Imagemelaborada a partir de elementos da capa de Questão nacional e Marxismo, organizada por Jaime Pinsky, Brasiliense, 1980, capa de Otávio Roth e Felipe Doctors.
Por Rob Grams
Vincent Berthelier1 é
especialista das relações entre estilo, literatura e política. Ele é
autor de uma notável obra sobre o estilo reacionário intitulada Le style réactionnaire,2 assim como de uma contribuição sobre a literatura e a extrema direita na obra coletiva do Institut La Boétie, Extrême droite: la résistible ascension.3 Em Le style de Marx (Éditions Sociales, 2025) ele aborda vários pontos que ressoam em questões que nós formulamos na Frustration Magazine:
o uso da ironia, os “ataques corrosivos”, a voz dos
“principais envolvidos”, além da exigência do rigor combinada a maior
acessibilidade possível… Conversamos com ele sobre tudo isso.
Por que o estilo de Marx?
Geralmente
se lê Marx como um teórico da economia ou da política. Por que era
importante, ou em todo caso interessante, na sua opinião, encarar a obra
dele pelo âmbito do estilo?
Eu já vinha lendo Marx há muito tempo. Havia esse seminário de leitura de Marx na ENS,4
ao qual eu assistia, mas eu era da literatura: não era nem filósofo,
nem economista, nem historiador. Eu não pertencia a uma disciplina
canônica que mobilizasse habitualmente o marxismo. A partir desse
seminário, a gente lançou outro espaço de trabalho, mais orientado para a
crítica e para a teoria literárias. Não era um seminário stricto sensu marxista,
mas um espaço no qual a gente pensava a literatura a partir de um ponto
de vista materialista, historicizado, contextualizado, levando em conta
determinismos sociais e econômicos. Do meu lado, eu tinha trabalhado no
doutorado sobre a questão do estilo, partindo de um corpus bem diferente, já que se tratava da extrema direita. Um trabalho que se tornou em seguida o livro Le style réactionnaire,
publicado pela editora Amsterdam. E aí, por efeito de contraponto, eu
considerei que essa reflexão sobre o estilo podia também se aplicar à
outra vertente política.
Houve, em seguida,
um elemento bem concreto: uma editora das Éditions Sociales,
Marina Simonin, deparou-se com um velho livro de Ludovica Silva, Le style littéraire de Marx,
escrito em espanhol. Ela cogitou traduzi-lo (a editora Verso o tinha
feito em inglês) e pediu minha opinião. O assunto era cativante, mas o
livro estava meio ultrapassado. Propus um posfácio consequente ou,
finalmente, fazer um livro novo. Foi assim que o projeto nasceu. É essa a
causa material.
Além disso, no que
diz respeito ao interesse específico dessa abordagem para Marx:
evidentemente, esse não é o ângulo mais imediatamente político. Mas
estudar o estilo de um autor, qualquer que seja, significa sempre
situar-se no ponto de junção entre o político e o individual. O estilo é
tanto um repertório de procedimentos já presentes – portanto tem algo
de coletivo, ligado a tendências de época, a tradições literárias às
vezes muito antigas – e ao mesmo tempo algo de individual: o jeito do
autor de se reapropriar dessas formas, de retomá-las, às vezes para
exprimir um pensamento novo, que pode em si ser coletivo ou atravessado
por uma sociabilidade muito particular. Durante a redação, é claro que
eu me perguntei qual podia ser o sentido político de tudo isto. Na minha
opinião, ele se dá precisamente nesta articulação entre o individual e o
coletivo. Tento trabalhá-la em várias partes do livro, e principalmente
na conclusão, refletindo sobre o que o estudo do estilo permite pensar
sobre uma subjetividade revolucionária. O que significa, por exemplo,
ser um intelectual prussiano, mas à margem da Prússia, longe de Berlim,
na sua parte ocidental; ser tomado pelo turbilhão do século XIX, com
todo um conjunto de aspirações e atravessar em seguida a Europa
– França, Inglaterra – em busca de uma liberdade bem concreta: de
movimento, de expressão, de publicação? Eu não acho que refletir sobre o
estilo de Marx seja, em si, uma questão ardente. É bom não se iludir
nesse aspecto. Mas acho que é um bom meio de refletir sobre nossa
própria subjetividade quando estamos engajados, quando estamos
atravessados por um desejo revolucionário, quando estamos envoltos
nas contradições da história.
O estilo, em Marx,
adquire diferentes formas de expressão e essas formas remetem tanto a
tarefas políticas distintas, quanto a problemas políticos difíceis de
resolver. Eu não sou obviamente o primeiro a formular estas questões:
elas já foram abordadas por outros críticos. Meu objetivo era também o
de propor uma síntese. Mas, sobretudo, tratava-se de entrar não somente
no pensamento de Marx – sobre o qual há bibliotecas inteiras – mas
naquilo que seu estilo desenha como trajetória de engajamento. E isso,
eu acho que pode dialogar bem diretamente com a gente. Por exemplo: a
contradição ligada à posição social de Marx. Ele vem de uma classe média
superior, é filho de um advogado liberal; não é um burguês no
sentido estrito, contrariamente a Engels, mas sua situação é ambígua.
Seu pai, judeu convertido, sofreu antissemitismo e uma certa
marginalização. Marx não é proletário, mas enfrentou momentos de grande
precariedade. No fundo, sua situação parece com a de muitos estudantes,
muitos professores precários – um importante viveiro sociológico de
militantes hoje em dia. Pessoas que se encontram em uma posição
contraditória: por exemplo, quando você vai ao campo e cruza com pessoas
que ganham muito pouco, com modos de vida e referências bastante
distantes das suas, mas que, ainda assim, você sabe que têm interesses
econômicos e políticos comuns a defender. Como você encara isso? Será
que você fala “por”? Será que você se cala em nome da legitimidade dos
outros, arriscando deixar de lado o que você, por sua vez, assimilou?
