sexta-feira, 22 de julho de 2016

Um texto oportuno! Dá que pensar.

Tribuna Popular

O ridículo golpe de Estado da Turquia em 17 reflexões

[Nazanín Armanian, tradução do Diário Liberdade] A partir da escassa informação disponível sobre os acontecimentos de 15 de julho, ocorrem-me as seguintes ideias:
.Embora o regime de Recep Tayyip Erdogan seja capaz de cometer um atentado de bandeira falsa (tinha planejado destruir o mausoleu de Sha Solimán, fundador da dinastia otomana situado na Síria e lançar um míssil sobre seus próprios cidadãos culpando de ambos atos ao governo de Bashar al Assad, como se revelou em março de 2014), não o faria por meio do exército. Seria demasiado arriscada uma operação com armas reais a partir de uma instituição da qual o presidente turco desconfia.
.Também é dudoso que Fathola Gülen, o clérigo sunnita turco estabelecido felizmente nos EUA, possa, como assinala Erdogan, mobilizar milhares de militares de um exército profundamente laico. Além disso, seu método é tomar o poder infiltrando-se nas postos chaves do poder, não patrocinar um levantamento de amadores.
.É possível organizar um golpe de Estado em um país da OTAN (que não só está localizado na região mais estratégica do mundo, como está em guerra) sem o conhecimento e/ou a autorização do Pentágono? Os não menos de 1.500 militares dos EUA presentes nas bases da Turquia deveriam saber qualquer coisa do plano de uns golpistas que, para mais, atuaram como amadores.
.EUA pretende acabar com o regime individual de Erdogan. Esta trapalhada inesperadamente, tal como o atentado do aeroporto de Ataturk duas semanas antes, acontecem precisamente quando Ancara pretendia corrigir, à sua maneira, os graves erros na política exterior que enfrentou o governo turco com todos os seus vizinhos. O diálogo entre EUA e Turquia rompeu-se: às discrepâncias sobre a situação da Síria, Iraque e a questão curda, acrescentou-se o pedido da Turquia para ingressar na Organização de Cooperação de Xangai, onde o presidente turco participou a 29 de junho em Tashkand, dizendo que “é muito melhor do que a União Europeia”. Não dá para ser membro da OTAN e aproximar-se da China e Rússia (em parte como consequência do Brexit e a perda de interesse de Bruxelas por integrar a Turquia) oferecendo à Rússia suculentas propostas comerciais que romperão as multas impostas por Ocidente, ou estar na Organização de Cooperação Econômica do Mar Negro (BSEC), em vez de potencializr a Associação Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP/ATCI)! EUA precisa um sócio obediente na região que aplique a estratégia da contenção militar e econômica da Rússia, China e Irã. Alguns meios russos apontaram 31 de março também para este desejo ou plano de EUA de “mudança de regime” na Turquia.
.Barack Obama, que começou seu mandato apoiando a Irmandade Muçulmana, apostou forte no “Islamismo de gravata” contra a nefasta aliança de Bush com o islamismo de turbante dos xeques waabitas da Arábia Saudita. Recebeu de braços abertos Erdogan e sua esposa, e aplaudiu as conversas de paz com a guerrilha curda de PKK, ignorando que o astuto dirigente turco tinha preparado uma armadilha aos curdos. A deceção posterior de Obama com o líder turco não foi por ter visto ele sem máscara, mas porque seu aliado tinha sua própria agenda na política exterior, saindo da órbita dos EUA. Daí o duro castigo, empurrando ele para o inferno da guerra de desgaste da Síria. No dia 28 de março passado, Obama recusou receber Erdogan em audiência em Washington e inaugurarem juntos uma mesquita turca em Maryland.
.Para além da responsabilidade do Erdogan e seu partido em deriva-a do país, Turquia foi vítima das estratégias erradas de Washington (inclusive para seus próprios interesses). Converteu o peso pesado da Eurásia em “Paquistão 2.0”, a partir de onde a CIA envia grupos terroristas religiosos ao país vizinho, Síria, para desmantelar seu governo semilaico, perdendo um aliado fulcral como a Turquia. Não vê que o Paquistão foi recolhido pela China?
.Embora hoje o presidente de Turquia se apresente como o herói nacional e pareça o principal beneficiário do tumulto militar, não o é: o fim do erdoganismo começou com sua derrota nas eleições do junho do 2015. Agora, nem poderá controlar a tantos inimigos que tem criado dentro e fora do país, nem governar a sociedade que tão vilmente fragmentou.
.Este não ia ser um golpe contra a democracia. O golpe do governo do Partido de Justiça e Desenvolvimento foi o que deu contra a democracia quando bombardeou a população curda, retirou a imunidade dos parlamentares opositores, fechou dezenas de diários, prendeu centenas de jornalistas, estudantes, prefeitos, juízes e políticos.
A farsa de um golpe de Estado
Surpreende que os golpistas de um exército de meio milhão de homens e um orçamento anual de 18.000 milhões de dólares não seguissem os mais elementares passos para tomar o poder:
.Contar com as figuras mais destacadas e de maior patente do exército. Os comandantes das forças terrestres e marinha turcos não se envolveram na tentativa.
.Ter imobilizado os aviões e navios militares, controlando os aeroportos, estradas principais, etc. Os golpistas foram atacados por um avião caça, por tanques e helicópteros!
.Ter detido ou assassinado o chefe do Estado ou o resto do governo. Conta-se que chegaram a bombardear o hotel onde estava Erdogan, mas só quando ele já o tinha abandonado. Depois aterrissou no aeroporto internacional de Ataturk, que não tinha sido ocupado pelos golpistas.
.Ter-se feito com o controle de todos os meios de comunicação. Salvo a Rádio Televisão turca, onde deram uma penosa imagem de golpistas sem ânimo de triunfar, se esqueceram do resto dos meios, incluídas as redes sociais (que Erdogan costuma as bloquear inclusive quando há manifestações pacíficas em sua contra). Na televisão não apresentaram um líder decidido e firme, nem leram uma declaração de intenções atraentes, nem deram a imagem de pessoas que fossem tomar o poder a sério. Assim, era impossível recrutar os setores sociais anti Erdogan nem muito menos os indecisos. Ao invés, o presidente (ao que parece) só com um celular e com a CNN turca, conseguiu arrastar milhares de seus seguidores às ruas. O resto fizeram-no as mesquitas, animando os fiéis para que fossem à guerra contra “os inimigos do Islã”.
.Os militares enganaram-se julgando que a atual sociedade ia apoiar um golpe de Estado. Os cidadãos, os partidos da oposição, e inclusive os curdos que vivem um verdadeiro massacre, lembram ainda as ditaduras despiadadas dos uniformados: “Nem Erdogan, nem militares”, foi a palavra de ordem dos partidos de esquerda.
.Não atraíram o apoio de outros países. Nas três primeiras horas que Obama manteve um estranho silêncio, Irã e Qatar opuseram-se ao golpe, e a Arábia considerou que era um assunto interno.
.Não teve nenhuma condição objetiva, nem subjetiva para o triunfo do levantamento. “Alguém” enganou os amotinados, preparou-lhes uma armadilha. O qual não impede que no futuro o exército turco possa atuar, mas a sério, mas isso será quando EUA não vir a possibilidade de uma transição não violenta para desmantelar o regime de Erdogan.
.Os militares formam uma casta, o qual significa que se protegem em termos de lealdade corporativista. Daí que, quando fracassa sua tentativa de golpe de Estado, os mandatários costumam mudá-los de postos ou os aposentar, ao invés de os deter ou executar. Assim, evitarão contragolpes. O que fizer Erdogan ao respeito, mostrará o grau de sua habilidade e o sentido comum.
.A principal lição destes fatos é que Erdogan não controla a situação, e a sua permanência no poder poderá empurrar a Turquia para uma guerra civil, com as forças reacionárias de protagonistas: ninguém pode garantir que a Turquia estará imune a cair em uma “sirização” total.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Desconstruindo a russofobia

