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terça-feira, 14 de julho de 2026

 Na URSS: uma história que os vencedores preferem que esqueçamos

Sempre que se fala da União Soviética, parece haver uma obrigação não escrita: começar pedindo desculpas por abordá-la. Como se qualquer análise que não fosse uma condenação absoluta constituísse um ato de heresia política.

Isso não acontece quando se fala de capitalismo. Ninguém quer começar relembrando o colonialismo, a escravidão, as guerras pelo petróleo, as ditaduras financiadas pelo Ocidente ou os milhões de mortes causadas pela fome em um planeta que produz alimentos suficientes para toda a humanidade. Essa assimetria já diz muito sobre quem venceu a batalha da narrativa.

A história é escrita pelos vencedores. E os vencedores da Guerra Fria foram as grandes potências capitalistas, os grandes grupos económicos e um imenso aparato cultural capaz de transformar fatos em uma versão aparentemente aceitável. Hollywood, a grande mídia e até mesmo grande parte do meio académico contribuíram, ao longo de décadas, para construir uma imagem simplificada da URSS que inclui apenas o gulag, a repressão e o fracasso.

Não se trata de negar os erros ou os episódios mais sombrios da experiência soviética. Seria um exercício tão desonesto quanto ocultar os crimes do capitalismo. Trata-se, simplesmente, de exigir rigor histórico e contexto.

Pois processos históricos não podem ser julgados como se ocorressem em um laboratório isolado do mundo. Na União Soviética, nasceu-se após uma guerra mundial, sobreviveu-se a uma guerra civil alimentada por quatorze potências estrangeiras, sofreram-se bloqueios, sabotagem e isolamento económico, e acabou-se por suportar o peso principal da guerra contra o nazismo. Fingir analisar muitas de suas decisões ignorando esse contexto é outra forma de manipulação.

Desde o início, devemos também ter um cuidado especial. À direita, há propagandistas dispostos a demonizar qualquer experiência socialista. Há também historiadores dispostos a prostituir a história para justificar o presente. Nossa obrigação não consiste em repetir esse discurso com uma linguagem aparentemente progressista, mas em fazer uma crítica honesta, equilibrada e materialista.

Pois uma crítica justa não consiste apenas em apontar erros. Ela também exige reconhecer os avanços alcançados.

E esses avanços foram enormes.

A União Soviética transformou um território vasto, atrasado e majoritariamente analfabeto em uma potência científica, industrial e tecnológica em apenas algumas décadas. Implementou saúde pública universal, educação gratuita, acesso garantido à moradia, pleno emprego, sistemas avançados de proteção social, igualdade jurídica entre homens e mulheres e uma Constituição que chegou a reconhecer o direito à autodeterminação das repúblicas que a compunham.

Enquanto grande parte do mundo continuava a considerar as mulheres cidadãs de segunda classe, a URSS incentivou sua ampla participação no ensino superior, na pesquisa científica, na engenharia, na medicina, na administração pública e até mesmo na exploração espacial.

Enquanto milhões de pessoas no Ocidente não tinham acesso a assistência médica, na União Soviética a saúde era um direito garantido.

Enquanto em muitos países o analfabetismo continuava sendo uma realidade cotidiana, a alfabetização atingiu níveis praticamente universais.

E, enquanto o capitalismo enfrentava crises cíclicas de desemprego em massa, o trabalho era considerado um direito e uma obrigação social.

Nada desaparece só porque houve erros. Da mesma forma que ninguém invalida todos os avanços científicos dos Estados Unidos por causa das guerras que o país promove há décadas.

Há também um episódio que simboliza, melhor do que qualquer outro, a abordagem internacional da União Soviética e que raramente aparece nos livros de história: a erradicação global da varíola.

Pouca gente conhece o nome de Viktor Zhdanov. No entanto, milhões de seres humanos devem a ele, indiretamente, a própria vida. Foi ele quem apresentou à Organização Mundial da Saúde um plano ambicioso para eliminar definitivamente uma doença que, durante séculos, matou e mutilou milhões de meninos e meninas.

A proposta parecia impossível. Nunca antes a humanidade havia conseguido erradicar uma doença infecciosa.

Na URSS, não se tratava apenas de um impulso ou de um projeto. Produziram-se milhões de doses de vacina, mobilizaram-se milhares de profissionais de saúde e deixou-se claro que a iniciativa prosseguiria mesmo que o resto do mundo não cooperasse. Por fim, a OMS aprovou o programa e, após quinze anos de cooperação internacional, a varíola desapareceu para sempre do planeta.

Milhões de vidas salvas.

Com que frequência esse fato é lembrado quando se fala da União Soviética?

Muito raramente.

Também não se costuma lembrar que foi o Exército Vermelho quem suportou o peso principal da derrota do nazismo. Aproximadamente 70% das baixas militares alemãs ocorreram na Frente Oriental. Mais de 24 milhões de cidadãos soviéticos perderam a vida para derrotar Hitler.

No entanto, a cultura popular conseguiu consolidar a ideia de que a Segunda Guerra Mundial foi vencida quase exclusivamente pelos Estados Unidos.

Vale lembrar também outro fato que desmente muitas narrativas.

Em março de 1991, os cidadãos soviéticos foram consultados, por meio de um referendo, sobre a continuidade da União Soviética.

Mais de 76% votaram a favor da manutenção da União.

Não foi uma simples pesquisa de opinião.

Foi uma consulta democrática.

E essa vontade popular foi ignorada.

Poucos meses depois, Boris Yeltsin e outros líderes dissolveram a URSS, contrariando o resultado expresso pela maioria da população. O que se viu em seguida foi uma das maiores transferências de riqueza pública para mãos privadas em toda a história contemporânea. Privatizações em massa, o surgimento de oligarcas, a queda na expectativa de vida, a pobreza, o desemprego e a desigualdade marcaram a década de 1990.

É por isso que milhões de pessoas ainda se lembram daquela época com nostalgia.

Não necessariamente porque acreditam que tudo era perfeito.

Mas porque comparam dois modelos diferentes de sociedade.

Comparam segurança com incerteza.

O direito ao trabalho precário.

Uma casa garantida com a especulação imobiliária.

A educação pública com sua comercialização.

Um sistema universal de saúde com cortes orçamentários.

Há uma velha piada russa que resume perfeitamente essa experiência:

"O problema não é que o Partido Comunista tenha nos enganado sobre o comunismo; o problema é que ele nos contou a verdade sobre o capitalismo e nós não quisemos acreditar."

Após várias décadas de capitalismo desenfreado, milhões de trabalhadores ao redor do mundo estão percebendo que muitos desses alertas não eram propaganda, mas sim uma descrição bastante precisa de como funciona um sistema baseado na transformação de direitos em mercadorias e de pessoas em benefícios.

Até mesmo Vladimir Putin, cujo projeto político nada tem a ver com o socialismo, reconheceu uma realidade difícil de negar ao afirmar que quem não sente falta da União Soviética não tem coração.
Como comunistas, discordamos da segunda parte da sua frase. Precisamente porque temos memória histórica e consciência de classe, sabemos que o mundo perdeu muito com o desaparecimento do primeiro Estado socialista da história.