Em Marx, essas
tensões se exprimem de maneira discreta, sem adquirir a forma de uma
culpa infinita, que me parece ser hoje a modalidade dominante entre
militantes. Essa ideia de que estaríamos sempre, de antemão, na posição
de um mau dominador, culpado por uma “violência simbólica”, parece hoje
superinvestida. Marx propõe, à sua maneira, pistas de resolução em torno
da questão do porta-vozismo, da teorização de situações sociais que nós
mesmos não vivemos. São desafios bastante contemporâneos, que podem ser
pensados a partir de Marx não pela reativação direta de seus grandes
conceitos (exploração, modo de produção capitalista etc.), mas pela
retomada de sua posição como pensador engajado, situado em sua própria
realidade concreta.
Tomemos um
exemplo concreto. O Manifesto do Partido Comunista é um dos textos
políticos mais lidos do mundo. Tem isso a ver com sua potência
estilística?
De um modo geral,
sobre a questão do estilo, eu sou bem deflacionista. Isto é, considero
que é importantíssimo não lhe dar uma importância excessiva. O estilo
não pode ser descolado do resto: do conteúdo, do contexto, das condições
materiais de produção e de circulação dos textos. Não se trata
portanto de estudar o estilo pelo estilo, como uma pura criação
formal separada do mundo social. Podemos – e devemos – estudar o estilo
historicamente e politicamente, mas sem lhe atribuir virtudes que ele
não tem.
Peguemos O Manifesto do Partido Comunista. É um texto
de uma abrangência internacional absolutamente colossal, que não
precisa ser demonstrada. Mas, se procurarmos entender por que ele se
tornou assim conhecido, as causas são múltiplas e não têm todas o mesmo
peso. A primeira questão, muito concreta, é a dos intermediários: quem
permitiu que o texto fosse publicado, e republicado? Afinal, qualquer
livro é publicado uma primeira vez; o que faz a diferença, no entanto, é
o que lhe permite circular, ser lançado de novo, ser reeditado. Desse
ponto de vista, o fato que Marx tenha sido erigido em uma figura teórica
central, quase como um profeta, pelos bolcheviques, e que estes últimos
tenham feito, com sucesso, uma revolução em um país imenso, dotado de
um potencial econômico considerável, conta evidentemente muito mais que o
estilo do texto. Podemos fazer uma experiência de pensamento:
imaginemos que Marx não tenha tido tempo de terminar O Manifesto e que tivéssemos ficado apenas com o Catecismo comunista de
Engels, um texto dialogado, de estilo bem diferente. As ideias são, em
linhas gerais, as mesmas, já que se trata de um trabalho comum,
vinculado à linha política que eles buscavam impulsionar no interior da
Liga dos Justos,5 e depois da Liga dos Comunistas6.
Nada impede de pensar que esse texto poderia ter circulado e entrado
para a posteridade. Seu estilo é, porém, completamente diferente. No Manifesto,
reconhece-se imediatamente a marca de Marx: essa tendência a fazer
falar diferentes instâncias, esse lado marionetista, essa ironia
permanente… Coisas que se encontram muito menos em Engels, que é,
todavia, igualmente bom escritor quando atua como historiador.
Se observarmos os livros que tiveram uma difusão mundial massiva – a Bíblia, o Corão, o Pequeno Livro vermelho – veremos que seu sucesso não se baseia em uma suposta legibilidade estilística. A Bíblia e o Corão são, para muitos leitores, textos dificílimos, às vezes quase ilegíveis. O Pequeno Livro vermelho é
um objeto muito estranho: há ali explosões de lirismo, vindas de
parábolas chinesas, misturadas a trechos de discursos de congresso com
os quais nem sempre se sabe o que fazer – e no entanto, ele foi lido,
recitado, estudado de maneira quase religiosa. Quando um texto
é impulsionado por uma força política massiva, ele pode tornar-se um
estandarte seja qual for o seu formato. É nesse sentido que eu me digo
deflacionista.
Isso dito, podemos
formular a questão de outro jeito, pelo lado do uso vivo dos textos. Aí,
o estilo volta a ser importante. Em que medida um texto como O Manifesto pode funcionar como um repertório de slogans,
ou como um texto no qual comunidades políticas se reconhecem? Nesse
nível, há mesmo elementos estilísticos que produzem efeitos. Se
retomarmos o Pequeno Livro vermelho, por exemplo, certas
metáforas – o “tigre de papel” etc. – constituem verdadeiros espaços de
elaboração estilística, que convocam a reprise, a citação, a
reapropriação. E aí, efetivamente, o estilo conta.
Em breve “O Estilo de Mao”?
(Risos.) Não é a
ideia, mas seria bem interessante. Atualmente, estou trabalhando sobre
questões de circulação internacional dos textos e também sobre a
história das formas. O caso de Mao é fascinante. Ele escrevia poesia
clássica ao modo da dinastiaSong,7 portanto em formas com mais de mil anos de existência. Um estilo antigo, muito arcaico. É mais ou menos como se Mélenchon8 escrevesse hoje poemas ao modo de Villon,9 ou mesmo epopeias tipo A Canção do Rolando10:
dá para imaginar o grau de arcaísmo. Mao escrevia em versos bem
regulares, e nem mesmo seus adversários políticos contestavam a
qualidade formal dos seus poemas.