Catherine Brown*    20.Jul.16    Outros autores
“A Russofobia é composta de ignorância, falha de cepticismo e raciocínio, orgulho, hipocrisia, condescendência e grosseria, tudo colocado ao serviço do complexo militar-industruial e da NATO: apoia uma Guerra Fria de um só lado, contra um país que só agora começa a erguer-se depois da queda, está mais interessada em melhorar as condições de vida do seu povo, não quer a guerra e não deseja ser nosso inimigo a menos que tenha de defender-se. “
Imaginem que Vladimir Putin não era um autocrata assassino e cleptocrata que passou os últimos catorze anos no poder a viver à conta do seu passado no KGB e a empurrar a Rússia cada vez mais para trás, para a autocracia do comunismo, iliberalismo e expansionismo. Imaginem que em vez de ele ser um dos maiores lideres que a Rússia já teve, cujas políticas tem auxiliado a produzir uma subida maciça dos níveis de vida e da esperança de vida, recuperação do orgulho nacional e reforço das leis, que se agarrou sabiamente a cleptocratas e gangsters, cuja política externa tem sido em geral realística, diplomata e pacífica, que preside a um país em que os direitos humanos estão bem melhor do que nos Estados Unidos e em que os direitos civis estão a melhorar, e que tem um apoio permanente de 65% — actualmente em relação à Ucrânia de 83% — da sua população. Na minha opinião ele está mais próximo do primeiro cenário do que do segundo — e digo isto como alguém que não tem ligações étnicas, financeiras, profissionais ou políticas com a Rússia. Na realidade não sou uma especialista na Rússia, mas também não tenho ideias preconcebidas. Sou uma observadora amigável, do país.
Deixem-me começar por explicar a história da minha ligação ao país. Quando era adolescente a minha escola um tanto tímida e sem imaginação decidiu organizar uma viagem descaracterizada a um local louco como a Rússia, onde, parecia, que tinham acontecido muitas mudanças politicas. Assim visitei a União Soviética durante o ultimo mês da sua existência, sem nenhum conhecimento dela com centenas de milhões não apenas com umas centenas. Após formação em Inglês, nem do que iria substitui-la. Alguns anos mais tarde, no meu ano antes da universidade, descobri-me a viver na margem sul do Danúbio em Ruse, Bulgária, a aprender búlgaro mas a pensar que se alguma vez aprendesse a sério uma língua eslava seria para me entender com centenas de milhões e não apenas com sete milhões. Depois de uma licenciatura em Inglês, fiz um movimento em diagonal para um mestrado em Russo e Estudos Pós-Soviéticos na Escola de Economia de Londres, onde era muito claro que os melhores kremlinologistas britânicos pouco sabiam de como e quando terminara a União Soviética — e quem, nostálgicos do czarismo ou nostálgicos soviéticos — estavam estarrecidos com o que acontecia nesse momento no país. O pior já tinha acontecido quando me mudei para Moscovo em 2002 para melhorar o meu russo aprendido nos livros, e para ensinar Inglês. Tornei-me entre outras coisas uma especialista de Literatura comparada anglo-russa e desde então tenho visitado o país todos os anos.
De Moscovo de 1991, lembro-me como era febril, quase em pânico e terrivelmente pobre. Moscovo que recordo de 2002 poderia chamar-se de «dura». Embora com uma segurança que Londres não tinha, utilizei muitas vezes carros particulares como táxis, sozinha à noite — havia muitas maneiras de morrer que Londres não tinha. Buracos abertos, bêbedos a escorregar na neve, fogo cruzado. Era o capitalismo duro — capitalismo selvagem, sem luvas. Afegãos literalmente de pernas nuas arrastavam-se pela neve, os torsos a equilibrar-se em skates rudimentares. Famílias acampavam a cantar pela ceia. Violinistas conceituados ambulantes. Ginastas profissionais a fazer strip em clubes nocturnos. Armazéns camuflados em que se vendiam marcas estrangeiras aparentemente em rublos, mas que de facto eram dólares inflacionados e ilegais. O meu patrão numa escola particular inglesa não pagava impostos sob a desculpa de que não o podia fazer porque não tinha dinheiro. Evitávamos a polícia, porque de algum modo estávamos envolvidos numa ilegalidade e porque eles eram mal pagos e aceitavam subornos.
Um ano mais tarde, de visita, a situação estava um pouco melhor. A miséria mais gritante já não aparecia. No ano seguinte, menos ainda. E a partir daí tem sempre melhorado. O capitalismo está a calçar de novo as luvas. Os transportes públicos estavam muito melhor. Nada se vende em dólares e as marcas estrangeiras tem concorrentes russas. Uma estrutura clara de impostos significa que o comércio e os assalariados podem e pagam as taxas. Não se vê ninguém bêbado em público. As mulheres moscovitas já não exageram a sua feminilidade num testemunho da sua insegurança financeira e numa imitação barata de um Ocidente pornograficamente imaginado. E o melhor de tudo, para os ocidentais habituados a isso, as pessoas devolvem-nos o sorriso. Mesmo nos casos mais difíceis — os babuskis que guardam os museus, e os guardas de fronteira para passaportes sorriem-nos. No ano passado, pela primeira vez, senti que a Rússia entrara numa nova fase — o pós-pós soviético e, em que as pessoas já não estão à espera que a normalidade seja restabelecida, ou a desejar viver num pais normal. Surgiu já uma nova normalidade e um novo optimismo.
O meu sítio de sentir o país tem sido sempre Moscovo ou até mesmo São Petersburgo, Nizhnii Novgorod e Perm — mas segundo o que ouço do resto do país, está a melhorar lenta, mas firmemente.
Ora este período de conhecimento coincidiu com a era de Putin no poder. É uma faceta dos media ocidentais que apresenta Putin metonímico do país, sendo uma das afirmações o seu controlo cada vez mais autocrático. Não acredito, mas não há duvida que Putin tem um impacto decisivo na política russa neste século. Assim o meu interesse não é apenas a Russofobia, mas a Putinfobia e considero-as semelhantes; uso aqui fobia no sentido de um preconceito negativo.
A verdade é que a Rússia que conheço e a Rússia que vejo descrita no Ocidente e principalmente nos jornais ingleses são completamente diferentes. A Rússia da minha experiência tem melhorado em relação a qualquer indicativo que possa imaginar, mas a sua imagem nos jornais estrangeiros tem piorado. Mas há muitas maneiras de melhorando o nível de vida o tornar compatível com uma autocracia crescente e beligerância internacional — caso de Hitler. Mas creio que isso não acontece com Putin.
Quero acabar esta introdução com uma anedota. No 1.o de Abril visitei o Instituto Britânico em Moscovo e falei com dois empregados russos jovens. Pensaríamos que essas pessoas se interessassem pelo Ocidente em geral e fossem anglófilas. Parte do seu trabalho era analisar a cobertura da imprensa britânica sobre a Rússia e enquanto pensaram que eu fosse uma jornalista da BBC, mantiveram-se reservados quase hostis. Quando eu expliquei que era académica e céptica das notícias britânicas sobre a Rússia, foram todos sorrisos e contaram-se como se sentiam aborrecidos com o noticiário britânico. Não conheço nenhum russo com conhecimento da representação russa na Inglaterra que não tenha muitas críticas. Também eu me sinto aborrecida, principalmente porque penso que isso é um dano moral e intelectual e de efeitos contraproducentes e perigosos.
Não vou aqui simplesmente analisar a corrente noticiosa americana e britânica em comparação com as minhas opiniões. Vou é tentar descrever algumas coisas que dão uma imagem falsa e factores que a corroboram, na esperança de que a minha descrição pareça verdadeira e contribua para uma visão correcta. Doravante, analiso os efeitos práticos da imagem dos media sobre a Rússia.
A sua origem vem das suspeitas habituais no caso de ideias feitas: distorção dos factos através do exagero, afirmações e falseamento; inferências falsas, inconsistências; e desconhecimento da língua.
Comecemos com o exagero: o argumento de que Putin domina totalmente os media russos é frequentemente exagerado. Muita da TV é estatal, mas alguns dos canais do Estado, como a RIA Novosti, criticam Putin, assim como muitas estações de rádio e jornais. Putin é muito mais criticado pela imprensa russa do que Cameron na imprensa britânica. Não fomos comparar tudo, já que no geral há mais razões para criticar Putin, mas é um facto, que entra em contradição com a imagem que se tem actualmente da Rússia. A internet é mais livre do que na Inglaterra — uma das razões por que a pirataria intelectual está disseminada — e muitos russos recebem as notícias pela Internet. O controlo governamental da imprensa não pode ser indicado como uma razão significativa para o apoio constante a Putin.
Por outro lado, os protestos contra ele, recebem boa cobertura mesmo que sejam exagerados apesar do facto de os protestos, grandes e pacíficos, indicarem o direito ao protesto. As demonstrações em Moscovo depois da eleição presidencial em Março de 2012 são a prova disso. A cobertura desses protestos também englobou declarações de muitos políticos importantes opositores – os comunistas. O apoio ao partido comunista está nuns 20% tornando-o o partido de oposição mais importante. Os media britânicos, porém, focam principalmente a oposição liberal. É compreensível que o faça, dado que é essa a tendência que apoia, mas dá também uma impressão falsa que agora a oposição «liberal» é de facto a principal. O exame das demonstrações em que a bandeira comunista predominou negou os comentários britânicos.
Este exagero do tamanho e importância, tanto dos protestos como dos componentes liberais, é claramente o produto de um modo de pensar positivo — mas se realmente houver interesse em ver a substituição de Putin por um liberal, não é bom exagerar a importância real da oposição liberal mesmo para si. Em vez disso devíamos confrontar o facto de que os partidos liberais conseguiram apenas 5% dos votos, e deveriam então tentar descobrir o que está errado com a mensagem destes partidos e/ou dos lideres, e/ou o que esta errado com a capacidade dos votantes para entender o interesse das suas mensagens.
Mas a elisão mais importante ao cobrir a Rússia é a dos melhoramentos nos indicadores democráticos, níveis de vida, afluência nacional e a regra de lei, que mencionei. Durante os seus primeiros doze anos no poder o PIB aumentou cerca de 850%. O país está quase sem dívidas, com uma grande reserva de moeda. Devido às políticas de Putin as receitas do petróleo servem agora a economia nacional. A mortalidade declinou muito, e os nascimentos aumentaram. Portanto fabricam-se notícias ou especulações são apresentadas como factos.
Um bom exemplo disso é a riqueza pessoal de Putin — que recebeu números fantásticos na Forbes e na Bloomberg, incluindo que ele é o nono homem mais rico no mundo, ou mesmo o homem mais rico do mundo. Estas teorias nascem muito de reclamações de dois homens, o analista Stanislav Belkovsky, primo de Berezovsky, e o politico liberal Boris Memtsov. As alegações são que ele tem secretamente uma grande parte da Gazprom e companhias de energia relacionadas como a Gunvor. Na verdade, quando The Economist publicou as alegações sobre o lugar de Putin na Gunvor em 2008 foi multado e obrigado a publicar uma retratação. Haverá poucas pessoas no mundo que realmente conheçam o verdadeiro estado das finanças de Putin: ele próprio e mais uma ou duas pessoas. Diria, primeiro, que alegações específicas não foram provadas; segundo, que especulações não devem ser apresentadas como factos confirmados; e terceiro, que nada do que se sabe sobre a história de Putin, o carácter orgulhoso e «workaholic» sugere alguém, a quem as coisas que o dinheiro pode comprar interessam; ele não é um Goering sibarítico.
Outras reclamações sobre corrupção na Rússia são perfeitamente absurdas. Algumas sobre a corrupção nos Olímpicos de Sochi, a serem verdade, significam que se teria perdido mais dinheiro na corrupção do que todo o PIB do país.
A credulidade destas reclamações feitas por críticos de Putin já que são feitas por críticos de Putin levam-me a uma inferência inductiva falsa que normalmente se aplica acerca de Putin: que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Quando combinada com a assunção que há uma interferência governamental na operação da lei na Rússia, tem como resultado que quando alguém é acusado de um crime na Rússia vozes de crítica a Putin surgem normalmente ao lado de protestos da sua inocência, principalmente na imprensa britânica.
Ou seja, não só o inimigo do meu inimigo é meu amigo, e não só o critico de Putin é meu amigo, mas o critico de Putin está inocente — não apenas negativamente inocente de qualquer crime imputado, mas positivamente inocente e bom, porque quem se opõe a um tirano, é dissidente e, portanto, do mesmo género de pessoa como os santos Solzhenitsyn ou Sakarov. Na realidade, um prisioneiro com ideias politicas não é o mesmo que um prisioneiro político.
É certo que o sistema legal da Rússia é menos brando que o de Inglaterra, e tem menos das suas características importantes tanto na lei civil como na criminal — por exemplo o principio de abertura das provas contrárias. O sistema é jovem, tendo sido criado pelo nosso sistema capitalista no fim do comunismo. Muitos dos advogados e juízes são assim relativamente jovens e inexperientes. E cingem-se muito à lei. A defesa ainda não está tão bem estabelecida na profissão como a acusação. Estes factores afectam a justiça de todos os julgamentos do país.
Mas devem acrescentar-se a isto duas coisas importantes. Primeiro, a situação vai gradualmente melhorando. Putin não destruiu a independência judicial e antes dele quase nada existia, e está agora a ser gradualmente criado. Segundo, a alegação de que todos os julgamentos dos críticos de Putin são injustos pelos padrões do sistema vigente pois há muito poucas provas em que se apoiar.
