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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Kouvelakis é um académico e um escritor deveras prestigioso e respeitado. Aqui defende teses com as quais é difícil discordar, pois já estão suficientemente estabelecidas, e refiro às opiniões sobre os erros da Terceira Internacional e a sua correção posterior através de Frentes Populares. As lições do passado, sem suma. Também é consensual admitir-se como factos as profundas transformações nas classes sociais, por um lado, e as consequências a que assistimos das políticas neoliberais. Devo ainda subscrever que combater a democracia burguesa ou liberal pode exprimir um cretino sectarismo em determinado nível de inoportunidade ou de slogans. Onde discordo frontalmente é que, depois de uma brilhante análise (sucinta e clara) o autor conclua que as melhores soluções para combater o capitalismo ou radicalizar as lutas (como ele diz) estejam nos exemplos (interessantes sem dúvida e devem ser apoiados) de Mandani em Nova Iorque, ou dos verdes britânicos. Só isso? E isso é ir à raiz (radicalizar os programas) e apresentá-las como estratégias às massas populares? Acho muito pouco. E sobretudo muito social-democratas no mau sentido da palavra, pois que a social-democracia ( seja a que ocupa o poder , seja a que o deseja de novo) é responsável tanto quanto a Direita tradicional pela austeridade e e pelo empobrecimento que provoca descontentamento e revoltas capitalizadas até ver pela extrema-direita. Até ver.

 

O que é a extrema direita?

Tradução
Pedro Silva
in Jacobin 

As forças reacionárias aprofundaram as tendências autoritárias do neoliberalismo e corroeram a democracia no mundo todo. Compreender a natureza do seu projeto é essencial para o derrotá-la.

Há uma tendência crescente de caracterizar a extrema direita atual, de Trump a Meloni e Milei, como “fascista”, citando seu racismo, sua dependência da repressão, sua centralização do poder e seu desrespeito às normas legais — características que se intensificaram nos últimos anos. O rótulo é usado por esquerdistas que querem se apresentar como dignos sucessores dos heróis antifascistas do passado e por liberais que querem minimizar o quanto suas políticas contribuíram para a ascensão da direita. Em ambos os casos, porém, essa figura de linguagem obscurece mais do que revela a natureza do nacionalismo reacionário contemporâneo, dizendo pouco sobre sua perspectiva ideológica, seus compromissos programáticos e o perigo real que representa. A hipérbole abafa a análise.

Contudo, seria igualmente imprudente rejeitar quaisquer analogias históricas e insistir numa abordagem focada puramente no contemporâneo. Ainda há muito a ganhar com uma comparação entre o período entre guerras e os nossos tempos: as trajetórias da crise capitalista, então e agora, e o leque de possíveis respostas socialistas que elas abrem. Não é preciso assimilar a extrema direita à categoria de fascismo para afirmar que ela deve ser combatida por todos os meios necessários. Mas só se pode desenvolver os meios de resistência mais eficazes lendo o presente à luz do passado.

Convergência

O cerne racional da analogia reside no fato de que, em situações de crise, a ordem capitalista produz, ou pelo menos é perfeitamente compatível com, todos os tipos de regimes políticos: bonapartismo, ditaduras militares, fascismo e outros “estados de exceção”, todos qualitativamente diferentes da democracia liberal. O fascismo do período entre guerras foi um movimento de massas que emergiu em sociedades brutalizadas pela “guerra total” e que enfrentavam a possibilidade de revolução social. Seus componentes essenciais eram o nacionalismo étnico, o anticomunismo, a violência nas ruas e a vontade de derrubar os regimes parlamentares e substituí-los por uma forma de Estado completamente diferente: uma sociedade militarizada, orientada para a guerra e a expansão imperial. O racismo, e mais especificamente o antissemitismo, desempenhou um papel central no nazismo, mas foi menos decisivo para a ascensão do fascismo italiano e constituiu apenas uma característica secundária nos demais regimes “fascistas” daquele período: Hungria, Romênia, Espanha, Portugal e Grécia.

Hoje em dia, em contraste, a “direita radical” é principalmente um fenômeno eleitoral, com apenas expressões menores no nível das ruas. Praticamente todas as suas vertentes são definidas por um racismo virulento, que apresenta como uma posição defensiva, protegendo a “nação” ou a “civilização ocidental” de várias ameaças fantasmas, como migrantes e muçulmanos. Sua promessa “social” às classes populares é algum tipo de redistribuição interna com base em critérios raciais, na qual os “verdadeiros nacionais” seriam supostamente favorecidos em relação aos estrangeiros no acesso a serviços públicos e no mercado de trabalho. Ao contrário do período entre guerras, os belicistas são agora mais numerosos no campo centrista, inclusive em partidos nominalmente social-democratas e verdes, do que na extrema direita.

Há também um nível de consenso muito maior entre a classe política atual do que havia na época do fascismo histórico. Nenhuma grande força política no Ocidente tem uma visão política de ruptura com as instituições parlamentares. Discursos anti-imigração e islamofóbicos, e as políticas que os acompanham, são onipresentes, de Orbán a Macron. Isso coincide com uma defesa cínica dos “direitos das minorias”, na qual tanto o centro liberal quanto as forças mais ágeis da extrema direita apresentam os marginalizados racializados como um risco para mulheres, pessoas LGBT, comunidades judaicas e assim por diante. Líderes como Le Pen e Meloni usam seu femonacionalismo para marcar todos os itens da “modernidade”, enquanto outros, como Alice Weidel e Heinz-Christian Strache, invocam sua homossexualidade para alegar que são os protetores de grupos vulneráveis, e não os agressores.

A convergência entre neoliberalismo e extrema direita não é acidental. Esta última ganhou força em parte como resultado da guinada autoritária nas sociedades ocidentais que começou na década de 1970, com a crise terminal do compromisso social keynesiano, com sua ascensão acelerando esse processo. O sucesso da direita demonstra que as duas dimensões da dominação burguesa, consentimento e repressão, não são mutuamente exclusivas; podemos ter tanto o aumento da repressão quanto a ampliação do consentimento a essa repressão. Embora essa repressão venha de cima — da tentativa do Estado neoliberal de desmantelar o que resta do pacto social pós-guerra — ela também alimentou pânicos morais que se espalham “de baixo”: crescentes preocupações com a criminalidade ou a imigração que se enraízam quando a vida cotidiana se degrada e o declínio é evidente, e quando a esquerda é incapaz de oferecer uma contra-narrativa convincente.

Conjuntura e estrutura

Para compreendermos melhor a direita e as razões da sua força, precisamos combinar dois níveis de análise: um conjuntural e outro mais estrutural, ou pelo menos de longo prazo. Após a crise financeira de 2008, houve uma corrida entre a esquerda radical e a direita radical para ver quem ofereceria uma alternativa crível. No entanto, partiam de pontos muito diferentes. Na virada do milênio, a direita radical já estava bem estabelecida na França, Itália, Áustria, Holanda e Escandinávia, e nos EUA podia contar com a influência de longa data dos nacionalistas cristãos dentro do Partido Republicano.

Na ausência de qualquer infraestrutura equivalente, a esquerda antineoliberal tentou, em contrapartida, aproveitar a energia dos protestos em massa que irromperam em ambos os lados do Atlântico em 2011. Mas quando o Syriza capitulou perante a Troika em 2015 — uma traição endossada pelo Podemos e outras forças afins — esse ciclo de resistência chegou ao fim. A direita pôde, assim, entrar em cena e capitalizar sobre o descontentamento popular, auxiliada pela constante radicalização de políticas racistas e xenófobas implementadas por todos os governos de centro-direita e institucionalizadas pela UE, com suas políticas de “externalização das fronteiras”. A gestão injusta e autoritária da crise da Covid-19 apenas aprofundou essa tendência, já que a esquerda, mais uma vez, falhou em desenvolver uma posição forte ou distinta.

Esta é a situação conjuntural. Para uma perspectiva estrutural, teríamos que retroceder quatro décadas, quando a ofensiva neoliberal começou a esvaziar os partidos políticos e as organizações de massa, aumentando a taxa de abstenção a níveis sem precedentes e corroendo gradualmente a autoridade moral e intelectual do establishment, o que levou ao que Gramsci chamaria de “crise hegemônica”: uma ruptura nas relações existentes entre os grupos e classes sociais e suas formas tradicionais de expressão política. “Quando tais crises ocorrem”, escreveu Gramsci, “a situação imediata torna-se delicada e perigosa, porque o campo se abre para soluções violentas, para a atuação de forças desconhecidas, representadas por carismáticos ‘homens do destino’”.

Nesse contexto, o discurso racista e pseudoantissistêmico da extrema direita mostrou-se particularmente eficaz em conquistar o apoio de grandes setores das classes trabalhadoras e populares, abandonados pela esquerda. Por quê? Porque a esquerda, com poucas exceções, refugiou-se em uma zona de conforto político-eleitoral isolada. O núcleo de sua base social remanescente é composto pelas classes médias instruídas e pelas gerações mais jovens de graduados que vivenciam a desvalorização social. A presença das classes trabalhadoras e populares é fraca entre seu eleitorado e ainda mais entre seus membros e quadros. Enquanto essa configuração persistir, a esquerda será incapaz de igualar a força da extrema direita como uma autoridade capaz tanto de contestar o status quo quanto de articular uma visão alternativa de “ordem” em meio a uma crise hegemônica em curso.

Assimilação à direita

O resultado dessas tendências — o sucesso eleitoral da direita e a aceleração de tendências autoritárias já existentes — é alarmante: a democracia, seja qual for a definição que se dê a ela, está em retrocesso em todo o mundo. O tipo de democracia liberal há muito associado aos países do núcleo capitalista está se desintegrando. Trata-se de um estágio avançado do que Poulantzas chamou de “estatismo autoritário”: um processo de transformação estrutural que teve início nos primórdios do neoliberalismo, no qual os escalões superiores da burocracia estatal assumiram um papel mais diretamente político; o poder executivo foi fortalecido em detrimento das instituições representativas; as formas estabelecidas de mediação política foram enfraquecidas; a mídia de massa preencheu cada vez mais o vácuo deixado pelos partidos políticos tradicionais; e novas tecnologias de vigilância e repressão consolidaram seu domínio sobre a sociedade.

O neoliberalismo, nesse sentido, nunca significou “menos Estado”, mas sim a desdemocratização do Estado e sua subordinação mais direta às necessidades da acumulação. A recente radicalização da direita pode ser vista tanto como uma reação quanto como uma adaptação a essa tendência autoritária-estatista. Uma reação, no sentido de que expressa o descontentamento das classes populares e da baixa classe média, excluídas desse acordo neoliberal. E uma adaptação, no sentido de que seu apoio à direita não é uma tentativa de derrubar esse acordo, mas simplesmente de obter inclusão nele. A extrema direita abraçou completamente as políticas do centro extremo e impulsionou uma versão ainda mais autoritária delas, afirmando que o preço a pagar deve ser cobrado dos “invasores” ou “agitadores”, enquanto os grupos privilegiados serão mais protegidos.

Essa é uma estratégia poderosa porque captura e remodela o “senso comum” de grandes setores sociais e ajuda a dar ao Estado neoliberal autoritário a base de apoio popular que até então lhe faltava. Contudo, ela também é frágil, pois o medo, o ressentimento e a promoção de identidades reacionárias são meios limitados para construir consenso e um bloco social coeso. Crucialmente, as promessas sociais da direita são desprovidas de qualquer conteúdo real: elas simplesmente piorarão a vida de alguns sem melhorar a dos demais. Nesse aspecto, as forças reacionárias permanecem vulneráveis. O que se faz necessário é que a esquerda saia de sua zona de conforto e explore essa vulnerabilidade.

