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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

 

O TERRORISMO, A FDLPALESTINA E A FESTA DO AVANTE

Como se sabe (às vezes não dá jeito ter presente) ao longo da História os que foram apelidados de terroristas acabaram no poder.  Cristo foi crucificado por ser considerado um subversivo. Hoje está no coração de milhares de milhões de cidadãos. Espartaco, o escravo que liderou a luta pela libertação do esclavagismo, foi considerado terrorista pelo Império romano e crucificado.  O indiano Mahatma Gandi, o apóstolo da não-violência, era um terrorista para a monarquia britânica. Nelson Mandela era considerado pelo regime sangrento do apartheid terrorista e esteve preso 27 anos. Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Eduardo Mondlane e Samora Machel eram considerados pelo fascismo português terroristas. Assim como os dirigentes da FNL da Argélia eram igualmente tidos como terroristas pelos colonialistas franceses. Os independentistas do futuro EUA eram terroristas para o Império britânico. Os exemplos encheriam páginas e páginas.

Um Estado que ocupa o território de outro país legitima a luta político-militar contra essa ocupação. Por isso, os lusitanos se bateram com tudo o que tinham à mão contra o império romano. Por isso, os portugueses pegaram em armas para expulsar os franceses durante as invasões napoleónicas. Por isso, o direito internacional considera legal a luta de libertação nacional contra a ocupação.

Israel é um Estado fora da lei que ocupa contra Resoluções do Conselho de Segurança da ONU territórios palestinianos, Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Leste. Contra esta ocupação o povo palestiniano através de ampla frente, a OLP, combate a ocupação colonial sionista. A OLP englobou a Fatah, a FDLP, a FDLP entre outras. Granjeou um enorme prestígio e para a combater, Israel e a CIA criaram o Hamas, fornecendo-lhe armas e tudo o que consideraram importante para minimizar o apoio dos palestinianos a Yasser Arafat e à OLP.

Pode discutir-se as formas de luta, mas não se pode esconder o sol com a peneira, Israel pratica o pior terrorismo, o terrorismo de Estado. Por isso está cometendo um genocídio dos palestinianos em Gaza, 73 000 mortos, dos quais 20 000 crianças. Este é o terrorismo sionista que tem o apoio dos EUA e UE, (exceção de Sanchez) tal como o regime do apartheid teve.

A alegação de que a FDLP é uma organização terrorista, com quem tive múltiplos encontros em Lisboa, e por todo o mundo, mostra a vergonha da hipocrisia ocidental. A FDLP luta contra a ocupação israelita e é justo, legítimo e legal que a uma ocupação armada se lute com armas, como toda a gente sabe.

Quando um partido tem relações com outros partidos não quer dizer que esteja de acordo com todas as políticas do convidado. Porém, um país quase milenar, como Portugal, não pode curvar-se diante dos mandões ocidentais que criaram toda a espécie de terroristas desde os talibans, à Al Qaeda e ao islamista no poder na Síria que lutou com armas contra as organizações patrióticas do Médio-Oriente e foi posto na presidência pelo Sultão Erdogan e o decadente imperador de Washington.

A eventual recusa a dar visto a uma delegação da FDLP é um ato inamistoso para com o povo palestiniano e uma vergonhosa submissão aos interesses das potências ocidentais dominantes que em data não muito distante irão ter relações diplomáticas com um Estado palestiniano livre e independente porque em 2026, apesar de todas as dificuldades, os povos, submetidos a uma ocupação estrangeira, em luta, acabarão por vencer, como vimos em Timor-Leste e noutros países, designadamente em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo-Verde, S.Tomé e Príncipe.

Claro que os sionistas farão toda a chantagem para que ativistas palestinianos não noticiam os crimes do terrorismo de Estado dos dirigentes israelitas que abrem garrafas de champanhe pela aprovação da lei que prevê o enforcamento dos combatentes palestinianos ou pela construção de uma prisão para palestinianos com uma cerca cheia de crocodilos para impedir fugas. A loucura naquele país atingiu tal nível que um tribunal impediu a instalação dos crocodilos porque são uma espécie em perigo…

O Portugal democrático deve ter voz própria para que os portugueses possam ter acesso às mais diferentes posições em confronto no território ocupado da Palestina pelas tropas de Netanyahu. Com toda a tranquilidade.

O terrorismo, a FDLPalestina e a Festa do Avante! | Opinião | PÚBLICO

 A CARTA 

«Um grupo de 23 intelectuais do Ocidente assinaram uma carta aberta em repúdio à República Islâmica do Irã, com mensagem que coloca no mesmo patamar o caráter imperialista dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao país persa e as denúncias de violações aos direitos humanos de presos políticos no país persa. Entre os signatários estão grandes figuras progressistas como Angela Davis, Michael Löwy e Judith Butler.

