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sábado, 13 de junho de 2026

O imperialismo cultural e o papel anticomunista (antisocialista) de venerandos ícones da nossa cultura

 Bertrand.pt - La Cia Y La Guerra Fría Cultural 

Durante la Guerra Fría los escritores y los artistas se enfrentaron a gran reto. En la esfera soviética, se esperaba que produjeran obras que exaltaran la militancia, la lucha y un optimismo sin límites. En Occidente, la libertad de expresión era la virtud más preciada de las democracias liberales. Pero esa libertad tenía un precio. Este libro documenta el extraordinario vigor de una campaña secreta en la que algunos de los defensores más ardientes de la libertad de pensamiento en Occidente (entre otros, George Orwell, Bertrand Russell, Jean-Paul Sartre y Arthur Schlesinger, Jr.) fueron, tanto si lo sabían como si no, tanto si les gustaba como si no, instrumentos del servicio secreto estadounidense. «Una contribución esencial para la comprensión de la posguerra.» áThe Wall Street Journal «Saunders es espléndida al contar las ironías éticas y políticas de los proyectos culturales de la CIA.» áSan Francisco Chronicle «Una historia de intriga y traición, con escenas tan emocionantes como las de cualquier novela de Le Carré.» áThe Chronicle of Higher Education «Escrita con gran sentido del humor y comprensión de las circunstancias históricas.» áLewis Lapham,áLos Angeles Times Book Review «La mejor crónica de las actividades de la CIA entre 1947 y 1967.» --á The New York TimesLa campaña secreta de la CIA para infiltrarse en la vida cultural de Occidente y alejar a los intelectuales de la izquierda.Frances Stonor Saunders (Reino Unido, 1966) es periodista e historiadora. Su documental para el británico Channel Four Hidden Hands: A Different History of Modernism,ále llevó a escribir su primer libro, La CIA y la guerra fría cultural, un éxito internacional traducido a más de diez idiomas, finalista del Guardian First Book Award y ganador del Royal Historical Society's Gladstone Memorial Prize. Otros de sus libros son Hawkwood y La mujer que mató a Mussolini, una biografía de Violet Gibson, la aristócrata de origen irlandés que disparó a Benito Mussolini en 1926. Colabora en el Guardian, el New Statesman y Areté desde su casa en Londres.

 

Dans cette enquête historique magistrale, devenue un classique, Frances Stonor Saunders exhume, de Berlin à Paris, de New York à Rome, les archives, les témoignages et la correspondance des protagonistes pour restituer l’histoire d’un vaste programme secret orchestré par la CIA visant à arracher la vie culturelle de l’Occident et l’opinion européenne à l’influence communiste. Elle dévoile comment l’agence de renseignement américaine a financé des revues prestigieuses, organisé des festivals et des expositions, orienté les débats intellectuels et travaillé à détourner l’opinion occidentale du socialisme. Des fonds secrets, habilement dissimulés par un réseau de fondations privées, ont permis à toute une génération d’intellectuels, sélectionnés pour leur docilité idéologique ou la conformité de leurs vues, d’occuper le devant de la scène et d’installer durablement leurs catégories de pensée.

En effet, dès la fin de la Seconde Guerre mondiale, les États-Unis avaient compris que l’affrontement avec le bloc soviétique devait être aussi une bataille pour coloniser les consciences. Au centre de ce dispositif pour circonvenir ou soudoyer les intellectuels européens, se trouvait le Congress for Cultural Freedom, une organisation destinée à promouvoir les « valeurs du monde occidental » en combattant les idées communistes dans les milieux artistiques et intellectuels et qui comptait dans ses rangs les plus grands noms de l’intelligentsia : Raymond Aron, Arthur Koestler, Jackson Pollock, Igor Stravinski, Bertrand Russell, Antoine de Saint-Exupéry et des centaines d’autres écrivains, poètes, artistes et philosophes.

Sous couvert de défendre la liberté artistique et la démocratie libérale, c’est en réalité une vaste entreprise de captation des esprits qui se mettait en place, érigeant la culture en arme géopolitique.

