
quinta-feira, 17 de agosto de 2017
terça-feira, 15 de agosto de 2017
Um novo panorama para o Médio Oriente alargado, segundo Thierry Meyssan
Da esquerda para a direita, em cima: o Secretário Geral Sayyed Hassan Nasrallah (do Hezbollah) e o Presidente Bashar al-Assad (Síria). Em baixo, o primeiro-ministro Haider al-Abadi (República do Iraque) , o presidente Michel Aoun (República do Líbano) e o General Mohammed Ali Jafari (comandante em chefe da guarda revolucionária), todos irmãos em armas contra os jihadistas.
A política externa do presidente Trump concretiza-se, m relação ao Médio Oriente alargado, conseguindo com o apoio do conselheiro-geral de segurança nacional, H. R. McMaster e do seu diretor da CIA, Mike Pompeo, acabar com os programas secretos para apoiar jihadistas.
Ao contrário dos subentendidos do Washington Post, de que a decisão fora tomada antes da reunião Trump-Putin no G20, ela foi, de facto, tomada um pouco mais de duas semanas antes, durante a preparação da cimeira de Riyadh, em meados de Maio. Não se tratava de ajoelhar-se perante o “czar da Rússia”, como insinuava a classe política de Washington, mas de acabar com o uso do terrorismo, tal como Donald Trump tinha dito declarado durante a sua campanha eleitoral.
As falsas insinuaçõesdo Washington Post encontraram eco em toda a imprensa ocidental. Talvez este facto se deva ao “espírito gregário” dos jornalistas ocidentais, talvez mas o mais certo é que isso mostra que a grande mídia propriedade dos defensores da guerra no Médio Oriente e contra a Rússia.
Revelações búlgaras recentes sobre a existência de uma grande rede de tráfico de armas, criada pelo general David Petraeus, quando este ainda era diretor da CIA, em 2012, e que continuou no seu escritório dos fundos de investimento KKR, mostram alguns resultados surpreendentes sobre o poder dos criadores de guerra.
Dezassete estados, pelo menos, incluindo o Azerbaijão, participaram na operação “Madeira Sycamore” que garantiu o transporte 28 mil toneladas de armas e Israel forneceu os para o seu falso destino final . Com toda a probabilidade, David Petraeus e o KKR foram apoiados pelo Secretário-Geral adjunto da ONU, Jeffrey Feltman. Claro que este tráfego gigantesco, sem precedentes na história pelo seu volume, não dará origem a qualquer processo judicial, nem nos Estados afetados nem no plano internacional.
Há 4 anos que os povos do Levante lutam não só contra Estados, mas acima de tudo contra um consórcio de empresas mutinationales privadas, incluindo meios de comunicação internacionais e os potências de média imensão que dão as ordens para pequenos estados fazerem o trabalho sujo.
No entanto, as dificuldades encontradas por Donald Trump para impor sua vontade sobre a CIA e o Pentágono, bem como a existência desta rede paralela, meia meio pública, meio privada, dão uma idéia da complexidade da sua missão numa ordem mundial subvertida pelos interesses privados.
Num primeiro momento, a ofensiva dos exércitos do Iraque e da Síria para restaurar a Rota da Seda não foi interrompido pelas forças não foi interrompida, apesar de vários incidentes.
A ofensiva lançada pelo Exército Árabe da Síria, com o Hezbollah e em coordenação com o Exército libanês, no Jurd de Ersal é o primeiro resultado visível da nova política de Washington. Embora criticando duramente a presença do Hezbollah, o primeiro-ministro libanês Saad Hariri, a pedido da Arábia Saudita, autorizou o Exército a participar na operação. Esta é a primeira vez que oficialmente os dois exércitos, libaneses e sírios, e a resistência actuam em conjunto. Riyadh, sem desarmar face ao Partido de Deus e ao Irão, considerou ser conveniente trabalhar com o Hezbollah e acabar, em primeiro lugar, com os jihadistas.
Em última análise, esta guerra, que deveria destruir os Estados da região, toma a direcção contrária: a unidade das forças iranianas, iraquianas, sírias e libanesas.
Thierry Meyssan
fonte Al-Watan (Síria), Tradução AA
Este artigo encontra-se em: antreus http://bit.ly/2wLrPBD
"A civilização ocidental tem quase tanto de cristã como de muçulmana"
O escritor e jornalista Paulo Moura é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto.
© Booktailors/Bookoffice
Há 2 Horas por Pedro Bastos Reis
País
Paulo Moura
O seu último livro, 'As Guerras de Fátima - Como as Visões da Irmã Lúcia Mudaram a Política Mundial' (lançado pela Elsinore), foi o ponto de partida para uma entrevista ao Notícias ao Minuto.
Nesta conversa, que teve lugar poucos dias depois de regressar de Mossul, no Iraque, onde esteve a fazer reportagens sobre a anunciada derrota do autodesignado Estado Islâmico, Paulo Moura conta algumas das estórias que presenciou, fala sobre o livro 'Depois do Fim' (também publicado pela Elsinore), analisa o fenómeno do terrorismo e expõe a sua visão do jornalismo.
O que o levou a escrever um livro sobre as visões de Fátima?
Foram várias razões. Primeiro, foi uma coisa conversada com o meu agente e com a minha editora, que acharam interessante publicar um livro sobre Fátima na data do centenário. E eu achei interessante porque é um tema que já me tinha ocorrido várias vezes, até nas minhas reportagens. Por exemplo, na Ucrânia, o tema de Nossa Senhora de Fátima é muito conhecido, e nós aqui não temos muito essa noção. Lá, disseram-me que Nossa Senhora de Fátima os tinha ajudado muito na guerra contra os comunistas russos. Depois, na Crimeia, uma outra senhora disse-me que Nossa Senhora de Fátima os tinha ajudado na guerra contra os nazis. Percebi que havia uma dimensão internacional muito importante neste fenómeno de Fátima, que raramente é falada em Portugal.
Portanto, as visões de Fátima foram utilizadas de diferentes perspetivas políticas?
Sim, por vários países e potências. O Vaticano usou o segredo de Fátima para motivos do seu interesse, depois os alemães, durante o tempo da guerra, utilizaram-no como propaganda nazi contra a Rússia. Por sua vez, a Rússia também o usou para se defender, tal como os norte-americanos, que o usaram para combater os alemães. É interessante como o segredo foi alterado em função da própria necessidade. Quando o Papa Pio XII veio fazer o famoso discurso aos portugueses, em que ia finalmente falar da necessidade da consagração da Rússia, no último momento, os americanos disseram-lhe que era melhor não o fazer e ele mudou o discurso. Em vez de dizer “consagração da Rússia” falou na “consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria”.
Há várias provas de que a Santa Sé incentivou os Estados Unidos a irem para a guerra combater a Rússia, se preciso com armas nucleares
O Papa Pio XII é uma personagem enigmática. Em ‘As Guerras de Fátima’, o Paulo escreve que “o plano da Santa Sé seria o de continuar a guerra até a Rússia ser derrotada (…) Era preciso, portanto, passar ao ataque, e fazê-lo da forma mais enérgica e eficaz, ou seja, usando armas nucleares”. A Igreja quis uma Terceira Guerra Mundial?
Isso é na fase seguinte, durante a Guerra Fria, quando a mensagem de Fátima foi mais importante. Há uma organização muito importante de que falo no livro que é o Exército Azul de Nossa Senhora de Fátima. Era uma organização gigantesca, que chegou a ter 25 milhões de militantes. Foi criada nos Estados Unidos e tinha ramificações em todo o mundo: em África, na América Latina, no Vietname, em vários países asiáticos, e também em Portugal.
A Santa Sé, numa aliança com os elementos mais conservadores de católicos na Casa Branca e na CIA, era a favor de uma guerra nuclear, logo nos primeiros anos após a Segunda Guerra Mundial, quando a Rússia emerge como grande potência. Há várias provas de que a Santa Sé tinha essa posição e de que incentivou os Estados Unidos a irem para a guerra combater a Rússia e, se preciso, usar armas nucleares.
O Exército Azul é um claro exemplo de radicalismo religioso.
Sim, é uma organização fundamentalista religiosa. Supostamente, eram um exército sem armas, que pregava e tentava converter. Mas tiveram um papel muito importante, em nome de Nossa Senhora de Fátima, das aparições e do chamado segundo segredo, que falava da conversão da Rússia.
Qual a importância dessa organização nos dias de hoje?
Ainda existe. Recentemente, mudaram de nome para Apostolado Mundial de Fátima, mas continuam a utilizar a designação de Exército Azul. Têm a sede mundial em Portugal, apesar de aqui não terem muita influência, mas noutros países sim. É engraçado que têm sedes em diversos países, e uma das mais importantes é na fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, numa zona desmilitarizada e de grande tensão. O grande objetivo do Exército Azul é combater o comunismo.
Ou seja, ultrapassa a questão religiosa.
Sim, sim, completamente político, sempre foi. O Exército Azul usa a mensagem de Nossa Senhora de Fátima para um combate político, para combater os russos e o comunismo. Quando a União Soviética desapareceu, continuaram a combater o comunismo onde ele existe, como na Coreia ou Norte ou noutros locais da América do Sul. E também para combater as ideias mais progressistas que possam entrar na Igreja, como o aborto, a contraceção, as mulheres no sacerdócio, o casamento gay. Representam a fação mais conservadora da igreja católica.
Não gosto de guerra (...) o que me atrai é a sensação de que se está a fazer história, e eu sinto o impulso de lá estar
Desde muito novo que o Paulo começou a fazer reportagem em cenários de guerra e de conflito. Foi lá parar por acaso ou era um desejo que já tinha quando começou no jornalismo?
