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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Graco Babeuf

 

Há 229 anos, em 27 de maio de 1797, os revolucionários franceses Graco Babeuf e Augustin Darthé eram executados na guilhotina, marcando o fim da Conspiração dos Iguais, movimento insurrecional que eclodiu durante a Revolução Francesa.

O movimento refletia a insatisfação popular com a crise econômica e com os rumos do processo revolucionário. A restauração dos privilégios dos ricos após a queda de Robespierre e os retrocessos impostos pelo governo do Diretório convenceram os membros do movimento de que a burguesia pretendia somente substituir a aristocracia no comando do Estado, mantendo o povo subjugado.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

A conspiração foi uma das primeiras tentativas de estabelecer um regime político baseado na igualdade econômica e social. Os membros do movimento defendiam a abolição da propriedade privada e a coletivização das terras e dos meios de produção. Para Karl Marx e Friedrich Engels, a Conspiração dos Iguais foi o primeiro movimento comunista moderno.

A Revolução Francesa e o Período do Terror

Tributária do avanço das ideias iluministas, a Revolução Francesa se consagrou como um dos eventos mais seminais da história moderna. Iniciado em 1789, o movimento deu vazão ao enorme descontentamento popular com o sistema político do Antigo Regime e com os privilégios do alto clero e da aristocracia.

Acossadas pela inflação e pelo desemprego, submetidas à fome e à miséria, as camadas populares passaram a questionar o poder absoluto do rei Luís XVI e a exigir reformas políticas e sociais profundas. O clamor por mudanças encontrou eco na burguesia francesa, que se ressentia por ter seu poder circunscrito aos aspectos econômicos, permanecendo excluída da governança e dos processos decisórios.


Frustrados com o impasse nos debates durante a Assembleia dos Estados Gerais, os representantes da burguesia e das classes populares se rebelaram contra a Nobreza e o Clero e formaram sua própria Assembleia Nacional. A tomada da Bastilha em julho de 1789 inflamou os ânimos da população, que passou a saquear e destruir os palácios, castelos e propriedades dos nobres.

A agitação social forçou as classes dirigentes a uma série de concessões. Os privilégios feudais foram abolidos, os bens da igreja foram confiscados e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi aprovada. Em 1792, a monarquia foi abolida e, no ano seguinte, Luís XVI foi decapitado.

Durante todo esse período, diferentes grupos disputavam os rumos do processo revolucionário. A crescente radicalização das massas, no entanto, acabou por beneficiar os jacobinos — grupo composto por setores da pequena burguesia, intelectuais radicais e lideranças populares.

Sob o comando de Maximilien de Robespierre, os jacobinos assumiram o controle da Convenção Nacional, tomando a liderança do movimento. Eles seriam responsáveis por uma série de medidas avançadas, incluindo a abolição da escravidão nas colônias francesas e a instituição do sufrágio universal masculino, mas também impuseram uma violenta repressão política.

Entre setembro de 1793 e julho de 1794, a revolução seria marcada pelo chamado “Período do Terror”, em que milhares de pessoas foram guilhotinadas — com números estimados entre 16 mil e 40 mil vítimas. Outras 300 mil pessoas foram presas.

A Reação Termidoriana e o Diretório

A radicalização crescente, somada ao medo disseminado entre antigos aliados, acabou por isolar os jacobinos. Temendo as perseguições, deputados moderados e girondinos (facção política da alta burguesia, defensora do liberalismo) se uniram contra Robespierre e seus aliados. Em julho de 1794, o líder jacobino foi preso e executado na guilhotina, encerrando o domínio dos radicais.

Com a queda de Robespierre, a alta burguesia assumiu o comando do processo revolucionário, dando início a uma fase conservadora intitulada “Reação Termidoriana”. O Clube Jacobino foi fechado e os militantes revolucionários foram perseguidos durante o chamado “Terror Branco”. As políticas consideradas excessivamente radicais foram revertidas e os privilégios da burguesia foram restaurados.

A reação se intensificou a partir de 1795, quando foi instituído o governo do Diretório. Uma nova Constituição foi promulgada, abolindo o sufrágio universal em favor do voto censitário, restrito aos cidadãos mais ricos. Revoltas populares em Paris foram violentamente esmagadas pelo Exército, iniciando um processo de militarização das disputas políticas que pavimentaria o caminho para a ascensão de Napoleão Bonaparte.

Além dos retrocessos políticos, o novo governo também instituiu medidas econômicas impopulares. O fim do controle estatal sobre os preços e salários resultou no súbito aumento do custo de vida. Para agravar a situação, em fevereiro de 1796, o Diretório suspendeu a distribuição de pão e carne a preços subsidiados.

As medidas aprofundaram a insatisfação das classes populares, que já sofriam com a inflação galopante, o aumento da fome e o desemprego. Enquanto a alta burguesia enriquecia com guerras, especulação e apropriação dos bens tomados da aristocracia, o povo se sentia traído. A revolução, que mobilizara as massas prometendo “liberdade, igualdade e fraternidade”, restringia cada vez mais os dividendos a uma minúscula elite.

Graco Babeuf

Foi nesse contexto de decepção com os rumos da Revolução Francesa que surgiram novas vozes radicais exigindo uma segunda revolução, agora voltada a garantir justiça social e igualdade econômica para todos os cidadãos franceses.

A mais ressonante dessas vozes foi a de um jornalista chamado François Noël Babeuf, um representante dos “sans-culottes” — membros das camadas populares urbanas da França. Ele era mais conhecido pelo pseudônimo Graco Babeuf, referenciando os célebres irmãos Graco, tribunos romanos que foram assassinados por suas reformas em favor dos despossuídos.

Babeuf participou ativamente da Revolução Francesa. Ele serviu como membro do comitê revolucionário no departamento de Somme, atuou no registro dos bens confiscados da nobreza e endereçou várias petições com reivindicações populares à Assembleia dos Estados Gerais.

Como jornalista, Babeuf escreveu diversos ensaios e artigos defendendo a coletivização das terras, a abolição dos direitos feudais e as reformas em prol da igualdade. Suas posições radicais, a admiração por Robespierre e a proximidade com os jacobinos lhe custaram sucessivas prisões, mas também lhe renderam forte apoio popular e o respaldo de líderes como Jean-Paul Marat.

Após a execução de Robespierre, Babeuf fundou o jornal “A Tribuna do Povo”, no qual denunciava a corrupção do Diretório e exortava a luta pela restauração da Constituição de 1793. Preso novamente por suas “atividades subversivas”, Babeuf travou contato com outros revolucionários perseguidos pelo Diretório, incluindo Augustin Darthé e Philippe Buonarroti.

: Insurgentes jacobinos são fuzilados após a derrota do Levante de Grenelle. Gravura anônima de 1796. Biblioteca Nacional da França
/ Wikimedia Commons

A Conspiração dos Iguais

Libertado em outubro de 1795, Babeuf voltou a editar a “Tribuna do Povo”, escrevendo artigos com denúncias vigorosas contra o governo do Diretório e criticando o caráter excludente da ordem social construída pela revolução.

A crise econômica do Diretório criava terreno fértil para a agitação política e Babeuf logo angariou muitos seguidores. Passando da retórica à ação, o jornalista fundou um grupo intitulado Sociedade dos Iguais, que pregava abertamente a tomada do poder.

A agremiação foi reforçada por vários militantes do proscrito Clube dos Jacobinos e por membros do Clube do Panteão. Além de Darthé e Buonarroti, juntaram-se à sociedade os revolucionários Sylvain Maréchal, Félix Lepeletier, Pierre-Antoine Antonelle e Jean-Baptiste Drouet, entre outros.

A Sociedade dos Iguais não pretendia apenas derrubar o Diretório, mas substituí-lo por um ambicioso projeto de transformação social, baseado na igualdade absoluta. O grupo pregava a abolição da propriedade privada e a coletivização das terras e dos meios de produção. A exploração econômica do homem pelo homem deveria ser suprimida e o Estado deveria garantir o trabalho e a subsistência de todos os cidadãos.

Fundador do Clube do Panteão, Philippe Buonarroti foi um dos principais ideólogos do movimento. Ele foi responsável por elaborar o projeto da “república igualitária” a ser implementada após a queda do Diretório: “Os bens da comunidade nacional serão propriedade coletiva de todos os membros. A comunidade nacional proverá a cada pessoa moradia digna, vestuário, alimentação adequada e assistência médica”, previa o autor.

Por sua vez, o poeta Sylvain Maréchal foi responsável por redigir o “Manifesto dos Iguais”. O documento denunciava a burguesia como a nova aristocracia e conclamava o povo francês a se engajar na luta pela supressão das diferenças: “Não podemos permitir que a imensa maioria dos homens esteja ao serviço e ao mando de uma pequena minoria. (…) Devemos fazer desaparecer todas essas odiosas distinções de classes entre ricos e pobres, entre grandes e pequenos, entre senhores e servos, entre governantes e governados”, dizia o manifesto.

Inicialmente limitada a reuniões secretas e panfletos clandestinos, a Conspiração dos Iguais ganhou as ruas. O movimento conquistou enorme força em Paris, congregando milhares de seguidores, e logo se estendeu para outras cidades da região. O general Jean Antoine Rossignol, um dos líderes da tomada da Bastilha, introduziu a conspiração dentro do Exército, passando a coordenar uma rede de militares favoráveis à insurreição.

Uma canção de protesto composta por Babeuf passou a ser entoada nos bares e cafés de Paris, evocando os que estavam “morrendo de fome, morrendo de frio”. Em abril de 1796, os muros da capital francesa foram cobertos por cartazes divulgando a “doutrina de Babeuf” e assinalando que “a natureza deu a cada homem o direito a usufruir de uma parte igual de toda a propriedade”.

Repressão e legado

Inicialmente, as autoridades do Diretório ignoraram a Conspiração dos Iguais, julgando que a radicalidade de seus membros afastaria a população. Surpreendido pela adesão em massa dos populares ao movimento e alarmado pela crescente agitação, o governo francês resolveu agir.

O Diretório infiltrou agentes no movimento para obter informações detalhadas sobre os planos insurrecionais. Georges Grisel, um dos principais líderes da Sociedade dos Iguais, traiu seus companheiros em troca de um pagamento em dinheiro, repassando às autoridades informações decisivas sobre a agremiação.

Em maio de 1796, antes que a insurreição armada pudesse ser iniciada, o governo desencadeou uma ampla operação repressiva. Babeuf e dezenas de conspiradores foram presos. Mais de 240 mandados de prisão foram emitidos.

Unidades militares e batalhões policiais que haviam aderido ao movimento foram desarmados e dissolvidos. Em setembro de 1796, um grupo de 500 jacobinos associados a Babeuf ainda tentou articular uma revolta contra o governo, dando início ao Levante de Grenelle. A revolta foi rapidamente sufocada e dezenas de pessoas morreram durante a repressão.

