JACOBINA Br.
UMA ENTREVISTA COM Vivek Chibber
Melissa Naschek
É amplamente reconhecido que as economias
capitalistas são um desenvolvimento recente na história da humanidade.
No entanto, persiste a discordância na esquerda sobre como e onde
exatamente ocorreu a transição para o capitalismo, bem como sobre o
papel que a pilhagem colonial desempenhou no enriquecimento do Ocidente.
Neste episódio do podcast Confronting Capitalism, da Jacobin Radio,
Vivek Chibber explica as origens do capitalismo, o que significa
acumulação primitiva e como o colonialismo afetou, de fato, o
desenvolvimento europeu.
O podcast Confronting Capitalism com Vivek Chibber é produzido pela Catalyst: A Journal of Theory and Strategy e publicado pela Jacobin. Você pode ouvir o episódio completo aqui. Esta transcrição foi editada para maior clareza.
MELISSA NASCHEK
Hoje, vamos falar sobre o desenvolvimento do capitalismo.
Mais especificamente, vamos analisar um argumento bastante em voga
atualmente nos círculos acadêmicos e de esquerda sobre a conexão entre a
pilhagem colonial e o estabelecimento do capitalismo. O principal
argumento é que, basicamente, o Ocidente enriqueceu e se desenvolveu
economicamente como resultado direto da pilhagem colonial — que a
pilhagem colonial foi essencialmente responsável pelo surgimento do
capitalismo. Então, o que você acha desses argumentos?
Vivek Chibber
São um completo disparate. Não têm um pingo de verdade.
A ideia de que o capitalismo surgiu da pilhagem sequer consegue se
sustentar. E é interessante — e talvez não surpreendente — que esse
argumento esteja tão em voga hoje em dia, especialmente dentro da
esquerda militante. Mas ele também está ressurgindo no meio acadêmico,
depois de ter sido praticamente desacreditado nas décadas de 1980 e
1990. Portanto, acho que vale a pena analisá-lo um pouco para explicar
por que ele é empiricamente insustentável, mas também por que, mesmo
teoricamente, simplesmente não faz sentido.
MN
E o interessante é que muitos esquerdistas apontam para o próprio Marx em O Capital, Volume I,
e para como ele fala sobre a relação entre a pilhagem colonial e o
capitalismo, usando isso como prova de que existe uma relação profunda
entre os dois.
VC
Os últimos capítulos de O Capital tratam de algo que Marx
chama de “segredo da chamada acumulação primitiva”. Nesses capítulos,
ele tenta explicar a origem do capitalismo. Ele o chama de “acumulação
primitiva” porque essa expressão vem de Adam Smith — às vezes é chamada
de “acumulação original”. E ele adota a posição de Smith como uma
espécie de ponto de partida para desenvolver a sua própria.
O argumento de Smith afirmava que, para haver capitalismo, é
necessário haver investimento. E esse investimento precisa vir de alguma
fonte de dinheiro. É preciso ter uma reserva de dinheiro para poder
investi-la. E esse dinheiro precisa ter uma origem para que o sistema
funcione. Então Smith diz: “Bem, deve ter havido alguma acumulação
inicial de capital que deu origem a esse novo sistema.” De onde veio
esse capital? Ele responde que veio de pessoas que eram muito frugais,
que economizavam seu dinheiro. E então elas conseguiram obter, a partir
disso, fundos suficientes para investir e, posteriormente, utilizá-los
como capital.
Marx inicia seus capítulos sobre a chamada acumulação primitiva zombando disso. Primeiramente, ele afirma que, empiricamente, não foi
esse tipo de frugalidade, bons costumes e hábitos que gerou essa
reserva de dinheiro. Na verdade, ele diz que, se houve algo que gerou
essa reserva de dinheiro, foram coisas como roubo, a nobreza extorquindo
o dinheiro do povo e, segundo ele, os frutos da pilhagem colonial. Esse
é o contexto.
Basicamente, o que ele está tentando fazer é dizer: vejam, na medida
em que foi necessário um montante inicial de dinheiro, ele não veio de
poupanças. Veio das piores práticas que se possa imaginar. Então, ele
está denunciando o capitalismo nesses termos.
MN
Certo. E assim, rejeitando o argumento de Smith focado na
poupança, ele apresenta uma possível contra-argumentação, sugerindo que
talvez tenha sido essa outra fonte de extração de riqueza, muitas vezes
forçada e violenta.
VC
Sim. Basicamente, ele está dizendo que não se trata de pessoas
decentes usando seus costumes protestantes para economizar muito
dinheiro. Veio das piores práticas.
Mas isso é apenas um artifício retórico que ele usa. Na verdade, o
que ele diz imediatamente depois é que não importa quanto dinheiro você
tenha. Não importa quanto capital você tenha, porque dinheiro só se
torna capital em certas situações, em certas circunstâncias.
Quais são essas circunstâncias? Ele afirma que qualquer dinheiro que
essas pessoas possuíssem só poderia ser usado para acumulação de capital
quando houvesse um contexto social e uma situação institucional que
induzisse as pessoas a usar o dinheiro de forma produtiva, visando a
maximização do lucro.
Mas o que isso significa? Por que não usariam o dinheiro para
maximizar o lucro antes do capitalismo? Essa é a principal ideia de
Marx. O que Marx diz é que o dinheiro não se torna capital até que haja
uma mudança na estrutura social do feudalismo, de modo que se passe de
uma estrutura de classes feudal para uma estrutura de classes
capitalista. E o dinheiro em si não pode fazer isso acontecer.
O feudalismo foi o sistema econômico que existiu antes do
capitalismo. No feudalismo, qualquer dinheiro que as pessoas obtivessem,
fosse proveniente de poupanças ou de pilhagem, era usado de forma
“feudalística”, por assim dizer — ou seja, de uma maneira não capitalista.
MN
Você pode explicar isso um pouco melhor?
VC
Para começar, acho que Marx cometeu um erro retórico ao ceder à
argumentação de Smith, chegando ao ponto de afirmar que não foi a
frugalidade que proporcionou a acumulação inicial, mas sim a pilhagem.
