Desde a Estação Finlândia
Lenine chegou à Estação
Finlândia há 100 anos, reconfigurando a estratégia bolchevique e o curso
da Revolução Russa. Por Yurii Colombo.
14 de Maio, 2017 - 14:43h
Quando
Vladimir Lenine chegou a Petrogrado, há cem anos atrás, no famoso
“comboio blindado” que viajou desde a Suíça cruzando a Alemanha, a
situação russa, tanto internamente quanto nas frentes de batalha,
parecia ter estabilizado.
A trégua temporária entre o novo Governo Provisório e as massas
rebeldes, contudo, deixou de lado o maior problema que tinha dado início
à Revolução de Fevereiro: a guerra. Quando as intenções agressivas e
militaristas do Governo Provisório foram reveladas, as manifestações dos
“dias de abril” mostraram que a revolução ainda estava viva.
Depois de fevereiro, o czar Nicolau II foi preso e foi formado um
governo provisório. O novo líder do governo era o príncipe Georgy Lvov,
uma figura decorativa que representava o último vínculo com o antigo
regime, mas o seu gabinete ministerial estava dominado por liberais
assustados que temiam a própria revolução que os colocara no poder. O
ministro do exterior era Pavel Miliukov, um líder histórico do Partido
Constitucional-Democrata (Cadete), enquanto o ministro da guerra era
Aleksander Guchkov, político Outubrista e presidente da Duma. O
ministério da justiça foi assumido pelo Socialista-Revolucionário
Alexander Kerensky, o único socialista entre os ministros.
A primeira tarefa do novo governo era garantir à Entente e aos
capitalistas russos que a guerra iria continuar. Como o próprio Miliukov
afirmou a um jornalista francês, “a Revolução Russa foi feita para
poder remover os obstáculos que levariam a Rússia a vencer a guerra”.
A luta revolucionária de fevereiro criou conselhos de trabalhadores
democraticamente eleitos chamados de sovietes, assim como na revolução
de 1905, mas agora estes incluíam soldados, primeiro em Petrogrado e,
posteriormente, em todas as províncias do Império.
No dia 1 de março, o Soviete de Petrogrado publicou a sua Ordem nº 1,
que declarava que “as ordens da comissão militar da Duma do Estado
deveriam ser executadas somente quando não contradissessem as ordens e
decisões dos Conselhos Operários e dos representantes dos Soldados”.
Além disso, a revolução tinha trazido novas liberdades sem
precedentes até então, além de colocar fim à contínua perseguição
policial. Quando o jornalista inglês Morgan Philips Price chegou de
comboio a Moscovo, no dia 6 de abril, observou que:
“Caminhava pelas ruas e logo dei conta de uma mudança desde a última
vez que aqui estive. Não havia nenhum polícia ou gendarme por perto.
Todos eles tinham sido presos ou enviados para a frente em pequenos
batalhões, Moscovo estava sem polícias e parecia estar bastante feliz
assim”.
O Soviete de Petrogrado foi dominado pelas forças socialistas,
principalmente pelos Mencheviques. Eles argumentavam que o governo
deveria permanecer nas mãos da burguesia e que a classe operária deveria
ter o papel de servir de contrapeso para meramente pressionar o novo
Governo Provisório.
Para eles, a Rússia não estava pronta para uma revolução socialista.
Uma situação de “dualidade de poderes” desenvolveu-se rapidamente: de um
lado, o Governo Provisório representando os interesses de capitalistas e
latifundiários, enquanto o verdadeiro poder estava nas mãos dos
Sovietes e das classes trabalhadoras.
No dia 23 de março, os Estados Unidos entraram na guerra. No mesmo
dia, a cidade de Petrogrado enterrou as vítimas da Revolução de
Fevereiro. Oitocentas mil pessoas marcharam pelos Campos de Marte, na
maior mobilização daquele ano até então.
O funeral tornou-se numa espécie de hino à solidariedade internacional e um apelo pela paz; na sua obra clássica,
História da Revolução Russa,
Leon Trotsky escreveu que as “manifestações comuns de soldados russos
com prisioneiros austro-alemães era um facto vívido e cheio de esperança
que permitia acreditar que a revolução, apesar de tudo, carregava
consigo a fundação de um mundo melhor”.
