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quinta-feira, 21 de maio de 2026

O feiticismo da mercadoria

 JACOBINA

Fetichismo da mercadoria e dominação

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Por FRANCISCO TEIXEIRA*

A inversão ontológica do capitalismo que transmuta relações humanas em nexos materiais entre coisas e subordina a agência dos indivíduos à lógica autônoma do valor

A objetividade do valor das mercadorias

Karl Marx inicia a primeira seção do capítulo I de O capital com a análise das determinações fundamentais da mercadoria: valor de uso e valor.[i] Diferentemente deste último – que traz consigo as marcas de sua determinação histórica –, o valor de uso possui uma existência tão antiga quanto a própria história. Ele remete ao processo de reprodução da vida material, na medida em que a utilidade dos objetos se vincula às necessidades humanas tal como se apresentam nesse processo. No entanto, no capitalismo, o valor de uso é rebaixado à condição de suporte do valor.

Após examinar a dupla natureza da mercadoria, Marx passa, na seção 2 do capítulo I do Livro I de O capital, à análise do duplo caráter do trabalho nela objetivado. Na condição de criador de valores de uso, o trabalho útil constitui uma condição eterna de existência do homem, independente de todas as formas sociais. Como produtor de mercadorias, porém, o trabalho traz consigo os vestígios de sua determinação histórica. No capitalismo, os trabalhos úteis são convertidos em trabalho abstrato, isto é, reduzidos a trabalho criador de valor, a puro dispêndio de força de trabalho humana.

Tal conversão não elimina as diferenças constitutivas dos trabalhos úteis, isto é, dos trabalhos concretos, específico. Não se trata de uma forma de generalização puramente conceitual, que nasce de uma simples soma abstrata de mortos traços comuns em cada tipo distinto de trabalho. Se assim fosse, não haveria troca de mercadorias; a própria produção de mercadorias seria impossível.

Por quê? Porque se as mercadorias “[…] não fossem valores de uso qualitativamente distintos e, por isso, produtos de trabalhos úteis qualitativamente distintos, essas coisas não poderiam de modo algum se confrontar como mercadorias”. Afinal, “[…] um valor de uso não se troca pelo mesmo valor de uso” (Marx, 2017, Livro I, p.119).

Quanto mais diversificados são esses trabalhos úteis, mais complexa se torna a divisão social do trabalho, que se configura, assim, como condição de existência da produção de mercadorias.

Embora a divisão social do trabalho seja condição de existência da produção de mercadorias, ela não depende, historicamente, desta última. De fato, “onde a necessidade de vestir-se o obrigou”, observa Marx, “o homem costurou por milênios, e desde muito antes que houvesse qualquer alfaiate” (O capital, p. 120). A alfaiataria só se transforma em atividade voltada à produção para a venda quando ocorre a cisão do produto do trabalho em coisa útil e valor; quando, portanto, a troca adquire alcance e importância suficientes para que se passem a produzir coisas úteis destinadas ao intercâmbio e, com isso, “o caráter de valor das coisas [passe] a ser considerado já no próprio processo de produção” (O capital, p. 148).

A partir de então, os trabalhos privados dos produtores assumem, de fato, um duplo caráter social. Por um lado, enquanto trabalhos úteis determinados, devem satisfazer necessidades sociais específicas, conservando-se, assim, como elos da totalidade dos trabalhos da sociedade, isto é, do sistema espontâneo da divisão social do trabalho. Por outro, só satisfazem as necessidades de seus próprios produtores na medida em que cada trabalho útil particular é permutável por qualquer outro, isto é, na medida em que equivale aos demais.

Como observa Marx, “como trabalhos úteis determinados, eles têm de satisfazer uma determinada necessidade social e, desse modo, conservar a si mesmos como elos do trabalho total, do sistema natural-espontâneo da divisão social do trabalho. Por outro lado, eles só satisfazem as múltiplas necessidades de seus próprios produtores na medida em que cada trabalho privado e útil particular é permutável por qualquer outro tipo útil de trabalho privado” (p. 148).

Ora, se os diferentes trabalhos já integram a divisão social do trabalho – sendo, portanto, sociais –, por que seu caráter social ainda precisa ser reconhecido? Porque, embora sejam trabalhos úteis para outrem, tal utilidade não basta para realizar plenamente esse caráter. Como observa Marx, “[…] mesmo que o trabalho do nosso tecelão de linho […] seja um elo permanente da divisão social do trabalho, com isso não está de modo algum garantida a venda do valor de uso de suas 20 braças de linho” (p. 180). Ou seja, a validação social desse trabalho ainda não está assegurada.

Por isso, os produtores de mercadorias tornam-se reféns dos humores do mercado. Com efeito, se o trabalho do tecelão não é socialmente legitimado por meio da troca, suas expectativas de venda se frustram. O tecelão, que investiu tempo e dinheiro na produção de tecidos, produziu valores de uso na convicção de ter realizado um bom trabalho; viu, contudo, suas expectativas se desfazerem: criou um valor de uso sem realizar o valor – isto é, sem ver seu trabalho reconhecido como trabalho social.

Se, em sua oficina, o tecelão se julga senhor das condições de produção – pois conhece com segurança os custos e estima a margem de ganho –, essa confiança pode se desfazer tão logo chegue ao mercado, onde a transformação de sua mercadoria em dinheiro pode não se realizar.

Realmente, é nesse momento que tal incerteza se impõe: ao chegar ao mercado, o tecelão, antes cheio de convicções, depara-se com a ausência de garantias quanto à realização de suas expectativas. Nem poderia ser diferente, pois “[…] a divisão social do trabalho torna seu trabalho tão unilateral quanto multilaterais suas necessidades”. Ele é apenas um entre muitos concorrentes que disputam entre si “[…] a forma equivalente universal, socialmente válida, existente no dinheiro […]”, que se encontra “[…] no bolso de outrem” (p. 180).

É nesse contexto que, no mercado, a mercadoria tem de confessar seu amor ao dinheiro. Se esse amor não for correspondido, o pobre tecelão é quem sofrerá as consequências desse divórcio. É isso que Marx chama de “[…] salto mortale [salto mortal] da mercadoria. Se esse salto dá errado, não é a mercadoria que se esborracha, mas seu possuidor” (O capital, p. 180).

A mercadoria parece destinada a realizar-se no dinheiro. Mas, por mais que o ame, nada garante que seu amor seja reconhecido. Isso ocorre porque a mesma divisão do trabalho que transforma os possuidores de mercadorias em “produtores privados independentes também torna independente deles o processo social de produção e as relações que nele se estabelecem, de modo que a independência das pessoas umas em relação às outras se consuma num sistema de dependência material (sachlich) universal” (p. 182).

É justamente essa inversão que retira dos indivíduos a condição de sujeitos. Por isso, para Marx, nas sociedades capitalistas, as pessoas não passam de personificações das relações econômicas, e que elas “se defrontam umas com as outras como suporte [Träger] dessas relações (p. 160).

Fetichismo da mercadoria e sua dominação impessoal

Essa inversão prepara o terreno para a análise do fetichismo da mercadoria e de sua dominação impessoal. Marx abre a seção 4 do capítulo I do Livro I de O capital convidando o leitor a se refugiar com ele no mundo nebuloso da religião. Nesse mundo, diz ele, os produtos do cérebro humano aparecem como figuras autônomas, dotadas de vida própria e capazes de se relacionar entre si e com os homens.

Assim também ocorre no mundo das mercadorias: os produtos do trabalho humano apresentam-se como coisas dotadas de vida e vontade próprias. As mercadorias parecem, então, subtrair dos homens suas próprias qualidades naturais, passando a dominá-los sob a forma de um poder impessoal. “A isso”, diz Marx, “eu chamo de fetichismo, que se cola aos produtos do trabalho tão logo eles são produzidos como mercadorias e que, por isso, é inseparável da produção de mercadorias (p. 147-48).

Marx inicia sua análise do fetichismo examinando o caráter sobrenatural que os produtos do trabalho humano adquirem ao se transformarem em mercadorias. Toma como exemplo o que ocorre com uma mesa. Ela, como qualquer outro produto da atividade humana, vem ao mundo por intermédio do trabalho, cuja atividade transforma as formas das matérias naturais a fim de adequá-las às necessidades humanas. A forma da madeira, por exemplo, é alterada quando dela se faz uma mesa; ainda assim, ela continua sendo madeira, uma coisa sensível e banal.

No entanto, “tão logo aparece como mercadoria”, diz o autor de O capital, “ela se transforma numa coisa sensível-suprassensível. Ela não só se mantém com os pés no chão, mas põe-se de cabeça para baixo diante de todas as outras mercadorias, e, em sua cabeça de madeira, nascem minhocas que nos assombram muito mais do que se ela começasse a dançar por vontade própria (p. 146).

Mas de onde provém esse caráter enigmático, que transforma os produtos do trabalho humano em coisas dotadas de vontade própria? A resposta de Marx é que essa característica decorre da natureza social peculiar do trabalho que produz mercadorias. Isso porque, nas sociedades capitalistas, as relações sociais entre os produtores não se apresentam diretamente como relações entre pessoas, mas assumem a forma de relações entre coisas. Desse modo, o caráter social do trabalho aparece como uma propriedade objetiva dos próprios produtos, como se lhes fosse inerente, quando, na verdade, não passa de uma forma social historicamente determinada que se impõe aos produtores.

Tal peculiaridade já foi anteriormente analisada. Ela nasce do fato de que a mesma divisão do trabalho que transforma os agentes econômicos em produtores privados independentes “também torna independente deles o processo social de produção”. Isso ocorre porque, nas relações de troca, as grandezas de valor “variam constantemente, independentemente da vontade, da previsão e da ação daqueles que realizam a troca.

Seu próprio movimento social possui, para eles, a forma de um movimento de coisas, sob cujo controle se encontram, em vez de eles as controlarem”. Isso se deve ao fato de que o tempo de trabalho socialmente necessário impõe-se “com a força de uma lei natural reguladora, assim como a lei da gravidade se impõe quando, por exemplo, uma casa desaba sobre a cabeça de alguém” (p. 150).