Isso porque é apenas uma nota de rodapé no capítulo. No entanto, muitos
se apegaram a esse recurso retórico e o utilizaram para justificar
exatamente o argumento que ele tentava refutar, dedicando os cinco
capítulos seguintes a essa tarefa.
A essência do que Marx está dizendo é que, antes de tudo, não havia
escassez de poupança no feudalismo. Em outras palavras, não faltavam
fundos disponíveis para investimento. Como sabemos disso? Bem, porque a
nobreza feudal, a aristocracia, as pessoas que detinham todo o dinheiro e
o poder, eram extremamente ricas. Se quisessem usar esse dinheiro para
maximizar o lucro, que é o que os capitalistas fazem, já o teriam feito
há muito tempo.
Além disso, a pilhagem e a expansão colonial foram endêmicas na
Europa durante mil anos antes do surgimento do capitalismo. Portanto, se
o que fosse necessário para chegar ao capitalismo fosse algum tipo de
acumulação inicial de dinheiro — mesmo que por meio de pilhagem — o
capitalismo já teria existido mil anos antes.
“A ideia de que o capitalismo surgiu da pilhagem sequer consegue se sustentar.”
O ponto crucial é lembrar que nunca houve escassez de fundos para
investimento no feudalismo. Portanto, mesmo que haja uma grande
quantidade de prata e ouro provenientes do colonialismo, isso não altera
o fato de que, qualquer que seja o dinheiro disponível, ele será
utilizado de forma sensata, de acordo com as regras econômicas vigentes
em seu sistema.
E como o feudalismo era um sistema em que a coisa mais sensata a se
fazer com o dinheiro era usá-lo para fins não produtivos e que não
maximizassem o lucro, independentemente de você ser camponês ou nobre,
qualquer dinheiro que você tivesse seria empregado dessa maneira feudal
específica.
Ora, a verdade é que, nos séculos XIV, XV e XVI, os dois países
europeus que possuíam os maiores impérios eram a Espanha e Portugal. E
esses impérios foram criados explicitamente para trazer muitos tesouros
do Novo Mundo para o Velho Mundo.
Esse tesouro é exatamente o que Smith está descrevendo. São enormes
reservas de riqueza. E se Smith estivesse certo ao afirmar que era
necessário primeiro ter essa acumulação inicial de riqueza, a Espanha e
Portugal deveriam ter sido os primeiros países a fazer a
transição para o capitalismo. Deveriam ter passado de monarquias feudais
para economias capitalistas e as economias de crescimento mais rápido
da Europa. O que aconteceu, na verdade, foi que esse tesouro, ao chegar a
esses países, não fez nada para provocar uma mudança no sistema
econômico. Na verdade, o que aconteceu foi que ele empurrou esses dois
países para cerca de 150 anos de estagnação econômica.
Onde houve uma mudança para uma nova estrutura econômica foi no país
onde praticamente não havia império, que era a Inglaterra. E vamos
esclarecer as datas. A Inglaterra caminha em direção a uma nova
estrutura econômica nunca antes vista no mundo, que chamamos de
capitalismo, a partir de meados do século XV. Assim, por volta de 1550
ou 1560, já havia essencialmente uma economia verdadeiramente
capitalista. Isso é cerca de cem anos antes de a Inglaterra ter qualquer
tipo de império real.
Assim, os países com os maiores impérios e os maiores fluxos de
riqueza — extração colonial, por assim dizer — não experimentaram
nenhuma mudança para um novo sistema econômico. O país que de fato experimentou uma mudança para um novo sistema econômico foi aquele que não possuía um império.
Portanto, se a pergunta é “Qual o papel dos tesouros e da pilhagem na
ascensão do capitalismo?”, o argumento de que tesouros e pilhagens são o
que a desencadeiam sequer se sustenta, porque os países onde isso
deveria ter acontecido — se o argumento estivesse correto — são
justamente aqueles onde não aconteceu. E onde isso de fato acontece é em um país onde não existe esse tipo de pilhagem. E esse país é a Inglaterra.
Agora, isso é apenas o registro empírico. O problema teórico é o
seguinte: você precisa explicar o que levaria um senhor feudal ou um
monarca, subitamente dotado de uma enorme quantidade de dinheiro, a
alterar toda a estrutura de classes, seja a de suas propriedades
feudais, se fosse um senhor feudal, ou, se fosse o monarca, a própria
estrutura econômica nacional? O que os levaria a fazer isso, digamos, em
1550? Nunca vi um único argumento que explicasse por que fariam isso. O
que eles fizeram, na verdade, foi usar o dinheiro de uma maneira que
faz sentido para um senhor feudal.
MN
Certo. E um argumento do tipo smithiano pressupõe que o
capitalismo sempre foi apenas um pequeno núcleo se desenvolvendo na
sociedade. Eles não precisam apontar nenhum tipo de ponto de virada. Não
precisam explicar por que, de repente, a classe rica decidiu reinvestir
seu dinheiro e seguir uma estratégia de maximização do lucro. E este é
um ponto crucial: a principal estratégia da classe exploradora, a busca
pela maximização do lucro por meio da melhoria e expansão da produção, é
específica do capitalismo. Esse não era o imperativo básico do sistema
feudal.
VC
Isso mesmo. Agora, sem entrar em muitos detalhes, deixe-me apresentar
este argumento. No feudalismo, havia muito dinheiro circulando. No
feudalismo, também havia muitos mercados. Mas os mercados eram muito
limitados e o dinheiro era usado de forma predominantemente improdutiva.
Por quê?
Bem, quem constituía a maior parte da classe produtora no feudalismo?
Quem controlava a produção? Eram os camponeses. Camponeses com pequenas
parcelas de terra. E esses camponeses com pequenas parcelas de terra,
em sua grande maioria, adotavam o que poderíamos chamar de estratégia de
“prioridade à segurança”. Em vez de se lançarem ao mercado, buscando a
máxima eficiência ou tentando superar a concorrência de outros
camponeses, eles procuravam evitar a competição de mercado e
dependiam de suas próprias colheitas, de suas próprias terras, chegando
até mesmo a produzir o máximo possível de seus próprios bens
manufaturados.