O que é divertido é
a recepção na França. Quando esses textos foram traduzidos, os
situacionistas e os anti-maoistas diziam que era uma porcaria. Mas não
tem nada a ver com isso: é simplesmente muito difícil de ler. É mais ou
menos como a poesia da dinastia Tang11:
quando não conhecemos o sistema, parece-nos intragável. Com Mao,
estamos diante de um líder comunista que defende a educação das massas, a
simplificação do chinês, a substituição do chinês literário pelo chinês
falado – e que, paralelamente, escreve em um chinês hiper arcaico, com
formas bem elitistas. É um objeto profundamente contraditório, e é por
isso que é instigante.
Já que
estamos falando da circulação, será que os operários do século XIX
realmente liam Marx no próprio texto ou o faziam indiretamente através
de jornais e de círculos de leitura? Será que o pensamento de Marx junto
a eles se difundia pela leitura dos textos ou por via oral?
De maneira geral,
os operários do século XIX não liam muito Marx. Seu verdadeiro triunfo
veio sobretudo após a Revolução de Outubro.12
Isso dito, não é inteiramente falso afirmar que ele foi lido em vida:
esteve bastante presente, por exemplo, nos círculos dirigentes da
social-democracia alemã.
A circulação das suas ideias se dá, portanto, de maneira bem desigual. Podemos pensar em Jules Guesde,13
por exemplo, que lê Marx, encontra-o e com ele colabora para a redação
da introdução do programa do Partido Operário Francês (POF). Mas será
que esse programa foi realmente escolhido pelos operários? Nada o
garante. Aliás, ainda hoje, quem lê os programas políticos?
Se observarmos o
período 1848-1870, podemos dizer que, na realidade, quase ninguém lê
Marx. Aqueles que o leem o fazem sobretudo através do New York Daily Tribune,14
no qual ele publica enormemente: é provavelmente aí que seus textos são
mais lidos durante a sua vida. Por outro lado, ele publica pouquíssimos
livros. Contribuição à crítica da economia política é uma
obra erudita, e Marx espera aliás ser recebido como economista pelos
economistas, com uma recepção científica. O mesmo vale para O Capital. Há o caso particular da edição francesa d’O Capital e
seu prefácio no qual Marx explica como ler o livro aos operários
franceses. Há, portanto, essa espera por um leitorado operário. Mas, na
realidade, o próprio Marx parece estar pensando mais no seu trabalho
como uma versão sólida, rigorosa, destinada a ser em seguida vulgarizada
por outros. Marcello Musto mostra isso muito bem na sua biografia dos
últimos anos de Marx: enquanto prepara a sequência do Capital e
suas diferentes edições, Marx vigia de pertinho as versões vulgarizadas
que circulam – geralmente sem sua autorização, em forma de piratagem. O
roteiro é quase sempre o mesmo: ele lê, diz primeiro “é uma porcaria,
há erros por todos os lados”, depois termina concluindo que “no final
das contas, não está de todo mal”.
Do lado dos
operários, o acesso direto aos textos de Marx permanece bem limitado. Há
as aulas que ele dá em associações operárias, em Paris ou em Bruxelas,
mas elas são frequentadas por um pequeno número de operários e de
operárias, geralmente artesãos alemães. Aí, a transmissão é
essencialmente oral.
Temos também que levar em conta a circulação dos textos no seio da Internacional. Salário, preço e lucro,
por exemplo, sai de uma discussão com um operário. Mesmo que a
Internacional conte com intelectuais burgueses e pequenos-burgueses como
Marx e Engels, trata-se de fato de uma organização operária, inclusive
sociologicamente. Há, portanto, uma audiência operária, mas ela é
restrita e bem localizada.
Em suma: os
“grandes livros” de Marx quase nunca são lidos diretamente pelos
operários, a não ser por uma ínfima minoria. Existem, todavia, figuras
de operários muito educados – tipógrafos, autodidatas, militantes – um
pouco à maneira de Proudhon, que dedicam tempo à própria formação, por
vezes escrevem as suas memórias e que, nos círculos militantes,
inevitavelmente ouvem falar de Marx. Esses, sim, podem lê-lo. Mas temos
que imaginar as condições materiais: O Capital, impresso em
gótico, seiscentas páginas… Mesmo após a primeira tradução francesa, em
1875, o acesso permanece difícil. Quanto ao Manifesto, leva
tempo antes que ele seja retraduzido e amplamente republicado. Vários
desses textos só ficam realmente disponíveis depois da Comuna de Paris
em 1871, no momento em que a figura de Marx emerge no debate público e
midiático.
Qual a
relação de Marx com a literatura? Será que ele se inscreve em uma
herança particular no nível do estilo, enquanto escritor?
Marx tem várias
heranças literárias. Para começar, seus primeiros textos são poemas.
Foram traduzidos há menos de dez anos pela L’Insomniaque, uma pequena
editora anarquista de Montreuil. São poemas bem românticos, de
juventude, descabelados, cheios de instigação juvenil.
Mas Marx não é
somente um poeta de juventude. Ele é também um leitor compulsivo:
conhece tanto os clássicos – Cervantes, Goethe, Shakespeare, Balzac –
quanto a literatura contemporânea de sua época, incluindo best-sellers
como Dumas ou Eugène Sue. Já Victor Hugo o conhece de longe: reconhece
seu talento, mas o considera politicamente equivocado. Há, nos seus
escritos, uma alusão a Quasímodo; portanto, ele sem dúvida leu O Corcunda de Notre-Dame. Leu também o panfleto de Hugo sobre a Comuna.
