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terça-feira, 1 de setembro de 2026

 

“A barbárie não é o passado que vai embora: é o presente que retorna.”

Walter Benjamin (adaptação)

Eu. Coordenadas de um tempo em crise

Este texto surge de uma preocupação que é, ao mesmo tempo, intelectual e política no sentido mais rigoroso do termo: a constatação de que o mundo contemporâneo está passando por uma inflexão histórica de consequências ainda incalculáveis e incertas. Sabemos que nenhuma perspectiva isolada (sociológica, política, histórica, psicológica, semiótica) é suficiente para dar conta da magnitude do fenômeno que paira sobre as sociedades do século XXI: a ascensão sustentada, sistemática e globalmente coordenada da ultradireita, em suas variantes neofascistas, ecofascistas, neoautoritárias e supremacistas.

Para entender o fenômeno, e talvez dar algumas pistas para mitigá-lo e neutralizá-lo, você precisa de uma articulação de olhares, pontos de vista, com uma busca pragmática por ação política. O que está acontecendo, embora possa ser lido procurando relacionar todas aquelas facetas em muitos dos sistemas políticos de hoje, pode ser confrontado com alguma possibilidade de sucesso apenas no âmbito político, ou seja, no campo de interação de poder entre o nacional, o regional e o global.

Existe um processo que desafia os quadros interpretativos herdados. As categorias desenvolvidas pela ciência política clássica tanto da esquerda quanto da direita, progressismo e conservadorismo, democracia e autoritarismo, são insuficientes para capturar a densidade e a complexidade do que está acontecendo atualmente. Agora fala-se mesmo, de um protecionismo nacionalista versus um globalismo pós-expansionista, dentro de um contexto geopolítico tripolar em transição.

Não é simplesmente um deslocamento do pêndulo ideológico, aquela oscilação cíclica que os analistas costumam invocar para relativizar a gravidade de cada situação. O que está em jogo é algo qualitativamente diferente: uma profunda reconfiguração intergeracional dos imaginários sociais, dos quadros de legitimidade política, das realidades cotidianas e hiper-realidades e dos dispositivos de produção de significado e significado coletivo sociocultural.

Na América Latina, Europa, Ásia, África e Norte Global, com expressões particulares em cada contexto, mas com um inconfundível denominador comum, participa-se do retorno ou ressurreição de ideologias que os consensos do pós-guerra declarados moralmente derrotados em 1945. O fato histórico é perturbador: o pensamento que levou aos campos de extermínio e à devastação da Europa não foi simplesmente desativado pela derrota militar do Eixo. Sobreviveu, reconverteu, encontrou novas gramáticas e arquiteturas organizacionais (estruturas e dinâmicas), e hoje apresenta-se, com renovada audácia, como resposta legítima às crises da pós-modernidade tardia, no início do século XXI. Vale aqui aquela frase pertencente a Juan Ruiz de Alarcón “Os mortos que você mata gozam de boa saúde”.

II. O neofascismo como fenômeno sistêmico: além da chamada excepcionalidade

Um dos erros analíticos mais frequentes é tratar a ascensão da ultradireita como uma anomalia, como um desvio patológico de uma norma liberal que teria que ser funcionada corretamente até ser perturbada por líderes carismáticos e demagogos. Esta leitura, confortável para os defensores da ordem neoliberal, esconde mais do que revela. O neofascismo contemporâneo não é um acidente: é, em grande medida, um produto das contradições não resolvidas do capitalismo neoliberal tardio e das promessas não cumpridas da democracia representativa que são regularmente recicladas ou são recorrentes.

A crise orgânica do sistema capitalista global, que não encontrou saída estrutural desde a rachadura financeira de 2008, produziu um terreno fértil propício à proliferação de discursos que oferecem identidades fortes, hierarquias claras e inimigos reconhecíveis em vez de soluções sistêmicas. Décadas de pregação neoliberal, com sua exaltação do indivíduo competitivo, sua erosão dos laços de solidariedade comunitária e sua naturalização da desigualdade como resultado do mérito pessoal ou fracasso, prepararam o terreno subjetivo para o surgimento daquele sujeito que os teóricos críticos chamam de homoeconomicus autoritário: dispostos a sacrificar as liberdades coletivas em prol da segurança, da ordem e do pertencimento nacional-étnico.

Também contribuem para esse renascimento de posições de ultradireita o esgotamento das experiências do socialismo real, a campanha anticomunista generalizada e sistemática que foi implantada durante anos durante a Guerra Fria e que, com novas características, ainda perdura, o supremacismo racista e patriarcal -nunca desapareceu- que vê no outro sempre uma ameaça, um clima geral, já estabelecido como uma tendência normalizada, que aceita acriticamente qualquer solução " A complexa combinação de todo esse terreno fértil tem permitido o surgimento deste novo modelo neofascista em nível global.

Vale aqui a pena recuperar a distinção gramsciana entre crise orgânica e situação política. Gramsci observou que quando a crise abala não apenas as instituições, mas os profundos consensos que as sustentam, quando os velhos quadros de sentido perdem sua capacidade de integrar a experiência social, abre-se um interregno em que podem surgir “morbosidades muito variadas”. O que está sendo testemunhado é precisamente isso: um interregno, um momento em que as certezas que organizaram o mundo do pós-guerra se dissolveram sem que novos horizontes emancipatórios se cristalizassem, e em que os ultra-direitos se aproveitaram daquele vácuo com uma eficácia que a esquerda progressiva ainda não conseguiu neutralizar.

Isso deve ser reconhecido com total objetividade: a direita, no sentido mais amplo do termo, conheceu/pode contrariar o discurso da esquerda, alcançando uma narrativa que, apesar de absolutamente questionável, foi entronizada muito mais do que as denúncias que o socialismo fez desde o seu amanhecer no século XIX. Esses têm razão, têm muito a perder. Ou seja, enquanto a classe dominante tem uma riqueza monumental incalculável, que defende um manto e uma espada; a classe trabalhadora só pode perder “suas cadeias” – as oligarquias nacionais e internacionais têm feito, continuam a fazer e farão qualquer coisa à sua disposição para manter sua hegemonia, seus interesses adquiridos, seus investimentos e lucros e suas preberâncias exorbitantes. Embora anos atrás eles cuidassem das formas de discurso, falando do “politicamente correto”, e promovendo e chamando a “democracia formal” como o sumúnio do desenvolvimento social, econômico e político, hoje esses direitos são descarados, brutais e implacáveis em sua prática política no exercício do poder. Seguindo Miguel Mazzeo você pode dizer que:

“Ao contrário da linguagem tradicional certa, a linguagem da ultradireita [corrente] não procura construir uma retórica que não seja exibida como tal. Ele não quer esconder nada aberrante, nada rude, nada de absurdo. A linguagem da extrema-direita revela sua aspiração perversa ao “mal comum” e à dissolução social e comunitária, enquanto celebra abertamente a ganância, a injustiça e a crueldade em todas as suas formas.

O neofascismo do século XXI distingue-se do fascismo histórico por diversas características que é fundamental identificar para compreender o seu poder de sedução, multiplicação e extensão.