Quando acabei o meu primeiro curso, ainda havia serviço militar obrigatório. Foi também o segundo ano em que havia a lei de objeção de consciência. E foi o que fiz. Escrevi várias páginas com citações desde Santo Agostinho a Gandhi para provar que a minha filosofia pessoal não me permitia ir para a guerra. Foi aprovado e não tive de ir para a tropa. Isto significa que eu não gosto de guerra, apesar de existir esse género de pessoas, que arranjam qualquer pretexto para estar nas guerras e que se viciam. Não é o meu caso. O que me atrai é serem sítios e alturas em que estão a acontecer coisas importantes, a sensação de que se está a fazer história, e eu sinto o impulso de lá estar. Infelizmente, onde se faz história é, normalmente, onde há guerra.
Por exemplo, quando aconteceram as Primaveras Árabes, na Praça Tahrir, no Cairo, eu tinha uma necessidade de estar lá. Se não estivesse, sentia que estaria a perder o meu tempo. Mesmo que não vá trabalhar, sinto vontade de ir.
Na leitura do livro ‘Depois do Fim’ transparece um grande envolvimento com as pessoas com que se cruzou nestes cenários de guerra. É difícil separar o lado profissional do lado pessoal?
Para mim não é muito, porque na minha própria vida misturo as duas coisas. A certa altura, ser jornalista não é uma profissão de entrar às 09h e sair às 17h. É um trabalho em que estamos sempre nele, é uma condição, não nos conseguimos libertar disso. O jornalismo, tal como eu pratico, tem muito a ver com as minhas paixões de sempre: as viagens e a escrita. Sempre quis viajar, e já antes de ser jornalista viajava e escrevia. Faço isso como uma paixão, e não separo muito o que é trabalho do que é férias, que para mim é um conceito que não tem muito sentido. Quando vou a algum sítio aproveito para escrever. Não seria capaz de ir para aqueles resorts e estar ali. Saía logo de lá e ia espreitar o que se passa à volta [risos]. Isto não significa que não tenha de cumprir regras éticas e deontológicas da profissão, que têm de ser cumpridas rigorosamente.
Agora, a parte do envolvimento pessoal não entra aqui, porque é necessário para o próprio trabalho. Eu acredito num jornalismo subjetivo, em que as emoções do jornalista são muito importantes. O jornalista não é apenas um veículo que vai recolher informação para depois escrever num jornal. Aquilo que o jornalista sente e pensa no momento é que é fundamental. O envolvimento pessoal é um material que se utiliza no próprio trabalho.
Falar do Islão e do Ocidente como duas civilizações que se opõem e que podem entrar em conflito é um anacronismo histórico
A escolha do subtítulo ‘Crónicas dos Primeiros 25 anos da Guerra de Civilizações’ foi uma provocação? Logo nos primeiros parágrafos desmente completamente esta ideia.
É uma ironia. Devia estar entre aspas, mas nos livros fica mal graficamente [risos]. Mas subentende-se que é irónico, desde o próprio título, ‘Depois do fim’, que é uma alusão à ideia do fim da história, que é desmentida pelo livro. É a partir desse momento que se chamou “o fim da história” que começaram a acontecer imensas coisas. A guerra de civilizações é algo que não existe, que não é defensável cientificamente. Ainda por cima, falar do Islão e do Ocidente como duas civilizações que se opõem e que podem entrar em conflito é um anacronismo histórico.
Mas essa foi uma tese muito veiculada no final da Guerra Fria.
Não só houve essa teoria, como hoje é usada como combustível para as próprias guerras, que são feitas em nome disso, dos “nossos valores” contra os “valores deles”. Tanto o Ocidente como os fundamentalistas islâmicos usam isso, mas são mitos criados. A civilização ocidental, hoje, tem quase tanto de cristã como de muçulmana. As influências da cultura islâmica são fortíssimas na cultura ocidental, tal como a cultura cristã e ocidental influenciou o que é hoje toda a cultura muçulmana. É um absurdo falar dessa dicotomia.
Prova disso, como também falo no livro, é que estes movimentos fundamentalistas islâmicos e do jihadismo nascem na Guerra do Afeganistão, com os fundamentalistas apoiados pelos Estados Unidos, que criam os primeiros campos de treino onde depois vai surgir a Al-Qaeda, que se espalha pela mundo. Nessa altura, o conflito de civilizações enunciado era que os Estados Unidos, com os muçulmanos, com os crentes das religiões do livro, vão combater os comunistas ateus russos. São construções para justificar guerras que precisam desta super estrutura ideológica.
Como é que se consegue combater a ideia de que existem duas civilizações em conflito?
Está a agravar-se. É um fenómeno que depois se autoalimenta, porque a partir do momento em que se faz essa separação, em que surge uma ideia de “nós contra eles”, as pessoas sentem, naturalmente, uma necessidade de se juntar a um grupo, o que faz com que os muçulmanos, mesmo aqueles que são moderados e que não têm nada contra o Ocidente, a certa altura, entrem numa armadilha e sejam obrigados a apoiar os radicais do seu campo. Se o Ocidente, de repente, começa a vê-los como o “outro”, como o inimigo, naturalmente que esses moderados terão tendência a procurar apoio nos radicais muçulmanos.
Estive em Mossul e é muito fácil perceber que o Estado Islâmico, quando entrou na cidade, teve apoio. O que as pessoas me disseram é que cerca de 80% da população os apoiava. O Estado Islâmico surge como defensor contra os americanos, que vieram invadir o país, e contra os xiitas, que dominam o governo no Iraque e estão aliados com o Irão. As populações sunitas, como é o caso da maioria em Mossul, olham para o Estado Islâmico como aqueles que as protegem, porque são sunitas, estão armados, são fortes e fazem frente ao inimigo americano. Portanto, é natural que as pessoas os apoiem, ainda que não apoiem as suas ideias. Aquelas pessoas não são assim, mas a circunstância histórica fá-las apoiar aqueles radicais.
A seguir ao primeiro-ministro iraquiano anunciar a libertação de Mossul, eu entrei no dia seguinte
O que o levou a partir para Mossul? O Daesh apenas tinha sido “derrotado” há uns dias. O risco não era demasiado?
Tenho uma grande curiosidade pessoal sobre o Estado Islâmico. Quem são aquelas pessoas? O que as motiva? É uma organização super radical, como há muito tempo não havia, pelo menos de uma forma tão forte e organizada, e que conquistou um território e supostamente criou um estado, ainda que não seja reconhecido por praticamente ninguém no mundo.
Eu queria ir lá e estive à espera do momento em que a cidade de Mossul estivesse para ser libertada pelas forças iraquianas, com a ajuda da coligação internacional, para naquela transição poder estar lá, para ver como era a vida no Estado Islâmico.
Mas o timing escolhido foi mesmo muito próximo de a derrota ser anunciada.
Foi no próprio dia. Eu estava em Erbil [no Curdistão iraquiano] quando foi anunciada a derrota do Estado Islâmico. Estava atento às notícias e sabia que era uma questão de dias. A seguir ao primeiro-ministro iraquiano [Haider al-]Abadi anunciar, oficialmente, a libertação de Mossul, eu entrei no dia seguinte. Estive dez dias a viver em Mossul ocidental, onde decorriam e ainda decorrem combates. Na zona do centro, na cidade velha, ainda há tiroteios e, em alguns sítios, o combate é mais feroz do que nunca, porque a polícia federal iraquiana tem ordens para não fazer prisioneiros e matar tudo o que mexe.
O que vai acontecer aos civis que apoiaram, voluntariamente ou não, o Estado Islâmico?
Supostamente, estão a ser todos exterminados. Muitas famílias foram levadas para campos de refugiados especiais, mas ainda há lá muitas famílias e vai haver uma grande fase de vingança das próprias populações contras as famílias daqueles que lhes fizeram mal. Eu próprio presenciei isso. Entrevistei pessoas cujos familiares foram mortos nestes últimos meses do Estado Islâmico. Quando eles próprios sabiam que iam ser derrotados, começaram a fazer extermínios totais. Foram procurar pessoas que pertenceram à antiga policia ou ao exército, prenderam-nas e exterminaram-nas.
Agora, os familiares desses milhares de pessoas que foram mortas nestes últimos três meses querem vingar-se das famílias dos elementos do Daesh. É um terreno muito fértil para surgir um outro grupo radical que vai polarizar tudo.
Em muitos locais, a guerra já se tornou o modo de vida normal. Há pessoas que nunca viram outra coisa
Quem nunca esteve nestes cenários de guerra não tem bem a noção de como é o dia a dia nestes locais. O que viu quando chegou a Mossul?
Mossul é uma cidade que está completamente arrasada. Na margem direita do rio Tigre não há um edifício que esteja de pé. Há zonas irreconhecíveis, já não se sabe onde estão as ruas, onde eram as casas, uma destruição ao nível de Hiroshima. No entanto, a primeira coisa que vemos é que, no meio dos destroços, alguém já abriu uma lojinha e está a vender fruta, outra a vender roupa, outra telemóveis. Durante a guerra, durante os bombardeamentos, a vida nunca parou.
Lembro-me sempre de uma história muito engraçada, na Guerra do Afeganistão, quando estou com a Aliança do Norte e a certa altura eles decidem invadir uma cidade, que estava a ser defendida pelos Talibã. Enquanto tudo isto acontece, há um casamento que está a decorrer e que não é interrompido. À noite, quando a cidade é finalmente conquistada, está o casamento a passar na rua, com música. Quando começaram a casar, estavam numa cidade controlada pelos Talibã. Quando terminou o casamento, estavam numa cidade controlada pela Aliança do Norte. Não interromperam a sua vida por causa disso.
Acaba por ser sintomático da força do ser humano, independentemente das circunstâncias.
Isso por um lado, e por outro uma coisa que, às vezes, as pessoas não se apercebem: a guerra torna-se numa situação normal. Em muitos locais, a guerra já se tornou o modo de vida normal. Há pessoas que nunca viram outra coisa. Depois, há aqueles que lucram com a guerra, e que gostam, porque montaram os seus negócios com base nela. As pessoas adaptam-se e fazem as suas vidas, tentam ganhar dinheiro, enriquecer, ser felizes. As pessoas têm de ter as suas vidas no meio da guerra.
