4 ESQUINAS
Por António Rodrigues Jornalista.
Público 09 Outubro 2026
Essa a enormidade da barganha: você entra na mesa de
negociação com pedido de ajuste fiscal. O outro lado promete
atender, sem explicar como. Só cobra armar crianças, intimidar
professores, jornalistas e artistas; descredibilizar médicos,
discriminar homossexuais, desproteger mulheres; explodir o
clima, enriquecer a família, legitimar a incivilidade gratuita e
liberar recursos nacionais para país estrangeiro. Ignorar a
Constituição. E você diz sim, negócio fechado” Conrado
Hübner Mendes Cronista da Folha de S. Paulo Queimar
Um dos edifícios da Universidade Federal de Pernambuco foi
destruído pelas chamas na noite de quarta-feira. O
historiador Jones Manoel, eleito deputado federal no
domingo, escreveu nas redes sociais que estudantes da
universidade receberam ameaças por terem organizado um
acto de apoio à reeleição de Lula da Silva. Numa delas, um
anónimo falava em “explodir o departamento”, cita a Folha
de S. Paulo.
As chamas consumindo um centro de investigação científica
numa universidade federal, o que poderia ser mais simbólico
do Brasil que emergiu destas eleições? A ignorância, o ódio, a
maldade, a vileza contra a ciência e o saber conquistaram o
poder em toda a escala (mesmo que Lula consiga ganhar na
segunda volta, terá nas mãos um país ingovernável) e será um
Brasil substancialmente diferente o das próximas eleições —
se ainda forem livres, justas e transparentes.
Com a ajuda dos grandes meios de comunicação, dos
algoritmos das redes sociais, dos púlpitos das igrejas
evangélicas neopentecostais (os vendilhões expulsos do templo
voltaram com sanha de vingança), a extrema-direita
bolsonarista, aliada às milícias armadas, à corrupção em
grande escala, conseguiu construir essa ideia de que estavam
em disputa apenas duas visões para o povo brasileiro. E não
explicaram que de um lado está uma visão democrática para o
país (com todos os seus erros acumulados e digna de crítica),
do outro alinha-se o velho país dos coronéis, dos ricos, dos
brancos, das milícias, do racismo, da exploração, o país da
classe média que perdeu o privilégio de ter mucama, de ter
babá porque Lula deu direitos laborais aos explorados. Esse
Brasil que gosta (ou fecha os olhos) do trabalho análogo à
escravatura, do desmatamento da Amazónia e que é contra os
“privilégios” dos povos indígenas e as quotas nas
universidades.
O Brasil que se vê acima da lei ganhou. E agora vai deixar
passar a boiada. É de temer que o incêndio de Pernambuco
seja só o começo.
Queimar
Um dos edifícios da Universidade Federal de Pernambuco foi
destruído pelas chamas na noite de quarta-feira. O
historiador Jones Manoel, eleito deputado federal no
domingo, escreveu nas redes sociais que estudantes da
universidade receberam ameaças por terem organizado um
acto de apoio à reeleição de Lula da Silva. Numa delas, um
anónimo falava em “explodir o departamento”, cita a Folha
de S. Paulo.
As chamas consumindo um centro de investigação científica
numa universidade federal, o que poderia ser mais simbólico
do Brasil que emergiu destas eleições? A ignorância, o ódio, a
maldade, a vileza contra a ciência e o saber conquistaram o
poder em toda a escala (mesmo que Lula consiga ganhar na
segunda volta, terá nas mãos um país ingovernável) e será um
Brasil substancialmente diferente o das próximas eleições —
se ainda forem livres, justas e transparentes.
Com a ajuda dos grandes meios de comunicação, dos
algoritmos das redes sociais, dos púlpitos das igrejas
evangélicas neopentecostais (os vendilhões expulsos do templo
voltaram com sanha de vingança), a extrema-direita
bolsonarista, aliada às milícias armadas, à corrupção em
grande escala, conseguiu construir essa ideia de que estavam
em disputa apenas duas visões para o povo brasileiro. E não
explicaram que de um lado está uma visão democrática para o
país (com todos os seus erros acumulados e digna de crítica),
do outro alinha-se o velho país dos coronéis, dos ricos, dos
brancos, das milícias, do racismo, da exploração, o país da
classe média que perdeu o privilégio de ter mucama, de ter
babá porque Lula deu direitos laborais aos explorados. Esse
Brasil que gosta (ou fecha os olhos) do trabalho análogo à
escravatura, do desmatamento da Amazónia e que é contra os
“privilégios” dos povos indígenas e as quotas nas
universidades.
O Brasil que se vê acima da lei ganhou. E agora vai deixar
passar a boiada. É de temer que o incêndio de Pernambuco
seja só o começo
Redemocratizar
As democracias não morrem de repente, vão morrendo,
muitas vezes sob o disfarce da revitalização. O bolsonarismo é
essa pulsão da morte. Visão antidemocrática que aproveita as
fragilidades da democracia para se impor como alternativa
dentro de um sistema que quer destruir. O bolsonarismo odeia
a democracia porque vitupera a pluralidade, detesta que o
contradigam, abomina quando lhe pedem explicações e vê a
oposição como inimigo. Tolera a democracia como sistema
político cujo poder emana do povo se esse povo votar nele,
todo o outro sofrerá as consequências da ousadia.
Quando Flávio Bolsonaro vem afirmar que pretende
“redemocratizar” o Brasil, estamos seguros de que haverá
mudanças profundas, mas nenhuma delas terá realmente a
ver com democracia.
“Olha o que o povo brasileiro falou nas urnas. Olha o
Congresso Nacional que será configurado a partir de Janeiro.
Acho que nenhum Presidente da República com meu perfil
casou tanto com um Congresso como esse de centro-direita,
em que a maioria está ali estabelecida por identidade
programática”, disse, cita o G1.
Bolsonaro quer mudar a Constituição, sobretudo em relação
ao Supremo Tribunal Federal, aumentar o número de juízes
para poder nomear mais ocupantes das cadeiras sintonizados
com o seu discurso. E iniciar um processo de impeachment
contra Alexandre de Moraes porque ousou condenar o pai,
Jair Bolsonaro, a 27 anos e meio de prisão por tentativa de
golpe de Estado.
“Vocês acham que o Brasil está numa democracia plena?”,
questionou retoricamente.
“A gente quer respeitar a política”, uma frase que tem lá
tudo, respeitar a política é um eufemismo para “quando eu
for Presidente, aquilo que eu disser é lei e a lei não me pode
perseguir pelo que eu digo e faço”. Tal como Donald Trump
conseguiu nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro quer
imunidade total para o bolsonarismo, mesmo quando planeia
golpes de Estado.
Eleita e ameaçada
Houve um fogacho de luz no meio da derrocada da esquerda
nas eleições de domingo no Brasil, com o PT afundado por
erros próprios e alheios que lhe são atribuídos, incapaz de
contrariar os sofismas do bolsonarismo com uma mensagem
nova e de futuro. Os mesmos rostos a disputar os mesmos
cargos com as mesmas estratégias e discursos. Desse
descalabro, um rosto emergiu como o vento de Aracati, a
brisa fresca e húmida que refresca as noites do sertão no
Ceará.
Ana Elisa, de 21 anos, militante do PT, foi eleita deputada
federal em Minas Gerais com mais de 524 mil votos,
tornando-se a mulher mais votada da história do estado na
primeira vez que se apresenta a uma eleição para cargo
público, e a mulher mais jovem eleita para o Congresso de
Deputados.
Estudante de Direito, negra, t raz consigo a experiência das
redes sociais, daí que Lula, que a convidou em Março para se
filiar no partido, a tenha mandado chamar agora para
integrar o seu núcleo de estratégia digital para a segunda
volta das eleições.
