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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

 

Contra a falsa simetria das tesouras:
uma carta aberta no momento em que o Irão resiste a uma guerra ilegal de agressão

– Resposta a intelectuais do Norte Global

Vijay Prashad [*]

Cartaz de Mohamma Dansari.

Caros amigos e colegas,

Os Estados Unidos e Israel lançaram uma guerra de agressão contra o Irão em fevereiro deste ano. Há seis meses, mísseis e bombas norte-americanas caem sobre alvos civis e militares dentro do país. Hospitais, escolas, instalações de energia e bairros foram atingidos. As 168 alunas mortas em Minab tornaram-se o terrível símbolo desta guerra. Os iranianos foram forçados a viver sob a expectativa constante de um novo ataque, enquanto famílias iranianas fora do país suportam a agonia peculiar de assistir à destruição à distância. Isso vem na sequência de três anos de genocídio israelense em Gaza, que vem sendo perpetrado graças ao apoio militar incansável dos Estados Unidos.

O Irão não iniciou esta guerra. Os Estados Unidos e Israel é que o fizeram. O Irão está resistindo a um ataque armado contra seu território e seu povo. Esse fato elementar deve determinar o momento, a linguagem e as responsabilidades políticas de qualquer pessoa que escreva sobre o Irão neste momento.

Foi nesse contexto que li vossa carta aberta aos presos políticos do Irão.

Entre vocês estão ex-prisioneiros políticos (como Angela Davis) e um prisioneiro político atual (Mumia Abu-Jamal). Tenho concordado com muitos de vocês na maioria das grandes questões de nosso tempo. É claro que há elementos da vossa carta com os quais concordo, mas sinto que esta carta, neste momento, desempenha um papel politicamente prejudicial. Justamente quando os Estados Unidos e Israel estão na defensiva, essa carta pode gerar o tipo de confusão política que obscurece a dinâmica política real no terreno:   o Irão detém a vantagem estratégica, tendo transformado a questão dos EUA e de Israel (se o Irão deve ter permissão para possuir armas nucleares) em uma questão iraniana (se o Irão deve permitir o comércio por suas águas territoriais sem impedimentos). Isso constitui o pano de fundo da clareza moral da esquerda:   a guerra de agressão que fracassou e que colocou o Irão, bem como seus vizinhos, em uma discussão sobre segurança regional, em vez de segurança imperial.

Mas esta carta, proveniente do Norte Global, oferece o tipo de pretexto ideológico que os EUA adoram:   se os EUA perderam, que todos os lados percam e que todos os lados sejam culpados.

A imagem central usada na carta, as duas lâminas de uma tesoura, é evocativa, mas errônea. Ela sugere que uma das lâminas é a República Islâmica e a outra são os Estados Unidos e Israel, com o povo iraniano sendo cortado por ambos. O erro da tesoura não é meramente que suas lâminas sejam desiguais. É que a imagem faz com que o agressor e o agredido pareçam fontes paralelas do mesmo perigo, ignorando a história e a hierarquia que os conectam. O imperialismo norte-americano não é simplesmente uma opressão ao lado de outra. Ele é a força que cercou o Irão, devastou a região, armou Israel, impôs sanções a uma população inteira e agora levou a guerra ao território iraniano. Vossa carta coloca a agressão e alvo dela no mesmo plano moral.

Os Estados Unidos mantêm mais de 900 instalações militares fora de suas fronteiras, impõem sanções a populações inteiras, financiam e armam o genocídio de Israel em Gaza e destruíram ou desestabilizaram um país após o outro. O Irão, quaisquer que sejam as críticas que se possam fazer ao seu sistema político, nunca iniciou guerras de agressão. O Estado nascido da Revolução de 1979 não iniciou guerras de conquista; ao contrário, sofreu a invasão do Iraque a mando do Ocidente, cerco, sanções, sabotagem, assassinatos e, agora, um ataque direto. As duas lâminas não são equivalentes. Uma é a lâmina da guerra imperialista. A outra, quaisquer que sejam suas contradições internas, é o Estado e a sociedade que estão sendo cortados.

Vazios

A carta aberta argumenta que existe uma “falsa dicotomia entre imperialismo e anti-imperialismo vazio”. Fiquei intrigado com o uso do adjetivo “vazio”.

Primeiro, a defesa efetiva do Irão. O assassinato do comandante Qasem Soleimani em Bagdá, no Iraque, em 2020, marcou uma etapa decisiva na escalada que culminou no ataque ilegal de fevereiro de 2026 contra o Irão. Soleimani foi o arquiteto da estratégia ofensiva do Irão, ou seja, construir um escudo defensivo por meio de grupos armados pró-iranianos que atacariam Israel e posições militares dos EUA a partir do Líbano, da Síria, do Iraque, do Iêmen, da Palestina e de outros países. A partir de 2020, os EUA e Israel passaram a perseguir sistematicamente essa rede, tentando destruir o Hamas, o Hezbollah e o Ansar Allah, além de pôr fim ao uso de Damasco como base para muitos desses grupos, bem como da Síria e do Iraque como linhas de abastecimento logística a partir do Irão. Tendo enfraquecido esse escudo, os EUA e Israel se sentiram encorajados a atacar o Irão. Mas não levaram em conta que o Irão havia construído um mecanismo para atingir as bases americanas nos Estados árabes do Golfo e que restringiria o acesso ao Estreito de Ormuz.

O uso desses mecanismos pelo Irão colocou o país em vantagem estratégica sobre os Estados Unidos e Israel (este último, aliás, que posteriormente se afastou do primeiro plano dessa guerra). O anti-imperialismo do Irão não tem sido de forma alguma “vazio”, na verdade, ele permitiu ao povo iraniano proteger seu país de uma tomada de poder imperialista. Essa é uma conquista significativa que está sendo comemorada em todo o mundo anteriormente colonizado como uma das reviravoltas estratégicas mais importantes sofridas pelos Estados Unidos desde sua derrota no Vietnã em 1975 (as retiradas do Afeganistão e do Iraque têm caráter diferente dessa vantagem estratégica do Irão).

Em segundo lugar, em 1979, os revolucionários iranianos entoavam:   Hoje o Irão, amanhã a Palestina. De fato, apesar da repressão à esquerda no Irão logo após a revolução e com a formação da República Islâmica, o compromisso com a Palestina permaneceu firme. O Irão nunca sequer deu a entender que haveria normalização com Israel e, de fato, tem sido enfático na defesa da causa palestina. Nenhum outro país da região tem se comprometido tanto com o movimento de libertação palestino, e nenhum pagou um preço tão alto por esse compromisso.