Primeiro, opera principalmente dentro dos quadros formais da democracia representativa: chega ao poder através de eleições, invoca a vontade popular como fonte de legitimidade e é apresentada como a suposta antítese do estabelecimento, mesmo que seja funcional aos interesses das elites econômicas mais concentradas em nível nacional e internacional.

Segundo, ele articula seu discurso com as ferramentas do espetáculo da mídia e da cultura das celebridades, produzindo líderes que encarnam o ressentimento e a promessa de restauração de uma ordem imaginada. Daí, por exemplo, um personagem como Trump – ele foi capaz de ganhar o dobro da eleição presidencial, com discursos insubstanciais focados apenas em declarações pomposas, preteristas emocionais-afetivos de “ser grande novamente”, para recuperar o terreno hegemônico perdido – neste caso, antes da China principalmente – todos os quais exacerbaram os humores e “se apaixonam” por seu eleitorado (base paranóica de supremacia,

Em terceiro lugar, e este é talvez o mais recente, ele depende das infraestruturas do capitalismo de plataforma para espalhar sua mensagem, ignorar os filtros de mídia tradicionais e construir comunidades afetivas transnacionais de seguidores. Cada vez mais, em qualquer lugar do mundo, a política “oficial” é mediada pelo mundo digital do ciberespaço, pelas redes sociais inefáveis, sempre com a mais difundida, estratégica e relevante participação da inteligência artificial (IA). As mensagens divulgadas já nem sequer apresentam plataformas eleitorais possíveis, mas constituem motivações emocionais e desinformativas. “Você tem que dar entretenimentos apaixonados, estúpidos e rápidos, para que as pessoas não pensem, apenas evoquem o principal afetivo”, recomendou um professor nessas mentiras, o Austro-alemão Günther Anders.

Entre alguns exemplos dos atuais governantes e partidos políticos da ultra-direita mundial em três continentes está, na América Latina: Milei na Argentina, De la Espriella na Colômbia, Kast no Chile e Asfura em Honduras; na Ásia: Modi na Índia, e Takaichi no Japão; na Europa: Meloni na Itália, Andrej Babiš na República Tcheca e Petteri Orpo na Finlândia. A nível partidário na Europa: o SPD, co-governo na República Checa, o Fratelli d’Italia, o principal agrupamento/partido no governo italiano e a AfD, que poderá chegar ao governo central na Alemanha em um futuro não distante com uma forte presença em algumas regiões do país.

Esses partidos políticos reivindicaram o supremacismo e o etnocentrismo europeus “de raça, cultura e história superior”. Todo esse espectro de personagens e entidades políticas, têm obtido cada vez mais maiorias nas urnas. Portanto, dentro dos quadros de democracia representativa, eles são totalmente legítimos e partiram, ou estão sendo feitos em vários casos mais fortes.

III. Fetichismo, psicopatologia social e a dimensão subjetiva da virada reacionária

Para captar essa complexa dinâmica, propõe-se uma leitura que articula a economia política com a psicologia social e a teoria cultural de massa. Essa articulação é metodologicamente indispensável, pois o fenômeno que nos diz respeito não pode ser reduzido apenas às suas determinações estruturais, mesmo que sejam decisivas. Há uma dimensão subjetiva, afetiva e identitária que abordagens exclusivamente economicistas e sociólogas não conseguem captar.

Marx, em sua análise do fetichismo da mercadoria, demonstrou como as relações sociais entre as pessoas assumem a forma fantasmagórica de relações entre as coisas: a mercadoria aparece dotada de propriedades que realmente correspondem ao trabalho humano que a produziu. Este investimento fundamental, que transforma o que é produzido pelos seres humanos em algo que os domina, não se limita ao campo da produção econômica. Estende-se a todo o campo da cultura, política, subjetividade, suas novas variedades de significados e significativos. O fetichismo contemporâneo se expandiu para incluir nações, etnias, líderes carismáticos e comunidades imaginadas que funcionam como mercadorias políticas: eles condensam desejos, medos e fantasias, e oferecem identidades capazes de dar sentido a vidas fragmentadas pela precariedade, solidão individual e anomia coletiva.

A esta dimensão fetichista acrescenta-se o que se pode descrever como “psicopatologia social de dominação”. As subjetividades produzidas por décadas de capitalismo neoliberal hipercompetitivo, ansioso, narcisista e egoísta; estão focadas no consumismo voraz e, em grande medida, são escravos hoje do mundo digital, incapazes de sustentar vínculos de solidariedade duradoura, são extraordinariamente permeáveis aos “discursos de ressentimento”. Nietzsche identificou o ressentimento “como a moral dos fracos que se apresentam como fortes pela definição reativa de um adversário ou inimigo”.

O fascismo histórico era em grande parte uma política de ressentimento: encontrou no judeu, no comunista, no cigano, no homossexual, no outro que condensava todas as frustrações e humilhações das classes médias arruinadas pela modernização capitalista. O autoritarismo, o neofascismo e os eco-fascismos contemporâneos operam com a mesma lógica: o imigrante, a feminista, a pessoa racializada, a comunidade LGBTQ+, o intelectual esquerdista, os direitos humanos, os direitos civis, o defensor dos direitos étnicos e os territórios e comunidades, ocupam o lugar do outro que deve ser expulso, massacrado, exterminado, para que o povo “eleito” possa recuperar seus

Uma pergunta que desconcerta, refere-se ao que foi dito por qualquer jovem, da Argentina, que foi perguntado por que ele havia votado em Milei: como pode um jovem de vinte e poucos anos afirmar orgulhosamente que ele votou porque “é legal ser um fascista”? Isso não suporta uma resposta simples. Não se trata de ignorância, embora a ignorância seja um fator importante. Não se trata apenas de manipulação de mídia; outro fator importante a ter em conta, é que a arquitetura/estrutura de comunicação do direito foi projetada com sofisticação monstruosa, foi calculada para fins claros e tem sido muito eficiente em seus impactos.

Trata-se então de uma convergência de fatores em que o desamparo subjetivo, a promessa de pertencimento identitário, o capital estético (a satisfação do desvio social e/ou a sociopatia da transgressão), e a naturalização gradual dos discursos supremacistas através da repetição e viralização nas redes do ciberespaço, produziram um novo senso comum que torna imaginável, e até desejável, o que teria sido impensável há algumas décadas.

IV. Comunicação como campo de batalha: arquiteturas de ódio e desinformação

Ningún análisis del ascenso de las ultraderechas puede prescindir del estudio de los dispositivos comunicacionales que lo han hecho posible. La revolución digital no ha sido neutral: ha producido condiciones inéditas para la producción, circulación y amplificación de discursos de odio, las fobias socioculturales, la desinformación y propaganda supremacista, discriminativa y xenofóbica. Asimismo, las redes sociodigitales, diseñadas por el capitalismo de plataformas con la lógica del engagement (adherirse, darle seguimiento, e identificarse con; ¿podría decirse “adicción”?), que maximiza la atención mediante el privilegio algorítmico de los contenidos más perturbadores y emocionalmente activantes, han operado como aceleradoras de la polarización y de la radicalización, incluso a niveles arriesgados o peligrosos.

