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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

 

Trabalho e educação na evolução da espécie humana

Niki de Saint Phalle, a DANÇA
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Por WESLLEY R. PALOMBARINI*

A passagem para outro estágio evolutivo da humanidade exige uma nova “psico-antropologia”, baseado numa força produtiva regenerativa, e não destrutiva, e relações produtivas entre famílias e indivíduos associados, para realizar a totalidade das potencias humanas possíveis

1.

Poderíamos iniciar um texto sobre relações de trabalho e educação refletindo sobre o conceito de relação dialógica de Álvaro Vieira Pinto, assim como através dos conceitos de trabalho social de György Lukács, ou de qualquer outro autor. No entanto, apesar desses paradigmas serem válidos e potentes do ponto de vista teórico, a exposição textual continuaria conservando a lógica idealista, onde o uso apenas de conceitos para refletir sobre a história material acabaria por substancializar a ontologia humana com categorias fixas e abstratas.

O materialismo histórico dialético nos permite analisar a ontologia humana a partir da história natural e social do Homo sapiens sapiens, onde o desenvolvimento tecnológico e as relações de produção mediam a espécie com o meio natural, determinando a causa primeira do processo humanizador. E a lógica dialética, por sua vez, nos permite compreender os movimentos de criação, manutenção e transformação pelo qual passaram os hominídeos e a nossa espécie ao longo da história.

Desde a revolução produzida pelas obras de Charles Darwin – A origem das espécies e A Origem do homem e a seleção sexual –, sabemos que o H. sapiens sapiens foi engendrado a partir de ramificações de espécies hominídeas que evoluíram ao longo de milhares de anos. (RAIMONDI, 2019). Atualmente, com o avanço da paleantropologia, possuímos provas e experimentos que comprovam nossa origem, derivada dos símios, desde sete milhões de anos atrás, com os Australopithecus, ancestral hominídeo que começou a andar de modo mais ereto do que as espécies anteriores.

Passados aproximadamente quatro milhões de anos, depois de termos aperfeiçoado a estrutura óssea menos curvada, portanto, modelando os órgãos para funções especializadas, como a mão, os olhos e o cérebro, outra espécie surgiu como variação do processo evolutivo, trazendo um salto qualitativo dos processos fisiológicos acumulados do seu ancestral – o H. habilis.

É consenso entre os paleantropólogos que essa espécie de hominídeo, surgida entre 3 e 2,5 milhões de anos a.p.,[i] foi a primeira a fabricar seus instrumentos de trabalho – pedra lascada –, cuja necessidade engendrou relações educacionais e o aperfeiçoamento da linguagem entre os membros do bando, habilidades necessárias para reproduzir seu modo existencial. Ou seja, inicia-se, com o H. habilis a primeira espécie hominídea a criar cultura, trabalho e pensamento teleológico, isto é, ação com finalidade subjetiva e não apenas instintual. (NEVES, 2015).

2.

Apesar dos Neandertais terem sido geneticamente compatível com os homo sapiens – houve cruzamento, eles mantiveram a convivência em bando, e até agora não há certeza sobre rituais mortuários ou produções artísticas. Eles se expandiram entre as regiões que hoje é a Europa e a Ásia, e viveram mais em climas glaciais do que interglaciais.

Devemos a eles o domínio do fogo e a diversificação de ferramentas, principalmente a confecção de agulhas, o que apresentou um avanço significativo no processo de humanização, isto é, na ampliação da economia libidinal para graus mais elevados de satisfação biológica, social e afetiva. Eles foram extintos em aproximadamente 30 mil a.p., provavelmente devido a mudanças climáticas repentinas (Laschamp – inversão dos polos magnéticos, ocorrida entre 40 mil e 30 mil anos atrás). (NEVES, 2015).

Até onde sabemos atualmente, nossa espécie, em sua concepção biológica, compartilhou com os Neandertais dois ancestrais comuns – o H. Erectus – , espécie que expandiu vertiginosamente os hominídeos para o planeta, vivendo entre 1,8 milhões até 100 mil anos atrás, e o H. heidelbergensis, que viveu entre 500 mil e 250 mil a.p. No entanto, enquanto os Neandertais permaneceram no continente euroasiático, nós nos formamos fisicamente no continente Africano, cuja origem, ainda em debate, parece proceder do H. sapiens idaltu, isto é, H. sapiens “mais antigo”. (WHITE T.D, 2003).

A caverna de Blombos, na África do Sul, tornou-se o principal sítio arqueológico com materiais rupestres datados entre 120 mil e 70 mil anos. A diversidade de conchas e artefatos decorados e espalhados em sítios próximos demonstram a variedade produtiva daquele povo, fruto de um conjunto de tribos que mantinham relações econômicas e sociais complexas, bem diferente do modo das espécies de hominídeos anteriores, que viviam em bando de 30 a 50 pessoas na era glacial.

O H. sapiens sapiens empreenderam duas ondas migratórias para a região Euroasiática, uma há 120 mil a.p., e outra há aproximadamente 60 mil anos atrás, quando parte da África passou a se desertificar. (NEVES, 2015). Ao chegar na Euroasiática, região de clima temperado e rico em sua fauna e flora, criou-se condições naturais para que a evolução hominídea produzisse um salto qualitativo na condição material e cultural da espécie, engendrando a única espécie de hominídeo do planeta a desenvolver comunidades racionais – trabalho associado, e consequentemente, tempo livre, ampliando as capacidades biológicas herdadas para capacidades psicossociais, como pensamento abstrato, linguagem e afetos diversificados.

Entre 60 e 40 mil a.p. verifica-se a expansão e aperfeiçoamento das primeiras expressões de arte rupestre, tendo como registro arqueológico inúmeras cavernas, como a de Lascaux, na França, e Altamira, na Espanha. É neste momento que ocorre o que a paleantropologia denomina de “explosão criativa”, contexto em que o sentido da ação passa a ser orientado para o desenvolvimento de habilidades e faculdades livres[ii], não mais unicamente relacionadas às necessidades de autopreservação. (NEVES, 2020)

De aproximadamente 20 ferramentas registrados até 60 mil a.p., na Europa, a partir de 30 mil a.p., os paleoantropólogos acharam cerca de 100 utensílios diferentes, provavelmente pertencentes à inúmeros indivíduos que dividiam o trabalho comunitário entre as famílias, com relativa especialização das atividades por sexo e faixa etária. (NEVES, 2020).

