviéticos na Escola de Economia de
Londres, onde era muito claro que os melhores kremlinologistas
britânicos pouco sabiam de como e quando terminara a União Soviética — e
quem, nostálgicos do czarismo ou nostálgicos soviéticos — estavam
estarrecidos com o que acontecia nesse momento no país. O pior já tinha
acontecido quando me mudei para Moscovo em 2002 para melhorar o meu
russo aprendido nos livros, e para ensinar Inglês. Tornei-me entre
outras coisas uma especialista de Literatura comparada anglo-russa e
desde então tenho visitado o país todos os anos.
De Moscovo de 1991, lembro-me como era febril, quase em pânico e
terrivelmente pobre. Moscovo que recordo de 2002 poderia chamar-se de
«dura». Embora com uma segurança que Londres não tinha, utilizei muitas
vezes carros particulares como táxis, sozinha à noite — havia muitas
maneiras de morrer que Londres não tinha. Buracos abertos, bêbedos a
escorregar na neve, fogo cruzado. Era o capitalismo duro — capitalismo
selvagem, sem luvas. Afegãos literalmente de pernas nuas arrastavam-se
pela neve, os torsos a equilibrar-se em skates rudimentares. Famílias
acampavam a cantar pela ceia. Violinistas conceituados ambulantes.
Ginastas profissionais a fazer strip em clubes nocturnos. Armazéns
camuflados em que se vendiam marcas estrangeiras aparentemente em
rublos, mas que de facto eram dólares inflacionados e ilegais. O meu
patrão numa escola particular inglesa não pagava impostos sob a desculpa
de que não o podia fazer porque não tinha dinheiro. Evitávamos a
polícia, porque de algum modo estávamos envolvidos numa ilegalidade e
porque eles eram mal pagos e aceitavam subornos.
Um ano mais tarde, de visita, a situação estava um pouco melhor. A
miséria mais gritante já não aparecia. No ano seguinte, menos ainda. E a
partir daí tem sempre melhorado. O capitalismo está a calçar de novo as
luvas. Os transportes públicos estavam muito melhor. Nada se vende em
dólares e as marcas estrangeiras tem concorrentes russas. Uma estrutura
clara de impostos significa que o comércio e os assalariados podem e
pagam as taxas. Não se vê ninguém bêbado em público. As mulheres
moscovitas já não exageram a sua feminilidade num testemunho da sua
insegurança financeira e numa imitação barata de um Ocidente
pornograficamente imaginado. E o melhor de tudo, para os ocidentais
habituados a isso, as pessoas devolvem-nos o sorriso. Mesmo nos casos
mais difíceis — os babuskis que guardam os museus, e os guardas de
fronteira para passaportes sorriem-nos. No ano passado, pela primeira
vez, senti que a Rússia entrara numa nova fase — o pós-pós soviético e,
em que as pessoas já não estão à espera que a normalidade seja
restabelecida, ou a desejar viver num pais normal. Surgiu já uma nova
normalidade e um novo optimismo.
O meu sítio de sentir o país tem sido sempre Moscovo ou até mesmo
São Petersburgo, Nizhnii Novgorod e Perm — mas segundo o que ouço do
resto do país, está a melhorar lenta, mas firmemente.
Ora este período de conhecimento coincidiu com a era de Putin no
poder. É uma faceta dos media ocidentais que apresenta Putin metonímico
do país, sendo uma das afirmações o seu controlo cada vez mais
autocrático. Não acredito, mas não há duvida que Putin tem um impacto
decisivo na política russa neste século. Assim o meu interesse não é
apenas a Russofobia, mas a Putinfobia e considero-as semelhantes; uso
aqui fobia no sentido de um preconceito negativo.
A verdade é que a Rússia que conheço e a Rússia que vejo descrita no
Ocidente e principalmente nos jornais ingleses são completamente
diferentes. A Rússia da minha experiência tem melhorado em relação a
qualquer indicativo que possa imaginar, mas a sua imagem nos jornais
estrangeiros tem piorado. Mas há muitas maneiras de melhorando o nível
de vida o tornar compatível com uma autocracia crescente e beligerância
internacional — caso de Hitler. Mas creio que isso não acontece com
Putin.
Quero acabar esta introdução com uma anedota. No 1.o de Abril
visitei o Instituto Britânico em Moscovo e falei com dois empregados
russos jovens. Pensaríamos que essas pessoas se interessassem pelo
Ocidente em geral e fossem anglófilas. Parte do seu trabalho era
analisar a cobertura da imprensa britânica sobre a Rússia e enquanto
pensaram que eu fosse uma jornalista da BBC, mantiveram-se reservados
quase hostis. Quando eu expliquei que era académica e céptica das
notícias britânicas sobre a Rússia, foram todos sorrisos e contaram-se
como se sentiam aborrecidos com o noticiário britânico. Não conheço
nenhum russo com conhecimento da representação russa na Inglaterra que
não tenha muitas críticas. Também eu me sinto aborrecida, principalmente
porque penso que isso é um dano moral e intelectual e de efeitos
contraproducentes e perigosos.
