Parafraseando L. Trotsky
Não é notável que aqueles que falam com mais indignação sobre as vítimas da revolução social (nomeadamente, hoje, da Revolução Socialista de Outubro na Rússia de 1917) são geralmente os mesmos que, se não directamente responsáveis pelas vítimas das guerras imperialistas do século XXI, as prepararam e glorificaram, ou ao menos as aceitaram?
domingo, 29 de outubro de 2017
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
O que não aprendemos com a Revolução Russa
Parece-me, por vezes, que alguns celebram a Revolução Russa para melhor esquecê-la.
Publicado em 24/10/2017 //
Por Mauro Luis Iasi.
“[Em alguns] processos, acontece com extraordinária frequência
ser ‘recordado’ algo que nunca poderia ter sido ‘esquecido’,
porque nunca foi, em ocasião alguma, notado […]”
S. Freud, “Recordar, repetir e elaborar”, 1914)
ser ‘recordado’ algo que nunca poderia ter sido ‘esquecido’,
porque nunca foi, em ocasião alguma, notado […]”
S. Freud, “Recordar, repetir e elaborar”, 1914)
O centenário da Revolução Russa foi
marcado, aqui e no mundo, por inúmeras celebrações, debates, publicações
e outras iniciativas, o que demonstra o incrível impacto que este
acontecimento teve e ainda tem sobre todos nós. Tudo isso é muito
importante e configura um dado extremamente positivo nesta conjuntura de
defensiva da esquerda.
Nossa reflexão aqui vai em uma direção um pouco distinta da necessária celebração. Já na abertura de sua magistral obra O Estado e a revolução
Lênin nos lembra que Marx, assim como outros revolucionários, foram
perseguidos em vida, que suas obras foram alvo do ódio mais feroz, da
difamação e da mentira. No entanto, “depois da morte deles, tentam
transformá-los em ícones inofensivos, canonizá-los, por assim dizer”,
tudo isso para consolo e enganação dos oprimidos, ao mesmo tempo
“castrando o conteúdo da doutrina revolucionária, embotando seu gume
revolucionário, vulgarizando-a.” (Lênin, O Estado e a revolução, p. 27).
Creio que algo semelhante ocorre quando
falamos da Revolução Russa. Ao mesmo tempo em que se ressalta seus
líderes e ícones, seus símbolos e sua grandiosidade, tenta-se cerca-la
de uma rígida fronteira que a circunscreveria em sua época, incapaz de
qualquer universalidade que não seja abstrata. Transforma-se este
episódio épico em ícone, castrando sua substância revolucionária,
aviltando-o.
Sabemos que este como qualquer outro
acontecimento histórico é constituído de particularidades que o
identificam e caracterizam. Mas estamos convencidos de que há
ensinamentos universais que nem sempre são destacados como deveriam,
exatamente porque são incômodos e provocativos no interior do caminho
que a esquerda brasileira escolheu trilhar. O desafio está em determinar
o que há de particular e o que há de universal nessa experiência
histórica.
Acreditamos que podemos indicar,
resumidamente, cinco aspectos que são próprios da experiência soviética e
que dificilmente se apresentariam em novos contextos históricos, são
eles: a) o tsarismo e a luta pelas nacionalidades; b) uma particular
estrutura agrária e a forma da luta camponesa; c) um desenvolvimento
urbano e industrial peculiar com o desenvolvimento do movimento operário
e revolucionário (com uma particular forma de presença do marxismo); d)
a crise da II Internacional e a natureza da disputa ali travada; e) uma
conjuntura marcada pelas guerras de 1904 e depois 1914.
Cada um desses aspectos mereceria uma
análise aprofundada que não cabe aqui. Digamos somente que contribuíram
para a singularidade da Revolução Russa, ao mesmo tempo que são a base
de sua universalidade. O império tsarista formou-se no século XV,
estendendo-se desde a Europa Oriental até o mar do Japão, submetendo ao
seu domínio uma série de nacionalidades e povos (57% da população do
império não era russa). A base servil das relações e a formação de uma
aristocracia, cuja forma tsarista é a expressão, faz com que a
resistência se expresse na dupla determinação da luta pela terra e pela
afirmação das nacionalidades. Esta contradição se apresenta numa intensa
luta camponesa, em rebeliões que culminam nas revoltas de Pugachev em
1858 e no Movimento Terra e Liberdade de Tchernichevski de 1860 que
levarão à abolição da servidão em 1861. O Estado tsarista centraliza e
articula esta dominação com base em uma imponente máquina militar e
burocrática, apoiando-se em uma sociedade patriarcal e em uma ideologia
da superioridade predestinada do povo russo e da infalibilidade do tsar e
seu poder divino. O tsarismo soube modernizar-se, principalmente nos
reinados de Pedro (1682-1725) e Catarina (1762-1796), criando grandes
cidades e, finalmente com Alexandre II (1855-1881), iniciando um
processo de industrialização associado a presença do capital
imperialista.
Tanto o desenvolvimento industrial como os limites das lutas camponesas que evoluem para o chamado populismo russo dos narodiniks
até o terrorismo e o anarquismo, marcará a forma política da luta de
classes na velha Rússia. Por um lado, a tradição da luta camponesa
desembocará na formação do movimento Socialista Revolucionário, que se
forma como partido em 1901, e de outro pela entrada do marxismo através
de Plekhanov, Vera Zassulitch, Martov e outros, primeiro através de
círculos de estudo e, em 1883, com a formação do POSDR.
Um forte partido operário, articulado
internacionalmente através da II Internacional, enraizado na classe
trabalhadora concentrada nas três principais cidades do império, faz com
que a Rússia acompanhe o amadurecimento do movimento e da luta operária
europeia, equalizando sua situação, o que em outras condições não seria
possível.
Por fim, uma conjuntura de crise do
capital e de guerras, primeiro a guerra com o Japão desfechada em 1904 e
que provocou uma situação revolucionária em 1905 e, depois, a primeira
Grande Guerra que eclodiu em 1914. Dada a particularidade da estrutura
agrária, responsável por 45,3% da economia tsarista e 37% de todo cereal
consumido da Europa), uma produção agrícola de baixa produtividade
unitária que alcançava seu volume pela dimensão de seu conjunto, a
guerra produz impactos significativos na queda da superfície plantada, e
por conseguinte, no preço dos gêneros de primeira necessidade. A
convocação massiva de camponeses não impacta somente na produtividade no
campo, mas muda a composição das famílias fazendo com que as mulheres,
submetidas à secular opressão, possam emergir no terreno fértil da luta
de classes. A crise se expressa, também, no agudizar das contradições
internas do bloco dominante, fazendo emergir contradições no seio da
aristocracia e da recente burguesia que cobram mais espaço político no
extremamente centralizado poder autocrático do Tsar.
Não podemos esperar que nenhum destes
aspectos particulares possam se apresentar além das circunstâncias
específicas que os produziram historicamente, assim como a subjetividade
política que deles deriva. Lideranças como Lênin, Trótski, Kollontai,
Krúpskaia e outros foram tanto artífices destes tempos como seu produto.
Em seu conjunto, esses fatores objetivos e subjetivos, pode levar à
percepção de que a Revolução Russa é um acontecimento único e do qual
não se pode retirar nenhum aspecto universal.
No entanto, para aqueles que compreendem
os fundamentos da dialética materialista, não é novidade que uma
universalidade é a síntese de múltiplas particularidades e que
exatamente aquilo que confere a singularidade a um acontecimento pode
ser também a base de sua universalidade. A particularidade da revolução
Russa expressa a forma específica em esta formação social transitou para
o modo de produção capitalista, amaneira particular que se expressou a
formação de seu Estado, a forma típica que assumiu nestas condições a
luta de classes, principalmente no momento em que se produzem situações
revolucionárias. Dito de outra forma, uma maneira particular através da
qual os russos viveram a singularidade de nossos tempos.
Marx e Engels também viveram tempos
particulares e ao mesmo tempo em que tiveram que atuar e responder a
questões muito bem determinadas da conjuntura política da luta de
classes em que estavam envolvidos, teorizaram sobre os caminhos da
revolução proletária. A Prússia do século XIX não é a Rússia do inicio
do século XX, mas ao abstrair as condições particulares emerge uma
singularidade que pode indicar momentos de uma universalidade em
construção.
Em sua Mensagem do Comitê Central à Liga
dos Comunistas (1850) Marx e Engels apontam alguns aspectos que devemos
ressaltar: a) os trabalhadores encontram-se em uma situação histórica na
qual ainda lutam contra os adversários de seus adversários, o momento
da revolução burguesa; b) no curso desta luta os trabalhadores devem
estabelecer alianças e, por isso, devem se preocupar em não marchar a
reboque de seus aliados que devem triunfar em um primeiro momento,
consolidando seu poder contra o proletariado; c) para isso os
trabalhadores devem cuidar de sua independência e autonomia de classe,
tanto mantendo sua organização independente (legal e secreta) como um
programa próprio; d) No curso desta luta, no momento em que a burguesia
tentar consolidar o poder em benefício próprio, os trabalhadores devem
criar órgãos próprios de poder, criando uma dualidade de poderes que
deve ser defendida a todo custo contra os ataques da burguesia; e)
Trata-se de gerar, desde o início da Revolução Burguesa, as condições de
desenvolvimento de uma Revolução Proletária, uma revolução em
permanência, ou mais precisamente, uma Revolução Permanente.
