Por RICARDO L. C. AMORIM*
O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera
com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a
riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
1.
À entrada do século XXI, cresce a preocupação de que o capitalismo,
em breve, não se limitará a barbaridade cotidiana, mas abandonará a
própria máscara de humanidade que usou na segunda metade do século XX.
Não se trata de revelar suas contradições, posto que sempre estiveram
visíveis.
Mas da retomada do imperialismo, dos níveis de violência do Estado e
da exploração do trabalho na forma como eram legalizados nos séculos XIX
e começo do XX. A pergunta é, portanto, direta: o capitalismo, ao
desregulamentar direitos e renovar a violência do Estado, voltará às
formas de exploração do trabalho vistas há um século atrás?
A resposta é inequívoca: isso é impossível! Claro que há o repontar
de práticas imperialistas – algumas grotescas – e a dependência
permanece afundando as esperanças de nações pobres.[i]
Ao mesmo tempo, internamente à maioria dos países, se observa a
ascensão da extrema-direita, utilizando o medo e a mentira para governar
as ilusões daqueles aturdidos pelas transformações sociais e
tecnológicas hodiernas.
O mundo, no entanto, é novo! Por exemplo, há uma remodelada geografia
que abarca, desde a inédita taxa global de urbanização até mudanças na
geopolítica e na divisão internacional do trabalho, ambas marcadas pela
ascensão do Extremo-Oriente. Tão importante quanto, assombrosas
tecnologias transferiram o reinado do capital fabril e das linhas de
produção para os computadores, as redes digitais de informação e as
finanças.
Como consequência dessas inovações de alto impacto econômico, uma
jovem burguesia ascendeu a posição de fração dominante do capital e
passou a prevalecer sobre as decisões de produção, do dinheiro, das
artes e da comunicação. Uma nova oligarquia capaz de costurar alianças
com a velha plutocracia, mas toda ela fruto ou dependente da
tecnoestrutura.[ii]
Destarte, trata-se de manifestações de uma renovada dinâmica
capitalista que já remodela a vida social cotidiana e que é
qualitativamente diferente dos padrões conhecidos do passado.
Tanto assim que alguns eventos irreversíveis podem ser destacados
para marcar a transformação ocorrida na segunda metade do século XX e
início do XXI. Se os anos do pós-guerra trouxeram paz entre às potências
ocidentais e a construção do Estado de Bem-Estar Social na Europa, por
outro lado, o poder de empresas multinacionais espalhadas pelo globo e a
ascensão do mercado financeiro global engendraram um capitalismo onde
não são os governos, mas algumas poucas companhias que dizem ‘sim’ ou
‘não’ sobre os interesses nacionais de cada país.
Além disso, a transnacionalização de grandes capitais, inclusive
bancos, ajudaram a criar poderosos mercados financeiros em dólar fora
dos Estados Unidos que, depois, sustentados na desregulamentação do
fluxo internacional de capitais e na desintermediação bancária do
dinheiro,[iii] terminaram por unificar o mercado financeiro do planeta.
Desde ali, capitais pressionados pelos processos de concentração e
centralização, comuns aos momentos de renovação tecnológica do
capitalismo, encontraram oportunidades para acumular-se sem a
necessidade de produção, inovação ou concorrência. Sob o porto seguro da
especulação financeira em grande escala, aplicar fortunas em papéis e
contratos tornou-se o padrão mínimo de rentabilidade, acelerando a
financeirização da riqueza global em bases nunca imaginadas.
2.
Naturalmente, são fenômenos que não podem retroagir e muito menos
seus resultantes US$ 1,2 quatrilhão em ativos de circulação estritamente
financeira[iv]
podem exercer seu poder de compra na esfera real da economia mundial.
Por fim, a recente redivisão internacional do trabalho trouxe para a
cena mundial um colosso fabril que se tornou um titã tecnológico e
militar: a China. Mas não o fez sob a ordem de instituições crentes na
fé liberal ocidental.
Foi a ascensão de um herege! Com ele, uma enorme parte do mundo
passou a constituir um desafio basilar e essencial à ordem capitalista
ditada desde o Ocidente. Não é possível esperar, desse modo, que
ressurja incólume o domínio do Norte Global, reinando de maneira
unipolar e injusta sobre os povos da Terra.
