A luta de classes não é uma invenção moderna — ela existe há milhares de anos.
Sarah Bond é professora de estudos clássicos na Universidade de Iowa e autora de “Strike: Labor, Unions, and Resistance in the Roman Empire” [Greve: Trabalho, Sindicatos e Resistência no Império Romano]. Ela contou à Jacobin como
membros das classes trabalhadoras da Roma Antiga se organizaram para
exigir melhores condições de trabalho da elite social romana.
DANIEL FINN
Quando você escreve sobre a história do Império Romano do
ponto de vista de pessoas que não pertenciam à elite social romana,
quais são alguns dos principais desafios em termos de encontrar fontes
para trabalhar?
SARAH BOND
O mais difícil é que todas as fontes que temos, com exceção de
algumas menções na literatura, vêm de coisas como papiros, inscrições e
pichações. Muitas dessas fontes são não narrativas, no sentido de que
nunca foram concebidas para contar uma história completa ou servir como
biografias de pessoas.
A forma como acessamos a história de baixo para cima se dá
predominantemente por meio desses minúsculos vestígios do passado que
podem nos fornecer janelas para observar pessoas comuns. Mas essas
centenas de papiros e cerca de 3.200 inscrições para instituições como
os collegia (associações) romanos nunca tiveram a intenção de contar a história completa.
Parte disso envolve retornar a uma espécie de colcha de retalhos que
fornece uma história e uma narrativa maiores. É difícil juntar todas
essas peças da colcha e costurá-las em uma narrativa coesa sobre Roma.
A história vista de baixo pode nos dar muitas micro-histórias, mas
transformá-la em uma macro-história mais ampla pode ser desafiador,
porque as próprias evidências vêm em pedaços que não necessariamente nos
dão o panorama completo. É preciso um historiador criativo para tentar
reunir todas as evidências e criar algum tipo de história a partir
delas.
DF
Quando falamos do Império Romano, é óbvio que ele durou
vários séculos e cobriu um vasto espaço geográfico, com as fronteiras
desse espaço mudando ao longo do tempo. Podemos fazer generalizações
sobre a natureza do trabalho e as condições sociais da maioria da
população que vivia sob o domínio romano? Quais foram algumas das
principais tendências e padrões que podemos identificar?
SB
É muito difícil generalizar sobre cada trabalhador ou sobre toda a
força de trabalho, mas é importante compreender tendências como o
trabalho servil. Houve um grande aumento no trabalho escravo,
especialmente no século II a.C., durante a República Romana, e ele
continuou a aumentar até o século II d.C. Compreender o trabalho escravo
em particular é muito importante para compreender as reações da força
de trabalho e as condições de trabalho.
Além de entender a escravidão, que em lugares como a Itália podia
atingir até 25% da população trabalhadora, também temos que entender
coisas como a alforria — que tipos de pessoas eram alforriadas do status
de escravizadas para se juntarem à sociedade como cidadãos?
“Havia muito preconceito em Roma contra o que
em grego são chamados de trabalhadores banáusicos — isto é,
trabalhadores braçais.”
Podemos observar que a escravidão aumentou, assim como a alforria, do
final da República até o início do Império. Mas, em geral, é importante
entender que a elite romana continuou cultivando preconceitos,
especialmente em relação ao trabalho manual, que eram muito perniciosos e
se infiltraram na legislação, na literatura e na maneira como tratavam
os trabalhadores.
Havia muito preconceito contra o que em grego se chama de
trabalhadores banáusicos — isto é, trabalhadores braçais. Eles tinham
que se opor constantemente à ideia de que aqueles que trabalhavam com as
mãos buscavam o quaestus, que em latim significa lucro. Havia a visão de que, se você vivesse em prol do quaestus,
criando cerâmica, trabalhando em uma mina ou como operário da
construção civil, o desejo por lucro e salários o impulsionava, e não,
por exemplo, o amor pela literatura ou pelo seu país.
Embora não possamos dizer que todos os trabalhadores eram x ou y,
havia milhões de artesãos e artífices diferentes em todo o Mediterrâneo
que trabalhavam com as próprias mãos e lutavam contra uma forma de
preconceito vinda de cima. Esse preconceito vinha de pessoas como
senadores e cavaleiros, que representavam cerca de 1,5% da população
total.
