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sexta-feira, 26 de junho de 2020

Uma boa exposição. Simples, clara, oportuníssima.

Existe Mercado Socialista?

Por Beto Silva
Portanto, a possibilidade de comprar e explorar a mercadoria força de trabalho é a essência do capitalismo. Foi a transformação do trabalho em mercadoria que potencializou a circulação mercantil dos demais produtos. O predomínio da circulação de mercadorias em geral é o desdobramento da transformação do próprio trabalho em mercadoria.  É a existência do mercado de trabalho – e não do mercado em geral – que caracteriza e fundamenta o capitalismo.

Introdução
O objetivo desse artigo é discutir o conceito de “mercado”. Uma definição precisa desse conceito é importante tanto para a Economia Política latu sensu como para o debate político contemporâneo, na medida em que o mercado socialista é uma peça central na análise (e no julgamento) dos países liderados por Partidos Comunistas, notadamente a China, mas também Cuba e Vietnã. Ou seja, ao discutir a possibilidade do mercado numa sociedade socialista, estamos também discutindo o próprio critério para avaliar as experiências socialistas. 
Com base nas seções I e II de O Capital (capítulos 01 a 04), argumenta-se que o mercado não é uma exclusividade do sistema capitalista. Tenta-se mostrar que o que define o capitalismo não é a existência de um mercado em geral, mas sim a existência de um mercado muito particular, a saber, o mercado de trabalho. Em seguida, baseado o livro Problemas Econômicos do Socialismo na URSS, de Josef Stálin, é feita uma análise de como os princípios elaborados Marx sobre o mercado e a circulação mercantil foram aplicados na União Soviética. Destaca-se a possibilidade e os condicionantes em que a circulação mercantil é útil ao socialismo. Finalmente, seguindo o artigo do economista marxista Michal Kalecki, “Aspectos Políticos do Pleno Emprego”, é feita uma discussão da oportunidade de utilizar a bandeira da abolição do desemprego como forma de evidenciar os limites das economias capitalistas.
O Mercado como uma Relação
Historicamente, a especialização decorrente da divisão social do trabalho impôs a necessidade de trocas entre os produtores. Quanto mais os produtores se especializavam na produção de bens específicos mais eles precisavam negociar com outros produtores para adquirir os demais bens. “A divisão social do trabalho torna tão unilateral seu trabalho quanto multilaterais suas necessidades” (Marx, O Capital, cap. 3). Nessas trocas, produtos diferentes, vale dizer, valores de uso diferentes, são comparados entre si: x unidades do produto A são trocadas por y unidades do produto B. Dessa forma, os produtos passam a ter um valor de troca, isto é, têm seu valor expresso em termos de outros produtos e, mais especificamente, têm seu valor expresso na forma geral e abstrata, o dinheiro. É por meio desse processo que os produtos são transformados em mercadoria. Portanto, o mercado é a relação entre produtores através da qual são conhecidos os valores de troca de seus respectivos produtos que se tornam, assim, mercadorias.
“Para produzir mercadorias, ele [o produtor] não precisa apenas produzir valor de uso, mas valor de uso para outros, valor de uso social […] Para se tornar mercadoria, é preciso que o produto seja transferido a quem vai servir como valor de uso por meio da troca.” (O Capital , cap. 01)
“A forma da troca direta de produtos é: x objeto de uso A = y objeto de uso B. As coisas A e B não são aqui mercadorias antes da troca, mas tornam-se tais por meio da mesma.” (O Capital, cap. 02)
Cabe ressaltar a ideia de mercado como uma relação e não como um local geográfico, como geralmente é entendido. Sempre que uma mercadoria é comprada ou vendida, tem-se um mercado, independentemente do local físico específico em que essa transação ocorreu.
É importante destacar também que, para essa definição, não foi preciso evocar o conceito de capital. É curioso notar que assim também o é na obra de Marx. Enquanto as definições de valor, valor de troca, mercadoria, etc, são tratados nos capítulos um a três, a definição de capital só é introduzida no capítulo quatro. Isso acontece porque a existência de mercadorias – e do mercado – é uma condição necessária prévia para o surgimento do capital e do capitalismo. De fato, Marx é literal sobre a precedência histórica da produção de mercadorias em relação ao capital:
“Produção de mercadorias e circulação desenvolvida de mercadorias – o comércio – formam os pressupostos históricos a partir dos quais o capital emerge.” (Marx, O Capital, cap. 4)
Uma mercadoria sui generis
Assim, é menos controversa a ideia de existência de um mercado pré-capitalista. Ou seja, antes de existir o capitalismo, já existia mercado e mercadorias (embora a produção visando a venda mercantil não fosse predominante). O salto qualitativo para o capitalismo ocorre quando passa a existir uma mercadoria muito específica. Essa mercadoria é a força de trabalho. Só quando a força de trabalho passa a ser comprada e vendida como uma mercadoria é que estão dadas as condições históricas e materiais para o surgimento do capital e do capitalismo.
Por condições históricas, entende-se o momento da evolução das relações sociais em que, após o sistema escravagista e do servilismo feudal, passa a existir homens e mulheres “livres”. As aspas não necessárias porque essa liberdade de homens e mulheres, os trabalhadores, não se refere necessariamente a uma melhora em suas condições de vida e existência mas à possibilidade legal/social de vender sua força de trabalho, não possuindo eles outros meios de subsistência que não seja a venda desta força de trabalho.
O papel crucial do surgimento da força de trabalho como mercadoria é porque ela é uma mercadoria sui generis. Por um lado, ela é trocada, como toda mercadoria, por valores equivalentes. Ou seja, o trabalhador assalariado livre troca sua força de trabalho por um salário que deveria satisfazer suas necessidades e de sua família. 
Por outro lado, a força de trabalho é uma mercadoria que cria valor ao ser utilizada. Ao contrário das demais mercadorias que se desgastam com o uso, a mercadoria força de trabalho, na medida em que é usada em um processo produtivo, cria valor. Dessa forma, a mercadoria produzida terá um valor maior do que o que foi despendido pelo capitalista com a compra de meios de produção e com a própria força de trabalho. Esse acréscimo de valor, a mais-valia, é inteiramente apropriado pelo capitalista. Esse é o momento em que o valor se transforma em capital.
“O valor originalmente adiantado não se limita, assim, a conserva-se na circulação, mas nela modifica sua grandeza de valor, acrescenta a essa grandeza um mais valor ou se valoriza. E esse movimento o transforma em capital.”
[…]
“Para poder extrair valor do consumo de uma mercadoria, nosso possuidor de dinheiro teria de ter a sorte de descobrir no mercado, no interior da esfera da circulação, uma mercadoria cujo próprio valor de uso possuísse a característica peculiar de ser fonte de valor, cujo próprio consumo fosse, portanto, objetivação de trabalho e, por conseguinte, criação de valor. E o possuidor de dinheiro encontra no mercado tal mercadoria específica: a capacidade de trabalho, ou força de trabalho.” (Marx, O Capital, cap. 4)
Portanto, a possibilidade de comprar e explorar a mercadoria força de trabalho é a essência do capitalismo. Foi a transformação do trabalho em mercadoria que potencializou a circulação mercantil dos demais produtos. O predomínio da circulação de mercadorias em geral é o desdobramento da transformação do próprio trabalho em mercadoria.  É a existência do mercado de trabalho – e não do mercado em geral – que caracteriza e fundamenta o capitalismo.
A Circulação Mercantil no Socialismo
No começo dos anos 1950, o Partido Comunista da URSS decidiu elaborar um Manual de Economia Política para orientar os novos quadros que chegavam ao partido, muitos dos quais nascidos após a Revolução de 1917. Depois de receber as primeiras versões do Manual, Stalin redigiu observações, críticas e sugestões de melhorias. Esses textos foram reunidos no livro “Problemas Econômicos do Socialismo na URSS”.
Já no início da obra, discutindo a questão dos kolkhozes, o líder soviético faz a seguinte pergunta: “Deveria o proletariado tomar o poder e, logo depois, destruir a produção mercantil?”. Essa pergunta é respondida negativamente, porque tal política seria inaceitável para os camponeses e, sem o apoio do campo, a revolução seria derrotada. Em seguida, retoma-se a argumentação teórica desenvolvida por Marx: 
“Não se pode identificar a produção mercantil com a produção capitalista … a produção mercantil leva ao capitalismo apenas se existir propriedade privada sobre os meios de produção, se a força de trabalho aparecer no mercado como uma mercadoria que pode ser comprada e explorada pelo capitalista no processo de produção, se consequentemente viger no país o sistema de exploração dos operários assalariados pelos capitalistas … sem isso não há produção capitalista … a produção mercantil é mais antiga que a produção capitalista … por que a produção mercantil não pode servir também, por certo período, à nossa sociedade socialista sem leva-la ao capitalismo?” (Stalin, Problemas… p. 12 e 13)
“Não será a lei do valor a lei econômica fundamental do capitalismo? Não. A lei do valor é, antes de tudo uma lei da produção mercantil. Existiu antes do capitalismo e continua existindo, assim como a produção mercantil, depois da derrocada do capitalismo, como ocorre, por exemplo, em nosso país, embora com uma esfera de ação limitada.” (Stálin, Problemas… p. 34)
Como foi mostrado na seção anterior, a caracterização do capitalismo não se dá pela existência de mercadorias em geral, mas por uma mercadoria especial, a força de trabalho. Quanto à produção e circulação das demais mercadorias, a experiência soviética indica que ela pode ser útil à construção do socialismo desde que seja transitória e não desempenhe um papel regulador, especialmente na produção e circulação dos meios de produção. Este papel regulador, por sua vez, é uma atribuição do Poder Soviético, garantida pela
“existência da propriedade social sobre os meios de produção, pela ação da lei do desenvolvimento harmonioso da economia e, por conseguinte, […] pelos nossos planos anuais e quinquenais, que são o reflexo aproximado das exigências dessa lei.” (Stálin, Problemas…, p. 21)
Assim, Stálin critica o desvio “à esquerda” que seria propor a eliminação imediata da circulação mercantil. Ao mesmo tempo, fecha as portas para o desvio direitista enfatizando que o papel do mercado é transitório, limitado e subordinado.
Portanto, não apenas existe mercado no socialismo como ele pode ser útil nas primeiras etapas da revolução. Entretanto, esse mercado é qualitativamente diferente do mercado capitalista porque tem uma função subordinada ao planejamento econômico e não se estende à força de trabalho. 
O Desemprego é a prova da inviabilidade do capitalismo
A compreensão de que o mercado de trabalho é o elemento fundador e definidor do capitalismo tem implicações práticas não apenas para os países que já atingiram o socialismo, mas também para os países sob o regime capitalista.
O desemprego é o desdobramento necessário da existência do mercado de trabalho. Portanto, a luta contra o desemprego vai ao encontro de uma das principais reivindicações imediatas dos trabalhadores ao mesmo tempo que evidencia os limites do capitalismo em atendê-la. A luta contra o desemprego une, assim, a luta econômica cotidiana com a luta política geral.
Essa perspectiva é apresentada pelo economista polonês Michal Kalecki em seu artigo “Aspectos Econômicos do Pleno Emprego”. Nele, Kalecki argumenta que a permanência do desemprego não se dá por causas estritamente econômicas, já que o correto manejo da política econômica pode garantir empregos para todos os trabalhadores. No entanto, como vimos, políticas que atuem sobre o mercado de trabalho abalam o principal alicerce do regime capitalista. Essas políticas serão, portanto, duramente repelidas pelos capitalistas.
“De fato, sob um regime de pleno emprego permanente, as demissões perderiam seu papel como medida disciplinar. A posição social do chefe seria minada e a autoconfiança e a consciência de classe dos trabalhadores aumentariam. Greves por aumentos de salário e melhorias nas condições de trabalho criariam tensão política. É verdade que os lucros seriam maiores sob um regime de pleno emprego […] mas ‘disciplina nas fábricas’ e ‘estabilidade política’ são mais apreciadas do que os lucros pelos líderes empresariais. Seu instinto de classe diz-lhes que o pleno emprego duradouro não é saudável do seu ponto de vista, e que o desemprego é parte integrante do sistema capitalista “normal”. (Kalecki, Aspectos…)
Dessa forma, uma política de garantia de emprego expõe o antagonismo de interesses entre os trabalhadores e a burguesia. Enfraquece a hegemonia capitalista que se vê impedida de apresentar seus interesses como se fossem interesses de toda a sociedade. Livre da ameaça do desemprego, os trabalhadores teriam melhores condições materiais e morais para pensar além de sua luta cotidiana pela subsistência. Olhariam para o futuro, que não seria um horizonte distante e inatingível, mas sim uma possibilidade real, cuja abolição do mercado de trabalho é uma base palpável.
“Se o capitalismo puder se ajustar ao pleno emprego, terá incorporado uma reforma fundamental. Caso contrário, ele se mostrará como um sistema ultrapassado que deve ser superado.” (Kalecki, Aspectos…)
Conclusão – No Socialismo não há desemprego
Embora o capitalismo se apresente como uma “imensa coleção de mercadorias”, não é a produção mercantil em geral que o define. Para a existência do capital é necessária uma mercadoria específica, força de trabalho. Existia mercado e mercadorias antes do capitalismo e haverá um mercado socialista. Esse mercado socialista, transitório e controlado, pode, inclusive, ser útil para a consolidação do socialismo. A compreensão dessa questão é importante para evitar idealismos tanto na avaliação das experiências socialistas atuais como para orientar o programa econômico a ser apresentado pelos comunistas na situação da crise atual.