Sob uma visão ocidental, os intelectuais afirmam que Teerã “utiliza a mesma lógica de dominação e sistemas de encarceramento, tortura e execução” e classificando o Irã como um país que “desde sua origem, impôs um controle social e político absoluto baseado em uma ideologia excludente”.» in Opera Mundi, São Paulo

A Carta na íntegra :

« 

Aos presos políticos do Irã, encurralados “entre as lâminas de uma tesoura”

De um lado, vocês se deparam com o domínio da República Islâmica; do outro, com as forças imperialistas contra as quais essa república afirma lutar

Agosto marca o aniversário das execuções em massa de 1988 no Irã, um horror que ressoa no atual aumento das condenações à morte no país. Também marca o aniversário, em 19 de agosto, do golpe orquestrado pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos contra o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh em 1953. Em meio às atuais ondas indiscriminadas de ataques militares israelenses e norte-americanos contra o Irã, esta carta de solidariedade denuncia a repressão ao povo iraniano e a seus presos políticos por forças tanto internas quanto externas.

Aos nossos companheiros ativistas, estudantes, pensadores, trabalhadores, artistas e demais prisioneiros de consciência detidos atrás dos muros de todos os centros de detenção do Irã:

Escrevemos a vocês com profunda solidariedade, com o coração pesado pela consciência da luta que enfrentam nas prisões iranianas: a tortura, a negligência sistemática, o silêncio imposto e a brutal realidade de julgamentos e execuções simuladas. Como ex-prisioneiros e prisioneiros políticos, ativistas e acadêmicos comprometidos com o projeto global de abolição, anti autoritarismo e anti imperialismo, vemos vocês através das distâncias geográficas e do silêncio da censura e dos bloqueios da internet. E nos solidarizamos com vocês, pois estão na encruzilhada de duas fontes de opressão.

De um lado, vocês enfrentam a República Islâmica que, desde sua origem, impôs um controle social e político absoluto baseado em uma ideologia excludente. É um sistema que alega combater o poder imperial, enquanto utiliza a mesma lógica de dominação e sistemas de encarceramento, tortura e execução. Do outro lado, vocês lidam com as agressões e a violência das mesmas forças imperialistas e sionistas que a República Islâmica afirma combater. Os Estados Unidos e Israel instigam guerras brutais, destroem infraestrutura civil, matam meninas inocentes em idade escolar e tratam você como dano colateral em sua busca por domínio regional. Lembramos o horror de 23 de junho de 2025, quando Israel atacou o complexo penitenciário de Evin, arrasando a ala hospitalar, a seção para transgêneros e o centro de visitantes. Vocês expuseram essa dupla opressão da melhor forma quando expressaram o que se sente “estar preso entre as duas lâminas de uma tesoura: o regime maligno que o aprisiona e tortura e uma força estrangeira que lança bombas sobre suas cabeças em nome da liberdade”.

No último ano, testemunhamos o afiar das duas lâminas da tesoura. Vemos prisões arbitrárias e a onda horrível de execuções estatais. Vemos a crescente criminalização da classe trabalhadora e dos desempregados, a perseguição a curdos, árabes e balúchis, e a busca por bodes expiatórios entre os migrantes afegãos: todas tentativas desesperadas de matar o espírito de pessoas que não conseguem conter. Essa é a lógica dos estados carcerários em todo o mundo: quando falham em lidar com as crises que as pessoas enfrentam, simplesmente tentam criminalizar ou fazer com que as próprias pessoas desapareçam.

Vemos a mesma lógica de dominação quando Israel usa a “detenção administrativa” para manter presos políticos palestinos por anos sem acusação formal. Vemos isso quando as autoridades israelenses celebram uma nova lei que lhes permite executar os presos políticos palestinos que não conseguem dominar. Vemos isso nos centros de detenção do ICE, onde o governo dos Estados Unidos aprisiona nosso povo em busca de uma agenda política de exclusão racista ou detém nossos ativistas políticos por ousarem se manifestar contra o genocídio israelense apoiado pelos Estados Unidos. Vemos isso na história dos Estados Unidos, contra lutadores pela liberdade, particularmente negros, indígenas, porto-riquenhos e outros organizadores anticoloniais, encarcerando-os por décadas para esmagar movimentos de libertação e soberania nacional. E vemos as conexões entre esses sistemas carcerários, que compartilham informações e técnicas de governança, como quando a prisão USP Marion, em Illinois, se tornou um modelo para prisões construídas no Irã e em Israel na década de 1960. Seja um muro na fronteira ou um portão de prisão, o objetivo é o mesmo: silenciar as pessoas por meio do medo, da dominação e do isolamento.

A sua luta é tão global quanto os nossos sonhos coletivos de liberdade e dignidade. Estamos com vocês e rejeitamos a falsa dicotomia entre imperialismo e anti imperialismo vazio. Convidamos a sociedade civil global e os ativistas e organizações anti imperialistas a estenderem seu apoio e solidariedade incondicionais a todos os nossos irmãos e irmãs encarcerados que lutam pela nossa libertação coletiva, a construírem relações com os presos políticos iranianos e a amplificarem suas vozes, a pressionarem a República Islâmica desafiando sua narrativa e a exigirem que o governo cesse imediatamente todas as execuções e liberte todos os presos políticos.

As autoridades iranianas devem cessar imediatamente sua prática desumana de morte e encarceramento. E os Estados Unidos e Israel devem pôr fim às suas guerras bárbaras e sanções brutais que devastam nossas comunidades de forma consciente.

