segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Opinião de Manuel António Pina (Jornal de Notícias)

O "essencial" e é um pau


00h32m



A afirmação do actual ministro da Educação de que o "princípio geral" que presidirá à "sua" reforma curricular do ensino básico e secundário é o de que "é necessário concentrar nas disciplinas essenciais" constitui todo um programa ideológico.



Deixando de lado o obsessão de todo o bicho-careta que chega a ministro da Educação em Portugal em "reformar" mais uma vez os curricula escolares, tornando o ensino num laboratório de experiências educativas e os alunos em cobaias que se usam e deitam fora na próxima "reforma", tudo com os resultados que se conhecem, a opção por um ensino público limitado a "disciplinas essenciais" segue fielmente a rota ideológica do "saber ler, escrever e contar" de Salazar.



Falta apurar o que o ministro entenderá por "essencial", mas outras medidas que tem tomado, como triplicar o valor dos cortes na Educação pública previsto no acordo com a "troika" enquanto financiava generosamente os colégios privados, levam a crer que o programa de empobrecimento anunciado por Passos Coelho é mais vasto do que parece. E que, além do empobrecimento económico das classes médias e mais desfavorecidas, está simultaneamente em curso o seu empobrecimento educativo.



Para a imensa maioria que não tem meios para pôr os filhos em colégios privados (que, no entanto, financia com os seus impostos), o "essencial" basta. Mão-de-obra menos instruída é mão-de-obra mais barata. E menos problemática.

domingo, 30 de outubro de 2011

Das guerras do ópio às guerras do petróleo

por Domenico Losurdo

"A morte de Kadafi é uma viragem histórica", proclamam em coro os dirigentes da NATO e do Ocidente, sem se incomodarem sequer em guardar distâncias em relação ao bárbaro assassinato do líder líbio e das mentiras desavergonhadas que proferiram os chefes dos "rebeldes". Sim, efectivamente trata-se de uma viragem. Mas para entender o significado da guerra contra a Líbia no âmbito do colonialismo é preciso partir de longe...



Quando em 1840 os navios de guerra ingleses surgem diante das costas e das cidades chinesas, os agressores dispõem de um poder de fogo de milhares de canhões e podem semear destruição e morte em grande escala sem temer a artilharia inimiga, cujo alcance é muito reduzido. É o triunfo da política das canhoneiras: o grande país asiático e sua civilização milenar são obrigados a render-se e começa o que a historiografia chinesa denomina acertadamente como "o século das humilhações", que termina em 1949 com a chegada ao poder do Partido Comunista e de Mao Zedong.



Nos nossos dias, a chamada Revolution in Military Affairs (RMA) criou em muitos países do Terceiro Mundo uma situação parecida com a que a China enfrentou no seu tempo. Durante a guerra contra a Líbia de Kadafi, a NATO pôde consumar tranquilamente milhares de bombardeamentos e não só não sofreu baixas como sequer correu o risco de sofre-las. Neste sentido a força militar da NATO, mais do que um exército tradicional, parece-se a um pelotão de execução. Assim, a execução final de Kadafi, mais do que um facto causal ou acidental, revela o sentido profundo da operação em conjunto.



É algo palpável: a renovada desproporção tecnológica e militar reaviva as ambições e as tentações colonialistas de um Ocidente que, a julgar pela exaltada auto-consciência e falsa consciência que continua a ostentar, nega-se a saldar contas com a sua história. E não se trata só de aviões, navios de guerra e satélites. Ainda é mais clara a vantagem com que Washington e seus aliados podem contar em capacidade de bombardeamento mediático. Também nisto a "intervenção humanitária" contra a Líbia é um exemplo de manual: a guerra civil (desencadeada, entre outras coisas, graças ao trabalho prolongado de agentes e unidades militares ocidentais e no decorrer da qual os chamados "rebeldes" podiam dispor desde o princípio até de aviões) apresentou-se como uma matança perpetrada pelo poder contra uma população civil indefesa. Em contrapartida, os bombardeamentos da NATO que até o fim assolaram a Sirte assediada, faminta, sem água nem medicamentos, foram apresentados como operações humanitárias a favor da população civil da Líbia!



Hoje em dia este trabalho de manipulação, além de contar com os meios de informação tradicionais de informação e desinformação, vale-se de uma revolução tecnológica que completa a Revolution in Military Affairs. Como expliquei em intervenções e artigos anteriores, são autores e órgãos de imprensa ocidentais próximos ao Departamento de Estado os que celebram que o arsenal dos EUA se enriqueceu com novos e formidáveis instrumentos de guerra. São jornais ocidentais e de comprovada fé ocidental que contam, sem nenhum sentido crítico, que no decorrer das "guerras internet" a manipulação e a mentira, assim como a instigação à violência de minorias étnicas e religiosas, também mediante a manipulação e a mentira, estão na ordem do dia. É o que está a acontecer na Síria contra um grupo dirigente mais acossado do que nunca por haver resistido às pressões e intimidações ocidentais e se ter negado a capitular diante de Israel e a trair a resistência palestina.



Mas voltemos à primeira guerra do ópio, que termina em 1842 com o Tratado de Nanquim. É o primeiro dos "tratados desiguais", ou seja, imposto com as canhoneiras. No ano seguinte chega a vez dos Estados Unidos. Também envia canhoneiras para arrancar o mesmo resultado que a Grã-Bretanha e inclusive algo mais. O tratado de Wahghia (nas proximidades de Macau) de 1843 sanciona o privilégio da extraterritorialidade para os cidadãos estado-unidenses residentes na China: mesmo que cometam delitos comuns, subtraem-se à jurisdição chinesa. O privilégio da extraterritorialidade, evidentemente, não é recíproco, não vale para os cidadãos chineses residentes nos Estados Unidos. Uma coisa são os povos colonizados e outra muito diferente a raça dos senhores. Nos anos e décadas posteriores, o privilégio da extraterritorialidade amplia-se aos chineses que "dissidem" da religião e da cultura do seu país e convertem-se ao cristianismo (com o que teoricamente passam a ser cidadãos honorários da república norte-americana e do Ocidente em geral).



Também nos nossos dias o duplo critério da legalidade e da jurisdição é um elementos essencial do colonialismo: os "dissidentes", ou seja, os que se convertem à religião dos direitos humanos tal como é proclamada de Washington a Bruxelas, os Quisling potenciais ao serviço dos agressores, são galardoados com o prémio Nobel e outros prémios parecidos depois de o Ocidente ter desencadeado uma campanha desaforada para subtrair os premiados à jurisdição do seu país de residência, campanha reforçada com embargos e ameaça de embargo e de "intervenção humanitária".



O duplo critério da legalidade e da jurisdição alcança suas cotas mais altas com a intervenção do Tribunal Penal Internacional (TPI). Os cidadãos estado-unidenses e os soldados e mercenários de faixas e estrelas espalhados por todo o mundo ficam e devem ficar fora da sua jurisdição. Recentemente a imprensa internacional revelou que os Estados Unidos estão dispostos a vetar a admissão da Palestina na ONU, entre outras coisas, para impedir que a Palestina possa denunciar Israel perante o TPI: seja como for, na prática quando não na teoria, deve ficar claro para todo o mundo que só os povos colonizados podem ser processados e condenados. A sequência temporal é em si mesma eloquente. 1999: apesar de não haver obtido autorização da ONU, a NATO começa a bombardear a Jugoslávia; pouco depois, sem perda de tempo, o TPI tratar de incriminar não os agressores e responsáveis da ruptura da ordem jurídica internacional estabelecida após a II Guerra Mundial e sim Milosevic. 2011: violentando o mandato da ONU, longe de se preocupar com o destino dos civis, a NATO recorre a todos os meios para impor a mudança de regime e ganhar o controle da Líbia. Seguindo uma pauta já ensaiada, o TPI trata de incriminar Kadafi. O chamado Tribunal Penal Internacional é uma espécie de apêndice judicial do pelotão de execução da NATO. Poder-se-ia dizer inclusive que os magistrados de Haia são como padres que, sem perder tempo a consolar a vítima, esmeram-se directamente em legitimar e consagrar o verdugo.



Uma última observação. Com a guerra contra a Líbia, perfilou-se numa nova divisão do trabalho no âmbito do imperialismo. As grandes potências coloniais tradicionais, como a Inglaterra e a França, valendo-se do decisivo apoio político e militar de Washington, centram-se no Médio Oriente e na África, ao passo que os Estados Unidos deslocam cada vez mais seu dispositivo militar para a Ásia. E assim voltamos à China. Depois de haver deixado para trás o século de humilhações que começou com as guerras do ópio, os dirigentes comunistas sabem que seria insensato e criminoso faltar pela segunda vez ao encontro com a revolução tecnológica e militar: enquanto liberta centenas de milhões de chineses da miséria e da fome a que os havia condenado o colonialismo, o poderoso desenvolvimento económico do grande país asiático é também uma medida de defesa contra a agressividade permanente do imperialismo. Aqueles que, inclusive na "esquerda", se põem a reboque de Washington e Bruxelas na tarefa de difamação sistemática dos dirigentes chineses demonstram que não se preocupam nem com a melhoria das condições de vida das massas populares nem com a causa da paz e da democracia nas relações internacionais.





23/Outubro/2011

O original em italiano e as versões em francês e castelhano encontram-se em http://www.domenicolosurdo.blogspot.com/



Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Libye : témoignage de Lizzy phelan (vost)

Compreender a Dívida Pública

Uma carta da Síria

Pelo Socialismo


Questões político-ideológicas com atualidade

http://www.pelosocialismo.net

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Publicado em: http://pcb.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=3099:uma-cartaao-

mundo-comunista-e-aos-partidos-operarios&catid=42:comunistas

Colocado em linha em: 2011/10/16

Uma carta ao Mundo Comunista e aos Partidos Operários1

Partido Comunista Sírio (Unificado)

Saudações camaradas

Gostaríamos de apresentar-lhes uma breve análise dos sucessivos acontecimentos

recentes em nosso país, Síria, e, para tanto, devemos elucidar alguns fatos e

desvendar algumas mentiras fabricadas e publicadas pela propaganda imperialista

contra a Síria.

Desde o início dos eventos, em Março, estações de TV na América, Reino Unido e

França, algumas estações no mundo Árabe e centenas de sites da internet têm se

mobilizado para falsificar, da melhor maneira que puderem, a realidade e, na medida

em que a opinião pública se volta para essa causa, programas especiais são

transmitidos para servirem a esse propósito dia e noite.

O presidente norte-americano divulga, diariamente, notas que expressam seu

tratamento contra a Síria, assim como uma intervenção flagrante nas relações

internas do povo Sírio. Oficiais de alta patente da União Européia têm imitado o

presidente Americano.

Tais tratamentos e intervenções chegaram ao auge quando o presidente norteamericano

apontou a irrelevância e ilegitimidade do regime Sírio. Ásperas e injustas

sanções econômicas foram impostas contra o povo Sírio. Ainda mais perigosos são os

planos endossados pela OTAN de compartilhar ondas de ataques aéreos, por algumas

semanas, contra 30 áreas estratégicas na Síria, exatamente igual ao que aconteceu na

Iugoslávia.

Alguns oficiais europeus jamais hesitarão em comparar a situação na Síria, como se

fosse a cópia exata da crise Líbia, onde milhares de civis foram massacrados, dezenas

de áreas econômicas foram destruídas pelos ataques aéreos.