O julgamento dos líderes da Conspiração dos Iguais teve início em Vendôme em fevereiro de 1797 e se estendeu por três meses. Babeuf e Darthé foram condenados à morte e guilhotinados em 27 de maio de 1797. Buonarroti foi encarcerado na Ilha de Oléron. Drouet, membro do Conselho dos Quinhentos, conseguiu fugir, possivelmente com anuência do próprio Diretório.

Embora derrotada, a Conspiração dos Iguais deixou um importante legado e foi reivindicada por algumas das maiores lideranças revolucionárias do século 19. O conhecimento sobre o levante foi difundido a partir de 1828, após a publicação do livro “História da Conspiração de Babeuf pela Igualdade”, de Philippe Buonarroti, influenciando socialistas utópicos, anarquistas e comunistas.

Karl Marx e Friedrich Engels consideravam a Conspiração dos Iguais como “a primeira aparição de um partido comunista verdadeiramente ativo”. Graco Babeuf, por sua vez, foi apontado por Rosa Luxemburgo como “o primeiro precursor dos levantes revolucionários do proletariado”.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Porque e como declina o império

 


As forças armadas dos EUA são altamente tecnológicas, dependentes do poder aéreo, sobrecarregadas com ativos de capital fixo vulneráveis ​​e caros em regiões perigosas e vinculadas a uma sociedade avessa a baixas, com pouca confiança nas instituições estatais para melhorar a vida interna ou externamente. (Chip Somodevilla/Getty Images)

Por que os EUA estão perdendo a guerra contra o Irão

Tradução
Pedro Silva

A hegemonia mundial dos EUA parece estar diminuindo. Podemos mergulhar ainda mais na loucura violenta e reacionária, ou construir uma alternativa política na qual o Ocidente desempenhe um papel mais construtivo em uma comunidade global.

A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã não está saindo como planejado. A ampla campanha de assassinatos e o bombardeio aéreo massivo contra a infraestrutura militar e civil de Teerã não levaram a República Islâmica ao colapso nos primeiros dias do conflito, e sua capacidade de causar estragos em bases estadunidenses e na infraestrutura energética de aliados no Golfo Pérsico pegou Donald Trump, Pete Hegseth e seus principais assessores de surpresa. Os governos aliados em Londres, Roma, Ottawa, Islamabade e Seul, em sua maioria, evitaram oferecer apoio direto.

Acima de tudo, a capacidade do Irã de controlar efetivamente o fluxo de tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz mergulhou a economia mundial em uma profunda crise, da qual a recuperação completa pode levar anos.

O controle de fato do Irã sobre uma artéria central do capitalismo global também põe em xeque a imagem da hegemonia global estadunidense. Se os Estados Unidos não conseguem garantir a livre passagem por um importante canal de abastecimento energético e produção de alimentos global, que serventia o domínio estadunidense tem para seus principais parceiros na Ásia e na Europa?

Além disso, a própria crise de Ormuz foi precipitada por uma aventura desnecessária e mal concebida, empreendida por dois líderes internacionais cada vez mais desonestos: Trump e Benjamin Netanyahu. Isso apenas reforça a percepção global de que os Estados Unidos não são um gestor estável e visionário do capital global, mas sim um sabotador internacional cruel e incompetente. O desfecho desse conflito ainda permanece incerto, mas a crise com o Irã demonstrou a fragilidade fundamental do projeto global dos EUA.

Os rumores sobre o declínio do imperialismo estadunidense ganharam força no discurso político ocidental. Este momento é interpretado como uma “Crise de Suez estadunidense”, um ponto de inflexão que demonstra que a hegemonia global dos EUA, assim como a britânica antes dela, ultrapassou o ponto de não retorno. Dos reacionários do “EUA Primeiro” (America First) à esquerda anti-imperialista, dos ultra-realistas dos departamentos de relações internacionais aos colunistas liberais, surge um consenso de que a crise com o Irã revelou uma profunda deterioração nos mecanismos do império estadunidense e na nova ordem mundial multipolar que emerge de suas ruínas.

Esse consenso geral, no entanto, deixa muitas perguntas sem resposta: como surgiu a hegemonia global estadunidense? Quais foram os mecanismos de sua reprodução? Como e quando começou esse declínio? E como os Estados Unidos e o mundo poderão ser no período pós-declínio?

Para abordar essas questões, podemos recorrer ao trabalho do falecido sociólogo estadunidense Richard Lachmann e à sua síntese de marxismo político, teoria dos sistemas mundiais e teoria sociológica das elites no livro de 2020, First-class passengers on a sinking ship: Elite politics and the decline of great powers [Passageiros de primeira classe em um navio afundando: Políticas da elite e o declínio de grandes poderes].

Lachmann argumenta que a hegemonia global é uma condição relativamente rara na qual um único Estado é capaz de definir a agenda geopolítica e econômica em escala mundial. Os Estados alcançam a hegemonia global quando as elites domésticas conseguem gerir institucionalmente seus interesses concorrentes, a fim de mobilizar os recursos coletivos de suas sociedades para projetar poder e coordenar outras elites na escala planetária necessária. A hegemonia global estadunidense, forjada nas crises das décadas de 1930 e 1940, desmoronou no início dos anos 2000; parece estar praticamente extinta na década de 2020. As mudanças na economia política estadunidense no final do século XX resultaram em elites mais autárquicas e predatórias, que carecem cada vez mais da capacidade de se engajar em ações coletivas.

Para entender as limitações do poder dos EUA no Estreito de Ormuz, é necessário analisar a coordenação e o conflito entre as facções rivais do poder da classe dominante nos Estados Unidos e como suas relações mutáveis com o Estado estadunidense, o capital financeiro e as classes dominantes estrangeiras têm restringido progressivamente sua capacidade de moldar o mundo.

O que foi a hegemonia dos EUA?

Embora muitos pensadores usem o termo “hegemonia” para descrever a influência que uma formação social exerce sobre outra, Lachmann segue o significado específico estabelecido por teóricos do sistema-mundo como Giovanni Arrighi e Immanuel Wallerstein. Em First-class passengers, hegemonia se refere à capacidade de um Estado e sua classe dominante de definir os termos do comércio, das finanças e da geopolítica em todo o mundo.

As potências hegemônicas globais não são simplesmente grandes impérios que conquistam ou extraem recursos de sociedades menos poderosas. Elas também influenciam outros Estados poderosos e estruturam as finanças, o comércio e a geopolítica globais de tal forma que a maioria das outras elites globais poderosas considera a participação nessas estruturas vantajosa para seus próprios interesses. Após a Segunda Guerra Mundial, as elites estadunidenses criaram relações duradouras, assimétricas e mutuamente benéficas com as classes dominantes de outras regiões centrais e semiperiféricas, o que resultou em uma rede de bases militares dos EUA, domínio do dólar e comércio global.

“À medida que Israel se torna cada vez mais um Estado pária no Oriente Médio, o profundo envolvimento de suas elites com os EUA restringe a capacidade estadunidense de agir de maneiras que beneficiem outras potências regionais.”

Isso está em consonância com uma certa interpretação de Antonio Gramsci, na qual a hegemonia é entendida como liderança de classe, a capacidade de mobilizar o poder consensual juntamente com o poder coercitivo bruto, onde os interesses de uma classe passam a ser compreendidos como os interesses da totalidade nacional ou internacional. O esmagador domínio militar estadunidense após 1945 foi a condição fundamental que possibilitou sua hegemonia, mas ela se manteve porque grupos de elites em Londres, Riad, Frankfurt e Tóquio entendiam que seus próprios interesses estavam fundamentalmente alinhados com os sistemas do capitalismo global liderado pelos Estados Unidos.

Fundamentalmente, First-class passengers diverge da visão de Arrighi e de outros autores sobre os “grandes ciclos de poder” ao insistir que a hegemonia global não é um resultado estrutural de “ondas” de desenvolvimento capitalista, nem é uma passagem automática do bastão de uma potência hegemônica em declínio para outra em ascensão. Em vez disso, a hegemonia é, em certa medida, contingente, e os cerca de quinhentos anos de história do capitalismo global foram marcados por extensos períodos de não hegemonia ou multipolaridade.

Lachmann situa a hegemonia holandesa em um breve período de algumas décadas em meados de 1600, enquanto as elites britânicas foram capazes de reformar e reconstituir sua hegemonia com flexibilidade institucional ao longo de um período muito mais extenso, que se estendeu aproximadamente de meados de 1700 até o final de 1800. A hegemonia estadunidense, embora impressionante em seu alcance e intensidade globais, foi mais semelhante à holandesa em sua brevidade, durando de 1945 até o início dos anos 2000.

Mas as diferentes trajetórias de diversas potências hegemônicas globais ao longo da história levantam a seguinte questão: o que leva esses colossais poderes imperiais a construir e depois perder seu status hegemônico?

Pintura de Hendrik Cornelisz Vroom retratando o retorno a Amsterdã da segunda expedição holandesa às Índias Orientais, sob a liderança de Jacobus van Neck, em 19 de julho de 1599. (Rijksmuseum)

Da coordenação de elites ao conflito entre elas

Para que as elites domésticas acumulem poder e influenciem pessoas em outros territórios, elas precisam desenvolver mecanismos para equilibrar a competição interna. As lutas entre diferentes empresas, setores, bases geográficas ou blocos ideológicos e culturais constituem uma força centrífuga constante que ameaça a projeção de poder da classe dominante. Para entender a incapacidade dos Estados Unidos de moldar os eventos no Irã ou mesmo de definir agendas em capitais amigas na Europa e na Ásia, Lachmann nos lembra de observar, em primeiro lugar, os mecanismos de coordenação das elites domésticas que estão se desintegrando.

Essa abordagem desafia as suposições dominantes sobre os Estados que permeiam a maior parte das análises políticas. Os Estados não são objetos sólidos preexistentes que simplesmente representam os interesses de suas nações. Em vez disso, os Estados são arquipélagos formados por instituições que são, nas palavras de Nicos Poulantzas, “condensações materiais” das relações de poder entre classes e frações de classe.

A geopolítica global não é melhor compreendida como um “jogo entre nações” ou um sistema em que certos países exploram outros. Em vez disso, o poder imperial consiste em disputas e compromissos interligados entre diferentes classes e as instituições que elas tentam construir, mobilizar e reconfigurar para promover projetos que atendam a percepções sempre mutáveis ​​de seus próprios interesses. E a capacidade das elites de liderar e moldar os assuntos globais não deriva primordialmente de sua onipotência ou de conspirações em salas enfumaçadas, mas da coerência dos arranjos institucionais que se desenvolvem no contexto de conflitos inter e intraclasses.

A arquitetura institucional da hegemonia estadunidense do pós-guerra foi forjada durante o New Deal e a Segunda Guerra Mundial, quando os traumas gêmeos da Grande Depressão e da guerra total transformaram o Estado e a economia dos EUA. First-class passengers identifica especificamente as raízes da estabilidade das elites nas regulamentações do New Deal que isolavam empresas de âmbito nacional de empresas de âmbito estadual em uma ampla gama de setores, como um método de proteção contra o pânico financeiro. Essas regulamentações também ajudaram a equilibrar e consolidar diferentes empresas e setores uns contra os outros, impedindo que qualquer setor se tornasse excessivamente poderoso, ao mesmo tempo que permitiam que as empresas construíssem relações estáveis ​​com representantes locais no Congresso, que, por sua vez, protegeriam seus interesses nas negociações políticas. A contrapressão do movimento sindical ajudou a estabilizar ainda mais o sistema, servindo como um freio para as grandes empresas estadunidenses dentro e entre os principais setores.