O próximo desafio no combate ao Estado Islâmico será a conquista de Raqqa, na Síria, capital do grupo. Já está a equacionar a viagem?
Claro! Neste momento estou a escrever um livro sobre o fim do Estado Islâmico, que tem de estar pronto até novembro. Se isto correr de acordo com os meus timings, se Raqqa cair ou estiver na iminência disso, o meu plano será ir para lá e recolher informação para o livro.
Esta coisa de o Estado Islâmico ter um território foi um desvario, uma ilusão. Quanto mais fracos forem no terreno, mais fortes se vão tornar nos ataques terroristas
Mas acha que o combate caminha nesse sentido?
Tudo isto é muito imprevisível, mas a verdade é que a pressão que está a ser exercida é enorme, equivalente à situação em Mossul. Várias forças estão a atacar o Estado Islâmico, portanto estou convencido de que acabará por cair. Agora quando… não se sabe, é muito imprevisível. Na minha previsão, ainda irei lá nos próximos meses.
As quedas de Mossul e de Raqqa são duas grandes derrotas para o Estado Islâmico. O que vai acontecer depois?
Será o fim deles enquanto Estado Islâmico. A característica única desta entidade era ter um território, que vai desaparecer, e eles já se aperceberam disso. Agora, isto não significa o terminar da ideia em si, daquele tipo de organização, daquela ideologia. Isto vai multiplicar-se, vai transformar-se, e vão surgir outras organizações. Muitos analistas dizem que ficaram enfraquecidos pelo facto de terem tido este território, porque têm um sítio onde podem ser combatidos numa guerra convencional. Se eles voltarem ao estado mais natural de insurreição sem rosto e sem local, como a Al Qaeda, serão muito mais difíceis de combater. A essência deste grupo é essa. Esta coisa de terem um território foi um desvario, uma ilusão. Quanto mais fracos forem no terreno, mais fortes se vão tornar nos ataques terroristas, em vários locais.
Recuemos um pouco até ao ‘Depois do Fim’. No início dos anos 2000, esteve em várias cidades europeias onde a radicalização para o extremismo islâmico é uma realidade. Chegou mesmo a entrevistar simpatizantes e recrutadores para a jihad. Passados mais de dez anos, o cenário é idêntico?
Não tenho estado lá a fazer o tipo de reportagem que fiz na altura, mas a minha ideia é que não houve muita alteração, só para pior. Estas células terroristas estão mais fortes, mais bem organizadas. Apesar da existência de muitos lobos solitários, isso não significa que não haja uma rede muito bem organizada e muito bem estruturada.
O jornalismo cumpre cada vez pior a sua função
O modo de atuação da Al Qaeda, no início dos anos 2000, e dos ataques reivindicados, agora, pelo Estado Islâmico são semelhantes. E os objetivos, são diferentes?
Não sei se são diferentes. Não se entende bem quais são os objetivos destes atentados, não se enquadram nos nossos padrões normais. A estrutura ideológica [do Estado Islâmico] não é muito definida, não é muito clara. Mesmo a ideia, muito divulgada por cá, de que eles são contra o estilo de vida do Ocidente, que a sua principal designação é combater o Ocidente e a forma como “nós” vivemos, é ridícula, porque a maior parte dos atentados não é no Ocidente, é sim, todos os dias, contra muçulmanos. O objetivo mais imediato é transformar os países muçulmanos, derrubar os governos fantoche que existem nesses países, e colocar governos que seguem, verdadeiramente, a lei islâmica. Esse é, pelo menos, o objetivo declarado mais óbvio.
Como se pode combater o crescimento do fundamentalismo islâmico?
Acho que é importante perceber que o fenómeno existe. Há jovens ocidentais que aderem ao Estado Islâmico. Como se explica isso? As explicações de que lhes dão dinheiro ou que vão enganados não explica tudo. Também houve muita gente a aderir aos partidos comunistas pelos mesmos motivos. Nos anos 70, houve um momento violento e de terrorismo marxista, com um grande poder de atração nos jovens ocidentais. As pessoas hoje ignoram isso, mas nessa época houve um maior número de mortos causado pelo terrorismo de esquerda do que aquele que há hoje com o terrorismo islâmico.
Como analisa a forma como o jornalismo desempenha a sua função na cobertura da questão do terrorismo?
O jornalismo cumpre cada vez pior a sua função. Nesta questão, como em tudo o resto. Por várias razões. Porque o jornalismo está em crise económica, por uma série de fatores que fazem com o que o jornalismo não seja economicamente viável. Para serem verdadeiramente jornalísticas e sérias, as empresas não se safam no mercado e têm de fazer cedências para o sensacionalismo e para o entertainment.
Depois, podemos culpar os próprios consumidores de informação, porque não conseguimos criar públicos com sentido crítico suficiente para exigirem bom jornalismo, uma vez que se contentam com pouco. E ainda podemos culpar os próprios jornalistas e os órgãos de comunicação social que não souberam ter um sentido histórico do momento e perceber a via por onde temos de ir, apesar de ser difícil. Não temos de concorrer com o Facebook, porque não temos hipótese. Nós somos outra coisa. Temos de nos apresentar como o último reduto de confiança. Mas o jornalismo está a desaparecer, é o que eu vejo.
in Notícias ao Minuto
domingo, 13 de agosto de 2017
O que vem depois do pós-modernismo?
Por Alejandra Rios, via Left Voice, traduzida por Aukai Leisner
O escritor britânico Terry Eagleton
discute a crítica literária em conexão a tendências políticas e
históricas mais amplas, e a persistência do marxismo. O que a cultura,
arte e teoria expressam no atual contexto de crise, luta de classes
renovada, e recuo do pós-modernismo – e qual é seu papel?
Left Voice (LF): Em O
Evento da Literatura (2012) você argumenta que a teoria literária tem
estado em decadência nos últimos vinte anos e que, historicamente, tem
havido uma forte relação entre mudanças na teoria e conflito social. A
teoria atinge seu ápice em momentos de revolta?
Terry Eagleton (TE): A
teoria literária atingiu seu ápice mais ou menos quando a esquerda
política estava em ascendência. Houve uma grande explosão de tal teoria
no período entre 1965 e 1970, que coincide mais ou menos com o período
em que a esquerda era bastante mais militante e auto-confiante que hoje
em dia. Dos anos 80 em diante, com a pressão cada vez maior do
capitalismo pós-industrial avançado, esses frutos teóricos passaram a
dar lugar ao pós-modernismo que, como comentou Frederic Jameson é, entre
outras coisas, a ideologia do capitalismo tardio.
A teoria radical certamente não
desapareceu, mas foi empurrada para a margem, e gradualmente tornou-se
menos popular com os estudantes. As grandes exceções nesse panorama
foram o feminismo, que continuou a atingir um interesse significativo, e
o pós-colonialismo, que tornou-se uma espécie de indústria em ascensão e
continua a sê-lo.
Não se deve concluir disso que teoria é
inerentemente radical. Há muitas formas de teoria cultural e literária
não-radicais. Mas a teoria em si coloca algumas questões fundamentais –
mais fundamentais que a crítica literária rotineira. Enquanto tal
crítica pode perguntar “O que significa este romance?”, a teoria
pergunta “O que é um romance?”
Existe também uma reflexão sistemática
sobre as assunções, procedimentos e convenções que governam uma
determinada prática social ou intelectual. É, por assim, dizer, o ponto
em que a prática é forçada a uma nova forma de auto-reflexividade,
tomando a si mesma como objeto do próprio questionamento. Isso não terá
necessariamente efeitos subversivos; mas pode significar que a prática
seja forçada a se reinventar, tendo investigado alguns de seus
pressupostos subjacentes de forma crítica.
TF: Em A Ideologia
da Estética (1990), você argumenta que o conceito de literatura é um
fenômeno recente, que surgiu como abrigo para valores estáveis em tempos
incertos. Mas você também aponta que a estética tem sido uma forma de
internalização dos valores sociais bem como meio de vislumbrar utopias e
de questionar a sociedade capitalista. A arte ainda tem esse papel
contraditório no presente?
TE: Ambos o conceito de
literatura e a ideia de estética são de fato uma faca política de dois
gumes. Há aspectos em que se conformam aos poderes dominante e outros
aspectos em que os desafiam – uma ambiguidade que também é verdadeira
para muitas obras de arte individuais. O conceito de literatura data de
um período em que se precisava proteger certos valores criativos e
imaginativos de uma sociedade crescentemente mecanística, filisteia. É
um conceito mais ou menos gêmeo do capitalismo industrial. Isso fez com
que tais valores agissem como uma potente crítica daquela ordem social.
Mas do mesmo modo, ele se distanciava da vida social cotidiana e
oferecia uma compensação imaginária para ela. O que implica dizer que
ele agia de forma ideológica.
A estética encontrou um destino parecido.
De um lado, a assim chamada autonomia do objeto estético forneceu uma
imagem de auto-determinação e liberdade numa sociedade autocrática, bem
como questionou sua racionalidade abstrata através de sua natureza
sensória. Nesse sentido poderia ser utópica. Ao mesmo tempo, no entanto,
essa auto-determinação era entre outras coisas uma imagem do sujeito de
classe média, que não seguia nenhuma lei senão sua própria.
É claro que tais ambiguidades permanecem
conosco hoje. Em sociedades capitalistas avançadas, onde a ideia mesma
de humanidades está ameaçada, é vital fomentar atividades tais como o
estudo da arte e da cultura, precisamente porque elas não têm nenhum
propósito pragmático imediato. Neste sentido, elas questionam a
racionalidade utilitária e instrumental de tais regimes. É por isso que o
capitalismo realmente não tem tempo para elas, e porque mesmo as
universidades querem agora bani-las.