Estados membros da aliança imperialista têm tentado, de todas as maneiras

possíveis, aprovar uma resolução do Conselho de Segurança da ONU condenando a

Síria para, em seguida, adotar sucessivas resoluções a respeito, para tornar “legal”

uma agressiva campanha contra nosso país. Agradecemos a oposição a esses planos

por parte da Rússia e da China, acompanhadas, até agora, pela África do Sul, Índia,

Brasil e Líbano. As tentativas imperialistas no Conselho de Segurança da ONU foram,

até agora, infrutíferas.

2

Todas essas movimentações acontecem sob dois pretextos:

1. Manifestantes na Síria estão sendo mortos, procedimentos de segurança estão

sendo empreendidos para lidar com os manifestantes;

2. Manipulações das deficiências do regime Sírio, assim como a falta de

democracia e o monopólio do poder por parte do partido no poder, com o

intuito de pressionar o regime para adotar algumas mudanças internas,

embora qualquer mudança interna deva ser considerada como parte da

soberania nacional do país.

Na realidade, diversas manifestações de protesto começaram em março pedindo

reformas social, econômica e democrática. A maioria dessas demandas foi apoiada

pelo nosso partido como uma forma de lidar com os efeitos nocivos da

implementação de um programa liberal na economia (de acordo com o Fundo

Monetário Internacional) e a transformação da Síria em um mercado econômico. Os

efeitos foram nocivos para o nível de vida das camadas pobre e média. Essas

manifestações eram pacíficas, mas cedo foram manipulados por fundamentalistas

religiosos e grupos radicais, cuja ideologia data de antes da idade média.

As manifestações se transformaram de pacíficas para armadas, buscando alcançar

propósitos que não têm nenhuma ligação com as reformas políticas e sociais. Ao

tratar com essas manifestações, as forças de segurança oficial cometeram diversos

erros injustificáveis; conseqüentemente, essas ações foram seguidas de reações.

Dezenas de civis e soldados foram mortos. Gangues armadas foram formadas

atacando propriedades públicas e privadas, criando barreiras dentro de algumas

cidades, contando com ajuda externa. Durante os últimos meses, essas gangues

estabeleceram áreas armadas nas regiões fronteiriças da Síria, do nosso lado, e da

Turquia, do Líbano, da Jordânia e Iraque, para garantir continuidade no suprimento

de suas armas e na ligação entre essas áreas.

De qualquer maneira, as gangues não obtiveram sucesso no estabelecimento de uma

base fronteiriça estável. Isso custa centenas de civis e soldados, ou seja, mais de 2000

vítimas. No meio tempo, diversos eventos foram exagerados. Fatos foram falsificados.

Os mais modernos equipamentos eletrônicos e de mídia foram empregados com o

intuito de mostrar que o exército Sírio é completamente responsável por esses atos e

que as gangues armadas não são responsáveis, e assim por diante.

Devido à pressão, o governo adotou diversas reformas sociais e democráticas que

incluem: anulação das leis e Tribunais de exceção e respeito às manifestações

pacíficas legais. Recentemente, uma nova lei eleitoral e uma lei permitindo o

estabelecimento de partidos políticos foram adotadas. Preparações para uma nova ou

modificada constituição estão a caminho. Novas leis a respeito da mídia e da

administração pública também foram adotadas.

Os objetivos dessas leis e procedimentos são: quebrar o monopólio de poder do

partido Ba’th, estabelecer uma sociedade plural e democrática, assegurar liberdades

privadas e públicas, garantir a liberdade de expressão e reconhecer o direito de

oposição para atividade política pacífica.

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Apesar das nossas reservas no que diz respeito a alguns artigos, essas leis são muito

importantes. Por mais de quarenta anos nosso partido tem lutado para ter tais leis

adotadas. Essas leis devem ser implementadas e podem ser consideradas como um

importante passo em direção à transição da Síria para uma sociedade democrática e

plural.

Largos setores pacíficos da oposição nacional saudaram esses procedimentos, embora

as oposições fundamentalistas e armadas ainda estejam defendendo a derrubada do

regime, pressionando e agindo sectariamente.

Podemos resumir a situação como segue:

· Reduziu-se a tensão armada nas cidades Sírias. Gangues armadas sofreram

fortemente. De qualquer maneira, algumas delas têm condições de retomar

suas atividades;

· Manifestações pacíficas não desapareceram e não são confrontadas

violentamente, a não ser quando acompanhadas por atividades violentas;

· O governo chamou a oposição nacional a participar de diálogos políticos que

buscam ajudar a alcançar a transição para a democracia e o pluralismo de

forma pacífica. Tal diálogo encontra muitas dificuldades, mais importantes até

do que a pressão dos grupos armados que se opõem ao diálogo e à solução

pacífica, financiados por apoio externo;

· Ameaças imperialistas e colonialistas contra a Síria aumentaram. Embora

essas ameaças encontrem algumas dificuldades, precisamos estar prontos para

confrontá-las.

Enquanto a situação do nosso país está em pauta, ela aparece como

segue:

- Movimentos de protesto ainda existem em diferentes níveis. Eles diferem de uma

região para outra. Nota-se que alguns movimentos começam em mesquitas, áreas

rurais e favelas e segue em direção ao centro da cidade;

- Movimentos dentre as minorias étnicas e religiosas são raros. Nas fábricas,

universidades e sindicatos não existem movimentações;

- Dentro dos círculos da grande burguesia, independente de ser industrial ou

financeiro, especialmente nas grandes cidades de Aleppo, Lattakia e Damasco, não

existem movimentos;

- Não existem movimentações dentro dos clãs e das tribos;

- A oposição é composta de um amplo e variável espectro de partidos. Alguns são

patrióticos, se opõem à intervenção externa e às gangues armadas. Neste campo está

o Partido Muçulmano, considerado o mais ativo e bem organizado partido dentro e

fora do país.

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Há, também, diversos grupos tradicionais com diferentes orientações, cuja influência

se tornou mais clara nas manifestações em diferentes áreas. Esses grupos não

escondem seus objetivos e propostas que são claramente reacionárias e sectárias.

Os grupos locais mais importantes e ativos, desde o inicio dos protestos, são as

coordenações locais que incluem diferentes grupos da juventude sem terem nenhum

plano e clareza ideológica comuns, ou orientações, exceto pelo slogan “Abaixo o

regime”. Eles estão expostos à pressão externa, assim como interna.

- Oposição no exterior é composta por intelectuais, tradicionalistas, pessoas que

romperam com o regime, com algumas conexões internas (Khadam e Refa ׳at Al

Assad).

Durante o ultimo período, essas forças promoveram diversas conferências no exterior

(exceto um encontro que aconteceu no hotel Samir Amis, em Damasco, organizado

pela oposição interna) objetivando mobilizar forças e coordenar posições. Diferenças

ideológicas e políticas, assim como diferenças nos interesses prevalecem. Algumas

forças de oposição no exterior trabalham duro para ganhar apoio internacional e de

forças colonialistas.

- Até agora, os Estados Unidos, a França e a Grã-Bretanha estão liderando a

campanha internacional de ameaças e incitamento contra o regime Sírio, buscando

impor mais e mais pacotes e sanções, especialmente pelo Conselho de Segurança da

ONU e outros organismos internacionais; Rússia e China continuam se opondo à

imposição de tais sanções e procedimentos. A Turquia escolheu uma postura

oportunista que se move de acordo com as eleições internas e seus interesses

regionais. Há uma maioria internacional se opondo às medidas militares diretas

contra a Síria, como aconteceu na Líbia, para que a Liga Árabe e o Conselho de

Segurança da ONU não adotem resoluções que preparem o caminho para a agressão.

O conflito em torno desta questão é feroz.

- Exceto pelo Qatar, que tem um papel vital e importante nesta conspiração contra a

Síria, existem diferentes pontos de vista e posições no mundo árabe no que diz

respeito à situação no país.

- Dia a dia, a situação econômica se deteriora, a pressão nas condições de vida das

massas aumenta.

- O regime é coeso e tem grandes potencialidades de superar a crise. Cinco meses

antes do estouro dos eventos, nenhuma das instituições básicas (o partido, o exército,

a segurança, as instituições de estado, embaixadas, organizações populares,

sindicatos, a Frente Progressista Nacional...) haviam experimentado qualquer

divisão.

Certamente, o cenário não é estático e deve ser visto de acordo com suas dinâmicas,

variações e desenvolvimento diário.

Possíveis cenários:

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- A crise deve continuar por um longo período, levando para mais calamidades e

derramamento de sangue;

- Uma movimentação que leve para uma anarquia geral, uma guerra civil ou algo

similar, pavimentando o caminho para uma intervenção externa;

- Uma aparente divisão na oposição pode acontecer, fazendo com que parte dela

queira iniciar um sério diálogo com o regime para alcançar um novo contrato social

no país;

- Colocar um fim nas diferentes abordagens e “imobilidade” no que diz respeito às

forças do regime.

Há dois possíveis resultados: mover-se em direção a uma solução política para o fim

da crise, factível e firme, ou continuar tratando a crise apenas como uma questão de

segurança a todo custo.

É difícil prever a maneira pela qual uma decisiva solução é possível.

- Alguns fatos inesperados podem acontecer, forçando todos os partidos a se

comprometerem, ou aceitarem, um acordo imposto por forças externas para ajudar o

país a encontrar um caminho para fora do túnel.

Onde está o partido agora?

Para começar, gostaríamos de sublinhar o fato de o nosso partido ter enviado uma

mensagem ao comando do partido Al-Baa’th, na véspera de sua décima Conferencia,

em 2005. Nosso partido reivindicava a separação entre o estado e o partido

governista, garantias de democracia e liberdades, regulamentos de emergência, a

adoção de uma lei democrática para partidos, liberdade de expressão e libertação de

prisioneiros políticos, o fim da hegemonia do partido Al-Baa’th em sindicatos,

combate à corrupção etc.

Mas gostaríamos de adicionar que o partido afirmou, em todos os documentos

divulgados nos últimos meses, que apoiamos a postura da Síria nas questões

internacionais.

Para materializar este desejo, as necessidades sociais, econômicas e democráticas das

massas populares devem ser inter-relacionadas. Nós discutimos essas questões

detalhadamente nas nossas conferências e documentos.

Nas suas análises da profunda e atual crise do nosso país, nosso partido esclareceu

que a principal contradição está entre a fórmula política usada para regular o país por

diversas décadas e as demandas pelo desenvolvimento democrático, social,

econômico e cultural, necessárias para a sociedade Síria.

O conteúdo do nosso ponto de vista é que a fórmula política está baseada no

monopólio da autoridade do partido Al-Baa ׳th, que administra o movimento popular

e suas organizações. Esta fórmula leva à decadência, à burocracia e à corrupção da

máquina de estado. Conseqüentemente, os planos de reforma econômica e social

precisam ser reconsiderados para serem atualizados com as exigências do progresso.

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Nosso partido acredita que a essência da atual crise é a desproporção entre a

estrutura do regime e os objetivos da Síria. Ao mesmo tempo, o partido tem

enfatizado que o inimigo e as forças imperialistas têm se aproveitado destas

distorções internas para fomentar o nível da conspiração contra a Síria e usá-las

como um cavalo de Tróia para servir aos seus já conhecidos objetivos, como

mencionado anteriormente.

Conseqüentemente, o Partido Comunista Sírio (Unificado) não está neutro no que se

refere à alternativa necessária, por um lado, e os meios necessários para alcançar esse

objetivo, por outro lado.

