quinta-feira, 3 de novembro de 2016


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Por dentro do governo invisível: guerra, propaganda, Clinton & Trump


O papel dos media no condicionamento e manipulação da opinião pública nunca foi tão grande. Nunca foi tão grande a sua cumplicidade com os objectivos, as estratégias, as guerras e os crimes do imperialismo. O facto de apoiarem Clinton na eleição presidencial nos EUA quase obriga a reflectir sobre o que é que os incomoda em Trump.
O jornalista norte-americano Edward Bernays é frequentemente descrito como o homem que inventou a propaganda moderna. Sobrinho de Sigmund Freud, o pioneiro da psicanálise, foi Bernays que cunhou o termo “relações públicas” como um eufemismo para os truques de comunicação (spin) e seus enganos.
Em 1929, persuadiu feministas a promoverem cigarros para mulheres fumando no desfile da Páscoa de Nova Iorque – comportamento considerado então bizarro. Uma feminista, Ruth Booth, declarou: “Mulheres! Acendam outra tocha da liberdade! Derrubem outro tabu sexista!”
A influência de Bernays estendeu-se muito para além da publicidade. O seu maior sucesso foi papel que desempenhou em convencer o público norte-americano a aderir ao morticínio da Primeira Guerra Mundial. O segredo, disse, era a “engenharia do consentimento” das pessoas a fim de as “controlar e arregimentar de acordo com a nossa vontade sem que se dêem conta disso”.
Descreveu isso como “o verdadeiro poder dominante na nossa sociedade” e chamou-lhe um “governo invisível”.
Actualmente o governo invisível nunca foi tão poderoso e tão pouco compreendido. Na minha carreira como jornalista e cineasta, nunca conheci propaganda que interviesse tanto nas nossas vidas e permanecesse incontestada.
Imaginem duas cidades.
Ambas estão sob o cerco das forças do governo do país. Ambas estão ocupadas por fanáticos que cometem atrocidades terríveis, tais como a decapitação de pessoas.
Mas existe uma diferença fundamental. Num dos cercos, os soldados do governo são descritos como libertadores por repórteres ocidentais neles incorporados, que entusiasticamente relatam as suas batalhas e ataques aéreos. Há primeiras páginas de jornais com fotos destes heróicos soldados a fazerem o V de vitória. Há escassa menção a baixas civis.
Na segunda cidade – em outro país vizinho – quase exactamente o mesmo está a acontecer. As forças do governo sitiam uma cidade controlada pela mesma raça de fanáticos.
A diferença é que esses fanáticos são apoiados, financiados e armados por “nós” – Estados Unidos e Grã-Bretanha. Eles dispõem até de um centro de media que é financiado pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha.
Outra diferença é que os soldados do governo que mantêm esta cidade sob cerco são os maus, condenados por agredir e bombardear a cidade – o que é exactamente o que os bons soldados fazem na primeira cidade.
Faz confusão? Na verdade não. Tal é o duplo critério básico que é a essência da propaganda. Refiro-me, naturalmente, ao cerco actual da cidade de Mossul pelas forças do governo do Iraque, que são apoiadas pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha e ao cerco de Alepo pelas forças do governo da Síria, apoiados pela Rússia. Um é bom; o outro é mau.
O que raramente se informa é que ambas as cidades não teriam sido ocupadas por fanáticos e devastadas pela guerra se a Grã-Bretanha e os Estados Unidos não tivessem invadido o Iraque em 2003. Esse empreendimento criminoso foi lançado sob mentiras notavelmente semelhantes à propaganda que agora distorce a nossa compreensão da guerra civil na Síria.
Sem o rufar dessa propaganda apresentada como notícia o monstruoso Daesh, a Al-Qaida, a al-Nusra e o resto da gangue jihadista poderia não existir, e o povo da Síria poderia não estar hoje a lutar pela sua vida.
Alguns podem lembrar, em 2003, uma sucessão de repórteres da BBC a voltarem-se para a câmara e a dizer-nos que Blair fora “vingado” pelo que acabou por ser o crime do século. As redes de televisão norte-americanas produziram a mesma validação para George W. Bush. A Fox News foi buscar Henry Kissinger para apoiar as falsificações de Colin Powell.
No mesmo ano, logo após a invasão, filmei uma entrevista em Washington com Charles Lewis, o famoso jornalista de investigatigação americano. Perguntei-lhe: “O que teria acontecido se os meios de comunicação mais livres do mundo tivessem seriamente contestado o que acabou por ser crua propaganda?”
Respondeu que se os jornalistas tivessem feito seu trabalho, “há uma muito, muito boa probabilidade de que não teríamos ido para a guerra no Iraque”.
Foi uma declaração chocante, e apoiada por outros jornalistas famosos a quem coloquei a mesma pergunta – Dan Rather da CBS, David Rose do Observer e jornalistas e produtores da BBC, que preferiram o anonimato.
Por outras palavras, se os jornalistas tivessem feito o seu trabalho, se tivessem contestado e investigado a propaganda ao invés de a amplificar, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças estariam vivas hoje, e não haveria ISIS nem o cerco de Alepo ou Mossul.
Não teria havido nenhuma atrocidade no metro de Londres em 7 de Julho de 2005. Não teria havido nenhuma fuga de milhões de refugiados; não haveria acampamentos miseráveis.
Quando a atrocidade terrorista de Novembro último aconteceu em Paris, o presidente François Hollande enviou imediatamente aviões para bombardear a Síria – e mais terrorismo seguiu-se, como era de prever, o resultado da fanfarronada de Hollande acerca de a França estar “em guerra” e não “mostrar nenhuma clemência”. Que a violência estatal e violência jihadista se alimentam mutuamente é a verdade que nenhum líder nacional tem a coragem de exprimir.
“Quando a verdade é substituída pelo silêncio”, disse o dissidente soviético Yevtushenko, “o silêncio é uma mentira.”
O ataque ao Iraque, o ataque à Líbia e o ataque à Síria aconteceram porque o governo de cada um desses países não era um fantoche do Ocidente. O cadastro de direitos humanos de um Saddam ou de um Kadhafi era irrelevante. Não obedeceram a ordens nem renunciaram ao controlo dos seus países.
O mesmo destino aguardava Slobodan Milosevic uma vez que se recusou a assinar um “acordo” que exigia a ocupação da Sérvia e a sua conversão numa economia de mercado. O seu povo foi bombardeado, e ele foi processado em Haia. Independência deste tipo é intolerável.
Como revelou a WikiLeaks, foi apenas quando o líder sírio, Bashar al-Assad, rejeitou em 2009 um oleoduto que atravessaria o seu país do Qatar para a Europa, que foi atacado.
A partir desse momento, a CIA planeou destruir o governo da Síria com fanáticos jihadistas – os mesmos fanáticos que actualmente mantêm refém o povo de Mossul e de Alepo oriental.
Por que não é isso notícia? O ex-funcionário da chancelaria britânica Carne Ross, que foi responsável pela manutenção de sanções contra o Iraque, disse-me: “Nós alimentávamos os jornalistas com factóides de inteligência higienizada, ou deixávamo-los congelados do lado de fora. Era assim que funcionava.”
O cliente medieval do Ocidente, a Arábia Saudita – à qual os EUA e a Grã-Bretanha vendem milhares de milhões de dólares em armas – está actualmente destruindo o Iémen, um país tão pobre que, no melhor dos casos, metade das crianças são desnutridas.
Procure no YouTube e verá o tipo de bombas maciças – “nossas” bombas – que os sauditas usam contra aldeias miseráveis e contra casamentos e funerais.
As explosões parecem pequenas bombas atómicas. Os apontadores de bombards na Arábia Saudita trabalham lado a lado com os oficiais britânicos. Este facto não está no noticiário da noite.
A propaganda é mais eficaz quando o nosso consentimento é engendrado por gente com uma boa educação – Oxford, Cambridge, Harvard, Columbia – e com carreiras na BBC, The Guardian, The New York Times, The Washington Post.
Estas organizações são conhecidos como os media liberais. Apresentam-se como escllarecidos, tribunas progressistas do espírito moral (zeitgeist) da época. São anti-racistas, pró-feministas e pró-LGBT.
E amam a guerra.
Enquanto falam em defesa do feminismo, apoiam guerras de rapina que negam os direitos de inúmeras mulheres, incluindo o direito à vida.
Em 2011 a Líbia, então um estado moderno, foi destruída com o pretexto de que Muammar Kadhafi estava prestes a cometer genocídio contra o seu próprio povo. Foi uma notícia incessantemente repetida; mas não existia qualquer prova. Era uma mentira.
Na verdade, a Grã-Bretanha, Europa e os Estados Unidos queriam aquilo a que gostam de chamar “mudança de regime” na Líbia, o maior produtor de petróleo da África. A influência de Kadhafi no continente e, acima de tudo, a sua independência eram intoleráveis.
Assim, ele foi assassinado com uma faca no traseiro por fanáticos apoiados pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. Hillary Clinton aplaudiu a sua morte horrível diante das câmaras, declarando: “Viemos, vimos, ele morreu!”
A destruição da Líbia foi um triunfo dos media. À medida que os tambores de guerra eram rufados, Jonathan Freedland escrevia no Guardian: ”Embora os riscos sejam muito reais, a necessidade de intervenção continua a ser forte.”
Intervenção – uma palavra polida, benigna, utilizada pelo Guardian, cujo significado real, para a Líbia, foi a morte e destruição.
De acordo com os seus próprios registos, a OTAN lançou 9.700 “missões de ataque” contra a Líbia, das quais mais de um terço foram apontadas a alvos civis. Incluíam mísseis com ogivas de urânio. Olhem para as fotografias dos escombros de Misurata e Sirte, e as valas comuns identificadas pela Cruz Vermelha. O relatório da UNICEF sobre as crianças mortas diz, “a maioria [delas] com idade inferior a dez anos”.
Como consequência directa, Sirte tornou-se a capital do Daesh.
A Ucrânia é outro triunfo dos media. Jornais liberais respeitáveis, como o New York Times, o Washington Post e The Guardian, e emissoras tradicionais, como a BBC, NBC, CBS, CNN têm desempenhado um papel fundamental no condicionamento dos seus telespectadores para aceitar uma nova e perigosa guerra fria.
Todos têm deturpado os acontecimentos na Ucrânia como sendo um acto perverso da Rússia quando, na verdade, o golpe na Ucrânia em 2014 foi trabalho dos Estados Unidos, ajudados pela Alemanha e pela NATO.
Esta inversão da realidade é tão difusa que a intimidação militar da Rússia por parte Washington não é notícia. É ocultada por trás de uma campanha de difamação e terror da mesma espécie daquela em que cresci durante a primeira guerra fria. Mais uma vez, os Ruskies estão a vir apanhar-nos, liderados por outro Estaline, que The Economist descreve como o diabo.
A supressão da verdade sobre a Ucrânia é um dos mais completos blackouts noticiosos que posso lembrar. Os fascistas que engendraram o golpe em Kiev são da mesma cepa que apoiou a invasão nazi da União Soviética em 1941. De todos os alarmismos acerca da ascensão do fascismo anti-semita na Europa, nunca algum líder sequer menciona os fascistas na Ucrânia – excepto Vladimir Putin, mas esse não conta.
Muitos nos media ocidentais têm trabalhado arduamente para apresentar a população étnica de língua russa da Ucrânia como estranha a seu próprio país, como agentes de Moscovo, quase nunca como ucranianos que pretendem uma federação dentro da Ucrânia e como cidadãos ucranianos resistindo a um golpe orquestrado pelo estrangeiro contra o seu governo eleito.
Há quase a alegria de uma reunião de ex-alunos entre os belicistas.
Os que rufam o tambor do Washington Post a incitar à guerra com a Rússia são os mesmos editorialistas que publicaram a mentira de que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa.
Para a maior parte de nós, a campanha presidencial norte-americana é um espectáculo mediático coisas esquisitas, em que Donald Trump é o arqui-vilão.
Mas Trump é odiado por aqueles com poder nos Estados Unidos por razões que pouco têm a ver com os seus comportamento e opiniões obnóxias. Para o governo invisível em Washington, o imprevisível Trump é um obstáculo para o projecto da América para o século 21.
Este é manter o domínio dos Estados Unidos, subjugar a Rússia e, se possível, a China.
Para os militaristas em Washington, o verdadeiro problema com Trump é que, nos seus momentos de lucidez, ele parece não querer uma guerra com a Rússia; quer dialogar com o presidente russo, não combatê-lo; diz que quer dialogar com o presidente da China.
No primeiro debate com Hillary Clinton, Trump prometeu não ser o primeiro a introduzir armas nucleares num conflito. Afirmou: “Eu certamente não faria o primeiro ataque. Uma vez que a alternativa nuclear se verifica, está tudo acabado”. Isso não foi notícia.
Será que ele realmente quis dizer isso? Quem sabe? Muitas vezes ele contradiz-se. Mas o que está claro é que Trump é considerado uma séria ameaça ao status quo mantido pela vasta máquina de segurança nacional que dirige os Estados Unidos, pouco importando quem está na Casa Branca.
A CIA quer vê-lo derrotado. O Pentágono quer vê-lo derrotado. Os media querem vê-lo derrotado. Mesmo o seu próprio partido quer vê-lo derrotado. Ele é uma ameaça para os governantes do mundo – ao contrário de Clinton, que não deixou nenhuma dúvida de que está preparada para ir para a guerra com armas nucleares contra a Rússia e a China.
Clinton tem cabedal para isso, como muitas vezes se gaba. Na verdade, o seu registro é comprovado. Como senadora, apoiou o banho de sangue no Iraque. Quando concorreu contra Obama em 2008 ameaçou “obliterar totalmente” o Irão. Como secretária de Estado, foi conivente com a destruição de governos na Líbia e em Honduras e pôs em marcha o assédio da China.
Ela já se comprometeu a apoiar um No Fly Zone (interdição de voo) na Síria – uma provocação directa para a guerra com a Rússia. Clinton pode muito bem tornar-se a mais perigosa presidente dos Estados Unidos de toda a minha vida – uma distinção para a qual a concorrência é feroz.
Sem um fiapo de prova, Clinton pôs-se a acusar a Rússia de apoiar Trump e de ter hackeado os seus emails. Divulgados pela WikiLeaks, esses emails revelam que tudo que Clinton diz em privado, em discursos e “palestras” compradas pelos ricos e poderosos, é exactamente o oposto do que ela diz publicamente.
Por isso é tão importante silenciar e ameaçar furiosamente Julian Assange. Como editor da WikiLeaks, Assange conhece a verdade. E deixem-me esclarecer desde já e tranquilizar os muitos que se preocupam: Assange está bem; e a WikiLeaks está operando a pleno vapor.
Está hoje em curso a maior acumulação de forças lideradas pelos EUA desde a Segunda Guerra Mundial – no Cáucaso e na Europa Oriental, na fronteira com a Rússia, na Ásia e no Pacífico, onde o alvo é a China.
Tenha isso em mente quando o circo da eleição presidencial chegar ao seu final em 8 de Novembro. Se o vencedor for Clinton, um coro grego de patetas comentadores irá celebrar a sua coroação como um grande passo em frente para as mulheres. Nenhum vai mencionar as vítimas de Clinton: as mulheres da Síria, as mulheres do Iraque, as mulheres da Líbia. Ninguém vai mencionar os exercícios de defesa civil que estão sendo realizados na Rússia. Ninguém vai lembrar as “tochas da liberdade” de Edward Bernay.
O porta-voz de George Bush certa vez chamou aos media “facilitadores cúmplices”.
Vindo de um alto funcionário numa administração cujas mentiras, potenciadas pelos media, causaram aquele sofrimento, essa descrição é uma advertência da história.
Em 1946 o acusador público do Tribunal de Nuremberga disse acerca dos media alemães: “Antes de cada grande agressão eles iniciaram uma campanha de imprensa calculada para enfraquecer as suas vítimas e para preparar psicologicamente o povo alemão para o ataque. No sistema da propaganda, as armas mais importantes foram a imprensa diária e a rádio.”
28/Outubro/2016
O original encontra-se em http://www.counterpunch.org/…
Encontra-se em http://resistir.info/
A tradução de choldraboldra.blogspot.pt/… foi revista por odiario.info
John Pilger | ODiario.info 

