Translate

sexta-feira, 29 de maio de 2026

 

Algum resumo de um bloco-de-notas
 
Israel é Um estado fundado na violência institucional, na expropriação e saque de territórios de povos que a estes pertenciam, colonialista recorrendo ao trabalho forçado dos despossuídos, que utiliza o sistema de Apartheid com o povo palestiniano nativo, pratica o genocídio, governado por partidos de orientação nazi, que fomenta e legitima comportamentos dos colonos de origem judaica que ostentam flagrantemente desprezo e crueldade na mais abjeta barbaridade contra crianças, idosos, doentes, mulheres, que viola com arrogante descaramento todos os códigos de conduta moral (nomeadamente de base religiosa) e todas as normas escritas internacionais. Por todas estas e outras razões é um Estado anti democrático, repressor e opressor que impõe na região do Médio Oriente ou Lesta da Ásia desde 1949 uma permanente história de guerra e provocações. Por todas estas razões existe apenas pela força das armas e pelo apoio - também ele militar e violento - a princípio da Grã-Bretanha e seguidamente dos Estados Unidos da América, e pela propaganda que conseguiu instalar na mente e cultura internacional mitos que ora se desfizeram em grande medida. Por tudo isto não merecia existir. 
  N.P.  

 

PEDAÇOS
I.
“Reformas sociais nunca podem ser realizadas pela fraqueza dos fortes; elas devem e serão realizadas pela força dos fracos.” Marx, 1847, Os protecionistas, os livre-cambistas e a classe operária.
II.
Na luta de classes nenhuma está predestinada a vencer, porém uma está predestinada a desaparecer.
III.
Não basta dizer-se comunista para ser-se comunista. A primeira condição é não ser-se social-democrata nas teorias e nas práticas.
IV.
A separação entre a social-democracia e os comunistas verificou-se primeiramente no apoio e no desapoio à deflagração da primeira Guerra Mundial e, secundariamente, no apoio e no desapoio à Revolução Soviética e Socialista na Rússia em 1917. A partir desses atos e escolhas a social-democracia é, por definição e premeditação em ato, anti comunista. O que não significa sempre que um indivíduo ou mesmo um partido político dito social-democrata seja hostil ou inimigo de um comunista . Pode até, e isto depende apenas das circunstâncias que determinada correlação de forças acciona, organizar-se Frentes Comuns, Plataformas programáticas com vista à tomada do poder ou/e à sua governação. Todavia, a diferença de classes está aí dentro deles e nas praças. Essas diferenças podem, então, estar contidas por conveniência mas explodirem logo a seguir. Depende, portanto, dos interesses.
V. O liberalismo ´foi no século dezanove e permanece a doutrina favorável aos capitalistas, portanto à ditadura económico-social sobre o Trabalho. Começou por ser adepta de regimes monárquico constitucionais de sufrágios censitários restritos, depois regimes republicanos de sufrágios ainda restritos e nunca democráticos no século dezanove. Os regimes designados como Democracias modernas (para distinguir do modelo inventado pela Atenas Clássica) são historicamente recentes (o Reino-Unido, como o nome indica. é ainda uma monarquia Constitucional e os Estados Unidos da América nem sequer dispõem de uma Constituição que mereça esse nome e que haja sido sufragada em sufrágio universal).
Vi. o capitalismo politicamente, isto é em termos de dominação e poder, evoluiu para a aceitação dos modelos de governação liberal.democrática forçado pelas circunstâncias geopolíticas, mas apenas quando capturou todos os pilares do Estado (Legislativo, Executivo, Judicial, Presidencial, cultural) e o Estado passou a ser o seu Estado, baseado no monopólio da força e no direito de indivíduos proprietários de meios de de produção particularmente de dinheiro, compraram uma força de trabalho humano a quem não resta outra alternativa.
VII. Deste modo e por vários meios relativos à geografia e à história regional, local e internacional, o Direito é o seu Direito na sua essência que trata do Poder, a Cultura é a sua Cultura no sentido geral e específico, o Mercado é o seu Mercado, a Guerra é a sua Guerra. 
 
Nozes Pires

Na retórica populista dos neo-fscistas o "sistema", o "socialismo", os comunistas sobretudo, constituem os inimigos e culpados únicos. Tratae, portanto, para a Direita neo-conservadora e para a sua fação de extrema-direita, de "infrahumanos" a liquidar fisicamente.

 

in JACOBINA

(Reprodução)

Por que os fascistas sempre atacam primeiro os socialistas?

Tradução
Pedro Silva

Ao contrário dos mitos da extrema direita de que os “nazistas eram de esquerda”, os fascistas desprezam o socialismo e querem destruí-lo. Eis aqui os motivo pelos quais a esquerda representa uma ameaça tão grande para eles.

Fascismo é um dos termos mais usados ​​em qualquer idioma, a ponto de até mesmo socialistas começarem a se cansar de vê-lo todos os cantos. Na história recente dos Estados Unidos, desde Barack Obama e Kamala Harris até Donald Trump e o movimento MAGA, todos foram chamados de fascistas. Um dos piores desdobramentos disso foram os esforços de comentaristas (principalmente de centro-direita) de sugerir que o fascismo era, na verdade, um movimento da extrema esquerda, ou que os fascistas eram até mesmo socialistas. Do livro “Liberal Fascism”, de Jonah Goldberg, hoje amplamente ridicularizado, a Peter Hitchens chamando os nazistas de “racistas de esquerda”, o gênero é popular o suficiente para ter gerado inúmeras respostas sarcásticas.

Esse argumento foi impiedosamente refutado aqui e em outros lugares, e parece cada vez mais ridículo à medida que mais e mais jovens republicanos se revelam admiradores declarados do fascismo e do nazismo. Portanto, não retomarei essa refutação. Em vez disso, quero examinar a inimizade inerente entre socialismo e fascismo, de onde ela vem e por quê. Obviamente, não pretendo sugerir que os socialistas sejam as únicas, ou mesmo as principais vítimas da maldade fascista: milhões de pessoas LGBTQIA+, com deficiência, judias, ciganas e de outros grupos também foram brutalmente oprimidas pelos coturnos fascistas. Ainda assim, como diz o famoso poema de Martin Niemöller, “Primeiro vieram buscar os comunistas”, e se quisermos entender e combater o fascismo hoje, é vital saber por que isso acontece. 

O fascismo e a direita em geral

A relação entre o fascismo e a direita em geral é complexa. No início do século XX, na Itália e na Alemanha, é bem provável que muitos conservadores e capitalistas preferissem uma ditadura conservadora mais convencional, que rejeitasse a política populista de massas — todos aqueles comícios disruptivos, desfiles, lutas de rua e esforços para construir um novo tipo de ordem nacionalista totalizante. Mas isso não os impediu de aderir ao fascismo quando a ameaçadora bandeira vermelha tremulava. 

Em seu livro Liberalismo, de 1927, o economista ultracapitalista (e posteriormente admirador de Ayn Rand) Ludwig von Mises aplaudiu o “fascismo e movimentos similares que visam ao estabelecimento de ditaduras” por estarem “cheios das melhores intenções” e por, “por ora, terem salvado a civilização europeia” da tomada do poder pelos comunistas. Como muitos na direita europeia, von Mises ficou horrorizado com a Revolução de Outubro, que levou os bolcheviques ao poder na Rússia, com as revoluções socialistas na Alemanha, que resultaram na República de Weimar, em grande parte construída pelo Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), e com a ascensão de partidos de esquerda em todo o continente. Nesse sentido, ele via o fascismo como uma necessidade emergencial, um “dispositivo de emergência” — opinião compartilhada por conservadores como Churchill, que chamou Mussolini de “o maior legislador entre os homens vivos”, por algum tempo. Contudo, em Liberalismo, von Mises expressou preocupação com os excessos autoritários e recomendou que Mussolini e outros se apressassem em restaurar ou criar uma sociedade de livre mercado. Para ele, assim como para outros, o fascismo situava-se algures entre uma medida de emergência útil e um mal necessário. Na Espanha e na Romênia, os ditadores conservadores convencionais por vezes elevavam movimentos fascistas locais, como a Falange e a Guarda de Ferro, para reforçar a sua legitimidade — apenas para os marginalizar ou esmagar quando estes se tornavam uma ameaça potencial.  

Essas reservas qualificadas não impediram que muitos na direita em geral cooperassem com as tomadas de poder fascistas quando isso lhes fosse vantajoso. Em seu recente livro Fascism: A Quick Immersion [Fascismo: Uma Rápida Imersão], Roger Griffin destaca como, nos primórdios, a orientação ideológica exata do fascismo era debatida, e Mussolini oscilava entre suas convicções socialistas anteriores e o crescente anticomunismo e nacionalismo do movimento. Após outubro de 1922, quando Mussolini se tornou primeiro-ministro, o fascismo italiano “sofreu uma nova mutação, e o próprio Mussolini passou a usar chapéu-coco e um ‘terno burguês’, para além do uniforme militar”. Isso sinalizava aos conservadores que o novo regime estava decididamente do lado deles. Durante sua estadia no poder, o fascismo italiano “desfrutou da conivência ativa da monarquia, da Igreja Católica e de grande parte da burguesia industrial e rural, todas forças profundamente reacionárias”, o que ajuda a explicar “a rápida guinada do fascismo para a extrema direita e sua subsequente nova iteração como um regime totalitário”. Essa conciliação ocorreu em grande parte porque muitos na direita concordavam com Von Mises que os fascistas italianos, embora um tanto rudes, eram muito bons em suprimir comunistas e socialistas. (Para a Igreja, em particular, qualquer coisa era melhor do que a ameaça existencial representada pelo marxismo e seu materialismo “sem Deus”.) 

Em A Chegada do Terceiro Reich, Richard Evans observa como, na Alemanha, conservadores do exército, das grandes empresas e de outros setores colaboraram para ajudar os nazistas a chegar ao poder: 

Os conservadores que levaram Hitler ao poder compartilhavam muito da sua visão. Eles realmente olhavam para o passado com nostalgia e ansiavam pela restauração da monarquia de Hohenzollern e do Reich de Bismarck. Mas eles deveriam ser restaurados de uma forma expurgada do que consideravam concessões imprudentes feitas à democracia. Em sua visão de futuro, todos deveriam conhecer o seu lugar, e as classes trabalhadoras, em especial, deveriam ser mantidas onde pertenciam: completamente fora do processo de tomada de decisões políticas.

Em outras palavras, eles queriam o melhor dos dois mundos: manter todos os avanços no poder militar e na produtividade industrial que a modernidade havia trazido, ao mesmo tempo que revertiam as mudanças democráticas na estrutura da sociedade que vieram com eles. 