Por que os Estados Unidos e Israel têm sido obcecados pelo Irão desde 1979? Não por causa de qualquer questão de democracia (o Irão possui um sistema político eleitoral, embora moldado pelo Conselho dos Guardiões e por limitações à participação política – assim como as pretensões democráticas dos Estados Unidos são restringidas pelo poder oligárquico, pela exclusão racial e pelo domínio do dinheiro). Nem mesmo por causa de qualquer ameaça nuclear (a Agência Internacional de Energia Atômica não comprovou que o Irão possua um programa ativo de armas nucleares, ao passo que a liderança iraniana declarou repetidamente que as armas nucleares são religiosamente proibidas).

A razão pela qual eles odeiam o Irão é porque ele é desafiador, e seu desafio inclui sua posição em favor da causa palestina.

É claro que cada um pode ter a opinião que quiser sobre o Irão, mas chamar seu anti-imperialismo de “vazio” neste momento é impreciso.

Os EUA devem recuar

A carta aberta encerra com duas exigências:   primeiro, que o Estado iraniano “cesse agora sua prática desumana de morte e encarceramento”. A oposição comum à pena de morte, que eu compartilho, não é suficiente para colocar os Estados Unidos e o Irão na mesma posição histórica ou política, nem justifica subordinar a exigência imediata de que o agressor ponha fim à sua guerra a uma acusação geral contra o país atacado. Durante esse período de guerra ilegal dos EUA contra o Irão, os Estados Unidos executaram dezenove pessoas por injeção letal, mas a carta não diz nada sobre isso (nem sobre o tratamento genocida dos prisioneiros palestinos nas versões israelenses de Guantánamo – como a prisão de Sde Teiman, sobre a qual Wesam Afifa escreveu de forma tão comovente; a única afirmação é dizer que o Irão usa “a mesma lógica de dominação” que Israel, o que é uma formulação muito estranha). Podemos nos opor à pena de morte. Podemos exigir o devido processo legal e tratamento humano para os prisioneiros. Podemos ouvir atentamente os trabalhadores, as mulheres, as minorias e os ativistas políticos iranianos. Mas a crítica interna não pode ser dissociada das condições concretas em que é feita.

A segunda exigência da carta aberta é que os EUA e Israel “devem pôr fim às suas guerras bárbaras e às sanções brutais que, conscientemente, devastam nossas comunidades”. Estamos em completo acordo nisso. Mas a carta não é dirigida aos Estados Unidos, e sim aos presos iranianos. Essa é outra curiosidade de sua formulação. Os signatários são, em sua maioria, cidadãos norte-americanos. Por que não escrever ao próprio governo deles? A carta dedica a maior parte de sua energia analítica à construção de uma lógica carcerária comum entre os dois países, enquanto a exigência dirigida contra os agressores imperialistas é comprimida em sua frase final. A condenação formal da guerra não desfaz a arquitetura política da carta, que confere status semelhante à guerra de agressão dos EUA e de Israel e ao sistema prisional iraniano. Frantz Fanon nos ensinou que as lutas anticoloniais não se desenrolam sob condições de sua própria escolha. Estados submetidos à ameaça permanente de invasão, sabotagem e mudança de regime desenvolvem profundas contradições internas, incluindo instituições de segurança que podem usar a coerção contra seu próprio povo.

Vocês pedem à “sociedade civil global e aos ativistas e organizações anti-imperialistas” que “exerçam pressão sobre a República Islâmica, contestando sua narrativa”. Isso equivale, em resumo, a pedir aos povos do mundo que assumam uma posição que enfraqueceria o Irão neste momento, quando ele se mantém firme contra a guerra de agressão. Há um momento para fazer uma exigência e há um momento para agir em solidariedade. Este é o momento de solidariedade com o Irão, e não o momento de fazer uma reivindicação que beneficie os imperialistas agressores.

Caros amigos, não existe neutralidade ou um “terceiro espaço” em meio a uma guerra de agressão. Escreveríamos tal carta ao governo vietnamita em Hanói durante a guerra de agressão dos EUA, ou ao governo cubano, que agora enfrenta um terrível estrangulamento por parte dos Estados Unidos? Por que dirigir essa intervenção contra o Irão neste momento? Por que desafiar o Irão justamente quando ele tem os Estados Unidos e Israel na defensiva? É preciso pedir que o Irão se torne perfeito antes de defender seu direito à sobrevivência?

Neste momento, a solidariedade começa com uma exigência clara: os Estados Unidos e Israel devem pôr fim à sua guerra ilegal e devem recuar.

22/Agosto/2026

[*] Historiador e jornalista, indiano. É autor de quarenta livros, entre os quais se incluem Balas de Washington, Uma Estrela Vermelha sobre o Terceiro Mundo, As Nações Obscuras: uma história do Terceiro Mundo; As Nações Pobres: uma possível história do Sul Global e How the International Monetary Fund Suffocates Africa, escrito em coautoria com Grieve Chelwa. É diretor executivo do Tricontinental: Instituto de Pesquisa Social, correspondente-chefe da Globetrotter e editor-chefe da LeftWord Books (Nova Délhi). Também participou dos filmes Shadow World (2016) e Two Meetings (2017).

Quando uma critica valoriza o atacante

 

A metáfora da tesoura e a ficção de um anti imperialismo
 
« A carta aberta publicada pelo jornal The Guardian no dia 20 de agosto de 2026 tem como título “To Iran’s political prisoners, trapped ‘between two blades of a scissors’” ("Aos prisioneiros políticos do Irão, presos 'entre as duas lâminas de uma tesoura'"). O documento é um manifesto de solidariedade dirigido a ativistas, estudantes, pensadores e prisioneiros de consciência detidos no Irão.
A mensagem central da carta baseia-se na forte crítica a dois blocos opostos, utilizando a metáfora das duas lâminas de uma tesoura para descrever a situação do povo iraniano:
A primeira lâmina: Representa a repressão interna brutal exercida pelo regime da República Islâmica do Irão, denunciando a onda de sentenças de morte e as execuções em massa.
A segunda lâmina: Representa as forças imperialistas externas, criticando duramente a agressão militar e os ataques contínuos dos Estados Unidos e de Israel contra o território iraniano.A carta rejeita o que chama de "falsa binária entre o imperialismo e o anti-imperialismo vazio", defendendo que apoiar a população civil e os detidos políticos exige opor-se simultaneamente à guerra externa e à tirania do regime governante.
Signatários
O documento foi assinado por mais de 20 figuras proeminentes do pensamento de esquerda internacional, académicos e ativistas de direitos humanos, incluindo:Angela DavisJudith ButlerRuth Wilson GilmoreWalden BelloMichael Löwy
Debate e Controvérsia
Embora a carta tenha recebido o apoio de várias organizações de exilados iranianos na diáspora, a sua publicação gerou uma forte reação nos dias seguintes. Colectivos de académicos e intelectuais anti-imperialistas (como o Anti-Imperialist Scholars Collective e o autor Vijay Prashad) publicaram respostas críticas. Os críticos argumentam que a metáfora da "tesoura" cria uma falsa equivalência moral e simetria entre o regime interno e a agressão militar destrutiva liderada pelos Estados Unidos em curso no Médio Oriente.
(Vista geral da I. A. Google)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 

O problema geral da comunicação

Imagem: Chirayu Trivedi
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Por ARTHUR MOURA*

A separação entre experiência vivida e elaboração política é mediada por instituições e profissionais que concentram a palavra autorizada

 

1.

