«A guinada política reacionária na América Latina não é obra exclusiva da extrema direita, mas sim resultado do esvaziamento do conflito social pelo centrismo progressista. Diante da ofensiva conservadora, a insubordinação extraordinária das massas segue sendo a única forma de romper o impasse.»
A espuma das palavras
Translate
domingo, 6 de setembro de 2026
Publico mais um artigo a favor da Carta (aqui editada) conhecida das "Duas tesouras". Concordo no essencial com o teor deste artigo e no essencial como o teor e oportunidade da Carta. O anti imperialismo tem destas contradições : lembro-me que uma parte da Esquerda esteve contra os protestos de massas contra o ditador Bashar al-Assad (regime no mínimo autoritário apesar das mulheres gozarem de direitos). Foram instrumentalizados pela Mossad e CIA? Sim, comprovodamente. Porém, isso não justifica a brutal repressão a qual, de resto, continuou até ao à derrota do regime. Outro exemplo : estivemos contra justamente a invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos ; porém, não esquecemos, não elogiámos, um regime obscurantista das cavernas e corrupto como sempre foi, produtor de papoilas. Acho, portanto, muito bem que a certa altura de um ataque imperialista se esclareçam as coisas. Aplico o mesmo raciocínio sobre a governação da Venezuela por Maduro e seus generais. r
Anti-imperialismo sem iranianos

Por MINA FAKHRAVAR*
O adiamento da defesa dos direitos humanos sob pretextos geopolíticos reforça a opressão e enfraquece as forças transformadoras da sociedade
Oponho-me à guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, ao regime de sanções que a precedeu e a qualquer projeto de mudança de regime arquitetada externamente. Também me oponho à República Islâmica, um Estado que governa há quarenta e sete anos por meio de prisões políticas, execuções, coerção de gênero e a destruição metódica de organizações independentes. Sou uma pesquisadora feminista iraniana e passei tempo suficiente em espaços de esquerda na Europa e na América do Norte para saber que sustentar ambas as posições simultaneamente ainda é visto, em certos meios, como uma incoerência que precisa ser corrigida.
A polêmica em torno da carta aberta publicada no jornal Guardian sobre os presos políticos do Irã tornou essa exigência de correção incomumente visível. O conteúdo do documento não está em discussão. Ele é endereçado a ativistas, estudantes, acadêmicos, trabalhadores e artistas mantidos em prisões iranianas. O texto aponta o uso sistemático de tortura, os julgamentos injustos e as execuções estatais perpetradas pela República Islâmica, exigindo o fim imediato das execuções e a libertação de todos os presos políticos. Também condena a política dos EUA e de Israel em relação ao Irã, cita o ataque israelense à prisão de Evin em junho de 2025 e encerra pedindo o fim imediato da guerra e das sanções impostas pelos EUA e por Israel. Entre os signatários estão Angela Davis, Ruth Wilson Gilmore, Judith Butler e Yassin al-Haj Saleh. Por isso, a carta foi acusada de criar uma falsa simetria, de enfraquecer o Irã em tempo de guerra e de fornecer munição ao inimigo. Isso não significa que a carta esteja imune a críticas – há questões legítimas sobre quais vozes ela privilegia. No entanto, esses são argumentos para levar mais a sério o pensamento político dos próprios prisioneiros, e não para adiar a solidariedade a eles.
Vijay Prashad formulou a objeção com a maior clareza. Escrevendo dias após a publicação da carta, ele argumentou que “há um momento para fazer exigências e um momento para agir em solidariedade”, que “não existem neutralidade ou um ‘terceiro espaço’ em meio a uma guerra de agressão” e que a imagem da tesoura – duas lâminas, um só corpo – central na carta é “evocativa, porém equivocada”, uma vez que faz com que o agressor e a parte atacada pareçam fontes paralelas de um mesmo perigo.
Vijay Prashad não está defendendo a prisão de Evin, e vale a pena reconstruir o que ele defende de uma maneira mais contundente do que a que ele próprio apresenta. Lida dessa forma, a argumentação diz respeito à economia política do discurso: críticas expressas na metrópole durante uma guerra de agressão não circulam como críticas, mas como material de guerra; e os iranianos que dizem essas coisas em inglês contribuem – independentemente de suas intenções – para uma infraestrutura discursiva que culmina em mísseis de cruzeiro. Essa formulação é minha, não dele. É também a versão que merece resposta; e qualquer pessoa que tenha visto o sofrimento das mulheres iranianas ser transformado em pretexto para bombardeios sabe que tal visão não é paranoica.
O argumento desmorona ao entrar em contato com as pessoas que ele alega proteger.
O calendário do prisioneiro
Comecemos pela pergunta que o argumento do sequenciamento jamais responde: solidariedade com quem?
A prisioneira política iraniana não vive no tempo geopolítico. Bombas americanas não abrem a porta de sua cela. Sanções não suspendem uma ordem de execução. A assimetria avassaladora entre o poder militar dos EUA e o do Irã não faz com que seu interrogador, seu carcereiro ou o juiz do Tribunal Revolucionário desapareçam enquanto durar o conflito. Seja o que for verdade no nível dos Estados, no nível do corpo dela duas formas de poder operam simultaneamente, e nenhuma delas concordou em esperar pela outra.
Note-se, também, que o argumento não prevê uma condição de saída. Quem anuncia que a guerra acabou e que as críticas podem ser retomadas? Não a prisioneira iraniana. A República Islâmica já deixou clara a sua posição: declarou que as condições de guerra são precisamente o momento em que a repressão deve se intensificar. A Anistia Internacional documentou instruções do Judiciário aos funcionários, em abril, para acelerar processos com “extrema rapidez”; o alerta do chefe do Judiciário, em março, de que qualquer pessoa que agisse em consonância com “os desejos do inimigo agressor” seria tratada de forma “decisiva e severa”; além de mais de seis mil prisões arbitrárias, trinta e nove execuções políticas e um bloqueio da internet por oitenta e oito dias desde o início do ataque, em 28 de fevereiro. No final de julho, a Anistia Internacional alertou que pelo menos mais sessenta pessoas enfrentavam execução iminente.
O Estado iraniano e alguns de seus críticos anti-imperialistas no exterior chegam, por razões muito diferentes, à mesma sequência política: não agora. Um diz: não agora, há uma guerra em curso. O outro diz: não agora, há uma guerra em curso. A prisioneira é a única parte envolvida na discussão para quem o adiamento não é retórico.
As lâminas compartilham um mesmo eixo
O problema mais profundo na acusação de “falsa simetria” é que ela trata a metáfora como se fosse uma afirmação de equivalência moral entre dois estados. No entanto, a metáfora é mais bem compreendida quando descreve uma posição: a posição de pessoas sobre as quais diferentes formas de poder atuam simultaneamente. Como apontou Farah Mokhtareizadeh, a imagem das “duas lâminas” já vinha sendo utilizada pelo ex-preso político e ativista trabalhista Keyvan Mohtadi após Israel bombardear a prisão de Evin, enquanto sua esposa, Anisha Asadollahi, permanecia detida no local. O ponto central não era que os dois poderes fossem iguais, mas sim que ambos incidiam sobre a realidade vivida pelas mesmas pessoas. E, ao observarmos como a coerção externa e a repressão interna remodelam mutuamente os efeitos uma da outra, percebemos que essas duas pressões não podem ser tratadas como se operassem em compartimentos selados.
É aqui que o debate exige uma análise de classe, e não de cartografia. Considere o impacto de quatro décadas de sanções no equilíbrio interno de forças do Irã. Uma economia sob sanções não distribui o ônus de forma equitativa. As sanções não criaram o poder econômico dos setores paraestatais e ligados à segurança do Irã; décadas de contratos estatais e de pseudo-privatizações contribuíram para isso. Contudo, as sanções alteram o terreno em que os agentes econômicos competem. Empresas de pequeno porte e que operam formalmente perdem acesso a financiamento, tecnologia e mercados, ao passo que organizações já inseridas em contratos estatais e em redes transfronteiriças informais estão mais bem posicionadas para se adaptar. O resultado não é que as sanções deixem a elite governante incólume – longe disso. O que ocorre é que a coerção econômica externa pode, simultaneamente, empobrecer a sociedade e reforçar o poder de influência relativo das instituições mais próximas do poder estatal.
O rial fechou cotado a 2,02 milhões por dólar em 24 de agosto, um recorde. O preço do arroz subiu cerca de 60% desde fevereiro; o da carne bovina, mais de 150%. As projeções do FMI de abril indicaram uma queda de 6,1% na produção iraniana neste ano, com a inflação próxima de 69%. Esses números descrevem uma classe trabalhadora sendo esmagada. Eles não descrevem um Estado sendo enfraquecido de qualquer maneira que beneficie essa classe – e o iraniano comum, incapaz de comprar carne, sabe bem a diferença.
Enquanto isso, outra frente de ação atua sobre essas mesmas pessoas. Entre meados de julho e o início de agosto, as autoridades lacraram pelo menos quarenta e dois cafés, restaurantes e lojas, bloquearam ou apreenderam setenta e duas páginas e contas em redes sociais e obrigaram os responsáveis por outras vinte e uma a publicar compromissos de conformidade – a maioria relacionada à obrigatoriedade do hijab. Lacrar um café não é apenas um ato de imposição de normas de gênero; é uma redução salarial. Os funcionários são demitidos, o aluguel continua vencendo e os juros de empréstimos continuam a correr em uma economia onde a moeda perde valor semanalmente. Uma pesquisadora que conheço em Teerã foi recentemente impedida de frequentar uma importante biblioteca e arquivo após duas advertências sobre o hijab, ficando privada do material de que seu trabalho depende; a Biblioteca Nacional do Irã adotou a mesma medida contra mulheres usuárias em 2023.
Uma mesma trabalhadora pode ser empobrecida pelo bloqueio, aterrorizada pelos bombardeios e, em seguida, perder o emprego porque o Estado fecha seu local de trabalho por causa de um lenço na cabeça. Não há contradição no relato que ela faz de sua vida. A contradição reside em uma política que exige que as pessoas tenham apenas um opressor de cada vez.
De quem é o testemunho que conta?
O que está realmente em jogo neste debate não é o momento oportuno, mas a credibilidade – de quem é o relato sobre a realidade iraniana que detém autoridade política.
Para os iranianos, a credibilidade junto a setores da esquerda metropolitana tornou-se condicional, de uma forma fácil de demonstrar. Fale sobre o golpe de 1953, sobre as sanções, sobre os bombardeios israelenses, e o iraniano é visto como uma testemunha valiosa. Fale para o mesmo público sobre execuções, o uso obrigatório do hijab, a repressão aos trabalhadores da cana-de-açúcar de Haft Tappeh ou aos sindicatos de professores, e surge uma nova série de questionamentos. Por que agora? Quem se beneficia com o que você está dizendo? Você está reproduzindo narrativas ocidentais? Você já provou suas credenciais anti-imperialistas? O testemunho é aceito quando confirma o esquema geopolítico e questionado quando o complica. O conceito de injustiça testemunhal, de Miranda Fricker, ajuda a nomear esse déficit de credibilidade: o falante sofre uma injustiça especificamente em sua capacidade como sujeito de conhecimento.
Não existe uma voz iraniana única à espera de ser ouvida. Prisioneiros, trabalhadores, feministas, curdos, balúchis e organizações da diáspora iranianas discordam profundamente entre si – sobre sanções, sobre federalismo, sobre o que deveria substituir a República Islâmica. Essas divergências constituem pensamento político, e é isso que a configuração atual apaga: os iranianos fornecem o testemunho, e outra pessoa fornece o seu significado. Designar um intérprete diferente não resolveria isso.