A razão de tudo isso, recorde-se, decorre do caráter peculiar do trabalho produtor de mercadorias, que se caracteriza por uma dupla forma de socialização: embora cada trabalho particular figure como elo da divisão social do trabalho, ele não é, por isso, imediatamente reconhecido como social. Essa validação só se efetiva na troca, momento em que os produtos do trabalho são postos como valores e se igualam enquanto tais. Noutros termos, o trabalho apresenta-se, assim, sob uma dupla determinação social: como parte da divisão social do trabalho e como trabalho socialmente validado por meio da igualação de seus produtos.

Essa igualação dos diferentes trabalhos, mediada pela igualação de seus produtos, é o que Marx chama de trabalho abstrato. Ele considera essa forma de trabalho uma categoria central para explicar por que o capitalismo é marcado por uma inversão fundamental: os indivíduos renunciam à sua condição de sujeitos para se tornarem suportes de relações que não dominam. Isso se manifesta no fato de que o trabalho abstrato tem primazia sobre os trabalhos concretos e úteis. Com efeito, no capitalismo, não é a multiplicidade dos trabalhos individuais que vem primeiro, do ponto de vista do valor; não é a diversidade concreta que organiza o sistema, mas a unidade – o trabalho abstrato – que domina e estrutura essa diversidade. É por isso que os trabalhos concretos só “valem” socialmente quando são reduzidos a trabalho abstrato, isto é, a trabalho indiferenciado, simples e homogêneo, que se distingue apenas quantitativamente.

O trabalho abstrato se caracteriza, portanto, como uma unidade constituída por inúmeras forças de trabalho individuais. Por isso, o trabalho abstrato, como observa Marx, “aparece não como trabalho de diferentes sujeitos, mas, ao contrário, os indivíduos diversos que trabalham aparecem como meros órgãos do trabalho. Ou seja, o trabalho, tal como se apresenta em valores de troca, poderia expressar-se como trabalho humano geral” (p. 33).

O senso comum vê tudo isso de ponta-cabeça. Percebe, em primeiro lugar, a existência de diferentes indivíduos produzindo bens para levá-los ao mercado e trocá-los por outros. O processo parece, assim, partir da ação dos indivíduos, de suas atividades concretas. Contudo, as coisas não são como aparecem à primeira vista. Na realidade, a dinâmica é inversa: é o trabalho abstrato que organiza os diferentes trabalhos. Estes não contam pelo que são em si mesmos, mas pelo fato de serem reconhecidos como produtores de valor, como trabalhos convertíveis em trabalho abstrato.

Não são, portanto, os indivíduos que determinam o curso dos acontecimentos. Nem poderiam, pois suas atividades estão subordinadas à lógica do valor, isto é, à lógica do trabalho abstrato. Tal subordinação, porém, não se apresenta como tal. Ao contrário, impõe-se aos indivíduos como uma força externa e objetiva, independentemente de sua vontade e de sua consciência. É precisamente nesse deslocamento – em que relações sociais aparecem como propriedades das coisas e como potências que dominam os próprios produtores – que reside o fenômeno do fetichismo da mercadoria, tal como analisado por Marx.

É essa dupla natureza do trabalho contido nas mercadorias que caracteriza a sociedade capitalista como uma forma social específica. Em épocas anteriores, os produtos do trabalho também podiam assumir a forma de mercadorias; contudo, essa transformação não era inerente ao processo de produção, mas decorria da esfera da circulação. É o que observa Marx ao afirmar que é pela ação do capital comercial que o produto do trabalho se torna mercadoria. “É o comércio”, diz ele, “que, nesse caso, possibilita que o produto se transfigure em mercadoria; não é a mercadoria produzida que, por seu movimento, faz surgir o comércio” (Marx, Livro III, p. 372).

Somente quando se completa definitivamente a cisão do produto do trabalho em coisa útil e coisa de valor é que a mercadoria se torna a forma dominante e elementar da riqueza. Mas isso só ocorre no capitalismo, pois é nessa forma de sociedade que o trabalho assume, de modo generalizado, a forma de trabalho produtor de valor. Por isso, a mercadoria deixa de ser uma forma ocasional ou periférica e passa a constituir a forma universal do produto do trabalho, que é produzido, desde o início, já como mercadoria. James Steuart tinha consciência disso.

De acordo com Marx, ele “sabia muito bem que nas épocas pré-burguesas também o produto havia revestido a forma de mercadoria, e, esta, a forma de dinheiro; mas demonstra detalhadamente que a mercadoria, como forma fundamental elementar da riqueza, e a alienação, como forma predominante de apropriação, não pertencem senão ao período burguês de produção burguesa, e que o caráter do trabalho que põe o valor de troca é, por conseguinte, especificamente burguês” (Marx, 1982, p. 51).

Valor – forma social específica do capitalismo

Nos seus comentários sobre James Steuart, Marx observa que o trabalho abstrato é uma criação histórica do capitalismo. Logo, tratar do valor e, consequentemente, do fetichismo fora da sociedade capitalista é, no mínimo, problemático. Com efeito, falar do caráter enigmático da mercadoria em uma realidade na qual o trabalho abstrato está ausente não parece fazer sentido.

Quanto a isso, Marx parece bastante claro ao afirmar que “todo o misticismo do mundo das mercadorias, toda a mágica e a assombração que anuviam os produtos do trabalho na base da produção de mercadorias desaparecem imediatamente, tão logo nos refugiemos em outras formas de produção (Marx, p, 151).

O primeiro refúgio em que Marx se abriga para mostrar que não há valor nem fetichismo é na ilha do Robinson Crusoé. Aí ele mostra, apesar de seu caráter fictício, que nas atividades de sobrevivência desenvolvidas por Robinson Crusoé estão presentes todas as determinações do valor. Como bom inglês que é, isto é, como homo oeconomicus ‘racional’, ele “distribui seu tempo com exatidão entre as suas diferentes funções”. Robinson que, entre os destroços do navio salvou relógio, livro comercial, tinta e pena, põe-se logo […], a fazer a contabilidade de si mesmo. Distribuído o trabalho entre as diversas ocupações, ele passa a contabilizar o tempo que custa a cada uma das ocupações. Gasto de energia, distribuição do tempo de trabalho e mensuração do tempo, estão aí ´presentes. Ou, como diz Marx, aí “estão contidas todas as determinações do valor” (p. 152).

Mas aí não estão presentes nem o valor nem tampouco o caráter enigmático da mercadoria. As relações na ilha de Robinson Crusoé são transparentes, nelas não existe nada de enigmático, intransparente. Numa palavra, não existe trabalho criador de valor.

Da ilha de Robinson Crusoé, Marx passa para “a sombria Idade Média europeia” e, em seguida, para o exemplo de uma família patriarcal camponesa. Por fim, apresenta “uma associação de homens livres, que trabalham com meios de produção coletivos e que conscientemente despendem suas forças de trabalho individuais como uma única força social de trabalho” (p. 153). Nessa forma de sociedade, assim como ocorre com Robinson Crusoé, na Idade Média e na família patriarcal camponesa, “as relações sociais dos homens com seus trabalhos e seus produtos de trabalho permanecem aqui transparentemente simples, tanto na produção quanto na distribuição” (p. 153).

Marx lança mão desses exemplos para mostrar que, nessas formas de organização da produção, as relações dos homens com seu trabalho se apresentam como relações transparentes e racionais que eles estabelecem entre si e com a natureza. Consequentemente, não há trabalho abstrato nem valor; nessas formas de organização da produção, diferentemente do que ocorre na produção mercantil, a forma natural do trabalho é sua forma imediatamente social.

Ora, sem trabalho abstrato, não faz sentido falar em fetichismo. Este só existe, como foi mostrado, num mundo em que o trabalho abstrato se impõe aos indivíduos como um poder autônomo, compelindo-os a abdicar de sua condição de sujeitos para se tornarem suportes de relações que não dominam.

Sendo assim, não faz sentido falar em fetichismo fora do capitalismo, tampouco em coisificação, já que esta consiste na forma pela qual as relações sociais entre pessoas aparecem como propriedades de coisas. Embora não sejam conceitos idênticos, fetichismo e coisificação designam momentos do mesmo processo social: o fetichismo constitui a expressão fenomenal da coisificação das relações sociais.

Sendo assim, não faz sentido, portanto, falar do fetichismo fora o capitalismo. Tampouco também de coisificação, uma vez que esta é a forma em que relações sociais entre pessoas aparecem como propriedades das coisas.

Se se pode falar de fetichismo e coisificação nas sociedades pré-capitalistas, esses fenômenos têm existência limitada, não sendo determinantes nem[ii] possuindo alcance universal como nas sociedades capitalistas. Eles se apresentam apenas de forma parcial, pois, como diz Marx, “povos propriamente comerciantes existem apenas nos intermúndios do mundo antigo, como os deuses de Epicuro, ou nos poros da sociedade polonesa, como os judeus”. Mesmo aí, o fetichismo e a coisificação não transformam os indivíduos em meros suportes das relações de produção. Naqueles intermúndios de que fala Marx, as relações sociais de produção são “extraordinariamente mais simples e transparentes do que o organismo burguês”, mas “baseiam-se ou na imaturidade do homem individual, que ainda não rompeu o cordão umbilical que o prende a outrem por um vínculo natural de gênero [Gattungszusammenhang], ou em relações diretas de dominação e servidão” (p. 154).

*Francisco Teixeira é professor da Universidade Regional do Cariri (URCA) e professor aposentado da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Autor, entre outros livros, de Pensando com Marx (Ensaios) [https://amzn.to/4cGbd26]

Notas


[i] Quando, no começo deste capítulo, dizíamos, como quem expressa um lugar-comum, que a mercadoria é valor de uso e valor de troca, isso estava, para ser exato, errado. A mercadoria é valor de uso – ou objeto de uso – e “valor”. Ela se apresenta em seu ser duplo na medida em que seu valor possui uma forma de manifestação própria, distinta de sua forma natural, a saber, a forma do valor de troca, e ela jamais possui essa forma quando considerada de modo isolado, mas sempre apenas na relação de valor ou de troca com uma segunda mercadoria de outro tipo. Uma vez que se sabe isso, no entanto, aquele modo de expressão não causa dano, mas serve como abreviação (Marx, p. 136).