Ou seja, verifica-se, depois de uma certa quantidade de anos do processo evolutivo – cerca de 3 milhões de anos, um aumento vertiginoso das forças produtivas e a socialização racional das relações de produção, cujo resultado foi um salto qualitativo nas relações existenciais da tribo, onde viver em comunidade passou a ser não somente sobreviver – alimentar-se e abrigar-se, mas poder criar culturalmente formas mais livres de experiência em comunidade e com a natureza (RAIMONDI, 2019).

Assim, a educação passa a ter a finalidade de formar personalidades segundo um projeto de identidade tribal ideal, não mais apenas um caçador(a), mas também um(a) possível produtor(a) criativo(a), ou “mitólogo”, ou artista, ou curandeiro xamã, ou tudo isso junto. Em relações de comunidade indiferenciada e com boas condições naturais e culturais,[iii] a educação acontece constantemente e se estende para toda a tribo – pai, mãe, filhos e dezenas de primos, tias, tios e avós.[iv] (ÁLVARO, 2005 & DARCY, 1968 & PONCE, 2008)

3.

O modo de produção de caçador/pescador/coletor organizado em comunidades tribais na Europa, parte da Ásia, África e Oriente Médio, existiu entre 40 mil há aproximadamente 10 mil anos a.p., momento em que os agrupamentos humanos começaram a migrar em grande número, devido a mudanças climáticas, e formar primeiramente aldeias, e depois cidades de pequenos agricultores, entre 10 e 5 mil a. p.

As aldeias de povos Natufianos que floresceram na região do crescente fértil entre 20 mil e 10 mil anos – correspondente aos territórios da atual Jordânia, Líbano, Síria, Egito, Israel, Palestina, Irã, Iraque e parte da Turquia –, já possuíam aprimorado desenvolvimento tecnológico e relações de trabalho associado entre familiares que começavam a se individualizar. Além de caçarem e coletarem, domesticaram espécies de cães e iniciaram o processo de agricultura rudimentar.

O grau de especialização do trabalho e das relações psico culturais desses povos conduziram à revolução agrária aproximadamente em 10 mil a.p. Os sítios arqueológicos de Göbekli Tepe, Karahantepe, Mendik Tepe, todos na Turquia, Monte Carmelo, em Israel, e Karim Shahir, no Iraque, apresentam provas valiosas da existência dos povos Natufianos. (BAR-YOSEF, 1998).

Logo depois, mediante a expansão do vilarejo, a diversificação do trabalho em especializações, como o ferreiro, o marceneiro, o agricultor, o pastor, os(as) sacerdotes e o trabalho doméstico, dinamizaram a economia e a sociedade, que era até em tão formada por aldeias agrícolas indiferenciadas, isto é, não estratificadas em classe e sem propriedade privada. O desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção criou a necessidade de um centro administrador, surgindo então as “Cidades-templo” – centralizadas a partir dos templos religiosos – como Çatalhöyük e Uruque, aproximadamente entre 9 mil e 7 mil a.p.

Nessas condições, apesar de não haver ainda dominação cruel e violenta entre as classes, já havia a divisão entre classes sociais e a propriedade privada, cujo processo de individuação ao mesmo tempo em que permitiu o desenvolvimento tecnológico, produziu cisões ainda maiores entre os agrupamentos comunitários. (REDE, 2011)

4.

Com a expansão das “Cidades-templo” e as guerras, a casta militar entrou em disputa com os sacerdotes, responsáveis pela administração da cidade, conquistando a hegemonia política. A atividade militar expansionista gerou a necessidade de aperfeiçoamento tecnológico, promovendo a indústria dos metais, fortemente utilizada na confecção de ferramentas militares. É neste período, aproximadamente entre 3 mil e 2 mil a.p., que o Estado político-militar é criado para organizar o que a literatura especializada chama de “Cidades-estado” ou “Cidade-reino”, nas regiões do Oriente e Ásia.

O exército e o sacerdócio de cada “Cidade-estado” se uniram para colonizar povos alheios, utilizando-se da força e da antiga mitologia para manipular e conduzir a “psico-antropologia” dos povos explorados. Após certo período, as “Cidades-estados” evoluíram para impérios, e começaram a guerrear entre elas. Suméria, Acádia, Egito, Pérsia, Babilónia, Grécia, Roma etc.; entraram num ciclo histórico de disputas hegemônicas pela dominação imperial do comercio internacional, a partir das regiões conhecidas na época.[v] (REDE, 2011)

Com as “Cidades-estado”, a guerra passa a ser a principal instituição responsável pela acumulação de riqueza, determinada pelos interesses das classes ou castas que dominam os meios de produção e as relações de trabalho. (ENGELS, 1981 & DARCY, 1987 & REDE, 1996). A educação, nesse contexto, é dividida da mesma forma que a sociedade, e passa a ter a finalidade de segregar e dominar.

Entre as classes dominantes, a educação é orientada para as questões do Estado, onde a formação do caráter guerreiro e o domínio da cultura religiosa e letrada era o princípio norteador. Neste caso, os filhos dos soldados aprenderiam a arte militar e administração do Estado, e os filhos dos sacerdotes eram educados segundo a cultura letrada, mantendo sua posição de elite associada.

E para os povos dominados, a educação restringia-se à obrigação de trabalhar em algum ofício sob ordens da elite e obedecer às leis e costumes religiosos, agora comandados pela parceria entre as castas militares com a sacerdotal, aliciada para escrever sistemas religiosos ideológicos como maneira de se manter no poder enquanto serve aos interesses da casta militar.[vi] Os princípios educacionais passaram de formação livre, potente e diversa, para repressões morais e imposições autoritárias, com objetivos alheios aos do povo dominado.