Solução política e continuidade de uma reforma real e radical constituem o único

caminho para a saída da crise. Os procedimentos de repressão ajudam a aumentar os

componentes da crise e a esvaziar o conteúdo das reformas necessárias.

A atual situação, afirmamos, requer um diálogo construtivo e fiel com todas as forças

honestas e patrióticas, independente das diferenças de opinião ou pontos de vista,

com o propósito de alcançar um acordo ou uma reforma radical que sirva às

necessidades das massas populares e garanta a criação de um estado laico civil e

democrático que se oponha aos planos imperialistas e israelenses na região.

Mas o diálogo pressupõe um clima adequado; sem ele, a intransigência só poderá

levar a mais derramamento de sangue, mais destruição para o país e mais sofrimento

para a população.

Queridos camaradas:

Devido à fraqueza da imprensa popular de massa na Síria na confrontação com a

grande mídia do imperialismo, à mobilização das forças reacionárias por todo o

mundo contra a Síria, além de seus fantoches na região – incluindo a Turquia, que

adotou uma política pragmática para lutar pela hegemonia frente aos países orientais

– devido a tudo isso, nosso partido deseja que todos os partidos comunistas, de

trabalhadores e democráticos no mundo nos ajudem a divulgar amplamente esses

esclarecimentos junto à opinião pública de seus países.

Ainda mais, pedimos para que esses partidos se solidarizem com a Síria porque este é

o país mais importante do Mundo Árabe que resiste aos planos imperialistas de

dominar o Oriente Médio, se opondo firmemente ao plano americano-Israelense de

fragmentar a área em diversas entidades sectárias fáceis de serem controladas. A

Síria apóia, inclusive, a resistência nacional Palestina, Libanesa e Iraquiana. Ainda

mais, apóia o direito do povo Palestino de libertar seu território e estabelecer um

estado nacional com Jerusalém como sua capital.

Damasco: 17/9/2011

Hunein Nemer

Primeiro Secretário do Partido Comunista Síria (Unificado)

http://www.syrcomparty.org/index.php?nid=121

1 O texto é publicado tal como consta no sítio em referência, do PCB (Partido Comunista Brasileiro). [NE

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Filósofos portugueses- Fernando Gil

Fernando Gil
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre


Fernando Gil (Muecate em Moçambique, 1937 - Paris, 2006) foi um filósofo português, autor de vários livros tanto na sua língua materna como em françês . Foi director de investigação na École des hautes études en sciences sociales e professor na Universidade Nova de Lisboa.

Obras
La logique du nom, edições L'Herne, Paris, 1972.

Mimesis e negação, edições INCM, Lisboa, 1984.

Preuves, edições Aubier, Paris, 1988.

Traité de l'évidence, edições Jérome Millon, 1993, ISBN 2905614838.

Prémios e condecorações:  Prémios de Ensaio (1985) com a obra Mimesis e negação, atribuído pelo PEN Clube Português

Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1992)

Prémio Pessoa atribuído pelo jornal Expresso e pela empresa Unisys (1993)

sábado, 22 de outubro de 2011

O FIM DE UMA AGRESSÃO

in O Diário
Khadafi morreu combatendo com dignidade e coerência

Miguel Urbano Rodrigues

21.Out.11 :: Colaboradores

A agressão ao povo da Líbia, concebida e montada com muita antecedência, levada adiante com a cumplicidade do Conselho de Segurança da ONU e executada militarmente pelos EUA, a França e a Grã-Bretanha deixará na Historia a memoria de uma das mais abjectas guerras neocoloniais do inicio do século XXI. Mas, tal como fez surgir uma verdadeira resistência, fez emergir um Khadafi que recuperou a dignidade e morreu com honra.







A foto divulgada pelos contra-revolucionários do CNT elimina dúvidas: Muamar Khadafi morreu em Sirte.

Notícias contraditórias sobre as circunstâncias da sua morte correm o mundo, semeando confusão. Mas das próprias declarações daqueles que exibem o cadáver do líder líbio transparece uma evidência: Khadafi foi assassinado.

No momento em que escrevo, a Resistência líbia ainda não tornou pública uma nota sobre o combate final de Khadafi. Mas desde já se pode afirmar que caiu lutando.

Os media a serviço do imperialismo principiaram imediatamente a transformar o acontecimento numa vitória da democracia, e os governantes dos EUA e da União Europeia e a intelectualidade neoliberal festejam o crime, derramando insultos sobre o último chefe de Estado legitimo da Líbia.

Essa atitude não surpreende, mas o seu efeito é oposto ao pretendido: o imperialismo exibe para a humanidade o seu rosto medonho.

A agressão ao povo da Líbia, concebida e montada com muita antecedência, levada adiante com a cumplicidade do Conselho de Segurança da ONU e executada militarmente pelos EUA, a França e a Grã-Bretanha deixará na Historia a memoria de uma das mais abjectas guerras neocoloniais do inicio do século XXI.

Quando a NATO começou a bombardear as cidades e aldeias da Líbia, violando a Resolução aprovada sobre a chamada Zona de Exclusão aérea, Obama, Sarkozy e Cameron afirmaram que a guerra, mascarada de «intervenção humanitária», terminaria dentro de poucos dias. Mas a destruição do país e a matança de civis durou mais de sete meses.

Os senhores do capital foram desmentidos pela Resistência do povo da Líbia. Os «rebeldes», de Benghazi, treinados e armados por oficiais europeus e pela CIA, pela Mossad e pelos serviços secretos britânicos e franceses fugiam em debandada, como coelhos, sempre que enfrentavam aqueles que defendiam a Líbia da agressão estrangeira.

Foram os devastadores bombardeamentos da NATO que lhes permitiram entrar nas cidades que haviam sido incapazes de tomar. Mas, ocupada Tripoli, foram durante semanas derrotados em Bani Walid e Sirte, baluartes da Resistência.

Nesta hora em que o imperialismo discute já, com gula, a partilha do petróleo e do gás libios, é para Muamar Khadafi e não para os responsáveis pela sua morte que se dirige em todo o mundo o respeito de milhões de homens e mulheres que acreditam nos valores e princípios invocados, mas violados, pelos seus assassinos.

Khadafi afirmou desde o primeiro dia da agressão que resistiria e lutaria com o seu povo ate à morte.

Honrou a palavra empenhada. Caiu combatendo.

Que imagem dele ficará na Historia? Uma resposta breve à pergunta é hoje desaconselhável, precisamente porque Muamar Khadafi foi como homem e estadista uma personalidade complexa, cuja vida reflectiu as suas contradições.

Três Khadafis diferentes, quase incompatíveis, são identificáveis nos 42 anos em que dirigiu com mão de ferro a Líbia.

O jovem oficial que em 1969 derrubou a corrupta monarquia Senussita, inventada pelos ingleses, agiu durante anos como um revolucionário. Transformou uma sociedade tribal paupérrima, onde o analfabetismo superava os 90% e os recursos naturais estavam nas mãos de transnacionais americanas e britânicas, num dos países mais ricos do mundo muçulmano. Mas das monarquias do Golfo se diferenciou por uma política progressista. Nacionalizou os hidrocarbonetos, erradicou praticamente o analfabetismo, construiu universidades e hospitais; proporcionou habitação condigna aos trabalhadores e camponeses e recuperou para uma agricultura moderna milhões de hectares do deserto graças à captação de águas subterrâneas.

Essas conquistas valeram-lhe uma grande popularidade e a adesão da maioria dos líbios. Mas não foram acompanhadas de medidas que abrissem a porta à participação popular. O regime tornou-se, pelo contrário, cada vez mais autocrático. Exercendo um poder absoluto, o líder distanciou-se progressivamente nos últimos anos da política de independência que levara os EUA a incluir a Líbia na lista negra dos estados a abater porque não se submetiam. Bombardeada Tripoli numa agressão imperial, o país foi atingido por duras sanções e qualificado de «estado terrorista».

Numa estranha metamorfose surgiu então um segundo Khadafi. Negociou o levantamento das sanções, privatizou empresas, abriu sectores da economia ao imperialismo. Passou então a ser recebido como um amigo nas capitais europeias. Berlusconi, Blair, Sarkozy, Obama, Sócrates receberam-no com abraços hipócritas e muitos assinaram acordos milionários, enquanto ele multiplicava as excentricidades, acampando na sua tenda em capitais europeias.

Na última metamorfose emergiu com a agressão imperial o Khadafi que recuperou a dignidade.

Li algures que ele admirava Salvador Allende e desprezava os dirigentes que nas horas decisivas capitulam e fogem para o exílio.

Qualquer paralelo entre ele e Allende seria descabido. Mas tal como o presidente da Unidade Popular chilena, Khadafi, coerente com o compromisso assumido, morreu combatendo. Com coragem e dignidade.

Independentemente do julgamento futuro da Historia, Muamar Khadafi será pelo tempo afora recordado como um herói pelos líbios que amam a independência e liberdade. E também por muitos milhões de muçulmanos.

A Resistência, aliás, prossegue, estimulada pelo seu exemplo.

VN de GAIA, no dia da morte de Muamar Khadafi

terça-feira, 18 de outubro de 2011

VOLTAIRE

Filho de abastada família burguesa, estudou com os jesuítas no colégio de Clermont onde revelou-se um aluno brilhante. Frequentou a Societé du Temple, de libertinos e livres pensadores. Por causa de versos irreverentes contra os governantes foi preso na Bastilha (1717-1718), onde iniciou a tragédia “Édipo” (1718) e o “Poema da Liga” (1723). Logo tornou-se rico e célebre, mas uma altercação com o príncipe de Rohan-Chabot valeu-lhe nova prisão e foi obrigado a exilar-se na Inglaterra (1726-1728). Ali, orientou definitivamente sua obra e seu pensamento para uma filosofia reformadora. Celebrou a liberdade em uma tragédia (Brutus, 1730), criticou a guerra (História de Carlos XII, 1731), os dogmas cristãos (Epístola a Urânio, 1733), as falsas glórias literárias (O templo do gosto, 1733) e escreveu um dos livros que mais o projetaram, as “Cartas Filosóficas” ou “Cartas sobre os ingleses”, que criticava o regime político francês, fazendo espirituosas comparações entre a liberdade inglesa e o atraso da França absolutista, clerical e obsoleta. Casou-se esse livro pelas suas autoridades, refugiou-se no castelo de Cirey, onde procurou rejuvenescer a tragédia (Zaire, 1732; A morte de César, 1735; Mérope, 1743). Logrou obter um lugar na Academia Francesa (1746) graças a algumas poesias (Poema de Fontenoy, 1745), e, no mesmo ano, foi para a corte, na condição de historiógrafo real. Convidado por Frederico II, o Grande, da Prússia, foi viver na corte de Potsdam, onde publicou inicialmente um conto “Zadig” (1747) e posteriormente “O século de Luís XIV” (1751) e “Micrômegas” (1752). Em 1753, depois de um conflito com o rei, retirou-se para uma casa perto de Genebra. Ali, chocou ao mesmo tempo os católicos (A donzela de Orléans, 1755), os protestantes (Ensaio sobre os costumes, 1756) e criticou o pensamento de Rousseau (Poema sobre os desastres de Lisboa, 1756). Replicando seus opositores com um conto “Cândido” (1759), refugiou-se em seguida em Fernay. Prosseguiu sua obra escrevendo tragédias (Tancredo, 1760), contos filosóficos dirigidos contra os aproveitadores (Jeannot e Colin, 1764), os abusos políticos (O ingênuo, 1767), a corrupção e a desigualdade das riquezas (O homem de quarenta escudos, 1768), denunciou o fanatismo clerical e as deficiências da justiça, celebrou o triunfo da razão (Tratado sobre a tolerância, 1763; Dicionário filosófico, 1764). Iniciado maçom no dia 7 de março de 1778, mesmo ano de sua morte, numa das cerimônias mais brilhantes da história da maçonaria mundial, a Loja Les Neuf Sœurs, Paris, inicia ao octogenário Voltaire, que ingressa no Templo apoiado no braço de Benjamin Franklin, embaixador dos EUA na França nessa data. A sessão foi dirigida pelo Venerável Mestre Lalande na presença de 250 irmãos. O venerável ancião, orgulho da Europa, foi revestido com o avental que pertenceu a Helvetius e que fora cedido, para a ocasião, pela sua viúva. Chamado a Paris em 1778, foi recebido em triunfo pela Academia e pela Comédie-Française, onde lhe ofereceram um busto. Esgotado, morreu a 30 de maio de 1778.




