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sábado, 9 de maio de 2026

A mentira na sociedade capitalista

 

A mentira na filosofia: três caminhos da filosofia contemporânea

Imagem: Wikimedia Commons

Por Juliana Paula Magalhães

A mentira tem sido objeto de acuradas discussões na história do pensamento filosófico. Ainda na Idade Moderna, mas já às portas da Contemporaneidade, destaca-se a célebre polêmica entre Immanuel Kant e Benjamin Constant acerca do tema, ensejando a redação pelo filósofo prussiano de seu conhecido texto Sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade (Kant, 2008, p. 187-194). 

No que tange propriamente à filosofia contemporânea, com lastro na didática e precisa sistematização proposta por Alysson Leandro Mascaro, pode-se compreendê-la a partir de três grandes caminhos: liberais, não liberais e marxistas. Originalmente, a concepção mascariana se dá no âmbito da filosofia do direito (Mascaro, 2024), no entanto, é possível trazer tal perspectiva teórica para a compreensão da filosofia em geral, com extremo proveito. 

As filosofias liberais representam o pensamento burguês, por excelência, operando em chaves analíticas, marcadas pelo idealismo e pelo normativismo, ainda que com distintas modulações. As filosofias não liberais rompem com o horizonte normativista estatal, espraiando-se por eixos existenciais, bem como pelas temáticas do poder, seja em seus aspectos amplos, como o decisionismo, seja na esfera da microfísica do poder. Já as filosofias calcadas no marxismo têm como plataforma teórica a obra de Karl Marx, ainda que parcialmente cindida em distintas leituras e interpretações. 

O objetivo do presente artigo é abordar a temática da mentira, tendo como foco os três caminhos da filosofia contemporânea, demonstrando as possibilidades e limitações dos horizontes liberais e não liberais na abordagem dessa questão, bem como apontar que apenas o marxismo dispõe de ferramental teórico-filosófico para dissecar o caráter estrutural da mentira no capitalismo e suas distintas modulações. 

Diante da miríade de pensadores que podem ser enfeixados em cada um desses três vastos caminhos filosóficos, alguns nomes de relevo teórico de cada campo específico serão trazidos como paradigmas para a abordagem do tema da mentira na filosofia contemporânea. Nas esferas dos pensamentos liberais e não liberais, o destaque ficará com Jürgen Habermas e Michel Villey, respectivamente. Já no que tange ao marxismo, a base teórica adotada estará lastreada nas leituras propostas por Louis Althusser e por Evguiéni B. Pachukanis. Tanto Villey quanto Pachukanis são juristas de formação, contudo, trazem contributos incontornáveis e, de certo modo, pouco explorados para o campo da filosofia. Enquanto Villey constrói refinada leitura crítica acerca da filosofia burguesa, do normativismo juspositivista e da subjetividade jurídica, Pachukanis alcança as bases fundantes das formas sociais capitalistas, dentre elas a forma jurídica e a forma moral, por meio do método marxista. 

Assim, as perspectivas liberais, ainda que possam, até mesmo, se apresentar sofisticadas teoricamente, trazem uma visão superficial do problema da mentira, ora resvalando para uma espécie de moralismo humanista, ora tratando-a como um problema meramente ético-comunicativo, por exemplo, ou ainda propondo tratamentos normativos e institucionais para tal temática. 

O escopo principal deste texto é justamente demonstrar que o tema da mentira na filosofia contemporânea, muito além de uma questão de ordem moral ou ética, apenas pode ser compreendido com lastro em uma perspectiva teórica materialista, mediante a compreensão das formas sociais e da ideologia. Tal abordagem, contudo, não desconsidera as fecundas contribuições que podem ser extraídas dos horizontes não liberais no tratamento dessa temática. 

Mentira e eticidade normativa: comunicação e linguagem 

O alemão Jürgen Habermas é um dos principais expoentes do pensamento liberal contemporâneo. A fase mais conhecida e relevante de sua produção intelectual se dá a partir da virada linguística que se apresenta em suas ideias, com a construção de sua teoria do agir comunicativo (Mascaro, 2024, p. 313-314). A filosofia habermasiana passa, então, a ter como foco o tema da comunicação, concebida como fundamento da sociabilidade, tendo por escopo político a construção do consenso. Nesse contexto, para Habermas, “a verdade se constrói enquanto processo comunicacional” (Mascaro, 2024, p. 315). 

Para além de ser simplesmente uma teoria da linguagem, a teoria do agir comunicativo postula a construção de racionalidades universais. Assim, a comunicação é vista como um processo de interação entre os indivíduos capaz de produzir consensos estáveis, sendo esses, por sua vez, a razão de cada tempo histórico. 

Destarte, “para Habermas, a razão é possível, na medida do consenso das interações sociais” (Mascaro, 2024, p. 317). No mais, “para Habermas, ainda que não haja a verdade que paire sobre todos, há a verdade construída enquanto consenso” (Mascaro, 2024, p. 317). Logo, a filosofia habermasiana, de algum modo, mostra-se herdeira do iluminismo, mas deixando de atrelar a verdade à teoria do conhecimento, e inovando ao compreendê-la como agir comunicativo. 

Para Renato Ribeiro de Moraes, “Habermas acaba por tentar conciliar duas tradições difíceis de serem sustentadas conjuntamente: a universalidade kantiana de fundamentação moral e a soberania popular republicana nos moldes de Rousseau”, “ainda que com explícita prevalência dos traços kantianos” (Moraes, 2010, p. 50). 

No que tange à construção social de consensos, o direito e a democracia ganham destaque na filosofia habermasiana, pois tais instrumentais são aptos a forjar um ambiente no qual a comunicação pode se dar com flexibilidade e estabilidade, reduzindo os conflitos e afastando o arbítrio. A aposta institucional, por conseguinte, é um corolário da construção teórica de Habermas. Logo, “na visão habermasiana, o direito é o locus privilegiado do agir comunicativo superior, garantidor da democracia, da liberdade e da interação igualitária entre os sujeitos e os grupos sociais” (Mascaro, 2024, p. 319). 

Há um caráter normativo na filosofia habermasiana, dado que, conforme ressalta Pugliesi: “O acordo entre o emissor e o ouvinte é a condição final para que este realize os efeitos da emissão. A produção de normas, quer morais, quer jurídicas, decorre da universalização desse consenso” (Pugliesi, 2005, p. 227-228). Portanto, “do ponto de vista de Habermas, normas justificáveis são aquelas que incorporam interesses generalizáveis” (Pugliesi, 2005, p. 227-228). 

A partir do arcabouço teórico e conceitual de Habermas, a mentira pode ser compreendida como uma espécie de patologia de comunicação e um desvio da pretensão de veracidade. Tem-se, então, uma situação na qual o próprio escopo da comunicação se mostra distorcido. Nesse sentido, as considerações de Habermas:  

“Algo semelhante se passa com os fenômenos da comunicação sistematicamente distorcida. Também aqui a pragmática formal pode contribuir para explicar fenômenos que de início são identificados apenas com base em razão de uma compreensão intuitiva amadurecida na experiência clínica. Pois essas patologias da comunicação se deixam conceber como resultado de uma confusão entre ações orientadas ao êxito e ações orientadas ao entendimento. Em situações de ação estratégica encoberta, pelo menos um dos participantes se comporta orientado ao êxito, mas deixa os demais na crença de que todos satisfazem os pressupostos da ação comunicativa. Este é o caso da manipulação, que mencionamos no exemplo dos atos perlocucionários” (Habermas, 2022, edição do Kindle). 

Assim, a mentira apresenta-se como a antítese da racionalidade comunicativa, minando a construção de consensos em suas próprias bases e, por conseguinte, a democracia. Para Habermas, tratar-se-ia de uma espécie de sobreposição da ação estratégica encoberta em face da ação comunicativa. Não obstante Habermas compreenda a verdade enquanto consenso, ele se insurge em face dos “consensos enganosos”, como ressalta Antonio Ianni Segatto: 

“Retomando a questão, de que se encarrega a teoria da verdade como consenso, relativa ao discernimento dos critérios a partir dos quais pode-se diferenciar consensos “efetivos” de consensos “enganosos”, podemos observar que Habermas tem diante de si duas alternativas: ou admite que cada linguagem ou forma de vida contém seus próprios critérios acerca daquilo que é verdadeiro ou falso, de modo que sequer faz sentido perguntar pela verdade ou falsidade de tais critérios; ou acredita na universalidade de tais critérios e procura definir os padrões que abarcam todas as linguagens e formas de vida. Como dissemos, Habermas se situa, juntamente com Putnam e Apel, no partido daqueles que defendem a segunda alternativa. Nesse sentido, ele defende, contra a postura relativista, que o critério último da verdade não são os consensos factuais eles mesmos, mas a ideia de um consenso racional, alcançado sob uma situação de fala ideal” (Segatto, 2006, p. 75). 