Isso não significa
que Marx se inscreve em uma corrente literária particular. Os partidos
comunistas, durante muito tempo, apresentaram Marx e Engels como
partidários do realismo, em oposição ao romantismo “degenerado” burguês.
Mas esse realismo é uma construção a posteriori. Na época em
que Balzac morre, o realismo literário está só começando a se forjar e,
nos textos de Marx, as referências balzaquianas não são tão centrais
assim. Suas principais referências são antes Shakespeare e Don Quixote,
e ele é amante dos grandes romances pré-modernos, essa forma exuberante
e extravagante. Dizer que Marx é partidário do realismo literário como
doutrina é um exagero, ainda que seja verdade que ele não defenda a arte
pela arte: considera que a literatura pode e deve refletir o mundo, o
que era uma posição comum na época e de modo algum específica do
realismo ou do marxismo.
Marx, escritor plurilíngue
Marx
escreve em alemão, em francês e em inglês, e lê fluentemente várias
línguas. Será que o plurilinguismo é importante para entender sua
escrita e sua política?
Sim, claramente: o plurilinguismo é importante para entender tanto a escrita quanto a política de Marx.
Primeiro, a
escrita. Quando lemos os textos mais espontâneos na língua original
– cartas, borrões… –, deparamo-nos com algo bem impactante: uma prosa
estranha, que mistura o tempo todo várias línguas. Marx passa do alemão
ao francês, intercala citações latinas, às vezes inglês. A respeito
disso, fala-se de “babelismo”15 – a expressão não é minha –, e é um traço que se deve levar absolutamente em conta se quisermos falar do estilo de Marx.
A partir daí, a
questão se torna: por que ele escreve assim? E é nesse ponto que
chegamos, indiretamente, na política. Essa mistura de línguas não se
explica somente pelo nomadismo de Marx – fenômeno bem comum nos
militantes do século XIX. Há também algo de mais social, quase lúdico:
um lado presunçoso, ingênuo, ligado ao habitus do estudante de
filosofia. Marx é doutor em filosofia, o que, na época, é extremamente
raro. Ele pertence a um mundo sábio em que é corriqueiro trocar
umas piscadelas eruditas, fazer piadas de “ratos” de biblioteca,
brincando com as línguas. Sobretudo porque esse domínio é, em grande
medida, livresco: quando Marx chega em Paris, por exemplo, ele tem
dificuldade em falar francês e convive principalmente com alemães. Mas o
que chama mais a atenção é que o lugar das línguas evolui no
decorrer da sua vida. Quando ele chega em Londres, o inglês se integra
progressivamente a esse emaranhado linguístico, ao passo que tinha
ficado quase ausente até então. E essas línguas têm conotações
políticas. Escrever em alemão com pitadas de latim é estampar uma
cultura sábia; adicionar um pouco de francês é indicar uma relação com a
França, com a herança da Revolução e com um certo liberalismo
político. Quando Marx começa a utilizar o inglês, ele adota também a
língua da economia política – língua que ele não dominava no começo, já
que primeiro lê Smith e Ricardo em tradução francesa.
É neste momento que
o plurilinguismo se torna plenamente político. Marx aprende línguas
para entender situações concretas. Ele se dedica ao espanhol
para acompanhar uma crise revolucionária na Espanha; aprende o russo
quando começa a perceber que há ali algo de importante após ter, durante
muito tempo, mantido esse país à distância por russofobia. Ele
encomenda livros sobre as comunas agrárias russas, simplesmente para se
informar direto na fonte, em uma época em que não havia nem internet nem
circulação fluida de informação. Poder ter acesso direto aos textos,
sem intermediários, é um privilégio político de marca maior.
Isso também lhe
permite ocupar uma posição central em uma vasta rede de correspondentes:
militantes, responsáveis políticos, agitadores de toda a Europa.
Mesmo que o poder real da Internacional permaneça limitado, essa
capacidade de dialogar em várias línguas cumpre um papel crucial na
difusão das suas ideais. Marx se torna uma espécie de joelho operário
– sem trocadilho de mau gosto – desse espaço internacional.
Há nele uma tensão
interessante: tanto um internacionalismo afirmado, quanto uma maneira
bem novecentista de falar dos povos, dos seus “caracteres”: o espírito
francês, inglês, alemão etc. Isso não o incomoda particularmente. Mas,
ao mesmo tempo, porque atravessou esses contextos, ele sabe muito bem
que as situações políticas mudam em função do país, e que os programas
devem ser adaptados. Essa visão panorâmica, plurinacional, protege-o de
um certo dogmatismo. É, aliás, um tanto irônico, quando sabemos que Marx
é geralmente acusado de rigidez doutrinal. Na realidade, ele não para
de lembrar que a análise deve ser articulada às situações concretas, e
que os programas políticos não são fadados a ser idênticos em todos os
lugares. Sabemos até que ponto, mais tarde, certas tradições oriundas da
Terceira Internacional ou do trotskismo sofreram com a aplicação
mecânica de fórmulas engessadas a contextos nos quais não funcionavam.
Desse ponto de vista, o plurilinguismo de Marx não é um detalhe
biográfico: é uma condição central da sua prática política.
A reviravolta: escrever contra a ordem estabelecida
Você
consagra um capítulo inteiro a uma figura de estilo aparentemente
técnica: a antimetábole. Será que você poderia dizer do que se trata e
por que essa utilização por Marx?
A antimetábole é
uma figura de estilo simplicíssima: é uma repetição invertida. Pegamos
uma fórmula A-B e a revertemos em B-A. O exemplo mais famoso, é a Filosofia da miséria de Proudhon, que se torna, em Marx, Miséria da filosofia, em 1847.