in LavraPalavra (com a devida vénia)

terça-feira, 23 de junho de 2020

Da baía dos porcos à baía dos leitões

Aventura na baía dos leitões

23.06.2020 às 16h11

Um bando de mercenários foi preso há dois meses ao tentar desembarcar nas costas da Venezuela, a coisa parecia um arremedo da saga do coronel Alcazar do Tintin, uma simples graçola, quando um deles veio reclamar direitos legais com papel passado em notário. A curiosidade é mesmo o contrato que os mercenários traziam no bolso

E agora um assunto completamente diferente: não é sobre a pandemia e os seus números sempre preocupantes, não são as mais cem mil pessoas desempregadas a somar à estatística, não é o fiasco anunciado da gloriosa marcha sobre Lisboa daquela “maioria silenciosa” que está no sótão desde o saudoso 28 de setembro de 1974, é sobre as desventuras de um bando de mercenários na Venezuela.
O detalhe do caso foi reportado, ao que sei, pelo "Washington Post" e, depois, replicado pela imprensa mundial, incluindo a portuguesa. E é curioso: um bando de mercenários foi preso há dois meses ao tentar desembarcar nas costas daquele país, a coisa parecia um arremedo da saga do coronel Alcazar do Tintin, uma simples graçola, quando um deles veio reclamar direitos legais com papel passado em notário. A curiosidade é mesmo o contrato que os mercenários traziam no bolso.
O grupo obedecia ao comando de um empresário norte-americano do ramo, Jordan Goudreau, que veio dar explicações. Segundo a sua versão, a sua empresa, a Silvercorp, foi abordada por representantes de Juan Guaidó, o proclamado presidente interino da Venezuela, reconhecido pela diplomacia dos Estados Unidos e pelos seus aliados, incluindo, com diversos graus de devoção, algumas chancelarias europeias.
Esses embaixadores pagaram-lhe para preparar uma operação militar: 800 soldados, sobretudo desertores do exército venezuelano e milícias de extrema-direita, deveriam ser treinados para uma invasão a curto prazo.
A empresa seria autorizada a usar sem riscos judiciais a força necessária, como o assassinato de dirigentes políticos e a morte dos militares oficialistas que resistissem, receberia um bom prémio de centenas de milhões de dólares e, depois, mais dezasseis milhões por cada mês no período de transição em que os seus serviços de segurança fossem reclamados pelos clientes. Tudo escrito em oito páginas de contrato e 41 de aditamentos, com as indicações detalhadas para a operação.
Goudreau, zangado porque os 800 voluntários não apareceram, ou os poucos que vieram se preocupavam mais com diversão avulsa do que com o garbo militar, escandalizado pelo naufrágio das lanchas dos comandos, que foram recebidos e dizimados pelo inimigo, em vez de serem festejados pela população, e, sobretudo, amofinado com a falta de pagamento, revelou o contrato e lavrou o seu protesto.
A assinatura era do braço direito de Guaidó, que viajou para os Estados Unidos para concretizar o compromisso, assinado em outubro do ano passado, e que não teve como desmentir o mercenário. É tudo verdade. É mesmo estimável que, em tempos tão turbulentos, de gigantescas conspirações e fake news, haja quem tenha o rigor processual de contratualizar por escrito os assassinatos, a invasão militar e o regime posterior, tudo para que as devidas autoridades comerciais possam aferir o cumprimento das cláusulas, a ser necessário. Só que falhou tudo, nem exército, nem dinheiro.
Trump, que, ao que revela Bolton no seu livro hoje publicado, acha que a Venezuela é parte dos EUA, veio no domingo mostrar algum arrependimento sobre a sua aposta em Guaidó. Não é para menos, o homem tem fracassado em todos os seus intentos de tomar o poder: parece que faltam as manifestações; quando tentou levantar os quartéis ficou sozinho a tirar selfies em frente ao portão; e o seu peso institucional depende mais do sequestro da direita histórica venezuelana do que de propostas realizáveis.
Não sei o que dirá o governo português, que procedeu com aquela matreirice de reconhecer Guaidó como presidente mas de manter o embaixador oficial e de, para todos os efeitos, tratar com Maduro de todos os assuntos de Estado. A Espanha já se pôs a milhas desse jogo. E a crise daquele país continua a agravar-se. Pobre Venezuela, tão destruída e tão cobiçada.

in Expresso

Hitler não era inevitável

14/06/2020
Por
Marcel Bois
Tradução
Giuliana Almada, Paulo de Tarso e Victor Alexander
A ascensão de Hitler ilustra as consequências que políticas de austeridade, inação das instituições e os erros da social-democracia podem causar em uma sociedade destruída pela depressão econômica e pela polarização política.

A sede do KPD entre 1926 e 1933. Carl Weinrother, 1932.

20 de novembro marca o aniversário dos Julgamentos de Nuremberg, quando os Aliados levaram oficiais nazistas de alto escalão oficialmente à justiça. No momento em que os Julgamentos de Nuremberg começaram em 1945, Adolf Hitler, Joseph Goebbels e Heinrich Himmler já haviam morrido há muito tempo. Em seus lugares, estavam alguns dos nazistas mais importantes que sobreviveram à guerra: políticos, generais e empresários.
Em apenas doze anos, o regime que eles representavam iniciou a Segunda Guerra Mundial — um conflito de seis anos de proporções inacreditavelmente destrutivas. O regime facilitou a tortura e o assassinato de milhares de oponentes políticos, homossexuais, pessoas com deficiência e o genocídio em escala industrial de mais de seis milhões de judeus europeus. Apenas alguns meses após o fim da guerra, algumas de suas figuras mais hediondas, como Hermann Göring, Rudolf Hess, Alfred Rosenberg e Albert Speer, seriam julgadas nos salões do Palácio da Justiça de Nuremberg.
O primeiro dos treze diferentes Julgamentos de Nuremberg durou 218 dias. Um total de 240 testemunhas foram convocadas a depor e 300.000 depoimentos juramentados foram coletados. A ata do julgamento abrangeu mais de 16.000 páginas. Em sua conclusão, doze réus foram condenados à morte, enquanto muitos outros receberam longas sentenças de prisão. O julgamento representou o primeiro passo na resolução das hostilidades entre a Alemanha e os Aliados e abriu caminho para a reintegração alemã na ordem do pós-guerra.
Para além dos procedimentos oficiais, importantes questões históricas permanecem sem solução e suscitam discussões importantes sobre a natureza humana, o papel da esquerda e a capacidade de movimentos progressistas superarem o racismo e outras opressões para lutarem juntos. A questão principal, claro, é como algo tão terrível pode ter acontecido, para começo de conversa. Como foi possível o crime mais horrível da história humana acontecer justo na Alemanha, a “terra dos poetas e pensadores”?
Alguns historiadores explicam o sucesso dos nazistas baseando-o em um antissemitismo específico, supostamente enraizado na cultura alemã. Segundo essa narrativa, os alemães, já antissemitas, só estavam esperando que um Hitler os levasse a dar o próximo passo. Outros historiadores adotam uma abordagem mais sutil, argumentando que os nazistas subornaram a população, por meio de uma série de incentivos materiais, para que apoiasse seus projetos antissemitas.
O renomado historiador Götz Aly, por exemplo, descreve o regime nazista como uma “ditadura acomodatícia”. Ele argumenta que, embora “o antissemitismo fosse uma condição prévia necessária para o ataque nazista aos judeus europeus, esse aspecto não era suficiente. Primeiro, os interesses materiais de milhões de indivíduos tiveram que ser combinados com a ideologia antissemita, antes que o grande crime que hoje conhecemos como Holocausto pudesse assumir seu impulso genocida”.
Certamente, muitos alemães (incluindo os da classe trabalhadora) apoiaram o regime nazista em determinado momento, e muitos outros foram incentivados pelas políticas econômicas nazistas a tolerar o regime. No entanto, essa leitura histórica simplifica drasticamente o complexo conjunto de condições e forças sociais na República de Weimar e ignora que nem todos os alemães receberam benefícios materiais sob o domínio nazista, tampouco eram todos entusiasmados adeptos dos nazistas. Na realidade, setores significativos da população se opuseram consistentemente ao fascismo.
A ascensão de Hitler ao poder não era, de forma alguma, inevitável; e sim o resultado de condições históricas específicas, bem como das ações (e inações) de várias forças sociais. Enquanto muitas histórias convencionais pintam o nazismo como uma espécie de projeto coletivo alemão, o que a ascensão de Hitler realmente ilustra são as reais consequências que os erros da estratégia socialista pode causar em uma sociedade destruída pela depressão econômica e pela polarização política.
O nazismo foi apenas um dos resultados possíveis da crise da República de Weimar, mas seu eventual sucesso não o torna retroativamente inevitável. Além disso, retratar o fascismo dessa forma obscurece um período histórico muito informativo, tanto para a esquerda quanto para o público em geral.

