Astrónomos obtêm imagem detalhada da Nebulosa do Caranguejo
10.05.2017
Space Telescope Science Institute Office of Public Outreach
A imagem foi captada a partir de diferentes comprimentos de onda de luz
combinando as capacidades de cinco telescópios, incluindo os espaciais
Hubble, Chandra e Spitzer
Astrónomos
obtiveram uma imagem detalhada da Nebulosa do Caranguejo, nuvem de
poeira, hidrogénio, hélio e plasma com origem na explosão de uma
estrela, informou esta quarta-feira a agência espacial norte-americana
NASA.
A imagem foi captada a partir de diferentes comprimentos de
onda de luz combinando as capacidades de cinco telescópios, incluindo
os espaciais Hubble, Chandra e Spitzer.
Localizada a 6.500
anos-luz da Terra, a Nebulosa do Caranguejo foi descoberta, em 1731,
pelo astrónomo britânico John Bevis, sendo o remanescente de uma
supernova (explosão de estrela moribunda) registada por astrónomos
chineses e árabes, em 1054.
A Nebulosa do Caranguejo é uma nuvem
de vento de pulsar na constelação de Touro. A pulsar que está no centro
deste corpo celeste é uma estrela de neutrões rotativa, muito densa e
altamente magnetizada.
E o Homo naledi surpreendeu-nos de novo, agora terá coexistido connosco
Mais ossos encontrados num local de difícil acesso, numa gruta na
África do Sul, reforçam a hipótese de que estes humanos já seguiam ritos
funerários como nós.
Foi revelado ao mundo em 2015 e agora a mesma equipa que tinha descoberto o Homo naledi na
África do Sul voltou a trazer de uma assentada um punhado de novidades
sobre esta espécie de humanos mais primitivos do que nós. A mais
surpreendente é que o Homo naledi, a que inicialmente tinha
sido atribuída uma idade de 2,5 milhões de anos, poderá ter sobrevivido
muito mais tempo e, por isso, há cerca de 330 a 230 mil anos ainda
andaria pelas paisagens do Sul de África. A ser mesmo assim, a história
da evolução humana ganha contornos ainda mais interessantes – porque
significaria que o Homo naledi e os primeiríssimos representantes da nossa espécie, o Homo sapiens, poderão, afinal, ainda ter-se encontrado.
A nova espécie de humanos foi-nos apresentada em dois artigos científicos na revista online de acesso livre eLife,
em Setembro de 2015, pela equipa de Lee Berger, paleoantropólogo da
Universidade de Witwatersrand (Wits), em Joanesburgo, África do Sul.
Ossos de 15 indivíduos tinham sido encontrados durante duas expedições,
em 2013 e 2014, a uma das câmaras da Gruta Estrela Ascendente, a 40
quilómetros de Joanesburgo. Era a Câmara Dinaledi (que significa “as
estrelas” em sesoto, uma das línguas oficiais da África do Sul) e daí
viria o nome científico da nova espécie.
Foto
O investigador sul-africano Lee Berger
Universidade de Wits
Além de se lhe atribuir uma idade que poderia andar à volta dos 2,5 milhões de anos, já se dizia
que os seus fósseis reuniam uma mistura de características mais
primitivas e mais evoluídas. Um cérebro pequeno e uma forma do corpo
mais próximos do grupo de pré-humanos, como os australopitecos. Mas as
mãos,os pulsos e pés tinham semelhanças com os da nossa espécie, o homem
moderno. No caso das mãos, tinham já características que lhe permitiam
manipular objectos, mas, ao mesmo tempo, os dedos curvos e polegares
grandes possibilitavam que trepasse às árvores.
Ainda em 2013, à
medida que o trabalho de campo decorria na Câmara Dinaledi, a equipa
coordenada por Lee Berger encontrou uma segunda câmara, a cerca de cem
metros de distância. Na Câmara Lesedi (ou “luz”, na língua tsuana,
também falada na África do Sul), os cientistas depararam-se com cerca de
130 fósseis de mais três indivíduos do Homo naledi — ossos da
cabeça e do corpo de uma criança que deveria ter menos de cinco anos,
uma mandíbula e ossos das pernas de um adulto e, por fim, um esqueleto
parcial de um outro adulto, incluindo o seu crânio quase completo
extraordinariamente bem preservado.
Graças ao crânio, este último adulto do sexo masculino teve direito a
alcunha: “Neo”, ou “uma prenda”, em sesoto. “Finalmente, pudemos olhar
para a cara do Homo naledi”, resume Peter Schmid, das universidades de Wits e de Zurique (Suíça), que passou horas a tratar dos ossos do crânio.
No total, há agora pelo menos 18 indivíduos atribuídos à espécie Homo naledi, perfazendo cerca de 2000 fósseis.
É a descoberta de mais fósseis na nova câmara da gruta que os cientistas relatam num dos três artigos científicos publicados, de novo, na revista eLife e que são assinados por uma vasta equipa internacional. Num dos outros dois artigos é esmiuçada a datação dos sedimentos e fósseis da Câmara Dinaledi, enquanto no terceiro
se faz uma reflexão sobre as implicações para a história da evolução
humana e a interpretação de achados arqueológicos, como ferramentas, da
descoberta deste novo humano.
