Por Vinícius Okada, prefácio de Estratégia e tática da hegemonia proletária
“Reformas sociais nunca podem ser realizadas pela fraqueza dos fortes; elas devem e serão realizadas pela força dos fracos.” Marx, 1847, Os protecionistas, os livre-cambistas e a classe operária
“Mas a política que é preciso fazer é a política operária; é preciso que o partido operário seja constituído não como a cauda de qualquer partido burguês, mas como partido independente que tem o seu objetivo, a sua política própria.” Engels, 1871, Discurso sobre a ação política da classe operária
A palavra hegemonia
aparece um total de 167 vezes nas obras completas de Lênin em 55
volumes. O volume em que constam mais aparições desse termo é o de
número 17, com um total de 68 aparições. Esse volume compreende o
período de dezembro de 1910 a abril de 1912 e nos indica, justamente, o
período em que a palavra hegemonia é mais utilizada pelo revolucionário russo em toda a sua obra e o período marcado por uma discussão filosófica aprofundada sobre esse conceito, a saber, o período de luta contra os liquidacionistas do Partido Operário Social-Democrata Russo.
Os liquidacionistas se organizaram, sobretudo, em torno de seu periódico chamado Nácha Zariá (“Nossa aurora”), que circulou de 1910 a 1914. Nesse espaço, se encontrava o núcleo duro dos ideólogos do liquidacionismo, os quais defendiam que o novo momento histórico da Rússia, passada a revolução de 1905-1907, exigia a organização de um partido de classe
dentro dos marcos da social-democracia ocidental, isto é, um partido
operário cuja atividade fundamental fosse a parlamentar, extinguindo-se
assim a estrutura clandestina do movimento operário russo. Um momento
que sintetiza bem essa concepção é o artigo do liquidacionista Levítski,
de julho de 1910, em que ele afirma: “Considerando que a velha [forma
de organização dos operários com consciência de classe] era o hegemon na luta nacional por liberdade política, a próxima será o partido de classe das massas que embarcaram em seu movimento histórico” – e, mais adiante, conclui com a notória fórmula, “não hegemonia, mas um partido de classe”. Em síntese, o argumento liquidacionista se pautava no fato de que, no período de 1905-1907, a classe operária incontestavelmente possuía a hegemonia
do movimento de massas na luta contra a autocracia czarista, isto é,
era a classe operária a liderança do movimento, capaz de arrastar atrás
de si as demais classes exploradas e oprimidas; derrotada a revolução,
os liquidacionistas então saltavam para a conclusão de que “sim, houve
hegemonia no passado, mas para o futuro precisamos
de um partido de classe”. A análise do desenvolvimento histórico feita
pelos liquidacionistas convergia fundamentalmente com a apresentada pelo
grupo liberal-reacionário Vekhi, isto é, a crítica frontal ao movimento democrático de massas e a defesa de uma “necessidade” de ocidentalizar
o movimento democrático russo, isto é, transformá-lo num movimento
político estritamente parlamentar, sem expressão de massas, e sob
hegemonia burguesa.
Dessa forma, se faz necessário compreender em caráter mais aprofundado o real significado da luta pela hegemonia proletária
empreendida por Lênin, tanto em suas polêmicas contra as forças sociais
que vacilavam na luta contra o czarismo, quanto na sua luta pela
consolidação de um partido revolucionário em sentido integral.
Assim, partiremos agora dos momentos fundamentais dos escritos de Lênin
dessa coletânea para discorrer sobre a relevância teórica do
revolucionário russo também para além
do que consta nos artigos em questão. Para isso, utilizaremos da
síntese teórica original de Antonio Gramsci em conjunto com as
contribuições fundamentais de Lênin, das quais parte o revolucionário
italiano.