Sua existência obrigou o capitalismo, durante décadas, a fazer concessões que hoje estão sendo desmanteladas. A expansão da saúde pública, a dualidade dos direitos trabalhistas, a dualidade dos sistemas de previdência, a negociação coletiva ou o Estado de bem-estar social não podem ser compreendidos sem a pressão exercida sobre a existência de um modelo alternativo.

O desaparecimento da URSS enfraqueceu enormemente a classe trabalhadora internacional.

Por isso, é profundamente injusto reduzir toda a sua história a uma lista de erros cuidadosamente amplificada por aqueles que nunca analisam com o mesmo rigor as tragédias causadas pelo capitalismo.

A União Soviética não era perfeita.

Não há processo histórico nem é histórico.

Mas foi, provavelmente, o maior salto em frente protagonizado pela classe trabalhadora na história contemporânea. Mostrou que era possível alfabetizar povos inteiros, universalizar a saúde, garantir emprego, derrotar o fascismo, promover a ciência, conquistar o espaço, erradicar doenças e colocar a dignidade humana acima do lucro privado.

Essa é também a história da URSS.

E quem tenta apagá-la não busca compreender o passado.

Busca impedir que as novas gerações imaginem um futuro diferente.

Porque o povo pode ser derrotado. Pode ser enganado. Pode até ser traído.

Mas enquanto existir exploração, a possibilidade de construir uma alternativa continuará a existir.

E, com sorte, apesar das muitas derrotas acumuladas, sempre acaba encontrando um caminho de volta.

André Abeledo Fernández
Traduzido do catalão
Publicado:
julho 13, 2026

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Trotsky e PADURA

 

Trotsky, a esposa Natalya e filho Sedov em Alma Ata (1928). Wikimedia.

Trotsky em Cuba

Tradução
Deborah Almeida e David Guapindaia

O revolucionário russo Leon Trotsky foi assassinado por um agente stalinista neste dia, em 1940, na cidade de Coyoacán, México. Resgatamos aqui seus últimos anos de vida, narrado pelo escritor cubano Leonardo Padura.

Há algum tempo, o escritor cubano Leonardo Padura explora seu desencanto com algumas das realidades de sua amada cidade por meio de seus romances sobre o detetive Mario Conde. Mas é em seu O Homem que Amava os Cachorros, que suas reflexões sociais e políticas sobre o socialismo e a liberdade – em Cuba e fora dela – alcançam sua maior profundidade.

Padura entrelaça as histórias do revolucionário russo Leon Trotsky e de seu assassino, o comunista catalão Ramón Mercader, que ele traz pelas lentes de um narrador cubano, um jornalista despedido do cargo por motivos políticos e forçado a trabalhar como revisor para um diário veterinário.

O fato histórico de que Mercader viveu em Cuba por cerca de quatro anos no final dos anos setenta, trabalhando como assessor do repressivo Ministério do Interior (e que sua mãe Caridad trabalhou durante sete anos como funcionária encarregada de relações públicas na embaixada cubana em Paris nos anos 60), dá a Padura os meios para conectar o assassino com o jornalista. Eles se encontram um dia quando Mercader, acompanhado por um guarda-costas, está passeando com seus amados cachorros na praia de Santa María del Mar onde o jornalista tinha ido ver o pôr do sol.

Sem expor sua identidade, Mercader revela muito de sua vida ao jornalista cubano, fingindo que está falando de uma terceira pessoa e não de si mesmo. E é por meio dessa convenção artística que Padura articula suas idéias sobre o stalinismo, sua psicologia e seus horrores, tanto na esfera da alta política quanto no plano individual. Ao contrário do estereótipo de comunistas semelhantes a robôs, Padura apresenta uma visão diferenciada de uma série de personalidades comunistas. Apesar do peso esmagador da ortodoxia ideológica e do terror, a individualidade de Mercader permanece.

Mercader é inicialmente um comprometido revolucionário lutando do lado republicano na Guerra Civil Espanhola, uma pessoa pensante com uma mente independente. Essa independência começa a ruir sob a pressão de seus camaradas comunistas, que continuamente o lembram de que “o partido está sempre certo e se você não entende, não importa: você tem que obedecer”.

Isso é minado ainda mais quando, depois de ter sido recrutado por oficiais da inteligência soviética, seu superior o informa no meio da Guerra Civil que o próprio Stalin ordenou o expurgo do comando republicano leal ao presidente socialista Largo Caballero. Com isso, Padura também desafia um dos muitos mitos sobre o papel do Partido Comunista e da URSS como salvadores da República Espanhola que ainda prevalecem em grande parte da esquerda internacional.

O golpe final na capacidade já decadente de Mercader de raciocinar de forma independente ocorre quando, em uma das cenas mais assustadoras do livro, o ativista comunista é transformado, em um campo de treinamento na URSS, no soldado anônimo número treze e é compelido a matar um homem desamparado e esfarrapado por ser um “cachorro trotskista, inimigo do povo”.


O outro comunista no romance de Padura é Trotsky, um homem que também amava cães. Com profundo conhecimento e compreensão da obra do líder bolchevique, o escritor cubano o descreve com genuína simpatia: perdido no exílio, privado da cidadania soviética e incapaz de encontrar asilo em qualquer país até que o presidente mexicano Lázaro Cárdenas lhe dá abrigo no México.

O Trotsky de Padura é um homem perseguido – muitos de seus parentes e seguidores foram assassinados por ordem de Stalin. Mas existem diferentes tipos de pessoas perseguidas. Existem aqueles como Nelson Mandela que, durante suas décadas sombrias na prisão, foi apoiado por um grande movimento social e político. E há quem, como Trotsky, perceba, como Padura o fez dizer: “Estou cada vez mais só, sem amigos, sem camaradas, sem família… Stalin levou todos eles. ”

Compreender essa solidão permite a Padura descrever um Trotsky que não se surpreende com as confissões absurdas extraídas das vítimas dos grandes expurgos dos anos 30 na URSS, mas que se entristece muito com a confissão auto-incriminatória de Christian Rakovsky, seu antigo camarada na luta contra Stalin, no terceiro julgamento de Moscou em 1938.

Instigado pela simpatia ao líder russo, Padura mostra Trotsky censurando-se internamente por não ter reconhecido os excessos que ele mesmo cometeu ao tentar defender a sobrevivência da revolução, “embora nunca o admitisse publicamente”, afirma o autor. O Trotsky imaginado por Padura lamenta as ações que tomou para militarizar os sindicatos ferroviários e as políticas coercitivas aplicadas durante a reconstrução pós-Guerra Civil, a substituição de dirigentes sindicais e até mesmo seu papel no esmagamento sangrento da revolta de Kronstadt.