Com a revolução dialeticamente negativa das “Cidades-estado” – pois a causa primeira do movimento que elas iniciam contraria o metabolismo vital da espécie –, as gerações iniciais perdem seu estatuto de humano em formação integral e as mulheres perdem sua posição de matriarca, isto é, pela mediação da elite econômica, militar e sacerdotal, degenera-se o princípio fundamental de conservação da espécie, de modo que as crianças e as mulheres passam a existir como objetos de posse e de troca pelo patriarca[vii]. (PONCE, 2008)

5.

Segundo Karl Marx, as múltiplas relações contraditórias entre o modo de produção e os instrumentos jurídicos, políticos e culturais de reprodução das injustiças criam realidades aparentes, onde o significado dos objetos e das relações humanas são invertidos.

O hospital que deveria tratar e curar doenças, torna-se uma empresa, onde o paciente torna-se cliente e a finalidade da instituição passa a ser o lucro, fazendo do paciente objeto de exploração por parte dos sócios anônimos. A instituição escolar, que deveria cumprir a função de formar pelo menos a psico-antropologia de cidadão burguês, no sistema capitalista ganha a finalidade de manter a estrutura econômica, social e política desigual, disciplinando e ideologizando as gerações para aceitarem e se adequarem às relações contraditórias, hipócritas e reificadas. (BOURDIEU, 2011).

Nesse caso, os códigos legais e jurídicos de países republicanos expressam a aparência de uma realidade democrática, isto é, exercem apenas uma falsa realidade de liberdade, igual e fraternal, enquanto a essência das relações socio-políticas-econômicas é a reprodução da dominação de classes e opressão de gênero. (MARX, 1984 e MARX, 2008)

De acordo com Landislau Dawbor, 1% das pessoas do planeta terra possui mais de 50% da riqueza produzida no globo. Portanto, a sociológica econômica crítica não hesita em afirmar que a sociedade em que vivemos é uma continuação dos modos de dominação de classe existentes desde a formação das cidades Estados antiga, de modo que toda a estrutura social é separada segundo a posição de cada classe no sistema produtivo, e que na atual fase do capitalismo, uma super burguesia internacional comanda as forças estatais dos países associando-se às burguesias nacionais para explorar os recursos naturais e as populações do planeta. (DOWBOR, 2017).

No Paleolítico Superior a espécie humana se organizou racionalmente em estrutura econômica, política e cultural, através de relações pedagógicas integrais com toda a tribo\aldeia, segundo um projeto de autoconstrução livre e potente em habilidades e conhecimento. Assim como no início do processo de humanização da nossas espécie, os indivíduos e as famílias atuais precisam se organizar racionalmente em nível econômico, isto é, através do trabalho associado, especialmente em atividades fundamentais ao metabolismo vital da humanidade, como alimentação, moradia, saúde e educação e cultura, a partir de um novo sentido de vida, voltado à formação de intelectuais orgânicos.

Sem a conciliação entre a ontologia humana integral, isto é, não alienada, e a conservação da natureza externa equilibrada, não há esperança para o futuro da humanidade. (ALVARO, 2008 & ÁLVARO, 2005). O nível da neurose coletiva, da desagregação social e a destruição do equilíbrio natural, são realidades que comprovam essa verdade fundamental.

Ou seja, a passagem para outro estágio evolutivo da humanidade exige uma nova “psico-antropologia”, necessária para levar a cabo a expansão do novo modelo produtivo e existencial – comunismo – , baseado numa força produtiva regenerativa, e não destrutiva, e relações produtivas entre famílias e indivíduos associados, não apenas “parentes”, e com outro sentido de vida, não somente sobreviver ou ser reconhecido por status, mas sim realizar a totalidade das potencias humanas possíveis atualmente em harmonia com o meio social e natural. (MARX, 2008).

A filosofia da praxis orienta a “ação oportuna e eficiente” para a hegemonia do poder executivo municipal – prefeituras –, que é onde ocorre a vida comunitária, e posteriormente a expansão para o nível nacional e internacional.

*Weslley R. Palombarini é graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP).

Referências

BAR-YOSEF, Ofer. The Natufian culture in the Levant, threshold to the origins of agriculture. Evolutionary Anthropology, v. 6, n. 5, p. 159–177, 1998.

BOURDIEU, Pierre, Escritos de Educação. Ed. Vozes, Petrópolis, 2011.

DOWBOR, Ladislau. A era do capital improdutivo. São Paulo: Autonomia Literária, 2017;

ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Civilização Brasileira, 1981.

FINKELSTEIN, Israel; SILBERMANN, Neil A. (2018). A Bíblia desenterrada. Petrópolis: Vozes.

FEDERICI, S. (2004). O Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. SP: Elefante, 2017.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política”. vol. I, T 2, São Paulo: Coleção os Economistas, Abril Cultural, 1984.

______, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2008.

NEVES, Walter; RAPCHAN, Eliane S.; BLUMRICH, Lukas. A origem do significado. Editora Cultura Didática, 2020

NEVES, Walter Alves; JUNIOR, M.J.R; Sergio, R. (Orgs.). Assim Caminhou a Humanidade, São Paulo: Palas Athena, 2015

PINTO, Álvaro Vieira O Conceito de tecnologia. Rio de janeiro. Contraponto, 2005.

PINTO, Álvaro Vieira. A Sociologia dos Países Subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008.

PONCE, Anibal. “Educação e luta de classes”. Educação e Filosofia, Uberlândia, v. 5, n. 9, p. 165–167, 2008.

RAIMONDI, Fabio. “Marx, Darwin e a “História crítica da tecnologia”. Diaphonía, http://eprints.sifp.it/356/1/MARX_e_DARWIN. v. 5, n. 1, 2019

REDE, Marcelo. Da Sociedade-Templo à Cidade-Reino na antiga Mesopotâmia. São Paulo: Edusp, 2011.