A comunicação pertence ao processo geral de reprodução da vida social e, por essa razão, acompanha as relações pelas quais os homens produzem sua existência, estabelecem vínculos, produzem suas instituições, distribuem funções e organizam o poder. Cada sociedade produz também seus mecanismos de elaboração, registro e transmissão da experiência acumulada, definindo quem dispõe das condições necessárias para falar publicamente, quais conhecimentos recebem legitimidade, quais acontecimentos merecem registro e quais interpretações entram no patrimônio comum de uma determinada época.

Sob o capitalismo, essas capacidades estão submetidas à divisão social do trabalho e à propriedade privada, reproduzindo no campo comunicacional as desigualdades existentes na produção material. A separação entre trabalhadores e meios de produção encontra correspondência na separação entre aqueles que vivem determinados conflitos e aqueles que dispõem dos instrumentos necessários para interpretá-los publicamente. A produção material e a produção social da interpretação estão, portanto, ligadas por relações de poder que atribuem a grupos distintos capacidades desiguais de interferência sobre aquilo que uma sociedade conhece de si mesma.

Essa divisão tem consequências políticas. O trabalhador produz riqueza, participa das relações econômicas que sustentam a sociedade, conhece concretamente a exploração, as pressões do trabalho, o custo da moradia, as dificuldades de transporte, o endividamento, o desemprego, a violência policial, a deterioração dos serviços públicos e as inúmeras estratégias necessárias à sobrevivência cotidiana, mas essa experiência não chega a encontrar meios próprios e permanentes de elaboração coletiva.

O conhecimento produzido no curso da existência está fragmentado, localizado, disperso entre milhões de indivíduos que enfrentam problemas semelhantes sem necessariamente reconhecê-los como componentes de uma mesma estrutura social. Entre a experiência vivida e sua elaboração política instala-se então uma extensa cadeia de mediações composta por jornalistas, pesquisadores, partidos, parlamentares, organizações, comentaristas, produtores culturais e, mais recentemente, influenciadores digitais, cada qual submetido a circuitos específicos de financiamento, prestígio, carreira e autoridade.

 

2.

A divisão capitalista do trabalho favorece esse processo. Jornadas extensas, deslocamentos cotidianos, insegurança profissional, precarização, desemprego intermitente e endividamento reduzem drasticamente o tempo disponível para estudo, reunião, pesquisa, produção cultural e atividade política. Ao mesmo tempo, determinados segmentos sociais concentram tempo, escolarização, recursos técnicos, acesso institucional, contatos e domínio dos códigos necessários à intervenção pública.

Essa desigualdade produz uma divisão intelectual que não decorre de qualquer incapacidade intrínseca dos trabalhadores, mas de condições materiais desiguais de participação na produção do conhecimento. A especialização comunicacional nasce dentro dessa divisão e rapidamente pode cristalizar posições de autoridade. O jornalista conhece os códigos da imprensa; o acadêmico domina uma linguagem legitimada pelas instituições científicas; o dirigente partidário dispõe dos contatos e estruturas de sua organização; o parlamentar tem acesso privilegiado aos meios; o influenciador controla uma audiência acumulada. Aos demais cabe frequentemente fornecer experiência, testemunho, voto, atenção e engajamento.

A transformação dessa diferença funcional em hierarquia política é um dos problemas fundamentais da comunicação contemporânea. O domínio técnico necessário à produção audiovisual, ao jornalismo, à pesquisa ou à administração de plataformas pode ser conhecimento socialmente útil, desde que esteja submetido ao controle coletivo e circule entre aqueles que participam do processo. Sob relações hierárquicas, porém, a especialização tende a se autonomizar e criar uma camada que administra a palavra pública.

A divisão entre concepção e execução, tão característica da produção capitalista, reaparece no interior da comunicação: alguns pensam, selecionam, editam, interpretam e decidem; outros fornecem matéria social para essa elaboração e recebem posteriormente o resultado acabado. A autonomia dos produtores depende também do controle dos meios, das decisões e da circulação daquilo que produzem; caso contrário, a independência continua restrita ao plano aparente.

Essa separação nos ajuda a compreender por que sociedades desiguais conseguem preservar por longos períodos determinadas interpretações do mundo mesmo diante de crises recorrentes. A dominação burguesa não depende de uma unanimidade ideológica absoluta. A própria burguesia tem suas frações determinadas pela concorrência entre capitais, disputas econômicas, interesses regionais, conflitos entre setores produtivos e financeiros e antagonismos no interior do bloco dominante.

Essa fragmentação, contudo, ocorre entre agentes que compartilham uma relação fundamental com a propriedade, a exploração do trabalho e a reprodução ampliada do capital. Existem instituições capazes de coordenar seus conflitos sem colocar em risco o princípio geral da ordem social: empresas, associações empresariais, bancos, aparelhos jurídicos, meios de comunicação, universidades, fundações, institutos privados, partidos e o próprio Estado.

A experiência histórica de aparelhos como IPES e IBAD, assim como a emergência posterior de organizações como MBL e Brasil Paralelo, demonstra que diferentes frações dominantes conseguem investir recursos consideráveis na produção de quadros, narrativas, filmes, pesquisas, campanhas e instrumentos de intervenção cultural quando percebem ameaças aos seus interesses.

 

3.

Entre os trabalhadores, a fragmentação tem consequências distintas. A classe se organiza por ocupações, regimes de contratação, territórios, níveis salariais, pertencimentos culturais, diferenças raciais, relações de gênero, gerações, religiões, trajetórias educacionais e inúmeras experiências particulares produzidas pela divisão capitalista do trabalho. Muitas dessas diferenças têm raízes materiais profundas e não podem ser dissolvidas por proclamações abstratas de unidade.

O problema central está na ausência de instituições autônomas capazes de elaborar essas experiências heterogêneas como partes de uma totalidade social comum. O capital dispõe de mecanismos para administrar seus conflitos internos; os trabalhadores frequentemente dependem de estruturas externas ou burocratizadas para estabelecer conexões entre suas próprias experiências. A fragmentação econômica encontra, assim, uma fragmentação comunicacional correspondente.