[ii] Em nosso exame das categorias mais simples do modo de produção capitalista, e mesmo da produção de mercadorias, ao investigarmos a mercadoria e o dinheiro, já destacamos o caráter mistificador que faz com que as relações sociais, às quais os elementos materiais da riqueza servem como portadores na produção, sejam transformadas em atributos dessas próprias coisas (mercadorias) e, ainda mais explicitamente, a própria relação de produção em uma coisa (dinheiro). Todas as formas sociais, na medida em que conduzem à produção de mercadorias e à circulação de dinheiro, tomam parte nessa distorção. Mas no modo de produção capitalista e no caso do capital, que é sua categoria dominante, sua relação de produção determinante, esse mundo encantado e distorcido se desenvolve com força ainda maior (Marx, p.889).

terça-feira, 19 de maio de 2026

As lutas de classes na Antiguidade

 

A história oculta da luta de classes no Império Romano

Tradução
Pedro Silva

A Roma Antiga era uma sociedade rigidamente hierárquica, onde a elite dominante estigmatizava os trabalhadores. Mesmo assim, os trabalhadores romanos ainda encontravam maneiras de resistir à exploração por meio de greves e outras formas de ação coletiva.


Daniel Finn

A luta de classes não é uma invenção moderna — ela existe há milhares de anos.

Sarah Bond é professora de estudos clássicos na Universidade de Iowa e autora de “Strike: Labor, Unions, and Resistance in the Roman Empire” [Greve: Trabalho, Sindicatos e Resistência no Império Romano]. Ela contou à Jacobin como membros das classes trabalhadoras da Roma Antiga se organizaram para exigir melhores condições de trabalho da elite social romana.  


DANIEL FINN

Quando você escreve sobre a história do Império Romano do ponto de vista de pessoas que não pertenciam à elite social romana, quais são alguns dos principais desafios em termos de encontrar fontes para trabalhar?

SARAH BOND

O mais difícil é que todas as fontes que temos, com exceção de algumas menções na literatura, vêm de coisas como papiros, inscrições e pichações. Muitas dessas fontes são não narrativas, no sentido de que nunca foram concebidas para contar uma história completa ou servir como biografias de pessoas.

A forma como acessamos a história de baixo para cima se dá predominantemente por meio desses minúsculos vestígios do passado que podem nos fornecer janelas para observar pessoas comuns. Mas essas centenas de papiros e cerca de 3.200 inscrições para instituições como os collegia (associações) romanos nunca tiveram a intenção de contar a história completa.

Parte disso envolve retornar a uma espécie de colcha de retalhos que fornece uma história e uma narrativa maiores. É difícil juntar todas essas peças da colcha e costurá-las em uma narrativa coesa sobre Roma.

A história vista de baixo pode nos dar muitas micro-histórias, mas transformá-la em uma macro-história mais ampla pode ser desafiador, porque as próprias evidências vêm em pedaços que não necessariamente nos dão o panorama completo. É preciso um historiador criativo para tentar reunir todas as evidências e criar algum tipo de história a partir delas.

DF

Quando falamos do Império Romano, é óbvio que ele durou vários séculos e cobriu um vasto espaço geográfico, com as fronteiras desse espaço mudando ao longo do tempo. Podemos fazer generalizações sobre a natureza do trabalho e as condições sociais da maioria da população que vivia sob o domínio romano? Quais foram algumas das principais tendências e padrões que podemos identificar?

SB

É muito difícil generalizar sobre cada trabalhador ou sobre toda a força de trabalho, mas é importante compreender tendências como o trabalho servil. Houve um grande aumento no trabalho escravo, especialmente no século II a.C., durante a República Romana, e ele continuou a aumentar até o século II d.C. Compreender o trabalho escravo em particular é muito importante para compreender as reações da força de trabalho e as condições de trabalho.

Além de entender a escravidão, que em lugares como a Itália podia atingir até 25% da população trabalhadora, também temos que entender coisas como a alforria — que tipos de pessoas eram alforriadas do status de escravizadas para se juntarem à sociedade como cidadãos?

“Havia muito preconceito em Roma contra o que em grego são chamados de trabalhadores banáusicos — isto é, trabalhadores braçais.”

Podemos observar que a escravidão aumentou, assim como a alforria, do final da República até o início do Império. Mas, em geral, é importante entender que a elite romana continuou cultivando preconceitos, especialmente em relação ao trabalho manual, que eram muito perniciosos e se infiltraram na legislação, na literatura e na maneira como tratavam os trabalhadores.

Havia muito preconceito contra o que em grego se chama de trabalhadores banáusicos — isto é, trabalhadores braçais. Eles tinham que se opor constantemente à ideia de que aqueles que trabalhavam com as mãos buscavam o quaestus, que em latim significa lucro. Havia a visão de que, se você vivesse em prol do quaestus, criando cerâmica, trabalhando em uma mina ou como operário da construção civil, o desejo por lucro e salários o impulsionava, e não, por exemplo, o amor pela literatura ou pelo seu país.

Embora não possamos dizer que todos os trabalhadores eram x ou y, havia milhões de artesãos e artífices diferentes em todo o Mediterrâneo que trabalhavam com as próprias mãos e lutavam contra uma forma de preconceito vinda de cima. Esse preconceito vinha de pessoas como senadores e cavaleiros, que representavam cerca de 1,5% da população total.

Eram eles que frequentemente expressavam por escrito reações muito estereotipadas e tendenciosas aos artesãos — pessoas como Cícero ou Juvenal, ou mesmo os juristas do direito romano, que falavam dos trabalhadores de forma muito negativa. Embora eu não possa fazer generalizações sobre todos os trabalhadores da Roma Antiga, havia um orgulho incrível entre os próprios trabalhadores, que tiveram que lutar contra o preconceito da elite que perdurou por centenas de anos.

DF

Se pensarmos na própria cidade de Roma, a ideia de uma divisão entre patrícios e plebeus é um tema familiar. As pessoas podem pensar na peça Coriolano, de Shakespeare, sem mencionar as palavras iniciais do Manifesto Comunista. Quanto dessa imagem da divisão entre patrícios e plebeus é de fato baseada em fatos, e como essa divisão se compara às divisões de classe nos tempos modernos?

SB

No Manifesto Comunista, há um foco em algo chamado Luta de Classes. Esta foi uma luta que durou mais de duzentos anos entre dois grupos de pessoas chamados patrícios e plebeus. Para Karl Marx e Friedrich Engels, os plebeus constituíam uma classe — um grupo de pessoas que compartilhavam relações comuns com o trabalho e os meios de produção. Essa seria a ideia moderna de classe.

“Os plebeus vinham de diferentes níveis econômicos e tinham diferentes maneiras de trabalhar e servir a República Romana.”

No entanto, o que sabemos sobre os plebeus hoje é que eles realmente não constituíam uma classe no sentido marxista. Os plebeus vinham de diferentes níveis econômicos e tinham diferentes maneiras de trabalhar e servir à República Romana. Precisamos entender que os plebeus e os patrícios eram, na verdade, grupos com suas próprias hierarquias e divisões internas.

Os patrícios eram os patres originais — as famílias de Roma quando ela foi fundada — enquanto os plebeus eram todos os outros. Não se tratava de um grupo econômico único. Nem todos os plebeus eram pobres, nem todos eram ricos, ou o que poderíamos considerar um grupo mediano de pessoas. Não havia coesão em termos de compartilhamento de experiências comuns de trabalho ou uma relação compartilhada com os meios de produção.

Quando olhamos para a Luta de Classes na Roma Antiga, Marx e Engels estavam corretos ao dizer que havia dentro do grupo plebeu quem optasse por se recusar ao alistamento militar como forma de pressionar por melhores condições de vida e assegurar representação no governo, por exemplo, como magistrados. Eles utilizavam a ação coletiva de uma forma muito atraente para filósofos e teóricos marxistas.

Ao mesmo tempo, porém, eles tinham razões diferentes para se absterem de trabalhar, ocupar o Monte Janículo ou se recusar a servir no recrutamento militar. É importante falar sobre os patrícios e os plebeus, porque eles são familiares para muitas pessoas que leram sobre a Luta de Classes naquela época. Mas, quando falamos dos plebeus, tratava-se de uma categoria que ia desde oficiais militares de alta patente até os agricultores mais pobres, que estavam em servidão por dívidas na época. Não era, de forma alguma, um grupo de pessoas com interesses econômicos semelhantes.

DF

Qual proporção da força de trabalho era composta por pessoas que haviam sido escravizadas? Essa proporção variou ao longo do tempo? Quais seriam as implicações da escravidão, mesmo para aqueles que não haviam sido escravizados?

SB

Os escravizados geralmente vinham da expansão romana e de prisioneiros levados pelo exército romano. Mas suas fileiras também eram complementadas por aqueles que viviam em famílias e tinham filhos nascidos na escravidão dentro de um domicílio romano. Sabemos que cerca de 60% dos escravizados neste vasto império de cerca de setenta milhões de pessoas, em seu auge, trabalhavam em contexto rural, enquanto o restante trabalhava em contexto urbano.

“Em um mundo agrícola, onde você estava constantemente trabalhando nos campos, isso significava que muito provavelmente passaria quase toda a sua vida escravizado.”

Considerando aqueles nas cidades, nove em cada dez provavelmente seriam alforriados no futuro, mas apenas um em cada dez escravos agrícolas rurais seria alforriado. Fazia uma grande diferença se você fosse designado para trabalhar no campo ou em um contexto doméstico, como professor de crianças, por exemplo, ou como estenógrafo, bibliotecário ou babá. Todos esses empregos tinham pelo menos uma probabilidade maior de alforria, o que de forma alguma valida a escravidão nem a torna eticamente correta, é claro. Mas em um mundo agrícola, onde você trabalhava constantemente no campo, isso significava que, com toda a probabilidade, passaria quase toda a sua vida escravizado.

Havia tensão entre os trabalhadores escravizados no mundo da agricultura e muita animosidade contra os escravizados que trabalhavam em contextos domésticos. Mas, no geral, Roma era uma sociedade escravista que dependia fortemente da mão de obra escravizada para prosperar. Os cidadãos de Roma, especialmente na Itália e na própria cidade de Roma, eram altamente dependentes tanto de escravos quanto de pessoas livres para realizar grande parte do trabalho manual que eles próprios não queriam fazer.

DF

Você fala sobre o papel das associações como forma de ação coletiva entre a população trabalhadora na Roma Antiga. Qual era a natureza dessas associações em suas diversas formas e como funcionavam como formas de ação coletiva?

SB

Associações existiram em todo o Mediterrâneo durante o período desde a morte de Alexandre até a coroação de Carlos Magno. Temos evidências de cerca de 3.200 tipos diferentes de grupos e associações. Todos tinham características e propósitos diferentes, e eram conhecidos por muitos nomes distintos.

