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terça-feira, 7 de abril de 2026

O AUTÓMATO

 

Os tiranos e o Sistema 
                                                                                                     J. A. Nozes Pires
 
«De modo algum retrato com cores róseas as figuras do capitalista e do proprietário fundiário. Mas aqui só se trata de pessoas na medida em que elas constituem a personificação de categorias económicas, portadoras de determinadas relações e interesses de classes. Meu ponto de vista, que apreende o desenvolvimento da formação económica da sociedade como um processo histórico-natural, pode menos do que qualquer outro responsabilizar o indivíduo por relações das quais ele continua a ser socialmente uma criatura […] (Marx, no Prefácio à primeira edição de O CAPITAL
Talvez seja esta a ocasião mais oportuna para esta afirmação de Marx .
São as suas origens e as suas vivências de classe que explicarão quiçá o narcisismo patológico de Trump e a loucura genocida de Netanyahu. É um sistema que permanece não derrotado porque reproduz relações de exploração da força de trabalho e relações de saque colonial.
A figura grotesca de Trump e as mãos ensanguentadas de Netanyahu executam, expressam e prolongam um modo mundial de apropriação das riquezas que o Trabalho produz e o Capital distribui.
Trump e Netanyahu são avatares de uma ideologia dominante porque domina os meios de produção material e seus instrumentos de formação mental . As hordas que comandam, comandam-nos, não desceram das planícies áridas como os cavaleiros de Átila, saem de arranha céus em aviões particulares. O sistema capitalista os gerou e eles são a sua criatura. Não são eles que são degenerados, é o Sistema.
São responsáveis pelo sangue que fizeram verter. São responsáveis pelo assassínio de milhares de crianças, esse crime maior. Contudo e apesar disso que é insofismável eles lavam as mãos nas águas pútridas da fonte de todos s crimes e barbaridades.
As suas próprias doutrinas nefastas . os sionismos cristã e judaico - são declinações do Sistema, inflexões da Máquina trituradora.
As corporações mundiais, as multinacionais, o Capital financeiro das praças de Londres ou de Wall Street, os magnatas do Texas sopram-lhes nas vísceras o veneno da loucura.
Não são desvios e desconfigurações das democracias. São os sonhos negros e totalitários das democracias liberais, capitalistas.
São o nosso pesadelo.
............................................07/04/2026............................................................................... 

O estilo de escrita de MARX

 

Será que Marx era estiloso? Entrevista com Vincent Berthelier

Imagemelaborada a partir de elementos da capa de Questão nacional e Marxismo, organizada por Jaime Pinsky, Brasiliense, 1980, capa de Otávio Roth e Felipe Doctors.

Por Rob Grams

Vincent Berthelier1 é especialista das relações entre estilo, literatura e política. Ele é autor de uma notável obra sobre o estilo reacionário intitulada Le style réactionnaire,2 assim como de uma contribuição sobre a literatura e a extrema direita na obra coletiva do Institut La Boétie, Extrême droite: la résistible ascension.3 Em Le style de Marx (Éditions Sociales, 2025) ele aborda vários pontos que ressoam em questões que nós formulamos na Frustration Magazine: o uso da ironia, os “ataques corrosivos”, a voz dos “principais envolvidos”, além da exigência do rigor combinada a maior acessibilidade possível… Conversamos com ele sobre tudo isso. 

Por que o estilo de Marx? 

Geralmente se lê Marx como um teórico da economia ou da política. Por que era importante, ou em todo caso interessante, na sua opinião, encarar a obra dele pelo âmbito do estilo? 

Eu já vinha lendo Marx há muito tempo. Havia esse seminário de leitura de Marx na ENS,4 ao qual eu assistia, mas eu era da literatura: não era nem filósofo, nem economista, nem historiador. Eu não pertencia a uma disciplina canônica que mobilizasse habitualmente o marxismo. A partir desse seminário, a gente lançou outro espaço de trabalho, mais orientado para a crítica e para a teoria literárias. Não era um seminário stricto sensu marxista, mas um espaço no qual a gente pensava a literatura a partir de um ponto de vista materialista, historicizado, contextualizado, levando em conta determinismos sociais e econômicos. Do meu lado, eu tinha trabalhado no doutorado sobre a questão do estilo, partindo de um corpus bem diferente, já que se tratava da extrema direita. Um trabalho que se tornou em seguida o livro Le style réactionnaire, publicado pela editora Amsterdam. E aí, por efeito de contraponto, eu considerei que essa reflexão sobre o estilo podia também se aplicar à outra vertente política. 

Houve, em seguida, um elemento bem concreto: uma editora das Éditions Sociales, Marina Simonin, deparou-se com um velho livro de Ludovica Silva, Le style littéraire de Marx, escrito em espanhol. Ela cogitou traduzi-lo (a editora Verso o tinha feito em inglês) e pediu minha opinião. O assunto era cativante, mas o livro estava meio ultrapassado. Propus um posfácio consequente ou, finalmente, fazer um livro novo. Foi assim que o projeto nasceu. É essa a causa material. 

Além disso, no que diz respeito ao interesse específico dessa abordagem para Marx: evidentemente, esse não é o ângulo mais imediatamente político. Mas estudar o estilo de um autor, qualquer que seja, significa sempre situar-se no ponto de junção entre o político e o individual. O estilo é tanto um repertório de procedimentos já presentes – portanto tem algo de coletivo, ligado a tendências de época, a tradições literárias às vezes muito antigas – e ao mesmo tempo algo de individual: o jeito do autor de se reapropriar dessas formas, de retomá-las, às vezes para exprimir um pensamento novo, que pode em si ser coletivo ou atravessado por uma sociabilidade muito particular. Durante a redação, é claro que eu me perguntei qual podia ser o sentido político de tudo isto. Na minha opinião, ele se dá precisamente nesta articulação entre o individual e o coletivo. Tento trabalhá-la em várias partes do livro, e principalmente na conclusão, refletindo sobre o que o estudo do estilo permite pensar sobre uma subjetividade revolucionária. O que significa, por exemplo, ser um intelectual prussiano, mas à margem da Prússia, longe de Berlim, na sua parte ocidental; ser tomado pelo turbilhão do século XIX, com todo um conjunto de aspirações e atravessar em seguida a Europa – França, Inglaterra – em busca de uma liberdade bem concreta: de movimento, de expressão, de publicação? Eu não acho que refletir sobre o estilo de Marx seja, em si, uma questão ardente. É bom não se iludir nesse aspecto. Mas acho que é um bom meio de refletir sobre nossa própria subjetividade quando estamos engajados, quando estamos atravessados por um desejo revolucionário, quando estamos envoltos nas contradições da história. 

O estilo, em Marx, adquire diferentes formas de expressão e essas formas remetem tanto a tarefas políticas distintas, quanto a problemas políticos difíceis de resolver. Eu não sou obviamente o primeiro a formular estas questões: elas já foram abordadas por outros críticos. Meu objetivo era também o de propor uma síntese. Mas, sobretudo, tratava-se de entrar não somente no pensamento de Marx – sobre o qual há bibliotecas inteiras – mas naquilo que seu estilo desenha como trajetória de engajamento. E isso, eu acho que pode dialogar bem diretamente com a gente. Por exemplo: a contradição ligada à posição social de Marx. Ele vem de uma classe média superior, é filho de um advogado liberal; não é um burguês no sentido estrito, contrariamente a Engels, mas sua situação é ambígua. Seu pai, judeu convertido, sofreu antissemitismo e uma certa marginalização. Marx não é proletário, mas enfrentou momentos de grande precariedade. No fundo, sua situação parece com a de muitos estudantes, muitos professores precários – um importante viveiro sociológico de militantes hoje em dia. Pessoas que se encontram em uma posição contraditória: por exemplo, quando você vai ao campo e cruza com pessoas que ganham muito pouco, com modos de vida e referências bastante distantes das suas, mas que, ainda assim, você sabe que têm interesses econômicos e políticos comuns a defender. Como você encara isso? Será que você fala “por”? Será que você se cala em nome da legitimidade dos outros, arriscando deixar de lado o que você, por sua vez, assimilou? 

Em Marx, essas tensões se exprimem de maneira discreta, sem adquirir a forma de uma culpa infinita, que me parece ser hoje a modalidade dominante entre militantes. Essa ideia de que estaríamos sempre, de antemão, na posição de um mau dominador, culpado por uma “violência simbólica”, parece hoje superinvestida. Marx propõe, à sua maneira, pistas de resolução em torno da questão do porta-vozismo, da teorização de situações sociais que nós mesmos não vivemos. São desafios bastante contemporâneos, que podem ser pensados a partir de Marx não pela reativação direta de seus grandes conceitos (exploração, modo de produção capitalista etc.), mas pela retomada de sua posição como pensador engajado, situado em sua própria realidade concreta.

Tomemos um exemplo concreto. O Manifesto do Partido Comunista é um dos textos políticos mais lidos do mundo. Tem isso a ver com sua potência estilística? 

De um modo geral, sobre a questão do estilo, eu sou bem deflacionista. Isto é, considero que é importantíssimo não lhe dar uma importância excessiva. O estilo não pode ser descolado do resto: do conteúdo, do contexto, das condições materiais de produção e de circulação dos textos. Não se trata portanto de estudar o estilo pelo estilo, como uma pura criação formal separada do mundo social. Podemos – e devemos – estudar o estilo historicamente e politicamente, mas sem lhe atribuir virtudes que ele não tem. 

Peguemos O Manifesto do Partido Comunista. É um texto de uma abrangência internacional absolutamente colossal, que não precisa ser demonstrada. Mas, se procurarmos entender por que ele se tornou assim conhecido, as causas são múltiplas e não têm todas o mesmo peso. A primeira questão, muito concreta, é a dos intermediários: quem permitiu que o texto fosse publicado, e republicado? Afinal, qualquer livro é publicado uma primeira vez; o que faz a diferença, no entanto, é o que lhe permite circular, ser lançado de novo, ser reeditado. Desse ponto de vista, o fato que Marx tenha sido erigido em uma figura teórica central, quase como um profeta, pelos bolcheviques, e que estes últimos tenham feito, com sucesso, uma revolução em um país imenso, dotado de um potencial econômico considerável, conta evidentemente muito mais que o estilo do texto. Podemos fazer uma experiência de pensamento: imaginemos que Marx não tenha tido tempo de terminar O Manifesto e que tivéssemos ficado apenas com o Catecismo comunista de Engels, um texto dialogado, de estilo bem diferente. As ideias são, em linhas gerais, as mesmas, já que se trata de um trabalho comum, vinculado à linha política que eles buscavam impulsionar no interior da Liga dos Justos,5 e depois da Liga dos Comunistas6. Nada impede de pensar que esse texto poderia ter circulado e entrado para a posteridade. Seu estilo é, porém, completamente diferente. No Manifesto, reconhece-se imediatamente a marca de Marx: essa tendência a fazer falar diferentes instâncias, esse lado marionetista, essa ironia permanente… Coisas que se encontram muito menos em Engels, que é, todavia, igualmente bom escritor quando atua como historiador. 

Se observarmos os livros que tiveram uma difusão mundial massiva – a Bíblia, o Corão, o Pequeno Livro vermelho – veremos que seu sucesso não se baseia em uma suposta legibilidade estilística. A Bíblia e o Corão são, para muitos leitores, textos dificílimos, às vezes quase ilegíveis. O Pequeno Livro vermelho é um objeto muito estranho: há ali explosões de lirismo, vindas de parábolas chinesas, misturadas a trechos de discursos de congresso com os quais nem sempre se sabe o que fazer – e no entanto, ele foi lido, recitado, estudado de maneira quase religiosa. Quando um texto é impulsionado por uma força política massiva, ele pode tornar-se um estandarte seja qual for o seu formato. É nesse sentido que eu me digo deflacionista. 

Isso dito, podemos formular a questão de outro jeito, pelo lado do uso vivo dos textos. Aí, o estilo volta a ser importante. Em que medida um texto como O Manifesto pode funcionar como um repertório de slogans, ou como um texto no qual comunidades políticas se reconhecem? Nesse nível, há mesmo elementos estilísticos que produzem efeitos. Se retomarmos o Pequeno Livro vermelho, por exemplo, certas metáforas – o “tigre de papel” etc. – constituem verdadeiros espaços de elaboração estilística, que convocam a reprise, a citação, a reapropriação. E aí, efetivamente, o estilo conta. 

Em breve “O Estilo de Mao”? 

(Risos.) Não é a ideia, mas seria bem interessante. Atualmente, estou trabalhando sobre questões de circulação internacional dos textos e também sobre a história das formas. O caso de Mao é fascinante. Ele escrevia poesia clássica ao modo da dinastiaSong,7 portanto em formas com mais de mil anos de existência. Um estilo antigo, muito arcaico. É mais ou menos como se Mélenchon8 escrevesse hoje poemas ao modo de Villon,9 ou mesmo epopeias tipo A Canção do Rolando10: dá para imaginar o grau de arcaísmo. Mao escrevia em versos bem regulares, e nem mesmo seus adversários políticos contestavam a qualidade formal dos seus poemas. 

O que é divertido é a recepção na França. Quando esses textos foram traduzidos, os situacionistas e os anti-maoistas diziam que era uma porcaria. Mas não tem nada a ver com isso: é simplesmente muito difícil de ler. É mais ou menos como a poesia da dinastia Tang11: quando não conhecemos o sistema, parece-nos intragável. Com Mao, estamos diante de um líder comunista que defende a educação das massas, a simplificação do chinês, a substituição do chinês literário pelo chinês falado – e que, paralelamente, escreve em um chinês hiper arcaico, com formas bem elitistas. É um objeto profundamente contraditório, e é por isso que é instigante.

Já que estamos falando da circulação, será que os operários do século XIX realmente liam Marx no próprio texto ou o faziam indiretamente através de jornais e de círculos de leitura? Será que o pensamento de Marx junto a eles se difundia pela leitura dos textos ou por via oral? 

De maneira geral, os operários do século XIX não liam muito Marx. Seu verdadeiro triunfo veio sobretudo após a Revolução de Outubro.12 Isso dito, não é inteiramente falso afirmar que ele foi lido em vida: esteve bastante presente, por exemplo, nos círculos dirigentes da social-democracia alemã.

A circulação das suas ideias se dá, portanto, de maneira bem desigual. Podemos pensar em Jules Guesde,13 por exemplo, que lê Marx, encontra-o e com ele colabora para a redação da introdução do programa do Partido Operário Francês (POF). Mas será que esse programa foi realmente escolhido pelos operários? Nada o garante. Aliás, ainda hoje, quem lê os programas políticos? 

Se observarmos o período 1848-1870, podemos dizer que, na realidade, quase ninguém lê Marx. Aqueles que o leem o fazem sobretudo através do New York Daily Tribune,14 no qual ele publica enormemente: é provavelmente aí que seus textos são mais lidos durante a sua vida. Por outro lado, ele publica pouquíssimos livros. Contribuição à crítica da economia política é uma obra erudita, e Marx espera aliás ser recebido como economista pelos economistas, com uma recepção científica. O mesmo vale para O Capital. Há o caso particular da edição francesa d’O Capital e seu prefácio no qual Marx explica como ler o livro aos operários franceses. Há, portanto, essa espera por um leitorado operário. Mas, na realidade, o próprio Marx parece estar pensando mais no seu trabalho como uma versão sólida, rigorosa, destinada a ser em seguida vulgarizada por outros. Marcello Musto mostra isso muito bem na sua biografia dos últimos anos de Marx: enquanto prepara a sequência do Capital e suas diferentes edições, Marx vigia de pertinho as versões vulgarizadas que circulam – geralmente sem sua autorização, em forma de piratagem. O roteiro é quase sempre o mesmo: ele lê, diz primeiro “é uma porcaria, há erros por todos os lados”, depois termina concluindo que “no final das contas, não está de todo mal”. 

Do lado dos operários, o acesso direto aos textos de Marx permanece bem limitado. Há as aulas que ele dá em associações operárias, em Paris ou em Bruxelas, mas elas são frequentadas por um pequeno número de operários e de operárias, geralmente artesãos alemães. Aí, a transmissão é essencialmente oral. 

Temos também que levar em conta a circulação dos textos no seio da Internacional. Salário, preço e lucro, por exemplo, sai de uma discussão com um operário. Mesmo que a Internacional conte com intelectuais burgueses e pequenos-burgueses como Marx e Engels, trata-se de fato de uma organização operária, inclusive sociologicamente. Há, portanto, uma audiência operária, mas ela é restrita e bem localizada. 

Em suma: os “grandes livros” de Marx quase nunca são lidos diretamente pelos operários, a não ser por uma ínfima minoria. Existem, todavia, figuras de operários muito educados – tipógrafos, autodidatas, militantes – um pouco à maneira de Proudhon, que dedicam tempo à própria formação, por vezes escrevem as suas memórias e que, nos círculos militantes, inevitavelmente ouvem falar de Marx. Esses, sim, podem lê-lo. Mas temos que imaginar as condições materiais: O Capital, impresso em gótico, seiscentas páginas… Mesmo após a primeira tradução francesa, em 1875, o acesso permanece difícil. Quanto ao Manifesto, leva tempo antes que ele seja retraduzido e amplamente republicado. Vários desses textos só ficam realmente disponíveis depois da Comuna de Paris em 1871, no momento em que a figura de Marx emerge no debate público e midiático. 

Qual a relação de Marx com a literatura? Será que ele se inscreve em uma herança particular no nível do estilo, enquanto escritor? 

Marx tem várias heranças literárias. Para começar, seus primeiros textos são poemas. Foram traduzidos há menos de dez anos pela L’Insomniaque, uma pequena editora anarquista de Montreuil. São poemas bem românticos, de juventude, descabelados, cheios de instigação juvenil. 

Mas Marx não é somente um poeta de juventude. Ele é também um leitor compulsivo: conhece tanto os clássicos – Cervantes, Goethe, Shakespeare, Balzac – quanto a literatura contemporânea de sua época, incluindo best-sellers como Dumas ou Eugène Sue. Já Victor Hugo o conhece de longe: reconhece seu talento, mas o considera politicamente equivocado. Há, nos seus escritos, uma alusão a Quasímodo; portanto, ele sem dúvida leu O Corcunda de Notre-Dame. Leu também o panfleto de Hugo sobre a Comuna.

Isso não significa que Marx se inscreve em uma corrente literária particular. Os partidos comunistas, durante muito tempo, apresentaram Marx e Engels como partidários do realismo, em oposição ao romantismo “degenerado” burguês. Mas esse realismo é uma construção a posteriori. Na época em que Balzac morre, o realismo literário está só começando a se forjar e, nos textos de Marx, as referências balzaquianas não são tão centrais assim. Suas principais referências são antes Shakespeare e Don Quixote, e ele é amante dos grandes romances pré-modernos, essa forma exuberante e extravagante. Dizer que Marx é partidário do realismo literário como doutrina é um exagero, ainda que seja verdade que ele não defenda a arte pela arte: considera que a literatura pode e deve refletir o mundo, o que era uma posição comum na época e de modo algum específica do realismo ou do marxismo. 

Marx, escritor plurilíngue 

Marx escreve em alemão, em francês e em inglês, e lê fluentemente várias línguas. Será que o plurilinguismo é importante para entender sua escrita e sua política? 

Sim, claramente: o plurilinguismo é importante para entender tanto a escrita quanto a política de Marx. 

Primeiro, a escrita. Quando lemos os textos mais espontâneos na língua original – cartas, borrões… –, deparamo-nos com algo bem impactante: uma prosa estranha, que mistura o tempo todo várias línguas. Marx passa do alemão ao francês, intercala citações latinas, às vezes inglês. A respeito disso, fala-se de “babelismo”15 – a expressão não é minha –, e é um traço que se deve levar absolutamente em conta se quisermos falar do estilo de Marx. 