Por outro lado, o pensamento socialista
não as colocaria como fim, como os campos mais importantes de batalha. A
cultura, no sentido corriqueiro da palavra, é o local onde o poder se
sedimenta, onde se assenta. Sem isso, é demasiado áspero e abstrato para
conquistar apoio popular. No entanto, o culturalismo pós-moderno está
equivocado em acreditar que a cultura é o essencial na esfera humana.
Seres humanos são em primeiro lugar seres naturais, materiais. Eles são o
tipo de animal que precisa de cultura (no sentido amplo do termo) para
sobreviver; mas isso se deve a sua natureza material como espécie, o que
Marx chama de ser-genérico.
TF: No Evento da
Literatura, você desenvolve a ideia da obra literária como “estratégia” –
uma estrutura determinada por sua função como um tipo especial de
“resposta” a questões colocadas pela realidade social. Como pode essa
definição da obra literária ser reconciliada com a “autonomia” da obra,
como fenômeno auto-governado?
TE: Eu não creio que
haja necessariamente uma contradição entre estratégia e autonomia. Uma
estratégia pode em si ser autônoma, no sentido de que é uma atividade
específica cujas regras e procedimentos são internas a ela. O paradoxo
da obra de arte nesse sentido é que ela trabalha de fato com coisas que
estão fora de seu domínio, os problemas da realidade social, mas que faz
isso de forma autônoma, no sentido de reprocessar ou retraduzir os
problemas em seus termos altamente específicos. Nesse sentido, o que
começa como externo ou heterônomo à obra acaba interno a ela. Uma obra
realista deve respeitar o caráter heterônomo de seu material (eu não
posso dizer que Nova Iorque fica no Ártico, como uma obra modernista ou
pós-modernista poderia afirmar), mas ao fazê-lo ela simultaneamente traz
esse fato a sua própria estrutura auto-reguladora.
TF: Você aponta que
teorias pós-modernas e pós-estruturais acabaram num “fundamentalismo
anti-essencialista”, espelhando os mesmos “fundamentalismos” que
procuravam derrubar. As definições pós-modernas continuam dominantes no
discurso ideológico-cultural, ou a nova situação de crise capitalista e o
ressurgimento limitado da luta de classes deu lugar a novas teorias que
não sejam tão céticas teórica e socialmente?
TE: O pós-modernismo é
supostamente anti-fundacional. Mas pode-se dizer que ele simplesmente
substitui certos fundamentos tradicionais por uma nova: a cultura. Para o
pós-modernismo, a cultura é o fundamento último além do qual não se
pode ir, porque você precisaria de uma outra cultura (conceitos,
métodos, etc) para fazê-lo.
Nesse sentido pode-se dizer que seu
anti-fundacionismo é falacioso. Em todo caso, tudo depende do que você
quer dizer com uma fundação. Nem todas os fundamentos precisam ser
metafísicos. Há, por exemplo, a possibilidade de uma fundação
pragmática, como se encontra no último Wittgenstein.
Quanto à questão de se o discurso
pós-moderno é ainda dominante, eu diria que bem menos. Desde 11/9 nós
testemunhamos o desenrolar de uma nova e alarmante grande narrativa,
justamente no ponto em que se acreditava que as grande narrativas
estavam findas. Um grande narrativa – a Guerra Fria – estava de fato
finda, mas, por razões ligadas à vitória do ocidente nesta guerra, ela
mal se encerrou e outra já começou em seu lugar. O pós-modernismo, que
julgava que a história seria pós-metafísica, pós-ideológica, mesmo
pós-histórica, foi pego de surpresa. E eu não creio que ele tenha em
algum momento realmente se recuperado.
TF: Você discute as
contribuições e deficiências de diferentes teorias literárias
desenvolvidas no século XX. A perspectiva marxista parece ter um peso
importante na sua avaliação. Seria tal tradição ainda tão produtiva no
campo da teoria literária como em outras áreas?
TE: A resposta curta à
questão de se há novas contribuições marxistas críticas à teoria
literária é não. O contexto histórico não é apropriado a tais
desenvolvimentos. A obra de Frederic Jameson, um indivíduo que em minha
opinião é o crítico mais eminente do planeta, prossegue. Ele publica um
livro brilhante após o outro numa era em que muitos outros críticos
conhecidos caíram em silêncio.
Mas não há um novo corpus de crítica
marxista. E dadas as circunstâncias históricas não propícias, não é de
se surpreender. No entanto, o marxismo definitivamente não se extinguiu,
como ocorreu com o pós-estruturalismo (um mistério), ou mesmo com o
pós-modernismo.
Isso se deve ao fato de o marxismo ser
muito mais que um método crítico. É uma prática política, e se você tem
uma grande crise no capitalismo, é inevitável que ele ainda circule. O
mesmo pode se dizer do feminismo, cujo ápice crítico foi há algumas
décadas, mas que sobreviveu de forma modificada porque as questões
políticas que ele põe em jogo são vitais. As teorias vêm e vão. O que
persiste é a injustiça. E enquanto esse for o caso, sempre haverá uma
espécie de resposta intelectual ou artística a ela.
in LavraPalavra blogspot.com
quinta-feira, 10 de agosto de 2017
Terry Eagleton: "O fundamentalismo não é ódio, é medo."
por
Rafael Gumucio / El País - 14.06.2017 | Terry Eagleton | #Cultura , #História , #Literatura , #Sociedade
Rafael Gumucio / El País - 14.06.2017 | Terry Eagleton | #Cultura , #História , #Literatura , #Sociedade
Quando se pensa nas grandes figuras da crítica literária
contemporânea, um dos primeiros nomes a despontar como unanimidade é o
de Terry Eagleton.
O pensamento do filósofo e crítico literário realiza uma síntese da
ideologia marxista com os cânones da literatura ocidental.
A partir da década de 1960, juntamente com os nomes de Eric J. Hobsbawm, Fredric Jameson e Perry Anderson, começa a contribuir com a publicação da New Left Review - uma revista de crítica cultural da Universidade de Oxford que criticava tanto o liberalismo radical quando o pensamento marxista ortodoxo. Preciso e metodológico, uma das características principais do estilo de Eagleton é o bom-humor.
Afastando-se do lugar-comum do pensador crítico carrancudo, se coloca diante do panorama político contemporâneo pensando em soluções para além da crítica. Encontra, porém, no otimismo extremo, um obstáculo para o progresso das relações sociais. Para o autor, este deve ser pensado e experimentado com cautela, já que pode servir como forma de alienação.
Este e outros temas foram discutidos pelo pensador em entrevista para o jornal El País. Confira abaixo.
Terry Eagleton foi conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2010.
Terry Eagleton: “O fundamentalismo não é ódio, é medo.”| RAFAEL GUMUCIO
Terry Eagleton (Salfold, Reino Unido, 1943) não deixou um minuto em paz tanto conforto pós-moderno. Antes que Zizek ou Badiou se transformassem em inevitável moda contracultural, ele se dedicou, a partir da literatura, sua principal especialidade, a apontar um por um os lugares comuns dos bem-pensantes da vez. Sucessor do crítico literário e cultural marxista Raymond Williams, uniu a essa não conformidade militante uma sólida educação católica que as leituras e os anos, em vez de aplacar, aprofundaram. “Como diz o Novo Testamento, reconhecerás Deus quando vires os pobres se encherem de coisas boas e os ricos sendo despachados sem nada”, conta por correio eletrônico. “O cristianismo e o marxismo têm um vínculo óbvio em que os dois querem ver os pobres conquistarem o poder. A diferença é que isto, para a fé cristã, é um assunto escatológico, ou seja, que vai além da história, enquanto que o marxismo espera vê-lo realizar-se dentro da história da humanidade.”
Esta adesão dupla à mudança social e à fé católica o levou a polemizar muito com um estranho ser que ele chama de Ditchkens, que não é outra coisa que a mescla perfeita do biólogo Richard Dawkins com o falecido polemista Christopher Hitchens, porta-vozes do novo ateísmo militante e da intervenção norte-americana no Iraque.
Esse tipo de jogo de palavras é a surpresa perpétua de quem se aventura em livros tão conscienciosos e desapiedados como Marx Estava Certo, Ideologia ou Depois da Teoria. Para não falar de suas imprescindíveis memórias, The Gatekeeper: A Memoir (O Porteiro: Memórias) emocionantes e hilárias. “O humor para mim está intimamente ligado ao sem sentido”, diz. “As atividades mais valiosas não têm nenhum propósito ou função além de si mesmas: tocar música, fazer amor, tomar vinho, brincar com os filhos. O mesmo se poderia dizer das piadas. É compartilhar a vida porque sim.”
Mas o normalmente sarcástico e implacável Eagleton, para surpresa de todos, incluindo ele mesmo, parece querer passar da crítica à proposta. Não se trata de otimismo, explica várias vezes em seu último livro – intitulado justamente Hope Without Optimism (Esperança sem Otimismo)—, porque o otimismo é para ele “uma forma de desespero”, mas de uma velha virtude teologal reativada pelo historiador marxista Ernst Bloch: a esperança: “A esperança é um tipo de desejo, mas um que o vincula com um tipo de expectativa. A esperança tem que ser, de alguma forma, viável; tem que ser possível de ser realizada, enquanto o desejo pode não ser. Você pode desejar ser Mick Jagger, mas não pode esperar sê-lo”.
Mas, que podemos esperar da esperança em uma Europa em crise que só parece estar de acordo em estar em desacordo? “Continuamos esperando conseguir as coisas que tradicionalmente quisemos: justiça, igualdade, fraternidade, ausência de pobreza e de violência, etcetera. É pouco provável que exista alguma vez uma sociedade de seres humanos sem violência ou injustiça de algum tipo, mas, dados os recursos globais que possuímos, está totalmente dentro de nossas possibilidades acabar com a pobreza. Nosso sistema de propriedade é o que impede que isso aconteça, e claramente poderia ser mudado.”