Não é necessário muito esforço para notar
que se abstrairmos o contexto particular das lutas na Alemanha de
1848/1850, estamos diante de uma universalidade vazia de determinações,
ou seja, uma singularidade, que é praticamente o roteiro da revolução
Russa. Não porque Marx tinha dons premonitórios, mas porque a análise da
realidade particular de seu tempo se eleva a uma universalidade que
serve de ponto de partida singular àqueles que pensaram os caminhos da
revolução no inicio do século XX.
Ocorre que as experiências posteriores
vão agregando novas particularidades, tornando cada vez mais rico a
universalidade que daí deriva. Em 1850 Marx não tem como responder uma
questão central: qual a forma do Estado nesta transição revolucionária.
Será a Comuna de Paris de 1870 que agregará a forma finalmente
encontrada.
A revolução Russa dá um passo essencial
nesta construção histórica, sem dúvida por suas particularidades, mas
estamos convictos que inscreve novos aspectos à universalidade da
alternativa revolucionária. Acreditamos que a revolução Russa nos deixa
algumas questões essenciais para pensar os nossos dias, são elas: a) a
questão do Estado; b) a combinação da espontaneidade e da ação política
dirigida conscientemente pela classe revolucionária; c) a questão da
transição, tanto no que diz respeito a forma econômica quanto a forma
política a ela correspondente.
Antes, entretanto, gostaríamos de
destacar que a experiência russa é a última que atualiza e supera a
primeira das características apontadas por Marx e Engels em 1850, qual
seja, o momento democrático burguês da revolução proletária. Os
marxistas posteriores, por uma série de motivos, transformaram este
momento em uma “etapa”, em um longo processo em que o capitalismo
deveria se desenvolver e consolidar antes que fosse possível uma
revolução socialista. Na verdade, esta é uma afirmação característica da
II Internacional e do reformismo que levará à sua falência e que será
transformada em dogma pela III Internacional stalinizada. A visão de
Lênin e Trótski é, neste aspecto, heterodoxa ao ser ortodoxa. Ambos, por
razões muitas vezes distintas, vêm a necessidade de se aproveitar o
momento para superar, o mais rapidamente possível, o momento democrático
burguês, aproveitando-se da instabilidade da queda do antigo regime
para avançar a revolução proletária, de forma que parte do
desenvolvimento necessário será realizado já sob o poder proletário.
Ambos parecem relativizar a convicção de Marx segundo a qual nenhuma
sociedade nova pode surgir antes que se desenvolvam todas as forças
produtivas que a velha sociedade pode conter (daí sua heterodoxia), para
se aproximar de Marx e sua afirmação de que o movimento que leva do
momento burguês ao momento proletário da revolução é uma revolução
permanente (daí sua ortodoxia).
Este fato coloca no centro a questão que
julgo ser a fundamental colocada pela experiência soviética: o Estado.
Já em agosto de 1917, ao apresentar seu livro sobre o assunto, Lênin
afirmava que “a questão do Estado assume, em nossos dias, particular
importância, tanto do ponto de vista teórico como do ponto de vista
político prático”. Mas no que consiste, em suma, esta questão?
Podemos resumir esta complexa questão à
afirmação leniniana, sustentada numa compreensão precisa da teoria do
Estado em Marx e Engels, segundo a qual o Estado Burguês não pode ser
ocupado ou disputado, mas deve ser aniquilado pela ruptura
revolucionária, substituindo-o por um Estado Proletário. Mencheviques e
Socialistas Revolucionários de direita (existiam os de esquerda, como
Martov que se opuseram a política de participação no Governo
Provisório), estavam convencidos que era possível participar no Estado
burguês graças a uma correlação de forças favorável que permitiria
utilizar o Estado como instrumento de uma intencionalidade popular.
Esta questão teórica e política/prática
foi respondida cabalmente pela Revolução Russa, mas não somente, também
pela derrota da Revolução Alemã de 1918/19, por toda experiência
socialdemocrata do pós segunda guerra, pelo governo da Unidade Popular
no Chile (1970-1973) e inúmeras outras experiências do século XX.
No entanto, curiosamente, a esquerda
construiu uma certeza no sentido exatamente oposto a este. Parece ter se
consolidado a convicção que a ruptura e a passagem revolucionária para
um Estado Proletário é um aspecto particular da Rússia e que a
característica própria dos tempos que se abriam era de uma alteração na
natureza do Estado que permitiria que se estabelecesse sua disputa e
utilização no sentido da transição socialista ou de uma transição para o
socialismo. É comum atribuir a Gramsci esta concepção de um “Estado
ampliado” em contraposição a uma compreensão “restrita de Estado”
presente em Marx e Lênin. Não cabe aqui aprofundar se esta atribuição é
ou não pertinente (estamos convencidos que Gramsci debate sobre a forma
da via revolucionária, mas não rompe com os fundamentos da Teoria de
estado de Marx e, mesmo, de Lênin), mas o fato é que a Revolução Russa
aconteceu e se consolidou, assim como a Chinesa em 1949 e a Cubana em
1959, ao mesmo tempo em que nenhuma das chamadas experiências de
“democratização” do Estado burguês, desde o eurocomunismo e a social
democracia até as recentes experiências democráticas populares levaram a
nada remotamente perto do socialismo.
A atual tendência do irracionalismo hoje
reinante funciona assim: escolhe um aspecto da realidade, o isola e
proclama o fim da possibilidade do socialismo num êxtase hiperempirista,
logo e seguida, quando a realidade parece desmentir sua convicção,
passa a defender que a realidade não existe.
O mesmo ocorre com o segundo ensinamento
da Revolução Russa. Lênin tinha certeza que as revoluções não acontecem
simplesmente, elas precisam ser feitas. Isto é, a revolução proletária
possui um aspecto de intencionalidade política muito mais marcante que
sua antecessora histórica. Isto não significa que ela seja unicamente
produto da intencionalidade da classe revolucionária ou de sua
organização política. O que a Revolução Russa comprovou, e o rico debate
entre Lênin e Rosa apenas expressa no campo teórico, é que a revolução
de nossos tempos é uma combinação entre aspectos espontâneos e
intencionais, objetivos e subjetivos, da luta de classes. Não é o caso
de repassar aqui os fatos sobejamente conhecidos, mas reafirmar que a
revolução não teria sido possível sem episódios onde a espontaneidade da
classe foi marcante – tais como a insurreição de 1905 ou a de fevereiro
de 1917, a revolta nas bases militares, as greves – da mesma forma que
nada disso teria encontrado sucesso sem a capacidade de organização, de
ação política e iniciativa de direção no sentido de resistir – como
ocorreu depois do fracasso das jornadas de junho e a reação do governo,
como na resistência ao golpe de Kornílov e a ação que levou à derrubada o
Governo Provisório como em outubro de 1917.
No lugar desta complexa dialética, a
esquerda contemporânea parece ter se rendido a um culto ao espontâneo e a
uma inversão estranha. Empenha-se em realizar as tarefas objetivas,
fazer manifestações, produzir greves, criar insatisfação, enquanto
espera que a história resolva os problemas que só a ação subjetiva da
classe pode gerar, tais como as questões da estratégia e da tática, o
programa, o plano operacional e a via, os problemas da organização e
outros.
Sem dúvida, a maior contribuição da
Revolução Russa deriva do fato que ela possibilitou levar a transição
socialista a um ponto onde não se havia antes chegado. Para o bem e para
o mal, isto é, o que os russos generosamente nos ensinam se fundamenta
em grande parte nos seus erros. Aqui, mais uma vez retornamos a questão
do Estado. Se para nós a questão da necessária destruição do Estado
burguês e sua substituição por um Estado proletário se comprovou válida,
pela experiência soviética e pelos fatos posteriores, a relação entre o
Estado proletário e a transição socialista nos coloca uma série de
questões sobre as quais precisamos refletir.
Marx parecia estar convencido que na
primeira fase da sociedade comunista, o que nós resolvemos chamar de
socialismo, ocorre uma transição econômica que tem por objetivo eliminar
as bases daquilo que um dia dividiu a sociedade em classes e que ele
sintetiza em cinco iniciativas: a) superar a escravizante subordinação
dos indivíduos à divisão do trabalho; b) superar o antagonismo entre
trabalho intelectual e manual; c) transformar o trabalho de meio de vida
em primeira necessidade da existência; d) superar o indivíduo burguês,
desenvolvendo o ser social em todos os sentidos; e) desenvolver as
forças produtivas para sejam capazes de produzir além das necessidades,
em abundância. Somente isso permitiria que cada um trabalhasse de acordo
com suas possibilidades e recebesse de acordo com suas necessidades
superando “os estreitos horizontes do direito burguês”, conforme Marx
famosamente afirmou na Critica do programa de Gotha.
A estas mudanças econômicas corresponderia uma transição política na
qual o Estado só poderia ser a Ditadura Revolucionária do Proletariado.
Coerente com sua concepção de revolução
permanente, Marx pensava que não apenas a passagem do momento
democrático burguês para o momento proletário, mas da primeira fase para
o comunismo, portanto, para uma sociedade sem classes e sem Estado,
deveria ser um movimento contínuo. Dada as características das tarefas
enunciadas, este movimento não poderia ser efetivado pelo ato único da
revolução, daí a concepção de uma transição e da necessidade do Estado.