Uma maneira de fazer isso é apresentar uma defesa ousada da democracia. Isso deveria estar no topo da agenda da esquerda. Historicamente, a tradição da Terceira Internacional (com exceção de Gramsci) tendeu a desvalorizar a “democracia liberal”, deixando de reconhecer que os elementos genuinamente democráticos dos regimes burgueses — direitos e liberdades — não eram simplesmente maneiras de enganar ou manipular o proletariado, mas o resultado de lutas populares bem-sucedidas, cujas vitórias tiveram um alto preço. Essa falha teve um efeito devastador sobre o movimento comunista do século XX, e devemos ter cuidado para não repeti-la hoje.

Contudo, defender a democracia deve envolver mais do que apenas a defesa de direitos e liberdades, por mais crucial que seja essa batalha institucional e jurídica. Para a esquerda anticapitalista, isso deve significar lutar pela autonomia das classes subalternas: atacar tudo o que as reduz a um estado de passividade, afrouxando o controle do capital sobre a vida social. Esta é a única maneira de construir uma contra-hegemonia e lançar as bases para a democracia socialista. Podemos agora analisar como isso se daria na prática: quais forças teriam que se unir, em que configurações, para tornar isso realidade.

Três estratégias

Se a nossa situação atual não pode ser entendida como uma repetição, ou mesmo uma variante, das décadas de 1920 e 1930, então temos que repensar a estratégia. Contudo, mais uma vez, isso pode ser feito de uma maneira melhor através de uma compreensão autocrítica do passado: os métodos anteriores de luta socialista e como eles podem ou não ser aplicáveis ​​hoje. Olhando para o período entre guerras, as três estratégias oferecidas eram, de forma bastante esquemática, o “Terceiro Período”, a “frente única” e a “frente popular”. O Terceiro Período era a linha ultrassectária adotada pela Internacional Comunista em 1928, na qual se pressupunha uma iminente crise terminal do capitalismo, seguida por uma revolta revolucionária dos trabalhadores, e que, portanto, era inaceitável formar alianças com qualquer força política que pudesse ser categorizada como um obstáculo à revolução. A social-democracia foi equiparada ao fascismo e qualquer tipo de unidade de esquerda foi descartada. Isso levou a um desastre imenso: a ascensão do nazismo ao poder e o completo esmagamento do movimento operário mais poderoso da Europa.

As outras duas estratégias não podem ser descartadas tão facilmente. A frente única, em sentido amplo, foi uma tentativa de construir um movimento que abrangesse toda a atividade autônoma das classes subalternas, não apenas a do partido operário revolucionário. Essa ampliação do movimento permanece uma parte indispensável de toda estratégia de esquerda interessada em obter vitórias significativas. Mas, desde o seu início, na década de 1920, havia ambiguidade quanto ao seu alcance. Seria essa uma tentativa de elaborar uma estratégia revolucionária distinta do “cenário de outubro de 1917” que compreendesse a lacuna entre o Oriente e o Ocidente e exigisse uma estratégia alternativa para a conquista do poder no segundo? Ou seria apenas uma posição tática e temporária que seria mantida enquanto os socialistas estivessem na defensiva, e que eventualmente seria substituída por uma linha mais ofensiva que reafirmaria o papel de liderança do partido revolucionário? Para Trotsky, era a última opção: uma vez que a revolução se aproximasse, os sovietes se tornariam “a forma mais elevada da frente única” e a aliança entre comunistas e social-democratas daria lugar a algo que se assemelhasse mais ao esquema bolchevique.

A estratégia da Frente Popular surgiu a partir de 1934, quando a Internacional Comunista começou a defender amplas alianças que incluíam não apenas diferentes setores do movimento operário, mas também setores do que era considerado a esquerda pequeno-burguesa e até mesmo burguesa. Como o núcleo dessa aliança era formado por fortes partidos comunistas e socialistas, ela conseguiu desencadear uma genuína mobilização de massas contra o fascismo. Na França, as vitórias eleitorais da Frente Popular deram enorme confiança às massas e desencadearam a onda de greves de junho de 1936, o primeiro movimento em larga escala da classe trabalhadora industrial do país. Os comunistas reconheceram a dimensão emancipadora da tradição democrática francesa, que remontava à Grande Revolução e ao movimento jacobino, e se apresentaram tanto como uma força nacional-popular quanto como o partido da classe trabalhadora: o único ator capaz de liderar um amplo bloco social em busca de mudança.

Mas as dimensões emancipatórias da Frente Popular entraram em conflito com sua estratégia política. Para construir alianças com as forças burguesas, os comunistas abandonaram as posições anticolonialistas e adotaram uma visão “estática” rígida que adiava o socialismo para um futuro distante. Rejeitaram a ideia de integrar as demandas democráticas imediatas a um programa de transição mais radical. À medida que a polarização de classes se aprofundava, eles se viram trabalhando para diminuir as contradições em vez de acentuá-las. A prioridade de manter a “unidade antifascista” levou a um reformismo inviável. A Frente Popular não conquistou o apoio das classes dominantes, já que se baseava na política de massas, nem promoveu a causa da revolução.

O resultado previsível foi a derrota generalizada e o fascismo no fim do caminho. A aliança francesa desmoronou quando a ala burguesa mudou de lado, abrindo caminho para a contraofensiva de uma classe capitalista traumatizada pelas greves de 1936. Na Espanha, a situação foi muito pior, pois, ao contrário da França, um processo revolucionário já se desenrolava antes mesmo do sucesso eleitoral da Frente Popular. Lá, os comunistas aliaram-se à ala moderada da Frente. Em nome da manutenção de um antifascismo restrito e da defesa da República burguesa, reprimiram violentamente outras forças mais radicais. Logo, eles próprios foram marginalizados por seus aliados burgueses, que buscavam um compromisso com os fascistas e, por fim, mostraram-se dispostos a capitular.

Lições para o presente

Há uma dupla lição a ser extraída dessa experiência. Por um lado, os socialistas devem evitar a armadilha do ultraesquerdismo e do sectarismo que marcaram o Terceiro Período, embora esse seja um risco marginal hoje, dado o atual estado da luta de classes nos países da centralidade do capitalismo. Por outro lado, devem recusar-se a tornar-se uma força subalterna em um bloco neoliberal decadente. Existe uma tentação, em alguns setores da esquerda, de desempenhar o papel de força auxiliar da corrente liberal dominante, justificando essa posição como um imperativo do “antifascismo”. Mas é evidente aonde essa paródia da Frente Popular histórica levará: à derrota certa tanto da esquerda quanto dos liberais, sem criar nada remotamente comparável à dinâmica política de massas da década de 1930.

Essa forma de pânico do “antifascismo” contemporâneo ignora o ponto crucial sobre a extrema direita atual: que ela não é uma repetição do fascismo, mas sim o resultado da transformação do campo político moldado pelo consenso neoliberal das décadas anteriores, que sempre incluiu racismo, militarismo, intervenções imperialistas e cumplicidade com genocídios. Somente uma oposição resoluta a essa ordem neoliberal — cujos pilares são o império estadunidense, a OTAN e a União Europeia — pode oferecer uma perspectiva galvanizadora e positiva.

As experiências de esquerda mais promissoras no Norte Global hoje são aquelas que seguiram esse caminho: o França Insubmissa, Zohran Mamdani e, em certa medida, os Verdes na Grã-Bretanha. Em sua melhor forma, esses projetos eleitorais reuniram diversos elementos: um programa baseado na solidariedade com a Palestina, no antirracismo e no antimilitarismo, com uma agenda social robusta e concreta; interação constante com mobilizações e movimentos populares; e uma visão progressista da nação e da soberania nacional-popular, como componentes fundamentais dessa Nova Esquerda emergente.

Se a esquerda leva a política a sério, isso precisa significar política de massas. Os marxistas precisam ser parte integrante desse movimento e contribuir para sua radicalização em uma direção anti-imperialista e socialista. Mas isso significa abandonar modos de pensar ultrapassados: a vontade de repetir os cenários revolucionários do passado, a sedução do vanguardismo estéril ou do purismo ideológico, a visão abstrata do internacionalismo que pouco difere do cosmopolitismo liberal. Derrotar a extrema direita significa rejeitar essas distorções e se reconectar com os sujeitos sociais e políticos reais, principalmente com as classes trabalhadoras e populares.

Stathis Kouvelakis

é membro do conselho editorial da Contretemps e do conselho científico do Institut La Boétie. Seu próximo livro é The Defeat of Critique (2027).

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Declaração do PRCF

 

17 de outubro: mais de um milhão na rua para os trabalhadores da França enfrentam aqueles que rompem o país e desesperam sua juventude. Declaração do PRCF (Pôle de Renaissance Communiste en França / Polo de Renascimento Comunista em França)

Empurrando em seu auge a lógica destrutiva de uma “construção” europeia sinônimo da marcha para a guerra, da fascistação e da quebra de ganhos sociais, o regime macronista finalmente colocou nosso país à porta da explosão social e política.

Justificando mais uma vez a valorização de Marx vendo na França o “país clássico de confrontos de classe empurrados para o fim”, a juventude e uma parte crescente do movimento popular tendem a convergir para afirmar que, como temos anunciado à PRCF há vários anos, “Marianne”, ou seja, a massa de cidadãos pertencentes aos estratos populares e médios, não concorda mais com um estado estruturalmente violento de coisas cuja principal responsabilidade é da Europa prevalecente

Apesar da France-Info como na mídia Bolloré, a primeira característica de 17 de outubro de 2026 não são as cenas de quebra que retransmite complacentemente as televisões ligadas ao poder oligárquico, mas a mobilização maciça da juventude e dos estratos populares que se manifestaram amplamente e, em 90% dos casos, pacificamente nas grandes cidades e em muitas capitais, de Amiens a Bayonne. Podemos provavelmente estimar que o número de manifestantes seja bem maior de um milhão (é tradicionalmente a CGT que conta as manifestações, mas não chamou neste dia na maioria dos departamentos) em toda a França, incluindo várias centenas de milhares em Paris, com uma participação maciça do ensino médio, estudante e juventude ultra-determinado. O próprio Ministério do Interior teve que multiplicar por cinco suas figuras de participação durante o dia.

A violência que aqui eclodiu e há o fato, principalmente, de uma política de policiamento que, na realidade, só enfurece a população raivosa, grande parte da qual está dramaticamente empobrecida. Tudo para melhor deixar o campo para grupos niilistas ou oportunistas que se aproveitam da situação para quebrar e saquear: o fogo da prefeitura de Limoges deve assim ser condenado nas palavras. Imagens terríveis que o poder é feliz demais para poder explorar para justificar sua política fascista do todo-repressivo, como encarnado sucessivamente, deixando de responder a demandas legítimas, os Sarkozys, Valls, Cazeneuve, Castaner, Darmanin e outros Nunez.

Por fim, a exasperação e a raiva de muitos jovens e trabalhadores também são explicadas em um longo período pela forma como a sede euro-formatada e institucionalizada da esquerda político-social estabelecida, que não confundimos com os 40 UD-CGTs que hoje cumpriram seu dever de classe chamando para participar das procissões, ou mesmo organizando-os como em Lille, Nantes ou Toulouse. A violência descontrolada deve-se também à falta de radicalismo anticapitalista, anti-imperialista e anti-Maastricht das organizações clássicas resultantes do movimento operário que, ao se recusarem a criticar fortemente a “construção” europeia, ao supostamente acompanhar a “esquerda” a macronista ruinosa e perigosa “economia da guerra”, libertaram tanto um espaço no Rali Lepenista quanto o retorno de algumas concepções anarco-ni-niilistas De fato, derrubar o capitalismo e o desejo de uma revolução estavam em todas as bocas daqueles que não podem mais, nas ruas hoje, em uma enorme mobilização de luta de classes dos trabalhadores da França.