Estas são especulações plausíveis, embora excessivas, de Padura à luz das revisões que Trotsky fez durante os anos 30 sobre muitas das idéias políticas que ele havia adotado particularmente durante a Guerra Civil de 1918-20 – revisões que o fizeram rejeitar, por exemplo, o princípio do partido único como pedra angular do socialismo no poder. Ao mesmo tempo, essas podem muito bem ser as projeções de Padura refletindo retrospectivamente sobre como um sistema semelhante foi implantado em seu próprio país.

Padura, vivendo sob uma espécie de comunismo em Cuba, também destaca Trotsky como um crítico literário que afirma, sem hesitar, que “tudo é permitido na arte”. Não por acaso, o escritor cubano destaca a ocasião em que André Breton, em sua visita ao México, diz a Trotsky que tudo é permitido na arte exceto ataques à revolução proletária. Trotsky responde que na arte nenhuma restrição pode ser permitida – que não há nada que uma ditadura deva impor ao criador sob a desculpa de necessidade histórica e política, e que a arte deve obedecer apenas às suas próprias exigências.


Com tanta simpatia e respeito pela verdade histórica como pela forma que trata Trotsky, seria um grande erro ver Padura como simpatizante do trotskismo. Sem diminuir a notável realização de Padura em retratar não apenas Trotsky, o homem, mas também Trotsky, o pensador político, ele falha em compreender, talvez por causa de sua própria formação política, certos conceitos estratégicos do pensamento trotskysta.

Padura apresenta com precisão a dura crítica de Trotsky ao comunismo alemão e sua política suicida em relação ao nazismo que tratava a social-democracia (“social fascismo”, de acordo com a linguagem dos stalinistas) como equivalente ao nazismo. Mas ele erroneamente deixa implícito que Trotsky defendeu uma espécie de Frente Popular de todas as forças de “centro e esquerda” para combater o nazismo e o fascismo. Em vez disso, ecoando o Comintern do início dos anos 20, Trotsky propôs uma política da Frente Unida que reuniria todas as forças da classe trabalhadora, que incluía a social-democracia, mas excluía os partidos burgueses, independentemente de quão liberais e democráticos eles fossem.

Em outras palavras, Trotsky apoiava uma política de classe, não uma política “popular”. Ele supôs, como no caso da Espanha, que a oposição ao fascismo só poderia ter sucesso se fosse baseada na mobilização dos interesses de classe, o que acabaria por levar à revolução socialista – a única alternativa real ao fascismo para Trotsky, dada a decadência da sociedade capitalista, mesmo em suas versões democráticas.

Qualquer dúvida que possa ter permanecido sobre as possíveis inclinações trotskistas de Padura foi removida por sua recente entrevista ao Espacio Laical, a publicação liberal católica cubana, onde ele disse que Trotsky tinha sido tão “fanático” quanto Mercader – uma declaração que parece completamente em desacordo com o espírito e a letra de O Homem que Amava os Cachorros.


Ainda assim, o personagem principal de O Homem que Amava os Cachorros não é Leon Trotsky nem Ramón Mercader. É a única figura da trama totalmente fictícia, a única das três que é cubana: o próprio narrador. Iván é um jovem jornalista que já foi punido duas vezes pelo sistema por ser muito independente na época que conhece Mercader.

Pouco depois de se formar na universidade, as autoridades o enviaram para a longínqua cidade de Baracoa para trabalhar como chefe da estação de rádio local – uma ação destinada a servir como um “corretivo” do governo cubano para “me derrubar e me impor este mundo”. Na segunda vez, ele foi enviado para trabalhar para uma revista veterinária como revisor. Então, para aumentar seus infortúnios profissionais, seu irmão é excluído da universidade por ser gay e desaparece ao tentar fugir para os EUA.

A história pessoal de Iván começa a se desenrolar na década de setenta, período que marca os quatro anos em que Mercader residiu em Cuba como assessor do Ministério do Interior e também o ponto alto da repressão política e cultural do stalinismo na ilha.

Foi durante esses anos “amargos” que Iván foi marginalizado e reprimido pelas autoridades cubanas – justamente quando começava a se revelar como escritor sério. Iván esclarece que a vida de escritores como ele não corria perigo naquela época. Em vez disso, o sistema os transformou em nada. Ou seja, conta Iván, quando soube o que era o medo:

Acho que naqueles anos devemos ter sido os únicos membros de nossa geração em toda a civilização estudantil ocidental que, por exemplo, nunca colocaram um baseado entre os lábios e que, apesar do calor correndo em nossas veias, nos libertaríamos tardiamente do atavismo sexual, liderado pelo maldito tabu da virgindade (não há nada mais próximo da moralidade comunista do que os preceitos católicos); no Caribe espanhol éramos os únicos que vivíamos sem saber que estava nascendo a salsa ou que os Beatles (os Rolling Stones e Mamas and the Papas também) eram os símbolos da rebelião e não da cultura imperialista, como nos diziam muitas vezes; e além disso, éramos, na época, os menos informados sobre a extensão das feridas físicas e filosóficas produzidas em Praga por tanques que funcionavam como mais do que ameaças, sobre o massacre de estudantes em uma praça mexicana chamada Tlatelolco, sobre a devastação histórica e humana desencadeada pela Revolução Cultural do nosso querido camarada Mao, e sobre o nascimento, para as pessoas da nossa idade, de outro tipo de sonho, morto nas ruas de Paris e nos concertos de rock da Califórnia.

Em seguida, situando-se nos anos 90, Iván revisita o nascimento e a morte das esperanças suscitadas pela Perestroika, a descoberta da verdade sobre o ditador romeno Nicolae Ceaucescu, os horrores da Revolução Cultural na China e a decepção por ter descoberto que o grande sonho de emancipação humana e igualdade estava mortalmente doente, e que genocídios como o cometido no Camboja pelo regime do Khmer Vermelho de Pol Pot foram cometidos em seu nome. O que parecia indestrutível havia se rasgado nas costuras.


Leonardo Padura, é um dos principais representantes de um novo ambiente intelectual e cultural da ilha que apoia a liberalização e democratização da sociedade cubana. Mas ele está em uma posição única no sistema cubano: embora tolerado e até festejado, sua obra mais crítica não foi divulgada ao grande público. Ele parece ter alcançado um grau muito maior de independência das autoridades do que outros artistas e intelectuais conhecidos na ilha.

Assim, ele tem apoiado criticamente o programa de reforma do governo, mas tem agido com muito mais independência do regime do que outros artistas e intelectuais cubanos de renome – por exemplo, abstendo-se de endossar muitas das declarações denunciando dissidentes patrocinados pelo aparato cultural do Estado cubano. Como o próprio Padura sugeriu em várias ocasiões, isso foi possível em parte devido à sua independência econômica do governo, que foi conquistada com a publicação de suas obras no exterior.

Nos agradecimentos ao final de O Homem que Amava os Cachorros, Padura escreve que a “semente” do livro começou a germinar em sua mente durante uma visita que fez, pouco tempo antes do colapso do bloco soviético, a casa de Trotsky no bairro de Coyoacán na Cidade do México, um museu que para ele era “um verdadeiro monumento à ansiedade, ao medo e ao triunfo do ódio durante a época em que os Trotsky moravam lá”.