Nos anos 90 muita da riqueza da Rússia passou por meios violentos e corruptos para as mãos de alguns assim chamados oligarcas. Quando Putin se tornou presidente fez-lhes uma proposta que constituiu provavelmente a intersecção óptima de pragmatismo, justiça e pensamento avançado. Ou podiam pagar algumas das taxas não pagas, investir algum dinheiro em projectos regionais e não usarem a riqueza como alavanca para o poder político — ou serem perseguidos pelos crimes anteriores. Alguns, como Abramovitch, aceitaram o compromisso oferecido, e floresceram. Outros como Khodorkovsky, não quiseram. O seu julgamento por evasão fiscal foi altamente criticado pelo Ocidente como sendo irregular e uma vingança política. O que poucos sabem é que a 25 de Julho de 2013 o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (a que a Rússia como membro do Conselho da Europa pertence) declarou que o julgamento não era politicamente motivado, que Khodorkovsky era culpado, e que tinha sido devidamente sentenciado (embora se encontrassem algumas irregularidades, pelo que foi devidamente indemnizado). Noutros casos como o das Pussy e do futuro candidato presidencial Aleksei Navalny (cujos apelos ao Tribunal de Direitos Humanos ainda estão para ser ouvidos) os réus foram condenados pela lei russa com provas e receberam penas que não só se adaptavam bem às sentenças para esses crimes, como receberiam o mesmo tratamento se tivessem sido cometidos na Inglaterra. Na Inglaterra as Pussy teriam sido condenados ao abrigo do Acto Publico de 1986, por ofensas com a pena máxima de dois anos (que foi o que elas receberam). Navalny seria enquadrado no Acto Theft de 1968, por crimes com a pena máxima de seis anos (Navalny recebeu 5). Nalguns aspectos a operação da lei russa é mais benevolente do que a Britânica. Antes da prece punk na Catedral de Cristo Salvador, membros do grupo Pussy fizeram sexo público no museu e atiram gatos vivos a trabalhadores num restaurante MacDonalds. Em Inglaterra esses actos teriam resultado em sentenças de prisão de pelo menos dois anos. Enquanto que na Rússia não tiveram qualquer pena. Uma das razões porque as Pussy foram perseguidas pela «prece punk» é que interromperam e parodiaram um acto litúrgico, o que é especificamente proibido na Rússia (como também na Inglaterra) e que é particularmente repreensível num país com uma história de perseguição religiosa pelo Estado.
Finalmente, a critica da condenação de crimes políticos comprovados por aqueles que se opuseram a Putin, que deveriam estar acima da lei por essa única razão. Deveria afirma-se que os maiores aliados de Putin (como o anterior ministro da Defesa Serdyukov, cujo julgamento por fraude foi muito atrasado), se suspeito de actividades criminais, não devia ter estar acima da lei. Fazer o inverso é aceitar que a lei na Rússia está minada. Mas, é implícito discutir que Putin devia impedir a lei de seguir o seu curso no caso de alguém que o critique, que é o mesmo que pedir interferência na lei, que é precisamente o que está a ser criticado. A ser verdade que nem todos os oligarcas tiveram o mesmo tratamento, e resposta verdadeira é exigir que todos sejam responsáveis pelos seus crimes, sem excepção.
Vale acrescentar que apoiar alguém, não importa quão criminoso, desde que se oponha a Putin, nos transforma em puros idiotas, fazem-nos parecer idiotas perante muitos russos, que só assim podem entender que Boris Berezovsky recebesse asilo em Inglaterra, em vez de ser extraditado para responder pelos crimes na Rússia. Internacionalmente, algo na mesma dinâmica de apoio a um inimigo de um inimigo é aparente. A NATO é hostil à Rússia, assim, para alguns, há uma razão para apoiar a NATO. Mas em que base discordam a Rússia e a NATO? Primeiro, a Rússia opôs-se pouco ou muito à intervenção da NATO na Jugoslávia, Afeganistão, Iraque e Líbia. O que está certo dependendo da nossa atitude para com essas intervenções, mas se alguém deseja a paz em vez da guerra — civil ou outra — então a Rússia deveria ser julgada por ter agido melhor do que a NATO
Segundo, a NATO portou-se com muito maior hostilidade para com a Rússia do que a Rússia para com ela. Em 1990 tanto os Estados Unidos como a NATO prometeram à Rússia que não iam expandir-se para leste. Desde então têm continuado a fazê-lo desafiadoramente. A Rússia quase nem respondeu. Mas, protestou com veemência e com razão contra a deslocação dos interceptores dos mísseis balísticos norte-americanos na Polónia e na Roménia. Os Estados Unidos de certeza não iriam tolerar sistemas de bases semelhantes em Cuba ou na Venezuela.
Isto leva-nos à aplicação inconsistente de padrões. O governo russo é quase invariavelmente mal-entendido, com exigência de padrões mais elevados do que os outros países.
Vejamos a recente e controversa «lei gay». Com ela o governo russo granjeou por pouco tempo aos olhos dos apoiantes de Edward Snowden quando este recebeu asilo na Rússia um aspecto positivo, que logo se perdeu na campanha orquestrada pelos Estados Unidos contra a lei gay que começou logo depois.
A lei que tornava «uma ofensa administrativa» [crime menor] mostrar a homossexualidade a uma luz positiva a menores é uma lei má, porque torna uma ofensa menor de algo que quase não era praticado e que não devia ser proibido. Considera ilegal propaganda «homossexual pedófila» não fazendo menção da «propaganda heterossexual pedófila». Mas, na Rússia a homossexualidade pública e privada é tão legal como a heterossexualidade — embora haja um apoio ínfimo a um boicote por exemplo no Qatar, destinado a ter a Copa Mundial, que tem uma legislação muita mais repressiva anti-gay. De resto vários estados americanos tem uma legislação anti-gay muito mais forte do que a da Rússia, mas ninguém propôs nenhum boicote da América com base nisso. Os barmen pró-gay não deitavam o wisky escocês pelo cano abaixo entre 1988 e 2003 para protestar contra uma lei muito semelhante (Secção 28 do Acto Local do Governo) que existia então na Inglaterra. Torna-se claro que a campanha contra a lei russa anti gay floresceu por causa da Russofobia — o fenómeno que estou a descrever. Lembramo-nos que durante a cobertura dos Olímpicos de Sochy, Claire Balding respondeu muito abertamente às enormes facilidades e ao apoio fraterno dos russos locais, junto do correspondente russo da BBC Daniel Sandford, que interrompia repetidamente quase como um comissário soviético — ah, ah, mas não devemos esquecer que este é o país onde a apresentação da homossexualidade a menores numa maneira positiva é crime administrativo».
Não afirmo que qualquer número de facilidades impressionante e o apoio dos locais dê uma caiadela nas violações dos direitos humanos — a lei gay russa não é isso. O activista gay russo Nikolai Alexeyev, ficou muito aborrecido com a maneira como a campanha anti gay, liderada pelos Estados Unidos contra a Rússia estava a ser conduzida como uma ferramenta da Russofobia. A 17 de Agosto de 2013 declarou: Todos os media ocidentais querem ouvir de mim que a Rússia não presta e não quero tomar parte nessa hipocrisia. Portanto acabaram-se as entrevistas! Por essa reacção, ele um bravo campeão contra a lei gay, foi considerado um parceiro de Putin — e assim abriu-se um fosso entre os activistas russofóbicos pró-gay e os activistas gays russos, cujo trabalho é actualmente trocar opiniões sobre o assunto.
E o que acontece aos direitos gay acontece com os direitos humanos em geral. A Rússia é considerada superior por países como o Barein e a China, mas também os Estados Unidos. Segundo os media ocidental pensaríamos que a situação dos direitos humanos da Rússia era pior do que a dos Estados Unidos e pelo menos tão má como a China — sendo que as duas noções são absurdas.
Comparemos a Rússia aos Estados Unidos (sendo a China muito pior do que os dois) Os Estados Unidos têm 730 prisioneiros em comparação com os 598 da Rússia para cada 100.000 da população. Usa a pena de morte, executa menores, e dá poder ao presidente para autorizar o rapto, a tortura, a morte de cidadãos estrangeiros e nacionais sem julgamento. A Rússia não faz nada disso. O governo americano cerceou as liberdades civis com o O Patriot Act, espia ostensivamente a sua imprensa e a estrangeira, e detém centenas de pessoas sem julgamento numa rede internacional de prisões secretas. As liberdades civis da Rússia estão agora mais garantidas por lei do que as americanas; não há prova ou sugestão que a Rússia rapte indivíduos no exterior ou torture no exterior ou que mantenha um campo de tortura como Guantánamo, nem que o governo espie cidadãos russos como faz a NSA sobre os americanos ou estrangeiros. A este respeito — quanto à espionagem sobre os seus concidadãos — a Rússia e os Estados Unidos trocaram de lugar desde o fim da União Soviética. Embora a tendência das leis americanas na última década e meia seja a diminuição das liberdades civis, na Rússia a cultura legal tem-se tornado cada vez mais humana e liberal. A Rússia leva a julgamento suspeitos terroristas islâmicos capturados num tempo razoável e não lhes nega o habeas corpus. A cultura popular americana (incluindo filmes como Zero Dark Thirty) mostra que a América pratica a tortura e sugere que é justificada. A cultura popular da Rússia não aceita a prática da tortura. O contraste entre o tratamento ocidental da Rússia e dos Estados Unidos sobre os direitos humanos viu-se quando em 2012 a Amnistia Internacional levou a efeito uma campanha de Acção Prioritária sobre as Pussy, cujos membros foram declarados prisioneiros de consciência, enquanto a campanha para Bradley – actualmente Chelsea – Manning, que não tinha sido declarado prisioneiro de consciência, nem foi ainda. Os membros das Pussy foram condenados como já mencionei a dois anos de prisão, de acordo com a lei, por um crime que cometeram. Ao mesmo tempo, Bradley Manning foi submetido a um castigo cruel, desumano e degradante, antes de ter sido julgado por qualquer crime. Isso deu uma má ideia de parcialidade politica ás decisões da Amnistia, mostrando que eles consideram o tratamento relativamente humano e legal dos críticos de Putin como uma violação maior e mais flagrante dos direitos humanos do que a tortura antes do julgamento.
Acerca de duas medidas diferentes consideremos também o conselho que a América dá à Rússia. Durante os protestos na praça Maidan em Kiev lembremos John Kerry pedindo a Yanukovich para mostrar calma para com os manifestantes. Ele mostrou tanta calma que deixou a cidade em vez de ordenar à polícia que avançasse e defendesse o Presidente, como poderiam ter feito. Podem imaginar um presidente americano a ser obrigado a fugir por protestos violentos em Washington? Em Washington, os protestos de Maidan não teriam durado dois dias. Se apontar uma arma letal a um polícia pode ser legalmente abatido. Em Kiev, foram mortos cerca de vinte policiais. Podemos imaginar a resposta violenta e desdenhosa se Putin tivesse aconselhado Obama a ter calma diante de protestos violentos, e a deixar-se derrubar.
E não falemos dos ditadores com quem a Rússia tem boas relações, na Síria, Coreia do Norte e Cuba, são atacados não de uma maneira diferente dos ditadores da Arábia Saudita, Barein, Quatar, Uzebequistão, Honduras, Tailândia e Egipto mas de modo a que a Rússia também não os ataque. Em geral o Ocidente não só não pratica o que prega à Rússia, prega onde a Rússia não está — embora não veja grande mal em pregar — sou lawrenciana —, não gosto da pregação de hipócritas.
Uma coisa que está presente na nossa inconsistente aplicação de padrões é o nosso uso da linguagem. Os manifestantes em Maidan protestavam; em Slaviansk, Kramatorsk, Maiupol eram rebeldes. O governo de Putin é frequentemente conhecido como regime, e assim ligado à ditadura, onde não existe, como não existe nos Estados Unidos uma democracia perfeita, mas Putin pessoalmente tem mais 20% de aprovação do que Obama. E pelo menos mais 25% do que Cameron. Mas há essencialmente uma palavra mal utilizada no contexto russo — «liberal». Essa é uma palavra notoriamente proteana, mas parece haver acordo sobre a sua denotação num contexto russo que em relação é Rússia é unânime, onde geralmente quer dizer «promover os valores ocidentais em relação à liberdade individual, igualdade, democracia e a regra da lei». Mas, quando se consideram as politicas desses políticos e comentadores descritas como liberais, descobrimos que aquilo que se vê é a promoção de politicas económicas estrangeiras alinhadas com os interesses ocidentais, enquanto outras possivelmente não liberais se mantém. Por exemplo, Aleksei Navalny, que é frequentemente descrito como o líder liberal da oposição, tem opiniões que a maioria dos liberais ocidentais considera racistas. Como a maioria dos russos não quer que a Rússia aceite os interesses geopolíticos e económicos da NATO à sua custa, e como o capitalismo ocidental está associado aos anos 90 (um período que nunca foi muito bem aceite no Ocidente com tendo sido uma catástrofe, os chamados «liberais» estão numa proporção pequena em relação ao voto popular. Mas a narrativa russofóbica confunde «liberal» com democrático. O facto das políticas de Putin terem mais apoio do que as chamadas liberais não torna Putin num anti liberal e os que se opõem a Putin democraticamente eleito não são pró democratas por essa razão. A Russofobia, segundo a ideia de Said no Orientalismo assenta assim e gera contradições. Também constrói um inimigo agressivo e a temer, ameaçando os seus vizinhos como a Ucrânia e a Geórgia. Por outro lado, cria um inimigo risível de que a economia esta fragilmente dependente do petróleo — um ponto que não é tão importante como quando pensamos na Arábia Saudita um aliado possuidor de petróleo