Ora os trabalhos de datação foram
muito complicados, como nota Paul Dirks, das universidades de Wits e
James Cook (na Austrália), que trabalhou nesta questão com mais 19
cientistas de vários laboratórios a volta do mundo. “A datação do naledi foi
extremamente desafiante”, diz Paul Dirks, segundo um comunicado da
universidade sul-africana. “Por fim, seis métodos de datação
independentes permitiram-nos restringir a idade desta população de Homo naledi a um período conhecido como Pleistoceno Médio.”
Estas
populações terão assim vivido até há cerca de algumas centenas de
milhares de anos — há apenas 335 a 236 mil anos —, de acordo com a
datação directa de sedimentos e de dentes, bem como a reconstituição
geológica dos depósitos na Câmara Dinaledi, que foi aquela que, por ora,
foi datada.
Se de facto estas datações estiverem correctas, então
há todo um outro mundo de possibilidades que se levanta na história da
evolução humana. Por essa altura, o Homo sapiens estava a começar a surgir em África, o que significa que não só o Homo naledi sobreviveu mais dois milhões de anos do que se pensava, ao lado de outras espécies de humanos, como o Homo erectus ou o Homo habilis, mas também que se terá chegado a encontrar connosco. Mesmo que por escassos momentos, em termos evolutivos.
Foto
O crânio de um Homo sapiens arcaico da Zâmbia e do Homo nalediJohn Hawks/Universidade de Wisconsin-Madison
Ao ter uma idade mais jovem do que a inicialmente avançada, e não tendo estado o Homo sapiens
sozinho em África, também se põe a questão de saber quem é que fez as
ferramentas de pedra atribuídas à nossa espécie no continente africano.
“No registo arqueológico de África, já não podemos presumir que sabemos
que espécie fez as ferramentas ou até que o homem moderno foi o inventor
de algumas destas tecnologias críticas e avanços comportamentais”,
resumiu Lee Berger. “Se havia uma outra espécie por aí que partilhou o
mundo com os humanos modernos em África, é muito provável que haja ainda
outras. Só temos de as encontrar.”
Contextualizando um pouco, diga-se então que os primeiros humanos — ou seja, os primeiros membros do género Homo — surgiram muito antes, há 2,8 milhões de anos, em África. Também recentes, do início de 2015,
estes resultados, de uma outra equipa, basearam-se na análise de uma
mandíbula descoberta na região de Afar, na Etiópia, atribuída já ao Homo habilis, o que fez recuar em cerca de 400 mil anos o aparecimento dos primeiros humanos. Igualmente em 2015,
foi anunciada a descoberta no Quénia, por uma outra equipa, das
primeiras ferramentas (de pedra) fabricadas já por pré-humanos. Têm 3,3
milhões de anos, por isso só podiam ter sido fabricadas antes do
aparecimento dos primeiros humanos. Até então, considerava-se que as
espécies de hominíneos — os nossos antepassados depois da separação do
ramo dos chimpanzés, há cerca de oito milhões de anos — existentes antes
dos humanos não tinham tal capacidade de talhe da pedra. Para esta
equipa, estes artefactos demonstravam que esses hominíneos que sabiam
talhar a pedra já tinham capacidades de planeamento, destreza manual e
selecção de materiais.
Portanto, o Homo naledi não faz parte dos primeiros humanos mas ainda surgiu cedo na árvore humana.
Preocupação pelos outros após a sua morte
Um
outro aspecto é apresentado agora como um reforço de provas do que a
equipa de Lee Berger já tinha aflorado nos trabalhos anteriores sobre o Homo naledi.
Até que ponto estes humanos não terão praticado ritos funerários?
Afinal de contas, não era nada fácil chegar ao interior daquela gruta. A
passagem mais estreita da Câmara Dinaledi tem 18 centímetros e da
Câmara Lesedi, 25.
Por isso, os cientistas dizem que era preciso o
Homo naledi ter-se esforçado muito para chegar ao interior da gruta, o
que os leva a pôr a hipótese de que aqueles corpos foram ali depositados
de propósito. Ou seja, seguindo ritos funerários, que associamos já a
comportamentos mais complexos do homem moderno (outro desses
comportamentos é relativo aos adornos pessoais). Agora existe uma
segunda câmara, longe da primeira, também com vários esqueletos.
“Isto dá peso à hipótese de que o Homo naledi
usava locais escuros e remotos para esconder os seus mortos. Quais são
as hipóteses de uma segunda ocorrência, quase idêntica, se repetir por
acaso?”, frisa John Hawks, da Universidade do Wisconsin, em Madison
(EUA), também envolvido neste trabalho, que acrescenta num comunicado
desta instituição: “O Homo naledi parece partilhar aspectos
profundos de um comportamento reconhecido por nós, uma preocupação
duradoura por outros indivíduos que continua depois da sua morte.
Deslumbra-me que possamos estar a ver as raízes profundas de práticas
culturais humanas.”
Académicos franceses contra a manipulação mediática Não, a América Latina não é um espantalho político.