Agora, como eles produzem seus próprios alimentos e fabricam seus
próprios produtos, isso significa que eles não vão ao mercado com muita
frequência. Eles não precisam comprar coisas com muita frequência. Ora,
se cada camponês faz isso — se cada camponês basicamente produz para si
mesmo — significa que eles só levam ao mercado o que sobra depois de
terem atendido às suas necessidades de consumo.
Mas, se for esse o caso, significa também que os mercados são
bastante pequenos. Não recebem muitos produtos porque as pessoas levam
apenas uma fração ínfima de tudo o que cultivam ou produzem em casa.
Isso, por sua vez, significa que os próprios mercados não são muito
confiáveis. Os camponeses não podem contar com a disponibilidade de tudo
o que precisam neles. E isso reforça a tendência dos camponeses de não
confiarem nos mercados.
Então você tem uma situação em que existem alguns mercados, mas eles
não estão em constante crescimento. Isso é o oposto da suposição de Adam
Smith. O mesmo pode ser dito em relação à nobreza. Eles não controlam a
produção da mesma forma que os capitalistas. A forma como eles obtêm
sua renda é extraindo rendas dos camponeses.
Mas a cobrança de rendas representava um problema. A nobreza, como os
proprietários de terras de hoje, podia dizer: “Ei, vou aumentar seu
aluguel em cem dólares. Pague ou vou despejá-lo”. Mas enquanto o
proprietário de terras hoje em dia pode contar com o fato de que quem
aluga suas terras tentará levantar dinheiro para pagar esses aluguéis
cada vez mais altos, os proprietários feudais não tinham permissão legal
para expulsar os camponeses de suas terras, desde que estes estivessem
dispostos a pagar o que se chama de aluguel consuetudinário. Portanto,
eles não podiam aumentar os aluguéis indefinidamente.
Então, como os senhores feudais aumentam sua renda se ela provém dos
aluguéis? A principal maneira, quando não podem ameaçar os camponeses
com despejo, é através da coerção. Muitas vezes, isso envolvia ameaças
físicas e intimidação. Mas, acima de tudo, envolvia saquear as terras de
outros senhores e anexá-las. A guerra é a melhor maneira de aumentar
drasticamente a receita quando o mercado não permite isso.
A guerra e a coerção eram inerentes ao sistema feudal. Isso tinha uma
implicação muito importante: o mais racional a se fazer com o
excedente, se você fosse um senhor feudal, não era investi-lo em meios
de produção, mas em meios de guerra e coerção. Se os senhores feudais se
deparassem com uma fortuna inesperada, muito dinheiro, o que eles
fariam com ele seria aumentar sua comitiva, seu exército — ou seja,
investir em meios de coerção.
“Se o que fosse necessário para chegar ao
capitalismo fosse algum tipo de acumulação inicial de dinheiro — mesmo
que por meio de pilhagem — o capitalismo já teria surgido mil anos
antes.”
Assim, para ambas as classes principais — camponeses, por um lado, e
senhores feudais, por outro — a estrutura feudal impunha estratégias
econômicas específicas. Os camponeses evitavam o mercado na medida do
possível, o que mantinha o mercado pequeno, e adotavam uma estratégia
que priorizava a segurança em vez do lucro. Já os senhores feudais não
investiam o dinheiro que possuíam em novas máquinas, tratores, reboques
ou arados, mas sim em exércitos cada vez maiores.
Nessa situação, se esses senhores de repente obtivessem muitos
tesouros materiais, o que fariam com eles seria acelerar a
intensificação não da produção, mas da guerra, que foi o que a
Espanha e Portugal fizeram. Por sua vez, esse sistema gerou sua própria
racionalidade para o uso do dinheiro. E não importa se é uma pequena ou
grande quantia, ela será usada de uma maneira que faça sentido dentro
daquela estrutura de classes.
Portanto, para que o dinheiro se tornasse capital, e é isso que Marx
afirma em seus capítulos sobre a acumulação primitiva — algo impossível
de ignorar, a menos que se procure citações específicas —, é necessário
que, para o dinheiro ser usado de uma maneira reconhecidamente
capitalista, ele não desencadeie essa mudança na estrutura de classes. É
uma mudança prévia na estrutura de classes que cria uma nova função
para o dinheiro. Esse dinheiro passa a ser capital, enquanto antes era
apenas dinheiro.
É isso que os capítulos sobre acumulação primitiva pretendem mostrar.
Eles mostram que o erro de Smith não foi estar errado sobre a origem do
dinheiro — pilhagem versus frugalidade. Ele errou ao presumir que o
dinheiro seria usado de forma capitalista.
E foi exatamente isso que você acabou de dizer, Melissa. A questão
principal aqui é que Smith assume o que precisa ser comprovado. Ele está
assumindo que o capitalismo já existe. Sim, se ele já existe, então uma
bonança como um tesouro poderia acelerar o ritmo de desenvolvimento.
Mas se ele não existe, esse dinheiro será usado para outros fins, o que
nos leva de volta à questão de onde veio o capitalismo, se não poderia
ter vindo dessa bonança?
MN
Gostaria de retornar a uma das afirmações que você acabou de
fazer, de que é possível localizar no tempo e no espaço geográfico a
origem do capitalismo, que seria a Inglaterra do século XV. Essa é outra
afirmação que está na moda contestar. E, tipicamente, a resposta hoje
em dia é que se trata de uma afirmação “eurocêntrica” de que o
capitalismo se originou na Inglaterra. Então, o que você acha desse
argumento?
VC
É absurdo. Não tem fundamento. Mais uma vez, isso faz parte do
declínio geral do discurso intelectual, não apenas na esquerda, mas em
geral. Para ser uma afirmação eurocêntrica, seria preciso demonstrar que
ela é empiricamente errônea.
