quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Terça - 11/12/18

Opinião
Opinião
Francisco Louçã
O perigo europeu não é Londres

2018 tem sido um annus horribilis para a União Europeia. A formação do governo italiano e a crescente popularidade de Salvini, a consolidação do grupo de Visegrado e a impunidade de Orban, o anúncio do afastamento a prazo de Merkel, a pressão de Trump e, sobretudo, o Brexit, todas as grandes transformações políticas operam no mesmo sentido, a criação de um sofrido e irresolúvel impasse institucional. Por isso, a questão chave vai ser a relação entre os governos e a revolta popular, que tem crescido precisamente num período de aumento do emprego e de lenta – ou lentissima – recuperação salarial. O facto é que toda a década perdida desde a crise financeira de 2008 está agora a cobrar o seu preço: os trabalhadores pobres irritados com a globalização, os migrantes fugindo da miséria, os jovens cansados da precariedade e da marginalização no emprego ou na cidade, as vítimas do espaço urbano colonizado pela especulação, são multidões arrastadas pela política abissal e que começam a falar. Perante este clamor, a crise ganha uma nova dimensão com a incapacidade institucional de responder ao mal estar social e, portanto, só se pode agravar, dado que os poderes europeus só conhecem uma resposta, a litania auto-satisfatória, que é justamente uma das causas da desafeição popular. Castigar Shiller e Beethoven repetindo ad nauseum o Hino à Alegria tornou-se a última das respostas da Comissão e dos seus comissários.
Uma expressão desta arrogância é a forma como os poderes europeus, ou seja Merkel e Macron, responderam ao referendo do Brexit, que aliás autorizaram e até estimularam, para depois, perante o resultado expectável, terem transformado a negociação numa demonstração de como será punido qualquer Estado que decida a saída. E vemos agora Theresa May, afinal uma das apoiantes de sempre da ortodoxia da direita europeia, ser sacrificada no altar de Bruxelas, correndo de um lado para o outro à procura de coisa nenhuma para uma misteriosa fronteira entre duas Irlandas. O certo é que Paris e Berlim acharam, no vendaval do Brexit, a oportunidade de fragilizar uma grande economia concorrente e de atingir o poder político e militar que historicamente equilibrava as disputas continentais, e querem levar o ajuste de contas até ao limite.
O problema deste plano é que ele atinge os próprios fautores, que se vão afundando na sua teia. Assim, enquanto a sucessão de Merkel vai anunciando um governo mais inclinado para a direita e mais menos-europeu, é em França que está o mais grave perigo. Era onde morava a solução, se quem lê estas linhas se lembra do entusiasmo com o jovem telegénico, enérgico e prometedor que tomou conta do Eliseu com uma vitória empolgada e uma maioria parlamentar arrasadora. Ele era o sonho chegado de novo ao poder, era o líder que ia reerguer a Europa, era a nova política para lá das velhas divisões, era o homem que abraçava mas sabia corrigir Trump, era a estrela que nos ia guiar. As elites lusitanas deslumbraram-se com as suas promessas (mutualização da dívida, lembra-se?), com o seu arrojo (convenções europeias em cada país até fim de dezembro de 2018, lembra-se?), com a sua pose. Esperavam um salvador, um Napoleão benévolo, e ei-lo a surgir em Paris.
Um ano e meio depois, o ras-le-bol francês é avassalador. Quatro semanas de protesto confuso, milhares de detidos, centenas de milhares de manifestantes, uma barreira de incomunicabilidade entre o povo e o governo, um presidente aflito, temos a França a lembrar-se de como sempre tem sido o país das revoltas e das revoluções europeias. E descobre-se como Macron falhou em todos os planos.
Falhou na vida social. Os jornais assinalam hoje como o presidente evocou a sua condição de banqueiro de investimento ao abolir o imposto sobre as fortunas – a única medida que se recusa a corrigir, mesmo quando aparece na televisão de baraço ao pescoço – e mostrou a sua enfatuação ao dar uma reprimenda a um jovem e ao menosprezar um desempregado que o interpelaram na rua, ao lançar que nas estações de caminho de ferro se encontra “gente que não é ninguém”, ao mesmo tempo que se rodeava do fausto de Versalhes para falar aos deputados aprumados. Macron, que acredita e afirma que faltou um rei aos franceses e que, sem temer o ridículo, se compara com Júpiter, vê-se como representante de uma transcendência no país mais republicano da Europa, e era evidente que um dia a contradição cobraria a sua fatura. Foi agora, com o povo na rua.
Falhou ainda no plano político. A maioria parlamentar de que dispõe é demasiada, crispa-se em divisões, hesita perante as pressões, adivinha deserções. Com tudo isto, arrisca-se a perder as eleições europeias para Le Pen (que é a aposta de Trump), enquanto tenta compor uma aliança internacional de desesperados: prometeu listas conexas com os liberais que estiveram reunidos em Madrid, tenta seduzir o Partido Democrático, de Renzi, em Itália, a Nova Democracia na Grécia e até os Verdes alemães para o seu novo partido europeu, mas já não é seguro que seja levado a sério.
Levado aos ombros pela ilusão europeia, Macron é hoje o mais fraco dos mais fortes. A consequência é tratar o Brexit com os pés e reduzir a União a este projeto falhado de frases tão grandiloquentes como inconsequentes. Em Paris está a exibir-se a morte da promessa da globalização feliz, perante um povo que descobriu que só lhe sobrou a vida triste.
in Expresso

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A nossa injustiça fiscal demonstra a natureza de classe deste Governo e deste Estado

“Coletes amarelos” em Portugal?

A mobilização dos “coletes amarelos” em França está manifestamente a alarmar a classe dominante. Não só pela expressão que vem tendo naquele país, mas pelo facto de as razões que levaram a este protesto de massas existirem igualmente em muitos outros países. Compreende-se assim melhor que alguém com Augusto Santos Silva se tenha sentido na obrigação de tentar amedrontar e desmobilizar portugueses que estejam em França.
O que se passa em França assemelha-se cada vez mais a um movimento de revolta popular que tem por base uma acumulação de desigualdades sociais, agravadas pelas consequências de uma política orçamental associada à manutenção do euro.
Parte dessa movimentação pareceu, no início, erguer bandeiras de direita - contra uma subida dos impostos - o que já recebeu uma oportunística resposta por parte do ministro da Economia e Finanças de que era preciso reduzir os impostos e… a despesa pública. Mas o mal-estar geral parece tornar-se transversal, com críticas à esquerda ao governo Macron, pela redução dos impostos aos mais ricos e aumento dos impostos aos mais pobres. Após algumas hesitações, o movimento conta já com a participação política da população de esquerda.
Essas condições materiais para a revolta explodiram em França. Mas poderão eclodir em qualquer país. Porque a mãe de todos os populismos - como a direita gosta de lhe chamar - está na perpetuação de injustiças sociais.
Veja –se o que se passa em Portugal em termos fiscais, nomeadamente no IRS.

O IRS era suposto ser o imposto único sobre o rendimento recebido individualmente. Antes de 1989, o imposto que incidia sobre as diversas formas de rendimento tinha taxas diferenciadas. A reforma fiscal levada a cabo em 1989, era Cavaco Silva primeiro-ministro, pretendeu criar um imposto único, mas ao arrepio da comissão de reforma fiscal, o governo manteve a diferenciação de taxas e regimes, em nome da competitividade fiscal entre países. Os rendimentos de capitais não estão sujeitos à progressividade constitucional da tributação sobre o rendimento. O englobamento de todos os rendimentos não é obrigatório. O ónus da prova da veracidade das declarações fiscais apresentadas pelos contribuintes ficou do lado do Fisco.
Resultado: apenas os assalariados e pensionistas – cujos rendimentos não podiam deixar de ser declarados – declararam na totalidade os seus rendimentos. Os outros parecem mal contribuir para a sociedade.

De 2001 a 2016, os agregados familiares cujos principais rendimentos eram salariais e de pensões representaram sempre cerca de três quartos do universo de contribuintes. Quanto ao rendimento bruto declarado, detinham em 2001 cerca de 86% de rendimento bruto declarado. Mas em 2016 era já 92%!
As outras categorias de rendimento pesavam em 2016 apenas… 8% do total declarado!
Os agregados que viviam sobretudo de rendimentos empresariais e profissionais ou em regime de transparência fiscal (por exemplo, escritórios de advogados) representavam, em 2001, cerca de 10% dos agregados e pouco cresceram até 2016. Mas o peso do seu rendimento reduziu-se de 10% para 5%, o que é inverosímil.
Quanto aos detentores de rendimentos de capitais e mais valias, pouco variaram entre 2001 e 2016: situaram-se ao redor dos 5 a 6%. Mas o seu peso no rendimento bruto declarado nunca atingiu o 1% nos 16 anos analisados!
Já os rendimentos prediais chegavam, de 2001 a 2016, a cerca de 8% do universo de contribuintes. E o seu peso no rendimento global passou de 3 para 2%!