A extrema-direita tem sido, neste campo, sistematicamente mais ágil, mais criativa e disposta a quebrar as convenções do que a esquerda progressista. a direita é baseada em diferentes formas de mentiras: “Se você quiser, você pode”, “tudo depende de você”, “os pobres são pobres porque não se esforçam”, “o próximo governo resolverá efetivamente as coisas”. Embora as forças críticas tenham tendido a privilegiar argumentos racionais, análises complexas e discursos apelando para a consciência crítico-reflexiva, a direita radical compreendeu, intuitivamente em alguns casos, estrategicamente em outros, que a política é adquirida no plano de emoções, mitos e identidades. Eles produziram memes, vídeos virais, slogans simples, anúncios chocantes, cartazes alusivos e narrativas de restauração nacional que penetram e afetam diretamente o plano afetivo-emocional, ignorando o filtro da racionalidade crítica, apagando-o das mentes das maiorias. “Parceias sãs e atraentes explorarão efetivamente as técnicas mais eficientes para manipular emoções e controlar a razão”, perguntou o ideólogo polonês-americano Zbigniew Brzezinski.

A esto se suma el fenómeno de la desinformación sistémica, que ya no opera únicamente mediante la producción de noticias falsas individuales, sino mediante la saturación del espacio informativo con versiones contradictorias de la realidad que producen confusión, cinismo y desconfianza generalizada. Cuando todo parece relativo, cuando todas las fuentes son igualmente sospechosas, cuando la verdad aparece como una construcción interesada, el terreno queda abonado para los líderes fuertes que ofrecen certezas simples y verdades evidentes, que interpelan al sujeto que ya no sabe en qué creer con el lenguaje de la autenticidad y el sentido común. Es ahí donde la evidencia es manipulada, inventada y dada como una certeza bien cimentada, aunque toda ella sea falsa, hiperrealista o sesgada. Estamos en el reino de la post-verdad: la verdad se ha evaporado, no importa. Solo queda la reacción emocional. Recordemos la cita de Anders: “Entretenimientos estúpidos, que la gente no piense, evocar solo lo afectivo primario.

V. A exaustão da esquerda e a crise do projeto emancipador

Sería intelectualmente deshonesto atribuir el ascenso de la ultraderecha únicamente a factores externos a las tradiciones emancipadoras. Corresponde examinar, con el mismo rigor crítico con que se analiza al adversario, las razones internas del agotamiento de las izquierdas y de los proyectos progresistas en el escenario contemporáneo (léase: imprescindible y urgente autocrítica constructiva).

O colapso dos socialismos reais, com a queda do Muro de Berlim em 1989 e a desintegração da URSS em 1991, tiveram consequências que vão muito além da derrota geopolítica de um bloco. Envolveu a deslegitimação generalizada das utopias emancipatórias do capitalismo global, o triunfo ideológico do discurso que proclamou o fim da história e a naturalização do capitalismo como horizonte intransponível. A esquerda, atravessada por profundas crises de identidade e programa, encontrou, com notáveis exceções, maneiras convincentes de reinventar o projeto emancipatório nas condições do capitalismo tardio.

A estas dificultades estructurales se añaden errores propios: discursos excesivamente técnicos y academizados, incapaces de interpelar/motivar a amplias capas de la población; fragmentación identitaria que, en algunos casos, ha privilegiado las demandas de reconocimiento sobre las de redistribución, produciendo coaliciones que resultan ajenas a sectores populares con experiencias de clase muy concretas; prácticas sectarias y disputas internas que han debilitado la capacidad de acción colectiva; y, en algunos contextos latinoamericanos, gobiernos progresistas que no lograron superar los límites del modelo extractivista y que reprodujeron, bajo nuevas formas, viejas lógicas de nepotismo, clientelismo, corrupción, opresión, subordinación y vulnerabilidad que erosionaron su legitimidad.

Esto no equivale a establecer una falsa equivalencia entre izquierda y derecha, ni a sugerir que las fallas del progresismo justifican el avance del neofascismo. Equivale, en cambio, a señalar que la respuesta al fenómeno que está siendo analizado requiere también una autocrítica honesta y un trabajo de renovación del pensamiento y la práctica emancipadores. ¿Cómo oponerse a los algoritmos tendenciosos, sesgados y manipuladores? ¿Cómo organizar sindicatos con población que hace trabajo en línea, para aclarar las falsedades y las desinformaciones e informar con veracidades y evidencias comprobables?

VI. Tecnologia, desumanização e a sobra e assunto desnecessário

Entre los factores que contribuyen a la emergencia del malestar social que las ultraderechas capitalizan, debe prestarse especial atención al papel de las nuevas tecnologías y a la experiencia de desplazamiento e inutilidad que generan en amplias capas de la población. La automatización, la inteligencia artificial y la robotización de procesos productivos no son fenómenos neutrales: dentro de las relaciones sociales capitalistas, producen una creciente masa de trabajadores(as) cuyas habilidades quedan obsoletas, que experimentan de manera visceral la sensación de ser prescindibles o innecesarios(as), de no tener un lugar en la economía de la información y el conocimiento. Por supuesto, apurémonos a aclarar que desde una ética progresista nadie, absolutamente nadie, puede “sobrar”. Pero el avance tecnológico -implementado solo a favor de la tasa de ganancia y no del bienestar general- logra esa sensación.

Essa experiência da dispensabilidade que os sociólogos do trabalho descrevem como a produção de uma nova “classe de sobras” gera um terreno subjetivo propício às narrativas da ultradireita. Se o sistema me faz sentir sobra, se a economia globalizada me torna desnecessário, a promessa de restaurar uma ordem em que eu, como membro do povo escolhido, tenho um lugar novamente, é poderosa, edificante e até mesmo “transcendental”. O supremacismo não é apenas um erro cognitivo: é também uma resposta perversa e reacionária a uma experiência real de exclusão, pobreza e degradação socioeconômica e sociocultural que o capitalismo neoliberal tardio produziu e produziu massivamente.

El endiosamiento de la tecnología como solución a todos los problemas humanos, la ideología del solucionismo tecnológico que impregna los discursos de las élites del Silicon Valley y sus equivalentes globales funcionan, paradójicamente, como aceleradores de ese malestar social. Cuando la tecnología se presenta como sustituta del pensamiento, como facilitadora de una vida sin esfuerzo cognitivo, no solo promete un empobrecimiento enajenante, también debilita las capacidades analítico-críticas que serían necesarias para resistir la penetración de los discursos autoritarios y supremacistas. ¿Cuánto tiempo diario se dedica a la lectura, y cuánto a las redes sociales?

