domingo, 5 de novembro de 2017

Adenda ao meu comentário

«(...) a intervenção do Estado na “gestão da procura”, a qual fora a marca característica do capitalismo do pós guerra durante a assim chamada “Era Dourada”, mas à qual sempre o capital financeiro sempre se opusera pois isso minava a legitimidade social da classe capitalista, especialmente da classe financeira, foi evitada sob a pressão da finança globalizada. Leis de “responsabilidade orçamental” são aprovadas, país após país, para assegurar que os esforços dos Estados para aumentar o emprego e a actividade na economia assumem a forma de providenciar “incentivos” ao capital ao invés de empreender a despesa directa por si mesmo. Isto entretanto significa com efeito que o crescimento do sistema já não pode mais ser estimulado pelo Estado (uma vez que os capitalistas simplesmente embolsam todos os subsídios e transferências que lhes chegam do Estado como “incentivos” sem empreender qualquer investimento adicional). O crescimento acaba por depender essencialmente da formação de “bolhas” de preços de activos (aparte os gastos do consumidor financiados por crédito, o qual no entanto tem limites muito estritos).» Prabhat Patnaik, in O Capitalismo neoliberal e a sua crise,
http://resistir.info/ .

OPINIÃO

Um comentário sobre o Orçamento do Estado para 2018:

- Algumas medidas evidente e indiscutivelmente positivas para os funcionários públicos e os pensionistas, os quais podem já tomar disso conhecimento e que devem atribuir merecida e legitimamente ao PCP e BE,
e, negativamente, a persecução pelo PS da mesma política de cedência aos donos do capital interna e externamente.
Estamos bem longe de uma fase social-democrata (dos anos sessenta), sequer (veja-se o pequeno livro de Franco Cazzola, O Que Resta da Esquerda, Ed. Cavalo de ferro, 2011). Bem melhor que nos recentes anos do governo PSD-CDS? Mas há dúvidas?
O mal é que este PS não cede à direita financeira por receio ou pragmatismo, antes por convicção e cumplicidades. A sua antiga inclinação para a direita verifica-se nas leis do trabalho. É nessa área que se avalia o que se deve avaliar o que é a Esquerda e a Direita. E é nela que se erguem sempre as lutas de classes.

Coreia do Norte: Uma vítima, não uma ameaça

por Felicity Arbuthnot
'.Se alguém ainda se pergunta porque a Coreia do Norte está a ser "provocadora" com testes de mísseis e por declarar reiteradamente ter um arsenal aparentemente gigantesco (embora ainda não haja prova concreta e irrefutável da sua capacidade em armas nucleares de longo alcance) aqui está uma pequena amostra do que o seu vizinho do sul, em conluio com o Padrinho Americano, tem planeado [1] :

"Decapitação"

"Matem o rei e o regime entrará em colapso. Esta é a lógica apresentada pelos planeadores militares sul coreanos para uma "unidade de decapitação" que estão a constituir com o único objectivo de assassinar o líder supremo da Coreia do Norte, Kim Jong-un. Eles estão convencidos de que, no caos que se seguiria, a liderança da Coreia do Norte seria desintegrada e abandonaria o programa nuclear sobre o qual assenta seu prestígio.

"Decapitação significa que temos apenas um alvo", disse Choi Jin-wook, um antigo analista da Coreia do Norte que trabalha no Korea Institute for National Unification, uma instituição governamental. "É muito mais simples eliminar o líder do que atacar bases militares".
Planeadores da defesa sul coreanos ordenaram "ataques de decapitação" em exercícios aéreos, navais e terrestres nos quais os alvos são simulados para que se pareçam com um dos muitos esconderijos ou residências de Kim. Tais exercícios são o prelúdio para a posterior constituição formal da unidade Spartan 3000, ainda este ano.

O ministro da Defesa da Coreia do Sul, Song Young-moo, ordenou [a constituição] de forças especiais de uma "brigada da morte" de comandos para encabeçar o grupo. Aviões de combate e destroyers com mísseis guiados providenciariam todo o apoio de que precisasse.

O Ministério citou o teste com êxito do disparo de um míssil Taurus, fabricado na Alemanha, a um alvo ao largo da costa sudoeste como exemplo do armamento que pode ser utilizado numa tentativa de matar o líder norte coreano.

"O míssil, com um alcance de 310 milhas [499 km], voou cerca de 150 milhas [241 km], atingindo o seu alvo no Mar Amarelo".

A Coreia do Sul, naturalmente, não está a ser ameaçada de ser varrida da face da terra pelo teste do disparo de um míssil para o mar, como o seu vizinho do norte.

Pense acerca das palavras "unidade de decapitação" – a horrenda imagem que transmite mesmo a qualquer mente semi-normal. Esta espécie de maquinação até reduz os horrores de criminosos dementes que literalmente decapitam no Médio Oriente. Mas os protectores deles também são apoiados pelos EUA.

Talvez a palavra "decapitação" agora já seja utilizada de modo displicente nos círculos políticos e militares dominados pelos EUA.

Os arrepiantes princípios do secretário da Defesa Mattis

Também não deveria ser esquecidos que na Trumpesfera, em que o general Jame Mattis é agora secretário da Defesa, ele tem alguns princípios interessantes. A vida é evidentemente muito barata e a morte é o mais displicente dos empreendimentos: Algumas das suas visões
[2] incluem:
"A primeira vez que você esbofeteia alguém isso não é um evento insignificante. Dito isso, há alguns imbecis no mundo que só precisam ser alvejados".

"Ser polido, ser profissional, mas ter um plano para matar todos que você encontra".

"Encontre os inimigos que querem acabar com este experimento (de democracia americana) e mate cada um deles até estarem tão afundados com a matança que deixarão e as nossas liberdades [ficarão] intactas".

Precisamente o "experimento em democracia americana" infligido mais recentemente ao Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, com a Coreia do Norte e o Irão na sua mira.

Com agradecimentos a William Blum, a lista das carnificinas em massa dos projectos de "democracia" dos EUA, desde 1949, está aqui:
[3] .

Por falar em Afeganistão, aqui estão pensamentos do general Mattis sobre a propagação da democracia naquela parte do mundo:

"Você entra no Afeganistão e encontra sujeitos que esbofetearam mulheres durante cerca cinco anos por não usarem um véu. Você sabe, sujeitos como aqueles não têm nenhuma réstia de hombridade. Assim, é muitíssimo divertido atirar neles. Realmente é bastante divertido combatê-los, você sabe. Aquilo tem uma enorme piada. É divertido atirar sobre algumas pessoas. Estarei ali consigo. Eu gosto de brigar".
No mundo real o possuidor de tais visões pode certamente encontrar lugar numa unidade psiquiátrica, senão numa prisão de segurança máxima.

Aberturas diplomáticas ignoradas

Contraste isto com uma abordagem ignorada
[4] vinda da Coreia.

Em 28 de Setembro

"A Embaixada da República Democrática e Popular da Coreia (RDPC) na República da Indonésia apresenta os seus cumprimentos ao Parlamento da Comunidade da Austrália e tem a honra de informar que o Comité de Assuntos Externos da Assembleia Popular da RDPC enviou uma carta aberta aos Parlamentos de diferentes países.

".. a Embaixada da RDPC tem a honra de anexar pela presente a carta acima mencionada".

O preâmbulo termina com cortesias diplomáticas e "a mais alta consideração".

A carta (na íntegra em 4) é escrita na terceira pessoa e diz o que se segue:

"Carta aberta aos Parlamentos de diferentes países.

"A carta observa que Trump, presidente dos EUA, que se intitula "a super-potência", negou a existência da RDPC, um estado soberano digno (e ameaçou-a) na ONU de "destruição total"...

"O Comité de Assuntos Externos da RDPC ... cuja missão é promover relações amistosas e cooperativas com o parlamentos e povos amantes da paz dos países de todo o mundo ... com base nas ideias de independência, paz e amizade, condena amargamente as observações impulsivas (reckless) de Trump como um insulto intolerável ao povo coreano, uma declaração de guerra contra a RDPC e uma grave ameaça à paz global...

(Desde o seu primeiro dia no gabinete, do Presidente) "empenhou-se numa prática arrogante e arbitrária, desembaraçando-se de leis e acordos internacionais (colocando a América em primeiro lugar) a expensas do mundo todo".

As ameaças de aniquilação e sanções negaram ao povo da RDPC "desenvolvimento económico normal, em ruptura da Carta das Nações Unidas..."

Trump, declara a carta:
"ameaçou destruir totalmente a RDPC, um Estado digno, independente e soberano e uma potência nuclear. É um acto extremo que ameaça destruir o mundo inteiro".
A correspondência conclui com as seguintes palavras:
"... crentes de que os parlamentos de diferentes países, que amam a independência, paz e justiça cumprirão plenamente sua devida missão e dever em realizar o desejo da espécie humana pela justiça e paz internacional (e com vigilância) contra os impulsivos movimentos da Administração Trump que tentam conduzir o mundo para um horrível desastre nuclear".
Com Trump a ameaçar que o seu dedo está a pairar sobre o botão nuclear, certamente poucos poderiam discordar com os sentimentos da RDPC.

Donald Trumpo jactou-se ameaçadoramente de "destruir totalmente" a Coreia do Norte no seu discurso à Assembleia Geral da ONU em 19 de Setembro. As sábias palavras fundadoras da Carte da ONU são evidentemente desconhecidas para ele.