Fonte: Números calculados com base nos dados da Autoridade Tributária
Por agregado, verifica-se a situação mais inacreditável possível depois de tudo o que se passou na última década: os rendimentos salariais e as pensões são, em média, os rendimentos mais elevados por agregado e subiram de 2001 para 2016. Ao mesmo tempo, os rendimentos empresariais e profissionais desceram, bem como os prediais. Os rendimentos de capital por agregado que eram em 2001 de 766 euros anuais, passaram em 2016 para 2319 euros anuais! Qualquer coisa como 193 euros mensais!
Ou os rendimentos individuais passaram para a esfera empresarial; ou os assalariados e pensionistas passaram a ser os maiores beneficiários de rendimento de capitais (em contas de poupança bancária); ou verifica-se uma enorme – enormíssima, gigantesca! – evasão fiscal. Um buraco, um passadouro monumental que se torna visível naqueles regimes extraordinários de regularização tributária (RERT) de que beneficiaram por exemplo Ricardo Espírito Santo e tantos outros, que os amnistiam, limpam, branqueiam e que proíbem o Estado de os perseguir, tudo com o aval do Parlamento quando PS e PSD/CDS tinham maioria. Mais uma causa para populismos futuros.
De qualquer forma, o IRS – tal como está - não reflecte neste momento nada do que era suposto representar. Qualquer medida relativamente ao IRS atingirá apenas quem é obrigado a declarar rendimentos, tal como acontecia há duas décadas atrás. As outras categorias de rendimento mal pagam para o Orçamento de Estado e, um dia, alguém terá o desplante de os isentar de imposto porque não é eficaz tributá-los…
E tudo isso obriga a uma vasta reforma fiscal. Era isto que um governo de esquerda faria, caso quisesse mudar alguma coisa em Portugal; caso não queira passar, daqui a pouco tempo, por aquilo que está a viver-se em França.
Nessa altura, os arautos da direita falarão de populismos. Mas os populismos são gerados por desigualdades agravadas que protegem durante décadas uma minoria. A periferização da sociedade e das cidades representa uma continuada expulsão de um centro, uma ghetização social e urbana, como se escreve no The Guardian. “A classe trabalhadora e classe média baixa estão de novo visíveis e, com eles, os locais onde eles vivem”. O risco é que, como nos Estados Unidos ou em Italia, possam ser cavalgadas pela extrema-direita, evitando na prática outro tipo de movimentos sociais e, no final, para que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma.
Por que será que a direita portuguesa não fala do que se passa em França?
Fonte: http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2018/12/coletes-amarelos-em-portugal.html#more

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sábado, 8 de dezembro de 2018

