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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Excelente texto analítico marxista

 

Salário, gasto público e valor

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Por ÉMERSON PIROLA*

A disputa pelo fundo público e a expansão do salário social situam o gasto estatal no centro da luta de classes contemporânea

 

O capitalismo certamente não inventou o dinheiro, mas é nele que o dinheiro se torna a base de todo o edifício social. Os vais e vens de qualquer governo, à esquerda ou à direita, são atravessados pela dinâmica da moeda, da política monetária, da taxa de juros, da taxação e do imposto, da dívida e do gasto públicos.

O presente texto, baseado em ideias desenvolvidas longamente em minha tese de doutorado e no livro dela derivado,[i] tem como objetivo chamar a atenção para uma dinâmica classista imanente ao dinheiro que, no debate público, tende a não se aprofundar para além da camada ideológica, não indo à “câmara escura” da produção do valor.

 

Do salário ao salário social

Como indicam Gilles Deleuze & Félix Guattari,[ii] o axioma fundamental, indispensável, ao capitalismo, é o encontro, a conjunção, entre força de trabalho e dinheiro. O trabalhador “livre” vende sua força de trabalho no mercado para alguém que o paga. Há uma troca entre o trabalhador e o capital: tempo de trabalho realizado por dinheiro. O nome disso é salário, e o trabalhador é um assalariado.

Devemos a Karl Marx[iii] a famosa descoberta do “mais-valia”: para encurtar a história, o salário pago ao trabalhador não corresponde ao valor que é por ele produzido. Parte do que o trabalhador produz vai para o patrão, na forma empírica do lucro. Desse modo, parte do tempo de trabalho em que o trabalhador despende sua força de trabalho é por ele recebida, e outra parte não é paga e se torna o mais-valor acumulado pelo patrão capitalista. Esse é o salário tradicional. Podemos chamá-lo de salário simples (e não há diferença, aqui, se ele é o de um trabalhador industrial, agrícola ou dos serviços).

Alguns autores marxistas vinculados à tradição do operaísmo italiano[iv], nos anos 1960 e 1970 – mas eles não são os únicos a apontar fenômeno análogo –, perceberam que com o desenvolvimento do capitalismo e com o progressivo abarcamento da sociedade sob a lógica do capital, a categoria de salário simples já não dizia tudo sobre a dinâmica da exploração.

O Estado, para esses autores, na era fordista e keynesiana, foi abarcado como elemento do processo de produção total da sociedade capitalista. A produção é cada vez maior e mais integrada, mais socializada: toda a sociedade, em sua vida, sua cultura, sua reprodução, passa a ser abarcada pela lógica do capital –algo também percebido pelos autores da Escola de Frankfurt.

Karl Marx já havia proposto uma distinção conceitual para falar de dois momentos da subsunção da sociedade ao capital: primeiramente – pensemos no início do século XIX, há a subsunção formal. Nela, o capitalista encontra e explora formas de relação e produção, de cultura, de modo de vida, de tecnologia, que funcionam de modo relativamente externo à dinâmica do capital, separado dele. Progressivamente, entretanto, o capital passa à subsunção real: nela, sempre avançando nesse processo por natureza não totalizante, cada vez mais a sociedade, a vida mesmo, humana e não humana, em suas relações sociais, vitais e afetivas mais imediatas, passa a ser posta e explorada pela lógica do capital, começa a ser produtiva no processo de produção do valor.[v]

Com essa dinâmica da subsunção real, cujo desfecho são as sociedades de controle teorizadas por Gilles Deleuze[vi] e a biopolítica (neoliberal) teorizada por Michel Foucault[vii], o Estado é, ele mesmo, tornado elemento do processo de produção total, se tornando inerente ao modo de produção capitalista. É aí que o dinheiro, elemento basilar da axiomática capitalista, e a relação salarial de qual ele é parte, passa a um nível maior de abstração.

É aí que Antonio Negri[viii], talvez o mais importante dos operaístas, já nos anos 1970, propõe a categoria de salário social: o salário social abarca o que o trabalhador recebe para além de sua dimensão imediata de venda da força de trabalho, de emprego. O salário social engloba coisas como acesso a serviços públicos (hospital, escola, transporte etc.), além de “benefícios”, “seguros”, “auxílios”, “bolsas” monetárias concedidas pelo Estado.

O salário social, portanto, será definido pela questão dos gastos-investimentos monetários e econômicos do Estado. O salário social é uma dimensão suplementar, mas absolutamente fundamental, da relação salarial tradicional. Em verdade, mais do que uma separação entre salário simples e salário social, há, globalmente falando, um único salário, o salário total, englobando salário simples e salário social.

Quando a produção é socializada em um nível tão grande que é seguro dizer que virtualmente toda a sociedade, a vida e o Estado se tornam elementos e momentos do processo de produção de valor, o salário deixa de ser apenas o que o patrão lhe paga diretamente. Por isso, o salário social não é uma metáfora ou uma figura de linguagem, mas o é em sentido técnico marxiano: a produção total de valor da sociedade capitalista reserva parte desse valor para a classe trabalhadora (salário) e parte para seu mais-valor explorado.

Quando o Estado, enquanto agente econômico integrado ao circuito monetário e ao processo produtivo (na figura do emissor de moeda, de coletor de impostos e de mantenedor de serviços públicos e estatais), decide colocar mais dinheiro em um lugar e tirar de outro, essa ação tem resultado direto na taxa de mais-valor, na divisão do que vai para cada classe.

Se o Estado mantém saúde pública, é um serviço agregado ao salário do trabalhador. Se não há serviço público como parte do salário social, o trabalhador é obrigado a buscar o serviço privado e passar parte de seu salário (simples) ao capitalista provedor do serviço. Meu salário, enquanto composto também por sua dimensão social, é objetivamente menor em uma sociedade em que os serviços são mais privatizados, e objetivamente maior se há os serviços.

 

Luta monetária – os sentidos do gasto público

O senso comum, a ideologia, diz que o Estado não deve (nunca) gastar mais do que ganha, sob pena de endividamento. Diz também que a dívida não pode crescer em demasia pois o Estado pode “quebrar”. Diz, por fim, que a injeção de moeda na economia é sempre e necessariamente causa automática de inflação.

Para o senso comum, o Estado é “como uma dona de casa” que deve apertar o cinto e segurar os gastos; o dinheiro é como uma mercadoria qualquer, pedaços de papel ou números digitais que funcionam da mesma forma em que funcionava o ouro. Todos sabem que se há mais ouro em oferta, o ouro fica barato, perde valor. Ou seja: inflação.

A teoria econômica mainstream, de viés quantitativista e neoliberal, não é mais do que o verniz técnico-científico dessa ideologia. Há, entretanto, toda uma tradição de pensamento econômico, político, que tem uma leitura da natureza do dinheiro (público) moderno que pensa por fora desse dogma (e se trata de dogma, no sentido religioso, visto que se mantém sem comprovação científica e não se abala com evidências em contrário).

Essa tradição, chamada de cartalista, passa por John Maynard Keynes e chega à Moderna Teoria Monetária[ix] (MMT), cujo mais famoso representante no Brasil é o formulador do Plano Real André Lara Resende[x] (insuspeito de ser um “comunista” ou mesmo um “esquerdista”). Como demonstro em minha tese, essa ideia também passa por Gilles Deleuze & Félix Guattari.[xi]

Para os autores franceses, lendo-os conjuntamente à teoria cartalista que desemboca na MMT, o dinheiro moderno é uma criação que vem “do nada”, ex nihilo, pelo banco, privado ou público. É emissão monetária, criação monetária. Os impostos servem mais para fazer com que todos os agentes econômicos, pessoas ou empresas, de um dado espaço social, queiram e necessitem da mesma moeda para cumprir com suas responsabilidades tributárias. Se em um espaço social dado todos precisam da mesma moeda para pagar impostos, cria-se um mercado unificado por uma dada moeda.

Os impostos não servem para financiar os gastos do Estado, visto que, como não há, desde o fim do padrão-ouro em 1971, vinculação do dinheiro com qualquer mercadoria física ou qualquer metal, o dinheiro é apenas fiduciário: ele tira seu valor e sua eficácia da confiança depositada nele (daí o discurso neoliberal sobre a “confiança” do mercado). Um Estado não pode “quebrar”, pois a moeda que ele precisa é a mesma que ele tem o poder de criar, de emitir. A criação do dinheiro pelo Estado, portanto, se dá num “jato monetário”, que coloca dinheiro na economia, gastando com serviços públicos ou colocando diretamente “no bolso” (na conta) do trabalhador.

Já vimos como o salário social é parte integrante da relação de exploração de mais-valia em uma sociedade de produção socializada subsumida realmente pelo capital. O deleuziano argentino Julian Ferreyra propõe o conceito de “luta monetária” para falar de uma luta política pelos sentidos do gasto desse “jato de emissão de moeda”[xii]: na direção dos “ricos” ou dos “pobres”, dos capitalistas ou do proletariado, da maioria ou das minorias. Como a esquerda fala, de um modo mais tradicional, há um ‘“fundo público” que o Estado decide investir (mais) na direção da classe dominante ou (mais) na direção da classe dominada.

Inclusive, em termos de estrita técnica contábil, quando o Estado aplica isenções fiscais à empresas, é exatamente como se fosse um gasto; contabilmente falando, deixar de ganhar um imposto é o mesmo que um gasto[xiii]. O neoliberalismo, portanto, se caracteriza antes pela utilização do fundo público, do jato monetário, na direção dos capitalistas, nas formas de investimentos, de perdão de dívidas, de isenções, de imposto regressivo etc., do que pela pura e simples aniquilação do gasto público.

A luta monetária, portanto, na medida em que é a luta pelos sentidos, pela direção, pela quantidade e qualidade do dinheiro público gasto-investido, é um momento da luta de classes global, um nível mais abstrato da luta de classes, que passa antes pela política monetária e fiscal do que pela negociação do salário simples com o patrão.