VII. Patriarcado, misoginia e supremacismo: as dimensões de gênero do neofascismo

A análise da ascensão da ultradireita seria incompleta sem atender à sua dimensão de gênero. O neofascismo contemporâneo em suas formas é, constitutivamente, profundamente patriarcal, machista e misógino. Não como uma característica acidental ou secundária, mas como um elemento estrutural de seu projeto político: a restauração da ordem desejada é inseparável da restauração do domínio masculino, da derrota do feminismo e do rebaixamento das mulheres para o espaço doméstico e reprodutivo. Daí a ascensão do que poderia ser chamado de “movimento submisso de mulheres”, popularmente conhecido hoje como o fenômeno das tradwivesesposas tradicionais. Ou seja: tendência ideológica-cultural em que as mulheres jovens promovem e adotam papéis de gênero rigorosos, tradicionais e conservadores (atenção do doméstico, criando filhos), dando autoridade econômica e liderança domiciliar a seus maridos ou parceiros heterossexuais.

Los movimientos de ultraderecha han identificado el feminismo como uno de sus principales adversarios ideológicos, y no sin razón; el feminismo es en sus múltiples vertientes, una de las tradiciones de pensamiento crítico que más profundamente ha cuestionado las “jerarquías naturales” en las que se basa el orden que las derechas radicales quieren restaurar. La violencia retórica y física contra las feministas, la deslegitimación de los estudios de género, la demonización de la llamada “ideología de género”, constructo polémico que las derechas han diseñado estratégicamente para movilizar a sectores religiosos conservadores son, en definitiva, componentes centrales de la ofensiva ultraderechista.

O pensamento crítico comparativo atual, com uma perspectiva multidimensional, só pode ser colocado, neste ponto na realidade, juntamente com as tradições feministas descoloniais e interseccionais que demonstraram a articulação indissolúvel entre dominação de gênero, dominação racial e dominação de classe. A luta contra o neofascismo é inseparável da luta pela igualdade de gênero e pela despatriarcalização de instituições, discursos e subjetividades.

VIII. Pensamento crítico como resistência: horizontes de um projeto de emancipador renovado

O título deste texto inclui uma preocupação central de seus autores: o pensamento crítico, aquela tradição intelectual que no século XX articulava o marxismo, a psicanálise, o feminismo, o anticolonialismo e a teoria social dos movimentos vindicativos, aparece hoje como uma espécie pretendida no processo de extinção, condenada à memória negativa e à rejeição estigmatizada. A pergunta é: condenado por quem? A resposta é política e não epistêmica: é o discurso dominante, com sua capacidade de colonizar o senso comum, que construiu a imagem de pensamento crítico obsoleto, perigoso ou simplesmente irrelevante.

Diante dessa operação de deslegitimação, afirmamos com total convicção a validade e a urgência do pensamento crítico. Não o pensamento crítico como exercício acadêmico desconectado da prática social, mas como instrumento de compreensão e transformação da realidade. Numa época em que a complexidade é obscurecida pela simplificação demagógica, a razão crítica é um ato de resistência. Em tempos em que a emoção manipulada muda a análise, a insistência no rigor conceitual e na honestidade intelectual tem valor político indiscutível. Neste sentido, concordamos com Jaén Urueña:

“Diante da desvalorização do humanismo e da destruição da Terra, diante da exaltação do ódio e do niilismo moral, podemos voltar à Iluminação. Podemos propor que apenas um socialismo democrático, feminista e ambiental; é a base para assustar os demônios do passado”.

Isso não significa defender um intelectualismo elitista que renuncie ao diálogo com a experiência vivida das maiorias. Significa, ao contrário, trabalhar por uma articulação entre o rigor do pensamento e a força dos afetos (lembrar Gramsci), entre a complexidade da análise e a clareza das propostas, entre a crítica radical e a construção de alternativas concretas.

O horizonte delineado por escrito não é o de catastrofismo ou otimismo voluntário. É o de um realismo crítico que reconhece a gravidade da situação sem se resignar a ela; que leva a sério a força do adversário sem superestimá-lo; que identifica as contradições da ordem autoritária, neofascista e ecofascista como pontos de abertura para a ação emancipatória. Coalizões sociais que têm resistido ao avanço autoritário em diferentes contextos, do feminismo latino-americano aos movimentos climáticos, de organizações de trabalhadores migrantes a comunidades indígenas em defesa do território e da natureza, mostram que a resistência é possível e que pode produzir transformações reais.

IX. Uma trincheira intelectual para tempos de urgência

Esta metáfora da “trincheira” merece ser recuperada e precisa. Uma trincheira não é um forte, não é projetada para defesa passiva ou retirada. É um ponto de apoio do qual o progresso é impulsionado. A trincheira cultural do pensamento crítico tem aquela função: não preservar uma herança do passado, mas produzir as ferramentas conceituais que nos permitem compreender o presente e abrir caminhos para um futuro diferente.

“José Martí disse ‘As trincheiras de ideias valem mais do que trincheiras de pedra’. Nessa lógica, emerge o presente texto, entendendo que a luta por uma perspectiva neoliberal-neocolonial não capitalista globalizada impõe necessariamente vários cenários, diversos modos de resistência e luta constante. nos planos da realidade material; e agora abraça, estende e aprofunda a realidade virtual, na tecno-info-cibercracia: que compreende plataformas de redes sociais, mídia digital expandida, inteligência artificial e tecnologia quântica, entre outros.

 

  • Este texto faz parte do livro “Autoritarismo, Neofascismo e Ecofascismo: A Extrema Direita e o Pensamento Crítico no Século XXI. Anatomia de uma regressão global”, próxima aparição. Este livro, o segundo volume apresentado pelo grupo Perspectivas, reúne o trabalho de mais de 20 pesquisadores sociais e artistas de plásticos, e antes do final do ano estará disponível em versão eletrônica e física. Para o próximo ano, sua edição em inglês está prevista.
  • Mario s. de León é Doutor em Saúde e Desenvolvimento Global, Professor Universitário, Consultor, Analista e Ensaísta Internacional.
  • Marcelo Colussi é Psicólogo, Filósofo e Psicanalista, Professor Universitário; Escritor, Analista, Ensaísta Internacional.

Nossa Newsletter

MARCELO COLUSSI. Desprezo pelo outro: os novos fascismos

sábado, 29 de agosto de 2026

 

Hoy es un puñado de gente la que, como Zuckerberg, define todas estas cosas que afectan profundamente nuestras vidas y el curso del mundo. Sin ningún control democrático, sin rendir cuentas a nadie. Una verdadera dictadura del capital.

Es hora de que pensemos cómo poner fin a esa dictadura y avanzar hacia una libertad verdadera.

 

 

eldiarioar.com

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

 

O TERRORISMO, A FDLPALESTINA E A FESTA DO AVANTE

Como se sabe (às vezes não dá jeito ter presente) ao longo da História os que foram apelidados de terroristas acabaram no poder.  Cristo foi crucificado por ser considerado um subversivo. Hoje está no coração de milhares de milhões de cidadãos. Espartaco, o escravo que liderou a luta pela libertação do esclavagismo, foi considerado terrorista pelo Império romano e crucificado.  O indiano Mahatma Gandi, o apóstolo da não-violência, era um terrorista para a monarquia britânica. Nelson Mandela era considerado pelo regime sangrento do apartheid terrorista e esteve preso 27 anos. Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Eduardo Mondlane e Samora Machel eram considerados pelo fascismo português terroristas. Assim como os dirigentes da FNL da Argélia eram igualmente tidos como terroristas pelos colonialistas franceses. Os independentistas do futuro EUA eram terroristas para o Império britânico. Os exemplos encheriam páginas e páginas.