O eurocentrismo é uma espécie de provincianismo, o que significa
ignorar fatos óbvios sobre o mundo por ter um viés favorável à Europa.
Em outras palavras, se você tem um viés favorável à Europa, é inevitável
que algo reconhecidamente capitalista possa ser encontrado em outros
lugares, mas você ignora esse fato e se concentra apenas na Europa.
Muito bem. Então, empiricamente, é possível demonstrar que algo
reconhecidamente capitalista poderia ser encontrado em todos os lugares?
Isso vai depender de como você define capitalismo. Ora, se você define
capitalismo apenas como a presença de um mercado, então sim — estava em
todos os lugares. Seria, portanto, eurocêntrico ou racista dizer que o
capitalismo existia apenas na Europa.
Mas o capitalismo não se resume apenas aos mercados. Capitalismo não é
a mera presença de um mercado, mas sim quando o mercado domina a
sociedade. É quando todos se tornam dependentes dos mercados.
Então, será que algo diferente estava acontecendo naquelas partes da
Europa de que estou falando — o noroeste da Europa, que incluía a
Inglaterra, mas também partes da Holanda e o que é chamado de “Países
Baixos” — será que algo diferente estava acontecendo lá?
Acontece que, nos últimos trinta e poucos anos, houve uma
extraordinária profusão de estudos em história econômica. E os
principais historiadores econômicos de todas as partes do mundo
convergiram em torno de algumas descobertas muito interessantes. Essas
descobertas são as seguintes: se analisarmos as taxas de crescimento na
Eurásia — que engloba o continente europeu, mas também a Ásia, a China e
a Índia — o núcleo da economia global naquele período era o
Mediterrâneo e a Ásia. Se observarmos esses países e examinarmos as
taxas de crescimento, seja da renda per capita ou da renda nacional —
qualquer que seja a métrica utilizada —, digamos, de 1300 ou 1400 até o
século XX, constataremos que, de cerca de 1400 a 1600, a Espanha, a
Itália e os Países Baixos decolaram rapidamente. E os Países Baixos
cresceram mais rápido que a Espanha e a Itália por volta de 1500.
Mas logo em seguida, as taxas de crescimento britânicas entram em uma
trajetória completamente nova, de modo que, por volta de 1600 ou 1650, a
Inglaterra crescia visivelmente mais rápido do que qualquer outro país
europeu. E a China e a Índia, que de fato lideravam o crescimento na
Ásia entre 1500 e 1700, juntamente com o resto da Europa, estavam
ficando para trás da Inglaterra e dos Países Baixos.
Existe um consenso muito forte sobre isso. Se, empiricamente, a
Inglaterra estiver em uma trajetória de crescimento diferente da desses
países asiáticos, então surgem duas questões: O que explica o
crescimento explosivo que a Inglaterra está vivenciando? E quando digo
explosivo, refiro-me a taxas de crescimento nunca antes vistas no mundo.
Algo acontece entre 1500 e 1550, certo? É preciso levar isso em
consideração. A segunda questão é: de onde vem esse crescimento? Por que
ele ocorre?
Esta tem sido a questão teórica central de toda a ciência social há
cerca de trezentos anos: o que explica a divergência dessa parte da
Europa em relação ao resto do mundo?
A melhor explicação para isso é que, de repente, as pessoas nesse
país tiveram que seguir tipos diferentes de atividades e estratégias
econômicas apenas para sobreviver, em comparação com as que estavam
disponíveis nos primeiros mil e quinhentos anos após a morte de Cristo,
período que coincidiu com a ascensão do capitalismo. Porque até então,
como eu disse antes, a maneira de enriquecer era evitar a atividade de
mercado — priorizando a segurança e acumulando exércitos, séquitos e
meios de coerção (por exemplo, armas de grosso calibre).
Ora, se de fato, empiricamente, essas partes da Europa estão
decolando, deixando o resto da Europa e da Ásia para trás — e deixe-me
enfatizar, não é que a Europa esteja se desenvolvendo rapidamente
enquanto a Ásia e a África não, mas sim que essa parte da
Europa também está deixando o resto da Europa para trás — então é
simplesmente absurdo dizer que localizar o capitalismo na Europa é
provinciano, tendencioso ou ignora os fatos. Na verdade, trata-se de
tentar explicar os fatos. E, a essa altura, não há muito debate sobre
isso. É bastante claro que, por volta de 1600, a Inglaterra e a Holanda
estavam em uma trajetória de crescimento diferente da China, da Índia,
da África e da América Latina.
Portanto, a alegação de que é arbitrário, aleatório ou provinciano
localizar as origens desse novo sistema econômico nessas partes da
Europa não se sustenta. Está na moda, mas não leva a lugar nenhum.
MN
O que aconteceu na Inglaterra e na Holanda naquela época que basicamente transformou suas sociedades em sociedades capitalistas?
VC
O que aconteceu foi que a estrutura econômica foi transformada por
meio de uma ação deliberada, de tal forma que os camponeses das aldeias
não tiveram outra escolha senão se lançar no mercado para sobreviver,
seja como trabalhadores assalariados ou como agricultores que pagavam
aluguéis competitivos.
Basicamente, a partir dos séculos XV e XVI, nesses países, todos
precisavam competir para sobreviver. A competição de mercado tornou-se a
norma. E, como sabemos, a essência do capitalismo é a competição de
mercado.
O que acontecia em todos esses sistemas pré-capitalistas era que as
pessoas não precisavam competir com ninguém no mercado, seja no mercado
de trabalho ou no mercado de produtos, porque produziam principalmente
para si mesmas em suas próprias parcelas de terra, sobre as quais tinham
direitos que não podiam ser retirados.
Enquanto existisse um sistema econômico em que todos tivessem direito
à sua terra e a sua subsistência garantida, as pessoas resistiriam à
dependência do mercado. Isso porque a dependência do mercado, como
qualquer trabalhador lhe dirá, é repleta de insegurança e todo tipo de
vulnerabilidade. E a terra era uma espécie de apólice de seguro. Ninguém
ia abrir mão daquela terra porque, acontecesse o que acontecesse, ela
estava garantida.