* * *
Em seus Cadernos do Cárcere, o revolucionário italiano Antonio Gramsci debate a respeito da estratégia e tática da revolução proletária. O italiano se debruça constantemente na análise da arte e da ciência políticas em relação indissociável com a arte e a ciência militares. Nesses termos, uma das questões mais fundamentais para o jovem sardo é a forma
da luta, pois, como lembra ele, “a verdade é que não se pode escolher a
forma de guerra que se quer, a menos que se tenha imediatamente uma
superioridade esmagadora sobre o inimigo”. Ou seja, no capitalismo moderno, a luta é travada segundo a forma imposta pela burguesia.
Inicialmente, Gramsci utiliza como exemplo a experiência da Revolução
Francesa, considerada no período de 1789 a 1871, tomando justamente a
Comuna de Paris como marco decisivo. Afirma que “com os acontecimentos
de 1870-1871, perde eficácia o conjunto de princípios de estratégia e
tática política nascidos praticamente em 1789 e desenvolvidos
ideologicamente em torno de 1848”,
isto é, “com a tentativa da Comuna, esgotam-se historicamente todos os
germes nascidos em 1789”, e então “não só a nova classe que luta pelo
poder derrota os representantes da velha sociedade […], mas derrota
também os novíssimos grupos que consideram já ultrapassada a nova
estrutura surgida da transformação iniciada em 1789”.
Portanto, a derrota da Comuna de Paris marca, para Gramsci, o fim da
“fórmula da revolução permanente”, tal qual enunciada por Marx e Engels
na Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas, em março de 1850.
Assim, fecha-se o ciclo histórico de mobilização e ofensiva
“permanente” das massas proletárias no sentido de tomar proveito da
janela histórica da revolução burguesa, de disputar o movimento,
liderá-lo e levá-lo até às últimas consequências, isto é, dar cabo das tarefas fundamentais do proletariado enquanto classe. Isso se deve não propriamente à derrota em si,
mas, sobretudo, à reorganização da estrutura burguesa de dominação, no
Ocidente, após esse período. A “fórmula da revolução permanente”, neste
contexto, diz respeito ao modo como se organizava a sociedade no período
do Termidor jacobino, isto é, utilizando um termo do próprio sardo, um “estado de fluidez”, um aparelho de governo (Estado)
pouco desenvolvido, uma eficiência política do Estado restrita a poucas
cidades e uma maior autonomia da sociedade civil para com o Estado.
Após o período de 1870, essa estrutura modifica-se progressivamente
(sobretudo com a expansão colonial europeia). A organização do Estado,
tanto no âmbito interno quanto no âmbito internacional, se fortalece e se complexifica. Derrotada a velha ordem, a “fórmula da revolução permanente” é substituída pela “hegemonia civil”, isto é, não só a burguesia derrota politicamente o velho (nobreza) e o novíssimo
(proletariado e campesinato), como a estrutura de sua dominação
política de classe se constitui como um complexo ideológico-político em
conexão fundamental entre o aparelho do Estado e o conteúdo ético desse Estado, isto é, a hegemonia política e cultural da burguesia sobre as classes exploradas.
Ainda nos Cadernos, Gramsci toma a Revolução de Outubro de 1917 como momento exemplar de uma reviravolta
na história da luta de classes, no sentido em que demarca uma mudança
do paradigma revolucionário, isto é: a partir dali, as crises econômicas
não mais despontam como momento de exposição fatal do adversário de
classe, não mais geram embates fulminantes e frontais, não mais ocorre
que “um implacável ataque de artilharia” destrua de uma só vez “todo o
sistema defensivo do adversário”. Isso é descrito pelo revolucionário
italiano como o momento histórico em que “os Estados mais avançados do
ponto de vista industrial e civil” consolidam uma estreita e profunda
relação entre o Estado e a sociedade civil, amadurecem e complexificam
os aparelhos de hegemonia burguesa como linhas de defesa do Estado
burguês, fortalecendo ainda mais a sua hegemonia na sociedade
capitalista enquanto uma relação indissociável de consenso e coerção. Desse modo, a Revolução Russa marca o aprofundamento desse processo histórico na luta de classes que impossibilita, por imposição
da burguesia, às forças proletárias “tomar de assalto” a fortaleza
adversária diante das fragilidades e contradições expostas nas linhas de
defesa inimiga pelas crises econômicas, mas, na realidade, força
o proletariado a se organizar enquanto uma força social coesa,
homogênea e disciplinada, no sentido de paulatinamente lutar pela sua
hegemonia, isto é, buscar aumentar sua influência política e ideológica
frente às demais classes exploradas e oprimidas de modo a arrastá-las
para uma luta revolucionária consequente, aproveitando as crises como
períodos históricos de possível avanço contra o inimigo de classe, mas
tendo como paradigma uma luta árdua e de longo prazo, disputando posição
por posição no front de combate. Ou seja: não está descartada, em sentido histórico, a forma de luta mais aberta, frontal, a saber, a guerra de movimento; contudo, ela assume um caráter tático, não é predominante. É a guerra de posição que assume a predominância no combate, ou seja, o caráter estratégico.