Nessas condições, a PRCF, cujos folhetos, slogans e bandeiras vermelhas e tricolores foram muito bem recebidos em geral nas manifestações,

  • adverte o partido da chamada ordem, a do Lecornu, Retailleau, Le Pen, que é de fato o partido da destruição da França, do caos e do pré-fascismo, contra qualquer tentativa de explorar a situação para restringir ainda mais as liberdades, brincar com o estado de emergência, criminalizar a LFI (as diferenças existentes entre as forças de esquerda não devem de forma alguma limitar a solidariedade antifascista), ou mesmo provocar uma reação
  • Exorta as forças sindicais de classe a consultarem-se no mais curto espaço de tempo possível para organizar urgentemente uma forte ofensiva popular como unificadora e ampla quanto possível para a defesa do progresso social, da paz, da democracia e da soberania do povo francês: não esperemos por isso a luz verde dos líderes de vocação do CFDT e construa mais do que nunca o slogan da greve geral todos juntos ao mesmo tempo que fez 1936 e 1968 Dinheiro para salários não para a guerra, para ensinar não para o excesso de armamento! Dinheiro para estudantes do ensino médio não para a União Europeia e sua guerra na Ucrânia. A PRCF abordou um grande arco de partidos, organizações e sindicatos nessa direção no início de setembro (leia aqui)
  • Exorta os comunistas que não têm medo de assumir o desejo de revolução que renasce na classe trabalhadora e na juventude para levar juntos, como o ensino médio e as manifestações de hoje têm feito muitas vezes cantando a Marselhaise ou hasteando a bandeira tricolor (que agora são os símbolos deste movimento), para levar juntos sem se opor à aspiração do mundo de trabalho à soberania popular, à soberania do povo, à soberania do povo

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Um texto de Henry A. Giroux

 "Temos muitos monstros que destroem" (George Seferis)

"No entanto, como podemos decidir a verdade sobre o fascismo se não é possível pronunciar-se contra o capitalismo, que é a sua origem?" (Bertolt Brecht)

Há mais de quatro décadas, o compositor e intelectual grego Manos Hadjidakis lançou um alerta: hoje, vemos uma reflexão sobre o fascismo que reflete a própria natureza da nossa era. O maior problema, sugere-se, surge quando tocamos nossos corpos, quando, estando presentes, perdemos a consciência e violamos as rotinas do nosso quotidiano. A tolerância não enfraquece a monstruosidade; ela multiplica as condições que permitem que ela prospere, reforçando sua presença na vida pública até que essa monstruosidade adquira autoridade para governar. Nesse caso, o colapso da consciência é inseparável da separação entre "crença e juízo, convicção e ação".

Chegamos a esse momento.

Os monstros já não se escondem nas sombras. Ocupam gabinetes presidenciais e ministeriais, comandam as forças policiais, controlam as plataformas digitais, dominam as telas de televisão, administram as fronteiras, constroem centros de detenção e transformam a segurança urbana em um teatro político. A linguagem da limpeza racial, da deportação em massa, do extermínio, da vingança e da destruição não provoca a indignação que talvez devesse despertar. A crueldade é exibida como força. A humilhação é convertida em entretenimento. O espetáculo da prosperidade transforma-se em um ponto de vista político. O fato de isso ser insuportável é algo que você conhece bem; aquilo que deveria provocar resistência acaba sendo absorvido pelos ritmos da vida quotidiana.
O monstro não age sozinho quando ocorrem atrocidades; sua atuação se consolida quando sua linguagem se torna habitual e sua violência passa a ser aceitável, quando ele explora divisões raciais e de classe, mantendo-se armado e sem perturbar a imaginação moral. Toni Morrison nos oferece uma outra linguagem para compreender como os monstros são vistos sob uma ótica habitual. Ela identifica a "linguagem da morte" — uma linguagem que, embora deva ser veículo de responsabilidade ética, pode servir a propósitos de dominação. A "linguagem morta" descrita por Morrison é monstruosa. Como ela escreveu, a linguagem opressiva "limitava-se a representar a violência; ela *é* a violência".

A reflexão de Morrison vai além da teoria. Os monstros exigem uma linguagem que conduza a terra à violência, que despoje as vítimas de sua humanidade e que ensine as pessoas a aceitar o inconcebível. A linguagem da vida é uma das condições que permite que a monstruosidade se instale no quotidiano sem provocar indignação ou comoção coletiva.

Em certa ocasião, Levi observou que "os monstros existem, mas são poucos demais para serem verdadeiramente perigosos. O mais importante é que existem os homens comuns, os funcionários dispostos a criar e agir sem questionar nada". Levi aborda essa questão no que tange ao papel de agentes irrefletidos, mas, ainda assim, as próprias monstruosidades receberam legitimidade institucional e pública. Encorajados por uma desigualdade económica avassaladora, empoderados pela maquinaria do autoritarismo de alta tecnologia e legitimados por uma cultura de violência estatal cada vez mais disseminada, eles migraram das margens políticas para as esferas de poder da sociedade norte-americana.
Assim, o alerta de Hannah Arendt sobre o esfacelamento do pensamento ganha uma urgência renovada. A monstruosidade prospera quando renuncia ao seu próprio gozo, quando a obrigação de pensar se torna um fardo e quando a ignorância deixa de ser um sinal de consciência de uma recusa deliberada a ser superada. Podemos dizer que essa é a banalidade da ignorância: a suspensão deliberada do julgamento que permite às pessoas viverem sem questionar as injustiças que as cercam. A monstruosidade não se limitava a exigir obediência; tratava-se de moldar sujeitos que precisavam aprender a pensar de modo a aceitar essa ordem.

No entanto, o alerta de Hadjidakis era ainda mais preocupante do que o simples medo das monstruosidades. O que significa uma sociedade ignorar as suas próprias monstruosidades? E que forças pedagógicas estão em jogo para criar e normalizar essa situação? Essa normalização não significa que todos no mundo se tornem assassinos ou fascistas. Significa que hábitos de pensamento, estruturas de sentimento e formas de indiferença — que moldam a nossa humanidade — penetram na nossa vida em comum. A banalidade da ignorância transforma-se numa condição social, numa forma de segurança moral que oferece um refúgio contra a responsabilidade, onde a negligência em pensar se converte numa condição de perda. Contudo, a ignorância não opera apenas no campo do desejo. Existe um registo emocional, uma psicologia do autoritarismo e uma pedagogia do terror através das quais as pessoas aprendem não apenas a conviver com a crueldade, mas a suportar a sua carga emocional, projetando sentimentos de perda em "padrões de domínio e submissão" — padrões que elas sustentam até que se transformem num conjunto de ações que respeitam a hierarquia, o poder, a sexualidade e a tradição.
O monstro tem uma longa história, nascida nas regiões mais sombrias do imaginário social — onde convergem o medo, a diferença e o poder. Como disse Manvir Singh, as monstruosidades surgem frequentemente nas fronteiras entre o humano e o inumano, o familiar e o estranho, o civilizado e aquele que está além dos nossos portões. Mas os monstros são, simplesmente, gritos da fantasia. São advertências, projeções, encarnações de medos coletivos e, muitas vezes, armas para decidir quem pertence ao círculo da humanidade e quem pode ser expulso dele. O que importa politicamente é que, quando o terreno monstruoso da realidade e da fantasia se encontram, cabe às instituições de poder e autoridade decidir quem pode viver, quem deve sobreviver e quem pode ser destruído.

No entanto, há outro problema na própria metáfora do monstro. Imaginar Donald Trump, Stephen Miller, Pete Hegseth, Itamar Ben-Gvir, Benjamin Netanyahu e outros artífices do autoritarismo violento contemporâneo simplesmente como monstros traz o risco de situá-los fora da história, como se sua crueldade tivesse origem em alguma patologia privada, alheia à sociedade que os gerou. A monstruosidade pode acabar ocultando a cumplicidade da sociedade que a criou. A indignação moral individualiza o problema, mas ignora as instituições, os interesses económicos, os preconceitos raciais, os aparatos culturais e as razões políticas que tornam possível a crueldade organizada. Essa é a ideia fundamental do argumento de Jorge González Arocha: transformar os perpetradores em monstros pode ser, em outras palavras, uma forma de desviar o olhar. Arocha sustenta que "reduzir o perpetrador a nada mais do que um monstro nos protege de reconhecer a nós mesmos como potenciais perpetradores. Isso nos afasta do evento e de sua realidade, ao mesmo tempo em que nos coloca em uma posição de superioridade moral... [É] uma forma de negar que a capacidade de destruir também nos pertence, que faz parte da condição humana".
O problema é que os monstros não existem. O problema surge quando a monstruosidade se transforma em uma explicação no lugar de uma pergunta. As monstruosidades não descem sobre a sociedade daqueles que pertencem à história; elas são produzidas dentro da história, cultivadas pelas instituições, protegidas pelas burocracias, legitimadas pela lei, financiadas por interesses económicos, amplificadas pelos meios de comunicação e normalizadas pela cultura. A importância política dos monstros não reside apenas nos horrores que eles trazem, mas na ordem social que torna esses horrores possíveis, úteis, legítimos e, em última análise, habituais. Concentrar-se exclusivamente nos monstros pode ocultar a estrutura mais profunda do capitalismo mafioso, um sistema que “prioriza certas formas de poder acima do bem comum e permite a desumanização gradual de nossas sociedades”.

Portanto, a pergunta deve mudar. Passamos do monstro para a máquina, da patologia do indivíduo para a economia política da crueldade organizada, e para as forças culturais e educativas que ensinam as pessoas a conviver com o que a máquina produz. As monstruosidades não agem sozinhas; elas se manifestam nas instituições que as protegem, nas redes que as sustentam, nos olhares que as autorizam e na violência que elas perpetram. Ouvimos falar de ruas manchadas de sangue, de migrantes maltratados e abandonados que morreram em centros de detenção, de tortura documentada em prisões israelitas e de crianças e famílias destruídas por bombas e pelo aprisionamento israelita em Gaza. Afinal, perderam seus entes queridos, tiveram seus corpos despedaçados, suas crianças soterradas sob os escombros, suas famílias queimadas e enterradas nas ruínas de suas casas; são seres humanos reduzidos a carne e osso por sistemas nos quais a crueldade foi organizada, autorizada e repetida até o presente momento. O ponto em que a violência mais dolorosa atua é aquele que retira a capacidade de consumir.
O horror decorre da crescente aceitação social dessas monstruosidades, do silêncio que acompanha nossos crimes e da erosão dos limites morais e políticos que os tornariam intoleráveis. Esse silêncio não é inocente. É o *rigor mortis* da decadência política, o momento em que uma organização política estruturada em torno da morte passa a permear a vida quotidiana. O pesadelo já não espreita nas sombras; ele se expõe à luz do dia e é recebido com indiferença, resignação ou aprovação. A questão é como as pessoas aprendem a viver em meio ao sofrimento em massa e, por fim, a desviar o olhar. Que formas de poder exigem esse silêncio? Que instituições o cultivam? Que cultura ensina as pessoas a ignorar a visão dos corpos descartáveis? E, o mais importante: como a máquina educacional ensina milhões de pessoas não apenas a tolerar a crueldade, mas a identificar aqueles que a infligem, a desejar o poder que eles representam e a vivenciar o sofrimento alheio como o preço de sua própria libertação imaginária?