“Em meados do século XVI, a Inglaterra já
possuía essencialmente uma economia verdadeiramente capitalista. Isso
ocorreu cerca de cem anos antes de o país ter qualquer tipo de império
real.”
Para a maioria das pessoas, a imunidade à competição de mercado durou
milhares de anos. Mas nesses países, pela primeira vez, massas de
pessoas foram lançadas no mercado. Esse é o segredo da acumulação
primitiva, segundo Marx. Não se trata da acumulação original de riqueza
em algum momento da história, mas sim da transformação da estrutura
econômica por meio de ações deliberadas que, pela primeira vez, forçaram
as pessoas a competir entre si no mercado.
E é essa competição que proporciona essas taxas explosivas de
crescimento da produtividade. Como todos precisam competir no mercado,
não têm alternativa a não ser buscar maior eficiência, reduzir os preços
dos produtos que vendem. E é isso que gera essa constante modernização
da produtividade, das técnicas e de outros aspectos. Isso acontece no
noroeste da Europa.
No restante da Europa, na Ásia e na América Latina, o atraso persiste
por décadas e séculos, pois leva todo esse tempo para que esses países
iniciem e implementem esse tipo de transformação por conta própria.
Essa foi a percepção de Marx: que era necessária uma mudança na
estrutura de classes para que o crescimento moderno acontecesse. E,
entre os historiadores e teóricos sociais mais contemporâneos, foi
Robert Brenner quem, creio eu, defendeu essa ideia com mais veemência do
que qualquer outro no marxismo do pós-guerra. E muito do mérito se deve
a ele por ter apresentado esse ponto de forma tão convincente.
MN
Sim. Eu acrescentaria Ellen Meiksins Wood como outra pessoa que realmente popularizou esse argumento.
VC
Com certeza. Mas, como ela mesma teria lhe dito, ela estava se
baseando nos argumentos de Brenner. E esses dois, eu acho, desempenharam
um papel absolutamente crucial.
Mas deixe-me esclarecer um ponto importante: não se trata apenas
deles. Essa visão representa o consenso a que a maioria dos principais
historiadores econômicos, marxistas e não marxistas, chegou. Existe uma
vasta quantidade de literatura econômica e dados que a corroboram.
O argumento reforça a ideia que considero fundamental para a
percepção revolucionária de Marx: a de que a atividade econômica é
sempre limitada e ditada pela estrutura econômica. Assim, a estrutura
econômica do mundo medieval ditava um tipo diferente de macroeconomia e
microeconomia do que a macroeconomia e a microeconomia do mundo
contemporâneo. E a razão para essa diferença reside nas estruturas
econômicas subjacentes — o que chamaríamos de estruturas de classe.
Ora, isso era bastante compreendido nas décadas de 1970 e 1980. E o
argumento a favor da pilhagem colonial já havia sido praticamente
desacreditado. Ele ressurgiu agora por uma série de razões. Mas, na
verdade, não se sustenta de forma alguma.
MN
Algo me chamou a atenção em seus comentários sobre o mercado
de trabalho. Estamos falando dos argumentos tradicionais de Smith sobre o
desenvolvimento do capitalismo e o que ele é, e um dos dados citados
pelos smithianos é a história do capital mercantil e o fato de que,
durante o feudalismo, havia muitas rotas comerciais e mercados. Havia
muita criação de riqueza. Mas acho que um dos pontos que você está
destacando é que os mercados, por si só, não são suficientes para uma
sociedade capitalista. O que acontece quando se chega a uma sociedade
capitalista é uma transformação completa dos mercados.
VC
Como eu diria, Melissa, os mercados não são um sinal de capitalismo
porque sabemos que eles existem há milhares de anos. Então, você pode
chamar qualquer coisa de capitalismo — a escolha é sua. Mas se você
quiser associar a palavra “capitalismo” àquilo que explica as taxas de
crescimento sem precedentes na história, que vimos surgir nos anos 1500 e
1600 no noroeste da Europa e depois em todo o mundo — se você quiser
dizer que isso é o que o capitalismo representa, seja lá o que for que
explique isso — então não pode ser apenas a presença de mercados. É
quando os mercados assumem o controle de toda a produção. Entre
3000 a.C. e 1500 d.C., os mercados existiam, mas estavam à margem da
sociedade — não geograficamente, mas economicamente.
MN
E isso não significa que eles não estivessem gerando vastas quantidades de riqueza.
VC
Não, eles geravam muita riqueza para algumas pessoas. Mas a questão é
que, se você medisse a atividade econômica na Europa feudal,
descobriria que a atividade mercantil, os mercados e o comércio
representavam apenas uma pequena proporção da riqueza nacional. Em sua
grande maioria, a riqueza nacional vinha da produção para as famílias,
em suas próprias terras, e da produção direta para a classe senhorial
por seus servos. Portanto, o fato de haver atividade mercantil não é um
sinal de capitalismo.
Segundo — e este é o ponto realmente importante — o feudalismo impôs
limites à expansão dos mercados. A questão é que os mercados não
surgiram, digamos, há três mil anos, e continuaram a expandir-se até dar
origem ao capitalismo. Nas sociedades pré-capitalistas, havia espaço
para os mercados, mas sempre existiram limites severos ao seu alcance.
Portanto, havia mercados nas aldeias, como eu disse, mas os camponeses
tendiam a evitá-los ao máximo.
“A explicação alternativa sobre a possível
origem do capitalismo — ou seja, talvez não da pilhagem, mas
simplesmente da expansão do mercado — também é falsa.”
Existe também a ideia de que as cidades eram onde se concentravam os
mercadores e os mercados, e que ali o capitalismo se desenvolveu. Isso
também não é verdade. Os centros urbanos eram controlados diretamente
pela nobreza feudal. Não havia competição urbana entre os fabricantes.