“Acredito que esta semana ficou provado para a esquerda que
a rede social elege, porque até há pouco tempo só elegia a
direita”, disse Ana Elisa aos jornalistas. “Toda a minha
campanha foi pautada, óbvio, em campanha de rua, mas
muita campanha de rede, porque eu entendi que quem faz um
milhão de votos, quem faz três milhões de votos, é porque
realmente prioriza a rede social.”
Num clima de normalização do discurso de ódio, Ana Elisa já
foi insultada e recebeu um email com ameaças de morte de
alguém que mostrou saber pormenores da sua vida.
Chicote e bala
Criança com arma na mão, deputada eleita saindo pela rua
com um chicote, deputado justificando a vitória da extrema-
direita no Brasil com o facto de as pessoas se sentirem
“humilhadas” pelo Supremo Tribunal Federal como estavam
os alemães que votaram no Partido Nazi por causa da
“humilhação” do Tratado de Versalhes.
O resultado das eleições brasileiras libertou o coração dos
reaccionários para expressões de grande sinceridade pública.
Júlia Zanatta, a senhora do chicote, reeleita em Santa
Catarina, é conhecida pela sua tiara de flores germânica que
usa como imagem de marca e muitos vêem como apologia ao
nazismo — as blumenkränze ficaram associadas à Liga das
Raparigas Alemãs (Bund Deutscher Mädel), a ala feminina da
Juventude Hitleriana.
Zanatta vai ter assento num Congresso onde nunca tantas
mulheres se tinham sentado ao mesmo tempo (serão 120, 108
deputadas e 12 senadoras). Como escreve Camila Galetti no
Intercept Brasil, “é um recorde, e deveria ser só uma boa
notícia. Mas na realidade não é.” Porque uma fatia delas,
como Zanatta, ou Michelle Bolsonaro, a ex-primeira-dama,
eleita senadora, diz-se antifeminista.
“Uma mulher que rejeita o feminismo oferece à extrema-
direita algo que um homem dificilmente poderia oferecer da
mesma maneira: a possibilidade de dizer que a crítica
feminista não representa necessariamente as mulheres”,
explica a jornalista.
A viragem ultraconservadora do Congresso legitima o
discurso contra o feminismo, contra a comunidade LGBTQI+,
contra os nordestinos, contra a diversidade e a igualdade,
contra o outro, aquele que não é como eles: a bancada da
Bíblia, do Boi e da Bala alargou-se nesta eleição e vem com
sanha, de chicote e arma na mão. E tiara de flores na cabeça:
resta saber se será para o caixão da democracia brasileira
A espuma das palavras
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sexta-feira, 9 de outubro de 2026
Morreu Anwar Shaikh
Anwar Shaikh: “As questões fundamentais sobre o capitalismo parecem estar retornando”
Valentín Huarte e Everton Lourenço
Nesta primeira parte da entrevista à Jacobin, o renomado economista Anwar Shaikh aborda algumas teses do seu livro “Capitalismo: Competição, Conflito e Crise”, as falhas das escolas dominantes no campo da economia, a conjuntura internacional e os limites enfrentados por qualquer projeto de desenvolvimento no âmbito do capitalismo mundial.
Anwar Shaikh (Foto: Institute for New Economic Thinking)
Há décadas, Anwar Shaikh se consolidou como um dos mais influentes pesquisadores da economia política do capitalismo, realizando contribuições em vários campos, incluindo a teoria do valor-trabalho, a função de produção, o comércio internacional, o crescimento e os ciclos e crises econômicas. Seu último livro, lançado em 2016 e intitulado “Capitalismo: Competição, Conflito e Crise” (Capitalism, competition, conflict and crisis – Oxford University Press, 2016), oferece uma excelente síntese de sua carreira e de sua obra.
Nesta primeira parte de uma entrevista exclusiva aos nossos irmãos da Jacobin América Latina, o professor Shaikh conversou com Pablo Pryluka sobre algumas das principais teses de seu último livro, as falhas das escolas dominantes no campo da economia, a conjuntura internacional e os limites enfrentados por qualquer projeto de desenvolvimento no âmbito do capitalismo mundial.
PP
Seu livro Capitalismo: Competição, Conflito e Crise representa uma grande síntese de décadas de pesquisas, tanto empíricas quanto teóricas, dedicadas à análise do sistema capitalista. Para começar, você pode comentar um pouco sobre a inspiração por trás da obra?
AS
Este livro foi uma tentativa de gerar um quadro teórico consistente e coerente de análise econômica, que consiga apresentar uma alternativa tanto à economia neoclássica, que defende o livre mercado, quanto à economia pós-keynesiana, que se baseia na ideia de que os mercados não são perfeitos, que existem monopólios, etc.
Minha tese é que a imperfeição é apenas o duplo da perfeição. Quando se afirma que o mercado é imperfeito, assume-se no mesmo movimento que existe algo que é perfeito, mas as coisas não se dão necessariamente assim. No meu caso, proponho partir do real: concorrência real, desenvolvimento real, etc. Em outras palavras, acho que devemos evitar cair na armadilha de pensar que o mundo é imperfeito porque não se ajusta a um modelo que lhe é completamente estranho.
A analogia que uso para pensar sobre isso foi tirada da Bíblia. Lá se afirma que houve um tempo de perfeição, que é o Jardim do Éden – que, aliás, é muito semelhante à ideia de concorrência perfeita – e que foi arruinado pela imperfeição, simbolizada pela serpente. A serpente aparece e com ela chega a imperfeição ao jardim do Éden. As pessoas são então expulsas e todo o mundo real aparece como uma imperfeição, como uma série de imperfeições que se repetem continuamente. Ora, esse é um paralelo exato à ideia da economia neoclássica que parte de um capitalismo perfeito para terminar definindo o mundo real como uma série de imperfeições.
O que tento mostrar no meu livro, que tem mil páginas – e esta é uma das razões por que é tão longo – é que é preciso confrontar esse quadro com as evidências empíricas. Isso é o mais importante. Como diz Marx, o objeto de investigação é o real, e não o que outras pessoas escreveram sobre esse objeto. Portanto, embora eu ofereça algumas críticas a outras escolas econômicas, elas estão sempre ancoradas no fato de que é necessário explicar de forma natural e sistemática o que pode ser observado. Não quero dizer com isso que expliquei absolutamente tudo. Em vez disso, trata-se de uma base teórica que deve ser desenvolvida e elaborada.
Porém, ao longo dessas mil páginas procuro mostrar que é possível explicar com esse referencial muitas das coisas que outras escolas econômicas também tentam explicar. Por exemplo, o crescimento, os efeitos da demanda, as taxas de câmbio, o comércio internacional, a macroeconomia, o desenvolvimento econômico, etc. Os mesmos princípios básicos podem ser aplicados em termos concretos para explicar todos esses fenômenos. Isso é o que tento ilustrar de várias maneiras.
E a chave é que não se trata do poder do trabalho versus capital ou do poder dos países avançados versus países em desenvolvimento, que são certamente problemas reais, e sim que se trata, em última análise, do poder do mercado e do poder dos lucros, o poder que estes possuem sobre aqueles que trabalham e sobre os capitalistas.
Nesse sentido, me oponho à ideia de que os capitalistas seriam dotados de uma espécie de superpoder que lhes permite controlar o mundo. A verdade é que eles não o tem. Suas próprias ações produzem resultados que acabam por controlar a eles mesmos. Portanto, as crises não são complôs planejados: são o resultado devastador do poder do mercado.
PP
Isso é muito interessante porque, em certo sentido, o que sua abordagem sugere é que devemos nos voltar ao estrutural, aos poderes da estrutura – o mercado – e deixar de lado a perspectiva centrada nos agentes, sejam eles capitalistas, imperialistas, etc.
AS
A questão aqui é que a agência realmente existe, mas ela é estruturalmente limitada. E, ao mesmo tempo, os atos dos agentes têm consequências que são dadas pelas circunstâncias. Estamos diante da famosa frase de Marx, que diz que as pessoas fazem sua própria história, mas não escolhem as condições nas quais a fazem. Esse é um ponto muito importante.
