Translate

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Prolegómenos-ÉTICA-18

 

4 esquinas

  • Público - Edição Lisboa 29 Oct 2021
  • Por António Rodrigues Jornalista.

Antes, o trabalho era uma merda e era precário; agora ainda é mais - Anne Helen Petersen Jornalista norte-americana

https://i.prcdn.co/img?regionKey=FLYKquWGbt3NPvFEa21Vjw%3d%3d

Anne Helen Petersen Jornalista norte-americana

 

1.  Millennials Union

Os millennials foram o sonho do capitalismo. O seu discurso sem amarras, o seu individualismo e pouca crença nas lutas sociais, a sua vontade de não estabelecer vínculos fortes com as empresas, por mais que, tal como a Internet, estivesse assente numa ideia de liberdade, serviu de bandeja argumentos aos patrões para precarizar ainda mais a mão-de-obra, no sentido de nos tornar a todos numa espécie de apanhadores de tomate em Almería: contratados consoante as necessidades das empresas, por tempo determinado, sem vínculos e sujeitos à arbitrariedade de um custo do trabalho estabelecido por quem manda. Ou seja, se, “antes, o trabalho era uma merda e era precário; agora ainda é mais”, escreve Anne Helen Petersen. “Os millennials perceberam que as coisas podem mudar muito rapidamente, não importa quanto te esforçaste e se seguiste o caminho que devias, e serás substituído a não ser que venhas de uma família muito rica e poderosa”, afirma a jornalista em entrevista ao El País. A meritocracia morreu e por mais empenho nos estudos e no trabalho, não há nenhuma garantia de estabilidade, porque o sistema se transformou e deixou o elo mais fraco, que somos nós, numa posição de franca vulnerabilidade, condenados a um ciclo interminável de “auto-representação” para nos vendermos melhor no mercado de emprego. Ao mesmo tempo, esta descida aos infernos está a abrir os olhos a estes individualistas que achavam ter redefinido o trabalho e que agora voltam a olhar positivamente para as lutas sociais, para os direitos laborais e até, pasme-se, para essas instituições que vilipendiavam como símbolos do passado: os sindicatos. “Estamos a viver uma espécie de greve informal contra o trabalho”, refere a autora de Can’t Even: How Millennials Became The Burnout Generation.

2. Que é isso do descanso?

Viver cansa, mais agora em que a todas as horas há uma manhã de trabalho em qualquer lado e em que a sociedade transformou o direito a dormir oito horas de sono numa quase indulgência esquerdista. “Colonizar o tempo dedicado a dormir é a última fronteira do capitalismo”, refere Pablo Duarte na revista mexicana Gatopardo. E, nesse esforço exigido pelo mundo que nunca pára, cansa-se um planeta inteiro de gente. Os escapes, o ócio, a procrastinação tornam-se (in)actividades párias que, sublinham, em nada contribuem para a sociedade e devem ser reduzidas ao mínimo. A arte serve se se puder contabilizar, seja num investimento, seja no embelezar de um currículo. Tudo se instrumentaliza, o ar que respiramos, a roupa que vestimos, a comida que comemos. O que fazemos define-nos mais do que o que somos. O trabalho passa a ser um todo que se estende para além da jornada habitual até ocupar todos os outros espaços da existência humana. “Dizem que a nossa era é o século do trabalho. Na verdade, é o século do sofrimento, da miséria e da corrupção”, escreveu Paul Lafargue no seu O Direito à Preguiça. Era o século XIX, mas podia ser o século XXI. Ninguém melhor que os norte-americanos conseguiram transformar o trabalho em vida e as jornadas extenuantes de 16, 18 horas diárias numa questão de liberdade, a do trabalhador poder escolher ganhar mais dinheiro em troca do seu descanso. Mas enquanto um imigrante recém-chegado aos EUA nos anos 1940, 1950 se esgotava a trabalhar de sol a sol pelo sonho de ascender socialmente, mesmo que não ele, pelo menos os seus filhos, a quem poderia pagar os estudos, um trabalhador pobre de hoje arruína a saúde a trabalhar sem descanso apenas para poder sobreviver.

3.   Melhor o desemprego do que um mau trabalho

Volta e meia, mais volta do que meia, os filmes norte-americanos acabam a falar nos traumas familiares, normalmente sobre as famílias burguesas e os seus dramas existenciais ou, quase sempre como pano de fundo, nas exigidas classes mais pobres, obrigadas a acumular empregos mal pagos para alimentar a família e no impacto que essas jornadas intermináveis de labor tem no crescimento sozinho dos filhos.

Empregadas de mesa sem ordenado, obrigadas a viver das gorjetas; salários à hora completamente inadequados para o custo dos serviços básicos, como renda de casa e alimento; empresas que impõem longas jornadas por pouca jorna; fábricas que ignoram as mais elementares regras de tratamento humano. Mas o clima parece estar a mudar, em Agosto, um número recorde de pessoas, 4,3 milhões, demitiu-se do emprego, de acordo com o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos, e dez milhões de postos de trabalho ficaram vagos por não haver ninguém a concorrer. Como escreveu Farhad Manjoo, na segunda-feira no New York Times, esta atitude que está a deixar desconcertados os patrões, habituados a que os trabalhadores marchem sempre ao toque de caixa das empresas, a explicação para o fenómeno pode estar numa mudança de atitude “muito pouco norte-americana: que a nossa sociedade está demasiado obcecada com o trabalho, que o emprego não é a única forma de dar significado à vida e que, às vezes, não ter trabalho é melhor que ter um mau”.

4. A importância de um bom pequeno-almoço

Os trabalhadores de fábricas da Kellogg’s em quatro estados norte-americanos estão em greve contra o plano da empresa de redução de salários, corte nos benefícios e eliminação de postos de trabalho, com a transladação de instalações para o México e o Canadá. Além disso, a empresa que produz os mais famosos corn flakes para o pequeno-almoço decidiu adoptar uma política de salários para as novas contratações que provoca mal-estar, ao colocar lado a lado, nas mesmas funções, trabalhadores com ordenados diferentes. O plano pós-pandémico da empresa é a versão it’s nothing personal, it’s only business na sua versão empresarial mais gananciosa, porque estes trabalhadores são os mesmos que ajudaram a Kellogg’s a funcionar durante a pandemia e a obter lucros chorudos, parte deles distribuídos em forma de prémios aos quadros superiores. Não só a direcção executiva da empresa e o seu conselho de administração esqueceram os trabalhadores que chegaram a fazer jornadas de 16 horas diárias e de 85 horas semanais para que a Kellogg’s pudesse corresponder à procura do mercado, como agora os insultam com redução de salários ou despedimentos. Se muitas empresas já compreenderam a sua responsabilidade social e o tanto que há a ganhar num comportamento ético em relação aos seus trabalhadores, outras tantas, ou mais, continuam convencidas de que os pobres nasceram para ser explorados pelos ricos. O cartaz carregado por uma funcionária em greve dizia tudo: “Eu alimento as vossas famílias, mas não consigo alimentar a minha.”

 

 

...

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Um conceito ultrapassado, diz Harvey. Os exemplos que ele aqui dá são irrefutáveis. E a tese?A China vem baralhar as características do imperialismo segundo as traçou V.I.Lenine em 2017? 0

 

O imperialismo ainda é um conceito relevante?

Por David Harvey, transcrito e traduzido por Gabriel Oliveira

Transcrição das intervenções de David Harvey no debate “Imperialism: Is it still a relevant concept?”, realizado na New School for Social Research em 1 de Maio de 2017 quando do lançamento do livro A Theory of Imperialism, de Utsa Patnaik e Prabhat Patnaik. O debate também contou com a participação de Duncan Foley, Nancy Fraser e Prabhat Patnaik, além de ter sido mediado por Sanjay Reddy. O debate está disponível no youtube.

Não deixe de ver também o livro Introdução ao Imperialismo Tardio.

Minhas discordâncias com o livro de Utsa Patnaik e Prabhat Patnaik decorrem em parte do fato de que sou um geografo e, enquanto geógrafo, eu me interesso por onde as coisas acontecem, para onde as coisas vão, e os fluxos e movimentos intrincados do capital no e ao redor do mundo. Quando eu ministrava um curso de geografia para graduandos, costumava iniciar as aulas com a pergunta “De onde vem o seu café da manhã?”. Depois de uns três dias fazendo isso os estudantes se aborreciam e respondiam: “Eu não tomei café da manhã hoje!”. E este era precisamente meu ponto. Eles iriam passar fome sem a rede de todos os tipos de fluxos vindos do mundo inteiro, milhões de pessoas envolvidas somente em colocar algo como um café da manhã na sua mesa. Portanto, de onde vem e para onde vai são perguntas extremamente importantes, e considero que o livro dos Patnaik é muito impreciso em respondê-las. Seu conteúdo é muito vago, muito geral, e não faz, a meu ver, as perguntas específicas sobre onde as coisas acontecem. Só para dar um exemplo, um dos maiores produtores e exportadores de grãos no mundo são os Estados Unidos, onde o agronegócio é fortemente subsidiado. Os principais exportadores de algodão do mundo são os Estados Unidos, e tudo bem enfatizar a importância de regiões tropicais e subtropicais para a produção de certos bens, uma parte dos Estados Unidos está na região subtropical, tanto que o país exporta suco de laranja. Frente a isso, me parece que não se pode tomar uma determinada atividade como a produção de grãos, isolá-la de todo o resto e dizer que é só em torno dela que o imperialismo se processa. Claro que existem diferentes tipos de grãos. Não sei se soja é um grão, mas a maior parte da América Latina foi transformada, em mais ou menos quinze anos, numa vasta plantação de soja. Mas para quem ela está sendo produzida? Não para os Estados Unidos, já que os Estados Unidos exportam soja. Quem está ficando com ela? A China. A China é o seu maior mercado consumidor. Podemos por isso dizer que a China é uma potência imperialista, já que está consumindo este tipo de mercadorias?

Penso que são essas as questões que imediatamente vêm à cabeça ao olharmos a geografia de onde algo é produzido e para onde ele vai. E é claro que as coisas se tornaram muito mais complicadas, e creio que devemos levar em conta essas complicações. E nisso eu também penso enquanto geógrafo. Se você ler a carta maravilhosa que Marx escreveu para Annenkov, acho que em 1847, verá que enquanto ele está comentando o livro de Proudhon ele demonstra, basicamente, que nós devemos sempre ajustar nossas categorias de acordo com as transformações históricas que estão se passando. Conforme muda a divisão do trabalho, conforme mudam as forças produtivas, as relações sociais e todo o restante, então temos de estar preparados para mudar o quê nós falamos. E um dos problemas que tenho com muitas pessoas na esquerda é que elas são muito relutantes para acompanhar de verdade essas mudanças.

Claro que o imperialismo era, obviamente, um termo relevante para apreender o que estava ocorrendo no século XIX. Ele persistiu posteriormente em uma forma diferente, mediado por legalidades e estruturas que começaram a emergir no final do século XIX. Depois de 1945 tivemos o período da descolonização, e na década de 1970, conforme muitas pessoas apontam, todas as coisas voltaram a se transformar novamente. Uma das grandes mudanças que ocorreram nos anos 1970 foi que você poderia construir um carro global, você poderia manufaturar o motor de um carro no Brasil, as calotas viriam do México e tudo poderia ser montado em Detroit. E atualmente vários processos produtivos funcionam exatamente assim. Além disso, se tornou cada vez mais evidente para mim que onde o valor é produzido não é necessariamente o mesmo lugar em que ele é realizado. Por exemplo, eu li no Financial Times que a taxa de lucro da Foxconn em Shenzhen é de 3% e a taxa de lucro da Apple pela venda de computadores é 28%. Esses computadores da Apple são vendidos nos EUA, portanto o valor produzido na China está sendo realizado nos EUA. Agora, claro que a Apple vai afirmar que ela atua no design e em outras funções, então de fato não é plenamente verdadeiro que todo o valor é produzido na China. Inclusive, se você olhar todos os microchips que estão no computador da Apple, verá que eles também não são produzidos em Shenzhen. Podemos perceber todo um conjunto de questões aqui, tais como onde e como o valor está sendo criado e onde ele está sendo apropriado. Essas são questões bastante complexas, e principalmente desde os anos 1970 se tornou cada vez mais difícil dar-lhes uma resposta precisa. Justamente por esse motivo eu me tornei cada vez mais inclinado à ideia de que não fazia mais sentido tentar enfiar tudo isso em algum conceito universal de imperialismo.