Em particular, Evans destaca que os conservadores alemães e as grandes empresas toleraram ou cooperaram com os nazistas expressamente para evitar fazer qualquer concessão ao poderoso Partido Social-Democrata (SPD), embora social-democrata. Richard Paxton é ainda mais enfático em A Anatomia do Fascismo, ao apontar que o movimento nazista poderia ter “acabado como uma nota de rodapé na história se não tivesse sido salvo nos primeiros dias de 1933 por políticos conservadores que queriam se apropriar de seus seguidores e usar sua força política para seus próprios fins”. Chegou ao ponto de o Partido Nacional Popular Alemão, um partido mais genericamente conservador, formar uma coalizão com o NSDAP e apoiar suas ambições ditatoriais. 

Compreender essa história de conciliação mais ampla da direita com o fascismo pode nos ajudar a entender por que muitos autoproclamados conservadores ainda cooperam com a extrema direita para combater o que consideram “degeneração esquerdista”. Recentemente, a Heritage Foundation foi criticada por acobertar a conversa de Tucker Carlson com Nick Fuentes, provavelmente o neonazista e negacionista do Holocausto mais proeminente da atualidade. Para aqueles que têm a sorte de não saber, Carlson é notório por propagar o nacionalismo branco e dar voz a revisionistas nazistas. Mas uma conversa amigável com Fuentes ainda chocou muitos (embora não devesse). J.D. Vance também escreveu a recomendação de um livro que elogia explicitamente o general autoritário espanhol Francisco Franco, e recentemente minimizou a revelação de que muitos funcionários do Partido Republicano invocam rotineiramente a retórica nazista, alegando que são apenas “jovens” (muitos deles com 30 anos ou mais) que gostam de humor ácido e de provocar os liberais. Muitos continuam a expressar surpresa com o fato de um movimento conservador, outrora normal, parecer tão disposto a conciliar-se e a idolatrar fascistas. Contudo, se analisarem a história, poucas coisas serão menos surpreendentes. Fascistas e conservadores sempre foram capazes de se unir em torno de seu ódio veemente pela esquerda. Quando se considera como a direita alemã via até mesmo o socialismo liberal e democrático do SPD uma calamidade, ou como muitos republicanos de extrema-direita contemporâneos viam Joe Biden como a reencarnação de Stalin, tudo faz sentido. 

O que é o fascismo? 

O fascismo jamais teria alcançado poder significativo sem o apoio da direita conservadora mais ampla e tradicional. Mas o fascismo não é apenas conservadorismo ou capitalismo com esteroides. Tampouco pode ser compreendido apenas como uma força contrarrevolucionária ou reacionária definida por suas negações. Uma das fragilidades de longa data das análises de esquerda sobre a direita tem sido a tendência de vê-la puramente como reacionária. Isso implica que a esquerda é a verdadeira agente da história, que propõe e impulsiona mudanças, as quais a direita então tenta retardar ou impedir. 

Ora, em certos momentos, é isso que muitos na direita farão. Mas as doutrinas da direita não são definidas puramente por instintos reacionários. Elas são definidas por afirmações e crenças próprias — principalmente, a convicção de que as pessoas (e os povos) são fundamentalmente desiguais, e a melhor sociedade é aquela que reflete as desigualdades naturais ou inatas. Obedecer a um superior real é uma grande virtude social, parafraseando o conservador James Fitzjames Stephen. Esse anti-igualitarismo pode assumir uma forma conservadora, na qual aqueles à direita buscam defender as autoridades hierárquicas existentes que consideram, em geral, legítimas. Mas também pode assumir formas revolucionárias e até utópicas, nas quais a direita radical fantasia sobre restaurar ou criar tipos utópicos de sociedade onde a verdadeira hierarquia “orgânica” se expressará. Muitas vezes, isso é codificado em linguagem restauracionista, como no livro Ride the Tiger [Cavalgar o Tigre], do autoproclamado “superfascista” Julius Evola: 

Assim como o verdadeiro Estado, o Estado hierárquico e orgânico deixou de existir. Não existe nenhum partido ou movimento comparável que se apresente como defensor de ideias superiores, às quais se possa aderir incondicionalmente e apoiar com absoluta fidelidade. O atual mundo da política partidária consiste apenas no regime de políticos mesquinhos que, independentemente de suas filiações partidárias, são frequentemente figuras decorativas a serviço de interesses financeiros, industriais ou corporativos. A situação chegou a tal ponto que, mesmo que existissem partidos ou movimentos de um tipo diferente, eles quase não teriam seguidores entre as massas desenraizadas que respondem apenas àqueles que prometem vantagens materiais e “conquistas sociais”.

Mas, como Corey Robin observa em The Reactionary Mind [A Mente Reacionária], a própria radicalidade da nostalgia da extrema-direita significa que alguém como Evola é forçado a admitir que é o futuro, e não o passado, que constitui o horizonte de suas fantasias políticas. O momento presente é percebido como tão podre e corrompido pelo liberalismo, socialismo e democracia que, na prática, não resta nada a ser preservado. Muitos fascistas chegam a expressar hostilidade em relação aos conservadores, embora se sintam compelidos a cooperar com eles. Os fascistas frequentemente veem os conservadores como esclerosados, tímidos e incapazes de reverter a onda de forças decadentes que estão dominando a cultura nacional. Em How to Read Hitler [Como Ler Hitler], Neil Gregor observa como Hitler se radicalizou na cosmopolita Viena. Ele passou a desprezar os social-democratas, os judeus e os marxistas, que considerava uma força singular e corruptora. Mas, como Gregor destaca, ele não culpou apenas a esquerda, mas também a “estupidez e credulidade” das “forças da ‘velha direita’, os ‘dez mil superiores’, cuja incapacidade de resolver ‘o problema social’ tornou possível que o marxismo, e consequentemente os judeus, espalhassem sua influência perniciosa”. 

Para alguém como Hitler, a velha direita conservadora não conseguiu realizar o trabalho e falhou em expandir o poder da nação alemã. A ação radical era o que se exigia para alcançar um tipo superior de rejuvenescimento nacional, e é isso que os fascistas oferecem. Dependendo do momento tático, isso significava que os fascistas ora cooperavam com os conservadores mais convencionais, ora os desprezavam. Grande parte da sensibilidade populista e oportunista que define o fascismo, tanto naquela época quanto agora, deriva desse desejo distintamente pequeno-burguês de consolidar a autoridade, ao mesmo tempo que ascende ao topo da hierarquia social, onde os fascistas acreditam que deveriam estar. Quando figuras da extrema-direita moderna, como Fuentes, falam sobre “conservadores covardes” e “Con Inc.” — zombando do establishment do Partido Republicano enquanto tentam, com considerável sucesso, forçá-lo e substituí-lo — isso ecoa essa história.  

A definição acadêmica mais amplamente aceita de “fascismo genérico” é a de Griffin. Em seu livro clássico The Nature of Fascism [A Natureza do Fascismo], ele define fascismo da seguinte forma: “O fascismo é um tipo de ideologia política cujo núcleo mítico, em suas várias permutações, é uma forma palingenética de ultranacionalismo populista. 

Em outras palavras, os fascistas projetam a existência de uma “ultranação”, que raramente se conforma às fronteiras e aos cidadãos reais de um Estado-nação existente. Eles insistem que a ultranação é o locus total do significado na vida das pessoas e que precisa ser restaurada. O termo “palingênese” refere-se a renascimento ou recriação. A ultranação frequentemente recebe uma qualidade orgânica, como na obra de Evola, concebida como um superorganismo que transcende os indivíduos que a compõem. Muitas vezes, essa conexão orgânica é feita apelando diretamente à raça e à pseudociência racista para definir uma comunidade ariana de sangue “puro” que corre o risco de infecção. Em Minha Luta, Hitler fez exatamente essas afirmações, descrevendo a saúde racial da nação como vital para a restauração milenar da Alemanha:

O Estado racial deve compensar o que todos os outros negligenciaram nesse campo. Deve colocar a raça no centro de toda a vida. Deve zelar por sua pureza. Deve declarar a criança como o tesouro mais precioso do povo. Deve assegurar que apenas os saudáveis ​​gerem filhos; mas há apenas uma desgraça: trazer filhos ao mundo apesar das próprias doenças e deficiências, e a maior honra: renunciar a fazê-lo. E, inversamente, deve ser considerado repreensível: privar a nação de crianças saudáveis. Aqui, o Estado deve agir como guardião de um futuro milenar diante do qual os desejos e o egoísmo do indivíduo devem parecer insignificantes e submeter-se.

Mas, em sua essência, a ultranação é uma ideia mitológica, uma fé secular (o que não significa que formas de fascismo cristão e religioso não existam, frequentemente combinadas com o exagero nacionalista). Às vezes, os fascistas até demonstram ter consciência de que a ideia da ultranação é simplesmente uma invenção, mas não se importam. O que importa não é a realidade da ultranação, mas o significado que ela proporciona. Como Mussolini disse em um discurso de 1922:

Criamos o nosso mito. O mito é uma fé, uma paixão. Não precisa ser uma realidade. É uma realidade no sentido de que é um estímulo, é esperança, é fé, é coragem. O nosso mito é a nação, o nosso mito é a grandeza da nação! E é a esse mito, a essa grandeza, que queremos traduzir em realidade plena, que subordinamos tudo o mais.  

Geralmente, os fascistas evocam com nostalgia e seletividade uma época em que a ultranação era forte, vigorosa e poderosa: o Império Romano, o Segundo Reich Alemão sob Bismarck ou os dias gloriosos em que os húngaros defenderam a Cristandade dos bárbaros otomanos islâmicos. (Ou, para a extrema-direita estadunidense de hoje, uma versão idealizada dos anos 1950, criada em grande parte por meio de propagandas.) Mas, desde então, a ultranação declinou devido à influência nefasta de inimigos internos e externos que semeiam a corrupção, a letargia e a decadência: o socialismo, o comunismo, o materialismo, o feminismo, a democracia, o liberalismo, as formas mais consumistas do capitalismo, invasores e imigrantes estrangeiros, ou todos os anteriores. Os fascistas prometem que um movimento revolucionário restaurará a glória da ultranação. Mas somente se o movimento que representa o povo comum for chancelado com controle quase absoluto.

 Os fascistas rejeitam a democracia, mas tendem a abraçar o populismo. O líder — quase sempre um homem vaidoso e dramático — é apresentado como uma figura visionária que personifica a verdadeira vontade do seu povo, o que significa que deve ter permissão para agir sem restrições. Os mecanismos liberais ou democráticos de controle da autoridade do líder fascista são percebidos como neutralizadores da vontade popular e como um risco de regressão política a debates democráticos e intelectuais enfadonhos entre facções rivais.