Mas tanto a agressão da Rússia como a sua fraqueza são sobrestimadas ou seja, o desejo (por razões que a seguir exporei) de construir um inimigo produz uma imagem (e mesmo, uma realidade), que se receia, cujo poder precisa de ser entendido. Desde 1989, quando se retirou do Afeganistão, mandou as suas tropas apenas para a Geórgia, e isso em apoio aos habitantes de um enclave semi-autónomo em que as tropas da Geórgia tinham entrado em violação de tratados internacionais. Na realidade não ameaçou ninguém.
Mas o conhecimento do seu poder é importante. Falando para comerciantes na Rússia — russos e estrangeiros — percebi que a Rússia tem produções imensa e economicamente diversas, evitando muitas das armadilhas de divida e sistema bancário falso que aflige a nossa economia.
A L’Oreal, Danone, Peugeot e Renault estão a conseguir grandes lucros na Rússia. Longe de estar totalmente dependente da exportação de petróleo, a Rússia tem muitos produtos manufacturados como aço, produtos químicos, farmacêuticos, roupa, construção de navios, maquinaria, aviões, alimentos processados, mobiliário, computadores, tractores, produtos ópticos, carros, telemóveis. Tem uma grande indústria de construção e lidera no campo nuclear a tecnologia espacial. O Ocidente provavelmente não pensa muito nisso porque são produtos pesados, não consumíveis, e não se encontram assim nas lojas ocidentais. O imposto de renda é baixo 13%, encorajando assim o crescimento económico (embora, em minha opinião seja uma medida temporária, e será depois substituída por um imposto de renda gradualmente mais socialista. Há um juro de 10% nas contas correntes. As sanções doeram, mas levaram também a um maior investimento interno. E a história da fraqueza russa deve-se à ignorância das suas relações com o resto do mundo ocidental. Há laços sino-russos a aumentar e relações estreitas entre a Rússia e muitos países asiáticos, africanos e sul-americanos, China e Japão, Índia e Paquistão, Israel e Palestina.
Quando assisti a uma reunião de comerciantes que discutiam respostas às sanções a Moscovo em Abril foi dito que os embaixadores que decidiram vir pelos menos os que eu vi— eram da Africa do Sul, México, Peru, Benim, Indonésia e Malásia. Nenhum do «Ocidente» e isso é realmente uma metáfora pelo facto de que o Ocidente não vê e não quer ver, as boas relações que a Rússia tem com o resto do mundo.
Mas há muitos factores que favorecem a construção e persistência da Russofobia.
Um dos primeiros e mais óbvios é o contacto limitado com o próprio país.
Desde o século dezasseis quando os europeus ocidentais começaram a viajar para a Rússia, observaram que a Rússia é difícil de atravessar, de entrar, e onerosa nos requisitos de passaporte. O mesmo acontece com a política quer dizer que não é fácil chegar a são Petersburgo para uma volta rápida — na realidade há muito menos voos directos entre Londres, o centro das vias aéreas e a segunda maior cidade do maior país do mundo — que, para qualquer outra parte do mundo, o que é estranho. O contacto limitado com a Rússia, e aprendizagem limitada da língua, significam capacidade limitada para testar a validade da imagem da media na Rússia. Essa imagem é parcialmente a construção de jornalistas que eles mesmos sabem muito pouco do país, e que fazem eco uns dos outros. Mas é igualmente a construção dos correspondentes estrangeiros locais como Luke Harding do The Guardien e Ed Lucas do The Economist’s, que na minha opinião caem dentro da categoria de pessoas que podem viver num país detestando-o e interpretando-o de maneira errada, assim como certas pessoas podem viver num país amando-o, e interpretando de maneira errada no sentido oposto.
Uma das características em favor do eco de opiniões entre jornalistas residentes e outros é o inverso de um fenómeno que descobri entre pessoas que discordam deles. Em Moscovo amigos meus que aprovam Putin incluem-se Russos, Americanos, um Finlandês e um Francês. Trabalham na Rússia como jornalistas, comerciantes e advogados. A sua visão política vai de Conservadores a quase comunistas e verdes. Mas todos eles, nos seus diversos caminhos e das suas perspectivas próprias acabaram por admirar Putin, cujas políticas não podem ser facilmente descritas em termos de análise da esquerda-direita tradicional. O inverso disso é que ele pode ser criticado de todas as perspectivas, pelo que temos, portanto, uma rara unidade na Russofobia britânica, entre a ala esquerda e a ala direita e mesmo em grandes jornais e tabloides.
Outra característica que favorece a Russofobia é que a sua imagem de Rússia condiz com imagens antigas que a Rússia tinha no Ocidente — principalmente como autocrática. O principal período de contacto entre a Europa ocidental e a Rússia tem sido caracterizado pela disparidade crescente entre níveis de democracia no Ocidente e no Oriente; isso era verdadeiro até recentemente. Afirmações de que Putin é autocrático enquadram bem numa narrativa primária sobre a Rússia, não condizente com a democracia: há só dois problemas. Um, o primarismo está agora tão desacreditado na ciência politica como o racismo, e por razões semelhantes (veja-se o êxito de Martin Sixsmith em 2011: Rússia: Mil anos do Oriente Selvagem). Segundo, Putin não é autocrático. A narrativa de reversão de autocracia depois dos anos relativamente democráticos de Yelstin, é particularmente absurda dado que em 1993 Yeltsin fechou jornais e enviou tanques para a Casa Branca para dispersar o Parlamento russo, que se opunha à sua política económica profundamente antipopular. Nos escassos anos seguintes calcula-se que entre 187 a 2.000 pessoas foram mortas. Putin nunca fez nada semelhante, e claro que é possível interpretar mal alguém cujas políticas são grandemente apoiadas — dentro e fora do parlamento — como um ditador que não vai contra a oposição.
Mas temos de dizer, que a Rússia tem sido uma casa maior do pensamento primordial, principalmente por si. O que é a ideia de russkaiadusha, ou a alma russa, mas um argumento que a Rússia é a) distinta e b) imutável na sua essência? O discurso da alma russa é complicado mas parte disso condiz com a ideia que o povo russo é subserviente e sofredor. E esta ideia é reforçada desde Tolstoi e Dostoievsky. Mas, não foi a única verdade primordialistica. O eurasianismo compete com o eslavofilismo, e o ocidentalismo — os ocidentalistas dizendo claro que a Rússia podia e devia pôr-se a par do Ocidente. Mas, a Rússia acima de tudo, tem na sua literatura e filosofia, dado encorajamento suficiente ao pensamento primordialista.
Mencionei a homologia do primordialismo ao racismo — e posso garantir que há uma dimensão racial na Russofobia do que posso ter alternadamente chamado Russismo. Mais uma vez vamos através da contradição. Por um lado, os Russos são acusados de favorecer a autocracia e a subserviência. Por outro, espera-se que eles se comportem como europeus ocidentais apesar das circunstancias históricas imensamente diversas e, tenho a certeza de que uma razão disso é que os russos europeus são exactamente iguais aos europeus ocidentais, o que não acontece com os Chineses ou os Turcos. Na proporção das diferenças de pigmentação de melanina, cor de olhos, e estrutura facial, pouca diferença de comportamento político é tolerada — e quando acontece, é então por reacção essencializado.
O próprio Putin tem sido amplamente demonizado. O seu passado de KGB é frequentemente invocado de um modo que ultrapassa o facto de que o próprio KGB era uma opção de carreira para jovens soviéticos ambiciosos quando ele escolheu essa carreira. Posso mencionar o facto de que ela citar Maxim Isayev como uma influência para o seu desejo de se juntar ao KGB. Isayev é o herói da mini série de culto soviética, Dezassete Instantes de uma Primavera — a resposta soviética a James Bond. Isayevé um agente russo que pretende ser um dirigente em Berlim no fim da Segunda Guerra Mundial. Era corajoso, culto, inteligente, generoso e de uma integridade soviética — um herói soviético, que protegia a Rússia da Alemanha e a Alemanha de si própria, um tipo que pessoas como Putin gostariam de ser. Claro, que sabemos que a espionagem não é como nos filmes. Mas na nossa era de revelações pós Snowden, é estranho continuar a atacar alguém por ter espiado cidadãos de outro país, e usar isso repetidamente como uma lente de interpretação negativa sobre todas as suas acções subsequentes.
Na sua apresentação como macho man Putin não faz favores ao Ocidente. Mas acho que os russos não precisam de ligar ao nosso desprezo generalizado por esta imagem, como os Britânicos não tem de ligar aos Americanos, cuja impressão generalizada é que todos os homens britânicos são gays. A razão disso é que o comportamento normal masculino aqui é mais suave, e metafórica e literalmente menos musculado, do que é a norma na América do Norte. Na Rússia o comportamento másculo de Putin é muito menos aceitável do que aqui — principalmente em contrate com as séries de gerontocratas que governaram a União Soviética após Stalin, e Yeltsin um embaraço etílico. Devemos lembrar que não é apenas pelo seu estilo machão que ele é admirado; é também admirado por uma vida limpa, em contrate com Yeltsin e muitos outros do período de Yelstin no poder, e com boa educação — fala Russo sem erros gramaticais, de novo em contrate com Yelstin.
Mas a sua auto-projecção é enfaticamente dirigida mais ao povo russo do que ao resto do mundo, e isso deve-se ao facto de que Putin não imita o Ocidente — bate-lhes (para usar uma metáfora inglesa) com um bastão directo. Algo de um desprezo de anúncio comunista surge na sua falta de interesse em anunciar o país ou a si próprio, no que toca ao Ocidente. Foi por isso que a Geórgia teve a maior cobertura no conflito Rússia-Georgia, de uma maneira que até Martin Sixsmith admite ter sido incrementada pela BBC.
Saakashvili educado na Columbia estava pronto a fazer de PR de uma maneira que Medvedev não estava. Um contraste diferente à Rússia é a China, que responde prontamente e até agressivamente à critica pública, e que até beneficia do opróbrio amontoado sobre a Rússia, desde que afaste as atenções de si mesma, sendo uma ameaça muito mais tangível para os interesses da Europa. A Rússia, por outro lado, nada faz para atacar a Russofobia.
Dou ainda mais razões para a atração da Russofobia. A desconfiança da media na Rússia já vem de longe, e com boa razão. A má atitude dos Russos, ainda hoje, é de cepticismo e crítica. Podem votar em Putin porque gostam dele ou das suas políticas, mas isso nãos os faz acreditar mais no que leem, e há ainda muita insegurança sobre o estado do país, sobre o que se queixam. Apesar do desafecto dos votantes deste país, penso que há um nível muito mais alto de segurança do que se lê no Guardian, noEconomist, The Sun, a BBC, entre os britânicos do que canais equivalentes na Rússia. Ou seja, uma diferença entre nós e os Russos é que somos menos cépticos sobre o que lemos.
Cuyu bono? Quais são as motivações mais obvias para criar a Russofobia?
Em resumo (e as razões substantivas realmente são breves): a política estrangeira da Rússia não segue a do Ocidente. Os fabricantes de armamento ocidentais não têm interesse numa nova Guerra Fria, porque a guerra contra o terror não preenche o vazio na venda de armas — especialmente de armas nucleares — deixado pelo fim da Guerra Fria. E a NATO necessita desesperadamente de raison d’être (razão de existir).
Mas os interesses dos fabricantes de armas e da NATO não são os do Ocidente num todo. A Russofobia age de maneiras muito contraproducentes. Restringe potencialmente a sua enorme cooperação económica e cultural e intercambio com a Rússia — uma razão porque os comerciantes se opuseram às sanções — e que empurra decisivamente a Rússia para uma cooperação económica, politica e militar com a China e na verdade com o resto do mundo. As sanções tiveram o efeito de obrigar a Rússia a pensar em desenvolver a sua própria versão do VISA. Fez repatriar a riqueza da Rússia espalhada fora. E na Ucrânia, o apoio ocidental de um golpe contra um presidente eleito colocou o país à beira de uma guerra civil, e aumentou o território da Rússia. Como um amigo meu tem comentado repetidamente «as guerras começam quando os políticos mentem aos jornalistas e depois acreditam no que lêem na imprensa. A popularidade de Putin estava em 83% na véspera dos acontecimentos na Ucrânia, e o sentimento dos russos comuns contra os Estados Unidos e a União Europeia começa a aumentar. Isso torna a vida mais difícil para os Russos cuja agenda politica tem apoio no Ocidente. Um bom exemplo é o dos activistas dos direitos gay, que têm muito mais dificuldade em alcançar os seus fins já que uma atitude pró-gay se alinha com uma atitude anti russa. Os activistas gay russos são agora um grupo muito mais isolado e de quem se desconfia do que antes de receber apoio ocidental.
Todos os russos familiarizados com a Russofobia veem que a Rússia está a ser criticada por muitas coisas erradas — e essa é a ironia mais trágica. O país não é perfeito. A segurança social é miserável; há problemas no exército e nas prisões, e problemas com racismo, drogas, e violência doméstica, a educação e a saúde estão mal; o imposto de renda está mal. Mas não por isso que a Rússia é criticada, tanto pelos ocidentais como pelos seus chamados partidos liberais, que estão obcessivamente preocupados com Putin.
As pessoas que sofrem na Rússia não são os lideres da oposição com a sua cobertura abundante na imprensa ocidental, mas os pobres.
E fora os Comunistas, e mesmo Putin quem fala deles?
A Russofobia é composta de ignorância, falha de cepticismo e raciocínio, orgulho, hipocrisia, condescendência e grosseria, tudo colocado ao serviço do complexo militar-industruial e da NATO: apoia uma Guerra Fria de um só lado, contra um país que só agora começa a erguer-se depois da queda, está mais interessada em melhorar as condições de vida do seu povo, não quer a guerra e não deseja ser nosso inimigo a menos que tenha de defender-se. Desejo-lhe o melhor
* Jornalista
Este texto foi publicado em:
http://www.informationcleaninghouse.info/article44908.htm