O objetivo não é negar a agência, e sim colocá-la no seu devido lugar. E obviamente a agência de um camponês em uma sociedade feudal, ou mesmo a de um senhor, é diferente da agência de um trabalhador ou de um capitalista em uma sociedade capitalista. É muito fácil perceber isso. Portanto, é preciso colocar no seu lugar a agência e saber falar sobre a estrutura. Esta é minha principal preocupação. Claro, também falo da agência, embora não seja o assunto que mais me preocupa.
PP
Nesse sentido, parece haver uma premissa sobre as instituições. Atualmente, especialmente em economia, a abordagem institucional tornou-se a tendência principal. Estou interessado em saber o que você pensa sobre isso.
AS
Antes de abordar especificamente a sua pergunta, gostaria de falar um pouco mais sobre a questão da estrutura. O Estado também é um agente no interior dessa estrutura. Antes eram Estados de Bem-Estar e agora são basicamente o seu oposto, mas tratam-se sempre de Estados capitalistas, então é preciso compreendê-los entender nesse sentido.
A primeira coisa que é preciso entender é que o mercado é um sistema que cria uma espécie de ordem a partir da desordem. Isso também é encontrado em Marx. As pessoas consideradas como indivíduos, as que trabalham e as que desempenham funções como capitalistas, tomam decisões com base nas expectativas que têm sobre os resultados. Alguém tem uma determinada renda e espera usá-la para comprar algo e fazer as coisas que deseja. Quem desempenha funções como capitalista se dedica a produzir bens individualmente na expectativa de poder vendê-los e, portanto, possui a expectativa de poder comprar matéria-prima e explorar a mão de obra.
Visto desse ponto de vista, todo o sistema parece ser um conjunto caótico de expectativas inconsistentes, sendo que não há razão para que minhas suposições sobre o mundo e sobre o mercado capitalista sejam verdadeiras. Veja agora o que acontece com o COVID-19. Acontecem coisas que mudam a situação em todos os lugares, inclusive no Estado.
A primeira questão fundamental, que na realidade é encontrada em Adam Smith, é a ideia da mão invisível. Não a mão invisível como foi vulgarizada pela economia burguesa, mas a mão invisível como aparece em Smith, e ainda mais claramente em Marx, como meio de reconciliar todas essas discrepâncias.
Marx a coloca em outros termos. Ele observa que todos fazem algo que faz parte do processo de reprodução social, mas que a forma como cada uma dessas ações se insere no processo é por meio de erros: erramos sobre o que podemos ter. Por exemplo, vamos nos lembrar das pessoas que correram estocar papel higiênico quando estourou a pandemia. Em outras palavras, estávamos errados sobre nossas expectativas. O capitalismo não previu a situação e não produziu papel higiênico com antecedência. Na verdade, houve escassez.
Neste contexto, a questão mais complicada de responder é como alcançar algum tipo de equilíbrio a partir deste contexto difícil. Não é difícil afirmar que tudo está fora de equilíbrio, o difícil é mostrar como ocorre o equilíbrio. Aqui, os economistas clássicos, especialmente Smith, Ricardo e Marx, teorizam sobre como o equilíbrio é produzido por meio do desequilíbrio. Por exemplo, há muita oferta em um mercado, os preços caem, isso é um sinal para os produtores; e se os preços sobem, eles indicam aos produtores que devem produzir mais, etc. Mas cada ação realizada também afeta a demanda. Portanto, não é fácil atingir qualquer tipo de equilíbrio.
Na realidade, nunca há equilíbrio. Em vez disso, há uma regulamentação turbulenta. Não se trata de um equilíbrio turbulento, o que existe é uma regulação turbulenta. O centro de equilíbrio está em constante movimento porque tudo o que se faz acaba afetando esse centro. Se a questão é abordada desta maneira, é possível colocar muitos fenômenos empíricos em seu lugar, porque nunca observamos o equilíbrio – observamos o movimento, as flutuações, etc.
PP
Por isso me interesso em introduzir Albert Hirschman nesta conversa, porque foi um economista que, apesar de não ter formação marxista, entendeu que o equilíbrio econômico é sempre algo precário, que em certo sentido sempre leva à decepção, à crise , a flutuações, etc. O que você acha dessa afirmação?
AS
Acho que é um ponto muito importante, e Schumpeter diz algo muito parecido. De certa forma, Hirschman está respondendo a toda a tradição econômica que acredita que o capitalismo é um sistema que se autorregula, sem muitos problemas. No entanto, é só olhar para a História para se compreender que isso é evidentemente impossível. Qualquer estudo elementar da dinâmica do capitalismo no nível macro e microeconômico prova que existem ciclos, turbulências, etc. Isso é algo que aponto já no início do meu livro.
Esses ciclos não são regulares. Em vez disso, são ciclos erráticos que lembram uma pessoa tendo um ataque cardíaco. Mas existem mecanismos reguladores: observamos uma onda que sobe, depois flutua, depois cai muito abaixo, etc. Em nenhum caso é alcançado o equilíbrio completo, mas um certo equilíbrio que é alcançado por meio dos erros. São os erros que produzem esses movimentos, e não tanto que o centro de gravidade se mova como resultado das ações que realizamos.
PP
E você acha que existem maneiras pelas quais a sociedade pode colocar um freio nessas flutuações? É aqui que entra o Estado?
AS
Sim, o Estado entra em jogo e reage a tudo isso, mas é preciso citar mais algumas coisas para explicar, de forma simples, por que o Estado pode fazer isso. Por exemplo, consideremos a questão da produtividade e dos salários. Não é verdade que se trata simplesmente de uma questão de poder e da relação entre capital e trabalho. Certamente, isso desempenha um papel e é uma questão histórica importante. Mas, em um nível mais básico, é interessante notar que Marx conta uma história, que frequentemente chamamos de “exército industrial de reserva”.
Marx diz que é preciso imaginar que existe um grupo de trabalhadores e trabalhadoras desempregados e que, por algum motivo, o capital cresce mais rápido do que a oferta de trabalho. Nesse caso, esse conjunto se contrai, uma vez que o capital tira daí aquilo que precisa de força de trabalho adicional. Isso é bom porque os salários dos trabalhadores aumentam, as condições de trabalho melhoram, etc.
Aí está o sujeito que tem lutado a vida toda para melhorar suas condições de trabalho, então tendemos a pensar que isso é uma coisa boa. Porém, não é isso o que Marx diz. Em vez disso, observe que, quando isso acontece, a taxa de lucro começa a cair e, à medida que ela cai, duas coisas acontecem: primeiro, o crescimento desacelera, então a demanda por trabalho também desacelera, o que novamente aumenta o exército de reserva. Mas também acontece que salários mais altos funcionam como um incentivo para uma automação mais rápida, que não é apenas a mecanização geral que sempre fez parte do capitalismo, e sim uma mecanização mais rápida, que coloca na rua a mão de obra , e isso faz com que o exército de reserva volte a crescer.
Então, nos perguntamo: onde está o equilíbrio? O equilíbrio está no ponto em que o exército de reserva não interfere nas necessidades de acumulação. Isso é o que diz uma pessoa que passou a vida inteira tentando transformar o capitalismo e transformar as condições de trabalho. E o que isso nos diz é que essas condições só podem ser transformadas dentro de certos limites, que são dados pela reação do sistema a essas mudanças.
Esse mecanismo regulatório fundamental – pois é disso que se trata, de uma regulação turbulenta da macroeconomia – estabelece um limite ao papel do Estado. E isso nos permite compreender muitos fenômenos nos quais o Estado intervém, e intervém de maneira bem sucedida, embora apenas para depois observar como esse sucesso desaparece misteriosamente.