Vale relembrar o discurso proferido pelo revolucionário russo León Trótski durante o IV Congresso da Internacional Comunista,
no qual comparava o sucesso da Revolução de Outubro de 1917 com as
dificuldades enfrentadas pelos comunistas da Europa Ocidental. Segundo
ele, a “guerra civil na Rússia não foi apenas um processo militar […],
foi fundamentalmente um processo político”, no qual os bolcheviques
lutaram contra as forças pequeno-burguesas e as forças burguesas “pelas
reservas políticas, sobretudo o campesinato”, desse modo, demonstrando
ao campesinato “que teria de escolher entre a aristocracia e o
proletariado”. Em contraponto a isso, as dificuldades enfrentadas pelos
partidos da Europa Ocidental seriam “incomparavelmente maiores”, pois
“as ilusões pacifistas e reformistas” não teriam desaparecido, mas se
fortalecido de “maneira poderosa”, ou seja: “depois das ilusões da
guerra e da intoxicação da vitória, as ilusões pacifistas e reformistas
da pequena burguesia
tomarão espaço […] sob a forma de um bloco de forças de esquerda pelo
poder”. Assim, a Europa Ocidental enfrentaria “uma forte onda em que
tais ilusões podem encontrar adesão também na classe operária”.
Ainda que o próprio Gramsci observe que a análise de Trótski “foi
exposta apenas em forma literária brilhante, mas sem indicações de
caráter prático”, o próprio revolucionário italiano produz sínteses fundamentais acerca do problema colocado. Para ele, as sociedades de tipo Ocidental caracterizam-se objetivamente por essa alta complexificação da sociedade civil, “no sentido de hegemonia política e cultural de um grupo social sobre toda a sociedade, como conteúdo ético do Estado”, caracterizando o Estado, portanto, não apenas como aparelho de governo, mas como aparelho de governo + aparelho privado de hegemonia, ou ainda, ditadura + hegemonia.
Dessa forma, o partido do proletariado enfrentaria dificuldades na luta
que permitiriam uma margem de manobra muito menor, tendo, portanto, que
se adaptar e corresponder à forma predominante de luta, a uma guerra de posições.
No âmbito da luta ideológica, isso significa, por exemplo, assumir a
posição de um “persuasor permanente”, travando cada batalha particular
como um momento tático na longa luta estratégica para derrotar a
influência burguesa sobre o proletariado e consolidar uma hegemonia
cultural e política revolucionária; desse modo, as “explosões” teriam um
papel mais limitado do que pensavam muitos esquerdistas,
até mesmo pelo caráter particular da luta ideológica, lenta, gradual,
no sentido de consolidar paulatinamente um pensamento revolucionário de
massas (no sentido prático), através de uma propaganda e agitação coesa, homogênea e cotidiana.