Tal necessidade resulta diretamente da experiência da Comuna à qual nos
referimos, seja pela necessidade de resistir às classes dominantes
derrotadas e destruir sua capacidade de reação o que faltou fazer na
Comuna de Paris), seja pela consolidação de uma ordem que seja fosse de
conduzir a transição até a superação do Estado.
Lênin atribui este movimento um caráter
de “definhamento”, uma vez que a própria ação do Estado proletário na
medida em que fosse implementando as medidas citadas, iria tornando cada
vez mais desnecessário o Estado. Para isso, a Ditadura do Proletariado
deveria ser um Estado dos operários, camponeses e demais trabalhadores e
não um Estado dos funcionários, como alertava o próprio Lênin em seu O Estado e a revolução. Ora,
a experiência soviética demonstrou que a suspeita dos anarquistas que
um Estado desenvolveria interesses próprios em sua perpetuação,
independente do caráter revolucionário da classe que representa, acabou
por se mostrar mais problemático que nós marxistas julgávamos.
O fato é que o Estado não definhou, pelo
contrário, fortaleceu-se e consolidou uma profunda deformação
burocrática invertendo a previsão leniniana, isto é, tornou-se de fato
um estado dos funcionários com enorme poder sobre os trabalhadores.
Costuma-se utilizar este fato como comprovação daquela convicção citada
sobre o denominado caráter ampliado do Estado contemporâneo, isto é, o
caráter “oriental” da formação social russa, nos termos gramscianos,
teria permitido a tomada do poder, mas condenado a transição a um ato
dirigido pelo alto, imposto à sociedade sem mediações. Nesta leitura os
problemas da transição seriam melhor resolvidos pelo desenvolvimento de
uma sociedade civil forte, resultado de um pleno desenvolvimento do
capitalismo. O problema é que esta leitura faz com que muitos visitem o
túmulo dos bolcheviques para criticá-los por sua impaciência enquanto
levam flores e desculpas aos injustiçados mencheviques.
Acreditamos que os motivos e as
determinações deste fenômeno são outros (trataremos deste assunto na
próxima coluna), no entanto, não podemos concordar que a solução seria
não ter ousado tomar o poder e construir uma experiência proletária e
socialista, até porque a alternativa à tomada do poder pelos
bolcheviques aliados aos SRs de esquerda e anarquistas não seria o lento
amadurecimento de uma democrática sociedade ocidental, mas o golpe de
Kornílov e possivelmente o desmembramento da Rússia em áreas de
influência imperialista como ocorreu na China.
Assim, o risco é que muitos enaltecem e
celebram a Revolução Russa para defender que hoje devemos fazer
exatamente o oposto do que nossos camaradas realizaram: devemos ceder a
tentação de tomar o poder e, no lugar da ruptura revolucionária propor a
democratização do Estado burguês até que com o desenvolvimento das
forças produtivas e da consciência de classe dos trabalhadores torne-se
possível a passagem para o socialismo; devemos acreditar que as massas
mudarão a sociedade quando estiverem prontas e dispostas a fazê-lo e as
demais classes da sociedade (principalmente as camadas médias) estejam
dispostas a aceitar isso sem surtar histericamente ou reagir de forma
brutal; e, finalmente, devemos rejeitar a proposta de socializar os
meios de produção exercitando formas mistas de propriedade e convivência
de relações sociais de produção que vá introduzindo, aos poucos, formas
socializadas em uma economia de mercado até que, em um místico dia
futuro, cheguemos ao socialismo sem traumáticas rupturas.
Os herdeiros do reformismo se inquietam
diante de uma realidade que atualiza o impasse do início do século: a
guerra, o imperialismo, a crise, a prepotência de um Estado de classe se
esforçando para manter um Modo de Produção moribundo. Lênin, na mesma
apresentação do livro citado afirmou que dezenas de anos de relativa paz
criaram os elementos do oportunismo que predominava nos partidos
socialistas oficiais, mas que a crise teria varrido as certezas que
embasam os desvios oportunistas e o líder bolchevique podia prever, com
certo otimismo, ao final de sua apresentação que:
“A questão da atitude
da revolução socialista do proletariado em relação ao Estado adquire,
desse modo, não apenas importância política prática, mas também
relevância da maior atualidade como questão do esclarecimento das massas
sobre aquilo que terão de fazer num futuro próximo para sua libertação
do jugo do capital.” (Vladímir Lênin, O Estado e a revolução, p.24)
As últimas décadas de “relativa paz”
criaram as condições para a ressurreição do oportunismo. A crise atual
recria as condições para a crise deste oportunismo e a retomada de uma
política revolucionária.
Parece-me, por vezes, que alguns celebram a Revolução Russa para melhor esquecê-la.
***
Tariq Ali apresenta O Estado e a revolução, de Lênin, na TV Boitempo.
***
Mauro Iasi é
professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do
NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e
membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.
The CIA and the Pentagon’s Dirty Secrets
By Global Research NewsGlobal Research, October 25, 2017
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terça-feira, 17 de outubro de 2017
Chavismo ganha em 17 dos 23 Estados nas eleições regionais venezuelanas
O presidente do país, Nicolás Maduro, comemorou a vitória chavista: "ganhamos 75%
dos governos do país (...) o chavismo está vivo, está triunfante e está nas ruas", disse
O
Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) venceu em 17 dos 23
estados do país nas eleições para governadores realizadas neste domingo
(15/10), segundo
os resultados oficiais anunciados pelo Conselho Nacional Eleitoral
(CNE).
De
acordo com o CNE, os candidatos da oposição venceram em cinco Estados,
enquanto que os resultados do Estado de Bolívar ainda não foram
divulgados devido
à diferença apertada de votos entre os dois adversários.
O PSUV conseguiu ganhar da oposição o estado de Miranda (centro-norte) governado pelo duas vezes candidato à presidência do país Henrique Capriles, e os estados de Lara (oeste) e Amazonas (sul).
Com 95,8% das urnas apuradas, a presidente do CNE, Tibisay Lucena, disse que os resultados são "irreversíveis", explicando que nestas eleições houve uma participação de 61,14% do censo eleitoral.
O PSUV conseguiu ganhar da oposição o estado de Miranda (centro-norte) governado pelo duas vezes candidato à presidência do país Henrique Capriles, e os estados de Lara (oeste) e Amazonas (sul).
Com 95,8% das urnas apuradas, a presidente do CNE, Tibisay Lucena, disse que os resultados são "irreversíveis", explicando que nestas eleições houve uma participação de 61,14% do censo eleitoral.
Agência Efe

CNE divulgou resultados do pleito neste domingo (15/08)
CNE divulgou resultados do pleito neste domingo (15/08)
O
PSUV vai continuar governando os estados de Apure, Aragua, Barinas,
Carabobo, Cojedes, Delta Amacuro, Falcón, Guárico, Monagas, Portuguesa,
Sucre, Trujillo,
Vargas e Yaracuy. A oposição, por sua vez, ganhou em Anzoátegui,
Mérida, Nueva Esparta, Táchira e Zulia.
Governo
O
presidente do país, Nicolás Maduro, comemorou a vitória chavista.
"Ganhamos 75% dos governos do país (...) o chavismo está vivo, está
triunfante e está nas
ruas”, disse.
"A
oposição teve cinco vitórias, as reconhecemos como fizemos sempre, e há
um governo em disputa", disse, ao se referir a Bolívar. "Hoje ganhou a
verdade da
Venezuela, hoje o chavismo arrasou, hoje temos 17 governos, hoje temos
54% dos votos, hoje temos 61% de participação, e hoje a pátria se
fortaleceu com 75% dos governos", afirmou Maduro.
"Esta
vitória é uma proeza moral e política do povo venezuelano, que
conseguiu resistir aos embates da guerra da oligarquia e que disse 'não
às sanções', 'não
ao intervencionismo'", finalizou o presidente venezuelano.
Oposição
A coalizão de partidos opositores Mesa da Unidade Democrática (MUD) tinha antecipado minutos antes do anúncio oficial da CNE que os números com que seus operadores eleitorais trabalham eram "muito diferentes" dos que o órgão eleitoral ia divulgar, e já disse – mesmo antes de conhecer os resultados – que não iria aceitar o pleito.
Para a oposição, o CNE tinha tido um comportamento suspeito e diferente do registrado em outras eleições.
A coalizão de partidos opositores Mesa da Unidade Democrática (MUD) tinha antecipado minutos antes do anúncio oficial da CNE que os números com que seus operadores eleitorais trabalham eram "muito diferentes" dos que o órgão eleitoral ia divulgar, e já disse – mesmo antes de conhecer os resultados – que não iria aceitar o pleito.
Para a oposição, o CNE tinha tido um comportamento suspeito e diferente do registrado em outras eleições.
O
chefe da campanha da MUD, Gerardo Blyde, afirmou afirmou que a aliança
opositora pedirá uma auditoria de todo o processo eleitoral. Blyde
explicou que a oposição
não reconhecia os resultados "não somente devido a todas as violações
de lei que vieram sendo cometidas durante o processo", como a
substituição de candidatos e a realocação de centros eleitorais.