Não há dúvida de que o tempo todo ocorrem redistribuições do valor entre as diferentes regiões, mas elas são complicadas, demasiadamente complicadas. Nós devemos, portanto, elaborar uma nova forma de olhar para esses fluxos, e se simplesmente os enquadramos na camisa de força do conceito de imperialismo com certeza perdemos algo. Eu fui parcialmente convencido disso quando por volta de 1974 Giovanni Arrighi escreveu um livro chamado The geometry of imperialism. Seu título me fazia crer que era sobre imperialismo, e como eu sou um geógrafo, e geografia e geometria meio que caminham juntas, eu estava procurando por um grande esclarecimento sobre a questão, mas na verdade é basicamente um livro que diz que o conceito de imperialismo não funciona. Na verdade, o que precisa ser feito é olhar para as hegemonias mutáveis [shifiting hegemonies] do poder político e econômico, que são instáveis e que estão sempre se transformando. Elas estão em movimento constante, e enquadrá-las como algum tipo de barreira estrutural fixa é, na verdade, um equívoco. O que Giovanni diz é que devemos observar essas hegemonias mutáveis, e assim olhar para quem é o poder hegemônico corrente. Ele não negou na época que os Estados Unidos podiam fazer a reivindicação de sê-lo com bastante justiça, mas será que eles continuam hegemônicos? Deixe-me lhes contar uma coisa que li outro dia e que me surpreendeu bastante. Descobri que, em 2008, quando o Lemon Brothers entrou em falência e pegou de surpresa os Estados Unidos, e de novo minha fonte é o Financial Times, ótimo jornal, o único que do meu ponto de vista vale a pena ler, eu descobri que os Estados Unidos estavam extremamente relutantes em deixar o AIG, o Fannie Mae e o Fraddie Mac entrarem em bancarrota porque isso acabaria destruindo todo o investimento chinês nos EUA, e os chineses ficariam no mínimo furiosos, e isso seria um tremendo desastre para os EUA naquele momento. Está se tornando cada vez mais evidente a partir dos vazamentos de informações que estão vindo de todos os lugares que naquela época a Rússia propôs à China que eles fizessem uma venda rápida de todos os seus ativos que estavam nessas instituições e quebrassem todo o sistema financeiro global. E, sem dúvidas, era isso mesmo que teria acontecido. China e Rússia possuíam 50% do capital dessas instituições. Se incluirmos o Japão, vai para 60 ou 70¨%. Mas enquanto a Rússia estava negociando, os chineses recusaram. Bem, esse é um momento que você se pergunta se o conceito de imperialismo ajuda a entender esse episódio. E ele não ajuda. Mas o conceito de disputas hegemônicas, aí sim, é disto que se trata.

Quem é hegemônico, o que é o dinheiro mundial nos dias de hoje? Essa é uma questão central. Nos parece que o dólar continua a ocupar esse papel, mas outros tipos de elementos como as cestas de moedas e o problema do endividamento global estão se tornando cada vez mais interessantes. O FMI um dia desses fez as contas sobre a dívida global e descobriu que ela se encontra em torno de 225% do PIB global. 225%. Se você dissesse isso quarenta anos atrás, a maioria das pessoas iria dizer “Meu Deus do Céu, é o fim do mundo!”. Mas hoje o FMI publica essa informação e todo mundo pensa “bem, é 225% do PIB global, fazer o quê?”. Se vinte anos atrás alguma nação tivesse chegado nessa situação, o FMI iria lá e imediatamente a obrigaria a fazer um programa de ajuste estrutural, e mesmo se você protestasse contra, eles responderiam que era a única coisa que poderia ser feita. Me parece fundamental analisar e tentar responder questões tão importantes como essas e outras tipo quem está pegando emprestado de quem, quem está carregando a dívida, onde estão os seus detentores e o que eles estão fazendo. E eu não acho que o conceito de imperialismo particularmente útil para essas situações, e a partir dos anos 1970 eu comecei a trabalhar com outros conceitos.

Marx nunca, até onde eu sei, usou o conceito de imperialismo. Ele certamente falou sobre colonialismo, mas imperialismo foi essencialmente a grande contribuição teórica de Lênin. Entretanto, Marx tinha coisas muito interessantes a dizer sobre as relações entre os diferentes espaços e as redistribuições que poderiam ocorrer. Uma dessas coisas interessantes que Marx disse sobre redistribuição é que a equalização da taxa de lucro redistribui valor de setores intensivos em trabalho para setores intensivos em capital, levando a cabo, portanto, transferências de valor. Em certo momento Marx também reconhece que isso seria verdade para as relações entre as diferentes nações. Assim, uma nação com uma estrutura produtiva altamente intensiva em trabalho iria na verdade favorecer ou subsidiar uma nação com uma estrutura intensiva em capital. A lei de tendência à nivelação da taxa de lucro é chamada no terceiro volume de O capital de “o comunismo do sistema capitalista”, onde vale “de cada capitalista de acordo com o trabalho que emprega e para cada capitalista de acordo com o capital que ele investe”. Penso que isso também se aplica internacionalmente. Marx analisou isso em algumas passagens e nas Teorias da mais-valia, onde ele afirma que essas redistribuições estão ocorrendo, mas adverte que “não se engane de que se trata de um fenômeno entre nações. É a classe capitalista que se apropria de tudo, portanto as redistribuições se direcionam para a classe capitalista e não para os povos. Quando Trump retirou os EUA da Parceria Transpacífica, você poderia dizer que isso foi o correto a se fazer, que aquele acordo não necessariamente interessava à classe trabalhadora desse país. Mas o acordo certamente interessava aos capitalistas. O fundamento do NAFTA é o mesmo. Não foi por acidente que quando o NAFTA foi firmado não tinham representantes da classe trabalhadora na sala de negociação, justamente porque todos os benefícios do NAFTA iriam para a classe capitalista. A classe trabalhadora foi lesada, e nós estamos vendo hoje algumas das consequências disso.

Essas transferências ocorrem a todo tempo, e nelas encontramos uma configuração muito interessante, que está aparecendo em todo o mundo. Por exemplo, na Alemanha a matriz de uma companhia pode estar em Munique, enquanto a produção se localiza na Polônia. Nos EUA, a companhia pode estar baseada em Atlanta ou Dallas, e a produção ocorre no México, em Monterrey. Hoje, temos a tecnologia que nos permite controlar a partir de Dallas ou Munique uma linha de produção em Monterrey. Essas são revoluções tecnológicas, o tipo de coisa para o qual Marx chamou atenção em 1847, e que segundo ele promove mudanças reais significativas, e que não permite a utilização eterna das mesmas velhas categoriais. Essas são as novas formas da produção, e hoje grande parte da organização do capitalismo é transfronteiras. O NAFTA é um exemplo muito bom disso, e podemos daí nos perguntar sobre a formação da União Europeia, quem se beneficiou dela? Claramente foi a Alemanha, você responderia. Mas não, a classe trabalhadora alemã não se beneficiou em nada, já as corporações alemãs sim. E este é o ponto. Essas mudanças funcionam em favor de uma classe específica. E se olhamos para essa dinâmica e seu funcionamento interno, eu simplesmente não acho a categoria imperialismo tão convincente. Isso pode parecer estranho porque eu escrevi um livro em 2003 intitulado O Novo Imperialismo. A questão na época era que os neoconservadores estavam afirmando que “precisávamos ser imperialistas”, ou seja, existia uma tentativa ideológica de defender o imperialismo como o papel adequado dos Estados Unidos. Demorou todo o desastre que aconteceu no Iraque para que pensassem “bem, talvez seja melhor voltar atrás”. Mas na época, era exatamente sobre essa apologia do imperialismo que o livro tratava, e, tal como quando Arrighi escreveu seu livro sobre a geometria do imperialismo, não era em favor do conceito de imperialismo mas uma crítica dessa ideologia. Portanto, o Novo Imperialismo foi uma tentativa de dizer que a ideologia do imperialismo se tornou muito poderosa e potente nos Estados Unidos, e que precisámos de outra coisa.

Um último ponto. Eu penso que todo o tipo de coisas estão acontecendo nos diferentes lugares do mundo. Voltando para as regiões tropicais, por exemplo. Não acho que seja acidente que por volta de 80% das Zonas Econômicas Especiais estejam nos trópicos. Os trópicos são uma reserva de força de trabalho, e isso se aproxima de algumas das coisas sobre as quais Nancy Fraser está falando, que nessas regiões o custo da reprodução social e tudo o mais é menor e pode ser reprimido, que o valor da força de trabalho é menor, e que essas relações articulam atividades produtivas em várias partes do mundo. Os trópicos funcionam como uma reserva de quase tudo, inclusive reserva de força de trabalho, e como tal está eles estão sendo explorados. Somente faço um apelo para a utilização de instrumentos de análise mais sofisticados sobre como funcionam essas geografias, como e quando os países exportam seus capitais excedentes, e que tipo de coisa esses capitais fazem. E podemos rastrear cada país. O Japão produziu capitais excedentes nos anos 1960, e começou a exportá-los para o redor do mundo. Eles compraram o Rockefeller Center, além de fazerem outras coisas burras, e perderam nisso um dinheiro pesado. No fim dos anos 1970, de repente o mundo foi inundado por capitais sul-coreanos. Taiwan em 1982 começa a fazer a mesma coisa. Olhei outro dia para o mapa do destino do investimento externo chinês em 2002. O mundo estava quase vazio, com uns poucos pontos aqui e ali. Olhando para onde vai o investimento externo hoje, você vê bolhas imensas por todo o lado. Há um fluxo enorme de capitais chineses. A China é por isso uma potência imperialista? Não! Ela está simplesmente se engajando no que chamo de ajustes espaciais [spatial fix] – é um problema de sobreacumulação de capital. Ela está com capacidade ociosa na produção de aço. O que fazer, então? Ela resolve propondo a nova rota da seda, ela fabrica o aço e com ele constrói novas ferrovias que saem da China, passam por Istambul e chegam na Europa. A China está construindo linhas de trem no leste da África. Está construindo grandes projetos na América Latina. Ela acumulou excedentes de dinheiro e capacidade ociosa na produção de aço, e o que ela faz? Ela empresta dinheiro para o Equador, que o Equador usa para comprar o aço e construir plantas hidroelétricas. É isso que ela faz. Essas são práticas antigas e que ainda persistem, mas devemos encontrar uma nova linguagem para falar sobre elas. Ou, se mantivermos o conceito de imperialismo, devemos pelo menos reconhecer que ele é mais uma metáfora do que algo real. Muito obrigado.

***

Se você começa a se perguntar quem está fazendo o quê e onde, por exemplo, se você está interessado em extrativismo na América Latina, você logo descobre que os canadenses estão metidos nisso. Se você pesquisar quem são os principais operadores no cinturão do cobre da Zâmbia, das duas maiores corporações, uma é indiana, a outra é chinesa. Daí podemos falar em imperialismo indiano e imperialismo chinês, em imperialismo de Luxemburgo e tudo o mais? É por isso que o conceito de imperialismo usado desta maneira não faz sentido algum para mim. Claro que podemos aprender muito de várias práticas que foram descritas na análise do imperialismo do século XIX e XX e que ainda ocorrem, como por exemplo quando a Grã-Bretanha emprestou dinheiro para Argentina para a construção de ferrovias, que dinamizaram a demanda pelo aço britânico. A China está fazendo o mesmo com o Equador. Equador acabou ficando sem dinheiro e pegou emprestado, e com ele está construindo grandes plantas hidroelétricas com aço chinês, geradores chineses e tudo mais. Esse tipo de prática já ocorre há muito tempo, e pode-se dizer que ela é bem tradicional, mas de novo voltamos para o problema de quem possui os capitais excedentes e o que faz com eles. Imperialismo envolve, em geral, as relações entre Estados-nação, mas dificilmente se apreende as múltiplas redistribuições que ocorrem. Em outras palavras, devo dizer que estou também interessado no desenvolvimento geográfico desigual no interior dos Estados Unidos, por exemplo, ou na União Europeia e o desenvolvimento geográfico desigual entre a Grécia e a Alemanha, e as importantes transferências de valor implícitas. Iremos dizer que este é um arranjo imperialista? Não. É transferência de valor, e penso que transferências de valor entre diferentes regiões devem ser analisadas em termos de sua quantidade e sua escala. O ponto sobre a questão chinesa é sua escala massiva, interna e externamente. A China consome metade da produção mundial de cimento, metade da produção mundial de aço, mais da metade da produção mundial de cobre, quase metade da produção de todas as fontes minerais do mundo desde 2008. Você não consegue entender muita coisa do que está acontecendo no mundo sem olhar para essa demanda imensa, e já mencionei a demanda por soja e toda a revolução produtiva que lá está ocorrendo. Entre 2011 e 2013, a China consumiu 45% mais cimento que os Estados Unidos consumiram em cem anos. Este é o tipo de transformação extraordinária que está ocorrendo, e não considero que podemos simplesmente tentar enquadrá-la numa caixinha chamada imperialismo. Este é um tipo de transformação radical. A urbanização está se expandindo a uma taxa altíssima, tal como os fluxos de investimento entre as principais capitais.

Toda a cidade do mundo que vou tem amplos investimentos, mas em geral são em condomínios de luxo e carros espetaculares. Podemos nos perguntar o que está acontecendo, porque no mundo inteiro estamos construindo cidades para as pessoas investirem e não para as pessoas viverem. Nesta cidade que estamos [Nova Iorque], temos uma crise de habitações populares e a construção de vários condomínios de luxo. Tudo isso acontece ao mesmo tempo. Um ponto que você [Prabhat Patnaik] mencionou, que penso ser muito importante mas que, se permite, acho que você analisou de forma equivocada, é a destruição da base material da vida camponesa, que está acontecendo não só na Índia, como no Brasil, em todo o continente Africano, em todo o mundo. É um processo fundamental, e se você tivesse escrito só sobre ele, tudo bem, sem problema algum. O problema aparece quando você aprisiona praticamente tudo neste conceito de imperialismo, é isso que não funciona para mim.