Logo, revela-se a fragilidade da teoria habermasiana para a compreensão da temática da mentira, dado que atrelada a horizontes éticos e normativos, não obstante represente certo avanço trabalhar com a temática comunicacional. Cumpre ressaltar que “enquanto Kant havia projetado seu imperativo categórico apostando na capacidade racional individual para apreender regras morais indeléveis”, para Habermas “a Moral seria construída intersubjetivamente no debate público, mediado pela razão comunicativa, através de consensos apurados discursivamente e racionalmente aceitos” (Facchin, 2025, p. 121). 

Em última análise, os horizontes liberais, em suas distintas modulações, mostram-se incapazes de alcançar uma compreensão do tema da mentira em suas dimensões situacionais e materiais. Em Habermas, isso resta evidenciado, na medida em que suas considerações teóricas têm como base fundante uma comunicação em grande parte idealizada e dissociada da concretude social e de suas determinações. 

Mentira e situação existencial: os limites da subjetividade e do normativismo 

O pensamento não liberal conta com uma vasta gama de expoentes com filosofias, inclusive, bastante distintas entre si, tendo em comum o distanciamento do eixo idealista e normativista e, ao mesmo tempo, a não adoção da plataforma teórica marxista. A vertente não liberal existencial é uma das mais fecundas, contando com pensadores de grande envergadura, tais como Martin Heidegger e Hans-Georg Gadamer. 

Tanto Heidegger quanto seu discípulo Gadamer são críticos da modernidade e de sua filosofia individualista, calcada na subjetividade e na técnica. Enquanto Heidegger avança na construção de uma trilha filosófica original de busca pela descoberta do ser e de seu sentido, destrinchando as possibilidades autênticas e inautênticas da existência, Gadamer erige uma inovadora hermenêutica existencial, materializada principalmente em sua obra Verdade e método, na qual aponta para a impossibilidade de que o processo hermenêutico se dê de modo dissociado da condição existencial do intérprete. 

Embora não se situe formalmente nos eixos das filosofias da existência, como os alemães Heidegger e Gadamer, tampouco seja filósofo de formação, o jurista francês Michel Villey apresenta proximidade implícita a esse caminho teórico. Nesse sentido, observa Jeanette Antonios Maman, que identifica um “existencialismo jurídico” em Villey, o qual “mostra que temos de partir, nas soluções de direito, da situação existencial, de emergência ou não” (Maman, 2003, p. 96). Para a jusfilósofa, embora se tenha em Villey uma forte retomada do pensamento aristotélico, há também, no pensador francês, uma ultrapassagem desse horizonte, de maneira que se prenunciam “uma nova ontologia e nova epistemologia” (Maman, 2003, p. 96). 

O jusfilósofo francês é um ferrenho crítico da filosofia liberal moderna, de cunho eminentemente individualista. Para Villey, a principal falácia do pensamento burguês consiste em afastar o caráter social do direito e da justiça, passando a ancorá-los na subjetividade.  

Villey postula uma retomada da filosofia do direito antiga, com lastro em Aristóteles e do chamado direito romano, porém sem desconsiderar as especificidades do tempo presente. Para Villey, há um profundo antagonismo entre a subjetividade jurídica moderna e a verdade do direito (Magalhães, 2022). Nas palavras dele: 

“O direito é relação, fenômeno social; repito mais uma vez que não existe direito de Robinson em sua ilha. O Dikaion não é o “direito subjetivo” do indivíduo, pensado em função de um sujeito único, engendrado em um sistema inteiramente diferente de pensamento pelo individualismo moderno” (Villey, 2009, p. 73). 

Villey também se insurge em face da ilusão do juspositivismo de matriz neokantiana. O jusfilósofo francês compreende tal empreitada como dissociada da realidade e fadada ao fracasso teórico e prático. Um dos principais alvos das críticas villeyanas é a teoria do jurista austríaco Hans Kelsen. Para Villey, “Kelsen ludibria-nos quando quer fazer do jurista um cientista puro” (Villey, 2008, p. 65).  

A dicotomia abismal entre ser e dever-ser, que se apresenta hipostasiada na modernidade e que se faz presente na herança da filosofia de Immanuel Kant reavivada na obra de Kelsen, também é apontada por Villey como um dos principais problemas do pensamento jurídico contemporâneo. Sobre esse ponto, cabe destacar o seguinte excerto: 

“Kelsen expressa isso da maneira mais absoluta e sem que lhe pudesse surgir disso a menor dúvida, com o abismo que ele acredita ter que estabelecer entre o Sein e o Sollen, entre o conhecimento dos fatos e a produção das normas. E por trás de Kelsen há Kant e as separações kantianas entre fenômenos e númenos e entre razão especulativa e razão prática; e a decisão cartesiana de conceber a natureza e a mente como dois mundos totalmente separados. […] Ora seu efeito foi mergulhar a doutrina do direito em todo tipo de dificuldades e de impasses inextricáveis. Por culpa deste dualismo, toda uma escola de inspiração kantiana e neokantiana acreditou dever situar a fonte do direito justo (de um novo tipo de “direito natural”) na “razão pura”. […] por esse método, restaura-se apenas um direito natural ilusório […]. […] Por reação, e para devolver ao direito alguma substância e solidez, chega-se a entregar o direito ao império do fato separado, o fato bruto, separado do valor, que as ciências teóricas estudam: atitude do sociologismo, do realismo americano e da maioria dos positivismos, que, privando o direito da sua justiça e do seu valor, abalam sua força normativa e tornam o direito apenas uma carcaça de textos e de arestos de jurisprudência […]. Não há saída a não ser superar este dualismo” (Villey, 1965, p. 168-169, tradução nossa).

A filosofia política moderna também é objeto das contestações villeyanas, especialmente, aquela erigida a partir de Thomas Hobbes. Para Villey, Hobbes começa “por demolir e substituir a Política de Aristóteles” e, ao fundar-se na subjetividade jurídica e na propriedade privada, a política hobbesiana tem como consequência direta o Leviatã opressor (Villey, 2009, p. 695-696). Assim, em Hobbes, revela-se “drama do individualismo”, o qual “para dar conta da ordem social”, “é obrigado a negar a si mesmo” (Villey, 2009, p. 179), por conseguinte, trata-se de um paradoxo fadado ao fracasso. 

Em suma, Villey se insurge em face dos “ídolos” da modernidade (Rials, 2000), sendo o principal deles a subjetividade jurídica, atrelada ao caráter individualista e humanista da filosofia burguesa. Pode-se dizer que, para Villey, a filosofia moderna se erige sobre a mentira, ao lastrear-se na subjetividade e na normatividade e ao abandonar a compreensão acerca do justo, da natureza das coisas, da prudência e da equidade.  

Um exemplo da falácia moderna, para Villey, reside nos chamados direitos humanos, “ferramenta de mil usos” (Villey, 2007, p. 162), que se prestam a todo tipo de discurso, mas carecem de efetividade e visam, em última instância, ao atendimento dos interesses burgueses. Nesse sentido, ele assevera: 

“Acho, portanto, fundamentada a crítica de Marx; ela se dirigia, em A questão judaica, contra as formulações da Declaração de 1789, que são um eco da doutrina de Locke. Esses direitos do homem ‘formais’ (liberdades) não são para todos, mas para alguns. Serviram para a destruição da monarquia, mas a substituíram por uma oligarquia. Significaram a dominação política da classe burguesa; na economia, do capitalismo. Um terceiro fruto dos ‘direitos do homem'” (Villey, 2016, p. 161). 

Destarte, para Villey as grandes farsas da filosofia moderna residem no humanismo, na normatividade juspositivista e, principalmente, na subjetividade jurídica, deixando de lado o caráter situacional e social do justo. Nas palavras de Villey: “não conheço pior aberração que abordar as questões de justiça social a partir do ponto de vista do pretenso ‘sujeito de direito’” (Villey, 2007, p. 99). 

Já no que tange à célebre discussão filosófica sobre a mentira no campo da ética, travada entre Kant e Constant, considerando o arcabouço filosófico villeyano, a prudência e a equidade deveriam ser observadas. Logo, não haveria espaço para o imperativo categórico kantiano, mas para o caráter situacional do justo. 

Os pensamentos não liberais, portanto, constituem preciosas chaves para a compreensão da temática da mentira em suas distintas modulações e dimensões. No entanto, tal caminho, não obstante sua notável fecundidade e seu proveito teórico, ultrapassando as limitações das filosofias liberais, não alcança as determinações materiais que engendram e constituem a mentira na contemporaneidade. 

Mentira e crítica marxista: formas sociais e ideologia 

Karl Marx, nas palavras de Louis Althusser, “fundou uma nova ciência: a ciência da história das ‘formações sociais’. Para ser mais preciso, Marx ‘abriu’ ao conhecimento científico um novo ‘continente’, o da História” (Althusser, 2015, p. 213). Para o filósofo francês, essa ciência “não tem por objeto a essência do homem, ou do gênero humano, ou a essência dos homens”, mas sim “história das formas de existência específica da espécie humana” (Althusser, 1999, p. 42). Acrescenta ainda que “a revolução científica de Marx contém em si uma revolução filosófica, sem precedente que, forçando a filosofia a pensar a sua relação com a história, perturba a sua economia” (Althusser, 1999, p. 15). 