O impacto da crise de 1929

Poucos anos antes de Hitler tomar o poder, em 1933, seu Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) ainda era, em grande medida, irrelevante. Foi somente após a queda da bolsa de valores em 1929 que o total de votos saltou de oitocentos mil em 1928 para mais de seis milhões em 1930, e 37% dos votos em 1932, tornando-o o maior partido do parlamento.
O pano de fundo desse rápido crescimento foi, sem dúvida, a crise econômica em curso, que corroía as próprias fundações do capitalismo global. A enorme queda nos investimentos causados pelo crash de 1929 levou a um declínio de 29% na produção industrial global em 1932. A indústria alemã foi particularmente afetada, pois havia sido financiada por enormes empréstimos estrangeiros (principalmente estadunidenses), que entraram em colapso assim que os credores retiraram o crédito.
Na medida que muitas empresas, grandes e pequenas, faliram em todo o país, parcelas consideráveis da classe média foram jogadas na pobreza. O campesinato também sofreu com a queda dos preços de alimentos e os trabalhadores enfrentaram cortes salariais de, em média, 30%. Em 1933, o número de desempregados havia ultrapassado os 1,3 milhões de 1929, alcançando aproximadamente 6 milhões. Apenas um terço dos trabalhadores trabalhava em turno integral.
Depois que o último governo democraticamente eleito da República de Weimar deixou o cargo em março de 1930, o presidente Hindenburg nomeou um gabinete presidencial sem apoio parlamentar que utilizava, muitas vezes, decretos de emergência para governar. O chanceler de Hindenburg, Heinrich Brüning, e seu sucessor, Franz von Papen, lançaram uma política de austeridade massiva, cortando drasticamente os benefícios de desemprego, gastos sociais e pensões, ao mesmo tempo em que aumentavam os impostos sobre alimentos e bens de consumo. Como resultado, a fome generalizada tornou-se uma característica comum da vida urbana.
A política de austeridade do Estado servia aos interesses da classe de empregadores alemã. Apenas algumas semanas após o colapso de Wall Street, a Liga da Indústria Alemã exigiu que o Estado de bem-estar social fosse “adaptado aos limites da sustentabilidade econômica”, criticando os “abusos injustificados e imorais” dos benefícios da seguridade social.
Os empregadores alemães acreditavam que a crise econômica havia sido causada por um Estado de bem-estar social inchado, salários altos e poucas horas de trabalho. Sendo assim, responderam cancelando contratos, diminuindo salários e abolindo o teto de oito horas de trabalho diárias. O Estado alemão apoiou essas medidas em 1932, abolindo a negociação coletiva e o direito à greve.
A austeridade havia sido projetada para aliviar as empresas alemãs dos altos custos trabalhistas, reduzindo assim os preços de seus produtos no mercado mundial e impulsionando a economia nacional. Mas como todas as economias industriais estavam adotando estratégias de exportação semelhantes, a prometida recuperação nunca aconteceu e a pobreza não parou de aumentar.

Polarização

A crise foi mais devastadora para os desempregados e a classe média, que se tornaram os dois grupos sociais nos quais os nazistas encontraram mais apoio.
Para os artesãos, donos de pequenos negócios, funcionários públicos e proprietários de lojas, a crise os sujeitou à pressão pelos dois lados. O falecido sociólogo alemão Arno Klönne os descreveu da seguinte forma: “sentiam-se ameaçados pela crescente concentração do capital industrial e financeiro, por um lado, e pelas demandas da classe trabalhadora industrial organizada, por outro lado”. A demagogia do socialismo nacional, direcionada contra o capital financeiro e o movimento trabalhista, provou-se particularmente atraente aos membros da classe média.
A situação dos desempregados era claramente pior do que a das classes médias. À medida que o sistema de seguridade social entrava em colapso, o desemprego na Alemanha de Weimar se tornava cada vez mais uma luta amarga por sobrevivência, enquanto a disparada do desemprego impossibilitava qualquer esperança de encontrar um emprego no futuro próximo. Neste contexto, a SA e outros grupos terroristas sob o comando dos nazistas rapidamente atraíram legiões de alemães desempregados, que encontraram um novo senso de pertencimento, camaradagem e poder no nazismo. O racismo e o antissemitismo embutidos na ideologia nazista deram a muitos membros o sentimento de orgulho e superioridade sobre os judeus, estrangeiros e homossexuais a quem eram supostamente superiores.
Outro importante aspecto no sucesso do NSDAP foi a imagem que eles projetaram de si mesmos como uma alternativa radical à república existente. De acordo com Klönne, “a juventude e os desempregados de longa data” em particular estavam “mobilizados pelo desespero e impaciência; eles não podiam ser abordados com algum tipo de ‘perspectiva de longo prazo’, eles queriam emprego e pão, aqui e agora”. O Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães prometeu “medidas imediatas para remediar essa situação desesperadora”.
A partir da manipulação dessa imagem e atraindo os grupos sociais mais vulneráveis, o partido de Hitler conseguiu se tornar um verdadeiro movimento de massa em poucos anos — a SA sozinha tinha quatrocentos mil membros em 1932.
O crescimento da direita radical, todavia, é só a metade da história. Em vez de encarar os últimos anos da República de Weimar como uma guinada para a direita em todo o país, eles devem ser entendidos como um processo de polarização política que beneficiou tanto a direita quanto a esquerda.
Assim, o Partido Comunista Alemão (KPD) teve um aumento de votos de 1,3 milhão na sua primeira eleição após a crise do mercado de ações e seus membros mais que dobraram, atingindo um quarto de milhão entre 1928 e 1932. Os Comunistas exerceram uma presença visível nas ruas, organizando manifestações e participando de confrontos físicos com os nazistas.
A força total do movimento trabalhista alemão, o maior e mais poderoso do mundo na época, é evidenciada pelo fato de que, mesmo nas últimas eleições livres em novembro de 1932, apenas alguns meses antes da ascensão de Hitler, o KPD e o SPD combinados ainda terem obtido mais votos do que os nazistas. Dada sua força numérica e política antifascista, um confronto entre os nazistas e os partidos dos trabalhadores parecia inevitável.

10 de maio de 182814 de setembro de 193031 de julho de 19326 de novembro de 1932
NSDAP2.8%18.3%37.3%33.1%
SPD29.8%24.5%21.6%20.4%
KPD10.6%13.1%14.3%16.9%
Resultados das eleições parlamentares, 1928-1932
Em apelo aos membros do KPD nas páginas do jornal Militant em 1931, Leon Trotsky resumiu a situação política alemã da seguinte forma:
Se você colocar uma bola no topo de uma pirâmide, mesmo o menor impacto pode fazê-la rolar para esquerda ou para direita. Essa é a situação que se aproxima, a cada hora, na Alemanha hoje. Existem forças que gostariam que a bola rolasse para a direita e esmagasse a classe trabalhadora. Existem forças que gostariam que a bola permanecesse no topo. Isso é uma utopia. A bola não pode se manter no topo da pirâmide. Os comunistas querem que a bola role para esquerda e esmague o capitalismo.

A derrota final do trabalhismo

Os empregadores alemães também entendiam que a polarização não podia durar para sempre, mas estavam preocupados com a possibilidade de o movimento trabalhista assumir o poder. Os nazistas entenderam como capitalizar esse medo, prometendo reforçar os interesses corporativos por todos os meios necessários. Em um evento nazista organizado por industriais proeminentes, o líder da SS Rudolf Hess exibiu fotos de manifestações revolucionárias de um lado e divisões uniformizadas da SA e SS do outro:
Aqui, cavalheiros, vocês têm as forças de destruição, as quais são perigosas ameaças a suas casas de contabilidade, suas fábricas, todas as suas posses. No outro lado, as forças da ordem estão se formando, com uma vontade fanática de erradicar o espírito de turbulência […] Todos que têm, devem contribuir, para que não percam tudo o que têm!
O ex-oficial nazista Albert Krebs descreveu a cena em suas memórias: “Nem todos os capitalistas estavam particularmente entusiasmados com os nazistas, mas o ceticismo deles era relativo, tendo terminado assim que ficou claro que Hitler era a única pessoa capaz de destruir o movimento trabalhista”. Aterrorizado com a perspectiva de mais ganhos para o movimento trabalhista, o apoio do capital a Hitler cresceu rapidamente.
Trotsky ilustrou essa dinâmica de forma vívida: “A grande burguesia gosta do fascismo tão pouco quanto um homem com dor de dente gosta de arrancá-lo” — ou seja, a solução era desagradável, mas era necessária. Hitler manteve sua promessa ao capital. Após ser declarado Chanceler em janeiro de 1933, ele proscreveu tanto os partidos dos trabalhadores quanto os sindicatos dentro de poucos meses. Milhares de sociais-democratas, comunistas e sindicalistas foram presos e assassinados.
O apoio do capital foi certamente decisivo para a ascensão de Hitler, mas a vitória nazista ainda não era inevitável. Uma série de terríveis erros estratégicos por parte da esquerda alemã desempenhou um papel importante na sua queda.