Tem havido um silêncio ensurdecedor dos governos do mundo a respeito da carta acima. A ministra australiana dos Negócios Estrangeiros, Julie Bishop, a qual visitou a Coreia do Sul em Agosto, ao invés de reagir com uma mão estendida comentou:

"Li isto como uma mostra de que a estratégia colectiva de aliados e parceiros para impor a máxima pressão e sanções diplomáticas e económicas sobre a Coreia do Norte está a funcionar... Assim, penso que isto mostra que estão a sentir-se desesperados, a sentir-se isolados, tentando demonizar os EUA, tentando dividir a comunidade internacional".

Entretanto, o director de segurança internacional do Lowy Institute for International Policy, Euan Graham, foi mais positivo ao comentar:

"Isto é efectivamente um convite para ter um acesso de alto nível, para enviar uma delegação (australiana) a partir de Seul".

"Agora seria uma boa ocasião de a Austrália exercer as suas ainda existentes, mesmo se intermitentes, relações diplomáticas com o Norte". ( Sydney Morning Herald, 20/Outubro/2017.)

A Coreia do Norte é o agressor?

Para alguém que leia a maioria dos media ocidentais onde a RDPC é a mais recente nação a ser demonizada, o melhor e mais sucinto sumário da infindável traição dos EUA desde o armistício de Julho de 1953 está em
[5] . Aqui está um excerto a partir do princípio de 1990:

Recorde-se também que os EUA tem armas nucleares na Coreia do Sul desde o fim dos anos 50 até 1991.

"Em Janeiro de 1993 o presidente Bill Clinto anunciou os maiores jogos de guerra de sempre (com toda espécie de armamento nuclear).
"Estes tiveram lugar em Março, dentro e em torno da costas da Coreia. A RDPC reagiu a um ambiente mais beligerante informando da intenção de retirar-se do Tratado de Não Proliferação nuclear, ao qual havia aderido em 1985. O Norte também demonstrou a viabilidade do míssil de médio alcance Nodong 1, em Maio de 1993". Se alguma vez a causa e o efeito foram rigorosamente demonstrados, aqui está um primeiro exemplo.
"Kim Il Sung morreu em Julho de 1994 e o seu filho, Kim Jong II, substituiu-o como líder.
"No início do Verão daquele ano o governo dos EUA concluiu que um ataque militar a Yongbyon – sob séria consideração – iniciaria uma guerra com o Norte.
"Mas ao invés de guerra, sob a influência de uma paragem voluntária pelo Norte do reactor de Yongbyon, conversações levaram ao Acordo Quadro de Outubro de 1994.
"Sob este acordo, o Norte concordou em continuar a paragem do reactor em troca de reactores de água leve e um novo relacionamento com os EUA.
"Empréstimos e créditos foram facilitados para o acordo e os EUA comprometeram-se a fornecer óleo de aquecimento para suprir problemas de calefacção do Norte no curto prazo.
"O acordo requeria relações diplomáticas plenas e um compromisso dos EUA de não ameaçarem ou alvejarem o Norte com armas nucleares.
"Eloquentemente, nenhum teste de mísseis do Norte foi efectuado entre Maio de 1993 e Agosto de 1998.
"Em Junho de 1998 o Pentágono encenou exercícios simulados de ataques nucleares de longo alcance contra a Coreia do Norte e em Outubro daquele ano um vice-general dos EUA falou publicamente acerca de planos para substituir o regime norte coreano e mesmo de iniciar o projecto preventivamente se houvesse bases sólidas para esperar um ataque.
"Estes desenvolvimentos dificilmente confirmavam o compromisso dos EUA de desenvolver um relacionamento mais cooperativo com o Norte.
"A ascensão de George W. Bush à presidência em 2001 produziu uma declaração dos seus conselheiros de que o acordo de 1994 estava caduco (dead in the water). (Portanto) em Dezembro de 2002 a RDPC expulsou os inspectores da AIEDA, reiniciou o reactor de Yongbyon e retirou-se do Tratado de Não Proliferação.
"Bush nesse ínterim declarou sua intenção de tratar da Coreia do Norte após o Iraque.
"Na Primavera de 2003 o Norte fez uma outra oferta aos EUA: descartaria seu desenvolvimento nuclear se os EUA normalizassem relações e providenciassem garantias básicas de segurança.
"Seis anos depois, em 2009, em conversações sólidas envolvendo a Rússia e a China assim como o Japão, os EUA e ambas as Coreias tinham objectivos que incluíam a normalização de relações diplomáticas, um fim a sanções comerciais e o reconhecimento do direito de Norte a utilizar energia nuclear.
"Mas estas conversações entraram em colapso depois de tanto os EUA como a República da Coreia rejeitarem o desmantelamento gradual do Norte das suas armas nucleares.
"Em 2011 Kim Jong II morreu e o seu segundo filho, Kim Jong-un, tornou-se o novo líder do Norte.

O sumário conclui:

"Durante estes últimos três meses o risco de guerra, na verdade de guerra nuclear – não necessariamente restrito à península coreana –aumentou dramaticamente".
O general Mattis, no momento em que se escreve, está na Coreia do Sul onde apresentou uma cópia quase idêntica do que antecedeu a invasão ilegal do Iraque. A lenga-lenga de Washington era que o Iraque "ameaçava seus vizinhos" embora mesmo vizinhos hostis respondessem que não o fizera. O Iraque naturalmente podia destruir parte do Ocidente "em 45 minutos". Era um pacote de mentiras.

Palavras de Mattis:

"A Coreia do Norte agravou a ameaça que apresenta aos seus vizinhos e ao mundo através dos seus ilegais e desnecessários programas de mísseis e armas nucleares..." A situação ganhou uma "nova urgência".
'.No próximo mês Trump deve visitar a Coreia do Sul, o homem que ameaçou desencadear sobre a pequena nação "fogo e fúria como o mundo nunca viu".

Este é homem de quem vinte e sete eminentes psiquiatras e psicoterapeutas escreveram num livro recém publicado,
The Dangerous Case of Donald Trump : "Advertimos colectivamente que a alguém tão mentalmente instável como este homem simplesmente não deveriam ser confiados os poderes de vida e morte da Presidência".

É tempo de os diplomatas do mundo responderem à carta da Coreia do Norte e enfrentarem a urgência deste momento, antes de ser demasiado tarde para a região e possivelmente para o planeta.

29/Outubro/2017
·  "Trump Not Welcome!": S Korean Peace Movement to Protest Trump's Visit to S Korea


O original encontra-se em www.globalresearch.ca/north-korea-a-threat-or-a-victim-some-facts/5615502        Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sábado, 4 de novembro de 2017

A Revolução Russa e o adeus a Lenin (Imagens raras)

Bensaïd: As questões de Outubro

Daniel Bensaïd passa a limpo o legado da Revolução Russa ao longo de três questões cruciais de historiografia política.

Por Daniel Bensaïd.

Antes mesmo de entrar na massa dos novos documentos acessíveis pela abertura dos arquivos soviéticos (que permitirão, indubitavelmente, novas luzes e uma renovação das controvérsias), as discussão vem tropeçar no pensamento pronto da ideologia dominante, bem ilustrada pela recente homenagem necrológica consensual à François Furet. Nesses tempos de contra-reforma e de reação, não surpreende que os nomes de Lênin e Trótski se tornem tão impronunciáveis quanto foram aqueles de Robespierre e Saint Justsob a Restauração.

Para começar a limpar o terreno é conveniente retomar três ideias bastante aceitas hoje em dia:
  1. Em vez de revolução, Outubro seria mais o nome emblemático de um complô ou de um golpe de Estado minoritário impondo no conjunto, de cima para baixo, sua concepção autoritária da organização social em benefício de uma nova elite.
  2. Todo o desenvolvimento da Revolução Russa e suas desventuras totalitárias estaria inscrita em germe, por uma espécie de pecado original, na ideia (ou “paixão” segundo Furet) revolucionária: a história se reduziria então à genealogia e à execução dessa idéia perversa, em detrimento de grandes convulsões reais, de acontecimentos colossais e da saída incerta de toda luta.
  3. Enfim, a Revolução Russa teria sido condenada à monstruosidade por ter nascido de um parto “prematuro” da história, de uma tentativa de forçar o curso e o ritmo, quando “as condições objetivas” de uma superação do capitalismo não estavam dadas: em lugar de ter tido a sabedoria “de auto-limitar” seu projeto, os dirigentes bolcheviques teriam sido os agentes  ativos desse contratempo.

Revolução ou golpe de Estado?