Uma vez no poder, o movimento e o líder prometem expurgar os inimigos nacionais e tornar a ultranação grande novamente. Para muitos fascistas, isso significou uma expansão imperial em massa, empreendida tanto como meio de empoderar a nação quanto como um fim em si mesma. (A invasão da Etiópia por Mussolini em 1935 se enquadra nessa categoria.) Os fascistas veem a violência e o exercício do poder como espiritualmente edificantes, libertando o povo do egoísmo decadente e intensificando a vivência existencial. 

Antissocialismo fascista 

A doutrina judaica do marxismo rejeita o princípio aristocrático da Natureza e substitui o privilégio eterno do poder e da força pela massa numérica e seu peso morto. Assim, nega o valor da personalidade no homem, contesta o significado da nacionalidade e da raça e, com isso, retira da humanidade a premissa de sua existência e de sua cultura. Como fundamento do universo, essa doutrina traria o fim de qualquer ordem intelectualmente concebível para o homem.
Adolf Hitler, Mein Kampf


Tendo definido o fascismo e o descrito em relação à direita em geral, estamos agora em melhor posição para compreender a história do antissocialismo fascista. Os fascistas desprezam muitas coisas no socialismo. Em particular, e relacionados a isso, estão o seu racionalismo, o materialismo, o universalismo cosmopolita e, sobretudo, o igualitarismo. 

Os fascistas desprezam o racionalismo e o intelectualismo do socialismo, associando-os à supressão das aspirações heroicas da personalidade. Parte disso alinha o fascismo a uma repulsa mais ampla da direita pela razão excessiva e à celebração daquilo que Roger Scruton, em The Meaning of Conservatism [O Significado do Conservadorismo], destacou como “pessoas que não pensam”. De modo geral, a direita não gosta que os indivíduos exerçam sua razão em excesso, pois isso tem a perigosa tendência de transformar súditos passivos em cidadãos exigentes. O fascismo difere da direita em geral por aceitar e, às vezes, até mesmo desejar a participação das massas na política, ainda que sujeitas à direção e ao controle do líder populista autoritário. Mas eles ainda associam o intelectualismo excessivo, do tipo que os socialistas sempre defenderam como parte da conscientização de classe e vital para uma sociedade bem administrada, a algo desanimador e confuso. Sob a perspectiva fascista, ele inibe a vontade de agir. O filósofo fascista Giovanni Gentile deixou isso explícito em Origini e dottrina del fascismo [Origem e Doutrina do Fascismo], quando criticou a forma como o intelectualismo “separa o pensamento da ação, a ciência da vida, o cérebro do coração e a teoria da prática. É a postura do falastrão e do cético, da pessoa que se entrincheira na máxima de que uma coisa é dizer algo e outra é fazê-lo; é o utópico quem fabrica sistemas que jamais enfrentarão a realidade concreta […]”. Não são apenas pensamentos específicos que o fascismo desencoraja, mas o próprio ato de pensar.

Mais especificamente, os fascistas consideram os socialistas pouco diferentes dos liberais, pois ambos estão fixados em preocupações econômicas racionalistas e, consequentemente, reduzem a humanidade a um rebanho indiferenciado de gado a ser cuidado pelo que o supremacista branco Sam Francis chamou depreciativamente de um Estado “gerencial” que levará à passividade. Em A Doutrina do Fascismo, de Mussolini (texto foi, na verdade, em grande parte escrito por Gentile), o fascismo é descrito como a “negação resoluta” do “chamado socialismo científico e marxista”, que descreve a história em termos de luta de classes. Ideologicamente, isso ocorre porque os fascistas não compartilham a visão otimista dos socialistas de que, com o fim da luta de classes, virá o advento de uma sociedade mais racional. Politicamente, como vimos, os fascistas frequentemente angariavam apoio das grandes empresas na Itália e na Alemanha prometendo acabar com a luta de classes sem a necessidade de desafiar a propriedade dos meios de produção pelo capital. 

O nacionalismo pode pôr fim à luta de classes internamente, mas então o esforço ultranacionalista precisa perseguir novos projetos heroicos em outros lugares. Isso porque os fascistas negam que a precariedade econômica seja o problema social fundamental, e também que usar a razão para conceber um sistema econômico eficiente que garanta o bem-estar de todos seja uma aspiração digna. Mussolini (ou melhor, Gentile falando por meio de Mussolini) insistia que o fascista “acredita agora e sempre na santidade e no heroísmo, isto é, em atos nos quais nenhum motivo econômico — remoto ou imediato — esteja em jogo”. 

Frequentemente, os fascistas confundem socialismo e liberalismo como gêmeos bastardos do Iluminismo, nessa fixação com o materialismo metafísico e espiritual. Em sua Introdução à Metafísica, o filósofo nazista Martin Heidegger proclamou que a União Soviética e os Estados Unidos eram “metafisicamente iguais”. Capitalistas liberais e socialistas concordavam que o mundo consistia em matéria em movimento, conduzida por leis científicas que podiam ser compreendidas e manipuladas pela razão humana. O objetivo da vida era, consequentemente, aproveitar o poder da ciência e da tecnologia para satisfazer os desejos humanos. Esse ponto tem sido amplamente mal interpretado por muitos críticos socialistas e liberais, que projetam suas próprias fixações econômicas na ideologia e na práxis fascistas. De modo geral, pensadores e políticos fascistas desprezavam esse economicismo iluminista compartilhado, considerando-o reflexo de uma decadência materialista mais profunda. 

Os fascistas viam a economia como uma atividade inferior (frequentemente judaica) que deveria ser subordinada a preocupações políticas e raciais/populares. Em Fascism: Comparison and Definition [Fascismo: Comparação e Definição], o historiador Stanley Payne enfatiza como Hitler não tinha “ideias muito precisas de economia ou estrutura política, exceto que a economia não era importante em si mesma e deveria ser subordinada a considerações políticas nacionais”. Heidegger pensava o mesmo, em termos mais rebuscados. Para ele, o suposto confronto épico entre capitalismo e socialismo não passava de um debate patético sobre como construir e distribuir geladeiras da melhor forma. Em contraste, o movimento nazista havia surgido do povo alemão, mais espiritualmente sintonizado e heroico, uma espécie de espírito coletivo místico, e, portanto, estava destinado a destruir tanto o capitalismo quanto o socialismo para realizar a grandiosa redenção de todo o Ocidente. Essa fantasia atesta a perspicácia de críticos marxistas como Theodor Adorno e Erich Fromm, que enxergaram no “jargão da autenticidade” do fascismo uma tentativa de escapar da realidade e de seu caos para um mundo de fantasia mítica baseado no poder e na ordem.  

O universalismo cosmopolita e o pacifismo aspiracional do socialismo também são uma enorme fonte de antagonismo. Os socialistas diferem dos liberais (pelo menos os clássicos) por aceitarem, em grande medida, a inevitabilidade do conflito social, nomeadamente a luta de classes. Isso fez com que filósofos fascistas como Carl Schmitt por vezes expressassem uma preferência relutante pelo realismo socialista em detrimento da ambiguidade liberal. Mas, desde Marx, a luta de classes é geralmente entendida como tendo uma dimensão global profundamente ligada à crença socialista de que um dia até mesmo esse conflito chegará ao fim. Os trabalhadores do mundo se unirão porque todos eles, independentemente de raça ou credo, são explorados pelo capitalismo. Em suas formas menos ambiciosas, os socialistas podem abandonar essa visão historicamente dramática, mantendo ainda uma moralidade universalista. Acreditamos que as obrigações morais são devidas a todos; portanto, uma característica problemática do capitalismo é o seu egoísmo individualista.

Os fascistas desprezam esse “cosmopolitismo desenraizado” e a crença adjacente de que um mundo de paz e harmonia entre todos é alcançável uma vez eliminada a exploração de classe. Em On Hitler’s Mein Kampf: The Poetics of National Socialism [Sobre Mein Kampf de Hitler: A Poética do Nacional-Socialismo], Albrecht Koschorke explica que Hitler descreveu seu antissocialismo como emergindo de um “ódio — e mais, de repulsa — pelos social-democratas, que ‘enganam’ ou ‘seduzem’ os trabalhadores”. Hitler manipulou os trabalhadores para que rejeitassem a ideia socialista de uma comunidade internacional unida na luta contra a exploração global. Em vez disso, deveriam se conceber como um Volk [Povo] especificamente alemão e ariano, onde a luta de classes seria eliminada internamente, mesmo que as classes ainda existissem de fato. Isso porque toda a atividade econômica, inclusive a da iniciativa privada, seria direcionada para o único objetivo digno de uma nação rejuvenescida: a busca pelo Lebensraum (espaço vital) e a imposição de um império por meio da guerra. Assim, o nazismo garantiria a eliminação interna do conflito de classes (mesmo que as classes econômicas reais ainda existissem na Alemanha), e Hitler estava certo de que uma violenta luta global entre “raças” era inevitável e desejável. Tudo isso determinado pelo “princípio aristocrático da natureza”, que sustentava que as raças fortes deveriam dominar as inferiores, ou sub-humanas

Isso nos leva ao ápice do desprezo fascista pelos socialistas: nosso compromisso com a igualdade. Os socialistas são instintivamente e, muitas vezes, reflexivamente igualitários. Acreditamos que (pelo menos) toda vida humana é igualmente sagrada, o que significa que temos deveres universais para com todos. Isso nos impede de priorizar nossos desejos individuais ou nacionais a ponto de ignorarmos as necessidades dos outros ou até mesmo explorá-los. Os fascistas rejeitam isso completamente. Koschorke observa que, da “perspectiva nacionalista — especialmente na forma extremista e biologista defendida por Hitler —, [se] vê um princípio vertical de separação em ação. Vistos em termos nacionais, todos os membros do povo são, em essência, exultantes. A divisão interna, portanto, equivale a uma traição à sua natureza compartilhada. Da mesma forma, os membros de outros povos permanecem fundamentalmente estrangeiros”. Para os fascistas, muitos seres humanos não têm direito a nada e, portanto, podem ser usados ​​e abusados ​​conforme a necessidade das raças superiores. Ou pior, muitos são considerados simplesmente como “comedores inúteis” ou “vidas indignas de serem vividas”, seja por inferioridade racial, corrupção ideológica, deficiência ou outros motivos. A ultranação orgânica é enfraquecida, até mesmo adoecida, por sua presença, o que justifica o uso de violência massiva contra eles.