Soa então inevitável a palavra revolução, que não é de todo estranha nesse tenaz militante do Partido Socialista dos Trabalhadores. “Quando as pessoas escutam a palavra revolução pensam imediatamente em sangue e barricadas. Mas houve revoluções de veludo, como também revoluções violentas. A revolução bolchevique esteve bastante livre de violência. Alguns processos de reforma foram muito mais sangrentos que algumas revoluções. De todo modo, as revoluções não ocorrem de um dia para o outro. As revoluções que deram lugar às sociedades modernas de classe média levaram séculos em sua evolução. Marx enaltece as classes médias como a força mais revolucionária jamais vista na história da humanidade. Suponho que um revolucionário seja alguém que acredita que não é possível ter o tipo de justiça e bem-estar que necessitamos sem uma transformação completa. Isso, para mim, seria um ponto de vista realista, não extremista. A queda do apartheid na África do Sul também foi uma revolução (política, não econômica) e ninguém considera fanático ou extremista tê-la apoiado. Todo aquele que acredita que foi correto que os Estados Unidos deixassem de ser uma colônia é um defensor da revolução. Ou seja, mais ou menos todo o mundo é.”
Eagleton se defende ao longo do livro de ser um otimista, mas está muito longe de ser um pessimista. Quando se pergunta a ele se o mundo está pior ou melhor que há 50 anos, não duvida em responder que melhorou em aspectos fundamentais. Sua querela com o otimismo como ideologia se baseia justamente em sua falta de fé em que o mundo ainda poderia melhorar muito mais: “A pergunta é se é viável empreender mudanças que poderiam modificar nosso mundo de modo significativo. E a resposta realista a esta pergunta é, sem dúvida, sim. Nesse sentido, os realistas são aqueles que acreditam na possibilidade de tal transformação, e os que têm a cabeça nas nuvens são os que pensam que as coisas sempre continuarão mais ou menos como sempre foram. Por volta do ano 2000, os teóricos falavam da suposta morte da história. Segundo eles, a história, efetivamente, estava acabada, o capitalismo era a única opção a nosso alcance, e nada dramático poderia acontecer. Logo depois dois aviões se espatifaram contra o World Trade Center. Daí tivemos a suposta guerra contra o terror, depois um dos maiores colapsos da história do capitalismo, depois as primaveras árabes, a crise da imigração, etcétera.”
O auge do fundamentalismo está ligado, para Eagleton, a uma outra de suas obsessões: como ler ou como não ler ficção ou poesia? “O fundamentalismo, de qualquer tipo, é essencialmente um equívoco que se comete quanto à natureza da leitura. Ele imagina que o significado dos signos se fixa imutavelmente ao longo dos tempos. Mas a verdade é que um sinal cujo significado não pudesse se alterar entre um contexto e outro simplesmente não seria um signo. Os signos devem ser, por definição, portáteis: podem ser transportados de uma situação e acumular novos significados na interação com os signos que os cercam. Por isso, não pode haver leitura sem interpretação.
Para Eagleton, “o fundamentalismo tem suas raízes não no ódio, mas no medo, o medo de um mundo moderno e mutante, em que tudo está em movimento, onde a realidade é transitória e com um final não definido, onde as certezas e os pilares mais sólidos parecem ter desaparecido. Nesse sentido, é a outra face do pós-modernismo”.
in Fronteiras do Pensamento
A partir da década de 1960, juntamente com os nomes de Eric J. Hobsbawm, Fredric Jameson e Perry Anderson, começa a contribuir com a publicação da New Left Review - uma revista de crítica cultural da Universidade de Oxford que criticava tanto o liberalismo radical quando o pensamento marxista ortodoxo. Preciso e metodológico, uma das características principais do estilo de Eagleton é o bom-humor.
Afastando-se do lugar-comum do pensador crítico carrancudo, se coloca diante do panorama político contemporâneo pensando em soluções para além da crítica. Encontra, porém, no otimismo extremo, um obstáculo para o progresso das relações sociais. Para o autor, este deve ser pensado e experimentado com cautela, já que pode servir como forma de alienação.
Este e outros temas foram discutidos pelo pensador em entrevista para o jornal El País. Confira abaixo.
Terry Eagleton foi conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2010.
Terry Eagleton: “O fundamentalismo não é ódio, é medo.”| RAFAEL GUMUCIO
Terry Eagleton (Salfold, Reino Unido, 1943) não deixou um minuto em paz tanto conforto pós-moderno. Antes que Zizek ou Badiou se transformassem em inevitável moda contracultural, ele se dedicou, a partir da literatura, sua principal especialidade, a apontar um por um os lugares comuns dos bem-pensantes da vez. Sucessor do crítico literário e cultural marxista Raymond Williams, uniu a essa não conformidade militante uma sólida educação católica que as leituras e os anos, em vez de aplacar, aprofundaram. “Como diz o Novo Testamento, reconhecerás Deus quando vires os pobres se encherem de coisas boas e os ricos sendo despachados sem nada”, conta por correio eletrônico. “O cristianismo e o marxismo têm um vínculo óbvio em que os dois querem ver os pobres conquistarem o poder. A diferença é que isto, para a fé cristã, é um assunto escatológico, ou seja, que vai além da história, enquanto que o marxismo espera vê-lo realizar-se dentro da história da humanidade.”
Esta adesão dupla à mudança social e à fé católica o levou a polemizar muito com um estranho ser que ele chama de Ditchkens, que não é outra coisa que a mescla perfeita do biólogo Richard Dawkins com o falecido polemista Christopher Hitchens, porta-vozes do novo ateísmo militante e da intervenção norte-americana no Iraque.
Esse tipo de jogo de palavras é a surpresa perpétua de quem se aventura em livros tão conscienciosos e desapiedados como Marx Estava Certo, Ideologia ou Depois da Teoria. Para não falar de suas imprescindíveis memórias, The Gatekeeper: A Memoir (O Porteiro: Memórias) emocionantes e hilárias. “O humor para mim está intimamente ligado ao sem sentido”, diz. “As atividades mais valiosas não têm nenhum propósito ou função além de si mesmas: tocar música, fazer amor, tomar vinho, brincar com os filhos. O mesmo se poderia dizer das piadas. É compartilhar a vida porque sim.”
Mas o normalmente sarcástico e implacável Eagleton, para surpresa de todos, incluindo ele mesmo, parece querer passar da crítica à proposta. Não se trata de otimismo, explica várias vezes em seu último livro – intitulado justamente Hope Without Optimism (Esperança sem Otimismo)—, porque o otimismo é para ele “uma forma de desespero”, mas de uma velha virtude teologal reativada pelo historiador marxista Ernst Bloch: a esperança: “A esperança é um tipo de desejo, mas um que o vincula com um tipo de expectativa. A esperança tem que ser, de alguma forma, viável; tem que ser possível de ser realizada, enquanto o desejo pode não ser. Você pode desejar ser Mick Jagger, mas não pode esperar sê-lo”.
Mas, que podemos esperar da esperança em uma Europa em crise que só parece estar de acordo em estar em desacordo? “Continuamos esperando conseguir as coisas que tradicionalmente quisemos: justiça, igualdade, fraternidade, ausência de pobreza e de violência, etcetera. É pouco provável que exista alguma vez uma sociedade de seres humanos sem violência ou injustiça de algum tipo, mas, dados os recursos globais que possuímos, está totalmente dentro de nossas possibilidades acabar com a pobreza. Nosso sistema de propriedade é o que impede que isso aconteça, e claramente poderia ser mudado.”
Soa então inevitável a palavra revolução, que não é de todo estranha nesse tenaz militante do Partido Socialista dos Trabalhadores. “Quando as pessoas escutam a palavra revolução pensam imediatamente em sangue e barricadas. Mas houve revoluções de veludo, como também revoluções violentas. A revolução bolchevique esteve bastante livre de violência. Alguns processos de reforma foram muito mais sangrentos que algumas revoluções. De todo modo, as revoluções não ocorrem de um dia para o outro. As revoluções que deram lugar às sociedades modernas de classe média levaram séculos em sua evolução. Marx enaltece as classes médias como a força mais revolucionária jamais vista na história da humanidade. Suponho que um revolucionário seja alguém que acredita que não é possível ter o tipo de justiça e bem-estar que necessitamos sem uma transformação completa. Isso, para mim, seria um ponto de vista realista, não extremista. A queda do apartheid na África do Sul também foi uma revolução (política, não econômica) e ninguém considera fanático ou extremista tê-la apoiado. Todo aquele que acredita que foi correto que os Estados Unidos deixassem de ser uma colônia é um defensor da revolução. Ou seja, mais ou menos todo o mundo é.”
Eagleton se defende ao longo do livro de ser um otimista, mas está muito longe de ser um pessimista. Quando se pergunta a ele se o mundo está pior ou melhor que há 50 anos, não duvida em responder que melhorou em aspectos fundamentais. Sua querela com o otimismo como ideologia se baseia justamente em sua falta de fé em que o mundo ainda poderia melhorar muito mais: “A pergunta é se é viável empreender mudanças que poderiam modificar nosso mundo de modo significativo. E a resposta realista a esta pergunta é, sem dúvida, sim. Nesse sentido, os realistas são aqueles que acreditam na possibilidade de tal transformação, e os que têm a cabeça nas nuvens são os que pensam que as coisas sempre continuarão mais ou menos como sempre foram. Por volta do ano 2000, os teóricos falavam da suposta morte da história. Segundo eles, a história, efetivamente, estava acabada, o capitalismo era a única opção a nosso alcance, e nada dramático poderia acontecer. Logo depois dois aviões se espatifaram contra o World Trade Center. Daí tivemos a suposta guerra contra o terror, depois um dos maiores colapsos da história do capitalismo, depois as primaveras árabes, a crise da imigração, etcétera.”