É onde convergem a economia política, a cultura e a pedagogia. A monstruosidade é indissociável do capitalismo mafioso, do terrorismo educacional e da cultura da crueldade. O capitalismo mafioso não gera monstros por acaso; ele precisa deles, assim como precisa de um público capaz de aceitá-los.

O conceito de "mal radical" de Arendt traduz-se, sobretudo, na destruição da justiça dentro da maquinaria política que reduz os seres humanos à condição de supérfluos. Em *As Origens do Totalitarismo*, o mal radical emerge de uma ordem política capaz de despojar os seres humanos de seus direitos, de sua história, de sua individualidade e, em última instância, de seu direito de pertencer à comunidade humana. O campo de concentração representa a concretização extrema dessa lógica, mas seu significado político transcende o próprio campo. O totalitarismo exige instituições capazes de transformar seres humanos em matéria descartável.
A análise posterior de Arendt sobre Adolf Eichmann tornou o panorama mais complexo. Eichmann não se apresenta como uma figura demoníaca que encarna uma profundidade insondável de maldade. Ele surge, antes, como alguém "correto" de forma equivocada: burocrático, arrogante, obediente e incapaz de refletir seriamente sobre as consequências de suas ações. A banalidade do mal não significa que esses crimes sejam banais. Significa que é possível deparar-se com crimes extraordinários por meio de rotinas comuns, linguagem profissional, ambição de carreira, obediência e a suspensão do senso de justiça.

Reinhard Heydrich, uma das principais engrenagens da máquina nazista de terror e extermínio em massa, representa outra configuração da monstruosidade política, resultante da convergência entre fanatismo ideológico, inteligência administrativa e um extraordinário poder institucional. Não é necessário reduzir Eichmann e Heydrich a um mesmo tipo psicológico, mas é possível apontar a inadequação de tratar tais atrocidades simplesmente como monstruosidades. Sistemas modernos de terror exigem administradores, advogados, técnicos, policiais, propagandistas, intelectuais, jornalistas e funcionários públicos. É mais difícil enxergar a dimensão política quando se assume um cargo, uma posição de autoridade, uma burocracia, um vocabulário de necessidade e se conta com um público disposto a aceitar nossas premissas.

Primo Levi compreende essa questão sob outra perspectiva. Ele rejeitou a tentação consoladora de dividir o mundo de forma clara entre uma humanidade inocente e monstros incompreensíveis. Como ele afirmou: "É um erro estranho atribuir todos os demónios a uma pessoa e todos os santos a outra... Dividir em branco e preto significa não reconhecer a natureza humana". O conceito de "zona cinzenta" trouxe uma reflexão mais inquietante sobre a questão política. A "zona cinzenta" não elimina as distinções entre as vítimas; ela expõe as formas pelas quais os sistemas de dominação corrompem a própria essência da vida moral. A lição política é perturbadora justamente porque nos priva do consolo de acreditar que a atrocidade está desprovida de humanidade. A barbárie moderna não surge à margem da civilização; ela se organiza por meio das instituições, tecnologias, formas de conhecimento especializado e estruturas de obediência da própria civilização.
Umberto Eco lançou as bases para uma reflexão sobre o fascismo. O fascismo não exerce uma influência imutável; ele se transforma conforme mudam nossa linguagem, nossos símbolos, nossas tecnologias e nossas formas institucionais. Eco alertou que o "fascismo eterno" (*Ur-Fascism*) pode retornar sob os disfarces mais inocentes. Portanto, limitar-se a focar apenas nas Camisas Negras de Mussolini ou nas de Hitler acarreta o risco de não reconhecer o fascismo quando ele retorna vestindo terno e gravata, carregando uma Bíblia, participando de podcasts, comandando algoritmos ou invocando a linguagem da liberdade, do renascimento nacional, da segurança das fronteiras e da soberania popular. O fascismo sobrevive precisamente porque aprende a se adaptar às condições históricas de sua época.

Nota do Tradutor: Umberto Eco utiliza o termo "Ur-Fascism" (Ur-Fascismo) como uma descrição genérica de diferentes formas históricas de fascismo.

Se o fascismo é uma função das condições históricas e dos acontecimentos, compreender essas condições é fundamental para entender como ele surge e se perpetua em suas monstruosidades. Assim, o problema deve ser analisado no âmbito da economia política, da cultura, da pedagogia e da história. As condições que podem gerar tal monstruosidade não são acidentais nem temporárias; elas emergem de sociedades onde a desigualdade extrema é tratada como algo natural, a crueldade se transforma em entretenimento, a hierarquia racial é defendida como senso comum, o militarismo é visto como virtude nacional e populações inteiras são consideradas descartáveis.

A monstruosidade do presente não se resume à figura de Trump. Sua genealogia remonta à longa história do imperialismo e, com intensidade particular, à Guerra ao Terror. Em nome do combate ao terrorismo, os Estados Unidos desencadearam guerras que deixaram mais de 600 mil mortos no Afeganistão, Iraque, Paquistão, Síria e Iêmen; estima-se que as mortes causadas indiretamente pela destruição de infraestrutura, pelos bloqueios, pelos deslocamentos populacionais e pela desnutrição cheguem à casa dos milhões. Essa devastação não pode ser reduzida à linguagem de um colapso político catastrófico. Constituíam uma vasta maquinaria de inferiorização racializada em que populações inteiras podiam ser bombardeadas, torturadas, deslocadas, encarceradas e abandonadas .
Aimé Césaire compreende que a violência imperial muitas vezes não se limita apenas às pessoas contra as quais é inicialmente dirigida. A brutalidade colonial, alertava ele, produz um "terrível efeito bumerangue": as práticas de desumanização, ódio racial, anarquia e violência organizada no exterior acabam retornando para casa. A "guerra ao terror" oferece um exemplo contemporâneo desse alerta. As câmaras de tortura de Abu Ghraib, a detenção por tempo indeterminado em Guantánamo, as operações extraordinárias, os assassinatos com drones, a vigilância em massa e a normalização da guerra permanente não devastaram apenas outras sociedades. Contribuímos para que a opinião pública aceitasse a tortura, a vigilância, a polícia militarizada, o poder executivo sem limites e a classificação de certas populações como ameaças. O trumpismo não inventou essa cultura política; ele a herdou, intensificou-a e voltou suas práticas imperiais para dentro. Nesse sentido, a estrutura inverteu-se, fazendo com que a máquina passasse a operar internamente após décadas de atuação externa.

Sob o capitalismo mafioso, a máquina imperial de produção de populações descartáveis ​​manifesta-se plenamente, assumindo uma forma doméstica particularmente letal. A riqueza concentrou-se, bens públicos foram explorados em benefício de rendas privadas, instituições democráticas foram subordinadas ao poder de multimilionários e o Estado punitivo expandiu-se à medida que o Estado social era desmantelado. O abandono e a repressão refletem-se nas causas da crise política.
A pedagogia desempenha um papel central, pois o fascismo nunca se impõe simplesmente de cima para baixo; é preciso aprendê-lo. Ensina-se a ver aqueles que estão morrendo — e a odiá-los, a ignorar seu sofrimento ou até a celebrar seu desaparecimento. Aprende-se a vivenciar a crueldade como violência, a dominação como liberdade, a ameaça racial como algo natural e a violência como uma purificação nacional.

Esse processo é chamado de "terrorismo pedagógico". Ele se dissemina por escolas e igrejas, televisão e redes sociais, podcasts, eventos políticos, plataformas digitais, publicidade e pelo teatro espetacular da violência estatal. Esses dispositivos culturais fazem muito mais do que apenas transmitir ideias comuns: eles organizam a atenção, moldam a consciência, estruturam o desejo e ensinam os modos de sentir. Criam-se condições econômicas e ideológicas nas quais o desprezo pelos descartáveis ​​se transforma em um sentimento compartilhado.

Preocupações privadas transformam-se em inimigos públicos. O isolamento individual é convertido na falsa solidariedade da tribo, e o poder é redirecionado para onde a agressividade e o ressentimento são elevados à categoria de virtude moral. O medo transforma-se em ódio, e a humilhação, no desejo de humilhar os outros. O fascismo alimenta-se dessa dinâmica, transformando a prosperidade privada em um objetivo público. As feridas infligidas por uma ordem social cada vez mais brutal são desviadas das estruturas que as produziram e direcionadas contra imigrantes, pessoas negras, palestinos, feministas, intelectuais, pessoas *queer*, dissidentes e qualquer um que seja designado como inimigo.

Uma cultura de barbárie se instala quando a crueldade deixa de se limitar ao Estado ou aos seus líderes mais fanáticos e passa a integrar a vida cotidiana, moldando a consciência pública, o desejo político e os limites do que define um ser humano. A barbárie manifesta-se culturalmente quando um grande número de pessoas clama pela expulsão forçada, pelo castigo coletivo, pela violência do extermínio e pela destruição da vida civil, sem perceber isso como uma catástrofe moral.

Israel oferece um exemplo alarmante. Em maio de 2025, uma investigação realizada pelo professor Tamir Sorek, da Universidade Estadual da Pensilvânia, revelou que, ao se questionar israelenses sobre a expulsão de palestinos de Gaza, 54% declararam-se fortemente a favor. Mais preocupante ainda é a referência à conquista de uma cidade inimiga pelo exército israelense agindo da mesma forma que os israelitas na conquista bíblica de Jericó: "matando todos os habitantes". Essas palavras indicam algo mais do que uma simples retórica; apontam para uma política militar concreta. Revelam como a linguagem da expulsão e do extermínio pode transitar das margens da vida política para o vocabulário moral da sociedade em geral. Manifesta-se, assim, uma cultura de barbárie quando a ideia de que existem pessoas descartáveis ​​se torna um sentimento comum e a destruição de um povo passa a ser imaginada como legítima, necessária ou até mesmo justa.

Omer Bartov foi além, argumentando que a sociedade israelense se tornou cúmplice tanto por suas ações quanto por seu silêncio, caracterizando-se sempre pela violência, pela vulgaridade e pela indiferença. Essa dinâmica transcende os crimes de Netanyahu, Ben-Gvir e do exército israelense. Aponta para a construção pedagógica de uma ordem social na qual a linguagem da eliminação se torna concebível, o sofrimento coletivo passa a ser tolerável e a violência exterminadora pode integrar-se aos ritmos cotidianos da vida nacional. Esse é o objetivo final do terrorismo educacional: a fabricação de sujeitos para os quais a barbárie não é vista como algo bárbaro.

A cultura do fascismo não se limita a tolerar monstruosidades; ela as transforma em celebridades, homens fortes, salvadores e figuras de identificação, reproduzindo assim um culto à liderança. Suas violações de normas morais e políticas são reconhecidas como sinais de autenticidade, e sua crueldade é vista como demonstração de força. O desprezo pelas restrições democráticas torna-se um atrativo para seus seguidores, que vivenciam cada transgressão como uma libertação imaginária das obrigações de igualdade, compaixão e responsabilidade mútua.
No entanto, é importante destacar que a ordem dominante — que desesperadamente se declara imutável — está sendo desafiada: o capitalismo passa a ser visto como um problema político, o socialismo retorna à vida pública como uma linguagem de possibilidades, e a política coletiva rompe com o discurso de que "não há alternativa".
A esperança é perigosa para o fascismo porque o poder autoritário se alimenta do medo, da amnésia histórica, do ódio político e da convicção de que nada pode mudar. A esperança militante despedaça essa convicção. Ela transforma o sofrimento privado em ira pública, os espetadores em agentes políticos e a solidão que alimentava o fascismo em poder coletivo. Ela adota a pedagogia do mundo e cria uma pedagogia de resistência e vida cívica. Diante da cultura da crueldade, transforma a solidariedade em arma e a justiça em uma demanda coletiva. Diante de uma sociedade organizada em torno do descartável, insiste que os seres humanos valem mais do que os mercados, as fronteiras, a propriedade e o lucro, e que é preciso transformar as instituições que geram miséria, abandono e violência organizada.