Eram eles que frequentemente expressavam por escrito reações muito
estereotipadas e tendenciosas aos artesãos — pessoas como Cícero ou
Juvenal, ou mesmo os juristas do direito romano, que falavam dos
trabalhadores de forma muito negativa. Embora eu não possa fazer
generalizações sobre todos os trabalhadores da Roma Antiga, havia um
orgulho incrível entre os próprios trabalhadores, que tiveram que lutar
contra o preconceito da elite que perdurou por centenas de anos.
DF
Se pensarmos na própria cidade de Roma, a ideia de uma
divisão entre patrícios e plebeus é um tema familiar. As pessoas podem
pensar na peça Coriolano, de Shakespeare, sem mencionar as palavras iniciais do Manifesto Comunista.
Quanto dessa imagem da divisão entre patrícios e plebeus é de fato
baseada em fatos, e como essa divisão se compara às divisões de classe
nos tempos modernos?
SB
No Manifesto Comunista, há um foco em algo chamado Luta de
Classes. Esta foi uma luta que durou mais de duzentos anos entre dois
grupos de pessoas chamados patrícios e plebeus. Para Karl Marx e
Friedrich Engels, os plebeus constituíam uma classe — um grupo de
pessoas que compartilhavam relações comuns com o trabalho e os meios de
produção. Essa seria a ideia moderna de classe.
“Os plebeus vinham de diferentes níveis econômicos e tinham diferentes maneiras de trabalhar e servir a República Romana.”
No entanto, o que sabemos sobre os plebeus hoje é que eles realmente
não constituíam uma classe no sentido marxista. Os plebeus vinham de
diferentes níveis econômicos e tinham diferentes maneiras de trabalhar e
servir à República Romana. Precisamos entender que os plebeus e os
patrícios eram, na verdade, grupos com suas próprias hierarquias e
divisões internas.
Os patrícios eram os patres originais — as famílias de Roma
quando ela foi fundada — enquanto os plebeus eram todos os outros. Não
se tratava de um grupo econômico único. Nem todos os plebeus eram
pobres, nem todos eram ricos, ou o que poderíamos considerar um grupo
mediano de pessoas. Não havia coesão em termos de compartilhamento de
experiências comuns de trabalho ou uma relação compartilhada com os
meios de produção.
Quando olhamos para a Luta de Classes na Roma Antiga, Marx e Engels
estavam corretos ao dizer que havia dentro do grupo plebeu quem optasse
por se recusar ao alistamento militar como forma de pressionar por
melhores condições de vida e assegurar representação no governo, por
exemplo, como magistrados. Eles utilizavam a ação coletiva de uma forma
muito atraente para filósofos e teóricos marxistas.
Ao mesmo tempo, porém, eles tinham razões diferentes para se absterem
de trabalhar, ocupar o Monte Janículo ou se recusar a servir no
recrutamento militar. É importante falar sobre os patrícios e os
plebeus, porque eles são familiares para muitas pessoas que leram sobre a
Luta de Classes naquela época. Mas, quando falamos dos plebeus,
tratava-se de uma categoria que ia desde oficiais militares de alta
patente até os agricultores mais pobres, que estavam em servidão por
dívidas na época. Não era, de forma alguma, um grupo de pessoas com
interesses econômicos semelhantes.
DF
Qual proporção da força de trabalho era composta por pessoas
que haviam sido escravizadas? Essa proporção variou ao longo do tempo?
Quais seriam as implicações da escravidão, mesmo para aqueles que não
haviam sido escravizados?
SB
Os escravizados geralmente vinham da expansão romana e de
prisioneiros levados pelo exército romano. Mas suas fileiras também eram
complementadas por aqueles que viviam em famílias e tinham filhos
nascidos na escravidão dentro de um domicílio romano. Sabemos que cerca
de 60% dos escravizados neste vasto império de cerca de setenta milhões
de pessoas, em seu auge, trabalhavam em contexto rural, enquanto o
restante trabalhava em contexto urbano.
“Em um mundo agrícola, onde você estava
constantemente trabalhando nos campos, isso significava que muito
provavelmente passaria quase toda a sua vida escravizado.”