A Ordem Fascista do Imperialismo

Porque está de novo na ordem do dia a ascensão do fascismo

John Pilger    07.Dic.18    Outros autores
Este importante texto foi publicado em 2015, mas não só não perdeu actualidade como está, se possível, mais actual ainda. A ameaça fascista surge em todos os continentes. E o elo que a une é a acção do imperialismo, apoiando e incentivando tudo o que existe de mais reaccionário, obscurantista e explorador à face da Terra.
O recente 70º aniversário da libertação de Auschwitz [ver data do artigo – N.T.] foi um lembrete do grande crime do fascismo, cuja iconografia nazi se encontra gravada na nossa consciência.
O fascismo está preservado como história, com filmagens tremeluzentes das camisas negras em passo de ganso e a sua terrível e clara criminalidade. No entanto, nas mesmas sociedades liberais cujas elites belicistas nos incitam a não esquecer, o crescente perigo de uma nova espécie de fascismo é ocultado, visto que se trata do seu fascismo.
Diziam os juízes do Tribunal de Nuremberga em 1946 que “Iniciar uma guerra de agressão… é não apenas um crime internacional, como o supremo crime internacional, distinguindo-se de outros crimes de guerra apenas por conter em si o mal acumulado da totalidade desses crimes.”
Se os nazis não tivessem invadido a Europa, Auschwitz e o Holocausto não teriam acontecido. Se os Estados Unidos e satélites não tivessem iniciado a guerra de agressão no Iraque em 2003, estariam ainda vivas hoje quase 1 milhão de pessoas e o Estado Islâmico, ou ISIS, não nos teria escravos da sua selvajaria. São eles a progénie do moderno fascismo, alimentado pelas bombas, banhos de sangue e mentiras que constituem o teatro surrealista conhecido como “notícias”.
Tal como no fascismo dos anos 30 e 40, são propaladas grandes mentiras com a precisão de um metrónomo graças a meios omnipresentes e repetitivos e à sua virulenta censura por omissão. Olhe-se para a catástrofe na Líbia.
Em 2011, a NATO lançou 9.700 “operações punitivas” contra a Líbia, das quais mais de um terço eram destinadas a alvos civis. Foram utilizadas ogivas de urânio: as cidades de Misurata e Sirte sofreram bombardeamentos em tapete. A Cruz Vermelha identificou valas comuns e a UNICEF relatou que “a maior parte [das crianças mortas] tinha menos de dez anos de idade”.
A sodomização pública do presidente líbio Muhammar Khadafi com uma baioneta “rebelde” foi festejada pela então Secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton com as palavras “Chegámos, vimos e ele morreu.” O seu assassínio, como a destruição do seu país, foi justificada por uma grande mentira habitual: estaria a planear um “genocídio” contra o seu próprio povo. “Sabíamos… que se esperássemos mais um dia,” disse o presidente Obama, “Bengasi, uma cidade do tamanho de Charlotte, podia sofrer um massacre que teria reverberado na região e manchado a consciência do mundo.”
Tratou-se de uma invenção das milícias islamistas prestes a serem derrotadas pelas forças do governo líbio. Disseram à Reuters que haveria um “verdadeiro banho de sangue, um massacre como se viu no Ruanda”. Relatada a 14 de Março de 2011, a mentira proporcionou a primeira centelha para o inferno da NATO, descrito por David Cameron como “intervenção humanitária”.
Secretamente abastecidos e treinados pela SAS britânica, muitos dos “rebeldes” formariam o ISIS, cuja última oferta de vídeo mostra a decapitação de 21 trabalhadores cristãos coptas apanhados em Sirte, a cidade destruída em seu nome pelos bombardeiros da NATO.
Para Obama, Cameron e Hollande, o verdadeiro crime de Khadafi foi a independência económica da Líbia e a sua intenção declarada de deixar de vender as maiores reservas de petróleo de África em dólares americanos. O petrodólar é um pilar do poder imperial americano. Khadafi planeou com audácia subscrever uma moeda africana comum com base no ouro, estabelecer um banco pan-africano e promover a união económica dos países pobres com recursos valorizados. Quer se concretizasse ou não, o próprio conceito era intolerável para os EUA na altura em que se preparavam para “entrar” em África e subornar os governos africanos com “parcerias” militares.
A seguir ao ataque da NATO a coberto de uma resolução do Conselho de Segurança e segundo escreveu Garikai Chengu, Obama “confiscou 30 mil milhões de dólares do Banco Central da Líbia que Khadafi tinha reservado para o estabelecimento de um Banco Central Africano e uma moeda africana com base no ouro”.
A “guerra humanitária” contra a Líbia traçou um modelo dirigido aos corações liberais ocidentais, especialmente nos media. Em 1999, Bill Clinton e Tony Blair mandaram a NATO bombardear a Sérvia porque, conforme mentiram, os sérvios estavam a cometer um “genocídio” contra a etnia albanesa na província secessionista do Kosovo. David Scheffer, embaixador plenipotenciário americano para os crimes de guerra [sic], alegou que cerca de “225.000 homens de etnia albanesa de idades entre 14 e 59 anos” podem ter sido assassinados.” Tanto Clinton como Blair evocaram o Holocausto e o “espírito da Segunda Guerra Mundial”. Os heroicos aliados ocidentais eram o Exército de Libertação do Kosovo (KLA), cujo palmarés de crimes foi posto de lado. O Secretário dos Estrangeiros britânico, Robin Cook, indicou que o contactassem a qualquer hora pelo telemóvel.
Quando o bombardeamento da NATO terminou e muitas das infraestruturas sérvias estavam em ruínas, junto com escolas, hospitais, mosteiros e a estação nacional de TV, várias equipas forenses internacionais desceram ao Kosovo para exumarem as provas do “holocausto”. O FBI não conseguiu encontrar nenhuma vala comum e regressou a casa. A equipa forense espanhola fez o mesmo, com o seu chefe furiosamente a denunciar “a pirueta semântica das máquinas de propaganda bélica”. Um ano depois, o tribunal das Nações Unidas para a Jugoslávia anunciou a contagem final dos mortos no Kosovo: 2.788. Estavam incluídos combatentes de ambos os lados e sérvios e ciganos assassinados pelo KLA. Não houve qualquer genocídio. O “holocausto” era uma mentira. O ataque da NATO tinha sido baseado numa fraude.
Por detrás da mentira, havia um objetivo sério. A Jugoslávia era uma federação multiétnica única e independente que se tinha mantido como uma ponte política e económica durante a Guerra Fria. A maior parte das suas maiores instalações industriais eram propriedade pública. Isso não era aceitável para a Comunidade Europeia em expansão, especialmente a recentemente unificada Alemanha, que tinha iniciado um movimento para leste para apanhar o seu “mercado natural” nas províncias jugoslavas da Croácia e Eslovénia. Na altura em que os europeus se encontraram em Maastricht em 1991 para traçar os seus desastrosos planos da Eurozona, foi lançado um acordo secreto: a Alemanha reconhecia a Croácia. A Jugoslávia ficou condenada.
Em Washington, os EUA viram serem negados empréstimos pelo Banco Mundial â economia jugoslava em apuros. A NATO, então uma quase defunta relíquia da Guerra Fria, foi reinventada como executora imperial. Na “conferência de paz” do Kosovo em 1999 em Rambouillet na França, os sérvios foram sujeitos à táctica dúplice do executor. O acordo de Rambouillet incluía um Anexo B secreto que a delegação americana introduziu no último dia. Nele se exigia a ocupação militar da Jugoslávia, um país com amarga memória da ocupação nazi, a instalação de uma “economia de livre mercado” e a privatização de todos os bens estatais. Nenhum país soberano poderia assinar isso. Rapidamente se seguiu o castigo: as bombas da NATO caíram sobre um país indefeso. Era o precursor das catástrofes no Afeganistão, no Iraque, na Síria, na Líbia e na Ucrânia.
Desde 1945, mais de um terço dos membros das Nações Unidas (69 países) sofreram parte ou a totalidade do seguinte às mãos do moderno fascismo americano: ou foram invadidos, ou os seus governos derrubados, ou os seus movimentos populares suprimidos, ou as suas eleições suprimidas, ou o seu povo bombardeado e a sua economia despida de qualquer proteção, ou as suas sociedades sujeitas a um rígido cerco conhecido por “sanções”. O historiador britânico Mark Curtis calcula em milhões o número de mortos. Em todos os casos, esteve uma grande mentira por detrás.
“Hoje, pela primeira vez desde o 11 de Setembro, a nossa missão de combate no Afeganistão terminou. “Foram as palavras de abertura de Obama no discurso do Estado da União em 2015. De facto, 10.000 soldados e 20.000 contratados militares (mercenários) continuam no Afeganistão em missão indefinida. “A mais longa guerra da história americana está a chegar a uma conclusão responsável,” disse Obama. De facto, foram mortos mais civis no Afeganistão em 2014 do que em qualquer ano desde que a ONU fez registos. A maioria – civis e militares - foi aniquilada durante o tempo de Obama como presidente.
A tragédia do Afeganistão rivaliza com o crime épico cometido na Indochina. No seu muito citado e elogiado livro “O Grande Tabuleiro de Xadrez: A Primazia Americana e os seus Imperativos Geostratégicos”, Zbigniew Brzezinski, o padrinho das políticas americanas desde o Afeganistão até ao presente, escreve que, se a América quer controlar a Eurásia e dominar o mundo, não pode apoiar uma democracia popular, porque “a prossecução do poder não é um objetivo que comande a paixão popular… A democracia é inimiga da mobilização imperial.” Conforme a Wikileaks e Edward Snowden revelaram, a democracia está a ser usurpada por um estado de vigilância e policial. Em 1976, o então conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Carter, Brzezinski, demonstrou este ponto negociando um golpe de morte na primeira e única democracia do Afeganistão. Quem conhece esta história vital?
Em 1960, houve uma revolução popular que varreu o país mais pobre do planeta, derrubando mais tarde os vestígios do regime aristocrático em 1978. O Partido Democrático do Povo do Afeganistão (PDPA) formou governo e declarou um programa de reformas que incluía a abolição do feudalismo, liberdade para todas as religiões, direitos iguais para as mulheres e justiça social para as minorias étnicas. Foram libertados mais de 13.000 presos políticos e os arquivos policiais publicamente queimados.
O novo governo introduziu cuidados médicos gratuitos para os mais pobres, aboliu a servidão e lançou um programa de alfabetização de massas. Para as mulheres, os ganhos foram inauditos. No final dos anos 80, metade dos estudantes universitários eram mulheres e as mulheres perfaziam quase metade dos médicos do Afeganistão, um terço dos funcionários públicos e a maioria dos professores. “Todas as raparigas podiam ir para o secundário e para a universidade”, lembrou a cirurgiã Saira Noorani, “podíamos ir para onde quiséssemos e vestir aquilo de que gostávamos. Costumávamos ir a cafés e ao cinema à sexta-feira ver o último filme indiano e ouvir as músicas novas. Tudo começou a correr mal quando os mujahidin começaram a ganhar. Matavam professores e queimavam escolas. Andávamos aterrorizadas. Era engraçado e triste pensar que eram esses os que o Ocidente apoiava.”
O governo do PDPA era apoiado pela União Soviética, ainda que, conforme o antigo secretário de Estado, Cyrus Vance, mais tarde tenha admitido, “não houvesse qualquer prova de cumplicidade soviética [na revolução]”. Alarmado com a crescente confiança nos movimentos de libertação por todo o mundo, Brzezinski decidiu que, se o Afeganistão tivesse êxito com o PDPA, a sua independência e progresso iriam constituir a “ameaça de um exemplo prometedor”.
A 3 de Julho de 1979, a Casa Branca autorizou secretamente apoio aos grupos tribais “fundamentalistas” conhecidos por mujahidin, programa que aumentou até mais de 500 milhões de dólares anuais em armas e assistência americana. O objectivo era derrubar o primeiro governo reformista secular do Afeganistão. Em Agosto de 1979, a embaixada americana em Cabul anunciou que “os superiores interesses dos Estados Unidos… serão servidos pelo seu fim [do governo PDPA], apesar de não interessar que contratempos tal signifique para as futuras reformas sociais e económicas no Afeganistão.”
Os mujahidin foram os antecessores da al-Qaeda e do Estado Islâmico. Incluíam Gulbuddin Hekmatyar, que recebeu da CIA dezenas de milhões de dólares em dinheiro. A especialidade de Hekmatyar era o tráfico de ópio e o lançamento de ácido na cara de mulheres que recusavam o uso do véu. Convidado para ir a Londres, foi elogiado pela primeira-ministra Thatcher como um “combatente da liberdade”.
Esses fanáticos poderiam ter ficado no seu mundo tribal não tivesse Brzezinski lançado um movimento internacional para promover o fundamentalismo islâmico na Ásia Central e assim minar a libertação política secular e “desestabilizar” a União Soviética, criando, tal como escreveu na sua autobiografia, “uns quantos muçulmanos agitados”. O seu grande plano coincidia com as ambições do ditador paquistanês general Zia ul-Haq para dominar a região. Em 1986, a CIA e a agência de espionagem do Paquistão ISI começaram a recrutar gente de todo o mundo para se juntarem à jihad afegã. O multimilionário saudita Osama bin Laden foi um deles. Operacionais que mais tarde haveriam de se juntar aos talibã e à al-Qaeda foram recrutados numa escola islâmica de Brooklyn, em Nova Iorque, e treinados militarmente no campo da CIA na Virgínia. Foi a chamada “Operação Ciclone”. O seu êxito foi celebrado em 1996, quando o último presidente PDPA do Afeganistão, Mohammed Najibullah, que antes tinha ido à Assembleia Geral da ONU pedir ajuda, foi enforcado num candeeiro de iluminação pelos talibã.
O “ricochete” da Operação Ciclone e dos “quantos muçulmanos agitados” foi o 11 de Setembro de 2001. A Operação Ciclone tornou-se a “guerra ao terrorismo”, na qual incontáveis homens, mulheres e crianças perderam a vida no mundo muçulmano, do Afeganistão ao Iraque, Iémen, Somália e Síria. A mensagem do promotor era e continua a ser: “Ou és por nós ou contra nós.”
O traço comum entre o fascismo passado e o presente é o assassínio em massa. A invasão americana do Vietnam tinha as suas “zonas de fogo livre”, as “contagens de corpos” e os “danos colaterais”. Na província de Quang Ngai, onde fiz reportagens, foram assassinados pelos EUA muitos milhares de civis (“chinocas”). Contudo, apenas é lembrado um massacre, em My Lai. No Laos e no Camboja, o maior bombardeamento aéreo da História deu origem a uma época de terror marcado hoje pelo espetáculo de crateras de bombas lado a lado que, do ar, parecem monstruosos colares. Este bombardeamento deu ao Camboja o seu próprio ISIS, liderado por Pol Pot.
Hoje, a maior campanha mundial de terror de sempre implica a execução de famílias inteiras, convidados em casamentos e pessoas fazendo luto em funerais. São vítimas de Obama. De acordo com o New York Times, Obama faz a sua seleção a partir de uma “lista de alvos” da CIA que lhe é apresentada todas as quintas-feiras na Situation Room da Casa Branca. Decide nessa altura, sem uma sombra de justificação legal, quem vai viver ou morrer. A sua arma de execução é o míssil Hellfire conduzido por uma aeronave sem piloto conhecida por drone. As vítimas são grelhadas e os seus restos espalham-se pela área como enfeites. Cada acerto é registado num ecrã de consola distante como um “crash”.
Escreveu o historiador Norman Pollock que “em vez de tropas em passo de ganso, faz-se a aparentemente mais inócua militarização da cultura total. E em vez do chefe histérico, temos o reformador apagado, feliz no seu trabalho de planeador e executor de assassínios, sempre sorridente.”
Unindo o velho e o novo fascismo está o culto da superioridade. “Acredito no excepcionalismo americano com todas as fibras do meu ser” disse Obama fazendo evocar as declarações de fetichismo nacionalista dos anos 30. Conforme o historiador Alfred W. McCoy notou, foi o admirador de Hitler Carl Schmitt que disse “soberano é aquele que decide a excepção.” Isto resume o americanismo, a ideologia que domina o mundo atual. Que se mantenha não reconhecida como ideologia predadora, resulta de uma lavagem ao cérebro igualmente não reconhecida. Insidiosa, não declarada, finamente apresentada como iluminismo natural, a sua ideia insinua-se em toda a cultura ocidental. Cresci num ambiente cinematográfico de glória americana, quase todo ele distorção da realidade. Não tinha qualquer ideia de ter sido o Exército Vermelho que destruíra a maior parte da máquina de guerra nazi com o custo de nada menos que 13 milhões de soldados. Por contraste, as baixas americanas, incluindo as do Pacífico, foram 400.000. Hollywood inverteu esta realidade.
A diferença é que agora as audiências no cinema são levadas a torcer-se com a “tragédia” dos psicopatas americanos matando pessoas em lugares distantes, quando o próprio presidente as mata pessoalmente. Símbolo da violência hollywoodesca, o actor e realizador Clint Eastwood foi nomeado este ano para um Óscar [ver data do artigo – N.T.] pelo seu filme “American Sniper”, que trata de um assassino legal louco. O New York Times descreve-o como “um filme de família patriótico que bateu todos os recordes de afluência nos primeiros dias”.
Não há filmes heroicos sobre a tendência da América para o fascismo. Durante a Segunda Guerra Mundial, a América (e a Grã-Bretanha) fizeram guerra aos gregos, que tinham combatido heroicamente contra o nazismo e resistiam à ascensão do fascismo grego. Em 1967, a CIA ajudou a chegar ao poder em Atenas uma junta militar fascista, tal como no Brasil e na maior parte da América Latina. Aos alemães e europeus de Leste que se conluiaram com a agressão e os crimes nazis contra a humanidade foi dada proteção segura nos Estados Unidos, muitos sendo apaparicados e os seus talentos recompensados. Werner von Braun foi o “pai” tanto da bomba de terror nazi V-2, como do programa espacial dos EUA.
Nos anos 90, enquanto as antigas repúblicas soviéticas, a Europa de Leste e os Balcãs se tornavam postos avançados da NATO, foi dada a sua oportunidade aos herdeiros de um movimento nazi da Ucrânia. Responsável pela morte de milhares de judeus, polacos e russos durante a invasão nazi da União Soviética, o fascismo nazi ucraniano foi reabilitado e a sua “nova vaga” saudada pelo apoiante como “nacionalistas”.
Este apoio atingiu o apogeu em 2014 quando o governo Obama esbanjou 5 mil milhões de dólares num golpe contra o governo eleito. As tropas de choque eram neonazis conhecidas por Sector Direita e Svoboda. Os chefes incluem Oleh Tyahnybok, que apelou à purga da “mafia judaico-moscovita e restante escumalha”, incluindo gays, feministas e os da esquerda política.
Estes fascistas fazem agora parte do governo do golpe de Kiev. O porta-voz do parlamento ucraniano, Andriy Parubiy, líder do partido do governo, é cofundador do Svoboda. Em 14 de Fevereiro, Parubiy anunciou que voava para Washington para obter “dos EUA armamento moderno e de alta precisão”. Conseguindo-o, isso passaria a ser visto pela Rússia como um ato de guerra.