Para finalizar, um ponto conjuntural: o governo Lula 3 esteve envolto enormemente em polêmicas monetárias, começando pelo nível elevado da taxa de juros, que, graças à independência do Banco Central[xiv], era acusada e justificada como consequência da presidência do Banco Central ser exercida por Roberto Campos, um indicado do governo Bolsonaro. Já na segunda metade do Governo Lula 3, em uma relativa mudança para uma atitude e uma retórica mais aberta ao confronto, vimos a empreitada de pautar justiça tributária e a taxação progressiva.

Nesse sentido, ao menos em um primeiro olhar, poderíamos dizer que o governo foi marcado por pautar a luta monetária na direção do aumento do salário social. Entretanto, é de se perguntar se essa movimentação do governo pode, realmente, se converter em aumento substantivo do salário social e, portanto, em alteração na balança da luta de classes global.

A ambiguidade da estratégia de justiça fiscal se dá pois, ao menos em parte, a maior taxação “dos ricos” é incapaz de se converter em investimento público quando há interesse declarado em cumprir metas fiscais de superávit, tudo isso envolto na estrutura jurídico-política do Novo Arcabouço Fiscal, de Fernando Haddad, paródia de esquerda do Teto de Gastos de Michel Temer (chamado pela esquerda de “PEC da morte” quando de sua promulgação).

Como dissemos, “tecnicamente”, o Estado moderno não quebra pois emite a própria moeda, ele cria, ao gastar, os meios com os quais realiza os próprios pagamentos. Por isso, desde Friedrich Hayek e os ordoliberais alemães,[xv] é estratégia neoliberal a constitucionalização de limites de gastos públicos, de tetos de gastos.

O arcabouço fiscal de Fernando Haddad, e de Lula 3, ainda que mais flexível que a PEC da morte de Michel Temer, é um dispositivo jurídico-legislativo, e político, de limitar a potência do gasto público e a sua capacidade de aumentar o salário social É, desse modo, um bloqueio das capacidades expansivas da luta monetária dos “de baixo”. O arcabouço fiscal é uma constitucionalização, fruto da razão neoliberal de que falam Dardot e Laval, da austeridade econômica.[xvi]

Apesar da desorganização conjuntural da extrema direita no âmbito eleitoral, hoje, o arcabouço fiscal se constitui como elemento estruturante da luta de classes e dos rumos da política brasileira. Historicamente falando, a austeridade econômica sempre fortaleceu a direita e as derivas fascistas,[xvii] que nos batem à porta – que, na verdade, nunca saíram do pátio.

*Émerson Pirola, doutor em filosofia pela PUC- RS, é professor visitante no Instituto Federal do Rio Grande do Sul – campus Viamão.

Notas


[i] PIROLA, Émerson dos Santos. Dívida e dinheiro na teoria do capitalismo e do Estado em e a partir de Deleuze & Guattari: dinheiro contra o Capital. 2023. 577 f. Tese (Doutorado em Filosofia) — Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2023. Disponível em: https://tede2.pucrs.br/tede2/bitstream/tede/11009/2/Tese%20%c3%89merson%20Pirola%20para%20dep%c3%b3sito%20na%20biblioteca.pdf.

PIROLA, Émerson dos Santos. Dívida, dinheiro, controle e além: uma contribuição a partir de Deleuze & Guattari. Porto Alegre: Editora Fundação Fênix, 2025. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1UE4Mi5c-xQnlASuxjojf_K20b2yheK-t/view.

[ii] DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 2010. Tradução de Luiz B. L. Orlandi; DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2. v. 5. São Paulo: Editora 34, 1997. Tradução de Peter Pál Pelbart e Janice Caiafa.

[iii] MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.

[iv] WRIGHT, Steve. Storming Heaven: Class Composition and Struggle in Italian Autonomist Marxism. 2. ed. London: Pluto Press, 2017.

[v] Embora Marx comente a distinção entre subsunção formal e real em O Capital, ela é mais desenvolvida e extrapolada em suas consequências no “Capítulo VI” que ficou de fora da edição do livro. Ver: MARX, Karl. Capítulo VI (inédito): manuscritos de 1863-1867, O capital, Livro I. Tradução de Ronaldo Vielmi Fortes. São Paulo: Boitempo, 2022. É esse o texto que fundamenta a leitura do fenômeno pelos autores operaístas.

[vi] DELEUZE, Gilles. Post-scriptum sobre as sociedades de controle. In: DELEUZE, Gilles. Conversações: 1972-1990. Tradução de Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. p. 219-226.

[vii] FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978-1979). Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

[viii]  NEGRI, Antonio. The State and public spending. In.: NEGRI, Antonio; HARDT, Michael. Labor of Dionysus: a critique of the State-form. Minneapolis/London: University of Minnesota Press, 1994, p. 179-216.

[ix] KELTON, Stephanie. O mito do déficit: teoria monetária e o nascimento da economia do povo. Tradução de Christiano Sensi. Rio de Janeiro: Alta Cult, 2023; WRAY, L. Randall. Trabalho e moeda hoje: a chave para o pleno emprego e a estabilidade dos preços. Tradução de José Carlos de Assis. Rio de Janeiro: Editora UFRJ; Contraponto, 2003.

[x] LARA RESENDE, André. Consenso e contrassenso: por uma economia não dogmática. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2020; LARA RESENDE, André. Camisa de força ideológica: a crise da macroeconomia. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2022.

[xi] Publiquei também um artigo que explora a semelhança entre teoria cartalista da meoda e as proposições de Deleuze & Guattari: PIROLA, Émerson. Deleuze & Guattari e a tradição cartalista em teoria monetária: uma aproximação frutífera para a luta monetária. Cadernos Miroslav Milovic, v. 4, n. 1, 2026. DOI: doi.org/10.46550/CADERNOSMILOVIC.V4I1.156.

[xii] FERREYRA, Julián. Idea y lucha en la fase monetaria del capitalismo según Deleuze y Guattari. eidos, nº 30, 2019, p. 72-103. Modéstia à parte, o conceito de “luta monetária”, embora cunhado por Ferreyra, está bem mais desenvolvido em minha tese; mas é injusto comparar os desenvolvimentos de um artigo com os de uma tese.

[xiii] COOPER, Melinda. Counterrevolution: extravagance and austerity in public finance. Cambridge, MA: Zone Books, 2024.

[xiv] Sobre a independência do Banco Central como projeto essencialmente neoliberal, ver: SAAD-FILHO, Alfredo. Monetary Policy and Neoliberalism. In.: CAHILL, Damien; COOPER, Melinda; KONINGS, Martijn; PRIMROSE, David (eds.) The SAGE handbook of Neoliberalism. Los Angeles/London/New Delhi/Singapore/Washington DC/Melbourne: Sage, 2018, p. 335-46.

[xv] CHAMAYOU, Grégoire. A sociedade ingovernável: uma genealogia do liberalismo autoritário. São Paulo: Ubu Editora, 2020.

[xvi]  DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. Tradução de Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2016.

[xvii] MATTEI, Clara E. A ordem do capital: como economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2023.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Capítulo primeiro de um ensaio sobre as caraterísticas das sociedades de mercado capitalistas

 

Nozes Pires

Ensaio 

 

 

Processos e conteúdos de manipulação e formatação das mentalidades

Capítulo Primeiro

Esta exposição é apenas um resumo, mal alinhavado presumo, de alguns, e de somente de alguns, mecanismos e processos de formação de comportamentos padronizados (sobre aqueles que compõem de modo universal os comportamentos humanos) e de formatação de mentalidades (sempre históricas e sociais).

Na época que atravessamos – crise do sistema capitalista no ocidente- encontra-se abalado aquele que foi, por ventura, o mais eficaz modo de formatação da consciência social: a relativa abundância de oferta e de possibilidades de acesso ao consumo, isto é, a massificação ou, se preferirmos, a democratização do consumo. Consumismo facilitado em períodos de relativa abundância de mercadorias, em ciclos pretéritos de prosperidade consubstanciada na formação de amplas e fortes camadas intermédias (sempre com ritmos desiguais adentro do sistema mundial). Promovido universalmente pelas modernas técnicas de marketing, pelos media, redes de comunicação digital, e invenção e profusão super rápida de cartões de crédito e débito e outras formas de pagamento por via digital. Assim, a burguesia submeteu os indivíduos, parecendo desapreciar pelo mercado diferenças sociais, culturais, etárias e étnicas, convertendo toda a gente, em todos os lugares, à utopia de sociedades que iriam produzir e reproduzir-se infinitamente. De facto transformaram-se “cidadãos” (essa denominação progressista da Revolução Francesa) em sujeitos livres consumidores. O ser "livre" entre comas. O núcleo do comportamento do indivíduo urbano ("civitas"- cidade e cidadania) passou a ser este: "consumidor". A vida individual - familiar - dos indivíduos convertido ao jugo voluntário do débito/crédito. 

Os indivíduos permanecem julgando-se livres pois julgam-se com poder de escolher.  A mobilidade social parecia funcionar (a mobilidade foi real) através da medida do poder de consumo. Provocou-se a ganância (possuir mais e mais coisas) e a cobiça das "marcas" (sempre de corporações multinacionais evidentemente) , a inveja pelas elites que efetivamente as podem consumir. Produziram-se aumentos quantitativos consideráveis nas compras com relativa facilidade de aquisição de eletrodomésticos abundantes no mercado, criaram-se necessidades onde não existiram nunca e facilitou-se a vida moderna dos empregados e trabalhadores nas suas casas com tecnologias constantemente melhoradas e de preços que pareciam submetidos à tendência de diminuição do preço de mercado, construiram-se cidades-bairro urbanos nas periferias das capitais, "ofereceram-se" automóveis "utilitários" que tornava possível residir-se a quilómetros de distância dos empregos, viagens nas férias (turismo de massas), etc. A lógica do capitalismo dirigida ao lucro máximo mas sob a forma (real ou imaginária) de progresso e bem-estar, pareceu funcionar bem durante dezenas de anos nos Estados Unidos do pós-guerra, na Europa reconstruida, inclusivamente em países de outros continentes outrora do "Terceiro Mundo". Uma máquina autónoma eficiente sem avarias graves, permitindo que todo o mundo consumisse, embora com desigual poder de compra mas correndo todos pelo mesmo sonho: consumir. Sobre a satisfação de necessidades objetivas, universais e inatas (comer, vestir, abrigar-se, mover-se, conviver) desenvolveram-se novos hábitos e padrões  sociais, portanto, artificiais. A ansiedade pelo novo "status" e as identidades (de género e outras) pareceram "apagar" as diferenças de classes.