Muitos socialistas têm dificuldade em compreender o apelo da visão de mundo fascista; frequentemente a reduzem a um reflexo deturpado de interesses econômicos, e pouco mais que isso. Mas suas dimensões são bastante simples. O fascismo oferece uma narrativa de desapropriação e vitimização, projetando uma visão de mundo paranoica onde progressistas sinistros estariam sempre tentando se apoderar da propriedade conquistada com mérito e da grandeza nacional. A lógica é que, se não fosse pela presença dessas forças decadentes, você, alemão ou italiano comum, seria reverenciado como a raça superior que é. O oposto também é verdadeiro: o fascismo ofereceu e oferece aos homens e mulheres comuns da “ultranação” a sensação de serem aristocratas raciais. Dá a eles um gostinho de poder e status, contanto que se submetam inquestionavelmente ao partido e ao seu líder. Se você adere, de repente não é apenas um trabalhador comum; você faz parte da Grande Máquina de Guerra Ariana Heroica do Destino, ou talvez do Comboio de Trump. Para muitas pessoas, a oferta de igualdade da esquerda nunca será tão sedutora quanto a oferta de superioridade da direita, especialmente quando combinada com o ressentimento de ser uma vítima despojada de seu status aristocrático por aqueles que não o merecem. A combinação fascista de exaltação e vitimização ressentida pode ser inebriante. 

Agora podemos ver como, em muitos aspectos, o fascismo constitui a visão de mundo exatamente oposta à do socialismo. Os socialistas partem do princípio de que todas as pessoas são iguais, consideram o chauvinismo nacional e individualista contrário às nossas profundas obrigações morais, enfatizam que temos mais em comum como seres humanos finitos e vulneráveis ​​do que aquilo que nos separa, e desejam usar a razão e a ciência para construir uma sociedade melhor para todos. Os fascistas acreditam que as pessoas são fundamentalmente desiguais desde o nascimento e tornam-se ainda mais desiguais com o tempo, insistem que nações e raças “superiores” têm direitos especiais para se preservarem e se fortalecerem, mesmo às custas dos mais fracos, consideram isso um reflexo da grandeza interior que as distingue das formas de vida inferiores e rejeitam o humanismo e o racionalismo em favor de uma luta pela supremacia e dominação. Sua visão de mundo, portanto, legitima a violência desenfreada contra socialistas e outros inimigos “inferiores”.

A banalidade do mal 

O fascismo infligiu enorme sofrimento ao mundo antes de implodir em um fracasso humilhante em meados do século XX e, em seguida, fazer um retorno indesejado. Grande parte dessa violência foi direcionada a seus oponentes socialistas, que — para grande preocupação da direita em geral — pareciam estar ganhando terreno em todos os lugares após a Primeira Guerra Mundial e durante a Grande Depressão. Os fascistas eram antissocialistas e antiesquerdistas tão eficazes que sua reputação na direita permaneceu relativamente intacta mesmo após a Segunda Guerra Mundial. 

Mesmo nos Estados Unidos, onde nunca houve um partido fascista significativo que tenha chegado ao poder, movimentos e simpatizantes relacionados causaram danos consideráveis ​​no século XX e em épocas anteriores. Em A Anatomia do Fascismo, Paxton observa, com um tom sombrio, que “um fenômeno antigo que pode ser funcionalmente relacionado ao fascismo é a Ku Klux Klan”. Eles adotaram um uniforme e usaram técnicas de intimidação e violência para subjugar inimigos da raça branca, juntamente com supostos comunistas e outros “vermelhos”. Em Fascism in America [Fascismo nos EUA], Alex Reid Ross observa como grupos simpatizantes do nazismo na década de 1930 buscavam se apresentar como brancos e patriotas, ao mesmo tempo em que repudiavam o governo Roosevelt, que “identificavam com o poder judaico e o comunismo”. Embora, em última análise, tenham fracassado, dada a guinada à esquerda do país na década de 1930, os simpatizantes do fascismo contribuíram para uma tendência isolacionista durante grande parte do início da guerra. 

Isso culminou nos esforços do Comitê EUA Primeiro (AFC) para influenciar a opinião pública a favor da Alemanha, ou pelo menos em direção a uma neutralidade benigna. Assim como na Europa, o AFC recebeu considerável apoio das grandes empresas, que buscavam cada vez mais qualquer munição que pudessem usar contra FDR e o New Deal. Em seu artigo para o livro Fascism in America, Matt Specter e Varsha Venkatasubramanian observam como o AFC funcionou como um “grupo de pressão com o objetivo de enfraquecer o Partido Democrata e desacreditar o presidente Roosevelt. Os conservadores anti-intervencionistas temiam que a entrada dos Estados Unidos na guerra desviasse a atenção dos cidadãos das limitações da recuperação econômica e da condução autoritária de Roosevelt na Suprema Corte”. Após a guerra, o antissocialismo e o anticomunismo fascistas continuaram influenciando os assuntos estadunidenses. A infame “Operação Paperclip” trouxe cientistas nazistas aos EUA para ajudar na Guerra Fria. Isso se deveu em grande parte ao seu conhecimento científico. Mas, é claro, também porque eles eram considerados anticomunistas militantes e eficazes, em quem se podia confiar para trabalhar com entusiasmo contra a União Soviética.  

Mas, é claro, o verdadeiro dano foi causado na Europa, onde movimentos abertamente fascistas tomaram o poder e puderam executar sua visão ditatorial. Após 1919, o Partido Fascista Italiano organizou esquadrões paramilitares, os “camisas negras”, para servirem como sua força bruta. Os fascistas italianos prometeram trazer ordem a uma Itália dividida por classes sociais. Durante os “Anos Vermelhos”, isso os ajudou a ganhar considerável popularidade como militantes muito eficazes contra operários, socialistas e comunistas. Em Fascismo: Uma Breve Introdução, Kevin Passmore descreve como os fascistas italianos inicialmente conquistaram o “apoio de muitos pequenos camponeses conservadores e trabalhadores rurais sem-terra, que concordavam que as autoridades não os protegiam da esquerda. Os esquadrões fascistas (squadristi) iniciaram uma violenta campanha de intimidação contra católicos e, especialmente, socialistas, na qual centenas foram mortos”. Em Fascism: Comparison and Definition, Stanley Payne descreve o apelo ideológico do fascismo, principalmente entre os jovens. Contra a “revolução socialista antinacionalista”, propôs uma revolução alternativa de um governo nacionalista mais autoritário, liderado por novas elites e que promovesse novos e amplos interesses nacionais. 

Essa foi uma das razões pelas quais as elites conservadoras e burguesas estavam dispostas a apoiar Mussolini após a marcha sobre Roma em 1922. No poder, o Partido Fascista Italiano inicialmente implementou muitas medidas pró-capitalistas. Em seu livro A Ordem Capital, a economista Clara Mattei observa como os fascistas foram aplaudidos por capitalistas italianos e internacionais por esmagarem a coalizão entre o Partido Socialista e o Partido Popular, que havia se tornado ameaçadoramente popular, conquistando 32% das cadeiras parlamentares em 1919. Mussolini então implementou políticas pró-austeridade que restringiram os direitos econômicos ao longo da década de 1920, antes de mudar parcialmente de rumo na década de 1930 como resposta à Grande Depressão. O regime de Mussolini prendeu milhares de dissidentes, incluindo socialistas icônicos como Gramsci e Carlo Rosselli, mesmo antes de entrar na órbita de Hitler.

Por outro lado, a maioria dos comentaristas atuais considera o General Franco um autoritário conservador, e não um fascista declarado. Como católico conservador, Franco desconfiava profundamente das dimensões populistas do fascismo e, como muitos conservadores europeus, também desconfiava de suas aspirações utópicas de rejuvenescimento total da sociedade. Mesmo assim, Franco recebeu imensa ajuda das Potências do Eixo para ascender ao poder, cooperou com a Falange espanhola fascista e contribuiu longamente com homens e equipamentos para a causa nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Em Fascists, Michael Mann estima que o número de mortes promovidas por nacionalistas tenha ficado entre 50.000 e 200.000, com centenas de milhares de pessoas presas e torturadas. Muitas das vítimas de Franco eram republicanos, comunistas e socialistas. De forma arrepiante, Mann observa que, quando Heinrich Himmler visitou a Espanha em 1940, ficou “surpreso com as execuções e as prisões superlotadas” e sugeriu a reintegração de militantes à nova ordem. Mann ironiza dizendo que Himmler “parecia não perceber que os militantes da classe trabalhadora eram para Franco o que os judeus eram para ele próprio. Franco recusou os repetidos pedidos de Hitler e Himmler para entregar os judeus espanhóis, mas com os esquerdistas foi implacável.”  

Mas foi na Alemanha nazista que o antissocialismo e o anticomunismo atingiram seu ápice de virulência. Desde o início, a violência paramilitar nazista foi fortemente, ou mesmo em grande parte, direcionada contra socialistas e comunistas. Em Fascists, Mann analisou 581 ensaios escritos para o jornal do partido nazista sobre “Por que me tornei nazista”. Os militantes enfatizavam fortemente o desejo de combater inimigos, e “marxistas/comunistas/socialistas”, em vez de judeus ou qualquer grupo racial ou religioso, “eram vistos como o principal inimigo em 63% dos ensaios”. Como Mann afirmou, os “principais inimigos” dos nazistas “tornaram-se bolcheviques, embora frequentemente associados a judeus e ao ‘sistema’ de Weimar”. Quanto mais as coisas mudam, mais permanecem as mesmas, e as teorias da conspiração sobre judeus marxistas insidiosos e outras minorias corrompendo a nação continuam muito presentes em nossa sociedade. 

Isso explica por que parte do apelo dos nazistas às elites conservadoras tradicionais era a promessa de excluir e, eventualmente, destruir o Partido Social-Democrata (SPD) e o Partido Comunista (KPD), que haviam conquistado consistentemente um grande número de votos. Ajudou o fato de o SPD ser o maior rival eleitoral dos nazistas, especialmente entre a classe trabalhadora, e ter sido um dos principais fundadores da odiada República de Weimar, de cunho liberal democrático. Não por acaso, os únicos votos contrários à Lei de Habilitação vieram dos 94 deputados do SPD no Reichstag (o KPD comunista já estava efetivamente desmantelado). Em O Terceiro Reich no Poder, Evans observa que, poucos meses após a ascensão dos nazistas ao poder ditatorial, já havia cerca de 45.000 prisioneiros em campos de concentração, e a “grande maioria era composta por comunistas, social-democratas e sindicalistas”. Jane Caplan apresente um vislumbre ainda mais sombrio em Nazi Germany: A Very Short Introduction [Alemanha Nazista: Uma Brevíssima Introdução]. Ela observa como “os colaboradores de elite de Hitler o haviam preparado para resolver sua crise de controle, concedendo liderança e um mandato popular a um governo autoritário […] Hitler cumpriu a primeira parte do acordo na primavera de 1933 com o ataque esmagador dos nazistas ao KPD e ao SPD (ainda paralisados ​​pela hostilidade mútua) e aos sindicatos; sua rapidez e violência deixaram seus membros em estado de choque e desordem”. 