«Marcha da Verdade» em Kiev. (RIA Novosti/Alexandr Maksimenko) © RIA Novosti
Nenhum dirigente ocidental se pronunciou sobre o renascimento do fascismo no coração da Europa, com exceção de Vladimir Putin, cujo povo perdeu 22 milhões com uma invasão nazi que chegou através das fronteiras da Ucrânia. Na recente Conferência de Segurança de Munique, a sub-Secretária de Estado de Obama para os Assuntos Europeus e Euro-asiáticos, Victoria Nuland, criticou os dirigentes europeus que se opunham ao armamento do regime de Kiev pelos Estados Unidos. Referiu-se ao ministro da Defesa alemão como “ministro do derrotismo”. Foi Nuland que supervisionou o golpe em Kiev. É mulher de Robert D. Kagan, uma luminária dirigente dos neoconservadores e cofundador do Projecto para o Novo Século Americano da ala de extrema-direita, e é antiga consultora de política externa de Dick Cheney.
O golpe de Nuland não correu conforme planeado. A NATO não conseguiu tomar a histórica e legítima base naval de águas quentes na Crimeia. A população predominantemente russa da Crimeia, ilegalmente anexada à Ucrânia em 1954 por Nikita Kruschev, votou esmagadoramente pelo retorno à Rússia, como tinha feito em 1990. O referendo foi voluntário, popular e com observadores internacionais. Não houve qualquer invasão.
Ao mesmo tempo, o regime de Kiev virou-se contra a população russa do Leste com a ferocidade de uma limpeza étnica. Instalando milícias neonazis à maneira das Waffen-SS, bombardearam e cercaram cidades e vilas. Usaram a fome como arma, cortando a eletricidade, congelando contas bancárias e interrompendo segurança social e pensões. Mais de um milhão de refugiados fugiram pela fronteira para a Rússia. Nos media ocidentais, foram apresentados como gente escapando da “violência” causada pela “invasão russa”. O comandante da NATO general Breedlove – cujo nome e comportamento devem ter sido inspirados pelo Dr. Strangelove de Stanley Kubrick – anunciou que havia 40.000 soldados russos “concentrados”. Numa época de fácil comprovação forense através de satélite, não mostrou qualquer prova.
Estas pessoas da Ucrânia de fala russa e bilingue, um terço da população, procuram desde há muito tempo uma federação que reflita a diversidade étnica do país e é autónoma e independente de Moscovo. A maior parte não é separatista, mas cidadãos que querem viver em segurança na sua terra, e opõe-se à tomada de poder em Kiev. A sua revolta e o estabelecimento de “estados” autónomos são uma reação aos ataques que lhes faz Kiev. Pouco disto tem sido explicado às audiências ocidentais.
Em 2 de Maio de 2014, 41 pessoas de etnia russa foram queimadas vivas nas instalações de um sindicato, com a polícia a assistir. O chefe do Sector Direita, Dmytro Yarosh saudou o massacre como “outro brilhante dia na nossa história nacional”. Nos media americanos e britânicos, isto foi anunciado como uma “tragédia sombria” resultante de “choques” entre “nacionalistas” (os neonazis) e “separatistas” (pessoas que reuniam assinaturas para um referendo sobre uma Ucrânia federal).
O New York Times enterrou a história tratando como propaganda russa os avisos sobre a política fascista e antissemita dos novos clientes de Washington. O Wall Street Journal acusou as vítimas – “Fogo mortal na Ucrânia provavelmente ateado pelos rebeldes, segundo o governo”. Obama felicitou a junta pela sua “contenção”.
Se Putin tem caído na provocação vindo em sua ajuda, o seu estatuto de “pária” no Ocidente justificaria a mentira de que a Rússia estava a invadir a Ucrânia. A 29 de Janeiro, o comandante-chefe militar da Ucrânia, general Viktor Muzhemko, quase que inadvertidamente rejeitou a justificação para as sanções americanas e europeias à Rússia quando enfaticamente afirmou numa conferência de imprensa: “O exército ucraniano não está a combater contra unidades regulares do exército russo”. Houve “cidadãos individuais” que eram membros de “grupos armados ilegais”, mas não houve qualquer invasão russa. Nada disto veio nas notícias. Em contrapartida, Vadim Prystaiko, ministro dos Estrangeiros de Kiev, apelou para a “guerra em toda a escala” contra uma Rússia detentora de armamento nuclear.
A 21 de Fevereiro, o senador James Inhofe, um republicano de Oklahoma, introduziu um projecto de lei autorizando o envio de armas americanas para o regime de Kiev. Na apresentação ao Senado, Inhofe utilizou fotografias que afirmou serem de tropas russas infiltrando-se na Ucrânia, mas que há muito foram denunciadas como falsas. Faz lembrar as fotografias falsas de Ronald Reagan da instalação soviética na Nicarágua e a prova falsa apresentada por Colin Powell na ONU sobre as armas de destruição massiva no Iraque.
A intensidade da campanha de calúnias contra a Rússia e o retrato do seu presidente como um vilão de pantomima não se parece com nada que eu tenha visto até agora como repórter. Robert Parry, um dos mais distintos jornalistas de investigação, que revelou o escândalo Irão-Contra, escreveu recentemente: “Nenhum governo europeu desde a Alemanha de Adolf Hitler tinha ousado enviar tropas de choque nazis contra a população do próprio país, mas o regime de Kiev fê-lo e fê-lo à descarada. Contudo, em todo o espetro mediático e político do Ocidente houve um cuidadoso esforço por esconder esta realidade, chegando ao ponto de ignorar factos bem estabelecidos. … Se nos perguntarmos como é que o mundo se pode precipitar numa 3ª guerra mundial, tal como aconteceu com a 1ª há um século, basta olhar para a loucura no que se refere à Ucrânia que se mostra impermeável aos factos ou à razão.”
Em 1946, o procurador do Tribunal de Nuremberga disse para os media alemães: “O uso que os conspiradores nazis fizeram da guerra psicológica é bem conhecido. Antes de cada grande agressão, com as poucas exceções que dependiam sobretudo da rapidez, iniciavam uma campanha de imprensa planeada para enfraquecer as suas vítimas e preparar psicologicamente o povo alemão para o ataque. … No sistema de propaganda do estado hitleriano, as armas mais importantes eram a imprensa diária e a rádio.”
No Guardian de 2 de Fevereiro, Timothy Garton-Ash apelou de facto para uma guerra mundial. “Putin tem que ser parado”, dizia o título. “E por vezes, só os canhões conseguem calar os canhões.” Admitiu que a ameaça de guerra podia “alimentar uma paranoia de acossado russa”, mas isso não teria importância. Fez a lista do equipamento militar necessário para o trabalho e preveniu os seus leitores que “a América tem o melhor kit.”
Em 2003, o professor de Oxford Garton-Ash repetiu a propaganda que conduziu à matança no Iraque. Escreveu ele que Saddam Hussein “tem armazenadas, conforme [Colin] Powell documentou, grandes quantidades de horríveis armas químicas e biológicas e esconde o que resta delas. Tenta ainda obter armas nucleares.” Elogiou Blair como um “gladstoniano, um intervencionista liberal cristão”. Escreveu em 2006 “Deparamo-nos agora com o próximo grande teste do Ocidente depois do Iraque: o Irão.”
Estas proclamações – ou, como Garton-Ash prefere, a sua “torturada ambivalência liberal” – não são atípicas naqueles da elite liberal transatlântica que fizeram um contrato de tipo faustiano. O criminoso de guerra Blair é o seu líder perdido. O Guardian, no qual a peça de Garton-Ash apareceu, publicou um anúncio de página inteira para um bombardeiro americano invisível. Numa imagem ameaçadora do monstro da Lockheed Martin estavam as palavras: “The F-35. GREAT for Britain” (“O F-35. ÓTIMO para a Grã-Bretanha”). Este “brinquedo” americano vai custar aos contribuintes britânicos 1,3 mil milhões de libras, tendo como antecedentes os anteriores modelos F e os massacres por eles perpetrados através do mundo. Em sintonia com esta publicidade, o editorial do Guardian pedia um aumento das despesas militares.
Uma vez mais, existe um propósito. Os mandantes do mundo não pretendem apenas a Ucrânia como uma base de mísseis, querem a sua economia. O novo ministro das Finanças de Kiev, Nataliwe Jaresko, é um antigo funcionário sénior do Departamento de Estado dos EUA encarregado do “investimento” no estrangeiro. Foi-lhe concedida à pressa a cidadania ucraniana.
Querem a Ucrânia pelo seu abundante gás: o filho do vice-presidente Joe Biden [governo de G.W. Bush – N.T.] está na administração da maior empresa ucraniana de petróleo, gás e fracking. Os fabricantes de sementes geneticamente modificadas, empresas como a infame Monsanto, querem o rico solo de cultura da Ucrânia.
Acima de tudo, querem o poderoso vizinho da Ucrânia, a Rússia. Querem balcanizar ou desmembrar a Rússia e explorar a maior fonte de gás natural da Terra. Á medida que o Ártico derrete, querem controlar o Oceano Ártico e as suas riquezas energéticas e a longa margem do Ártico. O seu homem em Moscovo costumava ser Boris Yeltsin, um bêbedo, que entregou a economia do país ao Ocidente. O seu sucessor Putin restabeleceu a Rússia como nação soberana e é esse o seu crime.
A responsabilidade do resto de nós é evidente. É identificar e expor as mentiras permanentes dos belicistas e jamais colaborar com eles. É fazer renascer os grandes movimentos populares que conduziu uma civilização frágil até aos modernos estados imperiais. Acima de tudo, é evitar a conquista de nós próprios: das nossas mentes, da nossa humanidade, do respeito por nós próprios. Se nos calarmos, a vitória sobre nós está garantida, anunciando-se um holocausto.
Fevereiro, 2015
John Pilger, jornalista com base em Londres, realizador e autor.
Tradução do original em Russia Today: Jorge Vasconcelos