E quero dizer algo mais em relação ao tema anterior. Não é verdade que, nesse processo, o exército de reserva deva ser considerado como uma pessoa que está potencialmente dentro da força de trabalho. São pessoas expulsas ou excluídas do mercado de trabalho. Existe uma grande massa de pessoas que nunca serão incluídas no processo.
Essas pessoas excluídas também estão presentes nos países avançados, só que nos países em desenvolvimento seu número é maior, porque em certo sentido o capital é mais fraco, o processo de crescimento é mais fraco, a menos que estejamos falando do caso da China ou da Coréia do Sul – e voltaremos a eles—, porque o Estado intervém nesses casos para fortalecer a capacidade dos capitais locais para que possam competir no mercado mundial.
PP
Vários autores têm defendido que o trabalho informal não seria o mesmo que marginalidade. Acho que principalmente hoje – e estou curioso para saber o que você pensa sobre isso – depois dos anos 1970 e 1980, há um número crescente de pessoas pelas quais o capitalismo não tem interesse em explorar ou incluir no processo de acumulação. Estão completamente de fora, nem mesmo fazem parte do exército de reserva.
AS
Insisto, o exército de reserva não é trabalho potencialmente utilizável. É uma força de trabalho que foi expulsa do processo capitalista ou que nunca foi incluída nele. Sempre argumentei que, se você quiser saber onde está o exército de reserva, não precisa olhar para os Estados Unidos, Alemanha ou Reino Unido. Obviamente, também há uma parte dele nesses países. Mas ele está bem espalhado pelo mundo, na enorme força de trabalho global que nunca será tomada pelo capitalismo porque o capitalismo não precisa dela. Eles precisam de trabalho e o exército de reserva pode interferir no processo geral, embora isso não signifique que o exército de reserva seja potencialmente utilizável. Na verdade, ele foi expulso.
PP
Então eles não cumprem a função de baixar os salários?
AS
Bem, na realidade não temos certeza sobre isso. Veja, por exemplo, o que está acontecendo na China. As pessoas são deslocadas das populações camponesas, que na realidade não fazem parte do processo capitalista, mas que entram nele repentinamente. E é assim que o capitalismo tem funcionado historicamente. Em nível mundial, o que o capital faz é destruir as bases dos países capitalistas mais fracos de empregar a força de trabalho, substituindo seu capital e seus processos de produção por outra coisa. Em outras palavras, ele destrói a produção nas fazendas e nos povoados, na medida em que substitui tudo isso por produtos capitalistas.
Quem vem de fora também ajuda a destruir o trabalho naquele local, sem necessariamente gerar mais empregos. É um mito que o capitalismo precisa de tanto trabalho e que não consegue empregá-lo, ou que se conseguir reduzir os salários de forma eficiente, todos serão empregados. Não há razão para ser esse o caso. Isso faz parte da ideia de concorrência perfeita. Mas mesmo Keynes não acreditava nisso, ele pensava que o capitalismo tinha uma tendência persistente para o desemprego.
PP
Não me referia tanto a economias que estão bem inseridas nas cadeias globais de valor (como, por exemplo, a China), mas a economias como as da América Latina, onde especialmente a partir dos anos 80, grandes setores da população não participaram do trabalho formal durante gerações inteiras. Eles estão absolutamente marginalizados de quase qualquer forma de trabalho, pelo menos de qualquer tipo de trabalho produtivo.
AS
É preciso se perguntar sobre o porquê disso ser possível. Só é possível se considerarmos que o capital não pretende usar todo o trabalho, nem converter em trabalho todo o potencial “não trabalho”. As pessoas esquecem que, nos países avançados, as mulheres em geral não eram incluídas na força de trabalho, e havia sido criado um lugar para elas onde de fato trabalhavam – como qualquer pessoa que trabalha em casa – e trabalhavam muito. Então, nesse sentido, elas eram trabalhadoras informais, mas não faziam parte da força de trabalho. Nesse sentido, podemos falar de todo um conjunto de pessoas excluídas da força de trabalho.
Isso acontece em grande escala em países cujo capital não consegue se expandir tão rapidamente no mercado mundial, e cuja expansão local depende de fatores locais do mercado mundial. Para superar isso, é preciso fazer o que fazem os países avançados, que é proteger o mercado local.
Há um pequeno livro de Ha-Joon Chang que recomendo a todos que leiam, intitulado Chutando a Escada (Editora Unesp, 2003), que afirma que todos os países avançados se desenvolveram restringindo seus mercados. Sem essa possibilidade, não há meios para o desenvolvimento. É claro que o contrário – que restringir o mercado seria suficiente para garantir o desenvolvimento – não é verdade. Muitos governos são corruptos e restringem os mercados para proteger os capitalistas locais e a si próprios. Em outras palavras, as restrições não são boas em si mesmas. Mas, novamente, disso também não decorre que abrir os países ao mercado mundial seja uma coisa boa. Na verdade, pode ser devastador.
A analogia que uso para pensar sobre esse problema, e é basicamente o argumento de Ha-Joon Chang, é que o mercado mundial é como um ringue de boxe. Ninguém quer entrar no ringue sem estar bem treinado, pelo menos o suficiente para lutar contra boxeadores de verdade. E ninguém quer cruzar com Muhammad Ali, porque perderia de qualquer maneira.
Com isso em mente, você se prepara para as áreas em que pode ter sucesso. É o caso da Coreia do Sul, o caso da Alemanha no passado, ou o da China e da Índia hoje. Todos reconhecem que o Estado é necessário, um Estado desenvolvimentista. Isso significa um Estado que protege o capital local, mas que ao mesmo tempo está disposto a puni-lo quando ele falhar. É o que os exemplos da China e da Coreia do Sul deixam explícito.
PP
No entanto, pensando nesses casos, talvez não a Coréia, mas a China e a Índia foram, em certo sentido, exceções em termos da escala de seus mercados domésticos e da escala de sua força de trabalho. Esse pode não ser o caso em outros países latino-americanos. O que acontece quando temos salários altos o suficiente para repelir o investimento estrangeiro que talvez fosse necessário para nos desenvolvermos? Quer dizer, existem limites para essas estratégias? Porque a Coreia do Sul é um caso que muitos economistas citam na América Latina, como se fosse um exemplo a seguir, mas isso não é fácil quando temos uma força de trabalho que possui certos direitos sociais adquiridos, incluindo certos padrões de vida.
AS
A China tem um grande mercado, mas o mercado interno não foi a causa do desenvolvimento. Na verdade, a China sempre teve esse mercado. Porém, durante o pós-guerra houve uma transformação em suas condições de produção e essa transformação não gerou desenvolvimento sem a necessidade de externalizar seu mercado. Isto é muito importante. A China poderia ter feito isso. Em outras palavras, a Revolução Chinesa pretendia fazer isso internamente. Esse também foi o objetivo da Revolução Russa.
Mas enfrentar o mercado mundial implica ter um tipo diferente de empresas e um tipo diferente de regras. E tudo isso exige um Estado diferente do Estado tradicional. Não sei se você conhece o sociólogo Vivek Chibber, mas ele investiga o caso da Índia e da Coreia do Sul tentando determinar por que, apesar de ter um grande mercado interno, a Índia não teve sucesso, mas a Coreia do Sul teve, apesar de seu pequeno mercado interno. Isso é suficiente para concluir que nem todo sucesso deve ser atribuído ao mercado interno.
Em algumas situações, é possível que ocorra um desenvolvimento muito rápido que aparentemente não leve a taxas de lucro decrescentes, inflação ou altas taxas de juros. Um dos exemplos mais marcantes disso é a Alemanha nazista. Quando Hitler chegou ao poder, ele não apenas aterrorizou e assassinou porções inteiras da população. Antes disso, assumiu o controle da economia no sentido de que realizou uma grande campanha de guerra mobilizando a economia e diminuindo o desemprego em um período de tempo muito curto.