A revolução Russa não é resultado de uma conspiração mas a explosão, no contexto da guerra, das contradições acumuladas pelos conservadorismo autocrático do regime tzarista. A Rússia, no começo do século, é uma sociedade bloqueada, um caso exemplar de “desenvolvimento desigual e combinado”, um país ao mesmo tempo dominante e dependente, aliando os traços feudais de um campo onde a servidão é oficialmente abolida há menos de meio século e os traços do capitalismo industrial urbano mais concentrados. Grande potência, ela é subordinada tecnologicamente e financeiramente (empréstimos). O caderno de condolências apresentado para Gapon por ocasião da revolução de 1905 é um verdadeiro registro da miséria que reina no país das tzares. As tentativas de reformas são rapidamente bloqueadas pelo conservadorismo da oligarquia, a teimosia do déspota e a inconsistência de uma burguesia que já está perseguida pelo movimento operário nascente. As tarefas da revolução democrática recaem, assim, numa espécie de terceiro-estado, no qual, à diferença da Revolução Francesa, o proletariado moderno, ainda que minoritário, já se constitui na ala dinâmica em marcha.
É isso que a “Santa Rússia” pode representar: “o elo fraco da cadeia imperialista”. A prova da guerra põe fogo neste barril de pólvora.
O desenvolvimento do processo revolucionário entre fevereiro e outubro de 1917, ilustra bem que não se trata de uma conspiração minoritária de agitadores profissionais, mas da assimilação acelerada de uma experiência política em escala de massa, de uma metamorfose das consciências, de um deslocamento constante das relações de forças. Na sua magistral História da Revolução Russa, Trótski analisa minuciosamente esta radicalização, de eleição sindical em eleição sindical, de eleição municipal em eleição municipal, junto aos operários, soldados e camponeses. Enquanto os bolcheviques representavam apenas 13% dos delegados ao congresso dos Soviets de junho, as coisas mudam rapidamente depois das “Jornadas de Julho” e a tentativa de putsch de Kornilov: eles representam entre 45% e 60% em outubro. Longe de representar uma manipulação conseguida pela surpresa, a insurreição representa o resultado e a conclusão provisória de uma prova de força que amadureceu ao longo do ano, no curso do qual o estado de espírito das massas plebéias esteve sempre à esquerda dos partidos e de seus estados-maiores, não somente dos socialistas revolucionários, mas mesmo daqueles do Partido Bolchevique ou de uma parte de sua direção (até inclusive sobre a decisão da insurreição).
Isso é o que explica que a insurreição de Outubro, comparativamente às violências que conhecemos desde então, tenha sido muito pouco violenta e pouco onerosa em vidas humanas, por mais que seja vão distinguir entre as vítimas de Outubro propriamente ditas (de ambas as partes) e aquelas da guerra civil a partir de 1918, sustentada pelas potências estrangeiras, com  a França e a Grã-Bretanha na primeira fila.
Se entendermos revolução por um elã vindo de baixo para cima, aspirações profundas de um povo, e não a execução de algum plano mirabolante imaginado por uma elite esclarecida, não há nenhuma dúvida que a Revolução Russa foi uma, no sentido pleno da palavra. Basta notar as medidas legislativas tomadas nos primeiros meses e no primeiro ano pelo novo regime para compreender que elas significam uma transformação radical das relações de propriedades e de poder, às vezes mais rápida que previsto e desejado, às vezes mesmo além do desejável, sob a pressão das circunstâncias. Numerosos livros testemunham esta ruptura na ordem do mundo (como Os dez dias que abalaram o Mundo, de John Reed, reedição do Seuil, 1996) e de sua repercussão internacional imediata (como La révolution d’Octobre et le mouvement ouvrier europeén, obra coletiva, EDI, 1967).
Marc Ferro sublinha (notadamente em La révolution de 1917, Albin Michel, 1997 e Naissance et Effondrement du régime communist em Russie, Livre de Poche, 1997) que não houve à época muita gente para apiedar-se do regime do tsar e para chorar o último déspota. Ele insiste, ao contrário, sobre a virada do mundo tão característica de uma autêntica revolução, que afeta até os detalhes da vida quotidiana: em Odessa, os estudantes ditam aos professores um novo programa de história; em Petrogrado, os trabalhadores obrigam seus patrões a aprender o “novo direito operário”; no exército, os soldados convidam o capelão a sua reunião “para dar um novo sentido a sua vida; em certas escolas, as crianças reivindicam o aprendizado do boxe para se fazer escutar e respeitar pelos adultos…
Este elã revolucionário inicial se faz ainda sentir ao longo dos anos vinte, apesar das penúrias e do atraso cultural, nas tentativas pioneiras no front da transformação do modo de vida: reformas escolares e pedagógicas, legislação familiar, utopias urbanas, invenção gráfica e cinematográfica. É ele ainda que permite explicar as contradições e as ambigüidades da grande transformação operada com dor entre as duas guerras, onde ainda se misturam o terror e a repressão burocrática e a energia da esperança revolucionária. Nunca nenhum país do mundo conheceu uma metamorfose tão brutal, sob o chicote de uma burocracia faraônica: entre 1926 e 1939 as cidades aumentarão de 30 milhões de habitantes e sua parte na população global passará de 18% a 33%; durante o único primeiro plano quinquenal sua taxa de crescimento é de 44%, ou seja praticamente tanto quanto entre 1897 e 1926; a força de trabalho assalariada mais que dobra (passa de 10 a 22 milhões); o que significa a “ruralização” massiva das cidades, um esforço enorme de alfabetização e de educação, a imposição à marcha forçada de uma disciplina do trabalho. Esta grande transformação é acompanhada de um renascimento do nacionalismo, de um desenvolvimento do carreirismo, do surgimento de uma novo conformismo burocrático. Nesta grande confusão, ironiza Moshe Lewin, a sociedade estava, num certo sentido, “sem classes”, porque todas as classes estavam uniformes, em fusão (Moshe Lewin, La formation de l’Union Soviétique, Gallimard, 1985).

Vontade de poder ou contra-revolução burocrática

O destino da primeira revolução socialista, o triunfo do stalinismo, os crimes da burocracia totalitária constituem sem nenhuma dúvida um dos fatos maiores do século. As chaves de sua interpretação têm a maior importância. Para alguns, o princípio do mal residiria num fundo ruim da natureza humana, uma irrepreensível vontade de potência que pode manifestar-se sob diferentes máscaras, inclusive aquela da pretensão de fazer a felicidade dos povos, apesar deles, de impor-lhes esquemas pré-concebidos de uma “cidade ideal”. Importa-nos, ao contrário, encontrar na organização social, nas forças que a constituem e se opõem, as raízes e as molas profundas daquilo que às vezes chamamos “o fenômeno stalinista”.
O stalinismo, nestas circunstâncias históricas concretas, remete a uma tendência mais geral à burocratização em marcha em todas as sociedades modernas. Ela é alimentada fundamentalmente pelo desenvolvimento da divisão social do trabalho (entre trabalho manual e intelectual notadamente) e pelos “perigos profissionais do poder” que lhes são inerentes. Na União Soviética, esta dinâmica foi tanto mais forte e rápida quanto a burocracia se produziu sobre um fundo de destruição, de penúria, de arcaísmo cultural, na ausência de tradições democráticas. Desde a origem, a base social da revolução era ao mesmo tempo ampla e estreita, ampla na medida em que ela repousava sobre a aliança entre operários e camponeses que constituíam a esmagadora maioria social. Estreita na medida em que o componente operário minoritário, foi rapidamente eliminado pelos desgastes da guerra e as perdas da guerra civil. Os soldados para os quais os Sovietes tiveram em 1917 um papel central, eram  no essencial camponeses mobilizados pela idéia da paz de retorno ao lar.
Nessas condições, o fenômeno da pirâmide invertida ficou em seguida evidente. Não era mais a base que levava e empurrava o topo, mas a vontade do topo que esforçava-se de carregar a base. Daí a mecânica da substituição: o partido substitui ao povo, a burocracia ao partido, o homem providencial ao conjunto. Mas esta construção só se impõe pela formação de uma nova burocracia, fruto da herança do antigo regime e da promoção social acelerada de novos dirigentes. Simbolicamente, nos efetivos do partido após o recrutamento massivo da “promoção Lênin”, alguns milhares de militantes da revolução de Outubro não pesam mais a relação às centenas de milhares de novos bolcheviques, entre os quais os carreiristas vindos em socorro da vitória e os elementos reciclados da velha administração.
O testamento de Lênin (ver Moshe Lewin. Le dernier combat de Lenine, Minuit, 1979), é testemunha, em sua agonia, desta consciência patética do problema. Enquanto a revolução é assunto de povos e de multidões, Lênin moribundo está imaginando o futuro, avaliando os vícios e as virtudes de um punhado de dirigentes de quem tudo parece agora depender.
Se os fatores sociais e as circunstâncias históricas jogam um papel determinante no ascenso poderoso da burocracia stalinista, isto não significa que as idéias e as teorias não tenham nenhuma responsabilidade na sua existência. Particularmente, não há nenhuma dúvida que a confusão sustentada, desde a tomada do poder, entre o Estado, o partido e a classe operária em nome do definhamento rápido do Estado e do desaparecimento das contradições no seio do povo, favorece consideravelmente a estatização da sociedade e não a socialização das funções estatais. O aprendizado da democracia é uma questão longa, difícil, que não caminha no mesmo ritmo que os decretos de reforma econômica. Ela toma tempo, energia. A solução fácil consiste, então, em subordinar os órgãos de poder popular, conselhos e sovietes a um tutor esclarecido, o partido. Na prática, ela consiste também em substituir o princípio da eleição e do controle dos responsáveis pela sua nomeação, por iniciativa do partido, desde 1918, em alguns casos. Esta lógica desemboca, então, na supressão do pluralismo político e das liberdades de opinião necessárias à vida democrática, assim como a subordinação sistemática do direito à força.
A engrenagem é tanto mais implacável quanto a burocracia não procede somente ou principalmente de uma manipulação das altas esferas. Ela responde também, às vezes, a uma espécie de demanda das bases, a uma necessidade de ordem e de tranqüilidade dos cansaços da guerra e da guerra civil, das privações e do desgaste que as controvérsias democráticas, a agitação política, a demanda constante de responsabilidade provocam. Marc Ferro assinalou, em seus livros, de forma pertinente, esta terrível dialética.
Ele lembra, assim, que existiam “duas vertentes – democrática-autoritária na base, centralista e autoritária na cúpula”, no começo da revolução, “enquanto que em 1939 há apenas uma”. Mas, para ele, a questão é praticamente resolvida ao cabo de alguns meses, a partir de 1918 ou 1919, com o definhamento ou o enquadramento dos comitês de bairro e de fábrica (ver Marc Ferro, Les Soviets en Russie, coleção Archives). Seguindo uma aproximação análoga, o filósofo Phillipe Lacoue-Labarthe é ainda mais explícito declarando o bolchevismo “contra-revolucionário a partir de 1920-1921”, isto é, antes de Kronstadt (ver Revue Lignes n° 31maio 1997).
O assunto é de maior importância. Não é questão de opor, ponto por ponto, de maneira maniqueísta uma lenda do “Leninismo sob Lênin” ao Leninismo sob Stálin, os anos 20 luminosos aos sombrios anos 30, como se nada houvesse ainda começado a apodrecer no país dos Soviets. É claro, a burocratização está quase imediatamente em andamento; é claro, a atividade policial da Tcheka tem sua lógica própria; é claro, o desterro político das ilhas Solovski está aberto depois da guerra civil e antes da morte de Lênin; é claro, a pluralidade dos partidos é suprimida de fato, a liberdade de expressão limitada, os direitos democráticos no próprio partido são restringidos a partir do 10° Congresso de 1921. O processo daquilo que chamamos contra-revolução burocrática não é um acontecimento simples, datável, simétrico da insurreição de Outubro. Ele não é feito num dia. Ele passou por escolhas, enfrentamentos, acontecimentos. Os próprios atores não pararam de debater sobre a periodização, não pelo gosto da precisão histórica, mas para tentar deduzir as tarefas políticas. Testemunhas como Rosmer, Eastman, Souvarine, Istrati, Benjamin, Zamiatini e Bulgakov (nas suas cartas à Stalin), a poesia de Maiakovski, os tormentos de Mandelstam ou de Tsvetaieva, os cadernos de Babel etc., podem contribuir a esclarecer as múltiplas facetas do fenômeno, seu desenvolvimento, sua progressão.
Mas isso não reduz o contraste, a descontinuidade irredutível, na política interna como na política internacional, entre o começo dos anos 20 e os terríveis anos 30. Nós não contestamos que as tendências autoritárias tenham começado a impor-se bem antes, que obcecados pelo “inimigo principal” (bem real na verdade) da agressão imperialista e a restauração capitalista, os dirigentes bolcheviquestenham começado a ignorar ou subestimar “o inimigo secundário”, a burocracia que os minava internamente e que acaba por devorá-los. Este roteiro era inédito na época, difícil de imaginar, foi preciso tempo para compreendê-lo e interpretá-lo, para tirar as conseqüências. Assim, se Lenin sem dúvida melhor compreendeu o sinal de alarme que significou a crise do Kronstadt, a ponto de impulsionar uma profunda reorientação política, é apenas bem mais tarde, na Revolução Traída, que Trótski chegará a fundar um principio de pluralismo político sobre a heterogeneidade do próprio proletariado, inclusive após a tomada do poder.
A maioria dos grandes testemunhos e dos estudos sobre a União Soviética ou sobre o próprio Partido bolchevique (ver Moscou sous Lenine de Rosmer, O Leninismo sob Lênin de Marcel Liebrnan, L’historie du Parti bolchevik de Pierre Broué, Staline de Souvarine e o do Trótski, os trabalhos de L. H. Carr, de Tony Cliff, de Moshe Lewin, de David Rousset) não permitem ignorar, na estreita dialética da ruptura e da continuidade, a grande virada dos anos 30. A ruptura ganha de longe, atestada pelos milhões e milhões de mortos de fome, os deportados, as vítimas dos processos e dos expurgos. Foi preciso desencadear tal violência para chegar ao “congressos  dos vencedores” de 1934 e a consolidação do poder burocrático porque a herança revolucionária deveria ser tenaz e não foi facilmente superada
Isto é o que chamamos uma contra-revolução, tão massiva, tão visível, tão esmagadora como as medidas autoritárias, por inquietantes que fossem, tomadas no calor da guerra civil. Esta contra-revolução faz igualmente sentir seus efeitos em todos os domínios, naquele da economia política (coletivização forçada e desenvolvimento em grande escala do Gulag), da política internacional (na China, na Alemanha, na Espanha), da própria política cultural ou da vida quotidiana, com aquilo que Trótski chamou thermidor no lar”.