Como todas as
figuras de estilo, a antimetábole é trans-histórica. Podemos encontrá-la
em Platão, em Heródoto, na poesia chinesa clássica: é uma estrutura
extremamente simples, uma forma de repetição. Em si mesma, essa figura
não tem, portanto, nenhuma significação política ou filosófica. Mas a
questão interessante é: por que Marx faz dela um uso tão massivo?
De um ponto de
vista estilístico, temos que permanecer prudentes. Podemos adotar uma
leitura “deflacionista”: Marx e Engels utilizam muito a antimetábole,
mas não são os únicos. Os Jovens Hegelianos também recorrem a ela
abundantemente. Podemos, então, ver aí uma moda de escrita, um marcador
de grupo, uma forma de reconhecimento interno – como há constantemente
na história literária e militante. Poderíamos fazer um paralelo
contemporâneo: certas metáforas que circulam hoje nos meios militantes
terminam transformando-se em tiques de linguagem, sinais de
pertencimento, às vezes às custas de um empobrecimento do seu sentido.
Em outras palavras, nem todas as formas estilísticas são necessariamente
o produto de uma necessidade filosófica profunda; elas podem ter a ver
com dinâmicas de rede, de imitação, de circulação.16
Isso posto, o
objetivo do capítulo era justamente o de não se ater a essa explicação.
Se a antimetábole é talvez, em parte, uma moda, o que permite apesar de
tudo atribuir-lhe uma significação mais profunda em Marx?
Primeiro, há
origens filosóficas: hegelianas, depois feuerbachianas. Em Feuerbach,
por exemplo, a antimetábole acompanha o gesto de inversão do idealismo
em materialismo. Não é bem a dialética em sentido estrito – quer dizer, a
ideia que a realidade é contraditória e avança pela superação das suas
próprias contradições – mas antes um gesto de reviravolta conceitual. Em
Marx, essa figura aparece de maneira desigual de acordo com os textos.
Está muito presente em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, texto
central tanto para o materialismo histórico aplicado, quanto para a
filosofia política. Aí, a antimetábole se adapta particularmente bem à
escrita polêmica: Marx descreve um mundo invertido, absurdo – um
“cretino” que toma o poder17 –
e a figura estilística abraça essa inversão. Ela dá uma forma
linguística ao sentimento de um mundo pelo avesso. Mas, ao mesmo tempo,
Marx não se atém a esse primeiro nível. O miolo da sua análise consiste
justamente em superar a aparência do mundo invertido para explicar suas
causas materiais e os interesses de classe que aí se operam.
Na realidade, a dialética estilística de Marx se encontra em outra parte: no movimento conceitual do Capital,
no qual passamos da mercadoria à moeda, depois ao capital – um
desencadeamento de categorias que imita o movimento real do sistema. É
aí que se opera a dialética, mais que nas fórmulas de inversão. Resta um
momento em que a antimetábole adquire um alcance político e poético
forte: o fim do livro I do Capital, com “a expropriação dos expropriadores”.
A transformação da
propriedade privada dispersa em propriedade privada capitalista é,
naturalmente, um processo mais difícil que a transformação da
propriedade capitalista em propriedade social. Ali, tratava-se da
expropriação da massa do povo por um pequeno número de usurpadores;
aqui, trata-se da expropriação de um pequeno número de usurpadores pela
massa do povo.
Essa passagem
funciona como uma conclusão provisória, um epílogo, um ato de bravura.
Marx concentra uma energia polêmica e revolucionária em uma estrutura de
repetição invertida. Que ele coloque essa fórmula no fim de uma obra
densa, árida, técnica, não é anódino. Ele sabe que os leitores leem
geralmente a introdução e a conclusão, e que essas passagens podem
circular como slogans, como arquivos, como recursos militantes. Essa página cita, aliás, O Manifesto do Partido comunista, que é ainda pouco disponível na época. Essa antimetábole inscreve na língua a própria ideia da reviravolta social.
Uma escrita de combate
Você mostra
que Marx é geralmente polemista, adota um estilo às vezes frontal, ou
até francamente violento. Você mostra também que em Marx a polêmica,
seus “ataques corrosivos”, não são gratuitos. Que função eles têm?
Eles atendem a uma lógica precisa: Marx procura superar o indivíduo para alcançar o tipo, o social, o estrutural.
Em certos contextos
particulares, como a Comuna de Paris, ele leva em consideração
qualidades individuais: quem será um bom chefe? Encontra-se aí retratos
personalizados, como o de Thiers18 ou seus comentários sobre Blanqui19
– ele pensava que, se estivesse presente, ele teria podido manter a
insurreição por mais tempo. Mas, no conjunto, o indivíduo é analisado
como representativo de um tipo, e esses tipos permitem englobar
realidades sociais mais gerais. É um gesto literário, presente de Don
Quixote até as personagens de Balzac ou de Molière: passar do individual
ao geral para entender o mundo.
Marx utiliza muito as antonomásias: transformar um nome próprio em nome comum, do indivíduo ao geral. Por exemplo, em A Ideologia alemã, Sancho Pança se torna um tipo universal aplicado a Max Stirner.20
Esse método liga o passado literário de Marx a uma função analítica:
ele constrói tipos que encarnam estruturas sociais e políticas.