Não vou aqui simplesmente analisar a corrente noticiosa americana e
britânica em comparação com as minhas opiniões. Vou é tentar descrever
algumas coisas que dão uma imagem falsa e factores que a corroboram, na
esperança de que a minha descrição pareça verdadeira e contribua para
uma visão correcta. Doravante, analiso os efeitos práticos da imagem dos
media sobre a Rússia.
A sua origem vem das suspeitas habituais no caso de ideias feitas:
distorção dos factos através do exagero, afirmações e falseamento;
inferências falsas, inconsistências; e desconhecimento da língua.
Comecemos com o exagero: o argumento de que Putin domina totalmente
os media russos é frequentemente exagerado. Muita da TV é estatal, mas
alguns dos canais do Estado, como a RIA Novosti, criticam Putin, assim
como muitas estações de rádio e jornais. Putin é muito mais criticado
pela imprensa russa do que Cameron na imprensa britânica. Não fomos
comparar tudo, já que no geral há mais razões para criticar Putin, mas é
um facto, que entra em contradição com a imagem que se tem actualmente
da Rússia. A internet é mais livre do que na Inglaterra — uma das razões
por que a pirataria intelectual está disseminada — e muitos russos
recebem as notícias pela Internet. O controlo governamental da imprensa
não pode ser indicado como uma razão significativa para o apoio
constante a Putin.
Por outro lado, os protestos contra ele, recebem boa cobertura mesmo
que sejam exagerados apesar do facto de os protestos, grandes e
pacíficos, indicarem o direito ao protesto. As demonstrações em Moscovo
depois da eleição presidencial em Março de 2012 são a prova disso. A
cobertura desses protestos também englobou declarações de muitos
políticos importantes opositores – os comunistas. O apoio ao partido
comunista está nuns 20% tornando-o o partido de oposição mais
importante. Os media britânicos, porém, focam principalmente a oposição
liberal. É compreensível que o faça, dado que é essa a tendência que
apoia, mas dá também uma impressão falsa que agora a oposição «liberal» é
de facto a principal. O exame das demonstrações em que a bandeira
comunista predominou negou os comentários britânicos.
Este exagero do tamanho e importância, tanto dos protestos como dos
componentes liberais, é claramente o produto de um modo de pensar
positivo — mas se realmente houver interesse em ver a substituição de
Putin por um liberal, não é bom exagerar a importância real da oposição
liberal mesmo para si. Em vez disso devíamos confrontar o facto de que
os partidos liberais conseguiram apenas 5% dos votos, e deveriam então
tentar descobrir o que está errado com a mensagem destes partidos e/ou
dos lideres, e/ou o que esta errado com a capacidade dos votantes para
entender o interesse das suas mensagens.
Mas a elisão mais importante ao cobrir a Rússia é a dos
melhoramentos nos indicadores democráticos, níveis de vida, afluência
nacional e a regra de lei, que mencionei. Durante os seus primeiros doze
anos no poder o PIB aumentou cerca de 850%. O país está quase sem
dívidas, com uma grande reserva de moeda. Devido às políticas de Putin
as receitas do petróleo servem agora a economia nacional. A mortalidade
declinou muito, e os nascimentos aumentaram. Portanto fabricam-se
notícias ou especulações são apresentadas como factos.
Um bom exemplo disso é a riqueza pessoal de Putin — que recebeu
números fantásticos na Forbes e na Bloomberg, incluindo que ele é o nono
homem mais rico no mundo, ou mesmo o homem mais rico do mundo. Estas
teorias nascem muito de reclamações de dois homens, o analista Stanislav
Belkovsky, primo de Berezovsky, e o politico liberal Boris Memtsov. As
alegações são que ele tem secretamente uma grande parte da Gazprom e
companhias de energia relacionadas como a Gunvor. Na verdade, quando The
Economist publicou as alegações sobre o lugar de Putin na Gunvor em
2008 foi multado e obrigado a publicar uma retratação. Haverá poucas
pessoas no mundo que realmente conheçam o verdadeiro estado das finanças
de Putin: ele próprio e mais uma ou duas pessoas. Diria, primeiro, que
alegações específicas não foram provadas; segundo, que especulações não
devem ser apresentadas como factos confirmados; e terceiro, que nada do
que se sabe sobre a história de Putin, o carácter orgulhoso e
«workaholic» sugere alguém, a quem as coisas que o dinheiro pode comprar
interessam; ele não é um Goering sibarítico.
Outras reclamações sobre corrupção na Rússia são perfeitamente
absurdas. Algumas sobre a corrupção nos Olímpicos de Sochi, a serem
verdade, significam que se teria perdido mais dinheiro na corrupção do
que todo o PIB do país.
A credulidade destas reclamações feitas por críticos de Putin já que
são feitas por críticos de Putin levam-me a uma inferência inductiva
falsa que normalmente se aplica acerca de Putin: que o inimigo do meu
inimigo é meu amigo. Quando combinada com a assunção que há uma
interferência governamental na operação da lei na Rússia, tem como
resultado que quando alguém é acusado de um crime na Rússia vozes de
crítica a Putin surgem normalmente ao lado de protestos da sua
inocência, principalmente na imprensa britânica.