Essa condição ganhou intensidade com a expansão das plataformas digitais. A internet ampliou extraordinariamente a quantidade de pessoas capazes de emitir mensagens publicamente, mas essa multiplicação de emissores ocorreu dentro de uma infraestrutura concentrada em poucas corporações. A capacidade técnica de publicar uma mensagem disseminou-se enquanto distribuição, visibilidade, armazenamento, monetização, coleta de dados e ordenamento da atenção continuam sob controle de centros privados de poder.

Cada indivíduo dispõe de seu meio de comunicação enquanto todos dependem de sistemas que não controlam. A contradição é relevante porque produz uma experiência subjetiva de autonomia no interior de uma estrutura altamente centralizada. O usuário fala, comenta, publica e compartilha, mas sua atividade alimenta simultaneamente bancos de dados, métricas comerciais, sistemas publicitários e mecanismos de segmentação que pertencem às empresas responsáveis pela infraestrutura.

 

4.

O desenvolvimento desse modelo alterou também os critérios de autoridade política. A audiência acumulada começou a funcionar como índice de relevância, e números de seguidores, visualizações e engajamento ganhou peso crescente na definição de quem merece ser ouvido. O mecanismo contém uma circularidade poderosa: aquele que tem visibilidade recebe novos convites, participa de grandes canais, amplia suas relações, fortalece sua autoridade e ganha ainda maior visibilidade.

Quem está em circuitos menores encontra obstáculos crescentes para interferir sobre o debate público, independentemente da consistência de sua elaboração fazendo com que a métrica digital tenha o lugar da inserção concreta nas lutas sociais como critério de autoridade política. O algoritmo integra uma estrutura anterior à internet: a concentração desigual da capacidade social de falar e ser reconhecido.

A comunicação vinculada às esquerdas incorporou amplamente essa racionalidade. O desenvolvimento tecnológico ofertou novos recursos à velha estrutura da representação política, aproximando dirigentes e audiência sem alterar necessariamente a posição ocupada pelos sujeitos dentro da relação. O parlamentar transmite ao vivo; o intelectual mantém canais próprios; o partido atua em redes sociais; o militante profissional transforma análise política em produção diária de conteúdo; o público comenta, compartilha, financia e acompanha.

A proximidade aparente pode esconder uma separação persistente entre produção da orientação política e participação na elaboração dessa orientação. A velha reunião de cúpula encontra novos meios de difusão, a propaganda partidária assume linguagem audiovisual contemporânea e o profissional da política aprende a administrar comunidades digitais. A tecnologia aperfeiçoa a circulação sem resolver o problema da autonomia, sendo, portanto, necessário promover a crítica da comunicação, que encontra a crítica da organização.

Uma estrutura política baseada na separação entre dirigentes e dirigidos produzirá uma comunicação compatível com essa divisão; uma organização cujo centro reside na representação eleitoral tenderá a tratar comunicação como propaganda, construção de imagem, disputa de narrativa e mobilização periódica da base; uma organização que depende do protagonismo de determinadas personalidades tenderá a concentrar recursos comunicacionais nessas figuras; uma estrutura orientada pela competição eleitoral buscará alcance, persuasão e reconhecimento público.

O modelo comunicacional expressa, portanto, o tipo de relação política que o sustenta. Sua verticalidade tem raízes organizacionais e sociais muito mais profundas do que escolhas estéticas ou técnicas. Esse é um dos pontos presentes na crítica ao circuito do webcomunismo e da chamada esquerda radical, onde a linguagem revolucionária pode conviver com práticas comunicacionais assentadas na autoridade individual, na audiência e na integração institucional.

 

5.

A questão ganha maior gravidade porque a comunicação participa da constituição do sujeito político. Quem está na posição de receptor aprende a reconhecer outros como produtores legítimos da interpretação, podendo concordar, discordar, comentar ou abandonar determinado canal, mas continua situado diante de uma estrutura já pronta fazendo com que experiências desse tipo produzam hábitos políticos como esperar que alguém explique a conjuntura, interprete uma eleição, diga quais acontecimentos são relevantes, apresente os inimigos, estabeleça prioridades e ofereça alguma projeção sobre o futuro.

A dependência comunicacional encontra assim a dependência política. A ausência de organizações próprias aumenta a demanda por representantes, enquanto a presença contínua de representantes enfraquece a necessidade social de construir instrumentos autônomos o que nos leva a entender a força contemporânea dos gurus, influenciadores, especialistas e personalidades políticas.

Em períodos marcados pela deterioração das referências coletivas, esses indivíduos oferecem coerência a experiências sociais fragmentadas. Sua eficácia deriva da existência real de uma demanda por interpretação em uma sociedade na qual milhões de pessoas carecem de meios coletivos para elaborar aquilo que vivem. A autoridade personalizada ocupa o espaço deixado pelo enfraquecimento das instituições autônomas dos trabalhadores.

Por isso, qualquer discussão séria sobre comunicação popular precisa começar antes da mensagem, do canal ou da tecnologia. Seu problema inicial são as relações sociais que estabelecem quem dispõe da capacidade de produzir conhecimento público e quem depende da interpretação produzida por outros. A democratização técnica do acesso à emissão é apenas uma dimensão dessa questão. Controle dos meios, tempo disponível, formação, propriedade, financiamento, organização, poder decisório, circulação e memória precisam ser examinados como elementos de um mesmo processo.

Uma comunicação vinculada à emancipação dos trabalhadores terá de enfrentar essa divisão em sua estrutura, sob o risco de reproduzir internamente aquilo que pretende combater.

É nesse ponto que a pergunta sobre a comunicação popular deixa de ser uma discussão abstrata sobre linguagem ou conteúdo e assume caráter organizacional. Se trabalhadores devem ser os sujeitos de sua própria emancipação, precisam também conquistar capacidade coletiva para conhecer, interpretar, registrar e comunicar sua experiência histórica.

A produção da consciência integra o processo pelo qual uma classe fragmentada pode reconhecer relações comuns, elaborar divergências, acumular memória, produzir critérios de decisão e construir poder próprio. A comunicação popular começa precisamente nesse problema: quem produz a interpretação da experiência dos trabalhadores e sob controle de quem essa interpretação circula?

*Arthur Moura é doutorando em História Social na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

 

sábado, 22 de agosto de 2026

Espinoza e o pensamento ecológico contemporâneo

 

Por LISZT VIEIRA*

A ontologia de Espinoza dissolve a cisão entre humanidade e natureza, oferecendo à ecologia contemporânea uma base para pensar o humano como parte consciente de uma totalidade viva, não como seu senhor

“Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar e maldito seja em seu levantar, maldito ele em seu sair e maldito ele em seu entrar … “Ninguém lhe pode falar vocalmente nem por escrito, nem lhe dar nenhum favor, nem debaixo de teto estar com ele, nem junto de quatro covados. Nem ler papel algum feito ou escrito por ele” (trecho do herem – banimento/excomunhão – de Baruch Spinoza por “horrendas heresias”, proclamado pela comunidade judaica de Amsterdã em 27 de julho de 1656).