A luta vai além de destruir as monstruosidades que ocupam as cúpulas do poder. Devemos destruir as condições que as tornam possíveis, através da construção de uma força política democrática de massa capaz de acabar com a concentração de renda, desmontar as estruturas de opressão racial e económica, defender os bens públicos, romper o jugo do militarismo e devolver o poder económico e político ao povo. A democracia não pode sobreviver como um apêndice do capitalismo, perdendo sua essência para o poder económico concentrado que a governa por dentro. Ela deve se transformar em uma forma de organização da própria vida social, baseada na igualdade, no poder coletivo e na busca por um futuro justo.

Há mais de quatro décadas, Manos Hadjidakis disse: "Assim que a rosa da monstruosidade desabrocha, ouvimos dizer que devemos ter paciência... pois isso significa que temos de esperar que ela se manifeste." Esse alerta é hoje mais urgente. No entanto, essa aparência não significa que tal destino seja inevitável. O monstro depende de nova resignação, de novos silêncios, de novos medos e, em última análise, da crença de que a resistência é inútil. A forma mais radical de esperança começa com a rejeição dessa mentira. Os monstros são criações históricas e podem ser destruídos pela luta coletiva. É necessário desafiar o capitalismo vigente e construir uma política socialista democrática capaz de conter o poder das elites governantes, devolvê-lo ao povo comum e transformar a esperança em uma força para remodelar o mundo.

Henry A. Giroux atualmente ocupa a Cátedra de Pesquisa de Interesse Público da Universidade McMaster no Departamento de Estudos Ingleses e Culturais, e é o Distinto Investigador de Paulo Freire em Educação Cristã. Entre nossos livros mais recentes lemos: *The Terror of the Unforeseen* [El terror de lo imprevisto] (Los Angeles Review of Books, 2019), *On Critical Pedagogy* [Sobre la pedagogía crítica], 2.ª edição (Bloomsbury, 2020); *Raça, política e pedagogia pandêmica: educação em tempos de crise* (Bloomsbury, 2021); *Pedagogia da Resistência: Contra a Ignorância Fabricada* [Pedagogía de la resistencia: contra la ignorancia inducida] (Bloomsbury, 2022) e *Insurrections: Education in the Age of Counter-Revolutionary Politics* [Insurrecciones: la educación en la era de la política contrarrevolucionaria] (Bloomsbury, 2023), bem como, em coautoria com Anthony DiMaggio, *Fascismo em Julgamento: Educação e a Possibilidade da Democracia* [El fascismo a juicio: la educación y la posibilidad de la democracia] (Bloomsbury, 2025). Giroux também é um dos membros do conselho da Truthout.

Fonte: https://www.counterpunch.org/2026/09/18/when-monsters-walk-among-us/

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

 4 ESQUINAS

Por António Rodrigues Jornalista.

Público 09 Outubro 2026
Essa a enormidade da barganha: você entra na mesa de
negociação com pedido de ajuste fiscal. O outro lado promete
atender, sem explicar como. Só cobra armar crianças, intimidar
professores, jornalistas e artistas; descredibilizar médicos,
discriminar homossexuais, desproteger mulheres; explodir o
clima, enriquecer a família, legitimar a incivilidade gratuita e
liberar recursos nacionais para país estrangeiro. Ignorar a
Constituição. E você diz sim, negócio fechado” Conrado
Hübner Mendes Cronista da Folha de S. Paulo Queimar
Um dos edifícios da Universidade Federal de Pernambuco foi
destruído pelas chamas na noite de quarta-feira. O
historiador Jones Manoel, eleito deputado federal no
domingo, escreveu nas redes sociais que estudantes da
universidade receberam ameaças por terem organizado um
acto de apoio à reeleição de Lula da Silva. Numa delas, um
anónimo falava em “explodir o departamento”, cita a Folha
de S. Paulo.
As chamas consumindo um centro de investigação científica
numa universidade federal, o que poderia ser mais simbólico
do Brasil que emergiu destas eleições? A ignorância, o ódio, a
maldade, a vileza contra a ciência e o saber conquistaram o
poder em toda a escala (mesmo que Lula consiga ganhar na
segunda volta, terá nas mãos um país ingovernável) e será um
Brasil substancialmente diferente o das próximas eleições —
se ainda forem livres, justas e transparentes.
Com a ajuda dos grandes meios de comunicação, dos
algoritmos das redes sociais, dos púlpitos das igrejas

evangélicas neopentecostais (os vendilhões expulsos do templo
voltaram com sanha de vingança), a extrema-direita
bolsonarista, aliada às milícias armadas, à corrupção em
grande escala, conseguiu construir essa ideia de que estavam
em disputa apenas duas visões para o povo brasileiro. E não
explicaram que de um lado está uma visão democrática para o
país (com todos os seus erros acumulados e digna de crítica),
do outro alinha-se o velho país dos coronéis, dos ricos, dos
brancos, das milícias, do racismo, da exploração, o país da
classe média que perdeu o privilégio de ter mucama, de ter
babá porque Lula deu direitos laborais aos explorados. Esse
Brasil que gosta (ou fecha os olhos) do trabalho análogo à
escravatura, do desmatamento da Amazónia e que é contra os
“privilégios” dos povos indígenas e as quotas nas
universidades.
O Brasil que se vê acima da lei ganhou. E agora vai deixar
passar a boiada. É de temer que o incêndio de Pernambuco
seja só o começo.
Queimar
Um dos edifícios da Universidade Federal de Pernambuco foi
destruído pelas chamas na noite de quarta-feira. O
historiador Jones Manoel, eleito deputado federal no
domingo, escreveu nas redes sociais que estudantes da
universidade receberam ameaças por terem organizado um
acto de apoio à reeleição de Lula da Silva. Numa delas, um
anónimo falava em “explodir o departamento”, cita a Folha
de S. Paulo.
As chamas consumindo um centro de investigação científica
numa universidade federal, o que poderia ser mais simbólico
do Brasil que emergiu destas eleições? A ignorância, o ódio, a
maldade, a vileza contra a ciência e o saber conquistaram o
poder em toda a escala (mesmo que Lula consiga ganhar na
segunda volta, terá nas mãos um país ingovernável) e será um

Brasil substancialmente diferente o das próximas eleições —
se ainda forem livres, justas e transparentes.
Com a ajuda dos grandes meios de comunicação, dos
algoritmos das redes sociais, dos púlpitos das igrejas
evangélicas neopentecostais (os vendilhões expulsos do templo
voltaram com sanha de vingança), a extrema-direita
bolsonarista, aliada às milícias armadas, à corrupção em
grande escala, conseguiu construir essa ideia de que estavam
em disputa apenas duas visões para o povo brasileiro. E não
explicaram que de um lado está uma visão democrática para o
país (com todos os seus erros acumulados e digna de crítica),
do outro alinha-se o velho país dos coronéis, dos ricos, dos
brancos, das milícias, do racismo, da exploração, o país da
classe média que perdeu o privilégio de ter mucama, de ter
babá porque Lula deu direitos laborais aos explorados. Esse
Brasil que gosta (ou fecha os olhos) do trabalho análogo à
escravatura, do desmatamento da Amazónia e que é contra os
“privilégios” dos povos indígenas e as quotas nas
universidades.
O Brasil que se vê acima da lei ganhou. E agora vai deixar
passar a boiada. É de temer que o incêndio de Pernambuco
seja só o começo
Redemocratizar
As democracias não morrem de repente, vão morrendo,
muitas vezes sob o disfarce da revitalização. O bolsonarismo é
essa pulsão da morte. Visão antidemocrática que aproveita as
fragilidades da democracia para se impor como alternativa
dentro de um sistema que quer destruir. O bolsonarismo odeia
a democracia porque vitupera a pluralidade, detesta que o
contradigam, abomina quando lhe pedem explicações e vê a
oposição como inimigo. Tolera a democracia como sistema
político cujo poder emana do povo se esse povo votar nele,
todo o outro sofrerá as consequências da ousadia.

Quando Flávio Bolsonaro vem afirmar que pretende
“redemocratizar” o Brasil, estamos seguros de que haverá
mudanças profundas, mas nenhuma delas terá realmente a
ver com democracia.
“Olha o que o povo brasileiro falou nas urnas. Olha o
Congresso Nacional que será configurado a partir de Janeiro.
Acho que nenhum Presidente da República com meu perfil
casou tanto com um Congresso como esse de centro-direita,
em que a maioria está ali estabelecida por identidade
programática”, disse, cita o G1.
Bolsonaro quer mudar a Constituição, sobretudo em relação
ao Supremo Tribunal Federal, aumentar o número de juízes
para poder nomear mais ocupantes das cadeiras sintonizados
com o seu discurso. E iniciar um processo de impeachment
contra Alexandre de Moraes porque ousou condenar o pai,
Jair Bolsonaro, a 27 anos e meio de prisão por tentativa de
golpe de Estado.
“Vocês acham que o Brasil está numa democracia plena?”,
questionou retoricamente.
“A gente quer respeitar a política”, uma frase que tem lá
tudo, respeitar a política é um eufemismo para “quando eu
for Presidente, aquilo que eu disser é lei e a lei não me pode
perseguir pelo que eu digo e faço”. Tal como Donald Trump
conseguiu nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro quer
imunidade total para o bolsonarismo, mesmo quando planeia
golpes de Estado.
Eleita e ameaçada
Houve um fogacho de luz no meio da derrocada da esquerda
nas eleições de domingo no Brasil, com o PT afundado por
erros próprios e alheios que lhe são atribuídos, incapaz de
contrariar os sofismas do bolsonarismo com uma mensagem
nova e de futuro. Os mesmos rostos a disputar os mesmos
cargos com as mesmas estratégias e discursos. Desse

descalabro, um rosto emergiu como o vento de Aracati, a
brisa fresca e húmida que refresca as noites do sertão no
Ceará.
Ana Elisa, de 21 anos, militante do PT, foi eleita deputada
federal em Minas Gerais com mais de 524 mil votos,
tornando-se a mulher mais votada da história do estado na
primeira vez que se apresenta a uma eleição para cargo
público, e a mulher mais jovem eleita para o Congresso de
Deputados.
Estudante de Direito, negra, t raz consigo a experiência das
redes sociais, daí que Lula, que a convidou em Março para se
filiar no partido, a tenha mandado chamar agora para
integrar o seu núcleo de estratégia digital para a segunda
volta das eleições.
“Acredito que esta semana ficou provado para a esquerda que
a rede social elege, porque até há pouco tempo só elegia a
direita”, disse Ana Elisa aos jornalistas. “Toda a minha
campanha foi pautada, óbvio, em campanha de rua, mas
muita campanha de rede, porque eu entendi que quem faz um
milhão de votos, quem faz três milhões de votos, é porque
realmente prioriza a rede social.”
Num clima de normalização do discurso de ódio, Ana Elisa já
foi insultada e recebeu um email com ameaças de morte de
alguém que mostrou saber pormenores da sua vida.
Chicote e bala
Criança com arma na mão, deputada eleita saindo pela rua
com um chicote, deputado justificando a vitória da extrema-
direita no Brasil com o facto de as pessoas se sentirem
“humilhadas” pelo Supremo Tribunal Federal como estavam
os alemães que votaram no Partido Nazi por causa da
“humilhação” do Tratado de Versalhes.