Yassin al-Haj Saleh, que assinou a carta do Guardian e passou dezesseis anos nas prisões de Assad, descreveu essa mesma experiência há uma década. Ele a chamou de negação da agência epistemológica. Aos sírios era permitido fornecer o sofrimento, as histórias pessoais e as citações; o direito de definir o significado da Síria permanecia com outros. Ele recebia lições de esquerdistas europeus sobre o caráter imperialista de uma revolta que ele vivenciava na própria pele. Sua formulação continua contundente: um anti-imperialismo que só consegue reconhecer o poder imperial quando este está sediado em Washington acaba reproduzindo uma relação imperial no próprio domínio do conhecimento.
Essa tendência tem um nome. O “campismo” decide de antemão quais estados compõem o campo anti-imperialista e, então, interpreta toda luta social à luz desse alinhamento. No entanto, não se trata de uma política de equidistância ao estilo da Guerra Fria, e a posição iraniana não constitui um “terceiro campo” situado entre dois governos. Como argumenta Mokhtareizadeh, rejeitar tanto a guerra imperialista quanto a repressão interna é uma afirmação de autonomia política, e não de neutralidade. Trabalhadores, feministas e militantes de esquerda iranianos não estão posicionados a meio caminho entre Washington e Teerã; eles ocupam um lugar que o mapa do campismo não mostra.
O Irã já realizou esse experimento
Os iranianos não precisam de um experimento mental para saber o que acontece quando o anti-imperialismo é declarado a contradição primordial, à qual todas as outras lutas devem se subordinar. Nós temos a história.
As mulheres depararam-se com essa realidade em questão de semanas. No início de março de 1979, a Lei de Proteção à Família já havia sido revogada, Khomeini anunciara que mulheres não poderiam atuar como juízas e a imposição do uso do véu começava a chegar aos locais de trabalho. Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas. Elas debatiam a quem a revolução se destinava. Um de seus slogans era: “”A liberdade não é nem oriental nem ocidental — ela é universal”.
Mulheres de esquerda estavam entre as organizadoras dessas marchas, e algumas correntes da esquerda as apoiavam. Contudo, grande parte da esquerda organizada subordinou a autonomia das mulheres à unidade anti-imperialista. Quando o governo provisório pareceu recuar em relação à obrigatoriedade do véu, alguns grupos socialistas e democráticos deixaram de apoiar a manifestação convocada para 11 de março, argumentando que uma mobilização maior dividiria a revolução e beneficiaria o imperialismo. O ataque às mulheres podia ser reconhecido, mas ainda assim classificado como uma contradição cujo momento de enfrentamento não havia chegado.
A contradição manifestou-se no próprio seio da esquerda. Homa Nateq – historiadora, atuante nos meios dos Fedayeen e cofundadora da União Nacional das Mulheres – fez, mais tarde, uma avaliação severa de sua própria conduta. Em uma entrevista de história oral realizada em 1984, ela recordou ter ajudado a encerrar as manifestações em nome da unidade anti-imperialista e descreveu sua atuação como uma traição às mulheres iranianas.
Nada disso torna a esquerda responsável pela repressão que se seguiu. Essa responsabilidade cabe ao Estado que a executou. Em fevereiro de 1983, o Partido Tudeh – que mais longe havia ido na interpretação da República Islâmica como uma força anti-imperialista – foi declarado ilegal; sua liderança foi presa e seu secretário-geral, posteriormente, submetido a uma confissão televisionada. Cinco anos depois, o Estado executou milhares de presos políticos, incluindo centenas de militantes de esquerda em uma onda repressiva posterior, na qual muitos foram interrogados sobre suas crenças e práticas religiosas.
O adiamento não protegeu ninguém. O Estado aproveitou aqueles anos para, em seguida, construir suas prisões e seu aparato de extermínio contra muitos daqueles que haviam aceitado tal adiamento.
Desafio não é emancipação
Parte do que impulsiona essa disputa tem pouco a ver com o Irã. Para setores da esquerda metropolitana, o Irã torna-se politicamente compreensível principalmente quando a República Islâmica confronta Washington ou Tel Aviv. Os mísseis, os discursos e a política de levar a tensão ao limite oferecem a prova de que alguém, em algum lugar, está recusando uma ordem sobre a qual ativistas no Ocidente se sentem impotentes para exercer influência. É um anseio compreensível. Trata-se, também, de substituir o movimento de um povo pelo Estado de outro.
O histórico regional demonstra por que é preciso distinguir os dois. O apoio iraniano à resistência palestina tem sido real e de consequências materiais concretas. Esse apoio também foi conduzido como parte de uma política regional estruturada em torno da dissuasão, da profundidade estratégica e da segurança do regime, coexistindo com a repressão interna a árabes, curdos e balúchis iranianos. A libertação palestina e as exigências estratégicas do Estado iraniano não constituem o mesmo projeto.
Os iranianos conhecem essa história por dentro. Marxistas iranianos treinavam e se organizavam junto a movimentos palestinos antes mesmo da existência da República Islâmica – e muitos deles acabaram sendo executados por ela. O antiautoritarismo e o anti-imperialismo não são tradições rivais na história política iraniana; eles têm coexistido, repetidamente, nos mesmos movimentos e nas mesmas trajetórias políticas.
O que a solidariedade realmente exigiria
Assim, quando iranianos que rejeitam tanto a dominação estrangeira quanto o autoritarismo interno entram na conversa, tornamo-nos inconvenientes. Interrompemos o espetáculo. Somos as feministas que estragam a festa da certeza anti-imperialista.
Mas um internacionalismo que exige que o povo de um país desapareça por trás de seu Estado não é internacionalismo; é uma posição de política externa com uma bandeira vermelha. A alternativa não é a neutralidade, nem um “terceiro campo” abstraído da correlação de forças. É uma orientação voltada para as pessoas, e não para os Estados: acabar com a guerra e suspender as sanções, pois elas estão destruindo a classe que poderia mudar o Irã; opor-se às execuções e às prisões políticas, já que trabalhadores, professores, feministas e organizadores que compõem essa classe são aqueles que lotam as prisões de Evin, Qarchak e Ghezel Hesar; apoiar os sindicatos independentes, os conselhos de professores, as redes de mulheres e as organizações curdas e balúchis que permanecerão lá quando esta guerra terminar, qualquer que seja o desfecho. E construir relações com eles, em vez de emitir declarações em seu nome – com cautela, pois, dentro do Irã, uma conexão com o exterior é tratada como prova, e a solidariedade praticada descuidadamente a partir do exterior é paga por outra pessoa. Rejeitar, enfim, a presunção de que um Estado conquista imunidade ao aprender a falar o vocabulário da resistência.
Uma esquerda digna desse nome deve ser capaz de dizer tudo isso de uma só vez. Não à guerra EUA-Israel. Não às sanções. Não às execuções. Não à tortura. Não aos presos políticos. Não ao hijab obrigatório. Não à dominação imperial, e nenhuma isenção para qualquer Estado que a invoque.
Os iranianos não devem a ninguém uma escolha entre seus algozes. Tampouco os palestinos, sírios, curdos, afegãos ou ucranianos. Se a emancipação é universal, nossa solidariedade precisa ser capaz de abarcar mais de uma verdade ao mesmo tempo.
*Mina Fakhravar é doutoranda em Estudos Feministas e de Gênero na Universidade de Ottawa.
Tradução: Sean Purdy.
Publicado originalmente no portal New Politics.
Aterra é Redonda. blogue
Le génocide “oublié” du Timor oriental soutenu par les États-Unis
De 1975 à 1999, l’Indonésie, avec le soutien total et enthousiaste des États-Unis et de l’Occident, a commis le pire génocide depuis la Seconde Guerre mondiale, anéantissant quarante pour cent de la population du Timor oriental.
C’est un génocide oublié, mais qui en dit long sur le présent, notamment en raison de ses similitudes avec le génocide de Gaza, et c’est pourquoi j’ai voulu écrire à ce sujet.
Le Timor oriental, aujourd’hui connu sous le nom de République démocratique du Timor-Leste, est un petit pays insulaire d’Asie du Sud-Est qui partage sur l’île une frontière occidentale avec l’Indonésie. Au sud, l’Australie se trouve à moins de 750 km au sud de la mer de Timor. Le Timor-Leste a été colonisé au XVIe siècle par des prêtres catholiques portugais, et le Portugal a pris officiellement son contrôle colonial en 1702. La domination portugaise a duré plus de 270 ans, jusqu’en novembre 1975, date à laquelle le Timor oriental a proclamé son indépendance après la fin de la dictature portugaise et la dissolution de son empire.
À peine deux semaines après sa déclaration d’indépendance, l’Indonésie a envahi le pays, officiellement pour maintenir l’ordre après le déclenchement de combats entre des factions fidèles au parti conservateur UDT aligné sur l’Indonésie, et le Front révolutionnaire du Timor oriental indépendant (Fretilin) de gauche, composé en grande partie de socialistes catholiques. En réalité, l’invasion devait empêcher le Fretilin, largement soutenu par la population timoraise, de former un gouvernement socialiste populaire hostile à la dictature militaire de Suharto soutenue par les États-Unis. Un tel gouvernement si proche de Suharto aurait constitué un grave défi idéologique au pouvoir de Suharyo, fondé sur le massacre de un million de communistes en Indonésie. Dès que le Fretilin s’est imposé en tant que populaire, l’Indonésie s’est montrée déterminée à empêcher les Timorais de monter la tête à leurs voisins. Le plan était donc simple : tuer un maximum de Timorais partisans du Fretilin.
L’intention génocidaire était claire d’emblée, et ce génocide a été approuvé par les soutiens américains de Suharto littéralement la veille de son déclenchement. Une note déclassifiée révèle que, le 6 décembre, le président américain Gerald Ford et son secrétaire d’État Henry Kissinger ont rencontré Suharto à Jakarta, où ce dernier leur a fait part de son intention de “prendre des mesures drastiques” au Timor oriental. En réponse, Ford lui a déclaré :
“Nous comprendrons et ne vous mettrons pas la pression sur la question. Nous comprenons vos intentions”.
Kissinger a quant à lui déclaré à Suharto :
“Quoi que vous fassiez, il est crucial que vous agissiez vite”.
Fort de l’aval donné à ce génocide par ses soutiens américains, Suharto a ordonné l’invasion pour le lendemain matin. L’attaque initiale, le matin du 7 décembre 1975, a vu des dizaines de milliers de parachutistes prendre d’assaut les villes et villages de tout le Timor oriental et ouvrir le feu sans discernement. Berta dos Santos, alors enfant lorsque l’Indonésie a envahi son petit village agricole de Lospalos, a déclaré à Al Jazeera l’année dernière :
“Ils ont atterri en parachute et ont tout simplement commencé à tirer”.
La mère de Dos Santos a été enlevée et contrainte à l’esclavage sexuel. Au cours des premiers jours, des villages entiers ont été massacrés alors que l’Indonésie tentait de détruire la base de soutien du Fretilin et de plonger ce pays naissant dans les ténèbres et le chaos.
Le 9 décembre, à Dili, principal port maritime du Timor oriental, des soldats indonésiens ont massacré environ 2 000 personnes en deux jours. L’évêque de Dili, Martinho da Costa Lopes, a déclaré plus tard :
“Les soldats qui ont débarqué se sont mis à tuer tout ce qui bougeait. Il y avait beaucoup de cadavres dans les rues. Tout ce que nous pouvions voir, c’étaient les soldats qui tuaient, tuaient, et tuaient encore”.