Chavismo está vivo: uma primeira análise das eleições regionais na Venezuela
Estas
eleições regionais vêm precedidas de um ciclo de violência erguido
pelos fatores antichavistas dentro e fora da Venezuela. Após quatro
meses de violência, e em que
a oposição venezuelana tentou boicotar as eleições para a Assembleia
Nacional Constituinte (ANC), o chavismo consegue levar o conflito para a
rota eleitoral. A narrativa de que existe na Venezuela uma “ditadura”
ficou deslocada com a participação da Mesa de
Unidade Democrática (MUD) nestas eleições.
A
Venezuela sofre, ademais, um ciclo de sanções políticas e econômicas
auspiciadas pela Casa Branca. Assinalam a ausência de garantias
democráticas na Venezuela. Por outro
lado, a Organização de Estados Americanos (OEA), claramente tutelada
pelos Estados Unidos, se baseia na mesma afirmação e, em diversas
oportunidades, patrocinou atos de deslegitimação destas eleições,
omitindo, inclusive, a participação de forças opositoras
nelas.
No
domingo, 15 de outubro, o presidente Nicolás Maduro criticou o silêncio
das corporações midiáticas e porta-vozes políticos e governos que
deslegitimaram a democracia
venezuelana, ao tentar ocultar as eleições e seus resultados. Destacou
os perigos de que se siga insistindo declarar a Venezuela como Estado
foragido ou antidemocrático. E concluiu que “a Venezuela deu uma
demonstração ao mundo de que vivemos em uma democracia
plena”.
Em
que pesem estas variáveis, a institucionalidade erigida do chavismo
consegue organizar este evento eleitoral e submeter os currais da
política aos fatores que, de maneira
consistente, dentro e fora da Venezuela, tentaram socavar a
estabilidade das instituições venezuelanas, empurrando o país ao
preâmbulo de uma guerra civil.
Os resultados
A
participação eleitoral de 61,14% dos inscritos no registro eleitoral
permanente. Para o tipo de eleição, é considerada uma participação alta,
superior a de eventos similares
em países como Colômbia, Chile, Argentina, México, e as que se realizam
em outras latitudes, com as de EUA, França e Alemanha.
O
chavismo conseguiu alçar-se com 54% dos votos do total nacional,
voltando ao caminho vitorioso em eleições para cargos públicos
convencionais.
A
MUD, por sua vez, obteve 45% dos votos. Setenta e cinco por cento dos
Estados foram ganhado pelo chavismo, 17 governos de um total de 23. A
MUD alcançou cinco governos
e só um Estado (Bolívar), até agora, está por definir por não mostrar
uma tendência irreversível.
No
entanto, esta sólida vitória também se narra pelo simbólico: históricos
bastiões políticos e eleitorais da oposição como Lara, Miranda e
Amazonas, utilizados como catapulta
política para se posicionar para as eleições presidenciais, passaram
para as mãos do chavismo com uma margem folgada. Se isso se analisa
desde sua lógica, de apresentar seus governos como “o modelo”
alternativo ao chavismo, então a MUD perdeu três eleições
presidências em sequência no dia de ontem. A liderança de Henri Falcón e
Henrique Capriles fica diminuída e sem base de poder de onde se apoiar
para aspirar a conquistas maiores.
Em
termos de voto nacional, sem os resultados em Bolívar, o chavismo se
alçou com mais de 5,2 milhões de votos – cifra que aumentará logo que
100% das atas eleitorais
sejam transmitidas -, enquanto que a MUD chegou, arredondando, aos 4,5
milhões de votos.
Deste
dado estatístico também se desprendem algumas comparações que não devem
ser deixadas de lado: a MUD perdeu quase 3 milhões de votos se se
compara com sua melhor
votação, em que conseguiu mais de 7 milhões. Por sua parte, o chavismo,
assediado e bloqueado pelos EUA, por seus satélites na região e alguns
países europeus, conseguiu manter e recuperar seu capital político em um
momento de grandes dificuldades.
Venezuelanos votam em pleitos regionais para elegerem os 23 governadores do país
Chavismo ganha em 17 dos 23 Estados nas eleições regionais venezuelanas
Líderes latino-americanos celebram vitória do chavismo em eleições regionais na Venezuela
Agência Efe

PSUV venceu em 17 de 23 Estados na Venezuela
PSUV venceu em 17 de 23 Estados na Venezuela
A
vitória do chavismo se mede não só na quantidade de governos alcançados
e na votação obtida, mas também no decréscimo eleitoral de uma MUD que
esperava capitalizar o
descontentamento econômico patrocinado, vale reforçar, por eles
próprios a partir da Assembleia Nacional e mediante as sanções
financeiras desenvolvidas em conjunto com os EUA.
Fatores políticos que incidiram nos resultados
À
primeira vista, alguns elementos sobressalientes poderiam ser
ressaltados a fim de explicar a vitória do chavismo. A seguir, alguns
dos mais relevantes:
-
Em um marco de adversidade econômica, o chavismo implementou sistemas
de proteção em matéria alimentar de alcance massivo. Os Comitês Locais
de Abastecimento e Produção
(CLAP) foram chaves em proteger setores amplos, contendo os efeitos da
caotização dos sistemas de abastecimentos e preços como parte da guerra
econômica contra a Venezuela. Em agosto, a cobertura deste plano
aumentou em 58%, alcançando mais de 9 milhões de
famílias atendidas.
-
O sistema Carnê da Pátria, uma política do Estado venezuelano para
tornar eficiente e focalizar a gestão das Missões (programas sociais),
foi efetivo para organizar
a população em situação socioeconômica vulnerável. Frente ao marco de
adversidade econômica atual, a opção eleitoral da MUD não se traduz em
soluções concretas, fator que incidiu diretamente na diminuição de seu
apoio eleitoral;
-
A organização eleitoral do chavismo e sua proposta de soluções às
grandes demandas da população foram elementos que se conjugaram
adequadamente. Grande parte do eleitorado
assumiu que é o chavismo o setor com capacidade de assumir as grandes
tarefas e desafios na gestão de governos regionais.
-
As sanções da administração Trump e as ações abertas de ingerência por
parte do governo estadunidense deram pé à coesão de forças chavistas e
aumentaram significativamente
o apoio para defesa e segurança nacional, independência e soberania
como fatores de mobilização e ideias-força do chavismo. Motivado por
isso, a empresa Datanálisis, uma das empresas de pesquisa mais
influentes do país, afirmou que a popularidade do presidente
Nicolás Maduro aumentou 5,8% no final de setembro.
-
As ações violentas da MUD, assim como seus frequentes giros no
estrangeiro, solicitando sanções e a asfixia econômica contra a
Venezuela, foram também elementos-chave
na mesma direção. O chavismo articulou uma campanha favorável para
conquistar a paz política, rechaçando a agenda de intervenção,
polarizando o cenário político entre aqueles que perseguem a destruição
da nação e aqueles que buscam soluções para os problemas
sem a violência como meio.
-
Com exceção dos recursos administrativos ou de gestão para as eleições
regionais, o chavismo conseguiu levar o centro do conflito político para
as urnas: decidir entre
a estabilidade política ou caos, entre ordem ou ingovernabilidade.
-
Novas lideranças regionais ascenderam no chavismo para estas eleições.
Estes coincidiram com lideranças regionais já consolidadas. A oferta
eleitoral do chavismo se
mostrou renovada em boa medida, enquanto que, para a oposição, a mescla
entre dirigentes de baixo perfil, prefeitos com péssimas gestões e
quadros do aparelho partidário não deu os resultados esperados e influiu
diretamente nas grandes brechas que se deram
em alguns Estados.
-
O chavismo como identidade política também é um fator a se resenhar.
Tem bastiões sólidos no interior do país. As forças revolucionárias
ganham com amplas margens em
vários Estados onde a guerra econômica golpeou com mais força,
paradoxalmente. Isso só é explicável por altos níveis de consciência
nesta comunidade política. O chavismo entende, a partir de uma lógica
muito simples, que existe um marco de extorsão econômica
propiciado por fatores empresariais e comerciais aliados à MUD e se
contrapõe a essas ações de submissão. Em consequência, o chavismo vota
para castigar os promotores da guerra.
-
A violência dos meses de abri, maio, junho e julho deste ano, com
saldos fatais em perdas humanas (147 falecidos) e incontáveis danos à
propriedade pública e privada,
junto a práticas de terrorismo de rua e violência paramilitarizada,
fizeram estragos na sociedade venezuelana, dividindo a oposição entre
aqueles que rechaçaram a violência e aqueles que a apoiavam.
-
Produziu-se um paradoxo eleitoral: houve opositores que não votaram na
MUD por interpretá-la como uma organização violenta. Mas, também, houve
importantes setores que,
fervorosamente, acreditaram em um derrocamento do chavismo e viram
frustradas suas aspirações quando a MUD resolveu participar da contenda
eleitoral. Ambos os grupos, especialmente o segundo, foram símbolo de
desencanto contra a direção da MUD, a qual consideram
traidora, errática e incongruente. A abstenção eleitoral jogou contra a
MUD.
-
As imagens ainda frescas da violência e do terrorismo que provocaram
caos na Venezuela durante quatro meses, deixando um saldo de mais de 100
mortos, produziu uma situação
desfavorável em termos de apoio eleitoral à MUD, para além da base
opositora. Não haver cristalizado seus planos de derrocar o governo
fortaleceu o chavismo como referente de ordem e estabilidade. Fator que,
em momentos de estresse, insegurança com o futuro
e turbulência como os de hoje, atraem o apoio da população.