O auge do fundamentalismo está ligado, para Eagleton, a uma outra de suas obsessões: como ler ou como não ler ficção ou poesia? “O fundamentalismo, de qualquer tipo, é essencialmente um equívoco que se comete quanto à natureza da leitura. Ele imagina que o significado dos signos se fixa imutavelmente ao longo dos tempos. Mas a verdade é que um sinal cujo significado não pudesse se alterar entre um contexto e outro simplesmente não seria um signo. Os signos devem ser, por definição, portáteis: podem ser transportados de uma situação e acumular novos significados na interação com os signos que os cercam. Por isso, não pode haver leitura sem interpretação.
Para Eagleton, “o fundamentalismo tem suas raízes não no ódio, mas no medo, o medo de um mundo moderno e mutante, em que tudo está em movimento, onde a realidade é transitória e com um final não definido, onde as certezas e os pilares mais sólidos parecem ter desaparecido. Nesse sentido, é a outra face do pós-modernismo”.
in Fronteiras do Pensamento
sábado, 5 de agosto de 2017
Coreia do Norte: O grande embuste revelado
por Christopher Black
[*]
Em 2003, com alguns advogados americanos, membros da Associação
Nacional de Advogados, tive a oportunidade de viajar na Coreia do Norte, isto
é, na República Popular Democrática da Coreia (RPDC), a
fim de ter uma experiência em primeira mão desse país, do
seu governo socialista e do seu povo.
Publicado no nosso retorno, este artigo foi intitulado "O grande embuste revelado". O título foi escolhido porque descobrimos que o mito pejorativo da propaganda ocidental sobre a Coreia do Norte é um enorme embuste concebido para esconder as realizações dos norte-coreanos, que conseguiram criar suas próprias condições de desenvolvimento, o seu próprio sistema socioeconómico independente, baseado nos princípios do socialismo, livre do domínio das potências ocidentais.
Durante um dos nossos primeiros jantares em Pyongyang, o nosso anfitrião, Ri Myong Kuk, um advogado, disse em termos apaixonados, em nome do governo, que a força de dissuasão nuclear da RPDC é necessária dadas as ações e ameaças dos EUA e aliados contra o seu país. Ele disse-o, e foi-me repetido mais tarde durante a minha viagem, numa reunião de alto nível com representantes do governo da RPDC, que se os americanos assinassem um tratado de paz e um acordo de não-agressão com a RPDC, isso tornaria a ocupação ilegítima e levaria à reunificação da Coreia. Assim, não haveria mais necessidade de armas nucleares. Com sinceridade disse: "é importante que os advogados se reúnam para falar sobre isto, porque os advogados regulam as interações sociais no seio da sociedade e do mundo" e acrescentou que de boa-fé, "o caminho para a paz requer a abertura do coração".
Pareceu-nos então, e é agora evidente, que, em absoluta contradição com o que dizem os meios de comunicação ocidentais, o povo da RPDC quer paz mais do que qualquer outra coisa. Ele quer continuar com as suas vidas e ocupações sem a ameaça constante de ser exterminado pelas armas atómicas dos EUA. Mas, na verdade, por que são ameaçados de serem exterminados e de quem é a culpa? Não é a sua.
Mostraram-nos documentos dos EUA apreendidos durante a guerra da Coreia. Trata-se de provas irrefutáveis que os EUA tinham planeado atacar a Coreia do Norte em 1950. O ataque foi realizado pelas forças armadas dos EUA e da Coreia do Sul, ajudadas por oficiais do exército japonês, que tinham invadido e ocupado Coreia anteriormente durante décadas. Os EUA pretenderam então que a defesa e o contra ataque eram uma "agressão", os media foram manipulados para incentivar as Nações Unidas a apoiar uma "operação policial", eufemismo escolhido para descrever a sua guerra de agressão contra a Coreia do Norte. Isso resultou em três anos de guerra e 3,5 milhões de vítimas coreanas. Desde então, os EUA ameaçam de guerra iminente e aniquilação.
Em 1950, uma vez que a Rússia não estava presente no Conselho de Segurança, a votação das Nações Unidas a favor da "operação policial" foi ela própria ilegal. Ao abrigo dos regulamentos internos, o quórum no Conselho de Segurança exige a presença de todas as delegações membros. Todos os membros devem estar presentes, caso contrário não pode se realizar a sessão. Os americanos aproveitaram a ocasião do boicote dos russos ao Conselho de Segurança, introduzido para defender a posição da República Popular da China, que deveria ter lugar à mesa do Conselho de Segurança e não o governo derrotado do Kuomintang. Como os americanos se recusaram a conceder esse direito, os russos recusaram sentar-se à mesa até que o governo chinês legítimo o pudesse fazer.
Os americanos aproveitaram esta oportunidade para fazer uma espécie de golpe de estado nas Nações Unidas. Tomando o controlo dos seus mecanismos, utilizaram-nos para os seus próprios interesses. Organizaram-se com os britânicos, os franceses e os chineses do Kuomintang, para apoiar a guerra na Coreia, na ausência dos russos. Os aliados, como os americanos lhes tinham pedido, votaram a favor da guerra contra a Coreia, mas a votação foi inválida e a operação da polícia não foi uma operação de manutenção da paz, nem justificada pelo capítulo VII da carta das Nações Unidas, dado que o artigo 51, estipula que as nações têm o direito de se defender contra qualquer ataque armado – justamente o que tinham de fazer os norte coreanos. Mas os EUA nunca se preocuparam muito com a legalidade. E não se preocuparam em todo o seu projeto, que era conquistar e ocupar a Coreia do Norte, como um passo para invadir a Manchúria e a Sibéria e a legalidade não ia impedi-los de prosseguir esse caminho.
Muitos ocidentais não têm ideia das destruições infligidas pelos americanos e seus aliados na Coreia. Pyongyang encontrou-se sob um tapete de bombas, civis fugindo à carnificina foram metralhados pelos aviões dos EUA em voos rasantes. O New-York Times escreveu na altura que 17 milhões de toneladas de napalm foram lançadas apenas durante os 20 primeiros meses da guerra na Coreia. Os EUA deixaram cair uma tonelagem de bombas mais importante sobre a Coreia do que sobre o Japão durante a Segunda Guerra Mundial. As forças armadas dos EUA assassinaram não apenas os membros do partido comunista, mas também as suas famílias. Em Sinchon, vimos evidências que soldados dos EUA obrigaram 500 civis a colocar-se numa vala, regaram-nos com gasolina e queimaram-nos. Estivemos num abrigo com paredes ainda enegrecidos com a carne queimada de 900 civis, incluindo mulheres e crianças que procuravam proteger-se durante um ataque dos EUA. Soldados americanos foram vistos despejar gasolina em aberturas de ventilação do abrigo e fazê-los morrer carbonizados. Esta é a realidade da ocupação dos EUA para os coreanos. É a realidade que eles ainda temem e não querem mais ver repetida. Podemos censurá-los?
Apesar de todos estes casos, os coreanos estão dispostos a abrir seus corações para seus antigos inimigos. O major Kim Myong Hwan, que na época era o principal negociador em Panmunjom, na linha da DMZ, revelou que seu sonho era ser escritor, poeta, jornalista, mas contou com ar sombrio, como ele e seus cinco irmãos estavam fazendo rondas na linha da zona desmilitarizada, como os soldados, por causa do que aconteceu à sua família. Ele disse que sua luta não era contra os americanos, mas o seu governo. Manteve-se o único de sua família perdida em Sinchon; seu avô tinha sido pendurado num poste e torturado, a avó dele morreu com uma baioneta no estômago. "Veja, nós temos de o fazer. Temos de nos defender. Nós não nos opomos aos norte-americanos. Somos contra a política dos EUA e os seus esforços para controlar totalmente o mundo e infligir calamidades aos povos."
A opinião da nossa delegação foi que devido à instabilidade que mantêm na Ásia, os EUA conservam uma presença militar maciça que dificulta as relações entre a China e a Coreia do Sul, a Coreia do Norte e o Japão. Usam sua presença como moeda de troca contra a China e a Rússia. Com a constante pressão no Japão para eliminar as bases dos EUA em Okinawa, as operações militares na Coreia e as manobras de guerra são um aspecto central dos seus esforços visando dominar a região.
A questão não é saber se a RPDC tem armas nucleares, como tem o direito, mas se os EUA – que têm capacidades nucleares na península coreana, e que ali instalam atualmente o seu sistema de defesa antimísseis THADD, um sistema que ameaça a segurança da Rússia e da China – estão dispostos a trabalhar com a Coreia do Norte num tratado de paz. Encontrámos norte-coreanos ansiosos pela paz e não fazendo questão em manter armas nucleares se a paz puder ser estabelecida. Mas a posição dos EUA continua mais arrogante, agressiva, ameaçadora e perigosa do que nunca.
Na época das "mudança de regime'", das "guerras preventivas" e das tentativas dos EUA para desenvolver armas nucleares miniatura, bem como o seu abandono e a sua manipulação do direito internacional, não é surpreendente que a Coreia do Norte, jogue a carta nuclear. Esta escolha foi feita pelos coreanos do Norte desde que os EUA os ameaçam numa base diária com uma guerra nuclear. A Rússia e a China, dois países que a lógica dita apoiar os norte-coreanos contra a agressão norte-americana, juntar-se-ão aos norte-americanos para responsabilizar os coreanos por se terem armado com a única arma que pode atuar como dissuasor de um ataque.
A razão para isto não está clara, uma vez que os russos e os chineses têm armas nucleares e estão equipados para dissuadir qualquer ataque dos EUA, exatamente como fez a Coreia do Norte. Algumas declarações dos governos russo e chinês indicam que eles temem não ter controlo da situação, e que as medidas defensivas da Coreia do Norte atraiam um ataque dos EUA e de serem também atacados.