Lors d’un massacre largement documenté, 150 hommes, femmes et enfants ont été conduits sur le quai et exécutés un par un, tandis que la foule était chargée de compter leurs corps au fur et à mesure qu’ils tombaient à l’eau. Parmi les personnes assassinées lors du massacre du quai de Gili figurait un journaliste australien travaillant pour l’agence AAP-Reuters, Roger East. En octobre de la même année, East a couvert le meurtre de cinq journalistes au Timor oriental — deux Britanniques, deux Australiens et un Néo-Zélandais — par les forces spéciales indonésiennes. East a démontré le caractère mensonger des affirmations de l’Indonésie — reprises par les médias occidentaux — selon lesquelles les journalistes auraient été tués dans des tirs croisés entre les combattants de la résistance du Fretilin et les troupes indonésiennes. À l’époque, aucun des gouvernements des pays concernés ne s’est soucié de l’assassinat de ses citoyens. Pourquoi ? Parce que l’Indonésie était un allié anticommuniste essentiel de l’Occident en Asie du Sud-Est. (Ce n’est que vingt-cinq ans plus tard, après le départ de Suharto et l’indépendance du Timor oriental, que des enquêtes sur ces meurtres ont enfin été ouvertes).
Le génocide s’est poursuivi avec une férocité extrême jusqu’à la fin des années 1970. En 1977, deux religieuses de Lisbonne ont reçu une lettre d’un prêtre catholique portugais caché au Timor oriental, où il décrivait les horreurs auxquelles la population était confrontée :
“Les bombardiers ne s’arrêtent pas de la journée. Des centaines de personnes meurent chaque jour. Les corps des victimes sont dévorés par les oiseaux carnivores. Des villages ont été intégralement détruits. Les barbaries du Moyen Âge ou de l’âge de pierre, toute la cruauté organisée, sont concentrées au Timor. Ce sera bientôt un génocide”.
On ne parlait pas de génocide “bientôt”, il était déjà là, et les armes utilisées pour le perpétrer provenaient toutes des États-Unis. Des années plus tard, Philip Liechty, alors haut responsable de la CIA à Jakarta, a déclaré au journaliste John Pilger :
“On nous a ordonné de donner aux Indonésiens tout ce qu’ils voulaient, et des armes américaines ont été expédiées directement au Timor oriental à l’insu du Congrès”.
Ces armes comprenaient des avions C-130, un escadron de chasseurs F-5E, un escadron d’avions d’attaque A-4, trois destroyers construits aux États-Unis, des hélicoptères d’attaque, des munitions, des roquettes, des lance-roquettes, du matériel d’infanterie légère, notamment des fusils et des mortiers, ainsi que la création d’une usine de production de M-16 en Indonésie. Les détails de ces livraisons massives d’armes ont été révélés dans un télégramme déclassifié de 1979 soulignant l’importance de soutenir l’Indonésie, non seulement pour des raisons idéologiques, mais aussi pour son pétrole, qui représentait à l’époque 5 % des importations américaines.
Les livraisons d’armes se sont poursuivies après la défaite de Ford en 1976 face à Jimmy Carter, un homme célébré en héros libéral, mais tout aussi déterminé à gérer l’empire américain et à promouvoir ses intérêts que n’importe quel autre président américain. Et ces intérêts ont été servis en finançant le génocide du Timor oriental.
Des témoignages recueillis auprès de milliers de personnes et détaillés dans le rapport de la Commission pour l’accueil, la vérité et la réconciliation au Timor-Leste décrivent des pillages systématiques par les troupes indonésiennes, des rafles de centaines de civils à la fois, des viols, des jeunes femmes séparées de leur famille et emmenées dans des camions, des actes de torture perpétrés par les services du renseignement indonésiens, ainsi que des meurtres de masse aveugles.
En 1978, l’Indonésie a lancé ce qui allait devenir la “campagne d’encerclement et d’anéantissement” pour vaincre les combattants de la résistance du Fretilin repliés dans l’arrière-pays montagneux. Cette campagne a fait appel à des armes chimiques larguées sur des populations civiles, à la torture, aux viols de masse et à la destruction délibérée des fermes, du matériel agricole et des stocks alimentaires pour provoquer une famine. Le 31 décembre 1978, le président élu du Timor oriental et chef de la résistance, Nicholas Lobato, a été tué par les troupes indonésiennes. La couverture médiatique occidentale de sa mort fait écho à un câble du Département d’État américain qui qualifiait son assassinat de succès majeur. Dans les mois qui ont suivi son assassinat, l’Indonésie a traqué sa famille, assassinant sa mère Felismina etplusieurs de ses enfants, tandis que sa sœur Maria et son mari ont également été assassinés, et que son oncle Paolo a disparu.
Le génocide s’est intensifié en 1979 lorsque les troupes indonésiennes ont forcé environ 320.000 Timorais, soit près de la moitié de la population d’avant le génocide (650 000 habitants), à quitter les hautes terres pour être envoyés dans des camps de concentration
calqués sur les soi-disant “hameaux stratégiques” utilisés par les Sud-Vietnamiens soutenus par les États-Unis pendant la guerre du Vietnam. On estime que jusqu’à 200 000 Timorais sont morts de maladie et de famine provoquée par une campagne délibérée destinée à affamer la population au cours des années suivantes.
Liechty a déclaré à John Pilger que les responsables américains savaient parfaitement qu’il s’agissait d’un génocide.
“Nous disposions de renseignements fiables indiquant que les populations étaient parquées dans des bâtiments scolaires, puis que ces bâtiments ont été incendiés, et que quiconque tentait de s’échapper était abattu. Des gens étaient rassemblés dans des champs et mitraillés. Nous savions que l’endroit était une zone de tir libre”.
Mais les armes, fournies par Ford, Carter, Reagan, Bush et enfin Clinton, ont continué à affluer.
La résistance timoraise a imploré l’aide du monde extérieur, mais le Département d’État américain a déclaré aux journalistes enquêtant sur l’affaire que les allégations de génocide, de camps de concentration et de famine étaient soit des mensonges purs et simples, soit “largement exagérées”pour susciter la compassion. Ce n’est que lorsqu’un journaliste australien, Roger Peters, a réussi à se rendre au Timor oriental pour prendre des photos de camps abritant des enfants décharnés et affamés que l’ampleur de l’horreur était devenue indéniable. Mais au lieu de réagir pour mettre fin au génocide, la politique occidentale est restée résolument pro-Suharto et favorable au génocide.
Il faut souligner le rôle joué par d’autres puissances occidentales dans le génocide du Timor oriental. Si les États-Unis ont été le principal bailleur de fonds et fournisseur d’armes, le Royaume-Uni, la France et l’Australie ont eux aussi vendu des armes à Suharto, soutenu l’Indonésie à l’ONU, couvert le génocide et contribué à priver les Timorais de toute aide.
Le Royaume-Uni considérait l’Indonésie sous Suharto comme un partenaire régional important et souhaitait éviter toute opposition sur la question du Timor oriental. Une note de service déclassifiée du ministère des Affaires étrangères datant de 1975 indique explicitement qu’un des objectifs des relations du Royaume-Uni avec Jakarta était de “tirer profit des ventes d’armement susceptibles de servir nos intérêts”.
Et en effet, pendant le génocide perpétré par l’Indonésie au Timor oriental, le Royaume-Uni est devenu un important fournisseur d’armement à l’Indonésie, vendant avions de chasse, frégates, systèmes de missiles sol-air, véhicules blindés et matériel de transmission militaire. Une enquête menée par la suite a révélé que du matériel britannique a été utilisé au Timor oriental pour réprimer la population. Le Royaume-Uni a également formé du personnel militaire indonésien et, jusqu’aux derniers jours de la dictature de Suharto, a fourni des centaines de millions de livres d’aide économique à ce pays.
L’Australie a aussi été un partenaire clé : elle a fait don d’avions de chasse Sabre à l’Indonésie en 1973 et, quelques semaines seulement avant l’invasion, a accepté d’envoyer du personnel de l’armée de l’air australienne pour aider les pilotes et techniciens indonésiens à faire fonctionner et à entretenir ces avions de chasse. L’Australie s’est également distinguée parmi les États occidentaux en reconnaissant officiellement l’annexion du Timor oriental par l’Indonésie en 1979, une position dont elle espérait tirer profit pour décrocher de lucratifs contrats pétroliers liés aux vastes réserves situées au large des côtes du Timor oriental, dans la mer de Timor.
La France a également collaboré, contribuant à soutenir le régime de Suharto en lui vendant du matériel militaire dès les premiers jours de son règne. Après son élection en 1981, François Mitterrand a joué un rôle central dans l’accélération de la coopération militaire avec l’Indonésie, si bien qu’en 1991, la France était le deuxième plus grand bailleur de fonds de l’Indonésie de Suharto après les États-Unis, selon le rapport de la commission de vérité du Timor-Leste.
Les massacres se sont poursuivis tout au long des années 1990, avec le soutien de l’Occident et des États-Unis. En 1991, plus de 250 civils timorais ont été abattus par des soldats formés par les États-Unis au cimetière de Santa Cruz, lors de la cérémonie commémorative en hommage à un jeune partisan de l’indépendance tué par les forces indonésiennes. Plus tard dans l’année, des dizaines d’autres ont été massacrés lors d’une manifestation pacifique en faveur de l’indépendance. Les massacres se sont poursuivis tout au long des années 90, mais cela n’a pas modifié la politique américaine. Des notes de service déclassifiées montrent que Clinton a personnellement appelé Suhartoen 1998, pendant la crise financière asiatique, pour dire au dictateur combien il appréciait leur amitié et lui promettre l’aide du Trésor américain, ce qui a finalement abouti à un prêt de 3 milliards de dollars américains accordé au pays.
Quelques mois plus tard, début 1999, alors que le Timor oriental était sur le point d’accéder à l’indépendance après la chute de Suharto, des paramilitaires indonésiens ont commis le
massacre de l’église de Luiquica, tuant 40 civils à l’intérieur d’une église. En septembre de la même année, une semaine après que les Timorais ont voté massivement en faveur de l’indépendance, pas moins de 200 personnes ont été tuées lors d’un autre massacre dans une église à Suai.
Quand Suharto est tombé, des médias américains comme le New York Timesont rapporté que Bill Clinton s’en était vivement réjoui. Ce même Bill Clinton qui, quelques mois plus tôt, s’était engagé à apporter son soutien personnel au dictateur. Lorsque le Timor oriental a enfin accédé à l’indépendance, les reportages de l’époque ont attribué ce succès à la générosité de l’empire, couvrant d’éloges Bill Clinton, Tony Blair, John Howard et d’autres pour avoir aidé à mettre en place une force de maintien de la paix de l’ONU au Timor oriental. On a ainsi occulté les 25 années durant lesquelles ces mêmes pays ont armé, financé et soutenu le génocide du peuple dont ils prétendaient désormais s’inquiéter fortement. Clinton, présent à la cérémonie d’indépendance, a prononcé un discours dans lequel il a déclaré :
“Votre liberté a été acquise au prix du sang et du sacrifice”.
Le culot et l’arrogance stupéfiants de l’empire sont si honteux qu’ils en seraient presque admirables. Un culot et une arrogance uniquement rendus possibles par la complicité de médias qui refusent catégoriquement de replacer les événements dans leur contexte et dont le rôle consiste toujours à dissimuler l’ampleur et l’intensité de la barbarie et de l’hypocrisie impériales.
Et c’est en cela, parmi bien d’autres aspects, que le génocide du Timor oriental présente des similitudes frappantes avec celui de Gaza. Un commanditaire colonial armé, financé et protégé par les États-Unis et l’Occident, un groupe de résistance soutenu par la population qualifié de terroriste, le meurtre de citoyens occidentaux par la puissance génocidaire sans autre conséquence, la famine imposée, la torture et le pillage. Et, lorsque la Palestine sera enfin libre, nous pouvons être sûrs que les médias occidentaux, après avoir préparé le terrain rhétorique du génocide, tenteront, comme au Timor oriental, de faire passer les tortionnaires et les auteurs de massacres de Gaza pour des sauveurs.