Considerando aqueles nas cidades, nove em cada dez provavelmente
seriam alforriados no futuro, mas apenas um em cada dez escravos
agrícolas rurais seria alforriado. Fazia uma grande diferença se você
fosse designado para trabalhar no campo ou em um contexto doméstico,
como professor de crianças, por exemplo, ou como estenógrafo,
bibliotecário ou babá. Todos esses empregos tinham pelo menos uma
probabilidade maior de alforria, o que de forma alguma valida a
escravidão nem a torna eticamente correta, é claro. Mas em um mundo
agrícola, onde você trabalhava constantemente no campo, isso significava
que, com toda a probabilidade, passaria quase toda a sua vida
escravizado.
Havia tensão entre os trabalhadores escravizados no mundo da
agricultura e muita animosidade contra os escravizados que trabalhavam
em contextos domésticos. Mas, no geral, Roma era uma sociedade
escravista que dependia fortemente da mão de obra escravizada para
prosperar. Os cidadãos de Roma, especialmente na Itália e na própria
cidade de Roma, eram altamente dependentes tanto de escravos quanto de
pessoas livres para realizar grande parte do trabalho manual que eles
próprios não queriam fazer.
DF
Você fala sobre o papel das associações como forma de ação
coletiva entre a população trabalhadora na Roma Antiga. Qual era a
natureza dessas associações em suas diversas formas e como funcionavam
como formas de ação coletiva?
SB
Associações existiram em todo o Mediterrâneo durante o período desde a
morte de Alexandre até a coroação de Carlos Magno. Temos evidências de
cerca de 3.200 tipos diferentes de grupos e associações. Todos tinham
características e propósitos diferentes, e eram conhecidos por muitos
nomes distintos.
O nome mais popular era collegium, de onde vem a palavra moderna “colégio”, mas também temos outros nomes como ecclesia em
grego, por exemplo. Todos esses são nomes diferentes para grupos de
pessoas que se reuniam para adorar um deus, servir (por exemplo) como
carpinteiros ou ourives, ou enterrar os mortos.
“Assim como os sindicatos modernos, os collegia poderiam usar sua experiência e natureza profissional para conseguir melhores contratos ou obter certos benefícios especiais.”
É como hoje, onde as pessoas têm diferentes grupos aos quais
pertencem e com os quais se identificam. Você pode ter múltiplas
filiações dentro deles. Às vezes, esses grupos se tornam entidades
políticas, e às vezes são apenas grupos para beber, onde vocês se reúnem
no bar local e tomam vinho ou cerveja juntos.
Os romanos não eram diferentes. Eles adoravam socializar — adoravam
ter clubes. Mas meu livro se concentra na ideia de que esses collegia,
em certos momentos, podiam usar suas capacidades e especialidades
coletivas para obter melhores salários ou melhores ambientes de
trabalho, e também para melhorar seu status dentro da cidade em que
viviam. Assim como os sindicatos modernos, os collegia podiam usar sua expertise e natureza profissional para obter melhores contratos ou certos benefícios especiais do imperador.
DF
Você poderia nos dar alguns exemplos de ação coletiva e protesto popular ao longo da história romana?
SB
As evidências que temos sugerem que greves e ações coletivas não eram
tão frequentes no mundo antigo como são hoje. Não quero promover a
ideia de que todos os dias havia uma greve em larga escala. Mas, em
certos períodos, temos evidências de grupos formais e informais usando
seu poder e a necessidade que o Estado tinha deles para tentar melhorar
suas condições de trabalho.
O exemplo mais famoso é o que já discutimos: a Luta de Classes e as
várias secessões da plebe. Essas secessões eram boicotes com outro nome.
Embora o termo “greve” só tenha sido cunhado no século XVIII, podemos
observar as mesmas formas de comportamento que associamos a greves e
boicotes acontecendo na Antiguidade.
Os plebeus aproveitaram-se da necessidade do exército romano para
expandir o alcance imperial romano. Eles se retiraram nessas secessões
em vários momentos — houve quatro, cinco ou talvez até seis secessões,
dependendo do autor que você estiver lendo.
Também analiso alguns exemplos menos conhecidos de greves e ações
coletivas por volta de 200 d.C. Na cidade de Éfeso, temos um caso de
padeiros que foram instruídos pelo governador da Ásia a interromper suas
reuniões de grupo. Foi-lhes dito que não poderiam reter pão e que
deveriam manter a ordem na cidade. Podemos deduzir, a partir da
inscrição que nos conta sobre esse episódio, que os padeiros
provavelmente estavam aumentando o preço do pão ou retendo seu pão para
obter melhores preços ou um contrato mais vantajoso com o governo
romano.