O marxismo forneceu a base teórico-filosófica para distintos pensadores, muitas vezes, com leituras antagônicas entre si. Assim, por exemplo, filósofos como Roger Garaudy apontam os Manuscritos de 1844 como “o ato de nascimento do marxismo” (Garaudy, 1963, p. 108). Já Louis Althusser identifica a existência de um corte epistemológico na produção teórica de Marx, separando-as em obras da juventude (1840-1844), obras do corte (1845), obras da maturação (1845-1857) e obras da maturidade (1857-1883) (Althusser, 2015, p. 25). Por conseguinte, o coração teórico da obra do pensador alemão, na leitura althusseriana, encontra-se, fundamentalmente, em O capital

A leitura althusseriana do marxismo constitui-se na mais refinada e precisa acerca desse caminho teórico no que tange à sua sistematização e à compreensão de seu caráter científico, rompendo com as visões humanistas, incapazes de alcançar o caráter estrutural das categorias marxistas. Com efeito, na obra de maturidade de Marx, apresenta-se uma investigação científica das formas sociais capitalistas, com a forja de um arcabouço conceitual incontornável para sua compreensão. 

O jurista russo Evguiéni B. Pachukanis desvenda, a partir do método de Marx, a especificidade histórica da forma jurídica e da forma política estatal. Assim como Marx demonstra que a sociedade capitalista é uma imensa coleção de mercadorias, Pachukanis capta a consequência teórica imediata dessa constatação, acrescentando que tal sociabilidade é uma cadeia ininterrupta de relações jurídicas, garantidas pelo Estado. Os estudos de Pachukanis embasam, portanto, a mais rigorosa crítica marxista do direito, bem como os avanços teóricos empreendidos pelo derivacionismo, no que tange à forma política estatal. 

Forma jurídica e forma política estatal apresentam-se como derivadas diretas da forma-mercadoria e da forma-valor, consoante a elucidação pachukaniana. A mercadoria, enquanto forma social, é uma especificidade do capitalismo, dado que apenas nesse modo de produção, tem-se a mercantilização da força de trabalho, decorrente da separação entre trabalhador e os meios de produção, em um contexto no qual se estabelece uma relação de troca entre burgueses e proletários. Os capitalistas necessitam da força de trabalho dos proletários para a produção e, ao mesmo tempo, os trabalhadores precisam vender sua força de trabalho para sobreviver. Tem-se aí o processo de produção de riqueza no capitalismo, a partir da extração de mais-valor, e é da reiteração desse circuito que se constitui a forma-mercadoria.

Ademais, para que burgueses e proletários possam contratar, é necessário que sejam formalmente livres e iguais, tomando ambos a forma social de sujeitos de direito. Assim, apenas no capitalismo, a sujeição do trabalhador se dá pela mediação jurídica, dado que, no escravagismo e no feudalismo, apresentava-se, conquanto com peculiaridades, o mando direto pela força. Destarte, consoante assinala Mascaro, o sujeito de direito é, na verdade, “sujeito pelo direito” (Mascaro, 2018, p. 30).

O Estado, nesse contexto, apresenta-se como fiador, como garantidor das relações de produção capitalistas, já que assume a forma social de ente terceiro separado das classes. A forma política estatal é uma especificidade do modo de produção capitalista e essa descoberta já se encontra na obra mais importante de Pachukanis, Teoria geral do direito e marxismo, juntamente com suas inovadoras considerações sobre a forma da subjetividade jurídica, acerca da qual se debruçou com ainda maior profundidade. 

A leitura pachukaniana, portanto, rompe com a falácia amplamente repetida nos cursos jurídicos, que se valem do velho brocardo Ubi societas ibi jus (Onde há sociedade, há direito). Para Pachukanis, o direito é uma especificidade do modo de produção capitalista. Do mesmo modo, o Estado, longe de ser a materialização do bem comum, é, na verdade, a forma política que permite a perpetuação da exploração capitalista, mediada pela forma jurídica, garantindo a propriedade privada e o adimplemento dos contratos, mediante o uso de suas instituições e da força. Isso permitiu que pensadores como Joachim Hirsch, em Teoria materialista do Estado, e Alysson Leandro Mascaro, em Estado e forma política, pudessem avançar na seara de investigação marxista acerca do Estado e da política no capitalismo. 

Pachukanis, no entanto, embora seja um pensador tipicamente atrelado à temática da crítica marxista do direito e do Estado, também apresenta uma leitura filosófica fundamental para o tema da moral. Para Pachukanis, há uma imbricação estrutural entre forma-mercadoria, forma jurídica e forma moral, de maneira que “o ser moral é um complemento necessário do ser jurídico e, por sua vez, os dois são modos de relações entre produtores de mercadorias” (Pachukanis, 2017, p. 156). Nas palavras do jusfilósofo soviético: 

“Sujeito egoísta, sujeito de direito e pessoa moral são as três máscaras fundamentais por meio das quais o homem atua na sociedade produtora de mercadorias. A economia das relações de valor oferece uma chave para a compreensão da estrutura jurídica e moral não no sentido do conteúdo concreto da norma jurídica ou moral, mas no sentido da própria forma jurídica e moral” (Pachukanis, 2017, p. 154).

Assim, Pachukanis não se limita a uma mera leitura do conteúdo das normas morais, mas disseca a especificidade histórica da forma moral no capitalismo. Além disso, ele constata que a filosofia burguesa, com destaque para aquela que se erige a partir da obra de Immanuel Kant, apresenta uma leitura da moral e da ética que está necessariamente atrelada à sociedade produtora de mercadorias, consoante se verifica no excerto a seguir: 

“Se a pessoa moral não é outra coisa senão o sujeito da sociedade de produção mercantil, então a lei moral deve se descobrir como a regra da sociedade de possuidores de mercadoria. Isso lhe confere, inevitavelmente, um caráter antinômico. Por um lado, essa lei deve ter um caráter social e, como tal, colocar-se acima da personalidade individual. Por outro lado, o possuidor de mercadorias, devido à própria natureza, é o portador da liberdade (da liberdade de apropriação e alienação); portanto, a regra que determina as relações entre possuidores de mercadoria deve ser implantada na alma de cada um deles, ser sua lei interna. O imperativo categórico de Kant reúne essas exigências contraditórias. Ele é supraindividual, porque não tem nenhuma relação com qualquer motivação natural, como paixão, simpatia, compaixão, sentimento de solidariedade etc. Ele, na expressão de Kant, não ameaça, não convence, não bajula. Está situado, em geral, fora de quaisquer motivos empíricos, ou seja, puramente humanos. Ao mesmo tempo, surge independentemente de qualquer pressão externa, no sentido direto e grosseiro da palavra. Atua exclusivamente pela força da consciência de sua universalidade. A ética kantiana é a típica ética da sociedade de produção mercantil; ao mesmo tempo, representa a forma mais pura e acabada da ética em geral” (Pachukanis, 2017, p. 155-156).

Ao demonstrar a especificidade histórica das formas sociais capitalistas, dentre elas a forma jurídica, a forma política estatal e a forma moral, Pachukanis fornece uma preciosa chave para a compreensão estrutural da mentira no capitalismo em suas múltiplas conformações e determinações. A mentira, no capitalismo, está na própria raiz desse modo de produção, dado que o discurso de liberdade, igualdade e fraternidade alardeado, por exemplo, no lema da Revolução Francesa, de inspiração filosófica iluminista, é, sobretudo, uma decorrência direta da transformação estrutural pela qual a sociedade europeia passava com o processo de desenvolvimento das relações de produção capitalistas.

A verdade do capitalismo é a exploração e, como assevera o pensador soviético, “o homem como sujeito moral, ou seja, como uma pessoa igual a todas as outras, não é mais que uma condição da troca com base na lei do valor” (Pachukanis, 2017, p. 153). Assim, a pessoa do proletário é igualada à pessoa do capitalista, “o que encontra sua expressão no ‘livre’ contrato de emprego” (Pachukanis, 2017, p. 158). Todavia, conforme observa Pachukanis, “é a partir dessa mesma “liberdade materializada” que surge para o proletário a possibilidade de tranquilamente morrer de fome” (Pachukanis, 2017, p. 158). 

O capitalismo se erige estruturalmente na mentira, pois o discurso falacioso de avanço civilizatório e de realização da natureza humana mascara a cruenta exploração do capital que suga o sangue e a vida da classe trabalhadora. No entanto, tal discurso não exsurge de mera ilação ou de mero intuito de mascaramento, mas sim de uma materialidade que constitui formas sociais específicas. 

Pachukanis, portanto, é um pensador incontornável para a compreensão estrutural da mentira no capitalismo, pois alcança o plano das formas sociais, a partir do método marxista. Inclusive, sua sofisticada leitura revela a superficialidade e hipocrisia do discurso de combate ao crime no modo de produção capitalista, dado que “a relação jurídica não pressupõe por sua própria “natureza” um estado de paz, assim como o comércio, a princípio, não exclui o assalto à mão armada, anda de mãos dadas com ele” (Pachukanis, 2017, p. 139). Do mesmo modo, no que tange à ética e à moral no capitalismo, a mentira está entranhada no seio das próprias formas sociais capitalistas e em suas conformações. Logo, na sociedade capitalista, o imperativo categórico kantiano que compreende o ato de dizer a verdade como um dever em si mesmo é, na prática, uma falácia e, ao mesmo tempo, a expressão filosófica da materialidade burguesa nascente. 