A partir daí, a questão se torna: por que ele escreve assim? E é nesse ponto que chegamos, indiretamente, na política. Essa mistura de línguas não se explica somente pelo nomadismo de Marx – fenômeno bem comum nos militantes do século XIX. Há também algo de mais social, quase lúdico: um lado presunçoso, ingênuo, ligado ao habitus do estudante de filosofia. Marx é doutor em filosofia, o que, na época, é extremamente raro. Ele pertence a um mundo sábio em que é corriqueiro trocar umas piscadelas eruditas, fazer piadas de “ratos” de biblioteca, brincando com as línguas. Sobretudo porque esse domínio é, em grande medida, livresco: quando Marx chega em Paris, por exemplo, ele tem dificuldade em falar francês e convive principalmente com alemães. Mas o que chama mais a atenção é que o lugar das línguas evolui no decorrer da sua vida. Quando ele chega em Londres, o inglês se integra progressivamente a esse emaranhado linguístico, ao passo que tinha ficado quase ausente até então. E essas línguas têm conotações políticas. Escrever em alemão com pitadas de latim é estampar uma cultura sábia; adicionar um pouco de francês é indicar uma relação com a França, com a herança da Revolução e com um certo liberalismo político. Quando Marx começa a utilizar o inglês, ele adota também a língua da economia política – língua que ele não dominava no começo, já que primeiro lê Smith e Ricardo em tradução francesa. 

É neste momento que o plurilinguismo se torna plenamente político. Marx aprende línguas para entender situações concretas. Ele se dedica ao espanhol para acompanhar uma crise revolucionária na Espanha; aprende o russo quando começa a perceber que há ali algo de importante após ter, durante muito tempo, mantido esse país à distância por russofobia. Ele encomenda livros sobre as comunas agrárias russas, simplesmente para se informar direto na fonte, em uma época em que não havia nem internet nem circulação fluida de informação. Poder ter acesso direto aos textos, sem intermediários, é um privilégio político de marca maior. 

Isso também lhe permite ocupar uma posição central em uma vasta rede de correspondentes: militantes, responsáveis políticos, agitadores de toda a Europa. Mesmo que o poder real da Internacional permaneça limitado, essa capacidade de dialogar em várias línguas cumpre um papel crucial na difusão das suas ideais. Marx se torna uma espécie de joelho operário – sem trocadilho de mau gosto – desse espaço internacional. 

Há nele uma tensão interessante: tanto um internacionalismo afirmado, quanto uma maneira bem novecentista de falar dos povos, dos seus “caracteres”: o espírito francês, inglês, alemão etc. Isso não o incomoda particularmente. Mas, ao mesmo tempo, porque atravessou esses contextos, ele sabe muito bem que as situações políticas mudam em função do país, e que os programas devem ser adaptados. Essa visão panorâmica, plurinacional, protege-o de um certo dogmatismo. É, aliás, um tanto irônico, quando sabemos que Marx é geralmente acusado de rigidez doutrinal. Na realidade, ele não para de lembrar que a análise deve ser articulada às situações concretas, e que os programas políticos não são fadados a ser idênticos em todos os lugares. Sabemos até que ponto, mais tarde, certas tradições oriundas da Terceira Internacional ou do trotskismo sofreram com a aplicação mecânica de fórmulas engessadas a contextos nos quais não funcionavam. Desse ponto de vista, o plurilinguismo de Marx não é um detalhe biográfico: é uma condição central da sua prática política. 

A reviravolta: escrever contra a ordem estabelecida 

Você consagra um capítulo inteiro a uma figura de estilo aparentemente técnica: a antimetábole. Será que você poderia dizer do que se trata e por que essa utilização por Marx? 

A antimetábole é uma figura de estilo simplicíssima: é uma repetição invertida. Pegamos uma fórmula A-B e a revertemos em B-A. O exemplo mais famoso, é a Filosofia da miséria de Proudhon, que se torna, em Marx, Miséria da filosofia, em 1847. 

Como todas as figuras de estilo, a antimetábole é trans-histórica. Podemos encontrá-la em Platão, em Heródoto, na poesia chinesa clássica: é uma estrutura extremamente simples, uma forma de repetição. Em si mesma, essa figura não tem, portanto, nenhuma significação política ou filosófica. Mas a questão interessante é: por que Marx faz dela um uso tão massivo? 

De um ponto de vista estilístico, temos que permanecer prudentes. Podemos adotar uma leitura “deflacionista”: Marx e Engels utilizam muito a antimetábole, mas não são os únicos. Os Jovens Hegelianos também recorrem a ela abundantemente. Podemos, então, ver aí uma moda de escrita, um marcador de grupo, uma forma de reconhecimento interno – como há constantemente na história literária e militante. Poderíamos fazer um paralelo contemporâneo: certas metáforas que circulam hoje nos meios militantes terminam transformando-se em tiques de linguagem, sinais de pertencimento, às vezes às custas de um empobrecimento do seu sentido. Em outras palavras, nem todas as formas estilísticas são necessariamente o produto de uma necessidade filosófica profunda; elas podem ter a ver com dinâmicas de rede, de imitação, de circulação.16

Isso posto, o objetivo do capítulo era justamente o de não se ater a essa explicação. Se a antimetábole é talvez, em parte, uma moda, o que permite apesar de tudo atribuir-lhe uma significação mais profunda em Marx? 

Primeiro, há origens filosóficas: hegelianas, depois feuerbachianas. Em Feuerbach, por exemplo, a antimetábole acompanha o gesto de inversão do idealismo em materialismo. Não é bem a dialética em sentido estrito – quer dizer, a ideia que a realidade é contraditória e avança pela superação das suas próprias contradições – mas antes um gesto de reviravolta conceitual. Em Marx, essa figura aparece de maneira desigual de acordo com os textos. Está muito presente em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, texto central tanto para o materialismo histórico aplicado, quanto para a filosofia política. Aí, a antimetábole se adapta particularmente bem à escrita polêmica: Marx descreve um mundo invertido, absurdo – um “cretino” que toma o poder17 – e a figura estilística abraça essa inversão. Ela dá uma forma linguística ao sentimento de um mundo pelo avesso. Mas, ao mesmo tempo, Marx não se atém a esse primeiro nível. O miolo da sua análise consiste justamente em superar a aparência do mundo invertido para explicar suas causas materiais e os interesses de classe que aí se operam. 

Na realidade, a dialética estilística de Marx se encontra em outra parte: no movimento conceitual do Capital, no qual passamos da mercadoria à moeda, depois ao capital – um desencadeamento de categorias que imita o movimento real do sistema. É aí que se opera a dialética, mais que nas fórmulas de inversão. Resta um momento em que a antimetábole adquire um alcance político e poético forte: o fim do livro I do Capital, com “a expropriação dos expropriadores”. 

A transformação da propriedade privada dispersa em propriedade privada capitalista é, naturalmente, um processo mais difícil que a transformação da propriedade capitalista em propriedade social. Ali, tratava-se da expropriação da massa do povo por um pequeno número de usurpadores; aqui, trata-se da expropriação de um pequeno número de usurpadores pela massa do povo. 

Essa passagem funciona como uma conclusão provisória, um epílogo, um ato de bravura. Marx concentra uma energia polêmica e revolucionária em uma estrutura de repetição invertida. Que ele coloque essa fórmula no fim de uma obra densa, árida, técnica, não é anódino. Ele sabe que os leitores leem geralmente a introdução e a conclusão, e que essas passagens podem circular como slogans, como arquivos, como recursos militantes. Essa página cita, aliás, O Manifesto do Partido comunista, que é ainda pouco disponível na época. Essa antimetábole inscreve na língua a própria ideia da reviravolta social. 

Uma escrita de combate 

Você mostra que Marx é geralmente polemista, adota um estilo às vezes frontal, ou até francamente violento. Você mostra também que em Marx a polêmica, seus “ataques corrosivos”, não são gratuitos. Que função eles têm? 

Eles atendem a uma lógica precisa: Marx procura superar o indivíduo para alcançar o tipo, o social, o estrutural. 

Em certos contextos particulares, como a Comuna de Paris, ele leva em consideração qualidades individuais: quem será um bom chefe? Encontra-se aí retratos personalizados, como o de Thiers18 ou seus comentários sobre Blanqui19 – ele pensava que, se estivesse presente, ele teria podido manter a insurreição por mais tempo. Mas, no conjunto, o indivíduo é analisado como representativo de um tipo, e esses tipos permitem englobar realidades sociais mais gerais. É um gesto literário, presente de Don Quixote até as personagens de Balzac ou de Molière: passar do individual ao geral para entender o mundo. 

Marx utiliza muito as antonomásias: transformar um nome próprio em nome comum, do indivíduo ao geral. Por exemplo, em A Ideologia alemã, Sancho Pança se torna um tipo universal aplicado a Max Stirner.20 Esse método liga o passado literário de Marx a uma função analítica: ele constrói tipos que encarnam estruturas sociais e políticas. 

A polêmica tem também um papel muito concreto na vida militante. Podemos citar o panfleto monumental contra Carl Vogt nos anos 1860. Vogt, socialista e cientista, que era também um espião de Napoleão III21 tinha caluniado Marx. Marx junta todos os documentos, desmonta ponto por ponto os escritos de Vogt, utiliza antonomásias e tipos caricaturais da literatura para ridicularizá-lo. No âmbito teórico, o interesse é limitado. Mas, no âmbito militante, é uma defesa procedural da sua reputação. O mesmo habitus procedural se encontra em outros lugares, por exemplo em As Revelações sobre o processo dos comunistas de Colônia ou O Cavaleiro da nobre consciência diante de August Willich22. Nesses textos, Marx defende seus camaradas e expõe a má fé e as manipulações dos seus adversários. É um gesto de militante perante o Estado autoritário: para sobreviver em um contexto repressivo, é preciso reunir provas, montar dossiês, manipular o formalismo, mesmo sabendo que é geralmente em vão. Essa polêmica tem igualmente uma função para a posteridade o para o capital militante: desmontar a reputação do outro permite consolidar a sua, deixar um traço escrito para a história, e marcar a legitimidade de um posicionamento no seio do movimento. Marx pode assim combinar um prazer literário de “desmontagem” com uma estratégia política militante e concreta. 

Você insiste no fato que a ironia de Marx é “manifesta”, nunca elitista. Será que você pode explicar essa distinção que você faz? 

A ironia é um conceito complexo. É uma noção bem antiga: é possível encontrá-la já na Antiguidade, em Platão, com a ironia socrática. Sócrates diz coisas que dão a impressão que ele está zombando, mas não são necessariamente antífrases – ele não diz o inverso do que pensa, ele o diz de maneira desviada. Da mesma forma, desde a Antiguidade, comentadores refletem sobre a ironia de Cristo. Portanto, estamos lidando com uma noção muito antiga, com estratos sucessivos de sentido. 

A isso se acrescenta a ironia romântica alemã, que encontramos notadamente em Goethe, e que Hegel tenta analisar: uma ironia própria à modernidade, ligada à relativização dos valores, ao fato que um sujeito moderno tem consciência da pluralidade dos sistemas de pensamento e que, pode, portanto, colocar todas as certezas à distância. 

Se quisermos uma definição mínima, podemos dizer que a ironia consiste, para o enunciador, em colocar uma distância com relação ao que ele diz. Essa distância pode adquirir várias formas: dizer o contrário, falar de um certo modo, retomar falas existentes sem que os outros saibam a que ponto aderimos a elas, ou ainda operar com graus de concordância ambíguos. É, aliás, por isso que a ironia é geralmente suspeita nos meios militantes: reprova-se nela o fato de nunca abolir completamente o primeiro sentido, de deixar pairar uma dúvida sobre a posição real daquele que fala. E como essa distância deve ser interpretada pelo leitor ou pelo auditor, a ironia implica um trabalho de decodificação. Isso pode produzir mal-entendidos, ou até um efeito de exclusão – alguns entendem, outros não – e criar uma forma de incerteza interpretativa permanente. 

Ora, Marx não corresponde a esse modelo. O que se observa nele não é uma ironia que dissimula o fundo do pensamento. Marx não procura multiplicar os níveis de sentidos para deixar o leitor em uma suspensão infinita. Não é um escritor que cultiva a ambiguidade ou a proliferação interpretativa. Pelo contrário, sua ironia é ligada à sua atividade de polemista e de propagandista. Ele tem posições filosóficas e políticas bem nítidas, e suas conclusões são sempre legíveis. A ironia lhe serve para zombar do adversário. 

No livro, eu o comparo a outras figuras da ironia, notadamente Heinrich Heine,23 que Marx lia. Heine, por sua vez, mantém uma forma de incerteza sobre seus valores e suas posições: nunca se sabe completamente o que ele pensa, e esse embaçado pode ser lido como uma ironia moderna, pós-romântica, fundada na relativização dos valores. Não é de jeito nenhum o caso de Marx. É por isso que eu situo sua ironia, antes, do lado de Voltaire ou de Brecht, do que de Flaubert ou de Heine. Em Voltaire ou Brecht, a ironia permanece orientada, polêmica, dirigida contra alvos precisos. Ao passo que em Flaubert – e mais ainda no que tange a certas formas de humor – podemos ir a uma relativização mais larga, em que os próprios valores são suspendidos, ou até em que o autor se toma ele mesmo o alvo (através da figura de Frédéric Moreau).24 Há todo um espectro entre ironia e humor, com formas bem diferentes, e me perecia interessante situar Marx nessa cartografia. 

Fazer falar os outros 

Você diz que Marx tem uma escrita “polifônica”. Que significa isso? E qual função política isso tem? 

Polifonia quer dizer que há várias vozes. Mas é uma noção bem plástica. Se a tomarmos no sentido estrito, um romance polifônico é, por exemplo, um romance tipo Faulkner, com vários narradores, vários pontos de vista. Se alargarmos, a polifonia é simplesmente o fato de uma obra produzida por um único autor fazer ouvir várias vozes.

A noção adquiriu uma dimensão política notadamente com Bakhtin, que se interessou pelos romances de Dostoievski. Para ele, esses romances são polifônicos porque fazem ouvir várias vozes ideológicas que se confrontam sem que nenhuma domine. Ao lado de Bakhtin, há Volóchinov, grande linguista soviético, que defende a ideia que todo discurso social é atravessado por vozes diversas: nenhum enunciado é puramente individual, toda fala é carregada de social. Essas teorias circularam massivamente nos anos 1960, notadamente na França, onde foram retomadas em contextos bem diversos: estudos literários, linguística, psicanálise lacaniana, marxismo crítico. Havia por trás disso a ideia que o sujeito não é um bloco unificado – quando eu falo, “algo fala” através de mim, ouve-se vários estratos de discursos sociais. E, politicamente, essa noção serviu também para des-dogmatizar certas leituras marxistas da literatura. Em vez de reduzir uma obra a um simples reflexo de estruturas econômicas, podíamos dizer: a esfera estética é atravessada por ideologias, mas ela as põe também à distância, ela as faz dialogar. A polifonia permitia tanto conservar uma grade marxista como evitar um reducionismo demasiado rígido. Com o tempo, a noção se degradou um pouco, às vezes associada a uma espécie de pluralismo democrático mole: literatura como espaço de coexistência pacífica das vozes. Vemos isso por exemplo em certas formas contemporâneas de romance policial bem polifônico, mas politicamente bem centristas (como o mostra o ensaio de Lucie Amir).25

Aplicada a Marx, a polifonia suscita um problema interessante. Primeiro, é preciso lembrar: mesmo que Marx faça falar várias vozes, é sempre ele o maestro. Ele pode pôr em cena burgueses, operários, inspetores, mas, no final, é ele quem enquadra e dirige o confronto. E isso é impactante n’O Capital. Marx cita em abundância: seus adversários, economistas, discursos operários, inspetores de fábrica. Ele faz falar figuras típicas: “o operário”, “o burguês”, personagens abstratas que encarnam posições de classe. Ele raciocina antes em termos de tipos que em termos de indivíduos singulares. Ao mesmo tempo, O Capital é um objeto bem estranho: é uma obra científica, extremamente fundamentada, rigorosa, que adota protocolos de escrita muito modernos para a época; mas é também um livro feito de colagens, de citações, de superposições de vozes. Não é um tratado clássico do século XIX. E, no entanto, tampouco se trata de um texto pós-moderno: a voz teórica principal nunca é dissolvida. Um momento chave para entender essa polifonia é o capítulo 8 do Capital, sobre a jornada de trabalho. Marx descreve nele situações absolutamente horríveis, notadamente a exploração de crianças de seis ou oito anos, seu embrutecimento cognitivo assim como sua destruição física e moral. É um capítulo profundamente carregado moralmente. Ora, Marx, por princípio, não quer dar lição de moral. Ele quer analisar a história como uma confrontação de forças sociais e recusa o melodrama de certos socialistas do seu tempo. Mas, ao mesmo tempo, ele não pode deixar de falar nisso. É o que instiga a ira, a indignação, o engajamento político. Então, como fazer? A solução formal que ele encontra é a delegação da voz moral. Em vez de se indignar diretamente, ele faz falar outras pessoas e em particular inspetores de fábrica, que ocupam uma posição social intermediária. Essas vozes exprimem a indignação no seu lugar. Marx se apaga momentaneamente, integrando essa indignação ao seu dispositivo teórico. É uma polifonia que lhe permite assumir politicamente a emoção sem comprometer a postura científica. 

Há outro desafio: fazer falar os operários. Marx é confrontado com um problema: o operário “real” não é espontaneamente marxista. Na França, ele é geralmente proudhoniano, na Inglaterra, cartista, na Alemanha, às vezes milenarista cristão. E mesmo quando ele é revolucionário, sua formulação pode ser julgada por Marx como teoricamente “limitada”. O que fazer, então? Dar diretamente a palavra aos operários, correndo o risco que isso contradiga sua teoria? Ou fabricar uma figura ideal do operário, que exprime a consciência de classe tal como Marx a concebe? Em O Capital, Marx oscila entre essas duas opções: às vezes faz falar um operário abstrato, típico; às vezes cita operários reais, discursos cartistas. E mais tarde, ele tenta outra solução com seu questionário operário (em francês e em inglês) – notadamente estudado por Juliette Farjat26: um dispositivo que dá a palavra aos trabalhadores, mas em um âmbito estruturado pela sua teoria. É, para ele, uma forma de compromisso entre autonomia operária e exigência teórica. 

Sobre o assunto de fazer falar os outros, você mesmo utiliza epígrafes (curtas citações) em começo de capítulo? 

A base disso foi algo que comecei a fazer um pouco por acaso: eu anotava pequenas citações, pensando “isso cairia bem no livro”. No começo havia três ou quatro, depois eu percebi que esse tipo de citação poderia atravessar o livro inteiro. Isso também coincidia com o momento das minhas leituras. Eu estava em uma fase de poesia chinesa, em paralelo ao meu trabalho sobre Marx. Em algum momento, pensei: olha só, talvez haja algo a fazer com isso. Espero que não pareça demasiado presunçoso, tipo “estou espalhando meu saber” – mas tratava-se, realmente, de algo ligado às minhas áreas de interesse naquele momento. 

Lendo Marx, notadamente O Manifesto, há uma passagem muito famosa em que ele explica que o capital estende as relações capitalistas ao mundo inteiro e que é preciso fazer emergir uma literatura mundial. É uma passagem amplamente comentada hoje em dia, sobretudo no meio literário: a noção de literatura mundial ganha cada vez mais amplitude – e isso me interessa muito. Passei, a partir daí, a procurar citações por todos os lados, dizendo a mim mesmo: eu venho dos estudos literários franceses, minha cultura é bem europeia, bem eurocêntrica. E, ao mesmo tempo, eu me perguntava: como pensar o internacionalismo a partir deste ponto de vista? Como fazer coexistir o espírito de cosmopolitismo próprio à literatura – essa abertura ao mundo – com uma reflexão política sobre o internacionalismo? Falo disso também porque havia lido, na Frustration Magazine, um artigo que discutia justamente a maneira de pensar o internacionalismo hoje sem cair em uma forma de campismo simplista. Não acho que os estudos literários possam responder diretamente a essa questão, mas podem contribuir para enriquecê-la. 