1.

A filosofia de Baruch Espinoza (1632–1677) estabelece uma das bases conceituais mais profundas para a visão moderna de ecologia, antecipando em séculos o pensamento ecocêntrico e a recusa da cisão entre humanidade e natureza. Sua filosofia pode ser lida como um importante antecedente filosófico do pensamento ecológico, sobretudo por sua crítica ao antropocentrismo e por sua concepção da natureza como uma totalidade da qual o ser humano é parte.

Para ele, Deus não é um ser pessoal, transcendente, que criou o mundo a partir de fora. Deus é a própria realidade infinita, a natureza em sua totalidade. Tudo o que existe – seres humanos, animais, plantas, rios, astros – são modos ou manifestações dessa única realidade. Isso rompe com uma concepção muito difundida no Ocidente segundo a qual o ser humano estaria separado da natureza e ocuparia uma posição privilegiada dentro da criação.

Para Baruch Espinoza, não existe um Deus transcendente que criou o mundo a partir do nada e que governa a realidade de fora. Ele propõe a célebre fórmula Deus sive natura (Deus, ou seja, a natureza): existe apenas uma única Substância infinita, da qual tudo o que existe faz parte.

Da perspectiva ecológica contemporânea, essa ideia é extremamente fecunda: o ser humano não está fora da natureza, nem é seu senhor; é uma parte da natureza. Rompe-se o dualismo cartesiano, a separação radical entre o espírito e matéria, entre homem e natureza. A humanidade não é “senhora e proprietária da natureza”, mas sim uma modalidade finita inserida em um todo vivo e interconectado.

Espinoza antecipa a visão sistêmica da Terra (como a Hipótese de Gaia), onde a biosfera não é um depósito estático de recursos para uso humano, mas um processo vivo, auto-organizado e em perpétua transformação. Espinoza criticou duramente a ideia de que a natureza existe exclusivamente para servir aos seres humanos. Ele argumentava que o antropocentrismo é uma ilusão nascida da ignorância das causas reais das coisas.

 

2.

Na filosofia tradicional, especialmente na tradição judaico-cristã, a natureza pode ser entendida como algo criado para servir ao homem. Espinoza rejeita radicalmente essa concepção. No Apêndice da Parte I da Ética, critica a ideia de que todas as coisas naturais tenham sido criadas com uma finalidade humana. Para ele, é uma ilusão pensar que a natureza existe para atender às necessidades humanas.

Essa crítica tem enorme afinidade com a ecologia moderna. O pensamento ecológico questiona justamente a ideia de que florestas, rios, animais, solos e oceanos sejam apenas recursos colocados à disposição da humanidade. O ser humano é natureza, não está diante dela.

Talvez seja aqui que Espinoza mais se aproxime de uma sensibilidade ecológica contemporânea. Ele rejeita a separação radical entre “homem” e “natureza”. O ser humano não constitui um império dentro de outro império – imperium in imperio. Espinoza tem uma leitura ecológica avant la lettre: não somos um reino separado do reino natural. Somos constituídos pelas mesmas relações naturais que constituem todos os demais seres.

Essa concepção antecipa, em termos filosóficos, aquilo que a ecologia científica demonstraria séculos depois: os organismos não podem ser compreendidos isoladamente, mas dentro de redes de relações e interdependências. Antecipa o conceito moderno de teia da vida e de interdependência ecossistêmica. A sobrevivência e o florescimento de um organismo estão indissoluvelmente ligados ao equilíbrio do meio que o cerca.

Outro conceito importante é “conatus”. Na Ética, Espinoza afirma que cada coisa, na medida de suas possibilidades, procura perseverar em seu ser. O ser humano, portanto, não é uma exceção à dinâmica da natureza. Ele participa de uma tendência geral de conservação e desenvolvimento da própria existência.

Espinoza divide a natureza em duas dimensões dinâmicas: a Natura naturans: A força criadora, ativa, imanente e geradora de todas as coisas (o próprio Deus/universo em constante produção), e a Natura naturata: O conjunto de todos os seres particulares, ecossistemas, leis físicas e criaturas geradas por essa força. Para ele, “A natureza não tem nenhum fim prescrito e todas as causas finais não passam de ficções humanas.” (Ética, Apêndice da Parte I).

 

3.

Uma leitura ecológica pode confirmar essa perspectiva: a vida não deve ser compreendida exclusivamente a partir dos interesses humanos. Os demais seres vivos também possuem sua própria potência de existir. Trata-se de uma ética ecológica da potência, e não da dominação. O ecocentrismo moderno – que defende o valor intrínseco de todas as formas de vida, independentemente de sua utilidade econômica para o ser humano – encontra em Espinoza seu precursor filosófico direto.

Mas o que prevaleceu nos séculos posteriores foi a visão cartesiana de que o homem é o senhor e mestre da natureza. Para René Descartes, o homem é o sujeito, a natureza é o objeto. Em sua obra Discurso do método, Parte VI, publicado em 1637, René Descartes afirma que o conhecimento científico permitirá aos seres humanos tornar-se “como que senhores e possuidores da natureza”. Sua filosofia contribuiu decisivamente para a construção da moderna concepção do sujeito humano como conhecedor e da natureza como realidade exterior passível de ser conhecida, medida e transformada.

Tempos depois, Francis Bacon, em O parto masculino do tempo, preocupado em rejeitar o conhecimento puramente especulativo e defender uma nova ciência prática baseada na observação e na interpretação correta da natureza, afirmou: “…levando-vos a natureza com todos os seus filhos, para prendê-la ao vosso serviço e fazê-la vossa escrava”. Em outra passagem, Francis Bacon afirma que a natureza deve ser “subjugada e dominada”. Francis Bacon frequentemente tratava a natureza como um objeto feminino cujos segredos precisavam ser “conquistados”, “subjugados” ou arrancados por meio da experimentação.

O antropocentrismo, o sentido pragmático-utilitarista do pensamento cartesiano e a oposição do sujeito-homem em relação à natureza-objeto vão marcar a modernidade. A natureza, já não mais povoada por deuses, pode ser dessacralizada, tornada objeto, ser dividida e considerada natureza morta a ser esquartejada. Esse antropocentrismo rompe a possibilidade de integração homem-natureza como partes do Universo.

O patriarcalismo e os sistemas econômicos predatórios que prevaleceram nos últimos séculos, e prevalecem ainda hoje, podem ser considerados, no plano conceitual, decorrências do racionalismo cartesiano que inaugura a modernidade. Discuto essa influência do cartesianismo no pensamento científico moderno em meu ensaio Fragmentos de um discurso ecológico, (Editora Gaia).