Após o início da guerra, a perseguição se intensificou, culminando na imensa Operação Barbarossa, a guerra para derrubar a União Soviética e, com ela, a sede do chamado bolchevismo judaico. Aproximadamente 20 milhões de soviéticos morreram na guerra — o maior número de mortos de qualquer nação combatente. Isso incluiu milhões nos campos de extermínio, além das inúmeras outras vítimas nazistas. A espiral descendente foi retratada de forma devastadora no icônico poema de Niemöller, que começa com “Primeiro vieram buscar os comunistas” — um verso inicial que, com o início da Guerra Fria na década de 1950, era frequentemente omitido nas reimpressões estadunidenses.

A magnitude da violência do fascismo — sua selvageria e brutalidade — é assombrosa. Mas é importante não exagerar na projeção de um poder demoníaco e genialidade nos fascistas, que entrarão para a história como fracassos colossais. “A força faz o direito” é sempre a filosofia do perdedor a longo prazo.

Socialistas autoproclamados cometeram muitos erros. Alguns deles foram brutalmente trágicos e impiedosamente genocidas. Socialistas autoritários como Stalin cometeram atrocidades em massa que servem como um lembrete arrepiante dos horrores que podem ser infligidos por aqueles que proferem clichês bem-intencionados. Mas o núcleo ético do socialismo permanece inspirador porque, em nítido contraste com o fascismo, exige muito mais de nós. Os socialistas querem um mundo onde, mesmo que nem todos sejam felizes, a miséria humana comum substitua o sofrimento desnecessário. Este é um objetivo tão exigente eticamente que ainda não conseguimos construir uma sociedade que o concretize plenamente. Apesar de toda a pompa sobre heroísmo e poder, no fim das contas, o fascismo ressoa porque apela aos nossos instintos mais baixos. É tão tentador imaginar-se um aristocrata racial roubado, em parte porque isso torna muito mais fácil ignorar todas as exigências éticas que se opõem à nossa ganância e sede de poder. Os fascistas lutam inutilmente por uma grandeza que as aspirações medíocres de suas almas jamais alcançarão. O fascismo é o sonho banal de homens insignificantes e merece seu lugar no esgoto da história.


Artigo publicado originalmente na Current Affairs.

é professor visitante de política no Whitman College. Ele é o autor de "The Rise of Post-Modern Conservatism and Myth" e co-autor de "Mayhem: A Leftist Critique of Jordan Peterson".

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Graco Babeuf

 

Há 229 anos, em 27 de maio de 1797, os revolucionários franceses Graco Babeuf e Augustin Darthé eram executados na guilhotina, marcando o fim da Conspiração dos Iguais, movimento insurrecional que eclodiu durante a Revolução Francesa.

O movimento refletia a insatisfação popular com a crise econômica e com os rumos do processo revolucionário. A restauração dos privilégios dos ricos após a queda de Robespierre e os retrocessos impostos pelo governo do Diretório convenceram os membros do movimento de que a burguesia pretendia somente substituir a aristocracia no comando do Estado, mantendo o povo subjugado.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

A conspiração foi uma das primeiras tentativas de estabelecer um regime político baseado na igualdade econômica e social. Os membros do movimento defendiam a abolição da propriedade privada e a coletivização das terras e dos meios de produção. Para Karl Marx e Friedrich Engels, a Conspiração dos Iguais foi o primeiro movimento comunista moderno.

A Revolução Francesa e o Período do Terror

Tributária do avanço das ideias iluministas, a Revolução Francesa se consagrou como um dos eventos mais seminais da história moderna. Iniciado em 1789, o movimento deu vazão ao enorme descontentamento popular com o sistema político do Antigo Regime e com os privilégios do alto clero e da aristocracia.

Acossadas pela inflação e pelo desemprego, submetidas à fome e à miséria, as camadas populares passaram a questionar o poder absoluto do rei Luís XVI e a exigir reformas políticas e sociais profundas. O clamor por mudanças encontrou eco na burguesia francesa, que se ressentia por ter seu poder circunscrito aos aspectos econômicos, permanecendo excluída da governança e dos processos decisórios.


Frustrados com o impasse nos debates durante a Assembleia dos Estados Gerais, os representantes da burguesia e das classes populares se rebelaram contra a Nobreza e o Clero e formaram sua própria Assembleia Nacional. A tomada da Bastilha em julho de 1789 inflamou os ânimos da população, que passou a saquear e destruir os palácios, castelos e propriedades dos nobres.

A agitação social forçou as classes dirigentes a uma série de concessões. Os privilégios feudais foram abolidos, os bens da igreja foram confiscados e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi aprovada. Em 1792, a monarquia foi abolida e, no ano seguinte, Luís XVI foi decapitado.

Durante todo esse período, diferentes grupos disputavam os rumos do processo revolucionário. A crescente radicalização das massas, no entanto, acabou por beneficiar os jacobinos — grupo composto por setores da pequena burguesia, intelectuais radicais e lideranças populares.

Sob o comando de Maximilien de Robespierre, os jacobinos assumiram o controle da Convenção Nacional, tomando a liderança do movimento. Eles seriam responsáveis por uma série de medidas avançadas, incluindo a abolição da escravidão nas colônias francesas e a instituição do sufrágio universal masculino, mas também impuseram uma violenta repressão política.

Entre setembro de 1793 e julho de 1794, a revolução seria marcada pelo chamado “Período do Terror”, em que milhares de pessoas foram guilhotinadas — com números estimados entre 16 mil e 40 mil vítimas. Outras 300 mil pessoas foram presas.

A Reação Termidoriana e o Diretório

A radicalização crescente, somada ao medo disseminado entre antigos aliados, acabou por isolar os jacobinos. Temendo as perseguições, deputados moderados e girondinos (facção política da alta burguesia, defensora do liberalismo) se uniram contra Robespierre e seus aliados. Em julho de 1794, o líder jacobino foi preso e executado na guilhotina, encerrando o domínio dos radicais.

Com a queda de Robespierre, a alta burguesia assumiu o comando do processo revolucionário, dando início a uma fase conservadora intitulada “Reação Termidoriana”. O Clube Jacobino foi fechado e os militantes revolucionários foram perseguidos durante o chamado “Terror Branco”. As políticas consideradas excessivamente radicais foram revertidas e os privilégios da burguesia foram restaurados.

A reação se intensificou a partir de 1795, quando foi instituído o governo do Diretório. Uma nova Constituição foi promulgada, abolindo o sufrágio universal em favor do voto censitário, restrito aos cidadãos mais ricos. Revoltas populares em Paris foram violentamente esmagadas pelo Exército, iniciando um processo de militarização das disputas políticas que pavimentaria o caminho para a ascensão de Napoleão Bonaparte.

Além dos retrocessos políticos, o novo governo também instituiu medidas econômicas impopulares. O fim do controle estatal sobre os preços e salários resultou no súbito aumento do custo de vida. Para agravar a situação, em fevereiro de 1796, o Diretório suspendeu a distribuição de pão e carne a preços subsidiados.

As medidas aprofundaram a insatisfação das classes populares, que já sofriam com a inflação galopante, o aumento da fome e o desemprego. Enquanto a alta burguesia enriquecia com guerras, especulação e apropriação dos bens tomados da aristocracia, o povo se sentia traído. A revolução, que mobilizara as massas prometendo “liberdade, igualdade e fraternidade”, restringia cada vez mais os dividendos a uma minúscula elite.

Graco Babeuf

Foi nesse contexto de decepção com os rumos da Revolução Francesa que surgiram novas vozes radicais exigindo uma segunda revolução, agora voltada a garantir justiça social e igualdade econômica para todos os cidadãos franceses.

A mais ressonante dessas vozes foi a de um jornalista chamado François Noël Babeuf, um representante dos “sans-culottes” — membros das camadas populares urbanas da França. Ele era mais conhecido pelo pseudônimo Graco Babeuf, referenciando os célebres irmãos Graco, tribunos romanos que foram assassinados por suas reformas em favor dos despossuídos.

Babeuf participou ativamente da Revolução Francesa. Ele serviu como membro do comitê revolucionário no departamento de Somme, atuou no registro dos bens confiscados da nobreza e endereçou várias petições com reivindicações populares à Assembleia dos Estados Gerais.

Como jornalista, Babeuf escreveu diversos ensaios e artigos defendendo a coletivização das terras, a abolição dos direitos feudais e as reformas em prol da igualdade. Suas posições radicais, a admiração por Robespierre e a proximidade com os jacobinos lhe custaram sucessivas prisões, mas também lhe renderam forte apoio popular e o respaldo de líderes como Jean-Paul Marat.

Após a execução de Robespierre, Babeuf fundou o jornal “A Tribuna do Povo”, no qual denunciava a corrupção do Diretório e exortava a luta pela restauração da Constituição de 1793. Preso novamente por suas “atividades subversivas”, Babeuf travou contato com outros revolucionários perseguidos pelo Diretório, incluindo Augustin Darthé e Philippe Buonarroti.

: Insurgentes jacobinos são fuzilados após a derrota do Levante de Grenelle. Gravura anônima de 1796. Biblioteca Nacional da França
/ Wikimedia Commons

A Conspiração dos Iguais

Libertado em outubro de 1795, Babeuf voltou a editar a “Tribuna do Povo”, escrevendo artigos com denúncias vigorosas contra o governo do Diretório e criticando o caráter excludente da ordem social construída pela revolução.

A crise econômica do Diretório criava terreno fértil para a agitação política e Babeuf logo angariou muitos seguidores. Passando da retórica à ação, o jornalista fundou um grupo intitulado Sociedade dos Iguais, que pregava abertamente a tomada do poder.

A agremiação foi reforçada por vários militantes do proscrito Clube dos Jacobinos e por membros do Clube do Panteão. Além de Darthé e Buonarroti, juntaram-se à sociedade os revolucionários Sylvain Maréchal, Félix Lepeletier, Pierre-Antoine Antonelle e Jean-Baptiste Drouet, entre outros.

A Sociedade dos Iguais não pretendia apenas derrubar o Diretório, mas substituí-lo por um ambicioso projeto de transformação social, baseado na igualdade absoluta. O grupo pregava a abolição da propriedade privada e a coletivização das terras e dos meios de produção. A exploração econômica do homem pelo homem deveria ser suprimida e o Estado deveria garantir o trabalho e a subsistência de todos os cidadãos.

Fundador do Clube do Panteão, Philippe Buonarroti foi um dos principais ideólogos do movimento. Ele foi responsável por elaborar o projeto da “república igualitária” a ser implementada após a queda do Diretório: “Os bens da comunidade nacional serão propriedade coletiva de todos os membros. A comunidade nacional proverá a cada pessoa moradia digna, vestuário, alimentação adequada e assistência médica”, previa o autor.