No
decurso da primeira volta das recentes eleições em França a subida nas
sondagens de Jean-Luc Mélenchon desencadeou uma forte ofensiva mediática
por parte da direita. Um dos temas esgrimidos foi o espantalho do
“chavismo”. Na Europa como na América Latina, os grandes media são hoje
meios de desinformação e manipulação reaccionária. Foi também assim que
se chegou ao cenário que colocou os eleitores franceses, na segunda
volta, à lamentável opção entre direita e extrema-direita.
Perante
o questionável tratamento mediático das esquerdas latino-americanas
pelos meios de comunicação franceses, um conjunto de investigadores e
especialistas desta região desejou ratificar nesta tribuna algumas
contraverdades:
Na nossa qualidade de investigadores e especialistas na América Latina, a
presença desta região na campanha eleitoral francesa devia ter sido
motivo de regozijo. Mas observamos com inquietação o tratamento
mediático de que é objecto. Desde algumas referências humorísticas à
insularidade da Guiana, alertou-nos o grau de desinformação que
evidenciam as polémicas recentes, que vão da simplificação a
interpretações totalmente fantasiosas. Isso preocupa-nos ainda mais
quando constatamos que grandes jornais nacionais mobilizam figuras
políticas complexas da história recente para alimentar uma confusão já
presente nas esquerdas radicais e o autoritarismo, como por exemplo o
título sensacionalista do jornal Le Figaro «Castro, Chavez…Melenchon, o apóstolo dos ditadores revolucionários?»
Não podemos deixar de interrogar-nos — trata-se apenas de provocar o
terror de um auditório de eleitores indecisos? Com efeito, numerosos
meios de comunicação parecem reter do balanço das esquerdas
latino-americanas apenas os elementos que podem contribuir para as
apresentar como um espantalho, com o objectivo de retirar credibilidade
aos movimentos políticos que se inspiram parcialmente neles.
Perante temas complexos e frequentemente desconhecidos, certos meios de
comunicação tem tendência para tomar liberdades com a história e as
realidades sociais contemporâneas da região. Mesmo nos meios de
comunicação do serviço público, principalmente no canal de televisão
France 2 por exemplo, numa reportagem de 2012 sobre a reeleição de Hugo
Chavez, cheio de erros grosseiros e de críticas, ou mais recentemente em
Maio de 2016, com a intervenção de François Lenglet no seu programa
Palavras e Actos, onde acusa infundadamente de corrupção o presidente
Evo Morales. Para além das suas imprecisões factuais, constatamos uma
falta de interesse generalizada numa compreensão real das transformações
sociais e politicas.
Alguns jornalistas conhecem a fundo os assuntos latino-americanos
contemporâneos e utilizam especialistas capazes de propor análises muito
boas, especialmente no caso da crise politica, económica e social da
Venezuela. Mas frequentemente os comentaristas mais influentes
transmitem uma visão fragmentada e estereotipada da situação, Venezuela? Fácil! Muito petróleo, presidentes autoritários que
monopolizam a televisão, uma alimentação racionada e manifestações!
A análise das causas estruturais e a longo prazo torna-se menos
atractiva para compreender as realidades económicas, sociais e politicas
contemporâneas. Apesar do seu carácter fundamental, não se trata o tema
da inserção dos países latino-americanos na divisão internacional do
trabalho e os «intercâmbios desiguais». Mas, um dos principais factores
das economias destes países reside justamente no facto de que dependem
em grande parte da exportação de matérias-primas e que a volatilidade
dos preços destas tem repercussões imediatas nas taxas de câmbio e nos
mercados financeiros nacionais. Na esfera académica, o que tem sido
teorizado como «síndroma holandês» ou «a maldição dos recursos naturais»
(a longo prazo, os resultados económicos de um país são inversamente
proporcionais à amplitude dos seus recursos naturais), parece ser
desconhecido por análise de jornais que se pretendem científicas e
objectivas.
O nosso propósito aqui não é explicar e ainda menos justificar os erros
dos governos que chegaram ao poder desde os anos 2000. Pelo contrário,
trata-se de convidar a desenvolver análises críticas reais e superar a
hipnose do instantâneo. Assim, é possível superar interpretações
simplistas que designam os regimes como «bons» ou «maus» e tentar
compreender os processos históricos que geram situações particulares. A longa formação da onda de novas esquerdas
O que era a Venezuela antes de Chavez. O Equador antes de Correa. A
Bolívia antes de Morales. O Brasil antes de Lula. A Argentina antes de
Kirchner?
Partamos de um tema preciso: a inflação na Argentina durante a era de
Kirchner. Para o comentar, seria preciso levar em conta a debilidade
estrutural da moeda argentina, causa já de hiperinflacção durante a
presidência de Raul Alfonsin, em 1988. Seria preciso recordar a
re-especialização da economia em torno da exportação de matérias-primas
agrícolas iniciada em finais dos anos 1979 com o cessar das políticas de
industrialização para substituir as importações, reforçada pelas
condições draconianas impostas pelo currency board e as medidas
aplicadas na década de Carlos Menem. Este último executou fielmente os
programas de reajuste estrutural recomendados pelo Fundo Monetário
Internacional (FMI) mediante a privatização de infra-estruturas,
empresas públicas e sectores inteiros dos serviços sociais. Não
poderemos também deixar de mencionar as condições da introdução de
politicas neoliberais tanto na Argentina como no Chile — considerada por
muitos historiadores como um «laboratório» em que o choque foi
especialmente brutal — por ditaduras associadas às elites económicas
locais com o apoio do governo norte-americano através do tristemente
célebre Plano Condor, instrumento de luta contra os comunismos e as
esquerdas. Essa pergunta parece sacar um fio de um desesperante novelo
de processos históricos e políticos. O tempo e a complexidade das
situações não podem ser sistematicamente explicados pelos meios de
comunicação, mas deveriam ao menos indicar elementos para alimentar as
análises.