-
Uma parte do eleitorado não se identificou com as medidas de asfixia
econômica generalizada impostas pela administração Trump e que haviam
sido solicitadas consistentemente
pelos dirigentes da MUD. As ações de ingerência econômica que complicam
mais o cotidiano econômico da população não tiveram respaldo
majoritário dos eleitores no momento de ir às urnas.
-
Ao perder seus bastiões em Lara, Miranda e Amazonas, fica refletido que
a MUD não é uma referência de gestão governamental eficaz, que atende
as expectativas da população.
A percepção sobre a MUD – organização repleta de promessas não
cumpridas – foi um referente que melou o apoio de seus seguidores, não
só nestes Estados, mas também em muitos outros. Não são uma referência
de gestão regional.
-
O discurso da MUD, unicamente centralizado em caracterizar o governo de
Maduro como uma “ditadura”, foi insuficiente. Esse discurso não
mobilizou o apoio, pois se centralizou
em mobilizar o rechaço ao chavismo. Em eleições regionais, oferecer
soluções a demandas populacionais é chave e esse elemento esteve ausente
no discurso da MUD, que foi transversalmente demagogo e pouco coerente
com as necessidades imediatas da população.
(*) Publicado originalmente em
Mision Verdad
O chavismo se alça com uma importante vitória nas eleições regionais realizadas no último domingo, dia 15 de outubro
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
Entrevista com Maria Orlanda Pinassi
Publicado em 01/09/2009 // in Boitempo
A autora participou no último dia 19 da mesa “Marx, Lukács e os intelectuais revolucionários”, durante o III Seminário Margem Esquerda, cujo tema, este ano, foi uma homenagem ao legado do filósofo húngaro István Mészáros. Abordando vários assuntos que se colocam no horizonte da civilização ante a crise estrutural do capital, Maria Orlanda comentou temas como a importância dos movimentos sociais, a obra de Mészáros, a questão agrária no Brasil e o feminismo. Confira a entrevista:
Durante o debate, você disse que após ler a obra de Mészáros, sentiu falta de um ‘o que fazer’, de quais seriam os próximos passos após a crítica apurada que ele faz do sistema do capital. Se não há uma receita, quais seriam as ‘pistas’, as trilhas abertas por sua crítica que podemos seguir para desenvolvermos uma teoria e prática de transição, de superação do sistema?
De fato, eu disse que quando estava terminando de fazer a revisão da tradução do livro Para além do capital, pensei que, após ter atravessado aquela que me pareceu a mais arguta e radical crítica do sistema sócio-metabólico desde Marx, incluindo aí desde as experiências concretas da relação capital-trabalho, e todas as principais formulações teóricas, fossem elas apologéticas ou anticapitalistas, encontraria um capítulo conclusivo no qual pudéssemos trilhar os caminhos das pedras. No fundo, acho que todos nós buscamos modelos através dos quais possamos pegar atalhos. Não os encontrei ali, e só o amadurecimento da minha relação com as suas teses mais fundamentais é que me levaram a compreender que a realidade histórica é um processo ativado por causalidades impossíveis de serem controladas pela vontade revolucionária. Essa postura de Mészáros desmistifica, tanto quanto Marx fez no século XIX, a crença de que a consciência determina a história. O que Mészáros nos oferecia com aquele magistral estudo de mais de 25 anos eram as ferramentas para não só interpretarmos criticamente a nossa história passada e presente, mas, e acima de tudo, um chamado urgente da responsabilidade ontológica e da perspectiva radicalmente revolucionária na realidade potencialmente destrutiva e irreformável do capital.
Embora estejamos em uma democracia, os movimentos sociais e a pobreza seguem sendo criminalizados. Este é o preço a ser pago por quem se confronta com o capital? O movimento social é a base da transformação?
Durante muito tempo, as esquerdas acreditaram que o progresso do capitalismo corresponderia ao desenvolvimento da consciência da classe operária. Ou seja, que o momento mais desenvolvido do capital equivaleria, conseqüentemente, à construção plena das instituições democráticas e ao momento mais propício à ruptura revolucionária pela classe operária organizada e consciente de seu papel histórico. O que vivenciamos atualmente representa exatamente o contrário disso. Quanto mais o capital progride, mais recua a perspectiva revolucionária dos trabalhadores. O desemprego estrutural e a perda progressiva das conquistas trabalhistas são os principais motivos do refluxo da luta que cada vez mais assume contornos defensivos. Por outro lado, trabalhadores desempregados procuram, na mesma proporção, novas formas de representação político-organizativa, novas formas de aflorar a luta de classes, através de movimentos sociais de massas, cujas estratégias são baseadas, sobretudo, em ocupações de terra e de prédios públicos. Fora do controle imediato do Estado, essas estratégias põem à prova a verdadeira dimensão da democracia burguesa que vem se assumindo com muita desenvoltura os papéis que tradicionalmente foram desempenhados por regimes autoritários, fascistas. Neste caso, portanto, a criminalização dos movimentos e a repressão vêm para o primeiro plano na relação que o capital estabelece com o trabalho.
Qual o espaço de transformação pela via institucional? Após o fracasso das experiências sociais democratas na Europa, acredita que ela está esgotada?
Essa questão remete ao mesmo problema observado acima. Para István Mészáros, nesta fase de crise estrutural, o capital é irreformável, portanto, as velhas fórmulas de contenção das crises cíclicas articuladas pela social democracia, que no passado não muito longínquo, alcançaram tanto êxito, hoje não têm a menor chance de obter algum resultado realmente positivo. De alguma forma, podemos dizer o mesmo em relação a qualquer perspectiva de transformação pela via institucional que, na atualidade, vem se adaptando, através de múltiplas contra-reformas, às necessidades cada vez mais destrutivas, anti-civilizatórias e desumanizadoras do avanço do capital. Obviamente que, pela via institucional, ainda há necessariamente espaço efetivo para a luta defensiva seja pelos direitos humanos, seja nos planos sindical e político-parlamentar. No entanto, não se pode mais ter ilusões quanto à auto-suficiência e autonomia dessa luta historicamente controlada pela capital. Trata-se, hoje, de empreender formas de luta que só podem ser verdadeiramente ofensivas se constituírem uma importante unidade entre sindicatos, organizações político-partidárias e movimentos sociais de massas.
O Brasil tem reafirmado sua vocação agrícola no desenvolvimento desigual e combinado global? O que isto pode representar (os ônus) para o País em médio e longo prazo?
Eu costumo dizer que os países da América Latina, Brasil inclusive, apesar de seu novo papel “sub-imperialista” no continente, estão experimentando uma nova relação de colonialidade com os países do centro irradiador das determinações capitalistas. Essa condição se estabelece através da instalação extremamente agressiva, violenta e prepotente dos interesses das transnacionais do agronegócios por aqui que, estrategicamente, vêm obtendo todo tipo de incentivo do Estado, nos mais diversos níveis (federal, estadual, municipal), e se utilizam das elites internas para solapar o avanço dos movimentos sociais de massas, como o MST, no Brasil, e demais movimentos que compõem a Via Campesina. Caso clássico disso que estou dizendo é o que temos observado no Rio Grande do Sul, cujo governo é desavergonhadamente “parceiro” das transnacionais e tanto quanto os proprietários de terra (vide o terrível exemplo de São Gabriel) vêm comprometendo, mediante ameaças e severos atos de repressão, a permanência do MST no Estado. A intenção é também a de inviabilizar a atuação do Incra no sentido de desapropriar terras para fins de reforma agrária e destiná-las para plantio de soja, eucalipto, cana e demais monocultura. Tal cenário nos remete ao recrudescimento do insolvente desenvolvimento desigual e combinado que, para o bem e para o bem, impõe a absoluta desmistificação de que o progresso possa ainda ser civilizatório, sobretudo, neste canto do planeta. A curto prazo, portanto, – porque a intervenção é urgente – a desilusão com o sistema e a ausência de expectativas em relação às suas “positividades” deve necessariamente remeter a luta de classes para novas e muito mais desafiadoras formas de enfrentamento contra o capital.
Quando pensamos em autores do pensamento crítico radical, citamos poucas mulheres. Como o capital reforça a opressão de gênero? A sua superação garantirá a superação do machismo? Se não, qual a tarefa para os socialistas nesse sentido?
Para responder a essa questão, gostaria de me reportar a uma situação particularmente importante para mim. Venho acompanhando a organização interna das mulheres que compõem a Via Campesina, com destaque para as ações que, desde 2006, efetuam em oito de março, dia internacional das mulheres. Em todos esses momentos, uma questão que me parece particularmente problemática é a de que, muito embora a supressão da opressão das mulheres seja vital à construção de uma alternativa societária, essa afirmação está muito aquém de constituir unanimidade no interior dos movimentos sociais.