Acerca do imperativo categórico kantiano, importa destacar as seguintes considerações de Pachukanis:

“Os conceitos fundamentais da moral não têm, portanto, nenhum significado se os retirarmos da sociedade de produção mercantil e tentarmos aplicá-los a qualquer outra estrutura social. O imperativo categórico não é de modo nenhum um instituto social, pois o propósito fundamental desse imperativo é agir ali onde é impossível qualquer motivação orgânica, natural, supraindividual. Ali onde existe um laço emocional estreito entre os indivíduos, apagando as fronteiras do “eu” individual, não pode haver lugar para o dever moral. Para a compreensão dessa categoria, é preciso partir não dos laços orgânicos, que existem, por exemplo, entre a mãe e os filhos ou entre a família e cada um de seus membros, mas do estado de isolamento. […] Todo o páthos do imperativo categórico kantiano resume-se ao fato de que o homem faz “livremente”, ou seja, por convicção interior, aquilo que no plano do direito ele seria coagido a fazer. Característicos são os próprios exemplos de que Kant lança mão para ilustrar seu pensamento. Eles reduzem-se inteiramente à manifestação da conveniência burguesa” (Pachukanis, 2017, p. 156).

A mentira que estrutura a sociedade capitalista, que mascara a desigualdade real entre exploradores e explorados sob o manto da igualdade jurídica entre os sujeitos de direito, também se apresenta no que tange ao falacioso caráter do Estado compreendido como bem comum. Na verdade, a forma política estatal garante a exploração capitalista e é inerente a esse modo de produção a impossibilidade de um bem comum possível, dado ser uma sociedade estruturalmente cindida em classes e interesses antagônicos.

Pachukanis ressalta o paradoxo da moralidade burguesa que se anuncia na filosofia kantiana. Tal como o crime e a forma jurídica andam de mãos dadas, de igual modo a imoralidade da prática social e a ética da sociedade produtora de mercadorias caminham lado a lado, consoante bem elucida o pensador soviético: 

“O páthos moral está ligado de modo indissociável à imoralidade da prática social e dela se alimenta. As doutrinas éticas pretendem transformar e consertar o mundo, enquanto, na verdade, elas são um reflexo deformado de apenas um lado do mundo real, justamente aquele lado no qual a relação entre as pessoas está subordinada à lei do valor. Não se pode esquecer que a pessoa moral é apenas uma das hipóstases do sujeito trinitário; o homem como fim em si mesmo é o outro lado do sujeito econômico egoísta. Um ato que é a única verdadeira encarnação real do princípio ético encerra em si mesmo também a negação desse último. O grande capitalista ‘de boa-fé’, bona fide, arruína o pequeno, sem usurpar nem por um minuto o valor absoluto da pessoa deste” (Pachukanis, 2017, p. 158). 

Para que se possa avançar na compreensão do tema da mentira do ponto de vista da filosofia marxista, além da incontornável contribuição pachukaniana no que tange às formas sociais, faz-se mister igualmente recorrer à leitura proposta pelo filósofo francês Louis Althusser sobre a ideologia, fruto de uma refinada e peculiar conjugação entre marxismo e psicanálise. Para Althusser, mais do que ilusão ou falsa consciência, a ideologia opera no inconsciente e constitui as próprias subjetividades. 

Althusser tece acurada crítica ao humanismo tanto na esfera da filosofia burguesa quanto das leituras que se pretendem marxistas. O filósofo francês aponta o caráter ideológico da atribuição de centralidade ao conceito de homem, constituindo-se em uma espécie de “fetichismo do homem”, de maneira que “o par pessoa/coisa está na base de toda ideologia burguesa” (Althusser, 1978, p. 29). Assim, Althusser retoma a problemática já apontada por Marx, em sua obra de maturidade: “as máscaras econômicas das pessoas não passam de personificações das relações econômicas, como suporte [Träger] das quais elas se defrontam umas com as outras” (Marx, 2013, p. 160). 

O humanismo e as noções a ele atreladas, tais como sujeito e alienação, são tomados, a partir da leitura althusseriana, como obstáculos epistemológicos, dado que a ciência marxista não parte do homem, mas da materialidade das relações sociais, compreendida através de categorias específicas. Além disso, é revelada a imbricação estrutural entre humanismo e ideologia jurídica, demonstrando que ambos encontram-se entranhados no seio da filosofia burguesa, na qual o sujeito, por excelência, é o sujeito de direito (Magalhães, 2018, p. 139). Pode-se dizer, então, que há um caráter de mistificação estrutural da ideologia jurídica, no capitalismo, consoante bem observa Nicole-Edith Thévenin: 

“Essa função mistificadora da ideologia jurídica é necessária para a reprodução do modo de produção capitalista: ela mantém os indivíduos em uma representação isolada, escamoteando o processo conjunto do capital. Reportando-se ao sujeito, ela escamoteia a classe; falando de propriedade, liberdade, igualdade, ela escamoteia a exploração da desigualdade” (Thévenin, 2010, p. 68). 

O sujeito de direito, portanto, possui uma base material da qual exsurge enquanto forma social e ideologia. O direito e a ideologia jurídica, de cunho eminentemente humanista, permitem a reprodução das relações capitalistas e, ao mesmo tempo, mascaram seu caráter estruturalmente exploratório (Magalhães, 2018, p. 183). 

O tema da ideologia é um dos mais caros ao marxismo e já aparece na obra A ideologia alemã de Marx e Engels. Contudo, o tratamento científico a essa temática necessitou dos avanços empreendidos pela psicanálise, mormente pelas obras de Freud e Lacan, as quais permitiram que Althusser lograsse atingir um patamar inovador na compreensão do problema da ideologia. Com Althusser, a ideologia deixa de ser compreendida meramente como uma opção ou ato de vontade do sujeito consciente, mas passa a ser dissecada como produto de práticas materiais efetivas reiteradas, constituindo a subjetividade no nível do inconsciente, por um processo no qual “o indivíduo é interpelado como a encarnação das determinações do valor de troca” (Edelman, 1976, p. 137). 

Destarte, há um caráter estrutural da mentira, no capitalismo, que se apresenta no processo de interpelação e constituição das subjetividades, dado que a exploração jaz oculta pelo arcabouço ideológico jurídico. No entanto, para além disso, Althusser também avança em um tema fundamental para a compreensão da produção e reprodução das mentiras no capitalismo, ao desvendar o mecanismo de funcionamento do que ele denomina de aparelhos ideológicos de Estado. 

Para Althusser, os aparelhos ideológicos de Estado operam primordialmente pela ideologia e espraiam-se por diversos campos, como o religioso, familiar, cultural, de informação, sindical, dentre outros, e, no coração deles, o jurídico. Assim, a ideologia burguesa, em consonância com os interesses da reprodução capitalista, é reforçada por tais aparelhos. Além disso, tais aparelhos constituídos no seio das formas sociais capitalistas e atravessados pela luta de classes podem, por exemplo, atuar de maneira ativa em diversas questões que perpassam o tecido social, disseminando padrões religiosos e culturais de caráter reacionário, misógino, racista ou ainda espalhando as chamadas fake news

Nos grandes canais de comunicação jornalística, observa-se que a difusão de notícias obedece a determinados padrões, os quais, em regra, jamais ultrapassam limites que possam ensejar possível afronta aos interesses do grande capital. Assim, por exemplo, quando se quer pressionar determinado governo à adoção de medidas de caráter neoliberal, busca-se influenciar diretamente a opinião pública mediante dados obtidos por meio de instituições e profissionais integrados aos interesses burgueses. 

Os regimes ditatoriais ou fascistas historicamente compreendem a importância do controle dos aparelhos ideológicos de Estado, cerceando o acesso à informação, por exemplo. No entanto, não se pode negar o caráter eminentemente ideológico da democracia burguesa, dado que as possibilidades de deliberação da classe trabalhadora são estruturalmente constritas pelas formas sociais capitalistas e suas conformações.  

Direito e Estado, além de seus aspectos repressivos, também operam fortemente no campo ideológico, sendo que as demandas da classe trabalhadora, em regra, devem ater-se aos limites do arcabouço normativo engendrado pela conformação entre forma jurídica e forma política estatal (Mascaro, 2013), de maneira que os pilares da sociedade burguesa permaneçam intactos.

Portanto, mediante uma conjugação das contribuições teóricas de Althusser e Pachukanis, na esteira de Marx, revela-se o caráter fundante da mentira no capitalismo, bem como suas distintas modulações, cujas determinações, em última instância, são econômicas. O capitalismo detém a peculiaridade de que, apenas nesse modo de produção, a mentira se apresenta como mercadoria.  