É uma questão que deveria atravessar mais os estudos literários. Quando fazemos letras, encontramo-nos rapidamente em um âmbito franco-cêntrico, mas, na realidade, mesmo quando fazemos literatura francesa, nunca lemos unicamente literatura francesa. Não estudamos Baudelaire sem nos interessar um pouco por Edgar Poe, não estudamos Claude Simon sem pensar em Faulkner: todos os autores entram em redes de influência internacionais. E, ao mesmo tempo, eu via que nos doutorandos de letras, terminamos geralmente nossa tese sem nunca termos lido uma linha de literatura indiana, chinesa ou árabe – literaturas milenares que ignoramos completamente. Portanto, a ideia das epígrafes era também a de fazer pequenas incursões em literaturas não europeias (não somente, aliás: há também o poeta latino Horácio, por exemplo). A ideia geral era imaginar uma espécie de antologia possível das leituras de um Marx do século XX ou do século XXI: o que poderia ele ter lido? o que poderia ele apreciar? 

Há portanto poesia russa (não comunista, aliás), poesia árabe clássica, um eco a uma anedota contada por Marcello Musto,27 em que Marx chega na Argélia e lhe contam uma pequena fábula local sobre um sábio que não sabe nadar. Há o Japão, a China, lugares importantes da elaboração do marxismo no século XX. Através das epígrafes, eu tentei produzir um eco discreto à ideia de literatura mundial em Marx, e abrir o texto para um horizonte mais amplo. Trata-se de uma forma deliberadamente explicitada e alusiva, por vezes um tanto obscura – e também de um certo prazer da escrita.

*** Rob Grams é editor-chefe da Frustration Magazine.

Entrevista realizada em 22 de janeiro de 2026, e publicada em 5 de fevereiro de 2026 no site da plataforma Frustration Magazine com o título “Marx était-il stylé?”. Traduzido por Diogo Santiago.

Agradecemos ao autor e ao editor, Vincent Berthelier e Rob Grams, pela permissão da publicação.

Nota editorial
Durante março-abril de 2026, o blog esteve sob responsabilidade de Camila Góes (edição interina).


Notas

  1. Todas as notas de rodapé são da tradução; quando forem do redator, aparecerão em itálico, com “ndr” no início. ↩︎
  2. Vincent Berthelier, Le style réactionnaire – De Maurras à Houellebecq, Paris, ed. Amsterdam, 2022, 392 p. ↩︎
  3. Ugo Palheta (coord.), Extrême droite: la résistible ascension, pref. Johann Chapoutot, posf. Clémence Guetté, Paris, ed. Amsterdam, 2024, 280 p. ↩︎
  4. École Normale Supérieure, Paris. ↩︎
  5. Ndr: organização revolucionária do século dezenove, ativa principalmente em Paris e na Alemanha. ↩︎
  6. Ndr: organização política internacional de trabalhadores do século dezenove, vinda da Liga dos Justos. ↩︎
  7. Ndr: dinastia que reinou na China entre 960 e 1279. ↩︎
  8. Jean-Luc Mélenchon, fundador e figura de proa do partido de esquerda La France Insoumise (LFI). ↩︎
  9. Ndr: poeta francês do fim da Idade Média). ↩︎
  10. Ndr: poema épico do fim do século onze. ↩︎
  11. Ndr: poemas da época da dinastia Tang: 618-907. ↩︎
  12. Ndr: revolução na Rússia que leva os bolcheviques ao poder em 1917. ↩︎
  13. Ndr: jornalista e político francês, fundador do socialismo marxista na França. ↩︎
  14. Ndr: um dos jornais mais influentes do século dezenove nos Estados Unidos. ↩︎
  15. Cf. comutação (n. f.): uso alternado de dois idiomas por pessoa bilíngue. Aulete Digital. ↩︎
  16. mpossível não pensar na atual querela suscitada pelas publicações de um artigo de Vladimir Safatle, intitulado “O grande FMI universitário”, Revista Piauí, janeiro de 2026, e de um de Douglas Barros, intitulado “Contra Nego Bispo”, blog da Boitempo, 21 de janeiro de 2026 – ambos disponíveis na internet.  ↩︎
  17. Como não pensar naquele que, sem “tomar” o poder no sentido estrito, empossou-se dele após ter sido “democraticamente” eleito no Brasil, em 2018? ↩︎
  18. Ndr: político francês do século dezenove, presidente da República e responsável pela repressão da Comuna de Paris. ↩︎
  19. Ndr: revolucionário francês do século dezenove, partidário de uma insurreição imediata para instaurar o socialismo. ↩︎
  20. Ndr: filósofo alemão que defende o individualismo radical e a liberdade pessoal contra toda autoridade. ↩︎
  21. Ndr: imperador dos franceses de 1852 a 1870, conhecido por seu regime autoritário. ↩︎
  22. Ndr: militar e revolucionário alemão do século dezenove, engajado nas revoluções de 1848 e mais tarde general no Exército da União durante a Guerra de Secessão. ↩︎
  23. Ndr: poeta e escritor alemão do século XIX, famoso por sua ironia, seu lirismo e sua crítica política. ↩︎
  24. Frédéric Moreau, personagem principal de A Educação sentimental, romance de Gustave Flaubert (1821-1880), publicado em 1869. ↩︎
  25. Lucie Amir, Politiques du polar, Paris, ed. Amsterdam, 2025, 176 p. ↩︎
  26. Juliette Farjat, Le Langage de la vie réelle – Pour une philosophie critique des pratiques langagières, Paris, ed. Les Éditions Sociales, 2024, 344 p. ↩︎
  27. Marcello Musto (1976-), professor de sociologia na York University (Canadá), um dos principais nomes atuais dos estudos sobre Marx.  ↩︎

Empenhada há três décadas em traduzir as obras de Marx e Engels, com rigor acadêmico e editorial, e sempre a partir dos manuscritos originais, a Boitempo conta hoje com mais de trinta volumes dos dois autores publicados, além de dezenas de livros dedicados ao estudo da teoria marxista. Em 2025, a Coleção Marx-Engels ganhará mais dois volumes: Do socialismo utópico ao socialismo científico, de Friedrich Engels, e o primeiro tomo das Teorias do mais-valor, obra inacabada de Karl Marx que foi por muitos considerada como o Livro IV de O capital.

Enquanto esses lançamentos históricos não chegam, conheça o catálogo de obras já publicadas pela coleção – algumas das nossas edições foram reconhecidas como as melhores do mundo por Gerald Hubmann, ex-diretor da MEGA (Marx-Engels-Gesamtausgabe, instituição detentora dos manuscritos dos autores).

O capital [livros I, II e III], de Karl Marx
Em 2011, a Boitempo deu início a uma de suas maiores empreitadas editoriais: a tradução completa de O capital, a principal obra de maturidade de Karl Marx. Em março de 2013, em meio ao projeto MARX: a criação destruidora, um conjunto de eventos que reuniu milhares de pessoas para debater a atualidade de seu pensamento, foi lançado o primeiro livro, O processo de produção do capital. A tradução de Rubens Enderle, vencedora do prêmio Jabuti 2014, foi a primeira realizada no Brasil a partir do texto preparado no âmbito da Marx-Engels Gesamtausgabe (MEGA2). Além dos prefácios elaborados por Marx e Engels para as diversas edições da obra e notas, a edição da Boitempo conta ainda com extenso aparato crítico.
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Manuscritos econômico-filosóficos, de Karl Marx
Publicados apenas após sua morte, estes manuscritos foram escritos em 1844, quando Marx tinha apenas 26 anos. Neles, o filósofo alemão desenhou a crítica ética e política ao capitalismo, explorando a desvalorização humana em prol da mercadoria. Embora esboços, revelam a raiz da teoria do mais-valor.

Para a crítica da economia política, de Karl Marx
Publicada em 1859, esta é a primeira tentativa de Marx de publicar de maneira sistemática sua crítica da economia política. Trata-se do único volume que efetivamente veio à luz numa série prevista de seis livros. Oito anos depois, remodelado o projeto inicial, a concepção ganharia corpo na principal obra do autor, O capital, publicada em 1867. Para a crítica delineia os conceitos equivalentes ao que depois comporia a Seção I da obra-prima do filósofo alemão.

Grundrisse, de Karl Marx
Estes manuscritos, em tradução rigorosa feita diretamente dos originais em alemão, revelam a gênese da crítica do pai do socialismo científico à economia política. Escritos entre 1857 e 1858, são uma oportunidade ímpar para compreender, detalhadamente, o laboratório de estudos do renomado teórico.

Conceitos Fundamentais sobre as UTOPIAS SOCIAIS MODERNAS

 O QUE SÃO AS UTOPIAS SOCIAIS

Alguns conceitos fundamentais

 Modernidade e Tradição

Autot  : José Augusto Nozes Pires

 

(Academia de Ciências, em colaboração com a Convenção Europeia de Filosofia, dias 26 e 27 de Março de 1998 )

 

 

               Comecemos , pois, respeitando tanto quanto possível os objectivos deste colóquio, sem a estulta pretensão de descobrirmos o que já foi descoberto. Selecionemos das muitas categorias com que  se tem procurado conter a Modernidade, aqueles traços que queremos conjugar com a utopia e a Imaginação social , alguns dos quais , lamentavelmente, não conseguiremos talvez fazer ascender ao conceito.

    A categoria de movimento aplica-se adequadamente a meu ver à Modernidade. Movimento para diante, irreversível, revolucionante, mercê da técnica e de outros factores, simultaneamente causa e efeito de novos sentimentos de perda e  de cisão , produzindo uma consciência ferida que se lança em busca de novas conciliações, traduzidas em novas relações com o transcendente ou retidas no mais  puro imanentismo, consciência ora agónica ora triunfante. Um novo pensar dirigido pela vontade de se defender das novas contradições por meio de novas dialécticas  : de converter ,por exemplo, a Economia no instrumento por excelência da transformação do mundo, ou a  fundação e reorganização de novos Estados, ou um novo Direito,  que  proclame os nossos sistemas como cada vez mais racionais , mais representativos ou mais modernos.

    Eis  a Era dirigida para diante, para o futuro, para o novo, e isto é tanto do domínio da auto-representação ilusória, como dos próprios factos históricos. Este movimento direccionado está, portanto, na raiz das utopias sociais como também das modificações operadas nas doutrinas religiosas ou filosóficas. O desenvolvimento moderno da burguesia,  sucessivamente mercantil e capitalista, introduziu um revolucionamento constante em todos as esferas da vida social, alargando progressivamente o espaço geográfico. É curioso verificar que a categoria que a ideologia liberal-conservadora parece hoje preferir sobre todas as demais para definir a modernidade à sua imagem e semelhança, é a de “ desenvolvimento” . Como se evitasse, não sei porque vergonha, a mais célebre categoria de todas : a de Progresso. Na realidade, a expressão “ desenvolvimento”, ou de “crescimento”, traduz tão só, penso eu, o alargamento das relações de produção, o controlo do trabalho socialmente necessário, a automação e a gestão sob o prisma da informação, o refinamento dos processos e ritmos da produtividade, o predomínio do capital financeiro e , em seguida, a oferta continuada, imparável, das mercadorias de consumo, movimento auto-reprodutor e auto-regulador do sistema capitalista . É claro que esta imaginação que julga e impõe como ideias directoras universais aquilo que não é mais do que a representação de um desejo, é o produto actual de uma longa e acidentada gestação ;  somente pelo século dezanove é que ela foi formulada. A sua geração compósita deve-se em primeiro lugar à presença de grupos concorrentes no interior da mesma formação social. Veja-se o exemplo da consolidação de uma mentalidade laica : é sem dúvida uma conquista da modernidade, contudo não é  sempre reivindicada como uma necessidade absoluta  pelas burguesias ; muito menos as atitudes agnósticas que lhe andam associadas. A consciência social burguesa é finalmente uma espessa sobreposição de camadas de conceitos e de preconceitos, de novidades e de tradições. Conforme o interesse deste ou daquele sector dominante, desta ou daquela conjuntura social, assim se escava numa ou noutra camada. Na verdade esta consciência compõe-se contraditoriamente de intenções racionais e irracionais, de conveniências oscilando ora para o lado de mais democracia, ora para o lado do imperialismo e do totalitarismo. Nenhuma força social transporta qualquer missão providencial e muito menos a burguesia, que parece ter já esgotado a sua.

    A verdade é que nem ela, nem outra qualquer, se liberta do efeito “ temporalidade”.Tempo quer dizer também memória, e nenhuma forma de consciência a pode eliminar, sob pena de perder as suas origens e a sua fundamentação. Memória significa tanto o que se deseja reaver, como aquilo que se receia voltar a experimentar. Pode-se  reprimi-la ou sublimá-la pela imaginação. Esquecimento e recordação, ou aquilo que designaríamos os  apelos nostálgicos do Ser, foram convertendo-se num refúgio da filosofia, uma espécie de habitação pacificadora da má-consciência. Ora, há neste movimento aparentemente regressivo da filosofia europeia uma orientação utópica negativa. Contudo nem todas as utopias sociais se reduzem a estas atitudes.

      No período das Luzes europeias forjou-se uma ideia de Progresso e isso significa que a consciência descobriu a sua historicidade imanente, dependente, por conseguinte, das dinâmicas sociais ; por isso a crítica da modernidade sempre se confundiu com o anti-iluminismo. No batalha das ideias, a oposição anti-moderna aparece claramente comprometida com a reacção política e social. Desde o romantismo, passando por F. Nietzsche, que se abre fogo sobre as Luzes e, portanto, sobre a modernidade. O nosso século faria de Martin  Heidegger um dos  polos aglutinadores de todas as censuras à modernidade . No essencial, porém, as criticas  acabam por se dirigir  ao modo concreto como o capitalismo se consolidou ,varrendo a tradição e os valores antigos, por um lado e, por outro,  resultaram dos receios crescentes pelo fortalecimento deste efeito novo : a resistência dos produtores que depressa ameaçou o mundo com os seus espectros... As ideias e os acontecimentos deste século que ora finda são indissociáveis da guerra ideológica dos dois sistemas que se enfrentaram.

   A modernidade é introduziu na consciência social ,na imaginação e na cultura, uma nova orientação,  que designaremos como consciência do futuro, abertura para o Possível, mediante imagens, categorias  e instrumentos . Consciência activa e confiante. Esta nova atitude reflecte-se na mais variadas meditações sobre a natureza e o papel da Vontade. Se os homens transformam o mundo, que força se deve temer ou ,pelo contrário, elogiar ? Este livre-arbítrio ,que configura a liberdade humana, é o triunfo e o drama dos filhos da modernidade, quer  enjeitem ou não a paternidade. Perdido ficou pelo caminho tanto o fatalismo cristão como a força do destino, dos clássicos. O homem torna-se autor e actor da sua própria comédia. Por isso cabe-lhe carregar toda a responsabilidade. As odisseias do Renascimento passam a ser outras, desde o Elogio da Loucura de Erasmo, que abandona o homem à sua infinita solidão patética, à Utopia ,de Morus , que lhe promete um futuro comunitário se ele assim o quizer, até ao humanismo patriótico e paneuropeísta de Os Lusíadas de Luíz Vaz de Camões. A escatologia medieval, à letra : ciência do fim do mundo e dos fins do homem, transfigurou-se nos anúncios do princípio do mundo novo. Seja o messianismo, seja a utopia social como projecto de legislação, o Princípio Esperança é o impulso mais forte da nova Era.

 Nessas crenças foi penetrando uma nova noção do tempo, tempo histórico / tempo físico, mantendo-se ,embora longamente, a dicotomia entre a estabilidade do universo e a instabilidade social : por isso, procura-se construir uma estabilidade aqui em baixo, na sociedade ou na numa natureza humana, tentando decifrar-se o plano de Deus, pondo-se uma e outra em conformidade. Essa estabilidade procurada, esse acordo, perfila-se numa noção de progresso como devir em direcção a um ponto indefinido (ideal), como queria Kant e Condorcet, ou como um começo absoluto em ruptura com o passado ( a Revolução Francesa). O percurso desta noção não acontece sem resistências e sem recuos aqui e ali tentados ( as utopias do século dezoito),   o que dá da Modernidade um traçado muito pouco regular. Revoluções e reacções dão o ritmo profundamente desigual e contraditório da modernidade, e talvez por isso nunca houve outra Era mais dilacerada do que esta mesma. Seja como for,  chega-se à concepção do tempo como flecha, isto é, direccionado para diante, e irreversível. Na noção de tempo penetra da biologia a ideia de evolução, da história a ideia de duração, da antropologia a ideia de filogénese  , das técnicas económicas a ideia de projecto. Manipulação, controlo, invenção, eficácia, sucesso : elementos constitutivos da mentalidade moderna  burguesa. Causa e efeitos do revolucionamento constante do modo de produzir ,de consumir, de pensar. Transformação, isto é, dar formas novas à matéria-prima, sintetizar a própria matéria, mobilidade e criação, artefactos e artifícios, novidades : eis a crise   como inerente a um  sistema que depende do consumo para subsistir, o qual ,porém, parece temer a crise  no seu infinito desejo de reproduzir-se. A rejeição dos costumes e das práticas desprezadas como economias da escassez ou do desperdício, isto é não submetidas ao ciclo produção-mercadoria-capital, provocam reacções de  defesa ditas conservadoras  que, em certos casos porém, se podem apresentar como mais legítimas do que o próprio revolucionamento burguês. O exemplo mais representativo é o desaparecimento dos antigos lazeres, quer na Europa, quer nas ilhas do Pacífico sul ,que constituiram por muito tempo talvez o paradigma de liberdade vital. O texto de Denis Diderot, “Suplemento à viagem de Bougainville”, dá-nos disso uma narrativa sem paralelo. Os lazeres constituem um dos elementos mais fortes das utopias.

A ideia de “ Revolução “ , que vale ,só por si, como imagem simbólica da Modernidade, utopifica-se , significando para uns a sociedade que preserva o valor do trabalho e da terra comuns pelos quais se multiplicam os bens e os laços, e, para outros, aquele regime social com o qual começa verdadeiramente a história. Para uns é o idílio campestre, para outros a “ electricidade mais os soviets “ ,segundo a célebre expressão de Lénine.

. A ciência  converte-se em alavanca do progresso ,espaço de prestígios e de investimentos , sob a alçada da economia e da política. Disso inúmeras utopias se fizeram eco e arauto.. Os beneficios  são tantos, ou poderiam ser tantos, que se torna intolerável para a consciência humanista a situação das imensas populações do planeta que deles são excluídos , insuportável principalmente para os próprios que nela vivem. Avolumam-se as suspeitas de que se trate apenas de desenvolvimento e não de progresso ,do progresso de que falavam humanistas e iluministas, de que apenas se trate de liberdade negativa, ou indo mais longe, de democracias imperialistas e  totalitárias, como designou Herbert Marcuse , não sei se com exagero. As suspeitas, agravadas no termo do milénio, não se devem agora sómente aos excedentes de promessas que ficaram por cumprir nos programas mesmos das burguesias liberais, mas também ao que se cumpriu, ao que se fez em demasia, e refiro-me à destruição das comunidades ,das culturas, da qualidade de vida. E ainda aos modos como decorreram e falharam as experiências das doutrinas socialistas , quer as revolucionárias ,quer as reformistas..