Frances Stonor Saunders est historienne et productrice de documentaires. Diplômée de l’université d’Oxford, elle s’est spécialisée dans l’histoire culturelle et politique du XXe siècle. Le présent livre est devenu une référence internationale pour comprendre les relations entre culture, pouvoir et propagande durant la Guerre froide.

 

Traduction de Jean-Paul Batisse

O sucesso planetário da multimilionária Taylor Swift é a nossa derrota

 «Quando a política liberal parecia capaz de se opor à agenda conservadora e, ao mesmo tempo, proteger o status quo, Swift podia se alinhar confortavelmente a causas progressistas sem arriscar sua considerável fortuna. Contudo, à medida que se torna cada vez mais evidente que o liberalismo não consegue se opor efetivamente à extrema-direita, e conforme a política progressista se desloca, consequentemente, para a ação direta e se afasta da política eleitoral (rumo à revolução e não à reforma), o apoio a causas progressistas entra em conflito com a sobrevivência do status quo e com o próprio status de bilionária de Swift.»

in Jacobina 

A traição

 

A URSS: a pátria traída dos trabalhadores

Há eventos históricos que marcam gerações inteiras. O fim da União Soviética foi um deles. Trinta e cinco anos depois de seu desmembramento, é cada vez mais evidente que a história oficial que eles nos contaram sobre o fim da URSS teve mais propaganda do que realmente.

Vale lembrar uma questão fundamental: a história é escrita pelos vencedores. E quando os vencedores são as grandes potências capitalistas, os grandes grupos económicos e a mídia a seu serviço, essa história acaba sendo amplificada, adornada e muitas vezes diretamente prostituída por Hollywood, pela internet e pela indústria cultural ocidental.

Durante décadas, fomos informados de que os povos soviéticos ansiavam pelo desaparecimento da URSS. Fomos apresentados com o colapso da União Soviética como uma espécie de libertação coletiva. Porém, os fatos contam uma história muito diferente.

Realizou-se em Março de 1991 um referendo sobre a continuidade da União Soviética. Não foi uma pesquisa ou uma estimativa. Foi uma consulta democrática na qual participaram dezenas de milhões de cidadãos soviéticos. O resultado foi forte: mais de 76% votaram a favor da manutenção da URSS como uma união renovada de repúblicas socialistas.

Ou seja, quando o povo soviético foi perguntado diretamente, eles responderam claramente que queriam preservar seu país.

E o que aconteceu a seguir?

Ocorreu uma traição.

Um grupo de líderes liderados por Boris Yeltsin, juntamente com outros líderes políticos que posteriormente se tornariam os grandes oligarcas do espaço pós-soviético, decidiu ignorar a vontade popular. A decisão de milhões de trabalhadores, camponeses, técnicos, cientistas e pensionistas foi jogada fora para facilitar a distribuição da riqueza coletiva acumulada durante décadas de construção socialista.

Essa operação foi apresentada como uma transição para a liberdade e prosperidade. A realidade era muito diferente.

A década de 1990 significava para a Rússia e para grande parte das antigas repúblicas soviéticas uma verdadeira catástrofe social. Milhões de pessoas caíram na pobreza, a expectativa de vida despencou, o desemprego, a exclusão social e a desigualdade aumentaram. Setores inteiros da economia pública foram privatizados e entregues a uma minoria de novos milionários que acumularam imensas fortunas graças à pilhagem dos bens que pertenceram a toda a sociedade.

É por isso que não deve surpreender que a nostalgia da União Soviética continue a ser um fenómeno generalizado em grande parte do espaço pós-soviético. Não se trata apenas de nostalgia sentimental. É também a comparação entre dois modelos da sociedade.

Milhões de pessoas se lembram de uma época em que havia empregos garantidos, moradia acessível, educação pública universal, saúde pública, segurança social e uma expectativa razoável de progresso para as gerações futuras.

O desejo pelo socialismo também não se limita às antigas repúblicas soviéticas. Em países como a Roménia, numerosos estudos e pesquisas têm mostrado há anos que uma parte significativa da população considera que eles viveram melhor durante a fase socialista do que no momento. Apesar da integração na União Europeia e das promessas de prosperidade ilimitada, muitos trabalhadores continuam a sofrer de baixos salários, emigração forçada e precariedade.