Em solidariedade e com amor,

Alberto Toscano, professor emérito de teoria crítica, Goldsmiths, Universidade de Londres

Angela Davis, ex-presa política, professora emérita ilustre da Universidade da Califórnia, Santa Cruz

Bernardine Dohrn, professora aposentada de Direito, Universidade Northwestern

Bill Ayers, professor, College Unbound

Cherríe L. Moraga, professora emérita da Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, escritora feminista e ativista

Dan Berger, professor de estudos étnicos comparativos, Universidade de Washington Bothell

Hossam el-Hamalawy, socialista egípcio, acadêmico e ex-preso político

Jairus Banaji, historiador, pesquisador e professor, Universidade de Londres

Jason Stanley, professor de Filosofia, Universidade de Toronto

Judith Butler, professora titular da Escola de Pós-Graduação da Universidade da Califórnia, Berkeley

Keeanga-Yamahtta Taylor, autora de From #BlackLivesMatter to Black Liberation e professora de Estudos Afro-Americanos na Universidade de Princeton

Michael Löwy, diretor emérito de pesquisa de sociologia do Centro Nacional de Pesquisas Científicas, Paris

Michael Mansfield, advogado de direitos humanos e liberdades civis

Mumia Abu-Jamal, atual prisioneiro político, educador, jornalista e ativista

Nadia Abu El-Haj, professora de antropologia, Barnard College, Universidade de Columbia

Rashid Khalidi, professor emérito Edward Said de Estudos Árabes Modernos, Departamento de História, Universidade de Columbia; presidente do Instituto de Estudos Palestinos

Ricardo Jiménez, ativista social, ex-preso político porto-riquenho

Robin DG Kelley, professor emérito de história, Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA)

Ruha Benjamin, professora de Estudos Afro-Americanos, Universidade de Princeton

Ruth Wilson Gilmore, Centro de Pós-Graduação, Universidade da Cidade de Nova York (CUNY)

Sinan Antoon, professor associado de literatura árabe na Universidade de Nova York, romancista e poeta

Walden F Bello, professor adjunto internacional de sociologia, Universidade Estadual de Nova York em Binghamton

Yasin al-Haj Saleh , escritor sírio, dissidente político e ex-prisioneiro político na Síria

A análise do fascismo está no núcleo atual da filosofia da política

 FASCISMOS SEM CAMISAS CASTANHAS, NEGRAS OU VERDES

«Trump conseguiu chegar ao poder explorando uma estrutura de sentimentos — uma profunda alienação da modernidade capitalista. Ele é o perfeito empreendedor do ressentimento, tanto como produtor quanto como representante. E a esquerda ainda não encontrou uma resposta eficaz e duradoura para esse fenómeno. (Valerie Plesch/Bloomberg via Getty Images)»
“O fascismo estadunidense seria… correspondentemente democrático à maneira estadunidense.”
— Bertolt Brecht, Diários
« a extrema-direita atual não é verticalmente integrada, mas efetivamente descentralizada, funcionando mais como um enxame do que como uma formação de combate. Além disso, exibe uma banalidade perigosa: ao contrário de seus predecessores do século XX, ela se desenrola de acordo com as regras da democracia eleitoral e no âmbito cotidiano. A propaganda fascista é praticamente onipresente em plataformas de mídia social como o X e cada vez mais proeminente na cultura pop. Na Espanha, um remix do hino falangista Cara al sol chegou ao topo das paradas do Spotify, enquanto na Alemanha, jovens ricos e skinheads se divertem entoando slogans xenófobos ao som do hit eurodance do DJ italiano Gigi D’Agostino, L’amour toujours. O fascismo atual dança conforme a música da democracia.»Oliver Nachtwey e Carolin Amlinger, in Jacobin

 
Na Itália de Meloni a coligação de extrema-direita não eliminou as instituições e exime-se de exibir militarismos e colonialismo (ainda?), na França de Le Pen o fascismo ascende com pezinhos de lã sem a truculência obscena do Chega, idem aspas para Espanha aqui ao lado.
Haverá vários fatores locais que expliquem e um traço comum da época que mal atravessamos, porém fica bem claro, julgo eu, que, não existindo à esquerda perigo iminente de insubmissão geral, as oligarquias dominantes sentem-se seguras. Logo que possam e queiram eliminam a própria democracia parlamentar ex-liberal no ventre da qual se incubaram. A mais violenta crise do capitalismo global desde 2008 (e bem maior que esta foi) está aí a chegar e, por sua causa, a tentativa "normal" de saída da crise pelo Capital só não a vê quem não percebe nada de nada.
E excessivo temer-se que os novos fascismos cheguem com botas cardadas e campos de concentração como nos anos trinta, nem a crise global está a chegar (embora ninguém a pode desde já afastar das possibilidades) com fenómenos como desemprego de massas e hiperinflação. Apesar disso, ele vai agigantando-se na sua manifestação historicamente típica : multiplicação de guerras de agressão, torniquetes para sufocar países inimigos, políticas colonialistas (localizadas que sejam), imperialismo com o seu componente de parasitismo e acumulação de capital por manipulação dos mercados ,desigualdade como talvez nunca se haja visto, exploração da força de trabalho sob a forma de empregos precários, etcétera.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

 

Contra a falsa simetria das tesouras:
uma carta aberta no momento em que o Irão resiste a uma guerra ilegal de agressão

– Resposta a intelectuais do Norte Global

Vijay Prashad [*]

Cartaz de Mohamma Dansari.