Foi  neste contexto que brotaram as contra-utopias. Mas é nele ainda que brotam, e brotarão, as novas utopias. As guerras colossais que devastaram neste século a Europa e a guerra-fria que ameaçou a integridade do próprio planeta , determinaram profundamente uma nova abordagem crítica das utopias, acontecimentos associados à batalha ideológica dos dois sistemas. Apesar destas causas que  inocularam  reacções de suspeição, a verdade é que as utopias sempre despertaram a rejeição dos mais variados escritores das mais variadas culturas. Como regra geral sómente são admitidas  quando nos convêm como “ precursoras “ do que quer que seja. E não é menos verdade, julgo eu, que os maiores críticos  das quimeras dos outros são aqueles mesmos que alimentaram as suas. Julgo ter colocado algumas reservas tanto à classificação que atribui às utopias uma intenção reaccionária, como àquelas que lhes atribuem, pelo contrário, uma intenção voluntarista de tudo destruir para fazer cantar os amanhãs sobre ruínas. As utopias sociais representam talvez o modo cultural mais característico de imaginar uma harmonia entre o passado, o presente e o futuro. Difícilmente detecto isso nas ideologias : quando tal parece suceder suspeito sempre de inflexões forçadas pela propaganda. Dúvidas semelhantes dirijo ao ponto de vista segundo o qual as utopias são sempre epifenómenos de uma situação social de impasse ou de impotência : se assim fosse sempre como explicar então os movimentos utópicos fortíssimos que acompanham as revoluções e outras transformações sociais ?

    Por outro lado, os pseudo-debates ideológicos discutem equívocos e até falsas realidades : por exemplo, sobre a bondade ou a malignidade de uma economia planificada ,a qual, em rigor, nunca existiu ; ou, do mesmo modo, sobre uma economia livre de mercado que tão pouco funcionou realmente onde quer que fosse. Há neles qualquer coisa de fantástico que é tão próprio da ideologia. O mais lamentável é que saímos disto com a sensação de que fomos manipulados.

 

     Subordina-se este colóquio ao período do Renascimento e farei o possível por respeitar esses limites. Peço, portanto, a vossa sábia paciência para estes longos desvios, sobretudo quando assistis às brilhantes comunicações  de todos os demais conferencistas. Procuro com isto abusar um pouco mais da vossa tolerância para trazer à colação o velho e renovado problema do humanismo. Muito embora este termo possa estar recolhido a um período muito particular, irrepetível, e colado a determinadas atitudes literárias e estéticas, tenho para mim que o termo não perdeu actualidade. Direi até que o humanismo é um programa aberto que ainda está em curso. Compreender e não apenas explicar o homem, superar progressivamente tipologias que encerravam o conceito nas fórmulas abstractas de um “homem genérico” ou de uma “natureza humana”, é uma longa história que a consciência  moderna conta na primeira pessoa. Nessas concepções várias de humanismo interveio, segundo penso,   a consciência crónica da natureza efémera e fugaz do tempo, encarado agora progressivamente como devir irreversível e não circular e predestinado. Mobilizaram-se ,por isso, meticulosas e exigentes crenças racionalistas visando aplicar a esta temporalidade da matéria viva e da matéria social, uma previsiblidade, senão mesmo um controlo, importado dos êxitos científicos. Muito embora se hajam vertido fortes suspeitas sobre a crença determinista ou necessitarista, que é talvez  um legado das Luzes, mas, sobretudo, da história da ciência moderna, não foi abolida toda a atracção pelo necessitarismo bastando para isso evocar a prolongada influência das perspectivas de  Augusto Comte, de Marx, de Durkheim, de Weber, de  Saint-Simon e de Cabet, para não citar também dos próprios cientistas da natureza. A consciência de que tudo é efémero esforça-se ,contudo, por alcançar a eternidade , como fica claro em Goethe ( o ideal fáustico da eternização do Instante) e no romantismo em geral. O drama moderno é a a tragicomédia do Ser ,isto é desta categoria por excelência da filosofia, Ser que foi esvaindo-se  na corrente nadificadora do Tempo. Parece até, pelo contrário, que o novo sentimento do efémero desperta  um apetite de infinito e de eternidade : aprisionar o belo Instante, frui-lo intensamente, como se representasse  a felicidade possível, a nova beatitude, comunhão do indivíduo com o todo. O Todo não é,pois, anulado, através da sua aproximação paradoxal com o movimento, nem é eclipsada a  associação entre eternidade e fruição. O que se verifica é uma perda das filosofias estáticas e contemplativas que haviam predominado. Eis um outro traço marcante das utopias que não rejeitam o movimento progressivo na medida em que seria auto-sustentado por uma organização social tão justa que não necessita de grandes modificações. O luto pela perda de uma ordem repousante oposta ao caos ainda não terminou.  Não vejo como estas alterações, embora profundas, colidam com os caminhos da modernidade. Atente-se no seguinte : uma das mudanças fundamentais sofridas pela Europa ,foi a destruição, progressiva ou brutal, do antigo modo de vida, refiro-me ao mundo rural e artesanal, ao conjunto de tradições de fazer, de ter e de ser, transmitidas durante séculos afora, inculcadas profundamente nos hábitos, nos costumes, nas idiossincracias. As Revoluções industriais, as revoluções políticas, o desenvolvimento das relações capitalistas de produção no campo , o desenvolvimento acelerado do mercantilismo, constituem  causas decisivas dos choques traumáticos dos povos e das gerações, e ajuda a explicar não só conteúdos e orientações importantes da filosofia, como das utopias, dos mitos  e das ideologias. A destruição das antigas relações, que propiciavam segurança psicológica e estabilidade do corpo social (local, regional,nacional), mesmo que fosse ilusóriamente, provocaram profundas desorientações e contestações. Isso ficou claro,por exemplo, nos meandros muito confusos da nossa revolução da Maria da Fonte, na qual não é possível omitir o profundo desagrado das populações perante as políticas de consolidação do liberalismo. E não é adequado tornar demasiado original este acontecimento, visto que ,de um modo ou de outro, apresenta similitudes com outros movimentos

“camponeses” por essa Europa fora,e até mesmo, já no nosso século, transferidos para a América latina e para o Terceiro Mundo,   movimentos camponeses que exprimiam também  a luta do campo contra a cidade ,de culturas que estruturavam e identificavam as populações contra o modelo paternalista e calculista da civilização. As movimentações camponesas durante todo o percurso do desenvolvimento do capitalismo na Europa, apresentaram-se certamente por vezes coadjuvantes do próprio capitalismo quando se tratavam de camadas de camponeses enriquecidos, mas em muitos outros casos  rebelaram-se contra o próprio capitalismo. É preciso relembrá-lo, para que não se caia em esquemas simplistas  , para os quais os séculos XVI, XVII e XVIII, foram meros percursos lineares da uma só luta : burguesia-feudalismo. Não foi  assim que as coisas se sucederam ,pois que  está claramente  provada a cumplicidade de sectores da burguesia com a aristocracia e as monarquias , fossem ou não absolutas ,e de como estas mesmas coexistiram com esses sectores, tanto no domínio económico, como nos outros. Se as lutas sociais, de natureza económica e política , refletindo os interesses vários e contraditórios, são incontornáveis ´para esclarecer os conteúdos da Modernidade, não é de reduzir esses confrontos a meros esquematismos ideológicos à posteriori, pois que à posteriori se processam quase sempre tanto a filosofia como a ideologia. Basta lembrar que as Luzes ,por exemplo, não foram um fenómeno homogéneo, mas extremamente diversificado, com contradições insanáveis entre os seus mentores e díscípulos, facções que se degladiavam e não se reviam num mesmo programa. Ora, todos estes factos que vão desde a odisseia do campesinato até às lutas das facções, marcam profundamente as utopias.

    Modernidade e humanismo são  indissociáveis, quaisquer que sejam as definições preferíveis, como o são relativamente à enorme complexidade dos vários percursos da Europa, revolucionária e reactiva, científica e utópica, libertária e colonizadora, democrática e totalitária, urbana ou camponesa. Ensaiando aqui e acolá  mais liberdade com menos igualdade, mais igualdade com menos liberdade. O julgamento da civilização moderna é o julgamento do Humanismo.  Quando procedemos ao julgamento de ambos  não nos  libertamos ,porém,  nem de uma nem do outro. Não vislumbro sentido algum nas fórmulas anti-modernas e anti-humanistas : excepto que julgo entender a intenção. Seja como for o polo atractivo utópico que devia guiar-nos não é a “morte do Homem” ,mas a libertação do que existe de  mais humano na humanidade. A primeira residência do homem não é o Nada de abstractas possibilidades, mas o tudo das possibilidades concretas que a comunidade humana encerra.

 

A denúncia da razão calculadora  ou instrumental, e da vontade de poder, ocultada pela Razão, só dignifica a própria razão ,pela  auto-critica. Seja como for, o racionalismo, muito modificado aliás, e o irracionalismo, que também sofre inflexões e ajustamentos, tanto um, como o outro, na sua diferença e no seu recíproco desdém, transportam ,nos grandes autores, um desejo  de transformação do homem na relação com os seus semelhantes e com o mundo natural. Não ignoro que esses desejos, quando são projectos, propõe orientações completamente diferentes ( por exemplo, um anti-democratismo ou um aprofundamento da democracia, um anti-cientismo ou o primado da ciência-técnica ), e escondem propósitos de classe bem distintos, mas seria indesejável que estivessemos cegos para a justeza de muitas críticas formuladas por uns e por outros, justezas que explicam porque é que determinados movimentos sociais contestatários de há poucos anos atrás empunhavam citações de Nietzsche ,ou do próprio Heidegger, ao lado do livrinho vermelho de Mao Tse Tung e de palavras de ordem marxistas -leninistas. O nosso século termina como começou : dilacerado pelas contradições , e a suprema de todas elas é haver tanto para tão poucos, é rodearmo-nos das loucuras que Erasmo de Roterdão descreveia, sem a sageza de um Tomás More... O que quero transmitir-vos é a intenção consciente e segura de que o ecletismo que tanto parece incomodar alguma gente bem intencionada  pode revelar-se porventura um impulso da Modernidade para se autoregenerar na corrente de informação que nos amarra uns aos outros, para se reconciliar com os conceitos desacraditados do universal e da totalidade, possívelmente mais concretos hoje do que quando foram forjados , para depurar daquele conceito de Vontade soberana inquietantes lembranças de voluntarismos passados, daqueles conceitos de contrato os projectos de dominação que ocultavam .Aqui e acolá manifestam-se ensaios utópicos e ,até mesmo, correntes de pensamento onde o príncipio utópico é bem visível : a bio-política, as doutrinas ecologistas, as lutas sociais, algumas de tipo novo, as novas interpretações do cristianismo e, enfim, grandes romances da chamada ficção-científica, o pendor criticista da boa literatura contemporânea, as artes, etc. As novas utopias poderão transmitir, sobre todas as cisões que nos puniram,  um vastissimo movimento de inquietação e de suspeita .

Se ,por exemplo,a subjectividade, entendida como interioridade livre ,privacidade e direitos individuais, é uma grande aquisição da modernidade , pois então ela está em perigo permanente .Os fundamentos filosóficos  do direito natural já foram censurados na medida em que permitiram meramente o triunfo da burguesia. Todavia não é contra os direitos, fundamentais e universais, que nos colocamos, mas contra a sua redução e corrupção. Ficou um largo excedente de promessas por cumprir. Posto isto, importa extrair destas dúvidas e suspeitas sobre a modernidade, o que nelas há de comum : talvez um impulso, um desejo de esperança independentemente dos diferentes conteúdos que isto transporta. Ora, julgo que é isto que distingue a modernidade das outras Eras, tanto as dominadas pelos mitos sufocantes , ou dominadas pelo destino, quanto as do fatalismo cristão medieval. Antigamente, o nosso lugar social ficava desde logo distribuído e quando muito ofereciam-nos a esperança do além-túmulo, que os literatos e teólogos imaginavam mas donde nunca ninguém voltou para contar. Desde o Renascimento que as representações da esperança brotaram e se derramaram sobre  os objectos de arte, sobre as doutrinas religiosas, sobre os  sistemas filosóficos, os romances utópicos. A mobilidade social transgrediu os antigos valores. O Possível tornou-se uma força motivadora que impeliu movimentos de massas e a inspiração dos intelectuais. Não era a saudade ou a nostalgia, mesmo quando o passado serviu de modelo , era antes  o futuro próximo que os motivava. Quando o pessimismo os assediava, não vinha de um apelo do passado ou por via da vontade de conservação de um presente que ,de resto,  haviam denunciado, mas principalmente de um futuro que tardava a chegar...Por esse facto, os filósofos ,sobretudo quando marcados pelos acontecimentos revolucionários que se anunciavam ou que já decorriam, prestaram a máxima atenção à análise lógica da categoria da Possibilidade, e daí que seja insuficiente qualquer investigação do fenómeno das utopias, se ignorarmos a contribuição prestada pelos grandes filósofos para a análise da ideia de Possibilidade.

  A Promessa permanece , e ela transporta sempre o projecto de um mundo novo . Realizável ou não, que isso não sirva de àlibi para os que nada querem fazer. O idealismo de reformadores generosos vale tanto como um programa detalhado. Aldous Huxley escreveu uma contra-utopia, O Admirável Mundo Novo, denunciando a perigosidade de determinadas utopias que julgava em curso de realização ; mas escreveu também A Ilha, um bonito romance  de uma sociedade feliz , absolutamente conforme os artifícios imaginativos das utopias , e que procura resistir ao cerco da civilização capitalista e neo-colonial. Deste modo acontece ,já o dissémos, que bastantes dos que mais censuraram os esquemas utópicos , apreciados com justeza ou não como ameaças de horror, foram tão idealistas como os outros.

 

 

 

 

 

 

 

                                                       II .

 

 

   O valor das utopias

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     Certamente  que as utopias sofreram com as transformações que a época moderna apresenta ; não há em rigor utopias exatamente idênticas, nos conteúdos e propositos: as utopias do Renascimento ,embora fundadoras e paradigmáticas quanto ao género, não se repetem nas utopias setecentistas de F.Bacon ou de Cyrano de Bergerac. Mas  possuem em comum o mesmo entusiasmo pelo conhecimento e pelas descobertas . No século XVIII desenvolve-se já uma concepção que diríamos socialista, sobre o Estado, sobre a propriedade e sobre o Direito. Todavia, em determinado sentido, as utopias do século XVIII prolongam e aprofundam a mesma confiança na razão e no direito natural que confere a liberdade e a igualdade a todos os indivíduos. Há quem prefira sublinhar a semelhança das utopias,  a sua repetição monocórdica, mas só em parte estes traços são verdadeiros : importaria também verificar as diferenças, tanto de século para século como no conjunto das utopias da mesma época  : por exemplo, nas utopias do século dezoito  ou nas utopias do século passado. A utopia de Étienne Cabet repete a de Charles Fourier ? O Manifesto do Partido Comunista,  de Marx e Engels, limitam-se a repetir as fraseologias utópicas da época ,ou a doutrina individualista de Proudhon ? Uma definição do fenómeno da utopia tem de ser suficientemente elástica para nela caberem estas variedades tanto no estilo (na forma) como nos conteúdos  e , simultaneamente , suficientemente precisa para demarcar com algum rigor este produto, enquanto texto por exemplo, de outros que com ele se aparentam e às vezes se confundem, porque se interpenetram : é o caso das ideologias, dos mitos modernos, das doutrinas ético-religiosas, das filosofias.

   Vejamos uma situação concreta : na Idade Média cristã práticamente todos os fenómenos da cultura encontravam-se impregnados de religiosidade, e as heresias por razões acrescidas ; conseguira-se que quase tudo fosse normalizado por um determinado código de valores e de símbolos, os quais, embora variassem no tempo e no espaço, se supunham fundados  na matriz dos Evangelhos ;  deste modo  construira-se uma rede relativamente apertada de informação que permitia a identidade social e o poder, o posicionamento na hierarquia da pirâmede social e as expectativas. A partir do Renascimento,  das turbulências políticas e da emergência de um novo modo de produção, as transformações concomitantes, científicas, económicas, políticas, culturais, propiciam uma novidade de extrema importância : a pluralidade de linguagens, isto é, de códigos ,entre grupos de falantes mais ou menos distribuídos pela Europa. A invenção da imprensa não surge dissociada desta nova Babel da pluralidade, que leva alguns à procura de uma nova  linguagem universal. Ora ,a linguagem não é um fenómeno inofensivo : é a substância de novos valores, mentalidades, reivindicações. Todavia, os equívocos vão ser mais que muitos, a univocidade é uma realidade somente nas sociedades utópicas  e, seguramente , bastante menos nas próprias confrarias que se julgavam depositárias do verdadeiro saber, da verdadeira hermenêutica, da verdadeira tecnicidade do diálogo consensual. As divisões e dissensões , as hostilidades e as  denúncias recíprocas, atravessam quase todos os palcos e todos os actores . Neste contexto de terríveis ódios e perseguições, Desidério Erasmo , dito de Roterdão ( 1467- 1536 ) , cognominado o “ Voltaire latino “ , apresenta-se-me através da sua correspondência como um homem por vezes profundamente solitário, pese embora a imensa fama que o seguia, como se poucos amigos verdadeiros lhe restassem. Não creio que o Humanismo , caracterização genérica de novas atitudes, transportasse um projecto reformador comum , excepto em casos muito limitados, como julgo haver sucedido com Erasmo e Tomás Morus. Regressando à questão das novas formas e canais de comunicação e de linguagem, direi que a grandiosa tarefa a que se propôs  Erasmo de tradução do Novo Testamento, transporta este objectivo, que em certa medida diríamos utópico,  de uma hermenêutica que, repondo o Sentido dos Textos sagrados, tornasse transparente a Palavra escrita e estabelecesse uma semântica que unisse e reformasse a comunidade cristã, ou esse “Corpo de Cristo” de que ele falava. Estas questões parecem-se cruciais pois reflectem-se na construção da Utopia e ajudam a explicar os seus propósitos.

   Por conseguinte quando procuramos um traço distintivo das utopias, utilizando termos tão vagos como  sejam o Novo em oposição ao Actual, a esperança em oposição ao conformismo resignado,  a emancipação que se opõe à atrofia das liberdades, não queremos dissolvê-las num saco comum, que nos faria perder de vista as condicionantes históricas e pessoais que lhes deram origem. Ficavam, portanto, por explicar. Procuramos somente distingui-las das ideologias modernas  por exemplo, nas quais o orientação virada para a legitimação do regime político nos parece mais evidente . As ideologias, políticas ou religiosas, sobretudo quando institucionais, visam sobretudo a auto-conservação de uma formação social dominante, dos seus valores e da sua mentalidade, e o estrato social que detém o poder procura arregimentar apoios por meio de uma pretensa missão emancipadora universalista. Por isso investe sobre os estratos dominados por meio sobretudo, da propaganda.

 

   É chegado o momento de situar as utopias no contexto mais amplo da Imaginação social e só depois defrontar-nos-emos com o fenómeno das utopias.

