Por JOHN MEARSHEIMER*
Palestra proferida no Arab Center Washington DC, em 10 de abril de 2026
1.
Dados os eventos do dia – ou dos últimos dias, ou talvez dos últimos
40 dias –, gostaria de me concentrar principalmente na Guerra do Irã,
mas pretendo colocar meus comentários em um contexto mais amplo e
começaria dizendo que, quando eu era jovem e pensávamos no Oriente
Médio, o que sempre se enfatizava era que essa era uma das três regiões
do mundo de maior importância estratégica para os Estados Unidos, em
grande medida por conta do petróleo lá situado. As outras duas regiões
eram, obviamente, a Europa e o Leste Asiático, e ambas eram importantes
por conta das grandes potências lá situadas.
O Oriente Médio era importante por causa do petróleo, e o que
queríamos garantir era que não acontecesse que algum Estado, fosse ele
nativo do próprio Oriente Médio ou de fora dele, controlasse todo o
petróleo. O que aconteceu, ao longo do tempo, foi que o problema do
petróleo se deslocou para um segundo plano, porque não havia, na
realidade, qualquer ameaça de que algum país viesse a dominar todo o
petróleo no Oriente Médio. Então, nós, nos Estados Unidos, não
precisávamos nos preocupar em demasia com o Oriente Médio por conta
disso.
A razão pela qual nos importamos tanto com o Oriente Médio hoje – e
nos importamos enormemente com o Oriente Médio – tem como causa a nossa
ligação com Israel. E o fato é que Israel tem uma relação muito especial
com os Estados Unidos, sem paralelo na história. É realmente importante
entender isso. Os Estados Unidos apoiam Israel incondicionalmente.
Estados Unidos e Israel, obviamente, têm interesses nacionais
diferentes em questões específicas momentâneas, porque dois países não
têm jamais os mesmos interesses nacionais o tempo todo. Mas nos casos em
que os interesses nacionais de Israel e os interesses nacionais
norte-americanos divergem, os Estados Unidos são instados a atender o
que é do interesse nacional de Israel. E a razão disso, é claro, é o
poder do lobby israelense, que é simplesmente gigantesco.
Creio que a maioria das pessoas o percebe atualmente. Quando Stephen Walt e eu escrevemos o artigo para a London Review of Books em 2006 e, depois, o livro propriamente (The Israel Lobby and US Foreign Policy.
Nova York: Farrar, Straus and Giroux), de 2007, me pareceu que a
maioria das pessoas achou que estávamos exagerando. Na verdade,
estávamos tratando tão apenas da ponta do iceberg. Mas agora creio que as pessoas entendem aquilo.
É realmente importante perceber que nossa política externa para o
Oriente Médio é largamente dirigida por Israel. E, claro, o fator chave
para que isso aconteça é o lobby [israelense].
2.
Então, falemos um pouco agora sobre quais são os reais objetivos de
Israel na região. Creio que devemos fazê-lo em três partes. Uma é que
eles querem expandir suas fronteiras, querem criar uma Grande Israel.
Isso, claro, inclui hoje os territórios ocupados, a Cisjordânia e Gaza.
Mas as ambições de Israel vão além disso. Eles querem tomar o sul do
Líbano até o Rio Litani, querem tomar partes do sul da Síria… Acho que,
se pudessem, gostariam de tomar a Transjordânia e se expandir em direção
ao Sinai. Eles têm um apetite voraz para a expansão. Esse é o primeiro
objetivo: criar uma Grande Israel.
O segundo objetivo é o da limpeza étnica dos territórios que tomam. E
aqui estamos falando, neste momento, especialmente de Gaza e da
Cisjordânia. Como vocês todos sabem, existem tantos judeus israelenses
quanto palestinos dentro da Grande Israel hoje. E esse é um enorme
problema para os israelenses. Eles se disporiam a aceitar quando muito
20% de palestinos, mas uma situação de metade a metade pareceria
inaceitável. Então, os israelenses estão profundamente comprometidos com
uma limpeza étnica.