Essa queda no desemprego o ajudou a ganhar muito apoio. Deve-se notar também que não houve inflação, o crescimento não desacelerou e não houve altas taxas de juros. Como pode ser? A resposta é que Hitler congelou os salários, disse aos capitalistas: “se os preços subirem, teremos problemas”, e disse ao Banco Central para manter as taxas de juros baixas. O resultado foi o congelamento de salários, preços e taxas de juros. Durante este período, podemos observar os grandes efeitos dos gastos deficitários sem nenhuma de suas consequências negativas.
O outro exemplo são os EUA durante a Segunda Guerra Mundial, que fizeram exatamente a mesma coisa. Os preços foram congelados. Nos casos em que aumentavam, falava-se de “especulação com a guerra” e se tratava de um delito grave, potencialmente criminal. Os trabalhadores tiveram que sustentar a campanha de guerra. Eles não podiam lutar por salários mais altos. O Banco Central recebeu a ordem de congelar as taxas de juros. São movimentos paralelos que libertam o sistema capitalista de seus próprios efeitos retroativos.
Durante as décadas de 1940, 1950 e 1960, o keynesianismo observou tudo isso com atenção. Na verdade, Kalecki diz que o desenvolvimento da economia nazista foi a primeira aplicação do keynesianismo. Outra aplicação do mesmo foi a Segunda Guerra Mundial. Essas pessoas pensaram: “agora sabemos como controlar a economia capitalista; aumentamos o déficit até termos pleno emprego; já vimos que isso funciona.”
Mas a realidade é que não funcionou. Eles revigoraram a economia, houve crescimento e redução do desemprego, mas depois houve inflação. Estavam em um beco sem saída, porque se a economia crescia, havia mais inflação, mas se diminuía, havia mais desemprego. Aí entra em jogo a <i>Curva de Philips</i> e todos os meios para resolver este problema.
No entanto, é preciso observar uma diferença. Durante o período do pós-guerra, o mercado não ficou quieto. Os preços podiam subir, os salários podiam crescer e as taxas de juros dispararam. Aqui, o mecanismo de retroalimentação do mercado mostrava que havia um erro no ponto de partida. Era impossível ir além desses limites sem interferir nas complexas arenas do mercado: trabalho, capital e finanças.
PP
Você mencionou em seu último livro que o caso sueco pode ser considerado um caso de “sucesso”. Mas os casos sobre os quais você falou até agora – Alemanha nazista, União Soviética ou China atual – são casos em que há limites para a expressão de descontentamento popular e a expressão de qualquer desacordo, por assim dizer. É possível atingir metas de desenvolvimento econômico sem levar à turbulência que observamos no Ocidente durante os anos 1960 e 1970? É possível fazer isso dentro do que poderíamos chamar de uma democracia?
AS
Tudo depende das consequências. Não se trata de brincar com algumas variáveis no papel, se trata de uma questão histórica. A Coreia do Sul nos surpreendeu, sem dúvida, e a China também. Por outro lado, deve-se levar em conta que o fizeram porque conseguiram manter o trabalho sob controle. Isso é algo que não queremos ouvir, porque outros países mantêm o trabalho sob estrito controle, mas dão todos os lucros para uma classe capitalista rica e gorda que não faz nada.
Na Coreia do Sul, existe o outro lado da moeda, que é a disciplina do capital. Não só a supressão do trabalho, mas também a disciplina no sentido de que os capitalistas foram dirigidos para terem um melhor desempenho no mercado mundial e, caso não o fizessem, seriam fechados. Em certo sentido, isso aconteceu na China antes dela se tornar muito mercantilizada. Agora a situação é muito mais caótica. No entanto, ela realizou enormes esforços para aumentar a produtividade.
Por que a China deveria aumentar a produtividade? No fim das contas, o aumento da produtividade implica uma menor demanda por trabalho para a mesma quantidade de produção. Então, por que deveria fazer isso? Talvez fosse o momento de fazer aquilo que Mao queria: promover o desenvolvimento local em todos os lugares, melhorar cada vila e cada cidade. Mas isso não funcionou. Entre outros motivos, porque não há muito mais espaço para crescer. Mas o principal fato é que você não pode sobreviver no mercado mundial dessa forma.
PP
Como fez a Suécia?
AS
A Suécia desenvolveu seu capital interno e também manteve o trabalho e o capital em um tipo de equilíbrio. Havia um acordo explícito entre trabalho e capital; forçado, talvez, embora não por meio de uma ditadura. Os salários não cresceram mais rápido do que a produtividade durante a maioria dos períodos. Isso significa que a taxa de lucro não caiu, porque se os salários crescem mais rápido do que a produtividade, há uma taxa decrescente de mais-valia, e isso é ruim para o capital.
Claro, esse equilíbrio não pode durar para sempre, mas durou muito tempo. Nesse processo, o Estado de Bem-Estar Social sueco também conseguiu redistribuir os benefícios desse desenvolvimento. A Suécia não é um paraíso mas houve muita redistribuição, tornou-se um país rico num duplo sentido: não só na média, mas no sentido da distribuição da riqueza que foi criada. É uma fórmula difícil de se alcançar.
PP
Quero insistir um pouco mais neste ponto. Por que a Suécia conseguiu fazer isso? O que foi diferente? Foram as instituições do Estado? Foi a habilidade da classe política?
AS
A Suécia tem um movimento dos trabalhadores muito poderoso. E esse movimento esteve no poder por muito tempo, e entendeu boa parte dessa história, optando por fazer da Suécia um país capitalista de sucesso e não ir além disso. E funcionou, pelo menos por algum tempo. Mais tarde, ficou mais difícil para a Suécia competir no mercado mundial, mas agora é um país muito rico. E chegou a esse ponto sem seguir o caminho da Coreia do Sul, que é sempre um caminho possível. Mas o elemento-chave é que, se a produtividade do trabalho for desenvolvida, isso deve realimentar o sistema, e o mercado mundial é um mercado muito grande em comparação com o quão pequena é a Suécia.
PP
Você acha que as atuais condições globais permitem esse tipo de estratégia? Ou a desregulamentação financeira e certos novos recursos da economia global não são um ambiente adequado para isso?
AS
É mais difícil, porque o sistema capitalista mundial é muito mais poderoso e muito mais desenvolvido. E, além disso, os países desenvolvidos reprimem esse tipo de estratégia. A OMC não existe para beneficiar o desenvolvimento, mas para proteger o capital. Dadas todas as restrições, regras e punições que as organizações globais são capazes de infligir, é muito mais difícil encontrar um caminho local, a menos que você esteja lidando com um país muito grande e que possa resistir a isso, como a China e talvez a Índia. Portanto, deve-se dizer que não se trata das mesmas condições.
PP
Talvez tenha chegado a hora de falar sobre o neoliberalismo. O que você acha desse termo? O que você acha que mudou durante os anos 70 e 80?
AS
Há muitas coisas a dizer sobre isso. O ponto principal é que a relação entre capital e trabalho tem dois efeitos. No Ocidente, nos referimos ao período que vai aproximadamente de 1947 a 1968 como a “era de ouro do trabalho”. Durante esse período, o padrão de vida dos trabalhadores melhorou continuamente por várias gerações, os sindicatos eram fortes, o Estado era mais forte e assumia a forma de um Estado de Bem-Estar Social que garantia a melhoria das condições de vida de muitas pessoas.
Parecia que o capitalismo havia encontrado o ponto ideal, que havia se encontrado com o caminho da Suécia, por assim dizer. O mundo todo dizia isso, todo mundo acreditava nisso. Porém, na verdade, se olharmos o que aconteceu nesse período – e mostro os dados no meu livro, no capítulo sobre as crises – podemos observar que os salários estavam crescendo e que a taxa de exploração estava caindo, nos termos de Marx.