Voltaire foi um teórico sistemático, mas um propagandista e polemista, que atacou com veemência alguns abusos praticados pelo Antigo Regime. Tinha a visão de que não importava o tamanho de um monarca, deveria, antes de punir um servo, passar por todos os processos legais, e só então executar a pena, se assim consentido por lei. Se um príncipe simplesmente punisse e regesse de acordo com o seu bem-estar, seria apenas mais um "salteador de estrada ao qual se chama de 'Sua Majestade'".



As ideias presentes nos escritos de Voltaire estruturam uma teoria coerente, mas por vezes contraditória, que em muitos aspectos expressa a perspectiva do Iluminismo.



Defendia a submissão ao domínio da lei, baseava-se em sua convicção de que o poder devia ser exercido de maneira liberal e racional, sem levar em conta as tradições.



Por ter convivido com a liberdade inglesa, não acreditava que um governo e um Estado liberais, tolerantes fossem utópicos. Não era um democrata, e acreditava que as pessoas comuns estavam curvadas ao fanatismo e à superstição. Para ele, a sociedade deveria ser reformada mediante o progresso da razão e o incentivo à ciência e tecnologia. Assim, Voltaire transformou-se num perseguidor ácido dos dogmas, sobretudo os da Igreja Católica, que afirmava contradizer a ciência, no entanto, muitos dos cientistas de seu tempo eram padres jesuítas.



Sobre essa postura, o catedrático de filosofia Carlos Valverde escreve um surpreendente artigo, no qual documenta uma suposta mudança de comportamento do filósofo francês em relação à fé cristã, registrada no tomo XII da famosa revista francesa Correpondance Littérairer, Philosophique et Critique (1753-1793). Tal texto traz, no número de abril de 1778, páginas 87-88, o seguinte relato literal de Voltaire:



"Eu, o que escreve, declaro que havendo sofrido um vômito de sangue faz quatro dias, na idade de oitenta e quatro anos e não havendo podido ir à igreja, o pároco de São Suplício quis de bom grado me enviar a M. Gautier, sacerdote. Eu me confessei com ele, se Deus me perdoava, morro na Santa Religião Católica em que nasci esperando a misericórdia divina que se dignará a perdoar todas minhas faltas, e que se tenho escandalizado a Igreja, peço perdão a Deus e a ela. Assinado: Voltaire, 2 de março de 1778 na casa do marqués de Villete, na presença do senhor abade Mignot, meu sobrinho e do senhor marqués de Villevielle. Meu amigo."



Este relato foi reconhecido como autêntico por alguns, pois seria confirmado por outros documentos que se encontram no número de junho da mesma revista, esta de cunho laico, decerto, uma vez que editada por Grimm, Diderot e outros enciclopedistas. Já outros questionam a necessidade de alguém que já acredita em Deus ter que se converter a uma religião específica, como o catolicismo. No caso de Voltaire não teria ocorrido reconversão.



Voltaire morreu em 30 de maio de 1778. A revista lhe exalta como "o maior, o mais ilustre e talvez o único monumento desta época gloriosa em que todos os talentos, todas as artes do espírito humano pareciam haver se elevado ao mais alto grau de sua perfeição".



A família quis que seus restos repousassem na abadia de Scellieres. Em 2 de junho, o bispo de Troyes, em uma breve nota, proíbe severamente ao prior da abadia que enterre no Sagrado o corpo de Voltaire. Mas no dia seguinte, o prior responde ao bispo que seu aviso chegara tarde, porque - efetivamente - o corpo do filósofo já tinha sido enterrado na abadia. Livros históricos afirmam que ele tentou destruir a Igreja a favor da maçonaria.



A Revolução trouxe em triunfo os restos de Voltaire ao Panteão de Paris - antiga igreja de Santa Genoveva - , dedicada aos grandes homens. Na escura cripta, frente a de seu inimigo Rousseau, permanece até hoje a tumba de Voltaire com este epitáfio:



"Aos louros de Voltaire. A Assembléia Nacional decretou em 30 de maio de 1791 que havia merecido as honras dadas aos grandes homens".



Voltaire introduziu várias reformas na França, como a liberdade de imprensa, tolerância religiosa, tributação proporcional e redução dos privilégios da nobreza e do clero. Mas também foi precursor da Revolução Francesa, ela que instaurou a intolerância, a censura e o aumento dos impostos para financiar as guerras, tanto coloniais, quanto napoleônicas (Europa). Se, em uma obra tão diversificada, Voltaire dava preferência a sua produção épica e trágica, foi, entretanto nos contos e nas cartas que se impôs. Como filósofo, foi o porta voz dos iluministas. Não seria exagero dizer que Voltaire foi o homem mais influente do século XVIII. Seus livros foram lidos por toda a Europa e vários monarcas pediam seus conselhos.



[editar] Obras

Desenho do séc.XVIII que serviu de ilustração a uma das edições do livro Histoire de Charles XII.Édipo, 1718

Mariamne (ou Hérode et Mariamne), 1724

La Henriade, 1728

História de Charles XII, 1730

Brutus, 1730

Zaire, 1732

Le temple du goût, 1733

Cartas Filósoficas, 1734

Adélaïde du Guesclin, 1734

Le fanatisme ou Mahomet, (escrita em 1736, representada em 1741)

Mondain, 1736

Epître sur Newton, 1736

Tratado de Matafísica, 1736

L'Enfant prodigue, 1736

Essai sur la nature du feu, 1738

Elementos da Filosofia de Newton, 1738

Zulime, 1740

Mérope, 1743

Zadig ou o destino, 1748,

Sémiramis 1748

Le monde comme il va, 1748

Nanine, ou le Péjugé vaincu, 1749

Le Siècle de Louis XIV, 1751

Micrômegas, 1752, [ebook][1]

Rome sauvée, 1752

Poème sur le désastre de Lisbonne, 1756

Essai sur les mœurs et l'esprit des Nations, 1756

Histoire des voyages de Scarmentado écrite par lui-même, 1756

Cândido ou o otimismo, 1759, [ebook][2]

Le Caffé ou l'Ecossaise, 1760

Tancredo, 1760

Histoire d'un bon bramin, 1761

La Pucelle d'Orléans, 1762

Tratado sobre a tolerância, 1763

Ce qui plait aux dames, 1764

Dictionnaire philosophique portatif, 1764

Jeannot et Colin, 1764

De l'horrible danger de la lecture, 1765

Petite digression, 1766

Le Philosophe ignorant, 1766

L'ingénu, 1767

L'homme aux 40 écus, 1768

A princesa da Babilônia, 1768, [ebook][3]

Canonisation de saint Cucufin, 1769

Questions sur l'Encyclopédie, 1770

Les lettres de Memmius, 1771

Il faut prendre un parti, 1772

Le Cri du Sang Innocent, 1775

De l'âme, 1776

Dialogues d'Euhémère, 1777

Irene, 1778

Agathocle, 1779

Correspondance avec Vauvenargues, établie en 2006

in wikipédia

sábado, 15 de outubro de 2011

Tudo para o Capital, nada para o Trabalho

MAIS 7000 MILHÕES € DE RIQUEZA PARA OS PATRÕES, NADA PARA OS TRABALHADORES, CORTE DE 1.682 MILHÕES € NO RENDIMENTO DOS PENSIONISTAS E DE 952 MILHÕES € AOS TRABALHADORES DA FUNÇÃO PUBLICA, MAS OS RENDIMENTOS DO CAPITAL CONTINUAM A SER POUPADOS AOS SACRIFICIOS: eis o que Passos Coelho anunciou


Tal como sucedeu com o subsidio do Natal em que praticamente os atingidos pelo IRS extraordinário foram apenas os trabalhadores e pensionistas, que têm de pagar ainda este ano mais 800 milhões € de IRS segundo as contas do próprio governo, tendo sido poupado os rendimentos do capital (dividendos, juros, mais-valias), também agora Passos Coelho anunciou para 2012 mais medidas de austeridade em que os atingidos são outra vez os trabalhadores, os pensionistas e os aposentados. Novamente os rendimentos de capital (dividendos, juros e mais-valias) ficam imunes aos sacrifícios.


A sobretaxa de IRC a aplicar às empresas com lucros elevados e o novo escalão de IRS aos rendimentos mais elevados foi criada por este governo com o objectivo de enganar a opinião pública. Em primeiro lugar, os valores a obter com elas são irrisórios (menos de 100 milhões € em cada) quando comparamos com os sacrifícios que estão a ser impostos aos trabalhadores e pensionistas. Em segundo lugar, porque não atinge a principal fonte de enriquecimento dos grandes patrões, que são os rendimentos de capital, ou seja, dividendos, mais valias, juros, etc., E estes rendimentos ou continuam isentos (a maioria), ou então aqueles que pagam IRS (apenas uma pequena parcela) estão sujeitos a uma taxa liberatória de 21,5% ou ainda menos que não é aumentada.

Para os grandes patrões não são as remunerações sujeitas a IRS que, embora gigantescas quando comparadas com as recebidas pela generalidade dos trabalhadores, constituem a principal fonte da sua riqueza, já que elas representam apenas uma pequeníssima parcela quando as comparamos com os dividendos, juros, e mais valias que são recebidas através de sociedades gestoras de participações sociais (SGPS) ou de Fundos, ou que são transferidas para empresas que criaram no estrangeiro, como a Amorim Energia sediada na Holanda através da qual recebe os dividendos da GALP, e que, de acordo com a lei fiscal portuguesa (artº 14 e 51 do Código do IRS, e artº 22º, 23º, 27º e 32º do Estatuto dos Benefícios Fiscais), todos eles estão isentas de pagamento de impostos. Para além disso, os grandes patrões facilmente fogem ao escalão mais elevado de IRS: Para isso, basta que reduzam a sua remuneração (até dão um “ar” de que estão a fazer também sacrifícios) e depois recebem esse valor através de dividendos cuja esmagadora maioria continuarão isentos

É evidente que ao poupar novamente os rendimentos do capital, este governo, para além de mostrar o seu espírito de classe, e que interesses defende, vai aumentar ainda mais as desigualdades e a injustiça em Portugal, e as dificuldades das famílias das classes médias e de baixos rendimentos

Para que se possa ficar com uma ideia clara da dimensão desse ataque, e dos benefícios para os patrões, vamos quantificar apenas três das medidas anunciadas por Passos Coelho: o aumento de meia hora de trabalho por dia cuja produção reverte integralmente para os patrões, o corte no subsidio de férias e de Natal aos reformados e aposentados com pensões superiores a 1000€/mês e também aos trabalhadores da Função Pública.com remunerações superiores a 1000 euros/mês.

