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terça-feira, 19 de maio de 2026

As lutas de classes na Antiguidade

 

A história oculta da luta de classes no Império Romano

Tradução
Pedro Silva

A Roma Antiga era uma sociedade rigidamente hierárquica, onde a elite dominante estigmatizava os trabalhadores. Mesmo assim, os trabalhadores romanos ainda encontravam maneiras de resistir à exploração por meio de greves e outras formas de ação coletiva.


Daniel Finn

A luta de classes não é uma invenção moderna — ela existe há milhares de anos.

Sarah Bond é professora de estudos clássicos na Universidade de Iowa e autora de “Strike: Labor, Unions, and Resistance in the Roman Empire” [Greve: Trabalho, Sindicatos e Resistência no Império Romano]. Ela contou à Jacobin como membros das classes trabalhadoras da Roma Antiga se organizaram para exigir melhores condições de trabalho da elite social romana.  


DANIEL FINN

Quando você escreve sobre a história do Império Romano do ponto de vista de pessoas que não pertenciam à elite social romana, quais são alguns dos principais desafios em termos de encontrar fontes para trabalhar?

SARAH BOND

O mais difícil é que todas as fontes que temos, com exceção de algumas menções na literatura, vêm de coisas como papiros, inscrições e pichações. Muitas dessas fontes são não narrativas, no sentido de que nunca foram concebidas para contar uma história completa ou servir como biografias de pessoas.

A forma como acessamos a história de baixo para cima se dá predominantemente por meio desses minúsculos vestígios do passado que podem nos fornecer janelas para observar pessoas comuns. Mas essas centenas de papiros e cerca de 3.200 inscrições para instituições como os collegia (associações) romanos nunca tiveram a intenção de contar a história completa.

Parte disso envolve retornar a uma espécie de colcha de retalhos que fornece uma história e uma narrativa maiores. É difícil juntar todas essas peças da colcha e costurá-las em uma narrativa coesa sobre Roma.

A história vista de baixo pode nos dar muitas micro-histórias, mas transformá-la em uma macro-história mais ampla pode ser desafiador, porque as próprias evidências vêm em pedaços que não necessariamente nos dão o panorama completo. É preciso um historiador criativo para tentar reunir todas as evidências e criar algum tipo de história a partir delas.

DF

Quando falamos do Império Romano, é óbvio que ele durou vários séculos e cobriu um vasto espaço geográfico, com as fronteiras desse espaço mudando ao longo do tempo. Podemos fazer generalizações sobre a natureza do trabalho e as condições sociais da maioria da população que vivia sob o domínio romano? Quais foram algumas das principais tendências e padrões que podemos identificar?

SB

É muito difícil generalizar sobre cada trabalhador ou sobre toda a força de trabalho, mas é importante compreender tendências como o trabalho servil. Houve um grande aumento no trabalho escravo, especialmente no século II a.C., durante a República Romana, e ele continuou a aumentar até o século II d.C. Compreender o trabalho escravo em particular é muito importante para compreender as reações da força de trabalho e as condições de trabalho.

Além de entender a escravidão, que em lugares como a Itália podia atingir até 25% da população trabalhadora, também temos que entender coisas como a alforria — que tipos de pessoas eram alforriadas do status de escravizadas para se juntarem à sociedade como cidadãos?

“Havia muito preconceito em Roma contra o que em grego são chamados de trabalhadores banáusicos — isto é, trabalhadores braçais.”

Podemos observar que a escravidão aumentou, assim como a alforria, do final da República até o início do Império. Mas, em geral, é importante entender que a elite romana continuou cultivando preconceitos, especialmente em relação ao trabalho manual, que eram muito perniciosos e se infiltraram na legislação, na literatura e na maneira como tratavam os trabalhadores.

Havia muito preconceito contra o que em grego se chama de trabalhadores banáusicos — isto é, trabalhadores braçais. Eles tinham que se opor constantemente à ideia de que aqueles que trabalhavam com as mãos buscavam o quaestus, que em latim significa lucro. Havia a visão de que, se você vivesse em prol do quaestus, criando cerâmica, trabalhando em uma mina ou como operário da construção civil, o desejo por lucro e salários o impulsionava, e não, por exemplo, o amor pela literatura ou pelo seu país.

Embora não possamos dizer que todos os trabalhadores eram x ou y, havia milhões de artesãos e artífices diferentes em todo o Mediterrâneo que trabalhavam com as próprias mãos e lutavam contra uma forma de preconceito vinda de cima. Esse preconceito vinha de pessoas como senadores e cavaleiros, que representavam cerca de 1,5% da população total.

Eram eles que frequentemente expressavam por escrito reações muito estereotipadas e tendenciosas aos artesãos — pessoas como Cícero ou Juvenal, ou mesmo os juristas do direito romano, que falavam dos trabalhadores de forma muito negativa. Embora eu não possa fazer generalizações sobre todos os trabalhadores da Roma Antiga, havia um orgulho incrível entre os próprios trabalhadores, que tiveram que lutar contra o preconceito da elite que perdurou por centenas de anos.

DF

Se pensarmos na própria cidade de Roma, a ideia de uma divisão entre patrícios e plebeus é um tema familiar. As pessoas podem pensar na peça Coriolano, de Shakespeare, sem mencionar as palavras iniciais do Manifesto Comunista. Quanto dessa imagem da divisão entre patrícios e plebeus é de fato baseada em fatos, e como essa divisão se compara às divisões de classe nos tempos modernos?

SB

No Manifesto Comunista, há um foco em algo chamado Luta de Classes. Esta foi uma luta que durou mais de duzentos anos entre dois grupos de pessoas chamados patrícios e plebeus. Para Karl Marx e Friedrich Engels, os plebeus constituíam uma classe — um grupo de pessoas que compartilhavam relações comuns com o trabalho e os meios de produção. Essa seria a ideia moderna de classe.

“Os plebeus vinham de diferentes níveis econômicos e tinham diferentes maneiras de trabalhar e servir a República Romana.”

No entanto, o que sabemos sobre os plebeus hoje é que eles realmente não constituíam uma classe no sentido marxista. Os plebeus vinham de diferentes níveis econômicos e tinham diferentes maneiras de trabalhar e servir à República Romana. Precisamos entender que os plebeus e os patrícios eram, na verdade, grupos com suas próprias hierarquias e divisões internas.

Os patrícios eram os patres originais — as famílias de Roma quando ela foi fundada — enquanto os plebeus eram todos os outros. Não se tratava de um grupo econômico único. Nem todos os plebeus eram pobres, nem todos eram ricos, ou o que poderíamos considerar um grupo mediano de pessoas. Não havia coesão em termos de compartilhamento de experiências comuns de trabalho ou uma relação compartilhada com os meios de produção.

Quando olhamos para a Luta de Classes na Roma Antiga, Marx e Engels estavam corretos ao dizer que havia dentro do grupo plebeu quem optasse por se recusar ao alistamento militar como forma de pressionar por melhores condições de vida e assegurar representação no governo, por exemplo, como magistrados. Eles utilizavam a ação coletiva de uma forma muito atraente para filósofos e teóricos marxistas.

Ao mesmo tempo, porém, eles tinham razões diferentes para se absterem de trabalhar, ocupar o Monte Janículo ou se recusar a servir no recrutamento militar. É importante falar sobre os patrícios e os plebeus, porque eles são familiares para muitas pessoas que leram sobre a Luta de Classes naquela época. Mas, quando falamos dos plebeus, tratava-se de uma categoria que ia desde oficiais militares de alta patente até os agricultores mais pobres, que estavam em servidão por dívidas na época. Não era, de forma alguma, um grupo de pessoas com interesses econômicos semelhantes.

DF

Qual proporção da força de trabalho era composta por pessoas que haviam sido escravizadas? Essa proporção variou ao longo do tempo? Quais seriam as implicações da escravidão, mesmo para aqueles que não haviam sido escravizados?

SB

Os escravizados geralmente vinham da expansão romana e de prisioneiros levados pelo exército romano. Mas suas fileiras também eram complementadas por aqueles que viviam em famílias e tinham filhos nascidos na escravidão dentro de um domicílio romano. Sabemos que cerca de 60% dos escravizados neste vasto império de cerca de setenta milhões de pessoas, em seu auge, trabalhavam em contexto rural, enquanto o restante trabalhava em contexto urbano.

“Em um mundo agrícola, onde você estava constantemente trabalhando nos campos, isso significava que muito provavelmente passaria quase toda a sua vida escravizado.”

Considerando aqueles nas cidades, nove em cada dez provavelmente seriam alforriados no futuro, mas apenas um em cada dez escravos agrícolas rurais seria alforriado. Fazia uma grande diferença se você fosse designado para trabalhar no campo ou em um contexto doméstico, como professor de crianças, por exemplo, ou como estenógrafo, bibliotecário ou babá. Todos esses empregos tinham pelo menos uma probabilidade maior de alforria, o que de forma alguma valida a escravidão nem a torna eticamente correta, é claro. Mas em um mundo agrícola, onde você trabalhava constantemente no campo, isso significava que, com toda a probabilidade, passaria quase toda a sua vida escravizado.

Havia tensão entre os trabalhadores escravizados no mundo da agricultura e muita animosidade contra os escravizados que trabalhavam em contextos domésticos. Mas, no geral, Roma era uma sociedade escravista que dependia fortemente da mão de obra escravizada para prosperar. Os cidadãos de Roma, especialmente na Itália e na própria cidade de Roma, eram altamente dependentes tanto de escravos quanto de pessoas livres para realizar grande parte do trabalho manual que eles próprios não queriam fazer.

DF

Você fala sobre o papel das associações como forma de ação coletiva entre a população trabalhadora na Roma Antiga. Qual era a natureza dessas associações em suas diversas formas e como funcionavam como formas de ação coletiva?

SB

Associações existiram em todo o Mediterrâneo durante o período desde a morte de Alexandre até a coroação de Carlos Magno. Temos evidências de cerca de 3.200 tipos diferentes de grupos e associações. Todos tinham características e propósitos diferentes, e eram conhecidos por muitos nomes distintos.

O nome mais popular era collegium, de onde vem a palavra moderna “colégio”, mas também temos outros nomes como ecclesia em grego, por exemplo. Todos esses são nomes diferentes para grupos de pessoas que se reuniam para adorar um deus, servir (por exemplo) como carpinteiros ou ourives, ou enterrar os mortos.

“Assim como os sindicatos modernos, os collegia poderiam usar sua experiência e natureza profissional para conseguir melhores contratos ou obter certos benefícios especiais.”

É como hoje, onde as pessoas têm diferentes grupos aos quais pertencem e com os quais se identificam. Você pode ter múltiplas filiações dentro deles. Às vezes, esses grupos se tornam entidades políticas, e às vezes são apenas grupos para beber, onde vocês se reúnem no bar local e tomam vinho ou cerveja juntos.

Os romanos não eram diferentes. Eles adoravam socializar — adoravam ter clubes. Mas meu livro se concentra na ideia de que esses collegia, em certos momentos, podiam usar suas capacidades e especialidades coletivas para obter melhores salários ou melhores ambientes de trabalho, e também para melhorar seu status dentro da cidade em que viviam. Assim como os sindicatos modernos, os collegia podiam usar sua expertise e natureza profissional para obter melhores contratos ou certos benefícios especiais do imperador.

DF

Você poderia nos dar alguns exemplos de ação coletiva e protesto popular ao longo da história romana?

SB

As evidências que temos sugerem que greves e ações coletivas não eram tão frequentes no mundo antigo como são hoje. Não quero promover a ideia de que todos os dias havia uma greve em larga escala. Mas, em certos períodos, temos evidências de grupos formais e informais usando seu poder e a necessidade que o Estado tinha deles para tentar melhorar suas condições de trabalho.


O exemplo mais famoso é o que já discutimos: a Luta de Classes e as várias secessões da plebe. Essas secessões eram boicotes com outro nome. Embora o termo “greve” só tenha sido cunhado no século XVIII, podemos observar as mesmas formas de comportamento que associamos a greves e boicotes acontecendo na Antiguidade.

Os plebeus aproveitaram-se da necessidade do exército romano para expandir o alcance imperial romano. Eles se retiraram nessas secessões em vários momentos — houve quatro, cinco ou talvez até seis secessões, dependendo do autor que você estiver lendo.

Também analiso alguns exemplos menos conhecidos de greves e ações coletivas por volta de 200 d.C. Na cidade de Éfeso, temos um caso de padeiros que foram instruídos pelo governador da Ásia a interromper suas reuniões de grupo. Foi-lhes dito que não poderiam reter pão e que deveriam manter a ordem na cidade. Podemos deduzir, a partir da inscrição que nos conta sobre esse episódio, que os padeiros provavelmente estavam aumentando o preço do pão ou retendo seu pão para obter melhores preços ou um contrato mais vantajoso com o governo romano.

Nesse caso, temos o governador da Ásia intervindo e dizendo: “Vocês precisam acabar com esse comportamento como facção ou associação”. Esses padeiros parecem ter tentado usar seu monopólio sobre o pão, que representava uma proporção muito grande das calorias da dieta consumida pela maioria dos romanos, que comiam pão todos os dias.

As autoridades estavam dizendo a eles que não podiam reter pão coletivamente ou aumentar os preços. Vivemos um período de hiperinflação global, então provavelmente todos nós podemos entender por que o governador estava tentando impedir que os padeiros praticassem aumentos abusivos de preços em busca de mais dinheiro e melhores contratos.

Também temos papiros que nos contam como mulheres comuns e trabalhadores escravizados de oficinas têxteis no Egito, por exemplo, praticavam greves. Recusavam-se a trabalhar até receberem salários mais altos. Até mesmo grupos informais de trabalhadores têxteis, que talvez não se reunissem como um colegiado formal, podiam decidir que fariam uma greve.

O exemplo mais significativo no livro é provavelmente algo que aconteceu no final do século III, quando os trabalhadores da casa da moeda sob o reinado de Aureliano se recusaram a cunhar moedas e se trancaram na casa da moeda romana. Eles estavam retendo algo muito importante — as moedas de ouro, prata e bronze que circulavam como meio de pagamento no mundo romano.

É importante dizer que não são apenas os trabalhadores e sindicatos modernos que conseguem utilizar o poder da ação coletiva em benefício próprio. A economia antiga não era primitiva de forma alguma — era uma economia de mercado integrada. Os trabalhadores dessa economia frequentemente reconheciam seu valor e sabiam que possuíam as capacidades e o conhecimento necessários para suspender seu trabalho e, assim, viver em melhor situação no futuro.

DF

Se as pessoas pensarem em conflitos sociais no mundo antigo, o episódio com o qual provavelmente estão familiarizadas é a revolta liderada por Espártaco. Como essa revolta se desenvolveu e quais foram seus legados para períodos posteriores da história romana?

SB

A rebelião de Espártaco é certamente a mais conhecida de todas as rebeliões que temos em toda a história do mundo antigo. Dentro de seu próprio contexto, foi entendida como um esforço para repelir um agitador chamado Espártaco, originário da região da Trácia. Em 73 a.C., ele liderou uma rebelião em sua escola de gladiadores no sul da Itália.

“A rebelião de Espártaco é certamente a mais conhecida de todas as rebeliões que temos em toda a história do mundo antigo.”

Este é um ponto que o filme de Stanley Kubrick de 1960 acerta. A família dos gladiadores era a menor unidade social para essas tropas de gladiadores. As famílias de gladiadores eram essencialmente tropas escravizadas que tinham suas próprias hierarquias. Espártaco mobilizou sua própria tropa e eles invadiram a cozinha, usando utensílios para dar início ao desafio original contra o acampamento de gladiadores.

Eles começaram a viajar pelas regiões da Itália até a região do Monte Vesúvio, depois para o norte, até os Alpes, e depois para o sul novamente. Conseguiram cada vez mais pessoas seguindo esse pequeno grupo que havia iniciado a revolta. Estamos falando de uma mudança de algo entre sete e quarenta pessoas nessa família menor para cerca de cem mil seguindo Espártaco na rebelião.

Quero fazer uma distinção clara aqui entre muitos dos episódios que menciono no livro e a revolta liderada por Espártaco, porque o objetivo final de Espártaco não era voltar a trabalhar. Ele não planejava voltar para a escola de gladiadores e receber salários maiores de seus captores. Seu objetivo final e o das centenas de milhares de pessoas escravizadas que o seguiam era conquistar sua própria liberdade.

Eles não buscavam a abolição da escravidão em larga escala em todo o Mediterrâneo. Não temos evidências de que essa fosse uma de suas reivindicações. Eles simplesmente queriam se libertar e nunca mais retornar à escravidão. Para os collegia, poder suspender seu trabalho para eventualmente retornar ao trabalho era um tipo de tática muito diferente de uma rebelião em busca de liberdade, cujo objetivo final era a liberdade.

Embora Espártaco não tenha obtido sucesso, ao final da guerra, em 71 a.C., ele já havia espalhado ondas de terror por toda a República Romana. Eles temiam que esses gladiadores pudessem se tornar milícias muito eficazes quando se unissem e formassem o que hoje poderíamos chamar de exército. Isso era especialmente ameaçador para os senadores em Roma.

Como resultado, eles começaram a desmantelar as diversas tropas e escolas de gladiadores, afastando-as da cidade de Roma para que representassem uma ameaça menor. A rebelião de Espártaco é muito importante de entender, não apenas porque inspirou uma série de outras rebeliões em menor escala pelo Mediterrâneo, mas também porque criou um espectro que continuou a perseguir os senadores.

Eles temiam que, se tivessem uma tropa de gladiadores muito grande, ou se ela caísse nas mãos do político errado, ela poderia ser transformada em milícias e guarda-costas pessoais, de maneiras que de fato aconteceram mais tarde na história da República.

DF

Na história posterior do Império Romano, assistimos à ascensão do cristianismo, inicialmente como uma religião proibida e, posteriormente, como uma fé oficial. Que implicações o cristianismo teve para a maneira como as pessoas pensavam sobre o trabalho e sobre a ordem social em geral?

SB

Muitos dos cristãos que foram elevados a altos cargos depois que Constantino promoveu o status do cristianismo e ajudou a torná-lo lícito vieram de origens romanas muito tradicionais. Eles continuaram a ter os mesmos preconceitos em relação ao trabalho manual que existiam antes.

Podemos observar mudanças nos tipos de trabalho permitidos no Império Romano. Por exemplo, começamos a ver a proibição do trabalho sexual, porque as ideias cristãs sobre o assunto eram muito diferentes das ideias romanas anteriores de que deveria ser legal. Bordéis eram bastante comuns nas cidades romanas. Esse é o melhor exemplo de como o cristianismo transformou o trabalho e a mão de obra.