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ALEMANHA EM VIAS DE GANHAR A I GUERRA MUNDIAL

2018-12-07
A chanceler alemã dando as cartas no jogo planetário
Jorge Fonseca de Almeida*,  especial para O Lado Oculto

A guerra é a continuação da política por outros meios
Carl von Clausewitz

Quando, a 5 de Julho de 1914, a Alemanha prometeu ajuda ao Império Austro-húngaro contra a Sérvia tinha plena consciência de que uma guerra à escala mundial se seguiria. Era um momento planeado. A Alemanha iniciava por mão alheia a I Grande Guerra.
Cem anos depois, a Alemanha está em vias de alcançar grande parte dos objetivos que então traçou para a guerra que preparara cuidadosamente.
Weltmacht oder niedergang (Poder Mundial ou Declínio)
E, de facto, logo que os austríacos declararam guerra à Sérvia (28 de Julho), os Alemães declararam guerra à Rússia (1 de Agosto) e pouco depois à França (3 de Agosto), ao mesmo tempo que iniciavam uma invasão em larga escala da Bélgica. No dia seguinte (4 de Agosto), o Reino Unido entrava na contenda. A I Guerra Mundial começava com o ribombar dos canhões e com os soldados alemães marchando em direção à França, mas envolvendo desde o início um largo conjunto de países. A Alemanha balançava, como o proclamava o slogan da época, entre o Poder Mundial e o Declínio (weltmacht oder niedergang).