A infraestrutura institucional da classe empresarial estadunidense do pós-guerra foi sustentada por um consenso sem precedentes entre as elites dos Estados Unidos sobre a legitimidade das instituições estatais do New Deal, o anticomunismo da Guerra Fria, a gestão macroeconômica keynesiana e a busca por soluções científicas e baseadas em conhecimento especializado para a gestão da vida social. Os ganhos sem precedentes nos padrões de vida e nas conquistas tecnológicas pareciam fornecer às elites o apoio interno e a base de recursos necessários para moldar os eventos globais no período imediatamente posterior à guerra.

Lachmann argumenta que o conflito intra-elite escapou ao controle devido à onda de fusões que varreu as empresas estadunidenses a partir do final da década de 1960 e se expandiu pelas décadas de 1970 e 1980. À medida que a consolidação corporativa avançava, impulsionada pela desregulamentação e pela crise do movimento trabalhista dos EUA, os laços estreitos, porém dispersos, entre as empresas e a representação política começaram a se desintegrar. As empresas passaram a adotar práticas cada vez mais exploratórias contra os trabalhadores em suas próprias empresas e contra os concorrentes em seus setores, tornando-se cada vez mais predatórias em relação a outros setores do capital.

À medida que esses mecanismos de equilíbrio se desfizeram e elites cada vez mais autárquicas agiram com impunidade contra as classes trabalhadoras e entre si, os arranjos políticos que sustentavam a hegemonia estadunidense começaram a declinar. Como argumenta Paul Heideman em seu recente livro Rogue elephant [Elefante vigarista], essa dinâmica econômica remodelou o Partido Republicano, o partido tradicional dos grandes negócios estadunidenses. As elites políticas republicanas têm acessado cada vez mais dinheiro diretamente de redes de doadores, em vez de instituições — a Convenção Nacional Republicana e seus comitês, a Câmara de Comércio e até mesmo os próprios Comitês de Ação Política (PACs) — concebidas para coordenar o poder político e de classe comum.

Comparar a preparação para a Guerra do Iraque de 2003 com a atual guerra no Irã revela a degeneração da coordenação entre as elites lideradas pelos Estados Unidos. No âmbito político interno, o governo Trump e seus aliados dedicaram um esforço insignificante ao cultivo de influências entre as elites da mídia, das empresas de energia, de Wall Street, das universidades e dos centros de pesquisa. Considere a campanha de meses orquestrada pelo governo George W. Bush, que instaurou o clima de guerra em todos os setores da vida estadunidense, explorando o nacionalismo ferido dos EUA pós-11 de setembro e o aparente sucesso inicial da guerra no Afeganistão para construir fortes maiorias na opinião pública e em setores-chave da elite.

“Embora os bombardeiros israelenses-estadunidenses possam dizimar bases militares iranianas fixas, a capacidade de Teerã de projetar poder no Golfo depende de tecnologias mais descartáveis ​​e móveis que evitam contramedidas aéreas.”

O cenário internacional também apresenta contrastes marcantes. A “Coalizão dos Dispostos” incluiu compromissos significativos de tropas e material bélico de países-chave do G20, como Reino Unido, Itália, Coreia do Sul e Austrália. Colin Powell fez sua infame apresentação no Conselho de Segurança das Nações Unidas numa tentativa de obter aprovação internacional para as guerras estadunidenses. Tanto na Guerra do Golfo de 1991 quanto na Guerra do Iraque de 2003, George H.W. Bush e seu filho exigiram a não participação de Israel para consolidar aliados no mundo árabe, seja em apoio ativo ou em uma neutralidade simpática.

Trump, por outro lado, lançou seu ataque ao Irã somente após coordenação com Israel, deixando aliados regionais e internacionais importantes completamente no escuro. No curto prazo, os países do Conselho de Cooperação do Golfo podem ser levados a uma maior hostilidade em relação ao Irã e a uma dependência ainda maior dos Estados Unidos. Mas a crise iraniana alterou permanentemente os cálculos de suas elites a respeito dos termos de seu acordo com os Estados Unidos como garantidor do comércio e da segurança regional.


Se a negligência dos Estados Unidos em relação aos seus aliados do Golfo é um indicador do declínio de sua influência hegemônica, o mesmo se aplica à sua relação sem precedentes com a elite de outro aliado do Oriente Médio: Israel. Lachmann identifica as relações entre as elites subimperiais e as elites do núcleo hegemônico como importantes fontes potenciais de desestabilização. Embora Israel não seja, de forma alguma, o aliado econômico ou militar mais essencial dos Estados Unidos, nossas elites governantes se integraram a um grau surpreendente. Em setores-chave do nosso complexo militar-industrial, como tecnologia, inteligência, policiamento, pesquisa universitária e fabricação de armas, grupos de elites israelenses e estadunidenses tornaram-se cada vez mais interligados. O governo Trump apresenta uma sobreposição ainda mais extrema do que qualquer governo anterior.

Comparar o período que antecedeu a Guerra do Iraque em 2003 com a atual guerra no Irã revela a degeneração da coordenação entre as elites lideradas pelos Estados Unidos. (Sargento Técnico John L. Houghton Jr./Força Aérea dos EUA)

O debate político nos EUA tem se acirrado recentemente em torno da questão da influência israelense sobre o Estado. Embora o lobby governamental pró-Israel, o sionismo cristão evangélico e o apoio tradicional de importantes instituições e líderes comunitários judaico-estadunidenses desempenhem claramente um papel na formulação da política dos EUA, o foco na direção dessa influência ignora o panorama geral. Devido à longa, duradoura e mútua relação entre os complexos militar-industriais das duas nações, segmentos-chave da classe dominante estadunidense entendem seus próprios interesses como intrinsecamente ligados aos das instituições militares, de inteligência e tecnológicas israelenses.

Infelizmente para a classe dominante estadunidense, à medida que Israel se torna cada vez mais um Estado pária no Oriente Médio, o profundo envolvimento de suas elites com os EUA restringe a capacidade estadunidense de agir de maneiras que beneficiem outras potências regionais. E aqui nos Estados Unidos, esse envolvimento israelense-estadunidense mina a confiança popular nas elites estatais, reduzindo ainda mais os recursos políticos disponíveis para elas.

O curioso declínio do poderio militar estadunidense

Apesar de toda a incoerência das elites estadunidenses, as forças armadas dos EUA continuam sendo a maior e mais tecnologicamente avançada força da história da humanidade. Por que, então, parecem incapazes de vencer guerras contra inimigos muito mais fracos?

Lachmann aponta para incentivos dentro das próprias forças armadas, em particular as estruturas de progressão na carreira e aposentadoria de oficiais. Ele fundamenta essa afirmação na observação, um tanto contraintuitiva, mas convincente, de que os oficiais militares dos EUA não comandam tropas primordialmente, mas sim sistemas de armas. A ascensão na cadeia de comando está intimamente ligada à capacidade dos oficiais ambiciosos de dominar o conhecimento de sistemas de armas caros, complexos e de alta tecnologia, e de pressionar por sua expansão e aumento de financiamento para esses equipamentos.

Isso proporciona uma carreira sólida e relativamente estável: esses sistemas tendem a permanecer em um mesmo local e geralmente não são usados ​​nas complexas e trabalhosas operações de contrainsurgência que se tornaram a principal tarefa das operações de combate estadunidenses desde o Vietnã. Após a aposentadoria, essa experiência e a comprovada habilidade burocrática se tornam um ativo lucrativo quando esses oficiais aceitam empregos ou prestam consultoria para as próprias empresas contratadas pelas forças armadas para fornecer esses sistemas. E, claro, essas mesmas empresas obtêm margens de lucro muito maiores com armamentos de alta tecnologia e que exigem grande investimento do que com armamentos mais simples e descartáveis.

Devido à forma como os altos escalões militares e os fabricantes de armamentos operam, os sistemas de armas adquiridos pelas Forças Armadas dos EUA tendem a não ser particularmente úteis para as guerras que os Estados Unidos de fato travam. Comentaristas da grande mídia estão corretos na avaliação comum de que os Estados Unidos estão imprudentemente preparados para travar uma guerra terrestre fictícia contra os soviéticos na Europa Central. Mas as razões para essa postura têm menos a ver com doutrinas ultrapassadas ou resquícios da ideologia da Guerra Fria e mais com as instituições e estruturas de incentivo para as elites militares, tanto na burocracia estatal quanto no setor privado. Dwight D. Eisenhower estava certo ao afirmar que o desenvolvimento de um complexo militar-industrial público-privado representava uma ameaça às nossas instituições democráticas, mas, ironicamente, também se tornou uma limitação crucial na capacidade das Forças Armadas estadunidenses de manter sua hegemonia global.

Apesar dessa disfunção, a guerra contra o Irã confirmou a capacidade do poder aéreo estadunidense (e israelense) de infligir danos massivos à infraestrutura militar e civil. Mas o uso exclusivo do poder aéreo enfrenta uma série de obstáculos. O Irã tem utilizado drones e mísseis balísticos de baixo custo, lançados de caminhões e lanchas rápidas e difíceis de abater, para retaliar bases estadunidenses e infraestrutura energética no Golfo. Embora os bombardeiros israelenses e estadunidenses possam dizimar bases militares iranianas fixas, a capacidade de Teerã de projetar poder no Golfo depende de tecnologias mais descartáveis ​​e móveis que evitem contramedidas aéreas.

Mesmo antes do surgimento de drones baratos, já havia um consenso acadêmico sobre as limitações políticas do poder aéreo. A obra de Robert Pape cataloga a taxa de fracasso de 100% das tentativas de mudança de regime apenas por meio do poder aéreo. Tropas terrestres são necessárias para esse tipo de operação e, apesar de sua aparente falta de noção, Trump está bem ciente das consequências políticas internas de uma guerra terrestre.

“A China é o único país com capacidade para disputar a posição de hegemonia global. Mas suas elites governantes parecem desinteressadas nessa tarefa.”

Podemos até zombar da denúncia de Pete Hegseth sobre um exército fraco e “politicamente correto”, que lembra as narrativas pós-derrota do tipo “eles não nos deixaram lutar”, propagadas pelos reacionários alemães após a Primeira Guerra Mundial ou pelos estadunidenses após o Vietnã. Mas a essência da verdade é que, com exceção da guerra total industrializada da Segunda Guerra Mundial, as forças armadas dos Estados Unidos jamais utilizaram toda a sua capacidade contra uma nação específica. Isso porque a guerra é fundamentalmente política.