O nome mais popular era collegium, de onde vem a palavra moderna “colégio”, mas também temos outros nomes como ecclesia em grego, por exemplo. Todos esses são nomes diferentes para grupos de pessoas que se reuniam para adorar um deus, servir (por exemplo) como carpinteiros ou ourives, ou enterrar os mortos.

“Assim como os sindicatos modernos, os collegia poderiam usar sua experiência e natureza profissional para conseguir melhores contratos ou obter certos benefícios especiais.”

É como hoje, onde as pessoas têm diferentes grupos aos quais pertencem e com os quais se identificam. Você pode ter múltiplas filiações dentro deles. Às vezes, esses grupos se tornam entidades políticas, e às vezes são apenas grupos para beber, onde vocês se reúnem no bar local e tomam vinho ou cerveja juntos.

Os romanos não eram diferentes. Eles adoravam socializar — adoravam ter clubes. Mas meu livro se concentra na ideia de que esses collegia, em certos momentos, podiam usar suas capacidades e especialidades coletivas para obter melhores salários ou melhores ambientes de trabalho, e também para melhorar seu status dentro da cidade em que viviam. Assim como os sindicatos modernos, os collegia podiam usar sua expertise e natureza profissional para obter melhores contratos ou certos benefícios especiais do imperador.

DF

Você poderia nos dar alguns exemplos de ação coletiva e protesto popular ao longo da história romana?

SB

As evidências que temos sugerem que greves e ações coletivas não eram tão frequentes no mundo antigo como são hoje. Não quero promover a ideia de que todos os dias havia uma greve em larga escala. Mas, em certos períodos, temos evidências de grupos formais e informais usando seu poder e a necessidade que o Estado tinha deles para tentar melhorar suas condições de trabalho.


O exemplo mais famoso é o que já discutimos: a Luta de Classes e as várias secessões da plebe. Essas secessões eram boicotes com outro nome. Embora o termo “greve” só tenha sido cunhado no século XVIII, podemos observar as mesmas formas de comportamento que associamos a greves e boicotes acontecendo na Antiguidade.

Os plebeus aproveitaram-se da necessidade do exército romano para expandir o alcance imperial romano. Eles se retiraram nessas secessões em vários momentos — houve quatro, cinco ou talvez até seis secessões, dependendo do autor que você estiver lendo.

Também analiso alguns exemplos menos conhecidos de greves e ações coletivas por volta de 200 d.C. Na cidade de Éfeso, temos um caso de padeiros que foram instruídos pelo governador da Ásia a interromper suas reuniões de grupo. Foi-lhes dito que não poderiam reter pão e que deveriam manter a ordem na cidade. Podemos deduzir, a partir da inscrição que nos conta sobre esse episódio, que os padeiros provavelmente estavam aumentando o preço do pão ou retendo seu pão para obter melhores preços ou um contrato mais vantajoso com o governo romano.

Nesse caso, temos o governador da Ásia intervindo e dizendo: “Vocês precisam acabar com esse comportamento como facção ou associação”. Esses padeiros parecem ter tentado usar seu monopólio sobre o pão, que representava uma proporção muito grande das calorias da dieta consumida pela maioria dos romanos, que comiam pão todos os dias.

As autoridades estavam dizendo a eles que não podiam reter pão coletivamente ou aumentar os preços. Vivemos um período de hiperinflação global, então provavelmente todos nós podemos entender por que o governador estava tentando impedir que os padeiros praticassem aumentos abusivos de preços em busca de mais dinheiro e melhores contratos.

Também temos papiros que nos contam como mulheres comuns e trabalhadores escravizados de oficinas têxteis no Egito, por exemplo, praticavam greves. Recusavam-se a trabalhar até receberem salários mais altos. Até mesmo grupos informais de trabalhadores têxteis, que talvez não se reunissem como um colegiado formal, podiam decidir que fariam uma greve.

O exemplo mais significativo no livro é provavelmente algo que aconteceu no final do século III, quando os trabalhadores da casa da moeda sob o reinado de Aureliano se recusaram a cunhar moedas e se trancaram na casa da moeda romana. Eles estavam retendo algo muito importante — as moedas de ouro, prata e bronze que circulavam como meio de pagamento no mundo romano.

É importante dizer que não são apenas os trabalhadores e sindicatos modernos que conseguem utilizar o poder da ação coletiva em benefício próprio. A economia antiga não era primitiva de forma alguma — era uma economia de mercado integrada. Os trabalhadores dessa economia frequentemente reconheciam seu valor e sabiam que possuíam as capacidades e o conhecimento necessários para suspender seu trabalho e, assim, viver em melhor situação no futuro.

DF

Se as pessoas pensarem em conflitos sociais no mundo antigo, o episódio com o qual provavelmente estão familiarizadas é a revolta liderada por Espártaco. Como essa revolta se desenvolveu e quais foram seus legados para períodos posteriores da história romana?

SB

A rebelião de Espártaco é certamente a mais conhecida de todas as rebeliões que temos em toda a história do mundo antigo. Dentro de seu próprio contexto, foi entendida como um esforço para repelir um agitador chamado Espártaco, originário da região da Trácia. Em 73 a.C., ele liderou uma rebelião em sua escola de gladiadores no sul da Itália.

“A rebelião de Espártaco é certamente a mais conhecida de todas as rebeliões que temos em toda a história do mundo antigo.”

Este é um ponto que o filme de Stanley Kubrick de 1960 acerta. A família dos gladiadores era a menor unidade social para essas tropas de gladiadores. As famílias de gladiadores eram essencialmente tropas escravizadas que tinham suas próprias hierarquias. Espártaco mobilizou sua própria tropa e eles invadiram a cozinha, usando utensílios para dar início ao desafio original contra o acampamento de gladiadores.

Eles começaram a viajar pelas regiões da Itália até a região do Monte Vesúvio, depois para o norte, até os Alpes, e depois para o sul novamente. Conseguiram cada vez mais pessoas seguindo esse pequeno grupo que havia iniciado a revolta. Estamos falando de uma mudança de algo entre sete e quarenta pessoas nessa família menor para cerca de cem mil seguindo Espártaco na rebelião.

Quero fazer uma distinção clara aqui entre muitos dos episódios que menciono no livro e a revolta liderada por Espártaco, porque o objetivo final de Espártaco não era voltar a trabalhar. Ele não planejava voltar para a escola de gladiadores e receber salários maiores de seus captores. Seu objetivo final e o das centenas de milhares de pessoas escravizadas que o seguiam era conquistar sua própria liberdade.

Eles não buscavam a abolição da escravidão em larga escala em todo o Mediterrâneo. Não temos evidências de que essa fosse uma de suas reivindicações. Eles simplesmente queriam se libertar e nunca mais retornar à escravidão. Para os collegia, poder suspender seu trabalho para eventualmente retornar ao trabalho era um tipo de tática muito diferente de uma rebelião em busca de liberdade, cujo objetivo final era a liberdade.

Embora Espártaco não tenha obtido sucesso, ao final da guerra, em 71 a.C., ele já havia espalhado ondas de terror por toda a República Romana. Eles temiam que esses gladiadores pudessem se tornar milícias muito eficazes quando se unissem e formassem o que hoje poderíamos chamar de exército. Isso era especialmente ameaçador para os senadores em Roma.

Como resultado, eles começaram a desmantelar as diversas tropas e escolas de gladiadores, afastando-as da cidade de Roma para que representassem uma ameaça menor. A rebelião de Espártaco é muito importante de entender, não apenas porque inspirou uma série de outras rebeliões em menor escala pelo Mediterrâneo, mas também porque criou um espectro que continuou a perseguir os senadores.

Eles temiam que, se tivessem uma tropa de gladiadores muito grande, ou se ela caísse nas mãos do político errado, ela poderia ser transformada em milícias e guarda-costas pessoais, de maneiras que de fato aconteceram mais tarde na história da República.

DF

Na história posterior do Império Romano, assistimos à ascensão do cristianismo, inicialmente como uma religião proibida e, posteriormente, como uma fé oficial. Que implicações o cristianismo teve para a maneira como as pessoas pensavam sobre o trabalho e sobre a ordem social em geral?

SB

Muitos dos cristãos que foram elevados a altos cargos depois que Constantino promoveu o status do cristianismo e ajudou a torná-lo lícito vieram de origens romanas muito tradicionais. Eles continuaram a ter os mesmos preconceitos em relação ao trabalho manual que existiam antes.

Podemos observar mudanças nos tipos de trabalho permitidos no Império Romano. Por exemplo, começamos a ver a proibição do trabalho sexual, porque as ideias cristãs sobre o assunto eram muito diferentes das ideias romanas anteriores de que deveria ser legal. Bordéis eram bastante comuns nas cidades romanas. Esse é o melhor exemplo de como o cristianismo transformou o trabalho e a mão de obra.

Mas também tínhamos novos tipos de trabalho em lugares como mosteiros, onde monges, homens e mulheres, faziam trabalhos manuais. Havia a crença de que o trabalho manual a serviço de Deus e da piedade era muito mais aceitável do que o trabalho manual em busca de lucro individual.

“Muitas das ideias do cristianismo começaram a se infiltrar na filosofia do trabalho no final do Império Romano.”

Muitas das ideias do cristianismo começaram a se infiltrar na filosofia do trabalho no final do Império Romano. Os monges tinham liberdade para realizar seu trabalho banáusico porque o faziam para Deus, da mesma forma que os artistas de mosaico que trabalhavam em igrejas recém-construídas eram vistos como magnificadores da glória de Deus.

Muitos clérigos ainda desprezavam o que poderíamos chamar de trabalhadores braçais e certamente não promoviam a ideia de que os trabalhadores deveriam estar nos escalões mais altos da Igreja Cristã. O esnobismo em relação aos trabalhadores que vimos em pessoas como Cícero ainda se perpetuou até o final do Império Romano e também no início do período medieval.

Gostaríamos de acreditar que o cristianismo mudou a percepção do trabalho, e que agora todas as pessoas se tornariam curtidoras de couro, como o apóstolo Paulo, por exemplo. Mas a realidade é que muitos dos preconceitos e esnobismos que víamos antes se perpetuaram até o período medieval e além.