Tsereteli e os líderes Mencheviques dos Sovietes garantiram apoio
externo ao Governo Provisório e acreditavam que a guerra deveria
continuar, mas com uma postura “defensiva e sem anexações”. Esta posição
intermediária tentou abranger a obrigação do governo de continuar a
guerra como se nada tivesse acontecido e as expectativas dos soldados e
dos trabalhadores de uma paz separada.
No dia 14 de março, o Soviete de Petrogrado lançou um manifesto
exortando “os povos da Europa a falarem e agirem em conjunto de forma
resoluta e em busca da paz”. Mas o apelo aos trabalhos alemães e
austríacos – que declarava que a “Rússia democrática não poderia ameaçar
a liberdade e a civilização” e que “defenderemos firmemente a nossa
liberdade de qualquer tipo de invasão reacionária” – foi lido por muitos
como pró-guerra.
Como Trotsky afirmou, “o artigo de Miliukov estava mil vezes correto
ao declarar que ‘embora o manifesto tenha começado com uma nota tão
típica de pacifismo, ele desenvolvera uma ideologia que essencialmente
era idêntica à nossa e à de todos os nossos aliados”.
Antes da Revolução de Fevereiro, a guerra estava a encaminhar-se para
uma paralisação, já que os soldados recusavam-se a lutar, com centenas
de milhares a desertar e a confraternizar com os soldados alemães. Desde
o Natal de 1914, essa confraternização incluía danças e a troca de
conhaques e cigarros entre os soldados alemães e russos, e continuou
assim pelos anos seguintes e sem que isso gerasse uma revolta aberta
contra os oficiais. O historiador Marc Ferro cita uma carta que um
soldado russo escreveu à sua esposa sobre os oficiais:
“A guerra? Eles ficam lá parados enquanto nós estamos na lama, eles
ganham 500 ou 600 rublos quando nós recebemos somente 75. Eles estavam
obcecados com a injustiça. E ainda assim, enquanto os soldados lidam com
a parte mais difícil da guerra, é diferente para eles, cobertos com as
suas medalhas, cruzes, condecorações; mas estão distantes do campo de
batalha”.
No início, os generais tentaram bloquear as notícias da rebelião em
Petrogrado para que elas não chegassem até as tropas que estavam na
frente, mas os soldados alemães informaram os soldados russos sobre a
Revolução de Fevereiro, o que erodiu ainda mais a confiança desses
homens sobre os seus oficiais. Paradoxalmente, a revolução pôs fim às
deserções. Os soldados passaram a esperar pelo iminente fim da guerra e
não queriam sabotar a habilidade do novo governo em negociar a paz.
Os relatos que vinham da frente mostravam que o sentimento geral era
de “apoiar a frente, mas não se juntar às ofensivas”. À medida que as
semanas passaram, o comandante do Quinto Exército relatou que “o
espírito de luta tinha declinado…a política, que se tinha espalhado
praticamente por todos os setores do Exército, fez com que todos os
militares desejassem massivamente apenas uma coisa – acabar a guerra e
ir para casa”. Durante a primeira semana de abril, oitocentos soldados
desertaram do frente norte e da frente ocidental.
O retorno de Lenine e a publicação das Teses de Abril geraram uma
mudança fundamental na política Bolchevique, defendendo uma postura de
“nenhum apoio” ao Governo Provisório burguês e imperialista.
As posições dos Bolcheviques sob a direção de Estaline e Kamenev
tinham sido moderadas e continuaram a apoiar a posição de “Ditadura
Democrática do Proletariado e do Campesinato” para levar adiante a ideia
de revolução burguesa, tal como desenvolvida por Lenine em 1905.
Num artigo publicado no
Pravda, o jornal do partido, Kamenev
argumentou que as “Teses de Abril” representavam a “opinião pessoal” de
Lenine e que “consideram que o seu esquema geral é inaceitável, já que
ele parte do princípio de que a revolução burguesa está acabada e conta,
então, com a imediata transformação dessa revolução numa revolução
socialista”.
Na conferência Bolchevique de março de 1917, Estaline também apoiou
uma possível unificação com os Mencheviques internacionalistas “seguindo
as linhas traçadas em Zimmerwald-Kiental”. Ainda assim, já no ano de
1915, Lenine estava cético sobre a terminologia pacifista e antiguerra
da maioria em Zimmerwald, alegando que ela abria as portas a um apoio à
guerra, chamando-os de “kautskyistas imbecis”.