PS não mudou de identidade

José Paulo Gascão    03.Nov.16    Colaboradores
Um muito importante texto que nos transporta, numa larga panorâmica, pela crise estrutural do capitalismo, afectando a gigantesca massa proletarizada de todos os que vivem do seu trabalho; pelas propostas de saída desta crise sem colocar em causa o sistema que a gerou; pela natureza e identidade da social-democracia que, hoje como antes, a torna parte do problema e não da solução.
1 – INTRODUÇÃO
Durante a contagem de votos na noite das últimas eleições legislativas em 4 de outubro de 2015, já Marco António Costa tinha agradecido «… a todos os portugueses (…) o sinal muito claro da determinação de manter um percurso muito definido», quando Francisco Lopes (21:40) avançou que a coligação PSD/CDS «perde a possibilidade de formar governo, a menos que haja da parte do Presidente da República uma entorse dos resultados eleitorais».
Jerónimo Sousa, pelas 22:05, concretiza um pouco mais o que Francisco Lopes dissera e afirma que os deputados comunistas «não irão viabilizar um governo de direita que não tenha maioria absoluta». E acrescenta: «está nas mãos do PS a solução».
Ainda pelas 22:40 de 4 de outubro, António Costa saúda Pedro Passos Coelho e Paulo Portas “pelo resultado alcançado” e acrescentou que «a maioria que expressou a vontade de mudança ainda não se expressou numa maioria de governo», concluindo que «o PS assume a plena responsabilidade de garantir que a vontade dos portugueses não se perca na ingovernabilidade». Acrescentou que respeitava o veredicto dos resultados eleitorais, ir fazer uma oposição séria e responsável, e disse aceitar «a decisão dos portugueses, mesmo quando não concorda(mos) com ela».
No dia seguinte, quando Jerónimo de Sousa em conferência de imprensa que se seguiu à reunião do Comité Central afirmou que «o PS só não forma governo se não quiser», o PCP determinou a derrota da coligação PSD/CDS e da sua política submissa ao capital monopolista nacional, europeu e norte-americano.
A longa espera que se seguiu até à posse do governo PS, em 24 de novembro de 2015, foi o tempo necessário às conversações, os passos indispensáveis à colocação de um freio na há muito concretizada conversão do PS à política da direita, e à caminhada de Cavaco Silva contra o muro da realidade em que se esbarrondou, situação que sempre lhe acontece quando tem de encarar situações por ele não previstas ou que não lhe tenham sido, pacientemente, indicadas como possíveis…
As declarações de Jerónimo de Sousa foram decisivas. Extirpar o tumor que o governo PSD/CDS constituía, foi um imperativo patriótico e consumou a derrota de 4 anos e meio de uma política terrorista dos monopólios portugueses associados ao capital imperialista.
Efetivamente, o mandato da coligação PSD/CDS não foi apenas a execução de uma política ao serviço do capital monopolista nacional associado ao capital imperialista, foi também, no parlamento e fora dele, 4 anos e meio de arrogante política terrorista, levada a cabo por uma ditadura do grande capital com fachada democrática.
A concretização de um governo PS, nestas inéditas e surpreendentes condições, se extirpou o tumor maligno que constituía a aliança PSD/CDS, não pode fazer esquecer o longo processo de fusão ideológica do PS com a direita nem a sua opção de classe, principais elementos constitutivos da matriz ideológica daquele partido, que o impedem encarar o caminho da superação da crise estrutural do sistema do capital [1].