O “consumismo” tem sido suficientemente estudado para que necessitemos aqui de esmiuçar. Cabe aqui apenas sublinhar este fenómeno considerando-o a utopia mais poderosa do capitalismo contemporâneo: a transformação do cidadão livre em mera força de trabalho explorada pelos possuidores de dinheiro , e, simultaneamente, consumidor pagante das mercadorias que produz. Neste ênfase reside a minha tese. O consumo de massas (os supermercados, as super cadeias de distribuição ) como combustível da máquina mercantil capitalista; a captura de novas e amplas faixas de consumidores: mulheres, jovens, crianças, populações do Terceiro Mundo, colónias libertadas recentemente; expansão das relações capitalistas de produção pelo planeta (de que a Coca-Cola e o fastfood norte-americano são bem o símbolo); a deslocação de empresas para países com baixos salários ou oferta de matérias-primas ,produzindo-se, assim, consumidores de mercadorias de origem e patente norte-americana em todos os lugares do planeta com exceção do bloco socialista enquanto este durou. Colapsado este , o triunfo e a expansão dos mercados capitalistas alcançou o zénite.

O capitalismo assenta na propriedade privada dos meios de produção e na exploração dos que foram expropriados de meios de produção –camponeses, artesãos- forçados a vender a sua força de trabalho a preços (variáveis) de modo que produzam um excedente (mais valia) apropriado pelo capitalista (mercadorias e tempo). É nesse contexto que o capitalismo vai introduzir o desejo compulsivo de consumo: quanto mais elevado for o rendimento do trabalhador, maior será o consumo de mercadorias que este realiza na sua vida aparentemente privada. Os capitalistas ganham duas vezes (isto é, os diversos sectores em que se dividem os capitalistas), na mais valia e na venda aos trabalhadores dos bens que outros trabalhadores produziram. Esta lógica é fundamental. Porém para o capitalista, de modo geral, não é do seu interesse pagar salários elevados (entenda-se : bem acima da inflação e conforme o que os trabalhadores e seus sindicatos reivindicam em cada momento e em cada lugar da produção). Contradição do sistema. 

A prática contradiz a doutrina da livre escolha e da igualdade. Vai daí inventaram-se os cartões de crédito/débito. Vai daí os organizaram-se sindicatos “amarelos” para gerirem com os patrões os limites razoáveis dos salários pois é preciso que os assalariados possuam suficiente poder de compra para que os bens se escoem; porém, não é isso que sucede regularmente, aprofundando-se, assim, crises do sistema e descontentamento social.

 A queda tendencial da taxa de lucro, analisada por Karl Marx como o fator fundamental das crises imanentes ao modo de produção mercantil capitalista, sejam elas provocadas pela invenção e utilização das máquinas, isto é, do capital constante que não produz valor, seja provocada por períodos de sobreprodução, isto é, diminuição da realização do capital por causa das mercadorias que não vendem ; e não se vendem, em casos frequentes, porque o rendimento dos consumidores é baixo, insuficiente.

 A especulação bolsista como fonte de rendimento e multiplicação artificial do capital, o crédito mal parado, o endividamento privado, são consequências e simultaneamente causas de novos efeitos, ou efeitos modernos do sistema. Evidentemente que o consumo, a venda para os mercados, o escoamento dos excedentes e tudo o mais, constituíram desde sempre a lógica do Capital à conquista do mundo. Mas também as suas fragilidades e contradições: a venda, o escoamento dos bens, é travado por excessos de produção e/ou por insuficiência de consumo; os métodos de inovação tecnológica (o racionalismo técnico do capitalismo) ao mesmo tempo que têm demonstrado a capacidade de renovação e adaptação do sistema –o revolucionamento das forças produtivas, como descobriu Marx na natureza da civilização capitalista – colidem com o colete de forças das relações de produção originárias e persistentes : propriedade privada dos meios de produção, exploração da força de trabalho enquanto meio de produção do Valor. Mas também desregulamentação dos mercados por ausência de planeamentos que o capitalismo geneticamente recusa, produzindo-se mais do que o necessário ;políticas inflacionárias decorrentes de guerras e corridas armamentistas, legislação laboral sempre tencionada à expansão de empregos precários (a precariedade estrutural e intencional), a concorrência intrínseca aos mercado entre empresas e países, etc.), acentuam o descontentamento e o antagonismo de classes. Contudo, ou por isso mesmo, o chamado “consumismo” propiciado com as políticas keynesianas de recuperação da crise de 1929, com a reconstrução do pós-guerra, com o progresso técnico e científico que a própria guerra propiciou, forneceu um fôlego sem precedentes ( julgaram-se até mesmo encerrados os ciclos das crises) e permitiu não só que o capitalismo resistisse a todas as crises sociais que percorreram o século passado, como desempenhou um papel crucial na derrota dos sistemas socialistas. O “comunismo”, diz a propaganda, demonstrou ser incapaz de concorrer com o capitalismo. Isto é : com Mercado.

 

Quero, portanto, enfatizar este aspeto e, ao mesmo tempo sublinhar a importância da atual crise do capitalismo. A diminuição da capacidade de consumo das massas sociais, que se traduz no depauperamento num polo e na acumulação da riqueza no outro polo (conclusão do Marx economista como se pode ler em “O Capital”), foi provocando aqui e acolá a contestação social (intensa nas últimas décadas do século passado, contestação que vai continuar seja qual for a sua forma. A orientação política do descontentamento pode ser contraditório : as massas votam em partidos cujos interesses verdadeiros não são os seus, porém a origem e a revindicação é a mesma : maior poder de consumo. Tão legítimo que assenta nas mínimas condições de sobrevivência física. Mais profunda é a contradição imanente ao capitalismo : a sua finalidade única é vender (realizar o capital que investiu e aumentá-lo infinitamente), no entanto sempre que pode congela os salários ou diminui-os. Ou pela simples vontade (quer e pode) ou por consequência da inflação, este outra característica do mercado capitalista liberal ou neoliberal.

A produção e acumulação de excedentes sempre constituíram o móbil de qualquer economia desde as origens e do desenvolvimento gradual e desigual da pastorícia e da agricultura. Razão principal da formação da propriedade privada de territórios férteis, de clãs, cidades com hierarquias sociais e classes, com Estados ou governos centrais. Milhares de anos passados o modo de produção capitalista surgiu e vingou em determinadas zonas do planeta por causa de novos meios de exploração : o assalariamento de camponeses pobres ou espoliados pelos grandes proprietários de dinheiro que puderam, assim, construir enormes manufaturas de têxteis e instalar meios mecânicos (a vapor) revolucionários . O que me importa defender é a tese de que o consumo de massa (ou para e pelas massas sociais), sob a fórmula comum de “consumismo”, foi, apesar das contradições profundas, o moderno instrumento fundamental de consentimento, integração e coesão social das formações sociais capitalistas (com forte impulso nos Estados Unidos durante e depois da Segunda Guerra Mundial), através também de coerção, porém sobretudo pela atração e manipulação da consciência social (das atitudes, intenções, desejos, vontades). Esse comportamento coletivo, insidioso, tóxico, de resignação em boa parte, porém mais ainda de consentimento voluntário,  associamo-lo à força planetária do moderno Mercado (para o distinguirmos dos mercados urbanos da Idade Média) , à publicidade que se iniciara na parte final do século dezanove na Europa e nos EUA, a técnicas sofisticadas de controlo social (não pela força bruta) - a imprensa e logo a seguir pelo cinema -, à criação de expectativas ( fecundadas pela generalização dos sufrágios e, portanto, das campanhas eleitorais) e às utopias (no sentido “fraco” do termo) capitalistas. Formar crianças e jovens para desejar com urgência o consumo de "modas" possibilitando sentimentos de pertença e configuração de "novas tribos", criar hábitos que se converteram em aditivos ou vícios, semear sonhos de enriquecimento recopiando as histórias da Gata Borralheira (sonhos tão antigos como a formação de elites nas primeiras cidades da Humanidade), inculcar nos estudantes pelas escolas projetos de vida dependentes do desejo (normalmente parental) de seguirem cursos profissionais e superiores para empregos rentáveis que realizassem sonhos de mobilidade social (na realidade dependentes de condicionalismos de classe), eis a finalidade de muitas pedagogias "espontâneas" ou pseudo-científicas, como se constata nas atividades “inofensivas” em jardins-de-infância (aprendendo a comprar), nos "jogos" em família, na persuasão exercida pelos media (publicidade e pelos centros comerciais, esses lugares por excelência dos passeios dominicais). (...)

domingo, 6 de setembro de 2026

 «A guinada política reacionária na América Latina não é obra exclusiva da extrema direita, mas sim resultado do esvaziamento do conflito social pelo centrismo progressista. Diante da ofensiva conservadora, a insubordinação extraordinária das massas segue sendo a única forma de romper o impasse.»