Ao que tudo indica, a atuação mais efetiva dos homens está voltada à realização objetiva das questões econômicas, tendendo a arrefecer com as conquistas mais imediatas da sua luta. A processualidade das lutas e a positividade das conquistas para o movimento como um todo é obviamente incontestável, mas pode também se converter numa regressividade – tendo em vista a retomada das relações hierarquicamente estruturadas – sobretudo para as mulheres que experimentam neste processo o retorno à antiga condição de seres submetidos à dominação patriarcal. É neste momento que as mulheres, ou pelo menos parte substantiva delas, tomam a decisão de não aceitar esse retrocesso e passam a lutar no interior do movimento pelo reconhecimento de seu papel fundamental em todos os momentos de afirmação da luta. Ou seja, são as mulheres que vêm impondo uma necessária autocrítica permanente ao movimento como um todo. [1]
Sua luta, portanto, não parece ser contra os homens, mas contra as deformações patriarcais que todos (inclusive mulheres) carreiam e reproduzem no movimento. Sua praxis ganha ainda mais radicalidade no confronto direto contra as transnacionais que reproduzem de forma explosiva a prática da monocultura e da destruição ambiental.
O quadro, enfim, descreve uma situação particularmente rica para tentarmos compreender e enfrentar os rumos atuais da organização da classe trabalhadora, tendo em vista as características que hoje se demandam do sujeito da transformação social. E, nesta medida, reúne alguns dos elementos que, a princípio, nos parecem essenciais: o protagonismo radical de mulheres trabalhadoras que, do interior de um movimento social de massas dos mais significativos da América Latina, enfrenta alguns dos epítetos mais consagrados do sistema sócio-metabólico do capital na atualidade, desafiando a própria capacidade deste movimento de constituir uma sociabilidade substantivamente igualitária.
[1] “Fundar y construir uma nueva civilización humana – desafio presente de la humanidad em busca de supervivencia – significa fundar y construir um nuevo modo de vida. Esto significa incorporar la noción y visión de gênero como elemento constitutivo del pensamiento y las prácticas questionadoras de las sociedades actuales, y de los procesos de construcción de las nuevas. Ello posibilitará hacer visibles y modificar las relaciones sociales asimétricas establecidas entre hombres y mujeres, base para la producción y reproducción de otras tantas asimetrias y discriminaciones: de color de piel, discapacidad física, etnia, cultura, belleza, identidad sexual, etc.” Isabel Rauber. ”Gênero y alternativas populares en Latinoamérica y el Caribe”. Texto baseado no artigo “Movimientos sociales, género y alternativas populares em Latinoamérica y el Caribe”, publicado em Itinéraires IUED, Genebra, n. 77, 2005.
sexta-feira, 13 de outubro de 2017
Noam Chomsky Diagnoses the Trump Era
The president has abetted the collapse of a decaying system; Chomsky explains how.
By Noam Chomsky and David Barsamian
October 3, 2017
EDITOR’S NOTE: This article originally appeared at TomDispatch.com. To stay on top of important articles like these, sign up to receive the latest updates from TomDispatch.com.
David Barsamian:
You have spoken about the difference between Trump’s buffoonery, which
gets endlessly covered by the media, and the actual policies he is
striving to enact, which receive less attention. Do you think he has any
coherent economic, political, or international policy goals? What has
Trump actually managed to accomplish in his first months in office?
Noam Chomsky:
There is a diversionary process under way, perhaps just a natural
result of the propensities of the figure at center stage and those doing
the work behind the curtains.
At one level, Trump’s antics ensure that attention is focused on him, and it makes little difference how. Who even remembers the charge that millions of illegal immigrants voted for Clinton, depriving the pathetic little man of his Grand Victory? Or the accusation that Obama had wiretapped Trump Tower? The claims themselves don’t really matter. It’s enough that attention is diverted from what is happening in the background. There, out of the spotlight, the most savage fringe of the Republican Party is carefully advancing policies designed to enrich their true constituency: the Constituency of private power and wealth, “the masters of mankind,” to borrow Adam Smith’s phrase.
These policies will harm the irrelevant general population and devastate future generations, but that’s of little concern to the Republicans. They’ve been trying to push through similarly destructive legislation for years. Paul Ryan, for example, has long been advertising his ideal of virtually eliminating the federal government, apart from service to the Constituency—though in the past he’s wrapped his proposals in spreadsheets so they would look wonkish to commentators. Now, while attention is focused on Trump’s latest mad doings, the Ryan gang and the executive branch are ramming through legislation and orders that undermine workers’ rights, cripple consumer protections, and severely harm rural communities. They seek to devastate health programs, revoking the taxes that pay for them in order to further enrich their constituency, and to eviscerate the Dodd-Frank Act, which imposed some much-needed constraints on the predatory financial system that grew during the neoliberal period.
That’s just a sample of how the wrecking ball is being wielded by the newly empowered Republican Party. Indeed, it is no longer a political party in the traditional sense. Conservative political analysts Thomas Mann and Norman Ornstein have described it more accurately as a “radical insurgency,” one that has abandoned normal parliamentary politics.
Much of this is being carried out stealthily, in closed sessions, with as little public notice as possible. Other Republican policies are more open, such as pulling out of the Paris climate agreement, thereby isolating the US as a pariah state that refuses to participate in international efforts to confront looming environmental disaster. Even worse, they are intent on maximizing the use of fossil fuels, including the most dangerous; dismantling regulations; and sharply cutting back on research and development of alternative energy sources, which will soon be necessary for decent survival.
The reasons behind the policies are a mix. Some are simply service to the Constituency. Others are of little concern to the “masters of mankind” but are designed to hold on to segments of the voting bloc that the Republicans have cobbled together, since Republican policies have shifted so far to the right that their actual proposals would not attract voters. For example, terminating support for family planning is not service to the Constituency. Indeed, that group may mostly support family planning. But terminating that support appeals to the evangelical Christian base—voters who close their eyes to the fact that they are effectively advocating more unwanted pregnancies and, therefore, increasing the frequency of resort to abortion, under harmful and even lethal conditions.
Not all of the damage can be blamed on the con man who is nominally in charge, on his outlandish appointments, or on the congressional forces he has unleashed. Some of the most dangerous developments under Trump trace back to Obama initiatives—initiatives passed, to be sure, under pressure from the Republican Congress.
The most dangerous of these has barely been reported. A very important study in the Bulletin of the Atomic Scientists, published in March 2017, reveals that the Obama nuclear-weapons-modernization program has increased “the overall killing power of existing US ballistic missile forces by a factor of roughly three—and it creates exactly what one would expect to see, if a nuclear-armed state were planning to have the capacity to fight and win a nuclear war by disarming enemies with a surprise first strike.” As the analysts point out, this new capacity undermines the strategic stability on which human survival depends. And the chilling record of near disaster and reckless behavior of leaders in past years only shows how fragile our survival is. Now this program is being carried forward under Trump. These developments, along with the threat of environmental disaster, cast a dark shadow over everything else—and are barely discussed, while attention is claimed by the performances of the showman at center stage.
Whether Trump has any idea what he and his henchmen are up to is not clear. Perhaps he is completely authentic: an ignorant, thin-skinned megalomaniac whose only ideology is himself. But what is happening under the rule of the extremist wing of the Republican organization is all too plain.
DB: Do you see any encouraging activity on the Democrats’ side? Or is it time to begin thinking about a third party?
NC: There
is a lot to think about. The most remarkable feature of the 2016
election was the Bernie Sanders campaign, which broke the pattern set by
over a century of US political history. A substantial body of political
science research convincingly establishes that elections are pretty
much bought; campaign funding alone is a remarkably good predictor of
electability, for Congress as well as for the presidency. It also
predicts the decisions of elected officials. Correspondingly, a
considerable majority of the electorate—those lower on the income
scale—are effectively disenfranchised, in that their representatives
disregard their preferences. In this light, there is little surprise in
the victory of a billionaire TV star with substantial media backing:
direct backing from the leading cable channel, Rupert Murdoch’s Fox, and
from highly influential right-wing talk radio; indirect but lavish
backing from the rest of the major media, which was entranced by Trump’s
antics and the advertising revenue that poured in. The Sanders campaign, on the other hand, broke sharply from the prevailing model. Sanders was barely known. He had virtually no support from the main funding sources, was ignored or derided by the media, and labeled himself with the scare word “socialist.” Yet he is now the most popular political figure in the country by a large margin.
At the very least, the success of the Sanders campaign shows that many options can be pursued even within the stultifying two-party framework, with all of the institutional barriers to breaking free of it. During the Obama years, the Democratic Party disintegrated at the local and state levels. The party had largely abandoned the working class years earlier, even more so with Clinton trade and fiscal policies that undermined US manufacturing and the fairly stable employment it provided.
There is no dearth of progressive policy proposals. The program developed by Robert Pollin in his book Greening the Global Economy is one very promising approach. Gar Alperovitz’s work on building an authentic democracy based on worker self-management is another. Practical implementations of these approaches and related ideas are taking shape in many different ways. Popular organizations, some of them outgrowths of the Sanders campaign, are actively engaged in taking advantage of the many opportunities that are available.
At the same time, the established two-party framework, though venerable, is by no means graven in stone. It’s no secret that in recent years, traditional political institutions have been declining in the industrial democracies, under the impact of what is called “populism.” That term is used rather loosely to refer to the wave of discontent, anger, and contempt for institutions that has accompanied the neoliberal assault of the past generation, which led to stagnation for the majority alongside a spectacular concentration of wealth in the hands of a few.