2 – A CRISE ESTRUTURAL

Se há século e meio se podia falar – e falou sem eludir os limites e as contradições que lhe são inerentes – da importância do capitalismo para o alargamento da produção e do consumo, e para o derrube das barreiras que limitavam o desenvolvimento das forças produtivas, o crescimento das necessidades e o desenvolvimento da produção, hoje, não tem qualquer sentido falar de desenvolvimento da produção para a satisfação de necessidades humanas; como é uma completa falta de senso, no mínimo, falar da defesa do meio-ambiente e recusar a condenação do sistema do capital, hoje o principal responsável pela destruição do meio-ambiente, pela crescente agressividade do capital nesta fase do capitalismo imperialista, traduzida em guerras que permanentemente provoca e inicia, mas também pelo constante e crescente aumento da produção destrutiva que caracteriza hoje o sistema do capital.
Por muitos antecipada como inevitável embora sem data prevista no calendário, a crise estrutural do capitalismo teve, há anos, uma primeira intensificação, então resolvida com uma significativa alteração, quantitativa/qualitativa, da estrutura do complexo social então existente.
A acumulação e agudização de contradições tornou previsível uma nova intensificação da crise estrutural do capitalismo, embora desde os anos 60 do século passado as cliques e claques intelectuais do capitalismo tivessem começado a difundir a ideia que as crises tinham acabado… Diziam ter-se aprendido com a crise de 1929, que os meios hoje ao dispor dos Estados eram diferentes, que Keynes tinha destruído as teorias marxistas, que as falências bancárias eram coisas do passado…
A crise que hoje abala o mundo surgiu em 2007 nos EUA e na Europa, como o demonstra a situação de cessar o resgate de dois fundos pelo PNB-Paribas em agosto daquele ano. É uma nova intensificação da crise estrutural do capitalismo.
Perante uma crise é fundamental distinguir se ela é uma crise conjuntural ou uma crise estrutural, visto que são situações e conceitos distintos que, por isso mesmo, exigem remédios diferentes. Não se pode, no entanto, esquecer que a caraterização de uma crise e as propostas de medidas para a sua resolução não são, bem pelo contrário, independentes dos diferentes posicionamentos ideológicos e programáticos partidários, incluindo nos partidos comunistas e operários.
Uma crise conjuntural não afeta a estrutura social, pelo que pode ser resolvida no quadro estrutural em que se desenvolveu. Diferentemente, a crise estrutural afeta a própria estrutura, questiona a totalidade do complexo social envolvido nessa estrutura, pelo que se desenvolve enquanto não for alterada a estrutura do complexo social; não tem momentos tempestuosos, embora, aqui e além, neste e naquele tempo e espaço, possa apresentá-los integrados na sua globalidade e universalidade.
«Mas apesar da profunda seriedade dos seus parâmetros gerais, a crise estrutural pode, à primeira vista, não aparentar ser de uma importância assim tão decisiva quando comparada com as vicissitudes dramáticas de uma grande crise conjuntural. De facto, as «tempestades» com que se manifestam as crises conjunturais são bastante paradoxais, na medida em que, pelo seu modo de desdobramento, as crises conjunturais não só descarregam tais tempestades como acabam, (sublinhado meu) no mesmo movimento por se resolverem enquanto crises (na medida em que as circunstâncias o permitem). Isto é possível graças ao seu carácter parcial, que não implica os limites últimos da estrutura social estabelecida» (Meszaros, 2012).
Ainda segundo Meszaros, a crise estrutural manifesta-se em 4 aspetos essenciais que a diferenciam das crises conjunturais anteriores:
Tem caráter universal, não se circunscreve a um ramo específico da produção, tipo de trabalho, sector financeiro, comercial ou outro, pois, repito, tem caráter universal – atinge todos os ramos e sectores.
É de âmbito global, no sentido literal do termo e, embora de forma diferenciada, atinge todo o planeta, não se limita a alguns países ou regiões, como aconteceu com crises do passado, incluindo a de 1929, que muitos dizem ter sido uma intensificação da crise estrutural, embora não tivesse cumprido estas duas primeiras caraterísticas essenciais para a sua definição como crise estrutural [2].
É permanente, não é limitada, não apresenta ciclos, ao contrário das crises anteriores, embora não se desenvolva sempre num sentido ascendente.
O seu desenvolvimento é gradual, não é explosiva nem, normalmente, terá «grandes tempestades», como aconteceu com crises conjunturais anteriores.
Pondo as opções de classe acima da análise da realidade, políticos e outros defensores do capitalismo, partidos sistémicos com a social-democracia à cabeça, trotsquistas e revisionistas de todos os matizes, assumidos ou escondidos onde quer que estejam, não se entendem quanto às medidas a tomar, nem quando lançar esperanças ou difundir alertas.
Com a intensificação da crise ocorrida no final da primeira década deste século, no imediato, todos se tornaram keynesianos, e defenderam o aumento da despesa pública com o correspondente endividamento dos Estados, na tentativa infrutífera de resolver o problema do fortíssimo endividamento dos monopólios, particularmente os financeiros. Outros dizem ser a crise estrutural, mas não a tratam nem como universal, debruçam-se sobre um sector, normalmente o financeiro, e preconizam remédios de anteriores crises conjunturais. Uns, logo defenderam a austeridade para a classe operária e restantes trabalhadores, outros aplicavam-na de PEC em PEC.
Mas todos defenderam a austeridade e logo a estenderam ao que apelidam de «classe média», um artifício que mete no mesmo saco a classe operária, outros trabalhadores, entre os quais técnicos e intelectuais (médicos, engenheiros, advogados e outras profissões consideradas, hoje erradamente, como liberais), e também franjas da pequena burguesia e até do campesinato.
A expressão «classe média», foi criada, usada e divulgada pelas técnicas de «marketing», que a basearam na fruição de aparelhos elétricos de uso doméstico, dimensões, características e comodidades da habitação, existência de 2ª casa (alugadas ou próprias, mesmo que hipotecadas e em pagamento mensal ao banco), zona residencial, tipo e idade do carro, férias em casa ou fora de casa, etc., como forma de separar ou unir escalões populacionais em função da disponibilidade monetária, para criarem necessidades artificiais e melhor influenciarem o consumo de determinados produtos e marcas.
No caminho, aproveitam para promover entre os trabalhadores não só a imitação do modo de vida burguês, mas também o afastamento da luta e das suas organizações de classe.
Esta é a razão pela qual a dita «classe média» é tão ardorosamente disputada pelos partidos que gerem e defendem nos Estados os interesses do capital monopolista, nacional e internacional; como é também a razão porque continuam a apelidar de membros das «profissões liberais» a esmagadora maioria dos médicos, dos advogados, dos engenheiros, dos arquitetos, etc. Esta é também a razão para se manterem as velhas «Ordens», em quem, hoje injustificadamente, os Estados delegam os seus poderes de regulamentação, e até se assiste à criação de novas «Ordens», mesmo de profissões cujos membros sempre foram trabalhadores assalariados, como os professores, ou foram-no na sua quase totalidade, como os enfermeiros!
A «classe média é hoje uma massa gigantesca proletarizada», como vimos citado de quem tinha a obrigação de denunciar a expressão e os objetivos da sua utilização, se não tivesse abandonado o princípio de que a luta de classes é o motor da história…
Assim, não pode surpreender que a classe trabalhadora, no seu conjunto, procure um status que lhe é alheio e que a imitação do modo de vida burguês se vá generalizando, o que leva trabalhadores cada vez mais proletarizados a procurarem pertencer à inexistente «classe média», um escalão que crêem superior ao dos trabalhadores e proletários.
É a procura de uma ilusão que os faça esquecer a dura realidade.
Mas o que é hoje um proletário, quase dois séculos depois de Marx e Engels definirem o conceito?
Como disse Barata-Moura no I Congresso Internacional Marx em Maio, no debate que se seguiu à sua comunicação, o conceito de proletário hoje, tal como o definiram os fundadores do marxismo, e cito de memória, não andará muito longe do trabalhador que vive essencialmente do seu salário.
Não é o nível cultural nem o grau académico nem tampouco o nível salarial ou a convivência social que definem a pertença a uma classe. A classe social é definida pela posição que cada um ocupa, ou não ocupa, na estrutura de comando do capital, o que não exclui a existência de camadas dentro de uma mesma classe.
Em nota à edição inglesa de 1888 do Manifesto do Partido Comunista, Engels prevenia que «Por burguesia entende-se a classe dos Capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social e empregadores de trabalho assalariado. Por proletariado, a classe dos trabalhadores assalariados modernos, os quais, não tendo meios próprios de produção, estão reduzidos a vender a sua força de trabalho [labourpower] para poderem viver».
Como se torna mais evidente com um exemplo retirado da vida, não é pelo estilo nem pelo padrão de vida ou nível salarial que um trabalhador da Volkswagen em Wolfsburgo, Alemanha, pertence a uma classe diferente, e “superior”, à de um trabalhador da Volkswagen em Palmela, Portugal. Uns e outros produzem mercadorias idênticas, apesar de os trabalhadores alemães, em termos nominais e reais, ganharem muito, muito mais que os portugueses: não é isso que os muda de classe. Nem os trabalhadores alemães nem os trabalhadores portugueses da Volkswagen, enquanto tal, têm qualquer posição na estrutura de comando do capital, não pertencem a nenhuma «classe média», são operários e trabalhadores assalariados com salários bem diferentes é certo, mas sem bens de produção, pelo que não têm lugar na estrutura de comando do capital.
Como também não é pela propriedade de casa-própria, comprada por recurso ao crédito hipotecário (uma forma para que os trabalhadores foram empurrados pelos interesses do capital financeiro), uma opção mais económica e uma solução de aforro forçado que os trabalhadores, cada vez mais proletarizados, assumiram mas não escolheram; como também não é a compra de um carro, novo, em-segunda-mão ou a sua posse ou fruição por recurso a uma qualquer das muitas modalidades oferecidas pela banca, que os trabalhadores são promovidos à inexistente classe média, como cada vez mais a imposição da política «neoliberal» procura interesseiramente fazer crer.
E quanto ao carro, é sempre bom não esquecer que, ao contrário da burguesia, os trabalhadores não escolhem o local onde viver, nem a vista ou a sua exposição solar que a casa proporciona, pois vivem no lugar onde encontram casa à medida dos seus recursos; e não se pode esquecer que, hoje, um carro em-segunda-mão exige muitas vezes um esforço económico menor que o exigido há 60 anos atrás com a compra de uma bicicleta. Como não são os trabalhadores quem define a política de transportes, estes são muitas vezes colocados numa situação de terem de utilizar um transporte particular para o percurso casa-trabalho-casa.
A crise veio evidenciar a realidade: a posição de classe de qualquer pessoa ou grupo de pessoas é pela posição que ocupa, ou não ocupa, na estrutura de comando do capital. É por isso que, em situações de crise como a que estamos a viver a chamada «classe média», ao enfrentar a dura realidade, “regressa” à classe donde nunca saiu: a classe trabalhadora.
Tudo o que acima se disse não significa, de modo algum, que esta gigantesca massa proletarizada, não tenha no seu seio considerável percentagem de antigos detentores de bens de produção, nalguns casos mesmo de consideráveis bens de produção. A maioria deles continua a pensar de acordo com a sua anterior classe e, em momentos agudos da luta de classes, reagem como membros da classe a que já pertenceram, contra os interesses da sua nova classe, o que torna mais difícil o seu esclarecimento e mobilização.
A destruição da chamada «classe média» pela austeridade mais não é do que a feroz ofensiva global do grande capital contra a classe trabalhadora, que a todos os seus membros atinge, independentemente do seu nível salarial, estilo de vida ou consciência de classe, mesmo dos que se julgam inseridos numa inexistente «classe média».
***
Como alternativa à austeridade para superação da crise, a solução mais preconizada tem sido defesa da renegociação da dívida (em bom rigor a maior parte devia ser repudiada por odiosa…) e a saída controlada do Euro, medidas com consequências imediatas muito diferentes, que mesmo que no médio prazo possam trazer um alívio momentâneo, não podem superar a crise estrutural, por deixarem intocável a estrutura do complexo social. Daí, parecer-me injustificado o entusiasmo suscitado pela entrevista de Jorge Pinheiro com Joseph Stiglitz, na Antena Um em 5 de setembro passado. Nessa entrevista, a principal conclusão do mediático Prémio Nobel e colaborador do Expresso de Pinto Balsemão foi a de que «… as escolhas não são agradáveis, mas se reconhecermos o custo de continuar neste pântano, o risco de uma saída de Portugal do euro pode ser mais baixo do que ficar» (sublinhado meu, tradução da Antena 1).
Claro que medidas como a saída do Euro (terá de ser muito bem pensada e preparada para atenuar os custos que serão sempre consideráveis, pois uma coisa é sair do Euro e outra bem diferente seria nunca ter entrado…) ou reestruturação da dívida, particularmente esta, trazem algum alívio imediato e temporário, mas em nada contribuem para eliminar contradição entre a crescente socialização da produção e a sua apropriação individual, a contradição de sempre entre o trabalho e o capital, hoje agravada com o brutal alargamento da socialização do trabalho. Serão indiscutivelmente um alívio temporário, mas daí nunca virá a superação da crise estrutural do capitalismo, e isso, infelizmente, não é dito mesmo por quem tinha obrigação de o fazer.
É este tipo de ações e omissões que contribuem para muitos dos atuais posicionamentos ideológicos reformistas e revisionistas existentes no que resta do movimento comunista internacional.
É verdade que há algumas décadas a intensificação da crise estrutural do capitalismo então verificada foi superada, mas tal só foi possível por ter havido uma alteração, quantitativa/qualitativa, da estrutura do complexo social.
Após as visitas preparatórias de Henry Kissinger em 1971, secretário de Estado dos EUA, a que seguiu a visita de Nixon, acompanhado pelo seu secretário de Estado em 1972 à China, este país iniciou a concretização da tese já anteriormente formulada de «um país dois sistemas».
O capitalismo foi alargado à China, ao sudeste asiático, e posteriormente à Índia, que escolheram o capitalismo como via que consideraram indispensável ao desenvolvimento nos seus países. Foi uma alteração substancial da estrutura. Então, superou-se a intensificação da crise estrutural do capitalismo com esta alteração da estrutura do complexo social, mas as contradições do sistema não só permaneceram como se ampliaram e deram origem a novas contradições.
O sistema do capital alargou-se ao que faltava da Terra, e esta nova intensificação da crise estrutural do capital está muito longe da superação, tudo indicando que se aproxima um novo período de gradual agravamento. Como a crise é estrutural, só uma alteração da estrutura do complexo social a pode superar, nunca é demais repeti-lo. E as medidas de há 4 décadas não podem repetir-se, como é evidente.
É a consciência dessa realidade que levou Joseph Stiglitz à falsa solução de atirar o barro à parede… e “pode” ser que pegue.
Recorrendo a um registo diferente, em 29 de agosto, o próprio capital monopolista alinhou também com a solução de atirar o barro à parede quando, através de um dos seus porta-vozes privilegiados, a Reuters, divulga uma comunicação com o sugestivo título de «O pior cenário: os bancos preparam-se para um “inverno nuclear económico”».
E depois de constatar as quedas vertiginosas da capitalização bolsista, entre outros, do Deutsche Bank, do Crédit Suisse e do Royal Bank of Scotland, a Reuters conclui: «O “Brexit” foi a maior fonte de incertezas da agenda financeira global, mas os analistas incentivam as empresas a continuar a trabalhar, apesar do futuro incerto, e a tomar medidas para “eliminar os riscos e simplificar [mais despedimentos…] os seus negócios”».
(https://actualidad.rt.com/actualidad/217396-bancos-prepararse-invierno-nuclear-economico).
É por tudo isto que cada vez mais políticos, professores universitários e outros epígonos do sistema do capital vêem hoje o Deutsche Bank como o candidato favorito à execução do golpe de misericórdia na curta vida do euro, e o principal responsável pela destruição da «ordem europeia dos últimos 60 anos».
3 – O PS E O PAPEL INSTRUMENTAL DA SOCIAL-DEMOCRACIA
Sendo o resultado de desvios da teoria e da tática marxistas, os partidos social-democratas, socialistas e trabalhistas, integrados na Internacional Socialista, continuam a falar de socialismo e a intitularem-se de partidos de «esquerda».
A palavra «esquerda» é um termo politicamente degradado que, hoje, significa tudo e coisa nenhuma, pouco mais definindo que o lado das bancadas parlamentares em que se sentam os partidos a que chamam de «esquerda». A sua utilização nada esclarece, apenas confunde.
Com poucas exceções como a que resultou na eleição de Salvador Allende, no Congresso chileno, em 24 de outubro de 1970, a prática dos partidos da social-democracia foi sempre, através de um longo, persistente processo a defesa e gestão do capitalismo, num permanente alinhamento com a direita, os monopólios e o imperialismo.
Depois da auto-extinção do anterior Partido Socialista Português, os social-democratas portugueses e republicanos, limitaram-se a participar nas farsas eleitorais permitidas pelo fascismo com as limitações impostas pelo regime, sempre à espera que um golpe militar salvador devolvesse ao povo português as liberdades suficientes e o poder à burguesia liberal de que, naturalmente, eles se consideravam os lídimos representantes políticos.
A subida de Marcello Caetano ao poder (1968) reforça as ilusões entre os social-democratas: por uns foi considerado «um horizonte de esperança para o nosso povo», outros correram a S. Bento, na qualidade de antigos alunos, onde apresentaram cumprimentos e mostraram a sua confiança nas «medidas liberalizadoras», pouco mais do que mudar o nome da PIDE para DGS e aproveitar a RTP para «conversas em família», que propagandeavam naquele influente meio de comunicação a política do regime fascista.
***
Depois do 25 de Abril, o improviso de Mário Soares no 1º de Maio de 74 foi um exercício de radicalismo demagógico, em sintonia com o I Programa do Partido Socialista onde, mentirosamente, se dizia ser objetivo do Partido Socialista a «instauração em Portugal de uma democracia socialista», numa «sociedade sem classes»! Mas o Programa do PS nunca foi um guia nem um compromisso, mas sempre foi entendido pelos seus responsáveis como uma forma de angariar o apoio das massas, pelo que foi redigido em consonância com o que sabiam ser os anseios dos trabalhadores portugueses.
A vida comprovou que não é apenas por uma certa volubilidade temperamental que, frequentemente, Mário Soares dizia uma coisa hoje e o seu contrário amanhã: depois de no Barreiro, então um bastião operário, considerar a nacionalização da banca em 15 de Março de 1975, um «dia histórico em que se pode assinalar que o capitalismo se afundou com a nacionalização da banca privada», declarou anos mais tarde em entrevista à televisão que nunca pretendeu liquidar ou destruir os grupos monopolistas, mas apenas condicioná-los.
Líder da contra-revolução em Portugal, Mário Soares transformou então o PS no guarda-chuva protetor de toda a direita que andasse perdida à procura de abrigo.
Aliou-se a Spínola, líder de algumas das mais conhecidas e criminosas organizações terroristas e bombistas pós 25 de abril, formando, na opinião de Álvaro Cunhal, «uma das mais estáveis e duradouras alianças político-militares do processo contra-revolucionário». Logo no 1º Governo Provisório [diz Spínola], «sempre (me) expôs, com a máxima lealdade, as suas opiniões e me alertou para os perigos que o País estava a correr com base na atuação do PC».
No princípio de julho de 1974, teve conhecimento antecipado, se não mesmo participação ativa, da primeira tentativa de golpe contra a democracia portuguesa: reuniu com o Primeiro-ministro Palma Carlos, à margem do governo de que fazia parte, sem o informar como era seu mais elementar dever de lealdade, onde lhe foi exposto o plano golpista de Spínola. Mais tarde disse que discordou, mas logo acrescentou que isso não pressupunha a sua vontade «de que o general Spínola caísse ou saísse de cena», pois queria aguentá-lo…
Depois de Spínola ter uma vez mais conspirado, agora de armas na mão, contra a revolução de abril (11 de março de 1975) e, posteriormente, dirigido a rede bombista que assassinou pessoas e destruiu bens em Portugal, Mário Soares promove o seu regresso ao país e, não só o iliba de qualquer acusação judicial pelos crimes cometidos, alguns deles de sangue, como lhe atribuiu o cargo de chanceler das ordens. [3]
Uma vergonha!