Entre a cruz e a espada: movimentos sociais e polarização política

Publico mais um artigo a favor da Carta (aqui editada) conhecida das "Duas tesouras". Concordo no essencial com o teor deste artigo e no essencial como o teor e oportunidade da Carta. O anti imperialismo tem destas contradições : lembro-me que uma parte da Esquerda esteve contra os protestos de massas contra o ditador Bashar al-Assad (regime no mínimo autoritário apesar das mulheres gozarem de direitos). Foram instrumentalizados pela Mossad e CIA? Sim, comprovodamente. Porém, isso não justifica a brutal repressão a qual, de resto, continuou até ao à derrota do regime. Outro exemplo : estivemos contra justamente a invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos ; porém, não esquecemos, não elogiámos, um regime obscurantista das cavernas e corrupto como sempre foi, produtor de papoilas. Acho, portanto, muito bem que a certa altura de um ataque imperialista se esclareçam as coisas. Aplico o mesmo raciocínio sobre a governação da Venezuela por Maduro e seus generais. r

 

Anti-imperialismo sem iranianos

Teerã (Irã)/ Imagem de Kamran Gholami

Por MINA FAKHRAVAR*

O adiamento da defesa dos direitos humanos sob pretextos geopolíticos reforça a opressão e enfraquece as forças transformadoras da sociedade

 

Oponho-me à guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, ao regime de sanções que a precedeu e a qualquer projeto de mudança de regime arquitetada externamente. Também me oponho à República Islâmica, um Estado que governa há quarenta e sete anos por meio de prisões políticas, execuções, coerção de gênero e a destruição metódica de organizações independentes. Sou uma pesquisadora feminista iraniana e passei tempo suficiente em espaços de esquerda na Europa e na América do Norte para saber que sustentar ambas as posições simultaneamente ainda é visto, em certos meios, como uma incoerência que precisa ser corrigida.

A polêmica em torno da carta aberta publicada no jornal Guardian sobre os presos políticos do Irã tornou essa exigência de correção incomumente visível. O conteúdo do documento não está em discussão. Ele é endereçado a ativistas, estudantes, acadêmicos, trabalhadores e artistas mantidos em prisões iranianas. O texto aponta o uso sistemático de tortura, os julgamentos injustos e as execuções estatais perpetradas pela República Islâmica, exigindo o fim imediato das execuções e a libertação de todos os presos políticos. Também condena a política dos EUA e de Israel em relação ao Irã, cita o ataque israelense à prisão de Evin em junho de 2025 e encerra pedindo o fim imediato da guerra e das sanções impostas pelos EUA e por Israel. Entre os signatários estão Angela Davis, Ruth Wilson Gilmore, Judith Butler e Yassin al-Haj Saleh. Por isso, a carta foi acusada de criar uma falsa simetria, de enfraquecer o Irã em tempo de guerra e de fornecer munição ao inimigo. Isso não significa que a carta esteja imune a críticas – há questões legítimas sobre quais vozes ela privilegia. No entanto, esses são argumentos para levar mais a sério o pensamento político dos próprios prisioneiros, e não para adiar a solidariedade a eles.

Vijay Prashad formulou a objeção com a maior clareza. Escrevendo dias após a publicação da carta, ele argumentou que “há um momento para fazer exigências e um momento para agir em solidariedade”, que “não existem neutralidade ou um ‘terceiro espaço’ em meio a uma guerra de agressão” e que a imagem da tesoura – duas lâminas, um só corpo – central na carta é “evocativa, porém equivocada”, uma vez que faz com que o agressor e a parte atacada pareçam fontes paralelas de um mesmo perigo.

Vijay Prashad não está defendendo a prisão de Evin, e vale a pena reconstruir o que ele defende de uma maneira mais contundente do que a que ele próprio apresenta. Lida dessa forma, a argumentação diz respeito à economia política do discurso: críticas expressas na metrópole durante uma guerra de agressão não circulam como críticas, mas como material de guerra; e os iranianos que dizem essas coisas em inglês contribuem – independentemente de suas intenções – para uma infraestrutura discursiva que culmina em mísseis de cruzeiro. Essa formulação é minha, não dele. É também a versão que merece resposta; e qualquer pessoa que tenha visto o sofrimento das mulheres iranianas ser transformado em pretexto para bombardeios sabe que tal visão não é paranoica.

O argumento desmorona ao entrar em contato com as pessoas que ele alega proteger.

 

O calendário do prisioneiro

Comecemos pela pergunta que o argumento do sequenciamento jamais responde: solidariedade com quem?

A prisioneira política iraniana não vive no tempo geopolítico. Bombas americanas não abrem a porta de sua cela. Sanções não suspendem uma ordem de execução. A assimetria avassaladora entre o poder militar dos EUA e o do Irã não faz com que seu interrogador, seu carcereiro ou o juiz do Tribunal Revolucionário desapareçam enquanto durar o conflito. Seja o que for verdade no nível dos Estados, no nível do corpo dela duas formas de poder operam simultaneamente, e nenhuma delas concordou em esperar pela outra.

Note-se, também, que o argumento não prevê uma condição de saída. Quem anuncia que a guerra acabou e que as críticas podem ser retomadas? Não a prisioneira iraniana. A República Islâmica já deixou clara a sua posição: declarou que as condições de guerra são precisamente o momento em que a repressão deve se intensificar. A Anistia Internacional documentou instruções do Judiciário aos funcionários, em abril, para acelerar processos com “extrema rapidez”; o alerta do chefe do Judiciário, em março, de que qualquer pessoa que agisse em consonância com “os desejos do inimigo agressor” seria tratada de forma “decisiva e severa”; além de mais de seis mil prisões arbitrárias, trinta e nove execuções políticas e um bloqueio da internet por oitenta e oito dias desde o início do ataque, em 28 de fevereiro. No final de julho, a Anistia Internacional alertou que pelo menos mais sessenta pessoas enfrentavam execução iminente.

O Estado iraniano e alguns de seus críticos anti-imperialistas no exterior chegam, por razões muito diferentes, à mesma sequência política: não agora. Um diz: não agora, há uma guerra em curso. O outro diz: não agora, há uma guerra em curso. A prisioneira é a única parte envolvida na discussão para quem o adiamento não é retórico.

 

As lâminas compartilham um mesmo eixo

O problema mais profundo na acusação de “falsa simetria” é que ela trata a metáfora como se fosse uma afirmação de equivalência moral entre dois estados. No entanto, a metáfora é mais bem compreendida quando descreve uma posição: a posição de pessoas sobre as quais diferentes formas de poder atuam simultaneamente. Como apontou Farah Mokhtareizadeh, a imagem das “duas lâminas” já vinha sendo utilizada pelo ex-preso político e ativista trabalhista Keyvan Mohtadi após Israel bombardear a prisão de Evin, enquanto sua esposa, Anisha Asadollahi, permanecia detida no local. O ponto central não era que os dois poderes fossem iguais, mas sim que ambos incidiam sobre a realidade vivida pelas mesmas pessoas. E, ao observarmos como a coerção externa e a repressão interna remodelam mutuamente os efeitos uma da outra, percebemos que essas duas pressões não podem ser tratadas como se operassem em compartimentos selados.

É aqui que o debate exige uma análise de classe, e não de cartografia. Considere o impacto de quatro décadas de sanções no equilíbrio interno de forças do Irã. Uma economia sob sanções não distribui o ônus de forma equitativa. As sanções não criaram o poder econômico dos setores paraestatais e ligados à segurança do Irã; décadas de contratos estatais e de pseudo-privatizações contribuíram para isso. Contudo, as sanções alteram o terreno em que os agentes econômicos competem. Empresas de pequeno porte e que operam formalmente perdem acesso a financiamento, tecnologia e mercados, ao passo que organizações já inseridas em contratos estatais e em redes transfronteiriças informais estão mais bem posicionadas para se adaptar. O resultado não é que as sanções deixem a elite governante incólume – longe disso. O que ocorre é que a coerção econômica externa pode, simultaneamente, empobrecer a sociedade e reforçar o poder de influência relativo das instituições mais próximas do poder estatal.

O rial fechou cotado a 2,02 milhões por dólar em 24 de agosto, um recorde. O preço do arroz subiu cerca de 60% desde fevereiro; o da carne bovina, mais de 150%. As projeções do FMI de abril indicaram uma queda de 6,1% na produção iraniana neste ano, com a inflação próxima de 69%. Esses números descrevem uma classe trabalhadora sendo esmagada. Eles não descrevem um Estado sendo enfraquecido de qualquer maneira que beneficie essa classe – e o iraniano comum, incapaz de comprar carne, sabe bem a diferença.

Enquanto isso, outra frente de ação atua sobre essas mesmas pessoas. Entre meados de julho e o início de agosto, as autoridades lacraram pelo menos quarenta e dois cafés, restaurantes e lojas, bloquearam ou apreenderam setenta e duas páginas e contas em redes sociais e obrigaram os responsáveis por outras vinte e uma a publicar compromissos de conformidade – a maioria relacionada à obrigatoriedade do hijab. Lacrar um café não é apenas um ato de imposição de normas de gênero; é uma redução salarial. Os funcionários são demitidos, o aluguel continua vencendo e os juros de empréstimos continuam a correr em uma economia onde a moeda perde valor semanalmente. Uma pesquisadora que conheço em Teerã foi recentemente impedida de frequentar uma importante biblioteca e arquivo após duas advertências sobre o hijab, ficando privada do material de que seu trabalho depende; a Biblioteca Nacional do Irã adotou a mesma medida contra mulheres usuárias em 2023.

Uma mesma trabalhadora pode ser empobrecida pelo bloqueio, aterrorizada pelos bombardeios e, em seguida, perder o emprego porque o Estado fecha seu local de trabalho por causa de um lenço na cabeça. Não há contradição no relato que ela faz de sua vida. A contradição reside em uma política que exige que as pessoas tenham apenas um opressor de cada vez.

 

De quem é o testemunho que conta?

O que está realmente em jogo neste debate não é o momento oportuno, mas a credibilidade – de quem é o relato sobre a realidade iraniana que detém autoridade política.