Assim, Espinoza pode ser relacionado à ecologia por sua rejeição da ideia de que nossa liberdade consista em dominar a natureza. Para ele, somos mais livres quando compreendemos as causas que nos determinam e aprendemos a agir de acordo com a realidade, e não quando imaginamos que podemos impor arbitrariamente nossa vontade sobre ela. Isso oferece uma crítica filosófica poderosa à ideia moderna de dominação ilimitada da natureza.

A crise climática pode ser vista, nessa perspectiva, como resultado de uma civilização que acredita poder agir como se estivesse separada dos limites naturais: extrair infinitamente, consumir infinitamente e crescer infinitamente em um planeta finito.

É claro que isso não significa que Espinoza tenha antecipado cientificamente a ecologia que, enquanto ciência, só surgiria no século XIX, com autores como Ernst Haeckel. A relação é sobretudo filosófica e conceitual. Ele oferece uma ontologia na qual a separação entre humanidade e natureza perde seu fundamento e permite inverter uma pergunta tradicional. Em vez de perguntar: Como podemos dominar a natureza para satisfazer nossas necessidades? Podemos perguntar: Como podemos compreender nossa inserção na natureza e organizar nossa sociedade de maneira compatível com sua dinâmica e seus limites? Essa mudança desloca a humanidade de uma posição de senhora da natureza para a condição de parte consciente de uma totalidade natural.

Em síntese: Espinoza não foi um ecologista, mas sua filosofia contém elementos extraordinariamente compatíveis com a visão ecológica contemporânea: a unidade da natureza, a inseparabilidade entre humanidade e mundo natural, a interdependência dos seres, a crítica ao antropocentrismo e a rejeição da ideia de que a natureza existe simplesmente para servir aos seres humanos. Isso faz dele um dos filósofos modernos mais férteis para pensar uma ética e uma política ecológicas no século XXI.

*Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor, entre outros livros, de Fragmentos de um discurso ecológico (Editora Gaia). [https://link.amazon/B007S6fn6]

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

 

Uma nação de piratas

– As parcerias com o Reino Unido requerem cautela e atenção de quem as celebra. Londres nunca abdica de correr no seu próprio carril independente dos objetivos comuns celebrados.

Major-General Carlos Branco [*]

Cartaz, autor desconhecido.

Refiro-me à Inglaterra ou se quisermos à Grã-Bretanha. O tema dava para uma tese de doutoramento. Recuando no tempo, convém lembrar como durante os séculos XVI e XVII, a monarquia inglesa abraçou a pirataria como um instrumento de política externa e como no século XVIII a descartou quando já não lhe era conveniente, como a considerou fora da lei e passou a perseguir os piratas. Este princípio da conveniência com pouco apego a princípios éticos tem vindo a nortear a política externa inglesa desde então.

Os oligarcas russos conhecem esta realidade em primeira mão. Inicialmente foram recebidos de braços abertos. A City funcionou durante muitos anos como a lavandaria industrial do seu dinheiro. Era a participação nos fundos de investimentos, nas cadeias de hotéis, nos iates e nos clubes de futebol, mas quando isso se tornou inconveniente não tiveram qualquer pejo em os esfaquear pelas costas e congelar os seus bens e o seu dinheiro. Está bem presente o que aconteceu a Roman Abramovich e com o dinheiro da venda do Chelsea.

É assim que a Grã-Bretanha se tem comportado, e se continua a comportar, não se inibindo de se autoproclamar um baluarte dos valores liberais, que se desvanecem de imediato quando cheira a poder e dinheiro. Não se estranha, por isso, que Londres tenha estendido a carpete vermelha a ditadores e oligarcas. Recorde-se a proteção de Tony Blair ao general Augusto Pinochet, cujo regime foi responsável por milhares de mortes e desaparecidos, numa deslocação a um hospital londrino para tratamento.

A recusa do Governo britânico a cumprir o mandado de captura internacional contra Pinochet, emitido pelo juiz espanhol Baltazar Garzón, foi sustentada pela decisão da Câmara dos Lordes (à época o supremo tribunal) que entendeu que o princípio da imunidade de um ex-chefe de estado prevalecia sobre as normas de direito internacional relativas ao crime de tortura. Pinochet regressou ao acolhedor regaço de Santiago do Chile, em 2000, onde morreu pacificamente com uma provecta idade. Como prova da sua mentalidade pirata, o Governo inglês recusou-se a cumprir as normas do direito internacional, apesar de hipocritamente ter assinado em 1998 o Estatuto de Roma (que cria o Tribunal Penal Internacional) e o ter ratificado em 2001.

Embora este texto não adiante nada que não se saiba e não seja público, convém relembrar alguns acontecimentos procurando contrariar o revisionismo histórico em curso, ciente de que será sempre exíguo o que se escrever sobre a matéria.

A revisão histórica passa pela família real quando mudou de nome para esquecer a sua origem germânica. Antes de Windsor, a casa real britânica chamava-se Saxe-Coburg e Gotha, mas em 1917, durante a I Grande Guerra, devido ao forte sentimento antigermânico existente no Reino Unido, o rei Jorge V achou por bem metamorfosear as suas origens e passar a chamar-se Windsor.

Segundo o historiador Stuart Laycock, os britânicos invadiram ou participaram em conflitos em 171 países, dos 193 que integram atualmente a ONU, tendo tido uma presença militar em cerca de 90% deles. Numa estimativa conservadora, o número de mortes causadas pelo império britânico nestas guerras ao longo dos séculos rondarão os 100 milhões. Não admira que os britânicos sejam responsáveis por grande parte da conflitualidade e dos problemas que presentemente defrontamos.

Basta lembrar-nos das quezílias entre a India e o Paquistão, o Afeganistão, o Médio Oriente, Chipre. Foi este o legado que nos deixaram cabendo às gerações atuais resolvê-los. Os britânicos conseguiram um feito de longe superior ao milagre das rosas da Rainha Santa Isabel, quando prometeram um território que não lhes pertencia a três compradores distintos: aos árabes para os ajudarem na luta contra o Império otomano, aos franceses com o tratado Sykes-Picot e aos judeus através da declaração Balfour, sendo assim os grandes responsáveis por décadas de morte e sofrimento. No novelo das confusões podíamos acrescentar o Afeganistão e a Nigéria, entre muitos outros casos.

A Grã-Bretanha é igualmente responsável pelo processo da partição da Índia em dois países, uma das maiores tragédias humanitárias do século XX, marcada por violência comunal em massa, deslocamento forçado e sofrimento extremo. Causou cerca de 1 milhão de mortos, 12 a 20 milhões de deslocados e cerca de 75 mil mulheres estupradas, sequestradas ou forçadas a casamentos/conversões. Para não falar da repressão sangrenta do movimento anticolonial pacífico liderado por Mahatma Ghandi. A Grã-Bretanha não pode alijar responsabilidades por estes acontecimentos.