Mas também tínhamos novos tipos de trabalho em lugares como mosteiros, onde monges, homens e mulheres, faziam trabalhos manuais. Havia a crença de que o trabalho manual a serviço de Deus e da piedade era muito mais aceitável do que o trabalho manual em busca de lucro individual.

“Muitas das ideias do cristianismo começaram a se infiltrar na filosofia do trabalho no final do Império Romano.”

Muitas das ideias do cristianismo começaram a se infiltrar na filosofia do trabalho no final do Império Romano. Os monges tinham liberdade para realizar seu trabalho banáusico porque o faziam para Deus, da mesma forma que os artistas de mosaico que trabalhavam em igrejas recém-construídas eram vistos como magnificadores da glória de Deus.

Muitos clérigos ainda desprezavam o que poderíamos chamar de trabalhadores braçais e certamente não promoviam a ideia de que os trabalhadores deveriam estar nos escalões mais altos da Igreja Cristã. O esnobismo em relação aos trabalhadores que vimos em pessoas como Cícero ainda se perpetuou até o final do Império Romano e também no início do período medieval.

Gostaríamos de acreditar que o cristianismo mudou a percepção do trabalho, e que agora todas as pessoas se tornariam curtidoras de couro, como o apóstolo Paulo, por exemplo. Mas a realidade é que muitos dos preconceitos e esnobismos que víamos antes se perpetuaram até o período medieval e além.

DF

Se observarmos a história da Europa Medieval e Moderna, podemos encontrar vários exemplos de pessoas das classes pobres e trabalhadoras que imaginavam um tipo de sociedade completamente diferente, sem propriedade privada. Elas frequentemente se referiam a textos cristãos e à história inicial do cristianismo para basear essa visão. Há alguma evidência desse tipo de pensamento milenarista na Roma Antiga?

SB

Frequentemente, as evidências que temos em relação à filosofia do trabalho vêm da literatura da elite. Temos exemplos de indivíduos das classes empobrecidas que imaginavam um tipo diferente de sociedade, mas a maioria deles não se rebelava contra o Império Romano e não registrava seus sentimentos ou planos.

No entanto, em vários momentos da história romana, houve petições ao imperador que nos dizem muito sobre a sociedade e as condições que muitos trabalhadores desejavam ver. Temos várias petições do final do século II d.C. Elas vêm da África e de pessoas que hoje chamaríamos de camponeses.

Eles faziam petições diretamente ao imperador, dizendo que queriam melhores condições e não queriam ser menosprezados, já que eram eles que forneciam o suprimento de grãos para o pão gratuito distribuído em Roma, Constantinopla e outros lugares. Quando olhamos para petições como essa, ou outras petições ao imperador vindas dos técnicos de Dionísio, por exemplo, eles nos sinalizavam que tinham orgulho do trabalho que realizavam e queriam ver mudanças na forma como eram tratados pelas elites.

Podemos ver rebeliões individuais que chegaram às centenas, e às vezes aos milhares, durante o período da Antiguidade Tardia, vindas de pessoas como as facções circenses de Constantinopla. Mas, no geral, não obtemos muitas informações diretas das pessoas sobre a sociedade ideal que elas gostariam de ter.

“Uma das coisas importantes sobre o estudo dos collegia é reconhecer que eles proporcionavam uma oportunidade de prestígio e status em um nível muito pequeno.”

No entanto, muitos dos epitáfios para artesãos e trabalhadores nos dizem que eles acreditavam no que faziam e que amavam o status que tinham, não apenas como artesãos, mas também dentro de seu collegia. Muitos deles mencionaram o fato de pertencerem a associações profissionais, de modo que, mesmo que não conseguissem obter status dentro do Império Romano, poderiam obtê-lo dentro de seu clube ou associação individual.

Um dos aspectos importantes sobre o estudo dos collegia é reconhecer que eles proporcionavam uma oportunidade de prestígio e status em um nível muito pequeno. Isso dava às pessoas um senso de identidade e individualidade que jamais poderiam ter alcançado em todo o Mediterrâneo Romano. Essas pessoas jamais seriam senadoras ou cavaleiros. Mas podiam se tornar presidentes de seus clubes ou secretárias de seus collegiums.

DF

Que tipo de esperança você tem sobre a maneira como a pesquisa que fez pode alterar a percepção das pessoas sobre a história romana?

SB

Um argumento que meu livro tenta apresentar é a ideia de que a história comparada é muito importante. Na década de 1980, Moses Finley, historiador da Antiguidade e teórico da economia romana, encontrou-se com um homem chamado Orlando Patterson, que ainda é professor emérito de sociologia em Harvard. Tomaram um café juntos em Cambridge e conversaram sobre um livro que Patterson estava preparando, chamado “Slavery and Social Death” [Escravidão e Morte Social].

Este livro se tornou extremamente importante para nossa compreensão da escravidão, porque Patterson analisou sessenta e seis sociedades escravistas diferentes e disse: “Estas são as semelhanças, estas são as continuidades, estas são as nuances e estas são as diferenças”. Seu estudo sobre a morte social reuniu historiadores da pré-modernidade, do mundo medieval e do mundo moderno em um diálogo.

O que peço com este livro não é que você aceite que todos os collegiums eram sindicatos, o que não era o caso. Quero encorajar as pessoas a se reunirem e estabelecerem diálogos entre o mundo antigo e o mundo moderno. Com muita frequência, os economistas modernos pensam que a história com a qual precisam se envolver começa com a Revolução Industrial e progride a partir daí.

Trazer a história romana para o debate e afirmar que os trabalhadores romanos tinham a capacidade de se comportar de maneira semelhante aos sindicatos modernos é uma forma de criar pontos em comum. Mas também é uma forma de compreender o comportamento e a experiência vivida dos trabalhadores, e as maneiras pelas quais a ação coletiva pode nos beneficiar hoje.

é editor adjunto da New Left Review. Ele é autor de "One Man’s Terrorist: A Political History of the IRA".

Sarah Bond

é professora associada de estudos clássicos no Departamento de História da Universidade de Iowa. É autora de "Greve: Trabalho, Sindicatos e Resistência no Império Romano".

 


Em seu livro Surviving Rome, Kim Bowes nos oferece um retrato magnífico e revelador da classe trabalhadora do Império Romano, de como viviam e o que passavam para gerar a riqueza que se acumulava para uma elite social privilegiada. (DeAgostini / Getty Images)

Para os trabalhadores romanos, a vida era desagradável, brutal e curta

Tradução
Pedro Silva

Nosso imaginário sobre o Império Romano é dominado pelos monumentos e estilos de vida das ricas elites urbanas. Um novo e importante livro chama nossa atenção para os 90% restantes da população de Roma, cujo trabalho brutalmente explorado tornou tudo isso possível.

Resenha do livro Surviving Rome: The economic lives of the ninety percent [Sobrevivendo a Roma: A vida econômica dos noventa por cento], de Kim Bowes (Princeton University Press, 2025)


A imagem que temos de Roma, com suas infraestruturas eficientes e obras arquitetônicas esplêndidas, está inextricavelmente ligada aos nomes dos imperadores, generais e senadores ricos que ordenaram (e pagaram por) sua construção e administração. Nesse contexto, a complexidade econômica do Império Romano parece ser o resultado da ação de alguns homens poderosos e ricos que comandavam uma multidão de trabalhadores anônimos.

Não é coincidência que a representação mais eficaz do dinamismo econômico romano seja a propriedade fundiária centralizada. No mundo romano, a maneira mais fácil de maximizar a produção e as trocas era através da exploração, por parte do empregador, das pessoas que realizavam o trabalho, fossem elas trabalhadores livres ou escravizados. Dessa perspectiva, qualquer forma de desigualdade criada pelo sistema romano era a consequência natural de sua economia inerentemente pré-capitalista.

Surviving Rome nos oferece uma visão muito diferente da vida econômica de Roma. O livro muda o foco dos indicadores macroeconômicos de crescimento para as pessoas comuns, mostrando-nos como elas realmente viviam, trabalhavam e morriam durante os quatro séculos que separam o período da República Tardia (século I a.C.) do Império Médio (século III d.C.). Não narra a macro-história da ascensão e queda econômica do império, mas nos apresenta muitas micro-histórias de camponeses e escravos — homens, mulheres e seus filhos — que precisavam lutar para sobreviver em um mundo difícil e complexo como agricultores, pastores, fiandeiros, oleiros ou comerciantes ocasionais.

O livro de Kim Bowes não é uma história sobre pessoas prósperas e felizes. Pelo contrário, descreve a vida de romanos trabalhadores que produziam e consumiam uma enorme variedade de bens, contribuindo para um sistema econômico opressivo que forçava a maioria da população a aumentar a produção para lidar com as pressões do consumo compulsivo e o consequente endividamento. Suas condições sociais refletem muitos aspectos da experiência das classes trabalhadoras sob o capitalismo contemporâneo.

História vista de baixo

Kim Bowes é uma arqueóloga estadunidense e atualmente professora de estudos clássicos na Universidade da Pensilvânia. Ela é uma renomada especialista nas áreas de cultura material e economia do mundo romano. Possui um extensivo registro de publicações sobre habitação, o significado social do dinheiro, dívida e poupança, bem como sobre inúmeros aspectos da vida cotidiana no mundo antigo. Bowes tem um grande interesse acadêmico pelos pobres, especialmente os pobres rurais.

Entre 2009 e 2014, ela dirigiu o primeiro estudo arqueológico sistemático já realizado sobre camponeses romanos. The roman peasant project, 2009–2014: Excavating the roman rural poor [O projeto camponês romano, 2009–2014: Desenterrando os pobres rurais romanos], examina dados arqueológicos de sítios rurais de pequenos agricultores no sul da Toscana para revelar como os camponeses locais organizavam suas moradias, dieta, fazendas e estratégias agrícolas, incluindo a mobilidade da mão de obra e as transações de mercado.

“Os pequenos agricultores, e não os grandes proprietários de terras, dominavam a zona rural romana através de sítios especializados dispersos por toda a paisagem rural.”

Os resultados sugerem que os pequenos agricultores, e não os grandes proprietários de terras, dominavam o campo por meio de sítios especializados dispersos pela paisagem rural. Esse padrão de “habitações distribuídas” permitiu que os camponeses se estabelecessem no território e maximizassem o uso de diversas parcelas de terra. A agricultura não se limitava à colheita de cereais para subsistência: na verdade, os camponeses intensificaram sua produção agrícola integrando a rotação de culturas de cereais e leguminosas com investimentos relevantes na pecuária. Os animais eram usados ​​para arar a terra, mas também se tornaram um componente essencial da dieta camponesa em seus últimos anos de vida.

Esses diversos níveis de consumo, com cereais, vegetais, frutas e carne fazendo parte da dieta, reforçam a ideia de que o campo não produzia apenas para a cidade consumidora parasitária, onde as elites geralmente residiam e investiam sua riqueza acumulada. Ele também constituía, por si só, um importante reservatório de demanda agregada rural.

Os dados obtidos nas escavações mostram que a cidade e o campo não mantinham uma relação de dependência rígida. Ao contrário, estavam unificados em complexas redes de produção e consumo de diversos tipos de bens, incluindo cerâmica, vidro, couro e têxteis. A mão de obra circulava livremente entre diferentes locais, com os camponeses deslocando-se diariamente de suas moradias rurais para seus campos dispersos. Ocasionalmente, também se deslocavam para mercados rurais e urbanos próximos, onde vendiam suas colheitas em troca de dinheiro, que podia ser usado para comprar alimentos que não produziam diretamente, bem como cerâmica e produtos artesanais.

O projeto liderado por Bowes propõe uma visão flexível e economicamente orientada dos camponeses que povoavam o campo romano. Esses camponeses apresentavam um alto grau de diferenciação social e consumiam uma dieta potencialmente diversificada, que incluía proteínas. Sua organização agrícola baseava-se em vários tipos de posse de terra e um regime de trabalho misto que envolvia todos os membros da família. As trocas ocorriam em uma economia monetizada, com livre acesso e intervenção nos mercados externos.

Do campo à teoria econômica

Após a publicação de The roman peasant project, Bowes publicou um importante ensaio teórico que critica duramente as abordagens cliométricas ao estudo da economia romana. Em When Kuznets went to Rome [Quando Kuznets foi a Roma], ela argumenta que os estudos macroeconômicos que buscam reconstruir o PIB agregado ou per capita, os índices de desigualdade ou os níveis salariais não revelam o real bem-estar econômico da população romana (ou dos trabalhadores em geral antes da Revolução Industrial).

Como esses estudos partem do pressuposto de níveis de consumo de subsistência inalteráveis, eles demonstram teleologicamente a natureza relativamente estacionária de todas as economias pré-modernas (incluindo a romana) quando comparadas ao crescimento impulsionado pela industrialização. Em essência, reiteram ideologicamente o paradigma histórico dominante do crescimento progressivo como principal motor econômico de qualquer sociedade histórica, aplicando, assim, retrospectivamente uma dinâmica política contemporânea ao passado.

Como Bowes insiste, os números do crescimento agregado ou estimativas comparáveis ​​usadas como indicadores econômicos não dizem muito sobre as necessidades e oportunidades dos trabalhadores romanos, assim como não revelam as condições reais da classe trabalhadora da época. Essas formas de macrodados simplesmente reiteram a teleologia metahistórica de “ascensão e declínio” na linguagem aparentemente mais neutra e aceitável da economia.

“Os números de crescimento agregado ou estimativas comparáveis ​​usadas como indicadores econômicos não dizem muito sobre as necessidades e oportunidades dos trabalhadores romanos.”

Para corrigir essa narrativa simplista, Bowes propõe examinar o consumo real em nível domiciliar. Essa mudança permite aos estudiosos demonstrar que, no mundo pré-moderno, a maioria da população trabalhadora possuía múltiplas fontes potenciais de renda e produzia excedentes significativos para acessar o mercado. Isso não apenas revela que a suposta “armadilha da subsistência” era, na verdade, uma invenção historiográfica, como também desvenda um panorama de estratégias complexas e experiências de vida que merecem ser compreendidas.

Lutando para sobreviver

Surviving Rome vai além de seus estudos anteriores. Nesse novo livro, Bowes combina a rigorosa abordagem teórica desenvolvida em When Kuznets went to Rome com a enorme coleta de dados realizada durante The roman peasant project. O resultado é um relato magnífico de como 90% da população do Império Romano — algo entre cinquenta e sessenta milhões de pessoas, dependendo da estimativa — viviam, trabalhavam e morriam durante o período abordado.

A mensagem do livro é direta: o Império Romano possuía uma economia de mercado dinâmica. Os romanos produziam e consumiam bens agrícolas, artesanais e industriais em grandes quantidades. As trocas ocorriam em níveis local, regional e inter-regional, impulsionadas pelas infraestruturas imperiais e com um alto grau de monetização, chegando até mesmo às áreas rurais mais remotas.

“O Império Romano possuía uma economia de mercado dinâmica. Os romanos produziam e consumiam bens agrícolas, artesanais e industriais em grandes quantidades.”

Na reconstrução de Bowes, a força motriz da economia romana não era o Estado romano e seus aparatos — como o exército ou a administração financeira — nem os latifundiários senatoriais super-ricos que administravam suas propriedades. Eram os trabalhadores comuns, com sua produção especializada, altos níveis de demanda e padrões de consumo variados. O imperativo social dos 90% da população de ter acesso a bens de consumo para melhorar seu bem-estar e status — o que Bowes chama de custos da inclusão social — foi fundamental para a gênese e expansão de uma revolução do consumo.

A noção de revolução do consumo não é nova no estudo da economia romana. Em sua magnífica obra Peasant and empire in Christian North Africa [Camponês e império no Norte da África Cristã], Lesley Dossey utilizou esse conceito para explicar o enorme desenvolvimento socioeconômico do mundo rural africano no final da Antiguidade. Na interpretação de Dossey, o século IV d.C. testemunhou um crescimento exponencial da demanda camponesa. Os camponeses africanos não produziam apenas para os habitantes urbanos — eles também utilizavam o mercado para aumentar sua própria renda e, consequentemente, seus níveis de consumo.

Bowes aplica a ideia de uma revolução do consumo aos séculos I e II d.C. Ela estende seu efeito transformador ao início e ao meio do Império Romano, quando a economia atingiu seu ponto de máxima expansão em termos de produção e troca de mercadorias em grande escala.

No entanto, Bowes não gosta de comparações diacrônicas entre os indicadores macroeconômicos das economias romana e moderna, assim como de analogias simplistas entre passado e presente. Em vez disso, ela examina uma série de diferenças e uma semelhança fundamental nas estruturas inerentes às duas economias.

Produção doméstica

A economia romana difere significativamente da economia capitalista moderna em dois aspectos principais. Em primeiro lugar, embora os salários fossem comuns no mundo romano, raramente eram suficientes para cobrir as necessidades básicas de uma família, servindo, em vez disso, como uma fonte de renda adicional, porém ocasional.

Em contraste com o mundo industrial, onde houve uma luta contínua entre capital e trabalho, a economia agrária dos antigos grupos subalternos não funcionava segundo o que E. P. Thompson chamou de nexo monetário. Trata-se de um mecanismo econômico que envolve uma relação entre os níveis salariais e os padrões de vida, bem como conflitos entre empregador e empregado sobre o que é considerado salário justo.

“Embora os salários fossem comuns no mundo romano, raramente eram suficientes para cobrir as necessidades básicas de uma família.”

Como os romanos que trabalhavam não podiam contar com salários como a base de sua economia doméstica, eles continuaram a depender da agricultura e da produção artesanal e têxtil caseira. Isso não significa que eles não operavam em uma economia de mercado; na verdade, estavam totalmente integrados às suas estruturas. Mas participavam dos ciclos de oferta e demanda expandindo sua produção doméstica mais do que vendendo sua força de trabalho para terceiros.


A segunda diferença relevante é que os romanos comuns raramente conseguiam acumular poupanças. Ao contrário dos camponeses e artesãos durante a “revolução industriosa” do século XVIII, que acumulavam poupanças através do adiamento do casamento e do aumento da produtividade, os 90% romanos tinham menos oportunidades de aumentar os seus rendimentos e reservar algum dinheiro para compensar os riscos inerentes a uma economia agrária com as suas colheitas variáveis.

Bowes argumenta que tanto a economia romana quanto a do capitalismo tardio compartilhavam uma característica comum: a precariedade. Em ambos os contextos, a precariedade significava que as pessoas podiam, ou podem, facilmente passar de uma situação de mera sobrevivência (ou, às vezes, até de prosperidade) para uma situação de extrema pobreza. A revolução do consumo impôs à população romana uma tendência compulsiva ao consumo.