Invasão da Bélgica pelas tropas alemães em Agosto de 1914
As grandes potências europeias, com os seus vastos impérios africanos e asiáticos, envolviam-se numa guerra imperialista que os povos europeus rejeitaram imediatamente.
Conhecem-se os detalhes do Conselho de Guerra entre o Imperador alemão e os seus chefes militares de 8 de Dezembro de 1912, em que a guerra foi planeada e decidida e em que os acontecimentos de Julho de 1914 foram previstos com grande detalhe (Röh, 1975). Nessa reunião, entre outros temas, decidiu-se: i) elaborar planos para a invasão do Reino Unido; ii) usar a imprensa para preparar a opinião pública para a necessidade da guerra; iii) uma acção diplomática de apoio ao Império Austro-húngaro junto da Roménia, Turquia e Bulgária no conflito com a Sérvia (Wilson, 1984).
Mas que objetivos estabelecia a Alemanha ao desencadear uma guerra mundial por um motivo aparentemente menor e que opunha o Império Austríaco à pequena Sérvia?
Que pretendiam o Imperador Guilherme II (1859-1941), neto da Rainha Vitória, o seu primeiro-ministro Theobald von Bethmann-Hollweg e o seu Chefe-de-estado-maior Paul von Hindenburg? Que pretendiam as elites económicas alemãs cujos interesses estes três personagens representavam?

Paul vom Hindenburg o cruel comandante-chefe das tropas alemãs
Nenhum país inicia uma guerra a esta escala sem definir claramente quais os seus objetivos estratégicos, quais as suas ambições territoriais, quais as vantagens políticas e económicas que pretende. Estes objetivos, nem sempre claramente enunciados por razões de segurança, estão sempre presentes na mente do agressor. Sem eles torna-se impossível conduzir a guerra.
Contudo, no caso alemão da I Guerra Mundial os objetivos são bem conhecidos porque Theobald von Bethmann-Hollweg os plasmou num documento conhecido por Septemberprogramm datado de Setembro de 1914. Naturalmente que à medida que a Alemanha enfrentava dificuldades no terreno esses objetivos iniciais sofreram alterações, encolhendo em ambição e cobiça. O que nos preocupa aqui, contudo, é recordar esses objetivos e determinar se foram alguma vez abandonados. 
Septemberprogramm
O que queriam então as elites alemãs? Basicamente:
i) Pequenos ganhos territoriais;
ii) A imposição de indemnizações de guerra;
iii) O estabelecimento de Estados vassalos;
iv) A criação de uma união aduaneira dos países da Europa Central que excluísse o Reino Unido e a Rússia.
Adicionalmente, alguns autores referem um outro objetivo esquecido no memorado de Setembro: o afastamento dos russos dos Balcãs.
Os ganhos territoriais de reduzida extensão referiam-se essencialmente a zonas militarmente importantes e incluíam uma pequena faixa na Bélgica e outra na França. Na Bélgica, desejavam a província do Luxemburgo, que seria entregue ao Grão-Ducado do Luxemburgo que seguidamente integrariam no Estado federado alemão. Note-se que, neste ultimo caso se tratava de território anteriormente pertencente ao Luxemburgo e ocupado pelos belgas; e recorde-se que o Luxemburgo já integrara o Zollverein, a União Aduaneira que esteve na base da unificação alemã sob controlo da Prússia, desde 1842.
No continente africano, os alemães queriam alargar as suas colónias à custa das colónias francesas contiguas. No Leste, desejavam alguns territórios russos, nomeadamente parte do que é hoje o Leste da Polónia, espaço que serviria para criar um novo Estado tampão entre a Alemanha e a Rússia – a Polónia.
As indemnizações de guerra incidiriam sobre a França.
A Holanda transformar-se-ia num país vassalo, conservando a sua independência e costumes, mas associada à Alemanha por laços fortes.
Quanto a afastar a Rússia dos Balcãs, essa tarefa estava destinada às forças conjuntas do Império Otomano e dos Austro-Húngaros, eventualmente ajudados pela Roménia e Bulgária.
A União Aduaneira da Europa Central constituía, no fundo, o principal objectivo. Aí entrariam a França, a Bélgica, a Holanda, a Dinamarca, a Áustria-Hungria, a Polónia, a Itália, a Suécia e a Noruega. Esta União Aduaneira era concebida para, mantendo uma fachada formalmente igualitária entre os países membros, assegurar e consolidar a supremacia alemã económica e militar sobre a Europa Central.
A União Aduaneira, integrando os principais países europeus com exceção da Rússia e do Reino Unido, seria o instrumento do poder alemão na Europa e uma forma de replicar a absorção pela Prússia de todos os Estados, Principados e Bispados alemães e de os unificar na Federação Alemã.
Derrota e ressurgimento

A entrada dos Estados Unidos na guerra veio acelerar a derrota alemã; a Alemanha assina o armistício em Novembro de 1918, depois de os Impérios Otomano e Austro-húngaro se terem rendido.
Os americanos impõem o programa em 14 pontos do Presidente Wilson, que destrói todas as esperanças de dominação alemã. O tratado de Versailles sela a derrota germânica.
Contudo, duas décadas depois, os alemães regressam à guerra desta vez sob o comando de Hitler que, na sua loucura, acrescentou um novo objetivo: expulsar os judeus.
Os velhos objetivos ressurgem. Nova derrota política e militar, desta vez às mãos de americanos e soviéticos. De novo o sonho da Mitteleuropa parece acabado ou … talvez não …
Balcãs, União Aduaneira, Brexit e Federalismo europeu
Se pensarmos nos objetivos alemães enunciados por Bethmann-Hollweg verificamos que a Alemanha está prestes a atingi-los na totalidade.
A guerra dos Balcãs, com a desagregação da Jugoslávia, afastou os russos desta zona da Europa, permitindo à Alemanha absorver, via União Europeia, a Croácia e a Eslovénia e preparando-se para engolir o que falta: a Bósnia, o Montenegro, a Sérvia e a Macedónia. Este objetivo está basicamente alcançado, ainda que faltem alguns passos mais formais do que substanciais.
A estreita colaboração com a Holanda está assegurada, sendo este país um fiel seguidor das teses alemãs em todas as frentes, nomeadamente na imposição da austeridade que desarticula as economias periféricas e as integra cada vez mais na economia alemã. Segundo objetivo obtido.
As indemnizações francesas foram conseguidas com o perdão das dividas alemães obtido nos anos 50, e que significou que a França e os outros aliados acabaram por suportar não só o seu próprio esforço de guerra como também o alemão. O acordo foi assinado em Londres, em 1953, e limitou o pagamento a 3% das receitas de exportações e determinou que a Alemanha só pagaria nos anos em que obtivesse uma balança comercial positiva. Muito melhor do que qualquer indemnização. Não só pagava com o dinheiro dos outros (3% das receitas de exportação) como criava um forte incentivo nos outros países a importar da Alemanha. Assim nasceu o milagre alemão. Objetivo largamente ultrapassado.
A criação de uma união aduaneira firmemente liderada pela Alemanha que excluísse o Reino Unido e a Rússia fica concluída com o Brexit. A dominação alemã é evidente, e sem o Reino Unido será indiscutível. O Federalismo, replicando a construção alemã sob Bismark, cada vez mais firme, com a concentração do poder em Bruxelas, permite à Alemanha controlar resolutamente os restantes países da União Europeia.
Hoje Estados soberanos como a Grécia, Portugal ou a Itália têm de submeter o seu orçamento à aprovação europeia/alemã, sujeitando-se a sanções se não quiserem seguir as regras alemãs. O exército europeu será o último passo para a construção de uma Federação em que os Estados nacionais serão apenas Estados Federados sem poder nenhum. A vitória neste campo parece total. A União aduaneira foi criada e estamos na fase já mais adiantada de absorção dos restantes Estados. Objectivo plenamente atingido.