    Entendo por Imaginação Social os produtos da imaginação: ideias-imagens, estereótipos, preconceitos, representações fantásticas ou racionais, analogias, metáforas, símbolos, como se verificam nas fábulas, utopias, ideologias, mitos, crenças. A modalidade de Imaginação Social que me interessa aqui é a Utopia, a consciência antecipante, do Novo, do Possível concreto, da abertura à experiência da alternativa. O ideal, as ideias reguladoras da razão, mas também a vocação das utopias para que alguém as ponha em prática. Somente o desconhecimento do público, ou a manipulação de que é vítima, leva-o a julgar as utopias como simples devaneios que não pretendem nem podem realizar-se : as comunidades utópicas do Novo Mundo desde o século XVII,  as utopias socialistas do século XIX, e as utopias do nosso século, demonstram precisamente o contrário.  Destacarei dos fenómenos utópicos as construções literárias e filosóficas, as mundividências, os textos, quer imaginem sociedades insulares perfeitas, ou territórios libérrimos que esperam no nosso quotidiano. As praias sob o asfalto... Quer as utopias que se ficaram pelo esquema, quer aquelas outras que ensaiaram a sua própria realização. Porque quer umas, quer outras, tinham como destinatária  a comunidade, e como propósito extrair o tumor da alienação. Defendo, por conseguinte, que as utopias e as ideologias cabem naquilo que designei de Imaginação social, embora como fenómenos distintos. Tanto a ideologia como a utopia podem ser defendidos pelos seus autores, ao contrário do que afirma Paul Ricœur, embora reconhecidamente a utopia enquanto texto ou romance é obra exclusivamente pessoal, e a ideologia quando é assumida é-o através de formações políticas que se inspiram no marxismo. Neste caso é curioso que estas formações políticas ao mesmo tempo que se assumem ideológicas, recusam o classificativo de utopia. A utopia é, portanto, a grande recusada, ou recalcada, a filha rejeitada da imaginação e da cultura, e isto desde o século passado. É certo que o próprio fundador do termo utopia, Tomás More, avisa ,desde logo, que a descrição se refere a uma cidade de parte alguma. Aparentemente remete a sua obra para o imaginário, para o domínio das hipóteses. Tem, pelo menos, esta virtude sobre a ideologia : esta, regra geral, dissimula-se, pelo contrário, ou dissimula. Todavia insisto que há excepções : muitos dos que se declaram herdeiros da teoria de Marx e de Engels, interpretam positivamente a ideologia : assim como há uma ideologia da classe dominante, esta, sim, dissimuladora, tem de haver também uma ideologia revolucionária da classe mais explorada. Direi, pois, que a ideologia tem como função principal unir, identificar, e mobilizar para a acção determinados grupos sociais, contrapondo-os a outros  : a ideologia burguesa liberal, a ideologia chauvinista nazi ou fascista, a ideologia comunista, etc. As utopias escritas não apresentam sempre esta orientação militante e agressiva , muito embora também aqui se abrem excepções para a doutrina política de Mably ,que é uma legislação utópica e não um romance, e para a utopia militante de Graccus Babeuf. Estou colocando ,por conseguinte, reservas aos textos de Paul Ricouer sobre “Ideologia e Utopia”.  Nem sequer estou inteiramente de acordo com a ideia dele, ou a interpretação que ele faz do ponto de vista de Karl Manheimm, segundo a a qual as ideologias servem sobretudo para legitimar o poder, enquanto que as utopias têm como função positiva questioná-lo : as utopias minam, certamente, as bases da legitimidade do poder , mas defendem-no também embora sob outras formas radicalmente opostas ; neste âmbito, haveria, aliás, que distinguir-se entre a utopia democrática de More, ou a anarquista de Dom Deschamps,e  a utopia autoritária de Campanella , ou até mesmo de Babeuf...

   Finalmente, as críticas de Marx e do seu amigo Engels contra o utopismo são discutíveis, muito embora se entenda o contexto em que foram emitidas e os seus propósitos ; nem todas as propostas utópicas se propõem apenas “ reformas administrativas “, pelo cootrário põem mesmo “ em causa as bases da produção burguesa” ; nem todas se contentam em elaborar planos ou sistemas abstractos de organização, mas, pelo contrário, aplicaram-se na prática e aprenderam com esta ; nem todas assentam apenas na moral e nos bons sentiomentos, ou se limitam a ser socialismos predicantes, mas desejam organizar, e não poucas vezes até o conseguem, a acção política ; e quanto ao seu carácter não-científico, tal imputação é muito relativa : os utopistas também pensam, e pensam com os instrumentos disponíveis na época. O que se passa é que nenhum partido político pede que o confundam com o impossível, o irrealizável e alguns deles rejeitam o reformismo para liquidar o sistema..

      Os escritos, os objectos artísticos, as escolas e os movimentos de orientação utópica do Renascimento  participam, de um modo ou de outro, na formação da modernidade, sendo, portanto, causa e efeito da modernidade que abria caminho. Não reproduzem a cultura clássica como cópias, como seria isso possível ?, antes a reinterpretam sob a pressão das novas exigências urgentes, sob o crivo das novas hermenêuticas e das novas grelhas simbólicas que forjaram ,opondo-se à tradição enquanto depositárias de um poder secular que se desacreditava, ou de um saber que se defendia com o dogma. Mas não largaram fora toda a tradição, e como seria isso possível?, antes  idolatraram alguma, recuperando concepções mas, principalmente, estilos e modelos.

    A utopia traz desde logo o desejo de reconversão do regime de propriedade, da divisão social do trabalho, da duração da jornada de trabalho e do trabalho socialmente necessário, da apropriação do excedente pela comunidade , da acumulação pacífica através do comércio externo, da conciliação da agricultura com a indústria e o mercado, da eliminação do trabalho inútil ,da ociosidade e do parasitismo, da eliminação dos exércitos ofensivos de mercenários e da distinção entre guerras defensivas e guerras injustas, nas relações com os outros povos baseadas numa  troca equitativa de bens e de vantagens recíprocas, na utilização da ciência-técnica em benefício de toda a comunidade, no progresso social, nas políticas  de educação socialmente util e pessoalmente emancipadora, na tolerância pelos credos religiosos legitimados pela liberdade de opinião, pela interioridade sincera e pela solidariedade, na crítica das hierarquias corporativas ou de classe, das instituições  persecutórias do direito de consciência , do  Estado que se sobrepõe à sociedade civil , das aristocracias de robe ou da finança, das cortes e dos políticos intriguistas, dos juriconsultos  e dos filósofos e sábios corporativos. Práticamente tudo isto encontramos na utopia  de Tomás More, de Cyrano Bergerac, de F. Bacon, de Jean Meslier, de Morelly, de Mably, de Saint-Simon, de R. Owen, de Fourier, de Cabet, para só falarmos de alguns que estão tipificados como utopistas. No Elogio da Loucura e mesmo em certa medida em A Utopia de  Tomás More ( ( 1477-8?-1535 ), não se repudiam os mercadores intrépidos, os trabalhadores, os inventores,  nem os navegadores, nem os grandes feitos marítimos e técnicos tão exaltados pelos discípulos portugueses de Erasmo.

   Por outro lado, a caricatura dos juristas desenhada no Elogio da Loucura e na Utopia ,transmite apenas a intenção de reformar a jusrisprudência e o direito,  formulando-se já determinadas intuições que preparam o direito natural ; a crítica dos filósofos transmite antes o propósito de reformar a filosofia , claríssimo em Erasmo e utópicamente resolvida no romance do seu amigo Morus. A utopia humanista não é tradicionalista,moralista, conservadora. O que não significa que não seja normativa, ética. O platonismo de Erasmo e Morus apresenta-se impregnado de epicurismo, e há mesmo um texto importante de Erasmo sobre essa matéria. Dir-se-ia que não se esforçam sómente por cristianizar o platonismo, mas também o epicurismo. Ora, Epicuro é a grande matriz clássica para se reavaliar os prazeres terrenos. E este aspecto é sintomático.

    O humanismo contribuiu para a formulação moderna da soberania, a qual ,em Morus, radica claramente no povo, ou se preferirmos, defende-se que um governo só é bom se fizer feliz o seu povo ; a reinterpretação da obra de Platão, As Leis,  esteve ao serviço precisamente desse desiderato. Pois bem : essa definição da melhor República não comporta sómente uma mera intenção ética abstracta, mas um programa concreto de governo que elimine tanto a pobreza pública como a riqueza privada. O humanismo , particularmente  em Erasmo e Morus,  foi o texto e o contexto decisivos para a formulação de determinados direitos que viriam a ser fundamentais : por exemplo, os direitos de resistência e até de rebelião, quando um governo se mostra injusto ou tirânico ( no Elogio da Loucura encontramos referências que apontam nesse sentido , no sentido pelo menos de uma compreensão pelas revoltas dos povos e dos pobres ,e que demonstram clara convergência com o discurso de Rafael Hitlodeu no Livro Primeiro de A Utopia de Morus , a qual, aliás, não visa outra finalidade senão evitá-las) ;  o Direito subjectivo , isto é os direitos fundamentais ,as liberdades dos súbditos ou dos cidadãos, encontram -se já em germen, e constituirão  reivindicações  urgentes nos tempos seguintes por  parte das classes sociais dominadas pelo poder absoluto. Jean Bodin (1529-1596),  talvez o criador da teoria moderna da soberania, recolhe estas ideias e combates na associação moderna que formula entre soberania popular e república.

  Recordemos alguns percursos : em Santo Agostinho a comunidade ideal estava situada na esfera da transcendência e o Possível subordinava-se de alguma maneira ao telos, mas no monge da Calábria, Joaquim de Fiora , a comunidade espiritual virá já de uma Terra do futuro, isto é  do devir histórico ; em More, Campanella e outros, situa-se numa ilha de nenhures que , aparentada com o Novo Mundo, simboliza um mundo novo, a possibilidade histórica de realização de uma reforma radical do antigo, pelo “ recto governo “ de que falava Bodin, das elites ou  de príncipes iluminados, isto é, aconselhados pelos filósofos iluminados. É a mobilidade social através do mérito, da supremacia do saber agir, a crítica da capitulação ascética e das resistências reaccionárias . É a vontade de tudo decifrar, mais até do que aquilo que é possível ao homem no ponto de vista de Erasmo. É uma ética heróica do querer saber em sintonia com o verbo agir. O nosso Camões faz-se eco dessa nova odisseia do humano puramente humano.

O simbolismo de sempre, de que é feita toda a cultura, é o material de que são feitos os sonhos e as utopias. A utopia assemelha-se aos sonhos , enquanto utiliza um significado latente e outro manifesto. Mas elas não são sempre nem puro onirismo nem devaneios, são projectos racionais e voluntaristas, ambicionando intervir na  acção política. O milenarismo do monge da Calábria, Joachim di Fiore ,transporta uma utopia, com características simultâneamente medievais e modernas que lhe permitem  transitar para os caboucos da modernidade,  suficientemente religiosa para mobilizar as revindicações populares no decurso da Reforma. Embora os filósofos censurassem as revoltas  e as guerras religiosas, as massas moviam-se por meio da religião. Sómente durante os séculos seguintes é  que ela  se tornou  gradualmente incapaz de grandes movimentações sociais, de estimular a imaginação e de servir de legitimação, cingindo-nos apenas à Europa. Apesar disso, ainda encontramos a sua mensagem reconvertida nas utopias  de Saint-Simon, de Weitling e outros, na primeira metade do século dezanove.Os messianismos , impulsionados pelo milenarismo e pela influência judaica, atravessaram  toda a Europa, e encontramo-los tanto nas bolsas de riqueza, nos Países Baixos por exemplo, como nos países mais obscurantistas, e referimo-nos a Portugal. As utopias,porém, não são messianismos ,muito embora nenhuma classificação deva ser estanque, pois que na nossa história a tradição conjuga-se com a modernidade ; aquilo que é arcaico  veste-se com novas  indumentárias. A força da religião é tão grande que não é possível compreender certas utopias sem atender a este facto, e basta citar as utopias puritanas inglesas do século XVII.

     Os eleitos de Joaquim de Fiore ( 1145-1202 ) eram os pobres, mas o seu comunismo não foi monástico, penso eu. Já em Fiore a comunidade ideal é aqui e é do povo pobre que se trata. É a  luta contra as servidões das leis. É a democracia , embora mística, contra os regimes iníquos, desprovidos do justo direito. O “ Terceiro Evangelho “ dos milenaristas é o seu programa e o seu reino. A “ terceira idade “ que ele anuncia é o acordo dos dois Testamentos . O joaquimismo  não espera um chefe (messias) mas uma “societas amicorum”. E é assim que chegará aos anabaptistas. Abolir a riqueza e a pobreza. O movimento iniciado por Erasmo e Lutero desencadeia o recrudescimento dos messianismos e dos milenarismos. Erasmo e More não serão indiferentes  ao início deste acontecimentos , porque entenderam o que lhes estava subjacente. Segundo Thomas Müntzer  o reino futuro é constituído “por todos os eleitos vindos de todas as direcções e vindos das mais variadas raças, adeptos de todos as crenças possíveis”. É o cristianismo dos Evangelhos oposto aos ricos fariseus e aos funcionarios das Escrituras. É o combate secular contra a propriedade privada que começara já nas contradições do desenvolvimento económico da Idade Média ( John Ball e Wycliff no século XIV , as revoltas dos camponeses ingleses de 1381 ). É a subversão radical do comunismo cristão original. É ,em casos manifestos, a lenta aproximação do ideal cristão do despojamento, incarnado no povo miserável, com a doutrina estóica sobre o “ estado de natureza “ fundado sobre a Lei Natural de criação divina .

    O comunismo agrário herético originário da Idade Média, atravessou os anabaptistas e os taboritas e chegou aos diggers, aos Radicais ingleses ,juntamente com as ideias de Morus, no século XVII. Neste legado é transportada a difícil conciliação entre as inclinações anarquistas originais e a e necessidade de uma qualquer ordem estatal. Esta antinomia, que não se reduz a um mero equívoco, permanece como um traço forte das utopias .

   Os menomistas (de Menno Simonis) esvasiarão o anabaptismo das rebeldeias joaquimitas-taboristas. O “irrecuperável”, o espírito do movimento, passou para a utopia em parte, sob uma forma racional e não profética, abandonando o reino milenarista que se anuncia (  a Nova Jerusalém, a doutrina das Idades ,que encontramos ainda no nosso  P.António Vieira ,por exempo).

 

 

  As utopias utilizam com frequência determinados símbolos que mostram como elas mergulham as suas raízes na tradição. E criaram expressões e metáforas que se tornaram nosso património : o” meu e o teu “ como expressão da propriedade, os carneiros que devoram os homens, o homem lobo do homem .

    Das contribuições da geometria e da física do espaço arrancam para soluções metafísicas que privilegiam a estabilidade sobre a instabilidade, a ordem sobre o caos, o equilíbrio e a simetria. Na maioria dos casos repelindo o vazio, atribuindo o primado ao todo. A partir das condições científicas e técnicas de que dispoem a sua época dão livre curso à invenção e à especulação , e não atribuo certeza absoluta às afirmações de alguns autores segundo as quais os utopistas pouco inventam . Muito embora não consigam transpôr completamente a sua época, nesse domínio, alguns inventam mesmo o que a sua época ainda não comporta. Para além do facto consabido de que não poucos génios científicos eram simultâneamente praticantes de doutrinas esotéricas.

       “Exercer um poder simbólico não é meramente acrescentar o ilusório a uma potência “real”, mas duplicar e reforçar uma dominação efectiva pela apropriação dos símbolos, pela conjugação das relações de sentido e de potência “ (Baczko, 1984)

    Os humanistas utilizaram  profusamente simbologias e esquemas complexos de interpretação do mundo , mas , simultâneamente, alguns deles analisaram o  papel destes processos na cultura viva das sociedades : assim, a história da investigação dos imaginários sociais começa modernamente com Erasmo e Maquiavel, seguindo-se-lhes  F. Bacon, Hobbes e Espinosa.

    A burguesia, na sua fase ascendente, serve-se da ideologia para denunciar a ordem feudal, desnudar o carácter de classe do Estado, atacar a sociedade de ordens e o seu sistema de valores. Mas,uma vez chegada ao poder....dissimula as relações de dominação e de exploração, apresenta o Estado burguês como a expressão do interesse geral, a propriedade privada dos meios de produção como fundamento da justiça, da moral,etc. Eis uma diferença fundamental com as utopias, certamente,e aplica-se do mesmo modo aos socialismos de partido único que faleceram, se modificarmos os termos da propriedade. O que sucedeu é que eles abjuraram da utopia em favor da ideologia. E nisso repetiram o que a burguesia já havia feito.

     Mais tarde, em Karl Marx,a ambição de transparência, herdada do iluminismo e da imanência histórica de Hegel , leva-o a conceber o ajustamento da imagem do proletariado com a imagem da sociedade comunista, convertido aquele simultâneamente  em coveiro histórico e em parteiro,  repondo-se a velha utopia do desaparecimento do Estado, do fim das ideologias e dos mitos. O que equivale não apenas ao deperecimento da ordem estatal, como também da mais antiga forma de produzir cultura. A vertente utópica casa-se com a filosofia da história,  com a Economia política e com a Sociologia.

   Segundo Émile Durkheim  para que a ordem social se instale e perdure, é preciso que os agentes sociais creiam na superioridade do facto social sobre o facto individual, que eles se atribuam uma “consciência colectiva”,um sistema de crenças que a todos unam. Não se pode comunicar entre os homens senão por símbolos, exteriores aos estados mentais individuais, por signos tomados como realidades em seguida. Os simbolos são objectivos. Por isso podem tornar-se ritualizados, património edificado, tradição no mármore, sacralizados, ideias-força,objectos de paixão e fermentos destas. Uma bandeira é a expressão concentrada de uma ideologia,que nela se pode ler como num livro aberto, à semelhança das paredes e nichos de um templo ; trata-se de estereótipos, de logo-tipos, de uma autêntica economia de esforço, de detonadores simplificados e eficazes das paixões, de elementos de comunhão ou de de hostilidade ( B. Baczko, 1984 ). Pois bem : as utopias também  utilizam signos e símbolos, não fossem elas cultura, embora o façam de modo contextualizado, racionalizado , ambicionando uma absoluta coerência nesse organismo total que é a sociedade utópica ; para o estudo desse aspecto remeto-vos para as duas obras mais típicas : A Cidade do Sol, de Campanella e a Voyage en Icarie ,de Cabet..

    Assim como a religião e a simbologia, também a filosofia intervem nas utopias. Algumas são mesmo moldadas sobre figurinos filosóficos , e isso sucede não apenas no século passado ,mas já desde o século das Luzes. É, por vezes, a metafísica ao serviço da utopia.  Metafísica  do ser do homem, da natureza essencial (da essência) de homem, que conduz à idealização de noções especulativas do que seja  o homem . É a busca do fundamento para uma proposta  de reforma radical, de educação para um homem novo. É estabelecer   um outro modo de existência. Nenhuma cultura ou formação social oferece o modelo adequado, universal, necessário e privilegado, de vida social. Daí que não haja, nem possa haver, uma teoria universal da sociedade ( a verdade do homem reside no sistema das suas diferenças e das suas propriedades comuns - Levi-Strauss,1962 ). Mas o modo de produção dominante tende a promover necessidades por meio do mercado e a desprezar os desejos. A produção de representações globais e totalizantes interessa , portanto, como objecto de investigação.