As pessoas não buscavam minimizar custos nem reduzi-los. Os preços eram
completamente controlados administrativamente pelas guildas da época,
que eram associações de artesãos e mercadores, mas também pelos
aristocratas feudais. As cidades eram totalmente controladas e dominadas
pelos latifundiários, e os mercadores dependiam completamente deles
para ter acesso aos mercados.
Não havia qualquer possibilidade de mercadores lutarem contra os
senhores feudais ou de os mercados corroerem as prioridades e o poder
feudais. Os mercados eram internos ao feudalismo. Eram limitados pelo
feudalismo, e os mercadores jamais cogitariam em se insurgir contra os
senhores feudais.
Portanto, essa explicação alternativa sobre a possível origem do
capitalismo — ou seja, talvez não da pilhagem, mas simplesmente da
expansão do mercado — também é falsa. Como eu disse, essa foi a
percepção revolucionária de Marx: não é que o mercado cria o
capitalismo, mas sim que o capitalismo cria o mercado. Isso resume bem a
questão.
Não quero dizer literalmente que os mercados não existiam antes do
capitalismo. Foi a consolidação do capitalismo que finalmente permitiu
que os mercados se expandissem ao ponto em que estão hoje. Então, por
que isso aconteceu? Aconteceu porque, como disse Marx, o que ocorreu na
Inglaterra foi a expropriação das classes camponesas, que as lançou no
mercado de trabalho e, posteriormente, no mercado de produtos.
MN
Certo. E esta é outra frase técnica, mas muito comum, que se
ouve sobre a análise marxista: que, no capitalismo, os trabalhadores não
possuem seus próprios meios de produção. A distinção aqui é que, nas
sociedades feudais, os camponeses possuíam diretamente seus meios de
produção. Não havia alienação do trabalhador em relação ao seu trabalho.
Eles tinham muito controle sobre o processo de trabalho, de uma forma
impensável hoje em dia. Mas, com a transformação da economia feudal em
economia capitalista, tudo isso lhes é tirado. E eles são lançados nessa
nova realidade, que é o mercado de trabalho capitalista.
VC
Sim. O capitalismo surge quando a estrutura econômica é alterada. E isso não acontece por si só. Requer ação.
MN
Então, se rejeitamos os argumentos sobre a pilhagem colonial e
a expansão do capital mercantil, o que dizer dos argumentos
apresentados por alguém como Max Weber sobre uma certa mentalidade ou
forma de pensar que levou a essa transição para a sociedade capitalista?
VC
Você quer dizer algo como o protestantismo, por exemplo?
MN
Sim, a ética protestante do trabalho.
VC
O auge da carreira de Weber foi nas décadas de 1950 e 60. Curiosamente, na história econômica, ele não teve muita influência.
A verdadeira influência residia na sociologia do desenvolvimento e em
certos ramos da história cultural, onde se levou a sério a ideia de que
foi a presença do protestantismo que, em primeiro lugar, possibilitou o
surgimento do capitalismo. Mas, mais importante ainda, e igualmente
relevante, era a ideia de que algum tipo de mentalidade protestante
seria necessária no Sul Global para que essas regiões se desenvolvessem.
Porque, lembrem-se, nas décadas de 1950 e 60, grande parte do Sul
Global ainda era predominantemente agrícola. E seu principal desafio era
como acelerar e fomentar o desenvolvimento.
Ora, o argumento da ética protestante de Weber era que o que deu
origem ao capitalismo foi uma mudança prévia na orientação das pessoas
em relação ao mundo e em suas mentalidades. E, portanto, no Sul, também
seria necessária uma orientação desse tipo para que o capitalismo
surgisse.
Esse era um argumento plausível nas décadas de 1940 e 50, porque,
como eu disse, em grande parte do Sul Global, ainda não havia uma
economia capitalista visível, já que a economia era predominantemente
agrária. Esse argumento, porém, perdeu força rapidamente nas décadas de
1970 e 80, quando vimos países como Japão, Coreia e Brasil se
desenvolverem muito, muito rapidamente, onde, obviamente, não havia
qualquer vestígio de protestantismo.
Por que isso aconteceu? O que isso nos diz? Diz duas coisas.
Penso que a experiência do Sul Global nos ensinou que não é preciso
uma mudança prévia de mentalidades para alcançar o domínio do mercado. O
que acontece, na verdade, é que o domínio do mercado dá origem às
mentalidades funcionalmente necessárias.
“Capitalismo não é a presença de um mercado, mas sim quando o mercado governa a sociedade.”
Então, em todos esses países onde não havia sequer um vislumbre de
protestantismo, por que surgiu um capitalismo desenfreado e pleno na
década de 1980? Bem, é porque tiraram o campesinato e suas terras. E
aqui está a essência da questão: uma vez que você tira a terra das
pessoas e as joga no mercado, elas não precisam ler Calvino ou Martinho
Lutero para entender o que fazer. Elas vão sair em busca de emprego. E
uma vez que saem em busca de emprego, e as pessoas para quem trabalham
percebem que precisam vender seus produtos para sobreviver no mercado,
elas farão o que for necessário para sobreviver, o que envolve cortes de
custos e atividades para aumentar a eficiência.
O que se observa é que o capitalismo estava emergindo em todos os
lugares, independentemente da cultura e da religião. E a dinâmica desse
capitalismo é a mesma em todos os lugares, pelo menos no sentido mais
restrito de que a busca pela maximização do lucro e a procura por
emprego se enraizaram em todo o mundo. Assim, nas décadas de 1970 e
1980, ficou bastante claro que, se isso estava acontecendo no Sul
Global, provavelmente também era o caso nos países capitalistas
originais, onde o protestantismo não era necessário. E onde estava o
protestantismo na Inglaterra de 1480 até os anos 1500, não é mesmo?
MN
Isso parece ser uma má notícia para o argumento weberiano.