L’histoire du Timor oriental est la preuve supplémentaire que, dès lors qu’on parle de la politique étrangère américaine et occidentale, aberrations et cas isolés sont inexistants. Les schémas se répètent sans cesse. Les impérialistes de notre monde ne mènent pas de guerres justes, et les médias ne couvrent pas fidèlement ces guerres. Lorsque les armes et les services du renseignement occidentaux servent à tuer massivement, ils n’aident pas les “bons” à se défendre contre les “méchants”. Que ce soit en Israël-Palestine, en Ukraine ou au Timor oriental, ils servent à promouvoir les intérêts géopolitiques, stratégiques et économiques des nations impérialistes du monde. Et les massacres représentent le prix acceptable à payer pour faire avancer ces intérêts.
Le génocide du Timor oriental est un autre chapitre honteux de la barbarie et de l’inhumanité impérialistes, un chapitre aujourd’hui largement oublié et pourtant si récent dans l’histoire. Cet oubli n’est pas le fruit du hasard, il est orchestré, contribuant à faire en sorte que la justice ne soit jamais rendue pour un génocide soutenu par l’Occident.
Mais le Timor oriental ne devrait pas être commémoré uniquement pour cela.
Même s’il s’agit de l’histoire d’un empire barbare, c’est aussi l’histoire de la résistance à cet empire. Car jusqu’aux derniers jours de la domination indonésienne, la résistance a tenu bon, les combattants affrontant les troupes indonésiennes jusque dans les derniers instants.
Et c’est ainsi qu’un Timor-Leste libre et indépendant constitue désormais une source d’inspiration pour la résistance anti-impérialiste partout dans le monde.
Source originale: Do not Panic
Traduit de l’anglais par Spirit of Free Speech
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
ENRIQUE UBIETA GÓMEZ. Cuba en la encrucijada del “Nuevo Orden Trumpi/fascista”
EL DIÁLOGO COMO UNA OPERACIÓN MEDIÁTICA
La primera premisa de estas reflexiones es categórica: el gobierno de Trump jamás ha querido dialogar con Cuba. Su propuesta de diálogo, asumida en principio por Cuba, es una finta para desamarrar el nudo gordiano de la resistencia popular y del prestigio internacional que hemos ganado en décadas de consecuencia, una fina operación política y mediática para deslegitimar la Revolución, hacia afuera y hacia adentro. Para el actual gobierno de los Estados Unidos, la única solución posible es la destrucción, la sumisión total de la isla rebelde. Enemigos y amigos (que se atienen al manual de la vieja diplomacia) piden que cese la amenaza militar sobre la isla y que el conflicto se solucione por la vía pacífica, lo que significa negociar una salida. Pero los caminos están obstruidos en tanto la salida es inaceptable. Y una parte importante de la Humanidad (los pueblos, y yo diría que muchos gobiernos afectados por la política caótica de Washington), aspira en secreto a que Cuba resista. En la historia de los pueblos, como en la de los individuos, hay un punto de no retorno. Si un pueblo desafía los mayores poderes hasta el punto de que su propia existencia peligra (“los que van a morir te saludan”, retaba Fidel a Bush hijo, que amenazaba al país), no puede retroceder. Además del caso venezolano, me viene a la mente la traición de Syriza al pueblo griego, que después de consultarlo y recibir su respaldo para el repudio de la deuda, optó por ceder ante la presión europea. En ambos casos (Venezuela y Grecia) sus autoridades adujeron que lo hacían para impedir una masacre o una hambruna.
¿Cuáles han sido las matrices de opinión que el imperialismo ha construido para su actual campaña mediática? Hablo de una estrategia para dividir y desacreditar a la Revolución, y para deslegitimar al presidente Díaz Canel, basada en mentiras, medias verdades y hechos manipulados. Todas están enlazadas: la presentación de Cuba como Estado fallido, necesitado de apoyos externos para sobrevivir, como el de la Unión Soviética o Venezuela, y a la presentación de la actual crisis extrema como consecuencia no de las sanciones, sino de la incapacidad del gobierno para gestionar el país y el desvío de los recursos disponibles hacia la satisfacción de una elite gubernamental; la presunción de que el verdadero poder está en la “familia Castro” y su círculo, y de que Díaz Canel es solo un administrador sin capacidad de decisión. En este propósito ha jugado un papel simbólico Raúl Guillermo Rodríguez Castro, nieto de Raúl y jefe de su escolta. ¿Insistieron los emisarios del imperio en que fuese uno de los interlocutores?
Como nosotros —siguiendo el comportamiento diplomático tradicional para encuentros sensibles— guardamos silencio, ellos inmediatamente filtraron y sobredimensionaron su presencia y anunciaron la realización de “negociaciones” (entrecomillo la palabra, porque negociar la paz al estilo de Trump, supone grandes concesiones que nunca haremos): “en unas semanas tomaré Cuba amistosamente”, dijo el emperador. Esa frase era suficiente para romper cualquier contacto. No ha sido la única. Cuba sin embargo apuesta a que las supuestas o reales conversaciones ofrezcan a quienes se oponen al trumpismo un argumento más para luchar por la desmovilización militar.
No obstante, pensar que las declaraciones de Trump son actos de reafirmación personal, y que existe un segmento de su gobierno, incluso del sector militar, más serio y pragmático, capaz de detenerlo, es ilusorio. El binomio Trump – Rubio controla la política hacia Cuba. Nuestras conversaciones anteriores con gobiernos estadounidenses, hasta llegar a Obama, se produjeron en contextos diferentes. Entiéndase: Fidel siempre dijo —y un video que trasmitía una y otra vez la televisión, lo recordaba— que Cuba jamás negociaría con una pistola en la sien. “No nos gusta que nos amenacen”, decía.
El Poder en Washington hoy es fascista; lo que entiende por conveniente trasciende el concepto de relaciones moderadamente hegemónicas, necesita colonias. Su modelo presidencial para América Latina tiene ya varios rostros: Milei, Kast, Noboa, Fujimori, Bolsonaro, pero ninguno de esos lacayos sería adecuado para Cuba. Tampoco una Delcy Rodríguez, opción imposible en el entramado político cubano. La traición del actual gobierno de Venezuela para con su pueblo es una herida abierta en América Latina, especialmente dolorosa para Cuba. En nuestro país, según la Ley Helms-Burton, sería necesario un gobernador al estilo de Puerto Rico y una masacre previa de revolucionarios que lo permita.
De manera reactiva reconocimos públicamente que habíamos aceptado el ofrecimiento de diálogo, lo que ha sido una actitud de principio en la historia de la Revolución. En varias de sus intervenciones, Díaz Canel ha ratificado esa disposición. Dos maniobras del imperialismo, enlazadas en su aparente antítesis se sucedieron, para fortalecer el mensaje deslegitimador: Raúl Castro, el héroe y líder cubano, supuestamente al frente de la “negociación” (según los medios enemigos), es enjuiciado en ausencia por el “asesinato” de los pilotos del grupo terrorista Hermanos al Rescate; de la otra, una manipulada entrevista/perfil de Raúl Guillermo, que se regala con extrema ingenuidad política y muestra sus debilidades reales. Como era de esperar, esta última generó repulsa y la legítima protesta de los revolucionarios; pero también propició que los contrarrevolucionarios y los reformistas/autonomistas del siglo XXI aprovecharan ese performance para señalar la existencia de individuos que traicionan los ideales socialistas.
No se trata de marginar a los descendientes del liderazgo histórico, que deben ser ciudadanos con iguales condiciones de vida y de participación política y social; de hecho hay algunos que destacan por su aporte y modestia. Supongo que es un drama terrible, por el que transitó el hijo de Martí. Pero esas personas tienen una responsabilidad histórica en una sociedad que enarbola el paradigma de la justicia social. La idea que intentan sembrar de que en la Revolución cubana gobierna Raúl “y sus hombres”, poseedores del control económico y militar, es contraproducente. Ello conduce a la idea de que existen intereses diferentes y que incluso, alguno de esos hombres, o todos de conjunto, podrían usar a su favor o forzar según su parecer la toma de decisiones en nombre de un héroe legendario que, no hay que olvidarlo, tiene 95 años.
La persistencia del imperialismo en cercar con sanciones al conglomerado GAESA, una estructura económica exitosa creada dentro de las Fuerzas Armadas para romper el bloqueo estadounidense, que hereda su disciplina y su discreción, además de golpear a un sector vital de la economía cubana, es asociada a la matriz que sitúa a las FAR (y a su líder histórico) como el verdadero poder. Es cierto que Díaz Canel ha insistido, sin complejos, que en su gobierno se toman decisiones conjuntas y que no existen diferencias de criterio con Raúl. Pero su legitimidad, ganada a pie de pueblo, y de los sucesivos gobiernos que vendrían en el país, no puede depender del respaldo de ninguna figura histórica.
LAS MEDIDAS ECONÓMICAS Y SU IMPACTO IDEOLÓGICO
Quisiera detenerme en las 176 medidas recientemente adoptadas por el Partido y el gobierno cubanos. Mi análisis, lo reconozco, es ideológico, no económico. Aunque ambos planos están interrelacionados, miro la economía desde la atalaya ideológica y no al revés. Muchas de esas medidas habían sido ya discutidas y aprobadas en principio. Otras avanzaron más (algunos reformistas locales han declarado que las medidas fueron más lejos de lo que ellos habían propuesto) e introducen mecanismos económicos típicamente capitalistas. No pretendo discutir si existía o no otro camino; reconozco que las vías de financiamiento para la vida en Cuba se han obstruido al punto de provocar una parálisis general. Solo pretendo, como ya dije, valorar sus implicaciones ideológicas.
El proceso hacia la aceptación de mecanismos propios de una economía de mercado viene abriéndose paso, de manera integral, desde la aprobación de los Lineamientos (2011). Reitero: de manera integral, aunque puedan reconocerse antecedentes. Para la aceptación de ese camino convergen tres elementos infalibles: desesperación e impotencia de la población ante los efectos del bloqueo recrudecido, bombardeo mediático contrarrevolucionario y reformista/autonomista, y origen de la propuesta en el propio liderazgo de la Revolución.
No es un dato menor el hecho de que la primera versión de la nueva Constitución (2019) prescindiera de la palabra comunismo. A pesar de que las investigaciones sociológicas ya evidenciaban un deterioro importante del consenso popular en torno al socialismo, el pueblo reclamó ese horizonte, y la palabra fue reincorporada. No importa lo lejano que pueda parecer (y estar) el horizonte comunista y lo difuso de su planteamiento, si dejamos de considerarlo, la navegación pierde sentido, el río se transforma en lago, y el capitalismo parece “perfectible”, pero no superable.
Si consideramos que el crecimiento económico fue percibido como el principal trabajo ideológico, y se abandonaron las movilizaciones y las misiones del pueblo, los discursos pedagógicos y que, por otra parte, los cambios que desde entonces vienen introduciéndose arrastran su propia estela ideológica, la situación creada, que ahora se aduce como referente de partida (cuando en realidad es referente de llegada), es la de un retroceso en el consenso alcanzado y mantenido durante décadas en torno al socialismo. Añado que la guerra ideológica pasó de ser una batalla “persona a persona” (la Batalla de Ideas y el internacionalismo médico revitalizado de Fidel, sus últimos esfuerzos por recuperar las esencias del socialismo), a ser una guerra de redes sociales, donde la supuesta victoria radicaba en la cantidad de seguidores y de retuits.