 Por Florestan Fernandes*  Lênin nunca procurou afirmar-se como cientista social (e tampouco, em sentido mais amplo, como scholar, um erudito). Sempre realizou as suas investigações e análises tendo em mente os objetivos cognitivos e práticos do socialismo revolucionário.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Prolegómenos-ÉTICA-17

 1. São minorias que desencadeiam grandes revoltas. Em muitos exemplos são minorias espontâneas, independentemente de existirem ou não organizações políticas criadas para desencadear as revoluções. Sempre minorias, incluindo nelas essas organizações. Nas noites febris da Grande Revolução Francesa foram mulheres, que não tinham que dar de comer aos filhos, que impeliram os homens. Das minorias que fizeram a pequena e a grande história sobressaem os líderes (aqui as designações variam conforma o tipo de liderança), que para o filósofo Hegel encarnavam a Consciência da Época. Podiam ser grandes patifes, porém o resultado dos seus actos era histórico. Alexandre Magno ou Napoleão. É difícil resistir à tentação de ver nestas ideias de Hegel uma justificação das patifarias e um engrandecimento idealista dos resultados. O Código Civil de Napoleão parece justificar a mortandade que ele provocou entre os franceses que o seguiram. E o império britânico não teria sido o resultado principal?

2. Não podemos julgar o passado com critérios éticos do presente. Parece indiscutível supondo um passado com mil anos de afastamento relativamente aos valores do nosso presente. Mas, então, é difícil avaliar o "peso" do passado. Fazemos apenas arqueologia. E isto basta? Não há possibilidade de referentes, padrões, modelos de comparação, critérios que representem o universal e o que poderíamos classificar, no mínimo, como melhorias para as maiorias?

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Este artigo de opinião sai fora da série que estou a publicar aqui. Não resisto, porém, pois o que faça lembrar o Eça das Farpas, ou o Fialho, é sempre bom.

 

Miguel Sousa Tavares in Expresso, 18.05.2019

 

Joe Berardo não é um chico-esperto em terra de saloios, ao contrário daquilo que ostensivamente julga. Mas também não é a ovelha negra num rebanho de gente séria. Berardo é o saloio num palco de saloios, onde aventureiros morais como ele são tratados como empresários, venerados como mecenas das artes e distinguidos como comendadores da nação. O seu feito, ao ter conseguido tudo isso e ainda devolver os mimos com que foi tratado com aquele riso alarve de quem acredita que nos comeu a todos por parvos, não é de grande monta. Foi só uma questão de estar no lugar certo no momento certo e no meio da gente certa. Hoje, quando ele (e seguramente orgulhoso) foi erigido ao estatuto de bandido-modelo da nação, o que importa questionar é o tipo de clube-nação que o permitiu.

 

O comendador, condecorado por dois Presidentes da República pelo seu mérito empresarial ou pelo contributo para a riqueza do país, jamais foi empresário de coisa alguma e jamais acrescentou um euro à riqueza colectiva. Foi sempre e apenas um especulador financeiro em benefício próprio exclusivo, que nunca criou uma empresa, uma chafarica, um posto de trabalho. Tudo isso era sabido desde sempre e foi, sabendo-o, que Eanes e Sampaio lhe puseram ao peito dois símbolos do reconhecimento pátrio - em nosso nome. Mas hoje, erigido em símbolo das malfeitorias e padroeiro dos caloteiros, e à beira de perder o seu tão estimado título de comendador, Berardo pode dizer que nem ele está só nem Eanes e Sampaio estão sós. Metade, seguramente, da lista destes supostos heróis da pátria, feitos comendadores por todos os Presidentes sem excepção, são gente que de modo algum se recomenda. Metade deles foi distinguida pelos mais inconfessáveis motivos: compadrio pessoal, compadrio político, compadrio financeiro, compadrio maçónico, cunhas e pagamento de dívidas. Os membros do “Clube da República”, como um dia aqui lhe chamei, dedicaram-se ao longo de décadas a nomearem-se uns aos outros para os lugares mais apetecíveis do Estado, a financiarem-se uns aos outros, a cobrirem-se uns aos outros, a negociarem uns com os outros, a criarem um sistema cruzado de impunidades e irresponsabilidades e, para finalmente enganarem os tolos, a elogiarem-se e distinguirem-se uns aos outros. No final do processo, os Presidentes da República, levados ao engano ou incapazes de resistir às pressões dos amigos do “Clube da República”, enfiaram-lhes no peito uma certidão de cidadãos exemplares, funcionando como uma espécie de indulgência plenária para eventuais malfeitorias, passadas ou futuras.

 

No caso de Berardo, o cúmulo do ambiente de saloíce geral que sempre o rodeou e cortejou foi a história da Colecção Berardo. A dita Colecção (e isto é, obviamente, apenas a minha opinião) não tem qualquer valor representativo da arte moderna. Precisamente porque ele não é um coleccionador, mas sim um empilhador de arte, o seu acervo não reflecte qualquer critério de gosto, de conhecimento ou mesmo de paixão pela arte. Mas o homem soube rodear-se de quem, devidamente contratado para tal, tratou de criar uma aura de excelência em volta da colecção que, por simples temor intelectual, ninguém se atreveu a pôr em causa. E foi assim que ele conseguiu a proeza de resolver o seu problema particular de onde guardar aquilo, à custa de todos nós. Num contrato negociado directamente entre o assessor cultural do primeiro-ministro de então, José Sócrates, e o conselheiro de arte e avençado de Berardo - (que, por incrível coincidência, eram uma e a mesma pessoa) - o “mecenas” da arte moderna portuguesa sacou nada menos do que de toda a área de exposição do CCB para guardar e expor a sua colecção sem quaisquer custos. E ainda lhe fez chamar Museu/Colecção Berardo, com entradas gratuitas, de modo a poder dizer que era o mais visitado museu português. E de novo todos se calaram, no terror de atrair sobre si a ira e o desprezo dos ditadorezinhos da nossa “crítica de arte”. Todos, incluindo o director do CCB, talvez também aliviado por não ter de se preocupar mais com a ocupação daquele espaço. E foi assim que o CCB - o mais caro equipamento cultural que alguma vez pagámos - nunca mais viu uma exposição, hipotecado que está há dez anos a servir de arrecadação e promoção pessoal do comendador. E por ali têm desfilado todos os notáveis da pátria, em ocasiões festivas de homenagem ao “mecenas”.

 

Nunca gostei de bater em quem está em baixo, mas há aqui razões para uma excepção: primeiro, porque muito disto já o tinha escrito quando ele estava em cima e, depois, porque Berardo não está em baixo: está em cima de uma dívida de 1000 milhões, que, deliberadamente e de má-fé, tornou incobrável, pavoneando-se ainda orgulhoso da sua espertice. Claro que tudo isto seria diferente se o homem tivesse o mínimo de vergonha e decoro. Se, para ele, ser apontado na rua como o rei dos caloteiros lhe causasse algum incómodo. Mas esta é a mesma pessoa que há anos enfrenta os condóminos do seu prédio e as sentenças dos tribunais, recusando-se a derrubar uma casa-de-banho clandestina que ergueu no topo do prédio, com vista de rio, invocando, sem pudor, o princípio constitucional de que “todos têm direito a uma habitação condigna”. Habitação de que, aliás, garante ser apenas arrendatário, pois que nada tem de seu, nem sequer um euro de dívidas ou até a mítica Quinta da Bacalhôa, construída pelo filho de Afonso de Albuquerque e que o Estado Português deixou ir à praça sem comprar, para acabar nas mãos deste benemérito, que logo a fez rodear de muros e cercas, como se fosse seu dono - o que, como garante, também não é. Mas Berardo é o que é e que todo o país teve ocasião de ficar a conhecer agora mais intimamente. Não se lhe pode exigir mais do que aquilo para que nasceu e de que não se envergonha, antes pelo contrário.

 

Os responsáveis maiores, os que não têm perdão, são os que o financiaram para assaltar o BCP, sobretudo os que o fizeram com o dinheiro dos contribuintes. Os que lhe deram o CCB como arrecadação privada. Os que o cortejaram, privilegiaram, promoveram e distinguiram. E os que o ajudaram, num longo, sinuoso e degradante processo de calotice transformado em forma de vida. E é o espírito do tempo de um país onde somos muito rápidos a fuzilar os poderosos e ricos que caem em desgraça, mas jamais questionamos a origem do seu dinheiro e do seu poder enquanto eles estão na mó de cima. Um país onde paga mais imposto quem vive exclusivamente do seu trabalho do que quem vive da especulação. Onde tantas empresas, tantos negócios e tantas fortunas não existiriam sem o favor do Estado, o dinheiro do Estado, as dívidas ao Estado. Um país onde quem esconde milhões lá fora para fugir ao fisco recebe, em o vento estando de feição, um atestado de cidadão cumpridor se trouxer o dinheiro de volta, pagando apenas 7,5% de IRS. O tal país do “Clube da República” onde se perdeu, simplesmente, o conceito de honra e a noção de vergonha. O país reflectido naquela inesquecível gargalhada com que ele nos contempla: “Ah, ah, ah!”.

O país dos Berardos.

domingo, 17 de outubro de 2021

ENRIQUE DUSSEL

 Wook.pt - 14 Tesis De Etica  Wook.pt - Siete Ensayos De Filosofía De La Liberación

 

"O povo apenas transfere livremente para o rei o poder que não domina totalmente". Spinoza

O Marx de Enrique Dussel

Por ANTONINO INFRANCA*

Considerações sobre a profundidade da interpretação da obra de Marx, feita a partir da perspectiva do Terceiro Mundo

Enrique Dussel é considerado o maior conhecedor de Marx no mundo, embora venha do assim-chamado “Terceiro Mundo”; sua leitura vem, em particular, da América Latina, que historicamente foi a primeira vítima do capitalismo, aliás, pode-se afirmar que sem a conquista da América Latina o capitalismo não poderia ter nascido, porque essa conquista ofereceu a quantidade de metais preciosos para desencadear o mecanismo de acumulação primitiva do capital, para usar a terminologia de Marx.

Para compreender a Modernidade é necessário, portanto, partir da condição de vítima da América Latina. Será, então, uma leitura não eurocêntrica, porque é conduzida pela exterioridade do Primeiro Mundo que, com a queda do socialismo, decretou a morte do marxismo. Mas Dussel faz uma simples observação: o socialismo entrou em colapso na Europa, não no Terceiro Mundo, ou seja, em Cuba, na China, no Vietnã, logo, na periferia. Além disso, os estudos marxistas na América Latina estão em grande desenvolvimento e Dussel é o líder desse desenvolvimento, quer dizer, atrás dele o pensamento crítico avança e o marxismo contribui para o trabalho de descolonização da filosofia, um tema que tem pouquíssima repercussão na Europa.

O outro motivo decisivo é a maneira que Dussel conduz sua leitura de Marx; sua leitura é conduzida no estilo dos intérpretes escolásticos de Aristóteles, em outras palavras, linha a linha. Por várias vezes Dussel afirma que ninguém antes dele realizou uma leitura tão detalhada de todos os textos do filósofo alemão, inclusive os inéditos, que Dussel leu nos arquivos de Amsterdã e de Moscou. A descoberta mais interessante que Dussel fez é que Marx reescreveu O Capital quatro vezes e, em cada reescrita, sempre surgem novidades fundamentais na sua obra de crítica da economia política. É sugestivo poder reler Marx à maneira de Dussel, porque o trabalho crítico do filósofo alemão torna-se um work in progress, uma espécie de descrição crítica da essência do modo de apropriação capitalista. Essa descrição torna-se uma crítica, porque não esconde a verdade histórica do modo de apropriação capitalista que é feito de injustiça e de morte.

Dussel definiu Marx como “um filósofo do século XXI”, porque pelo menos 50% de seus textos ainda são inéditos. O resultado dessa leitura é a reproposta de um Marx totalmente original, por ser autêntico e desprovido das incrustações ideológicas ou epistemológicas que o distanciaram da autenticidade dos textos. Assim, cai o Marx dos manuais soviéticos de economia política, que eram considerados verdadeiros manuais dogmáticos a serem seguidos literalmente, enquanto a carta de Marx conduzia em direções exatamente opostas.

Dussel indica o ponto crucial em que o Marx dos soviéticos não corresponde ao Marx autêntico, que não condenava o mercado em sua totalidade, mas sustentava que a produção das mercadorias deve estar ligada ao consumo, à troca e à distribuição, não era possível decidir de cima o que se deveria consumir e, portanto, o que trocar e distribuir, mas consumo, troca e distribuição devem ser planejados “de baixo” – a partir das necessidades vitais da sociedade civil.