Para os iranianos, a credibilidade junto a setores da esquerda metropolitana tornou-se condicional, de uma forma fácil de demonstrar. Fale sobre o golpe de 1953, sobre as sanções, sobre os bombardeios israelenses, e o iraniano é visto como uma testemunha valiosa. Fale para o mesmo público sobre execuções, o uso obrigatório do hijab, a repressão aos trabalhadores da cana-de-açúcar de Haft Tappeh ou aos sindicatos de professores, e surge uma nova série de questionamentos. Por que agora? Quem se beneficia com o que você está dizendo? Você está reproduzindo narrativas ocidentais? Você já provou suas credenciais anti-imperialistas? O testemunho é aceito quando confirma o esquema geopolítico e questionado quando o complica. O conceito de injustiça testemunhal, de Miranda Fricker, ajuda a nomear esse déficit de credibilidade: o falante sofre uma injustiça especificamente em sua capacidade como sujeito de conhecimento.

Não existe uma voz iraniana única à espera de ser ouvida. Prisioneiros, trabalhadores, feministas, curdos, balúchis e organizações da diáspora iranianas discordam profundamente entre si – sobre sanções, sobre federalismo, sobre o que deveria substituir a República Islâmica. Essas divergências constituem pensamento político, e é isso que a configuração atual apaga: os iranianos fornecem o testemunho, e outra pessoa fornece o seu significado. Designar um intérprete diferente não resolveria isso.

Yassin al-Haj Saleh, que assinou a carta do Guardian e passou dezesseis anos nas prisões de Assad, descreveu essa mesma experiência há uma década. Ele a chamou de negação da agência epistemológica. Aos sírios era permitido fornecer o sofrimento, as histórias pessoais e as citações; o direito de definir o significado da Síria permanecia com outros. Ele recebia lições de esquerdistas europeus sobre o caráter imperialista de uma revolta que ele vivenciava na própria pele. Sua formulação continua contundente: um anti-imperialismo que só consegue reconhecer o poder imperial quando este está sediado em Washington acaba reproduzindo uma relação imperial no próprio domínio do conhecimento.

Essa tendência tem um nome. O “campismo” decide de antemão quais estados compõem o campo anti-imperialista e, então, interpreta toda luta social à luz desse alinhamento. No entanto, não se trata de uma política de equidistância ao estilo da Guerra Fria, e a posição iraniana não constitui um “terceiro campo” situado entre dois governos. Como argumenta Mokhtareizadeh, rejeitar tanto a guerra imperialista quanto a repressão interna é uma afirmação de autonomia política, e não de neutralidade. Trabalhadores, feministas e militantes de esquerda iranianos não estão posicionados a meio caminho entre Washington e Teerã; eles ocupam um lugar que o mapa do campismo não mostra.

 

O Irã já realizou esse experimento

Os iranianos não precisam de um experimento mental para saber o que acontece quando o anti-imperialismo é declarado a contradição primordial, à qual todas as outras lutas devem se subordinar. Nós temos a história.

As mulheres depararam-se com essa realidade em questão de semanas. No início de março de 1979, a Lei de Proteção à Família já havia sido revogada, Khomeini anunciara que mulheres não poderiam atuar como juízas e a imposição do uso do véu começava a chegar aos locais de trabalho. Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas. Elas debatiam a quem a revolução se destinava. Um de seus slogans era: “”A liberdade não é nem oriental nem ocidental — ela é universal”.

Mulheres de esquerda estavam entre as organizadoras dessas marchas, e algumas correntes da esquerda as apoiavam. Contudo, grande parte da esquerda organizada subordinou a autonomia das mulheres à unidade anti-imperialista. Quando o governo provisório pareceu recuar em relação à obrigatoriedade do véu, alguns grupos socialistas e democráticos deixaram de apoiar a manifestação convocada para 11 de março, argumentando que uma mobilização maior dividiria a revolução e beneficiaria o imperialismo. O ataque às mulheres podia ser reconhecido, mas ainda assim classificado como uma contradição cujo momento de enfrentamento não havia chegado.

A contradição manifestou-se no próprio seio da esquerda. Homa Nateq – historiadora, atuante nos meios dos Fedayeen e cofundadora da União Nacional das Mulheres – fez, mais tarde, uma avaliação severa de sua própria conduta. Em uma entrevista de história oral realizada em 1984, ela recordou ter ajudado a encerrar as manifestações em nome da unidade anti-imperialista e descreveu sua atuação como uma traição às mulheres iranianas.

Nada disso torna a esquerda responsável pela repressão que se seguiu. Essa responsabilidade cabe ao Estado que a executou. Em fevereiro de 1983, o Partido Tudeh –  que mais longe havia ido na interpretação da República Islâmica como uma força anti-imperialista – foi declarado ilegal; sua liderança foi presa e seu secretário-geral, posteriormente, submetido a uma confissão televisionada. Cinco anos depois, o Estado executou milhares de presos políticos, incluindo centenas de militantes de esquerda em uma onda repressiva posterior, na qual muitos foram interrogados sobre suas crenças e práticas religiosas.

O adiamento não protegeu ninguém. O Estado aproveitou aqueles anos para, em seguida, construir suas prisões e seu aparato de extermínio contra muitos daqueles que haviam aceitado tal adiamento.

 

Desafio não é emancipação

Parte do que impulsiona essa disputa tem pouco a ver com o Irã. Para setores da esquerda metropolitana, o Irã torna-se politicamente compreensível principalmente quando a República Islâmica confronta Washington ou Tel Aviv. Os mísseis, os discursos e a política de levar a tensão ao limite oferecem a prova de que alguém, em algum lugar, está recusando uma ordem sobre a qual ativistas no Ocidente se sentem impotentes para exercer influência. É um anseio compreensível. Trata-se, também, de substituir o movimento de um povo pelo Estado de outro.

O histórico regional demonstra por que é preciso distinguir os dois. O apoio iraniano à resistência palestina tem sido real e de consequências materiais concretas. Esse apoio também foi conduzido como parte de uma política regional estruturada em torno da dissuasão, da profundidade estratégica e da segurança do regime, coexistindo com a repressão interna a árabes, curdos e balúchis iranianos. A libertação palestina e as exigências estratégicas do Estado iraniano não constituem o mesmo projeto.

Os iranianos conhecem essa história por dentro. Marxistas iranianos treinavam e se organizavam junto a movimentos palestinos antes mesmo da existência da República Islâmica – e muitos deles acabaram sendo executados por ela. O antiautoritarismo e o anti-imperialismo não são tradições rivais na história política iraniana; eles têm coexistido, repetidamente, nos mesmos movimentos e nas mesmas trajetórias políticas.

 

O que a solidariedade realmente exigiria

Assim, quando iranianos que rejeitam tanto a dominação estrangeira quanto o autoritarismo interno entram na conversa, tornamo-nos inconvenientes. Interrompemos o espetáculo. Somos as feministas que estragam a festa da certeza anti-imperialista.

Mas um internacionalismo que exige que o povo de um país desapareça por trás de seu Estado não é internacionalismo; é uma posição de política externa com uma bandeira vermelha. A alternativa não é a neutralidade, nem um “terceiro campo” abstraído da correlação de forças. É uma orientação voltada para as pessoas, e não para os Estados: acabar com a guerra e suspender as sanções, pois elas estão destruindo a classe que poderia mudar o Irã; opor-se às execuções e às prisões políticas, já que trabalhadores, professores, feministas e organizadores que compõem essa classe são aqueles que lotam as prisões de Evin, Qarchak e Ghezel Hesar; apoiar os sindicatos independentes, os conselhos de professores, as redes de mulheres e as organizações curdas e balúchis que permanecerão lá quando esta guerra terminar, qualquer que seja o desfecho. E construir relações com eles, em vez de emitir declarações em seu nome – com cautela, pois, dentro do Irã, uma conexão com o exterior é tratada como prova, e a solidariedade praticada descuidadamente a partir do exterior é paga por outra pessoa. Rejeitar, enfim, a presunção de que um Estado conquista imunidade ao aprender a falar o vocabulário da resistência.

Uma esquerda digna desse nome deve ser capaz de dizer tudo isso de uma só vez. Não à guerra EUA-Israel. Não às sanções. Não às execuções. Não à tortura. Não aos presos políticos. Não ao hijab obrigatório. Não à dominação imperial, e nenhuma isenção para qualquer Estado que a invoque.

Os iranianos não devem a ninguém uma escolha entre seus algozes. Tampouco os palestinos, sírios, curdos, afegãos ou ucranianos. Se a emancipação é universal, nossa solidariedade precisa ser capaz de abarcar mais de uma verdade ao mesmo tempo.

*Mina Fakhravar é doutoranda em Estudos Feministas e de Gênero na Universidade de Ottawa.

Tradução: Sean Purdy.

Publicado originalmente no portal New Politics.