As forças armadas dos Estados Unidos claramente possuem a capacidade técnica para incapacitar a infraestrutura de abastecimento de água, energia e transportes do Irã, o que, mais cedo ou mais tarde, resultaria no colapso da República Islâmica e da sociedade civil iraniana em geral. Mas quais objetivos isso alcançaria? Qual seria o impacto sobre os recursos e o pessoal dos EUA? Quais grupos da elite estadunidense se beneficiariam dessa situação? Como as elites da Europa e da Ásia poderiam ser convencidas de que tal ação promoveria seus interesses?

Donald Trump com Benjamin Netanyahu no Museu de Israel em Jerusalém, 23 de maio de 2017. (Embaixada dos EUA em Tel Aviv)

Essas são as questões que surgem quando pequenos grupos de elites estatais estadunidenses e israelenses — isolados não apenas das forças democráticas populares, mas até mesmo das forças de contrapeso dentro de Wall Street, da indústria petroquímica e das próprias burocracias militares e de inteligência — lançam ações militares massivamente destrutivas sem sequer fingir considerar os interesses dos centros de poder domésticos e regionais dos quais depende a influência global estadunidense.

As forças armadas dos Estados Unidos são uma força de alta tecnologia, dependente do poder aéreo, sobrecarregada com ativos de capital fixo vulneráveis ​​e caros em regiões perigosas, e vinculada a uma sociedade avessa a baixas, cuja população (e cada vez mais suas elites) tem pouca confiança nas instituições estatais para melhorar a vida interna ou externamente.

O mundo após a hegemonia estadunidense

O derramamento de sangue global e o autoritarismo da hegemonia dos EUA não são motivos para nostalgia. E mesmo em termos práticos, uma agenda para o renascimento da hegemonia estadunidense é letra morta. Mas isso não significa que os socialistas nos Estados Unidos e no exterior devam ser ingenuamente otimistas quanto ao fim da hegemonia estadunidense. O histórico do período pós-hegemônico, tanto para a antiga superpotência quanto para o resto do mundo, é de desigualdade e conflito.

No caso dos holandeses e, posteriormente, dos britânicos, Lachmann traça períodos pós-hegemônicos caracterizados por extensas temporadas de conflitos globais caleidoscópicos, ancorados por hegemonias em ascensão. Após o declínio da hegemonia holandesa, a Grã-Bretanha e a França se envolveram no que equivalia a um século de guerras que se estenderam por todos os continentes. A Guerra da Sucessão Austríaca, a Guerra dos Sete Anos e, por fim, as guerras da Revolução Francesa e de Napoleão resultaram em uma clara vitória britânica, em termos militares, mas ainda mais em termos comerciais. Após o declínio da hegemonia britânica no final do século XIX, foram as potências industriais emergentes dos Estados Unidos e da Alemanha que disputaram a hegemonia global. Os enormes conflitos globais da Primeira e da Segunda Guerra Mundial confirmaram os Estados Unidos como o principal coordenador da acumulação de capital global.

Este modelo apresenta relevância inegável para o momento atual, mas também algumas diferenças cruciais. Por um lado, a multipolaridade emergente certamente multiplica o risco de guerras abertas entre potências industrializadas que competem por esferas de influência regionais. Há também uma alta probabilidade de hegemonias regionais exercerem força bruta sobre Estados mais fracos dentro de suas esferas. Mas há também um ponto de virada fundamental em relação aos períodos não hegemônicos do passado: não existem hegemonias aspirantes disputando o poder.

A China é o único país com capacidade para disputar a posição de hegemonia global. Mas suas elites governantes parecem desinteressadas nessa tarefa.

Em primeiro lugar, a interdependência sem precedentes entre as economias chinesa e estadunidense, mesmo no contexto de sua crescente rivalidade estratégica, representa uma barreira bastante íngreme para um conflito aberto. Embora certas facções mais agressivas dentro do Exército de Libertação Popular possam se sentir encorajadas pela desastrosa guerra estadunidense no Irã, segmentos-chave das elites chinesas no partido-Estado e em grandes empresas aliadas parecem relutantes em tentar perturbar um sistema que facilitou sua ascensão histórica. Embora a China claramente queira consolidar sua posição como hegemonia no Leste Asiático e como um ator importante no comércio global, infraestrutura e tecnologia, isso está muito longe do tipo de hegemonia global exercida durante o meio século estadunidense.

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente chinês, Xi Jinping, em Pequim, maio de 2026. (Casa Branca/X)

Mais importante ainda, mesmo que as elites chinesas consigam expandir seu comércio global, infraestrutura e presença militar por meio da Nova Rota da Seda e iniciativas semelhantes, o sistema financeiro da China está mal equipado para coordenar o capitalismo global, um requisito fundamental para a hegemonia global. A liderança da República Popular da China considera seu sistema de controle de capitais, a gestão ativa do mercado de ações e a falta de livre conversibilidade da moeda chinesa como essenciais para a estabilidade política e econômica interna. No entanto, essas políticas tornam o sistema financeiro chinês incapaz de fornecer a liquidez e a flexibilidade necessárias para se tornar o guardião de uma moeda de reserva ou de um sistema bancário globais.

“A ausência de um sucessor plausível para a hegemonia estadunidense na esfera financeira significa que, ao menos num futuro próximo, as finanças dos EUA permanecem centrais para o capitalismo global.”

De fato, o valor das instituições financeiras estadunidenses para o capitalismo global inegavelmente se aprofundou nos últimos vinte anos. Tanto na crise financeira de 2008 quanto na de 2020, o Federal Reserve demonstrou seu papel central na coordenação e no fornecimento de liquidez ao sistema econômico global. Embora tenha havido alguma discussão sobre a guerra com o Irã e o sistema do “petrodólar”, os economistas políticos Stephen Maher e Scott Aquanno apontam que os fluxos globais de petróleo são cotados em dólares porque o dólar é a moeda mundial, e não o contrário. As elites estatais e corporativas ao redor do mundo ainda veem o Federal Reserve e o sistema do dólar como instituições que recompensam enormemente sua participação. A ausência de um sucessor plausível para a hegemonia estadunidense na esfera financeira significa que, ao menos num futuro próximo, as finanças ados EUA permanecem centrais para o capitalismo global.

No âmbito interno, o estudo de Lachmann sobre a Grã-Bretanha e a Holanda pós-hegemônicas não oferece nenhum motivo específico para otimismo. Imediatamente após perderem seu status, essas nações não se tornaram mais ricas e igualitárias. Mas também não oferecem fórmulas conclusivas para prever a trajetória dos Estados Unidos nas próximas décadas.

Embora a possibilidade de um nacionalismo catastrófico ainda mais arraigado seja certamente uma das principais apostas, a ampla oposição interna ao governo Trump — suas políticas econômicas, sua política externa, suas políticas de imigração — constitui um terreno político fértil. A agenda republicana é amplamente impopular entre a população estadunidense e, apesar dos altos e baixos dos recentes ciclos de luta, a esquerda dos EUA está em uma posição mais forte agora do que esteve nas últimas décadas.

Uma política que vincule a redução da presença militar estadunidense global a maiores investimentos em cooperação internacional, programas sociais internos e infraestrutura verde poderia consolidar um período de grandes mudanças na política dos Estados Unidos. Se os movimentos nas ruas, nos locais de trabalho e nas urnas impulsionarem os EUA rumo a um futuro político menos belicista, mais social-democrata e mais inclusivo, poderemos desempenhar um papel mais construtivo na comunidade internacional.

O caminho para um futuro global democrático e socialista é árduo, mas se as políticas progressistas e da classe trabalhadora conseguirem conter nossas elites desonestas, os Estados Unidos pós-hegemônicos terão a chance de desempenhar um papel positivo nessa jornada.

Robbie Nelson

é membro da organização Socialistas Democráticos da América da cidade de Nova York (NYC-DSA).

terça-feira, 26 de maio de 2026

Quem controla a informação controla a verdade

 O MINISTÉRIO DA VERDADE É O QUE CONTROLA A VERDADE

« Winston Smith é um membro do Partido.
Trabalha no Ministério da Verdade, onde passa os dias mecanicamente a reescrever a história, de modo a ajustá-la às necessidades do governo. A cada dia que passa, a cada nova mentira, cresce nele uma revolta surda.

Num mundo em guerra constante, sob a vigilância omnipresente das câmaras e dos Polícias do Pensamento, Winston é um homem profundamente só, preso a uma organização burocrática infernal. Até ao dia em que a quase desconhecida Julia lhe passa sorrateiramente um bilhete para a mão. E nesse dia a ideia de rebelião contra o sistema começa a ganhar forma.

1984 é talvez a mais arrepiante e realista visão que a ficção nos deu acerca dos regimes totalitários. Obra especulativa, projeta no futuro uma sociedade distópica e disfuncional, onde impera o Grande Irmão (ele próprio uma ficção dentro da ficção). A hipervigilância a que são submetidas as personagens, o sentimento prevalecente de paranoia e a autocensura servem aqui para profetizar a ditadura perfeita, onde nem a liberdade de pensamento sobrevive.

Clássico absoluto, que o tempo tem vindo a refinar, ganha ano após ano uma nova atualidade - porque as formas de totalitarismo evoluem, mas o seu objetivo último não: a abolição da memória e do julgamento crítico. » sinopseBertrand.pt - 1984

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O feiticismo da mercadoria

 JACOBINA

Fetichismo da mercadoria e dominação

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Por FRANCISCO TEIXEIRA*

A inversão ontológica do capitalismo que transmuta relações humanas em nexos materiais entre coisas e subordina a agência dos indivíduos à lógica autônoma do valor

A objetividade do valor das mercadorias

Karl Marx inicia a primeira seção do capítulo I de O capital com a análise das determinações fundamentais da mercadoria: valor de uso e valor.[i] Diferentemente deste último – que traz consigo as marcas de sua determinação histórica –, o valor de uso possui uma existência tão antiga quanto a própria história. Ele remete ao processo de reprodução da vida material, na medida em que a utilidade dos objetos se vincula às necessidades humanas tal como se apresentam nesse processo. No entanto, no capitalismo, o valor de uso é rebaixado à condição de suporte do valor.

Após examinar a dupla natureza da mercadoria, Marx passa, na seção 2 do capítulo I do Livro I de O capital, à análise do duplo caráter do trabalho nela objetivado. Na condição de criador de valores de uso, o trabalho útil constitui uma condição eterna de existência do homem, independente de todas as formas sociais. Como produtor de mercadorias, porém, o trabalho traz consigo os vestígios de sua determinação histórica. No capitalismo, os trabalhos úteis são convertidos em trabalho abstrato, isto é, reduzidos a trabalho criador de valor, a puro dispêndio de força de trabalho humana.

Tal conversão não elimina as diferenças constitutivas dos trabalhos úteis, isto é, dos trabalhos concretos, específico. Não se trata de uma forma de generalização puramente conceitual, que nasce de uma simples soma abstrata de mortos traços comuns em cada tipo distinto de trabalho. Se assim fosse, não haveria troca de mercadorias; a própria produção de mercadorias seria impossível.