Talvez seja por isso que uma velha piada que contém uma grande verdade histórica continua a circular na Rússia:

“O problema não é que o Partido Comunista nos mentiu sobre o que era o comunismo; o problema é que eles nos disseram a verdade sobre o que era o capitalismo e nós não acreditamos neles.”

A frase é desconfortável para aqueles que continuam a apresentar o capitalismo como o fim da história. Porque depois de décadas de experiência, milhões de pessoas conseguiram comparar promessas com resultados.

Mesmo Vladimir Putin, que representa um projeto político nacionalista e conservador muito distante dos ideais comunistas, passou a reconhecer uma realidade óbvia quando afirmou que “quem não anseia pela União Soviética não tem coração, e quem pretende restaurá-lo não tem cabeça”.

A frase é frequentemente citada porque reflete a magnitude do que o desaparecimento da URSS significou para milhões de cidadãos. No entanto, como comunistas, não podemos compartilhar a segunda parte dessa reflexão.

Precisamente porque temos cabeça, memória histórica e consciência de classe, sabemos que o mundo não é melhor sem a União Soviética.

O desaparecimento do primeiro Estado socialista da história enfraqueceu muito a classe trabalhadora internacional. Um contrapeso desapareceu contra o imperialismo, as privatizações foram aceleradas, os direitos trabalhistas conquistados por décadas foram atacados e a hegemonia de um capitalismo que não tinha mais um rival sistémico ao medo foi reforçada.

Portanto, diante da renúncia que querem nos impor, é preciso lembrar que a história nunca se termina. As pessoas podem ser derrotadas temporariamente. Eles podem ser enganados. Podem até ser traídos por suas próprias elites. Mas as causas justas não desaparecem.

A URSS foi destruída de dentro contra a vontade expressa pela maioria de seus cidadãos. Essa é uma realidade histórica que muitos tentam esconder. E é também uma realidade que milhões de pessoas ainda se lembram.

Porque para aqueles que vivem em seu trabalho e não exploram o trabalho dos outros, o retorno de uma forte alternativa socialista não seria uma tragédia. Seria esperança.

E a esperança, por mais que alguns a declarem derrotada, sempre encontra o caminho para voltar.

 

André Abeldo Fernández

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Biografia de uma grande intelectual cubana

 Bertrand.pt - «Una Bala No Puede Terminar El Infinito». Biografía Intelectual De Haydée Santamaría Cuadrado

Haydée Santamaría Cuadrado (1922–1980) foi uma figura histórica fundamental na Revolução Cubana. Conhecida pela sua coragem, ela participou diretamente de todas as fases do movimento revolucionário, desde a luta armada clandestina até à construção do governo pós-1959. [1, 2, 3]
Entre os seus principais marcos destacam-se:
  • Herói de Moncada: Foi uma das duas únicas mulheres a participar no assalto ao Quartel Moncada em julho de 1953, ao lado do seu irmão Abel Santamaría e de Fidel Castro. Após a ação, foi presa e fortemente torturada pelo regime de Fulgêncio Batista. [1, 2, 3, 4]
  • Liderança Política: Fez parte da direção nacional do Movimento 26 de Julho e, após o triunfo da revolução, tornou-se membro fundadora do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba. [1, 2, 3, 4]
  • Diretora da Casa das Américas: Fundou e presidiu a instituição Casa de las Américas, onde desempenhou um papel vital na promoção da cultura e na aproximação entre intelectuais e artistas de toda a América Latina. [1, 2, 3]
Para conhecer mais sobre a sua trajetória e o seu impacto, pode explorar a sua biografia detalhada na Britannica ou na página da Wikipedia dedicada à revolucionária.
 
 

 Esta obra representa un testimonio de vida; lejos de ser un alegato de un exagente secreto, capaz de adentrarnos en el mundo del espionaje e historias policíacas, en sus páginas verificamos una vez más el esfuerzo siempre fracasado de los Estados Unidos por dividir a la intelectualidad cubana y crear en ella una columna contrarrevolucionaria.Capa do artigo Enemigo

 Capa do artigo Who Paid The Pipers Of Western Marxism?

Who Paid The Pipers Of Western Marxism?