Caros amigos e colegas,

Os Estados Unidos e Israel lançaram uma guerra de agressão contra o Irão em fevereiro deste ano. Há seis meses, mísseis e bombas norte-americanas caem sobre alvos civis e militares dentro do país. Hospitais, escolas, instalações de energia e bairros foram atingidos. As 168 alunas mortas em Minab tornaram-se o terrível símbolo desta guerra. Os iranianos foram forçados a viver sob a expectativa constante de um novo ataque, enquanto famílias iranianas fora do país suportam a agonia peculiar de assistir à destruição à distância. Isso vem na sequência de três anos de genocídio israelense em Gaza, que vem sendo perpetrado graças ao apoio militar incansável dos Estados Unidos.

O Irão não iniciou esta guerra. Os Estados Unidos e Israel é que o fizeram. O Irão está resistindo a um ataque armado contra seu território e seu povo. Esse fato elementar deve determinar o momento, a linguagem e as responsabilidades políticas de qualquer pessoa que escreva sobre o Irão neste momento.

Foi nesse contexto que li vossa carta aberta aos presos políticos do Irão.

Entre vocês estão ex-prisioneiros políticos (como Angela Davis) e um prisioneiro político atual (Mumia Abu-Jamal). Tenho concordado com muitos de vocês na maioria das grandes questões de nosso tempo. É claro que há elementos da vossa carta com os quais concordo, mas sinto que esta carta, neste momento, desempenha um papel politicamente prejudicial. Justamente quando os Estados Unidos e Israel estão na defensiva, essa carta pode gerar o tipo de confusão política que obscurece a dinâmica política real no terreno:   o Irão detém a vantagem estratégica, tendo transformado a questão dos EUA e de Israel (se o Irão deve ter permissão para possuir armas nucleares) em uma questão iraniana (se o Irão deve permitir o comércio por suas águas territoriais sem impedimentos). Isso constitui o pano de fundo da clareza moral da esquerda:   a guerra de agressão que fracassou e que colocou o Irão, bem como seus vizinhos, em uma discussão sobre segurança regional, em vez de segurança imperial.

Mas esta carta, proveniente do Norte Global, oferece o tipo de pretexto ideológico que os EUA adoram:   se os EUA perderam, que todos os lados percam e que todos os lados sejam culpados.

A imagem central usada na carta, as duas lâminas de uma tesoura, é evocativa, mas errônea. Ela sugere que uma das lâminas é a República Islâmica e a outra são os Estados Unidos e Israel, com o povo iraniano sendo cortado por ambos. O erro da tesoura não é meramente que suas lâminas sejam desiguais. É que a imagem faz com que o agressor e o agredido pareçam fontes paralelas do mesmo perigo, ignorando a história e a hierarquia que os conectam. O imperialismo norte-americano não é simplesmente uma opressão ao lado de outra. Ele é a força que cercou o Irão, devastou a região, armou Israel, impôs sanções a uma população inteira e agora levou a guerra ao território iraniano. Vossa carta coloca a agressão e alvo dela no mesmo plano moral.

Os Estados Unidos mantêm mais de 900 instalações militares fora de suas fronteiras, impõem sanções a populações inteiras, financiam e armam o genocídio de Israel em Gaza e destruíram ou desestabilizaram um país após o outro. O Irão, quaisquer que sejam as críticas que se possam fazer ao seu sistema político, nunca iniciou guerras de agressão. O Estado nascido da Revolução de 1979 não iniciou guerras de conquista; ao contrário, sofreu a invasão do Iraque a mando do Ocidente, cerco, sanções, sabotagem, assassinatos e, agora, um ataque direto. As duas lâminas não são equivalentes. Uma é a lâmina da guerra imperialista. A outra, quaisquer que sejam suas contradições internas, é o Estado e a sociedade que estão sendo cortados.

Vazios

A carta aberta argumenta que existe uma “falsa dicotomia entre imperialismo e anti-imperialismo vazio”. Fiquei intrigado com o uso do adjetivo “vazio”.

Primeiro, a defesa efetiva do Irão. O assassinato do comandante Qasem Soleimani em Bagdá, no Iraque, em 2020, marcou uma etapa decisiva na escalada que culminou no ataque ilegal de fevereiro de 2026 contra o Irão. Soleimani foi o arquiteto da estratégia ofensiva do Irão, ou seja, construir um escudo defensivo por meio de grupos armados pró-iranianos que atacariam Israel e posições militares dos EUA a partir do Líbano, da Síria, do Iraque, do Iêmen, da Palestina e de outros países. A partir de 2020, os EUA e Israel passaram a perseguir sistematicamente essa rede, tentando destruir o Hamas, o Hezbollah e o Ansar Allah, além de pôr fim ao uso de Damasco como base para muitos desses grupos, bem como da Síria e do Iraque como linhas de abastecimento logística a partir do Irão. Tendo enfraquecido esse escudo, os EUA e Israel se sentiram encorajados a atacar o Irão. Mas não levaram em conta que o Irão havia construído um mecanismo para atingir as bases americanas nos Estados árabes do Golfo e que restringiria o acesso ao Estreito de Ormuz.