Por quê? Porque se as mercadorias “[…] não fossem valores de uso qualitativamente distintos e, por isso, produtos de trabalhos úteis qualitativamente distintos, essas coisas não poderiam de modo algum se confrontar como mercadorias”. Afinal, “[…] um valor de uso não se troca pelo mesmo valor de uso” (Marx, 2017, Livro I, p.119).

Quanto mais diversificados são esses trabalhos úteis, mais complexa se torna a divisão social do trabalho, que se configura, assim, como condição de existência da produção de mercadorias.

Embora a divisão social do trabalho seja condição de existência da produção de mercadorias, ela não depende, historicamente, desta última. De fato, “onde a necessidade de vestir-se o obrigou”, observa Marx, “o homem costurou por milênios, e desde muito antes que houvesse qualquer alfaiate” (O capital, p. 120). A alfaiataria só se transforma em atividade voltada à produção para a venda quando ocorre a cisão do produto do trabalho em coisa útil e valor; quando, portanto, a troca adquire alcance e importância suficientes para que se passem a produzir coisas úteis destinadas ao intercâmbio e, com isso, “o caráter de valor das coisas [passe] a ser considerado já no próprio processo de produção” (O capital, p. 148).

A partir de então, os trabalhos privados dos produtores assumem, de fato, um duplo caráter social. Por um lado, enquanto trabalhos úteis determinados, devem satisfazer necessidades sociais específicas, conservando-se, assim, como elos da totalidade dos trabalhos da sociedade, isto é, do sistema espontâneo da divisão social do trabalho. Por outro, só satisfazem as necessidades de seus próprios produtores na medida em que cada trabalho útil particular é permutável por qualquer outro, isto é, na medida em que equivale aos demais.

Como observa Marx, “como trabalhos úteis determinados, eles têm de satisfazer uma determinada necessidade social e, desse modo, conservar a si mesmos como elos do trabalho total, do sistema natural-espontâneo da divisão social do trabalho. Por outro lado, eles só satisfazem as múltiplas necessidades de seus próprios produtores na medida em que cada trabalho privado e útil particular é permutável por qualquer outro tipo útil de trabalho privado” (p. 148).

Ora, se os diferentes trabalhos já integram a divisão social do trabalho – sendo, portanto, sociais –, por que seu caráter social ainda precisa ser reconhecido? Porque, embora sejam trabalhos úteis para outrem, tal utilidade não basta para realizar plenamente esse caráter. Como observa Marx, “[…] mesmo que o trabalho do nosso tecelão de linho […] seja um elo permanente da divisão social do trabalho, com isso não está de modo algum garantida a venda do valor de uso de suas 20 braças de linho” (p. 180). Ou seja, a validação social desse trabalho ainda não está assegurada.

Por isso, os produtores de mercadorias tornam-se reféns dos humores do mercado. Com efeito, se o trabalho do tecelão não é socialmente legitimado por meio da troca, suas expectativas de venda se frustram. O tecelão, que investiu tempo e dinheiro na produção de tecidos, produziu valores de uso na convicção de ter realizado um bom trabalho; viu, contudo, suas expectativas se desfazerem: criou um valor de uso sem realizar o valor – isto é, sem ver seu trabalho reconhecido como trabalho social.

Se, em sua oficina, o tecelão se julga senhor das condições de produção – pois conhece com segurança os custos e estima a margem de ganho –, essa confiança pode se desfazer tão logo chegue ao mercado, onde a transformação de sua mercadoria em dinheiro pode não se realizar.

Realmente, é nesse momento que tal incerteza se impõe: ao chegar ao mercado, o tecelão, antes cheio de convicções, depara-se com a ausência de garantias quanto à realização de suas expectativas. Nem poderia ser diferente, pois “[…] a divisão social do trabalho torna seu trabalho tão unilateral quanto multilaterais suas necessidades”. Ele é apenas um entre muitos concorrentes que disputam entre si “[…] a forma equivalente universal, socialmente válida, existente no dinheiro […]”, que se encontra “[…] no bolso de outrem” (p. 180).

É nesse contexto que, no mercado, a mercadoria tem de confessar seu amor ao dinheiro. Se esse amor não for correspondido, o pobre tecelão é quem sofrerá as consequências desse divórcio. É isso que Marx chama de “[…] salto mortale [salto mortal] da mercadoria. Se esse salto dá errado, não é a mercadoria que se esborracha, mas seu possuidor” (O capital, p. 180).

A mercadoria parece destinada a realizar-se no dinheiro. Mas, por mais que o ame, nada garante que seu amor seja reconhecido. Isso ocorre porque a mesma divisão do trabalho que transforma os possuidores de mercadorias em “produtores privados independentes também torna independente deles o processo social de produção e as relações que nele se estabelecem, de modo que a independência das pessoas umas em relação às outras se consuma num sistema de dependência material (sachlich) universal” (p. 182).

É justamente essa inversão que retira dos indivíduos a condição de sujeitos. Por isso, para Marx, nas sociedades capitalistas, as pessoas não passam de personificações das relações econômicas, e que elas “se defrontam umas com as outras como suporte [Träger] dessas relações (p. 160).

Fetichismo da mercadoria e sua dominação impessoal

Essa inversão prepara o terreno para a análise do fetichismo da mercadoria e de sua dominação impessoal. Marx abre a seção 4 do capítulo I do Livro I de O capital convidando o leitor a se refugiar com ele no mundo nebuloso da religião. Nesse mundo, diz ele, os produtos do cérebro humano aparecem como figuras autônomas, dotadas de vida própria e capazes de se relacionar entre si e com os homens.

Assim também ocorre no mundo das mercadorias: os produtos do trabalho humano apresentam-se como coisas dotadas de vida e vontade próprias. As mercadorias parecem, então, subtrair dos homens suas próprias qualidades naturais, passando a dominá-los sob a forma de um poder impessoal. “A isso”, diz Marx, “eu chamo de fetichismo, que se cola aos produtos do trabalho tão logo eles são produzidos como mercadorias e que, por isso, é inseparável da produção de mercadorias (p. 147-48).

Marx inicia sua análise do fetichismo examinando o caráter sobrenatural que os produtos do trabalho humano adquirem ao se transformarem em mercadorias. Toma como exemplo o que ocorre com uma mesa. Ela, como qualquer outro produto da atividade humana, vem ao mundo por intermédio do trabalho, cuja atividade transforma as formas das matérias naturais a fim de adequá-las às necessidades humanas. A forma da madeira, por exemplo, é alterada quando dela se faz uma mesa; ainda assim, ela continua sendo madeira, uma coisa sensível e banal.

No entanto, “tão logo aparece como mercadoria”, diz o autor de O capital, “ela se transforma numa coisa sensível-suprassensível. Ela não só se mantém com os pés no chão, mas põe-se de cabeça para baixo diante de todas as outras mercadorias, e, em sua cabeça de madeira, nascem minhocas que nos assombram muito mais do que se ela começasse a dançar por vontade própria (p. 146).

Mas de onde provém esse caráter enigmático, que transforma os produtos do trabalho humano em coisas dotadas de vontade própria? A resposta de Marx é que essa característica decorre da natureza social peculiar do trabalho que produz mercadorias. Isso porque, nas sociedades capitalistas, as relações sociais entre os produtores não se apresentam diretamente como relações entre pessoas, mas assumem a forma de relações entre coisas. Desse modo, o caráter social do trabalho aparece como uma propriedade objetiva dos próprios produtos, como se lhes fosse inerente, quando, na verdade, não passa de uma forma social historicamente determinada que se impõe aos produtores.

Tal peculiaridade já foi anteriormente analisada. Ela nasce do fato de que a mesma divisão do trabalho que transforma os agentes econômicos em produtores privados independentes “também torna independente deles o processo social de produção”. Isso ocorre porque, nas relações de troca, as grandezas de valor “variam constantemente, independentemente da vontade, da previsão e da ação daqueles que realizam a troca.

Seu próprio movimento social possui, para eles, a forma de um movimento de coisas, sob cujo controle se encontram, em vez de eles as controlarem”. Isso se deve ao fato de que o tempo de trabalho socialmente necessário impõe-se “com a força de uma lei natural reguladora, assim como a lei da gravidade se impõe quando, por exemplo, uma casa desaba sobre a cabeça de alguém” (p. 150).

A razão de tudo isso, recorde-se, decorre do caráter peculiar do trabalho produtor de mercadorias, que se caracteriza por uma dupla forma de socialização: embora cada trabalho particular figure como elo da divisão social do trabalho, ele não é, por isso, imediatamente reconhecido como social. Essa validação só se efetiva na troca, momento em que os produtos do trabalho são postos como valores e se igualam enquanto tais. Noutros termos, o trabalho apresenta-se, assim, sob uma dupla determinação social: como parte da divisão social do trabalho e como trabalho socialmente validado por meio da igualação de seus produtos.

Essa igualação dos diferentes trabalhos, mediada pela igualação de seus produtos, é o que Marx chama de trabalho abstrato. Ele considera essa forma de trabalho uma categoria central para explicar por que o capitalismo é marcado por uma inversão fundamental: os indivíduos renunciam à sua condição de sujeitos para se tornarem suportes de relações que não dominam. Isso se manifesta no fato de que o trabalho abstrato tem primazia sobre os trabalhos concretos e úteis. Com efeito, no capitalismo, não é a multiplicidade dos trabalhos individuais que vem primeiro, do ponto de vista do valor; não é a diversidade concreta que organiza o sistema, mas a unidade – o trabalho abstrato – que domina e estrutura essa diversidade. É por isso que os trabalhos concretos só “valem” socialmente quando são reduzidos a trabalho abstrato, isto é, a trabalho indiferenciado, simples e homogêneo, que se distingue apenas quantitativamente.

O trabalho abstrato se caracteriza, portanto, como uma unidade constituída por inúmeras forças de trabalho individuais. Por isso, o trabalho abstrato, como observa Marx, “aparece não como trabalho de diferentes sujeitos, mas, ao contrário, os indivíduos diversos que trabalham aparecem como meros órgãos do trabalho. Ou seja, o trabalho, tal como se apresenta em valores de troca, poderia expressar-se como trabalho humano geral” (p. 33).

O senso comum vê tudo isso de ponta-cabeça. Percebe, em primeiro lugar, a existência de diferentes indivíduos produzindo bens para levá-los ao mercado e trocá-los por outros. O processo parece, assim, partir da ação dos indivíduos, de suas atividades concretas. Contudo, as coisas não são como aparecem à primeira vista. Na realidade, a dinâmica é inversa: é o trabalho abstrato que organiza os diferentes trabalhos. Estes não contam pelo que são em si mesmos, mas pelo fato de serem reconhecidos como produtores de valor, como trabalhos convertíveis em trabalho abstrato.

Não são, portanto, os indivíduos que determinam o curso dos acontecimentos. Nem poderiam, pois suas atividades estão subordinadas à lógica do valor, isto é, à lógica do trabalho abstrato. Tal subordinação, porém, não se apresenta como tal. Ao contrário, impõe-se aos indivíduos como uma força externa e objetiva, independentemente de sua vontade e de sua consciência. É precisamente nesse deslocamento – em que relações sociais aparecem como propriedades das coisas e como potências que dominam os próprios produtores – que reside o fenômeno do fetichismo da mercadoria, tal como analisado por Marx.