E o terceiro objetivo tem a ver com seus vizinhos. O que eles
pretendem é garantir que todos os seus vizinhos sejam mais fracos
possível. E isso funcionaria basicamente de duas maneiras. Uma é ter
vizinhos que sejam subservientes aos Estados Unidos. Isso se aplica ao
Egito, à Jordânia… e eu diria, em certa medida, até mesmo ao Líbano.
Eles querem em suas fronteiras países sobre os quais os Estados Unidos
tenham enorme capacidade coercitiva.
E se isso não funcionar com os países maiores, como Síria, Irã e Turquia, então eles vão querer destruir (wreck)
esses países. O que os israelenses estão realmente interessados em
fazer no Irã é destruir o Irã da mesma forma como a Síria foi destruída.
Eles gostariam de quebrá-lo em diversos pedaços. Ou se não o
conseguirem fazer, promover uma mudança de regime e instaurar no Irã um
regime subserviente aos Estados Unidos.
Dentre esses três objetivos principais, é muito importante entender
que o que está acontecendo em Gaza (…) é a busca da consecução dos
objetivos 1 e 2, criando uma Grande Israel etnicamente pura, que foi o
que levou os israelenses a perseguir uma limpeza étnica que é, na
prática, um genocídio. O caso de Gaza envolve os dois primeiros
objetivos em jogo. O caso do Irã diz respeito ao terceiro.
Mais uma vez, o objetivo aqui é desmembrar o Irã ou produzir uma
mudança de regime. E se vocês olharem para o Líbano, o verão, na
verdade, como um caso dos dois primeiros objetivos. Eles querem tomar o
território ao sul do Rio Litani, torná-lo parte da Grande Israel e fazer
uma limpeza étnica nessa região. É claramente visível que estão dando
duro na busca desse objetivo. Então esse é o panorama geral.
3.
Deixem-me dizer algumas palavras sobre Gaza antes de abordar o Irã. O
que aconteceu em Gaza depois do 7 de outubro foi que os israelenses
viram uma oportunidade para “limpar” Gaza. As duas grandes limpezas
étnicas que tiveram lugar antes do 7 de outubro, como quase todos vocês
sabem, ocorreram em 1948 e em 1967. E essas duas limpezas étnicas
ocorreram num contexto de guerra.
E quando se tem uma guerra – que é o que aconteceu após 7 de outubro –
os israelenses veem uma excelente oportunidade para uma limpeza étnica,
porque acreditam poder usar poder militar massivo, sobretudo poder
aéreo, para punir a população palestina, a ponto de fazê-la abandonar
seus territórios. (…) E a esperança deles é que os egípcios e
jordanianos venham a aceitar os palestinos, uma vez que os israelenses
infligirão a eles tanta danação que, de outra forma, como poderiam os
egípcios e os jordanianos não aceitá-los? Essa é a lógica básica que
está em jogo aqui.
Mas está claro que os palestinos não vão embora. Eles absorvem o
flagelo. E o que acontece é que o bombardeio, a campanha de punição,
acaba se tornando a uma campanha de genocídio: se não se consegue
expulsar os palestinos só resta matá-los todos. Isso se faz por meio dos
bombardeios e da fome generalizada. E foi isso o que aconteceu. É por
isso que acredito ser perfeitamente apropriado descrever o que aconteceu
em Gaza como um genocídio
Gostaria de fazer mais uma observação a propósito desse genocídio, e
que tem implicações para o que vou dizer sobre o Irã e ainda para o
futuro. O que é genuinamente notável para mim, como um realista que se
moveu em um ambiente acadêmico bastante liberal durante toda a vida nos
Estados Unidos, é a extensão com que liberais pretensamente dedicados,
que professavam acreditar nos direitos humanos, virtualmente nada
disseram enquanto esse genocídio ocorria.
Não apenas que os israelenses estivessem cometendo genocídio enquanto
as pessoas nada diziam o que me chocou. Num sentido ainda mais
fundamental, o que me chocou mais foi que os Estados Unidos fossem
cúmplices desse genocídio de uma forma inquestionável.[I]
Se voltássemos a fazer os julgamentos de Nuremberg… Não os faríamos, é
verdade, mas se fôssemos fazer julgamentos do tipo de Nuremberg, Joe
Biden e seus principais ajudantes, assim como Donald Trump e seus
principais ajudantes, seriam enforcados. Não tenho nenhuma hesitação em
pensar dessa maneira. Estamos falando de genocídio. Nós sabemos o que
aconteceu àquelas pessoas que cometeram genocídio entre 1941 e 1945 na
Europa. Foram enforcadas.