Os governos que precederam a «onda das esquerdas» latino-americanas
levaram os seus respectivos países a crises económicas e sociais e
politicas inéditas. Mas, perante políticas autoritárias e resultados
económicos catastróficos, as opções destes dirigentes raras vezes foram
questionadas pelos discursos mediáticos franceses, como se a submissão
às regras do FMI garantissem a boa conduta para os países periféricos.
Evidentemente, os governos das novas esquerdas não desfrutaram da mesma
indulgência mediática. Mas os seus progressos sociais e democráticos são
numerosos. As derivas e os fracassos são suficientemente conhecidos e
comentados em França para que não seja preciso citá-los. Tracemos melhor
um panorama sucinto dos êxitos nos últimos 15 anos.
Estes movimentos políticos originaram-se nas mobilizações sociais nas
décadas de 90 e 2000, e estruturaram-se em volta dos sindicatos, de
grupos de militantes pelos direitos dos povos indígenas, colectivos e
associações de bairro, de defesa do ambiente ou feministas. No cenário
político, caracterizam-se pela vontade de situar-se entre a
social-democracia e a esquerda radical. As práticas de desintermediação
do acesso à política institucional deveriam permitir a reapropriação do
político e a ampliação da participação. Nesse sentido, as reformas
constitucionais permitiram a introdução de referendos revocatórios na
Venezuela e na Bolívia e no Equador a constitucionalização do «viver bem».
Apesar de algumas semelhanças, estas «novas esquerdas» são extremamente
diversas e compreendem tanto os governos bolivarianos ou de inspiração
eco-socialista que pretendem romper com o neoliberalismo (Venezuela,
Equador e Bolívia) como os governos progressistas sócio-liberais
(Argentina, Brasil, Uruguai e, em certa medida, Chile).
No plano social, as desigualdades extremas do continente lamentavelmente
não são recentes nem imputáveis aos governos de esquerda. Através de
estratégias diferentes e sem conseguir libertar-se da renda produto da
exportação de matérias-primas, as políticas públicas desses países
concentraram os seus esforços em reduzir a fractura social. Apesar da
crise económica, os anos 2000 permitiram a mais de 30 milhões de
brasileiros superar a pobreza. Na Bolívia, a proporção da população que
vivia em condições de pobreza crítica passou de 66,4% no ano 2000 para
38,9% em 2015, enquanto no Equador passou de 44,6% em 2004 para 22,5% em
2014. Na Venezuela, o índice de escolarização a nível secundário passou
de 47% em 1995 para 75% em 2007, enquanto o coeficiente de Gini passou
de 0,435 para 0,402 e que milhares de casas foram construídas. Sob as
presidenciais de Kirchner (2003-2015), a Argentina iniciou um processo
de reconstrução dos fundamentos do Estado social através da instauração
de um subsídio universal para as crianças, de pensões de reforma para
todos e da garantia da gratuitidade dos sectores públicos (transportes,
saúde). Os meios de comunicação e a polarização política
A maioria dos meios de comunicação pertence a grandes grupos de
comunicação que são simultaneamente importantes intervenientes
políticos. Na América Latina, um estudo de Observacom avaliou em 60%
esta concentração no conjunto da região. Neste contexto, alguns governos
tentaram propor alternativas para garantir o pluralismo mediático e a
liberdade de expressão. Um exemplo é a Lei de Notícias argentina, cujo
objectivo é limitar a concentração de meios de comunicação em grandes
grupos, reforçar os meios do sector público e favorecer o
desenvolvimento de meios associativos, cooperativos ou locais em todo o
território. Vendo um risco para a sua expansão comercial o Grupo Clarín,
principal conglomerado de imprensa argentino tornou-se o opositor
radical do governo de Kirchner. Em reacção a estes comportamentos, os
meios de comunicação públicos de alguns países transformaram-se por sua
vez e tribunas para os seus respectivos governos, reforçando assim o
mecanismo de polarização.
A polarização política é portanto obra dos meios de comunicação. A
velocidade com que o novo presidente argentino, Maurício Macri, derrogou
a lei dos meios, ilustra a importância para as direitas
latino-americanas do poder mediático. Lamentavelmente, a imprensa
francesa — talvez demasiado segura da imparcialidade jornalística —
retoma com frequência análises de imprensa favoráveis aos sectores
conservadores e neoliberais. Assim a crise política brasileira que
permitiu a instauração do governo ultraliberal de Michel Temer foi
conhecida em França através da visão de meios favoráveis à elite
económica, com o Globo, Folha de S. Paulo, o Estado de São Paulo, ou
Veja, que participaram mais ou menos activamente na destituição muito
pouco democrática de Dilma Rousseff.