Conclusão 

Da análise do arcabouço teórico-filosófico de alguns dos expoentes dos três caminhos da filosofia contemporânea, resta evidenciado que apenas o horizonte marxista logra alcançar as bases materiais a partir das quais a mentira se erige, destrinchando sua especificidade histórica no modo de produção capitalista. 

Remontando à polêmica da filosofia moderna entre Kant e Constant sobre a mentira, o horizonte liberal contemporâneo, como, por exemplo, o habermasiano, procura resolvê-la na esfera da comunicação. O pensamento não liberal, como aquele presente em Villey, avança em uma compreensão de caráter situacional. Porém, somente o marxismo logra destrinchar que, na materialidade capitalista, a mentira possui um caráter estrutural e mercantil, calcado nas formas sociais capitalistas e constituindo seu arcabouço ideológico.  

O marxismo demonstra que a sociedade capitalista é estruturalmente exploratória e sob a máscara da subjetividade jurídica, o capital vampiriza a classe trabalhadora. Além disso, a produção desenfreada de fake news e as distorções comunicativas capazes de destruir vidas não são um acidente de percurso, mas são plenamente compatíveis com a ideologia burguesa e os aparelhos ideológicos de Estado. 

Destarte, somente o marxismo revela que não há limites éticos ou morais ao capital, dado que a moral e a ética de nosso tempo são formas do capital. 

* Este artigo foi originalmente publicado no dossiê “A mentira” da revista PoliÉtica.

Referências

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Juliana Paula Magalhães é doutora em filosofia e teoria geral do direito pela USP. Autora, entre outros, de Pachukanis: uma introdução (Boitempo, 2026), Crítica à subjetividade jurídica: reflexões a partir de Michel Villey (Contracorrente, 2022) e Marxismo, humanismo e direito: Althusser e Garaudy (Ideias & Letras, 2018). Organizou, ao lado de Luiz Felipe Osório, de Brasil sob escombros: desafios do governo Lula para reconstruir o país (Boitempo, 2023).


Pachukanis: uma introdução, de Juliana Paula Magalhães
Evguiéni B. Pachukanis viveu e produziu em um período histórico marcado por rupturas e reações, da Revolução de 1917 ao estabelecimento do fascismo. A obra do autor se tornou referência quando o assunto é a crítica marxista do direito.

Didática, mas sem perder a profundidade, a autora avança no horizonte pachukaniano e trata de temas importantes da produção de Evguiéni, como a percepção da forma jurídica como contraface das relações econômicas e sociais vigentes e a crítica do Estado: “Pachukanis viveu e morreu por sua revolução contra a forma jurídica e a judicialização do Estado. Compreender esse Estado, a relação pornográfica entre o poder político e o poder econômico, passa por resgatar e assimilar as lições desse jurista soviético revolucionário”, escreve Rubens Casara no texto de orelha.

Para Pachukanis, a construção do socialismo não se dá pelas vias institucionais, por meio apenas de reformas e redistribuições, mas pela transformação estrutural das relações de produção, resultando no fim da subjetividade jurídica e da forma política estatal: “Enquanto na reprodução ordinária do modo de produção capitalista tem-se o primado das formais sociais, na transição a primazia reside no aleatório. Todavia, os grandes horizontes do socialismo são cientificamente delineados pelo marxismo, ensejando, assim, o estabelecimento de táticas e estratégias de luta diante das condições dadas”, escreve Magalhães.


Aprofunde-se na vida e obra do jurista soviético com a série “Pachukanis: uma introdução”, na TV Boitempo:

O Dia da Vitória (ano 2026)

 

Pelo Socialismo

21.07.25

Verbena Córdula 

 

Reconhecer o papel central da URSS na vitória contra o nazismo incomoda a narrativa liberal ocidental, que insiste no revisionismo histórico — por meio da política, do cinema e do jornalismo — para glorificar seu poder e legitimar sua dominação 

 

 

 

Dizem que foram os norte-americanos que venceram Adolf Hitler. Dizem, também, que Winston Churchill salvou o mundo. Dizem que o Dia D foi o ponto de viragem. Dizem tantas coisas — e repetem tanto —, que acabamos quase por acreditar. Mas a Segunda Guerra Mundial não foi decidida na praia da Normandia, como contam a historiografia, o cinema e o jornalismo do Ocidente. Essa guerra foi decidida nos campos da Batalha de Estalinegrado, com muito sangue derramado, de cidadãos e cidadãs da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Assim foi o Dia da Vitória.  

O final dessa guerra, que começou em 1939, quando Hitler invadiu a Polónia, tem sido mostrada, anos após anos, década após décadas, como sendo mais um dos atos heroicos dos Estados Unidos da América (EUA), os “salvadores do mundo”. Ocorre, no entanto, que os norte-americanos só entraram no conflito depois do ataque a Pearl Harbor, em dezembro de 1941 — e mesmo assim, a sua ação na Europa foi “cautelosa”. O então primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Winston Churchill, assim como o ocupante da Casa Branca daquele momento, Franklin Roosevelt, adiaram, durante anos, o tão prometido “Segundo Front” na Europa. Enquanto isso, Josef Estaline clamava por ajuda, e os seus soldados caíam aos milhares tentando conter o exército nazi. 

A URSS resistiu, sozinha, durante quase três anos antes que os “Aliados ocidentais” decidissem entrar no conflito. Portanto, foi nas trincheiras congeladas do Front Oriental que o Exército Vermelho — composto por operários, camponeses e mães com fuzis nos ombros — aniquilou cerca de 80% das forças alemãs. O nazismo morreu ali, entre destroços, e também cadáveres soviéticos. O resto foi conto, foi filme, foi fotografia, foi reportagem, com “recorte” ocidental. 

A historiografia hegemónica — capitalista, ocidental e, sobretudo, de memória seletiva — insiste na narrativa que diz, com todas as letras, que a tal “libertação da Europa” pelas tropas anglo-norte-americanas começou apenas em 1944, com o desembarque na Normandia. Ou seja, depois de o Exército Vermelho já ter retomado várias cidades importantes — tais como Kiev (capital ucraniana) e Minsk (capital bielorrussa), esmagando a resistência alemã na Batalha de Kursk — e já marchava rumo ao centro do poder nazi — a cidade de Berlim. Naquele momento, a Alemanha já estava em colapso. E os Aliados (capitaneados pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha) entraram tardiamente, quando o inimigo já estava derrotado, quando a vitória já tinha sido escrita com sangue soviético. Mas, ainda assim, os ocidentais saíram das trincheiras direitos para o protagonismo, querendo tomar para si a glória, num verdadeiro roubo da memória. 

Devidos créditos os heróis soviéticos 

A narrativa ocidental — seja nos livros escolares, seja nas produções cinematográficas ou através da sua media hegemónicas  — transformou o Front oriental e Estalinegrado em nota de rodapé. Churchill tormou-se herói da liberdade, mesmo defendendo colónias, mesmo sendo abertamente racista. Roosevelt foi transformado em símbolo da paz, ainda que aprovando campos de concentração para nipo-norte-americanos (japoneses que nasceram/viviam nos Estados Unidos foram presos, torturados, apontados como traidores) e demorando deliberadamente a abrir o segundo Front. Enquanto isso, os heróis soviéticos sumiram da memória coletiva: Jukov, Rokossovsky e Chuikov, por exemplo — sobrenomes que soam estrangeiros demais para os livros do Ocidente. 

Foi Georgy Jukov o responsável por coordenar a defesa de Moscovo em 1941, a contraofensiva que empurrou os alemães para longe da capital soviética e, mais tarde, desempenhou papel central nas batalhas de Estalinegrado, Kursk e Berlim. Konstantin Rokossovsky elaborou e executou o plano de cerco em Kursk e liderou parte fundamental da Operação Bagration (nome atribuído à ofensiva do Exército Vermelho que destruiu os alemães em junho de 1944), inclusive convencendo Stalin de que a sua ideia era a melhor. Por último — e não menos importante —, Vasily Chuikov, general das tropas soviéticas que defenderam Estalinegrado, transformou a luta urbana numa guerra de atrito mortal para os nazis. Foi sob o comando dele que os soviéticos desenvolveram táticas de combate corpo a corpo, sobrepondo a vantagem tecnológica da Wehrmacht (as Forças Armadas nazis). 

Foi em Estalinegrado, entre 1942 e 1943, que o Terceiro Reich começou a morrer. Os alemães enviaram 300 mil homens. Saíram pouco mais de 90 mil — rendidos, famintos, humilhados. A maior derrota da Wehrmacht. E então veio o avanço soviético com a libertação da Polónia, a libertação de Auschwitz e, por fim, a chegada a Berlim. O Exército Vermelho venceu 600 divisões alemãs — enquanto os Aliados ocidentais enfrentaram 176. Os números falam. 