O uso desses mecanismos pelo Irão colocou o país em vantagem estratégica sobre os Estados Unidos e Israel (este último, aliás, que posteriormente se afastou do primeiro plano dessa guerra). O anti-imperialismo do Irão não tem sido de forma alguma “vazio”, na verdade, ele permitiu ao povo iraniano proteger seu país de uma tomada de poder imperialista. Essa é uma conquista significativa que está sendo comemorada em todo o mundo anteriormente colonizado como uma das reviravoltas estratégicas mais importantes sofridas pelos Estados Unidos desde sua derrota no Vietnã em 1975 (as retiradas do Afeganistão e do Iraque têm caráter diferente dessa vantagem estratégica do Irão).

Em segundo lugar, em 1979, os revolucionários iranianos entoavam:   Hoje o Irão, amanhã a Palestina. De fato, apesar da repressão à esquerda no Irão logo após a revolução e com a formação da República Islâmica, o compromisso com a Palestina permaneceu firme. O Irão nunca sequer deu a entender que haveria normalização com Israel e, de fato, tem sido enfático na defesa da causa palestina. Nenhum outro país da região tem se comprometido tanto com o movimento de libertação palestino, e nenhum pagou um preço tão alto por esse compromisso.

Por que os Estados Unidos e Israel têm sido obcecados pelo Irão desde 1979? Não por causa de qualquer questão de democracia (o Irão possui um sistema político eleitoral, embora moldado pelo Conselho dos Guardiões e por limitações à participação política – assim como as pretensões democráticas dos Estados Unidos são restringidas pelo poder oligárquico, pela exclusão racial e pelo domínio do dinheiro). Nem mesmo por causa de qualquer ameaça nuclear (a Agência Internacional de Energia Atômica não comprovou que o Irão possua um programa ativo de armas nucleares, ao passo que a liderança iraniana declarou repetidamente que as armas nucleares são religiosamente proibidas).

A razão pela qual eles odeiam o Irão é porque ele é desafiador, e seu desafio inclui sua posição em favor da causa palestina.

É claro que cada um pode ter a opinião que quiser sobre o Irão, mas chamar seu anti-imperialismo de “vazio” neste momento é impreciso.

Os EUA devem recuar

A carta aberta encerra com duas exigências:   primeiro, que o Estado iraniano “cesse agora sua prática desumana de morte e encarceramento”. A oposição comum à pena de morte, que eu compartilho, não é suficiente para colocar os Estados Unidos e o Irão na mesma posição histórica ou política, nem justifica subordinar a exigência imediata de que o agressor ponha fim à sua guerra a uma acusação geral contra o país atacado. Durante esse período de guerra ilegal dos EUA contra o Irão, os Estados Unidos executaram dezenove pessoas por injeção letal, mas a carta não diz nada sobre isso (nem sobre o tratamento genocida dos prisioneiros palestinos nas versões israelenses de Guantánamo – como a prisão de Sde Teiman, sobre a qual Wesam Afifa escreveu de forma tão comovente; a única afirmação é dizer que o Irão usa “a mesma lógica de dominação” que Israel, o que é uma formulação muito estranha). Podemos nos opor à pena de morte. Podemos exigir o devido processo legal e tratamento humano para os prisioneiros. Podemos ouvir atentamente os trabalhadores, as mulheres, as minorias e os ativistas políticos iranianos. Mas a crítica interna não pode ser dissociada das condições concretas em que é feita.

A segunda exigência da carta aberta é que os EUA e Israel “devem pôr fim às suas guerras bárbaras e às sanções brutais que, conscientemente, devastam nossas comunidades”. Estamos em completo acordo nisso. Mas a carta não é dirigida aos Estados Unidos, e sim aos presos iranianos. Essa é outra curiosidade de sua formulação. Os signatários são, em sua maioria, cidadãos norte-americanos. Por que não escrever ao próprio governo deles? A carta dedica a maior parte de sua energia analítica à construção de uma lógica carcerária comum entre os dois países, enquanto a exigência dirigida contra os agressores imperialistas é comprimida em sua frase final. A condenação formal da guerra não desfaz a arquitetura política da carta, que confere status semelhante à guerra de agressão dos EUA e de Israel e ao sistema prisional iraniano. Frantz Fanon nos ensinou que as lutas anticoloniais não se desenrolam sob condições de sua própria escolha. Estados submetidos à ameaça permanente de invasão, sabotagem e mudança de regime desenvolvem profundas contradições internas, incluindo instituições de segurança que podem usar a coerção contra seu próprio povo.

Vocês pedem à “sociedade civil global e aos ativistas e organizações anti-imperialistas” que “exerçam pressão sobre a República Islâmica, contestando sua narrativa”. Isso equivale, em resumo, a pedir aos povos do mundo que assumam uma posição que enfraqueceria o Irão neste momento, quando ele se mantém firme contra a guerra de agressão. Há um momento para fazer uma exigência e há um momento para agir em solidariedade. Este é o momento de solidariedade com o Irão, e não o momento de fazer uma reivindicação que beneficie os imperialistas agressores.

Caros amigos, não existe neutralidade ou um “terceiro espaço” em meio a uma guerra de agressão. Escreveríamos tal carta ao governo vietnamita em Hanói durante a guerra de agressão dos EUA, ou ao governo cubano, que agora enfrenta um terrível estrangulamento por parte dos Estados Unidos? Por que dirigir essa intervenção contra o Irão neste momento? Por que desafiar o Irão justamente quando ele tem os Estados Unidos e Israel na defensiva? É preciso pedir que o Irão se torne perfeito antes de defender seu direito à sobrevivência?