Revolução “prematura”

Após a queda da União Soviética uma tese readquiriu vigor entre os defensores do marxismo, especialmente nos países anglo-saxônicos (ver as teses de Gerry Cohen): aquela segundo a qual a revolução teria sido desde o começo uma aventura condenada porque prematura. Na realidade, esta tese tem sua origem muito cedo no discurso dos próprios mencheviques russos e nas analises de Kautsky, desde 1921: muito sangue, lágrimas e ruínas, escreveu ele, então, teriam sido poupados “se os bolcheviques tivessem tido o senso menchevique da auto-limitação àquilo que é acessível, onde se revela o mestre” (Vonder Demokratie zur statssklaverei, 1921, citado por Radek em Les voies de la Révolution russe, EDI, p. 41).
A fórmula é impressionantemente reveladora. Eis alguém que polemiza contra a idéia de um partido de vanguarda mas imagina em troca um partido-mestre, educador e pedagogo, capaz de regular à sua vontade a marcha e ritmo da história. Como se as lutas e as revoluções não tivessem também sua lógica própria. Ao querer auto-limitá-las tenta-se passar para o lado da ordem estabelecida. Não se trata mais então “de auto-limitar” os objetivos do partido, mas simplesmente de limitar as aspirações das massas. Nesse sentido, os Eberte os Noske, assassinando Rosa Luxemburgo e esmagando os sovietes da Baviera se tornaram ilustres como virtuoses da “auto-limitação”.
Na verdade, o raciocínio conduz de maneira inelutável à idéia uma história bem ordenada, regrada, como um relógio, onde tudo tem a sua hora, no tempo exato. Ele recai nas planícies de um estrito determinismo histórico tão seguidamente censurado nos marxistas onde a situação da infra-estrutura determina de maneira estreita a superestrutura correspondente. Ele elimina simplesmente o fato de que a história não tem a força de um destino, é cheia de acontecimentos que abrem uma série de possibilidades, nem todas garantidas. Trata-se mais de um horizonte determinado de possibilidades. Seus próprios atores pensaram a Revolução Russa não como uma aventura solitária, mas como primeiro elemento de uma revolução européia e mundial. Os Fracassos da Revolução Alemã ou da Guerra Civil Espanhola, os desdobramentos da Revolução Chinesa, a vitória do fascismo na Itália e na Alemanha não estavam escritos de antemão.
Falar nesse caso de revolução prematura significa um retorno a enunciar um julgamento de tribunal histórico, em vez de se colocar do ponto de vista da lógica interna do conflito e das políticas que se defrontam. Deste ponto de vista, as derrotas não são provas de erro ou de falhas, da mesma forma que as vitórias não são prova da verdade. Porque não há julgamento final. O que importa é o que foi traçado passo a passo na ocasião de cada grande escolha de cada grande bifurcação (a NEP, a coletivização forçada, o pacto germano-soviético, a guerra civil espanhola, a vitória do nazismo), a pista de uma outra história possível. É o que preserva a inteligibilidade do passado e permite tirar lições para o futuro.
Haveria, certamente, outros aspectos para discutir por ocasião deste aniversário. Nós estamos satisfeitos com “três questões de Outubro” hoje cruciais no debate. Mas o capitulo das “lições de Outubro” de um ponto de vista estratégico (crise revolucionária; dualidade de poder; relações entre partidos, massas e instituições; questões da economia de transição), de sua atualidade e de seus limites, é evidentemente tarefa decisiva. Isto conduz, também, contra “diabolizar” quem pretende responsabilizar a revolução por todas as misérias do século, a precisar que a União Soviética é certamente o país que, em três décadas viu o maior número de mortes violentas concentradas num território limitado, mas que não se pode sem mais nem menos, imputar à revolução as dezenas de milhões de mortes (os historiadores discutem a cifra hoje em dia), aqueles da Primeira Guerra Mundial, da intervenção estrangeira, da guerra civil ou da Segunda Guerra Mundial. Assim como, no bicentenário da Revolução Francesa era impossível imputar à Revolução os sofrimentos causados pela intervenção das monarquias ou das guerras napoleônicas.
Talvez nestes tempos de restauração seja proveitoso, para terminar,  lembrar estas soberbas linhas célebres de Kant, escritas em 1795, em plena reação termidoriana:
“Um tal fenômeno na história da humanidade não se esquece mais porque ele revelou na natureza humana uma disposição, uma faculdade de progresso tal que não seria possível com uma política de sutileza, separando-a do curso anterior dos acontecimentos somente na natureza da liberdade reunidas na espécie humana segundo os princípios internos do direito na medida da aparência, ainda que quanto ao tempo de uma maneira indeterminada e como acontecimento contigente. Mas mesmo se o objetivo visado por este acontecimento não foi ainda hoje atingido, mesmo quando a revolução ou a reforma da constituição do povo fosse finalmente fracassada, ou tivesse se passado um lapso de tempo, tudo recaísse no estado de coisas anterior (como a manutenção de certas políticas), esta profecia filosófica não perde nem um pouco de sua força. Porque este acontecimento é muito importante, muito ligado aos interesses da humanidade e de uma influência imensa sobre todas as partes do mundo para não se tornar mera memória nos papéis na ocasião de circunstâncias favoráveis e relembrar quando da retomada de novas tentativas deste gênero”.
Ninguém poderá conseguir que os dez dias que abalaram o mundo sejam apagados.
* Este artigo foi publicado originalmente em francês na revista Imprecor n. 418, em novembro de 1997, por ocasião do 80° aniversário da Revolução Russa. A tradução. de Maria Regina Pilla e Luis Pilla Vares para os Cadernos Em Tempo nº 298 (novembro 1997), é recuperada aqui para o dossiê temático em homenagem ao centenário da Revolução Russa, no Blog da Boitempo.
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A Boitempo lança em setembro, durante o no Seminário Internacional “1917: o ano que abalou o mundo”, o explosivo Centelhas: marxismo e revolução no século XXI, livro de ensaios de Daniel Bensaïd e Michael Löwy organizado por José Correia Leite. Saiba mais sobre o evento, e leia outros textos sobre a história e o legado da Revolução Russa no dossiê temático do Blog da Boitempo:

O dossiê especial “1917: o ano que abalou o mundo“, reúne reflexões de alguns dos principais pensadores críticos contemporâneos nacionais e internacionais sobre a história e o legado da Revolução Russa. Aqui você encontra artigos, ensaios, reflexões, resenhas e vídeos de nomes como Alain Badiou, Slavoj Žižek, Michael Löwy, Christian Laval, Pierre Dardot, Domenico Losurdo, Mauro Iasi, Luis Felipe Miguel, Juliana Borges, Wendy Goldmann, Rosane Borges, José Paulo Netto, Flávio Aguiar, Mouzar Benedito, Ruy Braga, Edson Teles, Lincoln Secco, Luiz Bernardo Pericás, Gilberto Maringoni, Alysson Mascaro, Todd Chretien, Kevin Murphy, Yurii Colombo, Álvaro Bianchi, Daniela Mussi, Eric Blanc, Lars T. Lih, Megan Trudell, Brendan McGeever, entre outros. Além de indicações de livros e eventos ligados ao centenário.
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Daniel Bensaïd nasceu em Toulouse, na França, em 1946. Foi filósofo e dirigente da Liga Comunista Revolucionária, e um dos militantes mais destacados dos movimentos de Maio de 1968. Professor de Filosofia da Universidade de Paris VIII, faleceu no dia 12 de janeiro de 2010, aos 64 anos. Pela Boitempo, lançou Os irredutíveis: teoremas de resistênica para o tempo presente (2008), Marx, manual de instruções (2013), seu último livro escrito em vida, e, junto com Michael Löwy, o mais recente Centelhas: marxismo e revolução no século XXI, organizado por José Correia Leite.

Boitempo blog

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Grande texto do escritor China Miéville sobre capitalismo e utopias ecológicas

Por China Miéville.

No centenário da Revolução Russa, o premiado escritor de ficção científica e fantasia China Miéville ousou narrar a extraordinária história de um dos momentos decisivos do século XX. O resultado é o livro Outubro: história da Revolução RussaO autor britânico, expoente daquilo que foi batizado de new weird fiction, nos apresenta aqui um livro cujos personagens e trama não deixam nada a desejar para nenhuma ficção bizarra. Mas não se engane, por mais inacreditável que possa parecer, todos os elementos contidos no livro são rigorosamente factuais. Apesar de apelar ao leitor não especializado, o livro intervém com rara erudição em debates historiográficos de longa data. Nem por isso, o autor cai na armadilha da suposta “neutralidade descritiva”. Doutor pela London School of Economics, com uma tese sobre marxismo e direito internacional e militante do Left Unity, China Miéville nunca escondeu seu engajamento político. Como ele insiste, trata-se de história e, como tal, objetiva e partidária, “escolhendo seus heróis e vilões”. Por ocasião do lançamento desta apaixonante narrativa de inimaginável transformação, publicamos agora o instigante artigo “Os limites da utopia”, traduzido por Pedro Salgado para o Blog da Boitempo.
Boa leitura!