Essa queda, que era boa para os trabalhadores, não era tão boa para o capital, porque os lucros são o outro lado dos salários. À medida que a taxa de lucro cai, o crescimento desacelera, a lucratividade cai, resultando em um crescimento mais lento. Essa é a contradição das políticas keynesianas, a razão pela qual elas acabaram presas na estagnação e na inflação. É por isso que esse período é chamado de “estagflação”. Tudo isso pode ser observado empiricamente.
Nesse momento veio a reação da classe capitalista, que de fato vinha assistindo como sua taxa de lucro se reduzia e restringia pelo sucesso e fortalecimento dos trabalhadores. Foi um contra-ataque explícito. Eles atacaram os sindicatos e o Estado de Bem-Estar Social. Este último foi transformado até se converter em um Estado neoliberal. Todos se voltaram nessa direção, independentemente de serem democratas, republicanos, trabalhistas ou conservadores.
Isso nos leva à outra parte de sua pergunta. Você pergunta se “neoliberal” é uma boa palavra. Eu não gosto. É a velha ideia do liberalismo, que é pró-mercado, etc. Na realidade, é um culto ao mercado. É um período em que se passou a dizer que se houvesse cada vez mais mercado, tudo correria bem. A ideologia do mercado perfeito retorna na forma de um impulso por mais mercado e também direciona a globalização, desta vez apoiada pelo Estado, em um sentido específico: finanças globalizadas, indústrias globalizadas.
É sempre a mesma história: o problema dos países subdesenvolvidos seria que eles não têm mercados o suficiente; o problema com os países desenvolvidos é que eles não têm mercados o suficiente. Durante um período de tempo, isso gerou algum impulso; mas então os efeitos começaram a ser vistos, muitas vezes devastadores, especialmente para os países em desenvolvimento.
PP
Existe a ideia de que o neoliberalismo seria algo criado a partir das más intenções de algumas pessoas – Milton Friedman, Hayek e a Sociedade Mont Pelerin – que teriam desenvolvido um pano de fundo para aplicar todas essas ideias ao mundo. Mas na sua narrativa isso aparece de maneira um pouco diferente. Parece ser um fenômeno estrutural, que não tem tanto a ver com uma burguesia gananciosa, mas sim com o próprio culto ao lucro. Qual foi a influência desses campeões neoliberais?
AS
Em primeiro lugar, deve-se dizer que Friedman e Hayek são muito diferentes entre si. Hayek é um pensador muito superior. Friedman é o promotor do livre-mercado e diz que isso basta. Mas Hayek não diz isso. De fato, Hayek diz que o mercado não recompensa necessariamente as pessoas com base em suas habilidades, mas sim pelo sucesso no mercado – o que, segundo ele, pode ser acidental.
O mercado não escolhe as melhores pessoas. E ele argumenta que uma das dificuldades em explicar esse ponto de vista é que você tem que explicá-lo para pessoas que pensam que com muito trabalho, treinamento e tudo isso, você terá sucesso. O mais difícil é explicar para as pessoas, para quem estuda, para quem se esforça, etc. Apenas uma parte terá sucesso e pode não ser a melhor. Hayek admite que o mercado nem sempre escolhe os melhores, mas sim os que têm mais sorte. Não é isso que Friedman diz. Friedman acha que o mercado sempre escolherá o melhor. É muito diferente.
A conclusão de Hayek é que, dadas essas condições, pode ser necessário que o Estado garanta um padrão mínimo de vida ou um nível mínimo de sustento. Certa vez, dei uma palestra sobre a relação entre Hayek e Marx. Existem muitos paralelos aos quais as pessoas não prestam atenção. Claro, a diferença é que, eventualmente, ambos vão para lugares diferentes. Mas isso não elimina o fato de que suas visões do capitalismo têm elementos em comum.
é economista e professor da New School for Social Research. Seu último livro se intitula "Capitalismo: Competição, Conflito e Crise" (Capitalism, competition, conflict and crisis - Oxford University Press, 2016).
é um candidato a PhD no departamento de história da Universidade de Princeton. Ele tweets em @ppryluka.
Da coagulação do sistema internacional em esferas de poder ao IV Reich americano
Crise da hegemonia dos EUA e ascensão de novas potências aceleram redesenho mundial, com América Latina sob tutela de Washington
A crise do Sistema Internacional não é uma novidade, ainda que seja recente desde o ponto de vista da longa duração na qual se processam as profundas mudanças sistêmicas. Ela começou na última década do século 20, com o fim da Guerra Fria e o começo de um “mundo regido por regras”. Regras definidas pelo país autodeclarado vitorioso da GF, de uma guerra sem vitória militar, porque não nem houve guerra e apenas ocaso de um dos beligerantes. Hoje, essas regras, impostas unilateral e despoticamente aos países que possam ferir os interesses da hiperpotência, são contestadas pela emergência de potências e foros internacionais que propõem um mundo de cooperação, de isonomia normativa dos países e regido por leis dentro de um sistema internacional de relacionamentos multilaterais isonômico e multipolaridade heterogênea.
Foi a República Popular da China quem começou a disputar o comércio internacional e inserir cautelosamente sua ação diplomática nas esferas de domínio tipicamente hegemonizadas pelos EUA. A emergência da RPC e outras potências concomitantemente ao retraimento do império norte-americano acelerou-se com a pandemia e o redesenho das cadeias de valor internacionais nas crises da primeira década do século 21. Atualmente a RPC domina quase a totalidade das tecnologias críticas e das mais importantes publicações científicas. Desde que a OTAN (plataforma de projeção de força dos Estados Unidos) considerou a Rússia e a RPC como ameaças, Xi Jinping concentrou o direcionamento estatal para a defesa, investindo no desenvolvimento de tecnologia dual aplicável às necessidades bélicas e aproximando o exército do povo. A própria OTAN, ao definir a RPC como ameaça (embora dependesse econômica e tecnologicamente dela), tornou-se uma ameaça para a RPC que, preventivamente, se constituiu numa potência não apenas econômica, científica e tecnológica, mas também militar.
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Os países europeus, talvez narcotizados pelo Plano Marshall que permitiu a construção do Estado de Bem-estar Social, sucumbiram à prolongada manipulação da percepção por parte dos EUA e deixaram nas mãos da OTAN, comandada pelos EUA, as definições estratégicas da defesa e, portanto, da sua política externa. Empurrados pela necessidade de ampliar o mercado da guerra para escoar a produção do Complexo Industrial Militar norte-americano, foram psicossocialmente induzidos a perceber a Rússia (da qual dependiam, tanto da sua energia fóssil para mover a indústria europeia, quanto de grãos, fertilizantes e insumos agrícolas para sustentar suas sociedades) como uma ameaça existencial. Novamente, guiados pela perturbada percepção para construir ameaças, tornaram-se, eles mesmos, uma ameaça existencial para a Federação da Rússia que, ante o avanço ameaçador da OTAN sobre suas fronteiras, decidiu redesenhar seu Complexo Industrial Militar (CIM) voltando a ser uma grande e inovadora potência militar.
No fatídico 24/02/2022, o presidente Putin aplicou a primeira negativa bélica à liberdade de ação estratégica dos Estados Unidos. Tratou-se do primeiro freio ao ímpeto da OTAN e um claro sinal de que a outrora grande potência já não conseguiria, nem com auxílio da mão de obra europeia, impor seus interesses globalmente. Essa negativa levou à Comissão de Estratégia de Defesa Nacional a uma reflexão sobre a situação real da condição de potência dos Estados Unidos ante a eventualidade de uma Terceira Guerra Mundial. O resultado dessa reflexão legislativa e bipartidária resultou num documento intitulado Commission on the National Defense Strategy. Final Report publicado em 29/06/2024.