Um Estado que ocupa o território de outro país legitima a luta político-militar contra essa ocupação. Por isso, os lusitanos se bateram com tudo o que tinham à mão contra o império romano. Por isso, os portugueses pegaram em armas para expulsar os franceses durante as invasões napoleónicas. Por isso, o direito internacional considera legal a luta de libertação nacional contra a ocupação.

Israel é um Estado fora da lei que ocupa contra Resoluções do Conselho de Segurança da ONU territórios palestinianos, Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Leste. Contra esta ocupação o povo palestiniano através de ampla frente, a OLP, combate a ocupação colonial sionista. A OLP englobou a Fatah, a FDLP, a FDLP entre outras. Granjeou um enorme prestígio e para a combater, Israel e a CIA criaram o Hamas, fornecendo-lhe armas e tudo o que consideraram importante para minimizar o apoio dos palestinianos a Yasser Arafat e à OLP.

Pode discutir-se as formas de luta, mas não se pode esconder o sol com a peneira, Israel pratica o pior terrorismo, o terrorismo de Estado. Por isso está cometendo um genocídio dos palestinianos em Gaza, 73 000 mortos, dos quais 20 000 crianças. Este é o terrorismo sionista que tem o apoio dos EUA e UE, (exceção de Sanchez) tal como o regime do apartheid teve.

A alegação de que a FDLP é uma organização terrorista, com quem tive múltiplos encontros em Lisboa, e por todo o mundo, mostra a vergonha da hipocrisia ocidental. A FDLP luta contra a ocupação israelita e é justo, legítimo e legal que a uma ocupação armada se lute com armas, como toda a gente sabe.

Quando um partido tem relações com outros partidos não quer dizer que esteja de acordo com todas as políticas do convidado. Porém, um país quase milenar, como Portugal, não pode curvar-se diante dos mandões ocidentais que criaram toda a espécie de terroristas desde os talibans, à Al Qaeda e ao islamista no poder na Síria que lutou com armas contra as organizações patrióticas do Médio-Oriente e foi posto na presidência pelo Sultão Erdogan e o decadente imperador de Washington.

A eventual recusa a dar visto a uma delegação da FDLP é um ato inamistoso para com o povo palestiniano e uma vergonhosa submissão aos interesses das potências ocidentais dominantes que em data não muito distante irão ter relações diplomáticas com um Estado palestiniano livre e independente porque em 2026, apesar de todas as dificuldades, os povos, submetidos a uma ocupação estrangeira, em luta, acabarão por vencer, como vimos em Timor-Leste e noutros países, designadamente em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo-Verde, S.Tomé e Príncipe.

Claro que os sionistas farão toda a chantagem para que ativistas palestinianos não noticiam os crimes do terrorismo de Estado dos dirigentes israelitas que abrem garrafas de champanhe pela aprovação da lei que prevê o enforcamento dos combatentes palestinianos ou pela construção de uma prisão para palestinianos com uma cerca cheia de crocodilos para impedir fugas. A loucura naquele país atingiu tal nível que um tribunal impediu a instalação dos crocodilos porque são uma espécie em perigo…

O Portugal democrático deve ter voz própria para que os portugueses possam ter acesso às mais diferentes posições em confronto no território ocupado da Palestina pelas tropas de Netanyahu. Com toda a tranquilidade.

O terrorismo, a FDLPalestina e a Festa do Avante! | Opinião | PÚBLICO

 A CARTA 

«Um grupo de 23 intelectuais do Ocidente assinaram uma carta aberta em repúdio à República Islâmica do Irã, com mensagem que coloca no mesmo patamar o caráter imperialista dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao país persa e as denúncias de violações aos direitos humanos de presos políticos no país persa. Entre os signatários estão grandes figuras progressistas como Angela Davis, Michael Löwy e Judith Butler.

Sob uma visão ocidental, os intelectuais afirmam que Teerã “utiliza a mesma lógica de dominação e sistemas de encarceramento, tortura e execução” e classificando o Irã como um país que “desde sua origem, impôs um controle social e político absoluto baseado em uma ideologia excludente”.» in Opera Mundi, São Paulo

A Carta na íntegra :

« 

Aos presos políticos do Irã, encurralados “entre as lâminas de uma tesoura”

De um lado, vocês se deparam com o domínio da República Islâmica; do outro, com as forças imperialistas contra as quais essa república afirma lutar

Agosto marca o aniversário das execuções em massa de 1988 no Irã, um horror que ressoa no atual aumento das condenações à morte no país. Também marca o aniversário, em 19 de agosto, do golpe orquestrado pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos contra o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh em 1953. Em meio às atuais ondas indiscriminadas de ataques militares israelenses e norte-americanos contra o Irã, esta carta de solidariedade denuncia a repressão ao povo iraniano e a seus presos políticos por forças tanto internas quanto externas.

Aos nossos companheiros ativistas, estudantes, pensadores, trabalhadores, artistas e demais prisioneiros de consciência detidos atrás dos muros de todos os centros de detenção do Irã:

Escrevemos a vocês com profunda solidariedade, com o coração pesado pela consciência da luta que enfrentam nas prisões iranianas: a tortura, a negligência sistemática, o silêncio imposto e a brutal realidade de julgamentos e execuções simuladas. Como ex-prisioneiros e prisioneiros políticos, ativistas e acadêmicos comprometidos com o projeto global de abolição, anti autoritarismo e anti imperialismo, vemos vocês através das distâncias geográficas e do silêncio da censura e dos bloqueios da internet. E nos solidarizamos com vocês, pois estão na encruzilhada de duas fontes de opressão.

De um lado, vocês enfrentam a República Islâmica que, desde sua origem, impôs um controle social e político absoluto baseado em uma ideologia excludente. É um sistema que alega combater o poder imperial, enquanto utiliza a mesma lógica de dominação e sistemas de encarceramento, tortura e execução. Do outro lado, vocês lidam com as agressões e a violência das mesmas forças imperialistas e sionistas que a República Islâmica afirma combater. Os Estados Unidos e Israel instigam guerras brutais, destroem infraestrutura civil, matam meninas inocentes em idade escolar e tratam você como dano colateral em sua busca por domínio regional. Lembramos o horror de 23 de junho de 2025, quando Israel atacou o complexo penitenciário de Evin, arrasando a ala hospitalar, a seção para transgêneros e o centro de visitantes. Vocês expuseram essa dupla opressão da melhor forma quando expressaram o que se sente “estar preso entre as duas lâminas de uma tesoura: o regime maligno que o aprisiona e tortura e uma força estrangeira que lança bombas sobre suas cabeças em nome da liberdade”.

No último ano, testemunhamos o afiar das duas lâminas da tesoura. Vemos prisões arbitrárias e a onda horrível de execuções estatais. Vemos a crescente criminalização da classe trabalhadora e dos desempregados, a perseguição a curdos, árabes e balúchis, e a busca por bodes expiatórios entre os migrantes afegãos: todas tentativas desesperadas de matar o espírito de pessoas que não conseguem conter. Essa é a lógica dos estados carcerários em todo o mundo: quando falham em lidar com as crises que as pessoas enfrentam, simplesmente tentam criminalizar ou fazer com que as próprias pessoas desapareçam.