* * *

Distopias infestam os relatórios oficiais.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) demanda uma redução nas emissões em um terço para que se evite o desastre absoluto. A KPMG, na ladainha blindada de powerpointês corporativo, vê o mesmo horizonte. A NASA participa de um relatório alertando que o colapso civilizatório sistêmico “dificilmente será evitado”.
Podemos discutir as versões da mensagem, mas não seu conteúdo: o fim de todas as coisas está aí, à vista de todos.
O fedor e a cacofonia de cidades envenenadas, lúgubres bunkers subterrâneos, paisagens cinzentas… A degradação é a má consciência da melhora, a rejeição da distopia é parte integral da tradição utópica. Nós ansiamos e alertamos, nossos melhores e piores sonhos lado a lado contra o presente.
Se vacilarmos, teremos uma Terra ressecada, fria, quente, e morta. Se acertarmos? Existem pré-sonhos equivalentes a vidas inteiras de Novos Édens, de le Guin, Piercey, e vários outros, remontando à visão que Lactâncio, quase dois milênios atrás em Instituições Divinas, chamou de “Mundo Renovado”:
“a terra se abrirá em riquezas, oferecendo livremente os mais abundantes frutos; mel verterá das montanhas rochosas; córregos de vinho fluirão, assim como rios de leite; em suma, o mundo em si e toda a natureza regozijar-se-ão, vendo-se resgatados e libertos do domínio do mal e da impiedade, da culpa e do erro.”
Para Lactâncio, assim como para todas as utopias, não se trata apenas do mundo, mas da humanidade. O mundo regozijar-se-á porque finalmente seremos capazes de habitá-lo, livres do mal e da impiedade e da culpa e do erro com os quais o arrasamos. A relação entre a humanidade e o que agora chamamos “meio-ambiente” será curada.
Mas uma tradição tão rica não preveniu que incontáveis ambientalismos falhassem, não apenas em suas tentativas de mudar o mundo, mas de mudar a agenda de mudança do mundo.
Nós que queremos outra Terra, uma Terra melhor, nos orgulhamos (o que é compreensível) por manter alternativas vivas nesta época que pune o mero pensamento de mudança. Nós precisamos de utopias. Isso é dado por certo no ativismo. Se uma alternativa a este mundo é inconcebível, como poderíamos mudá-lo?
Mas a utopia tem seus limites, a utopia pode ser tóxica.
O desespero custa caro, é certo. Mas também devemos nos perguntar quanto pagamos pela esperança.
Em 1985 o governo municipal de Los Angeles anunciou a construção de um incinerador na região centro-sul da cidade, um ano depois de a autoridade de administração de lixo da Califórnia ter pago meio milhão de dólares em dinheiro público à firma de consultoria Cerrell Associates para decidir onde construir uma instalação tão controversa. O Relatório Cerrell é um manual, um guia listando as características do “perfil de menor resistência”. Mire nos menos educados, ele aconselha. Nos idosos. “Comunidades de um estrato socioeconômico médio e superior”, ele recomenda, “não devem estar dentro dos raios de uma milha e cinco milhas do local sugerido”.
Mire nos pobres.
Não surpreende que essa seja a estratégia. O que espanta é que eles a adimitam. A vontade é de responder: “Vocês sabem que a gente consgue ouvir, né?”
No caso a comunidade local resistiu, e com sucesso. Mas os chamados “Big Green” – os maiores grupos de ativismo ecológico, como Sierra Club, Friends of the Earth, Natural Resources Defense Council, Wilderness Society, e outros – recusaram o convite para se juntar à campanha. Segundo eles, não se tratava de uma questão ambiental, mas de “saúde comunitária”.
As falácias do Big Green. Partindo de heurísticas como rural e urbano, natural e social, fica fácil se tornar cúmplice (ou pior) de injustiça ambiental, de racismo, quando deparado com o poder opressor. Esse utopianismo urbofóbico simplista pode agregar desde os mais nostálgicos conservadores buscando refúgio em uma área de conservação até os mais extrópicos pós-hippies de alguma eco-start-up.
Para Lactâncio, caberia a Deus restaurar a natureza ferida. Mas esta é uma era mais secular, mais ou menos. Nem todo mundo deixa de lado o messianismo: alguns o incorporam em uma nova, e novamente vazia, totalidade.
Em 1968, Stewart Brand abriu o primeiro “Whole Earth Catalog” com uma imagem do Planeta Azul, a Espaçonave Terra, um bote salva-vidas que todos nós dividimos. Ao lado da imagem, o texto: “Nós somos como Deuses, e é melhor ficarmos bons nisso”.
Aqui, diz a imagem, há uma bela totalidade: Gaia. Aqui, dizem as palavras, está o sujeito ecológico: “nós”. Que obviamente deixa sem resposta a famosa pergunta de Tonto a Zorro: “Nós quem, cara-pálida?”
Diante da escala do que se aproxima, há um moralismo vulgar e perverso, um conjunto de boas maneiras ecológicas que é auto-limitador. “Qualquer coisa”, diz o argumento, “é melhor do que nada”. Daí as soluções que buscam atrair as empresas, em busca de uma racionalidade econômica que leve em conta fatores ecológicos. O capitalismo, de acordo com o eminente ambientalista britânico Jonathan Porritt, é o único jogo a ser jogado.
E as empresas se adaptam, de acordo com suas prioridades. Apesar de manterem seus detratores do aquecimento global de estimação, as empresas de petróleo tem Divisões de Mudança Climática – menos para evitar as mudanças do que para planejar como continuar lucrando através delas. Companhias crescem em direção a territórios recentemente monetizados. Daí o breve boom dos biocombustíveis, e a suposta solução para os problemas do planeta levando à aceleração do desmatamento e a protestos por comida, antes que a indústria e o mercado entrem em declínio. A mão invisível supostamente limpa sua própria sujeira com o Comércio Internacional de Emissões de Carbono. Oportunidades e incentivos para acordos escusos e estimativas inflacionadas aumentam incessantemente, assim como as emissões. O mercado de carbono da UE continua inútil. Novos instrumentos financeiros se proliferam: derivativos climáticos que fazem o caos lucrativo. Os chamados “créditos da catástrofe” mudam de mãos em vastas quantias, porque a vergonha está entre as perdas aceitáveis no capitalismo.
Cidadãos se inquietam com seu próprio lixo – que todos deveríamos minimisar, sem dúvidas. Mas no Reino Unido apenas dez por cento do lixo tem origem domiciliar. Lembre-se que a idéia de remoção adequada do lixo é uma invenção da indústria de embalagens norte-americana, em 1953, em resposta a uma proibição local a garrafas descartáveis. O manto de culpa atomisada e privatizada sob o qual somos encorajados a trabalhar é ardil deliberado.
Numa escala maior, as mais conciliatórias organizações ambientalistas ofuscam o nexo entre degradação ecológica, capitalismo e imperialismo, do qual são parte. Em 2013 a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos deu seu “Prêmio de Liderança Climática Nacional”, por “enfrentar o desafio da mudança climática com pragmatismo, sensatez, e soluções de baixo custo”, para a Raytheon.
Ainda não foi definido se os drones da Raytheon serão gravados com o símbolo do prêmio, para que seu compromisso com a sustentabilidade esteja visível enquanto eles fazem chover morte sobre vilas afegãs.
A serviço do lucro, até o plantio de árvores para reduzir emissões pode se tornar violência. Muito pior do que um mero fracasso, o plano de redução de emissões através de reflorestamento da ONU – conhecido pela sigla REDD, em inglês – legitima a monocultura e a acumulação de terras, em nome do planeta, para que as corporações continuem a poluir. Em Uganda, 22.000 agricultores foram despejados em nome da “New Forests Company”, com o apoio da ONU. E caso precisemos de uma metáfora menos sutil, o projeto de ação climática em Guaraqueçaba, no Brasil, financiado por Chevron, General Motors, e American Electric Power, remove o povo Guarani de sua própria floresta empregando uma guarda armada chamada de “Força Verde”.
Ambientalismo por desapropriação, ou, nos termos da Rede Ambiental Indígena, colonialismo de carbono.
E as ações da indústria pesada sobem. O relatório do IPCC deixa os mercados financeiros intocados: o valor que tais mercados atribuem às reservas de petróleo, carvão, e gás natural ignoram as metas internacionais de acordo com as quais tais reservas não apenas ainda estão no solo, mas lá devem permanecer. A bolha do carbono proclama que a escolha é entre uma catástrofe climática, ou mais uma catástrofe financeira.
Ou, claro, as duas.
Esqueça qualquer totalidade humana espúria: há uma outra realidade moderna muito real e perigosa em posição de liderança, com a qual muitos ambientalismos falharam em lidar. Nas palavras de Jason Moore, “Wall Street é uma maneira de organizar a Natureza”.
O próprio termo “Antropoceno”, que acena com a ideia de seres humanos como os responsáveis pela mudança ecológica, engana com seu “nós” implícito. Afinal, seja no desmatamento do que é hoje o Reino Unido, na extinção da megafauna na América do Norte, ou em inúmeros outros exemplos, o Homo sapiens, anthropos, sempre influenciou seu -ceno, a ecologia da qual é elemento constituinte, mudando o mundo. A mudança que fez desses efeitos relativamente locais eventos planetários, definindo uma época digna de um novo termo geocronológico, também não foi o nascimento (por milagre, em várias versões) da indústria pesada, mas uma mudança na economia política de como nos organizamos, com um ciclo acelerado de lucro e acumulação.
Que é justamente a razão de Moore insistir que esta época de catástrofe potencial não é o “Antropoceno”, mas o “Capitalceno”
Utopias são necessárias. Mas são insuficientes, e podem, em algumas formas, ser parte da ideologia do sistema, a totalidade ruim que nos organiza, aquece os céus, e condena milhões à peonagem em depósitos de lixo.
A utopia da “união” é uma mentira. Justiça ambiental significa reconhecer que não somos todos simplesmente passageiros do mesmo planeta. Não há um “nós” sem que haja um “eles”. Não estamos todos juntos.
O que significa combater o fato de que as multas por derramamentos tóxicos em áreas de população branca são cinco vezes superiores às em áreas habitadas por minorias. Significa não apenas fornecer meios de vida para as pessoas que sobrevivem revirando dejetos tóxicos, mas também se revoltar contra o imperialismo do lixo que os coloca ali, contra o neoliberalismo que cria uma competição entre países pobres pelo lixo dos ricos.
Significa se opor diretamente ao poder militar e à violência. Os assassinatos de ativistas ambientais e pelo direito à terra triplicou entre 2002 e 2012. Justiça ambiental significa acusar a Shell não apenas por transformar a região da Ogonilândia, na Nigéria, em uma fossa alucinógena, paisagem de um Ragnarok petroquímico, mas também por armar o estado nigeriano por décadas, durante e após o regime de Sani Abacha.
Comércio de armas, ditaduras e assassinato são políticas ambientais.
Os que atacam de cima contam não com a aquiescência, mas com a fraqueza dos que se opõem. O relatório Cerrell é claro: “todos os grupos socioeconômicos tendem a recusar a proximidade de grandes instalações, mas os estratos médios e superiores tem melhores recursos para efetivar sua oposição”.
Ou seja, os pobres são o alvo não porque não lutam, mas porque, sendo pobres, não tem meios para vencer. A luta por justiça ambiental é a luta contra isso.
Então, começemos com a não-totalidade do “nós”. Daí podemos não apenas enxergar a tarefa à frente, mas podemos voltar a nossas utopias e honrar o que há de melhor nelas.
Aqueles rios de leite e vinho podem parar de ser excedente. Não há nada de tolo em tais aspirações: são o brilho dos olhos voltados à liberdade humana, para além da necessidade. Longe de ser meramente oníricos, esses são aspectos de uma utopia que inclui elementos de economia política, uma aspiração dos que lutam sem poder. Na utopia medieval camponesa, Cockaigne, chove queijo. Charles Fourier imaginou os mares feitos de limonada. A Grande Montanha de Doces. Estes são sonhos de sustança além do limite dos sonhadores, da redução do trabalho, de um mundo onde a humanidade exaurida descansa.
Podemos dispensar as criticas mais banais da utopia. De que não é convincente como um projeto, como se isso fosse o que se espera dela. Que é monótona, cansativa, insossa e incolor, sempre a mesma. O desdem de que aspiração visionária por coisas melhores sempre as torna piores. Tais mentiras prestam um serviço à estagnação.
Há críticas melhores a se fazer, em prol das próprias utopias e das intervenções cotidias sem as quais elas correm o risco de se tornar válvulas para aliviar a pressão – e isso já em si uma de tais críticas.
Utopia, para começo de conversa, nunca foi território exclusivo dos que clamam por emancipação. Colonizadores e expropriadores clamaram seu excelente senso ambiental contra a impotência de nativos preguiçosos por séculos, finalmente realizando o potencial de terras espuriamente declaradas vazias, trazendo “crescimento” a esses “desertos”. Ecotopias já serviram de justificativa para colonização e império muito antes dos programas REDD das Nações Unidas. Já justificaram muitos assassinatos.
Há essa visão de que o mundo é um jardim ameaçado. Sufocado com o crescimento tóxico. Jardinagem de guerra. E a tarefa é a “eliminação implacável das ervas que disputam com as plantas maiores por nutrientes, ar, luz, e sol.”
Aqui, as melhores plantas são Arianas. As ervas são Judeus.
O SS-Obergrupenfuhrer e Reichminister de Agricltura do Terceiro Reich, Walther Darré, reuniu geologia, nostalgia, crenças pagãs, imperialismos, misticismo agrário e ódio racial em uma visão de renovação verde e administração planetária baseadas em genocídio. Ele era o mais influente teórico de Blut und Boden, “sangue e solo”, uma Ecotopia nazista de fazendas orgânicas e recuperação de florestas nórdicas, protegidas pelos camponeses-soldados de puro sangue.