Não devemos interpretar isso como um indicador de uma “sociedade abastada” no sentido em que J.K. Galbraith a descreveu em seu livro de 1958 com esse título. Em vez disso, evidenciava uma sociedade onde era extremamente caro e difícil viver e (às vezes) até mesmo sobreviver. Como observa Bowes, assim como os estadunidenses modernos, os 90% romanos viviam perpetuamente endividados, com a precariedade como sua companheira constante.

A economia da maioria

Os estudos sobre a economia romana têm se concentrado principalmente em desvendar os mecanismos de arrecadação de recursos da população, buscando compreender como instituições como o Estado ou os mercados utilizavam o dinheiro e distribuíam ou comercializavam mercadorias. O debate girou em torno de diferentes formas de cobrança de impostos, baseadas em dinheiro ou pagamento em espécie, na coleta e transferência de rendas agrícolas e no papel do sistema monetário unificado na facilitação das transações entre parceiros institucionais, bem como na forma como as instituições possibilitavam o acesso ao mercado.

O interesse pela população trabalhadora tem se limitado a estabelecer qual tipo de sistema de posse de terras e regime de trabalho associado — arrendamento, trabalho assalariado ou escravidão — era mais propenso a aumentar a produção e melhorar a eficiência da economia imperial. Em essência, os estudos têm se concentrado mais em como os proprietários de terras organizavam a produção e como as instituições os ajudavam a transferir ou trocar mercadorias do que em como os trabalhadores gerenciavam suas vidas.

Surviving Rome adota uma perspectiva diferente. Assim como em outras sociedades pré-industriais, a grande maioria das pessoas no mundo romano — cerca de nove décimos da população — vivia e trabalhava no campo. Se quisermos entender como essa sociedade funcionava e se seu povo estava bem, precisamos observar os camponeses em vez das elites, muito mais documentadas e visíveis.

“A grande maioria das pessoas no mundo romano — cerca de nove décimos da população — vivia e trabalhava no campo.”

Os camponeses representavam a maior parte dos 90%, mas essas pessoas nunca foram agricultores em tempo integral. A visão atemporal do camponês que ganhava a vida cultivando (com a ajuda da família) uma pequena parcela de terra é um mito criado pelos escritores romanos para celebrar o valor moral do cidadão romano ideal.

Em todo o vasto território que se estendia dos atuais Países Baixos ao Egito, os camponeses romanos estavam longe de ser românticos ou conservadores ao elaborarem suas estratégias econômicas. Eles dispunham de múltiplas fontes potenciais de renda, derivadas de um campo totalmente imerso em um complexo sistema de trocas.

Por vezes, os camponeses possuíam várias parcelas de terra. Contudo, como a oferta de terra nunca era suficiente, arrendavam com mais frequência as suas parcelas a grandes ou médios proprietários de terras. A dupla condição de pequenos proprietários e arrendatários exigia da família camponesa um planejamento complexo do emprego dos recursos humanos, que tinha de ter em conta as necessidades sazonais da agricultura, como a rotação de culturas e a colheita. Os camponeses também tinham de considerar as exigências simultâneas das fábricas de cerâmica, das indústrias artesanais ou do comércio de produtos agrícolas e têxteis no mercado local.

Escassez e excedentes

A combinação de diversas atividades poderia resultar em escassez de mão de obra. Por sua vez, isso oferecia oportunidades de emprego para trabalhadores assalariados externos, geralmente recrutados entre pastores de meio período ou camponeses sem terra. Às vezes, porém, a composição variável da família também podia gerar excedente de mão de obra, tornando necessário que alguns membros trabalhassem por salário na propriedade de outra pessoa.

Esse dinamismo econômico leva Bowes a argumentar que a relação entre terra, trabalho e produção não era predeterminada por alguma lei econômica abrangente, mas sim influenciada pela atividade camponesa e pelas contingências históricas. Em essência, dependendo da situação, um camponês, sua esposa e seus filhos podiam atuar como pequenos proprietários, arrendatários, assalariados, pastores ocasionais, comerciantes ou trabalhadores têxteis e de cerâmica — às vezes, todos os anteriores.

“Apesar do analfabetismo generalizado na população rural, as famílias trabalhadoras ainda conseguiam lidar com cálculos complexos.”

A capacidade dos camponeses de lidar com todas essas atividades desmente duas outras crenças equivocadas. Em primeiro lugar, apesar do analfabetismo generalizado entre a população rural, as famílias trabalhadoras ainda conseguiam realizar cálculos complexos e manter registros detalhados de seus impostos, aluguéis, obrigações públicas e privadas, e assim por diante. Assim como os pobres na sociedade contemporânea, os romanos trabalhadores podiam ser altamente habilidosos com números sem precisar saber ler ou escrever.

Em segundo lugar, eles administravam suas transações diárias de forma muito racional, pensando em termos de valor monetário. É verdade que o campo sofria com a escassez estrutural de moedas, já que os camponeses estavam constantemente precisando de dinheiro. Mas, como Rory Naismith afirmou em seu fascinante livro Making money in the early Middle Ages [Fazendo dinheiro no início da Idade Média], a falta de moedas nas transações cotidianas não impedia as pessoas comuns de mensurar o valor da terra, do gado e das mercadorias (ou mesmo de bens mais intangíveis, como honra e devoção espiritual) em unidades monetárias. A contabilidade monetária era um hábito econômico significativo para aqueles que viviam no campo.

Bowes oferece como exemplo dessa racionalidade econômica duas histórias de camponeses no Egito do primeiro século. Epímaco possuía vários pequenos lotes perto de Hermópolis, no Vale do Nilo, e administrava ativamente sua fazenda com a ajuda de quatro ou cinco escravizados e trabalhadores diaristas. A natureza dispersa de suas propriedades e a dependência do trabalho assalariado provavelmente exigiam uma contabilidade complexa. Ele empregava um escravizado chamado Dídimo para manter registros detalhados, começando cada mês com os ganhos organizados cronologicamente e registrando as despesas diárias. Os ganhos e as despesas eram então contabilizados, transferindo qualquer lucro ou déficit para o mês seguinte.

Soterichos, um arrendatário, e sua família conservaram seus contratos de arrendamento, recibos de aluguel e impostos, documentos de quitação de dívidas, um recibo de compra de um burro e a compensação pela pastagem consumida pelo gado. Embora não fossem alfabetizados em grego, administraram com eficiência os arrendamentos e empréstimos, insistiram em receber os recibos de pagamento e guardaram esses documentos por anos após o vencimento. Essas duas histórias sobre famílias camponesas refletem, em nível micro, a história econômica mais ampla do Império Romano.

Uma classe trabalhadora maltratada

Um dos capítulos mais impressionantes do livro aborda os efeitos destrutivos do trabalho na saúde dos trabalhadores. O período romano testemunhou uma das explorações mais intensas do campo antes da mecanização da agricultura na segunda metade do século XIX. A expansão maciça da produção agrícola excedente e a busca incessante pelo aumento do consumo tiveram um enorme impacto sobre a população trabalhadora.

“A expansão maciça da produção excedente agrícola e a busca incessante pelo aumento do consumo tiveram um enorme impacto na população trabalhadora.”

Uma enorme quantidade de novos dados provenientes de esqueletos humanos revelou as consequências perigosas de se viver em um mundo onde o corpo humano era a principal máquina produtiva. O trabalho imposto aos operários prejudicava seriamente sua saúde. Seus corpos contêm indicadores reveladores de níveis de estresse e lesões sem precedentes. Os romanos trabalhadores podem ter tido acesso a alimentos melhores, panelas feitas em roda de oleiro e roupas de melhor qualidade, mas pagaram um preço alto em troca de benefícios mínimos.

Embora todos os trabalhadores romanos sofressem com a sobrecarga de trabalho, os 90% restantes não constituíam um grupo homogêneo. Os membros da maioria rural foram afetados mais seriamente do que seus pares urbanos. As pessoas que viviam e trabalhavam em cidades como a antiga Londres, Cartago ou a própria Roma se beneficiavam de uma dieta mais variada, incluindo carne, queijo, leguminosas e peixe. Essa fonte estável de proteína ajudava os trabalhadores urbanos a suportar as muitas horas de trabalho árduo.

Os trabalhadores rurais não dispunham de uma variedade comparável nem de uma fonte estável de proteínas: consumiam carne com menor teor proteico e raramente tinham acesso a peixe. Aqueles empregados em indústrias especializadas, como minas, ou na agricultura, realizavam trabalhos árduos que exigiam o consumo de quase quatro mil calorias por dia. Quando não conseguissem obter essas rações diárias — e eles raramente conseguiam —, seus corpos sofriam sérios danos.

A situação era ainda pior para os adolescentes de ambos os sexos, pois a combinação de um regime de trabalho pesado com a insuficiência de proteínas e vitaminas comprometia severamente seu crescimento. A maioria dos trabalhadores que sobreviviam a essa infância precária carregava as sequelas do trabalho pesado por toda a vida.

Trabalho livre e não livre

Em termos de impacto na saúde popular, a diferença entre cidade e campo era mais relevante do que a distinção legal entre trabalhadores livres e escravizados. Trabalhadores livres pobres e escravizados desempenhavam funções semelhantes, especialmente em indústrias especializadas como as minas de carvão e no campo. Recebiam salários comparáveis ​​e tinham dietas semelhantes.

Os esqueletos de pessoas escravizadas parecem idênticos aos dos pobres que trabalhavam em liberdade. Essas descobertas sugerem que a escravidão em Roma não fornecia uma categoria distinta de trabalhadores para a economia romana. Embora tais semelhanças não diminuam a brutalidade da escravidão, elas mostram que a experiência do trabalho pesado não apenas tornava os trabalhadores livres e escravizados fisicamente indistinguíveis, mas também os integrava a um mesmo grupo social.

Surviving Rome nos mostra como as forças de mercado e um sistema imperial opressor forçaram os trabalhadores a se tornarem protagonistas de um ciclo vicioso e perigoso. Ao examinar esse processo, Bowes destaca como principal motor o esforço tenaz dos pobres para serem socialmente incluídos, embora reconheça que foram as estratégias de acumulação das elites que forçaram os trabalhadores a exercerem múltiplos empregos para sobreviver.

Ao discutir questões de classe, Bowes prefere as categorias de Pierre Bourdieu às de Karl Marx. No entanto, assim como ocorreu com o trabalho empírico de Bourdieu sobre o campesinato argelino, sua reconexão entre produção e consumo a partir da perspectiva de baixo para cima fortalece a mensagem do livro. Na Roma Antiga, assim como no presente capitalista contemporâneo, eram os trabalhadores que pagavam o preço por um mundo repleto de bens materiais.

Paolo Tedesco

ensina história na Universidade de Tübingen. Seus principais interesses de pesquisa incluem a história social e econômica do final da antiguidade e início da Idade Média, história agrária comparada, o destino do campesinato em diferentes tipos de sociedades e materialismo histórico.

Para refletir, não para concordar

 

MARCELO COLUSSI. Que a rua nunca ruas (e socialismo para quando?)

 

“Se não há poder popular, não há socialismo.”

Caridade Masson Sena

No que parecia uma revolução socialista, que abriu grandes expectativas em todos os lugares, a Venezuela bolivariana com Hugo Chávez na cabeça acaba sendo um protetorado grotesco dos Estados Unidos (estado número 51?), com um de seus principais líderes que diz, sem pêlos de língua, que “o socialismo acabou e vai abertamente em direção a uma economia de mercado”. Cuba, a ilha heróica que construiu um modelo socialista invejável, depois de resistir aos ataques monstruosos do império por mais de seis décadas, está prostrada em um grau quase humilhante (embargo de petróleo, dificuldade para obter comida e remédios), e um debate está sendo debatido entre aceitar a oferta de “ajuda humanitária” – com o diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), John Ratcliffe, reunindo-se em Havana com alguns de seus líderes impondo condições? – ou a invasão militar Onde está o socialismo no mundo?

A Rússia, que deu o primeiro salto revolucionário para o socialismo na história, torna-se um país capitalista, com os ex-líderes comunistas transformados nos novos empresários bilionários, enquanto um conselheiro – e arqui-milionário – diz ao presidente Putin em seu ouvido que “por nada no mundo deve ser devolvido a 1917”. China, Laos e Vietnã desenvolvem modelos de “socialismo de mercado”, com forte investimento estrangeiro (de empresas capitalistas) e promovendo economias de mercado particulares sob controle do Partido Comunista, aceitando milionários com a Rolls Royce. Eu desovo algo complexo para entender, a propósito. Socialismo com consumo de suntuário? Complicado, sem dúvida.

A Nicarágua sandinista, com sua gloriosa revolução de 1979 e a tentativa de construir um “paraíso” fora do cerco americano, é hoje uma sociedade complexa absolutamente longe do socialismo, administrada com critérios comerciais totais, com a presença do FMI e uma liderança que emula não Sandino mas, em qualquer caso, Somoza.

Rússia e China, atualmente grandes potências no econômico e militar, olham para o outro lado antes do massacre sangrento do povo palestino, bem como o miserável bloqueio de energia de Cuba; parece que eles só estão interessados em sua própria sobrevivência. Será que áreas de influência foram distribuídas com Washington?: Moscou e as repúblicas periféricas da Ásia Central, China certos setores da Ásia, incluindo Taiwan, sua hoje “província rebelde” (e o principal produtor de semicondutores do mundo). Mas então e o socialismo?

Os antigos partidos comunistas do mundo, sempre ligados à União Soviética, na sua maioria, se ainda existem, tornaram-se forças social-democratas. E muitos dos antigos movimentos de ação armada, transformados em partidos políticos dentro da instituição capitalista, não passam de retornos eleitorais pobres, sem mover massas, longe de serem vanguardas na luta revolucionária. Se em qualquer caso eles se tornam presidente, dificilmente têm agendas mornas que não modificam as estruturas socioeconômicas de seus países um ioca. Devemos esquecer as revoluções e o socialismo? “Não há alternativa”?, como disse a presidente da parasita monarquia hereditária demonstração democrática do Reino Unido, a dama de ferro Margaret Thatcher.

A atual aliança China-Rússia, com a inclusão de outros países formando o BRICS+, representa uma proposta perante o imperialismo norte-americano, mas não passa num acordo palaciano, coupular, que busca a desdolarização da economia global, embora sem superar o capitalismo. Lembremos, como diz a instituição de caridade cubana Massón Sena, que “Se não há poder popular, não há socialismo”.

“A esquerda tradicional é desarticulada. Tem mostrado total incapacidade de -pelo menos - explicar aos povos o que acontece, muito menos apontar um caminho válido para enfrentar e superar essa situação. Os mecanismos que existiram até agora mostraram total inoperabilidade, paralisada por atitudes pusilânimes, duvidosas e até covardes. É preciso articular uma proposta de longo prazo que elabora e estabelece diretrizes, instrumentos, metodologias e formas de agir nessa situação que não é favorável para os povos” (Rodríguez Gelfenstein: 2026), afirma Sergio Rodríguez Gelfenstein. É verdade. Mas, agora, somos tão tolos (e talvez, sem dúvida, incapazes, pupilares, hesitantes, inoperantes e covardes) que não podemos encontrar curso? Talvez a resposta seja um pouco mais complexa. Sem a menor dúvida de que os esquerdistas hoje não estão – digamos isso em uma primeira pessoa retumbante! – não estamos conduzindo as massas do mundo em direção à revolução socialista. Isso é mais do que óbvio, e devemos fazer um reconhecimento muito honesto disso. Mas não ficar batendo nosso peito com um mea culpa sofrido - e inoperante. A questão é que - convenhamos - ninguém sabe hoje com certeza como construir essa alternativa.

Com insight - talvez com um humor paranóico - alguém disse no início da pandemia de Covid-19 nos primeiros meses de 2020, quando começaram os bloqueios e toques de recolher, e em muitos casos com exércitos guardando as ruas, que a manobra em jogo era fabulosa, porque "sem disparar um único tiro eles conseguiram desativar todas as manifestações de 2019 ".

Tudo o que aconteceu com a crise de saúde permite uma análise interminável. É claro que já foram feitos, e certamente continuarão a ser feitos, porque haverá elementos que dão para continuar pesquisando em profundidade, já que alguns deles ainda são sugestivos. A militarização que foi vista no início da pandemia nos obriga a perguntar se isso era necessário. Não esqueçamos, no entanto, que no primeiro ano desta catástrofe sanitária mais pessoas morreram de acidentes de trabalho - falta de medidas básicas de segurança- do que pelo efeito do vírus nocivo. Talvez um medo excessivo tenha sido incutido, com soldados patrulhando (e os leões Putin libertados nas ruas da Rússia?) Toques de recolher mais militarizados. Talvez não houvesse outra maneira de manter as populações em suas casas. Mas todo o alvoroço ainda é sugestivo; portanto, a presunção indicada acima faz sentido. Por enquanto: as mobilizações do ano anterior no início da crise do coronavírus desapareceram como que por magia.

A verdade é que, por um momento, a efervescência que ocorreu no decorrer de 2019 caiu de repente. Vários países em todos os continentes haviam se mobilizado naquele ano, com concentrações populares maciças, alcançando objetivos diferentes: presidentes foram derrubados, leis foram revogadas, assembleias constituintes foram abertas, esperança foi insuflada em lutas populares. Na América Latina, Chile, Colômbia, Equador, Haiti, Honduras explodiu. Mobilizações em massa foram registradas no Iraque, Líbano, Índia, Indonésia. Outro foi o caso na África com o Egito, Argélia, Sudão, todos em protestos populares maciços. A Europa também foi mobilizada na França com os coletes amarelos, na Catalunha (Espanha), Alemanha, Itália, na República Tcheca.

Obviamente, todo esse descontentamento generalizado das populações do mundo tem causas muito óbvias, concretas e identificáveis: o sistema capitalista é a origem das dificuldades históricas em que vivem as grandes maiorias populares, aprimoradas de forma monumental pelos planos neoliberais (capitalismo selvagem sem anestesia) que foram aplicados por cinco décadas em todo o mundo.

Todas aquelas explosões de profunda agitação que foram vistas em 2019 são uma indicação de que o capitalismo não oferece saídas, e que as políticas fundomonetaristas são um câncer maligno para as populações, pior do que qualquer germe patogênico. Dizer que o neoliberalismo falhou é incorreto porque, como diz com razão o economista argentino Julio Gambina:

“Nunca foi ‘progressividade’ o objetivo da política econômica na ordem capitalista. O objetivo histórico aponta para a produção de valor e mais-valia, de lucro e acumulação, de valorização do capital investido para uma acumulação ampliada que assegure o domínio do capital sobre a sociedade como um todo” (Gambina: 2021).

Capitals estão definitivamente indo muito bem. Nesse sentido, o neoliberalismo não falhou.