Quando regressou à Rússia em abril, Lenine argumentou que a esquerda
de Zimmerwald deveria romper completamente com a maioria dos pacifistas
de Zimmerwald, inclusive os Mencheviques, com que Estaline e tantos
outros Bolcheviques desejavam unir-se.
O incansável Lenine conseguiu ganhar a maioria no partido. Os
Bolcheviques contavam com 79.000 membros, dos quais 15.000 estavam
localizados em Petrogrado. Ainda que fosse uma força pequena e
minoritária, especialmente dentro do Soviete de Petrogrado, eram fortes o
suficiente para ter destaque nos eventos da época. Nem o governo e nem
os líderes Mencheviques que encabeçavam os sovietes queriam uma nova
crise política que emergia agora na segunda metade de abril. Miliukov e
os capitalistas russos tinham reassegurado os aliados sobre o papel da
Rússia no conflito e aspiravam a captura do estreito dos Dardanelos,
dominado pelo Império Otomano.
Contudo, Miliukov percebeu que sem algum acordo com os sovietes, as
tropas dificilmente aceitariam e lutariam em prol dos planos do governo.
Por outro lado, Tsereteli insistia na necessidade de um anúncio do
governo que frisasse que a guerra da Rússia era exclusivamente
defensiva. A resistência de Miliukov e Guchkov foi então quebrada e em
27 de março o governo declarava que:
“O povo russo não procura fortalecer o seu poder externo às custas de
outros povos e não tem o objetivo de escravizar e humilhar ninguém. […]
Mas o povo russo não irá permitir que a sua pátria mãe saia da Guerra
Mundial humilhada e saqueada nos seus recursos vitais”.
A declaração defensivista de 27 de março não foi bem recebida pelos
Aliados, que viram nela uma concessão aos Sovietes. O embaixador
francês, Maurice Paléologue, reclamou da “timidez e indecisão” da
declaração.
Mas a aposta de Miliukov em usar a guerra contra a revolução tinha
levado em consideração a verdadeira correlação de forças entre o Governo
Provisório e os Sovietes. Ele queria aumentar gradualmente a influência
do primeiro.
Alguns dias depois, teve lugar uma nova reunião entre representantes
do governo e representantes dos Sovietes. A Rússia precisava
desesperadamente de um empréstimo dos seus aliados para dar continuidade
à guerra e um novo memorando do governo poderia obtê-lo. No dia 18 de
abril, Miliukov mandou uma nova nota aos governos dos Aliados,
enfatizando o desejo de “continuar a guerra em total acordo com os
Aliados e cumprindo as suas obrigações perante eles”.
A nota também dizia que a revolução tinha meramente fortalecido a
vontade popular de levar a guerra a um desfecho vitorioso. Numa sessão
noturna especial, a 19 de abril, o Comité Executivo dos Sovietes
discutiu a nota. “Foi praticamente sem debate e de forma unânime que
reconhecemos que isso não era nada do que o Comité esperava”, declarou o
membro Vladimir Stankevich.
A Gazeta
Rabochava, um jornal Menchevique, acrescentou que a
nota de Miliukov era um “escárnio da democracia”. Contudo, o jornal da
proeminente intelectualidade liberal,
Novoe Vremya, tentou defender a nota, declarando que não era possível rasgar os tratados existentes.
Se a Rússia assim fizesse, “os nossos aliados também teriam total
liberdade de ação: se não existe tratado, ninguém tem de cumpri-lo […].
Acreditamos que, com exceção dos Bolcheviques, todos os cidadãos russos
irão considerar que a tese principal por trás da nota é a correta”.
Porém, a nota causou uma explosão espontânea de indignação popular. A Gazeta
Rabochava escreveu:
“Petrogrado reagiu com sensibilidade e nervosismo. Em toda a parte,
nas ruas, nos elétricos, há disputas acaloradas e apaixonadas sobre a
guerra. Os bonés e os lenços defendem a paz; os chapéus e os lenços
defendem a guerra. Nos distritos operários e nos quartéis, a resistência
contra a política de anexação é mais forte”.
O menchevique Sukhanov, talvez o melhor repórter da Revolução Russa, relembrou vividamente:
“Uma imensa multidão de trabalhadores, alguns inclusive armados,
estava a dirigir-se à avenida Nevsky, a partir do distrito de Vyborg.