  Aterra é Redonda. blogue 

 

Le génocide “oublié” du Timor oriental soutenu par les États-UnisCORRECTION Host and Indonesian president, Suharto (3rd L), poses with Mexican President Carlos Salinas (L), Japanese Prime Minister Tomiichi Murayama (2nd L), US President Bill Clinton (3rd R), Malaysian Prime Minister Mahathir Mohamad (2nd R) and South Korean President Kim Young-sam (R) for a group photo during the 6th APEC summit in Bogar, Indonesia, 15 November 1994. AFP PHOTO/Toru YAMANAKA (Photo by TORU YAMANAKA / AFP)

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

 

ENRIQUE UBIETA GÓMEZ. Cuba en la encrucijada del “Nuevo Orden Trumpi/fascista”

EL DIÁLOGO COMO UNA OPERACIÓN MEDIÁTICA

La primera premisa de estas reflexiones es categórica: el gobierno de Trump jamás ha querido dialogar con Cuba. Su propuesta de diálogo, asumida en principio por Cuba, es una finta para desamarrar el nudo gordiano de la resistencia popular y del prestigio internacional que hemos ganado en décadas de consecuencia, una fina operación política y mediática para deslegitimar la Revolución, hacia afuera y hacia adentro. Para el actual gobierno de los Estados Unidos, la única solución posible es la destrucción, la sumisión total de la isla rebelde. Enemigos y amigos (que se atienen al manual de la vieja diplomacia) piden que cese la amenaza militar sobre la isla y que el conflicto se solucione por la vía pacífica, lo que significa negociar una salida. Pero los caminos están obstruidos en tanto la salida es inaceptable. Y una parte importante de la Humanidad (los pueblos, y yo diría que muchos gobiernos afectados por la política caótica de Washington), aspira en secreto a que Cuba resista. En la historia de los pueblos, como en la de los individuos, hay un punto de no retorno. Si un pueblo desafía los mayores poderes hasta el punto de que su propia existencia peligra (“los que van a morir te saludan”, retaba Fidel a Bush hijo, que amenazaba al país), no puede retroceder. Además del caso venezolano, me viene a la mente la traición de Syriza al pueblo griego, que después de consultarlo y recibir su respaldo para el repudio de la deuda, optó por ceder ante la presión europea. En ambos casos (Venezuela y Grecia) sus autoridades adujeron que lo hacían para impedir una masacre o una hambruna.

¿Cuáles han sido las matrices de opinión que el imperialismo ha construido para su actual campaña mediática? Hablo de una estrategia para dividir y desacreditar a la Revolución, y para deslegitimar al presidente Díaz Canel, basada en mentiras, medias verdades y hechos manipulados. Todas están enlazadas: la presentación de Cuba como Estado fallido, necesitado de apoyos externos para sobrevivir, como el de la Unión Soviética o Venezuela, y a la presentación de la actual crisis extrema como consecuencia no de las sanciones, sino de la incapacidad del gobierno para gestionar el país y el desvío de los recursos disponibles hacia la satisfacción de una elite gubernamental; la presunción de que el verdadero poder está en la “familia Castro” y su círculo, y de que Díaz Canel es solo un administrador sin capacidad de decisión. En este propósito ha jugado un papel simbólico Raúl Guillermo Rodríguez Castro, nieto de Raúl y jefe de su escolta. ¿Insistieron los emisarios del imperio en que fuese uno de los interlocutores?

Como nosotros —siguiendo el comportamiento diplomático tradicional para encuentros sensibles— guardamos silencio, ellos inmediatamente filtraron y sobredimensionaron su presencia y anunciaron la realización de “negociaciones” (entrecomillo la palabra, porque negociar la paz al estilo de Trump, supone grandes concesiones que nunca haremos): “en unas semanas tomaré Cuba amistosamente”, dijo el emperador. Esa frase era suficiente para romper cualquier contacto. No ha sido la única. Cuba sin embargo apuesta a que las supuestas o reales conversaciones ofrezcan a quienes se oponen al trumpismo un argumento más para luchar por la desmovilización militar.
No obstante, pensar que las declaraciones de Trump son actos de reafirmación personal, y que existe un segmento de su gobierno, incluso del sector militar, más serio y pragmático, capaz de detenerlo, es ilusorio. El binomio Trump – Rubio controla la política hacia Cuba. Nuestras conversaciones anteriores con gobiernos estadounidenses, hasta llegar a Obama, se produjeron en contextos diferentes. Entiéndase: Fidel siempre dijo —y un video que trasmitía una y otra vez la televisión, lo recordaba— que Cuba jamás negociaría con una pistola en la sien. “No nos gusta que nos amenacen”, decía.

El Poder en Washington hoy es fascista; lo que entiende por conveniente trasciende el concepto de relaciones moderadamente hegemónicas, necesita colonias. Su modelo presidencial para América Latina tiene ya varios rostros: Milei, Kast, Noboa, Fujimori, Bolsonaro, pero ninguno de esos lacayos sería adecuado para Cuba. Tampoco una Delcy Rodríguez, opción imposible en el entramado político cubano. La traición del actual gobierno de Venezuela para con su pueblo es una herida abierta en América Latina, especialmente dolorosa para Cuba. En nuestro país, según la Ley Helms-Burton, sería necesario un gobernador al estilo de Puerto Rico y una masacre previa de revolucionarios que lo permita.

De manera reactiva reconocimos públicamente que habíamos aceptado el ofrecimiento de diálogo, lo que ha sido una actitud de principio en la historia de la Revolución. En varias de sus intervenciones, Díaz Canel ha ratificado esa disposición. Dos maniobras del imperialismo, enlazadas en su aparente antítesis se sucedieron, para fortalecer el mensaje deslegitimador: Raúl Castro, el héroe y líder cubano, supuestamente al frente de la “negociación” (según los medios enemigos), es enjuiciado en ausencia por el “asesinato” de los pilotos del grupo terrorista Hermanos al Rescate; de la otra, una manipulada entrevista/perfil de Raúl Guillermo, que se regala con extrema ingenuidad política y muestra sus debilidades reales. Como era de esperar, esta última generó repulsa y la legítima protesta de los revolucionarios; pero también propició que los contrarrevolucionarios y los reformistas/autonomistas del siglo XXI aprovecharan ese performance para señalar la existencia de individuos que traicionan los ideales socialistas.
No se trata de marginar a los descendientes del liderazgo histórico, que deben ser ciudadanos con iguales condiciones de vida y de participación política y social; de hecho hay algunos que destacan por su aporte y modestia. Supongo que es un drama terrible, por el que transitó el hijo de Martí. Pero esas personas tienen una responsabilidad histórica en una sociedad que enarbola el paradigma de la justicia social. La idea que intentan sembrar de que en la Revolución cubana gobierna Raúl “y sus hombres”, poseedores del control económico y militar, es contraproducente. Ello conduce a la idea de que existen intereses diferentes y que incluso, alguno de esos hombres, o todos de conjunto, podrían usar a su favor o forzar según su parecer la toma de decisiones en nombre de un héroe legendario que, no hay que olvidarlo, tiene 95 años.

La persistencia del imperialismo en cercar con sanciones al conglomerado GAESA, una estructura económica exitosa creada dentro de las Fuerzas Armadas para romper el bloqueo estadounidense, que hereda su disciplina y su discreción, además de golpear a un sector vital de la economía cubana, es asociada a la matriz que sitúa a las FAR (y a su líder histórico) como el verdadero poder. Es cierto que Díaz Canel ha insistido, sin complejos, que en su gobierno se toman decisiones conjuntas y que no existen diferencias de criterio con Raúl. Pero su legitimidad, ganada a pie de pueblo, y de los sucesivos gobiernos que vendrían en el país, no puede depender del respaldo de ninguna figura histórica.

LAS MEDIDAS ECONÓMICAS Y SU IMPACTO IDEOLÓGICO

Quisiera detenerme en las 176 medidas recientemente adoptadas por el Partido y el gobierno cubanos. Mi análisis, lo reconozco, es ideológico, no económico. Aunque ambos planos están interrelacionados, miro la economía desde la atalaya ideológica y no al revés. Muchas de esas medidas habían sido ya discutidas y aprobadas en principio. Otras avanzaron más (algunos reformistas locales han declarado que las medidas fueron más lejos de lo que ellos habían propuesto) e introducen mecanismos económicos típicamente capitalistas. No pretendo discutir si existía o no otro camino; reconozco que las vías de financiamiento para la vida en Cuba se han obstruido al punto de provocar una parálisis general. Solo pretendo, como ya dije, valorar sus implicaciones ideológicas.

El proceso hacia la aceptación de mecanismos propios de una economía de mercado viene abriéndose paso, de manera integral, desde la aprobación de los Lineamientos (2011). Reitero: de manera integral, aunque puedan reconocerse antecedentes. Para la aceptación de ese camino convergen tres elementos infalibles: desesperación e impotencia de la población ante los efectos del bloqueo recrudecido, bombardeo mediático contrarrevolucionario y reformista/autonomista, y origen de la propuesta en el propio liderazgo de la Revolución.

No es un dato menor el hecho de que la primera versión de la nueva Constitución (2019) prescindiera de la palabra comunismo. A pesar de que las investigaciones sociológicas ya evidenciaban un deterioro importante del consenso popular en torno al socialismo, el pueblo reclamó ese horizonte, y la palabra fue reincorporada. No importa lo lejano que pueda parecer (y estar) el horizonte comunista y lo difuso de su planteamiento, si dejamos de considerarlo, la navegación pierde sentido, el río se transforma en lago, y el capitalismo parece “perfectible”, pero no superable.
Si consideramos que el crecimiento económico fue percibido como el principal trabajo ideológico, y se abandonaron las movilizaciones y las misiones del pueblo, los discursos pedagógicos y que, por otra parte, los cambios que desde entonces vienen introduciéndose arrastran su propia estela ideológica, la situación creada, que ahora se aduce como referente de partida (cuando en realidad es referente de llegada), es la de un retroceso en el consenso alcanzado y mantenido durante décadas en torno al socialismo. Añado que la guerra ideológica pasó de ser una batalla “persona a persona” (la Batalla de Ideas y el internacionalismo médico revitalizado de Fidel, sus últimos esfuerzos por recuperar las esencias del socialismo), a ser una guerra de redes sociales, donde la supuesta victoria radicaba en la cantidad de seguidores y de retuits.