DF

Se observarmos a história da Europa Medieval e Moderna, podemos encontrar vários exemplos de pessoas das classes pobres e trabalhadoras que imaginavam um tipo de sociedade completamente diferente, sem propriedade privada. Elas frequentemente se referiam a textos cristãos e à história inicial do cristianismo para basear essa visão. Há alguma evidência desse tipo de pensamento milenarista na Roma Antiga?

SB

Frequentemente, as evidências que temos em relação à filosofia do trabalho vêm da literatura da elite. Temos exemplos de indivíduos das classes empobrecidas que imaginavam um tipo diferente de sociedade, mas a maioria deles não se rebelava contra o Império Romano e não registrava seus sentimentos ou planos.

No entanto, em vários momentos da história romana, houve petições ao imperador que nos dizem muito sobre a sociedade e as condições que muitos trabalhadores desejavam ver. Temos várias petições do final do século II d.C. Elas vêm da África e de pessoas que hoje chamaríamos de camponeses.

Eles faziam petições diretamente ao imperador, dizendo que queriam melhores condições e não queriam ser menosprezados, já que eram eles que forneciam o suprimento de grãos para o pão gratuito distribuído em Roma, Constantinopla e outros lugares. Quando olhamos para petições como essa, ou outras petições ao imperador vindas dos técnicos de Dionísio, por exemplo, eles nos sinalizavam que tinham orgulho do trabalho que realizavam e queriam ver mudanças na forma como eram tratados pelas elites.

Podemos ver rebeliões individuais que chegaram às centenas, e às vezes aos milhares, durante o período da Antiguidade Tardia, vindas de pessoas como as facções circenses de Constantinopla. Mas, no geral, não obtemos muitas informações diretas das pessoas sobre a sociedade ideal que elas gostariam de ter.

“Uma das coisas importantes sobre o estudo dos collegia é reconhecer que eles proporcionavam uma oportunidade de prestígio e status em um nível muito pequeno.”

No entanto, muitos dos epitáfios para artesãos e trabalhadores nos dizem que eles acreditavam no que faziam e que amavam o status que tinham, não apenas como artesãos, mas também dentro de seu collegia. Muitos deles mencionaram o fato de pertencerem a associações profissionais, de modo que, mesmo que não conseguissem obter status dentro do Império Romano, poderiam obtê-lo dentro de seu clube ou associação individual.

Um dos aspectos importantes sobre o estudo dos collegia é reconhecer que eles proporcionavam uma oportunidade de prestígio e status em um nível muito pequeno. Isso dava às pessoas um senso de identidade e individualidade que jamais poderiam ter alcançado em todo o Mediterrâneo Romano. Essas pessoas jamais seriam senadoras ou cavaleiros. Mas podiam se tornar presidentes de seus clubes ou secretárias de seus collegiums.

DF

Que tipo de esperança você tem sobre a maneira como a pesquisa que fez pode alterar a percepção das pessoas sobre a história romana?

SB

Um argumento que meu livro tenta apresentar é a ideia de que a história comparada é muito importante. Na década de 1980, Moses Finley, historiador da Antiguidade e teórico da economia romana, encontrou-se com um homem chamado Orlando Patterson, que ainda é professor emérito de sociologia em Harvard. Tomaram um café juntos em Cambridge e conversaram sobre um livro que Patterson estava preparando, chamado “Slavery and Social Death” [Escravidão e Morte Social].

Este livro se tornou extremamente importante para nossa compreensão da escravidão, porque Patterson analisou sessenta e seis sociedades escravistas diferentes e disse: “Estas são as semelhanças, estas são as continuidades, estas são as nuances e estas são as diferenças”. Seu estudo sobre a morte social reuniu historiadores da pré-modernidade, do mundo medieval e do mundo moderno em um diálogo.

O que peço com este livro não é que você aceite que todos os collegiums eram sindicatos, o que não era o caso. Quero encorajar as pessoas a se reunirem e estabelecerem diálogos entre o mundo antigo e o mundo moderno. Com muita frequência, os economistas modernos pensam que a história com a qual precisam se envolver começa com a Revolução Industrial e progride a partir daí.

Trazer a história romana para o debate e afirmar que os trabalhadores romanos tinham a capacidade de se comportar de maneira semelhante aos sindicatos modernos é uma forma de criar pontos em comum. Mas também é uma forma de compreender o comportamento e a experiência vivida dos trabalhadores, e as maneiras pelas quais a ação coletiva pode nos beneficiar hoje.

é editor adjunto da New Left Review. Ele é autor de "One Man’s Terrorist: A Political History of the IRA".

Sarah Bond

é professora associada de estudos clássicos no Departamento de História da Universidade de Iowa. É autora de "Greve: Trabalho, Sindicatos e Resistência no Império Romano".

 


Em seu livro Surviving Rome, Kim Bowes nos oferece um retrato magnífico e revelador da classe trabalhadora do Império Romano, de como viviam e o que passavam para gerar a riqueza que se acumulava para uma elite social privilegiada. (DeAgostini / Getty Images)

Para os trabalhadores romanos, a vida era desagradável, brutal e curta

Tradução
Pedro Silva

Nosso imaginário sobre o Império Romano é dominado pelos monumentos e estilos de vida das ricas elites urbanas. Um novo e importante livro chama nossa atenção para os 90% restantes da população de Roma, cujo trabalho brutalmente explorado tornou tudo isso possível.

Resenha do livro Surviving Rome: The economic lives of the ninety percent [Sobrevivendo a Roma: A vida econômica dos noventa por cento], de Kim Bowes (Princeton University Press, 2025)


A imagem que temos de Roma, com suas infraestruturas eficientes e obras arquitetônicas esplêndidas, está inextricavelmente ligada aos nomes dos imperadores, generais e senadores ricos que ordenaram (e pagaram por) sua construção e administração. Nesse contexto, a complexidade econômica do Império Romano parece ser o resultado da ação de alguns homens poderosos e ricos que comandavam uma multidão de trabalhadores anônimos.

Não é coincidência que a representação mais eficaz do dinamismo econômico romano seja a propriedade fundiária centralizada. No mundo romano, a maneira mais fácil de maximizar a produção e as trocas era através da exploração, por parte do empregador, das pessoas que realizavam o trabalho, fossem elas trabalhadores livres ou escravizados. Dessa perspectiva, qualquer forma de desigualdade criada pelo sistema romano era a consequência natural de sua economia inerentemente pré-capitalista.

Surviving Rome nos oferece uma visão muito diferente da vida econômica de Roma. O livro muda o foco dos indicadores macroeconômicos de crescimento para as pessoas comuns, mostrando-nos como elas realmente viviam, trabalhavam e morriam durante os quatro séculos que separam o período da República Tardia (século I a.C.) do Império Médio (século III d.C.). Não narra a macro-história da ascensão e queda econômica do império, mas nos apresenta muitas micro-histórias de camponeses e escravos — homens, mulheres e seus filhos — que precisavam lutar para sobreviver em um mundo difícil e complexo como agricultores, pastores, fiandeiros, oleiros ou comerciantes ocasionais.

O livro de Kim Bowes não é uma história sobre pessoas prósperas e felizes. Pelo contrário, descreve a vida de romanos trabalhadores que produziam e consumiam uma enorme variedade de bens, contribuindo para um sistema econômico opressivo que forçava a maioria da população a aumentar a produção para lidar com as pressões do consumo compulsivo e o consequente endividamento. Suas condições sociais refletem muitos aspectos da experiência das classes trabalhadoras sob o capitalismo contemporâneo.

História vista de baixo

Kim Bowes é uma arqueóloga estadunidense e atualmente professora de estudos clássicos na Universidade da Pensilvânia. Ela é uma renomada especialista nas áreas de cultura material e economia do mundo romano. Possui um extensivo registro de publicações sobre habitação, o significado social do dinheiro, dívida e poupança, bem como sobre inúmeros aspectos da vida cotidiana no mundo antigo. Bowes tem um grande interesse acadêmico pelos pobres, especialmente os pobres rurais.

Entre 2009 e 2014, ela dirigiu o primeiro estudo arqueológico sistemático já realizado sobre camponeses romanos. The roman peasant project, 2009–2014: Excavating the roman rural poor [O projeto camponês romano, 2009–2014: Desenterrando os pobres rurais romanos], examina dados arqueológicos de sítios rurais de pequenos agricultores no sul da Toscana para revelar como os camponeses locais organizavam suas moradias, dieta, fazendas e estratégias agrícolas, incluindo a mobilidade da mão de obra e as transações de mercado.

“Os pequenos agricultores, e não os grandes proprietários de terras, dominavam a zona rural romana através de sítios especializados dispersos por toda a paisagem rural.”

Os resultados sugerem que os pequenos agricultores, e não os grandes proprietários de terras, dominavam o campo por meio de sítios especializados dispersos pela paisagem rural. Esse padrão de “habitações distribuídas” permitiu que os camponeses se estabelecessem no território e maximizassem o uso de diversas parcelas de terra. A agricultura não se limitava à colheita de cereais para subsistência: na verdade, os camponeses intensificaram sua produção agrícola integrando a rotação de culturas de cereais e leguminosas com investimentos relevantes na pecuária. Os animais eram usados ​​para arar a terra, mas também se tornaram um componente essencial da dieta camponesa em seus últimos anos de vida.

Esses diversos níveis de consumo, com cereais, vegetais, frutas e carne fazendo parte da dieta, reforçam a ideia de que o campo não produzia apenas para a cidade consumidora parasitária, onde as elites geralmente residiam e investiam sua riqueza acumulada. Ele também constituía, por si só, um importante reservatório de demanda agregada rural.

Os dados obtidos nas escavações mostram que a cidade e o campo não mantinham uma relação de dependência rígida. Ao contrário, estavam unificados em complexas redes de produção e consumo de diversos tipos de bens, incluindo cerâmica, vidro, couro e têxteis. A mão de obra circulava livremente entre diferentes locais, com os camponeses deslocando-se diariamente de suas moradias rurais para seus campos dispersos. Ocasionalmente, também se deslocavam para mercados rurais e urbanos próximos, onde vendiam suas colheitas em troca de dinheiro, que podia ser usado para comprar alimentos que não produziam diretamente, bem como cerâmica e produtos artesanais.

