Pacto de agressão ou memorando de ajuda?
por Daniel Vaz de Carvalho
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"Há duas maneiras de submeter e escravizar uma nação, uma é pela espada a outra é pela dívida"; "a dívida é uma arma contra os povos, os juros são as munições". John Adams, 1735-1826, 2º presidente dos EUA (citado por John Perkins em "Confessions of an economic hitman")
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 Comentadores, deputados da maioria e do PS (os apoiantes da troika) falam em "memorando de ajuda", "resgate de ajuda" e ficam muito incomodados, por vezes têem tremuras de indignação, quando ouvem falar em "pacto de agressão". Talvez possam ser pruridos de má consciência.
Para eles a verdade oficial não é para ser contestada nem posta em dúvida. Será por conformismo? Por seguidismo oportunista? Ficaremos no grau zero do pensamento político, equivalente ao medieval domínio da escolástica e dos seus anátemas, se não colocarmos a questão nos seus fundamentos de cultura crítica: agressão ou ajuda?
Vejamos, quando a Alemanha nazi se rendeu aos aliados a sua dívida teve condições de baixo juro, longo prazo (mais de 30 anos, renegociáveis), serviço de dívida de 5% das exportações. A grande indústria e sectores estratégicos (energia, telecomunicações, transportes fundamentais) ficaram nas mãos do Estado. Em 1982, na RFA, o sector empresarial do Estado representava ainda 12,5% do VAB de todas as empresas.
Isto está nos antípodas das exigências da troika.
A Alemanha nazi e seus aliados fascistas (o Eixo) invadiram países, destruíram infraestruturas, massacraram populações, pilharam riquezas, impuseram governos colaboracionistas, instituíram um banco (o Reichbank) que tinha a seu cargo, a partir de uma moeda única para transações entre os países, organizar o processo de extorsão.
Hoje o BCE tem papel idêntico: a extorsão dos países fragilizados por tratados iníquos e antidemocráticos que governos irresponsáveis, colaboracionistas e que mentiram ao seus povos, aprovaram.
Comparemos então em que consiste a agressão a um país e ao seu povo com o pacto da troika.
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AGRESSÃO / OCUPAÇÃO
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PACTO DA TROIKA
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| Rendição incondicional | O pacto é considerado inegociável pelo governo. |
| Imposto um governo fiel executante das imposições do agressor | O governo considera que o pacto é para cumprir custe o que custar |
| Parte relevante da atividade produtiva foi destruída ou encontra-se inoperativa | Parte relevante da atividade produtiva encontra-se parada ou funcionando em condições precárias devido às condições impostas |
| O país fica submetido a autoridades de ocupação com direito de sancionarem as suas políticas | O governo está submetido a avaliação permanente das autoridades da troika quanto ao cumprimento do pacto, podendo ser sancionado. |
| O país atravessa grave crise económica e social | O país atravessa grave crise económica e social, profunda recessão e permanente estagnação. |
| Grande número de pessoas foram liquidadas perderam-se para a vida ativa (mortas, feridas, prisioneiras) | Grande número de pessoas perderam-se para a vida ativa devido ao desemprego generalizado, de longa duração e sem esperança de se reduzir. |
| Os direitos dos cidadãos encontram-se restringidos. | Os direitos e apoios sociais (educação, saúde, etc) são cada vez mais restringidos. O código laboral configura traços fascizantes tentando mesmo eliminar ou sobrepor-se à negociação coletiva. |
| A vida cultural decai, a pobreza alastra, o pensamento independente é reprimido por se opor aos agressores. | A vida cultural decai, a pobreza alastra, o pensamento independente é marginalizado ou reprimido por se opor ao pacto. |
| A economia é posta a funcionar segundo os interesses do agressor. | A economia é posta a funcionar segundo o definido no pacto. Empresas e património público são postos em condições de serem absorvidos pelo grande capital estrangeiro ou a este associado. |
| O Estado não está autorizado a estabelecer uma política económica. | O Estado segundo o pacto não pode interferir no livre movimento de capitais nem influir na gestão ou controlo das empresas em que seja acionista e deve alienar as suas participações |
| A função do governo é sobretudo manter a "ordem" estabelecida pelo agressor e garantir a exploração do povo sem constrangimentos. | O governo deve garantir a "ordem" estabelecida pelo pacto, assegurar a moderação salarial e eliminar direitos laborais. Situação definida como "pacote de exploração". |
| O essencial da economia é ser orientada para a exportação de acordo com as necessidades e os interesses do agressor e nas suas condições de troca desigual. | A economia está a ser orientada para a exportação de acordo condições do pacto e tratados que as potências dominantes impõem. As exportações baseadas em mão-de-obra barata e sem direitos representam troca desigual. |