Existiam também muitos soldados com eles. Os manifestantes estavam a
marchar sob as frases de “abaixo o Governo Provisório”, “abaixo
Miliukov”! Uma tremenda excitação dominou o ambiente geral dos distritos
operários, das fábricas e dos quartéis. Muitas fábricas pararam.
Reuniões públicas tiveram lugar em toda a parte”.
Na noite de 20 de abril, os líderes Mencheviques do Soviete de
Petrogrado pediram ao governo para emitir uma nova nota corrigindo a de
Miliukov e adotando um tom pacifista, mas no final acabaram por aceitar a
posição Socialista Revolucionária de Kerensky, que afirmava que era
suficiente solicitar uma “explicação” sobre a nota.
Apesar disso, contudo, no dia 21 de abril deu-se uma nova onda de
agitações, desta vez dirigida e organizada pelos Bolcheviques. Foi a
primeira vez, desde a revolução, que o partido de Lenine estava na
vanguarda e não na retaguarda do movimento. Ao mesmo tempo, na avenida
Nevsky, apoiantes armados do Governo Provisório reuniram-se, organizados
pelos Cadetes. De acordo com a edição de 22 de abril do
Rabochava Pravda:
“Ontem, nas ruas de Petrogrado, a atmosfera estava ainda mais agitada
do que no dia 20 de abril. Nos distritos [operários] uma série de
greves tiveram início […]. As inscrições nas faixas tinham uma natureza
bastante variada, mas existia uma característica comum em todas elas: no
centro, na avenida Nevsky, na Sadovaya e noutras ruas, predominavam as
frases em apoio ao Governo Provisório; já nos arredores, era o contrário
[…] Confrontos entre os manifestantes dos diferentes grupos são
frequentes […]. Há muitos rumores de tiroteios”.
Uma mulher que participou das manifestações escreveu mais tarde que:
“…as mulheres dessas fábricas […] foram com os manifestantes até a
avenida Nevsky, pelo número ímpar da rua. A outra multidão, por sua vez,
moveu-se paralelamente, pelo lado par da rua: ali viam-se mulheres bem
vestidas, oficiais, comerciantes, advogados, etc. Os seus slogans eram:
‘Vida longa ao Governo Provisório’, ‘vida longa a Miliukov’ e ‘prendam
Lenine’”.
A tensão nos bairros operários escalara ainda mais. Um trabalhador fabril descreveu uma das reuniões daquela tarde:
“O humor alterou-se […]. Foi decidido esperar por uma decisão direta
dos Sovietes. Mas antes dessa decisão chegar, alguns operários
regressaram ao centro trazendo notícias de confrontos, de faixas
rasgadas e de prisões […]. Os humores rapidamente se elevaram. ‘O quê!?
Eles estão a expulsar-nos das ruas, a rasgar as nossas faixas e nós
vamos assistir calados e de longe? Vamos até à Nevsky!’”
Nessa situação tensa, o general Kornilov – apoiado por Miliukov –
decidiu colocar a artilharia no lado de fora do Palácio Mariinsky e
convocar as escolas militares para lhe dar apoio. O objetivo era ligar
os diferentes setores do Exército até um comício pró-governo que estava a
acontecer a poucos metros de uma manifestação liderada por operários
bolcheviques. Miliukov, nas suas memórias, tentando esconder e natureza
contrarrevolucionária da sua iniciativa, argumenta que:
“No dia 21 de abril, o general Kornilov, comandante-chefe do distrito
de Petrogrado, foi informado sobre as manifestações dos subúrbios e da
presença de trabalhadores armados, e então ordenou que várias unidades
de guarnição fossem levadas até a praça do palácio. Ele deparou-se com a
resistência do Comité Executivo dos Sovietes, que os avisou, por
telefone, que a chamada das tropas poderia complicar a situação. Depois
de negociar com os delegados do Comité […] o comandante-chefe cancelou a
sua ordem e ditou, na presença de membros do comité, uma mensagem
telefónica para todas as tropas da guarnição, exigindo que permanecessem
nos quartéis. Depois disso, um apelo feito pelo Comité Executivo foi
colocado nas ruas anunciando que os ‘camaradas soldados não deveriam
sair, nesses dias agitados, sem a ordem expressa do Comité Executivo’”.
De facto, o Comité Executivo dos Sovietes – entendendo que o caráter
contrarrevolucionário da decisão de Kornilov também os ameaçava – deu a
ordem para que os soldados não saíssem dos quartéis. Kornilov viu-se
isolado e sem alternativas, exceto bater em retirada.