Vemos a mesma lógica de dominação quando Israel usa a “detenção administrativa” para manter presos políticos palestinos por anos sem acusação formal. Vemos isso quando as autoridades israelenses celebram uma nova lei que lhes permite executar os presos políticos palestinos que não conseguem dominar. Vemos isso nos centros de detenção do ICE, onde o governo dos Estados Unidos aprisiona nosso povo em busca de uma agenda política de exclusão racista ou detém nossos ativistas políticos por ousarem se manifestar contra o genocídio israelense apoiado pelos Estados Unidos. Vemos isso na história dos Estados Unidos, contra lutadores pela liberdade, particularmente negros, indígenas, porto-riquenhos e outros organizadores anticoloniais, encarcerando-os por décadas para esmagar movimentos de libertação e soberania nacional. E vemos as conexões entre esses sistemas carcerários, que compartilham informações e técnicas de governança, como quando a prisão USP Marion, em Illinois, se tornou um modelo para prisões construídas no Irã e em Israel na década de 1960. Seja um muro na fronteira ou um portão de prisão, o objetivo é o mesmo: silenciar as pessoas por meio do medo, da dominação e do isolamento.

A sua luta é tão global quanto os nossos sonhos coletivos de liberdade e dignidade. Estamos com vocês e rejeitamos a falsa dicotomia entre imperialismo e anti imperialismo vazio. Convidamos a sociedade civil global e os ativistas e organizações anti imperialistas a estenderem seu apoio e solidariedade incondicionais a todos os nossos irmãos e irmãs encarcerados que lutam pela nossa libertação coletiva, a construírem relações com os presos políticos iranianos e a amplificarem suas vozes, a pressionarem a República Islâmica desafiando sua narrativa e a exigirem que o governo cesse imediatamente todas as execuções e liberte todos os presos políticos.

As autoridades iranianas devem cessar imediatamente sua prática desumana de morte e encarceramento. E os Estados Unidos e Israel devem pôr fim às suas guerras bárbaras e sanções brutais que devastam nossas comunidades de forma consciente.

Em solidariedade e com amor,

Alberto Toscano, professor emérito de teoria crítica, Goldsmiths, Universidade de Londres

Angela Davis, ex-presa política, professora emérita ilustre da Universidade da Califórnia, Santa Cruz

Bernardine Dohrn, professora aposentada de Direito, Universidade Northwestern

Bill Ayers, professor, College Unbound

Cherríe L. Moraga, professora emérita da Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, escritora feminista e ativista

Dan Berger, professor de estudos étnicos comparativos, Universidade de Washington Bothell

Hossam el-Hamalawy, socialista egípcio, acadêmico e ex-preso político

Jairus Banaji, historiador, pesquisador e professor, Universidade de Londres

Jason Stanley, professor de Filosofia, Universidade de Toronto

Judith Butler, professora titular da Escola de Pós-Graduação da Universidade da Califórnia, Berkeley

Keeanga-Yamahtta Taylor, autora de From #BlackLivesMatter to Black Liberation e professora de Estudos Afro-Americanos na Universidade de Princeton

Michael Löwy, diretor emérito de pesquisa de sociologia do Centro Nacional de Pesquisas Científicas, Paris

Michael Mansfield, advogado de direitos humanos e liberdades civis

Mumia Abu-Jamal, atual prisioneiro político, educador, jornalista e ativista

Nadia Abu El-Haj, professora de antropologia, Barnard College, Universidade de Columbia

Rashid Khalidi, professor emérito Edward Said de Estudos Árabes Modernos, Departamento de História, Universidade de Columbia; presidente do Instituto de Estudos Palestinos

Ricardo Jiménez, ativista social, ex-preso político porto-riquenho

Robin DG Kelley, professor emérito de história, Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA)

Ruha Benjamin, professora de Estudos Afro-Americanos, Universidade de Princeton

Ruth Wilson Gilmore, Centro de Pós-Graduação, Universidade da Cidade de Nova York (CUNY)

Sinan Antoon, professor associado de literatura árabe na Universidade de Nova York, romancista e poeta

Walden F Bello, professor adjunto internacional de sociologia, Universidade Estadual de Nova York em Binghamton

Yasin al-Haj Saleh , escritor sírio, dissidente político e ex-prisioneiro político na Síria

A análise do fascismo está no núcleo atual da filosofia da política

 FASCISMOS SEM CAMISAS CASTANHAS, NEGRAS OU VERDES

«Trump conseguiu chegar ao poder explorando uma estrutura de sentimentos — uma profunda alienação da modernidade capitalista. Ele é o perfeito empreendedor do ressentimento, tanto como produtor quanto como representante. E a esquerda ainda não encontrou uma resposta eficaz e duradoura para esse fenómeno. (Valerie Plesch/Bloomberg via Getty Images)»
“O fascismo estadunidense seria… correspondentemente democrático à maneira estadunidense.”
— Bertolt Brecht, Diários
« a extrema-direita atual não é verticalmente integrada, mas efetivamente descentralizada, funcionando mais como um enxame do que como uma formação de combate. Além disso, exibe uma banalidade perigosa: ao contrário de seus predecessores do século XX, ela se desenrola de acordo com as regras da democracia eleitoral e no âmbito cotidiano. A propaganda fascista é praticamente onipresente em plataformas de mídia social como o X e cada vez mais proeminente na cultura pop. Na Espanha, um remix do hino falangista Cara al sol chegou ao topo das paradas do Spotify, enquanto na Alemanha, jovens ricos e skinheads se divertem entoando slogans xenófobos ao som do hit eurodance do DJ italiano Gigi D’Agostino, L’amour toujours. O fascismo atual dança conforme a música da democracia.»Oliver Nachtwey e Carolin Amlinger, in Jacobin

 
Na Itália de Meloni a coligação de extrema-direita não eliminou as instituições e exime-se de exibir militarismos e colonialismo (ainda?), na França de Le Pen o fascismo ascende com pezinhos de lã sem a truculência obscena do Chega, idem aspas para Espanha aqui ao lado.
Haverá vários fatores locais que expliquem e um traço comum da época que mal atravessamos, porém fica bem claro, julgo eu, que, não existindo à esquerda perigo iminente de insubmissão geral, as oligarquias dominantes sentem-se seguras. Logo que possam e queiram eliminam a própria democracia parlamentar ex-liberal no ventre da qual se incubaram. A mais violenta crise do capitalismo global desde 2008 (e bem maior que esta foi) está aí a chegar e, por sua causa, a tentativa "normal" de saída da crise pelo Capital só não a vê quem não percebe nada de nada.
E excessivo temer-se que os novos fascismos cheguem com botas cardadas e campos de concentração como nos anos trinta, nem a crise global está a chegar (embora ninguém a pode desde já afastar das possibilidades) com fenómenos como desemprego de massas e hiperinflação. Apesar disso, ele vai agigantando-se na sua manifestação historicamente típica : multiplicação de guerras de agressão, torniquetes para sufocar países inimigos, políticas colonialistas (localizadas que sejam), imperialismo com o seu componente de parasitismo e acumulação de capital por manipulação dos mercados ,desigualdade como talvez nunca se haja visto, exploração da força de trabalho sob a forma de empregos precários, etcétera.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

 

Contra a falsa simetria das tesouras:
uma carta aberta no momento em que o Irão resiste a uma guerra ilegal de agressão

– Resposta a intelectuais do Norte Global

Vijay Prashad [*]

Cartaz de Mohamma Dansari.