Além disso, Marx não falou de “modos de produção”, mas de “modos de apropriação”, isto é, do mundo em que um sistema econômico, como o capitalismo ou o feudalismo e assim por diante, se apropria da fonte criativa do valor, isto é, o trabalho vivo, a subjetividade que trabalha. A história, então, não é história dos modos de produção, mas dos modos de apropriação do trabalho e da subjetividade do trabalhador pelo sistema dominante de cada época. Segundo Dussel, a crítica de Marx parte justamente da subjetividade do trabalhador, de sua corporeidade e, portanto, desenvolve uma crítica econômica material.

Um aspecto de Marx sobre o qual Dussel se debruça é a oposição entre trabalho social e comunitário. Social é o trabalho de um indivíduo que se dirige ao mercado social e é dirigido de fora, ou seja, por um administrador que não trabalha com ele, enquanto comunitário é o trabalho de toda uma comunidade, não apenas trabalho solidário, mas coletivo, como é típico das sociedades pré-capitalistas, especialmente da América Latina. O capitalismo impõe o trabalho social e o socialismo seria o estágio em que o trabalho comunitário é submetido ao controle dos indivíduos livres, associados enquanto possuidores em comum dos meios de produção. Desse modo, os produtores decidem as formas do processamento em comum e, então, da produção, sem qualquer controle externo ao âmbito do trabalho. Pode-se, portanto, notar como o socialismo alcançado esteve longe das ideias de Marx, embora não tenham dado amplas indicações, mas apenas princípios reguladores a serem respeitados na construção do socialismo.

O outro aspecto da autenticidade de Marx, que foi negada de várias maneiras tanto pelos manuais soviéticos quanto pelos brilhantes filósofos ocidentais, é sua relação muito próxima com Hegel. De fato, muitas vezes nas conferências que compõem este livro, Dussel insiste na relação Hegel-Marx, no uso que Marx faz das categorias, do léxico e do método hegelianos. No modo de apropriação capitalista, um papel central é desempenhado pela negação, assim como na dialética hegeliana. A relação entre produção e consumo também é dialética: na origem existe uma necessidade vital do ser humano, que produz o material que permite a satisfação dessa necessidade. É, portanto, uma determinação vital na origem da produção do trabalho e o consumo é a negação da necessidade, satisfazendo-a. Dussel lembra que as determinações de Marx são sempre materiais, derrubando as hegelianas que eram ideais.

Dussel sustenta que Marx derrubou o método hegeliano, colocando o não-ser no início do ser e tornando-o o núcleo racional de sua análise crítica. De fato, ao contrário de Hegel, Marx pensa que o não-ser é real, ou seja, o trabalho vivo, ou a capacidade de trabalho, é a fonte criativa do valor, não o seu fundamento, porque o fundamento é o ser, mas o trabalho vivo ainda não é capital, é força/trabalho que pertence ao ser humano, que se vê obrigado a vendê-la no mercado, porque é pobre e não tem meios de produção para reproduzir a própria vida. O trabalho vivo é o não-ser do capital.

A reprodução da vida do pobre é confiada ao trabalho, que é atividade vital; aliás, Dussel afirma que o trabalho é “atualidade da vida”. O dinheiro, que ainda não é capital, procura justamente o pobre para comprar sua força/trabalho. Mas o pobre com sua capacidade de trabalho é o não-ser do capital. Existe, portanto, um contrato entre dinheiro e trabalho, entre capital e pobre. O pobre é subsumido de fora do capital, dentro do modo de produção do capital; sua força/trabalho é apropriada pelo capital. Se não houvesse pobres, o capital e sua reprodução não poderiam existir. A pobreza é a vida do capital, porque quando o dinheiro coloca em contato força/trabalho, ferramentas de trabalho e matéria-prima, então pode nascer o valor, que é, portanto, um ser, um processo que nasce do não-ser do capital.

Valor é o não-ser da capacidade de trabalho, mas dela é criado. O capital se realiza na medida em que o trabalhador se desrealiza. O valor é a objetivação de trabalho, de vida humana e qualquer processo econômico é vida humana objetivada, ou seja, negada. Aqui está o ponto central das polêmicas que acompanham a releitura dusseliana de Marx: a vida! A vida é o princípio material fundamental de toda ética. A validade de uma norma ética se dá por sua capacidade de participar da reprodução da vida, se não participa da reprodução da vida não é válida.

Dussel foi acusado por todos os intérpretes althusserianos de Marx de ser um místico, porque ele constantemente leva adiante a presença do tema da vida nas obras econômicas de Marx. Mesmo na Itália essas polêmicas foram difundidas, embora em menor grau, porque os italianos, particularmente eurocêntricos, não se dedicam à leitura de autores da Periferia, esperam as instruções do Centro (Estados Unidos, Alemanha, França, Inglaterra), condenando-se, assim, a ser Periferia. De fato, é difícil para acadêmicos eurocêntricos aceitar que os termos teológicos, usados por Marx, com perfeita correspondência semântica, não sejam metáforas, mas a derivação de sua crítica da economia política da teologia judaico-cristã.

Na realidade, Dussel é o único caso de um grande pensador que com a queda do socialismo passou para o marxismo. Dussel pode dizer que não foi marxista até os 40 anos. Depois, ele descobriu os pobres da América Latina e tentou entender a origem dessa pobreza e só Marx lhe oferecia os instrumentos teóricos para a compreensão da realidade de sua terra. São instrumentos teóricos críticos, por isso são eficazes para entender a crescente pobreza na América Latina.

Um papel importante na releitura dos textos de Marx por Dussel é desempenhado pela Teoria da dependência. Trata-se de uma teoria nascida na América Latina, mas que hoje diz respeito a toda Periferia do mundo, aliás, diz respeito às relações totais entre o Centro e a Periferia. A Teoria da dependência descreve a transferência de valor da Periferia para o Centro, transferência que cria a dependência dos países periféricos em relação aos centrais. Uma empresa do Centro transfere parte de sua produção para um país periférico, atraída pelo baixo custo da mão de obra daquele país. Os salários pagos aos trabalhadores do país periférico são devolvidos em valor produzido nas mercadorias em menos tempo do que os trabalhadores da mesma empresa no país central. Assim, a empresa aumenta seu lucro.

O importante é realocar a produção para os países periféricos, pagando salários de países periféricos, mas vendendo as mercadorias pelo preço que têm no país central. Outra forma de transferência de valor é representada pelos empréstimos que o Centro concede à Periferia. No caso da América Latina, esses empréstimos foram inicialmente solicitados por ditaduras militares e, então, impostos pelo Centro. Hoje, os empréstimos são dentro das mesmas empresas entre a central e as periféricas. Outra forma de dependência é a tecnológica: o Centro exporta sua tecnologia para a Periferia ao preço do Centro. A Periferia necessita dessa tecnologia para poder produzir mercadorias que possam ser vendidas no Centro, ou seja, tenta competir com as indústrias do Centro.

Na verdade, está comprando as ferramentas de produção a preços altos e vendendo a baixo custo suas mercadorias, quer dizer, transfere valor, que é a vida objetivada, para o Centro. Está exportando vida, porque exporta valor e não pode acumular valor para melhorar as condições de vida de seus pobres. A Teoria da dependência explica, assim, o elevado número de pobres na América Latina ou na Periferia do mundo, onde os pobres são a esmagadora maioria dos seres humanos. Esses pobres nem mesmo são uma classe, porque não são subsumidos pelo capital no processo de produção, são povo, ou seja, têm a própria cultura tradicional, mas não têm os meios para reproduzir a própria vida, são marginalizados e excluídos do sistema capitalista dominante.

A Ética da Libertação de Dussel nasce da releitura de Marx, pode ser considerada, portanto, uma ética marxista. A de Dussel é um caminho paralelo ao de Lukács, o maior filósofo marxista do século XX. Lukács, além de apoiar a estreita relação entre Hegel e Marx, planejava escrever uma ética, mas sua morte impediu a realização dessa ética marxista, porém o século XX terminou justamente com uma ética marxista, a de Dussel, que é uma ética materialista, precisamente porque tem como princípio a vida material do ser humano e sua exploração pelo capital. Dussel argumenta que o uso da rate of explotation (taxa de exploração) por Marx é a revelação da existência de sua ética associada à sua crítica da economia política que, por sua vez, está associada a uma antropologia, uma consciência da exploração das capacidades vitais do ser humano.

O tema da vida é recorrente nas obras de Marx e Dussel, e pode ser retomado com uma leitura filologicamente correta. O trabalho vivo foi mencionado como fonte criativa de valor, então, o trabalho vivo é também fonte criadora de valores morais e é a isso que Lukács se referia nos esboços de sua ética. Segundo Dussel, Marx faz uma crítica ética do capitalismo, pois remete as categorias da economia à fonte criativa dela, que é o trabalho vivo, e não reconhece valor no capital, o qual não produz valor. A produção de valor é o trabalho vivo do ser humano. A moral capitalista, ao contrário, sustenta que o fundamento do valor é o capital e o ser humano é reduzido a coisa, a meio da produção do lucro.

Para Dussel, leitor atento de Marx, o trabalho vivo é antes de tudo o meio para a satisfação das necessidades do ser humano vivente, de todas as necessidades do ser humano, tanto materiais quanto espirituais. Mas todas as necessidades do ser humano são necessidades corporais e naturais, até as necessidades espirituais dizem respeito ao corpo do homem, porque o homem é naturalmente um animal espiritual. Não é possível ter uma vida espiritual digna se passar fome; aliás, a fome é a oposição entre corpo e espírito. Assim, o estranhamento da atividade espiritual do ser humano corresponde à alienação do trabalho vivo, da capacidade corpórea de trabalho do ser humano. As duas formas de desumanização estão intimamente ligadas e indissociáveis, pois corpo e espírito são inseparáveis no ser humano. Esse é o aspecto material da ética de Dussel, que ele apreende de Marx e dele retoma também o caráter universal dessa ética, porque Marx não elaborou uma teoria crítica válida apenas para a Europa, mas para toda a humanidade.

O marxismo de Dussel se baseia justamente na consciência que Marx tinha da preeminência da vida sobre a morte, da necessária reprodução do corpo e do espírito do ser humano. A fome e a pobreza são sofrimento. Marx estava ciente desse sofrimento, assim como o fundador do cristianismo, que era um ser humano que tinha medo da morte (Jesus no jardim Getsêmani), enquanto o fundador da civilização ocidental, Sócrates, não tinha medo da morte. Há, portanto, uma dialética vida/morte e, de fato, Marx capta essa dialética quando fala de trabalho vivo e capital morto. O capitalismo reproduz esse dualismo da civilização ocidental: a força/trabalho do trabalhador está dentro do sistema como a força reprodutiva do sistema, suas necessidades estão fora do sistema, elas só entram nele como fonte de consumo fetichista das mercadorias.

A análise crítica de Dussel parte de uma perspectiva externa ao sistema capitalista dominante, daquela exterioridade na qual ele insiste constantemente. É uma perspectiva presente para Marx, aliás, é a mesma que a de Marx, se tivermos em mente o fato de que Marx só pôde compreender totalmente o capitalismo mudando-se para a Inglaterra, isto é, em contato físico direto com a classe operária, a vítima do capitalismo. Do ponto de vista da exterioridade e da exclusão, Marx e Dussel – este como latino-americano – podem compreender a totalidade do sistema capitalista dominante. Dussel observa acertadamente que os intelectuais marxistas do Centro falaram de totalidade, mas cada totalidade impõe uma exclusão e, portanto, uma exterioridade, à qual se contrapor uma subsunção. Dussel usa sua própria tradução do termo alemão Aufhebung com subsunción, que traduzi literalmente como “subsunção”. Mas o sub da palavra espanhola não deve ser entendido apenas como “estar abaixo”, mas como “aquilo que surge de baixo e o constitui como parte”, como parte integrante e necessária para a constituição do sistema de dominação. De fato, o trabalho vivo é a exterioridade do capital e quando entra no sistema capitalista torna-se trabalho assalariado. As categorias econômicas se transformam na dependência de seu movimento em perfeita sintonia com o método dialético hegeliano.

O sistema capitalista dominante é substancialmente um sistema formal que, de fato, é baseado em preços e exclui o momento material da vida humana, e na qualidade de sistema formal é autorreferente. Não é por acaso que o neoliberalismo funda sua ideologia no mercado capitalista e não tem nenhuma postura crítica em relação a ele; aliás, o neoliberalismo preconiza uma consciência universal do mercado, que é,na verdade,uma abstração da vida real. O mercado universalizou o mundo, mas não universalizou a humanidade. O mercado capitalista está inserido entre o trabalho vivo do ser humano e a satisfação de suas necessidades, ou seja, a reprodução da vida. Na sociedade capitalista moderna, os meios para satisfazer as necessidades são encontrados apenas no mercado, e é precisamente nessa intermediação que ocorre a reificação das necessidades e a fetichização das mercadorias. O mercado é a determinação negativa da força/trabalho como atualidade da vida e a determinação vital da necessidade humana e sua substituição pelo consumo mercantilizante.