É por esse motivo que se deve prestar atenção ao que John Keneth
Galbraith (1982, p. 53) ensinou: “o poder vai para o fator que é mais
difícil de obter ou de substituir. Em linguagem precisa, pertence àquele
que tem a maior inelasticidade de oferta na margem. Essa inelasticidade
resulta de uma escassez natural ou de um controle eficaz sobre a oferta
por alguma ação humana ou ambos”. Não há dúvida de que o capital, isto
é, a riqueza usada para gerar mais riqueza, composta geralmente por
meios de produção e dinheiro, continua a ser o fator escasso por estar
concentrado nas mãos de poucos.
Essa definição é condição do capitalismo. Nada de novo aqui. O que é
novidade é esse fator escasso estar trocando de mãos para uma nova
fração de capitalistas, diferente da anterior.
De outro modo, em razão da ascensão de novas tecnologias calcadas na
microeletrônica, na programação de computadores e na comunicação via
internet, o fator escasso mais valioso mudou de objeto e o poder
concentrou-se em jovens empresários tão imorais e aéticos quanto
qualquer grande capitalista antigo ou futuro, mas com características
particulares como: vínculo ao novo ramo de negócios em espetacular
ascensão; controle sobre massa nunca vista de informações sobre pessoas e
empresas; capacidade para manipular narrativas sociais, favorecendo a
cristalização de posturas intolerantes e acríticas; favorecimento por
parte de um grande Estado gerador de tecnologia (Estados Unidos);[v]
fragilidade do antigo modo de regulação fordista; redução drástica de
freios externos à avidez por riqueza e poder; posse sobre patrimônios
inimagináveis no final do século XX; superexposição egótica na mídia e
na hipermídia, alterando a definição de sucesso e fortuna; e mais.
3.
Note que essa fração ascendente de capitalistas vive o lado crescente
da onda tecnológica que promete alterar os processos de produção das
coisas e dos serviços, permitindo, por isso, questionar tudo, inclusive
as estabelecidas relações de trabalho que vigoram desde o auge do mundo
fabril. Observe, portanto, que a questão não se resume a nova elite
poder financiar a política cotidiana, os lobbies ou os meios de comunicação.
Há algo mais importante e profundo em transformação: trata-se de
valorizar novos modelos de sucesso, inspirar ambições e espalhar a
imitação da prosperidade entre jovens e adultos, produzindo ali ocultos
caminhos para a naturalização de padrões comportamentais, com
transformados juízos de valor e justiça sobre o mundo e os eventos
(Sennett, 2006).
Desse modo, no momento, não parece haver qualquer risco de retrocesso
do capitalismo contemporâneo aos padrões existentes no final do século
XIX e início do XX. O avanço tecnológico, a acumulação de capital, as
novas instituições, a jovem elite e, principalmente, a legitimação do
“admirável mundo novo” não oferecem quaisquer sinais para um temido
retrocesso histórico.
Diante disso, mesmo que muitos não gostem da novidade, o capitalismo
continuará a avançar, assustando sempre as mentes alicerçadas em
ilusórios castelos de permanência e “merecido” status social.
Os ciclos de expansão econômica, sustentados em novas tecnologias, são
sempre perversos, criando e destruindo, sem limite claro sobre seu
desfecho. Assim, é provável, aliás, muito provável, que os temerosos de
hoje sejam superados com o ingresso das novas gerações no mundo do
trabalho e sua maioridade, pois aos moços, o poder atual parece ser o
que sempre foi e está onde sempre esteve, sendo “normal” a vida como ela
se mostra.
É preciso ter claro, no entanto, que ser impossível retroceder aos
modos de exploração da mão de obra e de violência do Estado vividos no
século XIX e começo do XX não é redenção ou promessa de tempos melhores.
Os novos modelos empresariais, a financeirização da riqueza e a redução
global dos direitos dos trabalhadores deram azo a formas inéditas de
extração de valor que, eventualmente, urdirão os fios da mais incrível
concentração de riqueza social já vista.
Pior, a legitimação para isso virá do mais sofisticado controle de
corações e mentes criado pelo homem: um universo digital em rede,
aparentemente descontrolado de informações e narrativas sem critérios de
verificação e aos quais se soma, crescentemente, a fabricação de
imagens e sons irreais sobre pessoas e fatos.
A eficácia desse modelo de comunicação, cuja imparcialidade é
risível, já permitiu, sem detença, ressuscitar crenças que pareciam
superadas, como a desconfiança na ação coletiva, o individualismo
exacerbado, o empreendedorismo e o consumo como índice de sucesso.