Nesse caso, temos o governador da Ásia intervindo e dizendo: “Vocês
precisam acabar com esse comportamento como facção ou associação”. Esses
padeiros parecem ter tentado usar seu monopólio sobre o pão, que
representava uma proporção muito grande das calorias da dieta consumida
pela maioria dos romanos, que comiam pão todos os dias.
As autoridades estavam dizendo a eles que não podiam reter pão
coletivamente ou aumentar os preços. Vivemos um período de hiperinflação
global, então provavelmente todos nós podemos entender por que o
governador estava tentando impedir que os padeiros praticassem aumentos
abusivos de preços em busca de mais dinheiro e melhores contratos.
Também temos papiros que nos contam como mulheres comuns e
trabalhadores escravizados de oficinas têxteis no Egito, por exemplo,
praticavam greves. Recusavam-se a trabalhar até receberem salários mais
altos. Até mesmo grupos informais de trabalhadores têxteis, que talvez
não se reunissem como um colegiado formal, podiam decidir que fariam uma
greve.
O exemplo mais significativo no livro é provavelmente algo que
aconteceu no final do século III, quando os trabalhadores da casa da
moeda sob o reinado de Aureliano se recusaram a cunhar moedas e se
trancaram na casa da moeda romana. Eles estavam retendo algo muito
importante — as moedas de ouro, prata e bronze que circulavam como meio
de pagamento no mundo romano.
É importante dizer que não são apenas os trabalhadores e sindicatos
modernos que conseguem utilizar o poder da ação coletiva em benefício
próprio. A economia antiga não era primitiva de forma alguma — era uma
economia de mercado integrada. Os trabalhadores dessa economia
frequentemente reconheciam seu valor e sabiam que possuíam as
capacidades e o conhecimento necessários para suspender seu trabalho e,
assim, viver em melhor situação no futuro.
DF
Se as pessoas pensarem em conflitos sociais no mundo antigo, o
episódio com o qual provavelmente estão familiarizadas é a revolta
liderada por Espártaco. Como essa revolta se desenvolveu e quais foram
seus legados para períodos posteriores da história romana?
SB
A rebelião de Espártaco é certamente a mais conhecida de todas as
rebeliões que temos em toda a história do mundo antigo. Dentro de seu
próprio contexto, foi entendida como um esforço para repelir um agitador
chamado Espártaco, originário da região da Trácia. Em 73 a.C., ele
liderou uma rebelião em sua escola de gladiadores no sul da Itália.
“A rebelião de Espártaco é certamente a mais conhecida de todas as rebeliões que temos em toda a história do mundo antigo.”
Este é um ponto que o filme de Stanley Kubrick de 1960 acerta. A
família dos gladiadores era a menor unidade social para essas tropas de
gladiadores. As famílias de gladiadores eram essencialmente tropas
escravizadas que tinham suas próprias hierarquias. Espártaco mobilizou
sua própria tropa e eles invadiram a cozinha, usando utensílios para dar
início ao desafio original contra o acampamento de gladiadores.
Eles começaram a viajar pelas regiões da Itália até a região do Monte
Vesúvio, depois para o norte, até os Alpes, e depois para o sul
novamente. Conseguiram cada vez mais pessoas seguindo esse pequeno grupo
que havia iniciado a revolta. Estamos falando de uma mudança de algo
entre sete e quarenta pessoas nessa família menor para cerca de cem mil
seguindo Espártaco na rebelião.
Quero fazer uma distinção clara aqui entre muitos dos episódios que
menciono no livro e a revolta liderada por Espártaco, porque o objetivo
final de Espártaco não era voltar a trabalhar. Ele não planejava voltar
para a escola de gladiadores e receber salários maiores de seus
captores. Seu objetivo final e o das centenas de milhares de pessoas
escravizadas que o seguiam era conquistar sua própria liberdade.
Eles não buscavam a abolição da escravidão em larga escala em todo o
Mediterrâneo. Não temos evidências de que essa fosse uma de suas
reivindicações. Eles simplesmente queriam se libertar e nunca mais
retornar à escravidão. Para os collegia, poder suspender seu
trabalho para eventualmente retornar ao trabalho era um tipo de tática
muito diferente de uma rebelião em busca de liberdade, cujo objetivo
final era a liberdade.