Quem não tem dinheiro para ir ao mercado satisfazer suas necessidades está fora do mercado, excluído dos meios de satisfazer as próprias necessidades, é um pobre marginalizado pela moderna sociedade capitalista. O grande problema da humanidade, hoje, é que a maioria da humanidade está excluída do mercado, porque não tem dinheiro. Vale lembrar que Dussel está falando para um público latino-americano, portanto composto por índios, negros, mulatos, mestiços, além de brancos crioulos, que buscam sair do estado de pobreza para colaborar para a melhoria de toda a sociedade civil latino-americana, como é tradição das sociedades latino-americanas, onde o pobre, quando não é completamente anulado pela fetichização das mercadorias e do dinheiro, sempre se coloca na perspectiva de colaborar com os outros para todos melhorarem juntos. Trata-se de um público que sabe o que significa ser pobre.

*Antonino Infranca é doutor em filosofia pela Academia Húngara de Ciências. Autor, entre outros livros, de Trabalho, indivíduo, história – o conceito de trabalho em Lukács (Boitempo).

Tradução: Juliana Hass.

 in A Terra é Redonda

Prolegómenos-ÉTICA-16

 

Quando o bolsonarismo encontra a extrema direita de Portugal

08/10/2021

Por
Carlos Hortmann

Apesar da derrota de Trump, a extrema direita global continua a se movimentar. Sob a mediação do Vox na Espanha, salazaristas ressurgem na cena internacional e começam a se aproximar da família Bolsonaro com graves consequências para os dois países.

Em declarações ao jornal Sputnik News, André Ventura fez questão de frisar a admiração que tem por Jair Bolsonaro, e revelou ainda que pretende ter um encontro com o seu filho Eduardo Bolsonaro. Foto de Tiago Miranda / Expresso.

Eduardo Bolsonaro – responsável pela articulação internacional do bolsonarismo com os partidos e movimentos da extrema-direita global – iria para Lisboa para o  encerramento da campanha das eleições municipais do último dia 26 de setembro, vencidas pela centro-esquerda

Eduardo, no entanto, testou positivo para a Covid-19 e não apareceu. O líder do Vox, partido reacionário de Espanha, Santiago Abascal também foi convidado a participar desse evento de campanha do partido protofascista português, Chega!, que tem na liderança André Ventura. Abascal esteve por lá.

Para além desse “apoio” internacional ao partido de extrema direita português, esse encontro foi costurado pela Fundação Disenso / Fórum de Madrid, que tem Abascal como um dos “patronos”, e tinha como objetivo publicizar a denominada “Carta de Madrid”, já assinada por Eduardo Bolsonaro e que também será por Ventura. É um manifesto sustentando em propagandas anticomunistas: “O avanço do comunismo representa uma séria ameaça à prosperidade e ao desenvolvimento de nossas nações, bem como às liberdades e direitos de nossos compatriotas”; por outro lado, postula “valores” essenciais do liberal-capitalismo, só que num verniz protofascista: “O Estado de direito, o império da lei, a separação de poderes, a liberdade de expressão e a propriedade privada são elementos essenciais que garantem o bom funcionamento das nossas sociedades”.

O Fórum e Carta de Madrid resulta de um esforço de segmentos da direita protofascista europeia, no sentido de alavancar um movimento internacionalista de extremistas de direita  para fortalecer os laços e “solidariedade” política entre eles. A derrota de Trump nos Estados Unidos serviu de alerta para a direita reacionária ocidental se reorganizar em termos geopolíticos, afinal, não há espaço de poder vazio na política.

Qual é o papel do bolsonarismo nessa reconfiguração e como isso vai além do próprio governo Bolsonaro?

A ascensão da extrema direita

Primeiramente, a importância geopolítica do Brasil no quadro da América Latina. Trata-se de um país continental em termos geográficos e populacionais, bem como no tamanho da sua economia. Ou seja, qualquer mudança político-social no Brasil acaba por influenciar o continente latino-americano como um todo. O fato de Jair Bolsonaro ter conseguido chegar ao poder central, num país com essas características, somado às relações pessoais que Eduardo Bolsonaro tem com Steve Bannon (o grande estrategista da extrema direita global), coloca o bolsonarismo, enquanto movimento político, no pelotão da frente dos reacionários no ocidente.    

Os movimentos protofascistas europeus procuram estabelecer com o bolsonarismo por entenderam que sem uma organização transnacional de apoio à “guerra cultural” promovida pelos mesmos, como um dos pilares na constituição no seu bloco social, não teriam sustentação ao longo do tempo. Alguns exemplos paradigmáticos revelam a pauta comum entre eles: discurso anti-imigração, islamofobia, racismo, a “defesa” de família tradicional e a luta contra “politicamente correto”.

Quando esses movimentos reacionários começam a ganhar forma organizada socialmente no ocidente nessa quadra histórica? Temos algumas pistas para essa pergunta incontornável para se entender a realidade de hoje. Desde o século XIX os movimentos migratórios ocorriam substancialmente da Europa para o restante do mundo, contudo, a partir dos anos 70-80 do século passado ocorre uma inversão, grandes massas de trabalhadores imigrantes rumaram ao capitalismo central-imperialista (Estados Unidos e Europa). A esmagadora maioria dessas pessoas que migraram ou se refugiaram, o fizeram (e ainda fazem) por causa de guerras imperialistas, como por exemplo, a farsa da “guerra ao terror” contra populações muçulmanas e islâmicas. 

Isso se junta à lógica liberal-imperialista-capitalista, que impõe aos países do Sul Global e periféricos uma condição de miséria, pobreza e pauperismo sistemático e estrutural, visto que é uma das formas de acumulação capitalista (transferência de valor). O neoliberalismo evidencia também o que István Mészáros sinalizou como “crise estrutural do capital, ou seja, para além das crises cíclicas ou conjunturais que constituem a natureza do modo de produção capitalista. Agora, as suas estruturas – e as formas de acumulação – também estão em crise num capitalismo cada vez mais mundializado e financerizado (valor que cria valor). Nos últimos tempos com o agudizar da crise climática começamos a observar um “novo” tipo de imigração: os refugiados climáticos.  

Na trilha desse contexto histórico-social, o sistema e o regime político liberal-capitalista não conseguem mediar as contradições candentes, ou seja, ele também está em crise. É aí que ele  recorre a face ainda mais autoritária do capitalismo: o fascismo. Nas bárbaras experiências históricas do nazi-fascismo do século XX, a crise econômica foi um elemento determinante na constituição da força social dos movimentos, partidos e dos governos nazista e fascista.

Uma das características dessa direita reacionária ou protofascista – para além do racismo e da anti-imigração, se apresentar como combatentes da corrupção, defensora da “cultural cristã-ocidental” e afins para se vestir com uma aparência de antissistema, como “os revolucionários conservadores. Por que essa tática política e de comunicação tem efeito ou resultado, no sentido de mobilizar segmentos da classe trabalhadora para o seu bloco social? Por quanto a crise estrutural capitalista torna-se cada dia mais destrutiva. 

Os trabalhadores se vêem cada vez mais sem condições mínimas para sobreviver e esta realidade que atingia substancialmente os países periféricos, entretanto, começa a afetar também a classe trabalhadora do capitalismo central (imperialista) – não como a mesma violência e pauperismo do Sul Global. O desemprego estrutural vem a ser ainda mais disciplinador para a classe que vive-do-trabalho. O medo e o desamparo são os afetos que operam de forma decisiva no seio do neoliberalismo, visto que são reais, pois o sofrimento torna-se também uma mercadoria para o capitalismo. O problema se torna maior ainda porque grande parte da esquerda foi colonizada pela ideologia liberal-capitalista e passou a ser uma defensora do sistema institucional. Já a direita reacionária se identificou nessa insatisfação real e objetiva: “contra tudo o que está aí”, uma tática política em que parecer ser antissistema e, somada à particularidades regionais, e um conservadorismo tacanho, potencializou um bloco social consolidado e “unificado”. 

O fascismo renasce em Portugal

Dentro desse quadro mais geral, a crise capitalista iniciada em 2007/08 nos Estados Unidos atingiu Portugal com força em 2011. Um conjunto de imposições da Troika, a junção da Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Central Europeu (BCE)  junto do governo neoliberal e pró-austeridade de Pedro Passos Coelho em Portugal promoveram um gigantesco empobrecimento da classe trabalhadora.

O partido Chega! (que já foi Basta!) desponta no espaço político-eleitoral português no ano de 2019, quando obteve 1,3% dos votos nas eleições legislativas, conseguindo eleger o seu primeiro deputado. Nas eleições presidenciais de janeiro deste ano, o seu líder Ventura, apoiado pelo Chega!, alcançou 11,90% dos votos e ficou em terceiro lugar. Nas eleições municipais de 26 de setembro do deste ano, o partido conseguiu eleger 19 vereadores em sete grandes municípios (distritos) – muito abaixo do esperado. 

Contudo, com dois anos participando na arena eleitoral, conseguiram apresentar mais força de enraizamento local do que partidos da esquerda portuguesa com mais de vinte anos. As forças antifascistas portugueses estão atentas, entretanto, há segmentos da esquerda que duvidam muito da real força fascista, pois existe uma forte memória histórica da Revolução dos Cravos e uma viva cultura-política da luta antifascista dos tenebrosos anos do salazarismo.  

Com muitos despejos, um movimento emigratório como só tinha acontecido no Estado fascista de Salazar, o sistema político entrando em crise, se verifica pelo aumento constante das abstenções e ainda três elementos cruciais para se entender a emergência de um movimento protofascista com amplitude no tecido social português: a) imigração; b) os ciganos; e c) aspectos da formação social portuguesas pós-Revolução de 25 de abril. 

O fator anti-imigração como um elemento mobilizador desse movimento político reacionário é recorrente e em Portugal, não é diferente. Contudo, é preciso compreender concretamente o trabalho imigrante para o funcionamento do capitalismo neoliberal. Isto é, a força de trabalho dos imigrantes é uma forma de acumulação (e também expropriação) do capitalismo. Em outras palavras, quanto maior o exército internacional de trabalhadores excedentes no centro do sistema – ou seja, pessoas imigrantes desempregadas (sem documentos muitas vezes) dispostas a encarar qualquer tipo de trabalho (em condições precárias e insalubres) com um salário menor do que “os nacionais” – possibilita o aumento à taxa acumulação. As burguesias lucram com o trabalho imigrante e ao mesmo tempo apontam o imigrante como o “grande perigo” da sociedade, bem como estimulam (diretamente ou indiretamente) movimentos políticos reacionários ou fascistas que procurem oprimir as comunidades imigrantes, tanto do ponto de vista subjetivo, como do institucional e estrutural.   

O “inimigo sub-humano” supostamente causador dos muitos problemas de Portugal “são” os imigrantes em geral, segundo os discursos da extrema direita. Mas, o “inimigo-mor” — criado artificialmente pelos reacionários portugueses — é a comunidade cigana. Uma etnia de tradição milenar e que chegou a Portugal no século XV. Ventura, o  único deputado que a extrema direita têm na Assembleia da República, costuma dizer, infelizmente, que os ciganos são “subsídio-dependentes”, isto é, que eles vivem do “bolsa família” (que se chama Rendimento Social de Inserção- RSI) e que são um peso para o Estado. 

Isso é muito similar à lógica que o bolsonarismo utiliza no Brasil para dizer que o pobre vagabundo, na sua maioria não-branco, vive por meio do subsídio do Estado e que não quer trabalhar, entre outras muitas mentiras. Nesse sentido é importante sinalizar algo acerca da questão racial. 

Nas Américas como um todo, que teve a sua formação social construída em cima do comércio e do trabalho de pessoas escravizadas, o marcador racial é, sobretudo, o ser não-branco. Na Europa esse marcador racista atinge, historicamente, e hoje notadamente, o imigrante, ou seja, os não-brancos e não-europeus: os latinos, os africanos, os asiáticos, os eslavos (de onde vem a palavra escravo), os ciganos e afins. Portanto, compreender a relação entre a imigração e o racismo na realidade europeia é crucial, pois é um elemento mobilizador para esses movimentos reacionários e fascistas: uma postura racista de negação da humanidade do imigrante. 

Essa realidade, ganha, infelizmente, contornos particulares em Portugal, a partir de três fraturas da formação social pós-Revolução de 25 de Abril 1974, as quais nunca foram “tratadas” do ponto de vista político-social e da memória histórica: o colonialismo; Guerra Colonial; os “retornados”. 

No dia-a-dia, poucos portugueses sabem o que é o tal “lusotropicalismo”. O que significa em termos práticos? De modo geral, os portugueses têm uma memória histórica de que o colonialismo lusitano não foi tão mal ou violento como o dos outros impérios europeus 

Em janeiro de 1961 o governo fascista de António Salazar iniciou a tenebrosa Guerra Colonial. Ela tem uma dupla face. De um lado, centenas de milhares de mortes, na sua maioria militantes das lutas de Libertação Nacional e anticolonial. Por outro, muitos portugueses foram empurrados para três teatros de guerra, sem muitas chances  de vencer. Ou seja, empurrados para morte ou condenados a voltarem com sequelas físicas e psicológicas. 