Assim se elaborou a ignorância das evoluções democráticas e políticas
que as sociedades latino americanas atravessam. Para lá de políticas
governamentais, observar a América Latina só através da denúncia
oportuna de derivas chavistas ou castristas e de um «miserabilismo»
condescendente contribui para manter representações eurocentristas que
negam toda a força original, criadora e libertadora a sociedades
particularmente inovadoras no plano sócio/politico e regularmente
agitadas por mobilizações colectivas.
Estas últimas, como todos os movimentos de organização colectiva «de
base», são pouco citadas nos meios de comunicação dominantes., embora
representem hoje em dia um dos fenómenos políticos mais interessantes.
A imagem muito aproximativa que estes meios dão das diversas realidades
latino-americanas favorece o predomínio de uma desinformação
generalizada, que permite textos pouco sérios terem grande êxito,
unindo-se a esta espessa neblina. Assim, quando um artigo relaciona
insidiosamente as situações contemporâneas e as ditaduras militares das
décadas de 60, 70 e 80, os seus termos, que se servem de uma demagogia
que pretendem denunciar, parecem quase aceitáveis. Como não reagir e
condenar esses discursos, quando vivem connosco exilados políticos e os
seus filhos?
É lamentável que na arena politica as mulheres e os homens deformem as
realidades sociais para as manipular a seu favor. Nesse caso, podemos
reprovar Jean-Luc Melenchon que menciona apenas os êxitos das esquerdas
latino-americanas, em caso algum seria sensato ou legitimo opormo-nos à
leitura diametralmente oposta: a função do jornalista, como a do
investigador, é tentar tornar o mundo mais inteligível. Mas, de nos
últimos dez dias, assistimos a uma apresentação muito discutível da
América Latina na imprensa francesa. Alimentados quer por um cinismo
político e eleitoral como por um eurocentrismo latente, reduzem a
história da América Latina e a sua complexidade social e política a uma
caricatura. Alguns exemplos latino-americanos mostram que não pode haver
democracia plena quando os meios de comunicação preferem a polémica, e
até a instrumentalização politica, aos factos e sua explicação. Notas:
Medida da desigualdade de rendimentos num país, de 0 para o mais igualitário a 1 para o mais desigual.
Observatório latino-americano de medias e convergência.
Primeiro jornal em número de edições e 60% do mercado da televisão por cabo.
Tradução: Manuela Antunes in ODiario.info.
FRANÇA Sectores dos mais poderosos do grande capital financeiro franceses e estrangeiros, dominando claramente os media e injectando rios de dinheiro, deram a vitória ao seu candidato, contudo o que mais contribuiu foi o temor pelo partido neo-fascista. Este serve às mil maravilhas de "papão" à direita conservadora para assustar o eleitorado. Hoje a sua missão histórica é esta. Se o partido de Marine Le Pen defende medidas abertamente fascistas (nacionalismo xenófobo, racista e agressivo), é de excluir que o programa e a prática de Macron e seus apoios nada contêm de neo-fascismo? Eu julgo que não. O fascismo não é uma excepção dos regimes neoliberais. É a sua pulsão.
A
tarefa será entregue a Emmanuel Macron, o candidato anti-sistema
apresentado pelo próprio sistema, o eleito de Hollande, Valls, Juppé,
Juncker, Merkel, Schulz, Sarkozy, Fabius, Fillon, Strauss-Khan, Lagarde,
Schauble, Hillary Clinton, Obama, da NATO, da União Europeia, de
Israel.
Medo,
propaganda como pilar da mentira política e estado de excepção são os
principais panos do cenário das eleições presidenciais francesas, nas
quais a enxurrada de análises, pareceres, conjecturas e previsões é
inversamente proporcional ao esclarecimento e consciencialização dos
franceses sobre decisões determinantes para o seu futuro.
Mais do que isso, o discurso e os comportamentos da maioria dos políticos e dos media
empenhados em dar credibilidade ao que não passa de uma farsa de
democracia escondem os desmandos que irão atingir a generalidade dos
cidadãos eleitores.
Este jogo perverso, em que se estrangula o
direito das pessoas a decidirem sobre a sua vida enquanto são
ludibriadas quanto às hipóteses de escolha, tem como provável vencedor o
candidato que mais escondeu sobre si e as suas propostas: Emmanuel
Macron, o falso socialista, falso centrista, ex-membro do staff
de Sarkozy, ex-ministro de Hollande e que, apesar de há poucos meses
ainda ter a pasta governamental da Economia, se apresentou «de fora do
sistema» e «contra o sistema», prometendo uma «revolução política» que
já está «em marcha».
Daí a designação do partido que formou – En Marche –
uma entidade talhada para fazer eleger um presidente de laboratório
capaz de agir como marioneta dos grandes interesses mundiais, projecto
este que centralizou vastos apoios de bancos transnacionais, das grandes
empresas da Bolsa de Paris e de diversas fundações, entre as quais a
norte-americana New Endowment for Democracy (NED), conhecida pelo seu
patrocínio de golpes de Estado «democráticos», da América Latina ao
Médio Oriente, passando pela Ucrânia. Por isso se juntaram ao En Marche,
como «conselheiros», alguns diplomatas neoconservadores
norte-americanos alinhados com Obama, Hillary Clinton e as facções das
agências de espionagem sob sua influência.