A árvore pode não ter crescido como Darré esperava, mas suas raízes não morreram. Uma ampla variedade de grupos fascistas ao redor do mundo ainda proclama fidelidade à renovação ecológica, a um mundo verde, e se mobilizam ostensivamente contra mudanças climáticas, poluição e deflorestamento, se opondo a estes três venenos em nome de um outro: a lógica da supremacia racial.
Claro, apologistas reacionários de empresas poluidoras chamam ativistas ecológicos de fascistas rotineiramente. Isso não significa que tais ativistas não precisam se manter constantemente atentos para buscar e combater aqueles que realmente o são, exatamente o contrário.
Aspectos de má utopia eliminacionista podem ser encontrados muito além da extrema direita assumida. Muito do pensamento ecológico vem de mãos dadas com uma utopia sentimentalista e espiritualista nebulosa, que a ecofeminista Chaia Heller chama de “Eco-la-la”. Misturada com um Malthusianismo cru, formam uma variante cobativa chama de de “Ecologia Profunda”. O erro dessa visão pode ser transformar em brutalidade, uma vez que o problema aparece como excesso populacional, a própria humanidade. Sua versão mais excêntrica é o Movimento pela Extinção Humana Voluntária, defendendo o fim da reprodução. A mais cruel está nos pronunciamentos de David Foreman, do Earth First!, sobre a fome na Etiópia em 1984: “A pior coisa a se fazer na Etiópia é prestar ajuda – a melhor seria apenas deixar que a natureza busque seu próprio equilíbrio, deixar as pessoas morrerem de fome.”
Essa é uma utopia ecológica genocida. Também atende pelo nome “apocalipse”.
Apocalipse e utopia: o fim de todas as coisas, e o horizonte da esperança. Longe de opostos, os dois sempre foram inseparáveis.
Às vezes, como em Lacântio, a relação imaginada é cronológica, ou até mesmo de causa e efeito. O primeiro, o apocalipse, o fim dos tempos, abre o caminho para o outro, o que há do outro lado, o recomeço.
Algo aconteceu: agora eles estão mais inseparáveis do que nunca. “Hoje”, anuncia o sinistro filósofo Emil Cioran, “reconciliados com o terrível, assistimos uma contaminação da utopia pelo apocalipse (…). Os dois gêneros (…) que antes nos pareciam tão diferentes, se interpenetram, se misturam, formando um terceiro”. Tal reconciliação com o terrível, tal interpenetração, é vívida em tais devaneios da Ecologia Profunda por um mundo sem humanidade. O flagelo se tornou o sonho.
Não se trata exatamente de uma distopia, mas de uma terceira forma – apocatopia, utopalipse – e está entre nós. Estamos cercados por uma cultura de ruínas, sonhos de cidades em queda, um mundo despovoado explorado por animais. Conhecemos os clichés. Plantas tomam Wall Street como se pertencesse a elas, ao invés do contrário; a vastidão do lixo, dunas de restos; as sobras de alguma ponte vagamente reconhecível mas agora quebrada, um portentoso trampolim para o vazio; etcetera.
É como se ainda não enxergássemos nada melhor além dos destroços, porque nos falta força. Ou como se houvesse um esforço para voltar ao “nós”, mas negativamente – “nós” somos justamente o problema, e a ausência de “nós” se torna a solução. A melancolia é dissimulada. Há entusiasmo, um investimento desmentido em tais supostos avisos, nestas catástrofes. Os profetas do apocalipse não enganam ninguém. Muito tempo antes de Shelley imaginar o dia em que “a Abadia de Westminster resistirá, deformada em ruínas sem nome, em meio ao pântano despovoado”, estas já eram cenas de beleza.
Todos já passamos boquiabertos por páginas com imagens de Chernobyl, da ilha deserta de Gunkanjima no Japão, ou das ruínas de Detroit, em páginas clickbait de “Os Dez Lugares Abandonados mais Incríveis”. Isso não deveria gerar culpa. Nosso horror com as tragédias e crimes por trás de tais cenas é real: ele coexiste com nosso fascínio sem apagá-lo. Não escolhemos o que nos espanta. As imagens que nos fascinam não nos reduzem a uma política em particular. Mas certamente a beleza amoral de nossas apocatopias podem acabar em algo brutal e maléfico, um desgosto eliminacionista.
Não podemos ler tudo isso como mero diagnóstico. O que mais podemos fazer com o dilúvio de filmes sobre dilúvios? Com o empilhamento, como escombros sob as asas do anjo da história de Benjamin, de textos sobre pilhas de escombros.
Os sintomas mudam com o mundo. Uma andorinha, independente de seu orçamento, não faz verão. Mas não é necessário ter intimidade com a semiótica para perceber uma mudança cultural quando, no recente Círculo de Fogo, de Guillermo Del Toro, Idris Elba grita “Hoje nós cancelamos o apocalipse!”. Talvez já estejamos fartos do fim, e com essa fala damos início a algo diferente: um apocalise que falha. Estamos de volta, de esperança renovada.
Uma mudança parecida acontece com o surgimento da geoengenharia, ideias que já foram ficção e excentricidade. Agora, planos de borrifar ácido na estratosfera em escala planetária para criar uma camada de partículas capazes de espelhar radiação, remover CO2 da atmosfera, trazer água bêntica à superfície para resfriar oceanos, são propostos por cientistas premiados com Nobel, e discutidos no New Yorker e no MIT Technology Review. Uma nova esperança, o retorno da agência humana, mangas arregaçadas resolvendo o problema. Com ciência.
Essa gambiarra planetária, contudo, é altamente especulativa, controversa, e, de acordo com pesquisa recente do Centro Helmholtz, na Alemanha, totalmente inadequada para interromper o caos climático até na mais generosa das projeções. É absurdo que tais planos pareçam mais racionais do que a adoção das medidas sociais para cortar emissões que são inteiramente possíveis de imediato, mas que requerem uma transformação de nosso sistema político.
É um clichê da esquerda dizer que hoje em dia é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo: Andreas Malm lembra que com a mania de geoengenharia é mais fácil imaginar a transformação deliberada do planeta inteiro do que da economia política. O que inicialmente parece um novo Prometeu é na verdade capitulação, a rendição absoluta ao status quo. Utopia se torna a exoneração do poder estabelecido, cujas linhas vermelhas não devem ser cruzadas. Qual o preço da esperança?
Setenta por cento do staff da fábrica da Union Carbide em Bhopal, Índia, tiveram pagamento retido por ser recusarem a violar as práticas de segurança. Sem pessoal suficiente, inspeções eram feitas a intervalos insuficientes. Nenhum dos seis sistemas de segurança funcionava devidamente (caso funcionassem). O sindicato protestou, e foi ignorado.
No dia 3 de dezembro de 1984, vinte e sete toneladas de isocianato de metila foi despejado da usina. Entre 8 e 10 mil pessoas morreram naquela noite; mais 25 mil morreram desde então. Meio milhão de feridos, dos quais 70 mil permanentemente desfigurados. A taxa de nascimentos com alguma deformação na área é imensamente alta. A água no solo ainda tem níveis de toxinas muito além do considerado seguro.
Inicialmente, o governo Indiano exigiu US$3.3 bilhões em compensação, que a Union Carbide resistiu nos tribunais com um gasto de US$50 milhões. Por fim, em 1989, a companhia aceitou um acordo para pagar uma indenização de US$470 milhões, apenas 15 por cento do valor inicial. Os sobreviventes receberam, como compensação vitalícia, entre US$300 e 500 por pessoa. De acordo com Kathy Hunt, relações públicas da Dow-Carbide em 2002, “US$500 é bom o bastante para um Indiano”.
Por que retomar essa história terrível? Não apenas porque, como se sabe, Warren Anderson, ex-CEO da Carbide, jamais foi extraditado para a Índia, apesar de um mandado de prisão ter sido expedido em seu nome. Nem porque a Carbide, ou a Dow, que a comprou em 2001, negam qualquer responsabilidade e se recusam a recuperar a área ou a responder a intimações de tribunais indianos. Há outra razão.
Em 1989, o Wall Street Journal anunciou que executivos estadounidenses estavam extremamente ansiosos com esse primeiro grande teste da responsabilidade de uma corporação sobre um acidente no Terceiro Mundo. Por fim, em outubro de 1991, veio o momento chave para a discussão: a suprema corte indiana manteve o acordo da Carbide, e rejeitou todos os outros pedidos contra a empresa, conferindo assim proteção legal à companhia. E os preços de suas ações imediatamente dispararam. Porque Wall Street sabia que suas prioridades prevaleceram. Foi o momento de alívio.
Uma interpenetração de apocalipse e utopia no mundo real. Apocalipse para aqueles milhares que se afogaram em seus próprios pulmões. E para as corporações, agora asseguradas que os pobres, diferente dos lucros, são descartáveis? A utopia cotidiana.
Essa é outra das limitações da utopia: nós já estamos em uma, mas não na nossa.
Então, vivemos no apocalipse.
Terra: a confirmar. Utopia? Apocalipse? É pior ter esperança ou desespero? Só cabe uma resposta: sim. É pior ter esperança ou desespero.
Esperança ruim e desespero ruim são co-constitutivos. O capitalismo te encontra na ida, ou na volta. “Nós” podemos resolver o problema que “nós” criamos. E quando “nós”, os geoengenheiros, falharmos, “nós” podemos sobreviver e lidar com o peso na “nossa” consciência acumulando comida enlatada.
Há um otimismo melhor? Há uma maneira certa de perder a esperança? Depende de quem tem esperança, e em que, em quem – e contra quem. Nossa esperança precisa ladrar e morder.
Não seremos derrotados pelas demandas de burocratizar nossas próprias propostas. Na verdade, nao faltam modelos a ser considerados, mas crítica radical do cotidiano existe, mesmo que falte alternativa. Podemos ir além: se levarmos a utopia a sério, como uma reformulação total, concluímos que não podemos pensá-la do lado de cá. É o processo de fazê-la que nos permitirá pensá-la. É a fidelidade à utopia que fundamenta nossa recusa em explicá-la ou planejá-la.
Deveríamos ser utópicos com todas as nossas forças. Junto com uma humanidade plena, deveríamos imaginar também ilhas voadoras, bairros de coral auto-construídos, carros fotossintetizantes criados a partir de amostras de medula óssea. Grandes Montanhas de Doces. Porque assim nunca confundiremos tais sonhos com planos, nem com absurdos.
Utopias são novos Rorschachs. Colocamos nossas preocupações e nossas ideias para fora, e, ao sonhar, dobramos o papel para, abrindo-o, revelar novas formas. Podemos fazê-lo com algum grau de intencionalidade, mas o que realmente criamos está muito além de nossa capacidade de planejar. Nossas utopias devem ser aproveitadas e admiradas, elas são feitas de nossas preocupações e revelam muito sobre nosso presente, sobre nossos egos pré-utópicos. Elas devem ser interpretadas. Assim como as utopias de nossos inimigos.
Entender aquilo ao qual nos opomos requer respeito. A terra não está sendo destruída porque os desturidores são estúpidos, irracionais, por erro, ou por dados insuficientes. Precisamos dar continuidade a nossa luta com toda a urgência, e ganhar discussões, mas não devemos nos enganar: qualquer que seja a auto-ilusão, culpa, ou eventual lástima de um CEO, em um mundo de maximização de lucros é perfeitamente racional que as instituições de nosso status quo façam o que fazem. Indivíduos e eventualmente algumas organizações podem resistir em casos específicos, mas só ao recusar a lógica do sistema. O que, logicamente, o próprio sistema não pode fazer.
A luta por justiça ecológica é também uma luta contra tal sistema, porque há imensos lucros na injustiça. A batalha não será sempre sobre mudança climática catastrófica ou expropriação de terra: no neoliberalismo, até disputas locais sobre momentos fugazes de verde são lutas contra o poder. Os protestos que abalaram a Turquia em 2013 começaram os planos do governo para construir sobre o Parque Gezi, um dos últimos espaços verdes em Istambul.
Ao invés de vociferar união, nós lutamos melhor se aceitarmos que ela não existe. Se aceitarmos que existem lados. Nos aproximamos de um momento crítico. Ao invés de esperar por união, nossa melhor esperança está no conflito. Nosso objetivo, um aspecto da nossa utopia, deveria ser essa estratégia de tensão.
Há um pessimismo ruim assim como há um otimismo ruim. Contra a rendição grosseira de, digamos, um James Lovelock, há pelo menos razões científicas plausíveis para sugerir que não estamos ainda em um ponto onde não há mais volta. Em todo caso, até um mundo sem conserto é digno de luta. Precisamos de um novo tipo de beco sem saída, uma mudança social irrevogável, que requer um novo tipo de pessimismo, um olhar fixo e determinado ao quão ruim a situação está.
O pessimismo tem uma reputação ruim entre ativistas, que morrem de medo de se render. Mas ativismo sem o pessimismo que resulta do rigor é apenas sentimentalismo.
Há esperança. Mas para que seja real, e farpada, e forjada em arma, não podemos nos recostar nela. Precisamos testá-la, sujeitá-la às tensões do quase desespero que é apropriado. Precisamos de utopia, mas tentar pensar em utopia neste mundo, sem raiva, sem fúria, é um luxo que não podemos ter. Diante de tudo que é feito, não podemos pensar em utopia sem ódio.
Até nossos fins-do-mundo são muito aristocráticos. Ponhamos logo um fim ao apocalipse-em-um-só-país. Ao contrário, brindemos à utopia antinômica! Uma esperança que renuncie à esperança dos que estão no poder.
Os críticos supostamente sensatos são os mais profundamente irrealistas. Como diz Joel Kovel, “nós temos a acumulação de capital, e podemos ter a integridade ecológica, mas não podemos ter os dois juntos”. Acreditar no contrário seria excêntrico, se não fosse tão perigoso.
Em 2003, William Stavropoulos, CEO da Dow – que, lembre-se, não tem nenhuma responsabilidade sobre os mutilados químicos de Bhopal – disse em uma nota à imprensa que “responsabilidade ambiental é bom para os negócios”.
E isso, no sentido pejorativo, é a utopia mais absurda de todas.