The Intellectual World War, Marxism Vs. The Imperial Theory Industry

de Gabriel Rockhill
idioma: inglês

 

(Parte II/II) 

Marxlenin Pérez Valdés 

 

Longe de ser um desenvolvimento intelectual autónomo resultante do livre exercício da razão humana individual ou do chamado mercado aberto de ideias, a teoria de esquerda no centro imperial foi moldada e dirigida por forças muito materiais, incluindo todo o aparelho institucional de produção e distribuição do conhecimento (universidades, indústria editorial, circuito de palestras, media, etc.), bem como a poderosa influência da classe dominante através das suas fundações e do Estado . 

 

 

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Marcuse conquistou uma reputação bem merecida como o membro mais à esquerda entre as figuras proeminentes da Escola de Frankfurt. Isso deveu-se à sua radicalização na década de 1960, quando manifestou apoio aos movimentos pacifistas e estudantis, bem como a certas lutas pela libertação de género, sexual, racial e ecológica. 

 

No entanto, ao analisar os arquivos, descobri que ele mentia regularmente sobre o trabalho que tinha realizado para o governo dos EUA e sobre o seu relacionamento com a CIA. 

 

De facto, ele colaborou estreitamente com a Agência, chegando a participar na elaboração de pelo menos duas Estimativas Nacionais de Inteligência (NIE, na sigla em inglês), o mais alto nível de inteligência para o governo dos EUA. Foi um dos principais especialistas do Departamento de Estado em comunismo e continuou a trabalhar com ex-agentes e agentes atuais do Departamento de Estado muito tempo depois de deixar Washington. Também desempenhou um papel fundamental nos projetos de soft power da Fundação Rockefeller na sua guerra intelectual global contra o comunismo. 

 

Por exemplo, ele foi a figura central do seu Projeto Marxismo-Leninismo, uma iniciativa bem financiada que estabeleceu uma rede transatlântica para a produção e disseminação de estudos marxistas com viés imperialista. Trabalhou em estreita colaboração com o seu amigo Philip Mosely nesse projeto, que foi consultor de alto nível da CIA durante muitos anos e diretor do Instituto Russo da Universidade Columbia. 

 

Portanto, não é de todo surpreendente que, após a invasão da Baía dos Porcos, Marcuse tenha declarado: "Não questiono o direito dos Estados Unidos de combater o comunismo no Hemisfério Ocidental". 

 

Quando se trata de uma análise objetiva e sistémica da luta de classes global, não se pode confiar em figuras como Adorno, Horkheimer e Marcuse, e o mesmo geralmente se pode dizer da intelectualidade de esquerda alinhada com essas correntes. 

 

Isto não significa, é claro, que eles estivessem errados em tudo ou que todo o seu trabalho deva ser simplesmente descartado. Significa, antes, que qualquer análise rigorosa das suas teorias deve situá-las claramente dentro da totalidade social, elucidando como a sua produção intelectual subjetiva estava dialeticamente entrelaçada com a estrutura objetiva da indústria teórica imperial. 

 

Por exemplo, é verdade que as principais figuras da Escola de Frankfurt desenvolveram críticas importantes ao capitalismo de consumo , que podem ser úteis. No entanto, se prestarmos atenção às suas análises, notaremos uma subtil orientação subjetivista. 

 

Eles tendem a concentrar-se na experiência fenomenológica dos consumidores de classe média, como eles próprios, e não nas relações sociais exploradoras do setor produtivo da economia, ou seja, na vida dos trabalhadores. 

Simplificando, eles geralmente dedicavam mais tempo a criticar os efeitos da indústria da publicidade na manipulação dos pensamentos e desejos de consumidores como eles próprios, do que a atacar o sistema de superexploração e degradação global que, para citar um exemplo, força crianças no sul global a trabalhar como escravas em minas. 

 

Quanto à produção mediática do império, não se pode confiar nela de forma alguma. Como explico detalhadamente no livro, a CIA criou um "Poderoso Wurlitzer", ou seja, uma rede de media internacional que podia operar como uma jukebox: com o apertar de um botão na sede da CIA, a mesma música tocava no mundo inteiro. 