Quinze anos depois, com a URSS morta e enterrada, diz o romancista cubano, ele contou a história do assassinato de Trotsky “para refletir sobre como a grande utopia do século XX foi corrompida”. Vergonhosamente, após ter sido publicado e comentado favoravelmente pela imprensa oficial da ilha, e mesmo tendo recebido o Prêmio Nacional de Literatura em 2012, a tiragem da edição cubana de seu livro foi tão pequena que ficou indisponível logo após sua apresentação pública.

O governo cubano quer matar dois coelhos com uma cajadada só: relaxar alguns controles políticos e ao mesmo tempo impedir a difusão de idéias que podem subverter seu monopólio de poder. Padura não foi censurado ou reprimido pelo governo cubano. Mas, semelhante a seu narrador Iván, ele foi modulado para ter menos importância do que deveria.

nasceu e foi criado em Cuba e é autor de muitos artigos e livros sobre esse país. Seu livro Before Stalinism: The Rise and Fall of Soviet Democracy acaba de ser reimpresso e disponível para venda pela Verso Books.

domingo, 12 de julho de 2026

3º CONGRESSO

 3º CONGRESSO DA OPOSIÇÃO DEMOCRÁTICA

A minha participação no 3ª Congresso da Oposição Democrática (Aveiro 4 a 8 de Abril de 1973) começou muito antes, provavelmente um ano antes. Os ativistas do Movimento da Oposição no distrito do Porto reuniram-se frequentemente no decurso dos meses de preparação. Muitas dessas reuniões realizaram-se na cave da República de estudantes “24 de Março”, na cidade do Porto, edifício que ainda existe e ostenta uma placa de homenagem da cidade e da respetiva edilidade.  A Oposição Democrática já dispunha de um escol muito experimentado de ativistas- de operários, empregados, funcionários públicos, estudantes - muitos deles jovens oriundos das batalhas políticas de 1969, entre os quais eu me incluo. Os encontros não se dedicavam exclusivamente à preparação da nossa participação no Congresso ; primeiro, porque a organização deste esteve entregue em grande parte aos ativistas antifascistas do distrito de Aveiro; segundo, porque o Congresso inseria-se nas batalhas políticas desse ano crucial em que se realizariam também eleições legislativas em Outubro. Por conseguinte cada um de nós ia operando em múltiplas frentes, desde a Universidade onde estudava, a escola onde já lecionava, a fábrica, o escritório...discutindo e votando documentos que iria a seguir distribuir à população fosse nos locais reservados para o recenseamento eleitoral em situação legal embora completamente vigiada, fosse em distribuições ilegais alguns deles (nesse ano eu e outros ativistas fomos detidos pela PIDE-DGS nas celas da Rua do Heroísmo, dias ou semanas ; quanto a mim fui detido mais do que uma vez).

Entretanto, a Oposição Democrática dera grandes passo em frente ( criação de comissões distritais coordenadoras ou diretivas representando democraticamente numerosas comissões de base, Comissão dos Trabalhadores, Comissão dos Jovens Trabalhadores, C. das Mulheres, C. dos Estudantes . Comissões sócioprofissionais tais como dos Médicos, dos Bancários, fundação da Comissão Central ou Nacional da Oposição Democrática (deixo o rigor das designações e das datas aos que dispõem de mais memória e mais documentação), a qual realizou mais de um encontro em Lisboa e da qual fizeram parte talvez três ativistas, entre eles eu próprio. Nestes encontros discutiu-se a realização do III Congresso e como transformar o curto período da campanha eleitoral do de 1973 num prolongado, ininterrupto período de lutas unindo cada vez mais todas as correntes políticas e sectores da população. No Porto havia-se fundado um periódico - semanário- intitulado “A Opinião” que obteve desde logo um notável sucesso, tanto mais que era legal apesar da vigilância da censura. Por conseguinte, as atividades antifascistas constantes (não dávamos tréguas à ditadura nem férias a nós mesmos) que iam desde unitários e eficientes encontros locais e nacionais até à edição de semanários e ao muito ativo associativismo e cooperativismo, propiciaram uma larga e enérgica participação dos democratas de norte a sul do país.

Distribuímos as tarefas e responsabilidades. Fez-se a distinção na apresentação dos textos para o Congresso os textos  a título coletivo, dos textos a título pessoal (as chamadas “Teses” apresentadas por oradores dirigentes do Movimento da Oposição Democrática do Norte foram dadas a conhecer nas suas linhas principais em Plenários Distritais, sendo embora elaborados a título pessoal) . Entreguei à direcção executiva do Congresso duas Teses, que apresentei e que estão publicadas: “Esboço para um quadro afirmativo das contradições do capitalismo em Portugal”, e A crise do fascismo e a aproximação da vitória das forças democráticas” ; a primeira dirigida à Secção “Desenvolvimento Económico e Social” (a C. Executiva do Congresso nomeou-me membro da mesa coordenada desta secção); a segunda, à Secção “Situação e Perspetiva Política no Plano Nacional e Internacional”. Neste texto pretendi expor as contradições em que estava enredado o regime fascista : económicas, sociais, políticas. Escrevi então que “Os sectores sociais que constituíam o regime: meia dúzia de  industriais e financeiros que gozavam de monopólios,  aliados aos latifundiários do Alentejo, submetendo-se ambos sectores do capitalismo ao imperialismo internacional, recusam e revelam-se incapazes em resolver os graves problemas nacionais de que são inteiramente responsáveis e que se agudizam rapidamente”, particularmente pela guerra colonial e pelos seus custos em vidas,  financeiros e políticos (nomeadamente o isolamento internacional), as consequências estranguladoras da meia dúzia de monopólios industriais-comerciais-financeiros (uma concentração e centralização absolutas que criavam profundos descontentamentos na pequena e média burguesia dependente e sufocada por impostos ). Deste modo procurei demonstrar a existência de condições excecionalmente favoráveis para lutas unitárias que confluiriam no Congresso e depois dele, trazendo a “aproximação da vitória das forças democráticas”. As Conclusões da minha Tese não colidiram de modo algum com as Conclusões finais e consensuais que iriam ser votadas pelo Congresso. Escrevi eu então: “Plataforma Mínima com base nos seguintes objetivos de acção: 1- Luta pelas Liberdades Fundamentais e Contra todas as formas de repressão; 2- Luta contra a Guerra Colonial , exigindo-se o seu fim imediato e abertura de negociações com os Movimentos de Libertação com base nos direitos dos povos à autodeterminação e independência; 3- Luta contra a carestia de vida e contra a política monopolista e de submissão ao imperialismo; enfim, 3- Luta pela conquista de um Regime Democrático de base popular [sublinhado agora por mim], pela paz e pela independência nacional.