Não surpreende, por
isso, que a finalíssima presidencial em França seja, afinal, uma réplica
da recente catástrofe norte-americana que selou o esvaziamento da
democracia enquanto instrumento da genuína capacidade popular de
decidir.
A alternativa deixada aos eleitores, nos Estados Unidos
como em França, nada tem a ver com os reais interesses e direitos das
pessoas, apenas coloca uma baia entre duas roupagens para a mesma
anarquia neoliberal: o nacionalismo de inspiração fascista, tirando
proveito da degradação das condições sociais e de vida da maioria da
população, assumindo frontalmente as suas orientações xenófobas e
racistas; ou o neoliberalismo sem fronteiras, no caso francês ancorado
no autoritário sistema económico, financeiro e monetário na União
Europeia e teleguiado pela NATO.
Neste quadro teve um significado
exemplar a manifestação de fraternidade entre o ex-futuro
primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, e o próximo presidente
francês, Emmanuel Macron, testemunhada publicamente na Festa do Unità,
por sinal o histórico jornal operário de que o americanizado Partido
Democrático se apropriou, assaltando o património do dissolvido Partido
Comunista Italiano (PCI).
Não é difícil estabelecer um paralelo
entre os duelos Trump-Clinton, Le Pen-Macron, e mesmo Beppe Grilo-Renzi,
como exemplos crus do esvaziamento da democracia representativa e da
emergência de uma nova variante da alternativa bipolar; agora, o
pensamento único neoliberal oscila cada vez mais entre o nacionalismo em
ascensão e o sistema dirigente internacional sem fronteiras, que até
aqui tem assentado numa bipolaridade entre a direita conservadora e os
sociais-democratas da «terceira via», ao estilo de Tony Blair, François
Hollande e Martin Schulz.
O caso francês é mais uma demonstração
de como o pensamento único que sustenta a política de governo do
capitalismo internacional, uma vez chegado ao estado de anarquia de
mercado, está em transição para se instalar na extrema-direita; dispensa
assim o recurso a formas mesmo adulteradas de social-democracia, pelo
que os Partidos Socialistas vão implodindo em ritmo de dominó.
Assim
sucedeu em Itália, na Grécia, na Alemanha através da coligação acrítica
com Merkel, na Holanda, na Bélgica, agora em França, tal como existem
indícios coincidentes no Reino Unido – pelo cerco anárquico a Corbyn – e
em Espanha. No espaço dos países saídos da esfera de influência
soviética há muito que o pensamento único já cristalizou na
extrema-direita, ou mesmo no fascismo, podendo dizer-se que a democracia
pluripartidária mal chegou a vigorar. Nem os países nórdicos escapam à
tendência: basta atentar na deriva actual da social-democracia, que
durante décadas dominou a ponto de se identificar praticamente com os
Estados.
Não se estranhe que este fenómeno que ataca os partidos
da social-democracia seja identificado como implosão. Retomando o caso
francês, há muito que o ex-primeiro ministro Manuel Valls, conhecido
pelas suas actuações xenófobas e anti refugiados idênticas às de Marine
Le Pen, vem defendendo a transformação do Partido Socialista numa outra
entidade e com outro nome.
«O
nacionalismo não irá gerir o neoliberalismo, nem criar novas insónias
na União Europeia, estas sim as verdadeiras inquietações geradas por Le
Pen.»
Muito
mais claro ainda foi o presidente cessante François Hollande, que em
2015 falava assim do Partido Socialista que o elegeu: «É preciso um acto
de liquidação. É preciso um hara-kiri. É preciso liquidar o PS para
criar o Partido do Progresso».
Se bem o pensou, melhor o fez,
dir-se-á ao observar a situação do PS nas presentes eleições. Depois de
preparado o terreno através da artimanha das primárias partidárias, uma
ficção de democracia para descaracterizar e subverter a democracia, o
processo culminou numa aberração que liquida, de facto, o Partido
Socialista: foi escolhido um candidato que não chegou aos dez por cento,
enquanto os barões do partido, entre eles o presidente Hollande e o
ex-primeiro ministro Manuel Valls, fizeram campanha pelo candidato de
outro partido que mal viu a luz do dia: Emmanuel Macron.
Aí está En Marche,
criado em laboratório com sotaque norte-americano para fazer eleger um
presidente de aviário, numa campanha onde o debate de ideias e de
programas foi suprimido, substituído pelo duelo entre retratos de
Photoshop animado pelo marketing de detergentes, num ambiente de medo
suscitado pela combinação do terrorismo com o estado de excepção.
A
esquerda, em torno de Mélenchon, quase conseguiu meter um pauzinho na
engrenagem, mas a convergência dos efeitos do terrorismo, da
austeridade, da supressão de direitos, do tratamento dado pelo governo à
vaga de refugiados catapultou as grandes bolsas de excluídos, de
trabalhadores revoltados, de desempregados e dos desfavorecidos das
cinturas das grandes cidades para os braços de Marine Le Pen.