O projeto liderado por Bowes propõe uma visão flexível e economicamente orientada dos camponeses que povoavam o campo romano. Esses camponeses apresentavam um alto grau de diferenciação social e consumiam uma dieta potencialmente diversificada, que incluía proteínas. Sua organização agrícola baseava-se em vários tipos de posse de terra e um regime de trabalho misto que envolvia todos os membros da família. As trocas ocorriam em uma economia monetizada, com livre acesso e intervenção nos mercados externos.

Do campo à teoria econômica

Após a publicação de The roman peasant project, Bowes publicou um importante ensaio teórico que critica duramente as abordagens cliométricas ao estudo da economia romana. Em When Kuznets went to Rome [Quando Kuznets foi a Roma], ela argumenta que os estudos macroeconômicos que buscam reconstruir o PIB agregado ou per capita, os índices de desigualdade ou os níveis salariais não revelam o real bem-estar econômico da população romana (ou dos trabalhadores em geral antes da Revolução Industrial).

Como esses estudos partem do pressuposto de níveis de consumo de subsistência inalteráveis, eles demonstram teleologicamente a natureza relativamente estacionária de todas as economias pré-modernas (incluindo a romana) quando comparadas ao crescimento impulsionado pela industrialização. Em essência, reiteram ideologicamente o paradigma histórico dominante do crescimento progressivo como principal motor econômico de qualquer sociedade histórica, aplicando, assim, retrospectivamente uma dinâmica política contemporânea ao passado.

Como Bowes insiste, os números do crescimento agregado ou estimativas comparáveis ​​usadas como indicadores econômicos não dizem muito sobre as necessidades e oportunidades dos trabalhadores romanos, assim como não revelam as condições reais da classe trabalhadora da época. Essas formas de macrodados simplesmente reiteram a teleologia metahistórica de “ascensão e declínio” na linguagem aparentemente mais neutra e aceitável da economia.

“Os números de crescimento agregado ou estimativas comparáveis ​​usadas como indicadores econômicos não dizem muito sobre as necessidades e oportunidades dos trabalhadores romanos.”

Para corrigir essa narrativa simplista, Bowes propõe examinar o consumo real em nível domiciliar. Essa mudança permite aos estudiosos demonstrar que, no mundo pré-moderno, a maioria da população trabalhadora possuía múltiplas fontes potenciais de renda e produzia excedentes significativos para acessar o mercado. Isso não apenas revela que a suposta “armadilha da subsistência” era, na verdade, uma invenção historiográfica, como também desvenda um panorama de estratégias complexas e experiências de vida que merecem ser compreendidas.

Lutando para sobreviver

Surviving Rome vai além de seus estudos anteriores. Nesse novo livro, Bowes combina a rigorosa abordagem teórica desenvolvida em When Kuznets went to Rome com a enorme coleta de dados realizada durante The roman peasant project. O resultado é um relato magnífico de como 90% da população do Império Romano — algo entre cinquenta e sessenta milhões de pessoas, dependendo da estimativa — viviam, trabalhavam e morriam durante o período abordado.

A mensagem do livro é direta: o Império Romano possuía uma economia de mercado dinâmica. Os romanos produziam e consumiam bens agrícolas, artesanais e industriais em grandes quantidades. As trocas ocorriam em níveis local, regional e inter-regional, impulsionadas pelas infraestruturas imperiais e com um alto grau de monetização, chegando até mesmo às áreas rurais mais remotas.

“O Império Romano possuía uma economia de mercado dinâmica. Os romanos produziam e consumiam bens agrícolas, artesanais e industriais em grandes quantidades.”

Na reconstrução de Bowes, a força motriz da economia romana não era o Estado romano e seus aparatos — como o exército ou a administração financeira — nem os latifundiários senatoriais super-ricos que administravam suas propriedades. Eram os trabalhadores comuns, com sua produção especializada, altos níveis de demanda e padrões de consumo variados. O imperativo social dos 90% da população de ter acesso a bens de consumo para melhorar seu bem-estar e status — o que Bowes chama de custos da inclusão social — foi fundamental para a gênese e expansão de uma revolução do consumo.

A noção de revolução do consumo não é nova no estudo da economia romana. Em sua magnífica obra Peasant and empire in Christian North Africa [Camponês e império no Norte da África Cristã], Lesley Dossey utilizou esse conceito para explicar o enorme desenvolvimento socioeconômico do mundo rural africano no final da Antiguidade. Na interpretação de Dossey, o século IV d.C. testemunhou um crescimento exponencial da demanda camponesa. Os camponeses africanos não produziam apenas para os habitantes urbanos — eles também utilizavam o mercado para aumentar sua própria renda e, consequentemente, seus níveis de consumo.

Bowes aplica a ideia de uma revolução do consumo aos séculos I e II d.C. Ela estende seu efeito transformador ao início e ao meio do Império Romano, quando a economia atingiu seu ponto de máxima expansão em termos de produção e troca de mercadorias em grande escala.

No entanto, Bowes não gosta de comparações diacrônicas entre os indicadores macroeconômicos das economias romana e moderna, assim como de analogias simplistas entre passado e presente. Em vez disso, ela examina uma série de diferenças e uma semelhança fundamental nas estruturas inerentes às duas economias.

Produção doméstica

A economia romana difere significativamente da economia capitalista moderna em dois aspectos principais. Em primeiro lugar, embora os salários fossem comuns no mundo romano, raramente eram suficientes para cobrir as necessidades básicas de uma família, servindo, em vez disso, como uma fonte de renda adicional, porém ocasional.

Em contraste com o mundo industrial, onde houve uma luta contínua entre capital e trabalho, a economia agrária dos antigos grupos subalternos não funcionava segundo o que E. P. Thompson chamou de nexo monetário. Trata-se de um mecanismo econômico que envolve uma relação entre os níveis salariais e os padrões de vida, bem como conflitos entre empregador e empregado sobre o que é considerado salário justo.

“Embora os salários fossem comuns no mundo romano, raramente eram suficientes para cobrir as necessidades básicas de uma família.”

Como os romanos que trabalhavam não podiam contar com salários como a base de sua economia doméstica, eles continuaram a depender da agricultura e da produção artesanal e têxtil caseira. Isso não significa que eles não operavam em uma economia de mercado; na verdade, estavam totalmente integrados às suas estruturas. Mas participavam dos ciclos de oferta e demanda expandindo sua produção doméstica mais do que vendendo sua força de trabalho para terceiros.


A segunda diferença relevante é que os romanos comuns raramente conseguiam acumular poupanças. Ao contrário dos camponeses e artesãos durante a “revolução industriosa” do século XVIII, que acumulavam poupanças através do adiamento do casamento e do aumento da produtividade, os 90% romanos tinham menos oportunidades de aumentar os seus rendimentos e reservar algum dinheiro para compensar os riscos inerentes a uma economia agrária com as suas colheitas variáveis.

Bowes argumenta que tanto a economia romana quanto a do capitalismo tardio compartilhavam uma característica comum: a precariedade. Em ambos os contextos, a precariedade significava que as pessoas podiam, ou podem, facilmente passar de uma situação de mera sobrevivência (ou, às vezes, até de prosperidade) para uma situação de extrema pobreza. A revolução do consumo impôs à população romana uma tendência compulsiva ao consumo.

Não devemos interpretar isso como um indicador de uma “sociedade abastada” no sentido em que J.K. Galbraith a descreveu em seu livro de 1958 com esse título. Em vez disso, evidenciava uma sociedade onde era extremamente caro e difícil viver e (às vezes) até mesmo sobreviver. Como observa Bowes, assim como os estadunidenses modernos, os 90% romanos viviam perpetuamente endividados, com a precariedade como sua companheira constante.

A economia da maioria

Os estudos sobre a economia romana têm se concentrado principalmente em desvendar os mecanismos de arrecadação de recursos da população, buscando compreender como instituições como o Estado ou os mercados utilizavam o dinheiro e distribuíam ou comercializavam mercadorias. O debate girou em torno de diferentes formas de cobrança de impostos, baseadas em dinheiro ou pagamento em espécie, na coleta e transferência de rendas agrícolas e no papel do sistema monetário unificado na facilitação das transações entre parceiros institucionais, bem como na forma como as instituições possibilitavam o acesso ao mercado.

O interesse pela população trabalhadora tem se limitado a estabelecer qual tipo de sistema de posse de terras e regime de trabalho associado — arrendamento, trabalho assalariado ou escravidão — era mais propenso a aumentar a produção e melhorar a eficiência da economia imperial. Em essência, os estudos têm se concentrado mais em como os proprietários de terras organizavam a produção e como as instituições os ajudavam a transferir ou trocar mercadorias do que em como os trabalhadores gerenciavam suas vidas.

Surviving Rome adota uma perspectiva diferente. Assim como em outras sociedades pré-industriais, a grande maioria das pessoas no mundo romano — cerca de nove décimos da população — vivia e trabalhava no campo. Se quisermos entender como essa sociedade funcionava e se seu povo estava bem, precisamos observar os camponeses em vez das elites, muito mais documentadas e visíveis.

“A grande maioria das pessoas no mundo romano — cerca de nove décimos da população — vivia e trabalhava no campo.”

Os camponeses representavam a maior parte dos 90%, mas essas pessoas nunca foram agricultores em tempo integral. A visão atemporal do camponês que ganhava a vida cultivando (com a ajuda da família) uma pequena parcela de terra é um mito criado pelos escritores romanos para celebrar o valor moral do cidadão romano ideal.

Em todo o vasto território que se estendia dos atuais Países Baixos ao Egito, os camponeses romanos estavam longe de ser românticos ou conservadores ao elaborarem suas estratégias econômicas. Eles dispunham de múltiplas fontes potenciais de renda, derivadas de um campo totalmente imerso em um complexo sistema de trocas.

Por vezes, os camponeses possuíam várias parcelas de terra. Contudo, como a oferta de terra nunca era suficiente, arrendavam com mais frequência as suas parcelas a grandes ou médios proprietários de terras. A dupla condição de pequenos proprietários e arrendatários exigia da família camponesa um planejamento complexo do emprego dos recursos humanos, que tinha de ter em conta as necessidades sazonais da agricultura, como a rotação de culturas e a colheita. Os camponeses também tinham de considerar as exigências simultâneas das fábricas de cerâmica, das indústrias artesanais ou do comércio de produtos agrícolas e têxteis no mercado local.