 

Chegou o dia inicial do Congresso. Para lá viajei sempre na companhia do saudoso camarada Joffre Amaral Nogueira, meu amigo mais velho muito querido e respeitado. Durante o decorrer da apresentação das Teses em nome individual ou coletivo levantavam-se acaloradas discussões (nem sempre de bom tom) entre as diversas correntes ideológico-políticas que atravessavam a massa dos colaboradores e assistentes. Contudo, a poderosa nota final que o Congresso transmitiu foi de unidade, como se demonstrou na aprovação, sem conflitos, da Resolução final ou Plataforma. Constituíam os objetivos imediatos a serem alcançados pela luta nacional contra a ditadura e para a implantação de um regime patriótico, democrático e anticolonialista!

Foram três dias que marcaram a história de Portugal .

 

No final, esses três dias intensos convergiram em uma romagem ao cemitério da cidade de Aveiro para homenagear o grande intelectual antifascista Mário de Sacramento.manifestação pública grandiosa que foi violentamente reprimida ela tropa-de-choque, guardiões da ditadura. Esse ato , que eu classifico como desesperado do fascismo,  foi o seu erro político definitivo : o Movimento dos Capitães já preparava as suas reuniões clandestinas...

 

A carga policial terrorista atacou a linha da frente da manifestação ordeira e pacífica. Corremos eu e a minha mulher grávida o melhor que pudemos para uma estreita rua lateral. Sentámos-nos porque ela já não aguentava mais o esforço. Momentos depois sentou-se ao nosso lado o Zeca Afonso. E ali ficámos os três silenciosos. “Ao contrário do que parece, fomos nós que vencemos!”, disse eu dirigindo-me ao admirado companheiro daquela hora. E ele assentiu com aquela cabeça que criava então canções que ainda me comovem até à lágrimas.

-----NOZES PIRES----16/10/2022

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

 

ISTO DEVIA ABRIR TELEJORNAIS ...
VOLTA ... Ecologia ou negócio privado disfarçado?
O chamado “Programa Volta” está a ser apresentado como uma grande vitória ambiental. Mas quando se olha para quem manda realmente no sistema, percebe-se rapidamente que isto tem muito mais de engenharia financeira do que de ecologia.
A entidade que gere o sistema chama-se SDR Portugal. E atenção a este detalhe: não é um organismo público. É uma associação privada.
O presidente da organização é Leonardo Mathias, antigo Secretário de Estado da Economia e diplomata. Mas o verdadeiro poder está em quem fundou e financia o sistema: a Circular Drinks e a SDRetalhistas.
E quem está por trás dessas estruturas? Precisamente os gigantes das bebidas e os maiores grupos de distribuição do país. Estamos a falar de empresas ligadas à Coca-Cola, Super Bock, Central de Cervejas, Sumol+Compal e aos grupos donos do Continente, Pingo Doce, Lidl, Auchan, Mercadona, Aldi e Intermarché.
Ou seja: as mesmas multinacionais que inundam o mercado com plástico descartável passaram agora a controlar o sistema que cobra mais 10 cêntimos ao consumidor em nome da “sustentabilidade”.
A União Europeia obrigou os países a aumentar drasticamente a recolha de garrafas plásticas até 2029 através do princípio do “poluidor-pagador”. Em teoria, quem coloca plástico no mercado devia assumir os custos ambientais da recolha e tratamento.
Mas em Portugal aconteceu algo muito curioso: em vez de criar um sistema público e independente que obrigasse os produtores a suportar diretamente os custos da poluição que geram, foi permitido aos próprios poluidores criarem e gerirem um sistema privado onde o consumidor paga adiantado e faz o trabalho logístico.
Compramos a bebida.
Pagamos depósito.
Guardamos lixo em casa.
Transportamos embalagens.
Esperamos por máquinas.
E ainda corremos o risco de perder o dinheiro.
Porque aqui entra a parte mais interessante do negócio : Se a garrafa ficar amassada, se o código de barras não for aceite, se a máquina estiver avariada, ou simplesmente se a pessoa não tiver tempo para ir devolver embalagens, os 10 cêntimos ficam retidos no próprio sistema.
Não vão para o Estado.
Não vão diretamente para um fundo ambiental público.
Ficam dentro da estrutura privada criada e controlada pelas próprias marcas e grandes superfícies.
Chamam-lhe financiamento do sistema. Na prática, milhões de euros poderão ficar presos todos os anos graças ao esquecimento, desgaste ou impossibilidade das pessoas devolverem embalagens.
E tudo isto enquanto falamos de multinacionais com lucros anuais absolutamente astronómicos. Mesmo assim, conseguiram criar um modelo onde parte do esforço financeiro e logístico passa diretamente para as famílias.
E há outra pergunta que quase ninguém faz:
Se o objetivo fosse realmente ecológico, porque é que o foco continua quase exclusivamente na reciclagem de plástico e latas em vez de apostar fortemente na reutilização de vidro?
Todos nós conhecemos o sistema antigo das cervejas e águas reutilizáveis nos cafés: recolher, lavar, esterilizar e voltar a usar. Décadas a funcionar. Mas reutilizar obriga as multinacionais a alterar linhas de produção, logística e margens de lucro.
Reciclar plástico mantém o ciclo do descartável vivo.
A reciclagem mecânica continua a gastar enormes quantidades de água e energia enquanto se produz mais plástico novo. No fundo, venderam-nos isto como uma revolução ecológica.
Mas o que muita gente vê é outra coisa: os maiores produtores de plástico passaram a controlar o sistema que lucra com a gestão do próprio problema que criaram.
A raposa ficou oficialmente a guardar o galinheiro.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

 

De la Comuna de París a las heroicas batallas de la resistencia en el sur de Líbano

A aquellos que dudan de la capacidad de los pueblos para enfrentarse a fuerzas que les superan en número, a aquellos que constantemente propagan el discurso derrotista de la desesperación, de la duda, sobre la capacidad de resistencia en Palestina, en Líbano, en Irán o en el Yemen para alzarse con la victoria a pesar del desequilibrio en la relación de fuerzas, a pesar de la magnitud de pérdidas y de sacrificios, he aquí lo que Ho Chi Min dijo en respuesta a los que ponían en duda la victoria contra la Francia imperial de entonces, de 1951:

“A la vista del desequilibrio de poder, algunos comparan nuestra resistencia a una pelea entre saltamontes y elefantes. En cierto modo, a quienes no ven más que el lado físico y efímero de las cosas, esto les puede parecer verdad… Nosotros, frente a los aviones y la artillería enemiga, no teníamos otra cosa en nuestras manos que lanzas de caña de bambú… Pero nosotros no miramos solo el presente, también miramos al porvenir; ponemos nuestra confianza en la fuerza y la moral del pueblo. En consecuencia, respondemos con firmeza a los dubitativos y a los pesimistas: hoy sí, el saltamontes se atreve a hacer frente al elefante. Mañana será el elefante el que perderá su pellejo”.

Tres años después de este discurso, el general Giap derrotó a los franceses en Dien Bien Phu. “¡Sí, también mañana los sanguinarios yanquis y su peón sionista arrastrarán el rabo entre la decepción y la derrota!”