É essa dupla natureza do trabalho contido nas mercadorias que caracteriza a sociedade capitalista como uma forma social específica. Em épocas anteriores, os produtos do trabalho também podiam assumir a forma de mercadorias; contudo, essa transformação não era inerente ao processo de produção, mas decorria da esfera da circulação. É o que observa Marx ao afirmar que é pela ação do capital comercial que o produto do trabalho se torna mercadoria. “É o comércio”, diz ele, “que, nesse caso, possibilita que o produto se transfigure em mercadoria; não é a mercadoria produzida que, por seu movimento, faz surgir o comércio” (Marx, Livro III, p. 372).

Somente quando se completa definitivamente a cisão do produto do trabalho em coisa útil e coisa de valor é que a mercadoria se torna a forma dominante e elementar da riqueza. Mas isso só ocorre no capitalismo, pois é nessa forma de sociedade que o trabalho assume, de modo generalizado, a forma de trabalho produtor de valor. Por isso, a mercadoria deixa de ser uma forma ocasional ou periférica e passa a constituir a forma universal do produto do trabalho, que é produzido, desde o início, já como mercadoria. James Steuart tinha consciência disso.

De acordo com Marx, ele “sabia muito bem que nas épocas pré-burguesas também o produto havia revestido a forma de mercadoria, e, esta, a forma de dinheiro; mas demonstra detalhadamente que a mercadoria, como forma fundamental elementar da riqueza, e a alienação, como forma predominante de apropriação, não pertencem senão ao período burguês de produção burguesa, e que o caráter do trabalho que põe o valor de troca é, por conseguinte, especificamente burguês” (Marx, 1982, p. 51).

Valor – forma social específica do capitalismo

Nos seus comentários sobre James Steuart, Marx observa que o trabalho abstrato é uma criação histórica do capitalismo. Logo, tratar do valor e, consequentemente, do fetichismo fora da sociedade capitalista é, no mínimo, problemático. Com efeito, falar do caráter enigmático da mercadoria em uma realidade na qual o trabalho abstrato está ausente não parece fazer sentido.

Quanto a isso, Marx parece bastante claro ao afirmar que “todo o misticismo do mundo das mercadorias, toda a mágica e a assombração que anuviam os produtos do trabalho na base da produção de mercadorias desaparecem imediatamente, tão logo nos refugiemos em outras formas de produção (Marx, p, 151).

O primeiro refúgio em que Marx se abriga para mostrar que não há valor nem fetichismo é na ilha do Robinson Crusoé. Aí ele mostra, apesar de seu caráter fictício, que nas atividades de sobrevivência desenvolvidas por Robinson Crusoé estão presentes todas as determinações do valor. Como bom inglês que é, isto é, como homo oeconomicus ‘racional’, ele “distribui seu tempo com exatidão entre as suas diferentes funções”. Robinson que, entre os destroços do navio salvou relógio, livro comercial, tinta e pena, põe-se logo […], a fazer a contabilidade de si mesmo. Distribuído o trabalho entre as diversas ocupações, ele passa a contabilizar o tempo que custa a cada uma das ocupações. Gasto de energia, distribuição do tempo de trabalho e mensuração do tempo, estão aí ´presentes. Ou, como diz Marx, aí “estão contidas todas as determinações do valor” (p. 152).

Mas aí não estão presentes nem o valor nem tampouco o caráter enigmático da mercadoria. As relações na ilha de Robinson Crusoé são transparentes, nelas não existe nada de enigmático, intransparente. Numa palavra, não existe trabalho criador de valor.

Da ilha de Robinson Crusoé, Marx passa para “a sombria Idade Média europeia” e, em seguida, para o exemplo de uma família patriarcal camponesa. Por fim, apresenta “uma associação de homens livres, que trabalham com meios de produção coletivos e que conscientemente despendem suas forças de trabalho individuais como uma única força social de trabalho” (p. 153). Nessa forma de sociedade, assim como ocorre com Robinson Crusoé, na Idade Média e na família patriarcal camponesa, “as relações sociais dos homens com seus trabalhos e seus produtos de trabalho permanecem aqui transparentemente simples, tanto na produção quanto na distribuição” (p. 153).

Marx lança mão desses exemplos para mostrar que, nessas formas de organização da produção, as relações dos homens com seu trabalho se apresentam como relações transparentes e racionais que eles estabelecem entre si e com a natureza. Consequentemente, não há trabalho abstrato nem valor; nessas formas de organização da produção, diferentemente do que ocorre na produção mercantil, a forma natural do trabalho é sua forma imediatamente social.

Ora, sem trabalho abstrato, não faz sentido falar em fetichismo. Este só existe, como foi mostrado, num mundo em que o trabalho abstrato se impõe aos indivíduos como um poder autônomo, compelindo-os a abdicar de sua condição de sujeitos para se tornarem suportes de relações que não dominam.

Sendo assim, não faz sentido falar em fetichismo fora do capitalismo, tampouco em coisificação, já que esta consiste na forma pela qual as relações sociais entre pessoas aparecem como propriedades de coisas. Embora não sejam conceitos idênticos, fetichismo e coisificação designam momentos do mesmo processo social: o fetichismo constitui a expressão fenomenal da coisificação das relações sociais.

Sendo assim, não faz sentido, portanto, falar do fetichismo fora o capitalismo. Tampouco também de coisificação, uma vez que esta é a forma em que relações sociais entre pessoas aparecem como propriedades das coisas.

Se se pode falar de fetichismo e coisificação nas sociedades pré-capitalistas, esses fenômenos têm existência limitada, não sendo determinantes nem[ii] possuindo alcance universal como nas sociedades capitalistas. Eles se apresentam apenas de forma parcial, pois, como diz Marx, “povos propriamente comerciantes existem apenas nos intermúndios do mundo antigo, como os deuses de Epicuro, ou nos poros da sociedade polonesa, como os judeus”. Mesmo aí, o fetichismo e a coisificação não transformam os indivíduos em meros suportes das relações de produção. Naqueles intermúndios de que fala Marx, as relações sociais de produção são “extraordinariamente mais simples e transparentes do que o organismo burguês”, mas “baseiam-se ou na imaturidade do homem individual, que ainda não rompeu o cordão umbilical que o prende a outrem por um vínculo natural de gênero [Gattungszusammenhang], ou em relações diretas de dominação e servidão” (p. 154).

*Francisco Teixeira é professor da Universidade Regional do Cariri (URCA) e professor aposentado da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Autor, entre outros livros, de Pensando com Marx (Ensaios) [https://amzn.to/4cGbd26]

Notas


[i] Quando, no começo deste capítulo, dizíamos, como quem expressa um lugar-comum, que a mercadoria é valor de uso e valor de troca, isso estava, para ser exato, errado. A mercadoria é valor de uso – ou objeto de uso – e “valor”. Ela se apresenta em seu ser duplo na medida em que seu valor possui uma forma de manifestação própria, distinta de sua forma natural, a saber, a forma do valor de troca, e ela jamais possui essa forma quando considerada de modo isolado, mas sempre apenas na relação de valor ou de troca com uma segunda mercadoria de outro tipo. Uma vez que se sabe isso, no entanto, aquele modo de expressão não causa dano, mas serve como abreviação (Marx, p. 136).

[ii] Em nosso exame das categorias mais simples do modo de produção capitalista, e mesmo da produção de mercadorias, ao investigarmos a mercadoria e o dinheiro, já destacamos o caráter mistificador que faz com que as relações sociais, às quais os elementos materiais da riqueza servem como portadores na produção, sejam transformadas em atributos dessas próprias coisas (mercadorias) e, ainda mais explicitamente, a própria relação de produção em uma coisa (dinheiro). Todas as formas sociais, na medida em que conduzem à produção de mercadorias e à circulação de dinheiro, tomam parte nessa distorção. Mas no modo de produção capitalista e no caso do capital, que é sua categoria dominante, sua relação de produção determinante, esse mundo encantado e distorcido se desenvolve com força ainda maior (Marx, p.889).

terça-feira, 19 de maio de 2026

As lutas de classes na Antiguidade

 

A história oculta da luta de classes no Império Romano

Tradução
Pedro Silva

A Roma Antiga era uma sociedade rigidamente hierárquica, onde a elite dominante estigmatizava os trabalhadores. Mesmo assim, os trabalhadores romanos ainda encontravam maneiras de resistir à exploração por meio de greves e outras formas de ação coletiva.


Daniel Finn

A luta de classes não é uma invenção moderna — ela existe há milhares de anos.

Sarah Bond é professora de estudos clássicos na Universidade de Iowa e autora de “Strike: Labor, Unions, and Resistance in the Roman Empire” [Greve: Trabalho, Sindicatos e Resistência no Império Romano]. Ela contou à Jacobin como membros das classes trabalhadoras da Roma Antiga se organizaram para exigir melhores condições de trabalho da elite social romana.  


DANIEL FINN

Quando você escreve sobre a história do Império Romano do ponto de vista de pessoas que não pertenciam à elite social romana, quais são alguns dos principais desafios em termos de encontrar fontes para trabalhar?

SARAH BOND

O mais difícil é que todas as fontes que temos, com exceção de algumas menções na literatura, vêm de coisas como papiros, inscrições e pichações. Muitas dessas fontes são não narrativas, no sentido de que nunca foram concebidas para contar uma história completa ou servir como biografias de pessoas.

A forma como acessamos a história de baixo para cima se dá predominantemente por meio desses minúsculos vestígios do passado que podem nos fornecer janelas para observar pessoas comuns. Mas essas centenas de papiros e cerca de 3.200 inscrições para instituições como os collegia (associações) romanos nunca tiveram a intenção de contar a história completa.

Parte disso envolve retornar a uma espécie de colcha de retalhos que fornece uma história e uma narrativa maiores. É difícil juntar todas essas peças da colcha e costurá-las em uma narrativa coesa sobre Roma.

A história vista de baixo pode nos dar muitas micro-histórias, mas transformá-la em uma macro-história mais ampla pode ser desafiador, porque as próprias evidências vêm em pedaços que não necessariamente nos dão o panorama completo. É preciso um historiador criativo para tentar reunir todas as evidências e criar algum tipo de história a partir delas.

DF

Quando falamos do Império Romano, é óbvio que ele durou vários séculos e cobriu um vasto espaço geográfico, com as fronteiras desse espaço mudando ao longo do tempo. Podemos fazer generalizações sobre a natureza do trabalho e as condições sociais da maioria da população que vivia sob o domínio romano? Quais foram algumas das principais tendências e padrões que podemos identificar?

SB

É muito difícil generalizar sobre cada trabalhador ou sobre toda a força de trabalho, mas é importante compreender tendências como o trabalho servil. Houve um grande aumento no trabalho escravo, especialmente no século II a.C., durante a República Romana, e ele continuou a aumentar até o século II d.C. Compreender o trabalho escravo em particular é muito importante para compreender as reações da força de trabalho e as condições de trabalho.