Neste momento, a solidariedade começa com uma exigência clara: os Estados Unidos e Israel devem pôr fim à sua guerra ilegal e devem recuar.

22/Agosto/2026

[*] Historiador e jornalista, indiano. É autor de quarenta livros, entre os quais se incluem Balas de Washington, Uma Estrela Vermelha sobre o Terceiro Mundo, As Nações Obscuras: uma história do Terceiro Mundo; As Nações Pobres: uma possível história do Sul Global e How the International Monetary Fund Suffocates Africa, escrito em coautoria com Grieve Chelwa. É diretor executivo do Tricontinental: Instituto de Pesquisa Social, correspondente-chefe da Globetrotter e editor-chefe da LeftWord Books (Nova Délhi). Também participou dos filmes Shadow World (2016) e Two Meetings (2017).

Quando uma critica valoriza o atacante

 

A metáfora da tesoura e a ficção de um anti imperialismo
 
« A carta aberta publicada pelo jornal The Guardian no dia 20 de agosto de 2026 tem como título “To Iran’s political prisoners, trapped ‘between two blades of a scissors’” ("Aos prisioneiros políticos do Irão, presos 'entre as duas lâminas de uma tesoura'"). O documento é um manifesto de solidariedade dirigido a ativistas, estudantes, pensadores e prisioneiros de consciência detidos no Irão.
A mensagem central da carta baseia-se na forte crítica a dois blocos opostos, utilizando a metáfora das duas lâminas de uma tesoura para descrever a situação do povo iraniano:
A primeira lâmina: Representa a repressão interna brutal exercida pelo regime da República Islâmica do Irão, denunciando a onda de sentenças de morte e as execuções em massa.
A segunda lâmina: Representa as forças imperialistas externas, criticando duramente a agressão militar e os ataques contínuos dos Estados Unidos e de Israel contra o território iraniano.A carta rejeita o que chama de "falsa binária entre o imperialismo e o anti-imperialismo vazio", defendendo que apoiar a população civil e os detidos políticos exige opor-se simultaneamente à guerra externa e à tirania do regime governante.
Signatários
O documento foi assinado por mais de 20 figuras proeminentes do pensamento de esquerda internacional, académicos e ativistas de direitos humanos, incluindo:Angela DavisJudith ButlerRuth Wilson GilmoreWalden BelloMichael Löwy
Debate e Controvérsia
Embora a carta tenha recebido o apoio de várias organizações de exilados iranianos na diáspora, a sua publicação gerou uma forte reação nos dias seguintes. Colectivos de académicos e intelectuais anti-imperialistas (como o Anti-Imperialist Scholars Collective e o autor Vijay Prashad) publicaram respostas críticas. Os críticos argumentam que a metáfora da "tesoura" cria uma falsa equivalência moral e simetria entre o regime interno e a agressão militar destrutiva liderada pelos Estados Unidos em curso no Médio Oriente.
(Vista geral da I. A. Google)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 

O problema geral da comunicação

Imagem: Chirayu Trivedi
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Por ARTHUR MOURA*

A separação entre experiência vivida e elaboração política é mediada por instituições e profissionais que concentram a palavra autorizada

 

1.

A comunicação pertence ao processo geral de reprodução da vida social e, por essa razão, acompanha as relações pelas quais os homens produzem sua existência, estabelecem vínculos, produzem suas instituições, distribuem funções e organizam o poder. Cada sociedade produz também seus mecanismos de elaboração, registro e transmissão da experiência acumulada, definindo quem dispõe das condições necessárias para falar publicamente, quais conhecimentos recebem legitimidade, quais acontecimentos merecem registro e quais interpretações entram no patrimônio comum de uma determinada época.

Sob o capitalismo, essas capacidades estão submetidas à divisão social do trabalho e à propriedade privada, reproduzindo no campo comunicacional as desigualdades existentes na produção material. A separação entre trabalhadores e meios de produção encontra correspondência na separação entre aqueles que vivem determinados conflitos e aqueles que dispõem dos instrumentos necessários para interpretá-los publicamente. A produção material e a produção social da interpretação estão, portanto, ligadas por relações de poder que atribuem a grupos distintos capacidades desiguais de interferência sobre aquilo que uma sociedade conhece de si mesma.

Essa divisão tem consequências políticas. O trabalhador produz riqueza, participa das relações econômicas que sustentam a sociedade, conhece concretamente a exploração, as pressões do trabalho, o custo da moradia, as dificuldades de transporte, o endividamento, o desemprego, a violência policial, a deterioração dos serviços públicos e as inúmeras estratégias necessárias à sobrevivência cotidiana, mas essa experiência não chega a encontrar meios próprios e permanentes de elaboração coletiva.

O conhecimento produzido no curso da existência está fragmentado, localizado, disperso entre milhões de indivíduos que enfrentam problemas semelhantes sem necessariamente reconhecê-los como componentes de uma mesma estrutura social. Entre a experiência vivida e sua elaboração política instala-se então uma extensa cadeia de mediações composta por jornalistas, pesquisadores, partidos, parlamentares, organizações, comentaristas, produtores culturais e, mais recentemente, influenciadores digitais, cada qual submetido a circuitos específicos de financiamento, prestígio, carreira e autoridade.