 

Este "Mighty [poderoso] Wurlitzer" 2  ainda está muito vivo e em ótima forma, e o seu alcance e magnitude superam em muito o que a maioria das pessoas imagina. 

 

Para citar apenas um exemplo, o especialista em desinformação William Schaap afirmou publicamente que a CIA "possuía ou controlava cerca de  2500 entidades de media em todo o mundo. Além disso, tinha agentes — de correspondentes a jornalistas e editores de renome — em praticamente todas as principais organizações mediáticas." 

 

M: Hoje, por exemplo, fala-se das ligações com a elite imperial de um pensador liberal progressista como Noam Chomsky… Será possível combater a intelectualidade (académica, anticomunista, etc.) sem combater as estruturas capitalistas globais que a produzem? 

 

GR: Essa questão vai ao cerne do meu livro. Embora inclua análises materialistas críticas de indivíduos e escolas de pensamento, o verdadeiro objetivo é elucidar como a superestrutura imperial produz e reproduz sistematicamente os mesmos tipos fundamentais de intelectuais. 

 

Por outras palavras, em vez de se envolver simplesmente numa crítica ideológica subjetiva de indivíduos selecionados ou dos seus trabalhos, o meu livro oferece também, crucialmente, uma crítica ideológica objetiva do sistema material que produz e reproduz os mesmos tipos de indivíduos , que então criam trabalhos com um notável nível de consistência ideológica. 

 

Um exemplo-chave desse fenómeno é a figura do recuperador radical. Esse tipo de intelectual posiciona-se à esquerda e frequentemente apresenta-se como radical. Geralmente, critica o capitalismo e certos aspetos da política externa das principais potências imperialistas. Contudo, respeita sempre — embora ocasionalmente haja algumas exceções justificáveis — as linhas vermelhas ideológicas mais importantes, rejeitando o socialismo existente por considerá-lo pior que o capitalismo. 

 

Existem, naturalmente, diferentes graus de recuperação radical, e é sempre importante realizar uma análise dialética para destacar tanto as contribuições positivas como as negativas de um intelectual. Chomsky é um excelente exemplo, e discutirei sobre ele  num livro futuro que faz parte do mesmo projeto de pesquisa. 

 

A obra que temos discutido, "Quem Pagou a conta do Marxismo Ocidental?", é na verdade o primeiro volume de uma trilogia intitulada "A Guerra Intelectual Mundial: Marxismo versus a Indústria Teórica Imperial". O segundo volume, "Teoria Francesa Made in the USA", será lançado no próximo ano. O terceiro, "A doença Infantil da teoria radical", será publicado um pouco mais tarde, e é nessa obra que apresento uma avaliação de Chomsky. 

 

Por ora, permitam-me dizer que se trata certamente de um caso que forneceu críticas empíricas significativas à política externa dos EUA e aos efeitos da "corporatocracia" na media. 

 

Como socialista libertário, ele também se posicionou publicamente contra o bloqueio a Cuba, o que é louvável. 

 

Contudo, ele não fez isso dentro da estrutura de uma compreensão sistémica do imperialismo e da luta para quebrar as suas correntes através de projetos de construção de Estados socialistas (como é o caso, por exemplo, na obra do seu contemporâneo Michael Parenti). Na verdade, Chomsky celebrou a destruição do socialismo em grande parte da esfera soviética como o fim de uma tirania e uma ocasião para regozijo. 

 

Como muitos já apontaram, Chomsky concentrou-se na crítica, e o seu projeto político positivo estava lamentavelmente pouco desenvolvido. Ele descrevia-se como anarcossindicalista, traçando as raízes históricas da sua posição até ao liberalismo iluminista, mas nunca abordou de forma coerente o facto de o projeto de autogestão operária ter sido sempre precário quando privado do poder estatal. 

 

Assim, levou muitos leitores a um beco sem saída, sugerindo que o melhor que poderíamos esperar é que uma potência imperial como os EUA estivesse à altura dos seus ideais autoproclamados, ou que os trabalhadores pudessem exercer controlo democrático a longo prazo sobre os seus locais de trabalho sem tomar o poder do Estado. 

 

Falhou em compreender que os ideais liberais dos EUA servem de fachada para um projeto imperial, e que é esse projeto, e não a sua ideologia, a verdadeira força motriz. 