Marine
Le Pen, essa sim ainda no exterior do sistema, não terá condições para
fazer frente ao cilindro compressor da clique dirigente – direitas e
restos do PS – pelo que a França e o resto do mundo farisaicamente
preocupados com a xenofobia e o racismo da Frente Nacional poderão
respirar de alívio. O nacionalismo não irá gerir o neoliberalismo, nem
criar novas insónias na União Europeia, estas sim as verdadeiras
inquietações geradas por Le Pen.
A tarefa será entregue a Emmanuel
Macron, o candidato anti-sistema apresentado pelo próprio sistema, o
eleito de Hollande, Valls, Juppé, Juncker, Merkel, Schulz, Sarkozy,
Fabius, Fillon, Strauss-Khan, Lagarde, Schauble, Hillary Clinton, Obama,
da NATO, da União Europeia, de Israel. Macron, o candidato da Fundação
Rockfeller, dos banqueiros Rotschild, promovido de jovem dirigente da
French-American Foundation para o staff de Sarkozy no Eliseu, e
depois para ministro da Economia de Valls e Hollande, após o
tradicional tirocínio conspirativo no conclave de 2014 do Grupo de
Bilderberg.
Como ministro da Economia, Emmanuel Macron fez aprovar
um novo pacote laboral persecutório e austeritário, através das
condições autoritárias proporcionadas pelo estado de excepção que dura
há mais de um ano e meio e sob o qual – que não se perca tal aberração
de vista – se realizam as eleições presidenciais. Esse pacote laboral
reproduz as exigências da comunidade dos grandes patrões franceses, os
senhores do CAC 40 da Bolsa de Paris, os quais frequentaram os jantares
da campanha de Macron na companhia dos dirigentes dos grupos de
comunicação que possuem os principais jornais, rádios e televisões do
país.
Nenhuma destas personalidades e entidades manifestou, em
caso algum, inquietação com a xenofobia e o racismo praticados pelo
governo de que Macron foi membro, sob a cobertura do estado de excepção,
a pretexto do terrorismo e da crise dos refugiados. Condições e
situações que, tudo o indica, prosseguirão com a «revolução em marcha»
de Macron.
Por ora observamos a camada governante francesa
repudiar o nacionalismo, a gestão do capitalismo neoliberal, o racismo e
a xenofobia de Marine Le Pen enquanto apoia o neoliberalismo selvagem, o
racismo e a xenofobia de Emmanuel Macron, afinal uma prática de
fascismo em versão maquilhada num sistema esvaziado de democracia,
gerido por um presidente produzido e formatado em laboratório.
Eis
a escolha deixada aos franceses, tal como a apresentada aos
norte-americanos; e que ameaça tornar-se a panaceia da época para valer
ao estado de crise do capitalismo.
sexta-feira, 5 de maio de 2017
Mélenchon, a boiada e a dignidade política
por Jacques Sapir
Desde que se divulgaram os resultados do primeiro turno da
eleição presidencial [na França], quer dizer, desde a
noite do domingo passado, Jean-Luc Mélenchon vem enfrentando uma chuva
de críticas tão indecentes quanto sem justificativa. A causa
é a decisão que anunciou, de não tomar partido no duelo
entre
Mme
Marine le Pen e
M.
Emmanuel Macron. Por isso, Mélenchon está sendo acusado de
todos os males, num movimento de histeria coletiva no qual os fatos são
manipulados de modo vergonhoso.
Mais uma vez, é a boiada de jornalistas contratados para matar. Dessa
vez, ativa com extraordinária falta de vergonha, o que deixa à
vista o seu lado político a favor de todas as escolhas
retrógradas propagandeadas por Emmanuel Macron. Esse
"eu-apelismo"
[fr. "jappellisme"],
para usar uma neologia inventada por alguns jornalistas, faz ver a
transformação massiva, embora, claro, não total, dos
jornalistas em propagandistas. Tivemos o aperitivo, na campanha para o
referendo de 2005.
Várias vezes critiquei Jean-Luc Mélenchon, pela imprensa, ou por
este blog. Continuo e continuarei a criticá-lo numa série de
pontos. Mas sinto-me obrigado a dizer aqui que o apoio, contra aquela boiada
'jornalística' sedenta de sangue, que baba e que quer realmente morder.
Apoio Mélenchon porque defendo o direito dele de recusar a escolha que
lhe foi apresentada. Pode-se criticar sua posição, pode-se
debater muito. Nada porém justifica os ataques odiosos de que é
alvo, nem a campanha de assassinato de reputação que sofrem ele e
seu movimento " France Insoumise " [França
Insubmissa].
Porque, sejam quais forem as críticas que se façam a
Mme
Marine le Pen, e já fiz várias neste blog, a decência
obrigaria aquela mesma boiada a declarar que nada há de
" fascista ", nem no programa dela nem no comportamento de
seu movimento. Não há milícias armadas pelas ruas. E as
que há vêm, já há anos de outro lugar, que
não é a Frente Nacional. Pretender que a Frente Nacional seria
" anti-Republicana " é expor-se a uma evidente
contradição: se esse movimento cria qualquer tipo de
ameaça contra a República, teria de ser proibido, e seus
dirigentes, presos. Se não aconteceu, é sinal de que a Frente
Nacional não ameaça a República.