REDE, Marcelo. Terra e poder na antiga Mesopotâmia. Phoînix, Rio de Janeiro, 2:109-134, 1996.

RIBEIRO, Darcy. O processo civilizatório: Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1987.

LEVY-STRAUSS, Claude. As estruturas elementares do parentesco. Petrópolis: Vozes. 1976.

WHITE T.D., Asfaw B., DeGusta D., Gilbert H., Richards G.D., Suwa G. et al. “Pleistocene Homo sapiens from Middle Awash, Ethiopia”. Nature, 423:742-7, 2003.

Notas


[i] Antes do Presente (a.p)

[ii] Um dos grandes méritos de Marx e Engels foi a descoberta de que a liberdade subjetiva depende da liberdade objetiva, isto é, da organização do trabalho coletivo, de modo que a ação livre de todo humano humanizado deve incluir necessariamente a manutenção das condições objetivas responsável pela formação da natureza psicossocial da nossa espécie.

[iii] A relação da espécie humana com a natureza e com o gênero é extremamente importante para definir a estrutura psico-antropológica de cada povo. É muito diferente o tipo de humano que emerge de relações patriarcais entre pastores no deserto da África, por exemplo, onde a alimentação é escassa e a sobrevivência é hostil, daquele indígena caçador/coletor/agricultor que se formou segundo a linhagem materna na região do Amazonas, onde a alimentação é abundante e a sobrevivência é relativamente confortável, uma vez que a comunidade se torna uma mediadora segura entre os humanos e a natureza selvagem.

[iv] Poderíamos dizer que o que marca a nossa “natureza biopsicossocial” não é apenas a passagem da natureza para a cultura – momento em que as espécies hominídeas começam a desenvolver processos pedagógicos mais complexos para produzirem suas ferramentas e o domínio do fogo – , mas principalmente a ampliação de relações de trabalho associado, assim como a diversificação de afetos em graus diferentes de parentesco, o que modifica a estrutura psicossocial dos membros a partir da posição social de cada um na tribo ao longo do tempo – pais, mães, filhos, sobrinhos, netos, etc. A proibição do incesto é apenas a consequência necessária do trabalho associado e do modo de vida comunitário entre parentes. (LEVI-STRAUSS, 1976).

[v] É importante salientar que a entrada dos povos em ciclos históricos imperialistas, isto é, com alto grau de dominação, exploração e trabalho alienado, ocorreu em contextos históricos diferentes e de modo relativamente específico, a depender do tipo de evolução material, regional e cultural. Além disso, o processo de expansão imperial é diferente quando parte do desenvolvimento interno das forças produtivas e das relações de produção, ou externo, mediante guerras de conquista. (ENGELS, 1981). (DARCY, 1987).

[vi] Temos como exemplo a própria bíblia judaica – pentateuco –, escrita durante o domínio do império neo-assirio sobre Israel, em 2.700 a.p., e concluída ao longo dos próximos 600 anos, até 2100 a.p. (FINKELSTEIN & SIBERMAN, 2018).

[vii] A queda do Império romano foi um processo revolucionário que desencadeou em novo modo produtivo, baseado em relações de produção mais livres entre famílias. A apesar do senhor feudal estabelecer domínio sobre as famílias aldeãs, o modelo organizacional permitiu a retomada da vida comunitária, destruída novamente com a revolução capitalista. (FEDERICI, 2017).

 

El imperialismo es un sistema de dominación mundial

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Lenin escribió su obra “El imperialismo fase superior del capitalismo” para ser difundida legalmente dentro del Imperio zarista. Para ello tuvo que mutilar los aspectos políticos de la fase superior del capitalismo, centrándose en los económicos, que como bien dijo, son la parte crucial del problema.

No obstante, como es obvio, los aspectos políticos se derivan de los económicos. A diferencia de la etapa anterior, los monopolios se caracterizan por su capacidad para dominar un mercado, en lugar de ser dominados por él.

 

Lo mismo ocurre con el capital financiero, en donde unos piden dinero y otros prestan. Los primeros acaban sometidos a los segundos, hasta el punto de que hasta tiempos recientes quien no pagaba sus deudas acababa en la esclavitud o en la cárcel.

El reparto del mundo es como un banquete en el que unos son comensales y los demás comida. Estos últimos tienen poco que decir, ni siquiera sobre su propio destino. Los países del mundo se reparten lo mismo que los dueños de una sociedad anónima se reparten los beneficios.

Si en una sociedad las personas no son iguales entre sí, lo mismo ocurre con los diferentes países del mundo. Los fuertes se imponen a los débiles y el vínculo de unos con otros es la hegemonía, que divide al mundo en países dominantes y dominados. Por ejemplo, unos sancionan y los otros son sancionados. Es algo que no tiene relación con la dicotomía entre el “norte” y el “sur”. En una evidente exhibición de fuerza, recientemente Estados Unidos ha llegado a sancionar a Thierry Breton, un antiguo comisario de la Unión Europea, demostrando que las presiones del imperialismo no se dirigen sólo contra los países del “sur”.

La hegemonía no deriva de la diferencia entre un modo de producción y otro. Del mismo modo que una pequeña empresa es tan capitalista como un monopolio, un país oprimido también lo es.

Lo que convierte a los países en hegemónicos es la fuerza militar, que está amparada por la fuerza económica. Así, desde 1945 el dólar ha financiado la instalación de bases militares de Estados Unidos por todo el mundo, no sólo en los países del “sur”.

A su vez el dólar es una de las expresiones del capital financiero contemporáneo. Pero tan importantes como la fuerza militar son las amenazas y las presiones que, la mayor parte de las veces son subterráneas, lo cual es una gran ventaja para los imperialistas porque les permite camuflar su verdadera naturaleza política. Lo propuso el presidente Theodore Roosvelt a comienzos del siglo pasado: “Habla suavemente, lleva un gran garrote y llegarás lejos”.