A Alemanha não conseguiu ganhos territoriais é certo, mas este constituía, como vimos, o menos importante de todos os objetivos. Mas também é certo que a Polónia nasceu com território perdidos pelos Impérios Austro-húngaro e Russo, e constitui-se como Estado tampão entre a Alemanha e a Rússia. Uma meia vitória. 
Quanto aos judeus, que constituíam uma minoria significativa na Alemanha antes de 1930, hoje reduzem-se a pouco mais de 100 mil numa população de mais de 80 milhões de habitantes. Nada. Objetivo alcançado.
Desta perspectiva, a Alemanha, com o acordo do Brexit, alcança todas as metas que visava com a I Grande Guerra. A guerra esgotou-se, terminou agora e a vitória alemã é total.
Conclusões
A Alemanha planeou e preparou a I Grande Guerra procurando alcançar um conjunto de objetivos estratégicos de caracter económico, político e militar. Essas metas estão claramente definidas no memorando, conhecido como Septemberprogramm, escrito pelo seu primeiro-ministro Bethmann-Hollweg.
Entre os objetivos traçados avultava a criação de uma União Aduaneira que integrasse os vários países europeus, nomeadamente a França, mas que excluísse o Reino Unido e a Rússia.  Outras pretensões passavam por pequenos ganhos territoriais, a transformação da Holanda num Estado vassalo e a imposição de indemnizações de guerra à França. Adicionalmente, alguns autores identificam uma outra ambição: afastar a Rússia dos Balcãs.
Derrotada em 1918 a Alemanha rearmou-se e regressou aos campos de batalha em 1939, sendo novamente esmagada militarmente.
No entanto, ao analisarmos a situação hoje, 100 anos depois do início da I Guerra Mundial, verificamos que a Alemanha conseguiu atingir todos os objetivos a que se propôs. Na realidade ela é a grande vencedora da I e da II Guerra Mundial, estando prestes a unificar a Europa sob a sua dominação através de um Estado Federal, a União Europeia.
E se a guerra, como ensina Carl von Clausewitz, é a continuação da política por outros meios, o que interessa são os objetivos a alcançar quer por via diplomática, económica ou militar. A Alemanha duas vezes militarmente derrotada consegue, por outros meios, impor a sua vontade na Europa, unificando o continente sob a sua batuta.
O Brexit, o exército europeu, a centralização orçamental são os passos finais para a instauração de um Federalismo absoluto completamente dominado pela Alemanha.
Em contrapartida, a França surge como a grande derrotada e o Reino Unido, aparentemente isolado na Europa, parece momentaneamente incapaz de se opor à dominação germânica.
Aproximam-se tempos tenebrosos.



Referências
Bethmann Hollweg Denkschrift (1914), Memorandum de 9 de September, Bundesarchiv-Lichterfelde, Reichskanzlei, Grosses Hauptquartier 21, No. 2476
Crampton, R. J. (1977) “The Balkans as a Factor in German Foreign Policy, 1912-1914”, The Slavonic and East European Review, Volume 55, Número 3, pp. 370-390
Löffelbein, Nils (xxxx),War Aims and War Aims Discussions (Germany), [online] https://encyclopedia.1914-1918-online.net/article/war_aims_and_war_aims_discussions_germany, acedido a 2 de Dezembro 2018
Moses, John A. (1968), “The War Aims of Imperial Germany: Professor Fritz Fischer and his Critics”, University of Queensland Papers, Volume 1, Número 4, pp 209-260
Röh, John C. (1973), 1914: Delusion or Design, Nova Iorque, HarperCollins Distribution Services
Wilson, Keith M. (1984), “The British Démarche of 3 and 4 December 1912: H. A. Gwynne's Note on Britain, Russia and the First Balkan War”, The Slavonic and East European Review, Volume 62, Número 4, pp. 552-559
*Economista; MBA
in O Lado Oculto site de notícias por adesão

5 de dezembro de 2018


Smartphones

Por trás do ataque USA aos smartphones chineses

A tentativa de reequilíbrio do fluxo comercial sino-americano de Donald Trump, não corresponde unicamente à sua vontade de fazer regressar aos Estados Unidos os empregos deslocalizados. Com efeito, a instalação de novas infraestruturas de transporte e de comunicação está a ameaçar, rapidamente, a posição de liderança dos Estados Unidos no mundo. O braço de ferro em volta da Huawei ilustra como se associam as preocupações económicas e militares. Vários Estados já observaram que, de momento, Washington não pode descodificá-los. Como acontece na Síria, eles apetrecharam totalmente os seus serviços secretos, com componentes eletrónicos da Huawei e proibiram os seus funcionários de utilizar outros.
Depois de ter imposto pesadas tarifas aduaneiras sobre as mercadorias chinesas atingindo 250 biliões de dólares, o Presidente Trump no G-20, aceitou uma “trégua”, adiando outras medidas imediatas, sobretudo, porque a economia USA está a ser atingida pela retaliação chinesa. Mas, para além dos pretextos comerciais, existem as razões estratégicas.
Sob a pressão do Pentágono e das agências de serviços secretos, os USA proibiram os smartphones e as infraestruturas de telecomunicações da empresa chinesa Huawei, sob a acusação de que podem ser usadas para espionagem e pressionam os aliados para que façam o mesmo. Advertem, sobretudo, a Itália, a Alemanha e o Japão, países com as bases militares USA mais importantes, e sob perigo de espionagem chinesa estão as mesmas agências de serviços secretos USA que devassaram, durante anos, as comunicações dos aliados - em particular, a Alemanha e a Itália. A Apple americana, em tempos, líder absoluta do sector, foi superada nas vendas pela Huawei (a propriedade desta empresa pertence aos funcionários, na qualidade de accionistas), elevada ao segundo lugar na classificação mundial, atrás da Samsung sulcoreana, o que representa uma tendência geral.
Os Estados Unidos - cuja supremacia económica se baseia artificialmente sobre o dólar, até agora, a principal moeda das reservas monetárias do comércio mundial – estão, cada vez mais, a ser ultrapassados pela China, quer na capacidade, quer na qualidade produtiva. “O Ocidente - escreve o ‘New York Times’ - estava confiante de que a aproximação chinesa não funcionaria. Tiveram só de esperar e ainda estão a aguardar. A China projecta uma vasta rede global de comércio, investimentos e infraestruturas que remodelarão os vínculos financeiros e geopolíticos”. Isto verifica-se, especialmente, mas não só, ao longo da Nova Estrada da Seda, que a China está a concretizar em 70 países da Ásia, Europa e África.
O ‘New York Times’ examinou 600 projectos efectuados pela China em 112 países, entre os quais: 
- 41 oleodutos e gasodutos; 
- 199 centrais, sobretudo, hidreléctricas (entre as quais, sete barragens no Camboja que fornecem a metade das necessidades de eletricidade do país); 
- 203 pontes, estradas e ferrovias, além de vários portos importantes no Paquistão, no Sri Lanka, na Malásia e noutros países.
Tudo isto é considerado em Washington, como uma “agressão aos nossos interesses vitais”, como sublinha o Pentágono na “Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos da América, em 2018”. O Pentágono define a China como “competidor estratégico que usa uma economia predatória para intimidar os seus vizinhos”, esquecendo-se da série de guerras conduzidas pelos Estados Unidos e, também contra a China, até 1949, para saquear os países dos seus recursos. Enquanto a China constrói barragens, ferrovias e pontes úteis não só à sua rede comercial, mas também ao desenvolvimento dos países em que são produzidos, nas guerras USA, as barragens, as ferrovias e as pontes, são os primeiros alvos a ser destruídos.
A China é acusada pelo Pentágono de “querer impor a curto prazo, a sua hegemonia na Região do Índico-Pacífico e de querer apanhar de surpresa os Estados Unidos para, no futuro, alcançar a predominância global”, em conjunto com a Rússia, acusada de querer “fragmentar a NATO” e “sublevar os processos democráticos, na Crimeia e na Ucrânia Oriental”. Daí o “incidente” no Estreito de Kerch, causado por Kiev sob a direcção do Pentágono, para interromper a reunião Trump-Putin na Cimeira do G-20 (como aconteceu) e fazer entrar a Ucrânia na NATO, da qual já é um membro de facto. A “competição estratégica a longo prazo com a China e com a Rússia” é considerada, pelo Pentágono, como sendo a “ principal prioridade”. Para este fim, “modernizaremos as forças nucleares e reforçaremos a Aliança transatlântica da NATO”.
Por trás da guerra comercial, prepara-se a guerra nuclear.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Partido Comunista do México (PCM)
No México não há qualquer mudança, não te deixes enganar; enquanto o capitalismo continuar, a situação será a mesma para nós: exploração, desemprego, fome, miséria, morte, ao mesmo tempo que a burguesia e os seus monopólios continuarão a acumular riqueza, aumentando as suas fortunas à custa de nossa vida e do nosso trabalho.