No entendimento de grande parte dos historiadores, será a guerra o fator decisivo na derrubada do regime fascista pelas Forças Armadas – Os “Capitães de Abril”. Porém, nesse processo de pós-Revolução e descolonização vão emergir dos ex-combatentes da Guerra Colonial (1961-1974), que em certa medida foram postos de lado pelo novo regime político que se consolidou após a vitória contra-revolucionária de 25 de novembro de 1975. As condições de vida e a memória acerca deles é explorada pela direita reacionária, pois afirmam que o Estado “abandonou os verdadeiros heróis da pátria, que lutaram pelo Portugal ultramarino”, isto é, o Portugal colonialista.  

O processo de descolonização forçado pela queda do regime fascista português, a brava luta dos povos colonizados pela Libertação Nacional e a independência política das ex-colónias criou uma outra figura: “os retornados”. Quem são esses? O perfil dos portugueses que estavam nas colônias era diverso  ocupavam espaços de poder político ou econômico nas colônias. Visto que numa estrutura social racista essas pessoas tinham espaços de privilégio (classe dominante ou elite), mas com avançar da luta anticolonial e a vitória dos povos locais, os colonos tiveram que deixar tudo para atrás e voltaram “sem nada e de mãos vazias” para a metrópole, como ouve-se da boca de vários “retornados”. 

Foram pouquíssimas as medidas a de Estado que se preocuparam com essas pessoas, a fim de lhes garantir uma “compensação” financeira. Esse grupo de retornados acredita que foi “lesado” e que o Estado português o deveria indenizar. Assim, esse sentimento foi alimentado durante toda uma vida, passando aos filhos, netos e afins. Para essas pessoas a Revolução dos Cravos significou empobrecimento e perda de status social dominante nas colônias. Ventura e o seu partido estimulam também mais essa fratura na sociedade como elemento mobilizador contra os resquícios e conquista da Revolução do 25 de abril.   

Uma solidariedade internacional antifascista

O quadro dessa realidade complexa não pode ser visto externamente à totalidade e o fenômeno da crise estrutural capitalista e a reemergência do fascismo, são refluxos dessa crise. Essa reunião em Portugal é mais um sinal relevante da tentativa da extrema direita de criar uma rede internacional de solidariedade e apoio. Como disse Leandro Konder em seu livro Introdução ao fascismo

O fascismo é uma tendência que surge na fase imperialista do capitalismo, que procura se fortalecer nas condições de implantação do capitalismo monopolista de Estado, exprimindo-se através de uma política favorável à crescente concentração de Capital; é um movimento político de conteúdo social conservador, que se disfarça sob uma máscara “modernizadora”, guiado pela ideologia de um pragmatismo radical, servindo-se de mitos irracionalistas e conciliando-os com procedimentos racionalista-formais de tipo manipulatório. O fascismo é um movimento chauvinista, antiliberal, antidemocrático, antissocialista, anti-operário. Seu crescimento em um país pressupõe condições históricas especiais, pressupõe uma preparação reacionária que tenha sido capaz de minar as bases das forças potencialmente antifascistas (enfraquecendo-lhes a influência junto às massas); pressupõe também as condições da chamada sociedade de massas de consumo dirigido, bem como a existência nela de um certo nível de fusão do capital bancário com o capital industrial, isto é, a existência do capital financeiro.

Isso tudo serve como alerta para antifascistas de todo mundo. Em especial, para que brasileiros e portugueses se livrem dos fascistas do século XXI como Bolsonaro e Ventura. Só um movimento internacional para reforçar os laços de classe entre aqueles que vivem do trabalho, além da compreensão de que não é possível esmagar o fascismo e suas ramificações sem a superação do capitalismo, pode alterar esse quadro.

JACOBIN Brasil

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

 «Harvey defende seu chamado por um “imperialismo benevolente” dizendo que “seria melhor para a esquerda apoiar uma alternativa keynesiana”. Mas nunca houve, e nem há, uma alternativa keynesiana. Isso não é nada mais do que uma fantasia social-democrata, assim como era o sonho de Kautsky, compartilhado por Harvey, do fim das rivalidades interimperialistas. E como Lenin explicou, a social-democracia não é nada mais do que um eufemismo para social-imperialismo.» John Smith, ver referªencia e no artigo aqui publicado na íntegra. In Lavrapalavra

  Comentário: O livro de J. Smith é importante e o conceito de superexploração (dos trabalhadores do Sul) vem de autores dos finais do século passado que estudaram a Teoria da Dependência e a teoria de Lenine sobre o imperialismo nas condições em que foi elaborada.

   A classificação de J.S. da China como «capitalismo de estado» governado por «burocratas estalinistas» parece não ter em conta a nova política encetada nesse imenso país, com claros elementos socialistas. 

  O marxismo não é um receituário de dogmas.

Prolegómenos-ÉTICA-15

 O conceito de superexploração para a teoria do imperialismo


«Naturalmente, a força produtiva é sempre a força produtiva de trabalho útil, concreto (…). O trabalho útil se torna, desse modo, uma fonte mais rica ou mais pobre de produtos em proporção direta com o aumento ou a queda de sua força produtiva. Ao contrário, por si mesma, uma mudança da força produtiva não afeta em nada o trabalho representado no valor. Como a força produtiva diz respeito à forma concreta e útil do trabalho, é evidente que ela não pode mais afetar o trabalho, tão logo se abstraia dessa sua forma concreta e útil. Assim, o mesmo trabalho produz, nos mesmos períodos de tempo, sempre a mesma grandeza de valor, independentemente da variação da força produtiva. Mas ele fornece, no mesmo espaço de tempo, diferentes quantidades de valores de uso (…). (Marxv. I, p. 137) [Boitempo, Livro I, p. 104]

A crença em uma relação direta entre salários e produtividade é, assim, fundada na confusão entre valor de uso e valor de troca, uma confusão que destrói os próprios fundamentos da teoria de Marx e, na verdade, é idêntica à percepção capitalista das relações de produção. Em outras palavras, os marxistas ortodoxos estão promovendo economia burguesa disfarçada com terminologia marxista.

Se os conceitos de Marx de mais-valor absoluto e relativo são insuficientes para explicar a realidade das redes da produção global contemporânea, do que mais precisamos? A resposta é direta: uma conceituação teórica da superexploração. Como dito acima, Marx excluiu repetida e explicitamente de sua “teoria geral” do capital as variações internacionais da taxa de mais-valor e a diminuição dos salários abaixo do valor da força de trabalho. A redução do valor da força de trabalho através da supressão dos níveis de consumo (ou, o que dá na mesma, da redução de salários abaixo do valor da força de trabalho) é uma forma distinta, uma terceira forma de aumentar o mais-valor, e foi de importância central durante a era neoliberal, sendo a força motora fundamental por trás da arbitragem global do trabalho e do deslocamento massivo da produção para países de baixos salários.(...) »

A realidade imperialista versus os mitos de David Harvey

Por John Smith, via Review of African Political Economy, traduzido por Fernando Savella

Esta é a quarta parte que trazemos da polêmica envolvendo David Harvey e John Smith acerca do imperialismo. As outras partes são, na ordem, O Imperialismo ainda é um conceito relevante, David Harvey nega o imperialismo (um réplica) e A realidade concreta: David Harvey responde a John Smith.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

A crítica mais contundente à tese de David Harvey de que já não existe imperialismo...

 


Imperialismo no Século XXI: Globalização, Superexploração e Crise Final do Capitalismo

$ 24,00 - $ 89,00

Vencedor do primeiro Prêmio Memorial Paul A. Baran - Paul M. Sweezy por uma monografia original preocupada com a economia política do imperialismo, Imperialismo de John Smith no Século XXIé um exame seminal da relação entre os principais países capitalistas e o resto do mundo na era da globalização neoliberal. Implementando uma metodologia marxista sofisticada, Smith começa rastreando a produção de certas commodities icônicas - a camiseta, a xícara de café e o iPhone - e demonstra como elas geram enormes saídas de dinheiro dos países do Sul Global para corporações transnacionais com sede nas principais nações capitalistas do Norte Global. A partir daí, Smith baseia-se em suas descobertas empíricas para teorizar poderosamente a forma atual do imperialismo. Ele argumenta que os principais países capitalistas não precisam mais depender da força militar e do colonialismo (embora ainda ocorram), mas cada vez mais são capazes de extrair lucros dos trabalhadores no Sul Global por meio de mecanismos de mercado e,ao favorecer agressivamente locais com salários mais baixos, o fenômeno da arbitragem trabalhista.

Meticulosamente pesquisado e argumentado com vigor, Imperialismo no Século XXI é uma importante contribuição para a teorização e crítica do capitalismo global.

John Smith recebeu seu PhD da University of Sheffield e atualmente trabalha por conta própria como pesquisador e escritor. Ele foi um trabalhador de plataforma de petróleo, motorista de ônibus e engenheiro de telecomunicações, e é um ativista de longa data nos movimentos anti-guerra e de solidariedade latino-americana.

Este livro é mais importante do que você pode imaginar. John Smith fornece uma análise contundente e plausível das mudanças globais na produção que marcaram a fase neoliberal do capitalismo. Ao fazer isso, ele explode os mitos sobre os salários serem baseados na produtividade, para fornecer novos insights sobre as verdadeiras causas dos diferenciais salariais internacionais e do declínio da participação nos rendimentos salariais em todo o mundo. Sua análise é essencial para a compreensão do capitalismo contemporâneo.

—Jayati Ghosh, professor de economia da Universidade Jawaharlal Nehru, Nova Delhi

Imperialismo no Século XXI é uma obra magistral sobre economia política global, a avaliação mais sistemática disponível do significado permanente do imperialismo no sistema capitalista mundial de hoje. O relato rigoroso de John Smith sobre os fundamentos econômicos do sistema global de produção e troca revela a dependência do capital da exploração de centenas de milhões de trabalhadores empobrecidos no Sul Global. Este livro altamente acessível é uma leitura essencial para uma compreensão dos fundamentos do sistema global do capitalismo hoje.

—Immanuel Ness, City University of New York

Meticulosamente pesquisado e argumentado com vigor, Imperialismo no Século XXI é uma importante contribuição para a teorização e crítica do capitalismo global.

—Willis M. Buhle, Crítica Literária do Meio-Oeste

 Search

ROAPE Journal
Home Imperialism in the 21st Century Imperialist Realities vs. the Myths of David Harvey

Imperialist Realities vs. the Myths of David Harvey

By John Smith

When David Harvey says “the historical draining of wealth from East to West for more than two centuries has largely been reversed over the last thirty years,” his readers will reasonably assume that he refers to a defining feature of imperialism, namely the plunder of living labour and natural wealth in colonies and semi-colonies by rising capitalist powers in Europe and North America. Indeed, he leaves no doubt about this, since he prefaced these words with reference to “the old categories of imperialism.” But here we encounter the first of his many obfuscations. For more than two centuries, imperialist Europe and North America have also been draining wealth from Latin America and Africa, as well as from all parts of Asia… except from Japan, which itself emerged as an imperial power during the 19th century. ‘East-West’ is therefore an imperfect substitute for ‘North-South’, and this is why I dared to adjust the points of Harvey’s compass, drawing a petulant response.

As David Harvey knows full well, all sides in the debate on imperialism, modernisation and capitalist development acknowledge a primary distinction between what are variously termed ‘developed and developing’, ‘imperialist and oppressed’, ‘core and periphery’ etc. countries, even if there is no agreement about how this primary division is evolving. Furthermore, the criteria for determining membership of these groups of nations can validly include politics, economics, history, culture and much else, but NOT geographical location—‘North-South’ is nothing more than descriptive shorthand for other criteria, as is indicated by the fact that ‘North’ is generally acknowledged to include Australia and New Zealand. Yet, in his reply to my critique, Harvey elevates geography above all else, lumping China, whose per capita GDP in 2017 was situated between Thailand and the Dominican Republic, along with South Korea, Taiwan and imperialist Japan into a distinct East Asian “power block [sic] in the global economy.” Given the moribund state of the Japanese economy, whose GDP has grown by an average of less than 1% per annum since 1990, and cognizant of Japan’s explosive economic, political and military rivalry with China, to ask whether this ‘bloc’ is now draining wealth from capitalist Europe and North America is to ask the wrong question.

To judge Harvey’s claim that flows of wealth associated with imperialism have gone into reverse we should ask a more pertinent question: are the developed capitalist nations of Europe, North America and Japan continuing to drain wealth from China and other ‘emerging nations’ in Asia, Africa and Latin America? Unless Harvey believes that flows of wealth from Africa and Latin America to the ‘West’ are large enough to cancel the alleged flow from the West to the ‘East Asian bloc’, his answer must be no, this is no longer the case

Some realities on the ground

In 2015, researchers based in Brazil, India, Nigeria, Norway and the USA published Financial flows and tax havens: combining to limit the lives of billions of people, which they fairly claim to be “the most comprehensive analysis of global financial flows impacting developing countries compiled to date.” Their report calculates ‘net resource transfers’ (NRT) between developed and developing countries, combining licit and illicit inflows and outflows—from development aid and remittances of wages to net trade receipts, debt servicing, new loans, FDI and portfolio investment and repatriated profits, along with capital flight and other forms of financial chicanery and outright theft. They found that in 2012, the most recent year for which they could obtain data, what they call ‘developing and emerging countries’ (which of course includes China) lost $2.0 trillion in net transfers to rich countries, equivalent to 8% of emerging nations’ GDP in that year—four times larger than the average of $504 billion in NRT transferred annually from poor to rich countries during the first half of the 2000s. When informed estimates are included of under-invoicing and other forms of rip-off and criminality that leave no statistical trace, NRT from poor countries to imperialist countries in 2012 exceeded $3 trillion, around 12% of poor nations’ GDP.