Caros amigos e colegas,

Os Estados Unidos e Israel lançaram uma guerra de agressão contra o Irão em fevereiro deste ano. Há seis meses, mísseis e bombas norte-americanas caem sobre alvos civis e militares dentro do país. Hospitais, escolas, instalações de energia e bairros foram atingidos. As 168 alunas mortas em Minab tornaram-se o terrível símbolo desta guerra. Os iranianos foram forçados a viver sob a expectativa constante de um novo ataque, enquanto famílias iranianas fora do país suportam a agonia peculiar de assistir à destruição à distância. Isso vem na sequência de três anos de genocídio israelense em Gaza, que vem sendo perpetrado graças ao apoio militar incansável dos Estados Unidos.

O Irão não iniciou esta guerra. Os Estados Unidos e Israel é que o fizeram. O Irão está resistindo a um ataque armado contra seu território e seu povo. Esse fato elementar deve determinar o momento, a linguagem e as responsabilidades políticas de qualquer pessoa que escreva sobre o Irão neste momento.

Foi nesse contexto que li vossa carta aberta aos presos políticos do Irão.

Entre vocês estão ex-prisioneiros políticos (como Angela Davis) e um prisioneiro político atual (Mumia Abu-Jamal). Tenho concordado com muitos de vocês na maioria das grandes questões de nosso tempo. É claro que há elementos da vossa carta com os quais concordo, mas sinto que esta carta, neste momento, desempenha um papel politicamente prejudicial. Justamente quando os Estados Unidos e Israel estão na defensiva, essa carta pode gerar o tipo de confusão política que obscurece a dinâmica política real no terreno:   o Irão detém a vantagem estratégica, tendo transformado a questão dos EUA e de Israel (se o Irão deve ter permissão para possuir armas nucleares) em uma questão iraniana (se o Irão deve permitir o comércio por suas águas territoriais sem impedimentos). Isso constitui o pano de fundo da clareza moral da esquerda:   a guerra de agressão que fracassou e que colocou o Irão, bem como seus vizinhos, em uma discussão sobre segurança regional, em vez de segurança imperial.

Mas esta carta, proveniente do Norte Global, oferece o tipo de pretexto ideológico que os EUA adoram:   se os EUA perderam, que todos os lados percam e que todos os lados sejam culpados.

A imagem central usada na carta, as duas lâminas de uma tesoura, é evocativa, mas errônea. Ela sugere que uma das lâminas é a República Islâmica e a outra são os Estados Unidos e Israel, com o povo iraniano sendo cortado por ambos. O erro da tesoura não é meramente que suas lâminas sejam desiguais. É que a imagem faz com que o agressor e o agredido pareçam fontes paralelas do mesmo perigo, ignorando a história e a hierarquia que os conectam. O imperialismo norte-americano não é simplesmente uma opressão ao lado de outra. Ele é a força que cercou o Irão, devastou a região, armou Israel, impôs sanções a uma população inteira e agora levou a guerra ao território iraniano. Vossa carta coloca a agressão e alvo dela no mesmo plano moral.

Os Estados Unidos mantêm mais de 900 instalações militares fora de suas fronteiras, impõem sanções a populações inteiras, financiam e armam o genocídio de Israel em Gaza e destruíram ou desestabilizaram um país após o outro. O Irão, quaisquer que sejam as críticas que se possam fazer ao seu sistema político, nunca iniciou guerras de agressão. O Estado nascido da Revolução de 1979 não iniciou guerras de conquista; ao contrário, sofreu a invasão do Iraque a mando do Ocidente, cerco, sanções, sabotagem, assassinatos e, agora, um ataque direto. As duas lâminas não são equivalentes. Uma é a lâmina da guerra imperialista. A outra, quaisquer que sejam suas contradições internas, é o Estado e a sociedade que estão sendo cortados.

Vazios

A carta aberta argumenta que existe uma “falsa dicotomia entre imperialismo e anti-imperialismo vazio”. Fiquei intrigado com o uso do adjetivo “vazio”.

Primeiro, a defesa efetiva do Irão. O assassinato do comandante Qasem Soleimani em Bagdá, no Iraque, em 2020, marcou uma etapa decisiva na escalada que culminou no ataque ilegal de fevereiro de 2026 contra o Irão. Soleimani foi o arquiteto da estratégia ofensiva do Irão, ou seja, construir um escudo defensivo por meio de grupos armados pró-iranianos que atacariam Israel e posições militares dos EUA a partir do Líbano, da Síria, do Iraque, do Iêmen, da Palestina e de outros países. A partir de 2020, os EUA e Israel passaram a perseguir sistematicamente essa rede, tentando destruir o Hamas, o Hezbollah e o Ansar Allah, além de pôr fim ao uso de Damasco como base para muitos desses grupos, bem como da Síria e do Iraque como linhas de abastecimento logística a partir do Irão. Tendo enfraquecido esse escudo, os EUA e Israel se sentiram encorajados a atacar o Irão. Mas não levaram em conta que o Irão havia construído um mecanismo para atingir as bases americanas nos Estados árabes do Golfo e que restringiria o acesso ao Estreito de Ormuz.

O uso desses mecanismos pelo Irão colocou o país em vantagem estratégica sobre os Estados Unidos e Israel (este último, aliás, que posteriormente se afastou do primeiro plano dessa guerra). O anti-imperialismo do Irão não tem sido de forma alguma “vazio”, na verdade, ele permitiu ao povo iraniano proteger seu país de uma tomada de poder imperialista. Essa é uma conquista significativa que está sendo comemorada em todo o mundo anteriormente colonizado como uma das reviravoltas estratégicas mais importantes sofridas pelos Estados Unidos desde sua derrota no Vietnã em 1975 (as retiradas do Afeganistão e do Iraque têm caráter diferente dessa vantagem estratégica do Irão).

Em segundo lugar, em 1979, os revolucionários iranianos entoavam:   Hoje o Irão, amanhã a Palestina. De fato, apesar da repressão à esquerda no Irão logo após a revolução e com a formação da República Islâmica, o compromisso com a Palestina permaneceu firme. O Irão nunca sequer deu a entender que haveria normalização com Israel e, de fato, tem sido enfático na defesa da causa palestina. Nenhum outro país da região tem se comprometido tanto com o movimento de libertação palestino, e nenhum pagou um preço tão alto por esse compromisso.