Escassez e excedentes

A combinação de diversas atividades poderia resultar em escassez de mão de obra. Por sua vez, isso oferecia oportunidades de emprego para trabalhadores assalariados externos, geralmente recrutados entre pastores de meio período ou camponeses sem terra. Às vezes, porém, a composição variável da família também podia gerar excedente de mão de obra, tornando necessário que alguns membros trabalhassem por salário na propriedade de outra pessoa.

Esse dinamismo econômico leva Bowes a argumentar que a relação entre terra, trabalho e produção não era predeterminada por alguma lei econômica abrangente, mas sim influenciada pela atividade camponesa e pelas contingências históricas. Em essência, dependendo da situação, um camponês, sua esposa e seus filhos podiam atuar como pequenos proprietários, arrendatários, assalariados, pastores ocasionais, comerciantes ou trabalhadores têxteis e de cerâmica — às vezes, todos os anteriores.

“Apesar do analfabetismo generalizado na população rural, as famílias trabalhadoras ainda conseguiam lidar com cálculos complexos.”

A capacidade dos camponeses de lidar com todas essas atividades desmente duas outras crenças equivocadas. Em primeiro lugar, apesar do analfabetismo generalizado entre a população rural, as famílias trabalhadoras ainda conseguiam realizar cálculos complexos e manter registros detalhados de seus impostos, aluguéis, obrigações públicas e privadas, e assim por diante. Assim como os pobres na sociedade contemporânea, os romanos trabalhadores podiam ser altamente habilidosos com números sem precisar saber ler ou escrever.

Em segundo lugar, eles administravam suas transações diárias de forma muito racional, pensando em termos de valor monetário. É verdade que o campo sofria com a escassez estrutural de moedas, já que os camponeses estavam constantemente precisando de dinheiro. Mas, como Rory Naismith afirmou em seu fascinante livro Making money in the early Middle Ages [Fazendo dinheiro no início da Idade Média], a falta de moedas nas transações cotidianas não impedia as pessoas comuns de mensurar o valor da terra, do gado e das mercadorias (ou mesmo de bens mais intangíveis, como honra e devoção espiritual) em unidades monetárias. A contabilidade monetária era um hábito econômico significativo para aqueles que viviam no campo.

Bowes oferece como exemplo dessa racionalidade econômica duas histórias de camponeses no Egito do primeiro século. Epímaco possuía vários pequenos lotes perto de Hermópolis, no Vale do Nilo, e administrava ativamente sua fazenda com a ajuda de quatro ou cinco escravizados e trabalhadores diaristas. A natureza dispersa de suas propriedades e a dependência do trabalho assalariado provavelmente exigiam uma contabilidade complexa. Ele empregava um escravizado chamado Dídimo para manter registros detalhados, começando cada mês com os ganhos organizados cronologicamente e registrando as despesas diárias. Os ganhos e as despesas eram então contabilizados, transferindo qualquer lucro ou déficit para o mês seguinte.

Soterichos, um arrendatário, e sua família conservaram seus contratos de arrendamento, recibos de aluguel e impostos, documentos de quitação de dívidas, um recibo de compra de um burro e a compensação pela pastagem consumida pelo gado. Embora não fossem alfabetizados em grego, administraram com eficiência os arrendamentos e empréstimos, insistiram em receber os recibos de pagamento e guardaram esses documentos por anos após o vencimento. Essas duas histórias sobre famílias camponesas refletem, em nível micro, a história econômica mais ampla do Império Romano.

Uma classe trabalhadora maltratada

Um dos capítulos mais impressionantes do livro aborda os efeitos destrutivos do trabalho na saúde dos trabalhadores. O período romano testemunhou uma das explorações mais intensas do campo antes da mecanização da agricultura na segunda metade do século XIX. A expansão maciça da produção agrícola excedente e a busca incessante pelo aumento do consumo tiveram um enorme impacto sobre a população trabalhadora.

“A expansão maciça da produção excedente agrícola e a busca incessante pelo aumento do consumo tiveram um enorme impacto na população trabalhadora.”

Uma enorme quantidade de novos dados provenientes de esqueletos humanos revelou as consequências perigosas de se viver em um mundo onde o corpo humano era a principal máquina produtiva. O trabalho imposto aos operários prejudicava seriamente sua saúde. Seus corpos contêm indicadores reveladores de níveis de estresse e lesões sem precedentes. Os romanos trabalhadores podem ter tido acesso a alimentos melhores, panelas feitas em roda de oleiro e roupas de melhor qualidade, mas pagaram um preço alto em troca de benefícios mínimos.

Embora todos os trabalhadores romanos sofressem com a sobrecarga de trabalho, os 90% restantes não constituíam um grupo homogêneo. Os membros da maioria rural foram afetados mais seriamente do que seus pares urbanos. As pessoas que viviam e trabalhavam em cidades como a antiga Londres, Cartago ou a própria Roma se beneficiavam de uma dieta mais variada, incluindo carne, queijo, leguminosas e peixe. Essa fonte estável de proteína ajudava os trabalhadores urbanos a suportar as muitas horas de trabalho árduo.

Os trabalhadores rurais não dispunham de uma variedade comparável nem de uma fonte estável de proteínas: consumiam carne com menor teor proteico e raramente tinham acesso a peixe. Aqueles empregados em indústrias especializadas, como minas, ou na agricultura, realizavam trabalhos árduos que exigiam o consumo de quase quatro mil calorias por dia. Quando não conseguissem obter essas rações diárias — e eles raramente conseguiam —, seus corpos sofriam sérios danos.

A situação era ainda pior para os adolescentes de ambos os sexos, pois a combinação de um regime de trabalho pesado com a insuficiência de proteínas e vitaminas comprometia severamente seu crescimento. A maioria dos trabalhadores que sobreviviam a essa infância precária carregava as sequelas do trabalho pesado por toda a vida.

Trabalho livre e não livre

Em termos de impacto na saúde popular, a diferença entre cidade e campo era mais relevante do que a distinção legal entre trabalhadores livres e escravizados. Trabalhadores livres pobres e escravizados desempenhavam funções semelhantes, especialmente em indústrias especializadas como as minas de carvão e no campo. Recebiam salários comparáveis ​​e tinham dietas semelhantes.

Os esqueletos de pessoas escravizadas parecem idênticos aos dos pobres que trabalhavam em liberdade. Essas descobertas sugerem que a escravidão em Roma não fornecia uma categoria distinta de trabalhadores para a economia romana. Embora tais semelhanças não diminuam a brutalidade da escravidão, elas mostram que a experiência do trabalho pesado não apenas tornava os trabalhadores livres e escravizados fisicamente indistinguíveis, mas também os integrava a um mesmo grupo social.

Surviving Rome nos mostra como as forças de mercado e um sistema imperial opressor forçaram os trabalhadores a se tornarem protagonistas de um ciclo vicioso e perigoso. Ao examinar esse processo, Bowes destaca como principal motor o esforço tenaz dos pobres para serem socialmente incluídos, embora reconheça que foram as estratégias de acumulação das elites que forçaram os trabalhadores a exercerem múltiplos empregos para sobreviver.

Ao discutir questões de classe, Bowes prefere as categorias de Pierre Bourdieu às de Karl Marx. No entanto, assim como ocorreu com o trabalho empírico de Bourdieu sobre o campesinato argelino, sua reconexão entre produção e consumo a partir da perspectiva de baixo para cima fortalece a mensagem do livro. Na Roma Antiga, assim como no presente capitalista contemporâneo, eram os trabalhadores que pagavam o preço por um mundo repleto de bens materiais.

Paolo Tedesco

ensina história na Universidade de Tübingen. Seus principais interesses de pesquisa incluem a história social e econômica do final da antiguidade e início da Idade Média, história agrária comparada, o destino do campesinato em diferentes tipos de sociedades e materialismo histórico.

Para refletir, não para concordar

 

MARCELO COLUSSI. Que a rua nunca ruas (e socialismo para quando?)

 

“Se não há poder popular, não há socialismo.”

Caridade Masson Sena

No que parecia uma revolução socialista, que abriu grandes expectativas em todos os lugares, a Venezuela bolivariana com Hugo Chávez na cabeça acaba sendo um protetorado grotesco dos Estados Unidos (estado número 51?), com um de seus principais líderes que diz, sem pêlos de língua, que “o socialismo acabou e vai abertamente em direção a uma economia de mercado”. Cuba, a ilha heróica que construiu um modelo socialista invejável, depois de resistir aos ataques monstruosos do império por mais de seis décadas, está prostrada em um grau quase humilhante (embargo de petróleo, dificuldade para obter comida e remédios), e um debate está sendo debatido entre aceitar a oferta de “ajuda humanitária” – com o diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), John Ratcliffe, reunindo-se em Havana com alguns de seus líderes impondo condições? – ou a invasão militar Onde está o socialismo no mundo?

A Rússia, que deu o primeiro salto revolucionário para o socialismo na história, torna-se um país capitalista, com os ex-líderes comunistas transformados nos novos empresários bilionários, enquanto um conselheiro – e arqui-milionário – diz ao presidente Putin em seu ouvido que “por nada no mundo deve ser devolvido a 1917”. China, Laos e Vietnã desenvolvem modelos de “socialismo de mercado”, com forte investimento estrangeiro (de empresas capitalistas) e promovendo economias de mercado particulares sob controle do Partido Comunista, aceitando milionários com a Rolls Royce. Eu desovo algo complexo para entender, a propósito. Socialismo com consumo de suntuário? Complicado, sem dúvida.

A Nicarágua sandinista, com sua gloriosa revolução de 1979 e a tentativa de construir um “paraíso” fora do cerco americano, é hoje uma sociedade complexa absolutamente longe do socialismo, administrada com critérios comerciais totais, com a presença do FMI e uma liderança que emula não Sandino mas, em qualquer caso, Somoza.

Rússia e China, atualmente grandes potências no econômico e militar, olham para o outro lado antes do massacre sangrento do povo palestino, bem como o miserável bloqueio de energia de Cuba; parece que eles só estão interessados em sua própria sobrevivência. Será que áreas de influência foram distribuídas com Washington?: Moscou e as repúblicas periféricas da Ásia Central, China certos setores da Ásia, incluindo Taiwan, sua hoje “província rebelde” (e o principal produtor de semicondutores do mundo). Mas então e o socialismo?