Creio que a mesma coisa aconteceria a Joe Biden e seus ajudantes; e a
Donald Trump e seus ajudantes. É absolutamente notável que praticamente
nenhuma palavra tenha sido dita no establishment liberal
norte-americano contra aquilo que Israel está fazendo e para o qual os
Estados Unidos o estão ajudando: cometer genocídio, o maior de todos os
crimes. Na minha opinião, isso é verdadeiramente notável. E eu dizia a
mim mesmo: tem alguma coisa errada aqui, quando um realista como eu é
uma das poucas pessoas dentro do mainstream acadêmico que se levanta e diz que isso está terrivelmente errado e que algo precisa ser feito para pará-lo.
4.
Passemos ao Irã. Vamos falar sobre por que começamos essa guerra,
antes de mais nada. É bastante claro que, basicamente, os israelenses
ludibriaram o presidente Donald Trump para que ele iniciasse essa
guerra. Eu diria até que, desde o início, o Estado Profundo não estava a
favor dessa guerra. Conheço uma ou duas pessoas desse círculo, e se
poderia dizer a propósito do que alguns observavam sobre as posições do
general Dan Caine [chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos] na
grande mídia, que o Estado Profundo não estava entusiasmado com essa
guerra.
Todos nós sabíamos, que bastava observar o primeiro-ministro Benjamin
Netanyahu nos últimos 40 anos, para saber que ele estava profundamente
engajado em atacar o Irã com os Estados Unidos, para promover uma
mudança de regime, instaurando um outro que estivesse em sintonia
conosco, ou então para destruir o país. Então sabíamos com certeza que
Benjamin Netanyahu estava pressionando com bastante força.
Agora o New York Times publicou duas grandes reportagens
sobre como a decisão foi tomada. E na minha opinião fica
inequivocamente claro, a partir desses dois artigos, que o Estado
Profundo não estava a favor dessa guerra. Havia todo tipo de pessoas –
funcionários do mais alto escalão – dizendo ao presidente Donald Trump:
“Essa não é uma boa ideia. Provavelmente não vai funcionar”. O general
Caine basicamente disse que não havia uma estratégia militar viável e o
Conselho Nacional de Inteligência produziu um relatório afirmando que
ela não funcionaria, e assim por diante.[II]
O que aconteceu foi que o Mossad convenceu tanto o primeiro-ministro
Benjamin Netanyahu quanto o presidente Donald Trump de que poderiam
obter uma vitória rápida e decisiva. Todos vocês conhecem a história. O
que fizemos foi entrar, lançar uma campanha de choque e pavor e,
principalmente, centrar a atenção numa manobra de decapitação do regime.
E quando fizéssemos isso, todo o castelo de cartas desmoronaria. E a
razão para isso seria a de que o regime estaria construído sobre areia,
suas fundações seriam muito frágeis e tudo o que seria preciso fazer
seria derrubar seus líderes, e o povo atenderia o chamado para se
levantar e derrubar o governo, para que pudéssemos então instalar um
novo, que basicamente se renderia a nós.
Está bastante claro que Benjamin Netanyahu e o chefe do Mossad, David
Barnea, desempenharam o papel chave e central em convencer o presidente
Donald Trump de que isso funcionaria, de que essa estratégia de choque e
pavor construída em torno da decapitação do regime iraniano produziria
uma vitória rápida e decisiva. Mas todos nós sabemos, pela literatura de
relações internacionais, que quando não se produz uma vitória rápida e
decisiva, o que se segue é que a guerra passa a funcionar como uma
guerra de atrito. E, claro, foi exatamente isso o que aconteceu no caso
do Irã. Estamos agora numa guerra de atrito.
5.
O fato é que não podemos vencer uma guerra de atrito [como essa].
Isso não é possível. Deixem-me dar-lhes seis pontos que o ilustram.