Los países no se dejan someter

Lo mismo que las clases sociales subalternas en cualquier país, los países también quieren escapar del destino que las grandes potencias imperialistas les tienen reservado. Unos lo hicieron por la vía revolucionaria, como Rusia o China, y fueron los primeros; después otros buscaron vías diferentes.

Es el caso de India, que en la posguerra ni siquiera era un país independiente y en la actualidad tiene un protagonismo creciente en los asuntos internacionales. En 1955 fue uno de los impulsores del movimiento de países no alineados y hoy sigue hablando con voz propia.

El concepto mismo de hegemonía, que es consustancial al imperialismo, muestra el absurdo de quienes equiparan a unos países con otros, por el mero hecho de ser capitalistas y hablan de que se ha entablado un “pulso” entre Rusia y China y las grandes potencias imperialistas. No hay tal “pulso” ni ningún “reparto del mundo“ o de las “esferas de influencia”.

Rusia y China no están en el mismo plano que las grandes potencias imperialistas. Ni uno ni otro son países imperialistas. No se reparten el mundo con ninguna potencia imperialista sino que, más bien al contrario, ellos son el objeto de dicho reparto. No están a la ofensiva, ni en condiciones de sustituir a Estados Unidos, o a Reino Unido, o a Francia. Es más, junto con otros países están haciendo frente al imperialismo porque históricamente son dos de sus víctimas propiciatorias, una circunstancia que no ha cambiado en absoluto desde 1917 y 1949 respectivamente.

En varias ocasiones Gorbachov y Yeltsin trataron de que Rusia fuera aceptada en los clubes más selectos de las grandes potencias, siendo rechazados. En 1990 la OTAN rechazó el ingreso de la URSS y lo mismo ocurrió luego con Rusia.

En los escenarios internacionales, unos países se agrupan para ejercer su dominación, y lo propio hacen otros, que intentan resistir a las presiones. Los unos forman bloques, como la OTAN, mientras los otros crearon el movimiento de países no alineados o, los Brics en la actualidad.

La expansión militar

Ni Rusia ni China tienen bases militares repartidas por cada uno de los rincones del orbe, como Estados Unidos. Ambos países han creado grandes ejércitos porque si no lo hubieran hecho, habrían desaparecido hace ya tiempo. Han demostrado que son invulnerables, pero ni siquiera tienen capacidad para controlar los estrechos marítimos más próximos, como el Bósforo o el de Taiwan.

Rusia no se ha expandido sino todo lo contrario. Hoy hay 17 países donde antes sólo había uno. Por el contrario, la OTAN se ha infiltrado en los antiguos países del Pacto de Varsovia y de los que se independizaron de la URSS, hasta el punto de instalarse en la mismas fronteras que, por la propia configuración histórica del país, siempre fueron un punto débil, tanto para la URSS como para Rusia.

Cualquier plano militar de la guerra civil rusa de los años veinte muestra a los ejércitos imperialistas avanzando desde la periferia hacia un centro asediado. El imperialismo trato de acabar con la URSS y luego con Rusia “desde fuera hacia dentro”.

En 1940 la “guerra de invierno” contra Finlandia fue consecuencia de un problema fronterizo. La victoria soviética permitió que, poco después, Leningrado resistiera el cerco nazi durante 900 días. El tratado de posguerra firmado con Finlandia volvió a mover de nuevo la frontera aún más hacia el oeste.

Se pueden poner tantos ejemplos como sean necesarios de que, en contra de lo que ha dicho Kaja Kallas, tanto la URSS como Rusia han sido colocados siempre contra las cuerdas, tanto en el Cáucaso, como en Asia central o en Ucrania ahora mismo. Por lo demás, la situación se remonta, como mínimo, a 1979, cuando el ejército soviético
intervino en Afganistán.

Una potencia hegemónica, como Estados Unidos, va siempre por delante. No sólo marca la pauta sino que es capaz de hacerlo en distintas regiones del mundo. En los cinco continentes sus acólitos se prestan a ello, colaboran y asumen funciones subalternas.

El dinero tiene pasaporte

La exportación de capital, decía Lenin, es uno de los rasgos característicos de los países imperialistas. No obstante, en los últimos años ciertos economistas han transmitido la ilusión infantil de que el capital financiero se podría mover de un país a otro a golpe de ordenador.

No obstante, el dinero sí tiene pasaporte. Los flujos internacionales de capital están tan controlados por los imperialistas como las aduanas o los estrechos marítimos. Recientemente las sanciones económicas han puesto de manifiesto que Swift no era un canal neutral ni técnico por el que cualquiera puede desplazar el capital libremente. Es un mecanismo estrechamente controlado por Estados Unidos. Nada menos que 7 bancos rusos fueron expulsados de Swift en 2022, además de otros que “sólo” fueron sancionados.

Ni Rusia ni China tienen un mercado a la altura de la bolsa de Wall Street, que mueve grandes masas de capitales a precios sin competencia y en dólares. Para comprar un par de lubinas es posible acudir a la pescadería de la esquina, que las venderá a 9 euros el kilo. Para comprar cien hay que ir a un mayorista, que las vende a 9 céntimos. Pues bien, Wall Street es el mayorista del dinero y está sometido a las leyes y tribunales de Estados Unidos.

Lo mismo se puede decir del Fondo Monetario Internacional y el Banco Mundial. Desde 2014 este último ha roto vínculos con Rusia y no aprueba nuevos préstamos ni inversiones en Rusia. Tras el inicio de la Guerra de Ucrania, detuvo todos sus programas en Rusia y Bielorrusia con efecto inmediato.

Rusia y China son, sobre todo, grandes potencias industriales que, incluso han sido capaces de superar en numerosos terrenos a los países capitalistas más desarrollados.

Al tratarse de un país esencialmente exportador, a diferencia de Rusia, China trata de zafarse del dominio del capital financiero occidental, empezando por el dólar. Es un proceso que aún tardará años. En China operan grandes bancos, la mayor parte de los cuales son públicos. Desde 2015 se permite la entrada de bancos privados, pero su cuota de mercado es insignificante. Por lo demás, no hay más que recorrer cualquier calle para comprobar que la presencia de bancos chinos en cualquier país occidental también es insignificante, muy inferior desde luego a la de los bancos occidentales en China.