Ao se fazerem ver 'enrolados na bandeira' e ao tentarem abrigar-se sob a
História, a boiada 'jornalística' e seus muitos teclados alugados
encontram terreno firme a partir do qual atacar.
O programa defendido por
Mme.
Marine le Pen é programa populista, com lados bons e também com
lados ruins. É programa soberanista, ainda que inclua derrapagens, como
a questão do direito do solo e da proteção social. Podemos
contestá-lo. Podemos até reprová-lo. Mas fazer desse
programa um espantalho [para empurrar eleitores na direção de
Macron], e ridículo no mais alto grau. Já não estamos na
Alemanha de 1933. Já não estamos sequer na França de 2002.
Tudo mudou profundamente, exceto, parece, a inconsciência e a
ignorância crassas dessa boiada babenta que aí está,
tocando a mesma velha partitura que já ouvimos quando do referendo de
2005. Quando, vale lembrar, o 'ideário' da boiada 'jornalística'
foi derrotado!
O programa de Emmanuel Macron, por seu lado, não é de causar
inveja a ninguém, para dizer o mínimo. É programa de
rendição e submissão à globalização e
braço armado da globalização, que é a
política do governo alemão. É programa de
destruição do Direito do Trabalho, programa de
uberização da sociedade. Além disso, é programa que
traz um projeto de sociedade no qual os indivíduos seriam completamente
atomizados, entregues a lei do mercado e do " pagamento frio no
guichê ", do acordado sobre o legislado. Esse programa, sim,
provoca graves inquietações. E são
inquietações legítimas. São
inquietações de tal ordem que absolutamente proíbem que se
vote a favor de Emmanuel Macron.
É perfeitamente compreensível que tantos comecem a considerar que
o programa de Macron cria para a França perigo muito mais grave e mais
imediato que o de
Mme
Marine le Pen e, em todos os casos, temos de poder ouvir essas vozes!
Isso absolutamente não converte os que defendem esse direito em
apoiadores de algum fascismo, tanto mais imaginário e fantasiado quanto
mais aparece denunciado com 'fervor' suposto democrático jamais visto.
O candidato Macron, esse sim, finge que seria portador de
" valores " radicalmente diversos dos de sua
adversária. E ao fazê-lo, comprova sobretudo que confunde os
valores e os princípios, e que não sabe (sequer) do que fala. E o
tom berrado histérico dos discursos pró-Macron, também
ele, é altamente inquietante.
Não se trata aqui de manifestar meu voto. Além de o lugar
não ser adequado, não me sinto obrigado a fazê-lo, dado que
não tenho qualquer responsabilidade na vida política, sindical ou
associativa. E, tanto quanto me consta, o segredo do voto é direito
democrático. Esse é um dos
" princípios " da República, não um
" valor " como Emmanuel Macron anda inventado.
Mas, quando um homem como Jean-Luc Mélenchon vê-se injustamente
atacado e ultrajantemente caricaturado, quando a mídia-empresa passa a
operar como serviço de propaganda, há grave risco, muito real, de
totalitarismo. Só que o risco vem, muito mais, do lado dos apoiadores de
Emmanuel Macron, que de Marine le Pen. Então é meu dever apoiar
Jean-Luc Mélenchon. Nada disso apaga as críticas que já
lhe fiz e possa vir a fazer-lhe (e vale a inversa, quanto às
críticas que ele fez a mim e que venha a fazer).
A posição de Mélenchon é posição
digna e corajosa, perfeitamente compreensível, mesmo que não a
adotemos inteiramente. Declará-lo assim, publicamente é
questão de honra política, mas também é
questão de saúde pública. Sem honra política e
insalubres são os comportamentos da boiada 'jornalística'. Essa
boiada é, sim, verdadeiro e grave risco a que está exposta a
democracia na França. Mais dia menos dia, será preciso
limpar os estábulos de Áugias
.
QUEM É EXTREMA-DIREITA EM FRANÇA?
O ladrar mediático-corporativo continua a prestar loas ao sr. Macron,
supostamente o candidato que iria conter a "extrema-direita" em França.
Tanto unanimismo da classe dominante é, no mínimo, de desconfiar.
Assim, cabe perguntar: quem é realmente o candidato da extrema-direita?
O sr. Macron é um ex-banqueiro ao serviço dos Rotschilds, um homem do capital
financeiro, defensor da globalização monopólica, do euro e da ditadura da UE.
É nesse homem que o secretário-geral do Partido que se pretende comunista
recomenda votar na segunda volta das presidenciais a fim, diz ele, de conter a
"extrema-direita".
Posição mais digna e corajosa tem o candidato da esquerda, Melenchon, que se
abstem de fazer recomendações de voto na segunda volta.
Na verdade, quem defende a libertação da França das garras do Euro e da
UE; a indústria nacional ameaçada de deslocalização; os direitos sociais e o
aumento dos salários reais dos trabalhadores; a distensão internacional e o
combate à russofobia é a sra. Marine Le Pen.
Assim, a verdadeira extrema-direita francesa é representada pelo sr. Macron.
Esse facto não pode ser alterado pela algazarra mediática. in Resistir.info ---Editorial