 A noção de ordem , o desejo de ordem pacífica tão recorrente nas utopias, não comporta apenas o significado de agir ordenando um mundo que se oferececaóticamente, mas importa-nos também como a actividade global da imaginação que visa ajustar o homem às suas pulsões, necessidades e conflitos. Os séculos anteriores  não lidavam com uma antropologia física e cultural e isso é evidente quando lemos os seus tratados de filosofia política e  as utopias. Todavia, não sejamos arrogantes : em primeiro lugar, nesses séculos formularam-se ideias ou intuições de grande alcance , e até mesmo pistas de investigação que não perderam actualidade;  mesmo os textos da cultura clássica, isto é greco-latina, exumados e traduzidos pelo renascimento, por Erasmo e Tomás More, por exemplo, trazem-nos ainda hoje um repositório cheio de vivacidade e de frescura de aforismos e de sentenças penetrantes sobre a condição humana ; as suas sátiras, desde Aristófanes a Luciano de Samótacia, são ainda modelos de argúcia e de força literária, como gostariamos de ver mais vezes na literatura de ideias contemporânea ; em segundo lugar, o que sabemos hoje, e referimo-nos às ciências humanas, não precisa sómente de continuadas investigações empíricas  mas também de grandes sínteses, sínteses que parecem ainda arredadas das nossas estratégias, que façam confluir e integrar os diversos saberes especiais, a interdisciplinaridade, eu diria que nos faz falta um surto renovado de filosofia sistemática, pois julgo que o saber é sistémico e as mundivisões respondem a profundas e constantes inclinações humanas, como nos ensinou o filósofo  Imannuel Kant. Por isso se encontra hoje um intervalo de que não nos damos conta entre o que já se sabe e o que sómente  se imagina que se sabe : as auto-representações eufóricas da razão iluminista não se removem com facilidade..Deste modo a filosofia intervem não apenas para compreender um mundo “externo”, isto é, desvelar nele uma putativa ordem interna, essencial, mas intervem para imaginá-la consoante as nossas necessidades. A primeira função radica numa ilusão visto que não existe nenhuma ordem essencial à espera de ser decifrada, una e única, totalizante e eterna .Todavia, tanto a primeira como a  segunda  função, são actuantes. Mesmo que a ordem que apresentamos não seja verdadeira  nós passaremos a agir de acordo com essa representação.Toda a cultura pode ser considerada como um conjunto de sistemas simbólicos , isto é, segundo uma ordem que ambiciona qualquer forma de totalidade. Ora, estes sistemas simbólicos ,mitos ou utopias, filosofias ou ideologias, moldam as nossas percepções e as nossas atitudes.

A área da Imaginação social deveria investigar as utopias sociais, as ideologias políticas,os mitos políticos, e algumas formas de arte. A tónica está no social : tudo é social, mas aqui a sociedade é a sua finalidade : é ,portanto, crucial a categoria empregue  do colectivo, pois a entidade a que nos dirigimos e que  julgamos  dirigir a nossa produção simbólica, é a comunidade.

As utopias escritas são, sem dúvida,  vincadamente pessoalizadas  mas dirigem-se ao mundo como auditório (  determinadas personalidades, elites,  classes  sociais ,ou melhor, às suas vanguardas). Os utopistas escrevem para quem os possam ler, mas desejam atingir um público popular que é por vezes a sua almejada base social de apoio ( Platão,More ).  Esses textos programáticos são constituídos por imagens-desejos, inconscientes, conscientes, expressos mediante mecanismos psico-sociais de compensação, , mas também de mobilização para a acção (atitudes), distinguindo-se  das ideologias  por se apresentarem como obras teóricas, mais fundamentadas, escoradas nos saberes da época .

     As utopias, deste nível, confrontam-se mesmo com as grandes antíteses ou antinomias meditadas pelos filósofos e visam  conciliá-las ou desocultar um fundamento que não  fique algemado a dualismos ou princípios contraditórios : refiro-me  às antíteses  : totalidade/singularidade, colectividade/indivíduo, igualdade/liberdade, necessitarismo/contingência, trabalho penoso/trabalho agradável,  contemplação/acção, lei / ordem , egoísmo / altruísmo, tradição/modernidade. Conforme as épocas e os seus autores, as utopias diferenciam-se pela tónica que atribuem ou ao progresso técnico-científico ou à preservação de estruturas e relações que se apresentam como arcaicas apenas aos objectivos capitalistas, mas que podem convir a muitos milhões de seres humanos .Este segundo tipo de utopias ,isto é de propostas escritas, não rejeitam todo o progresso ,mas antes contestam as formas de desenvolvimento que ameaçam comunidades e costumes,  que escondem , sob a capa da ideologia da livre iniciativa, interesses  de lucro, de centralização do Estado, ambicionando,por exemplo, tornar mais eficazes os instrumentos fiscais  ou o controlo dos trabalhadores espoliados das suas terras e da sua força-de-trabalho. É a este segundo tipo de utopias que pertencem a do cura Jean Meslier e a do monge Dom Deschamps, ambos do século XVIII. O romance de Tomás More, pelo seu lado, representa uma excelente tentativa de conciliar o que é novo com a tradição, servindo por isso de modelo para a maior parte dos textos utópicos posteriores. Não creio que as utopias sejam um mero desejo de regresso ao paraíso virginal ou ao útero materno, como querem alguns estudiosos provávelmente marcados pela psicanálise e pelas teses de Mircea Elliade. As utopias são fenómenos pessoais e sociais complexos nos quais intervêm evidentemente elementos psicológicos, reconhecendo-se mesmo nos seus autores personalidades fortes que apreciam a acção. Mas não as reduziria a este fundamento .A integração das utopias na história concreta proibe-nos estas leituras redutoras ,algumas das quais privilegiam de modo abusivo a constancia de estruturas, psíquicas ou sociais, caindo no mesmo erro de perspectiva em que cairam os filósofos e os utopias dos séculos passados , ao imaginarem uma determinada natureza humana a-histórica. Admito que é com surpresa que encontramos traços comuns na imaginação social de muitos povos e culturas distantes no tempo e no espaço, e a nossa hermenêutica encontra-se a cada passo com Freud e Jung,  com Marcel Mauss e Levi-Strauss. É mesmo uma linha de investigação que não pode ser abandonada, a qual é de esclarecer se de facto existem ou não estruturas ,conteúdos e orientações universais, constantes e de origem remota nas culturas humanas, nos seus desejos e nas suas esperanças, nos seus modos de reagir e de explicar. Há muito ainda para explorar neste domínio. Concretamente no caso das utopias  quando insistimos na sua novidade , com Morus, e nas suas diferenças com a República e com as Leis de Platão, por um lado e,por outro,  com A Cidade de Deus de Agostinho, não devemos lançar fora apressadamente aquilo que há de similar e até de recorrente. Nuns casos pode dever-se apenas às tradições literárias, noutros pode dever-se à persistência de fenómenos sociais e comportamentais.

 

 O Renascimento usou uma via de emancipação, relativamente à mentalidade cristã medieval, que foi a de servir-se da ajuda da cultura pagã, como se serviu da hermenêutica judaica. Ora a civilização cristã já o havia feito com a cultura pagã. A  emancipação utiliza muitos modos e estratégias,  a cultura ocidental recorre cíclicamente aos modelos clássicos, para contrapô-los a uma certa ideia de decadência,  induzindo um regresso ao que foi genuíno, à pureza dos primeiros princípios, quer nas instituições (como se passou com a ideia de república) quer com a filosofia ( retomar os caminhos do pensamento  grego ) ; verifica-se  tal facto tanto no Renascimento, como nos séculos seguintes . Esta dialéctica tradição/modernidade, regresso/progresso, é das mais fascinantes da cultura intelectual do ocidente, com propósitos muito claros de critica ao presente ( como acontece com Nietzsche e mais tarde com o Heidegger da derrota alemã ). Sempre com registos diferenciados ,encontramo-la em Hegel e em Marx ,no Manifesto do Partido Comunista ,por exemplo, onde se procede a um elogio claro do papel progressista da burguesia e da natureza revolucionante do seu modo-de-produção, mas onde ,ao mesmo tempo , se procede a um ajuste de contas com a ideologia e as realidades..Outro tanto fizeram-no Saint-Simon e Proudhon. Eis como os projectos de emancipação social tentam compreender o que o presente deve ao passado, no dupla face com que se apresentam :  de progresso ou de reposição da injustiça e da alienação. Sem transpormos mecanicamente uns casos para outros completamente distanciados, insisto em que Tomás  More  procura dialectizar ,digamos assim, a tradição e o progresso, enfatizando a cultura e os valores éticos contra a inquietante proliferação de comportamentos de expoliação sem freio. Digamos que se opunha ao modo concreto como a acumulação capitalista se processava na Inglaterra, brutalidades e injustiças já por demais descritas pelos historiadores. Morus não ensaia em parte alguma uma defesa do feudalismo, também ele brutal, mas não embarca nas euforias da ideologia selvagem da manufactura e do mercado , da expropriação forçada dos campesinato .. Tal como Erasmo, que tanto atacou os excessos de uns como de outros, dos protestantes e dos católicos,  o católico More não silenciou o desmascaramento das velhas e das novas ideologias, percebendo muito bem os propósitos de poder que todas elas evidenciavam e advinhando até como anteriores adversários podem acabar por aliarem-se porque o poder recente tem como função mágica moderar os radicalismos de juventude e auto-perpetuar-se. É aí mesmo que o excedente, isto é as promessas e a utopia , é abandonado, em nome da  Realpolitike.  Morus distanciou-se do poder quando redigiu a sua utopia, porque pressentia ,pela experiencia, dele e do seu amigo Erasmo, e pelas leituras dos clássicos, como o poder em determinadas circunstâncias muito dificilmente coexiste com a etica e com finalidades  de justiça universal. O mesmo sucedeu com Erasmo que censurou ásperamente a igreja de Roma , talvez como nenhum outro , visto que influenciou o proprio Lutero,  mas não correu a aplaudir os lideres da reforma. Tanto nuns como noutros , eles liam  na trama dos acontecimentos os sinais do  fanatismo, do sectarismo, do maniqueísmo, da vontade de poder  e de com que espécie de alianças se alcança e se conserva o poder. Progresso sim mas na tolerância, única atitude consentânea ,segundo eles, com a sabedoria . O que lemos no Elogio da Loucura e em A Utopia, é uma crítica convergente  que aponta para um programa comum : convergência de atitudes e de propósitos, diria mesmo que A Utopia ,como elogio da sageza que é, completa o Elogio da Loucura. Sophia e Moria desenham em conjunto os quadros da comédia humana, exprimindo não um programa reaccionário  mas uma programa  progressista.

     Segundo alguns autores as utopias do Renascimento admitiam as premissas do pecado original, recusando contudo a salvação cristã.O homem só pode ser protegido de si mesmo pelas leis justas da cidade ou pela tutela de um déspota esclarecido. Esta asserção contem alguma justeza  mas não vejo como o dogma do pecado conduz a república ideal de Tomás More. Tavez seja mais óbvio na utopia teocêntrica e sufocantemente normativa  de Campanella, cuja Cidade do Sol não pode ser desligada das esperanças que o monge enclausurado pela Inquisição depositou neste ou naquele monarca absoluto. As utopias à maneira de Campanella , dominadas por uma ordem totalitária, não resumem todas as utopias, quer as escritas quer as outras. As mais das vezes estas utopias prendem-se clara e directamente com a subida ao poder deste ou daquele príncipe ou facção política e denunciam uma forte vontade de poder dos próprios autores. A utopia, fenómeno multiforme, também engloba estes projectos. Mas não é incorrecto desacreditá-las através desta suspeita ou copiá-las a papel químico. A vontade de Morus ,de Erasmo e de outros humanistas, de dignificarem o papel social dos filósofos , dos intelectuais e convertê-los em conselheiros , insere-se na tradição intelectual do Ocidente. Por outro lado, a asserção anterior demonstra que os utopistas, como no caso de Morus, não tinham ingénuas ilusões sobre o homem concreto , denunciam-lhe muito bem as suas paixões antisociais ,egoístas, a propensão também para o mal e  para o crime. O Elogio da Loucura mostra-o bem e A Utopia de Morus projecta precisamente uma outra sociedade que condicionaria vantajosamente os homens, inibindo-lhes as paixões mais negativas, ou pela educação, ou pela coacção excercida pelas leis comunitárias. Este espírito, quer seja realizável quer não, preside a O  Manifesto de Marx, como presidiu ao abade  Mably e a Rousseau. Neste aspecto as utopias, desde a de Morus, são projectos pedagógicos, que defendem as possibilidades que a experiência encerra, isto é, o papel social da educação, para a  transformação do homem. Nisto são bem diferentes  daquelas doutrinas, às vezes também utópicas, mas negativas,  que condenam o homem à fatalidade das circunstâncias, ou da sua natureza , ou de qualquer outra condição a-histórica.. Os utopistas são simultâneamente ingénuos e mestres da suspeita. E não é raro toparmos com grandes mestres da suspeita ,como Marx,Freud e Nietzsche, que produziram ao mesmo tempo as suas utopias.

    No Renascimento poucos foram os que como Erasmo e Maquiavel denunciaram tão certeiramente, com plena actualidade ainda nos nossos dias, os estratagemas e os vícios inerentes às sociedades estratificadas, a sempre presente  vontade de poder e de acumulação. .Não podemos escamotear a força dos condicionalismos sociais e naturais, que nos levam a reagir de uma maneira ou de outra completamente oposta. O problema não está apenas nos atavismos mas nas vantagens que podemos alcançar com determinados comportamentos. As sociedades também são laboratórios que fabricam este ou aquele homem. Ora os utopistas compreendendo isso, propões sociedades -laboratório que fabriquem homens novos, mesmo que pareçam na sua aparência modelos bem antigos. Em suma : potenciar o que se julga  de bom nos homens,  promover o desenvolvimento multilateral das possibilidades e capacidades que eles dispõem. Neste campo o mais fascinante dos utopistas foi Charles Fourier. Essa ideia, sobretudo quando passa para a ideologia, mobiliza os comportamentos  na direcção de reformas das instituições..Movimentos carregados ora de messianismo ora de esperança- utópica, para os quais a crença na transformação espiritual e moral do homem  aparecem quantas vezes , como interpretação dos textos sagrados, e sem dúvida que isto não é património das utopias modernas, pois remontam ao significado redentor e actualizador dos rituais míticos. A grande diferença ,tomando a utopia de Morus como paradigma das utopias modernas , por um lado e, por outro, como complemento do Elogio da Loucura, é que não sómente a justificação religiosa é menos determinante, ausente como escatologia e milenarismo, como a transformação dos homens devem-se exclusivamente a eles proprios, uma extrema confiança nas possibilidades que a espécie encerra. Educadores e educandos ,não governantes e governados, visto que o método na cidade utópica é electivo , transparente e segundo o mérito. De uma maneira geral todos têm acesso à mesma cultura, às fontes do saber, e ao exercício do poder. Este princípio é de capital importância nas utopias do Renascimento, quando as comparamos com a República de Platão, pois que agora aplicam de algum modo o legado do ideal místico de igualdade de Santo Agostinho. A ideia de República não equivale a essa espécie de comunismo não democrático de Platão, o qual, de resto, nenhuma simpatia nutria pelo regime democrático , nem se propunha melhorá-lo. Quando se fala em orientação nostálgica por parte dos utopistas, seria conveniente acrescentar que a república sonhada tinha como modelos tanto a democracia grega como o regime republicano da antiga Roma,  as concepções políticas dos estóicos e dos epicuristas do helenismo, quanto ao passado, como também  se inspiraram  nas cidades-república do Norte da Europa e das cidades italianas ,quanto ao presente. O referencial era a ideia de República, esse regime das alianças concertadas das várias classes em presença ou mesmo sem quaisquer classes sociais. Nas condições concretas de cada caso, podia aguardar-se o seu advento sob a direcção paradoxal de um déspota ou de um chefe político : esse apelo, ou dedicatória, é vulgar nas utopias burguesas ou não-burguesas . Certamente que corresponde ao projecto de Maquiavel ,de Erasmo, de Morus, provávelmente de Jean Bodin , todos do século deazasseis. Por outras palavras : na vida e nas obras destes progenitores do humanismo nada encontro que me permita concluir que eles defendiam ad aeternum o monarca absoluto, senão como um meio de conter as tiranias destes ou daqueles senhores ,destas ou daquelas facções e o projecto de More dispensave mesmo o fundador, fundada que estava a obra.. Dizer, por outro lado, como também alguns o dizem , que as utopias estão sempre em atrazo,em contra-corrente das tendências históricas que triunfaram, este é um ponto de vista, como tenho estado a mostrar, discutível : o absolutismo de Henrique VIII triunfou sob o olhar e até com o apoio de Morus, mas a república almejada por este viria a ser uma ideia política directora de grandes movimentos revolucionários e utopistas da Inglaterra, e  alcançaria grandes sucessos com primeira revolução burguesa no século seguinte ; é sabido que a Holanda era já ao tempo uma terra admirada pelos humanistas e continuaria a sê-lo durante o século seguinte, onde iriamos encontrar o nosso Padre António Vieira a  congeminar a sua História do Futuro. A ideia de república constitui provávelmente o paradigma do pensamento político moderno. No caso das utopias sociais, a cidade-república é perfeita, mas não significa  que repitam o mesmo esquema: o regime idealizado por Campanella está longe de ser uma cópia da Utopia de Morus.  Assim como ficam já ambos  distantes da Nova Atlândida de F. Bacon, que exprimiria já outras tendências históricas que se tornavam possíveis. Quer se chame democracia, com modelo na Grécia antiga, quer se chame República, com modelo na antiga Roma, a ideia de República atravessou todos os tempos, de forma latente, meramente sonhada, ou de uma forma manifesta. O que há de significativo na Modernidade, é que esta ideia retoma todo o seu fulgor atractivo. As doutrinas do direito natural esforçaram-se por descobrir um fundamento que legitimasse essa ideia. Claro que a experiência histórica demonstrou que a concepção republicana, ou se preferirmos democrática, defendida pela quase totalidade das utopias sociais excedia o quadro da ideologia burguesa..Houve utopias estranhas que defenderam uma espécie de regime camponês, um comunismo bebido no comunitarismo rural ancestral, como foi o caso das utopias  do cura Jean Meslier e do monge beneditino dom Deschamps,  assim como houve utopias conservadoras ,escritas ou espontâneamente populares. Por isso é muito difícil encontrar um modelo comum para todas elas,  inclusivé para aquelas que se moldam sob o género literário fundado por Tomás More . Todavia, sendo que a ideia de república apoia-se no direito de soberania do povo, isto converte-se num denominador comum a uma parte muito substancial dos programas utópicos , exprimindo, por conseguinte, uma nítida aproximação com as novas doutrinas políticas . Dir-se-à que sómente estas se realizaram e refiro-me ao liberalismo contratual. Em primeiro lugar, não vejo como em muitos aspectos ; em segundo lugar, censurar os projectos utópicos pela sua impotência de realização e, portanto, desprezáveis,  vale o mesmo que censurá-las porque ameaçam realizar-se.. Morus escreveu um texto, que fez fortuna assim como o título, pensando em duas coisas difíceis de conciliar : um elogio do saber,da sabedoria, um projecto detalhado de como solucionar os problemas de modo racional,isto é, sensato - neste sentido é realista a intenção ; por outro lado, é uma u-topia, isto é, um país meramente imaginário, uma representação imaginária e não a representação de uma realidade efectiva. Os narradores não contam um mito, declaradamente, muito menos respiram a atmosfera mítica, com a sua linguagem , a sua mentalidade,nada disso; nem transmitem, como certas atitudes  religiosas, uma verdade revelada. Mas também não são ideologias, porque estas por definição não se reconhecem como tal, negam-se, apresentam-se ora como religião verdadeira, ora como ciência, e acabam por ser , de facto,  uma amálgama informe de pedaços de doutrinas , de estereótipos, de soluções pragmáticas , uma mistura de empirismo superficial e de boas-intenções, imagens e noções incoerentes e contraditórias.. O espírito científico do século passado, que o positivismo representou com  meridiana clareza, ergueu ao cume a pretensão, diriamos utópica, de estabelecer uma clivagem entre o presente eufórico e prenhe de esperanças e  um passado de mitos ou de metafísicas, meros tacteios  em direcção  à ciência ,ao liberalismo ou ou ao socialismo, pretensão que de resto repete a pretensão expressa no espírito do Renascimento, e sucessivamente a dos filósofos da ciência do século XVII e a dos  philosophes do período das lumières ; por conseguinte, para Comte, para Marx, e para quase todos, a história do espírito, da base económica,  ou do que quer que fosse, culminava enfim na época científica ; a utopia era o passado, ou uma presença cada vez mais incómoda. Os factos e os estudos encarregaram-se depois de mostrar que afinal essa pretensão magnífica também ela se converteu em ideologia. Entrar por este caminho seria contar e desmontar uma longa história que chega aos nossos dias. Em suma : as definições abundam sobre utopia,ideologia,etc. Melhor do que formular mais uma, com pretensões de novidade, seria preferível adoptar a atitude que defendi no início : uma espécie de ecletismo, à semelhança do que propunham os bons filósofos sucessivamente dos século XVI , XVII e XVIII, atitude de método que permita construir o perfil aproximado de uma teoria geral, de uma síntese que integre diversas concepções ao mesmo tempo que as supere. Ora, as contribuições que me parecem mais importantes, entre outras, foram as de K.Mannheim e de Ernst Bloch. O primeiro sublinha nas utopias a sua propensão a constituirem-se como  visões do mundo globais,mundividências, coerentes, constituídos por valores, ideais e aspirações de grandes movimentos sociais que elas exprimem, sem mistificar a realidade e a história,como fazem as ideologias.O segundo, situa a utopia no cerne da própria natureza, no seus processos de desenvolvimento, na invenção de soluções, de virtualidades, de potencialidades, no movimento auto-transformador evolutivo, presente já nos fenómenos materiais aparentemente mais simples. A Esperança, como fundamento do Ser. A utopia como impulso, como élan da esperança. Como princípio, não se fixa num sistema, numa doutrina, num regime, numa experiência. Plasma-se aqui e acolá, mas permanece depois que a positividade morreu. O primeiro divide a mentalidade utópica em quatro áreas históricas: o quiliasmo, a ideia humanístico-liberal, a ideia conservadora e a utopia socialista-comunista. O segundo mostra-se claramente inspirado por Hegel e por Marx. O primeiro reduz demais, a meu ver, os domínios da utopia, o segundo alarga-os talvez excessivamente a todos os fenómenos da cultura, nos quais se poderia encontrar essa constante utópica. O primeiro inclina-se mais para a sociologia do fenómeno, por essas razões, o segundo para uma hermenêutica geral da cultura ( Bazko, 1985 ). Assim, eu diria que as utopias exprimem e representam de uma maneira específica , enquanto textos de projecto ou literários, essa constante , abertura para diante, para o novo, para o futuro, pois que quando elas exprimem resistência, é sempre resistência a determinadas mudanças, e nunca se vê que os resistentes ( Revolução Francesa, a nossa mais modesta e mais conservadora Revolução da Maria da Fonte ), glorifiquem as misérias em que vivem: o que eles pretendiam, mesmo que misturado com mitos e demagogias reaccionárias ( caso da nossa revolução da Maria da Fonte), era algo que se revelava muito difícil de conciliar : a conservação e até generalização  de relações de propriedade e de  trabalho comunitárias,  no caso da Revolução francesa o igualitarismo camponês,  com o desenvolvimento das relações capitalistas de produção, com a edificação dos Estados modernos . A utopia, aqui, ficou do lado dos que perderam.