VC
Certo. Acho que a noção de que era necessária uma mudança prévia de
mentalidade para que o capitalismo surgisse não se sustenta. E aqui está
o ponto interessante: Weber é muito evasivo quanto a isso. Ele afirma e
depois recua, porque acredito que ele compreendeu que a base empírica
para tal é muito frágil. Isso se tornou uma espécie de versão popular e
superficial do seu livro, na qual se argumenta que existe uma sequência
causal que vai de mudanças de mentalidade a mudanças na economia. Se
essa for a forma como você interpreta Weber, acho que essa interpretação
perde credibilidade.
E, curiosamente, se você ler os debates entre historiadores
econômicos dos últimos sessenta anos, essa questão sequer surge. E isso é
um sinal bastante claro de que eles simplesmente nunca a levaram a
sério. As questões que surgem são as que Marx levantou, como: Por que
ocorreram os cercamentos? Por que a produtividade disparou? De que forma
isso estava ligado à competição de mercado? E assim por diante. Weber,
felizmente ou infelizmente, não teve muita influência nos debates
contemporâneos entre aqueles que de fato estudam esse assunto, os
historiadores econômicos.
MN
Então, se existem todas essas evidências que comprovam de
forma bastante definitiva seu argumento, de onde vem esse outro
argumento sobre pilhagem colonial? Por que ele continua surgindo?
VC
Surgiu, na verdade, do nacionalismo do Terceiro Mundo, do
nacionalismo anticolonial, no final do século XIX, e se expandiu ao
longo dos primeiros séculos do século XX. A motivação, creio eu, era
respeitável, pois buscavam contrapor a justificativa para o domínio
colonial que emanava das metrópoles dos países europeus. E essa
justificativa era: “Fazemos isso por um senso de missão moral, um
compromisso moral de civilizar, educar e elevar. Portanto, estamos
arcando com os custos dessa responsabilidade e partiremos quando
acharmos que vocês estão prontos.”
Assim, os nacionalistas tiveram que lidar com essa racionalização, ou
justificativa, que dizia que o domínio colonial era, na verdade, um
sinal da moralidade ocidental e do seu senso de responsabilidade. O que
eles queriam dizer era: “Vocês não estão fazendo isso por bondade, estão
fazendo porque estão ganhando algo com isso. Vocês não estão aqui para
nos educar, estão aqui para benefício próprio.”
Portanto, a versão mais fraca do argumento era dizer que existe uma
base material para o colonialismo. E isso estava 100% correto.
Os britânicos não entraram na África e na Ásia, e os franceses não
entraram no Oriente Médio e na África, para fazer justiça aos nativos.
Eles foram para lá porque setores do capital britânico e francês queriam
obter lucros e foram para lá em busca desses lucros.
Nesse ponto, os nacionalistas estavam certos. Mas havia uma versão
mais forte do argumento — e eu entendo por que eles queriam apresentá-la
— que era a seguinte: “Não se trata apenas de alguns de vocês terem
enriquecido e por isso terem vindo para a Índia e para a África para se
enriquecerem. Toda a sua riqueza veio da pilhagem do nosso país.” Então,
você pode ver como essa é uma maneira muito mais provocativa de dizer:
“Que se danem vocês. Vocês não só não fizeram isso por um senso de
moralidade, como o seu enriquecimento, o fato de vocês serem tão ricos,
veio do nosso trabalho, das nossas costas.”
“O argumento de que o próprio capitalismo ocidental surgiu da pilhagem está completamente errado. Mas a motivação por trás dele estava correta. É fato que o colonialismo foi uma abominação.”
Então, essa foi, creio eu, a motivação inicial. Agora, acontece que
acho que o argumento está bastante equivocado. O argumento de que o
próprio capitalismo ocidental surgiu da pilhagem está completamente
errado. Mas a motivação por trás dele estava correta. É verdade
que o colonialismo foi uma abominação. É verdade que foi impulsionado
por incentivos materiais. Mas você pode fazer todas essas afirmações sem
argumentar ainda que o capitalismo surgiu da pilhagem colonial.
MN
Então, se essa era a justificativa naquela época, qual é a justificativa agora?
VC
Como eu disse, foram os marxistas do Sul Global e do Ocidente que
desacreditaram essa linha de raciocínio nas décadas de 1970 e 1980. Nas
décadas de 1960 e 1970, ela ressurgiu na forma do que se chama de
“Terceiro-mundismo”, que era a ideia de que o Norte Global explora
coletivamente o Sul Global. E você pode ver como isso é uma extensão da
visão de que o capitalismo no Ocidente surgiu da pilhagem do Sul Global.
Podemos simplesmente estender isso para dizer que o Norte Global
continua rico por causa da pilhagem do Sul.
Mas, empiricamente, podemos demonstrar que foi um erro. E, pelas
razões que mencionei, também teoricamente, é muito difícil explicar por
que os senhores feudais teriam adotado o capitalismo simplesmente por
terem muito dinheiro em mãos. Portanto, o sistema foi desacreditado. Já
tenho idade suficiente para ter visto esse sistema desaparecer ou se
tornar clandestino na década de 1990.
Mas, diria eu, nos últimos seis ou oito anos, houve um ressurgimento.
Por quê? Na minha opinião, é uma das dimensões ou consequências dessa
corrida para o reducionismo racial nos
últimos seis ou oito anos. Vemos isso repetidamente agora, essa noção
de que o colonialismo e a pilhagem colonial foram uma expressão do que
se chama de “supremacia branca global”. Essa ideia de que a pilhagem do
mundo colonial foi o que enriqueceu o Ocidente é fácil de traduzir em
termos raciais. Que foram as nações mais claras, mais brancas, que
conseguiram fazer essa transição para o capitalismo em virtude da
pilhagem das nações mais escuras.
MN
Assim, transforma-se um argumento materialista numa espécie de argumento semimaterialista, mas, no fundo, racialista.
VC
Está transformando um argumento de classe em um argumento racial e
nacional. E na esquerda atual, o nacionalismo e o racismo são as
ideologias dominantes. É impressionante como esse tropo, essa
“supremacia branca global”, se tornou tão comum na esquerda. E é
completamente absurdo. Não tem absolutamente nenhuma conexão com a
realidade.