Os antigos partidos comunistas do mundo, sempre ligados à União Soviética, na sua maioria, se ainda existem, tornaram-se forças social-democratas. E muitos dos antigos movimentos de ação armada, transformados em partidos políticos dentro da instituição capitalista, não passam de retornos eleitorais pobres, sem mover massas, longe de serem vanguardas na luta revolucionária. Se em qualquer caso eles se tornam presidente, dificilmente têm agendas mornas que não modificam as estruturas socioeconômicas de seus países um ioca. Devemos esquecer as revoluções e o socialismo? “Não há alternativa”?, como disse a presidente da parasita monarquia hereditária demonstração democrática do Reino Unido, a dama de ferro Margaret Thatcher.

A atual aliança China-Rússia, com a inclusão de outros países formando o BRICS+, representa uma proposta perante o imperialismo norte-americano, mas não passa num acordo palaciano, coupular, que busca a desdolarização da economia global, embora sem superar o capitalismo. Lembremos, como diz a instituição de caridade cubana Massón Sena, que “Se não há poder popular, não há socialismo”.

“A esquerda tradicional é desarticulada. Tem mostrado total incapacidade de -pelo menos - explicar aos povos o que acontece, muito menos apontar um caminho válido para enfrentar e superar essa situação. Os mecanismos que existiram até agora mostraram total inoperabilidade, paralisada por atitudes pusilânimes, duvidosas e até covardes. É preciso articular uma proposta de longo prazo que elabora e estabelece diretrizes, instrumentos, metodologias e formas de agir nessa situação que não é favorável para os povos” (Rodríguez Gelfenstein: 2026), afirma Sergio Rodríguez Gelfenstein. É verdade. Mas, agora, somos tão tolos (e talvez, sem dúvida, incapazes, pupilares, hesitantes, inoperantes e covardes) que não podemos encontrar curso? Talvez a resposta seja um pouco mais complexa. Sem a menor dúvida de que os esquerdistas hoje não estão – digamos isso em uma primeira pessoa retumbante! – não estamos conduzindo as massas do mundo em direção à revolução socialista. Isso é mais do que óbvio, e devemos fazer um reconhecimento muito honesto disso. Mas não ficar batendo nosso peito com um mea culpa sofrido - e inoperante. A questão é que - convenhamos - ninguém sabe hoje com certeza como construir essa alternativa.

Com insight - talvez com um humor paranóico - alguém disse no início da pandemia de Covid-19 nos primeiros meses de 2020, quando começaram os bloqueios e toques de recolher, e em muitos casos com exércitos guardando as ruas, que a manobra em jogo era fabulosa, porque "sem disparar um único tiro eles conseguiram desativar todas as manifestações de 2019 ".

Tudo o que aconteceu com a crise de saúde permite uma análise interminável. É claro que já foram feitos, e certamente continuarão a ser feitos, porque haverá elementos que dão para continuar pesquisando em profundidade, já que alguns deles ainda são sugestivos. A militarização que foi vista no início da pandemia nos obriga a perguntar se isso era necessário. Não esqueçamos, no entanto, que no primeiro ano desta catástrofe sanitária mais pessoas morreram de acidentes de trabalho - falta de medidas básicas de segurança- do que pelo efeito do vírus nocivo. Talvez um medo excessivo tenha sido incutido, com soldados patrulhando (e os leões Putin libertados nas ruas da Rússia?) Toques de recolher mais militarizados. Talvez não houvesse outra maneira de manter as populações em suas casas. Mas todo o alvoroço ainda é sugestivo; portanto, a presunção indicada acima faz sentido. Por enquanto: as mobilizações do ano anterior no início da crise do coronavírus desapareceram como que por magia.

A verdade é que, por um momento, a efervescência que ocorreu no decorrer de 2019 caiu de repente. Vários países em todos os continentes haviam se mobilizado naquele ano, com concentrações populares maciças, alcançando objetivos diferentes: presidentes foram derrubados, leis foram revogadas, assembleias constituintes foram abertas, esperança foi insuflada em lutas populares. Na América Latina, Chile, Colômbia, Equador, Haiti, Honduras explodiu. Mobilizações em massa foram registradas no Iraque, Líbano, Índia, Indonésia. Outro foi o caso na África com o Egito, Argélia, Sudão, todos em protestos populares maciços. A Europa também foi mobilizada na França com os coletes amarelos, na Catalunha (Espanha), Alemanha, Itália, na República Tcheca.

Obviamente, todo esse descontentamento generalizado das populações do mundo tem causas muito óbvias, concretas e identificáveis: o sistema capitalista é a origem das dificuldades históricas em que vivem as grandes maiorias populares, aprimoradas de forma monumental pelos planos neoliberais (capitalismo selvagem sem anestesia) que foram aplicados por cinco décadas em todo o mundo.

Todas aquelas explosões de profunda agitação que foram vistas em 2019 são uma indicação de que o capitalismo não oferece saídas, e que as políticas fundomonetaristas são um câncer maligno para as populações, pior do que qualquer germe patogênico. Dizer que o neoliberalismo falhou é incorreto porque, como diz com razão o economista argentino Julio Gambina:

“Nunca foi ‘progressividade’ o objetivo da política econômica na ordem capitalista. O objetivo histórico aponta para a produção de valor e mais-valia, de lucro e acumulação, de valorização do capital investido para uma acumulação ampliada que assegure o domínio do capital sobre a sociedade como um todo” (Gambina: 2021).

Capitals estão definitivamente indo muito bem. Nesse sentido, o neoliberalismo não falhou.

Mas essas políticas deixaram cada vez mais pessoas prostradas, condenando-a ao aumento dos salários mais baixos ao renunciar a conquistas históricas do século XX, sem serviços públicos -porque tudo foi privatizado - e no meio de uma maré de livre mercado que só beneficia minúsculos grupos, que exibem suas riquezas de maneira ostensiva, beirando os impúdicos -iates de 100 milhões de dólares, enquanto muitos morrem de fome- Nessa lógica, como diz Rodríguez Gelfenstein, e ainda mais com a queda da União Soviética, é real que as esquerdas permaneçam órfãs, sem nenhum impacto real sobre as populações, sem uma proposta clara na mão. É por isso que, diante do triunfo esmagador dessas iniciativas para arqui-milionários e repressão dos bolsos - o dos corpos já havia sido feito antes - que em 2019 aquela febre global de levantes espontâneos foi desencadeada. Definitivamente, há o caminho. As redes sociais não podem mudar nada, além de se divertir um pouco; as mudanças sociais não são feitas em espaços virtuais mas nos reais, colocando o corpo.

Depois desse incêndio de 2019 vieram os bloqueios. Dito isto, não estamos de modo algum ecoando uma visão conspiratória confabulatória. A pandemia, já suficientemente demonstrada, tinha causas muito precisas. Além da mutação de um vírus, o que tão fortemente o catapultou com a maneira de abordá-lo com esses bloqueios forçados, foi a falência quase total em que os sistemas de saúde pública foram encontrados resultantes das políticas de privatização que foram feitas anos atrás. Mas mesmo durante a mesma pandemia, em 2020, os protestos continuaram. Na Colômbia os confrontos continuaram, na Guatemala a população se apagou novamente, nos Estados Unidos houve expressões de fúria popular com enormes mobilizações. Nesta circunstância, o que acendeu a raiva foi o anti-racismo histórico dessa sociedade, após a morte icônica de George Floyd (Black Lives Matter). Isso também é marcado com o crescente empobrecimento de imensos setores da agora decadente, grande potência, entre os quais a população negra é a mais atingida.

Os protestos nunca terminam (por que deveríamos acabar, se as populações continuavam com tantos precários?). Em diferentes partes do mundo estamos continuamente testemunhando demonstrações de repúdio ao sistema, de explosões de cansaço, de mobilizações indicativas de profundo desconforto. Ultimamente foram os jovens que protagonizaram aquelas ações, conseguindo renúncias de líderes, revisão de leis, melhorias nos benefícios estatais. Há ações do Sri Lanka em 2022, protestos estudantis maciços em Bangladesh em 2024, também protestos no Quênia em 2024, também na Sérvia no mesmo ano, revolta juvenil maior e massiva no Nepal em 2025. Da mesma forma, grandes manifestações estão ocorrendo contra as políticas de Donald Trump nos Estados Unidos, com milhões de pessoas protestando (No Kings). Hoje em dia, a Bolívia queima, e manifestações maciças pedem a renúncia do presidente de extrema-direita Rodrigo Paz. Tudo isso, toda aquela força popular que derrubou presidentes, por exemplo, é um indicador de que as sociedades estão cansadas das dificuldades que passam. A questão é que nenhuma dessas importantes mobilizações pode entrar em colapso no sistema capitalista.

É mais do que evidente que, sem um projeto político claro e bem definido, é impossível alterar a estrutura básica. Explosões espontâneas, por si só, não são a revolução (para isso é necessário projeto político e liderança). Hoje as esquerdas ainda estão - continuamos - à procura do caminho. Mas essas mobilizações - embora no momento, como são, não vão além das explosões viscerais, incluindo, por exemplo, a Primavera Árabe, então cooptada pela CIA - se tiverem algo importante, é que marcam a rota, dão força, ensinam que apenas as pessoas na rua - e mostrando os dentes - podem provocar mudanças. A Comuna de Paris de 1871 – que inspirou Marx a formular seu conceito de “ditadura do proletariado” – continua sendo o farol. O socialismo deve ser autogerido, com a classe trabalhadora assumindo o papel de liderança; se não, não é socialismo - como diz a epígrafe citada. Há exemplos suficientes a este respeito sobre a construção do poder popular autêntico, a única maneira de transcender o capitalismo: os sovietes dos primeiros dias na Rússia bolchevique, assembleias populares em diferentes países que vieram para a revolução socialista -cabeilos abertos em Cuba, na Nicarágua, Conselhos Populares no Vietnã-, os Conselhos do Bom Governo Zapatista em Chiapas (México), o socialismo auto-gerido dos curdos de Rojava Tudo isso é claro: a questão é como chegar a esse momento autogerido?

Hoje a direita tem a iniciativa. Mas não devemos desfalecer. As classes dominantes têm terror ao povo se mobilizando, pois sabem que existe a possibilidade de mudança; portanto, embora hoje os tempos não sejam os mais favoráveis ao campo popular, é claro que lá o fermento para ninhos revolucionários de transformação. Portanto: que a rua nunca ruas! Revoluções dando gostos e enviando memes não são revoluções.

Marcelo Colussi

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