Embora Espártaco não tenha obtido sucesso, ao final da guerra, em 71
a.C., ele já havia espalhado ondas de terror por toda a República
Romana. Eles temiam que esses gladiadores pudessem se tornar milícias
muito eficazes quando se unissem e formassem o que hoje poderíamos
chamar de exército. Isso era especialmente ameaçador para os senadores
em Roma.
Como resultado, eles começaram a desmantelar as diversas tropas e
escolas de gladiadores, afastando-as da cidade de Roma para que
representassem uma ameaça menor. A rebelião de Espártaco é muito
importante de entender, não apenas porque inspirou uma série de outras
rebeliões em menor escala pelo Mediterrâneo, mas também porque criou um
espectro que continuou a perseguir os senadores.
Eles temiam que, se tivessem uma tropa de gladiadores muito grande,
ou se ela caísse nas mãos do político errado, ela poderia ser
transformada em milícias e guarda-costas pessoais, de maneiras que de
fato aconteceram mais tarde na história da República.
DF
Na história posterior do Império Romano, assistimos à
ascensão do cristianismo, inicialmente como uma religião proibida e,
posteriormente, como uma fé oficial. Que implicações o cristianismo teve
para a maneira como as pessoas pensavam sobre o trabalho e sobre a
ordem social em geral?
SB
Muitos dos cristãos que foram elevados a altos cargos depois que
Constantino promoveu o status do cristianismo e ajudou a torná-lo lícito
vieram de origens romanas muito tradicionais. Eles continuaram a ter os
mesmos preconceitos em relação ao trabalho manual que existiam antes.
Podemos observar mudanças nos tipos de trabalho permitidos no Império
Romano. Por exemplo, começamos a ver a proibição do trabalho sexual,
porque as ideias cristãs sobre o assunto eram muito diferentes das
ideias romanas anteriores de que deveria ser legal. Bordéis eram
bastante comuns nas cidades romanas. Esse é o melhor exemplo de como o
cristianismo transformou o trabalho e a mão de obra.
Mas também tínhamos novos tipos de trabalho em lugares como
mosteiros, onde monges, homens e mulheres, faziam trabalhos manuais.
Havia a crença de que o trabalho manual a serviço de Deus e da piedade
era muito mais aceitável do que o trabalho manual em busca de lucro
individual.
“Muitas das ideias do cristianismo começaram a se infiltrar na filosofia do trabalho no final do Império Romano.”
Muitas das ideias do cristianismo começaram a se infiltrar na
filosofia do trabalho no final do Império Romano. Os monges tinham
liberdade para realizar seu trabalho banáusico porque o faziam para
Deus, da mesma forma que os artistas de mosaico que trabalhavam em
igrejas recém-construídas eram vistos como magnificadores da glória de
Deus.
Muitos clérigos ainda desprezavam o que poderíamos chamar de
trabalhadores braçais e certamente não promoviam a ideia de que os
trabalhadores deveriam estar nos escalões mais altos da Igreja Cristã. O
esnobismo em relação aos trabalhadores que vimos em pessoas como Cícero
ainda se perpetuou até o final do Império Romano e também no início do
período medieval.
Gostaríamos de acreditar que o cristianismo mudou a percepção do
trabalho, e que agora todas as pessoas se tornariam curtidoras de couro,
como o apóstolo Paulo, por exemplo. Mas a realidade é que muitos dos
preconceitos e esnobismos que víamos antes se perpetuaram até o período
medieval e além.
DF
Se observarmos a história da Europa Medieval e Moderna,
podemos encontrar vários exemplos de pessoas das classes pobres e
trabalhadoras que imaginavam um tipo de sociedade completamente
diferente, sem propriedade privada. Elas frequentemente se referiam a
textos cristãos e à história inicial do cristianismo para basear essa
visão. Há alguma evidência desse tipo de pensamento milenarista na Roma
Antiga?
SB
Frequentemente, as evidências que temos em relação à filosofia do
trabalho vêm da literatura da elite. Temos exemplos de indivíduos das
classes empobrecidas que imaginavam um tipo diferente de sociedade, mas a
maioria deles não se rebelava contra o Império Romano e não registrava
seus sentimentos ou planos.