A social democracia

O Partido Social Democrata Alemão (SPD) entendeu o tipo de ameaça que o NSDAP representava, e ainda assim não conseguiu travar o tipo de luta necessária para detê-lo. Em uma tentativa desesperada de frear os nazistas na tomada de poder dentro da legalidade e salvar a democracia de Weimar, o SPD seguiu a estratégia de apoiar o “ mal menor” — isto é, o governo autoritário de direita que já estava no poder — como um bastião contra Hitler (que certamente seria ainda mais radical e autoritário).
Isso envolveu o apoio à candidatura do arquiconservador Hindenburg nas eleições presidenciais de 1932 e a tolerância aos gabinetes presidenciais autoritários de Brüning e von Papen, bem como os aumentos de impostos e cortes de gastos que promulgaram. A estratégia contrariava o programa político do partido, sem mencionar os interesses materiais de seus apoiadores.
O ponto fraco desta estratégia ficou particularmente óbvio em 20 de julho de 1932, quando o Chanceler von Papen dissolveu o governo liderado pelo SPD na Prússia, o maior estado da República. O SPD já tinha organizado milícias de trabalhadores precisamente para tal situação, a assim chamada Frente de Ferro, um ano antes. Mas, quando encarou um confronto real, a liderança do partido abandonou a resistência armada, insistindo em calma e contenção.
A confederação sindical alemã (ADGB) seguiu um caminho semelhante. Muitos sindicalistas também eram membros do SPD e apoiavam a estratégia do mal menor, tolerando o governo de Hindenburg na esperança de deter os nazistas por meios constitucionais. Consequentemente, também se abstiveram de convocar uma greve geral na Prússia em 1932.
Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda nazista, estava, porém, bem ciente das implicações de 20 de julho. Como escreveu em seu diário alguns dias depois: “os vermelhos foram derrotados. As organizações deles não realizaram qualquer resistência. Os vermelhos perderam a oportunidade que tiveram. Não haverá outra”.
No final das contas, Goebbels estava certo. Como resultado do desastre da Prússia, meio milhão de eleitores abandonaram o SPD nas eleições duas semanas depois. A desastrosa ausência de resposta de julho de 1932 foi repetida seis meses depois, quando os nazistas tomaram o poder e sistematicamente evisceraram o movimento operário.

O KPD

Os comunistas foram a única organização da classe trabalhadora que organizou uma resistência extraparlamentar aos nazistas enquanto fazia oposição ao plano de austeridade do governo; mas eles também falharam. O fracasso deles se deveu principalmente à incapacidade de realizar uma análise clara do fascismo e compreender a ameaça que ele representava.
O Comitê Central usou excessivamente a palavra “fascismo” a ponto de esvaziar seu sentido. Na visão dele, o Estado alemão tinha se tornado fascista em 1930, quando o gabinete presidencial de Hindenburg assumiu. De fato, a liderança do KPD considerava todos os outros partidos no parlamento variantes do fascismo e dizia para seus membros que “lutar contra o fascismo significa lutar contra o SPD da mesma forma que se luta contra Hitler e os partidos de Brüning”.
O KPD adotou posição semelhante à de Moscou quando se baseou na teoria do “fascismo social”. Essa teoria estabelecia, como sustentara Stalin, que o fascismo e a social-democracia não eram opostos, pois funcionavam na prática como “irmãos gêmeos”. No contexto de profunda crise capitalista, era a social-democracia — ao impedir que os trabalhadores lutassem contra o capitalismo — que representava o “principal inimigo”.
Seguindo essa linha, a liderança rejeitou qualquer cooperação com o SPD, mesmo no momento de lutar contra os nazistas: “os fascistas sociais sabem que não haverá colaboração entre nós. Em relação ao Partido do Panzerkreuzer, à Polícia  Socialista e àqueles que pavimentam o caminho para o fascismo, lutar até a morte é, para nós, a única saída”.
Vários comunistas endossaram esse tipo de frase de efeito radical à medida que o KPD se tornava cada vez mais um partido dos desempregados. As organizações trabalhistas comunistas tinham praticamente deixado de existir. No outono de 1932, apenas 11% dos membros do KPD eram trabalhadores assalariados.
Desse modo, a maioria dos comunistas não via mais os sociais-democratas como colegas de trabalho, mas apenas como apoiadores da estratégia do mal menor e de acontecimentos como o “Maio Sangrento”, de primeiro de maio de 1929, quando a polícia, sob o comando do social-democrata Karl Friedrich Zörgiebel, suprimira violentamente uma manifestação liderada pelo KPD.
Para acentuar o distanciamento, a liderança do SPD recusou qualquer colaboração com os comunistas. Nesse momento, o SPD era consumido pelo fervor anticomunista, normalmente igualando comunistas e nazistas. Otto Wels, o presidente do partido, declarou, na convenção partidária de Leipzig em 1931, que “o bolchevismo e o fascismo são irmãos. Ambos têm fundamento na violência e na ditadura, independentemente do quão socialistas ou radicais eles possam parecer”.
Ao invés de oferecer à maioria da população uma alternativa política, a postura do KPD de direcionar a maior parte de sua ira contra o SPD jogou os sociais-democratas nos braços da direita, pelo menos por um curto período. O exemplo mais notório disso ocorreu em 1931, quando o KPD apoiou um referendo popular contra o governo do SPD prussiano, formado pelos nazistas e outras forças nacionalistas.

A Frente Unida

Essas políticas desastrosas foram severamente criticadas por vários comunistas dissidentes. Particularmente importantes foram Leon Trotsky e August Thalheimer. Thalheimer tinha sido o fundador do Partido Comunista de Oposição (KPO), que havia rompido com o KPD em 1929. Trotsky, um dos mais conhecidos líderes da Revolução Russa e então um proeminente dissidente comunista, liderava seus seguidores do exílio na ilha turca de Büyükada. Ambos prestavam bastante atenção aos acontecimentos na Alemanha.
O partido de Thalheimer defendia que a ascensão do fascismo somente poderia ser impedida por meio de “uma ofensiva geral planejada e abrangente” da classe trabalhadora. A ferramenta organizacional necessária para essa ofensiva seria a frente única. Trotsky concordava, afirmando que ambos os partidos eram igualmente ameaçados pelo nazismo e, dessa maneira, deviam trabalhar juntos.
A necessidade objetiva da frente única significava que a teoria do fascismo social devia ser abandonada. Enquanto o KPD se recusasse a agir dessa forma, fracassaria em estabelecer vínculos com os apoiadores do SPD: “esse tipo de posição – uma política de esquerda vazia e estridente – bloqueia antecipadamente o acesso do Partido Comunista aos trabalhadores sociais-democratas”.
O clamor por uma frente única não podia ser direcionado exclusivamente aos filiados; devia necessariamente viabilizar também negociações entre as lideranças partidárias. Uma “frente única vinda exclusivamente de baixo” não seria bem-sucedida, pois a maioria dos filiados desejava lutar contra o fascismo juntamente com seus líderes. Os Comunistas não podiam esperar que se aproximar somente dos trabalhadores sociais-democratas que estivessem dispostos a romper com seus respectivos líderes.
A importância de organizar a ação unificada mais ampla possível dentro da classe trabalhadora superava outras preocupações. Isso não significava, porém, que os comunistas deviam moderar ou suavizar suas demandas políticas.
Pelo contrário, era no contexto de uma ação unificada da classe trabalhadora que os comunistas teriam mais chances de demonstrar as suas credenciais antifascistas: “nós devemos ajudar a ação dos trabalhadores sociais-democratas – nessa nova e extraordinária situação – para testar o valor das suas organizações e dos seus líderes nesse momento em que a questão é de vida ou morte para a classe trabalhadora”.
Para garantir isso, a frente única precisava corresponder a uma ação política, não a uma colaboração parlamentar, e somente poderia ser construída em torno de um ponto central: nesse caso, a luta contra o fascismo. Era de extrema importância que os comunistas mantivessem a sua independência política e organizacional dentro da frente. O slogan de Trotsky – “marchem separados, mas protestem unidos! Estejam de acordo apenas em como protestar, contra quem protestar e quando protestar! […] Sob uma condição: não fiquem de mãos amarradas” – resumia bem a abordagem.
Os apelos de Trotsky e Thalheimer por uma frente única foram bem-recebidos por trabalhadores e intelectuais, à medida que o desejo por unidade perante a crescente ameaça nazista se espalhava compreensivelmente. Esse desejo podia ser visto na “Chamada Urgente por Unidade” emitida por trinta e três intelectuais públicos reconhecidos, incluindo Albert Einstein, na reta final para as eleições de 1932, convocando o KPD e o SPD a “finalmente tomarem a iniciativa de formar uma frente trabalhista unida que necessariamente transcendesse o âmbito parlamentar”.
Nas pequenas cidades de Bruchsal e Oranienburg, onde os apoiadores alemães de Trotsky tinham alguma influência política, foi possível formar comitês antifascistas que incluíram tanto sociais-democratas como comunistas. Em vários outros lugares em que nenhum trotskista estava presente, ativistas locais comunistas e sociais democratas simplesmente ignoraram os seus líderes e passaram a trabalhar juntos, como foi demonstrado por uma pesquisa de arquivos recente.
Joachim Petzhold, por exemplo, depois de analisar relatórios internos do Ministério do Interior referentes ao verão de 1932, concluiu que “muitos comunistas queriam se unir aos sociais-democratas contra o fascismo”. Ainda sobre esse tema, ele também destacou a “discrepância existente entre liderança partidária e filiados”.
Essa discrepância pode ser vista em um relatório policial de junho de 1932, no qual está escrito que, “durante um confronto sangrento com os nacional-socialistas […], a frente única foi na prática formada, a despeito dos antagonismos entre os dois partidos marxistas, e os comunistas são normalmente aqueles que se comportam de forma mais perceptiva e engenhosa”.
Outra passagem desse mesmo relatório destaca que “a frente única tem se formado na prática por todo o Reich. Os representantes trabalhistas do SPD colaboram com os colegas vermelhos; membros do Reichsbanner (uma milícia liderada pelos trabalhadores do SPD) atuam como delegados dos seus camaradas em reuniões comunistas; membros da Frente de Ferro em Duisburg discutem táticas da frente única no escritório do KPD; procissões fúnebres e enterros coletivos são comuns em todos os lugares, assim como manifestações compostas por vários partidos em resposta às marchas nacional-socialistas; sociais-democratas aparecem em numerosas conferências antifascistas organizadas pelo KPD; e funcionários de organizações sindicais declaram que a mão fraterna estendida pelo KPD não pode ser ignorada”.
Movimentos em direção à unidade da classe trabalhadora também ocorreram no sudeste da Alemanha. Em julho de 1932, por exemplo, Reinbold, o líder local do SPD, ofereceu uma trégua aos comunistas: “deixar de lado o que nos divide é uma demanda apropriada em virtude da grave natureza desse momento”. As lideranças locais do KPD nas cidades de Ebingen e Tübingen estenderam ofertas similares ao SPD e aos sindicatos nesse mesmo instante.
Em dezembro de 1931, casos isolados de listas eleitorais conjuntas do SPD e KPD foram observadas em Württermberg. O exemplo mais proeminente foi a união prática que se deu na pequena cidade de Unterreichenbach, onde o KPD foi dissolvido e se uniu ao SPD local para fundar um partido unificado dos trabalhadores.