Mas essas políticas deixaram cada vez mais pessoas prostradas, condenando-a ao aumento dos salários mais baixos ao renunciar a conquistas históricas do século XX, sem serviços públicos -porque tudo foi privatizado - e no meio de uma maré de livre mercado que só beneficia minúsculos grupos, que exibem suas riquezas de maneira ostensiva, beirando os impúdicos -iates de 100 milhões de dólares, enquanto muitos morrem de fome- Nessa lógica, como diz Rodríguez Gelfenstein, e ainda mais com a queda da União Soviética, é real que as esquerdas permaneçam órfãs, sem nenhum impacto real sobre as populações, sem uma proposta clara na mão. É por isso que, diante do triunfo esmagador dessas iniciativas para arqui-milionários e repressão dos bolsos - o dos corpos já havia sido feito antes - que em 2019 aquela febre global de levantes espontâneos foi desencadeada. Definitivamente, há o caminho. As redes sociais não podem mudar nada, além de se divertir um pouco; as mudanças sociais não são feitas em espaços virtuais mas nos reais, colocando o corpo.

Depois desse incêndio de 2019 vieram os bloqueios. Dito isto, não estamos de modo algum ecoando uma visão conspiratória confabulatória. A pandemia, já suficientemente demonstrada, tinha causas muito precisas. Além da mutação de um vírus, o que tão fortemente o catapultou com a maneira de abordá-lo com esses bloqueios forçados, foi a falência quase total em que os sistemas de saúde pública foram encontrados resultantes das políticas de privatização que foram feitas anos atrás. Mas mesmo durante a mesma pandemia, em 2020, os protestos continuaram. Na Colômbia os confrontos continuaram, na Guatemala a população se apagou novamente, nos Estados Unidos houve expressões de fúria popular com enormes mobilizações. Nesta circunstância, o que acendeu a raiva foi o anti-racismo histórico dessa sociedade, após a morte icônica de George Floyd (Black Lives Matter). Isso também é marcado com o crescente empobrecimento de imensos setores da agora decadente, grande potência, entre os quais a população negra é a mais atingida.

Os protestos nunca terminam (por que deveríamos acabar, se as populações continuavam com tantos precários?). Em diferentes partes do mundo estamos continuamente testemunhando demonstrações de repúdio ao sistema, de explosões de cansaço, de mobilizações indicativas de profundo desconforto. Ultimamente foram os jovens que protagonizaram aquelas ações, conseguindo renúncias de líderes, revisão de leis, melhorias nos benefícios estatais. Há ações do Sri Lanka em 2022, protestos estudantis maciços em Bangladesh em 2024, também protestos no Quênia em 2024, também na Sérvia no mesmo ano, revolta juvenil maior e massiva no Nepal em 2025. Da mesma forma, grandes manifestações estão ocorrendo contra as políticas de Donald Trump nos Estados Unidos, com milhões de pessoas protestando (No Kings). Hoje em dia, a Bolívia queima, e manifestações maciças pedem a renúncia do presidente de extrema-direita Rodrigo Paz. Tudo isso, toda aquela força popular que derrubou presidentes, por exemplo, é um indicador de que as sociedades estão cansadas das dificuldades que passam. A questão é que nenhuma dessas importantes mobilizações pode entrar em colapso no sistema capitalista.

É mais do que evidente que, sem um projeto político claro e bem definido, é impossível alterar a estrutura básica. Explosões espontâneas, por si só, não são a revolução (para isso é necessário projeto político e liderança). Hoje as esquerdas ainda estão - continuamos - à procura do caminho. Mas essas mobilizações - embora no momento, como são, não vão além das explosões viscerais, incluindo, por exemplo, a Primavera Árabe, então cooptada pela CIA - se tiverem algo importante, é que marcam a rota, dão força, ensinam que apenas as pessoas na rua - e mostrando os dentes - podem provocar mudanças. A Comuna de Paris de 1871 – que inspirou Marx a formular seu conceito de “ditadura do proletariado” – continua sendo o farol. O socialismo deve ser autogerido, com a classe trabalhadora assumindo o papel de liderança; se não, não é socialismo - como diz a epígrafe citada. Há exemplos suficientes a este respeito sobre a construção do poder popular autêntico, a única maneira de transcender o capitalismo: os sovietes dos primeiros dias na Rússia bolchevique, assembleias populares em diferentes países que vieram para a revolução socialista -cabeilos abertos em Cuba, na Nicarágua, Conselhos Populares no Vietnã-, os Conselhos do Bom Governo Zapatista em Chiapas (México), o socialismo auto-gerido dos curdos de Rojava Tudo isso é claro: a questão é como chegar a esse momento autogerido?

Hoje a direita tem a iniciativa. Mas não devemos desfalecer. As classes dominantes têm terror ao povo se mobilizando, pois sabem que existe a possibilidade de mudança; portanto, embora hoje os tempos não sejam os mais favoráveis ao campo popular, é claro que lá o fermento para ninhos revolucionários de transformação. Portanto: que a rua nunca ruas! Revoluções dando gostos e enviando memes não são revoluções.

Marcelo Colussi

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Do Consentimento das Massas

 A Construção Ideológica do Consentimento para Novas Guerras Imperialistas
Saïd Bouamama
12 de fevereiro de 2026

As guerras imperialistas proliferaram desde o colapso da URSS, que simultaneamente marcou o fim de todos os equilíbrios estabelecidos após a derrota do nazismo. Do Iraque à Síria, incluindo Líbia, Sudão e Líbano, as principais potências ocidentais em geral, e os Estados Unidos em particular, intervêm militarmente, direta e/ou indiretamente, em nome da defesa de "grandes valores universais": direitos humanos, direitos das mulheres, proteção das minorias, e assim por diante. Esses novos discursos ideológicos que legitimam as guerras tentam fabricar o consentimento popular para guerras com consequências de longo alcance tanto para os povos dos países atacados quanto para os dos países agressores.

Considerando o Longo Prazo

Desde o nascimento do capitalismo no século XVII, os discursos utilizados para legitimar as guerras evoluíram em paralelo com as transformações do novo sistema capitalista. Em sua fase pré-imperialista, a do capitalismo antes do domínio dos monopólios, o objetivo primordial das guerras era a pilhagem e a destruição de civilizações inteiras. Essa pilhagem e destruição foram justificadas primeiro pela "doutrina da descoberta" [afirmando que as Américas "descobertas" pelos conquistadores não tinham donos] e depois pela invenção do racismo [afirmando uma hominização incompleta dos povos indígenas e, consequentemente, uma missão de humanização para os colonizadores]. A escravidão, a colonização, a evangelização forçada, o trabalho forçado, etc., foram justificados como meios necessários para humanizar povos ainda em estágio animal ou para desenvolver "povos infantis".

A segunda globalização do capitalismo [1850-1914] sucedeu à primeira [1492-1850] com a partilha da África na segunda metade do século XIX. Os avanços no conhecimento científico, o Iluminismo e suas consequências políticas [ideais humanistas e universalistas, etc.], o desenvolvimento do movimento operário, entre outros fatores, desencadearam uma mudança nas justificativas para a conquista. Assim, a colonização do continente africano foi justificada em nome da abolição da escravatura. O objetivo deixou de ser humanizar animais e passou a ser civilizar povos estagnados num estágio anterior de desenvolvimento. A missão de humanização cedeu lugar à missão de civilização.

A experiência do nazismo e sua derrota tornaram abruptamente obsoletas todas essas ideologias. De fato, foi em nome de ideologias semelhantes que os nazistas escravizaram a Europa. Eles também afirmavam uma hierarquia entre as "raças" humanas, mas a estendiam aos povos europeus. Eles também alegavam "civilizar" o mundo sob a liderança da "raça" mais avançada: os arianos.

O novo discurso de legitimação foi iniciado pela nova potência hegemônica, os Estados Unidos, sob o nome de "Guerra Fria". A partir de então, guerras foram travadas em nome da "ameaça comunista", e a continuação da colonização e a subsequente interferência nos estados recém-independentes foram justificadas.

Os Efeitos Sistêmicos do Desaparecimento da URSS

O desaparecimento do contrapeso à hegemonia estadunidense mergulhou o mundo em uma situação sem precedentes. Pela primeira vez desde os primórdios do capitalismo, o unilateralismo tornou-se quase total. Vale lembrar que, após uma fase multipolar inicial [durante a primeira globalização], a Grã-Bretanha e a França rapidamente se estabeleceram como as duas potências hegemônicas. Cada uma dessas duas potências concorrentes foi obrigada a levar a outra em consideração e constituiu um contrapeso. Essa função de contrapeso seria desempenhada, a partir de 1945, pela URSS e pelos demais países socialistas.

As vantagens do unilateralismo são enormes para o capital estadunidense. O pensamento estratégico dos EUA, logicamente, se concentrará nas condições necessárias para manter essa situação vantajosa. Isso levará a duas abordagens estratégicas que devem ser justificadas por novas narrativas de legitimação.
Ideológica. A primeira abordagem envolve a manipulação política de áreas estratégicas ao redor do mundo [em termos de recursos ou rotas de transporte]. Isso resultará em uma série de guerras de balcanização com o objetivo de fragmentar nações com base territorial e recursos, potencialmente permitindo que elas rejeitem a tutela dos EUA no futuro: Iugoslávia, Iraque, Sudão, Líbia, Síria, etc. O ciclo ainda não está completo. A segunda abordagem é o estabelecimento de pequenos estados vassalos fortemente armados, totalmente dependentes dos Estados Unidos, que então atuariam como seus administradores locais. A Israel, que há muito desempenha esse papel, soma-se Ruanda, localizada perto do Congo e de seus imensos recursos. O mesmo cenário é previsto em outros lugares, como no caso do Marrocos, para controlar tanto o Norte da África quanto o Sahel.

Tal estratégia de guerras sucessivas só é possível por meio da disseminação massiva da ideia de um perigo iminente que exige uma política ofensiva. Essa foi a ordem dada às estruturas de desenvolvimento ideológico nos Estados Unidos [os múltiplos "think tanks" financiados por agências de segurança ou pelos militares]. A teoria do "choque de civilizações" foi o resultado. (...) »
Ler Fonte : Investig´Action

domingo, 17 de maio de 2026

 

Anwar Shaikh:

 

CONCEPTOS BASICOS DEL ANALISIS ECONOMICO MARXISTA

 

Publicado en: Valor, Acumulación y Crisis. Ensayos de Economía Política

Tercer Mundo Editores, Bogotá 1990 ISBN 958-601-282-4

 

 

 

 

 

INTRODUCCION

Toda ciencia posee ciertos conceptos básicos sobre los cuales se fundamenta cualquier desarrollo científico ulterior. La economía política marxista no se diferencia a este respecto. El concepto fundamental es el de classe, sumado .a los de trabajo excedente y explotación, que examinaremos en esta introducción.

El concepto de capital lo entendemos, no como una entidad física o financiera (herramientas y equipo, o dinero y activos financieros), sino como una estructura históricamente especificada de relaciones sociales, que entraña diferentes elementos de reproducción social y los convierte en recursos para la obtención de sus propios fines. Esto nos permite explicar por qué una herramienta utilizada en forma capitalista "produce" resultados cualitativamente diferentes a los que arroja cuando es utilizada de manera comunitaria. Lo cual también, forzosamente, nos recuerda que el capitalismo es tan sólo una de las tantas formas de organización social que han existido y podrán existir y que, como todas, está destinada a ocupar tan sólo un período en la historia de la humanidad. Estos aspectos serán examinados en la siguiente sección.

El concepto de capital nos lleva inevitablemente al tema de la ganancia puesto que ella es el fin y la razón de ser del capital. Marx identifica dos diferentes fuentes de ganancia que son la transferencia libre o forzada de riqueza (ganancia por enajenación) y la producción de plusvalía (ganancia por plusvalía). La primera fuente domina la larga y azarosa historia del capital comercial, mientras la segunda es, desde luego, la base principal del capitalismo industrial. La distinción entre la ganancia basada en la enajenación y la ganancia con base en la plusvalía nos permite formular una crítica al concepto neoclásico de ganancia, que generalmente reduce la segunda a la primera. También nos provee de una clave importante para descifrar la paradoja, por largo tiempo afirmada, de la aparente variabilidad de las ganancias agregadas en presencia de cambios en los precios relativos, que tanto confunde la literatura de la transformación de valores a precios de producción. La tercera sección explorará estos aspectos.

El capital individual es invertido con el propósito de obtener una ganancia y expandir el capital disponible. Para poder continuar haciéndolo, este valor capital ampliado debe ser lanzado a la pelea de nuevo, en mejores condiciones.

A un nivel agregado, este circuito recursivo da origen a un proceso dinámica de crecimiento cuyos patrones estructurales subyacentes están ocultos bajo su aparente desorden. Marx denomina estos patrones económicos de largo plazo "leyes generales de la acumulación capitalista". Comenzaremos su exposición en la cuarta sección de este Capítulo, al discutir el concepto de "ley" delineado por Marx, como una fuerza que domina sus tendencias contrapuestas asociadas, de tal manera que el resultado es un patrón general dominante.

Existen tres leyes generales que desempeñan un papel fundamental en el análisis económico de Marx. La primera de ellas contempla la concentración y centralización que acompañan a la acumulación de capital. La segunda se relaciona con la tendencia interna del capital a crear y mantener un fondo universal de desempleo y empleo parcial, un verdadero ejército internacional de reserva de trabajo. La tercera ley general tiene que ver con la tendencia de la acumulación a hacer decrecer la tasa de ganancia y, por lo tanto, a socavar la acumulación en sí misma. Las periódicas crisis económicas generales, es decir, depresiones, son la inevitable consecuencia de esta tendencia general de la tasa de ganancia a caer.

La ley de Marx de la tasa decreciente de ganancia es una de las tres teorías principales de las crisis económicas en la tradición marxista. El presente Capítulo termina con un esbozo de la estructura e implicaciones de las tres teorías marxistas de las crisis. Se reserva para el Capítulo 4 un tratamiento más detallado de los aspectos teóricos y empíricos involucrados en esta temática.

CLASE, TRABAJO EXCEDENTE Y EXPLOTACION

La sociedad está compuesta por gente que vive dentro -y-por-medio de complejas redes de relaciones sociales que configuran su existencia. Marx sostiene que las relaciones que estructuran la división social del trabajo están a la base de la reproducción social, porque la división del trabajo cumple simultáneamente dos metas sociales diferentes: primera, la producción de los muchos y variados objetos que la gente usa en sus actividades de 1, vida diaria; y segunda, la reproducción de los delineamientos sociales básicos bajo los cuales esta producción se realiza. La reproducción social es siempre la reproducción de individuos en tanto individuos sociales.

Las sociedades de clases son aquéllas en las que la imposición de un grupo de gente sobre otro se fundamenta en un tipo particular de división social del trabajo. Esta particularidad proviene del hecho de que la clase dominante se sostiene mediante el control de un proceso por medio del cual se les exige a las clases subordinadas que dediquen una porción de su tiempo trabajo a la producción de cosas que necesita la clase dominante. La división social del trabajó en una sociedad de clases debe, por lo tanto, estar estructurada alrededor de la extracción de trabajo excedente, es decir, de tiempo de trabajo mayor que el requerido para producir los bienes que satisfagan las necesidades de las clases trabajadoras mismas. En efecto, las clases subordinadas son las que hacen el trabajo para la reproducción de la clase dominante y, por lo tanto, terminan trabajando para reproducir las condiciones de su propia subordinación. Por eso Marx se refiere a la extracción de trabajo excedente en las sociedades de clases como la explotación del trabajo. Digamos, de paso, que debería ser claro a partir de esto que la sola ejecución del trabajo más allá de lo necesario para satisfacer necesidades inmediatas no constituye explotación en sí. Robinson Crusoe, que trabajaba en su soledad con el fin de sembrar plantas para su consumo futuro o de crear fortificaciones contra posibles ataques, realizaba solamente un poco del trabajo necesario para satisfacer sus propias necesidades. El no era ni explotado ni explotador. Pero todo cambió una vez que logró subordinar al negro Viernes, educándolo mediante la promesa de la religión y la amenaza de la violencia para que alcanzara su nuevo lugar en la vida, y obligándolo a trabajar en la construcción de un microcosmos de la sociedad inglesa. Entonces, se convirtieron en Robinson el explotador y Viernes el explotado, cuyo trabajo excedente sólo sirve para atarlo aún más a sus nuevas condiciones de explotado. 

En el sentido más general, explotar algo significa hacer uso de ello con algún fin particular, como en la explotación de recursos naturales para beneficio social o para ganancia privada, lo cual equivale a "sacar ventaja" en un sentido neutral o benigno. Pero en la medida en que una actividad implica sacar ventaja de otras personas, es decir, sacar ventaja en sentido maligno, la explotación también significa algo inescrupuloso. Finalmente, si la situación de otras personas es desmejorada de manera endémica, como en el caso de los pobres en relación con los terratenientes, prestamistas y similares, el término "explotación" toma la connotación de opresión. Eso es sacar ventaja sistemáticamente.

Marx utiliza la palabra explotación en todos los anteriores sentidos. Pero, como se indicó ya, también define un concepto nuevo, la explotación del trabajo, que se refiere específicamente a la extracción del trabajo excedente sobre la que se funda la sociedad de clases. En este sentido, la explotación viene a ser uno de los conceptos básicos de la teoría marxista de las formaciones sociales.

Si bien la explotación del trabajo es inherente a todas las sociedades de clases, la forma que toma varía considerablemente de un modo de producción a otro. Bajo la esclavitud, por ejemplo, el esclavo pertenece a su dueño de tal forma que el total de su trabajo y el producto neto correspondiente (es decir, el producto adicional al reemplazo de los medios de producción utilizados) es apropiado ostensiblemente por el esclavista. Pero, de hecho, el esclavo también debe ser mantenido con parte de este mismo producto neto. Por consiguiente, es el producto excedente (la porción del producto neto por encima de la necesaria para mantener a los esclavos) y, por lo tanto, el trabajo excedente de los esclavos, lo que sostiene a la clase esclavista. De modo similar, bajo el feudalismo, los trabajos excedentes del siervo y el arrendatario soportan el aparato de dominación. Pero aquí las formas de su extracción son muchas y variadas: algunas veces son directas, como en el caso de las cantidades de trabajo y/ o producto anual que el siervo o arrendatario están obligados a entregar al señor, a la Iglesia y al Estado; y algunas veces indirectas, como en el pago de arrendamientos en dinero, diezmos e impuestos que requieren que el siervo o el arrendatario obtengan un producto excedente y lo vendan para cumplir con las obligaciones impuestas.