El país asiático exporta grandes masas de capital en términos cuantitativos, que es donde aparece su naturaleza pública. No son fondos buitre. Los bancos chinos están ligados a algún tipo de actividad productiva, industrial, comercial o de infraestructura. No compran para especular con acciones, ni financian déficits, ni imponen una determinada política económica al país de acogida.

El imperialismo es intrusivo

Para ejercer su dominación, las potencias imperialistas no siempre necesitan intervenir de manera directa y abierta en terceros países. En su interior disponen de tentáculos que hacen la tarea de mantener la sumisión como si fuera cosa propia. Desde 1945 en Europa, y especialmente en Alemania, el imperialismo creó redes de influencia política y mediática que sigue operativas.

En la posguerra la penetración de la ideología y la cultura estadounidense en el mundo ha sido abrumadora. Las estrellas de Hollywood se han exportado aún más intensamente que las mercancías, el dólar o las armas. Lo mismo ocurre con la música, otro ejemplo de que el dominio de Estados Unidos no tiene paragón con ningún otro país del mundo. Ni siquiera ha existido un precedente similar a lo largo de la historia.

Para que no quepan dudas de ninguna clase, Estados Unidos corona asi su hegemonía, habiendo sido capaz de generar una industria del entretenimiento que, también por primera vez, desborda las élites intelectuales y alcanza a grandes masas de consumidores. La subcultura de origen estadounidense no es local, ni nacional; se ha impuesto en todo el mundo.

En fin, la información también es de origen estadounidense; los medios de comunicación de otros países no hacen más que reproducirla, amplificarla y comentarla. Con el tiempo, gracias a las campañas publicitarias y de imagen, los medios y las redes sociales asumen funciones decisivas en las elecciones, fabricando candidatos, hombres de paja, e incluso partidos políticos de nuevo cuño, como fue el caso de Macron en Francia.

Lo mismo cabe decir de las ONG, uno de los últimos brazos de injerencia del imperialismo en terceros países, que sirven de cobertura para la presión y la desestabilización. Para cerrar el paso a la injerencia, cada vez más países del mundo han cerrado el grifo a la financiación extranjera de las ONG.

Hay ONG especializadas en fabricar elecciones y otras en criticarlas, como en julio de 2024 en Venezuela. Son las potencias imperialistas las que validan las elecciones que se convocan en el mundo, para lo cual disponen de organismos aparentemente “independientes”, como universidades, centros de investigación, organismos
internacionales y también ONG.

En un mundo donde los países necesitan celebrar elecciones periódicamente para lograr un aval de legitimidad, los imperialistas catalogan como “limpias” a las que convocan sus asociados, mientras denuncian las demás como pucherazos.

Fuente: mpr21.info

domingo, 15 de fevereiro de 2026

 

O fascismo foi profundamente antissocialista: o que a série “Mussolini, o filho do século” tem a ver com o livro do mês o Armas da Crítica 

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Por Alvaro Bianchi

A série Mussolini: o filho do século, disponível em streaming na plataforma Mubi, pode ser assistida como uma introdução poderosa e extremamente eficaz ao meu novo livro, Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas, lançamento que chega em primeira mão aos assinantes do Armas da Crítica —o clube do livro da Boitempo. O caminho também pode ser feito no sentido inverso: o livro ajuda o espectador a compreender melhor alguns dos acontecimentos que a série dramatiza. 

Quando assisti à série, o manuscrito já estava nas mãos da editora. Eu conhecia previamente o livro homônimo de Antonio Scurati — M, o filho do século —, e acompanhava com curiosidade o debate que tanto a obra quanto sua versão audiovisual vinham provocando na imprensa italiana. Ainda assim, a experiência superou minhas expectativas. 

Dirigida por Joe Wright, a série narra a trajetória de Benito Mussolini entre 1919 e 1925. Luca Marinelli interpreta o duce com uma intensidade rara, construindo um personagem atravessado por contradições, ao mesmo tempo brutal e carismático, grotesco e sagaz, temerário e inseguro. Ao seu lado, destacam-se Francesco Russo, no papel de Cesare Rossi, figura central nos bastidores do jornal Il Popolo d’Italia naqueles primeiros anos; Barbara Chichiarelli, que encarna Margherita Sarfatti, a intelectual de modos aristocráticos e sofisticados que era amante do chefe fascista; e Benedetta Cimatti, como Rachele Mussolini, esposa fiel e traída, quase sempre colocada à margem dos grandes acontecimentos. 

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O roteiro, assinado por Stefano Bises e Davide Serino, se beneficia do rigor narrativo da saga de Scurati e de sua colaboração como consultor. Evidentemente, a pentalogia não é uma biografia acadêmica como o empreendimento monumental de Renzo De Felice, publicado entre de 1965 e 1997, obra que utilizei amplamente em minha pesquisa. No livro de Scurati, encontram-se aqui e ali erros de datação e atribuições imprecisas de títulos e frases a personagens históricos. De resto, nenhuma obra volumosa está imune a deslizes, e mesmo De Felice incorreu nos seus. 

Ainda assim, no conjunto, a saga de Scurati permanece bastante próxima do que hoje se conhece sobre Mussolini e sobre a dinâmica política do fascismo nascente. A série, por sua vez, busca seguir essa fonte de inspiração tanto quanto a linguagem audiovisual permite, condensando a narrativa e fazendo suas escolhas dramáticas. 

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O fato de o livro ser um romance, e não um trabalho historiográfico, dá a Scurati uma liberdade decisiva, inclusive para não explicitar suas matrizes de leitura. Em alguns momentos, reconheço sob a superfície a presença de De Felice, mas também a de intérpretes que o enfrentaram e reorientaram o debate, como Giulia Albanese. Pode ser, em parte, um efeito da minha familiaridade com esse campo historiográfico, mais do que um traço inequívoco do texto. Ainda assim, não creio que sejam apenas “vozes em minha cabeça”. 