Tradução de Manuela Antunes

in ODiario.info

domingo, 17 de julho de 2016


Turquia e atentados à democracia

O presidente da Turquia, Recep Payyp Erdogan, afirma que a tentativa de golpe militar de sexta-feira foi um “presente de Deus”: vai permitir-lhe “limpar” as forças armadas.
Quem fala verdade não merece castigo, pelo que todos os deuses evitarão punir o autocrata turco, embora sabendo que muitos são os seus pecados.
E “limpezas” são a especialidade deste padrinho e protector de uma miríade de grupos de mercenários e terroristas entre os quais se destacam, para os que não estão lembrados ou o ignoram, o Daesh ou Estado e Islâmico e a Al-Qaida nos seus muitos e variados heterónimos.
Limpou o país da oposição, acusando os principais adversários de servirem os direitos nacionais curdos e ameaçando privá-los da nacionalidade turca. Para que não surgissem obstáculos à sua ascensão ao topo presidencial do poder fez manipular actos eleitorais através da propaganda, da censura e do medo, de tal modo que nem os observadores do Conselho a Europa e da OSCE, embora reconhecendo as irregularidades em privado, ousaram torná-las públicas e definitivas.
Limpou o aparelho judiciário e militar saneando centenas de juízes e os procuradores que denunciaram a corrupção governamental e da família Erdogan, designadamente a sua familiaridade pessoal e financeira com o banqueiro saudita Yassim al-Qadi, próximo de Bin Laden e conhecido internacionalmente como “o tesoureiro da Al-Qaida”. Por essa razão, está sob a mira da ONU, o que não o impede de deslocar-se a Ancara em avião privado para conviver e gratificar generosamente a família presidencial.
Vem limpando paulatinamente as forças armadas, mas este “presente de Deus”, como admitiu o próprio Erdogan, proporciona-lhe uma oportunidade de ouro para acelerar o processo. A partir de agora ruirá o maior obstáculo secular à confessionalização de um regime turco formatado em estrutura ditatorial e em teor fundamentalista islâmico.
Erdogan fala claro, disso não tenhamos dúvidas. Há 20 anos, em plena ascensão na carreira política, iniciada entre os fascistas e supremacistas “lobos cinzentos”, definiu a democracia como “um eléctrico que abandonamos quando chegamos à nossa paragem”. Recentemente falhou a consulta para impor uma Constituição “inspirada em Hitler” – as palavras são suas – de modo a consolidar um poder presidencial absoluto.
A seguir a esse intuito por ora fracassado, Erdogan começou então a receber “presentes de Deus”.
O atentado contra o aeroporto de Istambul parece ter sido um deles. Apear da autoria não ter sido reivindicada, Erdogan atribuiu-o ao Daesh, por conveniência da sua própria imagem internacional; mas por que razão os protegidos iriam atacar no coração do protector? Provavelmente por convergência de interesses – uma mão lava a outra, não é o que se diz? Um atentado é, sem dúvida, oportunidade de ouro para reforçar poderes de excepção e perseguir inimigos internos vários, mesmo que nada tenham a ver com a violência.
Quando ainda decorre o rescaldo do acto terrorista surge o golpe militar, com inegáveis debilidades de amadorismo num exército dos mais poderosos da NATO, precisamente com Erdogan ausente, “de férias”, circunstância excelente para um regresso triunfal, afirmativo, justificando limpezas. Deus não poderia ter sido mais generoso, em boa verdade.
Enfim, é a este ditador turco que a União Europeia paga anualmente três mil milhões de euros confiscados aos nossos impostos para impedir que cheguem à Europa os refugiados das guerras que os donos da Europa provocam. Para que conste, não há um vínculo formal entre o conselho Europeu e Erdogan sobre esta verba; foi estipulada apenas em comunicado de imprensa dos chefes de Estado e de governo da União Europeia.
Foi com este presidente turco que o governo francês negociou a garantia de não haver atentados do Daesh durante o Euro 2016, em troca do apoio à criação de um Estado curdo no Norte da Síria. Constatámos, da maneira mais trágica, que ao Daesh bastaram apenas quatro dias para se libertar do período de nojo, fazendo gato-sapato do securitarismo fanático e inconsequente de Hollande e Valls.
É a este presidente turco que a União Europeia ainda reconhece credenciais de democrata, apesar de o próprio rei Abdallah da Jordânia ter revelado o seu apoio ao Daesh, à Al-Qaida, ao contrabando de petróleo que serve de financiamento ao Estado Islâmico e de enriquecimento à mafia familiar de Erdogan.
Foi comovente – e patético – o apoio de grande parte da comunidade mediática a Erdogan durante as vicissitudes da tentativa de golpe e ao uso dos seus apoiantes como escudos humanos e carne para canhão nas ruas, praças e pontes das principais cidades da Turquia.
Entre a componente militar e a mafia governamental de Erdogan estavam em luta, durante a tentativa de golpe, dois conceitos de regime autoritário: um secular, outro fundamentalista islâmico. A democracia e os interesses populares não tinham nada a ver com aquela guerra entre elites interesseiras e pouco ou nada preocupadas com as pessoas.
O terrorismo islâmico, a guerra e a anarquia no Médio Oriente, porém, têm muito a ganhar com a absolutização do poder de Erdogan em Ancara. Ou seja, é impossível estar simultaneamente contra o terrorismo islâmico e temer pelo futuro político de Erdogan. A democracia não passa por aí, mas também já pouco se sabe dela nesta União Europeia.
Porém, quando a vida das pessoas está à mercê destes “presentes de Deus” é possível testemunharmos os acontecimentos e os ditos mais bizarros.
Via: anónimo séc. xxi http://bit.ly/29Z8m7Y