Ou seja, não só o inimigo do meu inimigo é meu amigo, e não só o
critico de Putin é meu amigo, mas o critico de Putin está inocente — não
apenas negativamente inocente de qualquer crime imputado, mas
positivamente inocente e bom, porque quem se opõe a um tirano, é
dissidente e, portanto, do mesmo género de pessoa como os santos
Solzhenitsyn ou Sakarov. Na realidade, um prisioneiro com ideias
politicas não é o mesmo que um prisioneiro político.
É certo que o sistema legal da Rússia é menos brando que o de
Inglaterra, e tem menos das suas características importantes tanto na
lei civil como na criminal — por exemplo o principio de abertura das
provas contrárias. O sistema é jovem, tendo sido criado pelo nosso
sistema capitalista no fim do comunismo. Muitos dos advogados e juízes
são assim relativamente jovens e inexperientes. E cingem-se muito à lei.
A defesa ainda não está tão bem estabelecida na profissão como a
acusação. Estes factores afectam a justiça de todos os julgamentos do
país.
Mas devem acrescentar-se a isto duas coisas importantes. Primeiro, a
situação vai gradualmente melhorando. Putin não destruiu a
independência judicial e antes dele quase nada existia, e está agora a
ser gradualmente criado. Segundo, a alegação de que todos os julgamentos
dos críticos de Putin são injustos pelos padrões do sistema vigente
pois há muito poucas provas em que se apoiar.
Nos anos 90 muita da riqueza da Rússia passou por meios violentos e
corruptos para as mãos de alguns assim chamados oligarcas. Quando Putin
se tornou presidente fez-lhes uma proposta que constituiu provavelmente a
intersecção óptima de pragmatismo, justiça e pensamento avançado. Ou
podiam pagar algumas das taxas não pagas, investir algum dinheiro em
projectos regionais e não usarem a riqueza como alavanca para o poder
político — ou serem perseguidos pelos crimes anteriores. Alguns, como
Abramovitch, aceitaram o compromisso oferecido, e floresceram. Outros
como Khodorkovsky, não quiseram. O seu julgamento por evasão fiscal foi
altamente criticado pelo Ocidente como sendo irregular e uma vingança
política. O que poucos sabem é que a 25 de Julho de 2013 o Tribunal
Europeu dos Direitos Humanos (a que a Rússia como membro do Conselho da
Europa pertence) declarou que o julgamento não era politicamente
motivado, que Khodorkovsky era culpado, e que tinha sido devidamente
sentenciado (embora se encontrassem algumas irregularidades, pelo que
foi devidamente indemnizado). Noutros casos como o das Pussy e do futuro
candidato presidencial Aleksei Navalny (cujos apelos ao Tribunal de
Direitos Humanos ainda estão para ser ouvidos) os réus foram condenados
pela lei russa com provas e receberam penas que não só se adaptavam bem
às sentenças para esses crimes, como receberiam o mesmo tratamento se
tivessem sido cometidos na Inglaterra. Na Inglaterra as Pussy teriam
sido condenados ao abrigo do Acto Publico de 1986, por ofensas com a
pena máxima de dois anos (que foi o que elas receberam). Navalny seria
enquadrado no Acto Theft de 1968, por crimes com a pena máxima de seis
anos (Navalny recebeu 5). Nalguns aspectos a operação da lei russa é
mais benevolente do que a Britânica. Antes da prece punk na Catedral de
Cristo Salvador, membros do grupo Pussy fizeram sexo público no museu e
atiram gatos vivos a trabalhadores num restaurante MacDonalds. Em
Inglaterra esses actos teriam resultado em sentenças de prisão de pelo
menos dois anos. Enquanto que na Rússia não tiveram qualquer pena. Uma
das razões porque as Pussy foram perseguidas pela «prece punk» é que
interromperam e parodiaram um acto litúrgico, o que é especificamente
proibido na Rússia (como também na Inglaterra) e que é particularmente
repreensível num país com uma história de perseguição religiosa pelo
Estado.
Finalmente, a critica da condenação de crimes políticos comprovados
por aqueles que se opuseram a Putin, que deveriam estar acima da lei por
essa única razão. Deveria afirma-se que os maiores aliados de Putin
(como o anterior ministro da Defesa Serdyukov, cujo julgamento por
fraude foi muito atrasado), se suspeito de actividades criminais, não
devia ter estar acima da lei. Fazer o inverso é aceitar que a lei na
Rússia está minada. Mas, é implícito discutir que Putin devia impedir a
lei de seguir o seu curso no caso de alguém que o critique, que é o
mesmo que pedir interferência na lei, que é precisamente o que está a
ser criticado. A ser verdade que nem todos os oligarcas tiveram o mesmo
tratamento, e resposta verdadeira é exigir que todos sejam responsáveis
pelos seus crimes, sem excepção.