Unidos pela derrota

Apesar de inspirar dinâmicas locais, o KPD já estava completamente dominado pelo stalinismo. Todas as correntes de oposição tinham sido expulsas há tempos, o que significava que seguidores fiéis da Comintern controlavam o partido e ditavam a linha de atuação, até mesmo contra a vontade dos seus membros, se necessário. A posição de Moscou era insistir na teoria do fascismo social até o final.
Quando o Presidente Hindenburg nomeou Hitler chanceler em 30 de janeiro, milhões de trabalhadores alemães estavam preparados para a luta. Protestos romperam pelo país, enquanto representantes dos trabalhadores fabris se encontravam em Berlim para coordenar uma resposta ao pedido de ação conjunta do SPD.
Infelizmente, os líderes sindicais pediam comedimento novamente. O vice-presidente do ADGB afirmou: “nós queremos que a paralização geral seja o último recurso”. O líder Theodor Leipart acrescentou: “queremos enfatizar que não somos oposição a esse governo. Entretanto, isso não pode e não irá nos impedir de também defender os interesses da classe trabalhadora perante esse governo. ‘Organização sim, manifestação não’ é o nosso lema”.
Apenas o KPD convocou uma greve geral, clamando para que todas as organizações da classe trabalhadora formassem uma frente única “contra a ditadura fascista de Hitler-Hugenberg-Papen”. Infelizmente, essas coalizões somente ocorreram em algumas cidades menores, como Lübeck. No geral, o KPD foi incapaz de exercer influência substancial sobre o movimento operário organizado; os anos de isolamento tinham colocado o partido em uma posição de completa irrelevância política.
Depois de janeiro, já era tarde demais; Hitler e os nazistas tinham derrotado o movimento operário mais forte do mundo. O KPD, o SPD e as organizações sindicais foram sumariamente colocados na ilegalidade e dizimados. Seus membros se encontraram novamente, tudo indica que pela última vez, quando estiveram lado a lado nos primeiros campos de concentração erguidos pelo novo regime.
Embora os julgamentos de Nuremberg tenham realmente levado os mais notórios criminosos nazistas à justiça, eles também reduziram o horror do fascismo às ações de alguns indivíduos particularmente cruéis, enquanto, simultaneamente, integraram esse horror a uma narrativa de culpa coletiva nacional. Nessa narrativa, ninguém e todos são culpados. “Ninguém”, no sentido de que a culpa é atribuída a oficiais do alto escalão e seus lacaios; “todos”, porque o fascismo requer o suporte das massas para se sustentar, tornando, dessa forma, todos que viveram sob o regime potenciais colaboradores.Ao invés de nos submetermos a esse dilema analítico, devemos recuperar uma visão da história que reconheça a natureza conflituosa das mudanças sociais. O fascismo nunca é inevitável; é antes o resultado de um confronto entre forças sociais radicalmente opostas. Em todos os lugares em que houver fascismo, é provável que existam socialistas e outras pessoas de esquerda lutando contra ele. Isso era verdade na Alemanha de 1933, quando a esquerda perdeu e a barbaridade nazista venceu, e continua a ser verdade na Europa de crise econômica renovada e polarização política dos dias de hoje.