Na série, essas camadas não são tão audíveis. Com pouco tempo à disposição, sutilezas historiográficas tendem a se tornar ainda mais tênues. O que me parece, ao contrário, claramente perceptível é uma opção estética que remete ao futurismo italiano, ao mesmo tempo justificável do ponto de vista histórico e incrivelmente eficaz como dispositivo de encenação. A direção aposta na velocidade dos acontecimentos, e a fotografia constrói uma sensação de vertigem que evoca a atmosfera das vanguardas, como se a aceleração fosse parte do próprio argumento. 

Para o historiador, essa rapidez pode soar excessiva. Quem assistir à série tendo em mãos a cronologia que publiquei ao final do livro, ou mesmo acompanhado do texto de Scurati, perceberá que eventos separados por meses aparecem como se fossem quase contíguos. Mas o tempo acelerado produz um efeito estético que, na maior parte das vezes, justifica as escolhas do diretor. 

Em vários momentos, os enquadramentos evocam a aeropittura de Gerardo Dottori, reforçando a impressão de que a linguagem visual foi concebida como comentário sobre a modernidade agressiva e exaltada que acompanhou os primeiros passos do fascismo. Essa estética funciona muito bem para esse período inicial do fascismo, marcado por aceleração, improviso e violência. Tenho dúvidas, porém, de que ela se ajustasse aos anos seguintes, quando a rotina da política estatal e a administração do poder foram drenando a energia do movimento e impondo outra temporalidade ao regime. Não por acaso, Marinetti perde centralidade à medida que o fascismo se burocratiza e constrói suas instituições estatais. 

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Dois temas que atravessam meu livro encontram na série uma tradução particularmente feliz. O primeiro é o caráter profundamente antissocialista do fascismo. Em Scurati, não há margem para dúvidas: a ruptura de Mussolini com seu passado socialista é apresentada como radical, e o fascismo surge como negação ativa daquele passado. A série permanece fiel a esse eixo e evidencia como o antissocialismo foi decisivo para pavimentar a adesão de setores da burguesia rural ao movimento de Mussolini. Nesse ponto, a narrativa é decididamente antifascista e, a meu ver, antidefeliciana, uma vez que não oferece ao protagonista qualquer possibilidade de redenção. Gosto dessa perspectiva. Quem ainda repete a caricatura de que o fascismo teria sido uma espécie de desdobramento do socialismo precisa procurar argumento em outro lugar. 

O segundo tema é a pluralidade interna do fascismo. A série evidencia a tensão entre um fascismo urbano e parlamentar e outro rural e squadrista, retomando uma linha interpretativa inaugurada por Antonio Gramsci, que em 1921 falava em “dois fascismos”. Mas me parece mais adequado reconhecer um leque mais amplo de variações, com fronteiras móveis e conflitos frequentes. Correntes distintas disputavam espaço e redefiniam alianças, como se vê, por exemplo, na distância que separava liberal-fascistas e católico-fascistas, tema que exploro no livro. No fim, o fascismo se constituiu como um ponto de convergência instável, no qual indivíduos, grupos e tendências políticas e intelectuais heterogêneas se reuniram em torno de um programa antissocialista e ultranacionalista. 

Os confrontos entre essas diferentes almas eram permanentes, e a série os dramatiza com inteligência. Eles aparecem no pacto de pacificação com os socialistas em 1921; nas disputas em torno da composição da lista eleitoral de 1924 e na dissidência de Cesare Forni; e, sobretudo, no terremoto político desencadeado pelo assassinato de Giacomo Matteotti, seguido pela ruptura de Cesare Rossi, episódios que a série coloca no centro do seu arco narrativo.  

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É aqui que o nexo entre a série e meu livro se torna mais produtivo. A série dá forma concreta a problemas que o livro analisa com mais detalhe, como a disputa entre correntes fascistas e as tentativas, em grande parte malsucedidas, de normalizar o movimento e enquadrá-lo como política ordinária. O livro, por sua vez, recoloca os episódios narrados na tela numa moldura interpretativa mais ampla, ao discutir como certas linguagens liberais e certas concepções de Estado, autoridade e ordem ofereceram pontos de contato seletivos com o fascismo e contribuíram para torná-lo aceitável em determinados círculos.  

Assistir à série pode tornar mais intuitivas algumas dinâmicas que o livro reconstrói. Ler o livro permite assistir à série com outro foco, distinguindo ritmo dramático e cronologia, identificando continuidades e inflexões, e percebendo melhor como, naqueles anos decisivos, a violência e a exceção puderam ser reapresentadas como política normal. 

Fica, então, o convite. Assistam à série e leiam o livro, de preferência ao mesmo tempo, colocando-os em diálogo. 


***
Alvaro Bianchi é professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Laboratório de Pensamento Político (Pepol/Unicamp). É mestre em sociologia (2000) e doutor em ciências sociais (2004) pela Unicamp. Além de Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas (Boitempo, 2026), é autor de O laboratório de Gramsci (Zouk, 2018) e Gramsci entre dois mundos (Autonomia Literária, 2020). Foi diretor do Arquivo Edgard Leuenroth (2009-2017) e do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (2017-2020).


Lançamento de Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas, de Alvaro Bianchi. Debate com o autor,Luciana Genro e mediação de Ronaldo Tadeu.


UM ESTUDO PROVOCATIVO SOBRE OS LAÇOS ENTRE O FASCISMO E O LIBERALISMO. 

Desafiando o mito da oposição entre ambos, este livro revela uma tradição liberal-fascista que ligava a liberdade à autoridade e ao Estado forte. Alvaro Bianchi oferece uma visão essencial sobre como os ecos da ideologia fascista persistem nas democracias de mercado atuais.
Clara E. Mattei, autora de A ordem do capital

Há um século a humanidade viu o fascismo chegar ao poder na Itália e espalhar suas ramificações pela Europa e pelo mundo. Ao longo dos anos, houve períodos em que parecia impossível afirmar que algo próximo ao fascismo poderia retornar, mas os regimes e personalidades que emergiram nas últimas décadas deixaram claro que a sombra do fascismo está viva e atuante.  