4 - O PS não mudou de identidade

Se extirpar o tumor que a coligação constituía era um imperativo, não se pode esquecer que o PS de António Costa é o partido que se fundiu ideologicamente com a direita, num longo processo iniciado pelo seu primeiro secretário-geral, Mário Soares, e concluído por José Sócrates, de quem Costa foi ministro de Estado e da Administração Interna (2005-2007), cargo que abandonou para se candidatar à Câmara de Lisboa, desafio que lhe foi feito por José Sócrates.
E, apesar da sufocante ditadura mediática há uma consciência generalizada dessa fusão, do que o PS tem sido, e do que fez ao longo dos últimos 42 anos.
Como também não se pode esquecer que a solução encontrada está longe de ser a única possível, desde logo, pela decisão tomada de manter as massas afastadas da procura da solução, em vez de com a sua luta as fazer participar nesta ou numa outra solução, que não acorrentasse os trabalhadores e as suas organizações de classe ao jogo parlamentar burguês.
Em 2014, após as eleições para o Parlamento Europeu António Costa sucede a António José Seguro como secretário-geral do PS, num processo que em tudo faz lembrar o de António Guterres quando apeou Jorge Sampaio do mesmo cargo, igualmente com base numa alegada insuficiência os resultados eleitorais do Partido.
O PS de António Costa é o mesmo PS de Mário Soares, de Vítor Constâncio, de Jorge Sampaio, de António Guterres, de José Sócrates e António José Seguro. Não alterou a sua opção de classe, mantém os mesmos princípios identitários e os objetivos de sempre, o que lhe permitiu ser o interlocutor privilegiado, como a vida evidenciou, do capital monopolista português, do imperialismo e das suas estruturas de intervenção, situações que, em princípio, poderiam parecer mais adequadas ao PSD e CDS.
Penso que foi por tudo o que acima se sumaria, que à necessidade de pôr cobro à devastação perpetrada pela coligação PSD/CDS e ao alívio sentido pelo afastamento da coligação PSD/CDS do governo não sucedeu qualquer euforia ou esperança, mesmo entre quem alimenta ilusões com a solução encontrada para o governo do PS.
Só a luta de massas, organizada, disciplinada, com objetivos claros e definidos, com palavras de ordem precisas, bem pensadas e adequadas a cada momento preciso podiam ter levado a uma solução diferente que abrisse uma janela de esperança entre a classe trabalhadora.
Só o efetivo e constante reforço das organizações dos trabalhadores, a sua atenta auscultação podem aprofundar a necessidade e a disponibilidade dos trabalhadores para lutarem por uma clara e profunda transformação social.
Nota:
[1] Sobre a sequência das declarações dos responsáveis partidários na noite eleitoral de 4 de dezembro ver: http://www.dn.pt/politica/interior/passos-coelho-seria-estranho-que-quem-ganhasse-as-eleicoes-nao-pudesse-governar-4814650.html); e http://www.dn.pt/politica/interior/sem-maioria-absoluta-psd-e-cds-perdem-o-governo-diz-bloco-4815623.html?id=4815623
[2] Embora a China continua a crescer a ritmos impensáveis para qualquer país desenvolvido a taxa de crescimento já não se apresenta folgadamente com dois dígitos, e tem mostrado uma tendência inalterável para baixar.
[3] Ver «Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido», de Rui Mateus D. Quixote em:
https://aventadores.files.wordpress.com/2010/12/livro_contos_proibidos.pdf.