in Jacobin

sábado, 20 de junho de 2020

Uma exposição clara em defesa de uma ontologia


O pensamento ontológico de Marx e os desafios da luta de classes no século XXI

Frederico Costa
“Considerado o caráter complexo e multidimensional do sistema marxista, não há motivo para surpresa pelo fato de que, apesar dos grandes esforços dos teóricos marxistas, ainda permanecem por descobrir muitos de seus tesouros e aspectos essenciais.” (Leo Kofler)
O presente texto parte do pressuposto de que o atual quadro histórico, de crise do capital e de crescente resistência das forças do trabalho, exige uma “refundação do marxismo”, ou seja, o redimensionamento do “marxismo verdadeiro”, como diria Lukács (1885-1971). Isso não deve ser confundido com qualquer tentativa de estabelecer o que ironicamente o historiador marxista e general do exército brasileiro Nelson Werneck Sodré (1911-1999) definiu como “marxímetro, isto é, um padrão para aferir da ortodoxia, a fidelidade maior ou menor às formulações dos clássicos” (1987, p. 43). É apenas a necessidade de um retorno ao ato inaugural de uma nova forma de fazer filosofia e ciência posta por Marx. Pois, a radicalidade de Marx está em compreender o movimento do real para transformá-lo revolucionariamente, de acordo com as possibilidades engendradas pelo ser social criado pela atividade humana. Assim, só partindo desse pressuposto, será possível entender os limites, contradições e contribuições dos próprios herdeiros de Marx, que vieram a conformar o que denominamos de tradição marxista, além de evidenciar as possibilidades concretas do marxismo como instrumento de emancipação humana.
Entendemos que esse movimento é essencial para enfrentarmos os desafios postos pela luta de classes ideológica por meio de três críticas urgentes. A crítica ao marxismo vulgar que com seu dogmatismo, determinismo mecânico, economicismo e esquematismo abstrato confunde não poucos interessados pela transformação social como sendo o “marxismo verdadeiro”. A crítica ao movimento de pensamento pós-moderno que rejeita as totalidades, os valores universais, a razão, o próprio conhecimento objetivo, as grandes narrativas históricas, os fundamentos materiais do ser social e a possibilidade de emancipação humana. E, finalmente, a crítica ao núcleo do pensamento social burguês, inclusive em suas versões “críticas” e de “esquerda”, por se restringir ao horizonte da sociabilidade regida pelo capital, pois mesmo que adjetivada de “cidadã”, “ética” e “justa”, não deixa de, em última instância, sustentada pela extração de mais valia e na produção e reprodução constante de desigualdades sociais.
Nessa perspectiva objetivamos neste ensaio destacar o fundamento ontológico do pensamento de Marx. Noutras palavras, expressar que a natureza materialista e revolucionária do marxismo está em não em ser uma gnosiologia, uma antropologia ou uma teoria dos modos de produção, mas em apresentar-se como uma ontologia do ser social, embora tais aspectos não deixem de estar contidos nele.
Então, no primeiro momento, buscaremos indicar o caráter polêmico da natureza ontológica da obra marxiana dentro da própria tradição marxista, procurando rastrear as razões históricas que ofuscaram ou debilitaram o núcleo ontológico das contribuições de Marx. Depois, procuraremos indicar a importância do resgate da ontologia marxiana por Lukács, delimitando aproximadamente os contornos gerais da ontologia marxiana e sua diferenciação das ontologias anteriores.
1. O marxismo é uma ontologia? Contradições e limites da tradição marxista
A definição precisa dos lineamentos histórico-filosóficos que garantem a inteligibilidade interna da tradição inaugurada por Marx, principalmente em sua dimensão ontológica, é uma problemática posta pela própria conformação da luta de classes na atualidade que se situa nos marcos das seguintes coordenadas: crise e ofensiva do capital, processo de restauração capitalista nos países do “socialismo real”, resistência e reorganização das forças do trabalho, pensamento pós-moderno e estruturação de uma estratégia revolucionária socialista. Na verdade, qualquer reflexão posta dentro do horizonte da tradição marxista frente à desintegração do marxismo vulgar e à agressividade do pensamento burguês manipulatório ou pós-moderno, deve responder à questão: Marx fundou ou não uma ontologia do ser social?
Tal questão não é ponto pacífico. Em primeiro lugar pelo caráter especulativo frequentemente ligado à tradição da reflexão ontológica. Primeiro, por exemplo, pensemos no caráter idealista das ontologias de Aristóteles (384-322 AEC), Tomás de Aquino (1225-1274) e Hegel (1770-1831). Segundo, pela tendência gnosiológica, própria do neopositivismo e do irracionalismo pós-moderno, que hiperdimensiona o sujeito mesmo quando busca negá-lo. Terceiro, pelo sócio-centrismo, que dissolve a natureza nas relações sociais, ou seja, não tendo esta, portanto, mais uma existência autônoma. Por último, pela perspectiva de colocar a práxis como o núcleo da problemática do marxismo dissociada de sua fundamentação concreta no metabolismo entre o homem e a natureza. Assim, a título de exemplo, a assertiva contrária a uma ontologia marxiana pode ser encontrada nas leituras mais díspares entre si dentro da própria tradição marxista.
Para Althusser (1918-1990), destacado teórico marxista vinculado ao Partido Comunista Francês – com inúmeras reflexões polêmicas, como, por exemplo, a relação entre ideologia e ciência, o conceito de corte epistemológico, a contraposição entre o “jovem Marx” e o “Marx maduro”, entre outras -, qualquer impostação ontológica é vista como um obstáculo epistemológico oriundo da ideologia do humanismo teórico:
Quais problemas reais podemos descobrir por trás das noções do humanismo teórico, revogados em sua impostura e em sua pretensão teórica? Cito os problemas essenciais, em correlação com os obstáculos epistemológicos principais que lhes “correspondem”. 1. Problema da definição da espécie humana ou da diferença específica que distingue as formas de existência da espécie humana das formas de existência das espécies animais (obstáculos: as noções de essência genérica do homem, de consciência etc.); 2. Problema da estrutura das formações sociais (obstáculos: as noções de Homem, da essência genérica do Homem, de coração ou de intersubjetividade, de consciência, de Sujeito etc.); 3. Problema da dialética da história como processo sem sujeitos (obstáculos: as noções de Homem, de Gênero, de sujeito, de alienação, de dialética-teleológica); 4. Problema das formas da individualidade (obstáculos: as noções de Homem, de Gênero, de indivíduo, de sujeito, de concreto etc.); Problema da natureza do ideológico (obstáculos: as noções de Homem, de consciência, de subjetividade etc.). (2002, p.52).
Aliás, Althusser, reproduzindo a divisão do marxismo em duas disciplinas básicas, materialismo dialético e materialismo histórico, entende a primeira como a filosofia marxista, a qual seria uma teoria do conhecimento de novo tipo:
“Essa nova teoria não pode mais ser o que era na teoria clássica do conhecimento, ou seja, uma teoria das condições formais intemporais do conhecimento, do cógito (Descartes, Husserl), das formas ‘a priori’do espírito humano (Kant), nem uma teoria do saber absoluto (Hegel). A nova teoria só pode ser uma teoria da história da produção dos conhecimentos, isto é, uma teoria das condições reais (materiais e sociais de um lado, e condições internas à prática científica, de outro) do processo desta produção. Além disso a nova teoria modifica completamente o problema tradicional da ‘teoria do conhecimento’: ao invés de colocar a questão das garantias do conhecimento, coloca a questão do mecanismo de produção de conhecimentos enquanto conhecimentos.” (1986, p. 43-44).
Para Caio Prado Júnior (1907-1990), que tantas contribuições trouxe para a historiografia brasileira e para divulgação do marxismo, o núcleo estruturante do pensamento de Marx também é a teoria do conhecimento:
“[…] o que se observará com toda clareza na obra de Marx, consiste no fato que, historicamente, é afinal na consideração do Conhecimento do Homem (aquilo que seriam as nossas ‘ciências humanas’ de hoje, e naturalmente o tema marxista por excelência) é aí, bem como no método de elaboração desse Conhecimento, que se revelaria com precisão o conjunto e generalidade do problema filosófico, isto é, a determinação em sua totalidade, e a caracterização do Conhecimento do Conhecimento que vem a ser o conteúdo e objeto central e geral da Filosofia, e onde ela encontra, em toda sua plenitude, o terreno que lhe é próprio e específico no complexo geral do Conhecimento.” (1981, p. 82).
Interessante, que mesmo quando, numa atitude de coragem intelectual para época, Caio Prado Júnior critica o modismo althusseriano, o faz sob a perspectiva da teoria do conhecimento como núcleo estruturador da filosofia:
O menos que se pode dizer de Althusser é sua originalidade, direi mesmo extravagância, de tão aberrante do ordinário e corrente é sua interpretação do marxismo, e tão insólita a maneira como vê esta questão central da Filosofia que é a teoria do conhecimento. (1971, p. 73).
Já para Benoit, crítico de Althusser e da dualidade materialismo histórico/materialismo dialético, a tentativa de encontrar uma ontologia na obra de Marx é resultado de um transpassamento ilegítimo da lógica hegeliana à perspectiva marxiana, pois qualquer postura ontológica estaria associada à velha metafísica: “[…] a idéia de uma ontologia dialética não-metafísica é algo incongruente do ponto de vista conceitual e, evidentemente, também, nesse sentido parece-me insustentável uma ontologia dialética marxista.” (2003, p. 19).
Apesar de paradoxais, tais posturas anti-ontológicas são fruto, no nosso entender, do processo de divulgação e desenvolvimento posterior do pensamento marxiano, que veio a se constituir na denominada tradição marxista, a qual mesmo produzindo significativos avanços históricos para que o trabalho fosse liberto dos grilhões do capital, importou também – condicionada pelas mais diversas determinações culturais, sociais e econômicas –, numa série de desfigurações teóricas provocadas pela intromissão de elementos alheios à essência da obra marxiana. Caso típico foi o do denominado “marxismo da Segunda Internacional”. É bom destacar que Internacional Operário Socialista ou Segunda Internacional, foi um avanço na organização política do movimento operário. Diferentemente da I Internacional (1864-1876), constituiu-se como uma federação de partidos social-democratas. Sua estruturação foi resultado do fortalecimento e crescimento gradual dos movimentos socialistas e sindicais após a derrota da Comuna de Paris em 1871, da perda do monopólio industrial da Inglaterra com o conseqüente desemprego e crise econômica que levaram a um novo sindicalismo, do processo de lutas do movimento operário alemão, da constituição de partidos operários, e, do deslocamento de um setor da intelectualidade para o movimento socialista. O marxismo foi considerado doutrina oficial da Segunda Internacional desde 1896.
Portanto, a crítica ao “marxismo da Segunda Internacional”, não significa que não tenham ocorrido conquistas teóricas, organizativas e políticas para a herança marxista e para o proletariado no contexto da luta de classes à época. Pensemos, por exemplo, nas conquistas trabalhistas, na expansão dos partidos operários e nas contribuições teóricas de figuras exponenciais como Karl Kautsky (1854-1938), Gueorgui Plekhanov (1856-1918), Antonio Labriola (1843-1904), Kranz Mehring (1846-1919), entre outros, nas áreas da história, arte, economia, questão agrária, cultura e política. Porém, por uma série de determinações históricas, o núcleo ontológico-emancipatório marxinao se viu tolhido pelas posturas hegemônicas, deterministas-naturalistas e reducionistas, típicas do período. Esse obscurecimento é explicável levando em consideração alguns elementos condicionantes daquele contexto histórico.