in blog da Boitempo

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O silenciado extermínio de Raqqa, o My Lai sírio

Nazanín Amirian    30.Oct.17    Outros autores
A intervenção imperialista na Síria acumula crimes de guerra. Ao mesmo tempo que fica cada vez mais evidente que não se trata de qualquer «combate ao terrorismo» mas sim de consolidar a utilização desse instrumento, que o próprio imperialismo criou, alimenta e protege. Prossegue a destruição do Estado sírio e a ocupação de parcelas do seu território.
O mundo estremeceu em Novembro de 1969 quando o jornalista Seymour Hersh revelou o massacre de My Lai (Vietnam): todos os seres vivos da aldeia tinham sido aniquilados depois de sofrerem vários dias de tortura e terror.
E agora ocultam ao mundo a dimensão da tragedia que causaram à gente de Raqqa, muito maior que My Lai: 25.000 pessoas foram atacadas com espadas, espingardas, bombas e misseis por dois grupos terroristas (Daesh e as Forças Democráticas Sírias (FDS)), dirigidas pelos EUA e seus aliados. Raqqa não foi libertada, apenas passou das mãos de um grupo terrorista para outro.
Entretanto a imprensa ocidental, que acusava de “crimes de guerra” a Rússia pela sua intervenção militar em Alepo, ficou muda ante aquilo a que a Amnistia Internacional chamou “um labirinto mortal” e a ONU aponta a responsabilidade da coligação liderada por Washington por “uma assombrosa perda de vidas” de milhares de bebés, velhos, mulheres e homens cujos cadáveres putrefactos cobrem as ruas da cidade nortenha da Síria.
Na semana passada, durante a suposta libertação da cidade assediada de Raqqa - ocupada pelos jihadistas em 2014 -, o Pentágono (que não tem nenhum mandato legal para levar a cabo ataques aéreos na Síria), utilizou duas armas especialmente terroríficas. Por um lado, o fósforo branco, cujo uso é ilegal, que abrasa o corpo até ao osso e que quando se respira queima os pulmões. Por outro, os foguetes MGM-140B, que disparam cerca de 274 granadas antipessoais, capazes de exterminar qualquer ser vivo num raio de 15 metros. ¡É assim que Trump faz a “América Maior”!
EUA, Israel e Arabia Saudita acolheram com grande satisfação a expansão do Daesh na Síria, por debilitar o governo baas de Assad em Damasco, uma vez que lhes oferece o que chamam algumas oportunidades estratégicas, sobretudo contra o Irão.
O secretário da Defesa estado-unidense James Mattis, apodado “cão raivoso”, anunciou já que o Pentágono estava a adoptar “tácticas de extermínio” na sua campanha na Síria: “As baixas civis são uma realidade neste tipo de situações”, disse. Milhares de civis sírios não são mais que “danos colaterais” dos seus infames interesses, tal como foram na Jugoslávia, Afeganistão, Iraque, Líbia, Iémen, Sudão e Somália.
Durante os ataques, que duraram meses, os franco atiradores de ambos bandos mataram inclusivamente as personas que se rendiam ou as que tentavam fugir pelo Eufrates, afundando-os com os seus barcos no rio. Mattis é o mesmo general que organizou o cerco à cidade iraquiana de Fallujah, em 2004, matando milhares de civis com balas, bombas, fome e sede.
Enquanto a coligação dirigida pelos EUA rodeava Raqqa a partir do norte, este e oeste, deixou que os jihadistas do Daesh se escapassem pelo sueste para se refugiarem na província de Deir ez-Zour, e daí continuar lutando contra o Exército sírio. Washington volta a fazer de bombeiro pirómano: deixa que o Daesh ocupe territórios sírios, para depois se apresentar como força libertadora, apropria-se dos territórios que são o seu despojo de guerra, utilizando os curdos e os árabes como tropas terrestres suas. Em 2016, John Kerry comentou que com o avanço do Daesh, Assad se verá obrigado a negociar, conseguindo assim os objectivos político-militares que a NATO não pode alcançar, na sua Guerra-negocio sem fim.
¿Por quê Raqqa?
Os EUA apodera-se de outra cidade da Síria, país onde por primeira vez na sua história conseguiu bases militares, graças ao colaboracionismo curdo, que mesmo assim afirmam ser de esquerda.
Entre os motivos do Pentágono para ocupar esta cidade estão:
1. Adiantar-se ao Exército sírio e aos seus aliados russo-iranianos para recuperar esta estratégica urbe.
2. Anexar Raqqa aos seus territórios ocupados na Síria, e ali estabelecer uma presença militar permanente; começou já a instalar uma nova base militar em Tabqa. Por isso, os países da NATO apressaram-se a anunciar que apesar da derrota do Daesh não abandonarão a Síria.
3. Raqqa será a capital de facto das chamadas forças moderadas sírias, convertida em contrapeso do governo de Assad em Damasco. Situação que também criaram em países atacados como Líbia e Iraque, impondo dois governos paralelos.
4. Este ataque, que coincide com a invasão de Idlib pela Turquia com dezenas de tanques, garante a desintegração real da Síria.
Entre os objectivos de Trump em Iraque e Síria não está lutar contra o terrorismo, mas sim consolidar a hegemonia dos EUA sobre uma região com vastas reservas de petróleo no Próximo Oriente e neutralizar dois principais obstáculos: Irão e Rússia, enquanto o objectivo final é conter o avanço do seu verdadeiro rival, a China.
A manipulação da informação sobre o que está a suceder no Próximo Oriente está a impedir a formação de uma oposição organizada nos países atacantes e de um movimento contra as crescentes guerras a nível mundial.
http://blogs.publico.es/puntoyseguido/4329/el-silenciado-exterminio-de-raqqa-el-my-lai-sirio/

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

CLAUSTROFOBIA