Vale acrescentar que apoiar alguém, não importa quão criminoso,
desde que se oponha a Putin, nos transforma em puros idiotas, fazem-nos
parecer idiotas perante muitos russos, que só assim podem entender que
Boris Berezovsky recebesse asilo em Inglaterra, em vez de ser
extraditado para responder pelos crimes na Rússia. Internacionalmente,
algo na mesma dinâmica de apoio a um inimigo de um inimigo é aparente. A
NATO é hostil à Rússia, assim, para alguns, há uma razão para apoiar a
NATO. Mas em que base discordam a Rússia e a NATO? Primeiro, a Rússia
opôs-se pouco ou muito à intervenção da NATO na Jugoslávia, Afeganistão,
Iraque e Líbia. O que está certo dependendo da nossa atitude para com
essas intervenções, mas se alguém deseja a paz em vez da guerra — civil
ou outra — então a Rússia deveria ser julgada por ter agido melhor do
que a NATO
Segundo, a NATO portou-se com muito maior hostilidade para com a
Rússia do que a Rússia para com ela. Em 1990 tanto os Estados Unidos
como a NATO prometeram à Rússia que não iam expandir-se para leste.
Desde então têm continuado a fazê-lo desafiadoramente. A Rússia quase
nem respondeu. Mas, protestou com veemência e com razão contra a
deslocação dos interceptores dos mísseis balísticos norte-americanos na
Polónia e na Roménia. Os Estados Unidos de certeza não iriam tolerar
sistemas de bases semelhantes em Cuba ou na Venezuela.
Isto leva-nos à aplicação inconsistente de padrões. O governo russo é
quase invariavelmente mal-entendido, com exigência de padrões mais
elevados do que os outros países.
Vejamos a recente e controversa «lei gay». Com ela o governo russo
granjeou por pouco tempo aos olhos dos apoiantes de Edward Snowden
quando este recebeu asilo na Rússia um aspecto positivo, que logo se
perdeu na campanha orquestrada pelos Estados Unidos contra a lei gay que
começou logo depois.
A lei que tornava «uma ofensa administrativa» [crime menor] mostrar a
homossexualidade a uma luz positiva a menores é uma lei má, porque
torna uma ofensa menor de algo que quase não era praticado e que não
devia ser proibido. Considera ilegal propaganda «homossexual pedófila»
não fazendo menção da «propaganda heterossexual pedófila». Mas, na
Rússia a homossexualidade pública e privada é tão legal como a
heterossexualidade — embora haja um apoio ínfimo a um boicote por
exemplo no Qatar, destinado a ter a Copa Mundial, que tem uma legislação
muita mais repressiva anti-gay. De resto vários estados americanos tem
uma legislação anti-gay muito mais forte do que a da Rússia, mas ninguém
propôs nenhum boicote da América com base nisso. Os barmen pró-gay não
deitavam o wisky escocês pelo cano abaixo entre 1988 e 2003 para
protestar contra uma lei muito semelhante (Secção 28 do Acto Local do
Governo) que existia então na Inglaterra. Torna-se claro que a campanha
contra a lei russa anti gay floresceu por causa da Russofobia — o
fenómeno que estou a descrever. Lembramo-nos que durante a cobertura dos
Olímpicos de Sochy, Claire Balding respondeu muito abertamente às
enormes facilidades e ao apoio fraterno dos russos locais, junto do
correspondente russo da BBC Daniel Sandford, que interrompia
repetidamente quase como um comissário soviético — ah, ah, mas não
devemos esquecer que este é o país onde a apresentação da
homossexualidade a menores numa maneira positiva é crime
administrativo».
Não afirmo que qualquer número de facilidades impressionante e o
apoio dos locais dê uma caiadela nas violações dos direitos humanos — a
lei gay russa não é isso. O activista gay russo Nikolai Alexeyev, ficou
muito aborrecido com a maneira como a campanha anti gay, liderada pelos
Estados Unidos contra a Rússia estava a ser conduzida como uma
ferramenta da Russofobia. A 17 de Agosto de 2013 declarou: Todos os
media ocidentais querem ouvir de mim que a Rússia não presta e não quero
tomar parte nessa hipocrisia. Portanto acabaram-se as entrevistas! Por
essa reacção, ele um bravo campeão contra a lei gay, foi considerado um
parceiro de Putin — e assim abriu-se um fosso entre os activistas
russofóbicos pró-gay e os activistas gays russos, cujo trabalho é
actualmente trocar opiniões sobre o assunto.
E o que acontece aos direitos gay acontece com os direitos humanos
em geral. A Rússia é considerada superior por países como o Barein e a
China, mas também os Estados Unidos. Segundo os media ocidental
pensaríamos que a situação dos direitos humanos da Rússia era pior do
que a dos Estados Unidos e pelo menos tão má como a China — sendo que as
duas noções são absurdas.