in ODiario.info

quarta-feira, 26 de outubro de 2016


A verdadeira crise humanitária não é Alepo

Uma retrospectiva da intervenção dos EUA no Médio Oriente desde o 11 de Setembro mostra uma implacável marcha em direcção à trágica perspectiva hoje colocada: o confronto militar com a Rússia, a segunda maior potência nuclear. A previsível eleição de Hillary Clinton será um passo mais em direcção a essa catástrofe.
Porque será que apenas ouvimos falar da “crise humanitária em Alepo” e não da crise humanitária em todo o resto da Síria, onde a perversão que governa Washington desencadeou os seus mercenários do ISIS para trucidarem o povo sírio? Porque será que não ouvimos falar da crise humanitária no Iémen onde os EUA e o seu vassalo saudita estão a massacrar mulheres e crianças? Porque será que não ouvimos falar da crise humanitária na Líbia onde Washington destruiu um país deixando o caos em seu lugar? Porque será que não ouvimos falar na crise humanitária no Iraque, que já se arrasta há 13 anos, ou a crise humanitária no Afeganistão, que já vai em 15 anos?
A resposta é que a crise em Alepo é a crise de Washington estar a perder os seus mercenários do ISIS perante o exército sírio e a força aérea russa. Os jihadistas enviados por Obama e pela assassina criatura Hillary (“We came, we saw, he died”; “Viemos, vimos, ele morreu”) para destruir a Síria estão a ser destruídos eles próprios. O regime Obama e os prostituto-jornalistas (“presstitutes”) ocidentais estão a tentar salvar os jihadistas abrigando-os sob o manto da “crise humanitária”.
Este tipo de hipocrisia é padrão em Washington. Se o regime de Obama tivesse um mínimo de preocupação acerca de “crises humanitárias” não teria orquestrado crises humanitárias na Síria, Iraque, Afeganistão, Líbia e Iémen.
Está a decorrer uma campanha presidencial nos EUA e ninguém levantou a questão de porquê estarem os EUA determinados em derrubar um governo sírio democraticamente eleito que é apoiado pelo povo sírio.
Ninguém perguntou porque é que o palhaço na Casa Branca tem legitimidade para remover o presidente da Síria lançando contra o povo sírio jihadistas abastecidos pelos EUA, que os prostituto-jornalistas apresentam falsamente como “rebeldes moderados”.
Washington não tem, obviamente, resposta aceitável para tal pergunta, e é essa a razão por que a pergunta não é colocada.
A resposta à pergunta é que a estratégia de Washington para a desestabilização do Irão e depois das províncias muçulmanas da Federação Russa, a anterior Ásia central soviética, e a província muçulmana da China, é a substituição de governos estáveis pelo caos do jihadismo. Iraque, Líbia, e Síria tinham sociedades seculares estáveis nas quais a mão firme dos governos intervinha para prevenir o confronto sectário entre seitas muçulmanas. Através do derrube desses governos seculares e do esforço actual para derrubar Assad, Washington desencadeou o caos do terrorismo.
Não existia terrorismo no Médio Oriente até Washington o trazer com as suas invasões, bombardeamentos, tortura.
Jihadistas como os que Washington utilizou para derrubar Khadafi surgiram na Síria quando o Parlamento Britânico e o governo russo bloquearam a invasão da Síria que Obama planeara. Como Washington foi impedido de atacar directamente a Síria, Washington utilizou mercenários. Os prostitutos que fazem de conta ser os media americanos fizeram a Washington o favor de propagandear que os terroristas jihadistas são democratas sírios em rebelião contra a “ditadura de Assad”. Esta gritante e transparente mentira tem sido repetida tantas vezes que agora é confundida com a verdade.
Não existe qualquer espécie de ligação entre a Síria e a justificação inicial de Washington para recorrer à violência no Médio Oriente. A justificação inicial foi o 9/11, e foi utilizada para invadir o Afeganistão com base na invenção de que os taliban davam acolhimento a Osama bin Laden, o “cérebro”, que na altura estava a morrer por insuficiência renal num hospital paquistanês. Osama bin Laden era um activo da CIA que fora utilizado contra os soviéticos no Afeganistão. Não foi o perpetrador do 9/11. E os taliban também não, com toda a certeza.
Mas os prostituto-jornalistas deram cobertura à mentira do regime de Bush, e o público foi enganado com a frase de que devemos “derrotá-los lá fora antes que nos ataquem em casa”.
Evidentemente que os muçulmanos não iam atacar-nos em casa, Se os muçulmanos constituem uma ameaça, porque continua o governo dos EUA a trazer tantos para cá enquanto refugiados das guerras de Washington contra os muçulmanos?
O 9/11 foi o “novo Pearl Harbor” dos neoconservadores, aquele que eles tinham escrito ser necessário para desencadearem as suas guerras no Médio Oriente. O primeiro Secretário do Tesouro de Bush disse que ao assunto da primeira reunião do gabinete de Bush foi a invasão do Iraque. Isto foi antes do 9/11. Por outras palavras, as guerras de Washington no Médio Oriente foram planeadas anteriormente ao 9/11.
Os neoconservadores são sionistas. Ao mergulharem o Médio Oriente no caos alcançam ambos os seus objectivos. Eliminam oposição organizada à expansão israelita e criam jihadismo que pode ser utilizado para desestabilizar países como Rússia, Irão e China que constituem um entrave ao exercício do poder unilateral que, acreditam, o colapso soviético depositou na “nação indispensável”, os EUA.
Osama bin Laden, o alegado cérebro do 9/11, estava a morrer, não estava a dirigir uma guerra de terror contra Washington a partir de uma gruta no Afeganistão. Os taliban estavam concentrados em consolidar o seu poder no Afeganistão, não em atacar o Ocidente. Depois de bombardear casamentos, funerais, e jogos de futebol de crianças, Washington deslocou-se para o Iraque. Não existia qualquer indício de beligerância do Iraque em relação a Washington. Inspectores de armamento da ONU disseram que não existiam armas de destruição massiva no Iraque, mas Washington não os ouviu. As meretrizes que integram os media norte-americanos ajudaram o regime de Bush a criar a imagem de uma América sob o cogumelo de uma nuvem nuclear se os EUA não invadissem o Iraque.
O Iraque não dispunha de armas nucleares e toda a gente o sabia, mas os factos eram irrelevantes. Havia uma agenda em andamento, uma agenda não declarada. Para avançar com uma agenda que não ousava revelar o governo recorreu ao medo. “Temos que os matar antes que nos venham eles aqui matar.”
E portanto o Iraque, um país estável e progressivo, foi reduzido a ruínas.
Seguiu-se a Líbia. Khadafi não queria juntar-se ao Comando Africano de Washington, a China estava a desenvolver campos de exploração de petróleo na Líbia oriental. Washington estava já incomodado com a presença russa no Mediterrâneo e não queria que a China também aí estivesse presente. Portanto Khadafi tinha que ser removido.
Depois foi Assad a ser acusado, com testemunhos falsificados, de ter utilizado armas químicas contra a rebelião que Washington desencadeara. Ninguém, nem mesmo o Parlamento Britânico, acreditou na transparente mentira de Washington. Incapaz de encontra apoio que desse cobertura a uma invasão, a psicopata AssassHillary (“Killary”) enviou os jihadistas que Washington utilizara para destruir a Líbia para derrubar Assad.
Os russos, que até esta altura tinham sido ingénuos e crédulos a ponto de confiarem em Washington, descobriram finalmente que a instabilidade que Washington estava a fomentar se dirigia contra eles. O governo russo decidiu que a Síria constituía a sua linha vermelha e, a solicitação do governo sírio, intervieram contra os jihadistas apoiados por Washington.
Washington sente-se ultrajado e ameaça agora cometer ainda outra criminosa violação do Padrão de Nuremberga agredindo ostensivamente a Síria. Semelhante passo irresponsável colocaria Washington em conflito militar com a Rússia e, por implicação, com a China. Os europeus, antes de permitirem que Washington dê início a um conflito tão perigoso, fariam bem em registar a advertência de Sergei Karaganov, membro do Conselho de Política Externa e Defesa do ministério russo dos Negócios Estrangeiros: “A Rússia nunca mais voltará a combater no seu próprio território. Se a NATO der início a uma invasão contra uma potência nuclear como nós, a NATO sofrerá uma punição.”
O facto de o governo dos EUA ser criminosamente demente deveria assustar qualquer pessoa na face da Terra. AssassHillary está apostada em entrar em conflito com a Rússia. Apesar disso, Obama, os prostituto-jornalistas e o “establishment” democrata e republicano estão a fazer todo o possível para instalar na Sala Oval a pessoa que irá maximizar o conflito com a Rússia.
A sobrevivência do planeta está nas mãos de criminosos dementes. É essa a verdadeira crise humanitária.
Nota: O Ten-General Michael Flynn, director da Agência de Informações de Defesa (DIA) do Pentágono declarou numa entrevista que a criação do ISIS foi “uma decisão deliberada de Washington.” V. por exemplo, https://www.rt.com/usa/312050-dia-flynn-islamic-state/ Also: http://russia-insider.com/en/secret-pentagon-report-reveals-us-created-isis-tool-overthrow-syrias-president-assad/ri7364. A DIA advertiu que ISIS viria a evoluir para um principado salafista que ocuparia partes do Iraque e da Síria http://www.judicialwatch.org/wp-content/uploads/2015/05/Pg.-291-Pgs.-287-293-JW-v-DOD-and-State-14-812-DOD-Release-2015-04-10-final-version11.pdf A advertência foi ignorada uma vez que o regime neoconservador de Obama via o ISIS como um recurso a ser utilizado contra a Síria.
Paul Craig Roberts | ODiario.info 