A polêmica tem
também um papel muito concreto na vida militante. Podemos citar o
panfleto monumental contra Carl Vogt nos anos 1860. Vogt, socialista e
cientista, que era também um espião de Napoleão III21
tinha caluniado Marx. Marx junta todos os documentos, desmonta ponto
por ponto os escritos de Vogt, utiliza antonomásias e tipos caricaturais
da literatura para ridicularizá-lo. No âmbito teórico, o interesse é
limitado. Mas, no âmbito militante, é uma defesa procedural da sua
reputação. O mesmo habitus procedural se encontra em outros lugares, por exemplo em As Revelações sobre o processo dos comunistas de Colônia ou O Cavaleiro da nobre consciência diante de August Willich22.
Nesses textos, Marx defende seus camaradas e expõe a má fé e
as manipulações dos seus adversários. É um gesto de militante perante o
Estado autoritário: para sobreviver em um contexto repressivo, é preciso
reunir provas, montar dossiês, manipular o formalismo, mesmo sabendo
que é geralmente em vão. Essa polêmica tem igualmente uma função para a
posteridade o para o capital militante: desmontar a reputação do outro
permite consolidar a sua, deixar um traço escrito para a história, e
marcar a legitimidade de um posicionamento no seio do movimento. Marx
pode assim combinar um prazer literário de “desmontagem” com uma
estratégia política militante e concreta.
Você
insiste no fato que a ironia de Marx é “manifesta”, nunca elitista. Será
que você pode explicar essa distinção que você faz?
A ironia é um
conceito complexo. É uma noção bem antiga: é possível encontrá-la já na
Antiguidade, em Platão, com a ironia socrática. Sócrates diz coisas que
dão a impressão que ele está zombando, mas não são necessariamente
antífrases – ele não diz o inverso do que pensa, ele o diz de maneira
desviada. Da mesma forma, desde a Antiguidade, comentadores refletem
sobre a ironia de Cristo. Portanto, estamos lidando com uma noção muito
antiga, com estratos sucessivos de sentido.
A isso se
acrescenta a ironia romântica alemã, que encontramos notadamente em
Goethe, e que Hegel tenta analisar: uma ironia própria à modernidade,
ligada à relativização dos valores, ao fato que um sujeito moderno tem
consciência da pluralidade dos sistemas de pensamento e que, pode,
portanto, colocar todas as certezas à distância.
Se quisermos uma
definição mínima, podemos dizer que a ironia consiste, para o
enunciador, em colocar uma distância com relação ao que ele diz. Essa
distância pode adquirir várias formas: dizer o contrário, falar de um
certo modo, retomar falas existentes sem que os outros saibam a que
ponto aderimos a elas, ou ainda operar com graus de concordância
ambíguos. É, aliás, por isso que a ironia é geralmente suspeita nos
meios militantes: reprova-se nela o fato de nunca abolir completamente o
primeiro sentido, de deixar pairar uma dúvida sobre a posição real
daquele que fala. E como essa distância deve ser interpretada pelo
leitor ou pelo auditor, a ironia implica um trabalho de decodificação.
Isso pode produzir mal-entendidos, ou até um efeito de exclusão – alguns
entendem, outros não – e criar uma forma de incerteza interpretativa
permanente.
Ora, Marx não
corresponde a esse modelo. O que se observa nele não é uma ironia que
dissimula o fundo do pensamento. Marx não procura multiplicar os níveis
de sentidos para deixar o leitor em uma suspensão infinita. Não é um
escritor que cultiva a ambiguidade ou a proliferação interpretativa.
Pelo contrário, sua ironia é ligada à sua atividade de polemista e de
propagandista. Ele tem posições filosóficas e políticas bem nítidas, e
suas conclusões são sempre legíveis. A ironia lhe serve para zombar do
adversário.
No livro, eu o comparo a outras figuras da ironia, notadamente Heinrich Heine,23
que Marx lia. Heine, por sua vez, mantém uma forma de incerteza sobre
seus valores e suas posições: nunca se sabe completamente o que ele
pensa, e esse embaçado pode ser lido como uma ironia moderna,
pós-romântica, fundada na relativização dos valores. Não é de jeito
nenhum o caso de Marx. É por isso que eu situo sua ironia, antes, do
lado de Voltaire ou de Brecht, do que de Flaubert ou de Heine. Em
Voltaire ou Brecht, a ironia permanece orientada, polêmica, dirigida
contra alvos precisos. Ao passo que em Flaubert – e mais ainda no que
tange a certas formas de humor – podemos ir a uma relativização mais
larga, em que os próprios valores são suspendidos, ou até em que o autor
se toma ele mesmo o alvo (através da figura de Frédéric Moreau).24 Há todo um espectro entre ironia e humor, com formas bem diferentes, e me perecia interessante situar Marx nessa cartografia.
Fazer falar os outros
Você diz que Marx tem uma escrita “polifônica”. Que significa isso? E qual função política isso tem?
Polifonia quer
dizer que há várias vozes. Mas é uma noção bem plástica. Se a tomarmos
no sentido estrito, um romance polifônico é, por exemplo, um romance
tipo Faulkner, com vários narradores, vários pontos de vista. Se
alargarmos, a polifonia é simplesmente o fato de uma obra produzida por
um único autor fazer ouvir várias vozes.