(i) Vejam essa Marinha muito poderosa que temos e que o presidente
Donald Trump fala que vai usar para abrir o Estreito de Ormuz. Não
podemos colocá-la sequer perto do Irã, e certamente não no Estreito de
Ormuz, sob pena de ser posta a pique pelos mísseis de cruzeiro ou drones iranianos. Entende-se então que a Marinha está estacionada longe do Irã e que suas bases não são muito úteis.
(ii) Bases: tínhamos 13 bases principais na região. O New York Times noticiou que todas essa bases ou estão seriamente danificadas ou destruídas.
(iii) Em termos de forças no terreno para uma invasão terrestre,
fala-se na mídia sobre 40 ou 50 mil soldados estacionados no Oriente
Médio, e isso significaria que teríamos 40 ou 50 mil efetivos de
combate. Isso simplesmente não é verdade. Seriam necessárias várias
divisões de infantaria ou brigadas de fuzileiros navais ou o que for
para o engajamento em um grande combate contra o Irã, e o presidente
Donald Trump apenas recentemente deslocou 7.000 efetivos de combate para
a região. Dificilmente se pode fazer alguma coisa com um efetivo de
7.000 combatentes, e se eu lhes sugerisse os cenários onde se poderia
pensar em usar esse efetivo, pode-se ver que não é possível alcançar
nenhum tipo de vitória militar com essas pequenas forças no terreno.
(iv) Em termos de aeronaves, sabem vocês que nessa [recente] operação
de resgate perdemos mais aeronaves em um dia do que perdemos em
qualquer outro momento desde a Guerra do Vietnã? Pensem nisso! (…)
(v) E agora mísseis e munição de alta tecnologia. Estamos ficando sem
eles, e isso é catastrófico para quem pretende conter a China.
Deveríamos supostamente ter-nos voltado para a Ásia, mas estamos nos
afastando dela. Precisamos levar mísseis THAAD, Patriot e essa unidade
expedicionária de fuzileiros navais do Leste Asiático para lidar com os
problemas que estamos enfrentando no Oriente Médio. Não é essa a maneira
de se conter a China. Isso é voltar-se para fora do Leste Asiático.
(vi) E, finalmente, não temos a capacidade para defender nossos
aliados do Conselho de Cooperação do Golfo. Eles estão levando uma surra
dos iranianos.
6.
Isso é apenas o lado americano. O lado mais interessante é o lado
iraniano. Eles têm quase todas as cartas. Estão realmente em uma posição
de força. Ao bloquear o tráfego no Estreito de Ormuz, eles estão em
posição de causar um baque na economia global. O poder de alavancagem
que eles têm é enorme. As consequências do que aconteceu até agora para a
economia internacional podem ser devastadoras. As pessoas não têm
falado muito sobre os fertilizantes. Falam sobre petróleo e gás.
Um terço dos fertilizantes do mundo passam pelo Estreito de Ormuz. E
essa é a época de plantio em muitos países. As consequências para o
futuro é que muitas pessoas podem morrer de fome como resultado dessa
guerra insana. Assim, os iranianos têm um enorme poder de alavancagem
sobre a economia mundial, e nós, obviamente, já entendemos isso.
Além disso, têm uma enorme capacidade de influência sobre os Estados
do Conselho de Cooperação do Golfo, esses seis países, porque podem
destruí-los como sociedades funcionais. Podem destruir sua
infraestrutura energética. Mas, mais importante, podem destruir suas
usinas de dessalinização. Elas são alvos fáceis, gordos e em pequeno
número. Os iranianos têm muitos mísseis de alta precisão e sabe-se lá
quantos drones. Eles podem desmantelar esses países, e essa é uma ameaça séria que lhe dá uma grande vantagem.