O AUMENTO DE MEIA HORA NO HORÁRIO DE TRABALHO DIÁRIO DÁ POR ANO AOS PATRÕES MAIS 7.002 MILHÕES € DE RIQUEZA


Se dividirmos o valor do PIB previsto pelo INE para 2011 (171.320,6 milhões €) pela população empregada (4.893.000 portugueses no 2º Trimestre de 2011 segundo o INE) obtém-se 35.013 €/ ano por empregado. Dividindo este valor pelo número médio anual de horas de trabalho obtém 19€/PIB/por hora. Se multiplicarmos este valor pelo número médio de dias de trabalho por ano, e depois por meia hora dia e seguidamente pelo numero de trabalhadores por conta de outrem (3.200.000 sem incluir os trabalhadores da Função Pública) obtém-se 7.002.681.382 de euros. E ainda mais que a redução prevista pelo governo na Taxa Social Única paga pelos patrões. É esta gigantesca riqueza que o governo PSD/CDS pretende dar de mão - beijada aos patrões. Tudo para os patrões, nada para os trabalhadores produtores de riqueza: - este é o lema do governo PSD/CDS.

O GOVERNO DO PSD/CDS PRETENDE FAZER MAIS UM CORTE DE 1.682 MILHÕES NOS RENDIMENTOS DOS PENSIONISTAS E DE 952 MILHÕES NOS TRABALHADORES DA FUNÇÃO PÚBLICA

Em 2011, as pensões de todos os reformados e aposentados foram congeladas. E os preços até Setembro deste ano já aumentaram 3,6%. Em 2012, o governo pretende congelar novamente a esmagadora maioria das pensões (apenas as inferiores ao limiar da pobreza é que poderão ser actualizadas). Como tudo isto já não fosse suficiente o governo pretende ficar com o subsidio de ferias e de Natal dos reformados e aposentados com pensões superiores a 1000€. Em 2012, na Segurança Social estimamos que sejam atingidos cerca de 200.000 reformados com uma pensão média ponderada que rondará os 1890€/mês, e na CGA 235.000 com uma pensão média ponderada de 1970€/mês. Dois meses de pensão para estes 435.000 pensionistas representarão um corte nos seus rendimentos que estimamos em 1.682 milhões euros por ano. Também é intenção do governo ficar com o subsidio férias e de Natal dos trabalhadores da Função Pública em 2012 com remunerações superiores a 1000€/mês. Se tal intenção se concretizar, estes trabalhadores, que nos últimos anos, já perderem cerca de 14% no seu poder de compra sofrerão mais um corte nos seus rendimentos que estimamos em 952,6 milhões € em 2012. Em 2011 estes trabalhadores tiveram suas remunerações congeladas, e em 2012 e em 2013 as suas remunerações continuarão congeladas. Para além disso, os trabalhadores da Função Pública e os pensionistas que recebem mais de 485€ e menos de 1000€ sofrerão um aumento da taxa de IRS igual a um subsidio.

Eugénio Rosa , Economista -14.10.2011, edr2@netcabo.pt

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

compras – um extremismo que nunca diz o seu nome

John Pilger

13.Out.11
Um gigantesco centro comercial será um dos lugares simbólicos da cidade olímpica construída para os Jogos Olímpicos de Londres. Construído numa antiga zona industrial desactivada, é a imagem de uma sociedade em que a sobreprodução coexiste com o sobreconsumo, cuja prioridade é fazer o cidadão comum pagar o “défice”, termo cínico e capcioso usado para as dádivas gigantescas a bancos corruptos, e para travar sórdidas guerras coloniais que servem para roubar os recursos de outros países. Isto é o tipo de extremismo que nunca diz o seu nome.

Procurando uma livraria que já lá não estava, entrei num labirinto desenhado como uma verdadeira armadilha. Sair dali tornou-se uma ilusão distante, tal como Alice quando passou para o outro lado do espelho. As paredes de vidro curvavam-se em círculos concêntricos enquanto uma “loja” se fundia com outra: a Armani tornava-se a Dinki Di Pies. As “saídas” desembocavam num sem número de novas “ofertas” e “oportunidades únicas”. Ao procurar direcções acabei por comprar um par de óculos de sol: qualquer coisa para sair dali. Era uma visão do inferno. Trata-se do mega centro comercial de Westfield.

Isto passou-se em Sidney – onde começou o império Westfield – num centro comercial que não tem nem a metade do tamanho daquele que abriram em Stratford, East London, em 13 de Setembro último. Ali podemos encontrar “Tudo”, como dizia Jonathan Glancey, um crítico de arquitectura: da Apple à Primark, do MacDonald’s ao KFC e ao Krispy Kreme. Há um cinema com 17 salas e com “luxuosos lugares vip” e uma gigantesca e não menos luxuosa sala de bowling. Tracey Emin e Mary Portas são os nomes de quem dirige a “equipa cultural” da Westfield. O maior casino lá do sítio olhará de cima uma rua “24-hour lifestyle ” a que chamam The Arcade. Essa mesma via será a única forma de acesso aos Jogos Olímpicos de 2012 por onde terão de passar 10 milhões de pessoas. A mensagem simples e grotesca do “compra, compra” foi aquela escolhida por Londres para acolher o mundo.

“Se virem o filme da Disney Wall-E”, escrevia Glancey em 2008, “certamente reconhecerão Westfield e centros comerciais do mesmo género. No filme os humanos, tendo abandonado o planeta terra que a sua própria ganância destruíra, vivem uma vida absolutamente sedentária que se resume a comer e consumir. Têm um corpo redondo e atarracado e perderam totalmente o uso das suas pernas. Será que é assim que vamos acabar? Ou será que vamos cair nas profundezas de uma recessão gigantesca… sem nada com que comprar nem onde comprar?” Numa imediaticidade menos apocalíptica, Westfield é “um passo rumo ao nosso desejo colectivo de destruir a vida e a cultura tradicional das nossas cidades, assim como a sua arquitectura, comprando cada vez mais.”

O plano inicial de desenvolvimento da cidade de Stratfor invocava Barcelona: uma grelha bem definida de ruas de lojas e habitações. Moderna, civilizada. Depois disso os Olímpicos impuseram-se e com eles a Westfield, uma grande corporação patrocinadora do evento. O mega centro comercial, o maior da Europa por sinal, foi construído no meio de um nevoeiro de grandes blocos de apartamentos não muito longe dos locais onde ocorreram os distúrbios recentes. Os seus produtos de “designer”, feitos à custa da mais barata e arregimentada mão-de-obra, são chamativos para os mais endividados. O facto de situar-se num local onde os trabalhadores londrinos costumavam produzir comboios – milhares de carruagens, locomotivas, vagões comerciais – naquilo a que outrora se chamou produzir, desperta-nos um interesse melancólico. Os empregos do mega centro comercial não produzem absolutamente nada e são muito mal pagos. É um símbolo destes nossos tempos extremos.

Frank Lowy é co-fundador da Westfield, bilionário israelense-australiano, está para o comércio como Robert Murdoch para os media. Westfield é proprietário ou tem participações em mais de 120 centros comerciais em todo o mundo. A torre de Sydney, a estrutura mais visível da cidade, tem estampado o seu nome: “Westfield”. Lowy, um antigo comando israelita, doa milhões ao estado de Israel e em 2003 fundou o “independente” Instituto Lowy para as Relações Internacionais (Lowy Institute for Foreing Affairs) que promove a política externa de Israel e dos Estados Unidos.

No mesmo dia em que abriu o centro comercial de Stratford, os investigadores de Unicef afirmavam em relatório que as crianças britânicas eram apanhadas numa “armadilha materialista” que consistia em “comprá-los” com produtos de marca. Os pais de rendimento reduzido sentiam “uma pressão tremenda da sociedade” para comprar “roupas de marca, sapatilhas de marca e tecnologia” para as suas crianças. À publicidade televisiva e outras formas de sedução da “cultura do consumo” juntam-se os baixos rendimentos e longas horas de trabalho, como responsáveis pela situação. As crianças contaram aos investigadores que prefeririam passar mais tempo com a sua família e ter mais actividades ao ar livre, mas isto na maior parte das vezes não era possível. Assim como “segurança social” se tornou numa palavra maldita, também o equipamento social para os jovens e as associações juvenis estão a ser progressivamente eliminadas pelas autoridades locais.

Há quatro anos atrás a Unicef publicou uma tabela relativa ao bem-estar das crianças em 21 países industrializados. O Reino Unido encontrava-se no fim da tabela. Um quinto das crianças britânicas vive na pobreza: um número que se prevê aumentar no ano das Olimpíadas. A prioridade da classe política britânica, independentemente do partido, é fazer o cidadão comum pagar o “défice”, termo cínico e capcioso usado para as dádivas gigantescas a bancos corruptos, e para travar sórdidas guerras coloniais que servem para roubar os recursos de outros países. Isto é o tipo de extremismo que nunca diz o seu nome.

É um extremismo que castra as sociais-democracias, que foram a redenção europeia do pós-guerra. O empobrecimento forçado da Grécia, com as exorbitantes contrapartidas exigidas pela banca alemã e francesa, levará provavelmente a outro golpe fascista. O empobrecimento forçado de milhões de britânicos levado a cabo pelo “antigo regime” de David Cameron, com o seu crescente estado policial e burguesia complacente, especialmente nos media, produzirá mais motins: nada é mais certo. Poderemos contar com o extremismo do apartheid para despoletar tal resultado, e pouco importará o lustro consumista hermeticamente fechado num gigantesco centro comercial. Perspectiva-se uma democracia para os ricos e totalitarismo para os pobres, e não só; e claro “intervenção liberal”, como lhe chamou num tom aprovador o The Guardian, para aquelas regiões demasiado frágeis para resistirem à “precisão” dos nossos mísseis Brimstone.

Fui noutro dia ao Parliament Square. O gráfico que mostrava os crimes estatais, da autoria do activista pela paz e justiça Brian Haw, fora finalmente retirado pela polícia metropolitana. Ela sabia que Brian já não lhes podia fazer frente, tanto física como legalmente, como o fizera durante uma década. Brian morreu em Junho passado. Ao visitá-lo durante um natal gélido, fiquei emocionado pela maneira como persuadia os mais simples transeuntes e com a força da sua coragem. Necessitamos agora de milhões como ele. Urgentemente.