Nos dias que correm sente-se a nostalgia britânica do Império onde o sol não se punha. O Brexit foi uma tentativa fracassada de fazer voltar o tempo para trás e matar esperanças vãs. O sempre excelso e honesto ex-primeiro-ministro Boris Johnson afirmou que o colonialismo em África nunca devia ter acabado e desvalorizou o papel da Grã-Bretanha na escravatura.

Para satisfazer esse sonho das glórias passadas, Johnson veio falar de uma “Global Britain” como a opção estratégica nacional a adotar no pós-Brexit, alimentando um sonho irrealizável. Talvez efeito de alucinações, o documento que dava voz a essa ambição identificava a clara intenção de alargar a influência britânica à região do Indo-Pacífico, mesmo quando o fundo dos cofres já estava à vista e a enorme dificuldade em operar a sua frota de guerra era por demais evidente. Ben Barry dá no seu livro The Rise and Fall of the British Army, 1975-2025, uma explicação sobre o estado atual das forças armadas britânicas, expondo o irrealismo de tais propostas.

Manobrando cinicamente pela porta do cavalo, minando a sua "special relationship" com os EUA, e reconhecendo implicitamente a farsa da "Global Britain", Londres escreveu o guião que o primeiro-ministro canadiano Mark Carney, Governador do Banco de Inglaterra de 2013 a 2020, leu no Fórum Económico Mundial, em Davos (2026), em que alertava para a necessidade de as médias potências se unirem e trabalharem em conjunto — formando coligações ou uma espécie de “aliança das médias potências” — para se protegerem e terem voz num mundo marcado pela rivalidade entre grandes potências e pelo fim da ordem internacional baseada em regras. Washington não dorme, está ciente de quem foram os autores da ideia.

E lá foi o rei Carlos III a Washington, em 2026, tentar salvar o que ainda resta da "relação especial" entre os EUA e o Reino Unido, procurando evitar a repetição de humilhações semelhantes à sofrida na crise do Suez (1956), quando o presidente Eisenhower mandou as forças britânicas, francesas e israelitas calar as armas e retirarem-se do Egito. Mais recentemente, na sequência do Global Britain, quando Londres anunciou o desejo de manter dois vasos de guerra permanentemente no Indo-Pacífico, o Pentágono educadamente “desencorajou” a proatividade britânica dizendo a Londres que era um aliado mais útil se dedicasse a sua atenção à Europa.

A narrativa política e a hipocrisia confundem-se permanentemente na política externa britânica. Como afirmou o antigo presidente do Conselho de segurança da ONU Kishore Mahbubani “quando a China estava fraca e indefesa, o Ocidente [a Grã-Bretanha] forneceu ópio à China, quando a China está forte e bem-sucedida, o Ocidente [a Grã-Bretanha] exporta a sua democracia.” Quando os britânicos falam em direitos humanos, talvez irlandeses e indianos, entre muitos outros povos, tenham alguma palavra a dizer sobre o sofrimento e as humilhações que os britânicos lhes causaram. Os povos autóctones da Austrália têm bem presente o que foi o respeito pelos seus direitos quando começaram a chegar ao território os galeões de sua Majestade carregados com a fina flor da escória prisional britânica, que para aliviar o seu sistema prisional os despachou para o degredo no Novo Mundo.

E voltando ao insuspeito Huntington, o “Ocidente ganhou o mundo não pela superioridade das suas ideias, ou valores ou religião… mas pela sua superioridade na aplicação da violência organizada. Os ocidentais esquecem frequentemente esse facto; mas os não ocidentais nunca esquecerão”. Isso aplica-se à peugada deixada pelos britânicos no mundo.

Na sequência do que disse Kishore, são muitos os povos que não esquecem. As populações autóctones daquilo que é hoje a Austrália e os EUA têm presente as “vicissitudes” a que foram sujeitas. Falamos da limpeza étnica feita de uma forma sistemática.

Os chineses serão o povo com maiores razões de queixa das humilhações a que foram sujeitos pelos britânicos. Dificilmente esquecerão os acontecimentos do século XIX quando lhes foi imposta pelos britânicos a obrigatoriedade de lhes comprar ópio para colmatar o desequilíbrio das trocas comerciais. Talvez motivados por um imenso espírito civilizacional, acrescentaram uma nova dimensão à pirataria: o tráfico e a venda de droga.

Quem visita o Palácio de Verão em Pequim vê à entrada dos diferentes pavilhões uma placa que lembra ter sido aquele local totalmente destruído pelas forças franco-britânicas em dezembro de 1860, não sem antes o terem saqueado e incendiado. Os artefactos do Palácio de Verão (Yuanmingyuan) resultantes do furto foram dispersos por várias coleções públicas e privadas inglesas, em vários museus, pertencendo alguns deles à Coleção Real. É mesmo difícil esquecer.

O “cosmopolitismo” britânico está patente nos muitos bens culturais que adornam as coleções dos seus museus, não por doação, mas pelo saque ilegal dos países “visitados” em África, Ásia, América Latina e até mesmo na Europa rivalizando nesta matéria com os franceses. Esses objetos são património cultural e histórico não da Grã-Bretanha, mas dos Estados a que foram “subtraídos”.

O British Museum (Londres) concentra grande parte desse espólio, tendo no Louvre um grande rival. Aí encontra-se a maior coleção individual de “Bronze do Benin” (Nigéria), com mais de 900 objetos. Alberga ainda a Estupa de Amaravati da Índia; esculturas do Partenon (também conhecidas como Mármores de Elgin ou Parthenon Marbles); a Pedra de Roseta do Egipto; estátuas da Ilha de Páscoa. E tantos outros dispersos por outros museus. O Diamante Koh-i-Noor encontra-se na Torre de Londres exposto na Jewel House, juntamente com as outras Joias da Coroa Britânica.

Mas o dilacerante amor britânico pela cultura dos outros povos é rapidamente posto de lado quando o vil metal entra em jogo. Quando acordos para a devolução dos objetos são alcançados, não lhes subjaz um motivo humanitário, têm como pano de fundo razões políticas e económicas. Em 2024, uma escultura de bronze do século XVI de Tirumangai Alvar foi devolvida à Índia porque Londres queria concluir um acordo de livre comércio com Nova Deli.

Em 1953, quando o primeiro-ministro Mossadehg iraniano teve a ousadia de nacionalizar a indústria petrolífera, numa operação que está devidamente documentada, o MI6 e a CIA organizaram conjuntamente um golpe de estado para derrubar um primeiro-ministro democraticamente eleito, e no seu lugar colocarem um déspota servil e vassalo, uma prática anglo-saxónica replicada ao longo da história.