Nuestros combatientes ya habían demostrado su valía: victoria en 2000, victoria en 2006 después de 33 días de un combate heroico. No eran más que 1.000 guerrilleros con armamento muy modesto (Katiuskas y lanzacohetes individuales de fabricación soviética) heredado de Fatah, contra todo un ejército, el israelí, de los más sofisticados, incluida la poderosa 5 División del ejército dotada de tanques Merkava y la protección aérea de los Estados Unidos con sus F35, F36 y Apaches.

A día de hoy la entidad sionista ha sido dotada por el occidente imperialista de armas de destrucción masiva. Por primera vez en la historia se utilizan contra guerrilleros bombas de 1 y 2 toneladas (las FLU 9, M-84) lanzadas sobre todo en los suburbios del sur para asesinar a la dirección militar de la resistencia, como ocurrió cuando el asesinato de la cúpula del comando Aradwan el 20 de septiembre y en el asesinato del dirigente histórico Nasrrallah el 27 de septiembre de 2024.

Para matar al dirigente iraní, al estado mayor y a los miembros de la administración iraní, Trump anunció en la Knesset que su aviación y la de Israel habían utilizado 7 aviones de combate B2 con bombas de 2 toneladas, y que ordenó otros 26.

En Khiam, Bint-jbeil, Aytaroun, Arnoun, al sur de Líbano, se vio a combatientes legendarios luchando a “distancia cero” con sus cuerpos y sus ametralladoras contra un enemigo cuyos soldados estaban atrincherados en sus tanques.

La batalla de Wadi El-Hojeir ha entrado en la historia: 40 merkavas israelíes fueron destruidos por combatientes que operaban a pie, saliendo de refugios o de túneles al asalto de tanques enemigos. Así, a distancia cero, frente a un enemigo cobarde y sanguinario, que mata a distancia, atacando a civiles, mujeres, niños.

Ni una sola batalla israelí fue ganada en combate terrestre, ¡ni una! Durante la batalla de 66 días (del 1 de octubre de 2024 al 5 de diciembre de 2024), los israelíes emplearon a 150.000 soldados para intentar invadir el Líbano. Frente a ellos un puñado de guerrilleros de los que quedaron de la dirección diezmada durante aquellos malditos 10 días que sacudieron la resistencia. En esos diez días ocurrieron los siguientes hechos fatídicos: la explosión de los buscapersonas (pipers) el 17-18 de septiembre 2024; el ataque a las fuerzas de Radwan el 20 septiembre del mismo año; el asesinato de Nasrallah y de el 27 de septiembre y de Hashem Safieddine el 1º de octubre de 2024 y la carnicería de primeros de octubre con salvajes ataques aéreos en el sur, que se saldó con 623 muertes en un solo día. A pesar de todo, estos militantes entrenados para actuar en caso de desconexión con la dirección, impidieron al enemigo avanzar con sus tanques ni un solo kilómetro. Uno de los principales jefes de estado iraníes, Quaani, consideró en aquel momento que esta batalla era la más importante de la historia.

Israel pidió un alto el fuego y Hezbollah lo aceptó para permitir a los refugiados regresar a sus aldeas, y también para poder reorganizarse, cambiar el sistema de comunicación, neutralizar la infiltración en su organización y adquirir nuevas armas adaptadas a un nuevo concepto de combate.

Este alto el fuego fantasma, establecido bajo control americano, tenía como objetivo hacer ganar al enemigo mediante la paz lo que no pudo obtener por la guerra. Durante este alto el fuego que duró 15 meses, Israel ocupó las 5 colinas que dominan el sur y destruyó 39 aldeas; por lo tanto, prácticamente causó el 70 por cien de los daños sufridos durante la guerra iniciada en Gaza el 7 de octubre de 2023. Israel quería crear una zona tampón amarilla como la de Gaza, de 30 kilómetros de profundidad.

A partir del 2 de marzo de 2026, en concomitancia con el ataque israelí-estadounidense contra Irán, Hezbollah rompe este alto al fuego y desencadena una guerra de guerrillas, aún en curso, utilizando técnicas simples y dotándose de procedimientos que escapan al control de sus sistemas electrónicos y satelitales, con nuevas armas fabricadas manualmente y poco costosas como los drones de ataque FVP con hilos luminosos no detectables. Más tarde introdujeron, AL-MAZ-3, de un alcance de 16 km., que Hezbollah pirateó a los israelíes en las batallas y posteriormente desarrolló.

Tres batallas deben quedar grabadas en la memoria de los militantes anticolonialistas y antiimperialistas:

– la de Khiam, apodada Stalingrado, por inexpugnable. A pesar del empeño de la aviación que destruyó el norte de laciudad, los combatientes que conocen el terreno salieron en el momento oportuno de los túneles y entablaron un combate calle a calle e impidieron que el enemigo la ocupara.

– la de Bint Jbeil, la ciudad más cercana, a 3 km, de la Palestina ocupada. Aunque prácticamente destruida, los guerrilleros desde los túneles están levando a cabo operaciones diarias contra el ocupante. Para Bint Jbeil, centro urbano del distrito de Jabal Amel, no es su primera batalla: ya en 1978 Israel la sitió durante tres meses; entonces 14 combatientes del FPLP lograron aflojar el cerco de la ciudad llevando a cabo una operación suicida contra el cuartel central de las tropas enemigas. Bint Jbeil fue elegida por Nasrallah en el año 2000 para celebrar la victoria de la retirada israelí después de 22 años de ocupación (1982-2000). En su estadio pronunció su discurso al estilo Mao Tse Tung, según el cual “Israel” es más frágil que una tela de araña: “el imperialismo no es más que un “tigre de papel”. Allí se oyó una vez más a los dirigentes de la resistencia libanesa pronunciar frases como “Desheredados del mundo, uníos”.

Netanyahu, que no ha olvidado la frase, intentó en varias ocasiones entrar en Bent Jbeilh para decirle a Nasrallah que estaban de vuelta, pero no tuvo éxito. 13 tanques israelíes y bulldozers Hamer fueron destruidos por los resistentes que surgían de debajo de los escombros; Bint jbeil es apodada por los sureños la ciudad-milagro de la historia. Allí se estableció una cultura de resistencia y valentía sin precedentes: Un combatiente nunca se rinde, no importa los sacrificios que ello suponga.

– la tercera batalla fue la de Zawtar oriental, que sorprendió a los estrategas militares. Los combatientes habían emboscado el paso por el que los tanques israelíes debían atravesar el río Litani hacia Nabatieh, y aquello fue el cementerio de los Merkavas, de Hammer y decenas de víctimas, entre ellos el general de la unidad 93 del ejército israelí, el segundo después del general de la unidad 36. La aviación israelí ataca objetivos civiles y destruye infraestructuras en Nabatieh, al norte del Litani, y en Tiro, incluso en la capital del país, pero detrás de ellos hay focos que resisten a lo largo de las aldeas fronterizas.