 

Dado o seu desprezo anticomunista pelo Leninismo como uma filosofia revolucionária, claramente não compreendeu a necessidade de projetos anti-imperialistas de construção do Estado para superar os males que diagnosticou. 

 

As revelações mais recentes sobre sua estreita amizade com Jeffrey Epstein seguem um padrão que já estava estabelecido. 

 

A carreira de Chomsky está ligada de diversas maneiras ao complexo militar-industrial-académico . Ele lecionou numa instituição, o MIT, com fortes laços com o Pentágono, de quem recebeu 90% do seu financiamento na década de 1960. Trabalhou lá num laboratório militar, e a investigação linguística que conduzia era financiada pela Marinha, pela Força Aérea, etc. 

 

Também teve muitos contatos questionáveis ​​e era amigo do diretor da CIA, John Deutsch,  cuja campanha para se tornar presidente do MIT ele apoiou. 

 

Embora crítico de Israel, Chomsky manifestou-se contra o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) e afirmou que Israel tinha o direito de existir. Portanto, não é particularmente surpreendente que ele fosse amigo de um agente de inteligência sionista como Epstein , que lhe fornecia consultoria financeira e apoio para a concessão regular de prémios, além de outros benefícios, contactos privilegiados e intercâmbio intelectual. 

 

Considerando a reputação pública que Chomsky cultivou como uma pessoa profundamente moral, é, no entanto, perturbador vislumbrar como agiu em privado com um delinquente sexual convicto. 

 

Voltando ao cerne da sua pergunta, o objetivo desta trilogia é precisamente criticar as estruturas capitalistas globais que produziram  este tipo de  intelectualidade . Esta é uma das razões pelas quais foi importante para mim não limitar este projeto de investigação a uma crítica ao marxismo imperial. 

 

O segundo volume desta trilogia aborda a teoria francesa pós-moderna, e o terceiro trata de formas de teoria radical contemporânea baseadas no marxismo imperial e/ou na French Theory [teoria francesa], incluindo a terceira geração da Escola de Frankfurt, a teoria pós-colonial e decolonial, a teoria queer liberal, a chamada filosofia do acontecimento comunista de figuras como Badiou e Žižek, etc. 

 

O objetivo é precisamente elucidar o sistema material de produção e circulação do conhecimento que produz e reproduz uma intelectualidade de esquerda que —em geral— rejeita o socialismo efetivamente existente e se acomoda ao capitalismo e ao imperialismo (quando não os defende abertamente). 

 

A ideologia é camaleónica. Como distorce a realidade, esta tende a infiltrar-se com o tempo, sendo necessárias novas formas ideológicas para disfarçá-la. 

 

Ao avaliar criticamente a ideologia dominante da intelectualidade de esquerda imperial, quis demonstrar a forma como o sistema material de produção de conhecimento gera regularmente novas formas que são superficialmente diferentes, mas que compartilham a mesma orientação ideológica fundamental. 

Tal como noutras indústrias capitalistas, a indústria teórica fomenta a ilusão de progresso, produzindo uma vertiginosa gama de novos produtos para o mercado — o novo materialismo, o afropessimismo, etc. — que têm a vantagem de distrair as pessoas atentas da realidade que tinham  percebido através das formas ideológicas anteriores. 

 

O culto ao novo promovido pelo capitalismo de consumo convence muitas pessoas de que todo o novo produto no mercado merece a nossa atenção , senão mesmo a nossa devoção, em vez de reconhecê-lo simplesmente como a mais recente iteração da ideologia dominante. 

 

Isto  provou ser uma tática particularmente eficaz na tentativa de relegar o marxismo ao esquecimento: existem tantos discursos novos e inovadores que abrem múltiplos horizontes e apontam em todas as direções! 

 

Consideremos o caso da Escola de Frankfurt e da French Theory. No âmbito da história intelectual burguesa, elas são geralmente apresentadas como opostas. Existem, é claro, diferenças significativas. 

 

No entanto, o que minha trilogia demonstra é que ambas são produtos teóricos de um sistema material de produção de conhecimento dentro da superestrutura imperial que promove o anticomunismo e a acomodação ao capitalismo, e até mesmo ao imperialismo. 