Na contracorrente da historiografia dominante sobre o tema, este livro se debruça sobre as insistentes tentativas de acomodação da ideologia fascista com o liberalismo. A tese é que longe de negar o projeto fascista, tais esforços de “normalização” representaram uma estratégia para torná-lo perene. Combinando farta pesquisa em arquivos primários e notável rigor sociológico, o cientista político Alvaro Bianchi oferece um raio-x do liberal-fascismo.  

Embora centre sua investigação na Itália – cotejando as aproximações entre o movimento liderado por Mussolini e a obra de pensadores liberais como o economista Vilfredo Pareto e o filósofo Giovanni Gentile –, o autor examina as características antiindividualistas, antinaturalistas e antidemocráticas dessa corrente política híbrida também em países da América Latina. O resultado é uma contribuição original que não só ilumina o fascínio que o fascismo exerceu sobre os liberais, como fornece um precioso instrumental para compreender o neofascismo e o pós-fascismo atuais.   

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

 Elias Khoury nasceu em Beirute, em 1948. Foi romancista, dramaturgo, crítico e um dos mais influentes intelectuais do mundo árabe. Dirigiu  atualmente o suplemento cultural do jornal diário Na-Nahar e é professor universitário, repartindo o seu tempo entre Nova Iorque, onde  deu aulas na Universidade de Columbia, e a sua cidade de origem, onde deu aulas na Universidade Americana. Os seus dez romances estão traduzidos em diversas línguas. A Porta do Sol, estreia literária de Khoury em Portugal, recebeu a mais alta distinção literária palestinianaBertrand.pt - My Name Is AdamBertrand.pt - Gate Of The Sun

Elias Khoury

Elias Khoury nasceu em Beirute, no Líbano, em 12 de julho de 1948. Desde muito jovem, demonstrou interesse pela literatura e pelos temas políticos. Em 1967, juntou-se ao movimento Fatah, braço armado da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), experiência que marcaria profundamente sua trajetória intelectual e consolidaria seu compromisso com a causa palestina; como intelectual público e engajado, Khoury sempre articulou a luta pela libertação da Palestina à luta contra toda forma de tirania. Formou-se em História pela Universidade Libanesa e obteve o doutorado em Sociologia pela Universidade de Paris, onde foi aluno do sociólogo Alain Touraine.

Durante a Guerra Civil Libanesa (1975–1990), Khoury tornou-se membro do Movimento Nacional Libanês, uma coalizão de partidos de esquerda e pan-árabes que buscava transformar a estrutura política e social do país. Paralelamente à sua atuação política, Khoury desempenhou um papel central no cenário cultural árabe contemporâneo, estabelecendo-se como intelectual engajado nas questões regionais. Foi editor do suplemento cultural Al-Mulhaq do jornal libanês An-Nahar — sob sua direção, o suplemento transformou-se em um espaço de liberdade de expressão para opositores e dissidentes políticos da região. —, membro do comitê editorial da revista Mawaqif, ao lado de Adonis e Mahmud Darwich, e editor-chefe de Chu’un Filastiniyyah, publicação do Centro de Pesquisas da OLP, onde voltou a colaborar com Darwich.

Sua atuação no Théâtre de Beyrouth também foi marcante, unindo atividades culturais e políticas em defesa da liberdade de expressão, da democracia e de reformas sociais no Líbano. Além de escritor e ativista, Khoury foi também professor em universidades de prestígio, como a Universidade Americana de Beirute (AUB), a Universidade de Columbia e a Universidade de Nova York (NYU). Entre suas principais obras estão Porta do Sol (Record, 2008), Yalo (Record, 2012), Meu nome é Adam (Tabla, 2022) e Stella Maris – todos traduzidos por Safa Jubran –, entre outros romances que consolidaram seu nome como um dos grandes autores da literatura árabe contemporânea.

Elias Khoury faleceu em 15 de setembro de 2024, deixando um legado literário e político de imensa relevância. Sua obra é atravessada por temas como a memória coletiva, os grandes acontecimentos históricos e as subjetividades que os constroem, a complexidade das relações humanas e o exílio. Com uma narrativa onírica, permeada por referências à tradição poética árabe, Khoury buscava, em suas próprias palavras, “[…] fazer da história a História dos vencidos, que os historiadores não têm coragem de escrever”.

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 O anti islamismo ou a islamofobia desempenha o mesmo papel que o antisemitismo do século dezanove. 

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A islamofobia é o
medo, aversão ou hostilidade sistémica contra o Islão e os muçulmanos, manifestada através de preconceito, discriminação, racismo estrutural e violência. Motivada por estereótipos, xenofobia e discursos de ódio, intensificou-se após o 11 de Setembro e a crise de refugiados, afetando desproporcionalmente mulheres e minorias.
Principais Aspetos da Islamofobia:
  • Definição: Inclui preconceito religioso e cultural, tratando a fé islâmica como uma "ameaça" aos valores ocidentais.
  • Raízes Históricas e Atuais: Embora com raízes antigas, intensificou-se no século XXI com a "guerra ao terror", estigmatizando muçulmanos como terroristas.
  • Manifestações:
    Inclui assédio, violência física e verbal (especialmente contra mulheres que usam o
    hijab
    ), discursos de ódio online, discriminação no trabalho e na educação
    .
  • Consequências: Aumento da violência e discursos de ódio, levando à marginalização e, em alguns casos, à modificação de vestimentas religiosas para evitar hostilidades.
  • Contexto em Portugal: Estudos indicam casos de islamofobia na educação, mercado de trabalho e mídia, muitas vezes invisibilizados ou desvalorizados, com incidentes como ameaças a mesquitas.
O Dia Internacional de Combate à Islamofobia é celebrado a 15 de março para sensibilizar e combater este ódio.

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