Comparemos a Rússia aos Estados Unidos (sendo a China muito pior do
que os dois) Os Estados Unidos têm 730 prisioneiros em comparação com os
598 da Rússia para cada 100.000 da população. Usa a pena de morte,
executa menores, e dá poder ao presidente para autorizar o rapto, a
tortura, a morte de cidadãos estrangeiros e nacionais sem julgamento. A
Rússia não faz nada disso. O governo americano cerceou as liberdades
civis com o O Patriot Act, espia ostensivamente a sua imprensa e a
estrangeira, e detém centenas de pessoas sem julgamento numa rede
internacional de prisões secretas. As liberdades civis da Rússia estão
agora mais garantidas por lei do que as americanas; não há prova ou
sugestão que a Rússia rapte indivíduos no exterior ou torture no
exterior ou que mantenha um campo de tortura como Guantánamo, nem que o
governo espie cidadãos russos como faz a NSA sobre os americanos ou
estrangeiros. A este respeito — quanto à espionagem sobre os seus
concidadãos — a Rússia e os Estados Unidos trocaram de lugar desde o fim
da União Soviética. Embora a tendência das leis americanas na última
década e meia seja a diminuição das liberdades civis, na Rússia a
cultura legal tem-se tornado cada vez mais humana e liberal. A Rússia
leva a julgamento suspeitos terroristas islâmicos capturados num tempo
razoável e não lhes nega o habeas corpus. A cultura popular americana
(incluindo filmes como Zero Dark Thirty) mostra que a América pratica a
tortura e sugere que é justificada. A cultura popular da Rússia não
aceita a prática da tortura. O contraste entre o tratamento ocidental da
Rússia e dos Estados Unidos sobre os direitos humanos viu-se quando em
2012 a Amnistia Internacional levou a efeito uma campanha de Acção
Prioritária sobre as Pussy, cujos membros foram declarados prisioneiros
de consciência, enquanto a campanha para Bradley – actualmente Chelsea –
Manning, que não tinha sido declarado prisioneiro de consciência, nem
foi ainda. Os membros das Pussy foram condenados como já mencionei a
dois anos de prisão, de acordo com a lei, por um crime que cometeram. Ao
mesmo tempo, Bradley Manning foi submetido a um castigo cruel, desumano
e degradante, antes de ter sido julgado por qualquer crime. Isso deu
uma má ideia de parcialidade politica ás decisões da Amnistia, mostrando
que eles consideram o tratamento relativamente humano e legal dos
críticos de Putin como uma violação maior e mais flagrante dos direitos
humanos do que a tortura antes do julgamento.
Acerca de duas medidas diferentes consideremos também o conselho que
a América dá à Rússia. Durante os protestos na praça Maidan em Kiev
lembremos John Kerry pedindo a Yanukovich para mostrar calma para com os
manifestantes. Ele mostrou tanta calma que deixou a cidade em vez de
ordenar à polícia que avançasse e defendesse o Presidente, como poderiam
ter feito. Podem imaginar um presidente americano a ser obrigado a
fugir por protestos violentos em Washington? Em Washington, os protestos
de Maidan não teriam durado dois dias. Se apontar uma arma letal a um
polícia pode ser legalmente abatido. Em Kiev, foram mortos cerca de
vinte policiais. Podemos imaginar a resposta violenta e desdenhosa se
Putin tivesse aconselhado Obama a ter calma diante de protestos
violentos, e a deixar-se derrubar.
E não falemos dos ditadores com quem a Rússia tem boas relações, na
Síria, Coreia do Norte e Cuba, são atacados não de uma maneira diferente
dos ditadores da Arábia Saudita, Barein, Quatar, Uzebequistão,
Honduras, Tailândia e Egipto mas de modo a que a Rússia também não os
ataque. Em geral o Ocidente não só não pratica o que prega à Rússia,
prega onde a Rússia não está — embora não veja grande mal em pregar —
sou lawrenciana —, não gosto da pregação de hipócritas.
Uma coisa que está presente na nossa inconsistente aplicação de
padrões é o nosso uso da linguagem. Os manifestantes em Maidan
protestavam; em Slaviansk, Kramatorsk, Maiupol eram rebeldes. O governo
de Putin é frequentemente conhecido como regime, e assim ligado à
ditadura, onde não existe, como não existe nos Estados Unidos uma
democracia perfeita, mas Putin pessoalmente tem mais 20% de aprovação do
que Obama. E pelo menos mais 25% do que Cameron. Mas há essencialmente
uma palavra mal utilizada no contexto russo — «liberal». Essa é uma
palavra notoriamente proteana, mas parece haver acordo sobre a sua
denotação num contexto russo que em relação é Rússia é unânime, onde
geralmente quer dizer «promover os valores ocidentais em relação à
liberdade individual, igualdade, democracia e a regra da lei». Mas,
quando se consideram as politicas desses políticos e comentadores
descritas como liberais, descobrimos que aquilo que se vê é a promoção
de politicas económicas estrangeiras alinhadas com os interesses
ocidentais, enquanto outras possivelmente não liberais se mantém. Por
exemplo, Aleksei Navalny, que é frequentemente descrito como o líder
liberal da oposição, tem opiniões que a maioria dos liberais ocidentais
considera racistas. Como a maioria dos russos não quer que a Rússia
aceite os interesses geopolíticos e económicos da NATO à sua custa, e
como o capitalismo ocidental está associado aos anos 90 (um período
que nunca foi muito bem aceite no Ocidente com tendo sido uma
catástrofe, os chamados «liberais» estão numa proporção pequena em
relação ao voto popular. Mas a narrativa russofóbica confunde «liberal»
com democrático. O facto das políticas de Putin terem mais apoio do que
as chamadas liberais não torna Putin num anti liberal e os que se opõem a
Putin democraticamente eleito não são pró democratas por essa razão. A
Russofobia, segundo a ideia de Said no Orientalismo assenta assim e gera
contradições. Também constrói um inimigo agressivo e a temer, ameaçando
os seus vizinhos como a Ucrânia e a Geórgia. Por outro lado, cria um
inimigo risível de que a economia esta fragilmente dependente do
petróleo — um ponto que não é tão importante como quando pensamos na
Arábia Saudita um aliado possuidor de petróleo
Mas tanto a agressão da Rússia como a sua fraqueza são sobrestimadas
ou seja, o desejo (por razões que a seguir exporei) de construir um
inimigo produz uma imagem (e mesmo, uma realidade), que se receia, cujo
poder precisa de ser entendido. Desde 1989, quando se retirou do
Afeganistão, mandou as suas tropas apenas para a Geórgia, e isso em
apoio aos habitantes de um enclave semi-autónomo em que as tropas da
Geórgia tinham entrado em violação de tratados internacionais. Na
realidade não ameaçou ninguém.