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Reflexão sobre histórias polémicas do PCUS, da Revolução de Outubro e da URSS

Miguel Urbano Rodrigues    21.Oct.16    
Este artigo foi escrito para ser incluído num livro póstumo que estou a preparar. Alterei essa decisão porque a minha companheira me persuadiu de que a sua publicação imediata, nestes dias em que a Humanidade (incluindo Portugal) está atolada na crise estrutural do monstruoso sistema do capital condenado a desaparecer pode ser útil.
Li em l961, na Guiné Conakri, a tradução francesa da História do Partido Comunista (bolchevique) da URSS, revista e aprovada em 1938 pelo Comité Central do PCUS. Em Portugal, por iniciativa do camarada Carlos Costa, a referida História foi publicada em 2010 com o subtítulo Breve Curso e um prefácio, muito elogioso, de Leandro Martins, então chefe da redação do «Avante!». A iniciativa gerou polémica no PCP.
OLHARES INCOMPATÍVEIS SOBRE A HISTÓRIA
Tenho na minha biblioteca de Gaia a citada História do Partido Comunista (bolchevique), diferentes edições da História da União Soviética, editadas em espanhol pela Editorial Progresso de Moscovo, e a tradução portuguesa da História da Grande Revolução Socialista de Outubro da mesma editora, editada en l977.
A História do PCUS publicada em 1938 e aprovada pelo Comité Central do Partido foi traduzida em 67 línguas e dela foram vendidos mais de 42 milhões de exemplares. Mas, após o XX Congresso, foi retirada das livrarias e bibliotecas soviéticas.
Não foi sem uma sensação de mal-estar que decidi expressar a minha opinião sobre essa obra, a da Revolução de Outubro e uma das Histórias da Rússia e da URSS, a elaborada pelos historiadores A. Fadeiev, Bridsov, Chermensky, Golikov e A. Sakharov, membros da Academia das Ciências da União Soviética. Foi editada em espanhol, também pela Progresso, em 1960.
Porquê o mal-estar?
Por estar consciente da extrema dificuldade de estabelecer fronteiras entre o positivo e o negativo, entre a evocação da História e a deturpação da História que, por vezes no mesmo capítulo, ora coincidem ora se fundem ou cruzam em confusão labiríntica.
Na História do Partido Comunista (bolchevique) os primeiros três capítulos são dedicados ao combate pela criação de um partido operário revolucionário (o futuro Partido Operário Social Democrata da Rússia - POSDR, inicialmente marxista), à luta dos bolcheviques contra os mencheviques e à primeira revolução russa (1904/1907). A narrativa é interessante, com destaque para o papel decisivo que Lenin desempenhou nessa fase histórica.
Os capítulos 4, 5 e 6 incidem sobre o período que vai da reação stolypiana à Revolução de Fevereiro de 17 que derrubou a autocracia czarista. Uma informação muito rica e inédita para os leitores do Ocidente valoriza essas páginas que iluminam a ascensão e o fortalecimento contínuo do Partido bolchevique e a importância da obra teórica de Lenin como ideólogo. As Teses leninistas de Abril, que implicaram uma viragem decisiva na linha do Partido, merecem atenção especial. Ao exigir «todo o Poder aos Sovietes», Lenin sepultou a ideia da longa duração da revolução democrático-burguesa, mobilizando o Partido e os trabalhadores contra o Governo Provisório da Rússia, esboçando a estratégia da revolução proletária rumo ao socialismo.
No capítulo 7 os autores da História do Partido evocam os acontecimentos que precederam a Revolução de Outubro e a preparação desta, com muitas citações de Lenin que facilitam a compreensão das lutas travadas contra o Governo de Kerenski e no próprio Soviete de Petrogrado.
Mas a linguagem do livro, a partir do 4º capítulo, dedicado à reação stolypiana no período que precedeu o início da guerra de 1914/18, muda muito e distancia-se do rigor, da serenidade e isenção exigíveis a historiadores responsáveis, como são académicos soviéticos de prestígio mundial como Evgueni Tarlé.
Para caracterizar o oportunismo dos mencheviques, dos economicistas, dos empiriocriticistas e denunciar e criticar os erros de Kamenev, Zinoviev, Rikov, Preobrazhensky, Trotsky e demonstrar a sua incompatibilidade com o leninismo, os autores da História do Partido Comunista (bolchevique) da URSS recorrem a uma adjetivação agressiva e insultuosa e deturpam grosseiramente a História.
Repetidamente, Stalin começa a aparecer em muitas páginas, sendo-lhe atribuídas decisões e iniciativas importantes numa época em que era ainda um dirigente pouco destacado do Partido, embora próximo de Lenin.
Não é verdade que Trotsky tenha aderido ao Partido para o minar por dentro, com o objetivo de o destruir.
Kamenev e Zinoviev assumiram nas vésperas da insurreição de Outubro posições que levaram Lenin a qualificá-los de traidores, mas a atitude de Trotsky, que era presidente do Soviete de Petrogrado, não suscitou então qualquer crítica de Lenin.
Relativamente às negociações de Brest Litovsk os autores da História do Partido Comunista deturpam também os acontecimentos. Lenin censurou Trotsky, que era o chefe da delegação soviética, por não ter cumprido as instruções para assinar a paz com os alemães, mas nunca chamou traidores a ele e a Bukharin, que assumira uma posição ultraesquerdista, nem a Radek e Piatakov. Afirmam os referidos historiadores que eles formavam um grupo anti bolchevique que travou «no seio do partido uma luta furiosa contra Lenin». É falso que planeavam «prender V.I. Lenin, J.V. Stalin e I.M. Sverdlov, assassiná-los e formar um novo governo de bukharinistas, trotskistas e sociais revolucionários de esquerda».
É falso que Trotsky, tendo «como lugar tenentes na luta Kamenev, Zinoviev e Bukharin, tentava «criar ma URSS uma organização politica da nova burguesia, partido da restauração capitalista».
A prova de que não tinham agido como conspiradores e traidores foi a nomeação posterior de todos eles para tarefas da maior responsabilidade, precisamente por indicação de Lenin. Trotsky foi Comissário da Defesa durante o período mais dramático da guerra civil e da intervenção militar das potências da Entente, dos EUA e do Japão; Zinoviev assumiu a presidência da III Internacional com a aprovação de Lenin; Bukharin foi chefe da redação do Pravda de l924 a 1929, com o aval de Stalin.
No capítulo 9 a deturpação da História prossegue.
Ainda em vida de Lenin, Trotsky, durante o debate sobre os Sindicatos e a função da NEP assumiu posições que foram duramente criticadas por Lenin, mas continuou no Politburo com a aprovação deste.
Nas páginas dedicadas ao XIII Congresso do Partido, a breve referência à Carta que Lenin, já inválido, lhe dirigiu a 24 de dezembro de 1922, meses antes de sofrer o último e devastador derrame cerebral, omite o conteúdo e significado desse documento fundamental.
Os autores da História afirmam que «Nos acordos tomados pelo XIII Congresso foram levadas em conta todas as indicações feitas por Lenin nos seus últimos artigos e cartas».
Trata-se de uma indesculpável inverdade.
A Carta de Lenin e a adenda do dia 4 de Janeiro de 1923 foram lidas a muitos delegados mas não publicadas. Somente foram publicamente divulgadas na URSS em 1956.
Porquê?
Nessa Carta Lenin transmitia ao Congresso a sua opinião sobre os mais destacados membros do Comité Central, cuja ampliação ele propunha.
A CARTA DE LENIN AO XIII CONGRESSO
Pela sua importância transcrevo a seguir excertos da extensa carta de Lenin ao XIII Congresso na qual chamava a atenção para o grave perigo que ameaçava o Partido se não fossem introduzidas alterações na sua estrutura de direção:
«O camarada Stalin, tendo chegado a secretário-geral, tem concentrado nas suas mãos um enorme poder, e não estou seguro de que o utilizará sempre com suficiente prudência. Por outro lado, o camarada Trotsky, como já demonstrou a sua luta contra o CC devido ao problema do Comissariado do Povo para as Vias de Comunicação, não se destacou apenas pela sua grande capacidade. Como pessoa, embora seja o homem mais dotado do atual CC, tem demasiada confiança em si mesmo e é excessivamente atraído pelas facetas puramente administrativas das coisas».
Esboçava depois em poucas linhas os perfis de Kamenev, Zinoviev, Piatakov, e Tomsky que eram então, com Bukharin, Trotsky, Stalin e ele, membros do Politburo. A Bukharin apontava as fragilidades, mas elogiava-o também muito.
Sobre Stalin advertia nessa adenda: “É demasiado brutal e esse defeito, perfeitamente tolerável nas relações entre nós, comunistas, não o é nas funções de secretário-geral. Proponho portanto aos camaradas que estudem uma forma de o transferir e nomear para esse lugar uma outra pessoa que somente tenha em todas as coisas uma única vantagem, a de ser mais tolerante, mais leal, mais educado, e mais atento para com os camaradas, de temperamento menos caprichoso, etc. Essas características podem parecer apenas pormenores, mas pelo que disse antes das relações entre Stalin e Trotsky, não são ínfimos pormenores mas pormenores que podem assumir uma importância decisiva».
Contrariando especulações frequentes em historiadores do Ocidente, a hipótese de Trotsky ser nomeado secretário-geral é absurda. A velha guarda do Partido nunca o aceitaria.
Há leves discrepâncias entre as traduções em inglês, francês, português e espanhol da Carta de Lenin ao Congresso e da adenda posterior. Mas são irrelevantes.
A EPOPEIA DA RECONSTRUÇÃO DA RUSSIA E DA INDUSTRIALIZAÇÃO
O capítulo 10 é o melhor do livro.
A Rússia saíra arruinada da guerra mundial, da civil e da agressão das potências da Entente. Dezenas de cidades e centenas de aldeias tinham sido destruídas. A produção na agricultura e na indústria caíra para níveis muito inferiores aos de 1913. Durante a catastrófica seca de1921/22 milhões de pessoas morreram de fome.
O governo soviético enfrentou tremendos desafios.
As fábricas existentes eram obsoletas.
Transcrevo da História do Partido:
«Era necessário construir toda uma serie de setores industriais desconhecidos na Rússia czarista; construir novas fábricas de máquinas e ferramentas, de automóveis, de produtos químicos e metalúrgicos; organizar uma produção própria de motores e de materiais para a instalação de centrais elétricas; aumentar a extração de metais e carvão, pois assim o exigia a causa do triunfo do socialismo na URSS.
Era necessário criar uma nova indústria de guerra, construir novas fábricas de artilharia, de munições, de aviões, de tanques e de metralhadoras, porque assim o exigiam os interesses de defesa da URSS nas condições do cerco imperialista.
Era necessário construir fábricas de tratores, fábricas de máquinas agrícolas modernas para abastecer a agricultura, para dar a milhões de pequenos camponeses individuais a possibilidade de passarem à grande produção kolcosiana, porque assim o exigiam os interesses do triunfo do socialismo no campo».
Essas tarefas gigantescas exigiam milhares de milhões de rublos. Ora os cofres do Tesouro estavam vazios.
Como o Poder soviético havia anulado todas as dívidas a países capitalistas contraídas pela autocracia czarista, o crédito estrangeiro era uma impossibilidade absoluta.
Os excedentes da agricultura eram a única fonte a que o Poder soviético podia recorrer. Mas para os obter era indispensável que a agricultura estivesse em condições de os produzir.
Um duplo desafio se colocava: empreender a coletivização das terras e modernizar em tempo mínimo a agricultura, dotando os kolkhoses e os sovkhoses (quintas do Estado) de meios técnicos adequados.
O Poder Soviético, contra as previsões de Paris, Londres e Washington, que consideravam impossível a sua sobrevivência, ganhou essa batalha épica.
Ela coincidiu com intensas lutas internas no Partido (Trotsky foi expulso em 1927 e deportado para o Cazaquistão, Kamenev e Zinoviev também foram expulsos, embora tenham sido posteriormente readmitidos) e exigiu a destruição dos kulaks que tinham enriquecido enormemente durante a NEP.
Não há precedentes na História da Humanidade para transformações tão profundas e rápidas como as que então ocorreram na URSS.
En l926/27 foram investidos na indústria mil milhões de rublos, três anos depois 5 mil milhões. Nesse breve período foram construídas a Central Elétrica do Dnieper, o caminho-de-ferro que ligou o Turquestão à Sibéria, a gigantesca fábrica de tratores de Stalinegrado, a fábrica de automóveis AMO.
Em 1928 a superfície dos kolkhoses era de 1 390 000 hectares; em 1929 ultrapassava 4 262 080 hectares e em 1930 15 milhões de hectares.
No triénio l930/33 a indústria cresceu o dobro.
Esses êxitos foram porem manchados por graves desvios dos princípios e valores leninistas.
Na coletivização das terras não foram apenas os kulaks o alvo da repressão. Ela atingiu também e brutalmente, milhões de pequenos camponeses que resistiram à integração nos kolkhoses.
Stalin criticou os «excessos esquerdistas» de quadros do Partido num artigo em que denunciou os «graves erros daqueles que se tinham desviado da linha do Partido» através de medidas de coação administrativa».
São obviamente fantasistas as estatísticas forjadas no Ocidente segundo as quais dezenas de milhões de camponeses russos e ucranianos foram mortos no processo de coletivização.
Mas é inegável que cabem a Stalin grandes responsabilidades por crimes cometidos nesse período.
A História do Partido Comunista (bolchevique) é omissa a esse respeito.
As ideias de Lenin sobre a coletivização eram incompatíveis com a política de Stalin para a agricultura e com os métodos a que recorreu num contexto de exacerbada luta dentro do Comité Central.
Mas, a minha discordância frontal da estratégia do secretário-geral do PCUS, já investido do enorme poder que Lenin temia e denunciou, não me impede de reconhecer que ele foi um revolucionário excecionalmente dotado que realizou em menos de uma década uma obra colossal.
Distancio-me totalmente dos elogios insistentes e ditirâmbicos a Stalin, mas registo que, terminado com êxito antes do prazo o I Plano Quinquenal, a Rússia se transformara de país agrário atrasado, com estruturas medievais, num grande país industrial. Um país em que quase 75% da população adulta era analfabeta tornou-se um país instruído e culto com uma rede impressionante de escolas superiores, secundárias e básicas em que eram ensinadas as línguas de dezenas de nacionalidades que conviviam no espaço soviético do Báltico e do Mar Negro ao Pacífico; o primeiro país do mundo em que o Estado garantia a saúde a educação gratuita a todos os cidadãos.
CONCLUSÕES
No capítulo das Conclusões os autores da História do Partido (bolchevique) tentam apresentar o regime soviético no final dos anos 30 como a concretização do leninismo. Stalin seria o seu intérprete fiel.
O andamento da História demonstrou a falsidade dessa aspiração.
Já na época, o culto da personalidade de Stalin era incompatível com o projeto de Lenin.
Somente em 1956 no XX Congresso do PCUS foi levantado o tema.
Khrushchov, que nunca havia dirigido a mais leve critica ao secretário-geral, esboçou dele um perfil medonho. Posteriormente soube-se que o famoso Relatório ao Congresso estava semeado de informações falsas. Mas o culto da personalidade de Stalin, por ele estimulado, foi uma realidade.
A chamada desestalinização não pode esconder que a chegada ao poder de Khrushchov assinalou o início da política revisionista que conduziu à destruição da URSS.
Quem enterrou o Socialismo na União Soviética foi Gorbatchov, mas quem abriu a cova foi Khrushchov.