A luta ideológica contra a influência
burguesa sobre o proletariado exige a formação de um “novo tipo de
intelectual” pelo partido revolucionário, que se contraponha ao tipo
“tradicional e vulgarizado de intelectual”, o “literato, o filósofo, o
artista”, isto é, o intelectual burguês. Para isso, esse novo intelectual não pode estruturar sua prática
apenas na “eloquência, motor exterior e momentâneo dos afetos e das
paixões”, mas sim “numa inserção ativa na vida prática”, como
organizador das massas, agitador e propagandista dos princípios e
táticas revolucionários, assumindo, justamente, a posição de um
“persuasor permanente”, superando o intelectual burguês, que é meramente um “especialista”, e se tornando verdadeiramente um intelectual revolucionário, isto é, um dirigente, para Gramsci, “especialista + político”.
Dessa maneira, o método
para a luta ideológica se caracterizaria pela “repetição paciente e
sistemática”, não em sentido mecânico, mas sabendo adaptar os conceitos e
os debates às diversas realidades locais e culturais, buscando, na prática, uma relação orgânica com as massas, sabendo dialogar com elas, conhecendo seu nível médio de consciência para, assim, buscar elevá-lo a cada oportunidade e ação.
Descobrir
a identidade real sob a aparente diferenciação e contradição, e
descobrir a substancial diversidade sob a aparente identidade, eis o
mais delicado, incompreendido e, não obstante, essencial dom do
crítico das ideias e do historiador do desenvolvimento histórico.
Por conta disso, é fundamental compreender que a transformação integral de uma concepção de mundo
não se realiza mediante “explosões rápidas, simultâneas e
generalizadas”, mas, na realidade, por meio de “combinações sucessivas”.
É necessário saber difundir a concepção de mundo revolucionária em cada momento particular da luta geral, combinando, na agitação e propaganda, a afirmação dos princípios fundamentais da revolução com a tática particular adequada a cada momento. Tamás Krausz, em seu livro Reconstruindo Lênin, fornece um exemplo histórico bastante claro a respeito disso:
Pode-se entender o sucesso dos bolcheviques não por causa das conquistas organizativas mencionadas por Mártov,
mas porque os bolcheviques procuravam conectar as exigências de curto
prazo – e até mesmo cotidianas – dos operários à perspectiva da
“ditadura do proletariado”. Seu sucesso residia na habilidade de
interligar “trabalho de massa” dentro da lei e organização clandestina.
A
partir de uma luta revolucionária organizada, coesa e orgânica com as
massas, pode-se construir efetivamente a hegemonia do proletariado. Em
cada luta imediata, em cada luta econômica de qualquer uma das classes
exploradas e oprimidas, fazer elevar o nível de consciência médio das
massas no sentido de uma consciência revolucionária. Elevar o nível
médio de consciência das massas de uma consciência econômico-corporativa ou mesmo uma relativamente mais avançada, que já estabelece uma relação de solidariedade de classe, mas ainda não compreende e assume na prática o papel do proletariado como vanguarda, na direção de uma consciência revolucionária capaz de organizar, na prática,
o proletariado como elemento destacado das classes oprimidas e capaz de
arrastar as demais classes exploradas numa luta revolucionária contra
as classes dominantes. Esse é o significado da afirmação de Lênin quando
diz que:
O proletariado é revolucionário somente na medida em que reconhece e põe em prática essa
ideia de hegemonia. O proletário consciente dessa tarefa é um escravo
que se rebelou contra a escravidão. O proletário que desconhece a ideia
da hegemonia da sua classe, ou que renuncia a essa ideia, é um escravo que não compreende sua posição servil; na melhor das hipóteses, é um escravo que luta para melhorar sua condição como escravo, mas não para derrubar a escravidão.