Mas o conhecimento do seu poder é importante. Falando para
comerciantes na Rússia — russos e estrangeiros — percebi que a Rússia
tem produções imensa e economicamente diversas, evitando muitas das
armadilhas de divida e sistema bancário falso que aflige a nossa
economia.
A L’Oreal, Danone, Peugeot e Renault estão a conseguir grandes
lucros na Rússia. Longe de estar totalmente dependente da exportação de
petróleo, a Rússia tem muitos produtos manufacturados como aço, produtos
químicos, farmacêuticos, roupa, construção de navios, maquinaria,
aviões, alimentos processados, mobiliário, computadores, tractores,
produtos ópticos, carros, telemóveis. Tem uma grande indústria de
construção e lidera no campo nuclear a tecnologia espacial. O Ocidente
provavelmente não pensa muito nisso porque são produtos pesados, não
consumíveis, e não se encontram assim nas lojas ocidentais. O imposto de
renda é baixo 13%, encorajando assim o crescimento económico (embora,
em minha opinião seja uma medida temporária, e será depois substituída
por um imposto de renda gradualmente mais socialista. Há um juro de 10%
nas contas correntes. As sanções doeram, mas levaram também a um maior
investimento interno. E a história da fraqueza russa deve-se à
ignorância das suas relações com o resto do mundo ocidental. Há laços
sino-russos a aumentar e relações estreitas entre a Rússia e muitos
países asiáticos, africanos e sul-americanos, China e Japão, Índia e
Paquistão, Israel e Palestina.
Quando assisti a uma reunião de comerciantes que discutiam respostas
às sanções a Moscovo em Abril foi dito que os embaixadores que
decidiram vir pelos menos os que eu vi— eram da Africa do Sul, México,
Peru, Benim, Indonésia e Malásia. Nenhum do «Ocidente» e isso é
realmente uma metáfora pelo facto de que o Ocidente não vê e não quer
ver, as boas relações que a Rússia tem com o resto do mundo.
Mas há muitos factores que favorecem a construção e persistência da Russofobia.
Um dos primeiros e mais óbvios é o contacto limitado com o próprio país.
Desde o século dezasseis quando os europeus ocidentais começaram a
viajar para a Rússia, observaram que a Rússia é difícil de atravessar,
de entrar, e onerosa nos requisitos de passaporte. O mesmo acontece com a
política quer dizer que não é fácil chegar a são Petersburgo para uma
volta rápida — na realidade há muito menos voos directos entre Londres, o
centro das vias aéreas e a segunda maior cidade do maior país do mundo —
que, para qualquer outra parte do mundo, o que é estranho. O contacto
limitado com a Rússia, e aprendizagem limitada da língua, significam
capacidade limitada para testar a validade da imagem da media na Rússia.
Essa imagem é parcialmente a construção de jornalistas que eles mesmos
sabem muito pouco do país, e que fazem eco uns dos outros. Mas é
igualmente a construção dos correspondentes estrangeiros locais como
Luke Harding do The Guardien e Ed Lucas do The Economist’s, que na minha
opinião caem dentro da categoria de pessoas que podem viver num país
detestando-o e interpretando-o de maneira errada, assim como certas
pessoas podem viver num país amando-o, e interpretando de maneira errada
no sentido oposto.
Uma das características em favor do eco de opiniões entre
jornalistas residentes e outros é o inverso de um fenómeno que descobri
entre pessoas que discordam deles. Em Moscovo amigos meus que aprovam
Putin incluem-se Russos, Americanos, um Finlandês e um Francês.
Trabalham na Rússia como jornalistas, comerciantes e advogados. A sua
visão política vai de Conservadores a quase comunistas e verdes. Mas
todos eles, nos seus diversos caminhos e das suas perspectivas próprias
acabaram por admirar Putin, cujas políticas não podem ser facilmente
descritas em termos de análise da esquerda-direita tradicional. O
inverso disso é que ele pode ser criticado de todas as perspectivas,
pelo que temos, portanto, uma rara unidade na Russofobia britânica,
entre a ala esquerda e a ala direita e mesmo em grandes jornais e
tabloides.