La gran lección que la resistencia ha aprendido desde la costosa guerra de apoyo a Gaza es la vuelta a la técnica de guerrillas y la guerra popular prolongada. Esta valentía saca su fuerza, como dice Gramsci, de la relación orgánica entre el combatiente y la masa; el combatiente se funde en la masa y asume el peligro para protegerla (el bastón de Yayah Sinwar se ha hecho mítico). En el sur de Líbano, como en Gaza toda la dirección de la resistencia fue diezmada, con familias y niños. Ismael Hanieh, Khalil El-Hayeh, Nasrallah, todos tienen un hijo mártir. Así participaban en la lucha los dirigentes tanto de al-Kassam como de al-Radwan.

La técnica de la guerrilla, o la vietnamización de la resistencia armada, herencia de todos los combatientes del mundo – de los vietnamitas, los coreanos y los latinoamericanos, de los argelinos y los palestinos – ha sido recogida por los combatientes.

El concepto doctrinal de martirio, “elegir entre perder el honor o entrar en la historia como mártir”, no es necesariamente un concepto religioso; esta doctrina que incita a no temer la muerte, no tiene por objetivo desinteresarse de la vida sino, al contrario, la idea es respetar la vida. También se encuentra entre los libertadores comunistas antiimperialistas, como el Che, que decía: “Hay que elegir entre una vida degradada y servil o sacrificarse por una causa noble y justa”. La consigna de los combatientes palestinos era vencer o morir, lo mismo que el “Patria o muerte” del Che. Todos los discursos de El-Kassam tenían esta frase como un leitmotiv.

Esta doctrina es una fuente de coraje inaudito: “El tirano muere y su reinado termina, pero la muerte del mártir es el comienzo de su gloria”, dice el teólogo danés Soren Kierkegaard.

Acerca de la violencia

La revista científica The Lancet publicó en noviembre de 2025 un estudio, citado por Jhon Mearsheimer, según el cual el número de víctimas de la guerra de sanciones económicas impuestas a los países del tercer mundo por los Estados Unidos. llegó a los 28 millones de muertos. En Iraq, el embargo mató a 500.000 personas por sí solo, la mayoría niños.

En Líbano, después del 8 de octubre de 2023, ha habido 33.854 víctimas (7.327 mártires y 26.537 heridos); un promedio de 36 víctimas por día.

En Gaza las 180.000 toneladas de bombas han superado en 8 veces las bombas sobre Hiroshima y Nagasaki; 80 kg. por habitante.

En Gaza se habla oficialmente del 11 por cien de la población de Gaza muerta o herida. La proporción para Francia equivaldría al total de los habitantes de París, y para Estados Unidos a 33 millones de americanos. The Lancet, habla de 680.000 muertos y desaparecidos, cifras utilizadas por Francesca Albanese y Ralph Nader, colaborador de Ramsay Clark, entre los cuales:

– 2.700 familias con todos sus miembros desaparecidos.
– 5.943 familias, de las que sólo queda un superviviente.

No es la primera masacre de la historia. En Argelia hubo un millón de mártires de una población de 3 millones, en el Congo con 10 a 20 millones de muertos. En Gaza y en el Líbano asistimos a matanzas similares y perpetradas en un corto periodo de tiempo.

Tres escenas permanecen clavadas en la memoria:

– familias quemadas en sus tiendas de plástico.
– niños bombardeados cuando acudían a puntos de distribución de alimentos.
– miles de familias obligadas y empujadas como ganado a caminar continuamente, día y noche, y que acabaron pisándose entre ellos. Muchos niños encontraron la muerte pisoteados por sus propias familias.

Es innegable que la guerra contra Gaza y contra el Líbano es una guerra estadounidense, incluso al nivel de decisión política. No habría sido posible sin la armada de Estados Unidos y occidental, sin los 54.000 millones de dólares americanos. Este coste de la guerra es el que Trump pretende compensar explotando los yacimientos marítimos de Gaza y Nakura.

El ‘gobierno de Vichy’ de Líbano ante la resistencia libanesa

Desde diciembre de 2023, el Líbano ha aceptado un cese del fuego solicitado por Israel después de 66 días de batalla. Este alto al fuego fue supervisado por una comisión presidida por los Estados Unidos, con un comisionado estadounidense, Tom Barak, designado por Trump para gobernar el país. Desde esa fecha, el centro de decisión se ha trasladado de Baabda [residencia oficial del presidente del Líbano] a Washington, desde entonces estamosbajo mandato estadounidense. Es Washington quien ha organizado las elecciones presidenciales, designado al gobierno, al jefe del ejército, al gobernador del banco central, etc.

Hezbollah, que necesitaba reorganizarse, lo ha permitido durante 15 meses, a pesar de que Israel violó el alto al fuego 11.000 veces y asesinó a 500 de sus miembros.

El 2 de marzo, la resistencia decidió romper el alto el fuego (tras el asesinato de Jamenei) y reanudar la lucha contra Israel. Esto alarmó a los estadounidenses que alentaron a Netanyahu a atacar Beirut oeste cerca de la sede del gobierno, el 8 de abril de 2026, masacrando a 365 personas en edificios civiles.

Fue la decisión de Trump: esto, o la firma de un acuerdo de paz con el enemigo sionista.

Así es como ha entrado el Líbano oficial en una fase crucial que nos recuerda la época del “gobierno de Vichy” en Francia durante la Segunda Guerra Mundial, cuando la autoridad de entonces no era más que un apéndice del exterior. Los presidentes de la república y el gobierno se sometieron a la presión estadounidense, comenzando por no hacer el discurso del juramento, requisito para acceder a sus respectivos cargos.

El gobierno ha cumplido las siguientes órdenes de Estados Unidos:

  1. Declarar a Hezbolah, que defiende al país, una organización terrorista
  2. Cerrar las instituciones de Hezbollah en Beirut
  3. Expulsar a la embajada iraní de Líbano
  4. Pedir a Hezbollah (según el concepto de Hobbes de que “el Estado es quien monopoliza las armas”) que deje las armas, y le exige que entregue las armas para que sean destruidas.

A pesar de los enormes sacrificios hechos por la resistencia y su compromiso durante un año y medio, las autoridades libanesas, sin sentimiento alguno de dignidad nacional, no sólo se arrodillan ante el enemigo, sino que traicionan a quienes defienden el país y han perdido más de 6.000 hombres en combate, por no hablar de las 33.000 víctimas civiles desde octubre de 2023.

Estas autoridades títeres buscan, bajo presión estadounidense, despojar al Líbano de su poder frente a un enemigo que sólo entiende el lenguaje de la fuerza; propone ridículas iniciativas de negociación y rendición bajo el fuego del enemigo que sigue invadiendo, ocupando y destruyendo toda posibilidad de vida en 62 aldeas libanesas, exactamente como ocurrió en Gaza donde Israel ocupa ya el 70 por cien del territorio.

Estados Unidos no quiso contentarse con humillantes negociaciones cuyo único objetivo fuese desarmar a la resistencia; peor aun, exigió al gobierno libanés enviar a Washington una comisión de oficiales libaneses para reunirse con una comisión militar israelí con el fin de elaborar un plan común para desarmar la resistencia. Los Estados Unidos anunciaron que estaban dispuestos a reconstruir el ejército libanés sobre nuevas bases, asignando 11.000 millones de dólares para esta misión. Esto en realidad significa “una guerra civil y una dislocación del Ejército” como ocurrió durante la guerra civil entre el 75 y el 93.