Mas isso se tornou moda na esquerda porque permite alinhar o
radicalismo com a atual onda de políticas de identidade racial. E a
essência disso é que quaisquer divisões que possam existir dentro das raças, empalidecem — sem trocadilho — em relação às divisões entre as raças.
MN
Bem, talvez a China se tornar a nova potência hegemônica global nos ajude de alguma forma.
VC
Mas, brincadeiras à parte, essa noção de supremacia branca global é realmente perniciosa. Na melhor das hipóteses, o que se pode dizer
é que a supremacia branca era o tipo de ideologia racionalizadora do
colonialismo. Não há dúvida disso. O colonialismo se justificava por
meio de todo tipo de noção racista.
Mas a ideia de que isso de fato consolidou uma aliança profunda entre
trabalhadores ocidentais e capitalistas ocidentais, a ponto de os
trabalhadores ocidentais compartilharem mais com seus próprios
capitalistas do que com os trabalhadores do Sul Global, não é apenas
factualmente errada — e é profundamente errada — como também é bastante reacionária.
Porque, até recentemente, as únicas pessoas que diziam isso eram
basicamente supremacistas brancos, pois viam o mundo como um mundo de
tribos raciais em guerra. E é a essa posição que parte da esquerda
chegou agora, com doses muito fortes de reducionismo racial.
Essa é a única explicação que consigo encontrar, porque a base
factual para essa afirmação sobre pilhagem colonial e capitalismo é
zero. A coerência teórica e a plausibilidade do argumento também são
nulas. Afinal, qual seria o mecanismo pelo qual os senhores feudais
realmente mudariam suas regras econômicas de produção simplesmente por
terem recebido mais dinheiro? Ninguém conseguiu explicar isso ainda.
Então, por que você traria esse argumento de volta? Acho que tem a
ver com essa demonstração de virtude e com o reducionismo racial. E meu
palpite é que isso vai se dissipar à medida que a esquerda amadurecer e
deixar de ver essa como a face respeitável do radicalismo.
MN
Se entendi corretamente seu argumento, basicamente o que você
está dizendo é que devemos entender a acumulação primitiva não como um
acúmulo de riqueza que foi repentinamente distribuído para maximizar o
lucro, mas sim como uma mudança nas relações sociais básicas, de modo
que os camponeses foram expulsos de suas terras e lançados em um mercado
de trabalho capitalista recém-criado. Se for esse o caso, isso
aconteceu apenas uma vez na Inglaterra e depois surgiu o capitalismo? Ou
esse é um processo que continua ocorrendo dentro do capitalismo?
VC
Bem, se o capitalismo quiser se espalhar para outras partes do mundo,
o mesmo processo precisa acontecer em todos os outros lugares também. E
como isso não acontece tudo de uma vez, ao longo do tempo, conforme o
capitalismo se expande, ele continua a desapropriar o campesinato,
forçando-o ao trabalho assalariado e a migrar para as cidades.
E isso ainda acontece hoje nesse sentido, porque ainda existem partes
do mundo com grandes setores agrícolas em que as pessoas possuem suas
próprias terras e não trabalham assalariadamente. E se o capitalismo
quiser se espalhar por lá, elas terão que ser integradas ao que chamamos
de produção de mercadorias. Portanto, não é algo que aconteceu apenas
uma vez e depois em nenhum outro lugar.
Mas também se pode afirmar que os princípios subjacentes continuam
relevantes em países como a Inglaterra e os Estados Unidos, que passaram
pela sua transição agrária há séculos.
Eis como entender por que esse princípio ainda é relevante. O que a
acumulação primitiva buscava alcançar? Ela buscava privar a população
trabalhadora do acesso à sua subsistência, à sua alimentação, às suas
necessidades, às suas necessidades de moradia, o acesso a essas coisas
fora do mercado. Originalmente, isso era feito confiscando as terras dos
camponeses, pois era assim que eles sobreviviam.
Mas alguém poderia perguntar: mesmo dentro de um capitalismo maduro,
não é ainda possível que as pessoas tenham acesso a necessidades básicas
fora do mercado? E a resposta é sim, elas ainda conseguem, seja por
meio de coisas como possuir seus próprios terrenos, seja por meio de
seus próprios meios de subsistência, mas principalmente por meio de
coisas como o Estado de bem-estar social.
Você pode pensar no Estado de bem-estar social como algo que garante
às pessoas o acesso a necessidades básicas como um direito, assim como
acontecia no feudalismo. Elas tinham acesso a necessidades básicas
porque possuíam direitos sobre a terra. E assim como isso era uma
barreira para o capitalismo naquela época, o Estado de bem-estar social é
visto pelos capitalistas como uma barreira à sua expansão e
lucratividade atuais. É por isso que os capitalistas se opõem ao que se
chama de “desmercantilização” — que é quando bens que eram comprados e
vendidos no mercado são retirados do mercado, sendo concedidos às
pessoas como direitos.
Nesse sentido, mesmo que tecnicamente não seja uma “acumulação
primitiva” o que está acontecendo hoje, o princípio por trás da oposição
dos capitalistas aos bens não mercantilizados é mais ou menos o mesmo
de quando o capitalismo surgiu, há quatrocentos anos. Nesse sentido,
pode-se dizer que é um processo contínuo, inclusive dentro do próprio
capitalismo.
A questão crucial é a seguinte: o capitalismo e os capitalistas
buscam constantemente manter a expansão máxima possível da
mercantilização. E qualquer movimento para restringir o alcance das
mercadorias encontrará resistência por parte do capital. Isso se reflete
em todos os tipos de conflitos políticos e sociais da atualidade.
é professor de sociologia na New York University. Seu livro mais
recente, ‘Postcolonial Theory and the Specter of Capital’ [“Teoria
Pós-colonial e o Espectro do Capital”] acaba de ser publicado pela
editora Verso.
Melissa Naschek
é militante dos Socialistas Democráticos da América (DSA).