Mas, por que essa história não é normalmente contada dando os créditos ao povo soviético? Muito simples: porque reconhecer o protagonismo soviético é um incómodo para a narrativa liberal do Ocidente. Porque, se assim o fizessem, admitiriam que os socialistas soviéticos — com todos os seus erros, horrores e contradições — salvou o mundo do fascismo. E porque o Ocidente nunca perdoou a URSS por ter sido vitoriosa. Por estes motivos, o revisionismo histórico precisava (e ainda precisa) prevalecer. E, por estas mesmas questões, também veio a Guerra Fria e todas as demais investidas hostis dos Estados Unidos contra a União Soviética — e mais recentemente, contra a Federação Russa. Enfim, por estes motivos, o Ocidente construiu uma historiografia na qual a bandeira dos EUA sempre tremula solitária sobre o mundo “livre”. 

Do real ao guião 

O cinema ajudou (e continua a ajudar) muito nessa construção heroica da imagem ocidental na Segunda Guerra Mundial, especialmente a norte-americana. Filmes como “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), de Steven Spielberg, colocam os EUA como os grandes protagonistas morais e militares daquele conflito, sem sequer mencionar o papel soviético. “Bastardos Inglórios” (2009), de  Quentin Tarantino, reconstrói a guerra como farsa cómica, mas sem sinal da URSS. No mesmo estilo, “Dunkirk” (2017), de Christopher Nolan, usa uma retirada britânica como se fosse o centro do conflito. Somente para citar três exemplos. O cinema ocidental reescreveu a guerra para caber num  de três atos: heroísmo norte-americano, sacrifício britânico, vilania nazi. Nada de Estalinegrado. Nada de Kursk. Nada de Berlim tomada pelo leste. 

No primeiro filme mencionado, a guerra parece ser vencida nas praias da França por “meia dúzia” de homens virtuosos — norte-americanos, claro. A complexidade do conflito é reduzida a um drama moral protagonizado por norte-americanos. Spielberg capricha na questão visual, sobretudo na famosa cena do desembarque na Normandia. Mas, a perspicácia exemplar do cineasta fica mesmo por conta da construção de um mito heroico centrado no soldado norte-americano comum: corajoso, ético, sacrificado, o que dá forma ao enredo, que gira em torno da missão de resgate de um único homem — enquanto, na vida real, milhões morriam nos campos de batalha, muitos dos quais jovens  soviéticos. A Batalha de Estalinegrado, o Cerco de Leninegrado, a Libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho — tudo isso é ausente ou irrelevante. Assim, através de “O Resgate do Soldado Rayan”, Spielberg omite, exclui, invisibiliza a participação soviética, e constrói “outra história”, na qual o heroi norte-americano assume o protagonismo. 

Na visão de Tarantino, não foi o Exército Vermelho que chegou a Berlim e hasteou a bandeira sobre o Reichstag (Parlamento Alemão), mas um grupo de guerrilheiros norte-americanos guiados por Brad Pitt. Trata-se de um jogo cénico — mas cínico — que substitui a história por uma fantasia violenta. Em “Bastardos Inglórios”, Tarantino e a sua proposta revisionista — e deliberadamente absurda — não deixam nada a desejar. Quem mata Hitler? Não são os soviéticos, como na realidade. É Brad Pitt, que encarna a figura do tenente Aldo Haine, o herói grotesco, desumanizado — típico modelo do cinema de Tarantino — e profundamente enraizado na mitologia do soldado norte-americano libertador e justiceiro.    

Para completar o trio dos exemplos de discursos cinematográficos exaltadores do “heroísmo ocidental”, Christopher Nolan realiza uma obra-prima. Em “Dunkirk”, o resto do mundo não existe. Não há menção à resistência soviética, à invasão da URSS, nem ao papel decisivo do Front Oriental. Quando assistimos ao filme, ficamos com a impressão de que a guerra foi um episódio isolado entre Alemanha e Inglaterra, com a participação ocasional de aviadores heroicos. Através dessa produção cinematográfica, Nolan transforma um recuo militar desesperado em glória nacionalista — quase mitológica —, marcada pela resiliência dos soldados britânicos e solidariedade do povo comum que vai resgatá-los com barcos civis. É incrível a capacidade desse cineasta de fazer da Segunda Guerra Mundial uma experiência exclusivamente anglo-norte-americana. O filme opera como uma sofisticada peça de propaganda patriótica britânica — e, por extensão, ocidental. O resultado é uma história emocionalmente eficaz. Mas historicamente distorcida. 

Memória seletiva e ideologicamente alinhada 

O jornalismo também se insere nessa tarefa de distorcer a história da Segunda Guerra Mundial, através de veículos como CNN, ABC, BBC e, no Brasil, a Rede Globo, por exemplo. Essas empresas hegemónicas de comunicação consolidaram uma narrativa que retira ao povo soviético o direito à sua própria vitória. Em lugar disso, construíram uma epopeia anglo-norte-americana, onde os aliados ocidentais são os “heróis libertadores” da humanidade, e os soviéticos são, no máximo, também uma nota de rodapé desconfortável. 

Nas reportagens especiais de aniversário do Dia D (dia do desembarque Aliado na Normandia), por exemplo, as cenas são quase sempre as mesmas: bandeiras dos EUA, veteranos na Normandia, discursos de presidentes ocidentais sobre liberdade… Nenhum rosto russo nos documentários que inundam os canais de televisão. É o que se poderia chamar de um apagamento editorial deliberado. A CNN e a BBC, por exemplo, jamais colocam em destaque o papel do Exército Vermelho como libertador de Auschwitz, como se isso colocasse em risco a ordem moral da narrativa ocidental.  

A media brasileira também não escapa. A Rede Globo, quando trata a Segunda Guerra Mundial, faz eco à visão norte-americana, reproduzindo s importados com legendas de conveniência. O resultado dessa operação mediática é profundo, porque de certa forma educa — e também molda — afetos. Mas, sobretudo, essas abordagens decidem quem é herói e quem deve ser esquecido. E, ao fazer isso, servem a interesses que continuam no presente. A história que a media conta não é apenas sobre o que aconteceu, mas sobre quem merece estar no poder. 

 
Na narrativa da Rede Globo, o Dia D é frequentemente apresentado como o ponto de viragem decisivo do conflito — o momento em que os Aliados “finalmente começaram a derrotar Hitler”. Ressalta a coragem dos soldados norte-americanos e britânicos que desembarcaram nas praias da Normandia, a complexidade da operação militar e a imagem já cristalizada dos “mocinhos” vencendo o mal. No entanto, sob o brilho do jornalismo televisivo, o que se revela é uma simplificação ideológica e, principalmente, um apagamento histórico. Essa abordagem reforça uma memória seletiva — e ideologicamente alinhada com os interesses ocidentais. Em vez de complexificar o conflito, mostrando as suas contradições, as alianças tensas e os múltiplos protagonistas, a Globo o redu-lo a um duelo entre democracias ocidentais e o mal absoluto do nazismo — ignorando, convenientemente, que a URSS, apesar de todos os seus paradoxos políticos, foi essencial para a vitória. 

No entanto, há outras narrativas. Felizmente, existem alguns historiadores que mostram a verdadeira cara dessa história, como Howard Zinn. Mesmo sendo norte-americano, foi uma das vozes mais lúcidas e incómodas contra a narrativa triunfalista e patriótica ocidental. No livro “A História do Povo dos Estados Unidos” (A People’s History of the United States), Zinn denuncia, com muita veemência, como a história contada nos EUA foi moldada para glorificar o poder, silenciar os oprimidos e justificar as guerras. 

Base moral para as guerras posteriores 

No que se refere à Segunda Guerra Mundial, Zinn questiona o mito da “boa guerra”, ressaltando que o conflito foi utilizado não apenas para derrotar o fascismo europeu, mas também como uma forma de expandir os interesses económicos e militares dos EUA. O historiador destaca que, mesmo enquanto os norte-americanos combatiam o nazismo no exterior, continuavam praticando racismo, segregação e repressão dentro das suas próprias fronteiras. “O espírito da militância negra, que teve os seus lampejos na década de 1930, teve a sua intensidade reduzida durante a Segunda Guerra Mundial, quando a nação denunciou o racismo por um lado, manteve a segregação racial nas forças armadas e continuou a pagar mal aos negros por outro”, afirma (Zinn, 2011, p.  337 da versão em espanhol). 

Zinn também enfatizava que a entrada dos EUA na guerra não foi motivada por altruísmo ou solidariedade internacional, mas por interesses estratégicos. O historiador lembra que grandes corporações norte-americanas lucraram com o esforço de guerra, e que a economia daquele país foi alavancada à custa de destruição e mortes em massa em solo estrangeiro. De acordo com Zinn: “Com o poder imperial britânico desmoronando-se durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos estavam prontos para entrar em cena. Antes do fim da guerra, o governo já estava a planear o esboço da nova ordem económica internacional, baseada numa parceria entre o governo e grandes corporações.” (Zinn, 2011, p. 311 da versão em espanhol). 