Por sua vez, o poeta Sylvain Maréchal foi responsável por redigir o “Manifesto dos Iguais”. O documento denunciava a burguesia como a nova aristocracia e conclamava o povo francês a se engajar na luta pela supressão das diferenças: “Não podemos permitir que a imensa maioria dos homens esteja ao serviço e ao mando de uma pequena minoria. (…) Devemos fazer desaparecer todas essas odiosas distinções de classes entre ricos e pobres, entre grandes e pequenos, entre senhores e servos, entre governantes e governados”, dizia o manifesto.

Inicialmente limitada a reuniões secretas e panfletos clandestinos, a Conspiração dos Iguais ganhou as ruas. O movimento conquistou enorme força em Paris, congregando milhares de seguidores, e logo se estendeu para outras cidades da região. O general Jean Antoine Rossignol, um dos líderes da tomada da Bastilha, introduziu a conspiração dentro do Exército, passando a coordenar uma rede de militares favoráveis à insurreição.

Uma canção de protesto composta por Babeuf passou a ser entoada nos bares e cafés de Paris, evocando os que estavam “morrendo de fome, morrendo de frio”. Em abril de 1796, os muros da capital francesa foram cobertos por cartazes divulgando a “doutrina de Babeuf” e assinalando que “a natureza deu a cada homem o direito a usufruir de uma parte igual de toda a propriedade”.

Repressão e legado

Inicialmente, as autoridades do Diretório ignoraram a Conspiração dos Iguais, julgando que a radicalidade de seus membros afastaria a população. Surpreendido pela adesão em massa dos populares ao movimento e alarmado pela crescente agitação, o governo francês resolveu agir.

O Diretório infiltrou agentes no movimento para obter informações detalhadas sobre os planos insurrecionais. Georges Grisel, um dos principais líderes da Sociedade dos Iguais, traiu seus companheiros em troca de um pagamento em dinheiro, repassando às autoridades informações decisivas sobre a agremiação.

Em maio de 1796, antes que a insurreição armada pudesse ser iniciada, o governo desencadeou uma ampla operação repressiva. Babeuf e dezenas de conspiradores foram presos. Mais de 240 mandados de prisão foram emitidos.

Unidades militares e batalhões policiais que haviam aderido ao movimento foram desarmados e dissolvidos. Em setembro de 1796, um grupo de 500 jacobinos associados a Babeuf ainda tentou articular uma revolta contra o governo, dando início ao Levante de Grenelle. A revolta foi rapidamente sufocada e dezenas de pessoas morreram durante a repressão.

O julgamento dos líderes da Conspiração dos Iguais teve início em Vendôme em fevereiro de 1797 e se estendeu por três meses. Babeuf e Darthé foram condenados à morte e guilhotinados em 27 de maio de 1797. Buonarroti foi encarcerado na Ilha de Oléron. Drouet, membro do Conselho dos Quinhentos, conseguiu fugir, possivelmente com anuência do próprio Diretório.

Embora derrotada, a Conspiração dos Iguais deixou um importante legado e foi reivindicada por algumas das maiores lideranças revolucionárias do século 19. O conhecimento sobre o levante foi difundido a partir de 1828, após a publicação do livro “História da Conspiração de Babeuf pela Igualdade”, de Philippe Buonarroti, influenciando socialistas utópicos, anarquistas e comunistas.

Karl Marx e Friedrich Engels consideravam a Conspiração dos Iguais como “a primeira aparição de um partido comunista verdadeiramente ativo”. Graco Babeuf, por sua vez, foi apontado por Rosa Luxemburgo como “o primeiro precursor dos levantes revolucionários do proletariado”.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Porque e como declina o império

 


As forças armadas dos EUA são altamente tecnológicas, dependentes do poder aéreo, sobrecarregadas com ativos de capital fixo vulneráveis ​​e caros em regiões perigosas e vinculadas a uma sociedade avessa a baixas, com pouca confiança nas instituições estatais para melhorar a vida interna ou externamente. (Chip Somodevilla/Getty Images)

Por que os EUA estão perdendo a guerra contra o Irão

Tradução
Pedro Silva

A hegemonia mundial dos EUA parece estar diminuindo. Podemos mergulhar ainda mais na loucura violenta e reacionária, ou construir uma alternativa política na qual o Ocidente desempenhe um papel mais construtivo em uma comunidade global.

A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã não está saindo como planejado. A ampla campanha de assassinatos e o bombardeio aéreo massivo contra a infraestrutura militar e civil de Teerã não levaram a República Islâmica ao colapso nos primeiros dias do conflito, e sua capacidade de causar estragos em bases estadunidenses e na infraestrutura energética de aliados no Golfo Pérsico pegou Donald Trump, Pete Hegseth e seus principais assessores de surpresa. Os governos aliados em Londres, Roma, Ottawa, Islamabade e Seul, em sua maioria, evitaram oferecer apoio direto.

Acima de tudo, a capacidade do Irã de controlar efetivamente o fluxo de tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz mergulhou a economia mundial em uma profunda crise, da qual a recuperação completa pode levar anos.

O controle de fato do Irã sobre uma artéria central do capitalismo global também põe em xeque a imagem da hegemonia global estadunidense. Se os Estados Unidos não conseguem garantir a livre passagem por um importante canal de abastecimento energético e produção de alimentos global, que serventia o domínio estadunidense tem para seus principais parceiros na Ásia e na Europa?

Além disso, a própria crise de Ormuz foi precipitada por uma aventura desnecessária e mal concebida, empreendida por dois líderes internacionais cada vez mais desonestos: Trump e Benjamin Netanyahu. Isso apenas reforça a percepção global de que os Estados Unidos não são um gestor estável e visionário do capital global, mas sim um sabotador internacional cruel e incompetente. O desfecho desse conflito ainda permanece incerto, mas a crise com o Irã demonstrou a fragilidade fundamental do projeto global dos EUA.

Os rumores sobre o declínio do imperialismo estadunidense ganharam força no discurso político ocidental. Este momento é interpretado como uma “Crise de Suez estadunidense”, um ponto de inflexão que demonstra que a hegemonia global dos EUA, assim como a britânica antes dela, ultrapassou o ponto de não retorno. Dos reacionários do “EUA Primeiro” (America First) à esquerda anti-imperialista, dos ultra-realistas dos departamentos de relações internacionais aos colunistas liberais, surge um consenso de que a crise com o Irã revelou uma profunda deterioração nos mecanismos do império estadunidense e na nova ordem mundial multipolar que emerge de suas ruínas.

Esse consenso geral, no entanto, deixa muitas perguntas sem resposta: como surgiu a hegemonia global estadunidense? Quais foram os mecanismos de sua reprodução? Como e quando começou esse declínio? E como os Estados Unidos e o mundo poderão ser no período pós-declínio?

Para abordar essas questões, podemos recorrer ao trabalho do falecido sociólogo estadunidense Richard Lachmann e à sua síntese de marxismo político, teoria dos sistemas mundiais e teoria sociológica das elites no livro de 2020, First-class passengers on a sinking ship: Elite politics and the decline of great powers [Passageiros de primeira classe em um navio afundando: Políticas da elite e o declínio de grandes poderes].

Lachmann argumenta que a hegemonia global é uma condição relativamente rara na qual um único Estado é capaz de definir a agenda geopolítica e econômica em escala mundial. Os Estados alcançam a hegemonia global quando as elites domésticas conseguem gerir institucionalmente seus interesses concorrentes, a fim de mobilizar os recursos coletivos de suas sociedades para projetar poder e coordenar outras elites na escala planetária necessária. A hegemonia global estadunidense, forjada nas crises das décadas de 1930 e 1940, desmoronou no início dos anos 2000; parece estar praticamente extinta na década de 2020. As mudanças na economia política estadunidense no final do século XX resultaram em elites mais autárquicas e predatórias, que carecem cada vez mais da capacidade de se engajar em ações coletivas.

Para entender as limitações do poder dos EUA no Estreito de Ormuz, é necessário analisar a coordenação e o conflito entre as facções rivais do poder da classe dominante nos Estados Unidos e como suas relações mutáveis com o Estado estadunidense, o capital financeiro e as classes dominantes estrangeiras têm restringido progressivamente sua capacidade de moldar o mundo.

O que foi a hegemonia dos EUA?

Embora muitos pensadores usem o termo “hegemonia” para descrever a influência que uma formação social exerce sobre outra, Lachmann segue o significado específico estabelecido por teóricos do sistema-mundo como Giovanni Arrighi e Immanuel Wallerstein. Em First-class passengers, hegemonia se refere à capacidade de um Estado e sua classe dominante de definir os termos do comércio, das finanças e da geopolítica em todo o mundo.

As potências hegemônicas globais não são simplesmente grandes impérios que conquistam ou extraem recursos de sociedades menos poderosas. Elas também influenciam outros Estados poderosos e estruturam as finanças, o comércio e a geopolítica globais de tal forma que a maioria das outras elites globais poderosas considera a participação nessas estruturas vantajosa para seus próprios interesses. Após a Segunda Guerra Mundial, as elites estadunidenses criaram relações duradouras, assimétricas e mutuamente benéficas com as classes dominantes de outras regiões centrais e semiperiféricas, o que resultou em uma rede de bases militares dos EUA, domínio do dólar e comércio global.

“À medida que Israel se torna cada vez mais um Estado pária no Oriente Médio, o profundo envolvimento de suas elites com os EUA restringe a capacidade estadunidense de agir de maneiras que beneficiem outras potências regionais.”

Isso está em consonância com uma certa interpretação de Antonio Gramsci, na qual a hegemonia é entendida como liderança de classe, a capacidade de mobilizar o poder consensual juntamente com o poder coercitivo bruto, onde os interesses de uma classe passam a ser compreendidos como os interesses da totalidade nacional ou internacional. O esmagador domínio militar estadunidense após 1945 foi a condição fundamental que possibilitou sua hegemonia, mas ela se manteve porque grupos de elites em Londres, Riad, Frankfurt e Tóquio entendiam que seus próprios interesses estavam fundamentalmente alinhados com os sistemas do capitalismo global liderado pelos Estados Unidos.

Fundamentalmente, First-class passengers diverge da visão de Arrighi e de outros autores sobre os “grandes ciclos de poder” ao insistir que a hegemonia global não é um resultado estrutural de “ondas” de desenvolvimento capitalista, nem é uma passagem automática do bastão de uma potência hegemônica em declínio para outra em ascensão. Em vez disso, a hegemonia é, em certa medida, contingente, e os cerca de quinhentos anos de história do capitalismo global foram marcados por extensos períodos de não hegemonia ou multipolaridade.

Lachmann situa a hegemonia holandesa em um breve período de algumas décadas em meados de 1600, enquanto as elites britânicas foram capazes de reformar e reconstituir sua hegemonia com flexibilidade institucional ao longo de um período muito mais extenso, que se estendeu aproximadamente de meados de 1700 até o final de 1800. A hegemonia estadunidense, embora impressionante em seu alcance e intensidade globais, foi mais semelhante à holandesa em sua brevidade, durando de 1945 até o início dos anos 2000.