A noção adquiriu
uma dimensão política notadamente com Bakhtin, que se interessou pelos
romances de Dostoievski. Para ele, esses romances são polifônicos porque
fazem ouvir várias vozes ideológicas que se confrontam sem que nenhuma
domine. Ao lado de Bakhtin, há Volóchinov, grande linguista soviético,
que defende a ideia que todo discurso social é atravessado por vozes
diversas: nenhum enunciado é puramente individual, toda fala é carregada
de social. Essas teorias circularam massivamente nos anos 1960,
notadamente na França, onde foram retomadas em contextos bem diversos:
estudos literários, linguística, psicanálise lacaniana, marxismo
crítico. Havia por trás disso a ideia que o sujeito não é um bloco
unificado – quando eu falo, “algo fala” através de mim, ouve-se vários
estratos de discursos sociais. E, politicamente, essa noção serviu
também para des-dogmatizar certas leituras marxistas da literatura. Em
vez de reduzir uma obra a um simples reflexo de estruturas econômicas,
podíamos dizer: a esfera estética é atravessada por ideologias, mas ela
as põe também à distância, ela as faz dialogar. A polifonia permitia
tanto conservar uma grade marxista como evitar um reducionismo demasiado
rígido. Com o tempo, a noção se degradou um pouco, às vezes associada a
uma espécie de pluralismo democrático mole: literatura como espaço de
coexistência pacífica das vozes. Vemos isso por exemplo em certas formas
contemporâneas de romance policial bem polifônico, mas politicamente
bem centristas (como o mostra o ensaio de Lucie Amir).25
Aplicada a Marx, a
polifonia suscita um problema interessante. Primeiro, é preciso lembrar:
mesmo que Marx faça falar várias vozes, é sempre ele o maestro. Ele
pode pôr em cena burgueses, operários, inspetores, mas, no final, é ele
quem enquadra e dirige o confronto. E isso é impactante n’O Capital. Marx
cita em abundância: seus adversários, economistas, discursos operários,
inspetores de fábrica. Ele faz falar figuras típicas: “o operário”, “o
burguês”, personagens abstratas que encarnam posições de classe. Ele
raciocina antes em termos de tipos que em termos de indivíduos
singulares. Ao mesmo tempo, O Capital é um objeto bem estranho:
é uma obra científica, extremamente fundamentada, rigorosa, que adota
protocolos de escrita muito modernos para a época; mas é também um livro
feito de colagens, de citações, de superposições de vozes. Não é um
tratado clássico do século XIX. E, no entanto, tampouco se trata
de um texto pós-moderno: a voz teórica principal nunca é dissolvida. Um
momento chave para entender essa polifonia é o capítulo 8 do Capital,
sobre a jornada de trabalho. Marx descreve nele situações absolutamente
horríveis, notadamente a exploração de crianças de seis ou oito anos,
seu embrutecimento cognitivo assim como sua destruição física e moral. É
um capítulo profundamente carregado moralmente. Ora, Marx, por
princípio, não quer dar lição de moral. Ele quer analisar a história
como uma confrontação de forças sociais e recusa o melodrama de certos
socialistas do seu tempo. Mas, ao mesmo tempo, ele não pode deixar
de falar nisso. É o que instiga a ira, a indignação, o engajamento
político. Então, como fazer? A solução formal que ele encontra é a
delegação da voz moral. Em vez de se indignar diretamente, ele faz falar
outras pessoas e em particular inspetores de fábrica, que ocupam uma
posição social intermediária. Essas vozes exprimem a indignação no seu
lugar. Marx se apaga momentaneamente, integrando essa indignação ao seu
dispositivo teórico. É uma polifonia que lhe permite assumir
politicamente a emoção sem comprometer a postura científica.
Há outro desafio:
fazer falar os operários. Marx é confrontado com um problema: o operário
“real” não é espontaneamente marxista. Na França, ele é
geralmente proudhoniano, na Inglaterra, cartista, na Alemanha, às vezes
milenarista cristão. E mesmo quando ele é revolucionário, sua formulação
pode ser julgada por Marx como teoricamente “limitada”. O que fazer,
então? Dar diretamente a palavra aos operários, correndo o risco que
isso contradiga sua teoria? Ou fabricar uma figura ideal do operário,
que exprime a consciência de classe tal como Marx a concebe? Em O Capital,
Marx oscila entre essas duas opções: às vezes faz falar um operário
abstrato, típico; às vezes cita operários reais, discursos cartistas. E
mais tarde, ele tenta outra solução com seu questionário operário (em
francês e em inglês) – notadamente estudado por Juliette Farjat26:
um dispositivo que dá a palavra aos trabalhadores, mas em um âmbito
estruturado pela sua teoria. É, para ele, uma forma de compromisso entre
autonomia operária e exigência teórica.
Sobre o assunto de fazer falar os outros, você mesmo utiliza epígrafes (curtas citações) em começo de capítulo?
A base disso foi
algo que comecei a fazer um pouco por acaso: eu anotava pequenas
citações, pensando “isso cairia bem no livro”. No começo havia três ou
quatro, depois eu percebi que esse tipo de citação poderia atravessar o
livro inteiro. Isso também coincidia com o momento das minhas leituras.
Eu estava em uma fase de poesia chinesa, em paralelo ao meu trabalho
sobre Marx. Em algum momento, pensei: olha só, talvez haja algo a fazer
com isso. Espero que não pareça demasiado presunçoso, tipo “estou
espalhando meu saber” – mas tratava-se, realmente, de algo ligado às
minhas áreas de interesse naquele momento.
Lendo Marx, notadamente O Manifesto,
há uma passagem muito famosa em que ele explica que o capital estende
as relações capitalistas ao mundo inteiro e que é preciso fazer emergir
uma literatura mundial. É uma passagem amplamente comentada hoje em dia,
sobretudo no meio literário: a noção de literatura mundial ganha cada
vez mais amplitude – e isso me interessa muito. Passei, a partir daí, a
procurar citações por todos os lados, dizendo a mim mesmo: eu venho dos
estudos literários franceses, minha cultura é bem europeia, bem
eurocêntrica. E, ao mesmo tempo, eu me perguntava: como pensar o
internacionalismo a partir deste ponto de vista? Como fazer coexistir o
espírito de cosmopolitismo próprio à literatura – essa abertura ao
mundo – com uma reflexão política sobre o internacionalismo? Falo disso
também porque havia lido, na Frustration Magazine, um artigo
que discutia justamente a maneira de pensar o internacionalismo hoje sem
cair em uma forma de campismo simplista. Não acho que os estudos
literários possam responder diretamente a essa questão, mas podem
contribuir para enriquecê-la.