Quanto aos textos, as utopias sociais apresentam-se como grandes paineis, mesmo que ,por vezes, algo monocordicos, visões globais do mundo e da vida, onde praticamente nada falta nem é esquecido, buscando uma fundamentação, filosófica ou científica, que as legitimem aos olhos mais exigentes, que substituam todas as outras doutrinas, filosóficas e religiosas, nessa pretensão de verdade absoluta que tanto as caratcteriza . Desde Morus que assim é :  F. Bacon, Jean Meslier, Morelly, Dom Deschamps, Mably, Babeuf, Saint-Simon, R. Owen, Charles Fourier, Cabet ; quer nas utopas liberais, quer nas utopias socialistas de Estado.  Quanto à intenção é esta mais difícil de descortinar : foi Morus sincero, ele que era o chanceler do rei e advogado dos negociantes ?  Foi Mably que redigia conselhos práticos aos grandes soberanos ? Ou Lénine  que, ao morrer, não deixou o Estado em deperecimento algum? A sinceridade embora nos atraia como criterio de veracidade, não é critério seguro : seriam sinceros todos os participantes dos grandes movimentos inspirados por utopias ? Tanto a experiência como a leitura dos filósofos da política , Maquiavel, Erasmo, Hobbes,  por aí fora, nos ensinam que é o interesse que move o indvíduo... O pânico, o desespero, os rumores, a propaganda, mobilizam os instintos e os interesses. Mas o medo, ou qualquer outra emoção, não faz só por si uma utopia, embora possa ser  o caminho da sabedoria. Pelo que foi dito mostra-se a dificuldade de formular um conceito preciso da utopia, porque  neste caso o conceito seria sempre redutor : o elemento utópico  é plástico, difuso, abarcante. Prefiro classificá-lo como Princípio Esperança, como queria E. Bloch, infundido em todos os fenómenos da vida cultural, e que se aproxima de uma espécie de mentalidade, como dizia Mannheim, ou de uma organização simbólica do pensar, do imaginar e do agir, distinta da mentalidade mítico-religiosa,  da mentalidade ideológica ,e do discurso científico proposicional, mas que é suficientemente plástico , para se informar junto da religião, da ciência e das ideologias políticas.

  Escusei-me pois a descrever a situação histórica (económica,política,religiosa) da época de Tomás  Morus. Julgo que esta tarefa  está a ser brilhantemente conseguida pelos ilustres intervenientes deste colóquio. Naturalmente que noutra ocasião o faria, para demonstrar o meu ponto de vista segundo o qual a utopia é o discurso de um grupo, de um extrato social, e não sómente uma obra de arte puramente individual que se estudaria por técnicas pisicológicas ou literárias, e esta profundamente condicioanada pelo horizonte de tradições,de interesses, de conhecimentos, de um determinado momento histórico. Ficam assim por esclarecer muitos problemas : uma teoria geral do fenómeno cultural das utopias, inserida numa teoria geral da cultura, distinguindo-o de outros produtos como os mitos, as ideologias, as filosofias, as ciências e as artes. Era de facto um esforço utópico  responder a todos os problemas que as utopias suscitam e ,por consequência, delimitar com rigor  uma área de investigação que é urgente consolidar.

   Deixei para o fim propositadamente um brevíssimo ensaio sobre o valor  da obra de Luciano de Samotácia, traduzida por Erasmo. E, por fim, uma breve análise de O Elogio da Loucura ,enquanto texto complementar de A Utopia de Tomás More.

 

        Luciano de Samósata, escritor grego oriundo da Síria, viveu no século segundo da nossa Era (120(5)-190(2) e deixou-nos diversos textos satíricos e fabulatórios , muitos dos quais em forma de diálogo, em boa parte  traduzidos por Erasmo de Roterdão e por More. O texto que aqui evoco intitula-se “ História verdadeira ( de uma viagem à lua) ” e nela o autor narra uma viagem que teria realizado ao nosso satélite, , onde nos faz assistir à guerra entre o império da lua e o imperio do sol e, por fim, no regresso por mar, ao seu aprisionamento no ventre de uma baleia, dentro da qual existia uma ilha habitada, e de seguida às suas estadias na ilha do Paraíso, do Inferno, dos sonhos, da deusa Calipso, das ilhas -flutuantes, das mulheres-marinhas,etc.

     Não incluiria esta história fantástica no acervo das utopias, como já foi feito, mas antes no volume da literatura  representativa do Imaginário Social.  É, antes uma fábula, na qual ele não utiliza o diálogo clássico dos textos filosóficos, mas um processo literário que não era raro de todo em todo, e que encontrou, entre outros, um ilustre pioneiro da comédia dramatúrgica em Aristófanes, o autor de “As nuvens” e de “ A Cidade das Aves “.. As narrativas fantásticas eram comuns em muitas civilizações : do próximo oriente ( As mil e uma noites,por exemplo), até ao extremo oriente ( as fábulas ou parábolas chinesas). Suponho que é neste caldo, feito ou não de intercâmbios, ou provávelmente de orientações autónomas e ,por isso, constantes, das estruturas do imaginário, que a verve crítica, o ensinamento, o conselho, o simples entrenimento, a função religiosa e ideológica, foram-se transmitindo, utilizando este ou aquele outro estilo, consoante o talento do autor, mas também as possibilidades que a cultura do seu tempo permitia. Convem não confundir com determinismos naturais, aquilo que muitas vezes mais não é do que influências, imitações, recriações de uma ou outra obra de sucesso. No texto de Luciano, que resumimos, há óbviamente processos repescados em Homero e Aristófanes, para apenas falar nestes. Embora a utopia esteja presente, como já está em Homero e Aristófanes, o que aqui prevalece é a imaginação literária ao serviço da crítica social ; nada que se compare, em estilo e em modelo, com as construções utópicas dos Cínicos e dos Estóicos, com as constituições utópicas dos Pitagóricos, com o Platão de As leis e de A República, com a utopia de Zenão de Cítium, o fundador do estoicismo. Todavia, a orientação está lá, como se manifesta em A Cidade das Aves, a corrente libertária e igualitária até em muitos casos: assim é que nesta fábula de orientação utópica, carregada daquela ironia que já encontramos, segundo penso, nas obras de Homero, nas comédias de Aristófanes , constituindo aqui um género dramatúrgico que visa a provocação e a persuação do público, topamos com a narrativa de viagem, marítima e agora também aérea, a descrição do Paraíso e do Inferno, das Ilhas Afortunadas ,lugar terreno do prazer e da estúlticia, como diria Erasmo, país de Cocagne, que Rabelais imortalizará na sua Abadia de Tèléme. Ora, se A História verdadeira ,de Luciano, não é uma utopia típica, porque razão trago à colação este texto que Erasmo e Morus traduziram ? com o intuito de afirmar que a novidade moderna que foi A Utopia de Morus,  moldou -se com ingredientes vários, e não apenas sobre  o molde  platónico ou  de A Cidade de Deus, de Santo Agostinho.  Tomás More  foi construindo o seu romance com base na sólida cultura literária  que detinha, seleccionada e assimilada com genuína paixão através do intercâmbio com Desidério Erasmo, e não creio que ignorasse as narrativas fantasticas que alimentavam o imaginário medieval como , sobretudo, as viagens ficcionadas sobre o Novo Mundo que circulavam já nos inícios do século XV ( Pierre d’Ailly - 1350-1420- Imago mundi ).  Como se sabe,o romance de Tomás More   divide-se em dois livros, tendo  sido o Livro II escrito ( 1515 ) antes  do Livro I ( !516 ),  e recebeu redações várias , até a contribuição do próprio Erasmo . A obra , pelos seus elementos e pela sua  feitura, sofreu uma profunda influência de Erasmo,  das leituras comuns, das paixões literárias comuns, e não apenas do clima cultural então vivido, que,aliás, foi construído também por mérito do próprio Erasmo. A intenção da célebre narrativa de Morus é similar à de Luciano : a viagem ( que não aparece em Platão, nem sequer na apresentação do  mito da Atlândida ) ,o narrador (que em Morus é duplo) marinheiro, a peregrinação por vários povos e culturas . O tom dominante em Luciano é o cepticismo,sem soluções sociais ou cósmicas para propor, como em Aristófanes, distanciado das querelas filosóficas e das doutrinas moralistas, mais um epicurismo que um estoicismo ( não há práticamente juízos de valor, nem fundamentações filosóficas ), uma atitude de intelectual que sobrevoa a mediocridade humana, entrecortada raramente por grandes individualidades, intelectuais evidentemente, que eles veneram. Quero com esta descrição aproximar os humanistas desses grandes escritores classicos que eles traduziram e assimilaram com admiração. Há grandes similitudes entre a atitude  de um Luciano e de um Erasmo, e não excluiria o próprio Tomás Morus que se diverte no seu romance a construir jogos de ironia.. A forja literária de More não usa determinados artifícios ( monstros, fantasmagorias, quimeras ) tão frequentes em Luciano , como em  outros da mesma tradição : na verdade esse aspecto é mesmo crucial para distinguir a utopia moderna das fábulas clássicas ...mas interessa-me realçar o seguinte :  na descrição que Luciano faz das lides dos povos exóticos que encontra na sua pseudo-viagem desenha-nos  um conjunto de actos humanos com pouco sentido, absurdos aos olhos de observador de Sírius, como dirá Voltaire, cujo passatempo favorito é a guerra, a glória, a expoliação, o imperialismo, a agressividade : raros são os romances de viagens que tracem um quadro tão negro e tão absurdo da comédia humana: a imaginação metafórica e fabulosa atinge o delírio, mesmo que imitando a zoologia das personagens de Aristófanes : as moscas, os escaravelhos, as aves... Erasmo sabe tão bem isso mesmo que ele próprio  em O Elogio da Loucura situa a sua comédia na melhor das tradições : “ Na verdade, aqueles a quem ofende a ligeireza do tema e o tom galhofeiro com que o trato, deveriam notar que não sou o primeiro a fazê-lo, pois nisso segui o exemplo de grandes autores. Homero, há muitos séculos já, divertiu-se a descrever o combate dos ratos e das rãs ; Virgílio escreveu um poema sobre um mosquito e sobre um queijo; Ovídio compôs outro sobre a noz ; Polícrates escreveu o elogio de Busíris, que Isócrates refutou ; Glaucon elogiou a Injustiça ; Favorino (...)  as febres quartãs ; Sinésio, a Calvície ; Luciano, as moscas e os parasitas...” etc. (  1 ). Deste modo a cultura clássica justifica a reposição dos estilos e dos temas, segundo os humanistas, e nisto havia efectivamente um programa. A crítica moderna , procurava a cobertura  junto dos letrados e dos poderosos, através  dos vultos inquestionáveis da antiguidade. A modernidade quando recupera a tradição, quase sempre da antiguidade clássica, é como modelo político e cultural a repôr, a imitar, mas não é só um regresso que se pretende, impossível de resto, mas sobretudo uma legitimação, uma justificação daquilo que se reivindica. A intenção social e política , seja de modernização das instituições académicas, seja das instituições religiosas e políticas, utiliza estilos e temas, fixados literáriamente com brilho incontornável, para se enobrecer , para se defender e para reforçar a eficácia. Não é apenas a experimentação e o vanguardismo, a procura de uma novidade absoluta ,mas também essa estratégia, e isso foi claro no renascimento, no século das Luzes, no romantismo. O vanguardismo experimental ,nas artes ou na política, afirma-se por uma ruptura mais ou menos brutal e chocante com o passado e o presente, aí está sua força e a sua fragilidade. Esta auto-afirmação pela novidade e pela ruptura não é apanágio exclusivo do nosso século,. mas a  busca de originalidade também se faz por meio da recuperação dos modelos selecionados do passado. Assim sendo, o renascimento não copiou sem criar algo de novo : inventou a pintura moderna com as escolas italianas, a comédia com Molière e Rabelais, o discurso satírico com Erasmo, a utopia com Morus, o discurso político com Maquiavel, e isto só para citar alguns exemplos. E fica lamentávelmente por apreciar a contribuição dos portugueses...

    As comédias ,os textos satíricos, desde Aristófanes, Luciano,entre outros, chegando a Erasmo, Cirano de Bergerac, Cervantes, J. Swift, Voltaire, toda uma nobre tradição, cultivada não só nos séculos de oiro de determinadas civilizações, como nos períodos de decadência, recortam  uma galeria de figuras simbólicas, genéricas, personagens do palco social ( militares, políticos, poetas advinhos, geómetras, impostores e pregoeiros em Aristófanes; as estratégias belicistas dos Estados, por exemplo, em Luciano, os réprobos condenados às penas do Inferno, em Dante ; o quixotismo , as caricaturas dos fidalgos ou dos burgueses em Cervantes ; os astrólogos e os governadores ignorantes, em Cyrano de Bergerac ; a corte, os sábios,  as pulsões belicistas dos governos, em J. Swift, e a longa lista chegaria até perto de nós ) ; e  transmitem-nos de um modo geral, embora em registos diferenciados evidentemente, o mesmo perfil da condição humana, o qual parece até incompatível com qualquer possibilidade de regeneração. A felicidade do género humano parece impossível, ou um mero ideal acima da força humana. Pensarão deste modo alguns destes autores citados, como Cervantes ,Swift e Voltaire, por exemplo, mas não creio que seja regra geral : entre os seus cultivadores, houve certamente quem alimentasse a sua utopia. Não creio que seja indispensável a construção de narrativas de viagens imaginárias, ou de qualquer outro processo estilístico conducente ao mesmo resultado, como acesso à representação detalhada da sociedade conforme às suas esperanças ; raramente um analista ,que usa a sátira para melhor fazer passar a sua mensagem, , é assim tão completamente pessimista, que nos aconselhe a solidão de eremita ou o suicídio : os autores estóicos da crise de valores que o helenismo anuncia, apesar do jardim que cultivam, não são ascetas em rigor,  a sua utopia cósmica é manifesta e não desprezam toda a actividade social e política ; o epicurismo, porque apostam na amizade, contem uma doce e terrena utopia ; Luciano, já o admiti, alimenta uma orientação utópica ; Voltaire ,roçando o cepticismo, não deixa de ser o grande philosophe das lumières. Se  à data em que escrevem a história ,qualquer que ela seja, a humanidade conhecida se lhe apresenta pintada a negro pelas guerras, pelas ambições desmedidas e absurdas, que pouco ou nada nos distinguem de escaravelhos, de moscas, de burros, de liliputianos,de micrómegas,etc., outro pode ser o futuro se o melhor da humanidade despertar finalmente. É claro que importa  distinguir aquelas orientações filosóficas que acreditam numa repetição cíclica dos acontecimentos , sem que isso recuse necessáriamente a aparição de um determinado homem novo, e aquelas que ,de um modo ou de outro, admitem antes um progresso ou evolução , e onde o Novo é conceito ou metáfora timoneira. Parece-me ser este o caso de Erasmo, como o é de Morus. Consideram ambos ser muito difícil um reino de  sageza ou bom-senso,  por decisão dos poderosos e mesmo dos revoltados humildes, muito difícil ainda aquela beatitude de que falará Espinosa, impossível de alcançar pelo homem comum, constituído irremediávelmente por corpo e espírito, movido pela necessidade de auto-conservação, pelo amor-próprio, pela fome de auto-reconhecimento, por interesses materiais. Por isso, buscam afanosamente na natureza humana as potencialidades benfazejas,  um edifício social que eduque as novas gerações. Pois bem, o que sucede com Erasmo ,que não escreveu uma utopia tipificada, é que se reviu, seguramente, nas imagens-desejos, no Princípio Esperança, desenhado meticulosamente pelo seu amigo. O seu Elogio é dedicado a More, e Moria é a a Loucura. A utopia de Morus é o Elogio da Sageza, isto é, daquele bom-senso capaz de controlar o que há de irremediávelmente humano e terreno na Loucura, e alcançar a felicidade geral. Porque a Loucura, segundo Erasmo, não é a dimensão pecaminosa e luciferina das criaturas: O Elogio da Loucura não é a diatribe descabelada de um profeta apocalíptico ( de resto, Erasmo não parecia ter em grande apreço o Apocalipse de S.João...). O humano não é sequer repartido em loucura e sabedoria, embora se diga que de sábio e louco todos temos um pouco, o que já seria uma atitude mais compreensiva. Não : na própria Loucura há elementos aceitáveis, digamos assim : é o lado agradável da vida, ou o modo como a podemos tornar mais agradável ; de ilusões todos precisamos, uns mais do que outros, a esperança ,sendo uma ilusão, é uma ilusão necessária ou útil, se soubermos construir uma que valha a pena :é a utopia de Morus. Erasmo ataca o ascetismo , a moral da consciência infeliz como diria Hegel, a sincera ou hipócrita auto-flagelação, os rituais supersticiosos que traduzem o medo e o interesse, os contratos de compra e venda com a divindade, os ídolos de que falará mais tarde F. Bacon, o ridículo das nossas máscaras de actores sem grandeza de alma, isto é, sem altruísmo, piedade, interioridade. Mas o seu amigo Morus , pelo seu carácter e pelas suas acções, é uma prova viva de que os novos filósofos, os novos sábios, as novas élites, potenciam boas possibilidades e boas perspectativas. Por isso, ele, como os outros, dirigem as suas esperanças não tanto para este ou para aquele príncipe, mas, sobretudo, para as elites.