SOBRE A HISTÓRIA DA GRANDE REVOLUÇÃO SOCIALISTA DE OUTUBRO

A versão portuguesa, publicada em 1977 pela Progresso foi preparada por um grupo de académicos, mas a editora soviética não cita os seus nomes.
Pelo estilo, pela linguagem e pelas fontes consultadas (que ocupam 71 páginas no índice) é uma obra muito diferente da História do Partido Comunista (bolchevique) de 1938.
As primeiras referências a divergências na fração bolchevique do POSDR aparecem somente nas páginas 152 e 163. Os autores sublinham que Trotsky, Kamenev e Zinoviev não acreditavam na «vitória da revolução socialista na Rússia», Os dois últimos denunciaram mesmo num artigo a preparação da insurreição do 7 de novembro (25 de Outubro no calendário Juliano, ainda vigente) o que levou Lenin a acusá-los de «traidores».
A III Parte da História em apreço é dedicada à Edificação do Estado Soviético e a Transformações Revolucionárias no País.
Nas 200 páginas que ocupa são frequentes as críticas a Kamenev e Zinoviev e escassas as referencias a Stalin e Trotsky.
As críticas a Trotsky surgem a propósito das posições contraditórias que assumiu como chefe da delegação soviética nas negociações de paz de Brest Litovsk com os alemães e os austríacos.
Mas a linguagem dessas críticas não é agressiva. Os autores escrevem que «Tal como os comunistas “de esquerda” (então liderados por Bukharin), Trotsky não acreditava na possibilidade de conservar o Poder Soviético sem o apoio das revoluções nos países da Europa ocidental. Lenin tinha dado instruções para assinar o tratado de paz se os alemães apresentassem um ultimato».
E Trotsky, como chefe da delegação, ignorou as indicações de Lenin, refugiando-se na fórmula absurda «nem paz nem guerra!» Mas quando os alemães retomaram a ofensiva a 18 de Fevereiro, Trotsky, na reunião de emergência do Comité Central, votou com Lenin pela assinatura imediata do tratado imposto pelos alemães, o que se fez a 3 de Março.
Os autores não referem sequer a expulsão de Trotsky do Partido em 1927 e a sua deportação para a Ásia Central.
Esse grupo de historiadores são obviamente seguidores disciplinados da linha revisionista adotada pelo PCUS após o XX Congresso. E refletem na sua História um tipo de sectarismo tão condenável como o dos redatores da História do Partido Comunista (bolchevique).
A escassez de referências a Trotsky não se justifica.
Se é falso que ele tenha sido o cérebro de um plano tenebroso que visaria desmembrar a URSS, entregando o Extremo Oriente aos japoneses e a Ucrânia a Hitler, é indesmentível que o fundador da IV Internacional conspirou permanentemente no exílio contra a União Soviética.
UMA HISTÓRIA DA URSS TAMBÉM POLÉMICA
A História da URSS preparada pelos cinco membros da Academia das Ciências citados no início deste artigo é também uma obra polémica na qual a deturpação dos acontecimentos históricos reflete o espirito do revisionismo khrushchoviano.
É um manual pouco ambicioso destinado à juventude. O título é aliás incorreto porque os autores tentam condensar em quatrocentas e poucas páginas a história dos povos que desde o paleolítico se instalaram ao longo dos séculos no espaço da futura União Soviética.
O Capítulo I, de Bridsov e A. Sakharov, é dedicado às comunidades primitivas e ao período da escravidão.
No Capítulo II, de Sakharov, o tema é o feudalismo e abrange a fundação do Estado Russo, as invasões mongóis, a desintegração da Horda de Ouro, e finda com o desenvolvimento na Rússia das relações capitalistas.
A perspetival marxista não é facilmente identificável nessas páginas que contêm informações muito interessantes, ausentes nos trabalhos de historiadores ocidentais sobre esses períodos. O nome de Stalin aparece pela primeira vez na página 141, incluído numa lista de bolcheviques que lutavam contra os mencheviques. Kamenev é citado na página 202 como líder dos «oportunistas de direita». Bukharin e Preobrazhensky na página 206 como «capituladores».
Trotsky é criticado (pág. 212) por «ter violado as instruções do CC do Partido e do governo soviético, negando-se a assinar as condições de paz».
O Stalin é atribuído, com Vorochilov, o êxito da vitória sobre Krasnov (pág. 231) em Tsaristsin (futura Stalinegrado).
O trotskismo volta a ser citado criticamente na pág. 258. Bukharin e Rykov são qualificados de «grupo anti partido de oportunistas» (pág. 261)
Nas páginas dedicadas à coletivização da agricultura a violação dos princípios do Partido é atribuída a funcionários e aos sovietes locais e valorizada como importante a crítica de Stalin a esses desvios. Mas não há referências aos crimes cometidos e à deportarão maciça de camponeses.
O Historiador não alude sequer aos processos dos anos 30 que findaram com os fuzilamentos de Kamenev, Zinoviev, Rakovsky, Bukharin, Preobrazhensky e outros velhos bolcheviques.
As primeiras referências ao culto da personalidade de Stalin aparecem na página 281. O autor do capítulo afirma que «a idolatria a Stalin infligiu graves danos ao Partido Comunista e à sociedade soviética» e sublinha que os êxitos obtidos pelo Partido e as massas populares foram injustamente atribuídos a Stalin.
No capítulo dedicado à II Guerra Mundial salienta-se que Stalin «assumiu a direção militar, económica e politica dom país, concentrando nas suas mãos a plenitude do Poder do Estado» (pág. 287).
No Capítulo IV, o académico F. Golikov dedica largo espaço (página 312 e seguintes) ao XX Congresso, informando que nele foi discutido o relatório do primeiro secretário, Khrushchov, sublinhando que «a questão de superar o culto da personalidade de Stalin e as suas consequências» mereceu especial atenção.
«O Congresso – escreve Golikov - revelou audaz e sinceramente as faltas e as deficiências no trabalho, resultantes da idolatria a Stalin, sobretudo nos últimos anos da sua vida e atividade. Alheio ao espirito do marxismo-leninismo e à natureza do regime socialista da sociedade, a androlatria travou o desenvolvimento da democracia soviética e impediu o avanço da União Soviética para o comunismo.
Mas, ao criticar os «aspetos erróneos da atividade de Stalin» a nova direção do Partido afirma que «como fiel marxista-leninista e firme revolucionário Stalin ocupará o seu devido lugar na História».
Na sessão plenária do CC de junho de 1957 salienta-se que «foi derrotado e desmascarado o grupo anti partido integrado por Malenkov, Kaganovitch, Molotov, Bulganin e Shepilov».
Seguem-se páginas apologéticas dos extraordinários êxitos que o PCUS sob a direção de Khrushchov estaria alcançando e que permitiriam à URSS «ocupar nos próximos 15 anos o primeiro lugar no mundo tanto quanto ao volume global da produção como à produção per capita. No país será criada a base material e técnica do comunismo».
Para mal da humanidade, essa previsão otimista foi desmentida pela História.
Pelo estilo e linguagem, no Ensaio em apreço transparece com clareza a mentalidade revisionista que empurrou a URSS para a sua desagregação e a reimplantação na Rússia do capitalismo.
É um trabalho que não contribuiu para o prestígio da historiografia soviética.
Transcorridas décadas, é minha convicção firme que a História do Partido Comunista (bolchevique) de 1938, a História da Grande Revolução de Outubro e as diferentes Histórias da URSS editadas nos anos 70 deturparam todas, com objetivos opostos, a História real de acontecimentos que deixaram marcas inapagáveis no caminhar da humanidade.
É útil recordar que a grande maioria dos historiadores ocidentais, epígonos do capitalismo, longe de contribuírem para iluminar a história real da União Soviética, a deturpam com perversidade para demonizar o marxismo e Lenin.
Em vésperas das comemorações do centenário da Revolução de Outubro, sinto a necessidade de afirmar que, não obstante as graves deformações que desnaturaram o projeto de Lenin, o desaparecimento da URSS configurou uma tragédia para a humanidade. A vitória da Revolução Socialista foi o maior acontecimento da História e a sua herança confirma que foi a experiência mais justa e ambiciosa de libertação do homem da sua exploração milenária.