Fica claro, portanto, o conteúdo fundamental da luta revolucionária. Lênin, sobretudo no período de 1897 a 1903, trava uma luta visceral pela organização de um partido revolucionário que adote e consolide, em consonância com esse conteúdo, a forma correta de luta – isto é, que o partido, de fato, em sua atividade cotidiana, se movimente e golpeie como um destacamento avançado do proletariado. Nesse sentido, é preciso garantir uma verdadeira unidade partidária, eliminar os resquícios e os vícios legados pelos estágios mais atrasados
de consciência e de luta, travar um combate incansável contra os
elementos que buscam reduzir o partido revolucionário a um mero partido liberal para a representação do proletariado sob a democracia burguesa, em detrimento de um partido socialista que luta ativamente pela hegemonia revolucionária do proletariado; que buscam reduzir o partido revolucionário a uma unidade política formal, em detrimento de uma unidade real,
em sentido elevado de consciência e ação. Assim, esse é o significado
da crítica de Lênin contra o atraso do trabalho revolucionário, por
exemplo, em 1899, caracterizando-o, no geral, como uma trabalho
“artesanal” que
provoca sempre “uma superabundância de ligações pessoais”, que
“desenvolve o espírito de círculo”, que “conduz ao desperdício de
energias”, e, em seguida, defende “a fusão no seio de um único partido”
de modo a permitir “aplicar metodicamente os princípios da divisão do
trabalho e da economia de forças, o que é necessário para reduzir as
perdas e erguer uma muralha mais ou menos sólida contra o jugo do
governo autocrático”, porque “para travar uma luta sistemática contra o
governo, devemos elevar a organização revolucionária, a disciplina e a
técnica da ação clandestina ao mais alto grau de perfeição”, desse modo,
é fundamental que
membros
ou grupos do Partido se especializem nos diversos campos da sua
atividade: alguns na reprodução de literatura, outros no transporte das
publicações editadas no estrangeiro; outros ainda na distribuição pela
Rússia, outros na distribuição nas cidades; outros na organização de
alojamentos secretos; outros angariando fundos; outros organizando a
entrega de correspondências e de todas as informações acerca do
movimento; outros na organização das ligações etc., etc. Sabemos que
semelhante especialização exige muito mais resistência, aptidão para se
concentrar num trabalho modesto, anônimo, obscuro, muito mais heroísmo
autêntico que o trabalho efetuado habitualmente nos círculos.
Com isso em mente, fica claro o objetivo de Lênin ao travar uma árdua luta pela criação de um jornal do partido, isto é, um órgão central do partido, um centro homogêneo de difusão de cultura. Por isso o enfoque central na questão da especialização
da militância em detrimento ao trabalho artesanal, disperso e
localista. Porque a “insuficiência” de quadros se deve, sobretudo, ao
predomínio do trabalho artesanal; desse modo, apenas “a criação de um
órgão central do Partido” pode incutir em cada um de seus militantes o
convencimento prático de “marchar nas fileiras”, o convencimento prático de que “o seu trabalho é diretamente necessário ao Partido”. Enfim, a especialização
é fundamental, segundo Lênin, porque só ela permite “economizar nossas
forças”, no sentido de tirar o maior proveito de cada quadro do partido.
O que é a hegemonia do proletariado?
Lênin responde que a hegemonia “é a influência política” que essa
classe e seus representantes exercem “sobre outros setores da
população”, auxiliando-os a depurar seu movimento de elementos oportunistas,
“criticando o estreito e míope horizonte de toda democracia burguesa,
[…] ou seja, o conteúdo ideológico corruptor dos discursos e da política
dos liberais”.
Por que é importante uma unidade real do destacamento avançado do proletariado? O que é e como se conquista uma unidade verdadeira
no movimento operário? Lênin responde que o partido revolucionário une
trabalhadores conscientes por meio da agitação e implementação de “seu
programa, tática e decisões comuns a respeito da atitude para com a
reação, os capitalistas, democratas burgueses etc.” Portanto, “as
discussões (discursos, debates, controvérsias) sobre partidos e sobre
táticas gerais são essenciais”, porque “sem elas a massa resta desunida; sem elas, as decisões comuns são impossíveis e, portanto, a unidade de ação também é impossível”. Em outras palavras: sem a ativa e qualificada polêmica pública dos revolucionários contra os elementos oportunistas
no seio do movimento operário, “a organização marxista daqueles
operários […] se desintegraria e a influência da burguesia sobre os
atrasados seria assim facilitada”.