 

2.

A divisão capitalista do trabalho favorece esse processo. Jornadas extensas, deslocamentos cotidianos, insegurança profissional, precarização, desemprego intermitente e endividamento reduzem drasticamente o tempo disponível para estudo, reunião, pesquisa, produção cultural e atividade política. Ao mesmo tempo, determinados segmentos sociais concentram tempo, escolarização, recursos técnicos, acesso institucional, contatos e domínio dos códigos necessários à intervenção pública.

Essa desigualdade produz uma divisão intelectual que não decorre de qualquer incapacidade intrínseca dos trabalhadores, mas de condições materiais desiguais de participação na produção do conhecimento. A especialização comunicacional nasce dentro dessa divisão e rapidamente pode cristalizar posições de autoridade. O jornalista conhece os códigos da imprensa; o acadêmico domina uma linguagem legitimada pelas instituições científicas; o dirigente partidário dispõe dos contatos e estruturas de sua organização; o parlamentar tem acesso privilegiado aos meios; o influenciador controla uma audiência acumulada. Aos demais cabe frequentemente fornecer experiência, testemunho, voto, atenção e engajamento.

A transformação dessa diferença funcional em hierarquia política é um dos problemas fundamentais da comunicação contemporânea. O domínio técnico necessário à produção audiovisual, ao jornalismo, à pesquisa ou à administração de plataformas pode ser conhecimento socialmente útil, desde que esteja submetido ao controle coletivo e circule entre aqueles que participam do processo. Sob relações hierárquicas, porém, a especialização tende a se autonomizar e criar uma camada que administra a palavra pública.

A divisão entre concepção e execução, tão característica da produção capitalista, reaparece no interior da comunicação: alguns pensam, selecionam, editam, interpretam e decidem; outros fornecem matéria social para essa elaboração e recebem posteriormente o resultado acabado. A autonomia dos produtores depende também do controle dos meios, das decisões e da circulação daquilo que produzem; caso contrário, a independência continua restrita ao plano aparente.

Essa separação nos ajuda a compreender por que sociedades desiguais conseguem preservar por longos períodos determinadas interpretações do mundo mesmo diante de crises recorrentes. A dominação burguesa não depende de uma unanimidade ideológica absoluta. A própria burguesia tem suas frações determinadas pela concorrência entre capitais, disputas econômicas, interesses regionais, conflitos entre setores produtivos e financeiros e antagonismos no interior do bloco dominante.

Essa fragmentação, contudo, ocorre entre agentes que compartilham uma relação fundamental com a propriedade, a exploração do trabalho e a reprodução ampliada do capital. Existem instituições capazes de coordenar seus conflitos sem colocar em risco o princípio geral da ordem social: empresas, associações empresariais, bancos, aparelhos jurídicos, meios de comunicação, universidades, fundações, institutos privados, partidos e o próprio Estado.

A experiência histórica de aparelhos como IPES e IBAD, assim como a emergência posterior de organizações como MBL e Brasil Paralelo, demonstra que diferentes frações dominantes conseguem investir recursos consideráveis na produção de quadros, narrativas, filmes, pesquisas, campanhas e instrumentos de intervenção cultural quando percebem ameaças aos seus interesses.

 

3.

Entre os trabalhadores, a fragmentação tem consequências distintas. A classe se organiza por ocupações, regimes de contratação, territórios, níveis salariais, pertencimentos culturais, diferenças raciais, relações de gênero, gerações, religiões, trajetórias educacionais e inúmeras experiências particulares produzidas pela divisão capitalista do trabalho. Muitas dessas diferenças têm raízes materiais profundas e não podem ser dissolvidas por proclamações abstratas de unidade.

O problema central está na ausência de instituições autônomas capazes de elaborar essas experiências heterogêneas como partes de uma totalidade social comum. O capital dispõe de mecanismos para administrar seus conflitos internos; os trabalhadores frequentemente dependem de estruturas externas ou burocratizadas para estabelecer conexões entre suas próprias experiências. A fragmentação econômica encontra, assim, uma fragmentação comunicacional correspondente.

Essa condição ganhou intensidade com a expansão das plataformas digitais. A internet ampliou extraordinariamente a quantidade de pessoas capazes de emitir mensagens publicamente, mas essa multiplicação de emissores ocorreu dentro de uma infraestrutura concentrada em poucas corporações. A capacidade técnica de publicar uma mensagem disseminou-se enquanto distribuição, visibilidade, armazenamento, monetização, coleta de dados e ordenamento da atenção continuam sob controle de centros privados de poder.

Cada indivíduo dispõe de seu meio de comunicação enquanto todos dependem de sistemas que não controlam. A contradição é relevante porque produz uma experiência subjetiva de autonomia no interior de uma estrutura altamente centralizada. O usuário fala, comenta, publica e compartilha, mas sua atividade alimenta simultaneamente bancos de dados, métricas comerciais, sistemas publicitários e mecanismos de segmentação que pertencem às empresas responsáveis pela infraestrutura.

 

4.