22/Setembro/2011

O original encontra-se em www.johnpilger.com/ . Tradução de MQ.
in O Diário

O Silva das vacas

Algumas das reminiscências da minha escola primária têm a ver com

vacas. Porque a D.ª Albertina, a professora, uma mulher escalavrada e

seca, mais mirrada que uva-passa, tinha um inexplicável fascínio por

vacas. Primavera e vacas. De forma que, ora mandava fazer redações

sobre a primavera, ora se fixava na temática da vaca. A vaca era,

assim, um assunto predilecto e de desenvolvimento obrigatório, o que,

pela sua recorrência, se tornava insuportavelmente repetitivo. Um dia,

o Zeca da Maria "gorda", farto de escrever que a vaca era um mamífero

vertebrado, quadrúpede ruminante e muito amigo do homem a quem ajudava

no trabalho e a quem fornecia leite e carne, blá, blá, blá, decidiu,

num verdadeiro impulso de rebelião criativa, explicar a coisa de outra

forma. E, se bem me lembro ainda, escreveu mais ou menos isto:

"A vaca, tal como alguns homens, tem quatro patas, duas à frente, duas

atrás, duas à direita e duas à esquerda. A vaca é um animal cercado de

pêlos por todos os lados, ao contrário da península que só não é

cercada por um. O rabo da vaca não lhe serve para extrair o leite, mas

para enxotar as moscas e espalhar a bosta. Na cabeça, a vaca tem dois

cornos pequenos e lá dentro tem mioleira, que o meu pai diz que faz

muito bem à inteligência e, por não comer mioleira, é que o padre é

burro como um tamanco. Diz o meu pai e eu concordo, porque, na

doutrina, me obriga a saber umas merdas de que não percebo nada como

as bem-aventuranças. A vaca dá leite por fora e carne por dentro,

embora agora as vacas já não façam tanta falta, porque foi descoberto

o leite em pó. A vaca é um animal triste todo o ano, excepto no dia em

que vai ao boi, disse-me o pai do Valdemar "pauzinho", que é dono do

boi onde vão todas as vacas da freguesia. Um dia perguntei ao meu pai

o que era isso da vaca ir ao boi e levei logo um estalo no focinho. O

meu pai também diz que a mulher do regedor é uma vaca e eu também não

entendi. Mas, escarmentado, já nem lhe perguntei se ela também ia ao

boi."



Foi assim. Escusado será dizer que a D.ª Albertina, pouco dada a

brincadeiras criativas, afinfou no pobre do Zeca um enxerto de porrada

a sério. Mas acabou definitivamente com a vaca como tema de redacção.

Recordei-me desta história da D.ª Albertina e da vaca do Zeca da Maria

"gorda", ao ler que Cavaco Silva, presidente da República desta

vacaria indígena, em visita oficial ao Açores, saiu-se a certa altura

com esta pérola vacum: "Ontem eu reparava no sorriso das vacas,

estavam satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar

verdejante"! Este homem, que se deixou rodear, no governo, pelo que

viria a ser a maior corja de gatunos que Portugal politicamente

produziu; este homem, inculto e ignorante, cuja cabeça é comparada

metaforicamente ao sexo dos anjos; este político manhoso que sentiu

necessidade de afirmar publicamente que tem de nascer duas vezes quem

seja mais honesto que ele; este "cagarola" que foi humilhado por João

Jardim e ficou calado; este homem que, desgraçadamente, foi eleito

presidente da República de Portugal, no momento em que a miséria e a

fome grassam pelo país, em que o desemprego se torna incontrolável, em

que os pobres são miseravelmente espoliados a cada dia que passa, este

homem, dizia, não tem mais nada para nos mostrar senão o fascínio pelo

"sorriso das vacas", satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a

ficar verdejante"! Satisfeitíssimas, as vacas?! Logo agora, em tempos

de inseminação artificial, em que as desgraçadas já nem sequer dispõem

da felicidade de "ir ao boi", ao menos uma vez cada ano!

Noticiava há dias o Expresso que, há mais ou menos um ano e aquando de

uma visita a uma exploração agrícola no âmbito do Roteiro da

Juventude, Cavaco se confessou "surpreendidíssimo por ver que as

vacas, umas atrás das outras, se encostavam ao robô e se sentiam

deliciadas enquanto ele, durante seis ou sete minutos, realizava a

ordenha"! Como se fosse possível alguma vaca poder sentir-se deliciada

ao passar seis ou sete minutos com um robô a espremer-lhe as tetas !!!

Não sei se o fascínio de Cavaco por vacas terá ou não uma explicação

freudiana. É possível. Porque este homem deve julgar-se o capataz de

uma imensa vacaria, metáfora de um país chamado Portugal, onde há

meia-dúzia de "vacas sagradas", essas sim com direito a atendimento

personalizado pelo "boi", enquanto as outras são inexoravelmente

"ordenhadas"! Sugadas sem piedade, até que das tetas não escorra mais

nada e delas não reste senão peles penduradas, mirradas e sem

proveito.

A este "Américo Tomás do século XXI" chamou um dia João Jardim, o "sr.

Silva". Depreciativamente, conforme entendimento generalizado. Creio

que não. Porque este homem deveria ser simplesmente "o Silva". O Silva

das vacas. Presidente da República de Portugal. Desgraçadamente.



Luís Manuel Cunha in Jornal de Barcelos de 05 de Outubro de 2011

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Guerras benditas

por Manlio Dinucci

"...Portugal é consciente da sua missão evangelizadora. E sofre ao ver que ela não é compreendida nem apreciada, e até tentam contestar-lha" (OP, VI, 388). Cardeal Cerejeira, em "Nota Pastoral sobre o Ultramar Português", de 13 de Janeiro de 1961

"O comunismo, com o qual nenhum católico pode colaborar, assesta contra a nossa Pátria todas as suas peças de assalto". "Nota Pastoral de Confiança e Exortação Nacional", 20 de Janeiro de 1962, redigida pelo Cardeal Cerejeira a seguir à ocupação de Goa pela Índia.

A conservação da herança colonial foi confiada a Portugal pela "Providência divina" (Cardeal Gonçalves Cerejeira, 1964, 387)

O padre Guilherme Guimarães Peixoto, de 35 anos, da paróquia de S. Dâmaso, em Guimarães, partiu para o Afeganistão a fim de integrar a Força de Reacção Rápida do Exército Português ao serviço da NATO (Quick Reaction Force/International Secutrity Assistance Force 2010 -QRF/FND/ISAF 2010).

"Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar", Aníbal Cavaco Silva, 15 de Março de 2011.

Monsenhor Vincenzo Pelvi, arcebispo ordinário militar e director da revista do Ordinariato [italiano] Bonus Miles Christi [O Bom Soldado de Cristo), experimenta "amargura e mal-estar" face "àqueles que invocam a dissolução das forças armadas e a objecção contra as despesas militares". Estes descrentes não compreendem que "o mundo militar contribui para a edificação de uma cultura de responsabilidade global, que se enraíza na lei natural e encontra o seu fundamento último na unidade do género humano". Do Afeganistão à Líbia, "a Itália, com os seus soldados, continua a desempenhar o seu papel para promover a estabilidade, o desarmamento, o desenvolvimento e sustentar por toda a parte a causa dos direitos humanos". O militar presta assim "um serviço em benefício de todo o homem, tornando-se o protagonista de um grande movimento de caridade tanto no seu país como em outras nações" ( Avvenire, 2/Junho/2010).

Monsenhor Pelvi perpetua assim a tradição histórica das hierarquias eclesiásticas de abençoar os exércitos e as guerras. Há um século, em 1911, na igreja de Santo Stefano dos Cavaleiros, em Pisa, decorado com bandeiras tomadas aos turcos no século XVI, o cardeal Maffi exortava os soldados de infantaria italianos, em partida para a guerra da Líbia, a "cruzar as baionetas com a cimitarras" para trazer à igreja "outras bandeiras irmãs" e assim "cobrir a Itália, nossa terra, com novas glórias". E a 2/Outubro/1935, quando Mussolini anunciava a guerra da Etiópia, Monsenhor Cazzani, bispo de Cremona, declarava na sua pastoral: "Verdadeiros cristãos, oremos por este pobre povo da Etiópia, para que ele se persuada a abrir suas portas ao progresso da humanidade e a conceder as terras, que ele não sabe e não pode fazer frutificar, aos braços exuberantes de um outro povo mais numeroso e mais avançado". A 28 de Outubro, celebrando no Domo de Milão o 13º aniversário da marcha sobre Roma, o cardeal Schuster exortava: "Cooperemos com Deus, nesta missão nacional e católica do bem, neste momento em que, sobre os campos da Etiópia, o estandarte da Itália leva em triunfo a Cruz de Cristo e rompe as cadeias dos escravos. Invoquemos a bênção e a protecção do Senhor sobre o nosso incomparável Condottiere". A 8 de Novembro, Monsenhor Valeri, arcebispo de Brindisi e Ostumi, explicava na sua pastoral: "A Itália não pedia senão um pouco de espaço para os seus filhos, em tamanho aumento que formavam uma grande Nação de mais de 45 milhões de habitante, e ela pedia a um povo cinco vezes menos numeroso que o nosso e que detém, não se sabe porque e com que direito, uma extensão de território quatro vezes maior que a Itália sem que saiba explorar os tesouros com que a enriqueceu a Providência em benefício do homem. Durante numerosos anos houve paciência, suportando agressões e abusos e, quando não se podia mais, tivemos de recorrer ao direito das armas, fomos julgados agressores".

Na trilha desta tradição, dom Vicenzo Caiazzo – que tem sua paróquia no porta-aviões Garibaldi, onde celebra a missa no hangar dos caças que bombardeiam a Líbia – assegura que "a Itália está em vias de proteger os direitos humanos e dos povos, é por isso que estamos no mar" ( Oggi, 29/Junho/2011). "Os valores militares – explica ele – vão lado a lado com os valores cristãos".

Pobre Cristo.

06/Outubro/2011

O original encontra-se em il manifesto, edição de 4/Outubro/2011 e a versão em francês em

http://www.legrandsoir.info/guerres-benies-il-manifesto.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Opinião de Carvalho da Silva (CGTP)

Qual o caminho da Europa?

2011-10-08

Para onde caminha a União Europeia (UE) quando as suas políticas agravam aceleradamente as condições de vida da esmagadora maioria dos seus cidadãos, acentuam desigualdades, rompem solidariedades, amesquinham povos cuja história milenar constituiu alicerces do que se enuncia como cultura europeia?

Insisto na ideia de que só uma forte mobilização dos trabalhadores e dos povos (em particular das gerações mais jovens) pode travar o desastre e forçar o surgimento de políticas novas, libertar as sociedades do neoliberalismo e neoconservadorismo dominantes, que submeteram os partidos do chamado "arco do poder" e não têm deixado condições para projectos à esquerda se afirmarem.

É imperiosa a luta por um projecto europeu solidário, universalista, sólido em valores humanos e respeitador da história e cultura dos seus povos, quer numa perspectiva reformista quer na busca de sistemas políticos alternativos a este capitalismo que vai somando contradições e dimensões de crise.

Nos Estados Unidos da América cresce o movimento, particularmente jovem, que reivindica: "a Wall Street deve pagar pelos danos que fez à economia". O presidente da Federação Americana do Trabalho (AFL-CIO) - central sindical cujo percurso até tem algumas nódoas - perante as desigualdades que marcam o seu país, já veio a público, e bem, apoiar os manifestantes e afirmar: "O 1% dos mais ricos controla a economia, lucra à custa dos trabalhadores e domina o debate político. Wall Street simboliza esta verdade simples: um pequeno grupo de pessoas tem nas suas mãos as vidas e meios de subsistência dos trabalhadores americanos". Ali, como na Europa, é caso para perguntar: onde está a soberania dos povos?

Na UE é ignóbil a forma como estão a lidar com o problema das dívidas soberanas e designadamente com a situação da Grécia - país que vai na frente na queda para o precipício, mas acompanhado por outros.

Em nome da necessária estabilização da Banca, será que se prepara novo roubo aos orçamentos dos estados, continuando os accionistas a agir sem controlo público e sem garantir apoio ao investimento produtivo?

É um escândalo observarmos como, mesmo quando os cidadãos estão a ser violentamente sacrificados e a economia atrofiada, os grandes accionistas dos grupos financeiros e de certos sectores de actividade a que deitaram mão, continuem a distribuir entre si milhões e milhões de lucros.