Nesse sentido, as polêmicas sobre táticas políticas no movimento
operário, as polêmicas com as outras forças políticas, com os outros
partidos, com os representantes da pequena burguesia e da burguesia, não são mero capricho autoproclamatório, mas uma necessidade fundamental da luta pela hegemonia proletária, pois o movimento espontâneo da luta de massas confunde e obscurece os interesses objetivos das classes sociais em questão, e, portanto, é tarefa do partido revolucionário proclamar de maneira nítida e aberta quais são os interesses objetivos do proletariado em cada momento da luta, quais são as tarefas fundamentais
do proletariado em cada momento da luta, pois “os interesses do
proletariado exigem uma demarcação clara e definida dos partidos”. Somente uma demarcação política e ideológica nítida é capaz de destacar para as massas exploradas qual é o partido que verdadeiramente, e não só em palavras, defende seus interesses objetivos na luta concreta.
Essa demarcação nítida diz respeito a assegurar na luta de classes a independência política do proletariado, isto é, assegurar que em nenhum dos momentos da luta o proletariado se colocará a reboque das forças contrarrevolucionárias ou oportunistas. Um exemplo bastante claro sobre essa questão nos é fornecido por Marx e Engels na Mensagem da Direção Central à Liga dos Comunistas,
de março de 1850. Discutindo sobre as eleições no período após a
revolução de 1848, caracterizado pelo avanço da reação, os fundadores do
marxismo afirmam que “devem os operários apresentar os seus próprios
candidatos” mesmo nas localidades em que o sucesso não é esperado, para,
com isso, “manterem a sua democracia, para manterem a sua autonomia,
contarem as suas forças, trazerem a público a sua posição revolucionária
e os pontos de vista do partido”, e mais:
Não
devem, neste processo, deixar-se subornar pelas frases dos democratas,
por exemplo, que assim se divide o partido democrático e se dá à reação a
possibilidade da vitória. Com todas essas frases, o que se visa é que o
proletariado seja mistificado. Os progressos que o partido proletário
tem de fazer, surgindo assim como força independente, são infinitamente
mais importantes do que o prejuízo que poderia trazer a presença de
alguns reacionários na Representação. Surja, desde o princípio, a democracia decidida e terrorista contra a reação, e a influência desta nas eleições será antecipadamente aniquilada.
Aqui, distingue-se muito claramente um dos pontos importantes da discussão sobre a hegemonia, que é seu contrário: a política reboquista. Uma das obras mais interessantes – ainda que não tenha exaurido o tema – sobre o tema do reboquismo é Reboquismo e dialética, do revolucionário húngaro György Lukács. Recuperando elementos centrais do bolchevismo em defesa de aspectos de sua primeira grande obra de transição para sua fase marxista (História e consciência de classe), Lukács demonstra o vínculo necessário
entre a postura rigorosamente marxista, isto é, materialista
histórico-dialética do ponto de vista da filosofia, e as consequências
político-práticas leninistas, em oposição àqueles que, em suas palavras,
tentam “introduzir por contrabando no marxismo e no leninismo elementos
menchevistas”.