Marx não constituiu um sistema filosófico no sentido tradicional, e também, por motivos alheios à sua vontade e à de Engels, não levou a termo, de forma articulada explicitamente, seus pressupostos filosóficos. Além disso, há a agravante de que trabalhos essenciais para a compreensão do desenvolvimento de sua obra permaneceram inéditos durante décadas – basta chamar a atenção para o fato de que os Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844) e A Ideologia Alemã (1847) apareceram completos, pela primeira vez, na língua original, em 1932, enquanto a Crítica da Filosofia Hegeliana do Direito (1843) foi publicada em 1927 e os Grundrisse der Kritik der Politischen Okonomie (1858-1859) têm sua primeira publicação efetiva apenas em 1953. Além disso, de acordo com Hobsbawn:
“[…] os partidos social-democratas de massa não haviam realizado, antes de 1914, nenhuma tentativa séria de fazer seus membros lerem os textos de Marx e Engels, com a possível exceção de Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico e, em menor medida, do Manifesto.” (1987, p. 432).
Outro elemento condicionante foi o horizonte ideológico-cultural da sociedade burguesa no período de estruturação política do movimento operário. As últimas décadas do século XIX, em especial na Europa e Estados Unidos, caracterizaram-se por uma expansão do capitalismo no mundo, o que, por um lado possibilitou a ampliação e a organização da classe operária e, por outro, significou um período de intensas disputas militares e conquistas coloniais, de ideologias de superioridades proclamadas, de desenvolvimento exponencial da produção e do comércio internacional, portanto, de inovações tecnológicas e de avanço científico. Nesse contexto, a ciência passou a servir cada vez mais a objetivos práticos, a oferecer resultados imediatos, a apresentar processos viáveis de utilização de matérias-primas ou de multiplicação de mercadorias, abrindo assim novas possibilidades para a acumulação capitalista.
Esse amplo desenvolvimento das forças produtivas não deixou de repercutir na cultura, na ciência e na filosofia e, portanto, no movimento socialista. Novas correntes de pensamento buscaram dar forma racional às transformações ininterruptas que aconteciam. O evolucionismo, oriundo das revolucionárias descobertas de Charles Darwin (1809-1882), ganhou forma filosófica com Herbert Spencer (1820-1903), enquanto o positivismo, em sua forma laica, elevou-se a método predominante de pensar nos meios científicos. No mesmo ritmo, avançaram as pesquisas que tentaram explicar o funcionamento da história, da sociedade, da mente e da atividade dos indivíduos. Tudo isso tendia, por meio de generalizações apressadas e desligadas da legalidade própria das esferas que se pretendia estudar, a reduzir fenômenos sociais e psicológicos à dinâmica própria da natureza: foi o império do determinismo, do monismo, do físico-quimismo e do naturalismo na literatura.
Portanto, nesse ambiente cultural e na ausência de sistematização dos fundamentos filosóficos da obra marx-engelsiana, os marxistas da primeira geração posterior a Marx e Engels encontraram-se:
“[…] muito freqüentemente deslocados e indefesos em relação aos adversários, sem um sistema doutrinário para opor às suas críticas, e acabaram aprofundando a aridez daquele ecletismo incoerente, segundo o qual seria preciso “completar”, de fora, as doutrinas econômicas de Marx, por exemplo, com Mach no plano físico, com Kant no plano ético e com as teorias positivistas da arte no plano estético.” (Oldrini, 1999, p. 69).
A ausência de princípios teóricos sólidos oriundos do próprio cerne da obra marxiana induziu o marxismo da Segunda Internacional de maneira predominante, a sofrer profundas deformações. O próprio Engels, de certa maneira, reconheceu a fragilidade teórica do movimento socialista da Segunda Internacional, ao identificar a influência de Dühring () nas fileiras da social-democracia alemã, e ser forçado a “deixar de parte outros trabalhos” para travar uma batalha ideológica de defesa, explicitação e divulgação dos fundamentos do marxismo no clássico Anti-Dühring. De acordo com Engels:
“[…] parte da imprensa socialista se pôs a dar boas-vindas ao novo apóstolo, com um entusiasmo que não unicamente condescendência, mas deixava transparecer alguma inclinação para acolher, sem reservas, o senhor Dühring, e, o que é mais, a doutrina do senhor Dühring […] Havia mesmo pessoas que já se julgavam no dever de difundir a doutrina entre os trabalhadores”. (1979, p. 5).
Enquanto na esfera política consolidou-se o reformismo, isto é, o distanciamento cada fez maior entre o programa mínimo – de reformas parciais no horizonte do capitalismo – e o programa máximo – de superação da própria ordem burguesa. O que não deixou de ser percebido por marxistas revolucionários como Rosa Luxemburg (1871-1919), que em polêmica com a social-democracia alemã, identificava as raízes do reformismo:
“Atualmente o que está em causa é todo o último capítulo da evolução do moderno movimento operário durante estes últimos 25 anos […] A queda da Comuna de Paris tinha selado a primeira fase do movimento operário europeu e o fim da Primeira Internacional. A partir de então começou uma nova fase. As revoluções espontâneas, as evoluções, os combates nas barricadas, depois dos quais o proletariado recaía de cada vez no seu estado passivo, foram então substituídos pela luta quotidiana sistemática, pela utilização do parlamentarismo burguês, organização das massas, união entre a luta econômica e a luta política, união do ideal socialista à defesa dos interesses quotidianos imediatos.” (1974, p. 10-11)
Tal movimento ideológico não poderia deixar de se expressar na esfera filosófica:
“No plano filosófico, o marxismo tropeça em limites de caráter economicista, pois a maioria tende a fazer dele uma doutrina de uma só linha (unilineare), na qual a economia determina rigidamente todos os outros planos da realidade. A frase juvenil de Marx – “é o ser social dos homens que determina a consciência, e não a consciência que determina o seu ser” – é entendida ao pé da letra, no sentido da existência de uma relação causal entre estrutura e superestrutura, economia e ideologia, com a conseqüente redução do marxismo a um rígido determinismo” (Oldrini, 1999, p. 69).
Esse determinismo de cunho quase naturalista da Segunda Internacional estava associado a uma postura de negligenciar os aspectos filosóficos presentes na obra marxiana. Em Kautsky, principal teórico da Segunda Internacional, isso é evidente:
“Para Marx, pelo contrário, a luta de classes não era mais do que uma forma da lei geral da evolução da Natureza, que de modo nenhum tem um caráter pacífico. A evolução é, para ele […] ‘dialética’, quer dizer, o produto de uma luta de elementos opostos que surgem necessariamente. Todo o conflito destes elementos irreconciliáveis deve finalmente conduzir ao esmagamento de um dos dois protagonistas e, por conseqüência, a uma catástrofe. Esta pode preparar-se muito lentamente, a força dum antagonista pode crescer imperceptivelmente, mas, por fim, o derrubamento de um dos antagonistas será inevitável, após a luta e o crescimento em força do outro. Todos os dias, a cada passo, encontramos pequenas catástrofes na Natureza, como na sociedade. Cada morte é uma catástrofe. Todo o ser e todas as coisas devem sucumbir perante a preponderância de um antagonista. Não é apenas verdade para as plantas e para os animais; também o é para sociedades inteiras e para impérios, como para corpos celestes” (2002, p. 22).
De acordo com Markus, a:
“[…] idéia de filosofia marxista é uma idéia recente. Para os teóricos da Segunda Internacional, ela parecia estranha ou mesmo paradoxal. O marxismo não era para eles uma filosofia, mas uma ciência positiva, carente de qualquer julgamento de valor ou de qualquer tomada de posição ideológica, uma ciência que descrevia e explicava o processo necessário que uma formação social determinada segue desde seu nascimento até o seu desaparecimento, trate-se do capitalismo ou de qualquer outra forma social. Segundo alguns teóricos da social-democracia alemã (Mehring, por exemplo), o marxismo colocou um fim definitivo à filosofia, considerada como fantamasgoria especulativa. Para outros, a teoria social do marxismo devia ser completada por uma ética ou uma filosofia ou uma filosofia especulativa (por exemplo, Bernstein, Max Adler e Kautsky).” (1974, p. 115).
É importante destacar que a confirmação de uma filosofia imanente ao marxismo, “[…] implicava na universalidade teórica do marxismo e se opunha, nesse ponto, tanto ao oportunismo da Segunda Internacional quanto às ideologias burguesas” (idem, p. 115). Por isso, a reflexão sobre uma filosofia marxista vinculou-se à ruptura com o reformismo da Segunda Internacional, à Revolução Russa e à reorganização política do proletariado em termos revolucionários, isto é, de ruptura com os limites da sociabilidade burguesa.
Tal tendência, porém, tornou-se marginal – lembremos, por exemplo, das vozes dissonantes de Antonio Gramsci (1891-1937), Karl Korsch (1886-1961) e o primeiro Lukács marxista – juntamente com os aportes leninianos, frente ao engessamento do marxismo como filosofia de Estado pelo extrato social privilegiado que expropriou do poder político o proletariado na União Soviética. Essa era uma camada social contra-revolucionária e não uma nova classe social, porque:
A burocracia não é uma nova classe dominante. Não representa qualquer papel indispensável no processo de produção. É uma camada privilegiada que usurpou o exercício das funções de gestão no Estado e na economia soviética, e que, sobre a base desse monopólio do poder, se arroga substanciais vantagens no domínio do consumo (remunerações elevadas, vantagens em espécie, armazéns especiais, etc.). Não é proprietária dos meios de produção. Não detém nenhuma garantia de conservar essas vantagens nem de as transmitir aos seus filhos; tudo está ligado ao exercício de funções específicas. (Mandel, 1978, p. 174).
Essa burocracia, que teve sua expressão teórico-política no stalinismo, produziu uma escolástica laica mal denominada de “marxismo-leninismo”, bifurcada em materialismo dialético e materialismo histórico. De acordo com os cânones do “marxismo-leninismo” stalinista, no materialismo dialético, Marx teria concebido uma “ciência geral do ser” que englobaria a natureza, a sociedade e o pensamento, independentemente de suas determinações específicas. Noutros termos, Marx seria um fundador de uma nova “filosofia geral” que forneceria a explicação coerente do ser em todas as suas modalidades, natural ou social. Tal filosofia marxista aplicada ao ser social constituiria o materialismo histórico, o qual teria como objeto as leis de evolução mais gerais da sociedade. Stálin (1878-1953), num texto clássico – Materialismo dialético e materialismo histórico – afirma, referindo-se ao que considera as disciplinas basilares do marxismo:
“O materialismo dialético é a teoria geral do Partido marxista-leninista. O materialismo dialético é assim chamado, porque a sua maneira de conceber os fenômenos da natureza, o seu método de investigação e de conhecimento é dialético e a sua interpretação, a sua concepção dos fenômenos da natureza, a sua teoria é materialista. O materialismo histórico estende os princípios do materialismo dialético ao estudo da vida social; aplica estes princípios aos fenômenos da vida social, ao estudo da história da sociedade”. (1985, p. 13)
Sem adentrarmos nos limites dessa clivagem, é interessante destacar que ela não encontra lastro na obra marxiana. Primeiro, porque há a suposição de que a obra de Marx conteria uma filosofia da natureza, na medida em que esta se institui como uma teoria geral. Segundo, porque é problemático mesmo baseando-se em alguns elementos da Ideologia Alemã ou no manuscrito inacabado de Engels Dialética da Natureza, sugerir tal posição de forma peremptória. Terceiro, porque essa interpretação, no limite, tende a projetar na obra de Marx todo um conjunto de elaborações do que foi e é a tradição marxista que, muitas vezes, ignorava ou subestimava a relação específica entre Marx e Hegel, tendendo a fazer uma leitura rigorosamente cientificista e positivista de Marx. Portanto, podemos compreender porque não poucas vezes construtos pós-marxianos, condicionados por leituras reducionistas e interessadas, expressando de forma contraditória os retrocessos da própria atividade revolucionária do proletariado – como o processo de burocratização da social-democracia alemã e a contra-revolução ocorrida da URSS a partir de meados da década de 20 do século passado – sejam vistos por críticos do marxismo, como fazendo parte da própria natureza da perspectiva inaugurada por Marx.