El sobredimensionamiento de la capacidad de las redes para hacer política revolucionaria (y la subestimación en la práctica, a pesar de las continuas declaraciones al respecto, de su capacidad para hacer política contrarrevolucionaria) produjo un deterioro en las posibilidades de incidencia ideológica entre los jóvenes. Las redes están diseñadas, como las corrientes marinas, para alejar a los nadadores de la costa. Por último, de la “universalización” de la enseñanza que proponía la Batalla de Ideas (Fidel hablaba de convertir a Cuba en el país más culto del mundo) se pasó a una reducción de los currículos académicos (2013 – 2018), de acuerdo con los modelos “modernos” y se suprimieron asignaturas vitales (historia, filosofía y economía política marxistas) en carreras que aparentemente no las necesitaban. Aunque insisto, la escuela de una Revolución más que en los libros o en las redes (ambos son complementos necesarios), está en la calle, en la participación del pueblo, en la pedagogía del hacer, en la práctica revolucionaria.
El movimiento revolucionario cubano, latinoamericano y mundial ha aspirado siempre a la nacionalización de las grandes empresas extranjeras y a la eliminación de los latifundios, sean productivos o no. Eso es parte también de la historia de la Revolución cubana. La pregunta más importante que debemos responder en estas condiciones, para recuperar la dignidad de aquel consenso es simple: ¿por qué no se asumieron estas medidas antes? Los reformistas (término que en la historia de Cuba se asocia a una proyección no revolucionaria, y no a la adopción de reformas) dicen que este paquete debió implementarse hace 30 años y argumentan que no se hizo por culpa del dogmatismo y del esquematismo de algunos dirigentes y funcionarios.
¿Era dogmático Fidel? Es cierto que en determinados momentos aceptó cambios que eran inevitables, pero lo hizo no sin resistencia y bajo el presupuesto de que significaban un retroceso. Si entendemos bien sus palabras, en las condiciones del Período Especial debíamos consagrarnos a la conservación de las conquistas del socialismo. Ello no significaba la renuncia a proseguir su construcción en cuanto fuese posible. La adversidad nunca lo detuvo.
Sin embargo, el concepto de “conquistas de la Revolución” ha empezado a flexibilizarse y la privatización empieza a cortejar incluso a sectores como la salud y la educación. La disculpa más socorrida para cada medida, es que lo que se acepta ya existía de manera ilegal y solo se trata de legalizarlo. Pero los revolucionarios no administramos consensos y realidades previamente conformadas; derribamos lo establecido en la práctica y en las mentes para construir nuestros propios consensos y realidades.
La comprensión de lo que entendemos por socialismo es vital para el sostenimiento de la soberanía nacional. Hablar de sentimientos patrióticos en abstracto es una estrategia burguesa: las palmas, el mar, el barrio, los amigos, la familia, el juego de dominó, incluso la música, no son la Patria, no la Patria libre, justa, internacionalista, martiana y fidelista. La Patria abstracta que ya se manifiesta sin contrapeso en las redes sociales y en un segmento del discurso oficial, funde las dos posibilidades del destino nacional: Miami y La Habana, la colonia y la independencia (y sabemos que ambas no pueden coexistir), a favor de la primera, que es donde está el dinero.
Por otra parte, ¿qué es una conquista de la Revolución? Por ejemplo, la nacionalización de la Empresa Eléctrica yanqui, ¿fue una conquista revolucionaria? No me digan que la estatal no funciona, porque la privada de Puerto Rico, sin bloqueo, tampoco. La Reforma Agraria, ¿fue una conquista de la Revolución? En un sentido más profundo y complejo: ¿podremos sostener la mayor de las conquistas de la Revolución: el orgullo nacional, por ser el primer país libre de América, el de la victoria sobre el imperialismo en Girón, el del internacionalismo y la derrota del Apartheid en África, el de nuestros imbatibles campeones ajenos al mercado como Stevenson, Juantorena, Ana Fidelia, Mijain, las morenas del Caribe, los equipos de pelota capaces de triunfar sobre cualquier rival, profesional o amateur, las vacunas hechas en casa, más eficientes que las de grandes trasnacionales? ¿Por qué se condena como peligrosos seudomarxistas y ultraizquierdistas, a quienes expresan criterios que se oponen o que cuestionan algunas de las medidas adoptadas? Necesitamos un debate real, y si las opiniones de los revolucionarios que piensan de otra manera son consideradas “incomprensiones”, el debate se reduce a “que comprendan”.
De alguna manera, en lo económico, estamos más cerca de una concepción socialdemócrata (redistribución solidaria de la riqueza mediante impuestos y políticas sociales, en un llamado Estado de Bienestar, solo posible en países con un alto desarrollo económico) del socialismo. Con la diferencia de que pretendemos conservar el actual sistema político (partido único y dirigente de la sociedad y Poder Popular, que puede y debe profundizarse si queremos que ejerza el papel que el socialismo demanda), con la esperanza de que garantice la direccionalidad de las inversiones y de las ganancias en beneficio e interés social, según el modelo chino y vietnamita, dos países con enormes riquezas naturales, muy lejos geográficamente de los Estados Unidos, que crecieron sin bloqueo y con una emigración amistosa. La cultura del ser opuesta a la del tener, no era ciertamente una conquista, era un horizonte que por el momento se desvanece.
En esos países de cultura milenaria, los sentimientos patrióticos no dependen como en Cuba de concepciones socialistas. La nación cubana surge de una Revolución que empieza a germinar a fines del siglo XVIII e inicios del siglo XIX en un segmento privilegiado de su población y estalla en 1868, para alcanzar con los años a todos los estratos sociales en sucesivos combates antiesclavistas, anticolonialistas y antimperialistas, aferrada a un concepto cada vez más amplio y radical de justicia social. No es una nación (o si se prefiere, ajustando el concepto marxista de nación al Estado burgués, una protonación) que fue colonizada por una potencia extranjera, como las asiáticas, es una nación que el colonialismo engendró. Es Calíban, hijo de Próspero, hecho de las más diversas influencias y al mismo tiempo negador de estas. Una nación parricida. O es anticolonial y antimperialista, es decir, anticapitalista, o no es.
El debate podría extenderse incluso hasta un presupuesto extremo: ¿realmente existió el socialismo en Cuba? Tuvimos una economía estatizada, alegan algunos, pero no un verdadero control popular en cada fábrica, empresa, en cada comunidad. Nuestro concepto de socialismo estuvo lastrado por la práctica histórica y el cerco imperialista, y a pesar de ello, gracias al genio de Fidel, fue más democrático y participativo que otras experiencias. No solo ejercimos la solidaridad hacia el interior del país, también la practicamos hacia el mundo.
Es verdad que no haló parejo a sus ciudadanos: las diferencias sociales, eliminadas de las normas jurídicas y de la posesión de bienes, mantuvieron su presencia en la cultura y la economía del subdesarrollo, en las costumbres y en los diversos orígenes e identidades. Algunas zonas alejadas de los centros metropolitanos no alcanzaron los beneficios esperados. Pero el pueblo se sintió protagonista de la historia, consolidó su sentido de nación y vislumbró un horizonte común. ¿Seremos capaces de sostener y elevar el protagonismo del pueblo y del Partido, en la nueva estructura socio-clasista, en la que ya existe y en la que se avecina?
CONTEXTO INTERNACIONAL RESUMIDO
No puede entenderse la crisis económica y social por la que atraviesa Cuba si no se ubica en su contexto internacional. A partir del abrupto derrumbe o “desmerengamiento” del llamado sistema socialista, las fuerzas de izquierda han navegado a la deriva. No me refiero a quienes abjuraron de sus creencias y sintieron vergüenza de haber luchado alguna vez por los desposeídos, como si al caer la Unión Soviéticas y hacerse públicas sus manquedades (nadie habló más de sus éxitos), hubiesen desaparecido la pobreza y la explotación de unos hombres sobre otros y de unos pueblos sobre otros. Cuba fue la excepción en el hemisferio occidental. “No es que seamos el único país progresista, democrático y revolucionario —afirmaba Fidel en 1992—, es que somos el único país convertido en un islote de Revolución en un mundo prácticamente unipolar, a pocas millas del imperialismo hegemónico, y rodeado de capitalismo por todas partes; en un islote de Revolución entre el Atlántico y el Pacífico”.
Hablo de quienes han persistido en un ideal de justicia social. El unipolarismo de los años noventa llevó a Fidel a la convicción de que no era ya posible la lucha armada como vía para la toma del poder. El internacionalismo médico (reducido en años posteriores el simbolismo semántico de la palabra al de “colaboración”, más ajustado al lenguaje de las Naciones Unidas) revitalizado por Fidel en Centroamérica y Haití poco antes del triunfo electoral de Chávez, como una manera de construir ideología socialista también hacia lo interno, sin palabras, con hechos, fue parte de la nueva estrategia. “Ejército de batas blancas”, lo llamó. La irrupción de Chávez en Venezuela por la vía electoral abrió un nuevo camino y una nueva esperanza.
La democracia burguesa finamente tejida para sostener a la burguesía inicialmente revolucionaria en el poder e impedir la llegada a este de los grupos antisistema (de los reaccionarios y de los nuevos revolucionarios), mostraba un gran desgaste y muchos descocidos, y la voluntad popular empezaba a cobrar en las urnas los años de neoliberalismo. Aquella democracia se hizo inservible para la clase que le había dado origen. Poco a poco fue surgiendo un frente continental (Venezuela, Ecuador, Bolivia, Argentina, Brasil, El Salvador, Uruguay, Paraguay, Honduras, más algunas islas del Caribe) progresista, que se caracterizaba sobre todo por su oposición mayor o menor al imperialismo estadounidense y su latinoamericanismo.
Por un momento todo parecía posible: la casi muerte de la OEA y el nacimiento de la CELAC, sin la presencia de los Estados Unidos y Canadá. Siempre he sostenido la idea de que cada eslabón que se rompe o se agrieta en la cadena que nos mantiene supeditados al imperialismo, aún cuando el golpe provenga de una burguesía nacionalista (que no dejará de ser explotadora hacia lo interno), es un paso para la ruptura del orden internacional que sostiene al capitalismo en su fase actual.
Cuba, desde luego, había hecho una Revolución mucho más profunda, pero la nueva fórmula fue adoptada de inmediato, no solo por las izquierdas latinoamericanas, sino por las europeas. Se produjo entonces una situación contradictoria: el imperialismo (que no es solo estadounidense) y sus súbditos empezaron a desentenderse de la democracia burguesa que ya no era funcional, mientras acusaba a los estados progresistas de haber roto con ella, porque si esta no sacaba del gobierno a la izquierda intrusa en los cuatro o cinco años siguientes, como se presuponía, evidentemente no funcionaba.
En sentido inverso, la izquierda empezó entonces a defender el funcionamiento de la democracia burguesa (sin mencionar el apellido, como si fuera la única posible), y su propuesta en esos años no sobrepasó sus marcos estrechos. Cada cierto tiempo se sometía a elecciones burguesas, donde el dinero burgués/imperialista corría como es natural a favor de la oposición entreguista. A pesar de ello, esas izquierdas ganaron sucesivas elecciones (nunca reconocidas por el imperialismo, como era natural), pero se desgastaban cada vez más en el círculo vicioso de una guerra económica y mediática. La Revolución venezolana fue la más radical en sus transformaciones, con el doble efecto de las misiones sociales y la organización de comunas populares. La alianza de Chávez y Fidel elevó la apuesta internacionalista a planos superiores, con la Operación Milagro, y la conformación del ALBA – TCP.