O fundamento filosófico da discussão de Lukács remonta ao problema do
sujeito e do objeto na filosofia marxista, demonstrando o aspecto fatalista das análises de seus adversários. Para ele, apoiando-se em Lênin, o desprezo pelo “elemento conscientemente subjetivo”, isto é, pela ação revolucionária consciente no trabalho com as massas, baseia-se em uma visão determinista, de que as condições objetivas tornariam possível ou impossível o processo revolucionário independentemente
da ação consciente da vanguarda. A conexão entre a teoria da
consciência revolucionária espontânea, defendida pelos mencheviques, e a
opção filosófico-metodológica de desvincular do “processo” objetivo o
momento de ação consciente no “instante” que exige uma “decisão sobre o rumo futuro do processo” aparece em sua forma de aplicabilidade prática, “fatalista-reboquista”, não como uma simples negação da ação, mas como uma adesão aos interesses de outras classes. Lukács diz:
A
interação dialética […] surge, portanto, “exclusivamente” na práxis. No
“simples” pensamento, isto é, no pensamento separado da práxis, sujeito
e objeto se defrontam de modo claramente delimitado, e todo pensamento que simplesmente atribui essa peculiaridade da práxis à
teoria incorre na mitologia conceitual e forçosamente se torna
idealista (Fichte). Porém, da mesma forma, acaba se tornando fatalista
[…] todo pensamento que desconhece a peculiaridade da práxis proletária,
da práxis transformadora, e quer transferir a contraposição rígida de
sujeito e objeto da “pura” teoria para a práxis. Ao fazer isso, ele
suprime a práxis. Ele se torna uma teoria do reboquismo. [Grifos
nossos.]
Para
Lukács, então, o trabalho de análise e prática política disposto a
lutar pela hegemonia proletária necessita de um árduo combate também ao reboquismo, isto é, à disposição do proletariado não para a luta independente em seu próprio partido, conscientemente subjetiva, mas para a submissão
aos interesses de outras classes, sobretudo em seus momentos de maior
confusão e fraqueza organizativa. Apenas se demarcando como uma força
revolucionária independente o proletariado pode tracionar, arrastar as
camadas médias pequeno-propritárias da população, paralisando sua
vacilação inata em direção à grande burguesia e colocando-se à frente, e não a reboque dessas camadas (ou, como Lênin diz em russo: na cabeça, e não na cauda do movimento popular).
Indo além, Gramsci discorre, nos Cadernos, sobre os elementos fundamentais para a formação de um partido revolucionário, sendo eles: um primeiro elemento, “difuso”, “de homens comuns”, caracterizados pela “disciplina e pela fidelidade”; um segundo,
o elemento de “coesão principal”, isto é, “dotado de força altamente
coesiva, centralizadora e disciplinadora e também […] inventiva”; um terceiro, o elemento médio, que articula os dois primeiros e “que os ponha em contato não só físico, mas moral e intelectual”. Aqui se destacam todos os elementos como partes de um todo, com uma hierarquia definida entre eles. Por exemplo, é evidente que o primeiro elemento,
isto é, os militantes de base e também a base social de influência do
partido, por si só não basta para a formação de um partido
revolucionário, pois se trata de um elemento difuso que carece do segundo elemento
para adquirir coesão e direcionamento consequente. Contudo, pode-se
afirmar que tampouco o elemento de “coesão principal”, isto é, a direção
central do partido, basta para a formação de uma organização
revolucionária sólida, justamente porque carece do elemento que garanta
uma capilaridade orgânica
a nível nacional. Mas é igualmente claro que há uma hierarquia lógica e
bem definida entre ambos em que um precede o outro, isto é:
Fala-se
de capitães sem exército, mas, na realidade, é mais fácil formar um
exército do que formar capitães. Tanto isto é verdade que um exército já
existente é destruído se faltam capitães, ao passo que a existência de
um grupo de capitães, harmonizados, de acordo entre si, com objetivos
comuns, não demora a formar um exército até mesmo onde ele não existe.
Da mesma forma, os dois primeiros elementos também não bastam para a formação de um partido sólido. É fundamental uma camada média
de articulação que garanta e mantenha “o vínculo entre o grupo
dirigente superior e as massas do partido e a população influenciada
pelo partido”, que seja de fato um “estrato ativo e politicamente vivo”
do partido. Desse modo, a consolidação
de um partido revolucionário diz respeito à estruturação e articulação
dos elementos fundamentais que garantam a existência do partido, no
sentido da constituição de uma “organização para dirigir a situação em
momentos historicamente vitais para suas classes”, a partir de sua “força própria, como necessidade intrínseca”, e não “em virtude de interesses de outros”.