La riqueza material de la clase dominante está directamente ligada al tamaño del producto

excedente; éste, a su vez, será más grande cuanto más bajo sea el nivel de vida de las clases subordinadas y más larga, más intensa o más productiva su jornada de trabajo. Ambas proposiciones se traducen en que la relación entre el tiempo de trabajo excedente y el tiempo de trabajo necesario para la reproducción de los trabajadores mismos sea más alta, es decir, en una tasa de explotación del trabajo más alta: dada la productividad del trabajo y la duración e intensidad de la jornada de trabajo, cuanto menor sea la porción del producto consumido por la clase productiva (trabajadores), más grande será la parte de su jornada que es dedicada al trabajo excedente; de manera similar, dado el nivel de consumo del campesino o trabajador medio, mientras más duradero, más intenso o más productivo sea su trabajo, más pequeña la porción de su jornada que tiene que dedicar a sus propias necesidades de consumo y, por tanto, mayor la porción correspondiente al trabajo excedente.

Debido a que la magnitud del producto excedente puede ser elevada en las formas descritas, la clase dominante siempre está interesada en empujar  la tasa de explotación hacia sus límites históricos y sociales. En el mismo sentido, el interés de las clases subordinadas es no solamente el de resistir tales esfuerzos, sino también pelear contra las condiciones sociales que hacen esta lucha necesaria. El carácter de explotación de las sociedades de clases las convierte en un modo de existencia humana fundamentalmente antagónico, signado por una candente hostilidad entre dirigentes y dirigidos y caracterizado por períodos de motines, rebeliones y revoluciones. Es por eso que las sociedades de clases deben derpnder fundamentalmente de la ideología, para motivar y racionalizarla división social sobre la cual están asentadas, y en la fuerza, para proveer la disciplina necesaria cuando todo lo demás falla.

 

Capitalismo y explotación

 

El capitalismo comparte los atributos generales mencionados. Es una sociedad de clases en donde la dominación de la clase capitalista se basa en su propiedad y control del vasto volumen de medios de producción de la sociedad. La clase trabajadora, por su parte, está constituida por aquellos que han sido "liberados" de esa misma carga de propiedad de los medios de producción y deben, por lo tanto, ganar su subsistencia trabajando para la clase capitalista. Como Marx en forma tan elegante lo demostró, la condición general social para la reproducción de estas relaciones, es que la clase trabajadora en su conjunto sea inducida a producir trabajo excedente, ya que éste sienta las bases de la ganancia y esta ganancia, a su vez, mantiene a la clase capitalista dispuesta y capaz de volver a emplear trabajadores. Como la historia del capitalismo lo muestra claramente, la lucha entre las clases en torno a las condiciones, los términos y, aun ocasionalmente, el futuro de estas relaciones, pasan a través de este proceso global.

La especificidad histórica del capitalismo radica en el hecho de que sus relaciones de explotación están casi completamente ocultas detrás de la superficie de sus relaciones de intercambio. A simple vista, la transacción entre él trabajador y el capitalista es perfectamente equitativa. Aquél ofrece fuerza de trabajo para la venta, éste ofrece un salario y el trueque es realizado cuando ambos lados acuerdan los términos. Pero, una vez terminada esta fase, abandonamos la esfera de la libertad e igualdad aparentes y entramos al "recinto oculto de lá producción" en cuyo interior acecha el familiar dominio del trabajo excedente”3. Aquí encontramos un mundo de jerarquías y desigualdad, de órdenes y obediencia, de jefes y subordinados, en el cual la clase trabajadora está destinada a laborar para producir una cierta cantidad de productos para sus empleadores. Del producto total una porción, la que corresponde a los materiales y costos de depreciación del producto total, es comprada por los mismos capitalistas para remplazar los medios de producción utilizados. Una segunda porción es comprada por los trabajadores con los salarios previamente pagados por sus empleadores. Pero si estas dos porciones llegan a agotar el producto total, los capitalistas habrán logrado producir tan sólo lo necesario para cubrir sus propios costos de producción (materiales, depreciación y salarios): no habría ganancia agregada. Para el éxito de la producción capitalista, es decir, para que ésta cree su propia ganancia, los trabajadores deben ser inducidos a trabajar más allá del tiempo requerido para producir sus propios medios de consumo,. Deben, en otras palabras, trabajar tiempo de trabajo excedente para producir el producto excedente sobre el que se fundamenta la ganancia.

Las anteriores proposiciones pueden ser derivadas analíticamente. Más importante aún, se evidencian en la práctica cuando quiera que el tiempo de trabajo se pierde por huelgas o disminuciones de ritmo en el trabajo. Como se erosiona el tiempo de trabajo excedente, la normalmente oculta conexión entre trabajo excedente y ganancia se manifiesta en una correspondiente caída de la rentabilidad. Todo capitalista en funciones debe aprender esta lección tarde o temprano.

La economía ortodoxa, enclaustrada en su mágico reino de funciones de producción, competencia perfecta y equilibrio general, por lo común se las arregla para evitar tales temas. En realidad, está ocupada principalmente en la construcción y refinamiento de una imagen idealizada del capitalismo cuyas propiedades investiga con una concentración tan feroz que le es posible ignorar por completo la realidad que la rodea. En esta construcción, la producción es un proceso desarticulado llevado a cabo por una entidad intangible llamada empresa, que contrata "factores de producción” llamados capital y trabajo con el propósito de elaborar un producto. Cada factor es pagado de acuerdo con su contribución incremental a1 producto total (es decir, de acuerdo con el valor de su producto marginal). Si todo va bien, la suma de estos pagos se realiza hasta agotar exactamente los ingresos netos efectivamente recibidos por la firma, y el terreno queda listo para iniciar otra ronda.

Nótese que este concepto coloca una cosa (capital) y una capacidad humana (fuerza de trabajo) en pie de igualdad, ambos son llamados "factores de producción". Esto habilita a la teoría para negar cualquier diferencia de clase entre capitalistas y trabajadores al tratarlos como esencialmente iguales: todos son propietarios de, por lo menos, un factor de producción. El hecho de que la "dotación de factores" pueda variar considerablemente entre individuos es, pues, tan sólo un detalle secundario cuya explicación, se dice, reside fuera de la teoría económica. Luego, a1 tratar la producción como un proceso desarticulado el proceso de trabajo humano es reducido a una simple relación técnica, a una función de producción que "proyecta" cosas llamadas "insumos" (incluida la fuerza de trabajo) a una cosa llamada "producto". De esta manera desaparece de vista toda lucha durante el proceso de trabajo. Finalmente, puesto que el capital y el trabajo son simples cosas, no se puede decir que este último sea explotado. Sin embargo, en la medida en que el pago de algunos factores cae un poco por debajo de la igualdad con su producto marginal particular, puede decirse que e1 propietario de este factor es explotado. En este sentido, la explotación se define como una discrepancia entre un "pago a factor" real y un pago ideal (una construcción muy similar subyace a las nociones de intercambio desigual, como las de Enmanuel). Lo que es más importante, el concepto de explotación, tal como se definió anteriormente, puede aplicarse en principio tanto a las ganancias como a los salarios. El capitalismo surge así como un sistema en donde los capitalistas están tan expuestos a ser explotados por los trabajadores como lo contrario. Con este último paso, la noción de explotación se reduce a una absoluta trivialidad.

 

 

Clase, género y raza

 

Nos hemos centrado en la noción de explotación como la extracción de trabajo excedente, debido a que esta relación es el fundamento sobre el cual está construida la sociedad de clases, en el sentido de que el resto de relaciones legales, políticas y personales son estructuradas y delimitadas por este elemento central. Esto no quiere decir que las otras relaciones carezcan de una historia y lógica propias. Solamente significa que en cualquier modo de producción dado, dichas relaciones están, atadas al sistema por el campo de fuerza de esta relación central y configuradas en sus características por su siempre presente atracción gravitacional.

La noción de que la sociedad de clases está marcada por la opresión a lo largo de las líneas de clases obviamente no excluye otras formas de subyugación igualmente importantes. Es evidente, por ejemplo, que la opresión de la mujer por el hombre es común a todas las sociedades conocidas y a todas las clases dentro de ellas. Así, cualquier explicación apropiada de la opresión de trabajadores por capitalistas también debe contemplar la opresión de la clase de las mujeres trabajadoras por los hombres de todas las clases, así como la opresión de las mujeres de la clase dominante por los hombres de su propia clase.

Pero aun así no es bastante. No es suficiente decir que clase y patriarcado son formas de opresión coexistentes. Necesitamos, también, saber cómo se relacionan estas formas entre sí. Y es aquí donde generalmente los marxistas le dan preeminencia a la relación de clase, no porque la opresión de clase sea más gravosa, sino en el sentido de que la naturaleza de la relación de clase modula y define la forma de patriarcado correspondiente. Es decir, los marxistas argumentan que el patriarcado capitalista es distinto al patriarcado feudal precisamente porque las relaciones capitalistas de producción son de características diferentes a las feudales.

Sobra decir que hay todavía considerable controversia acerca de cuál es exactamente la relación existente entre el patriarcado y las clases, entre la raza y cualquiera de aquellos. Estas son cuestiones de gran significación teórica y, lo que es más importante, una lucha unitaria contra estas varias formas de opresión tiene verdadero potencial revolucionario.

 

 

EL CAPITAL COMO UNA RELACION SOCIAL

Tomada en sí misma, una piedra tallada es simplemente una reliquia dé algún antiguo e inexorable proceso geológico. Pero acondicionada como un instrumento cortante es una herramienta, o en un sentido un poco criminal,  un arma. Como piedra es un objeto natural, pero como herramienta o arma es un objeto eminentemente social cuya morfología natural es portadora de las relaciones sociales que, por así decirlo, han tomado forma en ella.

Aun cualquier objeto social particular, como una herramienta, puede entrar en muy diferentes conjuntos de relaciones sociales. Por ejemplo, dondequiera que un telar sea utilizado para tejer tela es parte de los medios de producción de un proceso de trabajo orientado á hacer tela. Sin embargo, como cualquier actividad laboral, es en sí misma parte de la división social del trabajo; su verdadero sentido solamente puede ser comprendido si se analiza como parte de una totalidad mayor. El proceso de hacer tela puede ser parte del trabajo colectivo de una familia' o comunidad en la que la tela se destina a1 consumo directo; pero, también, la misma gente puede usar el mismo tipo de telar, en una fábrica capitalista en la que el propósito del proceso del trabajo es producir una ganancia para los propietarios. En el caso de la tela producida para uso directo, son las propiedades de calidad y durabilidad las que interesan directamente a los productores. Pero en el caso de tela producida en una fábrica capitalista, su propiedad sobresaliente es la ganancia que pueda generar. Todas las demás propiedades son reducidas a simples vehículos para la ganancia y, como sabemos demasiado bien, el empaque del producto puede fácilmente desplazar su utilidad real. Por lo tanto, dos procesos de trabajo qué son idénticos técnicamente pueden, no obstante, tener dinámicas sustancialmente diferentes, precisamente porque existen dentro d- estructuras sociales distintas.

El resultado anterior también es válido para las herramientas del proceso de trabajo. Por ejemplo, tanto en la producción comunitaria como en la capitalista, el telar sirve como medio de producción en un proceso de trabajo. Pero sólo en el segundo caso también funciona como capital. Lo cual quiere decir que para sus propietarios capitalistas el significado del telar reside no en su carácter de medio de producción, sino en su papel como vehículo hacia la ganancia; mientras que, para los trabajadores que lo manipulan, el telar funciona no como su instrumento, sino como una herramienta capitalista adecuada. En realidad, si se mira más de cerca la fábrica capitalista, se ve que no sólo el telar sino también el dinero, la hilaza y aun la capacidad de trabajo, sirven en diferentes instancias como encarnaciones particulares del capital de los propietarios. Esto se debe a que el capital no es una cosa, sino un conjunto definido de relaciones sociales que pertenecen á un determinado período histórico en el desarrollo de la humanidad y que confieren a las cosas inmersas en ellas su contenido es específico como objetos sociales. Para entender el capital se debe, por lo tanto, descif.rar su carácter como relación social.

 

 

Capital y clases

 

La sociedad humana está estructurada por complejas redes de relaciones sociales en las cuales las personas existen y se reproducen. La reproducción de cualquier sociedad requiere no sólo de la reproducción de su gente, sino también de las cosas necesarias para existir como tales y de las relaciones sociales que envuelven tanto a las personas como a las cosas.

Las cosas que las personas necesitan para su existencia diaria forman la base material de la sociedad. Si bien el carácter específico de estas cosas, y aun las necesidades que ellas satisfacen, pueden variar de acuerdo con el tiempo y las circunstancias, ninguna sociedad puede existir durante mucho tiempo sin ellas. Es más, en todas, excepto en la más primitiva de las sociedades, el grueso de los objetos socialmente necesarios debe ser producido por medio del trabajo humano. La producción y la asignación social de trabajo sobre la cual descansa emergen, pues, como aspectos absolutamente fundamentales de la reproducción social. Pero el trabajo social implica actuar sobre la naturaleza mientras se interactúa con otras personas en y mediante relaciones sociales específicas. El proceso de trabajo termina siendo esencial no sólo para la producción de nueva riqueza sino también para la producción de las relaciones sociales que circunscriben esta. producción, si como también para cualesquiera otras relaciones sociales directamente contingentes con ellas.

El último aspecto adquiere significado particular en el caso de las sociedades de clases. En efecto, una sociedad de clases está estructurada de tal manera que le permite a un grupo de personas vivir del trabajo de las otras. Para que esto sea posible, las clases subordinadas deben no solamente ser capaces de producir más que lo que ellas mismas apropian sino también, de alguna manera, deben ser inducidas a hacerlo con regularidad. En otras palabras, deben ser forzadas a trabajar por más tiempo del que requieren para satisfacer sus propias necesidades, de modo que su trabajo excedente y el correspondiente producto excedente puedan ser usados para el sostenimiento de sus dominadores. La existencia de las clases dominantes está fundamentada, entonces, sobre la explotación del trabajo y sobre la reproducción de las condiciones sociales y materiales de esta explotación. Además, puesto que cualquier proceso como este es fundamentalmente antagónico, todas las sociedades de clases están marcadas por una hirviente hostilidad entre dominantes y dominados, puntualizada por períodos de motines, rebeliones y revoluciones. Es por esto que las sociedades de clases siempre se basan en la ideología para motivar y racionalizar la división social esencial sobre la que están fundadas, y en la fuerza para proveer la disciplina necesaria cuando todo lo demás falla.

El capitalismo no difiere a este respecto. Es una sociedad de clases, en la que la clase capitalista existe en virtud de su propiedad y control de la gran cantidad de medios de producción de la sociedad. La clase trabajadora está, a su vez, conformada por todos aquellos que han sido "liberados" de la carga de propiedad de medios de producción y deben, por lo tanto, ganar su sustento gracias a la venta de su capacidad de trabajo (fuerza de trabajo) a la clase capitalista. Como Marx lo demostró tan elegantemente, la condición social general para la venta regular de la fuerza de trabajo es que la clase trabajadora en su conjunto sea inducida a ejecutar trabajo excedente, por cuanto este trabajo excedente forma la base de la ganancia capitalista y ésta, a su vez, mantiene a la clase capitalista dispuesta y capaz de reenganchar trabajadores. Y, como la misma historia del capitalismo lo deja en claro frecuentemente, la lucha entre las clases acerca de las condiciones, términos y futuro de sus relaciones ha sido siempre parte integral de su desarrollo.

 

El capital como relación social individual vs. el capital como la relación social dominante

 

En la sección precedente hablamos de la sociedad capitalista ya constituida. Pero ninguna forma social brota de manera completamente acabada. En lugar de ello, sus elementos constitutivos deben existir ya en otras sociedades, de manera dispersa, o bien deben surgir y ser nutridos dentro de la estructura de su predecesor directo. Esta distinción entre los elementos y el todo es importante por cuanto nos permite diferenciar entre el capital como relación social individual y el capitalismo como formación social en donde el capital es la relación social dominante.

El capital como relación social individual se ocupa ante todo de la producción de ganancia. En su forma más general, esto significa avanzar una suma de dinero D con el fin de recuperar una suma mayor de dinero D'. El circuito de capital general siempre está, por lo tanto, acompañado de los dos polos D y D' y su magnitud es siempre la medida global de su éxito. Obsérvese que el dinero funciona en este caso como un medio para hacer dinero (es decir, como capital-dinero) más que como simple medio para comprar mercancías para el consumo (esto es, como ingreso monetario). Marx define muchas implicaciones significativas y poderosas a partir de esta diferencia funcional entre capital-dinero e ingreso monetario.

 Aun dentro del circuito de capital hay tres posibles rutas diferentes entre sus dos polos. Primera, el capital dinero D puede ser avanzado como un préstamo a cambio de un repago subsecuente D' que cubre tanto el anticipo original como una suma adicional. Este es el circuito D - D' de capital financiero, en el cual una suma inicial de dinero aparece creando directamente una suma más grande por medio del aparentemente mágico mecanismo del interés. Segunda, el capital dinero D puede ser utilizado para comprar mercancías M y estas mismas mercancías pueden luego ser revendidas por más dinero D' . Este es el circuito D - M - M - D' de capital comercial, en el cual la doble presencia de M como término intermedio significa que es el mismo conjunto de mercancías que antes existía como el objeto de compra del capitalista y más tarde como su objeto de (re)venta. En esta oportunidad parece que es el tino del capitalista para "comprar barato y vender caro" el que genera la ganancia del circuito. Finalmente, el capital dinero D puede ser gastado en la compra de mercancías M que comprendan medios de producción (materiales, planta y equipo) y fuerza de trabajo; estos últimos elementos son puestos en movimiento como un proceso de producción P y el producto resultante M' es vendido por capital dinero (ampliado) D'. Este es el circuito de capital industrial D - M... P ... M' - D', en el cual el término intermedio característico es el del proceso de producción P. En estas circunstancias la habilidad del capitalista para mantener la productividad del trabajo por encima del salario real aparece como fuente de toda ganancia.

Las más antiguas encarnaciones de capital, aún prevalecientes, son las del capital del usurero D - D' y el capital mercantil D - M - M - D'. Ambas son virtualmente tan viejas como el dinero mismo y han existido por milenios en diferentes civilizaciones. Sin embargo, casi siempre aparecen como relaciones parásitas aun en el seno de una sociedad particular, o entre dos c más culturas. Aunque frecuentemente menospreciadas y ocasionalmente te midas, estas actividades individuales eran, no obstante, generalmente tole radas, en la medida en que se ajustaban a la estructura de la formación socia) dentro de la que existían. Fue tan sólo en la Europa feudal, particularmente en Inglaterra, donde estas formas de capital antediluvianas se fusionaron con el capital industrial para constituir la enteramente nueva formación social que denominamos el modo de producción capitalista. Sólo entonces, sobre la base del trabajo excedente extraído directamente por y para él, encontramos al capital como la relación social dominante, y a sus formas individuales como simples momentos particulares del mismo proceso global".