Além de entender a escravidão, que em lugares como a Itália podia atingir até 25% da população trabalhadora, também temos que entender coisas como a alforria — que tipos de pessoas eram alforriadas do status de escravizadas para se juntarem à sociedade como cidadãos?

“Havia muito preconceito em Roma contra o que em grego são chamados de trabalhadores banáusicos — isto é, trabalhadores braçais.”

Podemos observar que a escravidão aumentou, assim como a alforria, do final da República até o início do Império. Mas, em geral, é importante entender que a elite romana continuou cultivando preconceitos, especialmente em relação ao trabalho manual, que eram muito perniciosos e se infiltraram na legislação, na literatura e na maneira como tratavam os trabalhadores.

Havia muito preconceito contra o que em grego se chama de trabalhadores banáusicos — isto é, trabalhadores braçais. Eles tinham que se opor constantemente à ideia de que aqueles que trabalhavam com as mãos buscavam o quaestus, que em latim significa lucro. Havia a visão de que, se você vivesse em prol do quaestus, criando cerâmica, trabalhando em uma mina ou como operário da construção civil, o desejo por lucro e salários o impulsionava, e não, por exemplo, o amor pela literatura ou pelo seu país.

Embora não possamos dizer que todos os trabalhadores eram x ou y, havia milhões de artesãos e artífices diferentes em todo o Mediterrâneo que trabalhavam com as próprias mãos e lutavam contra uma forma de preconceito vinda de cima. Esse preconceito vinha de pessoas como senadores e cavaleiros, que representavam cerca de 1,5% da população total.

Eram eles que frequentemente expressavam por escrito reações muito estereotipadas e tendenciosas aos artesãos — pessoas como Cícero ou Juvenal, ou mesmo os juristas do direito romano, que falavam dos trabalhadores de forma muito negativa. Embora eu não possa fazer generalizações sobre todos os trabalhadores da Roma Antiga, havia um orgulho incrível entre os próprios trabalhadores, que tiveram que lutar contra o preconceito da elite que perdurou por centenas de anos.

DF

Se pensarmos na própria cidade de Roma, a ideia de uma divisão entre patrícios e plebeus é um tema familiar. As pessoas podem pensar na peça Coriolano, de Shakespeare, sem mencionar as palavras iniciais do Manifesto Comunista. Quanto dessa imagem da divisão entre patrícios e plebeus é de fato baseada em fatos, e como essa divisão se compara às divisões de classe nos tempos modernos?

SB

No Manifesto Comunista, há um foco em algo chamado Luta de Classes. Esta foi uma luta que durou mais de duzentos anos entre dois grupos de pessoas chamados patrícios e plebeus. Para Karl Marx e Friedrich Engels, os plebeus constituíam uma classe — um grupo de pessoas que compartilhavam relações comuns com o trabalho e os meios de produção. Essa seria a ideia moderna de classe.

“Os plebeus vinham de diferentes níveis econômicos e tinham diferentes maneiras de trabalhar e servir a República Romana.”

No entanto, o que sabemos sobre os plebeus hoje é que eles realmente não constituíam uma classe no sentido marxista. Os plebeus vinham de diferentes níveis econômicos e tinham diferentes maneiras de trabalhar e servir à República Romana. Precisamos entender que os plebeus e os patrícios eram, na verdade, grupos com suas próprias hierarquias e divisões internas.

Os patrícios eram os patres originais — as famílias de Roma quando ela foi fundada — enquanto os plebeus eram todos os outros. Não se tratava de um grupo econômico único. Nem todos os plebeus eram pobres, nem todos eram ricos, ou o que poderíamos considerar um grupo mediano de pessoas. Não havia coesão em termos de compartilhamento de experiências comuns de trabalho ou uma relação compartilhada com os meios de produção.

Quando olhamos para a Luta de Classes na Roma Antiga, Marx e Engels estavam corretos ao dizer que havia dentro do grupo plebeu quem optasse por se recusar ao alistamento militar como forma de pressionar por melhores condições de vida e assegurar representação no governo, por exemplo, como magistrados. Eles utilizavam a ação coletiva de uma forma muito atraente para filósofos e teóricos marxistas.

Ao mesmo tempo, porém, eles tinham razões diferentes para se absterem de trabalhar, ocupar o Monte Janículo ou se recusar a servir no recrutamento militar. É importante falar sobre os patrícios e os plebeus, porque eles são familiares para muitas pessoas que leram sobre a Luta de Classes naquela época. Mas, quando falamos dos plebeus, tratava-se de uma categoria que ia desde oficiais militares de alta patente até os agricultores mais pobres, que estavam em servidão por dívidas na época. Não era, de forma alguma, um grupo de pessoas com interesses econômicos semelhantes.

DF

Qual proporção da força de trabalho era composta por pessoas que haviam sido escravizadas? Essa proporção variou ao longo do tempo? Quais seriam as implicações da escravidão, mesmo para aqueles que não haviam sido escravizados?

SB

Os escravizados geralmente vinham da expansão romana e de prisioneiros levados pelo exército romano. Mas suas fileiras também eram complementadas por aqueles que viviam em famílias e tinham filhos nascidos na escravidão dentro de um domicílio romano. Sabemos que cerca de 60% dos escravizados neste vasto império de cerca de setenta milhões de pessoas, em seu auge, trabalhavam em contexto rural, enquanto o restante trabalhava em contexto urbano.

“Em um mundo agrícola, onde você estava constantemente trabalhando nos campos, isso significava que muito provavelmente passaria quase toda a sua vida escravizado.”

Considerando aqueles nas cidades, nove em cada dez provavelmente seriam alforriados no futuro, mas apenas um em cada dez escravos agrícolas rurais seria alforriado. Fazia uma grande diferença se você fosse designado para trabalhar no campo ou em um contexto doméstico, como professor de crianças, por exemplo, ou como estenógrafo, bibliotecário ou babá. Todos esses empregos tinham pelo menos uma probabilidade maior de alforria, o que de forma alguma valida a escravidão nem a torna eticamente correta, é claro. Mas em um mundo agrícola, onde você trabalhava constantemente no campo, isso significava que, com toda a probabilidade, passaria quase toda a sua vida escravizado.

Havia tensão entre os trabalhadores escravizados no mundo da agricultura e muita animosidade contra os escravizados que trabalhavam em contextos domésticos. Mas, no geral, Roma era uma sociedade escravista que dependia fortemente da mão de obra escravizada para prosperar. Os cidadãos de Roma, especialmente na Itália e na própria cidade de Roma, eram altamente dependentes tanto de escravos quanto de pessoas livres para realizar grande parte do trabalho manual que eles próprios não queriam fazer.

DF

Você fala sobre o papel das associações como forma de ação coletiva entre a população trabalhadora na Roma Antiga. Qual era a natureza dessas associações em suas diversas formas e como funcionavam como formas de ação coletiva?

SB

Associações existiram em todo o Mediterrâneo durante o período desde a morte de Alexandre até a coroação de Carlos Magno. Temos evidências de cerca de 3.200 tipos diferentes de grupos e associações. Todos tinham características e propósitos diferentes, e eram conhecidos por muitos nomes distintos.

O nome mais popular era collegium, de onde vem a palavra moderna “colégio”, mas também temos outros nomes como ecclesia em grego, por exemplo. Todos esses são nomes diferentes para grupos de pessoas que se reuniam para adorar um deus, servir (por exemplo) como carpinteiros ou ourives, ou enterrar os mortos.

“Assim como os sindicatos modernos, os collegia poderiam usar sua experiência e natureza profissional para conseguir melhores contratos ou obter certos benefícios especiais.”

É como hoje, onde as pessoas têm diferentes grupos aos quais pertencem e com os quais se identificam. Você pode ter múltiplas filiações dentro deles. Às vezes, esses grupos se tornam entidades políticas, e às vezes são apenas grupos para beber, onde vocês se reúnem no bar local e tomam vinho ou cerveja juntos.

Os romanos não eram diferentes. Eles adoravam socializar — adoravam ter clubes. Mas meu livro se concentra na ideia de que esses collegia, em certos momentos, podiam usar suas capacidades e especialidades coletivas para obter melhores salários ou melhores ambientes de trabalho, e também para melhorar seu status dentro da cidade em que viviam. Assim como os sindicatos modernos, os collegia podiam usar sua expertise e natureza profissional para obter melhores contratos ou certos benefícios especiais do imperador.

DF

Você poderia nos dar alguns exemplos de ação coletiva e protesto popular ao longo da história romana?

SB

As evidências que temos sugerem que greves e ações coletivas não eram tão frequentes no mundo antigo como são hoje. Não quero promover a ideia de que todos os dias havia uma greve em larga escala. Mas, em certos períodos, temos evidências de grupos formais e informais usando seu poder e a necessidade que o Estado tinha deles para tentar melhorar suas condições de trabalho.


O exemplo mais famoso é o que já discutimos: a Luta de Classes e as várias secessões da plebe. Essas secessões eram boicotes com outro nome. Embora o termo “greve” só tenha sido cunhado no século XVIII, podemos observar as mesmas formas de comportamento que associamos a greves e boicotes acontecendo na Antiguidade.

Os plebeus aproveitaram-se da necessidade do exército romano para expandir o alcance imperial romano. Eles se retiraram nessas secessões em vários momentos — houve quatro, cinco ou talvez até seis secessões, dependendo do autor que você estiver lendo.

Também analiso alguns exemplos menos conhecidos de greves e ações coletivas por volta de 200 d.C. Na cidade de Éfeso, temos um caso de padeiros que foram instruídos pelo governador da Ásia a interromper suas reuniões de grupo. Foi-lhes dito que não poderiam reter pão e que deveriam manter a ordem na cidade. Podemos deduzir, a partir da inscrição que nos conta sobre esse episódio, que os padeiros provavelmente estavam aumentando o preço do pão ou retendo seu pão para obter melhores preços ou um contrato mais vantajoso com o governo romano.

Nesse caso, temos o governador da Ásia intervindo e dizendo: “Vocês precisam acabar com esse comportamento como facção ou associação”. Esses padeiros parecem ter tentado usar seu monopólio sobre o pão, que representava uma proporção muito grande das calorias da dieta consumida pela maioria dos romanos, que comiam pão todos os dias.

As autoridades estavam dizendo a eles que não podiam reter pão coletivamente ou aumentar os preços. Vivemos um período de hiperinflação global, então provavelmente todos nós podemos entender por que o governador estava tentando impedir que os padeiros praticassem aumentos abusivos de preços em busca de mais dinheiro e melhores contratos.

Também temos papiros que nos contam como mulheres comuns e trabalhadores escravizados de oficinas têxteis no Egito, por exemplo, praticavam greves. Recusavam-se a trabalhar até receberem salários mais altos. Até mesmo grupos informais de trabalhadores têxteis, que talvez não se reunissem como um colegiado formal, podiam decidir que fariam uma greve.