¿Son hoy los combatientes de Hezbollah los comuneros contra Versalles?

A la pregunta de si los combatientes de Hezbolá serían los nuevos comuneros, la respuesta es sí. La comparación es desde el punto de vista patriótico… El gobierno libanés hoy, como el de Adolphe Thiers en la Francia de 1870-1871, sigue negociando con el ocupante, no para defender la soberanía del país o los intereses de su pueblo sino para conspirar contra la Resistencia y liquidarla por las armas. El ataque iraní contra Israel en junio de 2026 para disuadir al enemigo sionista de bombardear los suburbios del sur puso al gobierno (acusado de traición por Hezbollah y el “Frente Nacional de Apoyo a la Resistencia”) al descubierto. Acusó a Irán de inmiscuirse en los asuntos del Líbano, mientras se calla cobardemente ante la invasión israelí que sigue avanzando hacia las grandes ciudades de Tiro y Nabatieh.

Marx consideraba la guerra desatada por la burguesía contra la Comuna desde los dos lados de la frontera, como “la más terrible guerra de los tiempos modernos, el vencido y el vencedor confraternizan para masacrar en común a los comuneros“. Y explicaba cómo los prusianos cercaban París mientras negociaban con los de Versalles después de haber cedido tras la derrota Alsacia y una parte de Lorena.

Los comuneros iniciaron entonces su revolución obrera y comenzó la guerra civil. Los más decididos eran los blanquistas y los internacionales, pero todo terminó con la masacre de 25.000 comuneros.

En “La guerra civil en Francia”, Marx explica que los comuneros nunca cedieron al viejo chovinismo de la República propagado bajo la consigna “¡Valmy o la patria en peligro!” cuando la Revolución francesa era atacada por todos los despotismos europeos.

Por su parte Lenin, en “El Estado y la revolución”, vuelve sobre ello y explica que “¡El derrotismo revolucionario es precisamente la continuación de la lucha de clases!”

Pero la comparación entre comuneros y combatientes libaneses no puede aplicarse desde el punto de vista del programa social republicano de la Comuna:

– Laicidad: separación de la iglesia y del estado
– Fin del trabajo nocturno, sobre todo para los niños
– Libertades en todos los ámbitos

La patria de los comuneros se pretendía universal y tenía la esperanza de reconfigurar todo el territorio de Francia en función de las conquistas de las comunas federadas; no tuvo éxito y fue ahogada en sangre en varias ciudades.

Y Marx concluía que “el mayor esfuerzo de heroísmo del que todavía es capaz la vieja sociedad es una guerra nacional; y aquí se ha demostrado que eso es una pura mistificación de los gobiernos. El dominio de clase ya no puede ocultarse bajo un uniforme nacional”. ¡Es inaceptable todo compromiso patriótico con ellos!

Es cierto que Hezbollah construyó “un Estado dentro del Estado“, y puso en marcha instituciones bancarias creando los famosos bancos de trueque “el buen préstamo” basados en un concepto opuesto al de las instituciones financieras como el Banco Mundial y el FMI. Y es cierto que creó la gran institución alternativa “Jihad el-Bina” para proteger a los campesinos contra el capítulo agrario de la OMC, y para fomentar pequeños proyectos de autosuficiencia alimentaria, protección de granos y producción de energía solar. Pero sus proyectos no pudieron tener un impacto universal, ni imponerse a escala nacional. Los primeros ataques aéreos israelíes atacaron todas las oficinas del “buen préstamo”, que fueron completamente demolidas.

Acerca de la guerra norteamericana-israelí contra Irán

  1. La guerra criminal imperialista contra Irán no es un duelo, sino una guerra de occidente contra Irán y el Eje de la Resistencia.
  2. Esta guerra terminó en un fiasco y no pudo lograr ninguno de sus objetivos, a saber:

– La caída del régimen de la República Islámica, que no sólo no se ha debilitado, sino que Estados Unidos ha tenido que pedir negociaciones.

– No ha podido provocar una guerra civil en este país multiétnico en el que los persas son sólo el 40 por cien de la población (kurdos y ezaris no han querido rebelarse contra el Estado central). Desde entonces, Irán ha adoptado la democracia de la calle, incentivando el diálogo y favoreciendo los debates. El último discurso del presidente dio instrucciones en este sentido.

– No pudieron romper el Eje de la Resistencia que funcionaba en Líbano, Yemen e Irak.

– No pudieron eliminar la energía nuclear.

Irán se ha fortalecido y ha añadido un nuevo potencial: imponer su control sobre el Estrecho de Ormuz.

Irán ha sufrido pérdidas, pero también Israel. A pesar de que Israel posee aviones furtivos, F-35, sistemas antimisiles entre los más avanzados del mundo y dos cúpulas de hierro, Arrow, y David’s Sling, fue una guerra costosa para él. Cada intervención les cuesta millones de dólares, mientras que los misiles iraníes cuestan una ínfima fracción de esas cifras.

¿Qué elementos contribuyeron a esta victoria?

  1. Irán libró una batalla de desgaste contra sus enemigos con control del elemento tiempo, rechazando el derroche y procediendo por etapas.

  2. Irán, que tiene las dimensiones de un continente, con sus 90 millones de habitantes y su superficie de 1,6 millones de km2, se ha ido reconstruyendo desde hace al menos 5 décadas bajo presión permanente de sanciones (una aviación envejecida, una inflación enorme, tensiones internas) lo que le obligó a recurrir a sus recursos humanos y naturales y, por tanto, a construir una economía de autosuficiencia en todos los ámbitos: soberanía alimentaria, desarrollo científico, incentivación de la participación de las mujeres (el 60 por cien de los estudiantes universitarios son mujeres, especialmente en las facultades de ciencias). Mientras tanto, el Occidente eurocentrista con su izquierda otanista, pretende darles lecciones sobre vestimenta.

Conclusión

El impacto del desafío iraní contra Estados Unidos está cambiando las reglas del juego en el mundo. Es la primera vez que una fuerza media desafía no sólo a Estados Unidos, también a su lacayo sionista, y a sus aliados en el Golfo que perdieron las bases estadounidenses destruidas en 3 noches, así como a las Fuerzas de la OTAN y de países europeos. Esto constituye una lección para Pakistán y para Turquía que tanto temen a Estados Unidos.

La oligarquía financiera cree que sus innovaciones tecnológicas pueden acabar con la resistencia de los pueblos y enterrar sus aspiraciones de independencia y justicia, pero es en vano.

Uno de los iconos de la teología de la liberación, el padre Ernesto Cardenal, en el Epitafio para la tumba de Adolfo Báez Bone, asesinado junto a un grupo de sus camaradas, escribió: “Creyeron que te enterraban y lo que hacían era enterrar una semilla”.

Leila Ghanem https://cncomunistas.org/?p=2874

Viagem à Polónia

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Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.