Mas as diferentes trajetórias de diversas potências hegemônicas globais ao longo da história levantam a seguinte questão: o que leva esses colossais poderes imperiais a construir e depois perder seu status hegemônico?

Pintura de Hendrik Cornelisz Vroom retratando o retorno a Amsterdã da segunda expedição holandesa às Índias Orientais, sob a liderança de Jacobus van Neck, em 19 de julho de 1599. (Rijksmuseum)

Da coordenação de elites ao conflito entre elas

Para que as elites domésticas acumulem poder e influenciem pessoas em outros territórios, elas precisam desenvolver mecanismos para equilibrar a competição interna. As lutas entre diferentes empresas, setores, bases geográficas ou blocos ideológicos e culturais constituem uma força centrífuga constante que ameaça a projeção de poder da classe dominante. Para entender a incapacidade dos Estados Unidos de moldar os eventos no Irã ou mesmo de definir agendas em capitais amigas na Europa e na Ásia, Lachmann nos lembra de observar, em primeiro lugar, os mecanismos de coordenação das elites domésticas que estão se desintegrando.

Essa abordagem desafia as suposições dominantes sobre os Estados que permeiam a maior parte das análises políticas. Os Estados não são objetos sólidos preexistentes que simplesmente representam os interesses de suas nações. Em vez disso, os Estados são arquipélagos formados por instituições que são, nas palavras de Nicos Poulantzas, “condensações materiais” das relações de poder entre classes e frações de classe.

A geopolítica global não é melhor compreendida como um “jogo entre nações” ou um sistema em que certos países exploram outros. Em vez disso, o poder imperial consiste em disputas e compromissos interligados entre diferentes classes e as instituições que elas tentam construir, mobilizar e reconfigurar para promover projetos que atendam a percepções sempre mutáveis ​​de seus próprios interesses. E a capacidade das elites de liderar e moldar os assuntos globais não deriva primordialmente de sua onipotência ou de conspirações em salas enfumaçadas, mas da coerência dos arranjos institucionais que se desenvolvem no contexto de conflitos inter e intraclasses.

A arquitetura institucional da hegemonia estadunidense do pós-guerra foi forjada durante o New Deal e a Segunda Guerra Mundial, quando os traumas gêmeos da Grande Depressão e da guerra total transformaram o Estado e a economia dos EUA. First-class passengers identifica especificamente as raízes da estabilidade das elites nas regulamentações do New Deal que isolavam empresas de âmbito nacional de empresas de âmbito estadual em uma ampla gama de setores, como um método de proteção contra o pânico financeiro. Essas regulamentações também ajudaram a equilibrar e consolidar diferentes empresas e setores uns contra os outros, impedindo que qualquer setor se tornasse excessivamente poderoso, ao mesmo tempo que permitiam que as empresas construíssem relações estáveis ​​com representantes locais no Congresso, que, por sua vez, protegeriam seus interesses nas negociações políticas. A contrapressão do movimento sindical ajudou a estabilizar ainda mais o sistema, servindo como um freio para as grandes empresas estadunidenses dentro e entre os principais setores.

A infraestrutura institucional da classe empresarial estadunidense do pós-guerra foi sustentada por um consenso sem precedentes entre as elites dos Estados Unidos sobre a legitimidade das instituições estatais do New Deal, o anticomunismo da Guerra Fria, a gestão macroeconômica keynesiana e a busca por soluções científicas e baseadas em conhecimento especializado para a gestão da vida social. Os ganhos sem precedentes nos padrões de vida e nas conquistas tecnológicas pareciam fornecer às elites o apoio interno e a base de recursos necessários para moldar os eventos globais no período imediatamente posterior à guerra.

Lachmann argumenta que o conflito intra-elite escapou ao controle devido à onda de fusões que varreu as empresas estadunidenses a partir do final da década de 1960 e se expandiu pelas décadas de 1970 e 1980. À medida que a consolidação corporativa avançava, impulsionada pela desregulamentação e pela crise do movimento trabalhista dos EUA, os laços estreitos, porém dispersos, entre as empresas e a representação política começaram a se desintegrar. As empresas passaram a adotar práticas cada vez mais exploratórias contra os trabalhadores em suas próprias empresas e contra os concorrentes em seus setores, tornando-se cada vez mais predatórias em relação a outros setores do capital.

À medida que esses mecanismos de equilíbrio se desfizeram e elites cada vez mais autárquicas agiram com impunidade contra as classes trabalhadoras e entre si, os arranjos políticos que sustentavam a hegemonia estadunidense começaram a declinar. Como argumenta Paul Heideman em seu recente livro Rogue elephant [Elefante vigarista], essa dinâmica econômica remodelou o Partido Republicano, o partido tradicional dos grandes negócios estadunidenses. As elites políticas republicanas têm acessado cada vez mais dinheiro diretamente de redes de doadores, em vez de instituições — a Convenção Nacional Republicana e seus comitês, a Câmara de Comércio e até mesmo os próprios Comitês de Ação Política (PACs) — concebidas para coordenar o poder político e de classe comum.

Comparar a preparação para a Guerra do Iraque de 2003 com a atual guerra no Irã revela a degeneração da coordenação entre as elites lideradas pelos Estados Unidos. No âmbito político interno, o governo Trump e seus aliados dedicaram um esforço insignificante ao cultivo de influências entre as elites da mídia, das empresas de energia, de Wall Street, das universidades e dos centros de pesquisa. Considere a campanha de meses orquestrada pelo governo George W. Bush, que instaurou o clima de guerra em todos os setores da vida estadunidense, explorando o nacionalismo ferido dos EUA pós-11 de setembro e o aparente sucesso inicial da guerra no Afeganistão para construir fortes maiorias na opinião pública e em setores-chave da elite.

“Embora os bombardeiros israelenses-estadunidenses possam dizimar bases militares iranianas fixas, a capacidade de Teerã de projetar poder no Golfo depende de tecnologias mais descartáveis ​​e móveis que evitam contramedidas aéreas.”

O cenário internacional também apresenta contrastes marcantes. A “Coalizão dos Dispostos” incluiu compromissos significativos de tropas e material bélico de países-chave do G20, como Reino Unido, Itália, Coreia do Sul e Austrália. Colin Powell fez sua infame apresentação no Conselho de Segurança das Nações Unidas numa tentativa de obter aprovação internacional para as guerras estadunidenses. Tanto na Guerra do Golfo de 1991 quanto na Guerra do Iraque de 2003, George H.W. Bush e seu filho exigiram a não participação de Israel para consolidar aliados no mundo árabe, seja em apoio ativo ou em uma neutralidade simpática.

Trump, por outro lado, lançou seu ataque ao Irã somente após coordenação com Israel, deixando aliados regionais e internacionais importantes completamente no escuro. No curto prazo, os países do Conselho de Cooperação do Golfo podem ser levados a uma maior hostilidade em relação ao Irã e a uma dependência ainda maior dos Estados Unidos. Mas a crise iraniana alterou permanentemente os cálculos de suas elites a respeito dos termos de seu acordo com os Estados Unidos como garantidor do comércio e da segurança regional.


Se a negligência dos Estados Unidos em relação aos seus aliados do Golfo é um indicador do declínio de sua influência hegemônica, o mesmo se aplica à sua relação sem precedentes com a elite de outro aliado do Oriente Médio: Israel. Lachmann identifica as relações entre as elites subimperiais e as elites do núcleo hegemônico como importantes fontes potenciais de desestabilização. Embora Israel não seja, de forma alguma, o aliado econômico ou militar mais essencial dos Estados Unidos, nossas elites governantes se integraram a um grau surpreendente. Em setores-chave do nosso complexo militar-industrial, como tecnologia, inteligência, policiamento, pesquisa universitária e fabricação de armas, grupos de elites israelenses e estadunidenses tornaram-se cada vez mais interligados. O governo Trump apresenta uma sobreposição ainda mais extrema do que qualquer governo anterior.

Comparar o período que antecedeu a Guerra do Iraque em 2003 com a atual guerra no Irã revela a degeneração da coordenação entre as elites lideradas pelos Estados Unidos. (Sargento Técnico John L. Houghton Jr./Força Aérea dos EUA)

O debate político nos EUA tem se acirrado recentemente em torno da questão da influência israelense sobre o Estado. Embora o lobby governamental pró-Israel, o sionismo cristão evangélico e o apoio tradicional de importantes instituições e líderes comunitários judaico-estadunidenses desempenhem claramente um papel na formulação da política dos EUA, o foco na direção dessa influência ignora o panorama geral. Devido à longa, duradoura e mútua relação entre os complexos militar-industriais das duas nações, segmentos-chave da classe dominante estadunidense entendem seus próprios interesses como intrinsecamente ligados aos das instituições militares, de inteligência e tecnológicas israelenses.

Infelizmente para a classe dominante estadunidense, à medida que Israel se torna cada vez mais um Estado pária no Oriente Médio, o profundo envolvimento de suas elites com os EUA restringe a capacidade estadunidense de agir de maneiras que beneficiem outras potências regionais. E aqui nos Estados Unidos, esse envolvimento israelense-estadunidense mina a confiança popular nas elites estatais, reduzindo ainda mais os recursos políticos disponíveis para elas.

O curioso declínio do poderio militar estadunidense

Apesar de toda a incoerência das elites estadunidenses, as forças armadas dos EUA continuam sendo a maior e mais tecnologicamente avançada força da história da humanidade. Por que, então, parecem incapazes de vencer guerras contra inimigos muito mais fracos?

Lachmann aponta para incentivos dentro das próprias forças armadas, em particular as estruturas de progressão na carreira e aposentadoria de oficiais. Ele fundamenta essa afirmação na observação, um tanto contraintuitiva, mas convincente, de que os oficiais militares dos EUA não comandam tropas primordialmente, mas sim sistemas de armas. A ascensão na cadeia de comando está intimamente ligada à capacidade dos oficiais ambiciosos de dominar o conhecimento de sistemas de armas caros, complexos e de alta tecnologia, e de pressionar por sua expansão e aumento de financiamento para esses equipamentos.

Isso proporciona uma carreira sólida e relativamente estável: esses sistemas tendem a permanecer em um mesmo local e geralmente não são usados ​​nas complexas e trabalhosas operações de contrainsurgência que se tornaram a principal tarefa das operações de combate estadunidenses desde o Vietnã. Após a aposentadoria, essa experiência e a comprovada habilidade burocrática se tornam um ativo lucrativo quando esses oficiais aceitam empregos ou prestam consultoria para as próprias empresas contratadas pelas forças armadas para fornecer esses sistemas. E, claro, essas mesmas empresas obtêm margens de lucro muito maiores com armamentos de alta tecnologia e que exigem grande investimento do que com armamentos mais simples e descartáveis.