More generally, they report that “both recorded and unrecorded transfers of licit and illicit funds from developing countries have tended to increase over the period 1980-2011”. As for Sub-Saharan Africa, they report that NRT from this continent to imperialist countries (or tax havens licensed by them) between 1980 to 2012 totalled $792bn, that illicit transfers from Africa to imperialist countries as a proportion of GDP are higher than from any other region, and that capital flight from Sub-Saharan Africa is growing by more than 20 percent per annum, faster than anywhere else in the world.

In what they called “an ironic twist to the development narrative” the researchers concluded that “since the early 1980s, NRT for all developing countries have been mostly large and negative, indicating sustained and significant outflows from the developing world… resulting in a chronic net drain of resources from the developing world over extended periods of time”.

Where does China fit into this broader picture? Using sophisticated methodologies and on the basis of conservative assumptions, the researchers calculate that China accounts for no less than two thirds of the total recorded resource transfer deficit of all ‘emerging nations’ between 1980 and 2012, $1.9 trillion in all; the explanation for this high proportion being “China’s large current account surpluses and associated capital and reserve asset outflows,” and it accounted for 21%, or $2.8 trillion, of the total of $13.4 trillion in capital flight drained from all ‘emerging countries’ to rich nations during these three decades.

More realities on the ground

These facts are already enough to refute Harvey’s claim that China and its neighbours are now draining wealth from ‘former’ imperialist nations in Europe and North America. David Harvey should provide some data to back up his assertions—or withdraw them. But the case against his denial of imperialism goes far beyond what’s revealed by statistics on trade, debt servicing, profit repatriation and capital flight.

In the first place, the ‘net resource transfer’ methodology implemented in the research cited above means that South-North flows of repatriated profits are cancelled by new North-South flows of FDI. Yet these flows are different in kind. Repatriated profits unambiguously increase the wealth of transnational corporations (TNCs); FDI unambiguously increases the portion of the host economy they own and control. These flows may be in opposite directions, but each of them reinforces imperialist domination over the host economies, a fact which is ignored when they are simplistically cancelled out; and similar considerations apply to other flows, e.g. debt servicing vs. new loans.

Much more importantly, Marx’s theory of value teaches us that data on trade and financial flows provide only a highly distorted and much-diminished picture of the underlying flows of value and surplus value. For example, the only flows of wealth from China and other low-wage countries to non-financial TNCs headquartered in Japan, Europe and North America that show up in statistical data are repatriated profits from direct investments. In contrast, not a single cent of H&M’s, Apple’s or General Motors’ profits can be traced back to the super-exploited Bangladeshi, Chinese and Mexican workers who toil for these TNCs’ independent suppliers, and it is this ‘arm’s length’ relationship which increasingly prevails in the global value chains that connect TNCs and citizens in imperialist countries to the low-wage workers who produce more and more of their intermediate inputs and consumption goods.

The central conclusion I draw from this, as I stated in the blogpost David Harvey denies imperialism, is that:

The vast scale of production outsourcing to low-wage countries, whether via foreign direct investment or via indirect, arm’s length relationships, signifies greatly expanded exploitation of southern labor by U.S., European, and Japanese TNCs, legions of workers who are moreover subject to a higher rate of exploitation… [and this] implies new and greatly increased flows of value and surplus value to U.S., European, and Japanese TNCs… and reason to believe that this transformation marks a new stage in the development of imperialism.

David Harvey, in his response to my critique, treats this defining feature of the neoliberal era rather differently:

From the 1970s onwards some (but by no means all) capital went to where the labour forces were cheapest. But globalization could not work without reducing barriers to commodity exchange and money flows and the latter meant opening a Pandora’s box for finance capital that had long been frustrated by national regulation. The long-term effect was to reduce the power and privilege of working class movements in the global north precisely by putting them into competitive range of a global labour force that could be had at almost any price. 

Here, Harvey completely ignores the increased dependence of US, European and Japanese TNCs on surplus value from low-wage countries, and he attempts to shift attention to the important but secondary phenomenon of financialization. The only effect of the global shift of production to low-wage countries that he thinks worth mentioning is its stifling effect on “working class movements in the global North.” And this effect is greatly exaggerated—the reduction of the latter’s power and privilege, Harvey would have us believe, has been on such a scale that they now compete with their sisters and brothers in the global South on more-or-less equal terms.

In my original critique I quoted his 17 Contradictions and the End of Capitalism (p. 170), where he said: “disparities in the global distribution of wealth and income between countries have been much reduced with rising per capita incomes in many developing parts of the world;” and I countered that this “greatly exaggerates global convergence: once China is removed from the picture, and once account is made of greatly increased income inequality in many southern nations, no real progress has been made in overcoming the huge gap in real wages and living standards between the “West” and the rest.” Harvey’s response: “I stand by the claim that the working classes within the global structure of contemporary capitalism are far more competitive with each other now than they were in the 1960s.”

It is true that ultra-low wages in southern nations are being used as a club against workers in imperialist nations, but it is preposterous to suggest that the North-South gulf in wages and living standards has been substantially eroded. David Harvey should provide some data to back up his claims—or withdraw them. He could consult ‘Global wage trends in the neoliberal era’, chapter 5 of my Imperialism in the Twenty-first Century, along with its discussion of the growth of the ‘planet of slums’ (so much for Harvey’s claim that I “ignore urbanisation”!) and other evidence supporting a rather different conclusion to the mainstream convergence hypothesis endorsed by Harvey of (p. 104):

the imperialist division of the world… has shaped the global working class, central to which is the violent suppression of international labor mobility. Just as the infamous pass-laws epitomized apartheid in South Africa, so do immigration controls form the lynchpin of an apartheid-like global economic system that systematically denies citizenship and basic human rights to the workers of the South and which, as in apartheid-era South Africa, is a necessary condition for their super-exploitation.

Why does Harvey refuse to acknowledge the enormously-expanded exploitation of Southern labour by Northern capital? Why does he deny the prevalence of super-exploitation in the low-wage rungs of global value 221? Why does he claim that the split in the international working class that so preoccupied Lenin and the communist movement when it was communist is now history? It’s simple—realism on any of these points would result in the collapse of his argument.

Harvey’s idealism

“Marx taught us that the historical materialist method does not start with concepts and then imposes them on reality, but with the realities on the ground in order to discover the abstract concepts adequate to their situation. To start with concepts, as does John Smith, is to engage in rank idealism.” Harvey offers sound advice—but he should practice what he preaches. His criticism of my analytical method as ‘rank idealism’ applies without exaggeration to his own approach, as we shall see.

It is indeed of the utmost importance to start with facts, as I stressed in my article Imperialism in the Twenty-first Century:

“Communism is not a doctrine but a movement; it proceeds not from principles but from facts,” said Frederick Engels. Wide international differences in the rate of exploitation, the huge global shift of production to where this rate is highest, and the tremendous southwards shift in the centre of gravity of the industrial working class are the new, big facts from which we must proceed. These are the defining transformations of the neoliberal era, and they are key to understanding the nature and dynamics of the global crisis… Instead of using Marx’s comments on nineteenth-century production to deny the reality of twenty-first-century super-exploitation (and of the imperialist order resting on it), we must test Marx’s theory against these new facts, and use and critically develop his theory in order to understand this latest stage of capitalism’s imperialist development.

Harvey accuses me of espousing a “fixed, rigid theory of imperialism.” He obviously hasn’t read my book. Fair enough; I’m sure he is very busy. But were he to do so, he would see that, by proceeding from the most significant, transformative fact about the neoliberal era, namely the shift of production to low-wage countries driven by imperialist hunger for super-exploitable labour, I am led not only to argue the need for a radical extension of Lenin’s theory:

… Just as Karl Marx could not have written Capital before capitalism’s mature, fully evolved form had come into existence with the rise of industrial capitalism in England, so it is unreasonable to expect to find, in the writings of Lenin and others writing at the time of its birth, a theory of imperialism that is able to explain its fully evolved modern form (Imperialism in the Twenty-first Century, the book, p. 225)…

… but also to contend that the necessary starting point for a theory of contemporary imperialism is precisely what Marx excluded from consideration in Capital; e.g. in the MR article cited above I argue:

In the third volume of Capital, while discussing “counteracting factors” inhibiting the tendency of the rate of profit to fall, Marx makes another brief reference to… the “Reduction of Wages Below their Value,” [which] is dealt with in just two short sentences: “like many other things that might be brought in, it has nothing to do with the general analysis of capital, but has its place in an account of competition, which is not dealt with in this work. It is nonetheless one of the most important factors in stemming the tendency for the rate of profit to fall.”

Not only did Marx leave to one side the reduction of wages below their value, he made a further abstraction that, while necessary for his “general analysis of capital,” must also be relaxed if we are to analyze capitalism’s current stage of development: “The distinction between rates of surplus value in different countries and hence between different national levels of exploitation of labour are completely outside the scope of our present investigation.” Yet it is precisely this that must form the starting-point for a theory of contemporary imperialism.

Harvey reprimands me for claiming that his Limits to Capital contains “just one brief, desultory mention of imperialism.” I apologise for this imprecision. His book does contain many fleeting, historical references to imperialism, and two somewhat more substantial discussions, one discussing Lenin’s theory, the other forms part of the book’s conclusion. The truth that I intended to convey is that only once (pp. 441-2) does Harvey mention that the essence of imperialism is “the reality of exploitation of the peoples in one region by those in another… the geographical production of surplus-value [can] diverge from its geographical distribution.” I overlooked another brief mention: “each nation-state strives to protect its monetary base [by] enhancing value and surplus value production within its borders or appropriating values produced elsewhere (colonial or imperialist adventures)” (p. 387). And that’s it! On all other occasions—even when reporting Lenin’s theory!—‘imperialism’ is discussed in relation to inter-state rivalry, to finance capital and to the rise of monopoly, but exploitation of subject peoples is entirely expunged, both from Harvey’s own concept and his presentation of the views of others.

In his reply to my critique, Harvey makes a similarly vague acknowledgement of this all-important phenomenon, asserting that he doesn’t “deny that value produced in one place ends up being appropriated somewhere else and there is a degree of viciousness in all of this that is appalling.” Okay, he doesn’t deny this, but he doesn’t dwell on it, either. He just wants to say as little as possible about it, and at all costs to avoid acknowledging that value produced in places like China, Bangladesh and Mexico ends up being appropriated in countries like USA, UK and Japan.

What little he does say, however, is very revealing—not about the world, but about the quality (in all the meanings of the word) of his argument. In his reply to my criticism, for example, he says, “When we read accounts of awful super-exploitative conditions in manufacturing in the global South it often transpires that it is Taiwanese or South Korean firms that are involved even as the final product finds its way to Europe or the United States.”  The substantive issue in this was addressed by Judy Whitehead in the comment she posted on Harvey’s reply: “While it’s true that many local companies, e.g. Foxconn, run the factories that produce goods for the West, in China and a few other locations, Smith shows in his book that a large majority of the profits accrue to the multinationals they are contracting for, e.g. Apple.”

Two other things can be said about Harvey’s statement. First, on those rare occasions when Harvey mentions super-exploitation, he only ever uses it as a descriptive term, never as an analytical category. Second, whenever he does acknowledge its actuality—as in the above passage—he goes to great pains to deflect attention from its beneficial effect on the profits of TNCs headquartered in North America, Europe and Japan.

I conclude this discussion of Harvey’s treatment of inconvenient facts by examining another of his revealing statements. In his reply to my criticism, he stated that, “As Marx long ago pointed out, geographical transfers of wealth from one part of the world to another do not benefit a whole country; they are invariably concentrated in the hands of privileged classes.”

Invariably?? Can’t Harvey think of any instances where the imperialists have used part of the proceeds of super-exploitation to bribe and corrupt their own workers? Was Frederick Engels deluded when, in an 1882 letter to Kautsky (when the latter was still a Marxist), he said, “You ask me what the English workers think about colonial policy. Well, exactly the same as they think about politics in general: the same as the bourgeoisie think. There is no workers party here… and the workers are cheerfully consuming their share of England’s monopoly of the world market and the colonies”?

When Ernest Bevin, Labour’s Foreign Secretary in the Britain’s post World War 2 government, declared to the House of Commons in 1946 that “I am not prepared to sacrifice the British Empire because I know that if the British Empire fell…it would mean the standard of living of our constituents would fall considerably,” was he making it up?