O cerne da obra marxiana é, muitas vezes, visto e divulgado como um determinismo economicista em que a consciência comparece como um epifenômeno das relações materiais. Mesmo quando Engels, em 1890, em carta a Joseph Bloch (1871-1936), já criticava a leitura economicista e reducionista do marxismo:
“Segundo a concepção materialista da história, o momento em última instância determinante [in letzterInstanz bestimmende], na história, é a produção e reprodução da vida real. Nem Marx nem eu alguma vez afirmamos mais. Se agora alguém torce isso [afirmando] que o momento econômico é o único determinante, transforma aquela proposição numa frase que não diz nada, abstrata, absurda. A situação [Lage] econômica é a base [Basis], mas os diversos momentos da superestrutura [Überbau] – formas políticas da luta de classes e seus resultados: constituições estabelecidas pela classe vitoriosa uma vez ganha a batalha, etc., formas jurídicas, e mesmo os reflexos [Reflexe] de todas as lutas reais nos cérebros dos participantes, teorias políticas, jurídicas, filosóficas, visões [Anschauungen] religiosas e o seu ulterior desenvolvimento em sistemas de dogmas – exercem também a sua influência [Einwirkung] sobre o curso das lutas históricas e determinam em muitos casos prepoderantemente [vorwiegend] a forma delas.” (1985, p. 547).
2. Existe uma ontologia marxista, imanentemente materialista e revolucionária
É com as pesquisas lukacsianas que vem à tona a problemática ontológica como aspecto essencial da obra marxiana. Quando Lukács termina sua Estética na década de 1960 e, antes de iniciar sua projetada Ética, empreende, num esforço que consumiu aproximadamente seus últimos oito anos de vida, a produção de sua Ontologia do ser social como uma ampla introdução à citada Ética. E, aqui é de fundamental importância frisarmos o caráter provisório do estudo e das conclusões sobre a Ontologia de Lukács, obra rica, complexa e inovadora como foi a Fenomenologia do Espírito de Hegel, ou as principais obras de Marx, como entre outras, os Manuscritos Econômico-Filosóficos, a Ideologia Alemã e O Capital. Talvez nem o próprio Lukács tivesse consciência da inovação e das descobertas contidas em sua reflexão. Ainda mais que, quando Lukács a está redigindo encontra-se mal de saúde, devido ao câncer no pulmão, não chegando a ter a Ontologia uma redação final. Isso faz necessariamente com que os estudos da Ontologia até hoje sejam muitos parciais e até certo ponto transitórios. Também, não há até o presente momento nenhum estudo global sobre a Ontologia, isto é, nenhum trabalho que trate da Ontologia em sua totalidade ou pelo menos contemple sua parte sistemática composta por quatro capítulos, quais sejam: trabalho, reprodução, ideologia e estranhamento.
Segundo Lukács, Marx instaura os fundamentos de uma ontologia de novo tipo. Marx pensa as relações do homem com sua história não de uma maneira especulativa, mas da perspectiva do ser social historicamente determinado, o que conduz a uma orientação radicalmente nova tanto das relações do indivíduo com sua história, como com a história do gênero – dimensões imanentes que constituem o processo histórico global.
Portanto, Marx, ao afirmar a mutabilidade do existente, critica radicalmente a suposta perenidade da sociedade burguesa. Com a superação do capitalismo há a possibilidade de iniciarmos a produção da história – sairmos da pré-história – e não o fim desta. Com isso, muda toda a reflexão e o tratamento de todas as categorias ontológicas. Tudo se integra na processualidade histórica, nada podendo ser anistórico. Categorias como, por exemplo, essência, fenômeno, singular, particular, universal, mediação e continuidade, são redimensionadas tendo como pressuposto que não são pensadas aprioristicamente em relação ao processo histórico que lhe dá efetividade, isto é, elas não têm sentido a não ser em suas existências concretas e nas suas possibilidades. Isso caracteriza a obra de Marx como uma verdadeira revolução teórica que instaura uma ontologia de novo tipo, e não uma simples vertente ontológica especulativa.
Assim, o núcleo estruturante da perspectiva inaugurada por Marx se constitui como uma ontologia – importante “[…] não esquecer que as categorias exprimem, portanto formas de existência, condições de existência determinadas […]” (Marx, 1983, p. 224). Por isso, Lukács afirma que:
“[…] qualquer leitor sereno de Marx não pode deixar de notar que todos os seus enunciados concretos, se interpretados corretamente (isto é, fora dos preconceitos da moda), são entendidos – em última instância – como enunciados diretos sobre um certo tipo de ser, ou seja, são afirmações ontológicas.” (1979, p. 11).
Noutras palavras, o pensamento de Marx opera em primeiro plano com o que é o real, para aferir as questões epistemológicas e metodológicas impostas pelo ser para o seu conhecimento. Tal impostação fundante do ser sobre a esfera gnosiológica se expressa no Ad Feuerbach de maneira contundente, permitindo conclusões sobre a hierarquia entre ontologia e teoria do conhecimento dentro do pensamento marxiano, como identifica Chasin (1937-1998):
“[…] a Tese I estabelece a natureza da existência social, decifrada em termos de atividade sensível, e apenas na II toma lugar o problema do conhecimento, sendo este resolvido, o que tem peso demonstrativo, a partir do complexo de entificação firmado na primeira. Ou seja, a determinação do que – é – antecede a admissão e o tratamento de temas gnosio-epistêmicos. Ao contrário de qualquer abordagem sob critério gnosiológico, em que um pré-discurso nesse diapasão pretende fundamentar o discurso propriamente dito a respeito do objeto, no pensamento marxiano o tratamento ontológico dos objetos, sujeito incluso, não só é imediato e independente, como autoriza e fundamenta o exame da problemática do conhecimento. O exame desta é que depende de critério ontológico, e só por meio deste é que pode ser concebida em seu lugar próprio e na malha das relações devidas que propiciam sua adequada investigação. Lugar derivado e subseqüente na ordem dos discursos, uma vez que o conhecimento, sendo, entre outras, uma relação específica entre sujeito e objeto, pressupõe para efeito de sua abordagem a determinação preliminar das figuras obrigatórias nele envolvidas, o que promove sua inserção na rede das correlações em geral entre sujeito e objeto, facultando ser determinado em sua especificidade e em suas condições reais de possibilidade.” (1995, p. 400-401).
A pontuação ontológica formulada por Marx revela-se em suas primeiras inflexões anti-especulativas presentes desde a década de quarenta do século XIX. A partir de 1843, Marx iniciou um processo de instauração de novos referenciais teóricos que se contrapuseram à especulação, ao logicismo e à abstratividade, sustentados por uma razão auto-suficiente, o que é próprio do idealismo, em especial o de Hegel. Em Marx há, desde que começou a andar com os seus próprios pés, a postura teórica de identificar a importância da objetividade. Objetividade tanto no seu sentido geral da causalidade espontânea natural, quanto da realidade humana que se auto-constitui pelo trabalho.
Entendemos, pois, que é o reconhecimento por parte de Marx, da posição hierárquica fundante do mundo sobre a subjetividade que institui o perfil ontológico imanente que irá caracterizar a revolução teórica marxiana, pois aí surge toda a radicalidade da crítica de natureza ontológica que:
“[…] organiza a subjetividade teórica e assim faculta operar respaldado em critérios objetivos de verdade, uma vez que, sob tal influxo da objetividade o ser é chamado a paramentar o conhecer, ou, dito a partir do sujeito: sob a consistente modalidade do rigor ontológico, a consciência ativa procura exercer os atos cognitivos na deliberada subsunção, criticamente modulada, aos complexos efetivos, às coisas reais e ideais da mundaneidade” (Chasin, 1995, p. 362-363).
É esse instrumental teórico de novo tipo que permite romper, a partir de 1843, com o círculo de ferro do idealismo hegeliano, da especulação neo-hegeliana e da circularidade do político para buscar uma nova inteligibilidade para o social. Marx critica Hegel, por este deduzir a racionalidade dos fatos e processos não do seu encadeamento concreto, mas de um sujeito que estes expressariam – a “ideia”, isto é, o pensamento pensado. Portanto, em relação à dimensão ontológica podemos afirmar que:
Essa é viga mestra da arquitetura teórica marxiana, que fará Marx criticar a ideologia liberal ao diferenciar emancipação política de emancipação humana em A questão judaica; indicar os limites especulativos dos jovens hegelianos em A sagrada família; orientar-se para a crítica da economia política e descobrir a centralidade do trabalho nos Manuscritos econômico-filosóficos; delimitar os contornos de uma ontologia do ser social na Ideologia alemã, e, conduzir a sua obra de maturidade, O Capital, onde reproduz com a máxima fidelidade e precisão a legalidade imanente que rege as origens, o surgimento, o desenvolvimento, a decadência e o potencial desaparecimento do capitalismo, e as possibilidades contidas neste ser social historicamente determinado que podem conduzir à efetiva emancipação humana, ou seja, ao comunismo. (Costa, 20.., p.)
Conclusão
No século XXI, a apropriação do marxismo em toda sua riqueza ontológica é essencial para as forças do trabalho em seu confronto com o capital e a decadente sociedade burguesa. Pois, os espíritos dos mortos continuam a oprimir a consciência dos vivos, principalmente da nova geração de lutadores. Velhos fantasmas são reeditados, do reformismo mais cínico ao esquerdismo mais desvairado. As próprias conquistas do movimento operário e da tradição marxista, ora são esquecidas e renegadas, ora são enaltecidas acriticamente.
Porém, a “refundação do marxismo” sobre bases ontológicas não significa despejar a água suja da banheira juntamente com a criança, desprezando os aportes teóricos e políticos do conjunto da tradição marxista, do “marxismo da Segunda Internacional” à Escola de Frankfurt, por exemplo. As diversas tendências da tradição marxista, mesmo de forma contraditória, desconhecendo a natureza ontológica do pensamento marxiano e até combatendo-o, não deixaram de dar respostas às exigências postas pela luta de classes e pelos novos fenômenos da sociedade burguesa a partir de uma compreensão, muitas vezes equivocada de Marx, mas nem por isso de menos importância para o projeto de emancipação humana ou para a estratégia socialista.
Na verdade, não existe um marxismo ontologicamente correto, puramente codificado, e uma série de desvios revisionistas que merecem ser banidos do horizonte marxista. O que existe é a necessidade de retomar o fundamento ontológico do marxismo em sua perspectiva de emancipação humana – de estratégia revolucionária para a superação do capitalismo e construção da sociedade comunista -, e um conjunto de aportes teórico-políticos de uma tradição marxista que deve ser posto sob o crivo da crítica ontológica do processo de autoconstrução humana orientada para o reino da liberdade:
“a emancipação humana só estará plenamente realizada quando o homem individual real tiver recuperado para si o cidadão abstrato e se tornado ente genérico na qualidade de homem individual na sua vida empírica, no seu trabalho individual, nas suas relações individuais, quando o homem tiver reconhecido e organizado suas “forces propes” [forças próprias] como forças sociais e, em conseqüência, não mais separar de si mesmo a força social na forma da força política” (Marx, 2010, p. 54).
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Notas
Este texto está fundado, com algumas modificações, em trabalho apresentado na IV Conferencia Internacional “La obra de Carlos Marx y los desafíos del siglo XXI”, em Havana, Cuba, 2007 e, no artigo “A natureza ontológica do pensamento de Marx e os desafios da atualidade” publicado na Revista Eletrônica Arma da Crítica nº 1.
“Na URSS, o estalinismo é a expressão da degenerescência burocrática do primeiro Estado operário, no qual uma camada social privilegiada usurpou o exercício do poder econômico e político.” (idem, p. 179).
in Esquerda.Net

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