Outra característica que favorece a Russofobia é que a sua imagem de
Rússia condiz com imagens antigas que a Rússia tinha no Ocidente —
principalmente como autocrática. O principal período de contacto entre a
Europa ocidental e a Rússia tem sido caracterizado pela disparidade
crescente entre níveis de democracia no Ocidente e no Oriente; isso era
verdadeiro até recentemente. Afirmações de que Putin é autocrático
enquadram bem numa narrativa primária sobre a Rússia, não condizente com
a democracia: há só dois problemas. Um, o primarismo está agora tão
desacreditado na ciência politica como o racismo, e por razões
semelhantes (veja-se o êxito de Martin Sixsmith em 2011: Rússia: Mil
anos do Oriente Selvagem). Segundo, Putin não é autocrático. A narrativa
de reversão de autocracia depois dos anos relativamente democráticos de
Yelstin, é particularmente absurda dado que em 1993 Yeltsin fechou
jornais e enviou tanques para a Casa Branca para dispersar o Parlamento
russo, que se opunha à sua política económica profundamente antipopular.
Nos escassos anos seguintes calcula-se que entre 187 a 2.000 pessoas
foram mortas. Putin nunca fez nada semelhante, e claro que é possível
interpretar mal alguém cujas políticas são grandemente apoiadas — dentro
e fora do parlamento — como um ditador que não vai contra a oposição.
Mas temos de dizer, que a Rússia tem sido uma casa maior do
pensamento primordial, principalmente por si. O que é a ideia de
russkaiadusha, ou a alma russa, mas um argumento que a Rússia é a)
distinta e b) imutável na sua essência? O discurso da alma russa é
complicado mas parte disso condiz com a ideia que o povo russo é
subserviente e sofredor. E esta ideia é reforçada desde Tolstoi e
Dostoievsky. Mas, não foi a única verdade primordialistica. O
eurasianismo compete com o eslavofilismo, e o ocidentalismo — os
ocidentalistas dizendo claro que a Rússia podia e devia pôr-se a par do
Ocidente. Mas, a Rússia acima de tudo, tem na sua literatura e
filosofia, dado encorajamento suficiente ao pensamento primordialista.
Mencionei a homologia do primordialismo ao racismo — e posso
garantir que há uma dimensão racial na Russofobia do que posso ter
alternadamente chamado Russismo. Mais uma vez vamos através da
contradição. Por um lado, os Russos são acusados de favorecer a
autocracia e a subserviência. Por outro, espera-se que eles se comportem
como europeus ocidentais apesar das circunstancias históricas
imensamente diversas e, tenho a certeza de que uma razão disso é que os
russos europeus são exactamente iguais aos europeus ocidentais, o que
não acontece com os Chineses ou os Turcos. Na proporção das diferenças
de pigmentação de melanina, cor de olhos, e estrutura facial, pouca
diferença de comportamento político é tolerada — e quando acontece, é
então por reacção essencializado.
O próprio Putin tem sido amplamente demonizado. O seu passado de KGB
é frequentemente invocado de um modo que ultrapassa o facto de que o
próprio KGB era uma opção de carreira para jovens soviéticos ambiciosos
quando ele escolheu essa carreira. Posso mencionar o facto de que ela
citar Maxim Isayev como uma influência para o seu desejo de se juntar ao
KGB. Isayev é o herói da mini série de culto soviética, Dezassete
Instantes de uma Primavera — a resposta soviética a James Bond. Isayevé
um agente russo que pretende ser um dirigente em Berlim no fim da
Segunda Guerra Mundial. Era corajoso, culto, inteligente, generoso e de
uma integridade soviética — um herói soviético, que protegia a Rússia da
Alemanha e a Alemanha de si própria, um tipo que pessoas como Putin
gostariam de ser. Claro, que sabemos que a espionagem não é como nos
filmes. Mas na nossa era de revelações pós Snowden, é estranho continuar
a atacar alguém por ter espiado cidadãos de outro país, e usar isso
repetidamente como uma lente de interpretação negativa sobre todas as
suas acções subsequentes.
Na sua apresentação como macho man Putin não faz favores ao
Ocidente. Mas acho que os russos não precisam de ligar ao nosso desprezo
generalizado por esta imagem, como os Britânicos não tem de ligar aos
Americanos, cuja impressão generalizada é que todos os homens britânicos
são gays. A razão disso é que o comportamento normal masculino aqui é
mais suave, e metafórica e literalmente menos musculado, do que é a
norma na América do Norte. Na Rússia o comportamento másculo de Putin é
muito menos aceitável do que aqui — principalmente em contrate com as
séries de gerontocratas que governaram a União Soviética após Stalin, e
Yeltsin um embaraço etílico. Devemos lembrar que não é apenas pelo seu
estilo machão que ele é admirado; é também admirado por uma vida limpa,
em contrate com Yeltsin e muitos outros do período de Yelstin no poder, e
com boa educação — fala Russo sem erros gramaticais, de novo em
contrate com Yelstin.