 

 

 

Las leyes generales del capital

 

 

El predominio social del capital da origen a ciertos patrones característicos del modo de producción capitalista.

El primero de estos patrones, la relación de clase entre capital y trabajo, es fundamentalmente antagónica, signada por una lucha intrínseca alrededor de las condiciones y términos de la extracción de trabajo excedente. Aunque siempre esté presente, este antagonismo puede brotar a veces con tal fuerza y ferocidad que llega a sacudir las bases del sistema mismo.

Con el segundo patrón, el capitalismo es una forma de organización social que enfrenta a cada elemento contra algún otro en un clima generalizado de conflicto. Capitalista contra trabajador en el proceso de trabajo, trabajador contra trabajador en la competencia por puestos de trabajo, capitalista contra capitalista en la batalla por la posición del mercado y las ventas, y nación contra nación en el mercado mundial. A1 igual que en la lucha de clases, estos conflictos emergen periódicamente en combate agudo y abierto entre los participantes, en, las batallas de huelguistas contra esquiroles, de capitalistas contra sus rivales o, aun, en la guerra mundial de un conjunto de naciones capitalistas contra otras. Precisamente este conflicto real es encubierto por la noción burguesa de "competencia perfecta".

En tercer lugar, e1 hecho de que las relaciones entre las personas estén mediatizadas por relaciones entre cosas, proviene de la misma naturaleza de la producción capitalista, en la que se emprenden trabajos individuales únicamente con el ánimo de obtener una ganancia de sus productos. Los diferentes trabajos individuales son articulados en una división social del trabajo solamente bajo la "cubierta objetivada" de sus productos. Los productos aparecen, entonces, en primer lugar y los siguen los productores. De aquí se deriva el famoso fetichismo de las relaciones mercantiles, que parece ser una propiedad natural de todos los objetos más que una forma histórica especifica de evaluar el contenido social de los trabajos que los producen (véase la sección "Trabajo concreto y trabajo abstracto" del Capítulo 2).

El cuarto punto se deriva directamente del tercero. Como se indicó arriba, bajo las relaciones de producción capitalistas los procesos individuales de trabajo se llevan a cabo con la esperanza de obtener una ganancia privada sin ninguna consideración previa de la división social del trabajo. Pero cualquier articulación de tales trabajos puede sobrevivir solamente si, por casualidad, reproducen colectivamente las bases materiales Y sociales de su existencia: la sociedad capitalista, como toda sociedad, requiere un modelo particular de trabajo con el fin de reproducir su estructura general. Por lo tanto, bajo la producción capitalista los distintos trabajos individuales terminan siendo forzosamente articulados en una división social del trabajo en continuo movimiento, por medio de un proceso de ensayo y error, de ampliación y contracción, de discrepancia, discontinuidad y aun rupturas ocasionales en el proceso de reproducción. Este patrón de aparente anarquía, regulado por leyes de movimiento internas, es la forma peculiar de la reproducción capitalista. Nótese cuán diferente es este concepto del de equilibrio general, donde el proceso en conjunto se reduce a una éstasis inmediata y perfecta.

El quinto punto proviene del hecho de que la producción capitalista es guiada por la ganancia. Cada capitalista es impulsado a buscar y agrandar la brecha entre el avance inicial D y el retorno final D'; los que sean más exitosos prosperan y crecen, quienes queden rezagados pronto enfrentarán el espectro de la extinción. Dentro del proceso de trabajo, esto se evidencia en la tendencia a prolongar la duración e intensidad de la jornada de trabajo hasta sus límites sociales, mientras, al mismo tiempo y constantemente se persigue reformar el proceso de trabajo según patrones que sean aún más "racionales" desde el punto de vista del capital. Esta compulsión es responsable directa del papel históricamente revolucionario del capitalismo a elevar la productividad del trabajo a nuevos niveles. La racionalidad capitalista se expresa de manera más perfecta en la rutinización de la producción, en la reducción de actividades humanas a operaciones repetitivas y automáticas, y en el posible reemplazo de las líneas de trabajo-humano-máquina por máquinas reales. Como Marx señala, la llamada Revolución Industrial es tan sólo la señal, no la causa, del advenimiento de las relaciones de producción capitalistas. Y si bien, antes la herramienta era un instrumento de trabajo, ahora es el trabajador un instrumento de la máquina.

 

Concepción del capital en la economía ortodoxa

 

En la economía ortodoxa el término "capital" generalmente se refiere a los medios de producción; en ella se afirma que el capital, conjuntamente con el trabajo, existe en toda sociedad. Desde este punto de vista, las formas sociales deben distinguirse por la manera como los factores de producción, el capital y el trabajo, sean puestos conjuntamente a trabajar de acuerdo con sus respectivas disposiciones. El capitalismo es definido como un sistema que utiliza el mercado para acometer esta tarea en el contexto de la propiedad privada de los medios de producción.

A1 tratar la actividad laboral humana como un factor de producción a la par con materias primas y herramientas, por ende como una cosa, la economía ortodoxa logra reducir el proceso de trabajo a una relación técnica entre los llamados insumos y productos (es decir, una función de producción). De ese modo se pierden de vista todas las luchas sobre los términos y condiciones del trabajo.

Además, una vez el trabajo es definido como un factor de producción, cada individuo (en uso de sus capacidades) es propietario por lo menos de un factor. Desde luego, algunos pueden ser lo suficientemente afortunados para poseer también grandes cantidades de capital. Pero este es un simple detalle de la distribución de "dotaciones iniciales", aspecto sobre el cual la economía ortodoxa se mantiene cautelosamente neutral. En cambio sí importa que, bajo el capitalismo, la idea según la cual cada uno es propietario de un factor de producción sea indicio de una cualidad inherente a los individuos. Cualquier referencia al concepto de clase es por lo tanto bloqueada desde un comienzo.

Se desprende de esto que, debido a que el trabajo es tan sólo uno de los factores de la producción que los individuos son libres de utilizar en la forma como escojan, no se puede decir que este trabajo -siendo una cosa- sea explotado. La explotación del trabajo queda fuera de escena, para ser remplazada por la noción de cooperación entre capital y trabajo, cada uno de los cuales contribuye con su componente al producto, y recibe, a su vez, su retribución proporcional (como consta en las teorías de la distribución basada en la productividad marginal). Con esto queda completa la santificación del capitalismo.

 

 

Límites históricos del capital como relación social

 

El último aspecto general tiene que ver con la especificidad histórica de la producción capitalista. Por un lado, el capitalismo es una estructura social poderosa y altamente flexible que ha desarrollado sus fuerzas productivas hasta alturas extraordinarias y ha probado que por sí mismo es capaz de disolver o destruir todas las formas sociales anteriores. Su naturaleza inherentemente expansiva lo ha llevado a la creación de grandes cantidades de riqueza y a un dominio que se extiende por todo el Globo. Pero por otro lado, este mismo aspecto progresivo alienta un lado oscuro y enormemente destructivo cuya naturaleza se aclara de manera particular cuándo es vista a escala mundial. La relación capital-trabajo es profundamente desigual y la concentración y centralización del capital que acompaña el desarrollo capitalista tan sólo profundiza la desigualdad. La lucha competitiva de todos contra todos crea un carácter social alienado y egoísta, que aprisiona a cada quien en una atmósfera de sospecha y tensión, y amontona sus miserias precisamente sobre quienes están en las posiciones más débiles. Finalmente, a medida que el capitalismo se desarrolla, también lo hace su nivel de mecanización, de tal manera que es progresivamente menos capaz de absorber trabajo. En los países capitalistas desarrollados esto se manifiesta en una masa creciente de gente desempleada a cualquier tasa "natural" de desempleo dada. En el Tercer Mundo, a medida que la penetración de relaciones capitalistas asuela las formas sociales anteriores, los procesos mecanizados que las remplazan tan sólo son capaces de capturar una fracción del gran número "dejado libre" previamente. La creciente productividad de la producción capitalista es acompañada de un foso creciente de trabajo superfluo alrededor del Globo. La presencia de hambrientas masas en el Tercer Mundo, así como de poblaciones flotantes de desempleados en el mundo capitalista desarrollado, son amargas advertencias de estas tendencias inherentes.

 

La anterior perspectiva recuerda forzosamente que el capitalismo es tan sólo una forma histórica particular de organización social, sujeta a profundas contradicciones que son inherentes a la estructura de su existencia. Precisamente, debido a que estas contradicciones están incorporadas, cualquier lucha exitosa contra sus efectos destructivos debe ir más allá de las reformas, al rechazo de su misma estructura. En el siglo XX tales esfuerzos han tomado una gran variedad de formas, que van desde el llamado socialismo parlamentario hasta la revolución socialista. Sea lo que sea lo que podamos pensar de las fortalezas y debilidades de estos novedosos movimientos sociales, la tendencia general es parte de un proceso humano de vieja data. La historia nos enseña que ninguna forma social dura por siempre. Y el capital, en tanto relación social, no es la excepción de esta regla.

 

 

GANANCIA Y PLUSVALÍA

 

La rentabilidad regula la salud de la sociedad capitalista. A este respecto, Marx identifica dos fuentes distintas de ganancia. Ganancia por_transferencia (o incluso apropiación violenta) de riqueza, que domina el período mercantilista. Y ganancia por la producción de plusvalía, que viene a tener prominencia en la época del capital-industrial. Puesto que las actividades comerciales pueden estar ligadas a cualquier fuente de ganancia es útil comenzar con las ganancias comerciales.

La ganancia comercial individual se presenta dondequiera que una mercancía sea revendida en busca de ganancia. Para el comerciante que adquiere una mercancía por £100 y la revende por £200, lo que determina su ganancia (que cubre costos comerciales y beneficios) es su habilidad empresarial para "comprar barato y vender caro". Pero desde la perspectiva del sistema en su conjunto, la cadena de transacciones desde la venta inicial hasta la final, simplemente sirve para dividir el precio de venta total entre los diferentes negociantes, incluido el comerciante. Esto es cierto aun, si las transacciones son justas o injustas, libres o forzadas.

La ganancia del comerciante es su "balance del excedente comercial". Pero es esencial distinguir entre una situación en la que el "balance de comercio "global" es cero debido a que el excedente del comerciante es compensado por un déficit correspondiente en cualquier parte de la cadena; y otra, en la que el balance total es positivo a causa de que la ganancia del comerciante es solamente su participación particular en algún excedente global cuyo origen descansa, por lo tanto, fuera de las actividades de comercio mismas. El primer caso corresponde a la ganancia por la transferencia de riqueza, y el último a la ganancia por la producción de plusvalía. A continuación consideraremos cada una por separado.

 

 

Ganancia por transferencia de riqueza

La existencia de un amplio sistema de ganancia debido a la transferencia de riqueza es misteriosa ya que el excedente del comerciante no parece ser compensado por algún déficit correspondiente. Supongamos que comerciantes capitalistas intercambian bienes que adquieren por £100 a los comerciantes de una comunidad no capitalista o tribu y luego los revenden por £200. Este trueque deja la riqueza conjunta de los participantes intacta. Sin embargo, da origen a una ganancia del lado capitalista sin ninguna pérdida correspondiente del lado no capitalista, así que aparece una ganancia neta para el sistema como un todo. ¿Cómo es posible esto?

La participación de la tribu en el comercio puede ser motivada por miedo, por consideraciones rituales o por la esperanza de conseguir objetos que sean socialmente más deseables. En todos los casos subyace una valuación social del comercio. Pero, para los comerciantes, lo importante es que los objetos tribales adquiridos puedan ser revendidos para lograr una ganancia monetaria. En terminología de Marx, la tribu opera dentro del circuito simple de mercancías M - M', en el que un conjunto de valores de  uso M es intercambiado por otro conjunto útil M' , mientras que los comerciantes operan dentro del circuito del capital D - M - M'- D' donde una suma de dinero D = £100 es finalmente transformada en una suma más grande D' = £200, por medio del intercambio de un conjunto de valores de uso M por otro más valioso M'.

Estos circuitos forman los dos polos de la transacción. Sin embargo, dado que sólo uno de los polos es estimado en términos monetarios, cualquier ganancia monetaria que sé registre no tiene contraparte en el  otro polo. Una ganancia monetaria neta puede aparecer solamente para el sistema como un todo. Nótese que ésta no sería la situación si los dos polos fueran tratados en los mismos términos. Si los bienes de la tribu fueran valorados a su precio final de venta de £200, sería obvio que la tribu habría intercambiado un conjunto de mercancías con valor de £200 por otro con valor de £100 tan sólo, perdiendo, por lo tanto, exactamente lo mismo que ganan los comerciantes en términos monetarios. A1 final, la desigualdad del intercambio está a la base de la ganancia por transferencia de riqueza (ganancia de enajenación).

Es interesante observar de qué manera la economía neoclásica tiende a tratar la ganancia como simple ganancia de enajenación, razón por la que el análisis del "intercambio puro" ocupa una posición tan prominente en la teoría. Por ejemplo, una representación clásica describe un campo de prisioneros de guerra en el que todos los prisioneros reciben (de la Cruz Roja) paquetes iguales de mercancías. Un empresario que se encuentra entre los prisioneros sirve de intermediario para realizar una distribución más conveniente de la masa total de mercancías, una parte de las cuales guarda para sí como su propia recompensa. Puesto que todos los otros prisioneros ganan en términos de sus respectivas utilidades subjetivas (por lo tanto no comparables), la porción de la dotación colectiva que se gana el empresario no es tratada como pérdida para ellos. Por otra parte, el empresario contabiliza precisamente esta riqueza transferida como su ganancia. Con un polo de la transacción puesto en la utilidad subjetiva y el otro en el beneficio material, la ganancia parece haber sido creada del aire. En vez dé intentar disolver esta falsa apariencia, la economía neoclásica se concentra en presentar la ganancia como la justa recompensa de la clase capitalista.

 

Ganancia por producción de plusvalía

 

Con el ascenso del capital industrial, se hizo cada vez más claro que la ganancia industrial era muy diferente de la ganancia por enajenación. Esta dependía del comercio y del intercambio desigual, mientras que aquélla estaba atada a la producción, el trabajo asalariado y el intercambio aparentemente igual. Precisamente con el fin de localizar la diferencia entre las dos formas de ganancia, Marx insiste en la explicación de la ganancia industrial aun en la situación en que todos los intercambios sean esencialmente iguales.

Marx comienza señalando que toda sociedad debe, de alguna manera, dedicar el tiempo de trabajo a su disposición a la producción de los bienes y servicios necesarios para mantenerse y reproducirse. En las sociedades de clase, la reproducción de la clase dirigente requiere que ésta sea capaz de extraer un producto excedente de las clases subordinadas. Esto significa que toda clase dominante debe hacer, por cualquier medio, que las clases subordinadas trabajen más allá del tiempo necesario para producir sus propios medios de consumo, por cuanto con este tiempo de trabajo excedente se crea el plusproducto requerido (véase la sección sobre explotación en este Capítulo).

El mismo proceso básico opera en la sociedad capitalista, pero está oculto bajo la superficie de relaciones de intercambio y magnitudes monetarias. Para demostrar tal cosa, Marx comienza suponiendo que el precio monetario de cada mercancía es proporcional al tiempo de trabajo abstracto total socialmente necesario para su producción (su valor trabajo). En el caso del trabajo asalariado, esto significa que los salarios monetarios son proporcionales al número de las horas (v) que los trabajadores deben laborar en un día dado para producir sus medios de consumo colectivo diarios. Bajo tales circunstancias todas las mercancías, incluso la fuerza de trabajo (la capacidad de trabajo), se intercambian en proporción al tiempo de trabajo socialmente necesario para su reproducción. Todos los intercambios son, por lo tanto, iguales en un sentido social fundamental, de tal forma que (por el momento) la ganancia de enajenación queda por fuera de consideración.

Durante el proceso de producción, una cantidad particular de medios de producción (materias primas y máquinas) es utilizada cada día. El tiempo de trabajo abstracto (c) que previamente se necesitó para reproducirlos es, en consecuencia, transferido al producto. Si agregamos a esto el tiempo de trabajo laborado por los trabajadores en un día dado (l), la suma resultante (c+l) representa el tiempo de trabajo abstracto total socialmente necesario para producir el producto diario.

Si el intercambio es proporcional a los tiempos de trabajo, el precio del producto social total es proporcional a c+1. Pero el costo monetario correspondiente a la producción de este producto es proporcional a c+v, puesto que c representa el costo de trabajo abstracto de los medios de producción utilizados y v representa los costos correspondientes a los trabajadores empleados. De aquí se deriva que las ganancias agregadas existirán sólo si c+l > c+v, lo que implica 1 > v. En otras palabras, cuando los precios son proporcionales a los valores trabajo (intercambio igual), la ganancia es la expresión monetaria directa del tiempo de trabajo excedente p = l – v > 0. Este tiempo de trabajo excedente, ejecutado por los trabajadores que producen mercancías para los capitalistas (esto es, que producen capital-mercancía), es lo que Marx llama plusvalía.

Incluso cuando el intercambio ya no se considere proporcional al valor-trabajo, la conexión entre ganancia y plusvalía se mantiene, pero de una manera más compleja. En efecto, cuando los precios se desvían de su proporcionalidad con los valores trabajo, pueden darse transferencias de valor desde un grupo de negociantes hacia otro. En estas circunstancias las ganancias totales pueden apartarse de su proporcionalidad con la plusvalía total -aun cuando, en términos agregados, las ganancias y pérdidas debidas a transferencias de valor se cancelen exactamente. Esta aparente paradoja, que ha perturbado por largo tiempo la extensa literatura del llamado problema de la transformación, es resuelta fácilmente una vez se reconoce que la ganancia es una medida que sólo recoge una parte de las transferencias totales de valor involucrado. Por definición, la ganancia agregada es simplemente la diferencia entre el precio del producto total y el precio de aquella porción de este producto que corresponde al flujo de mercancías utilizadas como "insumos" en la producción, sea en forma directa como medios de producción o indirecta como bienes-salario. A medida que el valor es transferido entre el producto total y los insumos particulares, la ganancia que los productores capitalistas en su conjunto puedan obtener, gracias a precios de venta más altos, es, al mismo tiempo, lo que perderían con mayores costos de los insumos.

Las ganancias totales se mantienen inmodificadas debido a que la retroalimentación que se establece entre el precio de los productos y los precios de los insumos particulares evita cualquier transferencia total de la plusvalía. Pero no puede decirse lo mismo de aquellas transferencias que comprenden las porciones restantes de producto agregado, que entran respectivamente en el acervo de capital de la firma (como inventarios, planta y equipo) o en la posesión de los capitalistas mismos como bienes de consumo. En el primer caso, cualquier transferencia se refleja en los balances contables de las firmas y, a lo sumo, se trasmite sólo parcialmente a los costos; en el segundo caso, cualquier aumento en las ganancias debido a un precio de venta más alto de los bienes de consumo capitalista se refleja en una pérdida correspondiente en la contabilidad personal de los mismos capitalistas, más que en incrementos en los costos de sus negocios. Ya que la medición de la ganancia sólo abarca un subconjunto de la transferencias de valor, la ganancia total puede terminar desviándose en alguna proporción de la plusvalía -dentro de límites estrictos. Este es simplemente el mismo principio que subyace a la ganancia mercantilista, lo que era bien conocido por el mismo Marx.