O resultado das eleições brasileiras libertou o coração dos
reaccionários para expressões de grande sinceridade pública.
Júlia Zanatta, a senhora do chicote, reeleita em Santa
Catarina, é conhecida pela sua tiara de flores germânica que
usa como imagem de marca e muitos vêem como apologia ao
nazismo — as blumenkränze ficaram associadas à Liga das
Raparigas Alemãs (Bund Deutscher Mädel), a ala feminina da
Juventude Hitleriana.
Zanatta vai ter assento num Congresso onde nunca tantas
mulheres se tinham sentado ao mesmo tempo (serão 120, 108
deputadas e 12 senadoras). Como escreve Camila Galetti no
Intercept Brasil, “é um recorde, e deveria ser só uma boa
notícia. Mas na realidade não é.” Porque uma fatia delas,
como Zanatta, ou Michelle Bolsonaro, a ex-primeira-dama,
eleita senadora, diz-se antifeminista.
“Uma mulher que rejeita o feminismo oferece à extrema-
direita algo que um homem dificilmente poderia oferecer da
mesma maneira: a possibilidade de dizer que a crítica
feminista não representa necessariamente as mulheres”,
explica a jornalista.
A viragem ultraconservadora do Congresso legitima o
discurso contra o feminismo, contra a comunidade LGBTQI+,
contra os nordestinos, contra a diversidade e a igualdade,
contra o outro, aquele que não é como eles: a bancada da
Bíblia, do Boi e da Bala alargou-se nesta eleição e vem com
sanha, de chicote e arma na mão. E tiara de flores na cabeça:
resta saber se será para o caixão da democracia brasileira

Morreu Anwar Shaikh

 

Anwar Shaikh: “As questões fundamentais sobre o capitalismo parecem estar retornando”

Tradução
Valentín Huarte e Everton Lourenço

Nesta primeira parte da entrevista à Jacobin, o renomado economista Anwar Shaikh aborda algumas teses do seu livro “Capitalismo: Competição, Conflito e Crise”, as falhas das escolas dominantes no campo da economia, a conjuntura internacional e os limites enfrentados por qualquer projeto de desenvolvimento no âmbito do capitalismo mundial. 

 Anwar Shaikh (Foto: Institute for New Economic Thinking)

Há décadas, Anwar Shaikh se consolidou como um dos mais influentes pesquisadores da economia política do capitalismo, realizando contribuições em vários campos, incluindo a teoria do valor-trabalho, a função de produção, o comércio internacional, o crescimento e os ciclos e crises econômicas. Seu último livro, lançado em 2016 e intitulado “Capitalismo: Competição, Conflito e Crise” (Capitalism, competition, conflict and crisis – Oxford University Press, 2016), oferece uma excelente síntese de sua carreira e de sua obra.

Nesta primeira parte de uma entrevista exclusiva aos nossos irmãos da Jacobin América Latina, o professor Shaikh conversou com Pablo Pryluka sobre algumas das principais teses de seu último livro, as falhas das escolas dominantes no campo da economia, a conjuntura internacional e os limites enfrentados por qualquer projeto de desenvolvimento no âmbito do capitalismo mundial.


PP

Seu livro Capitalismo: Competição, Conflito e Crise representa uma grande síntese de décadas de pesquisas, tanto empíricas quanto teóricas, dedicadas à análise do sistema capitalista. Para começar, você pode comentar um pouco sobre a inspiração por trás da obra?

AS

Este livro foi uma tentativa de gerar um quadro teórico consistente e coerente de análise econômica, que consiga apresentar uma alternativa tanto à economia neoclássica, que defende o livre mercado, quanto à economia pós-keynesiana, que se baseia na ideia de que os mercados não são perfeitos, que existem monopólios, etc.

Minha tese é que a imperfeição é apenas o duplo da perfeição. Quando se afirma que o mercado é imperfeito, assume-se no mesmo movimento que existe algo que é perfeito, mas as coisas não se dão necessariamente assim. No meu caso, proponho partir do real: concorrência real, desenvolvimento real, etc. Em outras palavras, acho que devemos evitar cair na armadilha de pensar que o mundo é imperfeito porque não se ajusta a um modelo que lhe é completamente estranho.

A analogia que uso para pensar sobre isso foi tirada da Bíblia. Lá se afirma que houve um tempo de perfeição, que é o Jardim do Éden – que, aliás, é muito semelhante à ideia de concorrência perfeita – e que foi arruinado pela imperfeição, simbolizada pela serpente. A serpente aparece e com ela chega a imperfeição ao jardim do Éden. As pessoas são então expulsas e todo o mundo real aparece como uma imperfeição, como uma série de imperfeições que se repetem continuamente. Ora, esse é um paralelo exato à ideia da economia neoclássica que parte de um capitalismo perfeito para terminar definindo o mundo real como uma série de imperfeições.

O que tento mostrar no meu livro, que tem mil páginas – e esta é uma das razões por que é tão longo – é que é preciso confrontar esse quadro com as evidências empíricas. Isso é o mais importante. Como diz Marx, o objeto de investigação é o real, e não o que outras pessoas escreveram sobre esse objeto. Portanto, embora eu ofereça algumas críticas a outras escolas econômicas, elas estão sempre ancoradas no fato de que é necessário explicar de forma natural e sistemática o que pode ser observado. Não quero dizer com isso que expliquei absolutamente tudo. Em vez disso, trata-se de uma base teórica que deve ser desenvolvida e elaborada.

Porém, ao longo dessas mil páginas procuro mostrar que é possível explicar com esse referencial muitas das coisas que outras escolas econômicas também tentam explicar. Por exemplo, o crescimento, os efeitos da demanda, as taxas de câmbio, o comércio internacional, a macroeconomia, o desenvolvimento econômico, etc. Os mesmos princípios básicos podem ser aplicados em termos concretos para explicar todos esses fenômenos. Isso é o que tento ilustrar de várias maneiras.

E a chave é que não se trata do poder do trabalho versus capital ou do poder dos países avançados versus países em desenvolvimento, que são certamente problemas reais, e sim que se trata, em última análise, do poder do mercado e do poder dos lucros, o poder que estes possuem sobre aqueles que trabalham e sobre os capitalistas.

Nesse sentido, me oponho à ideia de que os capitalistas seriam dotados de uma espécie de superpoder que lhes permite controlar o mundo. A verdade é que eles não o tem. Suas próprias ações produzem resultados que acabam por controlar a eles mesmos. Portanto, as crises não são complôs planejados: são o resultado devastador do poder do mercado.

PP

Isso é muito interessante porque, em certo sentido, o que sua abordagem sugere é que devemos nos voltar ao estrutural, aos poderes da estrutura – o mercado – e deixar de lado a perspectiva centrada nos agentes, sejam eles capitalistas, imperialistas, etc.

AS

A questão aqui é que a agência realmente existe, mas ela é estruturalmente limitada. E, ao mesmo tempo, os atos dos agentes têm consequências que são dadas pelas circunstâncias. Estamos diante da famosa frase de Marx, que diz que as pessoas fazem sua própria história, mas não escolhem as condições nas quais a fazem. Esse é um ponto muito importante.

O objetivo não é negar a agência, e sim colocá-la no seu devido lugar. E obviamente a agência de um camponês em uma sociedade feudal, ou mesmo a de um senhor, é diferente da agência de um trabalhador ou de um capitalista em uma sociedade capitalista. É muito fácil perceber isso. Portanto, é preciso colocar no seu lugar a agência e saber falar sobre a estrutura. Esta é minha principal preocupação. Claro, também falo da agência, embora não seja o assunto que mais me preocupa.

PP

Nesse sentido, parece haver uma premissa sobre as instituições. Atualmente, especialmente em economia, a abordagem institucional tornou-se a tendência principal. Estou interessado em saber o que você pensa sobre isso.

AS

Antes de abordar especificamente a sua pergunta, gostaria de falar um pouco mais sobre a questão da estrutura. O Estado também é um agente no interior dessa estrutura. Antes eram Estados de Bem-Estar e agora são basicamente o seu oposto, mas tratam-se sempre de Estados capitalistas, então é preciso compreendê-los entender nesse sentido.

A primeira coisa que é preciso entender é que o mercado é um sistema que cria uma espécie de ordem a partir da desordem. Isso também é encontrado em Marx. As pessoas consideradas como indivíduos, as que trabalham e as que desempenham funções como capitalistas, tomam decisões com base nas expectativas que têm sobre os resultados. Alguém tem uma determinada renda e espera usá-la para comprar algo e fazer as coisas que deseja. Quem desempenha funções como capitalista se dedica a produzir bens individualmente na expectativa de poder vendê-los e, portanto, possui a expectativa de poder comprar matéria-prima e explorar a mão de obra.

Visto desse ponto de vista, todo o sistema parece ser um conjunto caótico de expectativas inconsistentes, sendo que não há razão para que minhas suposições sobre o mundo e sobre o mercado capitalista sejam verdadeiras. Veja agora o que acontece com o COVID-19. Acontecem coisas que mudam a situação em todos os lugares, inclusive no Estado.

A primeira questão fundamental, que na realidade é encontrada em Adam Smith, é a ideia da mão invisível. Não a mão invisível como foi vulgarizada pela economia burguesa, mas a mão invisível como aparece em Smith, e ainda mais claramente em Marx, como meio de reconciliar todas essas discrepâncias.

Marx a coloca em outros termos. Ele observa que todos fazem algo que faz parte do processo de reprodução social, mas que a forma como cada uma dessas ações se insere no processo é por meio de erros: erramos sobre o que podemos ter. Por exemplo, vamos nos lembrar das pessoas que correram estocar papel higiênico quando estourou a pandemia. Em outras palavras, estávamos errados sobre nossas expectativas. O capitalismo não previu a situação e não produziu papel higiênico com antecedência. Na verdade, houve escassez.

Neste contexto, a questão mais complicada de responder é como alcançar algum tipo de equilíbrio a partir deste contexto difícil. Não é difícil afirmar que tudo está fora de equilíbrio, o difícil é mostrar como ocorre o equilíbrio. Aqui, os economistas clássicos, especialmente Smith, Ricardo e Marx, teorizam sobre como o equilíbrio é produzido por meio do desequilíbrio. Por exemplo, há muita oferta em um mercado, os preços caem, isso é um sinal para os produtores; e se os preços sobem, eles indicam aos produtores que devem produzir mais, etc. Mas cada ação realizada também afeta a demanda. Portanto, não é fácil atingir qualquer tipo de equilíbrio.

Na realidade, nunca há equilíbrio. Em vez disso, há uma regulamentação turbulenta. Não se trata de um equilíbrio turbulento, o que existe é uma regulação turbulenta. O centro de equilíbrio está em constante movimento porque tudo o que se faz acaba afetando esse centro. Se a questão é abordada desta maneira, é possível colocar muitos fenômenos empíricos em seu lugar, porque nunca observamos o equilíbrio – observamos o movimento, as flutuações, etc.

PP

Por isso me interesso em introduzir Albert Hirschman nesta conversa, porque foi um economista que, apesar de não ter formação marxista, entendeu que o equilíbrio econômico é sempre algo precário, que em certo sentido sempre leva à decepção, à crise , a flutuações, etc. O que você acha dessa afirmação?