Devido à forma como os altos escalões militares e os fabricantes de armamentos operam, os sistemas de armas adquiridos pelas Forças Armadas dos EUA tendem a não ser particularmente úteis para as guerras que os Estados Unidos de fato travam. Comentaristas da grande mídia estão corretos na avaliação comum de que os Estados Unidos estão imprudentemente preparados para travar uma guerra terrestre fictícia contra os soviéticos na Europa Central. Mas as razões para essa postura têm menos a ver com doutrinas ultrapassadas ou resquícios da ideologia da Guerra Fria e mais com as instituições e estruturas de incentivo para as elites militares, tanto na burocracia estatal quanto no setor privado. Dwight D. Eisenhower estava certo ao afirmar que o desenvolvimento de um complexo militar-industrial público-privado representava uma ameaça às nossas instituições democráticas, mas, ironicamente, também se tornou uma limitação crucial na capacidade das Forças Armadas estadunidenses de manter sua hegemonia global.

Apesar dessa disfunção, a guerra contra o Irã confirmou a capacidade do poder aéreo estadunidense (e israelense) de infligir danos massivos à infraestrutura militar e civil. Mas o uso exclusivo do poder aéreo enfrenta uma série de obstáculos. O Irã tem utilizado drones e mísseis balísticos de baixo custo, lançados de caminhões e lanchas rápidas e difíceis de abater, para retaliar bases estadunidenses e infraestrutura energética no Golfo. Embora os bombardeiros israelenses e estadunidenses possam dizimar bases militares iranianas fixas, a capacidade de Teerã de projetar poder no Golfo depende de tecnologias mais descartáveis ​​e móveis que evitem contramedidas aéreas.

Mesmo antes do surgimento de drones baratos, já havia um consenso acadêmico sobre as limitações políticas do poder aéreo. A obra de Robert Pape cataloga a taxa de fracasso de 100% das tentativas de mudança de regime apenas por meio do poder aéreo. Tropas terrestres são necessárias para esse tipo de operação e, apesar de sua aparente falta de noção, Trump está bem ciente das consequências políticas internas de uma guerra terrestre.

“A China é o único país com capacidade para disputar a posição de hegemonia global. Mas suas elites governantes parecem desinteressadas nessa tarefa.”

Podemos até zombar da denúncia de Pete Hegseth sobre um exército fraco e “politicamente correto”, que lembra as narrativas pós-derrota do tipo “eles não nos deixaram lutar”, propagadas pelos reacionários alemães após a Primeira Guerra Mundial ou pelos estadunidenses após o Vietnã. Mas a essência da verdade é que, com exceção da guerra total industrializada da Segunda Guerra Mundial, as forças armadas dos Estados Unidos jamais utilizaram toda a sua capacidade contra uma nação específica. Isso porque a guerra é fundamentalmente política.

As forças armadas dos Estados Unidos claramente possuem a capacidade técnica para incapacitar a infraestrutura de abastecimento de água, energia e transportes do Irã, o que, mais cedo ou mais tarde, resultaria no colapso da República Islâmica e da sociedade civil iraniana em geral. Mas quais objetivos isso alcançaria? Qual seria o impacto sobre os recursos e o pessoal dos EUA? Quais grupos da elite estadunidense se beneficiariam dessa situação? Como as elites da Europa e da Ásia poderiam ser convencidas de que tal ação promoveria seus interesses?

Donald Trump com Benjamin Netanyahu no Museu de Israel em Jerusalém, 23 de maio de 2017. (Embaixada dos EUA em Tel Aviv)

Essas são as questões que surgem quando pequenos grupos de elites estatais estadunidenses e israelenses — isolados não apenas das forças democráticas populares, mas até mesmo das forças de contrapeso dentro de Wall Street, da indústria petroquímica e das próprias burocracias militares e de inteligência — lançam ações militares massivamente destrutivas sem sequer fingir considerar os interesses dos centros de poder domésticos e regionais dos quais depende a influência global estadunidense.

As forças armadas dos Estados Unidos são uma força de alta tecnologia, dependente do poder aéreo, sobrecarregada com ativos de capital fixo vulneráveis ​​e caros em regiões perigosas, e vinculada a uma sociedade avessa a baixas, cuja população (e cada vez mais suas elites) tem pouca confiança nas instituições estatais para melhorar a vida interna ou externamente.

O mundo após a hegemonia estadunidense

O derramamento de sangue global e o autoritarismo da hegemonia dos EUA não são motivos para nostalgia. E mesmo em termos práticos, uma agenda para o renascimento da hegemonia estadunidense é letra morta. Mas isso não significa que os socialistas nos Estados Unidos e no exterior devam ser ingenuamente otimistas quanto ao fim da hegemonia estadunidense. O histórico do período pós-hegemônico, tanto para a antiga superpotência quanto para o resto do mundo, é de desigualdade e conflito.

No caso dos holandeses e, posteriormente, dos britânicos, Lachmann traça períodos pós-hegemônicos caracterizados por extensas temporadas de conflitos globais caleidoscópicos, ancorados por hegemonias em ascensão. Após o declínio da hegemonia holandesa, a Grã-Bretanha e a França se envolveram no que equivalia a um século de guerras que se estenderam por todos os continentes. A Guerra da Sucessão Austríaca, a Guerra dos Sete Anos e, por fim, as guerras da Revolução Francesa e de Napoleão resultaram em uma clara vitória britânica, em termos militares, mas ainda mais em termos comerciais. Após o declínio da hegemonia britânica no final do século XIX, foram as potências industriais emergentes dos Estados Unidos e da Alemanha que disputaram a hegemonia global. Os enormes conflitos globais da Primeira e da Segunda Guerra Mundial confirmaram os Estados Unidos como o principal coordenador da acumulação de capital global.

Este modelo apresenta relevância inegável para o momento atual, mas também algumas diferenças cruciais. Por um lado, a multipolaridade emergente certamente multiplica o risco de guerras abertas entre potências industrializadas que competem por esferas de influência regionais. Há também uma alta probabilidade de hegemonias regionais exercerem força bruta sobre Estados mais fracos dentro de suas esferas. Mas há também um ponto de virada fundamental em relação aos períodos não hegemônicos do passado: não existem hegemonias aspirantes disputando o poder.

A China é o único país com capacidade para disputar a posição de hegemonia global. Mas suas elites governantes parecem desinteressadas nessa tarefa.

Em primeiro lugar, a interdependência sem precedentes entre as economias chinesa e estadunidense, mesmo no contexto de sua crescente rivalidade estratégica, representa uma barreira bastante íngreme para um conflito aberto. Embora certas facções mais agressivas dentro do Exército de Libertação Popular possam se sentir encorajadas pela desastrosa guerra estadunidense no Irã, segmentos-chave das elites chinesas no partido-Estado e em grandes empresas aliadas parecem relutantes em tentar perturbar um sistema que facilitou sua ascensão histórica. Embora a China claramente queira consolidar sua posição como hegemonia no Leste Asiático e como um ator importante no comércio global, infraestrutura e tecnologia, isso está muito longe do tipo de hegemonia global exercida durante o meio século estadunidense.

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente chinês, Xi Jinping, em Pequim, maio de 2026. (Casa Branca/X)

Mais importante ainda, mesmo que as elites chinesas consigam expandir seu comércio global, infraestrutura e presença militar por meio da Nova Rota da Seda e iniciativas semelhantes, o sistema financeiro da China está mal equipado para coordenar o capitalismo global, um requisito fundamental para a hegemonia global. A liderança da República Popular da China considera seu sistema de controle de capitais, a gestão ativa do mercado de ações e a falta de livre conversibilidade da moeda chinesa como essenciais para a estabilidade política e econômica interna. No entanto, essas políticas tornam o sistema financeiro chinês incapaz de fornecer a liquidez e a flexibilidade necessárias para se tornar o guardião de uma moeda de reserva ou de um sistema bancário globais.

“A ausência de um sucessor plausível para a hegemonia estadunidense na esfera financeira significa que, ao menos num futuro próximo, as finanças dos EUA permanecem centrais para o capitalismo global.”

De fato, o valor das instituições financeiras estadunidenses para o capitalismo global inegavelmente se aprofundou nos últimos vinte anos. Tanto na crise financeira de 2008 quanto na de 2020, o Federal Reserve demonstrou seu papel central na coordenação e no fornecimento de liquidez ao sistema econômico global. Embora tenha havido alguma discussão sobre a guerra com o Irã e o sistema do “petrodólar”, os economistas políticos Stephen Maher e Scott Aquanno apontam que os fluxos globais de petróleo são cotados em dólares porque o dólar é a moeda mundial, e não o contrário. As elites estatais e corporativas ao redor do mundo ainda veem o Federal Reserve e o sistema do dólar como instituições que recompensam enormemente sua participação. A ausência de um sucessor plausível para a hegemonia estadunidense na esfera financeira significa que, ao menos num futuro próximo, as finanças ados EUA permanecem centrais para o capitalismo global.

No âmbito interno, o estudo de Lachmann sobre a Grã-Bretanha e a Holanda pós-hegemônicas não oferece nenhum motivo específico para otimismo. Imediatamente após perderem seu status, essas nações não se tornaram mais ricas e igualitárias. Mas também não oferecem fórmulas conclusivas para prever a trajetória dos Estados Unidos nas próximas décadas.

Embora a possibilidade de um nacionalismo catastrófico ainda mais arraigado seja certamente uma das principais apostas, a ampla oposição interna ao governo Trump — suas políticas econômicas, sua política externa, suas políticas de imigração — constitui um terreno político fértil. A agenda republicana é amplamente impopular entre a população estadunidense e, apesar dos altos e baixos dos recentes ciclos de luta, a esquerda dos EUA está em uma posição mais forte agora do que esteve nas últimas décadas.

Uma política que vincule a redução da presença militar estadunidense global a maiores investimentos em cooperação internacional, programas sociais internos e infraestrutura verde poderia consolidar um período de grandes mudanças na política dos Estados Unidos. Se os movimentos nas ruas, nos locais de trabalho e nas urnas impulsionarem os EUA rumo a um futuro político menos belicista, mais social-democrata e mais inclusivo, poderemos desempenhar um papel mais construtivo na comunidade internacional.

O caminho para um futuro global democrático e socialista é árduo, mas se as políticas progressistas e da classe trabalhadora conseguirem conter nossas elites desonestas, os Estados Unidos pós-hegemônicos terão a chance de desempenhar um papel positivo nessa jornada.

Robbie Nelson

é membro da organização Socialistas Democráticos da América da cidade de Nova York (NYC-DSA).

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.