Desentendido de las normas que exigía, el imperialismo organizó asesinatos, fraudes, golpes judiciales, mediáticos y militares, guerras económicas, demonización de estados y de figuras claves del progresismo y cuando fue posible, su encausamiento jurídico. En Cuba estábamos pendientes de cada triunfo o derrota electoral burguesa de los candidatos progresistas, y el Noticiero Nacional de televisión declaraba jubiloso que se había producido una “victoria de la democracia” cuando era reelegido uno de ellos, como si en realidad aquella fuese la democracia. Los partidos revolucionarios, inmersos en la carrera electoral, dejaron de buscar otro tipo de democracia verdaderamente popular y desestimaron, al menos en la práctica, la posibilidad de derrotar y superar al sistema capitalista. En muchos casos, las políticas progresistas de esos gobiernos fueron asistencialistas; otros aplicaron casi las mismas medidas neoliberales que habían combatido.
Mientras el imperialismo inyectaba en la conciencia social la idea de que un buen gobierno dependía únicamente de “una buena persona”, e igualaba a todos los políticos, los de izquierda y los de derecha, definiéndolos como corruptos o no corruptos, los candidatos de la “nueva” izquierda usaban los mismos mecanismos de presentación electoral que la vieja derecha, y sus propuestas no se alejaban mucho de las de sus adversarios. Algunos, temerosos y obedientes, respetaban los límites de lo “políticamente correcto”, y trataban de distanciarse de sus homólogos más audaces o vilipendiados, como Chávez o Fidel, a pesar de lo cual los acusaban de ser chavistas o fidelistas; a nosotros, sin embargo, nos acusaban de no ser como ellos.
El capitalismo vació de su contenido revolucionario y resignificó el discurso de la izquierda, de sus consignas y sus banderas. Y el pueblo dejó de creer en los políticos, en la política y en los partidos de cualquier color. Se dice que el auge de los sentimientos fascistas y la apatía ante las elecciones reflejan el descreimiento de la gente en la democracia. Es cierto, pero solo si la adjetivamos como burguesa. Los pueblos han dejado de creer, con razón, en aquella democracia. Es necesario que sepa que existe otra democracia, la popular, y que hay que luchar por ella.
Entretanto, ocurrió una pandemia que afectó a los países ricos y a los pobres, y que evidenció el fracaso del capitalismo, incluso en los estados de mayor desarrollo económico. El sistema se tambaleó, y los grandes magnates, desnudos, se sintieron horrorizados ante la exposición pública y las posibles consecuencias. Cuba envió brigadas médicas a más de 40 países, algunos de Europa, como Italia y Andorra y creó tres candidatos vacunales muy efectivos que las grandes trasnacionales farmacéuticas bloquearon. Sin embargo, nada pasó, quiero decir, nada hizo la izquierda; inmersa en los mecanismos democráticos de la burguesía, ya había interiorizado la imposibilidad de derrotarlo. Por un instante, parecía posible que de aquel desastre emergiera un mundo nuevo, más justo. Ante la parálisis de la izquierda revolucionaria, la derecha regresó ajustando sus mecanismos de control, restringiendo aún más los derechos de los trabajadores.
La guerra económica entre las grandes potencias se intensificaba. China emergía como un poderoso centro alternativo capaz de disputar la hegemonía global a los Estados Unidos. Incluso durante la pandemia fue la única economía que creció de manera constante. En 2010 se constituyó formalmente una asociación económico–comercial alternativa al G-7, integrada por economías emergentes de enorme potencial: los BRICS (las iniciales de Brasil, Rusia, India, China y Sudáfrica, más otro grupo de países que se han sumado con posterioridad). Esta asociación empezó a utilizar las monedas nacionales de sus respectivos países en sus transacciones comerciales, prescindiendo del dólar estadounidense. La hegemonía del imperialismo occidental estaba seriamente amenazada.
La pandemia de Covid-19 surgida en 2020 se extendió hasta el 2023. Ya en sus últimos meses, el imperialismo, liderado por los Estados Unidos, iniciaba la contraofensiva. El fuego de la guerra se extendía rápidamente: en Ucrania, con el propósito no conseguido de debilitar a Rusia (2022) alentado y auspiciado por la OTAN; en Gaza (2023), donde el gobierno sionista de Israel perpetra impunemente un genocidio contra su población civil, con el apoyo europeo y estadounidense, que ya ha cobrado la vida de más de 73 000 seres humanos, con incursiones en Líbano y Siria; y más recientemente en Irán (2026) por fuerzas conjuntas de Israel y Estados Unidos.
Pero el regreso del convicto Donald Trump a la presidencia de los Estados Unidos en 2025 marcaría un punto de inflexión en las relaciones políticas internacionales. Si la democracia burguesa ha estado desde hace décadas enferma de muerte, la llegada de Trump ha dado el golpe final al viejo orden internacional establecido por las potencias triunfantes de la II Guerra Mundial. El imperialismo ha comprendido que solo puede sostener su hegemonía mediante la fuerza bruta, el chantaje y la extorsión, métodos nada nuevos, pero que hoy se aplican sin disfraces o convenientes excusas. Los Estados Unidos han declarado que en lo adelante no se someterán a las normas de convivencia de las Naciones Unidas y que harán valer a cómo de lugar sus intereses imperiales. El primer ministro de Canadá Mark J. Carney, fue brutalmente honesto y cínico al describir la situación creada:
«Durante décadas, países como Canadá prosperaron bajo lo que llamamos el orden internacional basado en normas. (…) Sabíamos que la historia del orden internacional basado en normas era parcialmente falsa. Que los más fuertes se eximirían cuando les conviniera. Que las reglas comerciales se aplicaban de manera asimétrica. Y que el derecho internacional se aplicaba con rigor variable según la identidad del acusado o de la víctima. Esta ficción era útil, y la hegemonía estadounidense, en particular, ayudó a proveer bienes públicos: rutas marítimas abiertas, un sistema financiero estable, seguridad colectiva y apoyo a marcos para resolver disputas». Y sentenciaba:
«los fuertes hacen lo que pueden, y los débiles sufren lo que deben. Este aforismo de Tucídides se presenta como inevitable: la lógica natural de las relaciones internacionales reimponiéndose».
Pareciera que el Nuevo Orden más justo que pedíamos los países del Sur ha sido definitivamente sustituido por la ausencia de todo orden. Los países arriban a la fase vergonzante de “portarse bien”. Los pueblos reclaman cambios profundos pero no tienen un horizonte al que asirse y no confían en los políticos y en los partidos que solo piensan en sobrevivir. El fascismo en cambio propone cambios “profundos” en el peor de los sentidos, y atrae a un segmento desesperado de la población.
Pero el propio Carney advierte: “ante esa lógica, existe una fuerte tendencia de los países a adaptarse para encajar. A acomodarse. A evitar problemas. A esperar que el acatamiento compre seguridad. No lo hará”. Si Europa está postrada, ¿qué podríamos decir de los países latinoamericanos donde el fraude anunciado y la presión económica han impuesto a gobernantes títeres? Por otra parte, los BRICS, que necesitan como aliado al movimiento antimperialista, no por convicción ideológica, sino porque es una importante herramienta de presión, no se han mostrado unidos. La ausencia de una ideología común o de una actitud que no se limite al beneficio inmediato de cada miembro por separado, ha producido costosas inconsecuencias en su seno y pueden frustrar su capacidad para imponer un orden multilateral. Cuba es más que nunca una isla (un islote decía Fidel en 1992). Ha recibido apoyos importantes de China y Vietnam, así como de Rusia, pero tendrá que valerse por sí misma.
El 3 de enero de 2026 la resistencia de América Latina se fracturó en Caracas. Treinta y dos cubanos ofrendaron sus vidas por la Revolución bolivariana y latinoamericana, pero sobre todo por Cuba. No traicionaremos a esos heroicos combatientes. El imperialismo avanza cada vez más y el mundo parece retroceder, bajar la cabeza, guardar silencio. Construye una Falange internacional fascista, para supuestamente combatir el terrorismo de izquierda. Ha situado a Cuba como la capital del comunismo mundial, que ellos califican de terrorista. No habrá mucho tiempo ni pretendientes para las reformas. Si bien la lucha armada no era ya el camino, como advirtiera Fidel, es posible que el imperialismo nos obligue a retomarla. La historia de Cuba nos reclama, nos exige. En el centenario de Fidel, su consigna resuena más alto que nunca: ¡Socialismo o Muerte! Porque no siempre la muerte es una derrota, a veces es la única manera de vencer.
26 de julio de 2026
terça-feira, 1 de setembro de 2026
“A barbárie não é o passado que vai embora: é o presente que retorna.”
Walter Benjamin (adaptação)
Eu. Coordenadas de um tempo em crise
Este texto surge de uma preocupação que é, ao mesmo tempo, intelectual e política no sentido mais rigoroso do termo: a constatação de que o mundo contemporâneo está passando por uma inflexão histórica de consequências ainda incalculáveis e incertas. Sabemos que nenhuma perspectiva isolada (sociológica, política, histórica, psicológica, semiótica) é suficiente para dar conta da magnitude do fenômeno que paira sobre as sociedades do século XXI: a ascensão sustentada, sistemática e globalmente coordenada da ultradireita, em suas variantes neofascistas, ecofascistas, neoautoritárias e supremacistas.
Para entender o fenômeno, e talvez dar algumas pistas para mitigá-lo e neutralizá-lo, você precisa de uma articulação de olhares, pontos de vista, com uma busca pragmática por ação política. O que está acontecendo, embora possa ser lido procurando relacionar todas aquelas facetas em muitos dos sistemas políticos de hoje, pode ser confrontado com alguma possibilidade de sucesso apenas no âmbito político, ou seja, no campo de interação de poder entre o nacional, o regional e o global.
Existe um processo que desafia os quadros interpretativos herdados. As categorias desenvolvidas pela ciência política clássica tanto da esquerda quanto da direita, progressismo e conservadorismo, democracia e autoritarismo, são insuficientes para capturar a densidade e a complexidade do que está acontecendo atualmente. Agora fala-se mesmo, de um protecionismo nacionalista versus um globalismo pós-expansionista, dentro de um contexto geopolítico tripolar em transição.
Não é simplesmente um deslocamento do pêndulo ideológico, aquela oscilação cíclica que os analistas costumam invocar para relativizar a gravidade de cada situação. O que está em jogo é algo qualitativamente diferente: uma profunda reconfiguração intergeracional dos imaginários sociais, dos quadros de legitimidade política, das realidades cotidianas e hiper-realidades e dos dispositivos de produção de significado e significado coletivo sociocultural.
Na América Latina, Europa, Ásia, África e Norte Global, com expressões particulares em cada contexto, mas com um inconfundível denominador comum, participa-se do retorno ou ressurreição de ideologias que os consensos do pós-guerra declarados moralmente derrotados em 1945. O fato histórico é perturbador: o pensamento que levou aos campos de extermínio e à devastação da Europa não foi simplesmente desativado pela derrota militar do Eixo. Sobreviveu, reconverteu, encontrou novas gramáticas e arquiteturas organizacionais (estruturas e dinâmicas), e hoje apresenta-se, com renovada audácia, como resposta legítima às crises da pós-modernidade tardia, no início do século XXI. Vale aqui aquela frase pertencente a Juan Ruiz de Alarcón “Os mortos que você mata gozam de boa saúde”.
II. O neofascismo como fenômeno sistêmico: além da chamada excepcionalidade
Um dos erros analíticos mais frequentes é tratar a ascensão da ultradireita como uma anomalia, como um desvio patológico de uma norma liberal que teria que ser funcionada corretamente até ser perturbada por líderes carismáticos e demagogos. Esta leitura, confortável para os defensores da ordem neoliberal, esconde mais do que revela. O neofascismo contemporâneo não é um acidente: é, em grande medida, um produto das contradições não resolvidas do capitalismo neoliberal tardio e das promessas não cumpridas da democracia representativa que são regularmente recicladas ou são recorrentes.