O desenvolvimento desse modelo alterou também os critérios de autoridade política. A audiência acumulada começou a funcionar como índice de relevância, e números de seguidores, visualizações e engajamento ganhou peso crescente na definição de quem merece ser ouvido. O mecanismo contém uma circularidade poderosa: aquele que tem visibilidade recebe novos convites, participa de grandes canais, amplia suas relações, fortalece sua autoridade e ganha ainda maior visibilidade.

Quem está em circuitos menores encontra obstáculos crescentes para interferir sobre o debate público, independentemente da consistência de sua elaboração fazendo com que a métrica digital tenha o lugar da inserção concreta nas lutas sociais como critério de autoridade política. O algoritmo integra uma estrutura anterior à internet: a concentração desigual da capacidade social de falar e ser reconhecido.

A comunicação vinculada às esquerdas incorporou amplamente essa racionalidade. O desenvolvimento tecnológico ofertou novos recursos à velha estrutura da representação política, aproximando dirigentes e audiência sem alterar necessariamente a posição ocupada pelos sujeitos dentro da relação. O parlamentar transmite ao vivo; o intelectual mantém canais próprios; o partido atua em redes sociais; o militante profissional transforma análise política em produção diária de conteúdo; o público comenta, compartilha, financia e acompanha.

A proximidade aparente pode esconder uma separação persistente entre produção da orientação política e participação na elaboração dessa orientação. A velha reunião de cúpula encontra novos meios de difusão, a propaganda partidária assume linguagem audiovisual contemporânea e o profissional da política aprende a administrar comunidades digitais. A tecnologia aperfeiçoa a circulação sem resolver o problema da autonomia, sendo, portanto, necessário promover a crítica da comunicação, que encontra a crítica da organização.

Uma estrutura política baseada na separação entre dirigentes e dirigidos produzirá uma comunicação compatível com essa divisão; uma organização cujo centro reside na representação eleitoral tenderá a tratar comunicação como propaganda, construção de imagem, disputa de narrativa e mobilização periódica da base; uma organização que depende do protagonismo de determinadas personalidades tenderá a concentrar recursos comunicacionais nessas figuras; uma estrutura orientada pela competição eleitoral buscará alcance, persuasão e reconhecimento público.

O modelo comunicacional expressa, portanto, o tipo de relação política que o sustenta. Sua verticalidade tem raízes organizacionais e sociais muito mais profundas do que escolhas estéticas ou técnicas. Esse é um dos pontos presentes na crítica ao circuito do webcomunismo e da chamada esquerda radical, onde a linguagem revolucionária pode conviver com práticas comunicacionais assentadas na autoridade individual, na audiência e na integração institucional.

 

5.

A questão ganha maior gravidade porque a comunicação participa da constituição do sujeito político. Quem está na posição de receptor aprende a reconhecer outros como produtores legítimos da interpretação, podendo concordar, discordar, comentar ou abandonar determinado canal, mas continua situado diante de uma estrutura já pronta fazendo com que experiências desse tipo produzam hábitos políticos como esperar que alguém explique a conjuntura, interprete uma eleição, diga quais acontecimentos são relevantes, apresente os inimigos, estabeleça prioridades e ofereça alguma projeção sobre o futuro.

A dependência comunicacional encontra assim a dependência política. A ausência de organizações próprias aumenta a demanda por representantes, enquanto a presença contínua de representantes enfraquece a necessidade social de construir instrumentos autônomos o que nos leva a entender a força contemporânea dos gurus, influenciadores, especialistas e personalidades políticas.

Em períodos marcados pela deterioração das referências coletivas, esses indivíduos oferecem coerência a experiências sociais fragmentadas. Sua eficácia deriva da existência real de uma demanda por interpretação em uma sociedade na qual milhões de pessoas carecem de meios coletivos para elaborar aquilo que vivem. A autoridade personalizada ocupa o espaço deixado pelo enfraquecimento das instituições autônomas dos trabalhadores.

Por isso, qualquer discussão séria sobre comunicação popular precisa começar antes da mensagem, do canal ou da tecnologia. Seu problema inicial são as relações sociais que estabelecem quem dispõe da capacidade de produzir conhecimento público e quem depende da interpretação produzida por outros. A democratização técnica do acesso à emissão é apenas uma dimensão dessa questão. Controle dos meios, tempo disponível, formação, propriedade, financiamento, organização, poder decisório, circulação e memória precisam ser examinados como elementos de um mesmo processo.

Uma comunicação vinculada à emancipação dos trabalhadores terá de enfrentar essa divisão em sua estrutura, sob o risco de reproduzir internamente aquilo que pretende combater.

É nesse ponto que a pergunta sobre a comunicação popular deixa de ser uma discussão abstrata sobre linguagem ou conteúdo e assume caráter organizacional. Se trabalhadores devem ser os sujeitos de sua própria emancipação, precisam também conquistar capacidade coletiva para conhecer, interpretar, registrar e comunicar sua experiência histórica.

A produção da consciência integra o processo pelo qual uma classe fragmentada pode reconhecer relações comuns, elaborar divergências, acumular memória, produzir critérios de decisão e construir poder próprio. A comunicação popular começa precisamente nesse problema: quem produz a interpretação da experiência dos trabalhadores e sob controle de quem essa interpretação circula?

*Arthur Moura é doutorando em História Social na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

 

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.