Por que os Estados Unidos e Israel têm sido obcecados pelo Irão desde 1979? Não por causa de qualquer questão de democracia (o Irão possui um sistema político eleitoral, embora moldado pelo Conselho dos Guardiões e por limitações à participação política – assim como as pretensões democráticas dos Estados Unidos são restringidas pelo poder oligárquico, pela exclusão racial e pelo domínio do dinheiro). Nem mesmo por causa de qualquer ameaça nuclear (a Agência Internacional de Energia Atômica não comprovou que o Irão possua um programa ativo de armas nucleares, ao passo que a liderança iraniana declarou repetidamente que as armas nucleares são religiosamente proibidas).

A razão pela qual eles odeiam o Irão é porque ele é desafiador, e seu desafio inclui sua posição em favor da causa palestina.

É claro que cada um pode ter a opinião que quiser sobre o Irão, mas chamar seu anti-imperialismo de “vazio” neste momento é impreciso.

Os EUA devem recuar

A carta aberta encerra com duas exigências:   primeiro, que o Estado iraniano “cesse agora sua prática desumana de morte e encarceramento”. A oposição comum à pena de morte, que eu compartilho, não é suficiente para colocar os Estados Unidos e o Irão na mesma posição histórica ou política, nem justifica subordinar a exigência imediata de que o agressor ponha fim à sua guerra a uma acusação geral contra o país atacado. Durante esse período de guerra ilegal dos EUA contra o Irão, os Estados Unidos executaram dezenove pessoas por injeção letal, mas a carta não diz nada sobre isso (nem sobre o tratamento genocida dos prisioneiros palestinos nas versões israelenses de Guantánamo – como a prisão de Sde Teiman, sobre a qual Wesam Afifa escreveu de forma tão comovente; a única afirmação é dizer que o Irão usa “a mesma lógica de dominação” que Israel, o que é uma formulação muito estranha). Podemos nos opor à pena de morte. Podemos exigir o devido processo legal e tratamento humano para os prisioneiros. Podemos ouvir atentamente os trabalhadores, as mulheres, as minorias e os ativistas políticos iranianos. Mas a crítica interna não pode ser dissociada das condições concretas em que é feita.

A segunda exigência da carta aberta é que os EUA e Israel “devem pôr fim às suas guerras bárbaras e às sanções brutais que, conscientemente, devastam nossas comunidades”. Estamos em completo acordo nisso. Mas a carta não é dirigida aos Estados Unidos, e sim aos presos iranianos. Essa é outra curiosidade de sua formulação. Os signatários são, em sua maioria, cidadãos norte-americanos. Por que não escrever ao próprio governo deles? A carta dedica a maior parte de sua energia analítica à construção de uma lógica carcerária comum entre os dois países, enquanto a exigência dirigida contra os agressores imperialistas é comprimida em sua frase final. A condenação formal da guerra não desfaz a arquitetura política da carta, que confere status semelhante à guerra de agressão dos EUA e de Israel e ao sistema prisional iraniano. Frantz Fanon nos ensinou que as lutas anticoloniais não se desenrolam sob condições de sua própria escolha. Estados submetidos à ameaça permanente de invasão, sabotagem e mudança de regime desenvolvem profundas contradições internas, incluindo instituições de segurança que podem usar a coerção contra seu próprio povo.

Vocês pedem à “sociedade civil global e aos ativistas e organizações anti-imperialistas” que “exerçam pressão sobre a República Islâmica, contestando sua narrativa”. Isso equivale, em resumo, a pedir aos povos do mundo que assumam uma posição que enfraqueceria o Irão neste momento, quando ele se mantém firme contra a guerra de agressão. Há um momento para fazer uma exigência e há um momento para agir em solidariedade. Este é o momento de solidariedade com o Irão, e não o momento de fazer uma reivindicação que beneficie os imperialistas agressores.

Caros amigos, não existe neutralidade ou um “terceiro espaço” em meio a uma guerra de agressão. Escreveríamos tal carta ao governo vietnamita em Hanói durante a guerra de agressão dos EUA, ou ao governo cubano, que agora enfrenta um terrível estrangulamento por parte dos Estados Unidos? Por que dirigir essa intervenção contra o Irão neste momento? Por que desafiar o Irão justamente quando ele tem os Estados Unidos e Israel na defensiva? É preciso pedir que o Irão se torne perfeito antes de defender seu direito à sobrevivência?

Neste momento, a solidariedade começa com uma exigência clara: os Estados Unidos e Israel devem pôr fim à sua guerra ilegal e devem recuar.

22/Agosto/2026

[*] Historiador e jornalista, indiano. É autor de quarenta livros, entre os quais se incluem Balas de Washington, Uma Estrela Vermelha sobre o Terceiro Mundo, As Nações Obscuras: uma história do Terceiro Mundo; As Nações Pobres: uma possível história do Sul Global e How the International Monetary Fund Suffocates Africa, escrito em coautoria com Grieve Chelwa. É diretor executivo do Tricontinental: Instituto de Pesquisa Social, correspondente-chefe da Globetrotter e editor-chefe da LeftWord Books (Nova Délhi). Também participou dos filmes Shadow World (2016) e Two Meetings (2017).

Quando uma critica valoriza o atacante

 

A metáfora da tesoura e a ficção de um anti imperialismo
 
« A carta aberta publicada pelo jornal The Guardian no dia 20 de agosto de 2026 tem como título “To Iran’s political prisoners, trapped ‘between two blades of a scissors’” ("Aos prisioneiros políticos do Irão, presos 'entre as duas lâminas de uma tesoura'"). O documento é um manifesto de solidariedade dirigido a ativistas, estudantes, pensadores e prisioneiros de consciência detidos no Irão.
A mensagem central da carta baseia-se na forte crítica a dois blocos opostos, utilizando a metáfora das duas lâminas de uma tesoura para descrever a situação do povo iraniano:
A primeira lâmina: Representa a repressão interna brutal exercida pelo regime da República Islâmica do Irão, denunciando a onda de sentenças de morte e as execuções em massa.
A segunda lâmina: Representa as forças imperialistas externas, criticando duramente a agressão militar e os ataques contínuos dos Estados Unidos e de Israel contra o território iraniano.A carta rejeita o que chama de "falsa binária entre o imperialismo e o anti-imperialismo vazio", defendendo que apoiar a população civil e os detidos políticos exige opor-se simultaneamente à guerra externa e à tirania do regime governante.
Signatários
O documento foi assinado por mais de 20 figuras proeminentes do pensamento de esquerda internacional, académicos e ativistas de direitos humanos, incluindo:Angela DavisJudith ButlerRuth Wilson GilmoreWalden BelloMichael Löwy
Debate e Controvérsia
Embora a carta tenha recebido o apoio de várias organizações de exilados iranianos na diáspora, a sua publicação gerou uma forte reação nos dias seguintes. Colectivos de académicos e intelectuais anti-imperialistas (como o Anti-Imperialist Scholars Collective e o autor Vijay Prashad) publicaram respostas críticas. Os críticos argumentam que a metáfora da "tesoura" cria uma falsa equivalência moral e simetria entre o regime interno e a agressão militar destrutiva liderada pelos Estados Unidos em curso no Médio Oriente.
(Vista geral da I. A. Google)

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