Cobertura especial Veja os resultados do 1° turno das Eleições Acompanhe →No documento, essa comissão considera que a próxima guerra é inevitável e que os EUA, nesse momento, não teriam condições claras de uma vitória militar. A autocrítica é aplicada três direções: o CIM obsoleto, a Forma da Força inadequada e a Diplomacia equivocada. Além da revisão desses três conceitos, aconselhava a retirada das tropas distribuídas globalmente e concentrá-las no país para realizar uma profunda reformulação. Imaginavam que poderiam fazer essa reforma naquelas três frentes até 2026, em que podiam entrar em guerra com alguma possibilidade de êxito contra o Eixo do Mal (na verdade um quadrilátero) formado nominalmente pela Rússia, a República Popular da China, Coreia do Norte e o Irã.
Os primeiros documentos elaborados no segundo mandato de Trump pareciam apontar nessa direção: retirar as tropas distribuídas pelo mundo e tensionar as rédeas estratégicas no continente americano. Recompondo e fortalecendo a hegemonia regional estariam prontos para discutir com as potências emergentes o redesenho do sistema internacional em posição de poder na sua zona de influência. Mostrou sua liberdade de ação estratégia (mais do que liberdade, sua impunidade!) nos mais de 200 assassinatos no Mar do Caribe e no Pacífico, no bombardeamento da Venezuela e no sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa em 03 de janeiro de 2026. Todas essas ilegalidades ante o mais profundo e ominoso silêncio da Sociedade Internacional. Embora ilegítimo e ilegal, tanto internacional quanto nacionalmente (tudo foi feito sem o necessário consentimento do Congresso dos Estados Unidos), esses assassinatos e sequestros pareciam indicar que o presidente Donald Trump pretendia, por meio do exercício puro da força, se concentrar no continente em conformidade com a “Doutrina Donroe”.
Se nos primeiros movimentos estratégicos parecia realmente se concentrar na sua área de interesse, num movimento estrategicamente incompreensível, em 28 de fevereiro de 2026 atacou ilegal e ilegitimamente o Irã, talvez estimulado pelo êxito espúrio na Venezuela, ou enganado por Israel ou ambas as coisas. Ante o que parecia um trabalho fácil, que permitiria aos EUA se apropriar do controle do petróleo do Golfo Pérsico e a projeção de poder de Israel para o Leste, Irã surpreende à aliança agressora e à maioria dos analistas internacionais oferecendo uma defesa organizada sobre a distribuição em redes de 36 Centros de Comando e Controle (CCC) estrategicamente distribuídos por vários pontos do país que, sincronizadamente e com precisão assombrosa, em 15 minutos respondeu acertando as bases americanas na região e se mantendo em combate com absoluto controle estratégico até hoje no que chamaram “defesa em mosaico”. Com o controle do Estreito de Ormuz, colocaram a economia global ao serviço da sua estratégia, com uma eficiência dissuasória maior que a que teria um artefato nuclear hoje banalizado.

Wikimedia Commons
Se na Ucrânia a Rússia demarcou os limites de projeção da liberdade estratégica da aliança militar atlântica, Irã deixou a descoberto as vulnerabilidades do império para impor seus interesses ao mundo. Esses dois aspectos, somados ao desamparo e desconcerto europeu, apontam um sistema internacional que se aproxima de um redesenho político e institucional discutido pelas grandes (velhas e novas) potências e suas áreas de influência.
América Latina parece organizada militarmente para defender os interesses estadunidenses em torno do Escudo das Américas. Trata-se do compromisso de 12 líderes latino-americanos ultradireitistas, submissamente alinhados estrategicamente ao império, que foram convocados pelo autócrata Trump ao seu hotel na Flórida para assumir de forma inconteste a defesa dos interesses personalíssimos do déspota. Na verdade, comprometeram a carne, o sangue e o derrame orçamentário das suas sociedades como funcionalidades para uma eventual guerra por procuração do império sobre as soberanias resistentes. Todavia, esse escudo tem importantes fissuras. Em quase todos esses países que que participam, a pressão social está crescendo ante o efeito devastador das pautas neoliberais de inflação, desindustrialização e desemprego a que seus governos submetem suas sociedades nesta etapa tristemente histórica das economias nacionais.
Recentemente houve um exercício militar na selva do Peru empregando tropas dos EUA, Peru, Chile e da Argentina próximo da fronteira com o Brasil. Todos eles comprometidos com a “guerra ao narcoterrorismo” e com o emprego das suas Forças Armadas no esforço dessa “guerra” que qualificou grupos do crime organizado brasileiros como “narcoterroristas”. O governo de Lula no Brasil, recusa essa arbitrária qualificação, que permitira a ingerência externa armada direta no seu território no combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV) tildados pela caneta do déspota como organizações terroristas estrangeiras.
Neste momento, o primeiro turno das eleições brasileiras apontou para um segundo turno entre o ultradireitista Flávio Bolsonaro e Lula de centro-esquerda. Como resultado do primeiro turno, tanto em deputados quanto em senadores a ultradireita foi a grande vencedora, colocando ao seu alcance o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Se no segundo turno Flávio Bolsonaro, que saiu na dianteira no primeiro, conseguir se eleger, gozará da prerrogativa para indicar até quatro ministros para o STF que esse Congresso confirmaria. Também prometeu que se ganhasse no segundo turno, com o controle das duas câmeras do Congresso mudaria a Constituição Nacional de 1988, o que permitiria encaixar nela os atos discricionários que sejam necessários para assegurar a realização da sua pura vontade, o que, com os antecedentes do candidato, como de ter condecorado milicianos, podemos imaginar o que pode resultar.
O sombrio quadro atual que se apresenta para o país não se deterá nas suas fronteiras, mas poderá alastrar sua pestilência pelo continente fornecendo ao déspota do norte o que precisa para exercer um poder global. Com efeito, se os piores presságios se concretizassem, o perigo iminente é continental com projeção global. Nesse nefasto quadro, a ultradireita brasileira controlará o Executivo, o Legislativo e o Judiciário nacionais e, com isso, estaria configurada a cabeça da serpente: o IV Reich, desta vez ironicamente norte-americano. Sabidos da voracidade e violência impiedosa dessa serpente, podemos imaginar o alcance destrutivo da mesma. Tempos tenebrosos se avizinham para este conturbado mundo ante a cegueira embrutecedora de sociedades ciberneticamente narcotizadas.
(*) Héctor Luis Saint-Pierre é professor da Unesp, coordenador do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e ex-diretor da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED). É autor de “Max Weber: entre a paixão e a razão” (Editora Unicamp) e “A política armada: fundamentos da guerra revolucionária” (Editora Unesp).
Notas:
[1] https://www.armed-services.senate.gov/imo/media/doc/nds_commission_final_report.pdf
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
Físico português explica Nobel da Física: as “partículas-fantasma” que permitem observar o lado invisível do Universo
Quase sem massa e sem carga elétrica, os neutrinos atravessam a matéria praticamente sem deixar rasto. Francis Halzen percebeu que o gelo da Antártida podia ser usado para os detetar, criando uma nova forma de observar os fenómenos mais violentos do Universo.

A atribuição do Prémio Nobel da Física de 2026 a Francis Halzen coloca os neutrinos no centro da investigação sobre alguns dos fenómenos mais extremos do Universo. Para José Maneira, professor do Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigador do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP), o reconhecimento distingue décadas de trabalho que abriram uma nova forma de observar o cosmos.
“É um justíssimo reconhecimento de um empenho de décadas que se provou ter dado de facto frutos”, afirma José Maneira ao 24notícias, que acompanha há mais de duas décadas a investigação na área dos neutrinos e participou em experiências internacionais como SNO e SNO+ e DUNE.
Para o investigador, a importância da descoberta vai muito além da deteção de uma nova classe de partículas provenientes do espaço. “A observação de neutrinos de origem astrofísica é uma nova janela sobre o Universo”, explica, acrescentando que estas partículas permitem observar “fenómenos extremos, de muito alta energia” que estão ligados a alguns dos ambientes mais violentos do cosmos.