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Consideraciones adicionales

 

Primero que todo, es importante anotar que la ganancia monetaria (con o sin la nivelación de la tasa de ganancia) sólo se puede considerar como la única expresión de la plusvalía a un nivel de análisis abstracto. A un nivel más concreto, la plusvalía aparece como ganancia de los productores, márgenes brutos de comercio, rentas, intereses, impuestos y dividendos. De manera similar se puede desarrollar el análisis para explicar las ganancias en las industrias, las firmas en el interior de las industrias, en las regiones y en las naciones. Dentro de este movimiento de lo abstracto a lo concreto se encuentra comprendida una sutil y poderosa teoría de la competencia v los precios sobre cuyas bases se puede adelantar este análisis.

En segundo lugar, nuestra anterior discusión sobre la ganancia por enajenación debería llamar la atención sobre el hecho de que la plusvalía no es la única fuente de ganancias. La comprensión de este aspecto es uno dé los puntos más fuertes del análisis de Marx sobre los determinantes de las ganancias. Es también una cuestión histórica y empírica importante por sí misma. Aun considerando el mundo capitalista moderno, donde la plusvalía es claramente la base principal de la ganancia, se debe ser cuidadoso al explicar las transferencias de riqueza y valor desde esferas no capitalistas (pequeña producción y producción de bienes que no son mercancías) hacia esferas capitalistas -particularmente cuando se efectúan análisis del llamado "Tercer Mundo".

En tercer lugar, se debe anotar que el mismo concepto de transferencia de riqueza y valor está fundamentado sobre la distinción entre actividades que producen los bienes y servicios (valores de uso) que conforman la riqueza anual, y actividades que sirven para transferir esta riqueza de unas manos a otras. Esta distinción es, a su vez, tan sólo parte de otra más general existente entre las actividades de producción y de no-producción. Entre estas últimas encontramos no sólo la categoría familiar de actividades de consumo personal, sino también la noción clásica de actividades de consumo social, tales como aquéllas contempladas en el intercambio de bienes, servicios y dinero: las actividades de administración general en los sectores público y privado; y otras actividades como la defensa nacional, etc. La producción .utiliza valores de uso con el fin de producir más valores de uso. Los consumos personal y social utilizan valores de uso para alcanzar cualquier otro. fin deseado. En tal sentido, la distinción entre las actividades no tiene nada que ver, per se, con otras distinciones como las que existen entre las actividades necesarias/innecesarias, deseables/ indeseables y básicas/no básicas. Pero lo que es más importante, la distinción entre actividades de producción y de no-producción tiene profundas implicaciones para la manera como se mide y analiza la riqueza de las naciones capitalistas

En cuarto lugar, dentro de la categoría general de actividades de producción, surge una diferencia adicional entre las actividades que. producen plusvalía (es decir, que producen trabajo excedente para un empleador capitalista) y las que producen valor (pequeños productores de mercancías) o valores de uso vara uso directo (hogares, comunidades que producen bienes que no son mercancías). Aunque todos estos trabajos son productores de riqueza social, tan sólo los primeros son directamente productores de plusvalía. Es por esto que Marx distingue esta forma particular de trabajo como el trabajo-que-es producto-de-capital esto es, que es "trabajo productivo" desde el punto de vista del capital. Como corolario de lo anterior, se hace necesario distinguir entre la tasa de explotación.(que se refiere a todos los trabajadores empleados por el capital) y la tasa de plusvalía (que es la tasa de explotación del "trabajo productivo" solamente, puesto que es el único que produce plusvalía).

Finalmente, es importante reconocer que las categorías precedentes interactúan en complejas formas. Por ejemplo, la plusvalía es simplemente la diferencia entre la duración de la jornada de trabajo (1) de los trabajadores productivos, y la porción de la misma (v) requerida para producir las mercancías que ellos y sus familias consumen. Pero la cantidad de tiempo de trabajo social representado por v no es, en absoluto, la misma cantidad de tiempo de trabajo social requerido para reproducir a 1os trabajadores productivos, ya que este último, generalmente, incluye el trabajo comunitario y familiar involucrado en la reproducción de la fuerza de trabajo. En la medida en que de estos trabajos no capitalistas son responsables del grueso de los valores de uso consumidos por los trabajadores productivos, sólo una pequeña cantidad de mercancías estará contemplada en esa reproducción. Pero, puesto que los capitalistas sólo necesitan pagar a los trabajadores lo suficiente para que adquieran la porción de mercancías que corresponda a su patrón de vida, v será pequeño y s alto. Por consiguiente, a medida que la producción capitalista socave la producción campesina y/o familiar, las mercancías comenzarán a constituir una mayor porción-del nivel de vida de los trabajadores, incluso si el nivel general mismo declina. Para los capitalistas, los trabajadores se van haciendo progresivamente más "caros" a medida que sus necesidades de mercancías crecen. Aunque los trabajadores mismos pueden ser todavía más pobres si su nivel de vida general decae. Durante ciertos períodos, un salario real creciente es perfectamente compatible con un nivel de vida decreciente -tal como la historia de muchos países capitalistas en desarrollo lo indica. Todo nos conduce a mostrar que ningún análisis de una formación social concreta puede ignorar las interrelaciones existentes entre ganancia por transferencia de riqueza y ganancia por producción de plusvalía, entre actividades de producción y de no-producción, y entre trabajo capitalista y no capitalista.

 

LEYES GENERALES DE LA ACUMULACION CAPITALISTA

 

Las leyes generales como tendencias dominantes

 

A1 analizar el sistema capitalista, Marx se refiere constantemente a sus "lees de movimiento". Por ejemplo, habla de la tendencia decreciente de la tasa de ganancia como una ley general, mientras que' al mismo tiempo, presenta varias tendencias opuestas "que contrarrestan y anulan los efectos de la ley general". Así, pues, surge naturalmente la pregunta: ¿cómo se origina una "ley" a partir de la tendencia y la contratendencia? Hay dos formas básicas de responder a esta pregunta. Una posibilidad estriba en conceptualizar las diversas tendencias como si operasen en plano de igualdad. El capitalismo da lugar a una serie de tendencias antagónicas, y el equilibrio de fuerzas existente en una "coyuntura" histórica particular es el que determina la dirección final del sistema. Desde esta perspectiva, la reforma estructural y la intervención del Estado parecen disponer dé gran potencial puesto que, en las circunstancias apropiadas, pueden inclinar 1a balanza y regular el resultado. Esta perspectiva general subyace en la mayoría de los enfoques marxistas modernos.

Marx abordó el tema de una manera bastante diferente. Para él lo crucial era distinguir entre la tendencia dominante y las diversas tendencias subordinadas contrapuestas, ya que estas últimas operan dentro de los límites aportados por la primera. Como las tendencias dominantes surgen de la misma naturaleza del sistema, dándole un poderoso ímpetu, las tendencias subordinadas operan efectivamente dentro de límites móviles, y se canalizan, por así decirlo, en una dirección determinada. Desde esta posición ventajosa, las reformas estructurales, la intervención estatal e, incluso, las luchas de clase que dejen intacta la naturaleza básica del sistema, tienen un potencial limitado, justamente porque terminan subordinadas a la dinámica intrínseca del sistema. Una ley_ surge, precisamente, debido a que hay una tendencia dominante.

 

 

Concentración y centralización del capital

 

El capital posee dos aspectos distintos: en relación con el proceso de trabajo existe como una masa concentrada de medios de producción mandó de un ejército de trabajadores y, en relación con un capitalista individual; representa la parte de la riqueza social que está concentrada en sus manos como capital. Sobre estos aspectos del capital operan, a su vez', de modo diferente, dos procesos distintos: el proceso de concentración creciente por medio de la acumulación, llamado por Marx la "concentración del capital", y el proceso de concentración creciente gracias a la competencia y el crédito, al que llama "centralización del capital".

La acumulación es la reinversión de las ganancias en métodos de producción más nuevos y potentes. Nuevos métodos conllevan una escala de inversión mínima incrementada y un aumento de la tasa de capital invertido por trabajador, y por tanto, una creciente concentración del capital respecto al proceso de trabajo. A1 mismo tiempo, aun cuando la acumulación tiende a incrementar el monto de capital a disposición de un capitalista individual, la división de la propiedad entre los miembros de una familia, la separación de los capitales nuevos de los viejos y el nacimiento de nuevos capitales, todo ello, tiende a aumentar el número de los propios capitalistas y, en consecuencia, a disminuir el capital social concentrado en unas pocas manos. Como la acumulación es comparativamente lenta en relación con estos últimos factores, el efecto neto sobre la propiedad tiende a ser una descentralización. Como resultado final, la acumulación concentra el capital en el proceso de trabajo, pero tiende a descentralizar su propiedad.

La competencia y el. crédito, por su parte, incrementan la concentración en ambos frentes. La competencia favorece las inversiones en gran escala debido a sus menores costos de producción, mientras que el sistema crediticio permite a los capitalistas individuales reunir las grandes sumas necesarias para estas inversiones. La concentración del capital en el proceso de trabajo avanza así mucho más velozmente que lo que permite la sola acumulación del capital. A1 mismo tiempo, debido a que la competencia destruye a los capitalistas más débiles y el sistema crediticio habilita al fuerte para tragarse al débil, estos dos elementos conducen a una concentración de la propiedad de capitales que compensa con creces las tendencias descentralizadoras propias de la simple acumulación.

En términos generales el capitalismo es acompañado por la creciente capitalización de la producción, así como una creciente centralización de la propiedad del capital social. En el análisis de Marx, ambos fenómenos emanan de la batalla de la competencia y, a su vez, sirven para intensificarla. En la economía burguesa, sin embargo, el concepto mismo de competencia “pura”, o “perfecta” implica que toda concentración o centralización es la antítesis de la competencia. Una vez se identifica la concepción burguesa con la realidad de la competencia en el capitalismo primitivo y/o con el análisis que de él hizo el propio Marx, el hecho histórico de la concentración y centralización crecientes representa prima facie la prueba del quebrantamiento de la competencia, del ascenso de la competencia "imperfecta”, del oligopolio y del monopolio. Dentro de la economía marxista, la tradición dominante originada por Hilferding y desarrollada por Kalecki, Steindl, Baran y Sweezy, efectúa exactamente esta doble identificación. Ello lleva a sus proponentes a sostener que el capitalismo moderno está, en última instancia, regulado por los resultados de las relaciones de poder entre los monopolistas, los trabajadores y el Estado. Del lado opuesto, Varga y  algunos otros autores más recientes han sostenido que la concentración y la centralización han intensificado la competencia, en vez de quebrarla  y que  la evidencia empírica relativa a la rentabilidad contribuye, de hecho, a apoyar la teoría de la competencia enunciada por Marx.  Hay que señalar que Lenin es reclamado por ambas partes. No es necesario decir que este debate entraña importantes repercusiones con respecto al análisis del capitalismo moderno y la actual crisis.

 

 

Ejército de reserva de trabajo

 

Una característica inherente a la sociedad capitalista es el conjunto de trabajo desempleado sub-empleado que se crea y reproduce directamte por la propia acumulación de capital. Marx denomina a este conjunto "ejército de reserva de trabajo” o "ejército industrial de reserva”. La acumulación: de capital significa el incremento de éste, pero conlleva también nuevos métodos de producción, a mayor escala y más mecanizados, que la competencia obliga a los capitalistas a introducir. El crecimiento del capital aumenta la demanda de trabajo, pero la mecanización sustituye a los obreros por máquinas y reduce, en consecuencia, la demanda de trabajo. Esta, en términos netos, depende, por lo tanto, de la fuerza relativa de estos dos efectos, y, son precisamente esas fuerzas relativas las que varían para mantener el ejército de reserva de trabajo. Cuando el efecto empleo es más fuerte que el efecto desplazamiento durante un tiempo suficientemente largo como para absorber el ejército de reserva, la escasez de trabajo y el aumento de salarios resultantes reforzarán automáticamente el desplazamiento relativo al empleo; el alza de salarios reduce el ritmo de crecimiento del capital y, por lo tanto, del empleo. Esto, junto con la escasez de trabajo, acelera el proceso de mecanización y, por consiguiente, de desplazamiento. De esta forma, la acumulación de capital repone automáticamente el ejército de reserva. A ello se suma la importación de trabajo procedente de sectores de alto desempleo y la movilidad del capital hacia sectores de salarios bajos, lo cual sirve conjuntamente para restablecer la relación "apropiada" entre el capital y una población relativamente superflua.

Independientemente de sus límites históricos, el sistema capitalista ha creado y conservado siempre un ejército de reserva. El capitalismo moderno abarca todo el globo terrestre y también lo abarca su ejército de reserva. Las masas hambrientas del Tercer Mundo, la importación y subsecuente expulsión de "obreros inmigrantes" por parte de los países industrializados, y la fuga de capital a regiones de salarios bajos, son simplemente manifestaciones de este hecho.

 
 
Tasa decreciente de ganancia

 

La ley de la tasa decreciente de ganancia expresa el resultado del análisis de Marx sobre las fuerzas básicas que dan lugar a los ritmos de largo plazo de la acumulación capitalista: largos períodos de crecimiento acelerado que van seguidos necesariamente por períodos correspondientes de crecimiento desacelerado y probables convulsiones económicas de gran alcance. La Gran Depresión de los años treinta fue uno de esos períodos; según algunos marxistas, el mundo capitalista está nuevamente fluctuando alrededor de una situación extrema. Debe observarse que este tipo de crisis económica generalizada es bien diferente de las fluctuaciones cíclicas de plazo más corto, como los ciclos económicos o las crisis parciales causadas por sucesos específicos, como malas cosechas, perturbaciones monetarias, etc. Los ciclos económicos y las crisis parciales se explican por factores más concretos y sus ritmos se superponen, por así decirlo, sobre el ritmo de largo plazo. El hecho de que puedan desencadenar una crisis general cuando las condiciones básicas sean propicias no hace más que resaltar la necesidad de analizar primero los movimientos básicos en sí mismos.

La fuerza que da impulso a la actividad capitalista es el deseo de ganancias, lo que obliga a cada capitalista individual a dar la batalla en dos frentes: en el proceso de trabajo, contra los trabajadores ,durante la producción de plusvalía, y en el proceso de circulación, contra otros capitalistas, durante la realización de la plusvalía en forma de ganancias. En el enfrentamiento con el trabajo, la mecanización aparece como la forma más eficaz para incrementar la producción de plusvalía, mientras en el enfrentamiento con otros capitalistas, 1a reducción de los costos unitarios de producción por unidad (precios de costo unitarios) surge como principal arma para la competencia.

Marx sostiene que los métodos de producción más avanzados conllevarán instalaciones mayores y más intensivas en capital, en las que, con una utilización normal de capacidad, los costos unitarios de producción serán menores. La inversión de mayores cantidades de capital fijo por unidad de producto es el media fundamental para lograr economías de escala. Como las plantas a gran escala permiten a un número dado de trabajadores procesar mayor cantidad de materias primas y transformarlas en una correspondiente mayor cantidad de producto, tanto las materias primas como el producto por unidad de trabajo tienden a aumentar a la vez. A1 mismo tiempo, la mayor cantidad de capital fijo por unidad de producto implica cargos de depreciación más elevados y mayores costos de materiales auxiliares (electricidad, combustible, etc.) por unidad de producto. Así, pues, para métodos más avanzados la capitalización más alta (capital adelantado por unidad de producto) implica costos no laborales unitarios más elevados (capital constante por unidad de producto, c ), mientras que la mayor productividad se manifiesta en costos laborales unitarios menores (capital variable por unidad de producto, v). A1 final, el costo unitario de producción c+v debe descender de modo que el último efecto ha de compensar con creces el primero.

Puede demostrarse que este modelo supone que los métodos más avanzados tienden a lograr un costo unitario de producción más bajó a. expensas de una tasa dé ganancia inferior. La competencia, no obstante, obliga a los capitalistas a adoptar tales métodos, porque aquellos, con costos unitarios más bajos, pueden bajar sus precios y expandirse a costa de sus competidores , compensando así esta tasa de ganancias baja por medio de una mayor participación en el mercado. Como observa Marx, "cada capital individual se esfuerza por capturar la mayor participación posible en el mercado y por suplantar en él a sus competidores [...]". En términos de categorías marxistas, se puede demostrar que el proceso mencionado supone que la composición orgánica del capital subirá más rápido que la tasa de plusvalía, incluso cuando los salarios reales, al igual que la amplitud e intensidad de la jornada de trabajo, sean constantes, de modo que la tasa general de ganancia decrecerá independientemente de cualquier impulso introducido por parte del trabajo.

 

Marx indica que la actuación de diversas influencias contrarias frena, e incluso invierte temporalmente, el descenso de la tasa de ganancia. Una mayor intensidad de la explotación, salarios más reducidos, capital constante más barato, crecimiento de industrias de composición orgánica relativamente baja, importación de bienes salario o medios de producción baratos, y migración del capital hacia regiones de mano de obra y recursos naturales igualmente baratos, pueden actuar para elevar la tasa de ganancia al aumentar la tasa de explotación, bajar la composición orgánica del capital, o ambas soluciones a la vez. Sin embargo, precisamente porque estas contratendencias operan dentro de límites estrictos, la caída por largo período de la tasa de ganancia sobresale como tendencia dominante.

La tasa decreciente de ganancia conduce a una crisis generalizada por medio de su efecto sobre la masa de ganancias. Dado un capital ya invertido, cualquier decrecimiento . en la tasa de ganancia reduce la masa de esta última; por otro lado, la acumulación acrecienta el acervo de capital avanzado y, por tanto, aumenta la masa de ganancia, en tanto que la tasa de ganancia de los nuevos capitales sea positiva. El movimiento de la masa total de ganancias depende, por lo tanto, de la fuerza relativa de los dos efectos. Pero una tasa de ganancia decreciente debilita progresivamente el incentivo para la acumulación y, al descender ésta, el efecto negativo empieza a dar alcance al efecto positivo hasta que, en un momento determinado,  la masa total de ganancias empieza a estancarse. En esta fase comienza la crisis, aunque naturalmente la forma específica que adopta está condicionada por factores institucionales e históricos concretos. Hay que destacar que el proceso mencionado supone una "onda larga" en la masa de las ganancias, que al principio se acelera, luego se desacelera, se estanca y, finalmente, se hunde en la crisis. Así, pues, los fenómenos de "ondas largas" en la acumulación capitalista pueden explicarse por una caída continuada de la tasa de ganancia.