Outra questão importantíssima ressaltada por Zinn é o facto de que, ao negar a vitória e a força soviéticas, os Estados Unidos estariam a combater a esquerda, o socialismo e as críticas ao capitalismo. De acordo com o historiador, era preciso convencer o mundo de que o modelo capitalista se configurava como o único sistema eficiente, e que, portanto, qualquer outro modelo, sobretudo o socialista, não poderia ter sucesso. Conforme Zinn: “A esquerda tornou-se muito influente nos tempos difíceis da década de 1930 e durante a guerra contra o fascismo. O Partido Comunista não tinha muitos membros […], mas era uma força poderosa entre os sindicatos, que tinham milhões de membros, entre os artistas e entre inúmeros americanos. O fracasso do sistema capitalista pode ter levado a ver o comunismo e o socialismo de forma favorável” (Zinn, 2011, p. 323 da versão em espanhol). 

Nessa mesma obra, Zinn alerta, entre outras questões, que a memória construída da Segunda Guerra Mundial serve como uma ferramenta ideológica poderosa, pois, ao colocar os Estados Unidos como “libertadores”, apagava-se não apenas o papel fundamental da União Soviética na derrota do nazismo, mas também se construía uma base moral para as guerras posteriores, como Vietname, Iraque, Afeganistão. Afinal, se os EUA foram os heróis contra Hitler, teriam o dever de repetir o gesto sempre que julgassem necessário. 

Para Zinn, a verdadeira história da guerra deve ser contada a partir de baixo: dos soldados comuns, dos civis bombardeados, das mulheres russas que defenderam os seus territórios, dos que morreram sem medalhas, rompendo, portanto, com o monopólio imperial da memória. O historiador faz-nos um alerta poderoso, salientando que é preciso desconfiar da narrativa única. Diz-nos ainda, nas entrelinhas, que devemos olhar para os silêncios da história oficial e perguntar-nos: quem contou isso? Quem beneficiou dessa versão? E quem foi apagado para que ela se sustentasse? No caso da Segunda Guerra Mundial, está evidente. 

 

Fonte: 80 anos do Dia da Vitória: a tarefa de defender a memória soviética frente à fantasia ocidental, publicado e acedido em 09.05.2025 

 

NE: O texto foi ligeiramente adaptado à variante do português de Portugal / Brasil

Venezuela

 O que não se pode esquecer: A revolução bolivariana e o futuro
Cira Pascual Marquina
8 de maio de 2026

 

 

Desde a destituição de Maduro, as especulações sobre o futuro da Venezuela estão a fervilhar. É certo que as análises geopolíticas têm a sua importância. Mas, para alguns, inclusive na esquerda, bastariam para enterrar o futuro da revolução bolivariana sob os compromissos da presidente interina. Isso seria esquecer que a revolução não assenta apenas num chefe de Estado... (I'A)

 

 

 Recentemente, participei numa assembleia na zona oeste de Caracas, onde os membros da comunidade debatiam como dar prioridade a recursos escassos. A discussão não foi fácil. As pessoas não estavam de acordo. Deveríamos investir primeiro num sistema de abastecimento de água, numa iniciativa produtiva ou na reparação de um espaço comunitário? As vozes por vezes sobrepunham-se, os argumentos eram construídos e reconstruídos, as decisões demoravam a ser tomadas. Visto de fora, poderia parecer uma reunião rotineira e até aborrecida. Por dentro, era bem outra coisa: um esforço coletivo para pensar a vida material sob alta pressão.

Assembleias como esta não são excecionais. Fazem parte do funcionamento normal de uma sociedade que, mesmo sob o jugo imperialista, continua a organizar a sua vida material e política. É algo que muitas vezes passa despercebido nos relatos sobre a Venezuela escritos à distância, onde a atenção tende a concentrar-se na «alta política» — declarações institucionais, negociações, respostas geopolíticas —, negligenciando o denso tecido da prática política quotidiana que sustenta o processo.

Na verdade, o que poderia ser percebido como uma simples inércia é melhor compreendido na sua profundidade: a expressão de um processo histórico em curso que, há mais de duas décadas, transformou não só as instituições, mas também as capacidades do povo.

 A irreversibilidade do que não pode ser desfeito

É aqui que a questão da irreversibilidade, levantada por Chris Gilbert num artigo recente, se torna decisiva. Inspirando-se no trabalho do filósofo húngaro István Mészáros, Chávez defendeu que os processos revolucionários podiam, em determinadas condições, atingir um ponto de não retorno. Esta noção é frequentemente interpretada em termos institucionais, mas a sua dimensão mais profunda situa-se ao nível da base, onde a mudança é, por falta de melhor palavra, molecular.

Após mais de vinte e sete anos, a Revolução Bolivariana gerou uma densa acumulação de experiência política vivida. Milhões de pessoas participaram em processos de organização, tomada de decisão e luta. Não foram apenas testemunhas da política, praticaram-na.

A partir do interior deste processo, torna-se claro que tal experiência não pode ser facilmente revertida. As instituições podem ser transformadas, as políticas revertidas e os recursos reafetados. Mas a dignidade de se ter tornado cidadão/a após séculos de humilhação e de apartheid social, o conhecimento produzido pela prática vivida — a capacidade de interpretar e de organizar — não desaparecem tão facilmente. As pessoas (incluindo a liderança política do processo) não podem simplesmente «desaprender» o que viveram.
Ao mesmo tempo, seria um erro tratar o projeto comunal como autossuficiente ou abrangente. De um ponto de vista chavista, ou mesmo marxista-leninista, a comuna não pode permanecer isolada para realizar o seu verdadeiro potencial revolucionário. Deve tornar-se nacional, articulada com outras esferas de poder, incluindo o governo. O horizonte não é um mosaico de experiências locais desconexas, mas a transformação da sociedade no seu conjunto.

Não se trata de uma preocupação abstrata. Da minha perspetiva, é claro que as comunas — ainda marginais na economia nacional — não podem sustentar-se ou desenvolver-se se o Estado for perdido em benefício de forças hostis à revolução. Perder o governo não significaria o desaparecimento imediato da organização popular, mas interromperia a possibilidade de avançar para uma democracia substancial capaz de corroer o metabolismo do capital que começa a emergir nas comunas.

Isso não implica que o apoio ao governo deva ser acrítico. A relação entre o poder popular e o Estado tem sido contestada em momentos desde os primeiros dias da revolução. Houve momentos em que o governo se distanciou do projeto comunal, para depois voltar a ele sob a pressão de setores organizados.
Contra as apostas «demasiado seguras»

Isto leva-nos de volta às declarações derrotistas dos intelectuais de esquerda que mencionei anteriormente, que insistem no facto de que a Revolução
 Perder o governo não significaria o desaparecimento imediato da organização popular, mas interromperia a possibilidade de avançar para uma democracia substancial capaz de corroer o metabolismo do capital que começa a emergir nas comunas.

Isso não implica que o apoio ao governo deva ser acrítico. A relação entre o poder popular e o Estado tem sido contestada em alguns momentos desde os primeiros dias da revolução. Houve momentos em que o governo se distanciou do projeto comunal, para depois voltar a ele sob a pressão de setores organizados.
Contra as apostas «demasiado seguras»

Isto remete-nos para as declarações derrotistas dos intelectuais de esquerda que mencionei anteriormente, que insistem no facto de que a Revolução Bolivariana terminou, que o governo capitulou, que o que resta não passa de uma casca vazia. Visto de fora, isto pode parecer realismo. De dentro, reflete uma profunda incompreensão do processo. No cerne dessa incompreensão está a incapacidade de compreender a irreversibilidade.

Aqueles que declaram ou dão a entender que tudo está perdido tendem a concentrar-se no governo como se este fosse o único depositário da revolução. Os «especialistas» projetam na Venezuela aquilo que conhecem – a democracia representativa, os seus jogos de poder, a sua personalização. Deste ponto de vista, qualquer concessão ou recuo parece ser uma prova de

Fonte : Investig ´action. França 
Supporters of Venezuelan President Nicolas Maduro hold a portrait of late Venezuelan President Hugo Chavez and a Venezuelan national flag during a march in solidarity with the social movements that have exploded in Latin American countries in the last days, in Caracas, on October 24, 2019. Thousands of government supporters paraded down a main avenue to show their support for the protests in Chile, Honduras, Ecuador, and to support Bolivian President Evo Morales. (Photo by Yuri CORTEZ / AFP)

sexta-feira, 1 de maio de 2026

 

Des nuages de fumée s’élèvent au-dessus de Manhattan, le 11 septembre 200. De la fumée s’élève d’une zone de la ville côtière libanaise de Tyr le 8 avril 2026, après une frappe israélienne (AFP)

Quand les voix anti-guerre parlent le langage de l’empire

Même ceux qui s’opposent à la guerre le font souvent dans un cadre façonné par les systèmes de pouvoir. Ces mêmes systèmes de pouvoir qu’ils prétendent contester.

Une militante des droits humains respectée s’est exprimée à plusieurs reprises contre l’agression israélo-étatsunienne en Iran. Elle reconnaît l’illégalité de cette guerre et n’hésite pas à la condamner sans équivoque. Pourtant, presque systématiquement, elle se sent obligée de nuancer sa position, rappelant à son auditoire que l’Iran a tué des dizaines de milliers de manifestants lors des récentes manifestations antigouvernementales.