A crise orgânica do sistema capitalista global, que não encontrou saída estrutural desde a rachadura financeira de 2008, produziu um terreno fértil propício à proliferação de discursos que oferecem identidades fortes, hierarquias claras e inimigos reconhecíveis em vez de soluções sistêmicas. Décadas de pregação neoliberal, com sua exaltação do indivíduo competitivo, sua erosão dos laços de solidariedade comunitária e sua naturalização da desigualdade como resultado do mérito pessoal ou fracasso, prepararam o terreno subjetivo para o surgimento daquele sujeito que os teóricos críticos chamam de homoeconomicus autoritário: dispostos a sacrificar as liberdades coletivas em prol da segurança, da ordem e do pertencimento nacional-étnico.
Também contribuem para esse renascimento de posições de ultradireita o esgotamento das experiências do socialismo real, a campanha anticomunista generalizada e sistemática que foi implantada durante anos durante a Guerra Fria e que, com novas características, ainda perdura, o supremacismo racista e patriarcal -nunca desapareceu- que vê no outro sempre uma ameaça, um clima geral, já estabelecido como uma tendência normalizada, que aceita acriticamente qualquer solução " A complexa combinação de todo esse terreno fértil tem permitido o surgimento deste novo modelo neofascista em nível global.
Vale aqui a pena recuperar a distinção gramsciana entre crise orgânica e situação política. Gramsci observou que quando a crise abala não apenas as instituições, mas os profundos consensos que as sustentam, quando os velhos quadros de sentido perdem sua capacidade de integrar a experiência social, abre-se um interregno em que podem surgir “morbosidades muito variadas”. O que está sendo testemunhado é precisamente isso: um interregno, um momento em que as certezas que organizaram o mundo do pós-guerra se dissolveram sem que novos horizontes emancipatórios se cristalizassem, e em que os ultra-direitos se aproveitaram daquele vácuo com uma eficácia que a esquerda progressiva ainda não conseguiu neutralizar.
Isso deve ser reconhecido com total objetividade: a direita, no sentido mais amplo do termo, conheceu/pode contrariar o discurso da esquerda, alcançando uma narrativa que, apesar de absolutamente questionável, foi entronizada muito mais do que as denúncias que o socialismo fez desde o seu amanhecer no século XIX. Esses têm razão, têm muito a perder. Ou seja, enquanto a classe dominante tem uma riqueza monumental incalculável, que defende um manto e uma espada; a classe trabalhadora só pode perder “suas cadeias” – as oligarquias nacionais e internacionais têm feito, continuam a fazer e farão qualquer coisa à sua disposição para manter sua hegemonia, seus interesses adquiridos, seus investimentos e lucros e suas preberâncias exorbitantes. Embora anos atrás eles cuidassem das formas de discurso, falando do “politicamente correto”, e promovendo e chamando a “democracia formal” como o sumúnio do desenvolvimento social, econômico e político, hoje esses direitos são descarados, brutais e implacáveis em sua prática política no exercício do poder. Seguindo Miguel Mazzeo você pode dizer que:
“Ao contrário da linguagem tradicional certa, a linguagem da ultradireita [corrente] não procura construir uma retórica que não seja exibida como tal. Ele não quer esconder nada aberrante, nada rude, nada de absurdo. A linguagem da extrema-direita revela sua aspiração perversa ao “mal comum” e à dissolução social e comunitária, enquanto celebra abertamente a ganância, a injustiça e a crueldade em todas as suas formas.
O neofascismo do século XXI distingue-se do fascismo histórico por diversas características que é fundamental identificar para compreender o seu poder de sedução, multiplicação e extensão.
Primeiro, opera principalmente dentro dos quadros formais da democracia representativa: chega ao poder através de eleições, invoca a vontade popular como fonte de legitimidade e é apresentada como a suposta antítese do estabelecimento, mesmo que seja funcional aos interesses das elites econômicas mais concentradas em nível nacional e internacional.
Segundo, ele articula seu discurso com as ferramentas do espetáculo da mídia e da cultura das celebridades, produzindo líderes que encarnam o ressentimento e a promessa de restauração de uma ordem imaginada. Daí, por exemplo, um personagem como Trump – ele foi capaz de ganhar o dobro da eleição presidencial, com discursos insubstanciais focados apenas em declarações pomposas, preteristas emocionais-afetivos de “ser grande novamente”, para recuperar o terreno hegemônico perdido – neste caso, antes da China principalmente – todos os quais exacerbaram os humores e “se apaixonam” por seu eleitorado (base paranóica de supremacia,
Em terceiro lugar, e este é talvez o mais recente, ele depende das infraestruturas do capitalismo de plataforma para espalhar sua mensagem, ignorar os filtros de mídia tradicionais e construir comunidades afetivas transnacionais de seguidores. Cada vez mais, em qualquer lugar do mundo, a política “oficial” é mediada pelo mundo digital do ciberespaço, pelas redes sociais inefáveis, sempre com a mais difundida, estratégica e relevante participação da inteligência artificial (IA). As mensagens divulgadas já nem sequer apresentam plataformas eleitorais possíveis, mas constituem motivações emocionais e desinformativas. “Você tem que dar entretenimentos apaixonados, estúpidos e rápidos, para que as pessoas não pensem, apenas evoquem o principal afetivo”, recomendou um professor nessas mentiras, o Austro-alemão Günther Anders.
Entre alguns exemplos dos atuais governantes e partidos políticos da ultra-direita mundial em três continentes está, na América Latina: Milei na Argentina, De la Espriella na Colômbia, Kast no Chile e Asfura em Honduras; na Ásia: Modi na Índia, e Takaichi no Japão; na Europa: Meloni na Itália, Andrej Babiš na República Tcheca e Petteri Orpo na Finlândia. A nível partidário na Europa: o SPD, co-governo na República Checa, o Fratelli d’Italia, o principal agrupamento/partido no governo italiano e a AfD, que poderá chegar ao governo central na Alemanha em um futuro não distante com uma forte presença em algumas regiões do país.
Esses partidos políticos reivindicaram o supremacismo e o etnocentrismo europeus “de raça, cultura e história superior”. Todo esse espectro de personagens e entidades políticas, têm obtido cada vez mais maiorias nas urnas. Portanto, dentro dos quadros de democracia representativa, eles são totalmente legítimos e partiram, ou estão sendo feitos em vários casos mais fortes.
III. Fetichismo, psicopatologia social e a dimensão subjetiva da virada reacionária
Para captar essa complexa dinâmica, propõe-se uma leitura que articula a economia política com a psicologia social e a teoria cultural de massa. Essa articulação é metodologicamente indispensável, pois o fenômeno que nos diz respeito não pode ser reduzido apenas às suas determinações estruturais, mesmo que sejam decisivas. Há uma dimensão subjetiva, afetiva e identitária que abordagens exclusivamente economicistas e sociólogas não conseguem captar.
Marx, em sua análise do fetichismo da mercadoria, demonstrou como as relações sociais entre as pessoas assumem a forma fantasmagórica de relações entre as coisas: a mercadoria aparece dotada de propriedades que realmente correspondem ao trabalho humano que a produziu. Este investimento fundamental, que transforma o que é produzido pelos seres humanos em algo que os domina, não se limita ao campo da produção econômica. Estende-se a todo o campo da cultura, política, subjetividade, suas novas variedades de significados e significativos. O fetichismo contemporâneo se expandiu para incluir nações, etnias, líderes carismáticos e comunidades imaginadas que funcionam como mercadorias políticas: eles condensam desejos, medos e fantasias, e oferecem identidades capazes de dar sentido a vidas fragmentadas pela precariedade, solidão individual e anomia coletiva.
A esta dimensão fetichista acrescenta-se o que se pode descrever como “psicopatologia social de dominação”. As subjetividades produzidas por décadas de capitalismo neoliberal hipercompetitivo, ansioso, narcisista e egoísta; estão focadas no consumismo voraz e, em grande medida, são escravos hoje do mundo digital, incapazes de sustentar vínculos de solidariedade duradoura, são extraordinariamente permeáveis aos “discursos de ressentimento”. Nietzsche identificou o ressentimento “como a moral dos fracos que se apresentam como fortes pela definição reativa de um adversário ou inimigo”.
O fascismo histórico era em grande parte uma política de ressentimento: encontrou no judeu, no comunista, no cigano, no homossexual, no outro que condensava todas as frustrações e humilhações das classes médias arruinadas pela modernização capitalista. O autoritarismo, o neofascismo e os eco-fascismos contemporâneos operam com a mesma lógica: o imigrante, a feminista, a pessoa racializada, a comunidade LGBTQ+, o intelectual esquerdista, os direitos humanos, os direitos civis, o defensor dos direitos étnicos e os territórios e comunidades, ocupam o lugar do outro que deve ser expulso, massacrado, exterminado, para que o povo “eleito” possa recuperar seus
Uma pergunta que desconcerta, refere-se ao que foi dito por qualquer jovem, da Argentina, que foi perguntado por que ele havia votado em Milei: como pode um jovem de vinte e poucos anos afirmar orgulhosamente que ele votou porque “é legal ser um fascista”? Isso não suporta uma resposta simples. Não se trata de ignorância, embora a ignorância seja um fator importante. Não se trata apenas de manipulação de mídia; outro fator importante a ter em conta, é que a arquitetura/estrutura de comunicação do direito foi projetada com sofisticação monstruosa, foi calculada para fins claros e tem sido muito eficiente em seus impactos.
Trata-se então de uma convergência de fatores em que o desamparo subjetivo, a promessa de pertencimento identitário, o capital estético (a satisfação do desvio social e/ou a sociopatia da transgressão), e a naturalização gradual dos discursos supremacistas através da repetição e viralização nas redes do ciberespaço, produziram um novo senso comum que torna imaginável, e até desejável, o que teria sido impensável há algumas décadas.
IV. Comunicação como campo de batalha: arquiteturas de ódio e desinformação
Ningún análisis del ascenso de las ultraderechas puede prescindir del estudio de los dispositivos comunicacionales que lo han hecho posible. La revolución digital no ha sido neutral: ha producido condiciones inéditas para la producción, circulación y amplificación de discursos de odio, las fobias socioculturales, la desinformación y propaganda supremacista, discriminativa y xenofóbica. Asimismo, las redes sociodigitales, diseñadas por el capitalismo de plataformas con la lógica del engagement (adherirse, darle seguimiento, e identificarse con; ¿podría decirse “adicción”?), que maximiza la atención mediante el privilegio algorítmico de los contenidos más perturbadores y emocionalmente activantes, han operado como aceleradoras de la polarización y de la radicalización, incluso a niveles arriesgados o peligrosos.
A extrema-direita tem sido, neste campo, sistematicamente mais ágil, mais criativa e disposta a quebrar as convenções do que a esquerda progressista. a direita é baseada em diferentes formas de mentiras: “Se você quiser, você pode”, “tudo depende de você”, “os pobres são pobres porque não se esforçam”, “o próximo governo resolverá efetivamente as coisas”. Embora as forças críticas tenham tendido a privilegiar argumentos racionais, análises complexas e discursos apelando para a consciência crítico-reflexiva, a direita radical compreendeu, intuitivamente em alguns casos, estrategicamente em outros, que a política é adquirida no plano de emoções, mitos e identidades. Eles produziram memes, vídeos virais, slogans simples, anúncios chocantes, cartazes alusivos e narrativas de restauração nacional que penetram e afetam diretamente o plano afetivo-emocional, ignorando o filtro da racionalidade crítica, apagando-o das mentes das maiorias. “Parceias sãs e atraentes explorarão efetivamente as técnicas mais eficientes para manipular emoções e controlar a razão”, perguntou o ideólogo polonês-americano Zbigniew Brzezinski.