Como resultado, observa-se, hoje, por exemplo, que o chamamento ao
empreendedorismo sem capital, obra de um homem só, vendendo banalidades
ou trabalho simples às plataformas digitais, seja o símbolo da nova era
de submissão de todos ao capital. De outro modo, está naturalizado, nos
dias que correm, que o trabalhador se apresse em entregar seu trabalho à
preço vil ao capital insaciável, acreditando ser livre.
4.
Não se trata, portanto, de voltar aos métodos de exploração e à
violência do Estado de cem anos, um pouco mais, atrás. O tabuleiro onde
se movem as peças atuais é diferente e não retornará ao passado, exceto
como farsa.
O capitalismo que prospera hoje é infinitamente superior na forma de
extrair valor aos trabalhadores, pois parece ter alcançado uma admirável
fórmula que combina a exploração máxima e voluntária da mão de obra, a
entrega dócil do valor produzido ao capital e a ilusão, por parte de
quem realmente produz, de que esse é o modo justo das trocas e, mais
importante, de que o esforço individual levará cada um a atingir
posições de destaque social, principalmente na forma de riqueza.
Essa é a exata definição de poder no mundo de hoje. Não há nada, ao
menos até agora, capaz de frear ou deslegitimar o desenvolvimento desse
novo capitalismo e sua forma de exploração do trabalho com consequente
acumulação de riqueza nas mãos de pouquíssimos. Tanto assim que mesmo a
esfera mais controversa da vida social, a política, associou-se ao
florescimento do novo modelo, abrindo espaço para a ascensão mundial da
extrema-direita e seu secular desprezo pelo conhecimento, pela
democracia, pelos pobres e pelo diferente.
O momento, consequentemente, não corporifica uma moda de curto prazo,
vulnerável a reações pontuais da sociedade. Pelo contrário, a década
atual parece ser a fase ascendente de uma Onda de Kondratiev,[vi]
transformadora da tecnologia, da produção, das relações de trabalho e
das instituições necessárias a fazer convergir forças produtivas e
relações de produção.
À vista disso, sim!, o capitalismo afigura estar iniciando outra
próspera fase, muito longe de qualquer crise insuperável. Os
desencontros, resistências e fragilidades se assemelham mais as dores do
parto de um novo modelo de acumulação que ainda não amadureceu e nem
mostrou se engendrará maior bem-estar coletivo ou pior desastre social.
Em outras palavras, a humanidade está construindo um capitalismo
superior ao mundo criado pela revolução industrial, mas pouco ou nada se
sabe sobre o futuro. Por enquanto, o que se tem é a certeza de que o
passado não voltará, mas nem por isso é possível esperar melhores dias
aos “deserdados da Terra”.
*Ricardo L. C. Amorim é professor de economia no IBMEC (DF).
Referências
CARDOSO, Fernando; FALETTO, Enzo. Dependência e desenvolvimento na América Latina: ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
CHESNAIS, François (org.). A finança mundializada: raízes sociais e políticas, configuração, consequências. tradução: Rosa Marques; Paulo Nakatsni. São Paulo, SP: Boitempo, 2005.
FURTADO, Celso. O Mito do Desenvolvimento Econômico. São Paulo: Paz e Terra, 1974.
GALBRAITH, John Kenneth. O Novo estado industrial. São Paulo: Nova Cultural, 1982.
MARINI, Ruy M. Dialética da Dependência: uma antologia da obra de Ruy Mauro Marini. Petrópolis; Buenos Aires: Vozes; CLACSO, 2000.
PHILLIPS, Peter. Titans of Capital: How Concentrated Wealth Threatens Humanity. New York: Seven Stories Press, 2024.
SCHUMPETER, Joseph A. Capitalismo, socialismo e democracia. Editora UNESP Digital, 2017.
SENNETT, Richard. The culture of the new capitalism. New Haven: Yale University Press, 2006. (The Castle lectures in ethics, politics, and economics).
Notas
[i] Ver Cardoso e Faletto (2004), Marini (2000) e Furtado (1974).
[ii] Ver Galbraith (1982).
[iii] Ver Chesnais (2005)
[iv] Ver Philips (2024).
[v]
A China também, mas trata-se de outra realidade institucional e de
poder. A Coréia do Sul poderia ser incluída entre as exceções, porém,
seu impulso foi reduzido com a maior submissão aos Estados Unidos.
[vi] Ver Schumpeter (2017).