Transformaram o sector financeiro numa espécie de "vaca leiteira", sempre produtiva porque bem alimentada pela exploração de quem trabalha e pelo corte nos direitos sociais. Assim não há resolução para as "dívidas soberanas"!

A Grécia pode ter alguma informalidade excessiva instalada em várias áreas, mas o buraco em que se encontra não resulta, no fundamental, daí! Ele resulta do processo de agiotagem que atacou o país, da destruição das actividades económicas, do empobrecimento do povo feito pela diminuição dos salários e das prestações sociais, pelo agravamento do custo de vida, pelo ataque aos direitos sociais.

Só haverá solução para a Grécia, como para Portugal, com políticas diametralmente opostas. A dívida tem de ser renegociada a sério - e posta de lado grande parte dela porque é resultado de roubo - as actividades económicas apoiadas com políticas de investimento justas. E é indispensável um forte plano de apoio à criação de emprego e de retoma de políticas sociais solidárias.

Em Portugal vai-se repetindo o que de pior foi feito na Grécia.

Repete-se até à exaustão a ideia das inevitabilidades. Agrava-se a "informalidade" na economia e no trabalho. A recessão económica e o desemprego são o grande denominador comum de todas as políticas seguidas. Está-se a criar uma conjugação de efeitos explosivos entre os ataques ao Estado Social, o agravamento da injusta distribuição de riqueza e a diminuição acelerada de garantias de formação para as jovens gerações.

Fala-se da necessidade de responsabilidade social das empresas, para camuflar um violento ataque aos direitos dos trabalhadores.

Por aqui também a nossa dívida será cada vez maior.
in Jornal de Notícias

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Opinião de M. António Pina

Os pobres que paguem a crise

2011-10-07

As notícias ontem vindas a público sobre o OE para 2012 confirmam as piores expectativas: o actual Governo, ao mesmo tempo que não mostra disposição de, como insistentemente o PSD reclamou na oposição e Passos Coelho não menos insistentemente prometeu em campanha, cortar nas famosas "gorduras" da Administração Pública, pretende pôr os mais pobres e necessitados, os doentes sem recursos e, no caso da Educação, o próprio futuro colectivo, a pagar a crise.

A lógica é de elegante simplicidade: a caridade (além do mais, as boas acções têm cotação certa na Bolsa do Céu) substitui com vantagem a Segurança Social que, por isso, poderá bem ficar sem 200 milhões de euros; o SNS sofrerá, sem anestesia, cortes de mais de 800 milhões (o Ministério das Polícias, que terá mais 400 milhões, se encarregará de nos tratar da saúde se necessário); e a Educação, agora por conta de um matemático, há-de ter arte e engenho para poupar 600 milhões (três vezes mais do que previsto no acordo com a "troika"!).

Será, assim, o odiado Estado Social a pagar a factura das dificuldades do país a quem, bancos, grandes empresas recordistas de despedimentos e os "25 mais ricos" do costume, ganha com elas.

Porque, como em "O dilúvio universal", de Zavattini/De Sica, quando as águas da catástrofe sobem, há sempre quem faça negócio a vender guarda-chuvas ou organize orgias em "penthouses" no terraço e passe o fim dos tempos em beleza.

in Jornal de notícias

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Filosofia - DEMÓCRITO DE ABDERA

«A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio, que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. Menos ainda está no seu sistema cosmológico, que deriva mormente de Anaxágoras. Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens, e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides. A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. A possibilidade de ciência havia sido negada, bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras, e era isto que exigia uma solução. Ademais, o problema do comportamento tornara-se premente. A originalidade de Demócrito, portanto, está precisamente na mesma linha que a de Sócrates.

Teoria do Conhecimento

Demócrito procedeu como Leucipo ao fazer uma avaliação puramente mecânica da sensação, e é provável que ele seja o autor da doutrina minuciosa dos átomos com respeito a este assunto. Uma vez que a alma se compõe de átomos como qualquer outra coisa, a sensação deve consistir no impacto dos átomos externos sobre os átomos da alma, e os órgãos dos sentidos devem ser simplesmente ''passagens" (póroi = poros) através das quais estes átomos se introduzem. Disto decorre que os objetos da visão não são estritamente as coisas que nós mesmos presumimos ver, mas as "imagens" (deíkela, eídola) que os corpos estão constantemente emitindo. A imagem na pupila do olho era considerada como a coisa essencial em visão. Não é, porém, uma semelhança exata do corpo do qual provém, pois está sujeita às distorções causadas pela interferência do ar. Este é o motivo por que vemos as coisas a distância de um modo embaraçado e indistinto, e por que, se a distância for grande, não podemos vê-las de modo algum. Se não houvesse ar, mas somente o vazio, entre nós e os objetos da visão, isto não seria assim; "poderíamos ver uma formiga rastejando no firmamento". As diferenças de cor devem-se à lisura ou aspereza das imagens ao tato. A audição explica-se de uma maneira similar. O som é uma torrente de átomos que jorram do corpo sonante e produzem movimento no ar entre ele [corpo] e o ouvido. Chegou, portanto, ao ouvido junto com aquelas porções do ar que se Ihe assemelham. As diferenças de paladar são devidas às diferenças nas figuras (eide, skhémata) dos átomos que entram em contato com os órgãos desse sentido; e o olfato explica-se semelhantemente, embora não com os mesmos detalhes. De modo idêntico, o tato, considerado como o sentido pelo qual sentimos o calor e o frio, o molhado e o seco e outros que tais, é afetado de acordo com a forma e o tamanho dos átomos chocando nele.

Aristóteles afirma que Demócrito reduziu todos os sentidos ao tato, e é realmente verdade se entendermos por tato o sentido que percebe qualidades, tais como forma, tamanho e peso. Este, todavia, deve ser cautelosamente distinguido do sentido próprio do tato, que acima foi descrito. Para compreender esta questão, temos que considerar a doutrina do conhecimento "legítimo" e "ilegítimo".


É aqui que Demócrito entra nitidamente em conflito com Protágoras, que asseverou serem todas as sensações igualmente verdadeiras para o objeto sensível. Demócrito, pelo contrário, considera falsas todas as sensações dos sentidos próprios, posto que elas não têm uma contrapartida real fora do objeto sensível. Nisto, naturalmente, está em conformidade com a tradição eleática onde repousa a teoria atômica. Parmênides afirmara claramente que o paladar, as cores, o som e outros semelhantes eram apenas "nomes" (onómata), e é bastante idêntico a Leucipo que disse algo de parecido, apesar de não haver razão de se acreditar que ele tenha elaborado uma teoria sobre o assunto. Seguindo o exemplo de Protágoras, Demócrito foi obrigado a ser explícito com referência à questão. Sua doutrina, felizmente, foi-nos preservada através de suas próprias palavras. "Por convenção (nómo)": disse ele (fragmento 125), "há o doce; por convenção há o amargo; por convenção há o quente e por convenção há o frio; por convenção há a cor".Porém, na realidade (etee), há os átomos e o vazio. Deveras, as nossas sensações não representam nada de externo, apesar de serem causadas por algo fora de nós, cuja verdadeira natureza não pode ser apreendida pelos sentidos próprios. Esta é a razão por que a mesma coisa às vezes dá a sensação de doce e às vezes de amargo. "Pelos sentidos", afirmou Demócrito (fragmento 9), "nós na verdade não conhecemos nada de certo, mas somente alguma coisa que muda de acordo com a disposição do corpo e das coisas que nele penetram ou Ihe opõem resistência". Não podemos conhecer a realidade deste modo, pois "a verdade jaz num abismo" (fragmento 117). Vê-se que esta doutrina tem muito em comum com a distinção moderna entre as qualidades primárias e secundárias da matéria.

Demócrito, pois, rejeita a sensação como fonte de conhecimento, exatamente como fizeram os pitagóricos e Sócrates; contudo, como eles, ressalva a possibilidade de ciência, afirmando que existe uma outra fonte de conhecimento que não a dos sentidos próprios. "Há", diz ele (fragmento 11), "duas formas de conhecimento (gnóme): o legítimo (gnesíe) e o ilegítimo (skotíe). Ao ilegítimo pertencem todos estes: a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato. O legítimo, porém, está separado daquele". Esta é a resposta de Demócrito a Protágoras. Ele diz que o mel, por exemplo, é tanto amargo quanto doce, doce para mim e amargo para você. Na realidade, é "não mais tal do que tal" (oudèn mãllon toion è toion). Sexto Empírico e Plutarco afirmaram claramente que Demócrito argüiu contra Protágoras, e o fato, por conseguinte, está fora da discussão.

Ao mesmo tempo, não se pode ignorar que Demócrito dera uma explicação puramente mecânica deste conhecimento legítimo, como o fizera do ilegítimo. Defendeu, com efeito, que os átomos fora de nós poderiam afetar diretamente os átomos da nossa alma sem a intervenção dos órgãos dos sentidos. Os átomos da alma não se restringem a algumas partes específicas do corpo, mas nele penetram em qualquer direção, e não há nada que os impeça de ter contato imediato com os átomos externos, chegando assim a conhecê-los como realmente são. O "conhecimento legítimo" é, afinal de contas, da mesma natureza do "ilegítimo", e Demócrito recusou-se, como Sócrates, a fazer uma separação absoluta entre os sentidos e o conhecimento. "Pobre Mente", imagina ele os sentidos dizerem (fragmento 125); "é por causa de nós que conseguiste as provas com as quais atiras contra nós. Teu tiro é uma capitulação." O conhecimento "legítimo" não é, apesar de tudo, pensamento, mas uma espécie de sentido interno, e seus objetos são como os "sensíveis comuns" de Aristóteles.

Leia mais: http://www.mundodosfilosofos.com.br/democrito2.htm#ixzz1a2KSggBC
in http://www.mundodosfilosofos.com/ (Brasil)

Texto elaborado por Rosana Madjarof

OBRAS UTILIZADAS

DURANT, Will, História da Filosofia - A Vida e as Idéias dos Grandes Filósofos, São Paulo, Editora Nacional, 1.ª edição, 1926.

FRANCA S. J., Padre Leonel, Noções de História da Filosofia.

PADOVANI, Umberto e CASTAGNOLA, Luís, História da Filosofia, Edições Melhoramentos, São Paulo, 10.ª edição, 1974.

VERGEZ, André e HUISMAN, Denis, História da Filosofia Ilustrada pelos Textos, Freitas Bastos, Rio de Janeiro, 4.ª edição, 1980.

Coleção Os Pensadores, Os Pré-socráticos, Abril Cultural, São Paulo, 1.ª edição, vol.I, agosto 1973.

Leia mais: http://www.mundodosfilosofos.com.br/democrito2.htm#ixzz1a2Le5qUE

domingo, 2 de outubro de 2011

LUCRÉCIO

Titus Lucretius Carus (ou Tito Lucrécio Caro, na forma portuguesa), poeta e filósofo latino que viveu no século I a.C.


Nasceu em 94 a.C. e viveu 44 anos. "Assim como Tertuliano, um dos primeiros Padres da Igreja, inventou a história de que o materialista Demócrito teria furado os próprios olhos por não suportar o desejo sexual despertado pela visão de jovens mulheres, assim também são Jerônimo inventou que Lucrécio teria bebido um filtro de amor, enlouquecido e escrito seu poema nos intervalos de lucidez, terminando por se suicidar. O mínimo que um leitor atento do Sobre a Natureza das Coisas (De Rerum Natura) pode afirmar é que essa obra jamais poderia ter sido escrita em 'intervalos de lucidez!"(CHAUÍ, M. Introdução à História da Filosofia. Ed. Compahia das Letras, p. 253). Seus vários livros foram editados por Cícero.