  O Elogio da Loucura  teve antecedentes : Erasmo tinha em pouca conta a lietratura medieval, com excepção de Dante, que pertencendo já ao período preparatório do Renascimento, seria um excelente exemplo para se comparar o pensamento e o estilo de Erasmo, assim como A Utopia ,de Morus, naquilo que os diferencia. Dante escreveu os três livros Da Monarquia, como se sabe,,além da Divina Comédia ; ora, naquela obra procura demonstrar a bondade presumível desse regime, mas não devemos esquecer que ele visava sobretudo a unidade italiana, e destina ao seu povo, o alto desígnio da monarquia universal ;  esta monarquia, contudo, deve basear-se na separação dos poderes temporal e espiritual ; deste ponto de vista não andou Erasmo muito longe ; a paz universal, constitui tanto para um como para o outro, a suprema finalidade do bom governo; a Divina Comédia, pelo seu lado, contem a seu modo o Princípio Esperança, isto é, de novo, a Paz ,a unidade ,a piedade cristã, o prestígio da sabedoria ; o estilo não colide de modo nehum com a tradicional construção utópica : narrativa de uma viagem imaginária, durante a qual o narrador-Poeta visita, segundo os cânones do género, que já vimos ilustrados por Luciano, o Inferno, o paraíso terreste e, enfim, a visão beatífica de Deus. Ora, na Utopia de Morus há recorrência e, simultâneamente, novidade: O marinheiro-narrador Rafael Hitlodeu não visita já, como o modelo clássico, os lugares da expiação ou da salvação, mas ,conservando a narrativa de viagem ( marítima como quase sempre sucederá ) e a ilha Afortunada, são eliminados alguns dos recursos estílisticos e temáticos, inclusivamente é eliminada  a orientação quer de epopeia,quer de sátira, que tanto efeito haviam suscitado, e tudo se resume e se condensa numa espécie nova de Ilha dos afortunados, ou paraíso terrestre, rodeado de povos ora selvagens ora semelhantes nos erros e malfeitorias aos europeus, ora ainda de povos que evitavam este ou aquele erro e que servem para animar a acção, dar-lhe textura convincente que ajude a compreender a perfeição da utopia, eles são como que ensaios aproximativos para aceitarmos a possibilidade da existência, isto é, da sua edificação .Nestes recursos, mas, sobretudo, no percurso novo, é que se nota a diferença entre o tradicional e o moderno, entre Morus do Renascimento e os autores anteriores : há uma clara superação do modelo paradigmático cristão : condenação, expiação, salvação, que Santo Agostinho utilizou em A Cidade de Deus. De facto, as utopias modernas baseiam-se ou apontam para baixo, a terra, e para diante, o futuro, recusando, regra geral, as soluções apocalípticas .Ora, A Utopia ,de Morus ,é ,segundo penso, complementar de O Elogio da Loucura. Não que fossem, qualquer uma delas, escritas a quatro mãos, mas fruto da grande amizade de ambos, da contribuição de Erasmo, o qual dedica a sua obra a Tomás More, da convergência de intenções, da consonância do discurso de O Elogio com o discurso de Rafael Hitlodeu  do Livro Primeiro de A Utopia . O  fecho da abóboda, digamos assim,  é a descrição da sociedade ideal. Certamente que são dois autores distintos, distintas personalidades, com diferentes experiências políticas ( a descrição do capitalismo ,por exemplo, sómente Thomaz More, inglês, a podia fazer), mas há um programa moral comum . Digo : de reforma a todos os níveis da vida social . Comparemos em traços rápidos O Elogio da Loucura com o Livro primeiro de A Utopia :

     No primeiro caso, desfilam os gramáticos, os poetas, os juriconsultos, os filósofos, os teólogos, os monges, os reis e os príncipes, os cortesãos, os cardeais e os bispos, os Sumos Pontífices. No segundo caso, os príncipes ,os Estados e o belicismo, os eternos conselheiros , parasitas  lisonjeiros, os juristas, os nobres, esses “ociosos zangãos”, os escudeiros-soldados, enfim a nobreza,a criadagem e os rebanhos de carneiros que “ devoram os homens”...

     Se não atribuirmos demasiada importância à omissão da parte de Morus das figuras condenadas por Erasmo, a similitude essencial das galerias é flagrante. ; de resto alguma omissão torna-se compreensiva quando se lê em seguida a cidade ideal, na qual não encontramos práticamente nenhuma dessas caricaturas a desempenhar qualquer dos cargos que as simbolizam : A Utopia é, precisamente, a organização social que dispensa tais comediantes, cuja ordem nova deixou de lhes atribuir os poderes que os tornam nocivos . Pode variar um pouco a tipologia dos vícios, dos pecados venais e veniais, desde Aristófanes até Erasmo e Morus, que não elimina uma determinada linha constante ; por outro lado, as utopias típicas, desde Platão, Zenão, a Morus, servem precisamente para pôr um ponto final neles. Não é,de resto, outra a função das utopias sociais, quer sejam aparentemente mais pessimistas umas do que outras, mais democráticas ou aristocráticas , religiosas ou laicas.

     Posto isto direi que o Livro Primeiro de A Utopia retoma as questões capitais tratadas pelo Elogio da Loucura : a convergência dos temas e galeria de protagonistas é por demais evidente para nos permitirmos concluir que os dois discursos, um pela boca da deusa Loucura, outro pela voz do português Rafael Hitlodeu , constituem uma obra programática comum. O Livro Primeiro apresenta-se como o diagnóstico objectivo de um verdadeiro filósofo “ que desempenha com decência e harmonia o papel que lhe incumbe na peça que tem de representar “, segundo exige o narrador Tomás Morus ( 2 ). “ Arrancai da vossa ilha essas pestes oúblicas, esses germes de crime e de miséria. Decretai que os vossos fidalgos serão forçados a reconstruir as herdades e vilas que arrasarem, ou cederão a terra aos que as quiserem reconstruir sobre as ruínas que eles próprios abandonaram. Ponde um freio ao avaro egoísmo dos ricos e privai-os do direito de especulação e monopólio. Que para deixe de haver ociosos ! Dai à agricultura grande desenvolvimento, criai manufacturas de lã e de outros ramos de indústria , nas quais se ocupe útilmente essa porção de homens dos quais a miséria até agora fez ladrões, vagabundos ou criados, o que é aproximadamente a mesma coisa “ ( 3 ) São conselhos e avisos dirigidos aos príncipes. O Livro Segundo apresenta-se como a única solução, não apenas a melhor, de resolver-se todos os problemas enunciados. Desta unicidade nasce uma solidão fascinante que envolve toda a descrição. Nem Erasmo , nem More, acreditam que as cabeças coroadas do seu tempo venham a realizar tal propósito. Podem seguir este ou aquele conselho enunciado ,mas nunca tal revolução radical. Julgo que é daí que surgem os maiores equívocos que têm acompanhado a Utopia. Para que serve ela por conseguinte ? Eis o desafio que vos lanço e que norteia, afinal de contas, a minha pesquisa pessoal.

      Erasmo e More assistiram aos prelúdios da  Reforma e às revoltas sangrentas . Ambos concluiram que as igrejas independentes convertiam-se depressa em desígnios políticos particulares, em veículos de velhas e renovadas ambições ; sobre as melhorias económicas que as reformas promoviam, os benefícios eram rápidamente acumulados apenas por uns tantos, à custa dos restantes, e a guerra ofensiva e de expoliação permanecia como estratégia e denominador comum ; a meu ver, a análise de Morus, sob a boca de Hitlodeu, é ainda mais dura e sólida do que a do próprio Erasmo : refiro-me,por exemplo, às raízes dos vícios, das injustiças, da miséria e das revoltas : entre outras formulações lapidares, evoco esta que irá retomada por Marx no seu Manifesto publicado há 150 anos atrás : “ Qual é o homem que mais vivamente deseja uma revolução ? Não será aquele cuja existência habitual é miserável ? Que homem terá maior audácia em derrubar o Estado ? Não será aquele que tem tudo a ganhar com isso e nada a perder ? ” ( 4 ). E evoco também com esta outra intenção : a de mostrar que tanto Erasmo como Morus não advogam qualquer revolução social, ou revolta popular, se preferirmos, embora Morus e Erasmo com certeza mostre perfeitamente compreendê-las, pois que aquelas que observaram ou tiveram delas conhecimento ( as revoltas camponesas alemãs chefiadas por T. Müntzer, ou as revoltas  dos anabaptistas ), não lhes ensinaram senão que a violência e a carnagem vindicativa, não oferecia solução alguma, excepto a repressão e o reforço do Estado dos poderosos . Parece-me até interpretar nos textos de Erasmo a intuição de que as revoltas, ou essas em concreto, senão eram mesmo provocadas e manipuladas, serviam pelo menos de alguma utilidade para os ambiciosos...De resto, o seu contemporâneo, Maquiavel, italiano como ele, não percebeu isso melhor do que ninguém? Aquilo que constituía para outros um pecado ou uma imoralidade, à luz de uma filosofia cristã medieval, e por que não dizê-lo : à luz de muitas diatribes de Lutero e de Calvino, da Reforma portanto, era para o Maquiavel de O Príncipe, uma necessidade absoluta de conservar o poder, ou conquistá-lo. A extraordinária e moderna concepção do Poder e das suas relações com os governados, concepção que atribui a todo o Poder a fórmula de uma co-relação de forças, de alianças e de seduções , e que lhe faz corresponder todo um aparelho de repressões e de persuações, de manipulações e de astúcias, não é incompatível a meu ver com os textos de Erasmo, mesmo que nestes um determinado modelo ético-religioso sobrevôe as análises sociais e políticas . O injustamente designado maquiavelismo não é discurso de um cínico amoral : Maquiavel professa também a sua utopia ;  muito embora proliferassem  no Renascimento, não creio que a dele, de Maquiavel, colidisse com a de Erasmo, apesar de não ter conhecido as guerras religiosas. Por isso julgo que houve um ideário relativamente comum que movimentava muitos dos melhores e mais célebres humanistas , a salientar : a laicização, a separação do poder religioso e do poder político, a interpretação dos acontecimentos sem ser sob o crivo austero de uma ética de transcendência, ou livresca ,e dos comportamentos humanos  sem recorrer à lista dos pecados  condenados pelos teólogos às penas do inferno ; Maquiavel abstem-se de fazer referências às sagradas Escrituras, Erasmo fá-lo sempre, mas de um modo diferente dos antigos, digamos que mais humanizado, terrenal, forjando uma metodologia  hermenêutica  que parece anunciar as futuras interpretações históricas da Bíblia, de Espinosa por exemplo  ; ambos tiveram como mestre João  Pico de la Mirândola e o seu Discurso sobre a Dignidade do Homem, e que Tomás More biografou em 1504.

    Maquiavel , Erasmo e More inauguram a Modernidade. O primeiro ,pelo realismo da acção política com o qual nos oferece uma Teoria do fenómeno político ,o último , pela utopia  social, que , nos percursos da modernidade,  sempre se  contrapôs à Realpolitike. O segundo, pelo retrato realista da tragi-comédia dos alvores da modernidade.

    Eis-nos, deste modo, perante a  difícil conciliação entre a autonomia da política e os modelos normativos da moral e da religião. Esta separação instaurada por Maquiavel, foi , a seu tempo, um acto teórico revolucionário produzindo efeitos que ainda hoje se sentem ; todavia, eu não seria tão categórico como alguns recentes teóricos liberais, pois que, em primeiro lugar, não excluía de Maquiavel a vontade de postular finalidades para os governos, os quais, aliás, têm de satisfazer,de alguma maneira, interesses e aspirações concretas dos governados ( já o dissémos: a unidade política e a paz universal orientam os conselhos de Maquiavel ) e, em segundo lugar, encontramo-nos provávelmente  numa época que  se revê cada vez pior nas governações  economicistas e pouco autónomas que mostram um desvêlo servil por determinados aglomerados plutocráticos ,no que me parece um desvio flagrante aos princípios de O Príncipe de Maquiavel.

   Admito que as construcções  utópicas fundaram-se sempre na identificação entre o ser e o dever-ser, e que as teorias sobre a política têm  procurado, de alguma maneira,  separar o ser do dever-ser ;  determinadas leituras deste percurso não são, porém,  transparentes : verificou-se sobretudo com Karl Popper e seus discípulos, que se  opõem a todas as concepções que não lhes pareçam de acordo com as suas interpretações do liberalismo.

   Maquiavel ,Erasmo e Morus, parecem-me a mim coincidentes  numa questão capital : a busca de uma adequada separação entre a autoridade religiosa e o poder político ;  separação que salvaguarda a  independência da soberania dos povos e as suas instituições representativas, dos fundamentos e das finalidades terrenas , relativamente à transcendência contida nos textos sagrados ; uma concepção segundo a qual o que é material e corporal, seja a produção económica dos bens, seja os instrumentos de governação política, são finitos, isto é, distintos da dimensão espiritual do homem, concepção, porém, que não se traduz por uma interpretação maniqueísta, na medida em que o mundo continua a ser a maravilhosa obra de Deus ofertada aos homens , os quais dispõem de livre-arbítrio e ,portanto, de escolhas responsáveis. É por isso que as utopias prestam tanta atenção à definição do conceito de existência. Nas utopias modernas já não se trata de actualizar simbólicamente o paraíso do qual fomos expulsos, mas de encontrar um sentido que nos permita venerar a vida. A Utopia de Morus insere-se nesta perspectiva, e deste modo compreende-se a orientação utópica imersa na mundividência de Maquiavel e de Erasmo. Este ponto de vista é claramente um traço indelével da Modernidade, que se irá reflectir na penosa autonomia conquistada da actividade científica relativamente à teologia, ou da filosofia relativamente à teologia, ou da política relativamente à intromissão clerical.

    Posto isto, diremos que  a Era Moderna  caracteriza-se    pela secularização, ou , se se preferir, pela laicidade e pela desacralização , um percurso de sucessivos lances em direcção a mais autonomia responsável do indivíduo, por um lado e,por outro, de menos antropomorfismo , afinal bem humano, na esfera do religioso. É por estas razões, as quais  poder-se-iam  formular como a conquista da subjectividade,  que a Modernidade provocou irremediáveis cisões, convertendo-se ela mesma num movimento ininterrupto de contradições, abrindo-se no horizonte utópico uma sempre ensaiada tentativa de reconciliação. Por conseguinte, as utopias, quer nas grandes construções filosóficas e literárias, quer no aparente espontaneísmo dos movimentos sociais, não se reduzem exclusivamente  a uma espécie de psicose pessoal que ambiciona  sufocar o indivíduo pela colectividade, mas à vontade de resolver precisamente as objctivas divisões e desigualdades sociais, provocadas por  regimes políticos que se sobrepõem aos interesses da comunidade, de comprometer os governos com as grandes finalidades de paz e segurança, de bem-estar e justiça social, de igualdade e de liberdade,  com aquela felicidade geral exaltada por Jean-Jacques Rousseau. Estas utopias nada têm a ver com o gigantesco sistema ideológico da publicidade , que tudo promete desde que se compre, não recuando no apetite interminável de converter em mercadoria os sentimentos mais nobres e as aspirações mais legítimas que ele próprio provoca. Os críticos das utopias verberam nelas aquilo que tomam como obsessão determinista, irrealista e portadora de intolerâncias , imputando-lhes doutrinas gravemente nocivas das liberdades e responsáveis pelos totalitarismos deste século ; pergunto-me, porém, se ,em primeiro lugar , não existe também uma concepção determinista na famosa doutrina dos interesses particulares que desaguariam ,não se sabe onde nem como, em meríficos equilíbrios contratuais e consensuais ; e, em segundo lugar, se não andaram a confundir, propositadamente ou não, utopias com actividades políticas  militantes, isto é, com ideologias políticas prosseguidas por este ou aquele partido. A  distorção e a legitimação, que caracterizam  as ideologias, nas quais a racionalidade se casa muito mal com a grande dose de propaganda e de voluntarismo  que elas contêm,  não se aplicam com a mesma facilidade às utopias de construção marcadamente racionalista, algumas das quais utilizam mesmo os processos de fundamentação e demonstração das filosofias e até das ciências. Ainda assim, haveria que distinguir aquelas construções utópicas de tipo estatista,  daquelas outras que moderam ou dispensam mesmo o Estado moderno. Estas últimas valem como fins ideais da razão, as outras valem como projectos políticos que reivindicam mais Estado social.

    Em muitos humanistas  contemporâneos, a explicitação e a valorização do Possível concreto é não só flagrante, como parece corresponder à reabertura de de um dossier que parecia irremediávelmente fechado, depois das trágicas experiências deste século e que marcaram profundamente a nossa consciência humanista . Não se trata apenas de isolar o fenómeno em redutos académicos : trata-se de querer que a filosofia seja o pensamento do seu tempo expresso em conceitos. Trata-se de somar esforços para enfrentar e  resolver  as dolorosas cisões de que se lastima hoje a nossa consciência.

 Não basta representar o que existe, é também necessário pensar naquilo que se deseja e naquilo que é possível “ ( Gorki )

 

 

 

                                                                             Torres Vedras, Março de 1998

                                                                José Augusto Nozes Pires

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NOTAS :

 

  ( 1 ) Elogio da Loucura , Livros de bolso Europa-América, pp.11-2 ; vide   Oeuvres choisies, Erasme, p. 108, Le Livre de Poche ,1991.

 

 ( 2 ) A Utopia, p. 53, Guimarães Editores ; “ Vous dites vrai, si vous parlez de cette philosophie de l’école, qui attaque de front et en aveugle les temps, les lieux et les personnes. Mais il est une philosophie moins sauvage ; celle-ci connaît son théâtre, et , dans la pièce où elle doit jouer, elle remplit son rôle avec convenance et harmonie. Voilà celle que vous devez employer “, in Voyages aux Pays de Nulle Part “, p. 141,  Bouquins, Robert Laffont, 1990.

 

( 3 ) A Utopia, pp. 29-30, Guimarães Ed. ; vide in Voyages aux...”, p.129.

 

( 4 ) idem, p.50 ; ibidem, p. 140.

 

 

        Bibliografia consultada  :

 

        Oeuvres choisies , Erasme.

       L’Utopie de Thomas More, André Prévost, Mame, Paris, 1978.

       Les Imaginaires Sociaux, Bronislaw Baczko, Payot, 1984.

       Le Principe Espérance, Ernst Bloch, 3 vol., Gallimard, 1991.

       Ideologia y Utopia, Karl Mannheim, Fondo de Cultura Economica, 1941.

      Ideologia e Utopia, Paul Ricoeur, Ed.70,1991.

      L’Utopie et les utopies, Raymond Ruyer, Imago Mundi, Gérard Monfort,       1988.

      O Discurso Filosófico da Modernidade, Jürgen Habermas, Lisboa, D.   Quixote, 1990.

       Essais sur l’Histoire des Idées Socialistes de l’Antiquité à la fin du XVIII siècle, V. Volguine, Editions du Progrès, Moscou, 1981.

      L’Utopie, Jean-Yves Lacroix, Bordas, 1994.

       Utopie et civilisations, Gilles Lapouge, Albin Michel, 1990.

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