É evidente que o partido revolucionário nasce para organizar a luta de classe do proletariado. No entanto, é necessário compreender com exatidão do que se trata essa luta. A luta espontânea de cada trabalhador contra seu patrão, por exemplo, não é uma luta de classe:
nas palavras de Lênin, é apenas “um fraco embrião dela”. Por isso, a
luta pela elevação da consciência das massas para uma consciência
revolucionária significa, na prática, a elevação a um nível superior das lutas econômicas e espontâneas a uma luta de classe do proletariado contra a burguesia. Apenas
quando “cada operário tem a consciência de ser membro da classe
operária no seu conjunto” e, desse modo, “considera que lutando
diariamente por reivindicações parciais, contra tais patrões e tais
funcionários, se bate contra toda a burguesia e todo o governo, só então
a sua ação se torna luta de classe”. É nisso que reside a relevância
dos três elementos fundamentais supracitados não apenas para a
estruturação do partido revolucionário, mas para que constituam uma viva
e orgânica relação entre si como parte determinante de tal estrutura.
“Toda
a luta de classe é uma luta política”. Seria errado compreender essas
célebres palavras de Marx no sentido de que toda a ação dos operários
contra os patrões é sempre uma luta política. Essas palavras devem ser compreendidas assim: a luta dos operários contra os capitalistas torna-se necessariamente uma ação política na medida em que se torna uma luta de classe.
A social-democracia propõe-se precisamente, organizando os operários,
fazendo propaganda e agitação entre eles, transformar a sua luta
espontânea contra os opressores numa luta de toda a classe, na luta de
um partido político
determinado por ideais políticos e socialistas determinados. Semelhante
tarefa não pode ser realizada pelo trabalho local por si só.
Voltemos ao princípio: quando se fala da construção de um partido revolucionário, deve-se atentar para a forma
de combate que é imposta pelas forças inimigas, pois não se trata de
construir uma força social revolucionária de massas a partir de uma paixão ou de uma moral
abstrata que desencadeie o povo para a luta, mas de compreender que “a
guerra de posição não é constituída apenas pelas trincheiras”, mas
sobretudo e fundamentalmente “por todo o sistema organizativo e
industrial que está por trás do exército alinhado”, que uma força social
se impõe tanto “pelo tiro rápido dos canhões, das metralhadoras, dos
mosquetões” quanto “pela abundância do abastecimento”, pela “rápida
substituição do material perdido depois de uma penetração e de um
recuo”, e, assim sendo, parte essencial do combate é também “a grande massa de homens que participam do alinhamento, de valor muito desigual e que só podem operar precisamente como massa”.
Do ponto de vista do proletariado, a hegemonia
na luta de classes pende para o lado que “não perde nunca a chance de
desferir um golpe no inimigo”, isto é, que aproveita de todas as
oportunidades para aumentar a
capacidade de mobilização de suas forças sociais, que “critica
políticas intermediárias de todo tipo”, isto é, que denuncia e polemiza
contra quaisquer vacilações das classes intermediárias no intuito de
demarcar claramente as tarefas e os interesses do proletariado enquanto
classe de vanguarda, e que, portanto, “sempre ajusta a ação às
palavras”, não se deixando levar pelo imediatismo das situações
momentâneas. Sabendo se posicionar e marchar adiante, a cada passo, de
acordo com a tática que melhor serve para fazer avançar a estratégia revolucionária.
A forma não existe sem o conteúdo. O leninismo é um complexo teórico e prático, dinâmico, historicamente determinado e que se constitui enquanto uma unidade.
Por isso, nas palavras de Gramsci, não basta que a ditadura do
proletariado seja proclamada somente enquanto letra morta: é necessário
que seja parte viva da política revolucionária das massas, e para isso
há um partido e uma estratégia historicamente determinados para a revolução, em outras palavras, “quem quer o fim deve também querer os meios”.