AS

Acho que é um ponto muito importante, e Schumpeter diz algo muito parecido. De certa forma, Hirschman está respondendo a toda a tradição econômica que acredita que o capitalismo é um sistema que se autorregula, sem muitos problemas. No entanto, é só olhar para a História para se compreender que isso é evidentemente impossível. Qualquer estudo elementar da dinâmica do capitalismo no nível macro e microeconômico prova que existem ciclos, turbulências, etc. Isso é algo que aponto já no início do meu livro.

Esses ciclos não são regulares. Em vez disso, são ciclos erráticos que lembram uma pessoa tendo um ataque cardíaco. Mas existem mecanismos reguladores: observamos uma onda que sobe, depois flutua, depois cai muito abaixo, etc. Em nenhum caso é alcançado o equilíbrio completo, mas um certo equilíbrio que é alcançado por meio dos erros. São os erros que produzem esses movimentos, e não tanto que o centro de gravidade se mova como resultado das ações que realizamos.

PP

E você acha que existem maneiras pelas quais a sociedade pode colocar um freio nessas flutuações? É aqui que entra o Estado?

AS

Sim, o Estado entra em jogo e reage a tudo isso, mas é preciso citar mais algumas coisas para explicar, de forma simples, por que o Estado pode fazer isso. Por exemplo, consideremos a questão da produtividade e dos salários. Não é verdade que se trata simplesmente de uma questão de poder e da relação entre capital e trabalho. Certamente, isso desempenha um papel e é uma questão histórica importante. Mas, em um nível mais básico, é interessante notar que Marx conta uma história, que frequentemente chamamos de “exército industrial de reserva”.

Marx diz que é preciso imaginar que existe um grupo de trabalhadores e trabalhadoras desempregados e que, por algum motivo, o capital cresce mais rápido do que a oferta de trabalho. Nesse caso, esse conjunto se contrai, uma vez que o capital tira daí aquilo que precisa de força de trabalho adicional. Isso é bom porque os salários dos trabalhadores aumentam, as condições de trabalho melhoram, etc.

Aí está o sujeito que tem lutado a vida toda para melhorar suas condições de trabalho, então tendemos a pensar que isso é uma coisa boa. Porém, não é isso o que Marx diz. Em vez disso, observe que, quando isso acontece, a taxa de lucro começa a cair e, à medida que ela cai, duas coisas acontecem: primeiro, o crescimento desacelera, então a demanda por trabalho também desacelera, o que novamente aumenta o exército de reserva. Mas também acontece que salários mais altos funcionam como um incentivo para uma automação mais rápida, que não é apenas a mecanização geral que sempre fez parte do capitalismo, e sim uma mecanização mais rápida, que coloca na rua a mão de obra , e isso faz com que o exército de reserva volte a crescer.

Então, nos perguntamo: onde está o equilíbrio? O equilíbrio está no ponto em que o exército de reserva não interfere nas necessidades de acumulação. Isso é o que diz uma pessoa que passou a vida inteira tentando transformar o capitalismo e transformar as condições de trabalho. E o que isso nos diz é que essas condições só podem ser transformadas dentro de certos limites, que são dados pela reação do sistema a essas mudanças.

Esse mecanismo regulatório fundamental – pois é disso que se trata, de uma regulação turbulenta da macroeconomia – estabelece um limite ao papel do Estado. E isso nos permite compreender muitos fenômenos nos quais o Estado intervém, e intervém de maneira bem sucedida, embora apenas para depois observar como esse sucesso desaparece misteriosamente.

E quero dizer algo mais em relação ao tema anterior. Não é verdade que, nesse processo, o exército de reserva deva ser considerado como uma pessoa que está potencialmente dentro da força de trabalho. São pessoas expulsas ou excluídas do mercado de trabalho. Existe uma grande massa de pessoas que nunca serão incluídas no processo.

Essas pessoas excluídas também estão presentes nos países avançados, só que nos países em desenvolvimento seu número é maior, porque em certo sentido o capital é mais fraco, o processo de crescimento é mais fraco, a menos que estejamos falando do caso da China ou da Coréia do Sul – e voltaremos a eles—, porque o Estado intervém nesses casos para fortalecer a capacidade dos capitais locais para que possam competir no mercado mundial.

PP

Vários autores têm defendido que o trabalho informal não seria o mesmo que marginalidade. Acho que principalmente hoje – e estou curioso para saber o que você pensa sobre isso – depois dos anos 1970 e 1980, há um número crescente de pessoas pelas quais o capitalismo não tem interesse em explorar ou incluir no processo de acumulação. Estão completamente de fora, nem mesmo fazem parte do exército de reserva.

AS

Insisto, o exército de reserva não é trabalho potencialmente utilizável. É uma força de trabalho que foi expulsa do processo capitalista ou que nunca foi incluída nele. Sempre argumentei que, se você quiser saber onde está o exército de reserva, não precisa olhar para os Estados Unidos, Alemanha ou Reino Unido. Obviamente, também há uma parte dele nesses países. Mas ele está bem espalhado pelo mundo, na enorme força de trabalho global que nunca será tomada pelo capitalismo porque o capitalismo não precisa dela. Eles precisam de trabalho e o exército de reserva pode interferir no processo geral, embora isso não signifique que o exército de reserva seja potencialmente utilizável. Na verdade, ele foi expulso.

PP

Então eles não cumprem a função de baixar os salários?

AS

Bem, na realidade não temos certeza sobre isso. Veja, por exemplo, o que está acontecendo na China. As pessoas são deslocadas das populações camponesas, que na realidade não fazem parte do processo capitalista, mas que entram nele repentinamente. E é assim que o capitalismo tem funcionado historicamente. Em nível mundial, o que o capital faz é destruir as bases dos países capitalistas mais fracos de empregar a força de trabalho, substituindo seu capital e seus processos de produção por outra coisa. Em outras palavras, ele destrói a produção nas fazendas e nos povoados, na medida em que substitui tudo isso por produtos capitalistas.

Quem vem de fora também ajuda a destruir o trabalho naquele local, sem necessariamente gerar mais empregos. É um mito que o capitalismo precisa de tanto trabalho e que não consegue empregá-lo, ou que se conseguir reduzir os salários de forma eficiente, todos serão empregados. Não há razão para ser esse o caso. Isso faz parte da ideia de concorrência perfeita. Mas mesmo Keynes não acreditava nisso, ele pensava que o capitalismo tinha uma tendência persistente para o desemprego.

PP

Não me referia tanto a economias que estão bem inseridas nas cadeias globais de valor (como, por exemplo, a China), mas a economias como as da América Latina, onde especialmente a partir dos anos 80, grandes setores da população não participaram do trabalho formal durante gerações inteiras. Eles estão absolutamente marginalizados de quase qualquer forma de trabalho, pelo menos de qualquer tipo de trabalho produtivo.

AS


É preciso se perguntar sobre o porquê disso ser possível. Só é possível se considerarmos que o capital não pretende usar todo o trabalho, nem converter em trabalho todo o potencial “não trabalho”. As pessoas esquecem que, nos países avançados, as mulheres em geral não eram incluídas na força de trabalho, e havia sido criado um lugar para elas onde de fato trabalhavam – como qualquer pessoa que trabalha em casa – e trabalhavam muito. Então, nesse sentido, elas eram trabalhadoras informais, mas não faziam parte da força de trabalho. Nesse sentido, podemos falar de todo um conjunto de pessoas excluídas da força de trabalho.

Isso acontece em grande escala em países cujo capital não consegue se expandir tão rapidamente no mercado mundial, e cuja expansão local depende de fatores locais do mercado mundial. Para superar isso, é preciso fazer o que fazem os países avançados, que é proteger o mercado local.

Há um pequeno livro de Ha-Joon Chang que recomendo a todos que leiam, intitulado Chutando a Escada (Editora Unesp, 2003), que afirma que todos os países avançados se desenvolveram restringindo seus mercados. Sem essa possibilidade, não há meios para o desenvolvimento. É claro que o contrário – que restringir o mercado seria suficiente para garantir o desenvolvimento – não é verdade. Muitos governos são corruptos e restringem os mercados para proteger os capitalistas locais e a si próprios. Em outras palavras, as restrições não são boas em si mesmas. Mas, novamente, disso também não decorre que abrir os países ao mercado mundial seja uma coisa boa. Na verdade, pode ser devastador.

A analogia que uso para pensar sobre esse problema, e é basicamente o argumento de Ha-Joon Chang, é que o mercado mundial é como um ringue de boxe. Ninguém quer entrar no ringue sem estar bem treinado, pelo menos o suficiente para lutar contra boxeadores de verdade. E ninguém quer cruzar com Muhammad Ali, porque perderia de qualquer maneira.

Com isso em mente, você se prepara para as áreas em que pode ter sucesso. É o caso da Coreia do Sul, o caso da Alemanha no passado, ou o da China e da Índia hoje. Todos reconhecem que o Estado é necessário, um Estado desenvolvimentista. Isso significa um Estado que protege o capital local, mas que ao mesmo tempo está disposto a puni-lo quando ele falhar. É o que os exemplos da China e da Coreia do Sul deixam explícito.

PP

No entanto, pensando nesses casos, talvez não a Coréia, mas a China e a Índia foram, em certo sentido, exceções em termos da escala de seus mercados domésticos e da escala de sua força de trabalho. Esse pode não ser o caso em outros países latino-americanos. O que acontece quando temos salários altos o suficiente para repelir o investimento estrangeiro que talvez fosse necessário para nos desenvolvermos? Quer dizer, existem limites para essas estratégias? Porque a Coreia do Sul é um caso que muitos economistas citam na América Latina, como se fosse um exemplo a seguir, mas isso não é fácil quando temos uma força de trabalho que possui certos direitos sociais adquiridos, incluindo certos padrões de vida.

AS

A China tem um grande mercado, mas o mercado interno não foi a causa do desenvolvimento. Na verdade, a China sempre teve esse mercado. Porém, durante o pós-guerra houve uma transformação em suas condições de produção e essa transformação não gerou desenvolvimento sem a necessidade de externalizar seu mercado. Isto é muito importante. A China poderia ter feito isso. Em outras palavras, a Revolução Chinesa pretendia fazer isso internamente. Esse também foi o objetivo da Revolução Russa.

Mas enfrentar o mercado mundial implica ter um tipo diferente de empresas e um tipo diferente de regras. E tudo isso exige um Estado diferente do Estado tradicional. Não sei se você conhece o sociólogo Vivek Chibber, mas ele investiga o caso da Índia e da Coreia do Sul tentando determinar por que, apesar de ter um grande mercado interno, a Índia não teve sucesso, mas a Coreia do Sul teve, apesar de seu pequeno mercado interno. Isso é suficiente para concluir que nem todo sucesso deve ser atribuído ao mercado interno.

Em algumas situações, é possível que ocorra um desenvolvimento muito rápido que aparentemente não leve a taxas de lucro decrescentes, inflação ou altas taxas de juros. Um dos exemplos mais marcantes disso é a Alemanha nazista. Quando Hitler chegou ao poder, ele não apenas aterrorizou e assassinou porções inteiras da população. Antes disso, assumiu o controle da economia no sentido de que realizou uma grande campanha de guerra mobilizando a economia e diminuindo o desemprego em um período de tempo muito curto.