Então, o problema fundamental que o presidente Donald Trump enfrenta é
que ele não tem como escalar a guerra, porque os iranianos podem
batê-lo em todos os degraus, pelo fato de deterem o controle do Estreito
de Ormuz e a capacidade de destruir os países do Conselho de Cooperação
do Golfo e, por casualidade, produzir enormes danos também a Israel. Há
uma boa razão para os israelenses manterem um enorme silencio e não nos
dizer o que está acontecendo dentro da sua própria sociedade em termos
de impactos tanto de mísseis balísticos quanto de cruzeiro.[III]
Portanto, não podemos escalar o conflito, e, além disso, não há uma
opção de saída aqui, a não ser admitir a derrota. A única maneira de
Donald Trump sair dessa é admitir a derrota. Os iranianos certamente não
lhe darão uma opção de saída atraente. Se vocês estivessem jogando com a
mão de cartas que eles têm, vocês iriam querer ser incrivelmente
implacáveis e inflexíveis com os Estados Unidos e os israelenses. Eles
são seus inimigos mortais. Vendo as coisas do ponto de vista dos
iranianos, esses últimos são uma ameaça existencial. Por isso, os
iranianos têm profundo interesse em negociar em termos bastante duros,
para dizer o mínimo, e detêm uma pesada alavancagem. Essa é a difícil
situação em que Donald Trump se encontra.
Isso tudo nos leva à segunda-feira passada (dia 6 de abril). Na manhã
dessa segunda, Donald Trump fez essa postagem extraordinária na rede
Truth Social que dizia que, se os iranianos não cedessem, ou seja, se
não levantassem os braços e se rendessem até a noite do dia seguinte,
ele destruiria o Irã como civilização, tornando impossível que
ressuscitasse. Essa é uma declaração verdadeiramente assombrosa, é mais
um exemplo de linguagem genocida.
Alguém chegaria a pensar que um presidente americano poderia dizer
algo assim? Eu certamente não. Esse é o tipo de linguagem que se
esperaria de alguém como Adolf Hitler. Ele vai exterminar esse país
chamado Irã, apagá-lo do planeta e fazer com que ele nunca mais possa
voltar? Parece uma solução de tipo cartaginesa, não? O que está
acontecendo aqui? – é preciso se perguntar.
7.
O que está acontecendo aqui é que Donald Trump está desesperado,
porque entende a lógica básica que acabei de lhes expor. Nós estamos
jogando com uma mão de cartas perdedora. E as consequências de continuar
jogando com essa mão são de que a economia global vai para o abismo.
Isso vai fazer muito mais que destruir sua presidência. As consequências
serão enormes. Ele sabe disso. Estou seguro que há pessoas que já lhe
disseram isso. Então, desesperado, ele disse o que disse na segunda de
manhã: “vou para o extermínio; vou para o genocídio”.
Mas, então, pensem vocês no que aconteceu mais tarde, naquele dia à
noite. Ele recua. E o que fez? Basicamente, disse: “posso ver a
derrota”. Mas por que estou dizendo isso? Em primeiro lugar, há dois
planos sobre a mesa. Um é o plano de 15 pontos, “nossas” exigências. E
há o plano iraniano, o plano de 10 pontos. Para quem os lê, a diferença é
como da noite para o dia. Lendo o plano de 15 pontos, se encontram
todas essas típicas exigências americanas e israelenses ao Irã. Lendo o
plano de 10 pontos, encontram-se nele todas as exigências maximalistas. O
que o presidente Donald Trump disse em sua postagem na rede Truth
Social, onde basicamente afirmou “eu me rendo”, é que ele aceita o plano
de 10 pontos. Ele diz que é uma base sólida, ou firme, ou boa para ir
adiante. Isso é realmente chocante, não?
Então, vamos olhar um pouco mais cuidadosamente o que está
acontecendo aqui. Entramos nessa guerra – quero dizer, os Estados Unidos
e Israel, a dupla que eu gosto de chamo de “tag team”, a
equipe [coordenada] de combate – com quatro objetivos principais: (i)
fim do enriquecimento nuclear no Irã; (ii) a erradicação de todos os
mísseis, em especial os mísseis de longo alcance ou qualquer coisa que
represente uma ameaça para Israel; (iii) o fim do apoio aos Houthis, ao
Hamas e ao Hezbollah; e (iv) a mudança de regime. É muito claro que a
mudança de regime era o grande objetivo.
Donald Trump nega isso. Outros, de tempos em tempos, no executivo,
negam isso… Mas tudo o que é preciso fazer é ler a matéria do New York Times.
Enfim, é manifestamente claro que estávamos empenhados em uma mudança
de regime. Era disso que David Barnea e Benjamin Netanyahu estavam
falando… E o presidente Donald Trump, sem dúvida.