O risco para os líderes dos Sovietes era de que isso gerasse um
impasse e, portanto, o Comité Executivo rapidamente declarou que o
incidente com o governo tinha sido resolvido e pediu para os
trabalhadores voltarem para as suas casas. O
Rabochava Pravda ironicamente apontou que:
“Quando o Comité Executivo publicou a sua ordem para que os soldados
não fossem às ruas armados, alguém começou a observar cenas curiosas nas
quais os soldados tentavam persuadir os seus camaradas a não se
envolverem nas manifestações, independente de quais fossem as suas
posições políticas. Era comum ver também soldados apelando aos civis
para manterem-se calmos”.
Kornilov assegurara a Miliukov que tinha “forças suficientes” para
esmagar os rebeldes, mas essas forças nunca se materializaram. Trotsky
escreveu que “essa leviandade atingiria o seu pico em agosto, quando o
conspirador Kornilov iria lançar contra Petrogrado um Exército
não-existente”. Na noite de 21 de abril, ainda que ainda se pudessem
ouvir alguns tiros, a crise política tinha terminado.
Dado o equilíbrio de poder em abril de 1917, os Bolcheviques não
estavam interessados numa batalha aberta que empurrasse o país para a
guerra civil. Pela primeira vez, o partido de Lenine tinha tido um
importante papel nos acontecimentos, mas ainda não estava pronto para
liderar o movimento em prol de uma nova revolução.
Os sovietes ainda estavam a consolidar-se e estavam sob a hegemonia
Menchevique. Para Lenine, uma nova revolução ainda era prematura e o
slogan apoiado por alguns Bolcheviques de “derrubada do governo” estava
errado:
“Deveria o Governo Provisório ser deposto imediatamente? […] Para
tornar-se um poder, os trabalhadores com consciência de classe devem
ganhar a maioria antes […]. Não somos blanquistas […]. Somos marxistas,
defendemos a luta de classe dos proletários contra as intoxicações
pequeno-burguesas”.
A crise tinha enfraquecido, mas nada seria como antes. Tornou-se
claro que nenhuma decisão do governo poderia ser aprovada sem que os
Sovietes estivessem de acordo. A estratégia dos Cadetes e dos
capitalistas, a partir daí, foi tentar envolver diretamente os
socialistas no governo. E a principal condição para o envolvimento dos
partidos socialistas no governo era a deposição de Guchkov e Miliukov.
Depois das suas demissões, o Governo Provisório fez uma proposta ao
Soviete de Petrogrado para formar um governo de coligação. Chegaram a um
acordo no dia 22 de abril e seis ministros socialistas entraram no
ministério (dois Mencheviques, dois Socialistas-Revolucionários e dois
Populistas). Apenas o presidente do Comité Executivo dos Sovietes,
Nikolay Chkheidze, se recusou a aceitar um ministério.
Os Bolcheviques também se recusaram a participar do governo e, ao
invés disso, resolveram preparar-se para as vindouras lutas
revolucionárias. De certa forma, os “dias de abril” fortaleceram a
necessidade dos trabalhadores em prol da sua auto-organização e de se
armarem. Um exemplo disso foi na fábrica de sapatos Skorokhod, onde os
operários decidiram formar uma Guarda Vermelha de mil pessoas e pediram
aos Sovietes quinhentas espingardas e outros quinhentos revólveres.
No dia 23 de abril, numa reunião de delegados de fábrica para
organizarem as Guardas Vermelhas, um orador argumentou que “o Comité
Executivo dos Sovietes está a confiar demais nos Cadetes. O Soviete não
vai às ruas. Mas os Cadetes, sim. Apesar dos Sovietes, os trabalhadores
foram para as ruas e salvaram o dia”.
Os “dias de abril” fortaleceram a resolução dos trabalhadores e
soldados de Petrogrado. Os Cadetes de Miliukov tinham perdido a batalha.
Os Mencheviques e os Socialistas-Revolucionários mantiveram o seu
controlo sobre o Soviete de Petrogrado, mas a confiança neles estava
abalada. E nos meses seguintes, a guerra e a crise revolucionária iriam
aprofundar-se ainda mais.
Tradução de Ângelo Régis e Raphael Boccardo para o
Blog Junho (link is external).
Adaptação para português de Portugal de Mariana Carneiro para o Esquerda.net.
Artigo publicado originalmente na revista
Jacobin (link is external).