El sobredimensionamiento de la capacidad de las redes para hacer política revolucionaria (y la subestimación en la práctica, a pesar de las continuas declaraciones al respecto, de su capacidad para hacer política contrarrevolucionaria) produjo un deterioro en las posibilidades de incidencia ideológica entre los jóvenes. Las redes están diseñadas, como las corrientes marinas, para alejar a los nadadores de la costa. Por último, de la “universalización” de la enseñanza que proponía la Batalla de Ideas (Fidel hablaba de convertir a Cuba en el país más culto del mundo) se pasó a una reducción de los currículos académicos (2013 – 2018), de acuerdo con los modelos “modernos” y se suprimieron asignaturas vitales (historia, filosofía y economía política marxistas) en carreras que aparentemente no las necesitaban. Aunque insisto, la escuela de una Revolución más que en los libros o en las redes (ambos son complementos necesarios), está en la calle, en la participación del pueblo, en la pedagogía del hacer, en la práctica revolucionaria.
El movimiento revolucionario cubano, latinoamericano y mundial ha aspirado siempre a la nacionalización de las grandes empresas extranjeras y a la eliminación de los latifundios, sean productivos o no. Eso es parte también de la historia de la Revolución cubana. La pregunta más importante que debemos responder en estas condiciones, para recuperar la dignidad de aquel consenso es simple: ¿por qué no se asumieron estas medidas antes? Los reformistas (término que en la historia de Cuba se asocia a una proyección no revolucionaria, y no a la adopción de reformas) dicen que este paquete debió implementarse hace 30 años y argumentan que no se hizo por culpa del dogmatismo y del esquematismo de algunos dirigentes y funcionarios.

¿Era dogmático Fidel? Es cierto que en determinados momentos aceptó cambios que eran inevitables, pero lo hizo no sin resistencia y bajo el presupuesto de que significaban un retroceso. Si entendemos bien sus palabras, en las condiciones del Período Especial debíamos consagrarnos a la conservación de las conquistas del socialismo. Ello no significaba la renuncia a proseguir su construcción en cuanto fuese posible. La adversidad nunca lo detuvo.
Sin embargo, el concepto de “conquistas de la Revolución” ha empezado a flexibilizarse y la privatización empieza a cortejar incluso a sectores como la salud y la educación. La disculpa más socorrida para cada medida, es que lo que se acepta ya existía de manera ilegal y solo se trata de legalizarlo. Pero los revolucionarios no administramos consensos y realidades previamente conformadas; derribamos lo establecido en la práctica y en las mentes para construir nuestros propios consensos y realidades.

La comprensión de lo que entendemos por socialismo es vital para el sostenimiento de la soberanía nacional. Hablar de sentimientos patrióticos en abstracto es una estrategia burguesa: las palmas, el mar, el barrio, los amigos, la familia, el juego de dominó, incluso la música, no son la Patria, no la Patria libre, justa, internacionalista, martiana y fidelista. La Patria abstracta que ya se manifiesta sin contrapeso en las redes sociales y en un segmento del discurso oficial, funde las dos posibilidades del destino nacional: Miami y La Habana, la colonia y la independencia (y sabemos que ambas no pueden coexistir), a favor de la primera, que es donde está el dinero.

Por otra parte, ¿qué es una conquista de la Revolución? Por ejemplo, la nacionalización de la Empresa Eléctrica yanqui, ¿fue una conquista revolucionaria? No me digan que la estatal no funciona, porque la privada de Puerto Rico, sin bloqueo, tampoco. La Reforma Agraria, ¿fue una conquista de la Revolución? En un sentido más profundo y complejo: ¿podremos sostener la mayor de las conquistas de la Revolución: el orgullo nacional, por ser el primer país libre de América, el de la victoria sobre el imperialismo en Girón, el del internacionalismo y la derrota del Apartheid en África, el de nuestros imbatibles campeones ajenos al mercado como Stevenson, Juantorena, Ana Fidelia, Mijain, las morenas del Caribe, los equipos de pelota capaces de triunfar sobre cualquier rival, profesional o amateur, las vacunas hechas en casa, más eficientes que las de grandes trasnacionales? ¿Por qué se condena como peligrosos seudomarxistas y ultraizquierdistas, a quienes expresan criterios que se oponen o que cuestionan algunas de las medidas adoptadas? Necesitamos un debate real, y si las opiniones de los revolucionarios que piensan de otra manera son consideradas “incomprensiones”, el debate se reduce a “que comprendan”.

De alguna manera, en lo económico, estamos más cerca de una concepción socialdemócrata (redistribución solidaria de la riqueza mediante impuestos y políticas sociales, en un llamado Estado de Bienestar, solo posible en países con un alto desarrollo económico) del socialismo. Con la diferencia de que pretendemos conservar el actual sistema político (partido único y dirigente de la sociedad y Poder Popular, que puede y debe profundizarse si queremos que ejerza el papel que el socialismo demanda), con la esperanza de que garantice la direccionalidad de las inversiones y de las ganancias en beneficio e interés social, según el modelo chino y vietnamita, dos países con enormes riquezas naturales, muy lejos geográficamente de los Estados Unidos, que crecieron sin bloqueo y con una emigración amistosa. La cultura del ser opuesta a la del tener, no era ciertamente una conquista, era un horizonte que por el momento se desvanece.

En esos países de cultura milenaria, los sentimientos patrióticos no dependen como en Cuba de concepciones socialistas. La nación cubana surge de una Revolución que empieza a germinar a fines del siglo XVIII e inicios del siglo XIX en un segmento privilegiado de su población y estalla en 1868, para alcanzar con los años a todos los estratos sociales en sucesivos combates antiesclavistas, anticolonialistas y antimperialistas, aferrada a un concepto cada vez más amplio y radical de justicia social. No es una nación (o si se prefiere, ajustando el concepto marxista de nación al Estado burgués, una protonación) que fue colonizada por una potencia extranjera, como las asiáticas, es una nación que el colonialismo engendró. Es Calíban, hijo de Próspero, hecho de las más diversas influencias y al mismo tiempo negador de estas. Una nación parricida. O es anticolonial y antimperialista, es decir, anticapitalista, o no es.
El debate podría extenderse incluso hasta un presupuesto extremo: ¿realmente existió el socialismo en Cuba? Tuvimos una economía estatizada, alegan algunos, pero no un verdadero control popular en cada fábrica, empresa, en cada comunidad. Nuestro concepto de socialismo estuvo lastrado por la práctica histórica y el cerco imperialista, y a pesar de ello, gracias al genio de Fidel, fue más democrático y participativo que otras experiencias. No solo ejercimos la solidaridad hacia el interior del país, también la practicamos hacia el mundo.
Es verdad que no haló parejo a sus ciudadanos: las diferencias sociales, eliminadas de las normas jurídicas y de la posesión de bienes, mantuvieron su presencia en la cultura y la economía del subdesarrollo, en las costumbres y en los diversos orígenes e identidades. Algunas zonas alejadas de los centros metropolitanos no alcanzaron los beneficios esperados. Pero el pueblo se sintió protagonista de la historia, consolidó su sentido de nación y vislumbró un horizonte común. ¿Seremos capaces de sostener y elevar el protagonismo del pueblo y del Partido, en la nueva estructura socio-clasista, en la que ya existe y en la que se avecina?

CONTEXTO INTERNACIONAL RESUMIDO

No puede entenderse la crisis económica y social por la que atraviesa Cuba si no se ubica en su contexto internacional. A partir del abrupto derrumbe o “desmerengamiento” del llamado sistema socialista, las fuerzas de izquierda han navegado a la deriva. No me refiero a quienes abjuraron de sus creencias y sintieron vergüenza de haber luchado alguna vez por los desposeídos, como si al caer la Unión Soviéticas y hacerse públicas sus manquedades (nadie habló más de sus éxitos), hubiesen desaparecido la pobreza y la explotación de unos hombres sobre otros y de unos pueblos sobre otros. Cuba fue la excepción en el hemisferio occidental. “No es que seamos el único país progresista, democrático y revolucionario —afirmaba Fidel en 1992—, es que somos el único país convertido en un islote de Revolución en un mundo prácticamente unipolar, a pocas millas del imperialismo hegemónico, y rodeado de capitalismo por todas partes; en un islote de Revolución entre el Atlántico y el Pacífico”.
Hablo de quienes han persistido en un ideal de justicia social. El unipolarismo de los años noventa llevó a Fidel a la convicción de que no era ya posible la lucha armada como vía para la toma del poder. El internacionalismo médico (reducido en años posteriores el simbolismo semántico de la palabra al de “colaboración”, más ajustado al lenguaje de las Naciones Unidas) revitalizado por Fidel en Centroamérica y Haití poco antes del triunfo electoral de Chávez, como una manera de construir ideología socialista también hacia lo interno, sin palabras, con hechos, fue parte de la nueva estrategia. “Ejército de batas blancas”, lo llamó. La irrupción de Chávez en Venezuela por la vía electoral abrió un nuevo camino y una nueva esperanza.

La democracia burguesa finamente tejida para sostener a la burguesía inicialmente revolucionaria en el poder e impedir la llegada a este de los grupos antisistema (de los reaccionarios y de los nuevos revolucionarios), mostraba un gran desgaste y muchos descocidos, y la voluntad popular empezaba a cobrar en las urnas los años de neoliberalismo. Aquella democracia se hizo inservible para la clase que le había dado origen. Poco a poco fue surgiendo un frente continental (Venezuela, Ecuador, Bolivia, Argentina, Brasil, El Salvador, Uruguay, Paraguay, Honduras, más algunas islas del Caribe) progresista, que se caracterizaba sobre todo por su oposición mayor o menor al imperialismo estadounidense y su latinoamericanismo.

Por un momento todo parecía posible: la casi muerte de la OEA y el nacimiento de la CELAC, sin la presencia de los Estados Unidos y Canadá. Siempre he sostenido la idea de que cada eslabón que se rompe o se agrieta en la cadena que nos mantiene supeditados al imperialismo, aún cuando el golpe provenga de una burguesía nacionalista (que no dejará de ser explotadora hacia lo interno), es un paso para la ruptura del orden internacional que sostiene al capitalismo en su fase actual.