Essa queda no desemprego o ajudou a ganhar muito apoio. Deve-se notar também que não houve inflação, o crescimento não desacelerou e não houve altas taxas de juros. Como pode ser? A resposta é que Hitler congelou os salários, disse aos capitalistas: “se os preços subirem, teremos problemas”, e disse ao Banco Central para manter as taxas de juros baixas. O resultado foi o congelamento de salários, preços e taxas de juros. Durante este período, podemos observar os grandes efeitos dos gastos deficitários sem nenhuma de suas consequências negativas.

O outro exemplo são os EUA durante a Segunda Guerra Mundial, que fizeram exatamente a mesma coisa. Os preços foram congelados. Nos casos em que aumentavam, falava-se de “especulação com a guerra” e se tratava de um delito grave, potencialmente criminal. Os trabalhadores tiveram que sustentar a campanha de guerra. Eles não podiam lutar por salários mais altos. O Banco Central recebeu a ordem de congelar as taxas de juros. São movimentos paralelos que libertam o sistema capitalista de seus próprios efeitos retroativos.

Durante as décadas de 1940, 1950 e 1960, o keynesianismo observou tudo isso com atenção. Na verdade, Kalecki diz que o desenvolvimento da economia nazista foi a primeira aplicação do keynesianismo. Outra aplicação do mesmo foi a Segunda Guerra Mundial. Essas pessoas pensaram: “agora sabemos como controlar a economia capitalista; aumentamos o déficit até termos pleno emprego; já vimos que isso funciona.”

Mas a realidade é que não funcionou. Eles revigoraram a economia, houve crescimento e redução do desemprego, mas depois houve inflação. Estavam em um beco sem saída, porque se a economia crescia, havia mais inflação, mas se diminuía, havia mais desemprego. Aí entra em jogo a <i>Curva de Philips</i> e todos os meios para resolver este problema.

No entanto, é preciso observar uma diferença. Durante o período do pós-guerra, o mercado não ficou quieto. Os preços podiam subir, os salários podiam crescer e as taxas de juros dispararam. Aqui, o mecanismo de retroalimentação do mercado mostrava que havia um erro no ponto de partida. Era impossível ir além desses limites sem interferir nas complexas arenas do mercado: trabalho, capital e finanças.

PP

Você mencionou em seu último livro que o caso sueco pode ser considerado um caso de “sucesso”. Mas os casos sobre os quais você falou até agora – Alemanha nazista, União Soviética ou China atual – são casos em que há limites para a expressão de descontentamento popular e a expressão de qualquer desacordo, por assim dizer. É possível atingir metas de desenvolvimento econômico sem levar à turbulência que observamos no Ocidente durante os anos 1960 e 1970? É possível fazer isso dentro do que poderíamos chamar de uma democracia?

AS

Tudo depende das consequências. Não se trata de brincar com algumas variáveis ​​no papel, se trata de uma questão histórica. A Coreia do Sul nos surpreendeu, sem dúvida, e a China também. Por outro lado, deve-se levar em conta que o fizeram porque conseguiram manter o trabalho sob controle. Isso é algo que não queremos ouvir, porque outros países mantêm o trabalho sob estrito controle, mas dão todos os lucros para uma classe capitalista rica e gorda que não faz nada.

Na Coreia do Sul, existe o outro lado da moeda, que é a disciplina do capital. Não só a supressão do trabalho, mas também a disciplina no sentido de que os capitalistas foram dirigidos para terem um melhor desempenho no mercado mundial e, caso não o fizessem, seriam fechados. Em certo sentido, isso aconteceu na China antes dela se tornar muito mercantilizada. Agora a situação é muito mais caótica. No entanto, ela realizou enormes esforços para aumentar a produtividade.

Por que a China deveria aumentar a produtividade? No fim das contas, o aumento da produtividade implica uma menor demanda por trabalho para a mesma quantidade de produção. Então, por que deveria fazer isso? Talvez fosse o momento de fazer aquilo que Mao queria: promover o desenvolvimento local em todos os lugares, melhorar cada vila e cada cidade. Mas isso não funcionou. Entre outros motivos, porque não há muito mais espaço para crescer. Mas o principal fato é que você não pode sobreviver no mercado mundial dessa forma.

PP

Como fez a Suécia?

AS

A Suécia desenvolveu seu capital interno e também manteve o trabalho e o capital em um tipo de equilíbrio. Havia um acordo explícito entre trabalho e capital; forçado, talvez, embora não por meio de uma ditadura. Os salários não cresceram mais rápido do que a produtividade durante a maioria dos períodos. Isso significa que a taxa de lucro não caiu, porque se os salários crescem mais rápido do que a produtividade, há uma taxa decrescente de mais-valia, e isso é ruim para o capital.

Claro, esse equilíbrio não pode durar para sempre, mas durou muito tempo. Nesse processo, o Estado de Bem-Estar Social sueco também conseguiu redistribuir os benefícios desse desenvolvimento. A Suécia não é um paraíso mas houve muita redistribuição, tornou-se um país rico num duplo sentido: não só na média, mas no sentido da distribuição da riqueza que foi criada. É uma fórmula difícil de se alcançar.

PP

Quero insistir um pouco mais neste ponto. Por que a Suécia conseguiu fazer isso? O que foi diferente? Foram as instituições do Estado? Foi a habilidade da classe política?

AS

A Suécia tem um movimento dos trabalhadores muito poderoso. E esse movimento esteve no poder por muito tempo, e entendeu boa parte dessa história, optando por fazer da Suécia um país capitalista de sucesso e não ir além disso. E funcionou, pelo menos por algum tempo. Mais tarde, ficou mais difícil para a Suécia competir no mercado mundial, mas agora é um país muito rico. E chegou a esse ponto sem seguir o caminho da Coreia do Sul, que é sempre um caminho possível. Mas o elemento-chave é que, se a produtividade do trabalho for desenvolvida, isso deve realimentar o sistema, e o mercado mundial é um mercado muito grande em comparação com o quão pequena é a Suécia.

PP

Você acha que as atuais condições globais permitem esse tipo de estratégia? Ou a desregulamentação financeira e certos novos recursos da economia global não são um ambiente adequado para isso?

AS

É mais difícil, porque o sistema capitalista mundial é muito mais poderoso e muito mais desenvolvido. E, além disso, os países desenvolvidos reprimem esse tipo de estratégia. A OMC não existe para beneficiar o desenvolvimento, mas para proteger o capital. Dadas todas as restrições, regras e punições que as organizações globais são capazes de infligir, é muito mais difícil encontrar um caminho local, a menos que você esteja lidando com um país muito grande e que possa resistir a isso, como a China e talvez a Índia. Portanto, deve-se dizer que não se trata das mesmas condições.

PP

Talvez tenha chegado a hora de falar sobre o neoliberalismo. O que você acha desse termo? O que você acha que mudou durante os anos 70 e 80?

AS

Há muitas coisas a dizer sobre isso. O ponto principal é que a relação entre capital e trabalho tem dois efeitos. No Ocidente, nos referimos ao período que vai aproximadamente de 1947 a 1968 como a “era de ouro do trabalho”. Durante esse período, o padrão de vida dos trabalhadores melhorou continuamente por várias gerações, os sindicatos eram fortes, o Estado era mais forte e assumia a forma de um Estado de Bem-Estar Social que garantia a melhoria das condições de vida de muitas pessoas.

Parecia que o capitalismo havia encontrado o ponto ideal, que havia se encontrado com o caminho da Suécia, por assim dizer. O mundo todo dizia isso, todo mundo acreditava nisso. Porém, na verdade, se olharmos o que aconteceu nesse período – e mostro os dados no meu livro, no capítulo sobre as crises – podemos observar que os salários estavam crescendo e que a taxa de exploração estava caindo, nos termos de Marx.

Essa queda, que era boa para os trabalhadores, não era tão boa para o capital, porque os lucros são o outro lado dos salários. À medida que a taxa de lucro cai, o crescimento desacelera, a lucratividade cai, resultando em um crescimento mais lento. Essa é a contradição das políticas keynesianas, a razão pela qual elas acabaram presas na estagnação e na inflação. É por isso que esse período é chamado de “estagflação”. Tudo isso pode ser observado empiricamente.

Nesse momento veio a reação da classe capitalista, que de fato vinha assistindo como sua taxa de lucro se reduzia e restringia pelo sucesso e fortalecimento dos trabalhadores. Foi um contra-ataque explícito. Eles atacaram os sindicatos e o Estado de Bem-Estar Social. Este último foi transformado até se converter em um Estado neoliberal. Todos se voltaram nessa direção, independentemente de serem democratas, republicanos, trabalhistas ou conservadores.

Isso nos leva à outra parte de sua pergunta. Você pergunta se “neoliberal” é uma boa palavra. Eu não gosto. É a velha ideia do liberalismo, que é pró-mercado, etc. Na realidade, é um culto ao mercado. É um período em que se passou a dizer que se houvesse cada vez mais mercado, tudo correria bem. A ideologia do mercado perfeito retorna na forma de um impulso por mais mercado e também direciona a globalização, desta vez apoiada pelo Estado, em um sentido específico: finanças globalizadas, indústrias globalizadas.

É sempre a mesma história: o problema dos países subdesenvolvidos seria que eles não têm mercados o suficiente; o problema com os países desenvolvidos é que eles não têm mercados o suficiente. Durante um período de tempo, isso gerou algum impulso; mas então os efeitos começaram a ser vistos, muitas vezes devastadores, especialmente para os países em desenvolvimento.

PP

Existe a ideia de que o neoliberalismo seria algo criado a partir das más intenções de algumas pessoas – Milton Friedman, Hayek e a Sociedade Mont Pelerin – que teriam desenvolvido um pano de fundo para aplicar todas essas ideias ao mundo. Mas na sua narrativa isso aparece de maneira um pouco diferente. Parece ser um fenômeno estrutural, que não tem tanto a ver com uma burguesia gananciosa, mas sim com o próprio culto ao lucro. Qual foi a influência desses campeões neoliberais?

AS

Em primeiro lugar, deve-se dizer que Friedman e Hayek são muito diferentes entre si. Hayek é um pensador muito superior. Friedman é o promotor do livre-mercado e diz que isso basta. Mas Hayek não diz isso. De fato, Hayek diz que o mercado não recompensa necessariamente as pessoas com base em suas habilidades, mas sim pelo sucesso no mercado – o que, segundo ele, pode ser acidental.

O mercado não escolhe as melhores pessoas. E ele argumenta que uma das dificuldades em explicar esse ponto de vista é que você tem que explicá-lo para pessoas que pensam que com muito trabalho, treinamento e tudo isso, você terá sucesso. O mais difícil é explicar para as pessoas, para quem estuda, para quem se esforça, etc. Apenas uma parte terá sucesso e pode não ser a melhor. Hayek admite que o mercado nem sempre escolhe os melhores, mas sim os que têm mais sorte. Não é isso que Friedman diz. Friedman acha que o mercado sempre escolherá o melhor. É muito diferente.

A conclusão de Hayek é que, dadas essas condições, pode ser necessário que o Estado garanta um padrão mínimo de vida ou um nível mínimo de sustento. Certa vez, dei uma palestra sobre a relação entre Hayek e Marx. Existem muitos paralelos aos quais as pessoas não prestam atenção. Claro, a diferença é que, eventualmente, ambos vão para lugares diferentes. Mas isso não elimina o fato de que suas visões do capitalismo têm elementos em comum.

é economista e professor da New School for Social Research. Seu último livro se intitula "Capitalismo: Competição, Conflito e Crise" (Capitalism, competition, conflict and crisis - Oxford University Press, 2016).

é um candidato a PhD no departamento de história da Universidade de Princeton. Ele tweets em @ppryluka.

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