Essa ansiedade é compreensível. Mas isso levanta a questão de saber por que não podem apoiar o direito da Coreia do Norte à autodefesa e exercer pressão sobre os americanos para concluírem um tratado de paz, um acordo de não-agressão e retirar sua forças armadas e nucleares da Península coreana. Mas a grande tragédia é a óbvia incapacidade dos norte-americanos em pensarem por si próprios perante os embustes incessantes e exigir dos seus líderes que sejam esgotados todos os canais de diálogo e restabelecida a paz antes de encarar uma agressão na península coreana.
A base essencial da política da Coreia do Norte é alcançar um pacto de não-agressão e um Tratado de paz com os EUA. Os norte-coreanos afirmaram repetidamente que não querem atacar ninguém, nem ferir ninguém, não estão em guerra contra ninguém. Mas eles viram o que aconteceu com a Jugoslávia, o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, a Síria e inúmeros outros países, e não têm intenção de serem os próximos. É óbvio que vão defender-se vigorosamente contra qualquer invasão dos EUA e que a nação poderia suportar uma longa e difícil luta.
Num outro lugar da zona desmilitarizada, conhecemos um coronel que tinha instalado um par de binóculos, através do qual conseguimos ver para além da linha divisória entre o norte e o sul. Podemos ver uma parede de cimento construída no lado do Sul, em violação dos acordos de tréguas. O major Kim Myong Hwan disse que aquela estrutura fixa é uma "vergonha para os coreanos que são um povo homogéneo. Um alto-falante transmitia sem interrupção propaganda e música que vinha de alto-falantes do lado sul. Ele disse que esse barulho irritante dura 22 horas por dia. De repente, outro momento surreal, os alto-falantes do bunker começaram a entoar a Abertura Guilherme Tell de Rossini, mais conhecida nos Estados Unidos como o tema do Lone Ranger .
O coronel pediu-nos para ajudar as pessoas a entender o que realmente está a acontecer na Coreia do Norte, em vez de basearem as suas opiniõrs na desinformação. Disse: "Nós sabemos que, como nós, as pessoas amantes da paz na América têm crianças, parentes, famílias". Dissemos-lhe que tínhamos a missão de ir para casa com uma mensagem de paz e esperamos voltar um dia e andar com ele livremente nestas belas colinas. Fez uma pausa e disse: "Também creio que é possível".
Assim, enquanto o povo da Coreia do Norte espera a paz e a segurança os EUA e seu fantoche no sul da península coreana farão a guerra ocupando-se durante os próximos três meses nos maiores jogos de guerra até agora organizados, com porta-aviões, submarinos carregados de armas atómicas e bombardeiros furtivos, aviões e um grande número de tropas, artilharia e tanques.
A campanha de propaganda atingiu níveis perigosos nos meios de comunicação, que acusam o Norte de ter assassinado um parente do líder da Coreia do Norte na Malásia, ainda que não haja provas e que o Norte não tivesse nenhum motivo para o fazer. Os únicos a beneficiar do assassinato são os EUA e os seus meios de comunicação controlados, que usam isso para atiçar a histeria contra Coreia do Norte, que agora teria armas químicas de destruição em massa.
Sim, meus amigos, eles pensam que todos nós nascemos ontem e que não aprendemos nada sobre a natureza do domínio doa EUA e da sua propaganda. Será assim tão espantoso que os norte-coreanos temam que estes 'jogos' de guerra se transformem um dia em realidade e que estes "jogos" não sejam senão a cobertura para um ataque e para criar ao mesmo tempo um clima de terror na população, coreana?
Haveria muitas coisas a dizer sobre a natureza real da RPDC, seus habitantes, seu sistema socioeconómico e sua cultura. Mas não há espaço para isso agora neste texto. Espero que as pessoas sejam capazes de dar-se conta por si próprias da experiência do nosso grupo. Termino com o último parágrafo do relatório comum que fizemos no retorno da RPDC, e espero que as pessoas o compreendam bem, reflitam e ajam de forma a apelar à paz.
"Aos povos do mundo tem de ser divulgada a história completa acerca do que se passou na Coreia e o papel do nosso governo fomentando desequilíbrios e conflitos. Devem ser tomadas medidas pelos advogados, grupos comunitários e ativistas pela paz e todos os cidadãos do planeta, para impedir o governo dos EUA de levar a cabo uma campanha de propaganda visando apoiar a agressão contra a Coreia do Norte. Os norte-americanos têm sido alvo de um grande embuste. O que está em jogo é muito importante para nos permitimos ser enganados novamente. Esta delegação de paz aprendeu na Coreia do Norte, um elemento importante da verdade essencial nas relações internacionais. É que só com ampla comunicação e negociação, seguida do respeito pelas promessas e profundo compromisso com a paz, se pode – literalmente – poupar o mundo a um sombrio futuro nuclear. A experiência e a verdade nos libertarão da ameaça de guerra. A nossa viagem à Coreia do Norte, este relatório e nosso projeto atual são esforços para nos libertarmos".
|
[*] Advogado especialista em direito penal internacional, com escritório em Toronto. É conhecido pelos casos de crimes de guerra mediatizados que analisou. Publicou recentemente o romance Beneath the Clouds . Escreve ensaios sobre direito internacional, política e acontecimentos mundiais. A versão em francês encontra-se em www.legrandsoir.info/coree-du-nord-la-grande-tromperie.html e o original em journal-neo.org/2017/03/13/north-korea-the-grand-deception-revealed/ Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . |
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
Recomeçar com Marx
Publicado em 12/07/2017 //

Por Ivo Tonet.
Nosso objetivo, nesse texto, é fazer uma
rápida aproximação à questão da reconstrução da teoria marxiana,
buscando mostrar porque o caminho da ontologia do ser social é mais
produtivo para essa empreitada.
Para a maioria dos intelectuais, Marx não
passa, hoje, de um “cachorro morto” que qualquer um pode chutar à
vontade. Não por acaso, esses intelectuais também abriram mão, se alguma
vez a tiveram, de qualquer perspectiva revolucionária em relação à
atual ordem social.
Contudo, para aqueles que entendem que o
capitalismo não só não resolve como agrava cada vez mais os problemas da
humanidade e, portanto, deve ser superado, a reconstrução da teoria
revolucionária é uma das tarefas mais importantes neste momento. E, no
seu interior, o resgate do pensamento marxiano ocupa um lugar
centralíssimo. Ambas as tarefas têm uma enorme urgência e importância,
dado o extravio e a confusão em que se vê enredada a luta
anticapitalista na atualidade. Pretendemos, aqui, restringir-nos apenas à
problemática do marxismo.
A primeira questão, pois, que se coloca
é: qual o sentido deste resgate? Para alguns trata-se apenas de
defendê-lo dos ataques dos seus adversários e de corrigir eventuais
deformações historicamente situadas. Para outros, levando em
consideração as enormes mudanças que o mundo sofreu desde o surgimento
do marxismo até hoje, trata-se de buscar estabelecer “o que é vivo e o
que é morto” nele, atualizando-o face aos problemas do mundo atual. Para
isto, há quem advogue a necessidade de entrecruzá-lo com outras
correntes atuais, o que permitiria evitar todo dogmatismo e sectarismo e
traria mais produtividade ao próprio marxismo.
Não nos parece que estes sejam os
melhores caminhos para essa reconstrução. A nosso ver, quase nenhuma das
interpretações conseguiu captar ou restituir ao ideário marxiano aquele
caráter radicalmente crítico e revolucionário que é sua característica
mais essencial. Independente do quantum realizado e dos erros e acertos,
acreditamos que a vertente chamada de ontologia do ser social, cujo
expoente maior é G. Lukács, é a que melhor contribuiu para isso.
Gostaríamos de observar, no entanto, que não se trata de menosprezar
contribuições importantes trazidas por outras interpretações, mas apenas
de acentuar a decisiva importância que a impostação lukacsiana tem para
a restauração dos fundamentos da concepção marxiana.
György Lukács
Nesta perspectiva, não se trata só de
correções nem apenas de atualizações, e muito menos de entrecruzamentos
com outras correntes de pensamento. Considerando as variadas
interpretações, extravios e deformações que este pensamento sofreu ao
logo da sua trajetória, como resultado de todo um processo histórico,
impõe-se a necessidade de recomeçar ab initio.
Sabe-se que o pensamento marxiano se
configurou com uma clara perspectiva crítica e revolucionária, ou seja,
de compreensão do mundo até a raiz e de superação radical da ordem
burguesa. E foi precisamente este caráter radicalmente crítico e
revolucionário que ele foi perdendo ao longo da sua trajetória. Entre as
inúmeras deformações que ele sofreu está a redução desta radicalidade a
mera crítica teórica ou a crítica política, quando a questão é muito
mais ampla e profunda. Ser radical, como o próprio Marx diz, é ir à
raiz. Ora, continua ele, a raiz do homem é o próprio homem. Trata-se,
pois, a nosso ver, de retornar a Marx, não para encontrar o “verdadeiro
Marx” — tarefa impossível e sem sentido — mas, para buscar nele os
fundamentos (a raiz) de uma compreensão radical — e porque radical,
revolucionária — do mundo dos homens.
Defendemos a idéia — aparentemente
absurda diante da situação em que se encontra hoje o marxismo — de que
Marx realizou uma revolução teórica similar, mutatis mutandis, àquela
realizada pelos pensadores modernos dos séculos XVII e XVIII; de que
Marx lançou os fundamentos de uma concepção radicalmente nova de mundo e
de que por isso ele representa o patamar de conhecimento mais elevado
que a humanidade produziu até hoje. Fundamentos estes que não têm sua
validade limitada a determinado campo específico, mas que permitem
abordar qualquer fenômeno social com possibilidades superiores a
quaisquer outros instrumentais teóricos.