Functioning democracy erodes as a natural effect of the concentration of economic power, which translates at once to political power by familiar means, but also for deeper and more principled reasons. The doctrinal pretense is that the transfer of decision-making from the public sector to the “market” contributes to individual freedom, but the reality is different. The transfer is from public institutions, in which voters have some say, insofar as democracy is functioning, to private tyrannies—the corporations that dominate the economy—in which voters have no say at all. In Europe, there is an even more direct method of undermining the threat of democracy: placing crucial decisions in the hands of the unelected troika—the International Monetary Fund, the European Central Bank, and the European Commission—which heeds the northern banks and the creditor community, not the voting population.
These policies are dedicated to making sure that society no longer exists, Margaret Thatcher’s famous description of the world she perceived—or, more accurately, hoped to create: one where there is no society, only individuals. This was Thatcher’s unwitting paraphrase of Marx’s bitter condemnation of repression in France, which left society as a “sack of potatoes,” an amorphous mass that cannot function. In the contemporary case, the tyrant is not an autocratic ruler—in the West, at least—but concentrations of private power.
The collapse of centrist governing institutions has been evident in elections: in France in mid-2017 and in the United States a few months earlier, where the two candidates who mobilized popular forces were Sanders and Trump—though Trump wasted no time in demonstrating the fraudulence of his “populism” by quickly ensuring that the harshest elements of the old establishment would be firmly ensconced in power in the luxuriating “swamp.”
These processes might lead to a breakdown of the rigid American
system of one-party business rule with two competing factions, with
varying voting blocs over time. They might provide an opportunity for a
genuine “people’s party” to emerge, a party where the voting bloc is the
actual constituency, and the guiding values merit respect.
Iran has long been regarded by US leaders, and by US media commentary, as extraordinarily dangerous, perhaps the most dangerous country on the planet. This goes back to well before Trump. In the doctrinal system, Iran is a dual menace: It is the leading supporter of terrorism, and its nuclear programs pose an existential threat to Israel, if not the whole world. It is so dangerous that Obama had to install an advanced air defense system near the Russian border to protect Europe from Iranian nuclear weapons—which don’t exist, and which, in any case, Iranian leaders would use only if possessed by a desire to be instantly incinerated in return.
That’s the doctrinal system. In the real world, Iranian support for terrorism translates to support for Hezbollah, whose major crime is that it is the sole deterrent to yet another destructive Israeli invasion of Lebanon, and for Hamas, which won a free election in the Gaza Strip—a crime that instantly elicited harsh sanctions and led the US government to prepare a military coup. Both organizations, it is true, can be charged with terrorist acts, though not anywhere near the amount of terrorism that stems from Saudi Arabia’s involvement in the formation and actions of jihadi networks.
As for Iran’s nuclear-weapons programs, US intelligence has confirmed what anyone can easily figure out for themselves: If they exist, they are part of Iran’s deterrent strategy. There is also the unmentionable fact that any concern about Iranian weapons of mass destruction (WMDs) could be alleviated by the simple means of heeding Iran’s call to establish a WMD-free zone in the Middle East. Such a zone is strongly supported by the Arab states and most of the rest of the world and is blocked primarily by the United States, which wishes to protect Israel’s WMD capabilities.
Since the doctrinal system falls apart on inspection, we are left with the task of finding the true reasons for US animus toward Iran. Possibilities readily come to mind. The United States and Israel cannot tolerate an independent force in a region that they take to be theirs by right. An Iran with a nuclear deterrent is unacceptable to rogue states that want to rampage however they wish throughout the Middle East. But there is more to it than that. Iran cannot be forgiven for overthrowing the dictator installed by Washington in a military coup in 1953, a coup that destroyed Iran’s parliamentary regime and its unconscionable belief that Iran might have some claim on its own natural resources. The world is too complex for any simple description, but this seems to me the core of the tale.
It also wouldn’t hurt to recall that in the past six decades, scarcely a day has passed when Washington was not tormenting Iranians. After the 1953 military coup came US support for a dictator described by Amnesty International as a leading violator of fundamental human rights. Immediately after his overthrow came the US-backed invasion of Iran by Saddam Hussein, no small matter. Hundreds of thousands of Iranians were killed, many by chemical weapons. Reagan’s support for his friend Saddam was so extreme that when Iraq attacked a US ship, the USS Stark, killing 37 American sailors, it received only a light tap on the wrist in response. Reagan also sought to blame Iran for Saddam’s horrendous chemical warfare attacks on Iraqi Kurds.
Eventually, the United States intervened directly in the Iran-Iraq War, leading to Iran’s bitter capitulation. Afterward, George H.W. Bush invited Iraqi nuclear engineers to the United States for advanced training in nuclear-weapons production—an extraordinary threat to Iran, quite apart from its other implications. And, of course, Washington has been the driving force behind harsh sanctions against Iran that continue to the present day.
Trump, for his part, has joined the harshest and most repressive dictators in shouting imprecations at Iran. As it happens, Iran held an election during his Middle East travel extravaganza—an election which, however flawed, would be unthinkable in the land of his Saudi hosts, who also happen to be the source of the radical Islamism that is poisoning the region. But US animus against Iran goes far beyond Trump himself. It includes those regarded as the “adults” in the Trump administration, like James “Mad Dog” Mattis, the secretary of defense. And it stretches a long way into the past.
The North Korean dictatorship may well win the prize for brutality and repression, but it is seeking and to some extent carrying out economic development, despite the overwhelming burden of a huge military system. That system includes, of course, a growing arsenal of nuclear weapons and missiles, which pose a threat to the region and, in the longer term, to countries beyond—but its function is to be a deterrent, one that the North Korean regime is unlikely to abandon as long as it remains under threat of destruction.
Today, we are instructed that the great challenge faced by the world is how to compel North Korea to freeze these nuclear and missile programs. Perhaps we should resort to more sanctions, cyberwar, intimidation; to the deployment of the Terminal High Altitude Area Defense (THAAD) anti-missile system, which China regards as a serious threat to its own interests; perhaps even to direct attack on North Korea—which, it is understood, would elicit retaliation by massed artillery, devastating Seoul and much of South Korea even without the use of nuclear weapons.
But there is another option, one that seems to be ignored: We could simply accept North Korea’s offer to do what we are demanding. China and North Korea have already proposed that North Korea freeze its nuclear and missile programs. The proposal, though, was rejected at once by Washington, just as it had been two years earlier, because it includes a quid pro quo: It calls on the United States to halt its threatening military exercises on North Korea’s borders, including simulated nuclear-bombing attacks by B-52s.
The Chinese-North Korean proposal is hardly unreasonable. North Koreans remember well that their country was literally flattened by US bombing, and many may recall how US forces bombed major dams when there were no other targets left. There were gleeful reports in American military publications about the exciting spectacle of a huge flood of water wiping out the rice crops on which “the Asian” depends for survival. They are very much worth reading, a useful part of historical memory.
The offer to freeze North Korea’s nuclear and missile programs in return for an end to highly provocative actions on North Korea’s border could be the basis for more far-reaching negotiations, which could radically reduce the nuclear threat and perhaps even bring the North Korea crisis to an end. Contrary to much inflamed commentary, there are good reasons to think such negotiations might succeed. Yet even though the North Korean programs are constantly described as perhaps the greatest threat we face, the Chinese-North Korean proposal is unacceptable to Washington, and is rejected by US commentators with impressive unanimity. This is another entry in the shameful and depressing record of near-reflexive preference for force when peaceful options may well be available.
The 2017 South Korean elections may offer a ray of hope. Newly elected President Moon Jae-in seems intent on reversing the harsh confrontationist policies of his predecessor. He has called for exploring diplomatic options and taking steps toward reconciliation, which is surely an improvement over the angry fist-waving that might lead to real disaster.
The UK has often been a US surrogate in European politics. Brexit might encourage Europe to take a more independent role in world affairs, a course that might be accelerated by Trump policies that increasingly isolate us from the world. While he is shouting loudly and waving an enormous stick, China could take the lead on global energy policies while extending its influence to the west and, ultimately, to Europe, based on the Shanghai Cooperation Organization and the New Silk Road.
That Europe might become an independent “third force” has been a matter of concern to US planners since World War II. There have long been discussions of something like a Gaullist conception of Europe from the Atlantic to the Urals or, in more recent years, Gorbachev’s vision of a common Europe from Brussels to Vladivostok.
Whatever happens, Germany is sure to retain a dominant role in European affairs. It is rather startling to hear a conservative German chancellor, Angela Merkel, lecturing her US counterpart on human rights, and taking the lead, at least for a time, in confronting the refugee issue, Europe’s deep moral crisis. On the other hand, Germany’s insistence on austerity and paranoia about inflation and its policy of promoting exports by limiting domestic consumption have no slight responsibility for Europe’s economic distress, particularly the dire situation of the peripheral economies. In the best case, however, which is not beyond imagination, Germany could influence Europe to become a generally positive force in world affairs.
DB:
Trump’s first foreign trip was to Saudi Arabia. What significance do
you see in that, and what does it mean for broader Middle East policies?
And what do you make of Trump’s animus toward Iran?