Ce chiffre est très contestable. Même les chiffres largement cités par la presse internationale – tels que ceux rapportés par l’agence Reuters en janvier 2026 – font état de milliers de morts lors des manifestations, et non de dizaines de milliers. Mais la question ici n’est pas le nombre exact, ni même le contexte complexe de ces manifestations, qui ont débuté comme de véritables expressions de mécontentement avant d’être instrumentalisées par divers acteurs, externes et internes cherchant à déstabiliser le pays.

Le problème est la nuance elle-même.

Nombreux sont ceux qui se revendiquent progressistes, pacifistes, libéraux, voire de gauche, et qui semblent incapables de prendre une position morale claire sur les actions américaines et israéliennes dans les pays du Sud sans y ajouter ces nuances. Cette habitude peut paraître anodine, voire responsable, mais elle est en réalité profondément néfaste. Elle n’est pas un signe de nuance : c’est le symptôme d’une hésitation morale plus profonde.

En nuançant leur condamnation, ces voix neutralisent leur propre position. Elles suggèrent, intentionnellement ou non, une forme d’équivalence morale : la guerre israélo-étatsunienne contre l’Iran est injuste, mais l’Iran est également coupable ; le génocide à Gaza est abominable, mais les Palestiniens sont aussi responsables. Il n’en résulte pas un équilibre, mais une paralysie.

Comparez cela à la clarté morale de ceux qui soutiennent la guerre. Leur position n’est jamais nuancée. Elle est affirmative, absolue et souvent fondée sur des exagérations ou des mensonges purs et simples, mais elle est convaincante car elle ne se contredit pas.

Ce schéma n’est pas nouveau. Il est profondément ancré dans l’histoire du discours politique occidental. Du bombardement atomique d’Hiroshima, justifié comme un acte nécessaire pour sauver des vies, aux interventions militaires de la Guerre froide dans des pays comme le Guatemala en 1954, où le changement de régime était présenté comme une défense contre le communisme, le langage de la morale a constamment servi à légitimer la violence.

L’invasion de l’Irak en 2003 en offre un exemple frappant. Saddam Hussein y était présenté comme l’incarnation ultime du mal – le « nouvel Hitler » – tandis que les États-Unis et leurs alliés étaient dépeints comme des libérateurs.

Les responsables américains ont ouvertement déclaré avoir été « accueillis en libérateurs », alors même que le pays sombrait dans le chaos et une violence extrême. Quelques années plus tard, la secrétaire d’État américaine Condoleezza Rice décrivait la dévastation causée par la guerre israélienne au Liban en 2006 comme « les douleurs de l’enfantement d’un nouveau Moyen-Orient », réduisant d’immenses souffrances humaines à une étape nécessaire d’une grande transformation géopolitique.

Condoleezza Rice compare la dévastation causée par la guerre israélienne au Liban en 2006 aux « douleurs de l’enfantement d’un nouveau Moyen-Orient » (AFP)

Cette tradition remonte encore plus loin, à l’époque du colonialisme, lorsque les puissances européennes justifiaient leurs conquêtes par des missions prétendument humanitaires. L’abolition de l’esclavage, par exemple, était fréquemment invoquée comme justification morale de l’expansion coloniale en Afrique, présentant la domination comme une action bienveillante et la violence comme un devoir civilisateur. Dans ce paradigme, tuer est fait au nom du salut ; détruire est présenté comme un progrès.

Israël opère depuis longtemps dans ce même cadre. Ses guerres ont toujours été présentées comme existentielles et nécessaires à la survie de la démocratie et de la civilisation.

Bien avant l’émergence du Hamas, la résistance palestinienne était associée à des étiquettes changeantes mais servant toujours le même objectif. Lors du soulèvement de 1936-1939, les combattants palestiniens étaient qualifiés de « terroristes », de « brigands » et de « bandes » dans le discours britannique et sioniste. Au cours des décennies suivantes, l’étiquette a évolué – de combattants nationalistes à communistes, puis à islamistes – mais la logique sous-jacente est restée la même : l’ennemi est toujours illégitime, et par conséquent toute violence à son encontre est justifiée.

Nous sommes nombreux à reconnaître ce schéma, mais au lieu d’en dénoncer les failles, certains persistent et s’alignent, cherchant une position « équilibrée » tout en se présentant comme pacifistes, voire pro-palestiniens. Ils reconnaissent les crimes israéliens, mais se sentent obligés de condamner le « terrorisme » palestinien. Ils s’opposent aux politiques israéliennes, mais insistent pour se distancier du Hamas et des autres groupes, comme si la résistance palestinienne existait en dehors du contexte historique et politique qui l’a engendrée. Ils parlent d’« extrémistes des deux camps », comme si des figures telles qu’Itamar Ben-Gvir et un combattant palestinien à Gaza pouvaient être comparées de manière pertinente.

De telles positions peuvent sembler défendables prises isolément, mais elles perdent considérablement de leur crédibilité lorsqu’on les replace dans leur contexte. Après les attentats du 11 septembre 2001, les États-Unis ont exigé – et obtenu – une solidarité inconditionnelle. Il en a été de même après les attentats à la bombe du 7 juillet 2005 à Londres et l’attaque contre Charlie Hebdo à Paris le 7 janvier 2015. À ces moments-là, personne n’attendait que les victimes soient contextualisées ni que la solidarité soit assortie de conditions. Des millions de personnes ont exprimé leur soutien sans hésitation, sans réserve, sans devoir démontrer un quelconque équilibre moral.

Cette norme ne s’applique pas aux autres pays. Elle ne s’applique pas à l’Iran, à l’Irak, à l’Afghanistan, au Venezuela, ni à Gaza.

Pour information : la guerre israélo-étatsunienne contre l’Iran a déjà fait 3 753 morts et environ 26 500 blessés depuis le 28 février 2026. Si les Américains subissaient un tel déluge de violence à la même échelle, cela représenterait environ 12 000 morts et 85 000 blessés, soit l’équivalent de quatre attentats du 11 septembre en termes de morts seulement, et un nombre de blessés bien supérieur à cette tragédie.

À Gaza, l’ampleur du désastre est encore plus stupéfiante. Plus de 72 000 Palestiniens ont été tués, plus de 172 000 blessés et au moins 10 000 sont toujours portés disparus, probablement ensevelis sous les décombres. On estime généralement que le nombre réel est bien plus élevé. Rapporté à la population des États-Unis, cela équivaudrait à environ 10,2 millions de morts, plus de 24,4 millions de blessés et plus de 1,4 million de disparus, soit l’équivalent de 3 400 attentats du 11 septembre.

Et pourtant, même face à ces chiffres accablants, la tentation de nuancer ces pertes persiste.

Pour nombre de militants occidentaux, cette nuance constitue une forme de protection. Elle leur permet de conserver une certaine autorité morale au sein de leur société sans mettre en danger leur position professionnelle ou sociale. En condamnant la violence tout en se distanciant des victimes, ils occupent une position intermédiaire rassurante, d’apparence vertueuse mais qui, au final, ne change rien.

Il ne s’agit pas simplement d’une question de rhétorique ; cela révèle un problème structurel plus profond. Même ceux qui s’opposent à la guerre le font souvent dans un cadre façonné par les systèmes de pouvoir mêmes qu’ils prétendent contester. Leur discours, aussi critique soit-il, s’inspire encore de la grammaire morale de l’empire.

Comme l’écrivait le regretté intellectuel palestinien Edward Said dans son essai « The Essential Terrorist », le « terrorisme » a « acquis un statut extraordinaire dans le discours public étatsunien » et a « dépassé le communisme comme ennemi public numéro un », fournissant une étiquette flexible permettant de construire des ennemis et de normaliser la violence à leur encontre.

Dans le même ordre d’idées, les détracteurs de ce qu’on appelle « l’intervention humanitaire » affirment depuis longtemps que le discours des droits de l’homme a été instrumentalisé à maintes reprises pour justifier la guerre, transformant la préoccupation morale en un instrument de domination commode plutôt qu’en une véritable remise en question de celle-ci.

Sans honnêteté, sans contexte et sans le courage de parler clairement, le dialogue ne peut progresser. Le besoin constant de nuancer – d’équilibrer, d’adoucir, de prendre ses distances – ne fait pas avancer la justice. Il l’obscurcit.

Ainsi, la prochaine fois que l’on sera tenté de condamner le génocide à Gaza ou l’agression israélo-étatsunienne contre l’Iran, il est bon de résister à cette impulsion. Nul besoin d’édulcorer la vérité pour la rendre acceptable. Nul besoin de renier sa propre position morale pour paraître raisonnable.

Et si cela s’avère impossible – si la condamnation doit toujours être assortie de conditions –, alors peut-être vaut-il mieux se taire.

Le Dr Ramzy Baroud est journaliste, auteur et rédacteur en chef du Palestine Chronicle. Il est l’auteur de huit livres. Son dernier livre, « Before the Flood », a été publié par Seven Stories Press. Parmi ses autres livres figurent « Our Vision for Liberation », « My Father was a Freedom Fighter » et « The Last Earth ».

Baroud est chercheur principal non résident au Center for Islam and Global Affairs (CIGA). Son site web est www.ramzybaroud.net

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