Para que não pairem dúvidas sobre o
sentido de uma afirmação tão contundente e ousada — especialmente em um
momento em que tudo parece demonstrar o contrário — esclarecemos que ela
se refere apenas aos fundamentos e de modo nenhum ao que Marx realizou a
partir deles. Quanto ele mesmo realizou em termos de conhecimento da
realidade social, quais os seus acertos e erros, o que tem ou não
validade para o mundo de hoje, são questões importantes, mas de outro
tipo. Também queremos deixar claro que não se trata de diminuir ou
menosprezar as contribuições — muitas vezes geniais — de outros autores.
O próprio Marx tinha consciência de que ele só pode fazer o que fez
porque subiu nos ombros de outros gigantes. O sentido preciso da nossa
afirmação é este: Marx lançou os fundamentos de uma concepção
radicalmente nova e superior de mundo e, portanto, de fazer ciência e
filosofia. E — ponto decisivo — desta própria compreensão decorre a
possibilidade e a necessidade de uma transformação radical do mundo.
Vale dizer: o fundamento da luta revolucionária está, primeiramente, na
ontologia e só depois na ética e na política. Vale, então, afirmar que
qualquer empreitada que pretenda restituir ao marxismo seu caráter
radicalmente crítico e revolucionário tem que repor nesse pensamento a
capacidade de compreender a origem, a natureza e as determinações
essenciais do processo de tornar-se homem do homem. Compreensão esta que
deve permitir explicar como os homens (e só eles) fazem a história, por
que a fizeram deste modo e como poderão prosseguir, superando a atual
forma de sociabilidade.
Como, então, fazer emergir este caráter
radicalmente crítico e revolucionário do pensamento marxiano? O que é
que lhe confere este caráter?
Entendemos que a resposta a essas
questões só pode ser obtida se observarmos três princípios metodológicos
fundamentais: buscar a gênese histórico-ontológica, a natureza
específica e a função social desse pensamento. Cremos que a observação
destes três princípios nos permitirá apreender o pensamento marxiano
como a concepção de mundo e o patamar de conhecimento mais elevado que a
humanidade atingiu até hoje e, por conseqüência, o melhor instrumento
teórico para orientar a transformação radical do mundo.
O argumento histórico
Parece não haver dúvida de que, na
passagem do feudalismo ao capitalismo, houve também uma revolução
teórica. E que os pensadores burgueses, expressando uma nova e emergente
forma de sociabilidade, liderada pela burguesia, realizaram a crítica
do modo greco-medieval de pensar (centrado no ser, metafisicamente
entendido) e lançaram as bases de uma nova forma de fazer ciência e
filosofia (centrado no conhecer, abstratamente concebido). Afinal, toda
classe que pretende alcançar o poder é obrigada a fazer a crítica do
modo de pensar das classes que combate e estabelecer fundamentos para um
conhecimento e uma ação adequados aos seus objetivos.
Ora, assim como a burguesia, por sua
natureza, põe os fundamentos de uma forma de sociabilidade regida pelo
capital, a classe trabalhadora tem o mesmo estatuto em relação a uma
forma de sociabilidade para além do capital. Deste modo, a classe
trabalhadora, por sua natureza (historicamente configurada), também põe
as bases para o surgimento de uma compreensão do mundo mais ampla, mais
profunda e mais radical. É a própria natureza da classe trabalhadora que
exige a transformação radical do mundo, a superação, pela raiz, da
forma da sociabilidade regida pelo capital. Mas, para que essa
transformação não fosse apenas um desejo, uma utopia, seria preciso uma
fundamentação sólida, uma demonstração rigorosa da radical historicidade
e socialidade do mundo dos homens. Vale dizer, seria preciso elevar ao
nível da consciência, dar forma teórica àquelas possibilidades
existentes na realidade social burguesa; demonstrar que a realidade
social é obra exclusiva — ainda que não absoluta — dos próprios homens.
E, para isso, seria preciso alterar radicalmente o ponto de partida.
Como o próprio Marx diz: em vez de partir do céu para a terra, ou seja,
de dogmas ou especulações arbitrárias, frutos da consciência, seria
preciso partir da terra para o céu, vale dizer, do real, do efetivamente
existente, do empiricamente verificável.
O argumento teórico
Como Marx faz isso? Tomando como ponto de
partida a realidade (social) efetivamente existente, ele resgata a
centralidade da objetividade (característica da perspectiva
greco-medieval), — daí o caráter ontológico do seu pensamento —
subordinando a esta a resolução de todas as questões relativas ao
conhecimento. Demonstra, porém, que esta objetividade é radicalmente histórica
e social. Nesta empreitada, três categorias são fundamentais: as
categorias da essência/fenômeno, da práxis e da totalidade. Por um lado,
ao historicizar a primeira e ao demonstrar a sua relação com o
fenômeno, ele resolve os problemas da relação entre unidade e
diversidade e entre permanência mudança no ser social. Por outro lado,
ao demonstrar como a realidade social é sempre o resultado da
determinação recíproca entre subjetividade e objetividade (teleologia e
causalidade), porém sob a regência da segunda, e como a práxis é a
categoria mediadora entre estes dois momentos, ele pode integrar
harmonicamente aquelas duas categorias, superando, ao mesmo tempo, o
idealismo e o materialismo mecanicista. E, por fim, ao apreender o modo
como as diversas categorias vão surgindo, a partir do trabalho e ao
longo do processo histórico-social, a categoria da totalidade emerge
como a peça-chave do edifício real e teórico.
Com isso, ele supera tanto a
unilateralidade da perspectiva greco-medieval (centrada no ser, mas
metafisicamente concebido), como a unilateralidade da perspectiva
moderna (centrada no conhecer, mas abstratamente entendido).
É no trabalho, portanto, ponto de partida
“empiricamente verificável”, (“os indivíduos reais, sua ação e suas
condições materiais de vida…”), que ele encontra a raiz, o fundamento
ontológico-primário do ser social. A análise deste ato fundante
permite-lhe demonstrar a radical historicidade e socialidade do mundo
dos homens bem como a natureza específica deste mundo. É também a
análise do trabalho que lhe permite mostrar como surgem, com natureza e
funções específicas, todas as outras dimensões sociais, garantindo,
deste modo, tanto o matrizamento ontológico quanto a autonomia relativa.
Como resultado, o ser social emerge como uma totalidade articulada em
processo, sem jamais perder essa característica, não importa quanta
fragmentação possa resultar do andamento concreto da história.
Com isto, velhos problemas, como a
questão da origem ontológica do homem e da natureza própria do mundo
social; da relação entre espírito e matéria, consciência e realidade
objetiva, ação e estrutura, unidade e diversidade, mudança e
permanência, liberdade e necessidade, indivíduo e sociedade, sujeito e
objeto, teoria e prática, ciência a ideologia, etc. têm sua resolução
encaminhada sob uma ótica profundamente diferente e mais apropriada.
Do mesmo modo, com esta impostação podem
ser facilmente refutadas quaisquer acusações de determinismo,
economicismo, dogmatismo, menosprezo do indivíduo, metafísica,
messianismo e tantas outras que resultam de leituras não ontológicas
deste pensamento.
Vale frisar: com isto não estão
resolvidos todos os problemas. Estão apenas (e isto é muitíssimo
importante) lançados os fundamentos, está aberto um patamar para a
abordagem de qualquer fenômeno social e para impulsionar a
compreensão, o mais profunda hoje possível, da realidade social. Parece
evidente que não vai nisto nenhum dogmatismo, pois estes fundamentos —
eles mesmos sempre necessitados de crítica e aprofundamento — não
garantem a correção e a superioridade do conhecimento produzido a partir
deles, apenas as tornam possíveis.
Infelizmente, nem a versão dominante do
marxismo — o marxismo da II Internacional e o chamado marxismo-leninismo
— nem a maioria das outras interpretações compreenderam essa revolução
filosófico-científica radical operada por Marx. As conseqüências
negativas desta incompreensão foram enormes para a luta contra o
capital. Impossível, sequer, mencioná-las, aqui. Mas, em síntese,
tornaram o marxismo incapaz de enfrentar a ideologia burguesa e
contribuíram poderosamente para extraviar a consciência dos que
pretendem lutar contra o capital. Daí a necessidade premente de
recomeçar com Marx, a partir dos fundamentos, na perspectiva ontológica
indicada por Lukács, para resgatar o caráter radicalmente crítico e
revolucionário do seu pensamento e, com isto, impulsionar a reconstrução
da teoria revolucionária.
Leituras sugeridas
Karl Marx, Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo, Boitempo, 2004.
Karl Marx, Crítica da filosofia do Direito de Hegel. “Introdução”. São Paulo, Boitempo, 2005.
Karl Marx, A miséria da filosofia. São Paulo, Boitempo, 2017 (no prelo).
Karl Marx e Friedrich Engels, A sagrada família, São Paulo, Boitempo, 2005.
Karl Marx, O capital: crítica da economia política. São Paulo, Boitempo, 2013.
Karl Marx e Friedrich Engels, A ideologia alemã. São Paulo, Boitempo, 2007.
Friedrich Engels. Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã.
György Lukács, Ontologia do ser social. São Paulo, Boitempo, 2013
György Lukács, “O que é marxismo ortodoxo?” In: História e consciência de classe. São Paulo, Martins Fontes, 2003
José Chasin, “Método dialético” (mimeo)
José Chasin, “A superação do liberalismo” (mimeo)
José Chasin, Marx: estatuto ontológico e resolução metodológica. São Paulo, Boitempo, 2009
Sérgio Lessa, “Ontologia e historicidade”. In: sergilessa.com
Sérgio Lessa, Mundo dos homens: trabalho e ser social. São Paulo, Boitempo, 2002/Instituto Lukács, 2012.
José Paulo Netto, “Razão, ontologia e práxis”. Em: Serviço Social e Sociedade, n. 44
Ivo Tonet, Método científico: uma abordagem ontológica. São Paulo, Coletivo Veredas, 2016
***
Ivo Tonet é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Alagoas. É um dos autores da coletânea György Lukács e a emancipação humana, organizada por Marcos Del Roio. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.
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