É uma questão que
deveria atravessar mais os estudos literários. Quando fazemos letras,
encontramo-nos rapidamente em um âmbito franco-cêntrico, mas, na
realidade, mesmo quando fazemos literatura francesa, nunca lemos
unicamente literatura francesa. Não estudamos Baudelaire sem nos
interessar um pouco por Edgar Poe, não estudamos Claude Simon sem pensar
em Faulkner: todos os autores entram em redes de influência
internacionais. E, ao mesmo tempo, eu via que nos doutorandos de letras,
terminamos geralmente nossa tese sem nunca termos lido uma linha de
literatura indiana, chinesa ou árabe – literaturas milenares que
ignoramos completamente. Portanto, a ideia das epígrafes era também a de
fazer pequenas incursões em literaturas não europeias (não somente,
aliás: há também o poeta latino Horácio, por exemplo). A ideia geral era
imaginar uma espécie de antologia possível das leituras de um Marx do
século XX ou do século XXI: o que poderia ele ter lido? o que poderia
ele apreciar?
Há portanto poesia russa (não comunista, aliás), poesia árabe clássica, um eco a uma anedota contada por Marcello Musto,27
em que Marx chega na Argélia e lhe contam uma pequena fábula local
sobre um sábio que não sabe nadar. Há o Japão, a China, lugares
importantes da elaboração do marxismo no século XX. Através das
epígrafes, eu tentei produzir um eco discreto à ideia de literatura
mundial em Marx, e abrir o texto para um horizonte mais amplo. Trata-se
de uma forma deliberadamente explicitada e alusiva, por vezes um tanto
obscura – e também de um certo prazer da escrita.
*** Rob Grams é editor-chefe da Frustration Magazine.
Entrevista realizada em 22 de janeiro de 2026, e publicada em 5 de fevereiro de 2026 no site da plataforma Frustration Magazine com o título “Marx était-il stylé?”. Traduzido por Diogo Santiago.
Agradecemos ao autor e ao editor, Vincent Berthelier e Rob Grams, pela permissão da publicação.
Nota editorial
Durante março-abril de 2026, o blog esteve sob responsabilidade de Camila Góes (edição interina).
Notas
CONHEÇA A COLEÇÃO MARX-ENGELS
Empenhada há três
décadas em traduzir as obras de Marx e Engels, com rigor acadêmico e
editorial, e sempre a partir dos manuscritos originais, a Boitempo conta
hoje com mais de trinta volumes dos dois autores publicados, além de
dezenas de livros dedicados ao estudo da teoria marxista. Em 2025, a Coleção Marx-Engels ganhará mais dois volumes: Do socialismo utópico ao socialismo científico, de Friedrich Engels, e o primeiro tomo das Teorias do mais-valor, obra inacabada de Karl Marx que foi por muitos considerada como o Livro IV de O capital.
Enquanto esses
lançamentos históricos não chegam, conheça o catálogo de obras já
publicadas pela coleção – algumas das nossas edições foram reconhecidas
como as melhores do mundo por Gerald Hubmann, ex-diretor da MEGA (Marx-Engels-Gesamtausgabe, instituição detentora dos manuscritos dos autores).
O capital [livros I, II e III], de Karl Marx
Em 2011, a Boitempo deu início a uma de suas maiores empreitadas editoriais: a tradução completa de O capital, a principal obra de maturidade de Karl Marx. Em março de 2013, em meio ao projeto MARX: a criação destruidora,
um conjunto de eventos que reuniu milhares de pessoas para debater a
atualidade de seu pensamento, foi lançado o primeiro livro, O processo de produção do capital.
A tradução de Rubens Enderle, vencedora do prêmio Jabuti 2014, foi a
primeira realizada no Brasil a partir do texto preparado no âmbito da Marx-Engels Gesamtausgabe (MEGA2).
Além dos prefácios elaborados por Marx e Engels para as diversas
edições da obra e notas, a edição da Boitempo conta ainda com extenso
aparato crítico.
Aproveite os combos promocionais.
Manuscritos econômico-filosóficos, de Karl Marx
Publicados
apenas após sua morte, estes manuscritos foram escritos em 1844, quando
Marx tinha apenas 26 anos. Neles, o filósofo alemão desenhou a crítica
ética e política ao capitalismo, explorando a desvalorização humana em
prol da mercadoria. Embora esboços, revelam a raiz da teoria do
mais-valor.
Para a crítica da economia política, de Karl Marx
Publicada
em 1859, esta é a primeira tentativa de Marx de publicar de maneira
sistemática sua crítica da economia política. Trata-se do único volume
que efetivamente veio à luz numa série prevista de seis livros. Oito
anos depois, remodelado o projeto inicial, a concepção ganharia corpo na
principal obra do autor, O capital, publicada em 1867. Para a crítica delineia os conceitos equivalentes ao que depois comporia a Seção I da obra-prima do filósofo alemão.
Grundrisse, de Karl Marx
Estes
manuscritos, em tradução rigorosa feita diretamente dos originais em
alemão, revelam a gênese da crítica do pai do socialismo científico à
economia política. Escritos entre 1857 e 1858, são uma oportunidade
ímpar para compreender, detalhadamente, o laboratório de estudos do
renomado teórico.