Uma nova forma de observar o Universo
Os neutrinos de alta energia são produzidos em processos físicos diferentes daqueles que dão origem à luz visível. A sua presença pode, por isso, revelar mecanismos que permanecem inacessíveis através da observação convencional do céu.
“É preciso que haja aceleração de partículas carregadas como protões ou núcleos, que depois irão colidir com o meio interestelar”, diz José Maneira, salientando que “os neutrinos são subprodutos dessas colisões e, portanto, a sua observação indica-nos que tem de haver mecanismos capazes de produzir acelerações muito elevadas.”
A escala dessas energias é particularmente relevante. De acordo com o investigador, os processos responsáveis pela produção destes neutrinos atingem níveis “várias ordens de grandeza acima dos aceleradores mais potentes da Terra”.
É precisamente essa característica que torna os neutrinos uma ferramenta científica única. “Apenas com luz visível não podemos aceder a isso”, sublinha.
A astronomia de neutrinos permite, assim, complementar aquilo que é observado através dos telescópios convencionais. Em vez de “depender apenas da radiação eletromagnética emitida por um objeto”, os cientistas podem “procurar partículas que foram produzidas diretamente nos processos físicos que pretendem estudar”.
Neutrinos dão pistas sobre os buracos negros
Um dos campos em que esta nova abordagem poderá ser particularmente importante é o estudo dos núcleos galácticos ativos, regiões extremamente energéticas no centro de algumas galáxias onde existem buracos negros supermassivos.
Há décadas que os cientistas procuram compreender como estes objetos atraem matéria e como esse processo pode produzir jatos de partículas com energias extraordinariamente elevadas. Observações em diferentes comprimentos de onda já tinham fornecido fortes indícios sobre o funcionamento destes sistemas.
Mas os neutrinos podem oferecer algo mais. “Podem fazer a diferença entre ter indicações indiretas ou provas sobre o funcionamento desses fenómenos extremos”, afirma José Maneira.
O investigador explica que as observações feitas no visível, em raios X ou em raios gama apontavam para determinados mecanismos associados aos buracos negros. “A observação de neutrinos de muito mais alta energia acaba por ser uma prova muito mais direta do fenómeno, até pela escala de energias envolvida”, acrescenta.
Esta é uma das principais razões pelas quais a astronomia de neutrinos representa uma mudança na forma de estudar o Universo: as partículas podem transportar informação diretamente dos processos que lhes deram origem.
As “partículas fantasma” ainda escondem segredos
Apesar dos avanços registados nas últimas décadas, os neutrinos continuam a colocar questões fundamentais à Física de Partículas.
Durante muito tempo, o Modelo Padrão assumiu que os neutrinos tinham massa nula. Hoje sabe-se que isso não corresponde à realidade. “Hoje sabemos que isso não é verdade, têm uma massa pequena mas não é zero”, salienta José Maneira.
Também se sabe que existem três famílias de neutrinos e que estas partículas podem transformar-se umas nas outras. Esse fenómeno, conhecido como oscilação dos neutrinos, demonstrou que existe uma diferença entre os três tipos e esteve na base do Prémio Nobel da Física de 2015.
Mas permanecem duas grandes incógnitas. “Falta saber se os neutrinos e as suas antipartículas, os antineutrinos, se comportam exatamente da mesma maneira ou não, e também o valor absoluto da massa”, afirma o investigador.
As respostas podem ter consequências que ultrapassam a Física de Partículas e ajudam a explicar a própria evolução do Universo.
“Ambas as questões são muito relevantes para a Astrofísica e a Cosmologia”, sublinha.
O mistério da matéria e da antimatéria
Uma das perguntas mais profundas está relacionada com a enorme diferença entre a quantidade de matéria e de antimatéria existente no Universo.
A Física prevê que matéria e antimatéria deveriam ter sido produzidas em condições semelhantes no Universo primordial. No entanto, o Universo atual é dominado pela matéria. Perceber se os neutrinos e os antineutrinos apresentam comportamentos diferentes poderá ajudar a explicar como surgiu esse desequilíbrio.
“Será que os neutrinos e antineutrinos têm as mesmas propriedades?”, questiona José Maneira.
Para o investigador, a resposta pode ser fundamental: “A resposta a esta pergunta pode estar relacionada com a origem da grande diferença que existe hoje no Universo entre o número de partículas, muito grande, e antipartículas, muito pequeno.”.
A outra grande questão continua a ser a massa dos neutrinos. As experiências de oscilação permitiram determinar diferenças entre as massas dos três tipos, mas não o seu valor absoluto.
“Com a descoberta das oscilações de neutrinos, sabemos quais as diferenças de massa entre os três tipos, mas não o valor absoluto”, refere.
Portugal também está na investigação de neutrinos
O Nobel atribuído a Francis Halzen surge também num momento em que Portugal mantém uma comunidade científica ativa na área dos neutrinos.
“Portugal tem uma comunidade científica ativa envolvida na investigação de neutrinos desde há cerca de 20 anos”, afirma José Maneira.
Os investigadores portugueses não participam no IceCube, mas estão envolvidos nas experiências SNO+ e DUNE e participaram anteriormente na experiência SNO, que teve um papel importante na investigação das propriedades dos neutrinos.
O percurso da experiência SNO está, aliás, ligado ao Nobel da Física de 2015. Art McDonald, líder científico do projeto, recebeu nesse ano o prémio juntamente com Takaaki Kajita pelo trabalho que demonstrou as oscilações dos neutrinos e, consequentemente, que estas partículas têm massa.
“A participação portuguesa é pequena mas relevante”, considera José Maneira.
Os investigadores nacionais participam tanto na construção dos detetores como na análise dos dados e assumem também responsabilidades na coordenação dos projetos.
Esta participação permite a Portugal integrar algumas das experiências mais avançadas da Física contemporânea. “A ciência de topo é cada vez mais feita de forma colaborativa global”, afirma o investigador.
“E para estarmos nesse ‘campeonato’, temos de participar nas colaborações”, acrescenta.
Além da investigação produzida, estas experiências têm uma dimensão importante na formação científica. “Isso permite aos nossos estudantes o contacto com meios científicos altamente estimulantes, e põe Portugal no mapa da Física atual”, sublinha.
DUNE prepara próxima geração de experiências
O Nobel não encerra uma etapa da investigação. Pelo contrário, os próximos anos deverão ser marcados por experiências capazes de observar fenómenos ainda mais raros e medir as propriedades dos neutrinos com uma precisão muito superior.
“Do ponto de vista tecnológico, o desafio é a observação de eventos cada vez mais raros”, explica José Maneira.
Isso exige fontes de partículas mais intensas, grandes quantidades de material radioativo para estudar determinados decaimentos e detetores maiores e mais sofisticados.
Entre os projetos mais importantes está o DUNE, que utiliza grandes detetores criogénicos baseados em árgon líquido. A tecnologia permitirá observar as interações dos neutrinos com um nível de detalhe muito superior.
“São detetores cada vez maiores e com melhores capacidades de ‘fotografar’ as interações”, explica o investigador.
O projeto está associado ao novo acelerador LBNF, em construção nos Estados Unidos, que permitirá produzir feixes intensos de neutrinos para estudar o comportamento destas partículas.
A combinação entre aceleradores mais potentes, detetores mais sensíveis e grandes colaborações internacionais deverá permitir testar algumas das hipóteses mais fundamentais da Física.
O objetivo final é responder a perguntas que vão muito além dos próprios neutrinos: perceber por que razão existe matéria em vez de antimatéria, determinar a massa destas partículas e compreender melhor os processos responsáveis pelos fenómenos mais energéticos do Universo.
O reconhecimento de Francis Halzen coloca, assim, a física de neutrinos no centro de uma transformação na forma como o cosmos é observado. Se a luz permitiu durante séculos estudar o Universo através da radiação que chega aos telescópios, os neutrinos oferecem agora uma nova via para chegar diretamente a alguns dos seus acontecimentos mais violentos e misteriosos.
Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.
Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.