sábado, 16 de julho de 2016

OPINIÃO

O PCP não foi consultado para a nomeação (proposição) dos juízes do Tribunal Constitucional. O BE entrou alegremente no esquema oportunista. O PCP reagiu com firmeza, deixando claro, talvez mais do que nunca antes, que não apoia este Governo, apenas redigiu uma "posição conjunta" sobre determinadas matérias (nem todas foram cumpridas). 
Do PS não vem nada de novo ou que não se espere. Do Bloco o que se assiste é a uma feira de vaidades e de oportunismos, uma cobiça de poder, uma social-democracia com enfeites de esquerda "radical" para iludir os trabalhadores. Intelectuais conheço eu que adoram nadar nestas águas turvas.

OPINIÃO

Ora porra, fracassou o golpe na Turquia!
Onde se meteram os milhões de turcos que odeiam o sacana do Erdogan?
É o que sucede quando as massas não desfrutam da liderança e organização de um partido político preparado para estas circunstâncias...

sexta-feira, 15 de julho de 2016

LOUIS ALTHUSSER

Fórum

Althusser e a questão da atualidade da hegemonia

Oct 07, 2007
A análise do pensamento hegemônico nas sociedades contemporâneas requer a compreensão da utilização cada vez mais estratégica dos meios de comunicação e outros instrumentos da indústria cult
Resumo: A análise do pensamento hegemônico nas sociedades contemporâneas requer a compreensão da utilização cada vez mais estratégica dos meios de comunicação e outros instrumentos da indústria cultural. Louis Althusser foi um autor destacado na compreensão da imposição das idéias feitas pela classe dominante. Ao interligar os instrumentos de dominação ideológicas, a partir do conceito de superestrutura, e os instrumentos de dominação econômica, a partir do conceito infra-estrutura, o filósofo francês acrescenta elementos inovadores sobre o estudo da hegemonia. Como os meios de comunicação atuam na construção da hegemonia na sociedade brasileira? Esta questão será desenvolvida no presente trabalho.

A análise da hegemonia em nossos dias faz parte do amplo debate sobre a luta de idéias ocorridas nas sociedades contemporâneas. Ao mesmo tempo, há um movimento de negação da construção desta hegemonia, a partir da desconstrução do conceito de ideologia. Sob a justificativa que o mundo não é mais o mesmo, que as estruturas modernas do pensamento humano já estão superadas e as experiências políticas e econômicas do século 20, como o socialismo, fracassaram. Em determinada circunstância dos embates de concepções, chegam a questionar o capitalismo como um sistema que não é suficiente para o desenvolvimento humano, mas sem abrir mão das prerrogativas da acumulação do capital.
Neste contexto é que se procura identificar como são construídos os argumentos para a sustentação de um sistema tão desigual, como o neoliberalismo, aplicado na maioria dos países do mundo. Como estão situadas as sociedades no século 21?
A construção de argumentos que convençam amplas massas e direciona os acontecimentos sociais está relacionada cada vez mais a capacidade de controle dos meios de comunicação. É nesta condição que se resgata a idéia do filósofo Louis Althusser, que busca explicar a construção da hegemonia a partir do conceito de Aparelhos Ideológicos de Estado.
A atualidade do pensamento de Althusser
O filósofo argelino-francês Louis Althusser (Birmandreis/Argélia, 16/10/1918), desenvolveu o conceito de aparelhos ideológicos de Estado – AIEs para explicar como se constrói a ideologia dominante na sociedade, a partir da submissão de classes, através do convencimento, e não apenas pelos instrumentos tradicionais repressores do Estado, os aparelhos policiais e judiciais.
A principal obra de Althusser, Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado foi elaborada numa fase de conturbação e intensa disputa nas lutas de classes, em que a polarização entre os EUA e a então URSS criou um divisor de idéias na academia. O embate político e ideológico levou à radicalização na construção e desconstrução dos argumentos. O filósofo argelino-francês, militante comunista, exerceu forte influência entre os intelectuais de esquerda ao desenvolver a partir dos legados marxistas, o aprofundamento da formulação sobre a superestrutura e sua relação com as bases materiais da sociedade (infraestrutura ou base estrutural).
A atualidade de Althusser para os dias de hoje consiste na capacidade de sistematizar quais são os instrumentos utilizados pela classe dominante para exercer a função de maioria. Ao interligar os instrumentos de dominação ideológicas, a partir do conceito de superestrutura, e os instrumentos de dominação econômica, a partir do conceito infra-estrutura, o filósofo comunista acrescenta elementos inovadores ao pensamento marxista.
Seguindo os passos de Lênin e Gramsci, Althusser identifica a necessidade de esclarecer e desenvolver mais amplamente, à luz da realidade de seu tempo, as mudanças existentes sob o caráter ideológico da luta de classes.
O sentido de aparelhos ideológicos de Estado está diretamente ligado aos passos oferecidos por Lênin quando definirá a ideologia como a construção das idéias a partir das ciências sociais e de fundamento classista (diferente de Marx que conceituava ideologia como a formulação utópica do pensamento) e de Gramsci, que desenvolveu o conceito de hegemonia na sociedade (como visto acima).
Pela própria definição de Althusser, os aparelhos ideológicos são assim definidos:
Que são os Aparelhos Ideológicos de Estado (AIEs)?
Eles não se confundem com o Aparelho (Repressivo) de Estado. Convém lembrar que, na teoria marxista, o Aparelho de Estado (AE) contém o governo, os ministérios, o exército, a polícia, os tribunais, os presídios, etc, que constituem o que doravante denominaremos de Aparelho Repressivo de Estado. O ‘repressivo’ sugere que o Aparelho de Estado em questão ‘funciona pela violência’ – pelo menos no limite (pois a expressão, por exemplo a repressão administrativa, pode assumir formas não físicas).
Daremos o nome de Aparelhos Ideológicos de Estado a um certo número de realidades que se apresentam ao observador imediato sob a forma de instituições distintas e especializadas. Delas propomos uma listagem empírica, que obviamente terá que ser examinada em detalhe, verificada, corrigida e reorganizada.(...)
Num primeiro momento, está claro que, enquanto há
um Aparelho (Repressivo) de Estado, há uma pluralidade de Aparelhos Ideológicos de Estado. A unidade que constitui essa pluralidade de AIEs como um corpo – mesmo supondo que ela exista – não é imediatamente visível.
Num segundo momento, podemos constatar que, enquanto o Aparelho (Repressivo) – unificado – de Estado pertence inteiramente ao domínio público, a grande maioria dos Aparelhos Ideológicos de Estado (em sua aparente dispersão) pertence, ao contrário, ao domínio
privado. Igrejas, partidos, sindicatos, famílias, algumas escolas, a maioria dos jornais, os empreendimentos culturais, etc são particulares.(...)
(...). Se os AIEs ‘funcionam’ maciça e predominantemente pela ideologia, o que unifica sua diversidade é precisamente esse funcionamento, na medida em que a ideologia pela qual eles funcionam é sempre efetivamente unificada, a despeito de sua diversidade e suas contradições,
sob a ideologia dominante, que é a ideologia da ‘classe dominante’. Dado que, em princípio, a ‘classe dominante’ detém o poder estatal (abertamente ou, na maioria das vezes, mediante alianças entre classes ou frações de classes), e, portanto, tem a seu dispor o Aparelho (Repressivo) de Estado, podemos admitir que essa mesma classe dominante é atuante nos Aparelhos Ideológicos de Estado, na medida em que, em última análise, é a ideologia dominante que se realiza nos Aparelhos Ideológicos de Estado, através das suas próprias contradições. Althusser, in Zizek; 1999: 114, 115 e 116) 
Os aparelhos ideológicos de Estado constituem, portanto, os instrumentos que as classes dominantes utilizam para convencer a maioria da sociedade em consentir na exploração de classe e na usurpação da riqueza produzida por todos. Os principais AIEs propostos por Althusser, a partir de uma “listagem empírica” como denomina são: o religioso (o sistema das diferentes igrejas); escolar (públicas e particulares); familiar; jurídico; político (o sistema político, incluindo os diversos partidos); sindical; da informação (imprensa, rádio, televisão, etc) e cultural (literatura, artes, esportes, etc).
A atualidade de Althusser, portanto, está ligado ao exercício explicativo dos instrumentos que consolidam a hegemonia de uma sociedade.  Entre os principais instrumentos de difusão e consolidação de idéias na sociedade estão os meios de comunicação. Em especial, o papel dos jornais, como um dos aparelhos ideológicos de Estado mais influentes para a manutenção da hegemonia neoliberal na sociedade brasileira.
Para compreendermos a elaboração das idéias hegemônicas da sociedade é preciso identificar em que momento histórico e quais as condições colocadas para a  construção e a consolidação dessas idéias, seu funcionamento e legitimação diante das amplas massas sociais.
A Hegemonia no Século 21
Iniciamos o século 21 com as contradições mantidas pelos dois últimos séculos, a Humanidade avança com o desenvolvimento da ciência e tecnologia de forma jamais vista em nossa História e, ao mesmo tempo, aumentam e se agravam as desigualdades sociais. No início de um novo tempo estamos vinculados aos dilemas passados. Como promover desenvolvimento e distribuição da riqueza produzida? Qual o caminho da paz e o entendimento entre os povos? Como preservar a independência e identidade dos países e ao mesmo tempo se incorporar ao mundo globalizado e “sem fronteiras”?