No entanto, em vários momentos da história romana, houve petições ao
imperador que nos dizem muito sobre a sociedade e as condições que
muitos trabalhadores desejavam ver. Temos várias petições do final do
século II d.C. Elas vêm da África e de pessoas que hoje chamaríamos de
camponeses.
Eles faziam petições diretamente ao imperador, dizendo que queriam
melhores condições e não queriam ser menosprezados, já que eram eles que
forneciam o suprimento de grãos para o pão gratuito distribuído em
Roma, Constantinopla e outros lugares. Quando olhamos para petições como
essa, ou outras petições ao imperador vindas dos técnicos de
Dionísio, por exemplo, eles nos sinalizavam que tinham orgulho do
trabalho que realizavam e queriam ver mudanças na forma como eram
tratados pelas elites.
Podemos ver rebeliões individuais que chegaram às centenas, e às
vezes aos milhares, durante o período da Antiguidade Tardia, vindas de
pessoas como as facções circenses de Constantinopla. Mas, no geral, não
obtemos muitas informações diretas das pessoas sobre a sociedade ideal
que elas gostariam de ter.
“Uma das coisas importantes sobre o estudo dos collegia é reconhecer que eles proporcionavam uma oportunidade de prestígio e status em um nível muito pequeno.”
No entanto, muitos dos epitáfios para artesãos e trabalhadores nos
dizem que eles acreditavam no que faziam e que amavam o status que
tinham, não apenas como artesãos, mas também dentro de seu collegia.
Muitos deles mencionaram o fato de pertencerem a associações
profissionais, de modo que, mesmo que não conseguissem obter status
dentro do Império Romano, poderiam obtê-lo dentro de seu clube ou
associação individual.
Um dos aspectos importantes sobre o estudo dos collegia é
reconhecer que eles proporcionavam uma oportunidade de prestígio e
status em um nível muito pequeno. Isso dava às pessoas um senso de
identidade e individualidade que jamais poderiam ter alcançado em todo o
Mediterrâneo Romano. Essas pessoas jamais seriam senadoras ou
cavaleiros. Mas podiam se tornar presidentes de seus clubes ou
secretárias de seus collegiums.
DF
Que tipo de esperança você tem sobre a maneira como a
pesquisa que fez pode alterar a percepção das pessoas sobre a história
romana?
SB
Um argumento que meu livro tenta apresentar é a ideia de que a
história comparada é muito importante. Na década de 1980, Moses Finley,
historiador da Antiguidade e teórico da economia romana, encontrou-se
com um homem chamado Orlando Patterson, que ainda é professor emérito de
sociologia em Harvard. Tomaram um café juntos em Cambridge e
conversaram sobre um livro que Patterson estava preparando, chamado “Slavery and Social Death” [Escravidão e Morte Social].
Este livro se tornou extremamente importante para nossa compreensão
da escravidão, porque Patterson analisou sessenta e seis sociedades
escravistas diferentes e disse: “Estas são as semelhanças, estas são as
continuidades, estas são as nuances e estas são as diferenças”. Seu
estudo sobre a morte social reuniu historiadores da pré-modernidade, do
mundo medieval e do mundo moderno em um diálogo.
O que peço com este livro não é que você aceite que todos os collegiums
eram sindicatos, o que não era o caso. Quero encorajar as pessoas a se
reunirem e estabelecerem diálogos entre o mundo antigo e o mundo
moderno. Com muita frequência, os economistas modernos pensam que a
história com a qual precisam se envolver começa com a Revolução
Industrial e progride a partir daí.
Trazer a história romana para o debate e afirmar que os trabalhadores
romanos tinham a capacidade de se comportar de maneira semelhante aos
sindicatos modernos é uma forma de criar pontos em comum. Mas também é
uma forma de compreender o comportamento e a experiência vivida dos
trabalhadores, e as maneiras pelas quais a ação coletiva pode nos
beneficiar hoje.
é editor adjunto da New Left Review. Ele é autor de "One Man’s Terrorist: A Political History of the IRA".
Sarah Bond
é professora associada de estudos clássicos no Departamento de
História da Universidade de Iowa. É autora de "Greve: Trabalho,
Sindicatos e Resistência no Império Romano".