Falhamos em todos esses objetivos. Não vamos nos livrar dos mísseis
iranianos. Não vamos evitar a capacidade de enriquecimento nuclear deles
– na verdade, o medo maior é que eles agora obtenham armas nucleares.
Quanto ao apoio ao Hezbollah, aos Houthis e ao Hamas, não houve qualquer
mudança nesse aspecto – iranianos e Hezbollah estão, na verdade,
trabalhando juntos para lidar com a situação no sul do Líbano e no norte
de Israel; e quanto aos Houthis, nosso maior medo é que, em conluio com
os iranianos, eles fechem o estreito de saída do Mar Vermelho, acabando
com tráfego seja no Mar Vermelho seja no Golfo Pérsico; o que seria o
completo desastre. E, finalmente, não alcançamos nenhuma mudança de
regime.
8.
Além disso, agora os iranianos controlam os Estreito de Ormuz.[IV]
No dia 27 de fevereiro eles não controlavam o Estreito de Ormuz, eles
não ameaçavam estrangular a economia mundial. Mas agora não seriam
loucos de abrir mão desse controle.
Assim, até onde eu possa ver, o Irã manterá o controle do estreito.
Para os Estados Unidos, isso é desastroso. Além disso, em se analisando
as exigências dos iranianos, o que eles querem é o levantamento da
sanções e as bases americanas fora da região. Evidentemente que ninguém
sabe como será um acordo final, mas algo dessas exigências vai acabar
sendo atendido. E essa será uma derrota escandalosa para os Estados
Unidos, porque, como disse, a única opção de saída aqui é aceitar a
derrota, tal como ela é. Não é fácil dizê-lo, mas trata-se de uma clara
derrota.
Agora, quero mudar de assunto e falar dos israelenses. Acho que, para
os israelenses, toda essa situação beira o cataclismo. Antes de tudo,
eles (o povo israelense) acreditam – certamente o primeiro ministro
Benjamin Netanyahu acredita – que o Irã é uma ameaça existencial,
empenhada em eliminá-los da face da Terra. Eu não acredito nisso, mas
isso não importa, porque o que eu acredito é em grande medida
irrelevante. São eles que acreditam nisso. Como todos vocês sabem, para o
primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o Irã é o seu Moby Dick. E ele
perdeu esta guerra. O Irã está mais forte que nunca. Além disso, o Irã
está em uma posição de força que lhe permite apoiar o Hamas, o Hezbollah
e os Houthis.
Além de tudo isso, essa situação causou danos enormes às relações entre Estados Unidos e Israel. Aquela reportagem do New York Times
dias atrás com certeza deixará claro para um enorme número de
americanos que os israelenses nos arrastaram pelo nariz para esta
guerra. Havia todo tipo de gente no Conselho de Segurança Nacional que
estava soltando sinais de alerta, senão de alerta máxima. Mas por que
entramos nessa? Porque os israelenses convenceram o presidente Donald
Trump de que era uma boa ideia e que eles tinham uma estratégia viável. E
isso vai ser desastroso para Israel.
Além do mais, se alguém olhar para o que está acontecendo com a
opinião pública nos Estados Unidos com relação ao Estado de Israel,
nosso relacionamento e o seu lobby. Para mim mesmo, que escrevi sobre o lobby
israelense em 2006 e 2007, acho até difícil acreditar que tudo isso
tenha acontecido. Jamais imaginei que, enquanto estivesse neste planeta,
veria uma situação como a que vivemos hoje em termos de relações entre
Estados Unidos e Israel e a situação do lobby israelense aqui. Portanto, creio que Israel está verdadeiramente em sérios apuros.
9.
O que aconteceu em 28 de fevereiro, do nosso ponto de vista e do
ponto de vista do mundial, por conta das consequências econômicas de
tudo isso – e até também do ponto de vista de Israel – foi um fiasco
colossal. Não se pode subestimar o fiasco colossal que foi para os
Estados Unidos e Israel entrarem em guerra em 28 de fevereiro. Isso teve
um efeito rebote profundo.