Estamos diante da insegurança da guerra que já marcou períodos de virada de século (como as revoluções liberais na Europa do século 18/19, as guerras entre as potências e o advento do socialismo na virada dos séculos 19/20), mas há muito tempo não se via um mundo unipolar, onde os EUA têm o domínio militar e econômico isolado.
O neoliberalismo é a ideologia predominante com força no mundo, mas não sem resistência e contradições. Vivemos uma nova fase do capitalismo em que o sistema financeiro é a principal força das relações econômicas em seu estágio monopolista de poucas empresas que dominam o mercado internacional assumindo o protagonismo na industrialização e na comercialização de marcas, produtos e serviços.
Neste estágio, o avanço tecnológico com a microeletrônica, a nanotecnologia, a robótica, a biotecnologia e a genética, entre outros, resultam novas formas do sistema de produção da sociedade industrial.
As mudanças no mundo da produção já causam efeitos impressionantes alterando toda uma lógica industrial do século 20, em que as empresas eram poderosas e competitivas pela sua grandeza, ou seja, a capacidade de produção envolvendo a melhor qualidade com a maior rapidez estava ligada ao tamanho das suas máquinas, ao espaço produtivo como o tamanho das fábricas, a quantidade de trabalhadores incorporados (além da mão de obra especializada e altamente qualificada) e a concentração das unidades de produção (embora estivessem em muitos lugares no mundo).
As empresas do século 21 estão atuando de maneira inversa ao século anterior. Capacidade combina com leveza, flexibilidade e mínimo de estrutura, descentralização produtiva e rapidez. As marcas estão em sua fase monopolística, das grandes corporações e fusões. As partes de um mesmo produto podem ser produzidas em diversas regiões do mundo de acordo com a capacidade, matéria prima e baixo custo, sobretudo da mão de obra. Nas grandes empresas de tecnologia, há uma guerra para adquirir as melhores “cabeças” nas áreas de maior desenvolvimento técnico-científico rompendo fronteiras do conhecimento.
No mundo do trabalho a diversificação, a flexibilização e a diminuição dos postos de trabalho têm sido a marca das mudanças mo século 21. Ao mesmo tempo, os trabalhadores perdem direitos trabalhistas e postos de trabalho são fechados tanto pelas crises cíclicas de produção quanto pelas novas técnicas produtivas que necessitam de menor quantidade de mão de obra. A flexibilização altera a estrutura de organização do trabalho, superando a limitação das dimensões de espaço e tempo, fraciona o sistema produtivo e descentraliza o espaço físico. Depois do modelo fordista de sistema de produção e a experiência japonesa do fim dos estoques, a alta tecnologia cria novas condições de organização de produção.
Das novas condições do mundo do trabalho destacam-se, portanto, duas conseqüências sociais fundamentais, a flexibilização dos direitos trabalhistas e a diminuição dos postos de trabalho com o desdobramento da ampliação do exército de reserva e do desemprego e/ou trabalho informal.
A informação ganha realce nesta nova onda de desenvolvimento e passa a cumprir papel ainda mais significativo para o sistema capitalista. O advento da internet e da informação em tempo real é estratégico para a realização de transações comerciais e financeiras no mundo.
Os jornais, como aparelhos ideológicos de Estado para a manutenção da hegemonia neoliberal na sociedade brasileira
O debate acerca dos aspectos ideológicos da imprensa faz parte de uma razoável polêmica nos meios intelectual/acadêmico, político e entre os próprios veículos de comunicação. As principais questões estão ligadas à independência dos meios de comunicação que se auto-intitulam apartidários e não ideológicos, independentes e comprometidos com a verdade. Por outro lado, existem fatos para explicar como a grande imprensa se alinha às teses do neoliberalismo e cumpre papel decisivo na oposição aos governos distintos de suas opiniões.
A tese de uma imprensa não ideológica está explícito na orientação jornalística de alguns veículos de comunicação, na propaganda da maioria dos jornais, rádios e TV’s e na sustentação dos argumentos dos colunistas, articulistas e editoriais da imprensa. Destaca-se a orientação do jornal Folha de São Paulo, em seu manual de redação: “Em documentos anteriores a este, a Folha cristalizou uma concepção de jornalismo definido como crítico, pluralista e apartidário. Tais valores adquiriram a sua característica doutrinária que está impregnada na personalidade do jornal e que ajudou a moldar o estilo da imprensa brasileira nas últimas décadas” (Folha; 2001:17). Outros jornais não são explícitos em seus manuais, mas sempre registram seu caráter independente. O jornal O Globo, em recente editorial respondendo a uma resolução do PT sobre a cobertura tendenciosa da crise aérea respondeu em seu editorial: “Notícia não tem ideologia nem partido. Ela fala por si para os verdadeiros profissionais de imprensa e a mídia profissional. Reduzir o destaque de um fato por conveniências políticas só em diários oficiais, no antigo ‘Pravda’ soviético e no ‘Granma’ cubano” (O Globo; 2007: 06). Com este entendimento cria-se uma falsa idéia de um jornal que não se influencia por critérios ideológicos, sendo substituídos por critérios técnicos da informação. Isto se deve, provavelmente, a uma visão de que as estruturas ideológicas tais como conhecemos estão superados, em uma franca adesão ao pensamento pós-moderno e o fim das matrizes iluministas.
A imprensa faz sua opção ideológica e não há argumento de independência que se sustente, mesmo com todo o esforço feito pelos veículos de comunicação brasileiros para conquistar credibilidade através da isenção e relato “verdadeiro” dos fatos.
Não é apenas no Brasil o fato da imprensa fazer sua opção ideológica, em importantes acontecimentos no mundo inteiro, pode se verificar ações de mídia ativas a favor de governos, candidatos, e, sobretudo, idéias alinhadas ao neoliberalismo. Destacam-se quatro acontecimentos mundiais em que a grande imprensa buscou desenvolver teses que favoreciam apoiadores do neoliberalismo contra a realidade dos fatos.
A primeira e mais importante é a cobertura dos atentados de 11 de setembro de 2001 e seus desdobramentos. A imprensa norte-americana, mesmo a mais crítica aos republicanos, ofereceram total apoio ao governo George W. Bush quanto às teses que culminaram na instalação de um verdadeiro Estado de exceção, através da lei do Ato Patriótico e as invasões ao Afeganistão e ao Iraque. Redes de TV, rádio, jornais, revistas e outros veículos, se somaram aos argumentos fantasiosos do governo para justificar a beligerância e o rompimento de todas as regras internacionais vigentes. Ainda, na mesma forma do marcatismo, acusaram opositores dessas medidas de inimigos da pátria.
O segundo acontecimento foi a tentativa de golpe militar na Venezuela, em abril de 2002, orquestrada pelas elites venezuelanas em conluio com os EUA, igual as velhas fórmulas das ditaduras latinas. A RCTV, principal canal de televisão do país, cumpriu um papel estratégico na tentativa de derrubar o governo do presidente Hugo Chávez. O resultado, já sabido, foi a não renovação do canal público explorado pela RCTV, que gerou indignação em todas as redes de TV privadas na América Latina.
O terceiro acontecimento são os atentados no metrô de Madrid, em março de 2004, véspera da eleição presidencial da Espanha. Os principais veículos de comunicação espanhóis, capitaneados pelo jornal El País, foram ativos em defender a tese que os atentados foram cometidos pelo grupo de resistência basco ETA e não pela Al Qaeda, como se verificou posteriormente. A tentativa de sustentar a tese de o atentado ter sido cometido pelos bascos fragilizaria a candidatura do socialista José Luiz Rodrigues Zapatero (PSOE) e a ligação com a invasão ao Iraque derrubaria a candidatura do então presidente direitista José Maria Aznar (PP).  Os resultados foram os fatos irrefutáveis da ligação dos atentados com a invasão apoiada por Aznar e a clara manipulação dos meios de comunicação para tentar derrotar Zapatero.
O quarto acontecimento são as eleições presidenciais no Brasil, em outubro e novembro de 2006. A imprensa brasileira foi amplamente favorável ao candidato direitista Geraldo Alckmin (PSDB), opositor do presidente Lula (PT). A cobertura jornalística ajudou o candidato oposicionista a levar a eleição ao segundo turno. Embora os principais meios de comunicação tenham se movimentado amplamente para a vitória de Alckmin, foi Lula o vencedor das eleições com uma plataforma política mais clara de demarcação com o neoliberalismo.
Os quatro exemplos apresentados fazem parte da verificação de como a grande imprensa, através do domínio dos interesses das empresas jornalísticas (ou da indústria cultural) se comportam diante dos momentos decisivos nas diversas sociedades globais.
Os jornais assim como outros diversos veículos de informação, como aparelhos ideológicos de Estado, se renderam à ideologia neoliberal. Para o estudo apresentado neste trabalho, a cobertura jornalística de O Globo e Folha de São Paulo são tendenciosas para defender um determinado ponto de vista ideológico e entram na disputa política apoiando, mesmo que indiretamente, uma candidatura que mais se identifica com seus ideais. Na disputa política os jornais funcionaram como instrumento de luta de idéias.
E isto não significa que os jornais são partidários, ao contrário, se posicionam acima dos partidos, mas no nível dos seus próprios interesses, não há opinião política dos jornais que não sejam irremovíveis ou insubstituíveis.