*História do Partido Comunista (bolchevique) da URSS, Edição de Para a História do Socialismo, Portugal, Agosto de 2010, 527 páginas
** História da Grande Revolução Socialista de Outubro, Edições Progresso, Moscovo, 1977, 676 páginas
*** Historia de la URSS (Ensayo), publicada em 1960 pelas Edições Progresso, de Moscovo, 422 páginas

Serpa e Vila Nova de Gaia, Setembro e Outubro de 2016

               

sexta-feira, 14 de outubro de 2016


Soprando ao Vento – BobDylan



Soprando ao Vento

Quantas estradas um homem precisará andar
Antes que possam chamá-lo de homem?
Quantos mares uma pomba branca precisará sobrevoar
Antes que ela possa dormir na areia?
Sim, e quantas balas de canhão precisarão voar
Até serem para sempre banidas?
A resposta, meu amigo, está soprando ao vento
A resposta está soprando ao vento
Sim, e quantos anos uma montanha pode existir
Antes que ela seja dissolvida pelo mar?
Sim, e quantos anos algumas pessoas podem existir
Até que sejam permitidas a serem livres?
Sim, e quantas vezes um homem pode virar sua cabeça
E fingir que ele simplesmente não vê?
A resposta, meu amigo, está soprando ao vento
A resposta está soprando ao vento
Sim, e quantas vezes um homem precisará olhar para cima
Antes que ele possa ver o céu?
Sim, e quantas orelhas um homem precisará ter
Antes que ele possa ouvir as pessoas chorar?
Sim, e quantas mortes ele causará até saber
Que pessoas demais morreram
A resposta, meu amigo, está soprando ao vento
A resposta está soprando ao vento?

Blowin’ In The Wind

How many roads must a man walk down
Before you can call him a man?
How many seas must a white dove sail
Before she can sleep in the sand?
Yes and how many times must cannonballs fly
Before they’re forever banned?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind
Yes and how many years can a mountain exist
Before it’s washed to the seas (sea)
Yes and how many years can some people exist
Before they’re allowed to be free?
Yes and how many times can a man turn his head
Pretend that he just doesn’t see?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind
Yeah and how many times must a man look up
Before he can see the sky?
Yes and how many ears must one man have
Before he can hear people cry?
Yes and how many deaths will it take till he knows
That too many people have died
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind?
Via: voar fora da asa http://bit.ly/2dNn0PY

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Xenofonte: A mentira histórica num grande historiador

Miguel Urbano Rodrigues    12.Oct.16    
Historiador e precursor do moderno jornalismo, a obra de Xenofonte marcou sucessivas gerações durante seculos. A importância do seu legado não significa que ele tenha respeitado a História ou relatado com um mínimo de fidelidade acontecimentos que evoca. Deturpou conscientemente a vida e a personalidade de Ciro I, para a partir dessa deturpação construir a imagem modelar do “príncipe”.
Admiro Xenofonte desde a juventude.
Nos anos do «período especial», quando viajava para Cuba onde então residia, levava no bolso a Anábases, para reler no avião. A saga dos Dez Mil Gregos no regresso à pátria ajudava a compreender a resistência heróica do povo cubano.
Transcorridos muitos anos, com a vida útil a findar, reli nas ultimas semanas, com prazer, a Anábases e Ciropedia.
Xenofonte foi um escritor maravilhoso. Usou o talento e a imaginação para evocar acontecimentos ligados à História da humanidade.
Historiador e precursor do moderno jornalismo, a sua obra marcou sucessivas gerações durante seculos. Cícero, Júlio Cesar, Tácito, Arriano estudaram com atenção os seus livros.
A importância do legado de Xenofonte não significa que ele tenha respeitado a História ou relatado com um mínimo de fidelidade acontecimentos que evoca. Deturpou, pelo contrário, conscientemente a vida e a personalidade de Ciro.
Dois mil anos antes de Maquiavel, Xenofonte esboçou num livro belíssimo o retrato do príncipe perfeito tal como o concebia. O persa Ciro foi o modelo que o inspirou no seu «romance político» no qual alguns historiadores identificam afinidades com a Republica de Platão.
Não creio que tenha sentido escrúpulos em inventar um herói inexistente, tomando como referencia o imperador aqueménida.
Pode-se argumentar que Heródoto na sua História esboçou do homem e do estadista persa um perfil incompatível com o forjado por Xenofonte. Mas naquela época os leitores de ambos não excederiam centenas em cada geração.
Introduzida na Europa a Imprensa, foi o Ciro de Xenofonte que transmitiu às elites europeias a imagem do líder ideal na Antiguidade.
Em Pasárgada, frente ao túmulo de Ciro, numa visita inesquecível às ruinas da cidade por ele fundada, eu tinha na mão, recordo, a Ciropedia. Mas a minha meditação no local era tao enovelada que hoje sou incapaz de penetrar nesse labirinto.
Interrogo-me, por vezes, sobre a motivação de Xenofonte em deturpar a História real na Ciropedia, o que raramente fez em Anábases, onde os erros são sobretudo geográficos.
Logo no Capitulo III apresenta de Astíages, o rei medo, avô de Ciro o, retrato de um monarca sábio e bondoso que ama o neto e contribui positivamente para lhe formar o carácter. Inverte a realidade. Astíages, advertido por um mago de que Ciro viria a ser um grande rei, ordena ao mordomo, Harpago, que o mate. O crime não se consumou porque Harpago salvou o menino, entregando-o a um pastor que o criou. Ciro, aliás, combateu Astíages e conquistou a Média.
Xenofonte inventa também uma cronologia das campanhas de Ciro que falsifica a História. Atribui-lhe (e aos persas) um papel decisivo na guerra contra a Assíria. Ora Ciro nasceu meio seculo depois da destruição do império assírio pelo babilónio Nabucodonosor, aliado aos Medos.
Xenofonte não ignorava o fato. Mas reescreve a História, para a falsificar. Apresenta a campanha contra Creso, rei da Lídia, como consequência da derrota dos assírios. Situa também fora da data real a conquista da Babilónia.
Porquê? Mente conscientemente. Com que objetivo?
Na Ciropedia, o Rei dos Reis teria conquistado Chipre.
Porquê essa inverdade se ele nunca esteve sequer em Chipre?
Igualmente inesperadas são todas as referências de caracter religioso. Os deuses invocados por Ciro são sempre os gregos.
Porquê tamanho absurdo?
Ciro, segundo Xenofonte, sacrifica a Zeus, a Héracles, a toda uma panóplia de divindades do panteão helénico.
Porquê? Ciro era tolerante. Respeitou a religião dos povos conquistados. Sabe-se que sacrificou a Marduk em Babilónia. Mas o deus supremo dos persas era Ahura Mazda. Na Ciropedia não há contudo referências a ele nem a Mitra ou Anahita, deuses menores do mazdeísmo que evoluía para o monoteísmo.
Xenofonte não foi, porém, exceção. Ésquilo, numa das suas obras, transforma Dario I num devoto de Zeus. Heródoto, nas páginas que dedica à retirada da Grécia apos a derrota de Salamina, cita Zeus como se fora deus dos persas. Tucídides também deformou as práticas religiosas dos persas. As crenças e os rituais do mazdeísmo eram muitíssimo diferentes dos comuns na Grécia. Não havia pontes entre a religião dos persas e a dos helenos.
Conclusão: os clássicos gregos «traduziram» os nomes dos deuses persas, procurando equivalências, agredindo a história das religiões.
in O Diário info

                

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

CLAUSTROFOBIA