Para Lucrécio, a alma é mortal. Após o decesso, resta um simulacro (simulacrum), os fantasmas que assombram os vivos. Deste modo, ele resgata a ideia epicurista de eidolon, termo grego. Ele afirma que o medo da morte criou o mito da imortalidade da alma. A Teosofia sustenta a tese da alma morredoura, mas defende que o espírito, princípio que anima a alma, é o Ser que realmente sobrevive à morte.

É provável que tenha nascido em Roma, onde foi educado. Sua fama decorre do poema De rerum natura (Sobre a natureza das coisas), onde expõe a filosofia de Epicuro de Samos. Para Lucrécio, o epicurismo era a chave que poderia desvendar os segredos do universo e garantir a felicidade humana. Tão entusiasmado ficou que se propôs a tarefa de libertar os romanos do domínio religioso através do conhecimento da filosofia epicurista.

Em De rerum natura Lucrécio apresenta a teoria de que a luz visível seria composta de pequenas partículas. Teoria incompleta, apesar de bastante consistente, é uma espécie de visão antiga da atual teoria dos fótons. Também neste poema, Lucrécio sustenta a idéia da existência de criaturas vivas que, apesar de invisíveis, teriam a capacidade de causar doenças. Esta idéia representa na realidade a base da microbiologia.

Além de fonte preciosa para o conhecimento do epicurismo, o poema de Lucrécio tem grande importância literária e seus versos consagram o autor como um dos maiores poetas latinos.

Segundo o padre São Gerônimo, Lucrécio matou-se aos 44 anos de idade e seu poema foi escrito em intervalos de ataques de loucura[1]. A bem da verdade, as "circunstâncias da vida e da morte de Lucrécio são desconhecidas. A habitual informação de que ele se suicidou em razão de crises de loucura, acrescidas de perturbações amorosas, não é plenamente confiável. Só há um registro nesse sentido, transmitido por São Jerônimo, que, em seu tempo, foi um grande opositor de Epicuro e do epicurismo” (SPINELLI, Miguel. "O devotamento de Lucrécio a Epicuro e ao epicurismo". In Os Caminhos de Epicuro. São Paulo: Loyola, 2009, p. 215ss).

in Wikipédia 

Manifestos e outros textos célebres

O Direito Absoluto Sobre os Nossos Corpos

Lohana Berkins(1)18 de Dezembro de 2000

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Primeira Edição: Revista América Libre, em 18 dez 2000, Edição digital.

Fonte: http://www.marxists.org/espanol/tematica/mujer/autores/berkins/2000/xii.htm

Tradução: Pedro Feilke
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Eu sei que muitos se perguntam o que faz um travesti neste lugar. Porque muitas pessoas têm uma idéia absolutamente equivocada ou estão carregadas de mitos sobre o que é um travesti. Eu quero dizer que também sou feminista. O primeiro problema que nós travestis temos, é que nem a sociedade nem o Estado reconhecem o travestismo como nossa identidade. As pessoas que nos criticam mais fortemente são as hierarquias eclesiásticas. A Igreja nos demonizou absolutamente. Por exemplo, pensam que se vocês escutam a uma travesti, vão terminar virando travestis. Relacionam-nos a uma idéia de contágio. Posso lhes dizer que podem ficar tranqüilos, que não irão se transformar em nada se me escutarem.

Outra coisa é a questão de por que podemos falar de tantas coisas, e a que mais evitamos e tememos é o corpo. Eu amo perfeitamente o meu corpo. Como dissera Lucienne Stoine em 1845:

"Não quero o direito à propriedade do voto, se não posso manter meu corpo como um direito absoluto”.

Então aqui começa nosso problema.

A realidade latino-americana é que o travestismo se dá entre os 8 e 10 anos de idade. O primeiro que acontece é a expulsão familiar, e assim uma expulsão social depois. Esta sociedade não está preparada, todavia, para dar-lhe um tipo de contenção.

Na República Argentina existem três organizações de travestis, e nós trabalhamos sobre uma população direta de 3000 companheiras travestis. A expectativa de vida das travestis na Argentina e em quase toda América Latina não supera os 30 anos. As causas da morte são: mortas pela polícia, sem que nenhum estado investigue nada. Outra causa é o uso indiscriminado de cirurgias. O sistema capitalista criou um só modelo de mulher: linda, doce, muito bela, que é a que o patriarcado consome. Então nós, quando começamos a viver nossa realidade, a única alternativa de sobrevivência que nos resta é a prostituição, se eu fosse fazer isso, o máximo que conseguiria seria uma ninharia, porque tenho 92 kilos. Então, é tão forte a idéia da imagem, que as companheiras terminam sendo vítimas dessa questão. Porque o que a sociedade nos diz é: “está bem, este garoto não quer ser um homem, que seja mulher. Porém não qualquer mulher. Mas uma mulher esplêndida”, como a travesti mais famosa do Brasil, Roberta Close. “Como Roberta Close ou nada”. Esses são os modelos que vão impondo. Desta forma se produzem situações de muitíssima violência. O fato de que nós estamos condenadas à prostituição, atenta também contra nossa própria auto-estima.

Eu sofri sete anos de encarceramento pelo simples fato de ter desafiado esta sociedade, e dizer “isto é o que eu sou”. Na Argentina, há mais de 9 anos nós começamos a nos organizar. A mudança mais profunda aconteceu através de conhecer o feminismo, as lésbicas feministas. Então começamos a lutar, e temos um programa que se chama “Construindo a cidadania travesti”. Obviamente, a palavra “cidadania” não tem nada de liberalismo, mas sim um sentido muito mais amplo e revolucionário.

Apontamos quatro coisas: a educação, a saúde, a moradia e o trabalho. Na Argentina seguem sendo criadas fortíssimas leis que castigam o travestismo. Para que vocês entendam o que eu digo, eu estou absolutamente orgulhosa de ser travesti, e se nascesse de novo, gostaria que tudo fosse exatamente igual. Mas essa sociedade maneja a coisa binária de homens e mulheres. Quando nascemos, a parteira olha entre as pernas e diz: “tem um pênis”, ou “tem uma vagina”. A isso, à genitália, te aderem o sexo, e ao sexo um gênero. E como dizia a companheira, não é o mesmo ser homem que mulher, muito menos em uma sociedade tão patriarcal e machista como é a latino-americana. Então, se você não se comporta de acordo com sua genitália, tem um comportamento como a outra opção, que é ser mulher. Sou uma travesti, uma pessoa que tem sua genitalidade e que pode viver perfeitamente construída sob outra identidade ou sob outro gênero, que é o feminino. Agora já não há tantos modelos. Talvez, daqui mais 2000 anos de luta, eles poderão dizer "as mulheres, homens, travestis... e uma lista interminável ", quando se referirem ao gênero.

Nós começamos a atacar a hipocrisia burguesa. Porque o mundo, os homens castíssimos, se nos vêem nos prostituindo, nos chamam de “pecadoras”, e se reclamamos nossos direitos, nos chamam de “comunistas”. Então começamos a atacar a burguesia, a hipocrisia burguesa. Porque se há 10.000 companheiras se prostituindo todas as noites, é porque há 10.000 homens que as consomem. De noite, tudo bem; mas de dia dizem: “matem elas, prendam elas, são o demônio”. Isso é uma hipocrisia. A sociedade pede castigo para quem se prostitui, mas não para quem consome.

Começamos a lutar. Em Buenos Aires, o Estado gasta 300 milhões de dólares para sustentar a polícia, que é a mesma polícia repressiva do processo, e não querem gastar nem dez dólares em educação, em capacitar-nos, em nos ver como sujeitos de direito.

Dentro de todas estas questões, também podemos ser socialistas, e posso ser feminista. Não é como se a única coisa que sou é travesti. Quando falava do tema do “mito”, as pessoas pensam que somos libertinas, que passamos o dia todo na cama, como uma deusa Vênus, atiradas fumando maconha, e que o mundo não nos importa nada. É outro estereótipo. Em nossa comunidade há de tudo, há companheiras que podem ser deste estilo, companheiras loiras, companheiras com 92 kilos, companheiras comunistas, temos uma diversidade. E temos essa diversidade porque somos pessoas. Eu vou dizer que as travestis são algo raro quando começarmos a cagar pela orelha, ou mesmo pelo nariz. Enquanto continuarmos a fazer pelo lugar que vocês fazem, não vejo o porquê do assombro.

Aí é quando a sociedade começa a ficar meio louca. Porque não é que lhes incomode que nós existamos. Eu vou pelo mundo, pareço uma senhora gordinha, e tudo bem. O problema começa quando nós começamos a pedir direitos. Quando nós dizemos: “não sigam matando companheiras, dêem-nos trabalho, educação, moradia, saúde”. Aí é quando a sociedade fica frenética.

A nossa situação é bem complicada. Algum dia eu gostaria que, em um grande evento, haja companheiras lésbicas, gays, travestis, participando sem descriminações dentro dos movimentos de luta. Porque acontece que algumas lutas parecem mais valiosas que outras. Si é por vítimas, nós temos vítimas. Se é por cárcere, nos conhecemos a prisão. Se é por repressão, temos repressão. Então, eu não vejo por que não se pode pensar de uma forma totalizadora, e pedir por todos os direitos.

Por que, se vão a uma marcha contra o FMI, contra o imperialismo ianque, por que não vem a nossas lutas também? Então, teremos que falar destas questões como uma coisa cotidiana, porque nós somos cotidianas também. Nós vivemos em comunidades, vivemos em casas, temos famílias, amigos, amigas, pensamos. Então, a reflexão que queremos fazer, é que estamos convencidas de mudar esta sociedade. Eu luto para mudar a sociedade. Estou absolutamente na luta contra o imperialismo, amo a liberdade. Porém não uma liberdade condicionada. Amo a liberdade absoluta, que cada um viva como queira. Amo absolutamente ser travesti. Por que parece que é de outro mundo? Então, a reclamação que estamos fazendo, é a construção de uma sociedade sem nenhum tipo de opressão, ainda que pareça muito dizer “as” e “os”. Se fala de “os revolucionários”, e as revolucionárias onde estão? Estavam aqui.

Tem-se que romper a esquemática do gênero. Que o homem tenha que ser o supermacho que grite e brigue, e a mulher que cozinhe e que vá com sua filha de lá para cá. Há mulheres revolucionárias que empunharam o fuzil. E há homens que podem cozinhar, e não são necessariamente menos revolucionários.

Outra questão é a do afeto e do corpo. Porque é que podemos falar, e se, neste ponto eu digo “peguemos as armas” todo mundo presta atenção, mas se dissesse “vamos tirar a roupa, vamos nos tocar” começa um pânico absoluto? Por que eu deveria sentir vergonha do meu corpo, se o mais valioso que temos é o corpo? É o corpo para a vida, o corpo para a luta, o corpo para tudo. É o bem mais absoluto que temos.

Insisto sobre este tema das lutas. Penso que temos de repensar completamente, e incluir. Também luto pelas pessoas sem terra, a pobreza me comove absolutamente, luto contra os ricos, luto contra todas as formas de opressão. A única coisa que lhes deixo como reflexão, é que vocês se juntem à nossa luta. Nada mais.
( in Arquivo Marxista na internet)

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

CLAUSTROFOBIA