 

Apesar de todas as suas diferenças, concordam nos pontos mais essenciais. São duas variantes da ideologia de esquerda dominante no centro imperial e devem ser reconhecidas como tal. 

 

M: O livro será traduzido para o espanhol? O público cubano terá a oportunidade de lê-lo? 

 

GR: Sim, a Nuevo Milenio está a preparar uma tradução para o espanhol, e o livro também será publicado pela El Viejo Topo em Espanha e talvez por outras editoras espanholas na América Latina. Néstor Kohan concordou em escrever o prefácio da edição cubana. É uma honra incrível para mim, e espero que o livro possa contribuir, ainda que minimamente, para os debates em Cuba e no mundo hispânico em geral. 

 

O livro começa, na verdade, com uma abertura para toda a trilogia intitulada "A Cabeça de Che". Narra a história da caçada humana global empreendida pelo império americano para localizar Che e assassiná-lo ignominiosamente, numa tentativa de decapitar o movimento anti-imperialista mundial. O livro destaca como esse projeto perverso caminhou lado a lado com uma guerra intelectual global contra Che e o seu legado, explicando como agentes da CIA procuraram assumir o controle de partes do seu legado literário e distorcer a sua biografia. 

 

Esta secção do livro proporciona, em microcosmo, uma visão geral dos principais temas da guerra intelectual global contra o comunismo. 

 

Em termos mais gerais, o livro dialoga com algumas das excelentes pesquisas contemporâneas sobre guerra cultural, como os trabalhos de Fernández Retamar, Capote, Barreiro e Kohan. É essencial para este projeto que a crítica ao marxismo imperialista seja situada, em última instância, dentro de um projeto positivo de resgate e defesa da rica tradição internacional do marxismo anti-imperialista. 

 

Dada a importância do papel que Cuba desempenhou nessa tradição, tanto intelectual quanto praticamente, ela constitui um ponto de referência fundamental para este projeto de investigação no seu conjunto. 

 

M : O senhor visitou Cuba, condenou o bloqueio dos EUA e defendeu abertamente a nossa causa nas suas redes sociais. Por que continua a apoiar a Revolução agora? 

 

GR: Sou um filho do império, não um “red diaper baby” (um bebé de fraldas vermelhas, criado num berço vermelho). Além disso, fui doutrinado na ignorância imperial por algumas das chamadas instituições líderes mundiais. 

 

As estruturas materiais da produção de conhecimento procuravam transformar-me num membro da aristocracia operária intelectual, que ignorava, obscurecia ou deturpava o imperialismo, ao mesmo tempo que denegria e rejeitava a alternativa socialista. 

 

Tendo crescido numa fazenda a trabalhar na construção civil, não nasci nos círculos de elite que passei a frequentar graças à minha criação. Embora subjetivamente eu me tenha sentido como sendo inferior aos meus colegas devido a isso, agora reconheço, em retrospetiva, que, objetivamente falando, foi incrivelmente benéfico. Significou que eu nunca me encaixei de verdade e tendia a questionar coisas que os outros consideravam normais ou naturais. 

 

No entanto, também fui profundamente afetado pela ideologia da superestrutura imperial e precisei de me dedicar a um longo e, por vezes, doloroso processo de autocrítica para chegar às minhas opiniões atuais. Fui auxiliado nesse processo pelas condições objetivas do declínio e da decadência imperial, bem como pelo meu envolvimento na organização prática e na educação popular, sem mencionar a influência perspicaz de pessoas próximas de mim. 

 

Fui condicionado a ignorar Cuba por considerá-la irrelevante ou a descartá-la como corrupta. Quando comecei a questionar essa postura dogmática, encontrei resistência, num esforço óbvio para me manter no meu campo ideológico, por assim dizer. 

 

Lembro-me nitidamente do momento em que pedi a um dos meus antigos professores, Étienne Balibar, que assinasse uma carta pública pedindo o fim do bloqueio ilegal. Para seu crédito, ele concordou em assinar a carta, que foi escrita expressamente para ser aceitável pela intelectualidade liberal. 