Isso me leva ao meu último ponto. Toda essa situação levanta a séria
possibilidade de que, em algum momento desse trajeto, os israelenses
usem armas nucleares contra o Irã. Estou bastante preocupado a esse
respeito. Como disse antes, os israelenses estão notavelmente ansiosos
com o Irã, que eles têm como uma ameaça existencial, cujo maior medo é o
de que o Irã adquira armas nucleares.
Creio que, se os israelenses chegarem a suspeitar que o Irã está
buscando armas nucleares, eles usarão armas nucleares preventivamente,
para evitar que o Irã possa alcançar um poder de dissuasão nuclear.
Porque agora está claro que Israel não pode impedir o Irã de adquirir
armas nucleares fazendo uso apenas suas próprias forças convencionais.
Isso não funciona. A única opção que lhes resta é a nuclear. E eu creio
firmemente que os israelenses usariam armas nucleares nessa situação.
Alguém pode pensar para si mesmo: “Bem, os Estados Unidos poderiam
impedir que isso aconteça”. Os Estados Unidos não impedirão que isso
aconteça. Israelenses e americanos são cúmplices do genocídio em Gaza. A
primeira reação do presidente Donald Trump na segunda-feira, quando ele
estava desesperado, foi ameaçar cometer genocídio, ele próprio, contra o
Irã. Além de tudo, considerando o poder do lobby israelense nos Estados Unidos, é extremamente improvável que consigamos impedir Israel de usar armas nucleares contra o Irã.
Assim, meus dois pontos finais para vocês são esses: (i) tudo isso
mostra que Israel é um fardo agarrado ao pescoço dos Estados Unidos ― um
argumento que venho defendendo há muito tempo; e (ii) os anos vindouros
no Oriente Médio serão extremamente perigosos por conta de toda a
situação que acabo de descrever.
*John Mearsheimer é professor de relações internacionais na Universidade de Chicago. Autor, entre outros livros, de Como os Estados pensam: A racionalidade da política externa (Unesp). [https://amzn.to/4cpXywZ]
Palestra disponível no Youtube.
Transcrição e tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel.
Notas do tradutor
[I]
Infelizmente, a memória do nosso “realista” é curta para o que os
Estados Unidos vêm fazendo no mundo desde, pelo menos, o golpe de Estado
patrocinado pelos Estados Unidos contra Sukarno, na Indonésia, em 1965,
quando cerca de um milhão de pessoas foram mortas.
[II] A tese que vem circulando a partir da reportagem de Maggie Haberman e Jonathan Swan no New York Times,
de que a decisão de ir à guerra contra o Irã foi de exclusiva
discricionariedade de Donald Trump, em amistosa cumplicidade com
Benjamin Netanyahu, vem sendo confrontada com a especulação de que o
presidente americano teria sido coagido pelos arquivos do Mossad
produzidos pelo antigo provável ativo dessa agência, Jeffrey Epstein.
Ainda que se saiba que o diretor do Mossad, David Barnea, vinha
praticamente residindo na Casa Branca desde dezembro de 2025, ainda não
se tem uma apuração precisa dos fatos que conduziram Trump a sua decisão
monocrática.
[III]
Mísseis balísticos são aqueles que percorrem uma trajetória curva (que
alcança grandes altitudes e distâncias horizontais), mas que é
relativamente previsível, daí serem mais facilmente interceptáveis,
salvo se desenvolvem velocidades hipersônicas; mísseis de cruzeiro são
aqueles que percorrem uma trajetória baixa (não mais que 100 m de
altitude, contornando as elevações do terreno), por isso são mais
difíceis de serem rastreados, mas em geral, com prejuízo para o raio de
alcance. Informes recentes dão conta de que a Coréia do Norte teria
suprido o Irã de um notável carregamento suplementar de mísseis
balísticos nos últimos dias, enquanto a Rússia poderia ter fornecido, já
no início do conflito, até 450 mísseis de cruzeiro de maior alcance e
precisão. Enquanto isso, novos recursos de defesa antiaérea (incluindo
sistemas completos e de rastreio passivo em faixas de infravermelho)
teriam sido providos ao Irã tanto pela China quanto pela Rússia.
[IV]
Nesse ponto, o palestrante se refere aos Houthis, quando parece
evidente que está tratando dos iranianos. A transcrição procurou
corrigir esse equívoco oral.
in A Terra é Redonda