And when in 2018 the British state collects, in VAT and other taxes, up to half the final sale price of a shirt made in Bangladesh (while the woman who made the shirt is paid a tiny fraction of this amount) and uses these tax receipts to finance the National Health Service and workers’ pensions (neither of which are  available to our Bangladeshi sisters, nor to the 260 million migrant workers from China’s countryside who toil in that country’s export-oriented factories), is it acceptable for Marxists to ignore such inconvenient ‘realities on the ground’?

In Imperialism and the Split in Socialism Lenin said (and he repeated the same idea in countless other articles and speeches), “The capitalists can devote a part (and not a small one, at that!) of the super-profits [arising from “England’s colonial monopoly,” Lenin’s emphasis, here and throughout] to bribe their own workers, to create something like an alliance . . . between the workers of the given nation and their capitalists against the other countries;” and he continued, “This, in fact, is the economic and political essence of imperialism, the profound contradictions of which Kautsky glosses over instead of exposing.” Substitute Harvey for Kautsky, and these words are as true today as when they were spoken a century ago. And when David Harvey responds to this criticism, as I sincerely hope he will, perhaps he can explain why he omitted any mention of this “economic and political essence of imperialism” in his discussion of Lenin’s views in Limits to Capital, in The New Imperialism, or anywhere else.

Harvey’s use of Capital to deny contemporary imperialism

So far, we have examined how Harvey deals with facts that contradict his denial of imperialism. Now we will look at how he uses and abuses theoretical concepts drawn from Marx to the same end.

Harvey says he “acknowledges the significance of Marx’s theory of relative surplus value which makes it possible for the physical standard of living of labour to rise significantly even as the rate of exploitation increases to dramatic levels impossible to achieve through the absolute surplus value gained in the more impoverished arenas of capital accumulation that often dominate in the global South.” 

Here Harvey echoes the standard argument used by many Marxists in imperialist countries (whom I sometimes refer to as ‘euro-Marxists’) to deny the prevalence of higher rates of exploitation in China, Bangladesh etc. In doing so, he provides an excellent example of ‘imposing concepts upon reality’. To use Marx’s theory of absolute surplus value to explain the abysmally low levels of consumption endured by garment workers in Bangladesh and workers on automobile assembly lines in Mexico is glib and false. That so many others do so is no excuse; to the contrary, it increases the onus on Harvey to apply his deep knowledge of Marxism to critically develop this theory in order to answer real-world questions that have remained unanswered for far too long.

As with all commodities, the value of labour power is determined by the quantity of labour required for its production, and is synonymous with ‘necessary labour time’, i.e. the time during which the s/he replaces the values consumed by her/his family. Marx’s concept of absolute surplus value refers to the extension of the working day beyond necessary labour time; the amount by which it does so he called surplus labour time, and the ratio between the two is the rate of surplus value, a.k.a. the rate of exploitation (the difference between these two terms becomes important when we take account of the distinction between production and non-production labour, but it is not relevant here). Absolute surplus value, Marx argued, may be increased by further extending the working day beyond necessary labour time. This is entirely distinct from the reduction of necessary labour time through the suppression of workers’ consumption levels. As Marx explained in many places in Vols. I and III of Capital, “pushing the wage of the worker down below the value of his labour-power” is “excluded from consider[ation] by our assumption that all commodities, including labour-power, are bought and sold at their full value.”

On the other hand, Marx’s concept of relative surplus value explains that improvements in the productivity of workers directly or indirectly employed in the production of consumption goods reduces necessary labour time without any corresponding reduction in workers’ consumption levels, and that such productivity advances can allow workers’ consumption levels to rise without increasing necessary labour time and reducing the rate of surplus value.

Neither of these concepts, taken separately or used in combination, are sufficient to explain the value relations in contemporary globalised production networks. First, Harvey’s argument is contradicted by facts—the shift in the production of so many consumer goods to low-wage countries means that the wages and productivity of workers in low-wage countries have become major determinants of relative surplus value in imperialist countries. What’s new about ‘new imperialism’ is the vast scale of this phenomena; the exceptional importance of Ruy Mauro Marini’s contribution to the dependency and imperialism debate that raged in the decades before 1980 lies, in part, in his argument that, during Karl Marx’s own lifetime super-exploitation in Britain’s colonies and neo-colonies increased relative surplus value within Britain itself (cheaper food etc. imports reduced necessary labour time without reducing consumption levels). In his Dialéctica de la Dependencia (1973), Marini argued (my translation):

The concept of super-exploitation is not identical to that of absolute surplus-value since it also includes a type of production of relative surplus-value—that which corresponds to an increase in the intensity of labour. On the other hand, the conversion of part of the wages fund into a source of capital accumulation does not strictly represent a form of absolute surplus-value production, since it simultaneously affects both parts of the working day, not only of surplus labour-time as is the case with absolute surplus-value. Above all, super-exploitation is defined most of all by greater exploitation of the worker’s physical capacity, in contrast to the exploitation resulting from an increase in her/his productivity, and tends normally to express itself in the fact that labour power is remunerated below its actual value.

Second, and even more seriously, Harvey’s abuse of the concept of absolute surplus value makes the elementary mistake of confusing the productivity of workers producing consumption goods with the productivity of workers who consume these goods. As I explain in Imperialism in the Twenty-first Century (the book, pp. 242-3),

Not only is the relation between the productivity of labor and the exchange-value created by it not direct, as asserted by mainstream economic theory and echoed by euro-Marxists, they are wholly independent of each other, as Marx emphasized (vol. I, p.137):

By productivity, of course, we always mean the productivity of concrete useful labor… Useful labor becomes… a more or less abundant source of products in direct proportion as its productivity rises or falls. As against this, however, variations in productivity have no impact whatever on the labor itself represented in value. As productivity is an attribute of labor in its concrete useful form, it naturally ceases to have any bearing on that labor as soon as we abstract from its concrete useful form. The same labor, therefore, performed for the same length of time, always yields the same amount of value, independently of any variations in productivity. But it provides different quantities of use-values during equal periods of time. 

Belief in a direct relation between wages and productivity is therefore founded on a confusion of use-value with exchange-value, a confusion that wrecks the very foundation of Marx’s theory and in fact responds to the semblance of the relations of production in the mind of the capitalist. In other words, the orthodox Marxists are in fact promoting bourgeois economics dressed in Marxist terminology.

If Marx’s concepts of absolute and relative surplus value are insufficient to explain the realities of contemporary global production networks, what else do we need? The short answer: a theoretical concept of super-exploitation. As stated above, Marx repeatedly, explicitly excluded both international variations in the rate of surplus value and the suppression of wages below the value of labour power from his ‘general theory’ of capital. Reduction in the value of labour power by suppressing consumption levels (or what amounts to the same thing, reduction of wages below the value of labour power) is a distinct, third way to increase surplus value, and it has attained incredible importance during the neoliberal era, being the fundamental driving force behind global labour arbitrage and the massive shift of production to low-wage countries.

The rediscovery of this third form of surplus-value is the breakthrough that provides the key to unleashing the dynamic concepts contained in Capital, and it was made by Andy Higginbottom in a 2009 conference paper entitled The Third Form of Surplus Value Increase, building on the above-mentioned work of Ruy Mauro Marini and since developed further in a series of ground-breaking papers and articles (see here, here and here). In his 2009 paper he said, “Marx discusses three distinct ways that capital can increase surplus-value, but he names only two of these as absolute surplus-value and relative surplus-value. The third mechanism, reducing wages below the value of labour-power, Marx consigns to the sphere of the competition and outside his analysis.”

As I said in my book (p. 238),

“Wage arbitrage-driven globalization of production corresponds neither to absolute surplus-value—long hours are endemic in low-wage countries, but the length of the working day is not the outsourcing firm’s main attraction—nor to relative surplus-value: necessary labor is not reduced through the application of new technology. Indeed, outsourcing is an alternative to investment in new technology. Raising surplus-value through expanding the exploitation of Southern low-wage labor therefore cannot be reduced to the two forms of surplus-value extraction analyzed in Capital—absolute and relative surplus-value. Global labor arbitrage-driven outsourcing is driven by lust for cheaper labor, and corresponds most directly to the “reduction of wages below their value.” In other words, global labor arbitrage, the driver of the global shift of production to low-wage nations, is the third form of surplus value recognized by Marx as a most important factor, yet excluded, as we have seen, from his theory of value.

The China question

Harvey asks “Is China the new imperialist power?” This is a fair and very large question to which I cannot possibly do justice in the context of this reply. China is much more than merely a very large, fast-growing ‘emerging nation’. It is a country which was transformed by a massive socialist revolution (more precisely, the 1949 revolution established necessary conditions for advance towards socialism—imperialist domination was ended, landlords and capitalists were expropriated, their state was overthrown—but further progress was stymied by the sectarian and reactionary policies of its Stalinist leaders) and which is now attempting a transition back to capitalism.  Despite widespread views to the contrary, this transition is far from complete and its completion is far from certain. Imperialism is inscribed in the DNA of capitalism, and if China has embarked on the capitalist road, then it has also embarked on the imperialist road.

Seven years ago, I wrote,

I don’t believe that the sum total of transformations that have taken place in China over the past three decades yet equal in significance those resulting from China’s socialist revolution, namely the expropriation of the capitalists and landlords and the establishment of a workers’ state (albeit horribly deformed from the outset by its Stalinist leadership). There are many capitalists in China, and their number and wealth is rapidly increasing, and there is indeed a great deal of capitalist accumulation taking place in China today, but most of this capital is being accumulated by Japanese, US etc TNCs—both those whose foreign subsidiaries today produce around 55% of Chinese exports, and also by ‘lead firms’ like Wal-Mart and Dell indulging in arm’s-length exploitation of workers by independent suppliers… Capitalist development in China is still characterised by dependence on exports of low value-added goods to the imperialist economies (or, in the case of China’s high-tech exports, low value-added assembly of imported inputs), and by reliance on FDI from TNCs based in those economies….

Is China’s rise a threat to imperialist domination of Asia and the world? Yes, I believe it is. What sort of threat? That China’s rulers—whether we consider them to be a capitalist class or a Stalinist bureaucracy—will refuse to accept the subordinate, oppressed, submissive status reserved for the so-called emerging nations, that they will challenge US hegemony over Asia and develop a counterweight to the US-Japanese military alliance that rules its coastal waters, that they will wield the potential economic power reflected in their possession of trillions of dollars of US treasury bonds and other financial assets, that their emergent TNCs will muscle in on  mineral resources and markets hitherto the exclusive preserve of the imperialist nations. They are already marching down this road, a road that leads to war, and the USA is responding in the way we would expect the imperial hegemon to respond: the invasion of Iraq was aimed at least as much at intimidating China as at securing US/UK control over Middle Eastern oil.

Much has changed in the last seven years. Chinese state capitalism (for want of a better term) shows signs of developing a strategic challenge to Japanese, European and North American dominance in key industries, from robotics, information technology and artificial intelligence to renewable energy, aerospace and nuclear power generation. These developments, along with sharply increasing military tensions in China’s coastal waters (which have been an American lake since the end of World War II), and the phoney proxy war taking place on and around the Korean peninsula, reinforce the verdict I reached seven years ago—the combination of spreading global capitalist depression and China’s growing challenge to imperialist domination means that we no longer live in a post-World War II world, we live in a pre-World War III world. Class-conscious workers must maintain independence from both sides in this looming conflict and prepare for the revolutionary openings which capitalism’s deepest-ever crisis is certain to produce. Right now, that means denouncing US aggression against Korea and demanding the withdrawal of its military forces and bases from the west Pacific, opposing Japan’s nuclear rearmament, and also opposing Chinese capitalist expansion and the Chinese Communist Party’s attempts to forge an alliance with reactionary capitalist regimes in Myanmar, Pakistan, Sri Lanka and other countries in the path of its ‘One Belt, One Road’.

*  *  *

Finally, Harvey expresses his displeasure with “the kind of polemic that Smith engages in as a substitute for reasoned critique;” in particular that I dared to mock his advocacy  of a “benevolent, New Deal imperialism, preferably arrived at through the sort of coalition of capitalist powers that Kautsky long ago envisaged” (The New Imperialism, pp. 209–211). I would just point out that, so keen was I to accurately summarise his views, no less than 40 percent of David Harvey denies imperialism consists of extended quotes from his works.

Harvey defends his call for a “benevolent imperialism” on the grounds that “it would have been better for the left to support a Keynesian alternative.” But there was, and is, no Keynesian alternative; this is nothing else than a social-democratic fantasy, just as was Kautsky’s dream, shared by Harvey, of an end to inter-imperialist rivalries. And as Lenin explained, social democracy is a nothing else than a euphemism for social imperialism.

John Smith received his PhD from the University of Sheffield and is currently self-employed as a researcher and writer. He was an oil rig worker, bus driver, and telecommunications engineer, and is a long-time activist in the anti-war and Latin American solidarity movements. Winner of the first Paul A. Baran–Paul M. Sweezy Memorial Award for an original monograph concerned with the political economy of imperialism, John’s Imperialism in the Twenty-First Century is a seminal examination of the relationship between the core capitalist countries and the rest of the world in the age of neoliberal globalization. He can be contacted at johncsmith@btinternet.com.

Featured Photograph: Asian Social Forum, 2003

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.