En general, los adversarios de esta teoría argumentan que, en la noción económica burguesa de "competencia perfecta", tal proceso queda lógicamente excluido, y que, en todo caso, la evidencia empírica no lo respalda. En cualquiera de ambas situaciones es fácil mostrar que ninguna de las conclusiones es válida una vez que examinamos críticamente la teoría económica neoclásica y los datos en que se basan sus conclusiones.

Ceteris paribus, salarios más altos y mejores condiciones de trabajo hacen descender directamente las ganancias y estimulan también el aumento de la mecanización, con lo que se intensifica doblemente la tendencia inherente de la tasa de ganancia a caer. Sin embargo, como destaca Marx, éstas y otras luchas enfocadas hacia la reforma del sistema operan necesariamente dentro de límites estrictos que proceden de la rentabilidad, la movilidad del capital y la competencia (en todo el mundo) y, por tanto, continúan siendo constreñidas por la dinámica básica de la acumulación capitalista. Un argumento similar puede ofrecerse respecto a los límites de la intervención estatal.

Cada crisis precipita la destrucción al por mayor de los capitales más débiles y los ataques intensificados contra los trabajadores. Esos son los mecanismos "naturales" del sistema para recuperarse. Cada recuperación sucesiva desemboca, a su vez, en una mayor concentración y centralización. y, generalmente, en menores tasas de ganancia y crecimiento de largo plazo. En consecuencia, aunque las contradicciones empeoran con el tiempo, no habrá crisis final hasta que los trabajadores adquieran suficiente conciencia de clase y se organicen para derribar el sistema mismo.

 

 

TEORIAS MARXISTAS DE LAS CRISIS ECONOMICAS

 

A1 analizar las teorías de la crisis debemos distinguir entre las crisis generales, que implican un vasto colapso de las relaciones de reproducción económicas y políticas, y las crisis parciales  los ciclos económicos, que constituyen características de frecuente aparición en la historia capitalista. En la producción capitalista el deseo individual de ganancia choca periódicamente con la necesidad objetiva de la división del trabajo. Las crisis parciales y los ciclos económicos ó son más que el método intrínseco del sistema para reintegrarlos. Cuando el sistema goza de buena salud, se recupera rápidamente de sus inherentes convulsiones internas. Sin embargo, cuanto peor sea su salud, más largas serán sus convalecencias, más anémicas sus recuperaciones y mayor la probabilidad de que entre en una larga fase de depresión. En los Estados Unidos, por ejemplo, aunque han habido 35 ciclos económicos y crisis en más de 150 años, que van desde 1834 hasta nuestros días, tan sólo dos de ellos, las grandes depresiones de 1873-1893 y 1929-1941, califican como crisis generales. El interrogante con que se enfrenta ahora el mundo capitalista es si la gran depresión de los ochentas se añadirá o no algún día a esta lista.

Podemos identificar dos tipos principales de teorías de la crisis, correspondientes a las dos aproximaciones metodológicas diferentes a la historia capitalista que fue analizada en la cuarta sección de este Capítulo: las teorías de la posibilidad, basadas en la noción de ley como el resultado de tendencias conflictivas, en donde las crisis generales se dan siempre y cuando se produzca una cierta conjunción de factores históricamente determinados, y las teorías de la necesidad, basadas en la noción de ley como la expresión de una tendencia intrínseca dominante que subordina a las tendencias contrapuestas y en donde es inevitable la existencia periódica de crisis generales (aunque, por supuesto, la forma específica y el momento de aparición vienen determinados dentro de ciertos límites por factores históricos e institucionales). Veamos ahora cómo ilustran estos dos enfoques las modernas teorías marxistas de la crisis.

 

Teorías de la posibilidad

 

Podemos identificar dos grupos principales: las teorías del subconsumo/estancamiento y las teorías de la presión salarial.

 

Teorías del subconsumo/estancarmiento

 

En la sociedad capitalista el valor en dinero del producto neto es igual a la suma de los salarios pagados a los trabajadores más las ganancias acumuladas por los capitalistas. Como a los trabajadores se les paga menos del valor total del producto neto, su consumo nunca es suficiente para comprarlo: el consumo de los trabajadores genera una "brecha de demanda", Y cuanto mayor sea la participación de las ganancias en relación con los salarios en el valor agregado, tanto mayor será la brecha de demanda. Claro está que los capitalistas consumen una porción de sus beneficios, lo que contribuye a cubrir parte de la brecha. No obstante, el grueso de su ingreso se ahorra, no se consume y, a la manera keynesiana, estos ahorros se consideran como un "drenaje" de demanda, cuya base fundamental la siguen constituyendo los limitados ingreso y consumo de las masas. Si no se cubriera la porción de la brecha de demanda que corresponde a los ahorros de los capitalistas, no se vendería parte del producto o, al menos, no se vendería a precios normales, de suerte que todo el sistema se contraería hasta que las ganancias fuesen tan escasas que los capitalistas se verían forzados a consumir todos sus ingresos, en cuyo caso no habría ninguna inversión (neta) y, por consiguiente, tampoco crecimiento. Se dice, por lo tanto, que la lógica económica interna de una economía capitalista está predispuesta al estancamiento.

La brecha de demanda, como es obvio, no sólo puede cubrirse por el consumo, sino también mediante demanda de inversión (la demanda de planta y equipo). Cuanto mayor sea esta demanda, mayor será el nivel de producción y empleo en el sistema en cualquier momento dado, y tanto más rápido será su crecimiento. Por eso, en última instancia, el movimiento final del sistema depende de la acción recíproca de la tendencia al estancamiento, creada por los planes de ahorro de los capitalistas, y la tendencia opuesta, creada por sus planes de inversión. Los capitalistas ahorran porque, en cuanto capitalistas individuales, tienen que intentar crecer a fin de, sobrevivir. Pero sólo pueden invertir cuando existen posibilidades objetivas, y éstas dependen, a su vez, de dos factores. Específicamente, el fundamento del comercio y del intercambio a gran escala se da cuando la hegemonía de una determinada nación capitalista (Gran Bretaña en el siglo XIX; y los Estados Unidos en el XX) permite orquestar y reforzar la estabilidad; política y económica internacional. Y el aliciente para la inversión. a gran, escala se da cuando coinciden, a un tiempo, una masa crítica de productos, mercados y tecnologías nuevos. Cuando coinciden base y aliciente, los factores expansionistas serán ascendentes. Por otro lado, a medida que se, agota el aliciente y las rivalidades intercapitalistas socavan cada vez más el fundamento, se reafirman en algún punto los factores contraccionistas y, el estancamiento se pone al orden del día, hasta que, por supuesto, un nuevo orden hegemónico (forjado tal vez mediante una guerra mundial) y un nuevo estallido de descubrimientos, inicien otra época de crecimiento.

Nada de esto se ve alterado fundamentalmente por la cuestión del poder monopólico. En el capitalismo moderno se dice que unas cuantas empresas poderosas dominan cada industria, y que, al restringir el producto' y elevar los precios, pueden redistribuir los ingresos a su favor a costa de los trabajadores y de las pequeñas empresas capitalistas. Como los grandes capitalistas ahorran una mayor proporción de sus ingresos, aumenta el ahorro total. Por otro lado, a fin de sostener los niveles de precios y ganancias, las grandes empresas restringen la inversión en sus propias industrias, reduciendo así los posibles mercados de inversión disponibles.' A1 aumentar la brecha de demanda y simultáneamente debilitar las oportunidades de inversión, los monopolios hacen el estancamiento, en teoría, virtualmente inevitable. Claro que en la práctica, el "capitalismo monopolista" de posguerra ha disfrutado hasta hace muy poco "de una prosperidad prolongada (...) superior en muchos aspectos a cualquier otra de su' historia anterior". Y he aquí, una vez más, que la *ausencia de estancamiento real se explica por la presencia de factores contrapuestos extraordinariamente poderosos: hegemonía norteamericana de posguerra, nuevos productos y tecnologías, y gastos militares.

Dentro de semejante marco, es evidente que cualquier intervención económica que refuerce y dirija los factores expansionistas puede superar, en principio, la amenaza de estancamiento. La economía keynesiana, por ejemplo, proclama que el Estado, bien por cuenta de sus propios gastos, bien estimulando el gasto privado, puede alcanzar los niveles socialmente deseados de producción y empleo y, de este modo, determinar, en última instancia, las leyes de movimiento de la economía capitalista. Los teóricos del subconsumo no niegan esta posibilidad. Tan sólo afirman que actualmente no es práctico, porque el capitalismo moderno se caracteriza por el monopolio y no por la competencia: el monopolio aumenta la tendencia del capitalismo al estancamiento que, cuando comienza a aparecer, es contrarrestada por el Estado por medio de estímulos a la demanda agregada. Pero los monopolios responden aumentando los precios en vez de la producción y el empleo (como harían las empresas competitivas). El empate resultante entre el poder del Estado y el de los monopolios produce estancamiento con inflación: "estanflación”. Si el Estado se retira de la lucha y se atrinchera, tendremos entonces una recesión o tal vez una depresión. Desde este punto de vista, la aparición de una crisis es un acontecimiento esencialmente político, debido a la negativa del Estado a hacer frente a los monopolios. La teoría keynesiana afirma que el Estado tiene capacidad económica para dirigir el sistema capitalista y, una vez aceptada esta premisa, tanto la existencia de la crisis como su recuperación, son cuestiones de los fines políticos a los que se aplique esa capacidad. Así, pues, esta teoría apunta a concluir que un programa político para limitar los monopolios mediante controles de precios, regulación y planificación económica forzosa, quebrará la columna vertebral de la inflación, mientras que el aumento de los gastos de bienestar social, e incluso el alza de los salarios, no sólo beneficiará a la clase trabajadora, sino también al sistema capitalista en su conjunto (al reducir la brecha de demanda). Las contradicciones económicas del sistema pueden, por lo tanto, desplazarse hacia y resolverse dentro de la esfera política, a condición de que se ejerza presión suficiente sobre el Estado.

El propio Sweezy evita con cuidado trazar las conclusiones políticas inherentes a su argumento, aunque advierte que los propios capitalistas pueden descubrir nuevas formas de manejar el sistema. Pero otros autores son mucho menos reticentes.

Teorías de la presión salarial

Las teorías sobre la presión de los salarios intentan vincular las crisis generales con el descenso sostenido de la tasa de ganancia. El punto de partida es el reconocimiento de que cuando aumentan los salarios reales y/ o disminuye la amplitud e intensidad de la jornada laboral, desciende la tasa potencial de ganancia, permaneciendo iguales las otras condiciones. En términos marxistas, un descenso en la tasa de plusvalía produce el descenso de la tasa general de ganancia, ceteris paribus. No obstante, esto equivale sencillamente a decir que un aumento de los salarios reales (ajustados por la duración e intensidad del trabajo) reduce la tasa de ganancia en relación con su tendencia. Si la tasa de ganancia tiende a bajar independientemente del movimiento de los salarios, resulta que el aumento de los salarios reales (ajustados) no hace más que reforzar la caída preexistente de la tasa de ganancia. Como veremos en la sección siguiente, esto es lo que argumenta Marx. Pero si la tasa de ganancia tiende, por otro lado, a aumentar, resulta que tan sólo un incremento suficientemente rápido de los salarios reales puede ser el responsable del descenso real de la tasa de ganancia. Esta es la afirmación típica de los teóricos de la  presión salarial, quienes dan por sentado  que, ante la ausencia de cambios en el salario real, él cambio técnico tiende a incrementar la tasa de ganancia y la relación entre ganancias y salarios.

En una versión de la teoría, ésta tasa creciente de ganancia alimenta directamente la expansión de la inversión; en otra versión, que no es en realidad más que una extensión de la teoría del subconsumo/estancamiento, la creciente relación ganancia-salario y el ascendente poder de los monopolios, empeoran la brecha de demanda y, por consiguiente, la tendencia del sistema hacia el estancamiento, la cual, no obstante, el Estado es capaz de contrarrestar, y mantener así el auge. En cualquier caso, si el auge dura lo suficiente como para que el mercado de trabajo se haga tan estrecho y los obreros tan combativos que sus demandas salariales produzcan un descenso continuado de la tasa efectiva de ganancia, resulta que al final puede estallar la crisis. Es muy propio de la teoría de la presión salarial buscar evidencia en salarios reales que aumenten con mayor rapidez que la productividad como prueba de que el trabajo se halla detrás de la crisis.

Por ejemplo, el tratamiento matemático convencional de la llamada selección de técnicas implica una tasa creciente de ganancia, a menos que los aumentos de salario real inviertan su curso. Esto es lo que citan la mayor parte de los defensores modernos de la presión salarial, como Roemer, Bowles y Armstrong y Glyn. Otros, como Hodgson sencillamente se refieren a la estabilidad empírica de la composición orgánica como una característica del capitalismo moderno. Por último, se suele citar a Kalecki como fuente del argumento de que la intervención estatal transforma la tendencia al subconsumo en presión salarial. Debería observarse que, incluso dentro de la literatura convencional sobre la selección de técnicas, un salario real que aumente en relación con la productividad no es necesario ni suficiente para generar una tasa decreciente de ganancia. Así lo demuestran fácilmente los diagramas elaborados por Shaikh, en un trabajo donde ilustra que la tasa máxima de salarios. (la intersección en el eje vertical) es el producto neto por trabajador

Es importante observar a este respecto que, como la crisis se da únicamente cuando los aumentos salariales de los trabajadores son "excesivos', esta teoría deja amplio espacio para delinear una visión del capitalismo que puede propiciar tanto el aumento de los salarios reales de los trabajadores como una tasa creciente de ganancia para los capitalistas. Desde este punto de vista, el Estado puede diseñar, en principio, la recuperación, si obreros y capitalistas hacen concesiones suficientes, y puede evitar crisis futuras si ambas partes muestran cierta moderación. Una característica de las teorías de la posibilidad, en general, es terminar por otorgar al Estado el poder de determinar las leyes básicas del movimiento del capitalismo, con lo cual tanto las expectativas como las promesas de sus defensores, pasan a depender en gran medida de la noción, según la cual, bajo el capitalismo la política puede comandar el sistema. Si esta premisa es falsa, resulta entonces que, como mínimo, las tácticas y la estrategia que la rodean plantean serias dudas. Como veremos a continuación, esto es exactamente lo que implican las teorías de la necesidad de la crisis.

 

Teorías de la necesidad

 

 

La principal teoría moderna de la necesidad es la teoría marxista de la tas de ganancia decreciente. En el pasado incluso algunas versiones de la teoría del subconsumo (como la de Rosa Luxemburgo), eran concebidas como teorías de la necesidad, pero, en general, se admite que esto se debía primordialmente al entendimiento erróneo de la lógica de su propio argumento. La ley de la tasa decreciente de ganancia intenta explicar por qué el capitalismo atraviesa largos períodos de crecimiento acelerado, que van seguidos, necesariamente, por otros períodos correspondientes de crecimiento desacelerado y crisis finales. Lo que explican las teorías del subconsumo mediante factores aparentemente externos, tales como oleadas de descubrimientos, lo explica Marx mediante factores internos basados en los movimientos de la tasa potencial de ganancia.

La fuerza motriz de toda actividad capitalista es la ganancia, y la plusvalía su base oculta. A fin de extraer la mayor cantidad posible de plusvalía, los capitalistas deben aumentar la duración y/o intensidad de la jornada laboral y, sobre todo, incrementar la productividad del trabajo. Además, para competir eficazmente contra otros capitalistas deben lograr simultáneamente costos inferiores por unidad de producto. El aumento de capital fijo es la solución de ambos problemas. En pocas palabras, el crecimiento del capital fijó en relación con el trabajo (la mecanización de la producción) es el principal medio de elevar la productividad del trabajo, y el crecimiento del capital fijo en relación con el producto (la capitalización de la producción) es el principal medio de reducir los costos de producción unitarios. Puede demostrarse, sin embargo, que el aumento del capital fijo también tiende a hacer disminuir la tasa de ganancia sobre los métodos de producción más avanzados. Los capitalistas individuales que adoptan primero los métodos más amplios, más intensivos en capital, obtienen menores costos unitarios que les permiten reducir los precios, y ampliarse a costa de sus competidores, contrarrestando así, la menor tasa de ganancia al abarcar una porción mayor del mercado. No obstante, para el sistema en su conjunto, esto hace que la tasa media de ganancia tienda a bajar. Aunque varios sectores pueden contrarrestar temporalmente esta tendencia, operan dentro de límites estrictos, de suerte que el descenso prolongado de la tasa de ganancia se presenta como tendencia dominante.

Durante un período largo de tiempo, los efectos de esta tendencia decreciente de la tasa de ganancia sobre la inversión producen una "onda larga" en la masa de ganancia potencial global, que se acelera primero y luego desacelera y se estanca. En la última fase se derrumba la demanda de inversión y se generaliza el exceso de capacidad, mientras que la falta de nueva inversión reduce el crecimiento de la productividad de manera que los salarios reales pueden aumentar durante cierto tiempo en relación con la productividad. En otras palabras, fenómenos como el subconsumo y la presión salarial aparecen como efectos de la crisis de rentabilidad. Pero no causan crisis generales, puesto que existen mecanismos incorporados en la acumulación capitalista que ajustan la capacidad instalada a la demanda efectiva, y mantienen los aumentos salariales dentro de los límites de los aumentos de la productividad.

Cada crisis general precipita la destrucción masiva de capitales más débiles e intensifica los ataques contra el trabajo, lo cual contribuye a restaurar la acumulación aumentando la centralización y concentración y elevando globalmente la rentabilidad. Tales son los mecanismos "naturales" de recuperación del sistema. Sin embargo, debido a la baja en períodos prolongados de la tasa de ganancia, cada ascenso largo sucesivo se caracteriza por tasas de ganancia y crecimiento de largo plazo generalmente inferiores, de tal manera que, en el mundo dominado por el capitalismo, los problemas de estancamiento y desempleo a escala mundial empeoran con el tiempo. Como estos problemas emanan de la propia acumulación capitalista y no de la competencia insuficiente ni de los salarios excesivos, no pueden "solucionarse" sencillamente mediante la intervención del Estado, por muy progresistas que sean sus intenciones. La política no puede ni podrá ser la directriz del sistema, a menos que esté dispuesta a reconocer que la solución capitalista a la crisis requiere un ataque a la clase trabajadora, y que la solución socialista exige, a su vez, un ataque al propio sistema. Como observa Yaffe, la dependencia característica de las teorías de la posibilidad respecto del poder estatal pueden ser una peligrosa ilusión

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Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.