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À classe operária,
Trabalhadores e trabalhadoras,
Jovem trabalhador, jovem desempregado,
Mulher trabalhadora,
No México não há qualquer mudança, não te deixes enganar; enquanto o capitalismo continuar, a situação será a mesma para nós: exploração, desemprego, fome, miséria, morte, ao mesmo tempo que a burguesia e os seus monopólios continuarão a acumular riqueza, aumentando as suas fortunas à custa de nossa vida e do nosso trabalho.
É isso o que significa o governo de López Obrador, que se inicia no primeiro dia de dezembro: a continuidade do capitalismo, a continuidade da exploração, a continuidade do poder dos monopólios. Desde que foi governador da cidade do México e nas suas anteriores campanhas (2006 e 2012), nas plataformas políticas que foi apresentando, deixou claro o que procura e, por isso, tem um relacionamento muito sólido com os patrões, com os empresários, com os senhores dos monopólios, isto é, a classe dos capitalistas que domina e governa este país – antes, através do PRI e PAN e, agora, com a cara do MORENA [1]. O que é bom para os capitalistas não é bom para os trabalhadores.
Os interesses dos trabalhadores e os dos burgueses, que López Obrador hoje representa, são antagónicos, irreconciliáveis; mas, para manter o poder, procuram fazer-nos  acreditar que temos interesses comuns, que a “unidade nacional” é o principal. Porém, não é assim, o principal é a luta de classes e para que haja verdadeiras e radicais mudanças neste país, precisamos de derrubar os burgueses, instalando o poder dos trabalhadores, o poder operário. Precisamos de nos organizar e lutar, por isso, é importante esclarecer que no país não há nenhuma mudança, que a luta continua...
Apelamos à luta de classe contra classe, desde o primeiro minuto, contra o governo da nova social-democracia encabeçado por López Obrador e, por essa razão, à nossa mobilização no primeiro de dezembro:
  • Contra o novo Tratado de Livre Comércio promovido por Trump e que Peña Nieto e López Obrador apoiaram. O USMCA [2] beneficia os monopólios do Canadá, EUA e México e prejudica os trabalhadores dos três países.
  • Contra as Zonas Económicas Especiais, que são a desapropriação de terras e territórios, ataques às comunidades indígenas, destruição do meio ambiente, precarização do trabalho.
  • Pelo trabalho com direitos laborais, escala móvel de salários, acordos coletivos, direito à sindicalização e autonomia dos sindicatos. Empregos dignos para a juventude, porque o trabalho é um direito e não é uma esmola nem trabalho desvalorizado para os patrões.
  • O regresso do Exército aos quartéis e o castigo dos responsáveis ​​pelos crimes políticos cometidos no país. Pelo cancelamento da Guarda Nacional e da nova política de segurança nacional, que continua a militarização e a repressão.
  • Pela liberdade dos presos políticos e justiça para os nossos mortos e desaparecidos.
  • Apresentação, com vida, do camarada Enrique López, desaparecido em Tampico, e justiça para os camaradas Raymundo, Samuel e Miguel, assassinados em Guerrero.
Nenhuma ilusão sobre o governo burguês de Obrador, lutemos para mudar a sociedade e construir o novo mundo dos trabalhadores.
Vemo-nos no primeiro de dezembro, às 13:00, no Jardim de San Carlos, no bairro de Tabacalera, na cidade do México, para marchar contra o governo dos capitalistas.
Proletários de todos os países, uni-vos!
A Comissão Política do Comité Central

Notas
[1] PRI: Partido Revolucionário Institucional – PAN: Partido da Ação Nacional – MORENA: Movimento Regeneração Nacional. – [NE]
[2] United States–Mexico–Canada Agreement (USMCA) [Acordo Estados Unidos – México – Canadá]. –  [NE]


Tradução do castelhano de PAT

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018


Nova teoria poderá explicar os 95% de matéria invisível do universo

ESA / Hubble & NASA

Modelo teórico agora proposto produz também as primeiras previsões corretas do comportamento dos chamados “halos de matéria negra”, conceito que explica como as galáxias se mantêm coesas apesar da sua extrema velocidade de rotação, que deveria gerar forças capazes de as desagregar

Cientistas da universidade de Oxford poderão ter resolvido um dos maiores mistérios da física moderna, com uma teoria que propõe a unificação da 'matéria negra' e da 'energia negra' num novo fenómeno, um fluído caracterizado por ter "massa negativa".
De acordo com a nova teoria, exposta num artigo publicado nesta quarta-feira no boletim científico Astronomia e Astrofísica por Jamie Farnes, professor no departamento de engenharia científica da universidade britânica, o conceito de 'massa negativa' é descrito com a imagem de que se essa massa for empurrada irá acelerar no sentido inverso (negativo) ao da força sobre ela exercida. Segundo o artigo, esta nova perspetiva da composição do universo poderá também comprovar uma previsão teórica feita por Albert Einstein há 100 anos.
O modelo conceptual do Universo - denominado LambdaCDM - sobre o qual assenta a Física teórica atual postula que a totalidade da matéria visível (galáxias, planetas e todos os corpos celestes e poeiras estelares) representa apenas 5% da matéria e energia realmente existentes, com os 95% desconhecidos a serem classificados como 'matéria negra' e 'energia negra'. Mas o modelo LambdaCDM não esclarece as características físicas dessa matéria e energia desconhecidas e invisíveis, cuja existência é postulada apenas a partir dos efeitos gravitacionais que exercem sobre a matéria observável.
"Pensamos agora que a 'matéria negra' e a 'energia negra' podem ser unificadas num fluído com 'gravidade negativa' que, em vez de atrair, repele toda a matéria em seu redor. Apesar de esta matéria ser conceptualmente estranha, sugere que o universo tem um equilíbrio, uma simetria entre forças positivas e negativas", diz Jamie Farnes no artigo.
O modelo teórico agora proposto produz também as primeiras previsões corretas do comportamento dos chamados "halos de matéria negra", conceito que explica como as galáxias se mantêm coesas apesar da sua extrema velocidade de rotação, que deveria gerar forças capazes de as desagregar. Os modelos teóricos vigentes recorrem à figura dos halos de matéria negra, que ao envolverem as galáxias as mantêm estáveis.
Na investigação publicada hoje, os cientistas criaram um modelo matemático de simulação em computador das propriedades da 'massa negativa' que foi capaz de prever a formação de halos de matéria negra consistente com aqueles cuja existência em torno das galáxias é inferida através de observações com radiotelescópios.

A gafe que não o foi

Albert Einstein sugeriu pela primeira vez a existência de matéria indetetável no universo em 1918, há precisamente 100 anos, quando descobriu nas suas equações um parâmetro a que chamou a 'constante cosmológica', que hoje é designada como 'matéria negra'. Numa afirmação que se tornou famosa, Einstein considerou a constante cosmológica a sua "maior gafe", mas observações astrofísicas modernas comprovaram que se trata de um fenómeno real.
Em apontamentos datados de 1918, Einstein descreveu a constante cosmológica escrevendo que "uma modificação da teoria é necessária para que a noção de 'espaço vazio' ocupe o lugar de massas gravitacionais negativas distribuídas por todo o espaço interestelar". Os físicos teóricos atuais veem na afirmação uma indicação de que o próprio Einstein considerava a existência de um universo onde a ausência de matéria seria preenchida por 'massa negativa'.
Jamie Farnes escreve no artigo publicado no boletim Astronomia e Astrofísica que "abordagens anteriores combinando 'energia negra' e 'matéria negra' tentaram modificar a Teoria Geral da Relatividade de Einstein, o que se provou extremamente difícil".
"A nova abordagem parte de duas ideias antigas comprovadamente compatíveis com a teoria de Einstein - massas negativas e criação de matéria - e combina-as. E o resultado tem uma 'beleza teórica' assinalável: 'energia negra' e 'matéria negra' podem ser unificadas numa única substância, gerando uma imagem do universo em que a matéria de massa positiva (a matéria convencional) flutua e 'surfa' num oceano de 'massa negativa'", explica.
A nova teoria é um edifício conceptual, mas os investigadores consideram que poderá ser comprovada na prática através de observações e experiências que virão a ser realizadas pelo futuro radiotelescópio designado SKA (Square Kilometre Array), um projeto internacional - em que Portugal participa através do Instituto de Telecomunicações e das universidades do Porto, de Aveiro, de Coimbra, de Évora e de Lisboa e do Instituto Politécnico de Beja - para construir o maior radiotelescópio do mundo, com 2.500 antenas e capacidade para recolher dados de 40% do céu em cada observação.
"Ainda há muitas questões teóricas para serem trabalhadas e muitas simulações de computador para realizar, e o modelo LambdaCDM tem 'um avanço' de 30 anos (em relação ao modelo agora proposto), mas se esta nova teoria for validada por observações, o mistério dos indetetáveis 95% da matéria e energia que constituem o universo terá uma solução 'estética': tínhamo-nos simplesmente esquecido de incluir nas equações um simples sinal menos", conclui Jamie Farnes.

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