NC: Saudi
Arabia is the kind of place where Trump feels right at home: a brutal
dictatorship, miserably repressive (notoriously so for women’s rights,
but in many other areas as well), the leading producer of oil (now being
overtaken by the United States), and with plenty of money. The trip
produced promises of massive weapons sales—greatly cheering the
Constituency—and vague intimations of other Saudi gifts. One of the
consequences was that Trump’s Saudi friends were given a green light to
escalate their disgraceful atrocities in Yemen and to discipline Qatar,
which has been a shade too independent of the Saudi masters. Iran is a
factor there. Qatar shares a natural gas field with Iran and has
commercial and cultural relations with it, frowned upon by the Saudis
and their deeply reactionary associates.
Iran has long been regarded by US leaders, and by US media commentary, as extraordinarily dangerous, perhaps the most dangerous country on the planet. This goes back to well before Trump. In the doctrinal system, Iran is a dual menace: It is the leading supporter of terrorism, and its nuclear programs pose an existential threat to Israel, if not the whole world. It is so dangerous that Obama had to install an advanced air defense system near the Russian border to protect Europe from Iranian nuclear weapons—which don’t exist, and which, in any case, Iranian leaders would use only if possessed by a desire to be instantly incinerated in return.
That’s the doctrinal system. In the real world, Iranian support for terrorism translates to support for Hezbollah, whose major crime is that it is the sole deterrent to yet another destructive Israeli invasion of Lebanon, and for Hamas, which won a free election in the Gaza Strip—a crime that instantly elicited harsh sanctions and led the US government to prepare a military coup. Both organizations, it is true, can be charged with terrorist acts, though not anywhere near the amount of terrorism that stems from Saudi Arabia’s involvement in the formation and actions of jihadi networks.
As for Iran’s nuclear-weapons programs, US intelligence has confirmed what anyone can easily figure out for themselves: If they exist, they are part of Iran’s deterrent strategy. There is also the unmentionable fact that any concern about Iranian weapons of mass destruction (WMDs) could be alleviated by the simple means of heeding Iran’s call to establish a WMD-free zone in the Middle East. Such a zone is strongly supported by the Arab states and most of the rest of the world and is blocked primarily by the United States, which wishes to protect Israel’s WMD capabilities.
Since the doctrinal system falls apart on inspection, we are left with the task of finding the true reasons for US animus toward Iran. Possibilities readily come to mind. The United States and Israel cannot tolerate an independent force in a region that they take to be theirs by right. An Iran with a nuclear deterrent is unacceptable to rogue states that want to rampage however they wish throughout the Middle East. But there is more to it than that. Iran cannot be forgiven for overthrowing the dictator installed by Washington in a military coup in 1953, a coup that destroyed Iran’s parliamentary regime and its unconscionable belief that Iran might have some claim on its own natural resources. The world is too complex for any simple description, but this seems to me the core of the tale.
It also wouldn’t hurt to recall that in the past six decades, scarcely a day has passed when Washington was not tormenting Iranians. After the 1953 military coup came US support for a dictator described by Amnesty International as a leading violator of fundamental human rights. Immediately after his overthrow came the US-backed invasion of Iran by Saddam Hussein, no small matter. Hundreds of thousands of Iranians were killed, many by chemical weapons. Reagan’s support for his friend Saddam was so extreme that when Iraq attacked a US ship, the USS Stark, killing 37 American sailors, it received only a light tap on the wrist in response. Reagan also sought to blame Iran for Saddam’s horrendous chemical warfare attacks on Iraqi Kurds.
Eventually, the United States intervened directly in the Iran-Iraq War, leading to Iran’s bitter capitulation. Afterward, George H.W. Bush invited Iraqi nuclear engineers to the United States for advanced training in nuclear-weapons production—an extraordinary threat to Iran, quite apart from its other implications. And, of course, Washington has been the driving force behind harsh sanctions against Iran that continue to the present day.
Trump, for his part, has joined the harshest and most repressive dictators in shouting imprecations at Iran. As it happens, Iran held an election during his Middle East travel extravaganza—an election which, however flawed, would be unthinkable in the land of his Saudi hosts, who also happen to be the source of the radical Islamism that is poisoning the region. But US animus against Iran goes far beyond Trump himself. It includes those regarded as the “adults” in the Trump administration, like James “Mad Dog” Mattis, the secretary of defense. And it stretches a long way into the past.
DB: What are the strategic issues where Korea is concerned? Can anything be done to defuse the growing conflict?
NC: Korea
has been a festering problem since the end of World War II, when the
hopes of Koreans for unification of the peninsula were blocked by the
intervention of the great powers, the United States bearing primary
responsibility.
The North Korean dictatorship may well win the prize for brutality and repression, but it is seeking and to some extent carrying out economic development, despite the overwhelming burden of a huge military system. That system includes, of course, a growing arsenal of nuclear weapons and missiles, which pose a threat to the region and, in the longer term, to countries beyond—but its function is to be a deterrent, one that the North Korean regime is unlikely to abandon as long as it remains under threat of destruction.
Today, we are instructed that the great challenge faced by the world is how to compel North Korea to freeze these nuclear and missile programs. Perhaps we should resort to more sanctions, cyberwar, intimidation; to the deployment of the Terminal High Altitude Area Defense (THAAD) anti-missile system, which China regards as a serious threat to its own interests; perhaps even to direct attack on North Korea—which, it is understood, would elicit retaliation by massed artillery, devastating Seoul and much of South Korea even without the use of nuclear weapons.
But there is another option, one that seems to be ignored: We could simply accept North Korea’s offer to do what we are demanding. China and North Korea have already proposed that North Korea freeze its nuclear and missile programs. The proposal, though, was rejected at once by Washington, just as it had been two years earlier, because it includes a quid pro quo: It calls on the United States to halt its threatening military exercises on North Korea’s borders, including simulated nuclear-bombing attacks by B-52s.
The Chinese-North Korean proposal is hardly unreasonable. North Koreans remember well that their country was literally flattened by US bombing, and many may recall how US forces bombed major dams when there were no other targets left. There were gleeful reports in American military publications about the exciting spectacle of a huge flood of water wiping out the rice crops on which “the Asian” depends for survival. They are very much worth reading, a useful part of historical memory.
The offer to freeze North Korea’s nuclear and missile programs in return for an end to highly provocative actions on North Korea’s border could be the basis for more far-reaching negotiations, which could radically reduce the nuclear threat and perhaps even bring the North Korea crisis to an end. Contrary to much inflamed commentary, there are good reasons to think such negotiations might succeed. Yet even though the North Korean programs are constantly described as perhaps the greatest threat we face, the Chinese-North Korean proposal is unacceptable to Washington, and is rejected by US commentators with impressive unanimity. This is another entry in the shameful and depressing record of near-reflexive preference for force when peaceful options may well be available.
The 2017 South Korean elections may offer a ray of hope. Newly elected President Moon Jae-in seems intent on reversing the harsh confrontationist policies of his predecessor. He has called for exploring diplomatic options and taking steps toward reconciliation, which is surely an improvement over the angry fist-waving that might lead to real disaster.
DB:
You have in the past expressed concern about the European Union. What
do you think will happen as Europe becomes less tied to the US and the
UK?
NC: The EU
has fundamental problems, notably the single currency with no political
union. It also has many positive features. There are some sensible ideas
aimed at saving what is good and improving what is harmful. Yanis
Varoufakis’s DiEM25 initiative for a democratic Europe is a promising approach.
The UK has often been a US surrogate in European politics. Brexit might encourage Europe to take a more independent role in world affairs, a course that might be accelerated by Trump policies that increasingly isolate us from the world. While he is shouting loudly and waving an enormous stick, China could take the lead on global energy policies while extending its influence to the west and, ultimately, to Europe, based on the Shanghai Cooperation Organization and the New Silk Road.
That Europe might become an independent “third force” has been a matter of concern to US planners since World War II. There have long been discussions of something like a Gaullist conception of Europe from the Atlantic to the Urals or, in more recent years, Gorbachev’s vision of a common Europe from Brussels to Vladivostok.
Whatever happens, Germany is sure to retain a dominant role in European affairs. It is rather startling to hear a conservative German chancellor, Angela Merkel, lecturing her US counterpart on human rights, and taking the lead, at least for a time, in confronting the refugee issue, Europe’s deep moral crisis. On the other hand, Germany’s insistence on austerity and paranoia about inflation and its policy of promoting exports by limiting domestic consumption have no slight responsibility for Europe’s economic distress, particularly the dire situation of the peripheral economies. In the best case, however, which is not beyond imagination, Germany could influence Europe to become a generally positive force in world affairs.
DB:
What do you make of the conflict between the Trump administration and
the US intelligence communities? Do you believe in the “deep state”?
NC: There
is a national-security bureaucracy that has persisted since World War
II. And national-security analysts, in and out of government, have been
appalled by many of Trump’s wild forays. Their concerns are shared by
the highly credible experts who set the Doomsday Clock, advanced to two and a half minutes to midnight
as soon as Trump took office—the closest it has been to terminal
disaster since 1953, when the US and USSR exploded thermonuclear
weapons. But I see little sign that it goes beyond that, that there is
any secret “deep state” conspiracy.
DB: To conclude, as we look forward to your 89th birthday, I wonder: Do you have a theory of longevity?
NC: Yes, it’s simple, really. If you’re riding a bicycle and you don’t want to fall off, you have to keep going—fast.
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David BarsamianDavid Barsamian is the director of Alternative Radio in Boulder, Colorado (www.alternativeradio.org).
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