A esto se suma el fenómeno de la desinformación sistémica, que ya no opera únicamente mediante la producción de noticias falsas individuales, sino mediante la saturación del espacio informativo con versiones contradictorias de la realidad que producen confusión, cinismo y desconfianza generalizada. Cuando todo parece relativo, cuando todas las fuentes son igualmente sospechosas, cuando la verdad aparece como una construcción interesada, el terreno queda abonado para los líderes fuertes que ofrecen certezas simples y verdades evidentes, que interpelan al sujeto que ya no sabe en qué creer con el lenguaje de la autenticidad y el sentido común. Es ahí donde la evidencia es manipulada, inventada y dada como una certeza bien cimentada, aunque toda ella sea falsa, hiperrealista o sesgada. Estamos en el reino de la post-verdad: la verdad se ha evaporado, no importa. Solo queda la reacción emocional. Recordemos la cita de Anders: “Entretenimientos estúpidos, que la gente no piense, evocar solo lo afectivo primario.”
V. A exaustão da esquerda e a crise do projeto emancipador
Sería intelectualmente deshonesto atribuir el ascenso de la ultraderecha únicamente a factores externos a las tradiciones emancipadoras. Corresponde examinar, con el mismo rigor crítico con que se analiza al adversario, las razones internas del agotamiento de las izquierdas y de los proyectos progresistas en el escenario contemporáneo (léase: imprescindible y urgente autocrítica constructiva).
O colapso dos socialismos reais, com a queda do Muro de Berlim em 1989 e a desintegração da URSS em 1991, tiveram consequências que vão muito além da derrota geopolítica de um bloco. Envolveu a deslegitimação generalizada das utopias emancipatórias do capitalismo global, o triunfo ideológico do discurso que proclamou o fim da história e a naturalização do capitalismo como horizonte intransponível. A esquerda, atravessada por profundas crises de identidade e programa, encontrou, com notáveis exceções, maneiras convincentes de reinventar o projeto emancipatório nas condições do capitalismo tardio.
A estas dificultades estructurales se añaden errores propios: discursos excesivamente técnicos y academizados, incapaces de interpelar/motivar a amplias capas de la población; fragmentación identitaria que, en algunos casos, ha privilegiado las demandas de reconocimiento sobre las de redistribución, produciendo coaliciones que resultan ajenas a sectores populares con experiencias de clase muy concretas; prácticas sectarias y disputas internas que han debilitado la capacidad de acción colectiva; y, en algunos contextos latinoamericanos, gobiernos progresistas que no lograron superar los límites del modelo extractivista y que reprodujeron, bajo nuevas formas, viejas lógicas de nepotismo, clientelismo, corrupción, opresión, subordinación y vulnerabilidad que erosionaron su legitimidad.
Esto no equivale a establecer una falsa equivalencia entre izquierda y derecha, ni a sugerir que las fallas del progresismo justifican el avance del neofascismo. Equivale, en cambio, a señalar que la respuesta al fenómeno que está siendo analizado requiere también una autocrítica honesta y un trabajo de renovación del pensamiento y la práctica emancipadores. ¿Cómo oponerse a los algoritmos tendenciosos, sesgados y manipuladores? ¿Cómo organizar sindicatos con población que hace trabajo en línea, para aclarar las falsedades y las desinformaciones e informar con veracidades y evidencias comprobables?
VI. Tecnologia, desumanização e a sobra e assunto desnecessário
Entre los factores que contribuyen a la emergencia del malestar social que las ultraderechas capitalizan, debe prestarse especial atención al papel de las nuevas tecnologías y a la experiencia de desplazamiento e inutilidad que generan en amplias capas de la población. La automatización, la inteligencia artificial y la robotización de procesos productivos no son fenómenos neutrales: dentro de las relaciones sociales capitalistas, producen una creciente masa de trabajadores(as) cuyas habilidades quedan obsoletas, que experimentan de manera visceral la sensación de ser prescindibles o innecesarios(as), de no tener un lugar en la economía de la información y el conocimiento. Por supuesto, apurémonos a aclarar que desde una ética progresista nadie, absolutamente nadie, puede “sobrar”. Pero el avance tecnológico -implementado solo a favor de la tasa de ganancia y no del bienestar general- logra esa sensación.
Essa experiência da dispensabilidade que os sociólogos do trabalho descrevem como a produção de uma nova “classe de sobras” gera um terreno subjetivo propício às narrativas da ultradireita. Se o sistema me faz sentir sobra, se a economia globalizada me torna desnecessário, a promessa de restaurar uma ordem em que eu, como membro do povo escolhido, tenho um lugar novamente, é poderosa, edificante e até mesmo “transcendental”. O supremacismo não é apenas um erro cognitivo: é também uma resposta perversa e reacionária a uma experiência real de exclusão, pobreza e degradação socioeconômica e sociocultural que o capitalismo neoliberal tardio produziu e produziu massivamente.
El endiosamiento de la tecnología como solución a todos los problemas humanos, la ideología del solucionismo tecnológico que impregna los discursos de las élites del Silicon Valley y sus equivalentes globales funcionan, paradójicamente, como aceleradores de ese malestar social. Cuando la tecnología se presenta como sustituta del pensamiento, como facilitadora de una vida sin esfuerzo cognitivo, no solo promete un empobrecimiento enajenante, también debilita las capacidades analítico-críticas que serían necesarias para resistir la penetración de los discursos autoritarios y supremacistas. ¿Cuánto tiempo diario se dedica a la lectura, y cuánto a las redes sociales?
VII. Patriarcado, misoginia e supremacismo: as dimensões de gênero do neofascismo
A análise da ascensão da ultradireita seria incompleta sem atender à sua dimensão de gênero. O neofascismo contemporâneo em suas formas é, constitutivamente, profundamente patriarcal, machista e misógino. Não como uma característica acidental ou secundária, mas como um elemento estrutural de seu projeto político: a restauração da ordem desejada é inseparável da restauração do domínio masculino, da derrota do feminismo e do rebaixamento das mulheres para o espaço doméstico e reprodutivo. Daí a ascensão do que poderia ser chamado de “movimento submisso de mulheres”, popularmente conhecido hoje como o fenômeno das tradwivesesposas tradicionais. Ou seja: tendência ideológica-cultural em que as mulheres jovens promovem e adotam papéis de gênero rigorosos, tradicionais e conservadores (atenção do doméstico, criando filhos), dando autoridade econômica e liderança domiciliar a seus maridos ou parceiros heterossexuais.
Los movimientos de ultraderecha han identificado el feminismo como uno de sus principales adversarios ideológicos, y no sin razón; el feminismo es en sus múltiples vertientes, una de las tradiciones de pensamiento crítico que más profundamente ha cuestionado las “jerarquías naturales” en las que se basa el orden que las derechas radicales quieren restaurar. La violencia retórica y física contra las feministas, la deslegitimación de los estudios de género, la demonización de la llamada “ideología de género”, constructo polémico que las derechas han diseñado estratégicamente para movilizar a sectores religiosos conservadores son, en definitiva, componentes centrales de la ofensiva ultraderechista.
O pensamento crítico comparativo atual, com uma perspectiva multidimensional, só pode ser colocado, neste ponto na realidade, juntamente com as tradições feministas descoloniais e interseccionais que demonstraram a articulação indissolúvel entre dominação de gênero, dominação racial e dominação de classe. A luta contra o neofascismo é inseparável da luta pela igualdade de gênero e pela despatriarcalização de instituições, discursos e subjetividades.
VIII. Pensamento crítico como resistência: horizontes de um projeto de emancipador renovado
O título deste texto inclui uma preocupação central de seus autores: o pensamento crítico, aquela tradição intelectual que no século XX articulava o marxismo, a psicanálise, o feminismo, o anticolonialismo e a teoria social dos movimentos vindicativos, aparece hoje como uma espécie pretendida no processo de extinção, condenada à memória negativa e à rejeição estigmatizada. A pergunta é: condenado por quem? A resposta é política e não epistêmica: é o discurso dominante, com sua capacidade de colonizar o senso comum, que construiu a imagem de pensamento crítico obsoleto, perigoso ou simplesmente irrelevante.
Diante dessa operação de deslegitimação, afirmamos com total convicção a validade e a urgência do pensamento crítico. Não o pensamento crítico como exercício acadêmico desconectado da prática social, mas como instrumento de compreensão e transformação da realidade. Numa época em que a complexidade é obscurecida pela simplificação demagógica, a razão crítica é um ato de resistência. Em tempos em que a emoção manipulada muda a análise, a insistência no rigor conceitual e na honestidade intelectual tem valor político indiscutível. Neste sentido, concordamos com Jaén Urueña:
“Diante da desvalorização do humanismo e da destruição da Terra, diante da exaltação do ódio e do niilismo moral, podemos voltar à Iluminação. Podemos propor que apenas um socialismo democrático, feminista e ambiental; é a base para assustar os demônios do passado”.
Isso não significa defender um intelectualismo elitista que renuncie ao diálogo com a experiência vivida das maiorias. Significa, ao contrário, trabalhar por uma articulação entre o rigor do pensamento e a força dos afetos (lembrar Gramsci), entre a complexidade da análise e a clareza das propostas, entre a crítica radical e a construção de alternativas concretas.
O horizonte delineado por escrito não é o de catastrofismo ou otimismo voluntário. É o de um realismo crítico que reconhece a gravidade da situação sem se resignar a ela; que leva a sério a força do adversário sem superestimá-lo; que identifica as contradições da ordem autoritária, neofascista e ecofascista como pontos de abertura para a ação emancipatória. Coalizões sociais que têm resistido ao avanço autoritário em diferentes contextos, do feminismo latino-americano aos movimentos climáticos, de organizações de trabalhadores migrantes a comunidades indígenas em defesa do território e da natureza, mostram que a resistência é possível e que pode produzir transformações reais.
IX. Uma trincheira intelectual para tempos de urgência
Esta metáfora da “trincheira” merece ser recuperada e precisa. Uma trincheira não é um forte, não é projetada para defesa passiva ou retirada. É um ponto de apoio do qual o progresso é impulsionado. A trincheira cultural do pensamento crítico tem aquela função: não preservar uma herança do passado, mas produzir as ferramentas conceituais que nos permitem compreender o presente e abrir caminhos para um futuro diferente.
“José Martí disse ‘As trincheiras de ideias valem mais do que trincheiras de pedra’. Nessa lógica, emerge o presente texto, entendendo que a luta por uma perspectiva neoliberal-neocolonial não capitalista globalizada impõe necessariamente vários cenários, diversos modos de resistência e luta constante. nos planos da realidade material; e agora abraça, estende e aprofunda a realidade virtual, na tecno-info-cibercracia: que compreende plataformas de redes sociais, mídia digital expandida, inteligência artificial e tecnologia quântica, entre outros.
- Este texto faz parte do livro “Autoritarismo, Neofascismo e Ecofascismo: A Extrema Direita e o Pensamento Crítico no Século XXI. Anatomia de uma regressão global”, próxima aparição. Este livro, o segundo volume apresentado pelo grupo Perspectivas, reúne o trabalho de mais de 20 pesquisadores sociais e artistas de plásticos, e antes do final do ano estará disponível em versão eletrônica e física. Para o próximo ano, sua edição em inglês está prevista.
- Mario s. de León é Doutor em Saúde e Desenvolvimento Global, Professor Universitário, Consultor, Analista e Ensaísta Internacional.
- Marcelo Colussi é Psicólogo, Filósofo e Psicanalista, Professor Universitário; Escritor, Analista, Ensaísta Internacional.
Nossa Newsletter

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.
Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.