Mas a sua auto-projecção é enfaticamente dirigida mais ao povo russo
do que ao resto do mundo, e isso deve-se ao facto de que Putin não
imita o Ocidente — bate-lhes (para usar uma metáfora inglesa) com um
bastão directo. Algo de um desprezo de anúncio comunista surge na sua
falta de interesse em anunciar o país ou a si próprio, no que toca ao
Ocidente. Foi por isso que a Geórgia teve a maior cobertura no conflito
Rússia-Georgia, de uma maneira que até Martin Sixsmith admite ter sido
incrementada pela BBC.
Saakashvili educado na Columbia estava pronto a fazer de PR de uma
maneira que Medvedev não estava. Um contraste diferente à Rússia é a
China, que responde prontamente e até agressivamente à critica pública, e
que até beneficia do opróbrio amontoado sobre a Rússia, desde que
afaste as atenções de si mesma, sendo uma ameaça muito mais tangível
para os interesses da Europa. A Rússia, por outro lado, nada faz para
atacar a Russofobia.
Dou ainda mais razões para a atração da Russofobia. A desconfiança
da media na Rússia já vem de longe, e com boa razão. A má atitude dos
Russos, ainda hoje, é de cepticismo e crítica. Podem votar em Putin
porque gostam dele ou das suas políticas, mas isso nãos os faz acreditar
mais no que leem, e há ainda muita insegurança sobre o estado do país,
sobre o que se queixam. Apesar do desafecto dos votantes deste país,
penso que há um nível muito mais alto de segurança do que se lê no
Guardian, noEconomist, The Sun, a BBC, entre os britânicos do que canais
equivalentes na Rússia. Ou seja, uma diferença entre nós e os Russos é
que somos menos cépticos sobre o que lemos.
Cuyu bono? Quais são as motivações mais obvias para criar a Russofobia?
Em resumo (e as razões substantivas realmente são breves): a política
estrangeira da Rússia não segue a do Ocidente. Os fabricantes de
armamento ocidentais não têm interesse numa nova Guerra Fria, porque a
guerra contra o terror não preenche o vazio na venda de armas —
especialmente de armas nucleares — deixado pelo fim da Guerra Fria. E a
NATO necessita desesperadamente de raison d’être (razão de existir).
Mas os interesses dos fabricantes de armas e da NATO não são os do
Ocidente num todo. A Russofobia age de maneiras muito contraproducentes.
Restringe potencialmente a sua enorme cooperação económica e cultural e
intercambio com a Rússia — uma razão porque os comerciantes se opuseram
às sanções — e que empurra decisivamente a Rússia para uma cooperação
económica, politica e militar com a China e na verdade com o resto do
mundo. As sanções tiveram o efeito de obrigar a Rússia a pensar em
desenvolver a sua própria versão do VISA. Fez repatriar a riqueza da
Rússia espalhada fora. E na Ucrânia, o apoio ocidental de um golpe
contra um presidente eleito colocou o país à beira de uma guerra civil, e
aumentou o território da Rússia. Como um amigo meu tem comentado
repetidamente «as guerras começam quando os políticos mentem aos
jornalistas e depois acreditam no que lêem na imprensa. A popularidade
de Putin estava em 83% na véspera dos acontecimentos na Ucrânia, e o
sentimento dos russos comuns contra os Estados Unidos e a União Europeia
começa a aumentar. Isso torna a vida mais difícil para os Russos cuja
agenda politica tem apoio no Ocidente. Um bom exemplo é o dos activistas
dos direitos gay, que têm muito mais dificuldade em alcançar os seus
fins já que uma atitude pró-gay se alinha com uma atitude anti russa. Os
activistas gay russos são agora um grupo muito mais isolado e de quem
se desconfia do que antes de receber apoio ocidental.
Todos os russos familiarizados com a Russofobia veem que a Rússia
está a ser criticada por muitas coisas erradas — e essa é a ironia mais
trágica. O país não é perfeito. A segurança social é miserável; há
problemas no exército e nas prisões, e problemas com racismo, drogas, e
violência doméstica, a educação e a saúde estão mal; o imposto de renda
está mal. Mas não por isso que a Rússia é criticada, tanto pelos
ocidentais como pelos seus chamados partidos liberais, que estão
obcessivamente preocupados com Putin.
As pessoas que sofrem na Rússia não são os lideres da oposição com a
sua cobertura abundante na imprensa ocidental, mas os pobres.
E fora os Comunistas, e mesmo Putin quem fala deles?
A Russofobia é composta de ignorância, falha de cepticismo e
raciocínio, orgulho, hipocrisia, condescendência e grosseria, tudo
colocado ao serviço do complexo militar-industruial e da NATO: apoia uma
Guerra Fria de um só lado, contra um país que só agora começa a
erguer-se depois da queda, está mais interessada em melhorar as
condições de vida do seu povo, não quer a guerra e não deseja ser nosso
inimigo a menos que tenha de defender-se. Desejo-lhe o melhor
* Jornalista
Este texto foi publicado em:
http://www.informationcleaninghouse.info/article44908.htm
Tradução de Manuela Antunes
in ODiario.info