O exemplo mais significativo no livro é provavelmente algo que aconteceu no final do século III, quando os trabalhadores da casa da moeda sob o reinado de Aureliano se recusaram a cunhar moedas e se trancaram na casa da moeda romana. Eles estavam retendo algo muito importante — as moedas de ouro, prata e bronze que circulavam como meio de pagamento no mundo romano.

É importante dizer que não são apenas os trabalhadores e sindicatos modernos que conseguem utilizar o poder da ação coletiva em benefício próprio. A economia antiga não era primitiva de forma alguma — era uma economia de mercado integrada. Os trabalhadores dessa economia frequentemente reconheciam seu valor e sabiam que possuíam as capacidades e o conhecimento necessários para suspender seu trabalho e, assim, viver em melhor situação no futuro.

DF

Se as pessoas pensarem em conflitos sociais no mundo antigo, o episódio com o qual provavelmente estão familiarizadas é a revolta liderada por Espártaco. Como essa revolta se desenvolveu e quais foram seus legados para períodos posteriores da história romana?

SB

A rebelião de Espártaco é certamente a mais conhecida de todas as rebeliões que temos em toda a história do mundo antigo. Dentro de seu próprio contexto, foi entendida como um esforço para repelir um agitador chamado Espártaco, originário da região da Trácia. Em 73 a.C., ele liderou uma rebelião em sua escola de gladiadores no sul da Itália.

“A rebelião de Espártaco é certamente a mais conhecida de todas as rebeliões que temos em toda a história do mundo antigo.”

Este é um ponto que o filme de Stanley Kubrick de 1960 acerta. A família dos gladiadores era a menor unidade social para essas tropas de gladiadores. As famílias de gladiadores eram essencialmente tropas escravizadas que tinham suas próprias hierarquias. Espártaco mobilizou sua própria tropa e eles invadiram a cozinha, usando utensílios para dar início ao desafio original contra o acampamento de gladiadores.

Eles começaram a viajar pelas regiões da Itália até a região do Monte Vesúvio, depois para o norte, até os Alpes, e depois para o sul novamente. Conseguiram cada vez mais pessoas seguindo esse pequeno grupo que havia iniciado a revolta. Estamos falando de uma mudança de algo entre sete e quarenta pessoas nessa família menor para cerca de cem mil seguindo Espártaco na rebelião.

Quero fazer uma distinção clara aqui entre muitos dos episódios que menciono no livro e a revolta liderada por Espártaco, porque o objetivo final de Espártaco não era voltar a trabalhar. Ele não planejava voltar para a escola de gladiadores e receber salários maiores de seus captores. Seu objetivo final e o das centenas de milhares de pessoas escravizadas que o seguiam era conquistar sua própria liberdade.

Eles não buscavam a abolição da escravidão em larga escala em todo o Mediterrâneo. Não temos evidências de que essa fosse uma de suas reivindicações. Eles simplesmente queriam se libertar e nunca mais retornar à escravidão. Para os collegia, poder suspender seu trabalho para eventualmente retornar ao trabalho era um tipo de tática muito diferente de uma rebelião em busca de liberdade, cujo objetivo final era a liberdade.

Embora Espártaco não tenha obtido sucesso, ao final da guerra, em 71 a.C., ele já havia espalhado ondas de terror por toda a República Romana. Eles temiam que esses gladiadores pudessem se tornar milícias muito eficazes quando se unissem e formassem o que hoje poderíamos chamar de exército. Isso era especialmente ameaçador para os senadores em Roma.

Como resultado, eles começaram a desmantelar as diversas tropas e escolas de gladiadores, afastando-as da cidade de Roma para que representassem uma ameaça menor. A rebelião de Espártaco é muito importante de entender, não apenas porque inspirou uma série de outras rebeliões em menor escala pelo Mediterrâneo, mas também porque criou um espectro que continuou a perseguir os senadores.

Eles temiam que, se tivessem uma tropa de gladiadores muito grande, ou se ela caísse nas mãos do político errado, ela poderia ser transformada em milícias e guarda-costas pessoais, de maneiras que de fato aconteceram mais tarde na história da República.

DF

Na história posterior do Império Romano, assistimos à ascensão do cristianismo, inicialmente como uma religião proibida e, posteriormente, como uma fé oficial. Que implicações o cristianismo teve para a maneira como as pessoas pensavam sobre o trabalho e sobre a ordem social em geral?

SB

Muitos dos cristãos que foram elevados a altos cargos depois que Constantino promoveu o status do cristianismo e ajudou a torná-lo lícito vieram de origens romanas muito tradicionais. Eles continuaram a ter os mesmos preconceitos em relação ao trabalho manual que existiam antes.

Podemos observar mudanças nos tipos de trabalho permitidos no Império Romano. Por exemplo, começamos a ver a proibição do trabalho sexual, porque as ideias cristãs sobre o assunto eram muito diferentes das ideias romanas anteriores de que deveria ser legal. Bordéis eram bastante comuns nas cidades romanas. Esse é o melhor exemplo de como o cristianismo transformou o trabalho e a mão de obra.

Mas também tínhamos novos tipos de trabalho em lugares como mosteiros, onde monges, homens e mulheres, faziam trabalhos manuais. Havia a crença de que o trabalho manual a serviço de Deus e da piedade era muito mais aceitável do que o trabalho manual em busca de lucro individual.

“Muitas das ideias do cristianismo começaram a se infiltrar na filosofia do trabalho no final do Império Romano.”

Muitas das ideias do cristianismo começaram a se infiltrar na filosofia do trabalho no final do Império Romano. Os monges tinham liberdade para realizar seu trabalho banáusico porque o faziam para Deus, da mesma forma que os artistas de mosaico que trabalhavam em igrejas recém-construídas eram vistos como magnificadores da glória de Deus.

Muitos clérigos ainda desprezavam o que poderíamos chamar de trabalhadores braçais e certamente não promoviam a ideia de que os trabalhadores deveriam estar nos escalões mais altos da Igreja Cristã. O esnobismo em relação aos trabalhadores que vimos em pessoas como Cícero ainda se perpetuou até o final do Império Romano e também no início do período medieval.

Gostaríamos de acreditar que o cristianismo mudou a percepção do trabalho, e que agora todas as pessoas se tornariam curtidoras de couro, como o apóstolo Paulo, por exemplo. Mas a realidade é que muitos dos preconceitos e esnobismos que víamos antes se perpetuaram até o período medieval e além.

DF

Se observarmos a história da Europa Medieval e Moderna, podemos encontrar vários exemplos de pessoas das classes pobres e trabalhadoras que imaginavam um tipo de sociedade completamente diferente, sem propriedade privada. Elas frequentemente se referiam a textos cristãos e à história inicial do cristianismo para basear essa visão. Há alguma evidência desse tipo de pensamento milenarista na Roma Antiga?

SB

Frequentemente, as evidências que temos em relação à filosofia do trabalho vêm da literatura da elite. Temos exemplos de indivíduos das classes empobrecidas que imaginavam um tipo diferente de sociedade, mas a maioria deles não se rebelava contra o Império Romano e não registrava seus sentimentos ou planos.

No entanto, em vários momentos da história romana, houve petições ao imperador que nos dizem muito sobre a sociedade e as condições que muitos trabalhadores desejavam ver. Temos várias petições do final do século II d.C. Elas vêm da África e de pessoas que hoje chamaríamos de camponeses.

Eles faziam petições diretamente ao imperador, dizendo que queriam melhores condições e não queriam ser menosprezados, já que eram eles que forneciam o suprimento de grãos para o pão gratuito distribuído em Roma, Constantinopla e outros lugares. Quando olhamos para petições como essa, ou outras petições ao imperador vindas dos técnicos de Dionísio, por exemplo, eles nos sinalizavam que tinham orgulho do trabalho que realizavam e queriam ver mudanças na forma como eram tratados pelas elites.

Podemos ver rebeliões individuais que chegaram às centenas, e às vezes aos milhares, durante o período da Antiguidade Tardia, vindas de pessoas como as facções circenses de Constantinopla. Mas, no geral, não obtemos muitas informações diretas das pessoas sobre a sociedade ideal que elas gostariam de ter.

“Uma das coisas importantes sobre o estudo dos collegia é reconhecer que eles proporcionavam uma oportunidade de prestígio e status em um nível muito pequeno.”

No entanto, muitos dos epitáfios para artesãos e trabalhadores nos dizem que eles acreditavam no que faziam e que amavam o status que tinham, não apenas como artesãos, mas também dentro de seu collegia. Muitos deles mencionaram o fato de pertencerem a associações profissionais, de modo que, mesmo que não conseguissem obter status dentro do Império Romano, poderiam obtê-lo dentro de seu clube ou associação individual.

Um dos aspectos importantes sobre o estudo dos collegia é reconhecer que eles proporcionavam uma oportunidade de prestígio e status em um nível muito pequeno. Isso dava às pessoas um senso de identidade e individualidade que jamais poderiam ter alcançado em todo o Mediterrâneo Romano. Essas pessoas jamais seriam senadoras ou cavaleiros. Mas podiam se tornar presidentes de seus clubes ou secretárias de seus collegiums.

DF

Que tipo de esperança você tem sobre a maneira como a pesquisa que fez pode alterar a percepção das pessoas sobre a história romana?

SB

Um argumento que meu livro tenta apresentar é a ideia de que a história comparada é muito importante. Na década de 1980, Moses Finley, historiador da Antiguidade e teórico da economia romana, encontrou-se com um homem chamado Orlando Patterson, que ainda é professor emérito de sociologia em Harvard. Tomaram um café juntos em Cambridge e conversaram sobre um livro que Patterson estava preparando, chamado “Slavery and Social Death” [Escravidão e Morte Social].

Este livro se tornou extremamente importante para nossa compreensão da escravidão, porque Patterson analisou sessenta e seis sociedades escravistas diferentes e disse: “Estas são as semelhanças, estas são as continuidades, estas são as nuances e estas são as diferenças”. Seu estudo sobre a morte social reuniu historiadores da pré-modernidade, do mundo medieval e do mundo moderno em um diálogo.

O que peço com este livro não é que você aceite que todos os collegiums eram sindicatos, o que não era o caso. Quero encorajar as pessoas a se reunirem e estabelecerem diálogos entre o mundo antigo e o mundo moderno. Com muita frequência, os economistas modernos pensam que a história com a qual precisam se envolver começa com a Revolução Industrial e progride a partir daí.

Trazer a história romana para o debate e afirmar que os trabalhadores romanos tinham a capacidade de se comportar de maneira semelhante aos sindicatos modernos é uma forma de criar pontos em comum. Mas também é uma forma de compreender o comportamento e a experiência vivida dos trabalhadores, e as maneiras pelas quais a ação coletiva pode nos beneficiar hoje.

é editor adjunto da New Left Review. Ele é autor de "One Man’s Terrorist: A Political History of the IRA".

Sarah Bond

é professora associada de estudos clássicos no Departamento de História da Universidade de Iowa. É autora de "Greve: Trabalho, Sindicatos e Resistência no Império Romano".

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