| A democracia, se formalmente existente, é mera fachada da opressão. O governo esforça-se prioritariamente por merecer a confiança do agressor. | A democracia torna-se uma formalidade como fachada para impor o pacto; é reduzida às suas expressões mais simples. São instaurados sistemas de opressão (censura, marginalização) para garantir vinculação ao pacto, "darmos credibilidade" e "merecer a confiança dos mercados". |
| O agressor impõe deslocações massivas de mão-de-obra barata para a colocar vantajosamente ao seu serviço | As condições de vida em consequência do pacto (e seus prolegómenos: PEC, tratados UE) impõem a emigração massiva, aliás explicitamente fomentada pelo governo de gestão do pacto (40 mil pessoas nos primeiros seis meses de 2012). |
| Doses massivas de propaganda são promovidas para intoxicação da opinião pública justificando agressão. É instituída a censura. | Doses massivas de propaganda são promovidas para intoxicação da opinião pública justificando o pacto. É instituída a censura camuflada com o epíteto de "critério editorial". |
| É estabelecida uma aliança com os colaboracionistas, promovidos a elite política, económica e social. | É estabelecida uma aliança com os mentores e apoiantes e colaboracionistas do pacto colocados ao seu serviço e promovidos a elite política, económica e social. |
| Desde o fim da 1ª guerra mundial os agressores têm tido invariavelmente como justificação ideológica o anticomunismo e a imposição do "mercado livre". | O pacto tem como justificação ideológica o anticomunismo e o "mercado livre". |
| A Constituição é suspensa substituída pelas diretivas do agressor. | As diretivas do pacto sobrepõem-se à Constituição. |
| O governo é mero fantoche cujo objetivo prioritário é drenar riqueza para as potências agressoras. | O governo é mero fantoche cujo objetivo prioritário é drenar riqueza para as potências representadas no pacto… obviamente de agressão. |
O pacto da troika atua como a bomba de neutrões que eliminava pessoas sem destruir edifícios. Neste caso as pessoas são eliminadas da vida ativa do país, pela pobreza, desemprego, marginalização, emigração massiva; as instalações ficam à mercê dos predadores que agem na esteira da agressão.
Dizem-nos a todas as horas que não havia – nem há – outra solução senão o pacto da troika. Mas este foi o argumento dos Petain, Laval, Quisling e outros nomes por demais repugnantes.
Outros foram os argumentos dos resistentes que lutaram contra a agressão aos seus países e venceram. Outros foram os argumentos de De Gaulle, Moulin, Vercors, Rochet, Togliatti (cito de cor) e tantos outros que a História venera e não merecem ser esquecidos.
Há de novo uma guerra europeia conduzida pela Alemanha, consequência direta do fim da RDA, que hoje se verifica ter sido essencial para a defesa dos interesses dos povos da Europa e da soberania dos países mais frágeis.
A ambição alemã de colocar a Europa a funcionar segundo os seus interesses de potência hegemónica teve, tal como no passado, a colaboração de governos completamente desacreditados traindo promessas e compromissos com seus povos. Porém, a Alemanha está a perder a guerra da globalização esquecendo, tal como os EUA, que a História mostra que o destino das nações agressoras foi sempre destruírem-se também a si próprias.
A UE está em desagregação, fala a várias vozes, a sua moeda única tem futuro mais que incerto, os tratados estão completamente desajustados das realidades, resta a repressão e o aumento da exploração para manter o domínio neoliberal ao serviço de uma finança predadora, usurária, corrupta, mas que tem ao seu serviço políticos incompetentes e sem palavra.
A compreensão de que estamos sujeitos a um pacto de agressão não é figura de retórica ou propaganda política, é uma base essencial para estabelecer um processo de recuperação da soberania e da democracia.
A ligação e a tomada de posições comuns entre países sujeitos a idênticos processos é também essencial. Os agressores fazem tudo para o evitar. O lema imperialista sempre foi: dividir para reinar.
A compreensão de que o nosso país, tal como outros em situação idêntica, é vítima de uma agressão externa é imediatamente compreensível se atentarmos no que será necessário realizar para a recuperação económica e social. Neste momento o país encontra-se com a indústria, a agricultura, as pescas, em processo de destruição e os serviços sociais a serem desmantelados. A sua recuperação vai exigir esforços não diferentes da reconstrução de um país que tivesse suportado uma agressão militar.
Essa reconstrução terá de ser e será feita, mas só poderá ser levada a cabo por forças consequentemente patrióticas e progressistas
Patrióticas, pois porão os interesses da sua Pátria acima de todos os outros incluindo diferenças ideológicas. Progressistas, pois colocarão os interesses e a felicidade de todo o povo acima dos interesses da oligarquia monopolista e especuladora, não se confundindo nem estabelecendo consensos com mercenários de interesses espúrios e estrangeiros ou com sicofantas e fala-baratos que tenham colaborado na desgovernação do país.
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