A defesa do mercado enquanto instrumento eficiente na regulação social faz com que os jornais tenham posições políticas como as privatizações e a menor intervenção do Estado na economia. Enquanto empresas de comunicação, estes jornais também estão comprometidos com a defesa irrestrita da propriedade privada e têm interesses específicos que em algumas ocasiões podem interferir na notícia publicada.
Os jornais O Globo e Folha de São Paulo são instrumentos importantes para a defesa dos princípios do liberalismo econômico, inclusive em sua fase atual, o neoliberalismo, cumprindo um papel de formar opinião na sociedade, na emissão da mensagem a partir deste conceito ideológico. O mercado concentra os veículos de comunicação nas mãos de poucos grupos ou famílias enquadrando a verdade em interesses privados muito específicos.

Portanto, os jornais analisados neste trabalho têm compromissos político e ideológicos definidos, fazem uma opção de classe muito clara. Cumprem um papel de aparelho ideológico de Estado fazendo com que as opiniões emitidas e mesmo notícias publicadas tenham uma tendência de apoio à ideologia dominante.

Isto não significa, contudo que estes jornais estão vinculados a todo e qualquer governo, partido ou personalidade política, ao contrário, o compromisso é com o sistema econômico e social, mesmo que haja pontualmente críticas republicanas à corrupção, à miséria social ou a outros assuntos relevantes. Estas críticas e posições próprias de cada veículo de comunicação fazem parte das características das lutas de idéias no seio do próprio liberalismo.
  
A construção da tese do Consenso de Washington é o exemplo mais claro da demonstração da construção dos critérios de hegemonia nos anos 1990. A globalização, elemento fundamental da base do consenso, foi considerada nesse período, como inevitável, ou seja, não havia alternativa nenhuma de desenvolvimento no mundo a não ser pela integração entre os povos numa espécie de consentimento dos países mais pobres à exploração e subjugados pelos países desenvolvidos A inevitabilidade da globalização significou a abertura de todas as barreiras possíveis de comércio, de produção industrial, do sistema financeiro, das mudanças das leis em cada país, até chegar a proposta não realizada por completo de desmilitarização e unificação das unidades armadas em uma força internacional. A orientação e o comando de cada uma das propostas foram desenvolvidos pelos países ricos, em particular o exercício unipolar dos EUA.
Cada uma das propostas apresentadas tinha como elementos fundamentais, a orientação das mudanças econômicas em cada país prevalecendo o receituário de diminuição dos déficits das contas públicas através de cortes nos orçamentos que consistiam em não vincular receitas aos projetos de subsídios internos para o desenvolvimento econômico (a depender da realidade de cada país) e projetos nas áreas de serviços públicos e assistência social. A necessidade de o Estado deixar de ser empreendedor para exercer a função de fiscalizador e gerenciador da economia, em outras palavras, significava as privatizações e a concessão de serviços. A integração entre os países pressupunha as mudanças das leis internas de remessas de lucros, composição de capitais externos nos setores da economia e o caráter de empresa nacional, para aplicar a abertura interna aos capitais e produtos estrangeiros, sob o argumento de forçar os produtores nacionais a se adequarem às novas condições de competitividade internacional. A diminuição do papel do Estado tinha como fundamento a capacidade dos mercados de se autoregularem à base dos equilíbrios de competitividade, com isso, as taxas de câmbio e taxas de juros, por exemplo, deveriam seguir a lógica das demandas dos próprios mercados. Além, evidentemente, de procurar resguardar todos os contratos com os organismos internacionais e preservar o inalienável direito à propriedade privada.

Essa receita foi seguida pela maioria dos países, com níveis diferenciados de resistências. O resultado foram crises cíclicas cada vez mais profundas, que abalaram os alicerces do Consenso de Washington e causaram atrasos e desigualdades ainda piores para os países em desenvolvimento. O consenso foi um completo fracasso.
A aplicação dos modelos neoliberais na maioria dos países, em especial no Brasil, foi aceita pela maioria da população com a eleição e reeleição de Fernando Henrique Cardoso pela construção da hegemonia no país, através dos instrumentos da classe dominante.
Quando a Folha de São Paulo (de forma mais clara) e O Globo optam pelo argumento da modernidade, entendido como o processo pelo qual o Estado perde espaço na organização social deixando para os mercados a responsabilidade de desenvolvimento econômico e social, estão utilizando o discurso ideológico do neoliberalismo. A modernidade significa superar estruturas consideradas atrasadas de domínio estatal dos setores estratégicos da economia e da legislação de proteção social, como as leis trabalhistas, por exemplo, substituindo pelas regulações básicas de convivência das disputas comerciais e produtivas da iniciativa privada.
A palavra modernidade, que outrora significava a superação do velho pelo novo, correspondente a um avanço na sociedade, no argumento ideológico das elites, transformou-se em um retrocesso radical de exploração de classes, em que um país em desenvolvimento fica cada vez mais dependente de outros países exploradores e a imensa população menos favorecida tem seus direitos sociais cada vez mais aviltados.
O discurso do novo, do moderno, sempre presente nos argumentos dos jornais para a aprovação das privatizações, da abertura desregulada do mercado interno, das reformas que cortam direitos sociais, da restrição dos investimentos públicos, da desqualificação dos movimentos questionadores do status quo, inverte o papel diversificador e democrático que deveriam ter esses veículos de comunicação, para exercer a função de aparelhos ideológicos de Estado e assim manter o caráter hegemônico do neoliberalismo.
Os argumentos, as lutas de idéias travadas pelos jornais, estão diretamente ligadas à preservação do modo de produção dominantes, à estrutura de funcionamento social de exploração de classe. A posição diante das privatizações e abertura da economia nacional está ligada aos grupos econômicos oligopolizados nacionais e estrangeiros; a crítica à crítica da propriedade privada é essencial para a manutenção do sistema, sem a menor dúvida para os jornais; as explicações do nosso atraso social e a falsa consternação contra a miséria estão ligados ao pressuposto que qualquer mudança deva preservar os privilégios de classe.
Portanto, a manutenção do sistema de exploração de classe depende necessariamente da imposição das leis sobre o funcionamento social, aplicada pelo Estado, e o convencimento da maioria da sociedade através dos instrumentos disponíveis, destacadamente a escola, a igreja e os meios de informação.
A disputa hegemônica da sociedade, contudo, não ocorre de maneira abstrata e meramente subjetiva, nem sem disputas entre os grupos (ou blocos) dominantes, como afirma Althusser:
É por isso que os AIEs não são a realização da ideologia em geral, nem tampouco a realização sem conflito da ideologia da classe dominante. A ideologia da classe dominante não se transforma na ideologia dominante pela graça divina, nem em virtude da simples tomada do poder estatal. É através da instauração dos AIEs, em que essa ideologia é realizada e se realiza, que ela se torna a dominante. Mas essa instauração não se faz sozinha; ao contrário, é o pivô, de uma luta de classes muito acirrada e contínua, primeiro contra as classes dominantes anteriores e sua posição nos velhos e novos AIEs, e depois contra a classe dominada. (Althusser, in Zizek; 1999: 140)
A partir dos conflitos existentes dentro dos próprios AIEs é que se justifica as diferenças de classes e nas classes sociais, permitindo a disputa pela hegemonia nesses aparelhos. 
A disputa pela consciência coletiva é uma constante e envolve os interesses das empresas jornalísticas pautadas pela lógica de mercado. O papel de qualquer empresa no capitalismo é a busca do lucro, distinto do papel do jornalismo que é a busca da verdade. A contradição entre empresa jornalística e jornalismo é a utilização da segunda em função da primeira. Daí que o argumento de Althusser sobre aparelhos ideológicos de Estado funciona, para demonstrar que todas as posições dos grandes jornais estão diretamente ligados aos interesses das empresas jornalísticas e aos grupos econômicos a elas ligados.
A construção da hegemonia é perfeitamente aplicável em nossos dias porque o sistema capitalista, mesmo em processos de transformação e superação de suas crises cíclicas (que ocorrem inevitavelmente em espaços de tempo cada vez menores), mantém a estrutura de funcionamento e sua justificativa ideológica, em essência, igual a sua origem. O neoliberalismo, atual fase da aplicação política e econômica do liberalismo, traz à tona a forma mais ofensiva da exploração de classes.
Portanto, esse estudo busca demonstrar como as classes dominantes impõem sua ideologia, baseada não apenas nos instrumentos coercitivos do Estado, mas efetivamente na persuasão e convencimento para a sociedade civil. Os grandes jornais, pertencentes aos grupos econômicos aliados que compõe a classe dominante, funcionam como aparelhos ideológicos de Estado, instrumentos fundamentais para o exercício do poder.

Bibliografia
ALTHUSSER, Louis (1996). “Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado”. IN ZIZEK, Slavoj. Um Mapa da Ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, pp. 105-142. 
Manual de Redação – Folha de São Paulo, Publifolha, 6a edição, São Paulo, 2001.
Periódico: Jornal O Globo, editorial, página 06, edição de 04/08/2007.

Trabalho apresentado no II Seminário Comunicação na Sociedade do Espetáculo, realizado nos dias 5 e 6 de outubro de 2007, na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.
 

Rodrigo de Carvalho é atualmente professor de Sociologia da Comunicação na Fapcom - Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação e consultor do Ministério da Cultura para projetos de Livro e Leitura.



segunda-feira, 11 de julho de 2016


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Antreus

Manel, arrête, arrête!

Íamos nós dans la route à toute la vitesse, com a mão do Manel brincando dans mes jambes, dans la direction Argenteuille -Saint Denis porque o meu Manel n’a arrivé à obtenir os bilhetes para o Stade de France e nós tínhamos un grand désir de saluer os nossos rapazes quoi qu’il soit le résultat, alors nous étions dejà muito perto e o meu Manuel ia-se entusiasmando avec sa main quando o Éder meteu o golo e aí fez-me festas plus avante, ele não viu l´autre mobile devans nous. Nous avons crié à bon coeur, ainda eu disse Manel, arrête, arrête. Mas ele não se arretou e deu-se l’accident…pimba! e o da frente saiu do carro com o mesmo cachecol, il a même baisé mon mari e je lui a dit desta vez passa mas vai é beijar la femme de ton auto ao que ele m’a répondu qu’ils étaient déjá bem tratados e eu confirmei qu’elle a sorti du mobile demi nue et criait a bons pulmões,”Campeões, campeões, nós somos campeões!” e veio-me baiser aussi, ainda por cima eram egitanenses comme nous!… ah, rapazes tantas emoções num só minuto que je vai raconter à mes petits-enfants
Campeões, campeões, nós somos campeões!
Via: antreus http://bit.ly/29Hzj1E

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

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Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

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Viagem à Sicília

Pupis

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Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

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Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

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Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

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Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

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Roma-Fonte Trévis

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Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

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Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

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Grécia

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Acrópole

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Viagem à Grécia

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NOSTALGIA

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CLAUSTROFOBIA

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