A invasão do Iraque, em 2003, não difere essencialmente do que aconteceu no Irão, em 1953. É uma repetição da história. Efetuou-se uma operação de mudança de regime com base numa grotesca violação do Direito Internacional para colocar no poder dirigentes “moldáveis”. O que estava em causa não eram armas de destruição em massa, mas sim a partilha do espólio das matérias-primas.

Os dirigentes iranianos ainda se lembrarão da dívida britânica de £650 milhões ao Irão, na década de 1970, resultante de uma encomenda 1 500 carros de combate Chieftain e 250 veículos de recuperação de blindados não entregues. Com a revolução em 1979, o Reino Unido cancelou o contrato e, como fez com os oligarcas russos, ficou com o dinheiro. Apesar da arbitragem internacional ter confirmado uns anos mais tarde a dívida, o Reino Unido ainda não a pagou e nunca devolveu o dinheiro.

As parcerias com o Reino Unido requerem cautela e atenção de quem as celebra. Os britânicos não são exatamente os pares mais fiáveis. Londres nunca abdica de correr no seu próprio carril independente dos objetivos comuns celebrados. Foi assim na "special relationship" que mantém com os EUA (por exemplo, no Afeganistão e agora na Ucrânia) e que manteve com a UE, quando foi Estado-membro.

O Reino Unido participou na Política Comum de Segurança e Defesa (PCSD) da União Europeia alinhada com os objetivos geopolíticos dos EUA, atuando como o seu "braço direito" no seio do aparelho institucional da UE para que esta não se consolidasse. Fez tudo o que estava ao seu alcance para impedir que a PCSD se desenvolvesse e aprofundasse, obstruindo e minando qualquer tentativa da UE para construir uma capacidade militar autónoma e credível. Para isso muito contribui a britânica baronesa Catherine Ashton quando foi nomeada para o cargo de Alta Representante da União para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança e, por acumulação, chefe da Agência Europeia de Defesa, que de uma forma sustentada a tentou matar à nascença.

Apesar do Império Britânico já não existir, o Reino Unido ainda possui 14 territórios ultramarinos por todo o mundo. Estes territórios estão sob soberania britânica, mas não fazem parte do Reino Unido, e cada um tem o seu próprio governo, sendo o Reino Unido responsável pela sua defesa e relações externas. Falamos de Gibraltar, das Ilhas Malvinas, Ilhas Caimão e o Território Antártico Britânico, garantindo-lhe uma presença em locais geoestrategicamente relevantes. A ocupação de Chipre e o legado colonial não foi abandonado. Ao que se pode juntar as ilhas Chago e Madagáscar.

Uma rápida incursão no tema não podia deixar de referir o comportamento do Reino Unido (e da França) nos tempos que antecederam a II Guerra Mundial e que levaram ao sacrifício da Checoslováquia, em 1938, e oferta formal de uma "cooperação" abrangente com a Alemanha nazi. Os Dirksen Papers trazem à luz do dia as conversações de Londres com Berlim, através de canais secretos, sobre o alcance dessa tentada parceria, a qual incluía um realinhamento das "esferas de interesse das Grandes Potências", abrindo a porta a uma maior expansão territorial nazi.

Portugal

O relacionamento da Grã-Bretanha com Portugal não foi diferente daquele que teve com outros países, apesar da tão propalada mais antiga aliança do mundo. Salvaguardando as escassas exceções, é notória a sobranceria com que as elites britânicas olham para Portugal e para os portugueses. O “Ultimato inglês” de 1890 constituiu o maior vexame imposto pela Grã-Bretanha a Portugal. Exigia que Portugal retirasse as suas forças militares dos territórios compreendidos entre Angola e Moçambique, aquilo que ficou para a história como o “mapa cor-de-rosa”, sob a ameaça do corte de relações e do uso da força militar caso Portugal não recuasse de imediato, uma forma pouco amistosa de tratar um aliado, quando existe um conflito de interesses.

Há, no entanto, quem em Portugal olhe ingenuamente para a Grã-Bretanha como o salvador do país em momentos críticos da sua história. É verdade que nos ajudaram quando lhes era conveniente, nunca de uma forma altruísta, funcionando Portugal como um proxy nas querelas que mantinha com os seus oponentes. O território português não passava uma peça no tabuleiro de xadrez das grandes potências da época e da Grã-Bretanha, em particular.

As humilhações foram demasiado frequentes para quem se arroga de aliado histórico. Aquando da fuga da corte, do Governo português e de toda a elite portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1807, os britânicos escoltaram os navios portugueses, mas em troca de privilégios comerciais e de um estatuto de preferência no Brasil, materializado mais tarde nos Tratados de 1810 (de Aliança e Amizade, e de Comércio e Navegação), assinados no Rio de Janeiro, que deram amplas vantagens comerciais aos ingleses na colónia. Consumou-se assim a progressiva subserviência dos interesses portugueses aos dos britânicos (tinham representação judicial própria, de que já gozavam em Portugal, os litígios que envolvessem súbditos britânicos só podiam ser julgados por juízes britânicos, as tarifas alfandegárias pagas pelos comerciantes ingleses eram inferiores às dos brasileiros, etc). As humilhações não se limitaram a este período histórico, como é sabido.

A geografia determina que Portugal mantenha sempre uma relação privilegiada com a potência marítima. Isso foi válido no passado e continua a ser válido no presente. Compreendiam-se algumas “cedências” nos tempos em que a Grã-Bretanha tinha esse estatuto, que já não tem e não voltará a ter. Hoje, os EUA são a potência marítima. Por isso, não se entende a contínua bajulação nacional, que os ingleses regurgitam, e a subserviência a quem nos tramou sempre que lhe era conveniente.

Talvez a anglofilia acéfala tenha atingido o seu o zénite, em 2023. Não se entendem as razões profundas que levaram o então presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa a deslocar-se a Londres em junho de 2023, para comemorar os 650 anos da Aliança Luso-Britânica e condecorar o monarca britânico com o Grande Colar da Ordem da Torre e Espada. Não havia necessidade de tremenda adulação a quem, ainda por cima, se encontra em profunda decadência e a caminho da quase irrelevância estratégica.

Fica muito por dizer, mas o que foi dito parece mais do que suficiente para mostrar que quem teve os comportamentos apontados, quem apoia sem pudor as ações genocidas de Telavive, devia ter alguma contenção antes de dar lições morais sobre direitos humanos e terrorismo aos outros. Não será por acaso que a expressão “pérfida Albion”, da autoria do Marquês de Ximenes, passados dois séculos continua atual. Haja vergonha, decência e brio.

20/Agosto/2026

[*] Major-General.

O original encontra-se em Jornal Económico e em estatuadesal.com/2026/08/20/uma-nacao-de-piratas/

Este artigo encontra-se em resistir.info
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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

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