Cuba, desde luego, había hecho una Revolución mucho más profunda, pero la nueva fórmula fue adoptada de inmediato, no solo por las izquierdas latinoamericanas, sino por las europeas. Se produjo entonces una situación contradictoria: el imperialismo (que no es solo estadounidense) y sus súbditos empezaron a desentenderse de la democracia burguesa que ya no era funcional, mientras acusaba a los estados progresistas de haber roto con ella, porque si esta no sacaba del gobierno a la izquierda intrusa en los cuatro o cinco años siguientes, como se presuponía, evidentemente no funcionaba.

En sentido inverso, la izquierda empezó entonces a defender el funcionamiento de la democracia burguesa (sin mencionar el apellido, como si fuera la única posible), y su propuesta en esos años no sobrepasó sus marcos estrechos. Cada cierto tiempo se sometía a elecciones burguesas, donde el dinero burgués/imperialista corría como es natural a favor de la oposición entreguista. A pesar de ello, esas izquierdas ganaron sucesivas elecciones (nunca reconocidas por el imperialismo, como era natural), pero se desgastaban cada vez más en el círculo vicioso de una guerra económica y mediática. La Revolución venezolana fue la más radical en sus transformaciones, con el doble efecto de las misiones sociales y la organización de comunas populares. La alianza de Chávez y Fidel elevó la apuesta internacionalista a planos superiores, con la Operación Milagro, y la conformación del ALBA – TCP.

Desentendido de las normas que exigía, el imperialismo organizó asesinatos, fraudes, golpes judiciales, mediáticos y militares, guerras económicas, demonización de estados y de figuras claves del progresismo y cuando fue posible, su encausamiento jurídico. En Cuba estábamos pendientes de cada triunfo o derrota electoral burguesa de los candidatos progresistas, y el Noticiero Nacional de televisión declaraba jubiloso que se había producido una “victoria de la democracia” cuando era reelegido uno de ellos, como si en realidad aquella fuese la democracia. Los partidos revolucionarios, inmersos en la carrera electoral, dejaron de buscar otro tipo de democracia verdaderamente popular y desestimaron, al menos en la práctica, la posibilidad de derrotar y superar al sistema capitalista. En muchos casos, las políticas progresistas de esos gobiernos fueron asistencialistas; otros aplicaron casi las mismas medidas neoliberales que habían combatido.

Mientras el imperialismo inyectaba en la conciencia social la idea de que un buen gobierno dependía únicamente de “una buena persona”, e igualaba a todos los políticos, los de izquierda y los de derecha, definiéndolos como corruptos o no corruptos, los candidatos de la “nueva” izquierda usaban los mismos mecanismos de presentación electoral que la vieja derecha, y sus propuestas no se alejaban mucho de las de sus adversarios. Algunos, temerosos y obedientes, respetaban los límites de lo “políticamente correcto”, y trataban de distanciarse de sus homólogos más audaces o vilipendiados, como Chávez o Fidel, a pesar de lo cual los acusaban de ser chavistas o fidelistas; a nosotros, sin embargo, nos acusaban de no ser como ellos.

El capitalismo vació de su contenido revolucionario y resignificó el discurso de la izquierda, de sus consignas y sus banderas. Y el pueblo dejó de creer en los políticos, en la política y en los partidos de cualquier color. Se dice que el auge de los sentimientos fascistas y la apatía ante las elecciones reflejan el descreimiento de la gente en la democracia. Es cierto, pero solo si la adjetivamos como burguesa. Los pueblos han dejado de creer, con razón, en aquella democracia. Es necesario que sepa que existe otra democracia, la popular, y que hay que luchar por ella.
Entretanto, ocurrió una pandemia que afectó a los países ricos y a los pobres, y que evidenció el fracaso del capitalismo, incluso en los estados de mayor desarrollo económico. El sistema se tambaleó, y los grandes magnates, desnudos, se sintieron horrorizados ante la exposición pública y las posibles consecuencias. Cuba envió brigadas médicas a más de 40 países, algunos de Europa, como Italia y Andorra y creó tres candidatos vacunales muy efectivos que las grandes trasnacionales farmacéuticas bloquearon. Sin embargo, nada pasó, quiero decir, nada hizo la izquierda; inmersa en los mecanismos democráticos de la burguesía, ya había interiorizado la imposibilidad de derrotarlo. Por un instante, parecía posible que de aquel desastre emergiera un mundo nuevo, más justo. Ante la parálisis de la izquierda revolucionaria, la derecha regresó ajustando sus mecanismos de control, restringiendo aún más los derechos de los trabajadores.

La guerra económica entre las grandes potencias se intensificaba. China emergía como un poderoso centro alternativo capaz de disputar la hegemonía global a los Estados Unidos. Incluso durante la pandemia fue la única economía que creció de manera constante. En 2010 se constituyó formalmente una asociación económico–comercial alternativa al G-7, integrada por economías emergentes de enorme potencial: los BRICS (las iniciales de Brasil, Rusia, India, China y Sudáfrica, más otro grupo de países que se han sumado con posterioridad). Esta asociación empezó a utilizar las monedas nacionales de sus respectivos países en sus transacciones comerciales, prescindiendo del dólar estadounidense. La hegemonía del imperialismo occidental estaba seriamente amenazada.

La pandemia de Covid-19 surgida en 2020 se extendió hasta el 2023. Ya en sus últimos meses, el imperialismo, liderado por los Estados Unidos, iniciaba la contraofensiva. El fuego de la guerra se extendía rápidamente: en Ucrania, con el propósito no conseguido de debilitar a Rusia (2022) alentado y auspiciado por la OTAN; en Gaza (2023), donde el gobierno sionista de Israel perpetra impunemente un genocidio contra su población civil, con el apoyo europeo y estadounidense, que ya ha cobrado la vida de más de 73 000 seres humanos, con incursiones en Líbano y Siria; y más recientemente en Irán (2026) por fuerzas conjuntas de Israel y Estados Unidos.

Pero el regreso del convicto Donald Trump a la presidencia de los Estados Unidos en 2025 marcaría un punto de inflexión en las relaciones políticas internacionales. Si la democracia burguesa ha estado desde hace décadas enferma de muerte, la llegada de Trump ha dado el golpe final al viejo orden internacional establecido por las potencias triunfantes de la II Guerra Mundial. El imperialismo ha comprendido que solo puede sostener su hegemonía mediante la fuerza bruta, el chantaje y la extorsión, métodos nada nuevos, pero que hoy se aplican sin disfraces o convenientes excusas. Los Estados Unidos han declarado que en lo adelante no se someterán a las normas de convivencia de las Naciones Unidas y que harán valer a cómo de lugar sus intereses imperiales. El primer ministro de Canadá Mark J. Carney, fue brutalmente honesto y cínico al describir la situación creada:

«Durante décadas, países como Canadá prosperaron bajo lo que llamamos el orden internacional basado en normas. (…) Sabíamos que la historia del orden internacional basado en normas era parcialmente falsa. Que los más fuertes se eximirían cuando les conviniera. Que las reglas comerciales se aplicaban de manera asimétrica. Y que el derecho internacional se aplicaba con rigor variable según la identidad del acusado o de la víctima. Esta ficción era útil, y la hegemonía estadounidense, en particular, ayudó a proveer bienes públicos: rutas marítimas abiertas, un sistema financiero estable, seguridad colectiva y apoyo a marcos para resolver disputas». Y sentenciaba:
«los fuertes hacen lo que pueden, y los débiles sufren lo que deben. Este aforismo de Tucídides se presenta como inevitable: la lógica natural de las relaciones internacionales reimponiéndose».

Pareciera que el Nuevo Orden más justo que pedíamos los países del Sur ha sido definitivamente sustituido por la ausencia de todo orden. Los países arriban a la fase vergonzante de “portarse bien”. Los pueblos reclaman cambios profundos pero no tienen un horizonte al que asirse y no confían en los políticos y en los partidos que solo piensan en sobrevivir. El fascismo en cambio propone cambios “profundos” en el peor de los sentidos, y atrae a un segmento desesperado de la población.

Pero el propio Carney advierte: “ante esa lógica, existe una fuerte tendencia de los países a adaptarse para encajar. A acomodarse. A evitar problemas. A esperar que el acatamiento compre seguridad. No lo hará”. Si Europa está postrada, ¿qué podríamos decir de los países latinoamericanos donde el fraude anunciado y la presión económica han impuesto a gobernantes títeres? Por otra parte, los BRICS, que necesitan como aliado al movimiento antimperialista, no por convicción ideológica, sino porque es una importante herramienta de presión, no se han mostrado unidos. La ausencia de una ideología común o de una actitud que no se limite al beneficio inmediato de cada miembro por separado, ha producido costosas inconsecuencias en su seno y pueden frustrar su capacidad para imponer un orden multilateral. Cuba es más que nunca una isla (un islote decía Fidel en 1992). Ha recibido apoyos importantes de China y Vietnam, así como de Rusia, pero tendrá que valerse por sí misma.

El 3 de enero de 2026 la resistencia de América Latina se fracturó en Caracas. Treinta y dos cubanos ofrendaron sus vidas por la Revolución bolivariana y latinoamericana, pero sobre todo por Cuba. No traicionaremos a esos heroicos combatientes. El imperialismo avanza cada vez más y el mundo parece retroceder, bajar la cabeza, guardar silencio. Construye una Falange internacional fascista, para supuestamente combatir el terrorismo de izquierda. Ha situado a Cuba como la capital del comunismo mundial, que ellos califican de terrorista. No habrá mucho tiempo ni pretendientes para las reformas. Si bien la lucha armada no era ya el camino, como advirtiera Fidel, es posible que el imperialismo nos obligue a retomarla. La historia de Cuba nos reclama, nos exige. En el centenario de Fidel, su consigna resuena más alto que nunca: ¡Socialismo o Muerte! Porque no siempre la muerte es una derrota, a veces es la única manera de vencer.

26 de julio de 2026

Viagem à Polónia

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