 

No entanto, esse autoproclamado marxista também enviou uma mensagem, com cópia para mim, a um grupo de intelectuais de esquerda proeminentes, como Michael Hardt e Judith Butler, insistindo que “a política imperialista dos EUA em relação a Cuba” não deveria “levar-nos a aclamar ou apoiar a ditadura corrupta em que a Cuba 'socialista' se transformou”. 

 

Como suposta prova, forneceu links de propaganda anticubana de fontes altamente questionáveis, como a intelectualidade da “esquerda compatível” e o blog La Joven Cuba. 

 

Apesar dessa resistência, continuei a desenvolver as minhas habilidades de alfabetização mediática crítica e a estudar seriamente a história de Cuba, lendo as obras dos seus líderes e principais intelectuais. Também explorei a rica cultura do cinema, da arte e da literatura cubanos. Nesse processo, aprendi espanhol o suficiente para aceder a material não traduzido e romper a minha dependência do regime imperial de traduções. 

 

Cheguei a compreender que, como Eduardo Galeano explicou no seu excelente livro De Pernas para o ar: 

 

A escola do mundo de pernas para o ar  estava a viver num mundo ao contrário. Quase tudo o que eu tinha ouvido dizer sobre Cuba era o espelho oposto da realidade. Então, passei a interessar-me cada vez mais pela profundidade, amplitude e alcance da guerra cultural contra Cuba, que tinha moldado — muitas vezes impercetivelmente — a minha anterior visão de mundo. 

 

Li bastante e aprendi muito com autores como Fernández Retamar, Capote, Barreiro, Kohan, Helen Yaffe e muitos outros, incluindo-a a si. Também visitei Cuba duas vezes para ver em primeira mão e compreender mais diretamente o processo revolucionário cubano. 

 

A razão pela qual me concentrei nos aspetos subjetivos do meu processo de compreensão da Revolução Cubana não se deve a motivos anedóticos ou pessoais, mas pelo que isso revela sobre as condições objetivas e a dificuldade de combater a doutrinação ideológica fomentada pela superestrutura imperial. Parte da nossa luta consiste em libertar as pessoas das suas garras e capacitá-las a pensar por si mesmas e a refletir criticamente sobre as forças que moldaram as suas visões do mundo , enquanto incentivamos a adesão dogmática a elas. 

 

Apoio Cuba porque estou do lado da humanidade e da vida, e reconheço o papel de liderança que desempenha na luta para colocar a nossa América nas mãos do seu povo, para libertá-la do abraço mortal da classe de Epstein. 

 

 

(NT) 

 

2  O "Mighty Wurlitzer" ("Poderoso Wurlitzer") é um famoso órgão para teatro, que foi produzido entre 1910 e 1935. Serviu principalmente para acompanhar o cinema mudo e deu origem às jukeboxes. 

 

3  Em teoria crítica (particularmente em autores influenciados por Debord, crítica cultural contemporânea e marxismo cultural), um recuperador radical é alguém que parece radical,usa linguagem, estética ou gestos de radicalidade, mas recupera essa radicalidade para dentro da lógica dominante neutralizando o seu potencial transformador. Ou seja, é a pessoa que transforma a rebeldia em produto, estilo, marca, performance ou discurso inofensivo 

 

Guy Debord foi um filósofo, escritor, cineasta e intelectual marxista radical francês. Ele é mundialmente conhecido por fundar a Internacional Situacionista (IS) e por escrever a  "A Sociedade do Espetáculo" (1967). Os seus textos e ideias serviram de combustível ideológico direto para as revoltas do Maio de 1968 em França.   

 

4  A "filosofia do acontecimento comunista" refere-se a uma vertente da filosofia política contemporânea completamente revisionista — popularizada por pensadores como Alain Badiou e Slavoj Žižek — que redefine o comunismo não como um destino histórico inevitável, mas sim como um "Acontecimento" radical, imprevisível e transformador.   

 

http://www.cubadebate.cu/especiales/2026/03/23/apoyo-a-cuba-porque-estoy-del-lado-de-la-humanidad-y-la-vida/ 

Foto: http://media.cubadebate.cu/wp-content/uploads/2026/03/IMG-20260323-WA0004-580x414.jpg 

 

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