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segunda-feira, 30 de maio de 2022

 

9 h 
Anexo em seguida um óptimo artigo de um jornalista suiço (Guy Mettan), ao qual retirei algumas partes e tentei melhorar o português. O meu obrigado ao amigo Eurico que me enviou o original.
"As análises dos peritos mais qualificados (em particular dos americanos John Mearsheimer e Noam Chomsky), as investigações de jornalistas como Glenn Greenwald e Max Blumenthal, e documentos apreendidos pelos russos – a intercepção de comunicações do exército ucraniano a 22 de janeiro e um plano de ataque apreendido num computador abandonado por um oficial britânico – mostram que esta guerra foi inevitável e muito improvisada.
Uma guerra inevitável e improvisada
Inevitável, porque desde a declaração de Zelensky, em abril de 2021, sobre a possível recaptura da Crimeia à força, ucranianos e americanos decidiram desencadeá-la o mais tardar no início deste ano. A concentração das tropas ucranianas no Donbass desde o verão, as entregas maciças de armas pela NATO durante muitos meses, o treino acelerado de combate dos regimentos azov e do exército, a intensificação do bombardeamento de Donetsk e Luhansk pelos ucranianos, em particular entre 16 e 23 de fevereiro (tudo isso permaneceu ignorado pelos meios de comunicação ocidentais, claro), provam que uma grande operação militar estava planeada por Kiev para o final do inverno. O objetivo era fazer como na Operação Tempestade lançada pela Croácia contra a Krajina sérvia em agosto de 1995 e apreender o Donbass numa ‘blitzkrieg’, sem dar tempo aos russos para reagirem, de modo a tomar o controlo de todo o território ucraniano e tornar possível a rápida adesão do país à NATO e à UE. Isso explica porque é que os Estados Unidos tinham vindo a anunciar um ataque russo desde o outono: sabiam que uma guerra iria ocorrer, de uma forma ou de outra.
Improvisada, porque a reação russa foi preparada e feita à pressa. Notando que as manobras diplomáticas da NATO – não resposta dos EUA às suas propostas, Blinken-Lavrov reunidos em Genebra em janeiro, os apelos de Zelensky para a calma e a mediação de Macron-Scholz em fevereiro – não estavam a ter efeito, ou eram incapazes de ter sucesso, e talvez apenas servissem para os pôr a dormir, os russos retaliaram de uma forma magistral e muito arriscada. Decidiram tomar a iniciativa de atacar primeiro em cerca de dez dias (reconhecimento das repúblicas, acordo de cooperação e operação militar), a fim de apanhar os ucranianos de surpresa.
E em vez de atacarem um exército bem equipado e solidamente fortificado, decidiram contorná-lo com uma vasta manobra de cerco/desvio, implantando-se em três frentes ao mesmo tempo, norte, centro e sul, de modo a destruir a aviação e o máximo de equipamento desde as primeiras horas e perturbar a resposta ucraniana. Se tivessem deixado a Ucrânia atacar primeiro, a sua situação tornar-se-ia crítica e teriam sido derrotados ou condenados a uma guerra interminável de desgaste no Donbass. Recorde-se que os números russos são ridículos: 150.000 homens contra 500.000 ucranianos, contando com a Guarda Nacional.
Dadas as circunstâncias, e apesar dos soluços e perdas do início, a operação russa terá sido um êxito e será um marco na história militar, se não um modelo a nível humano, é claro. Com esta fase concluída, os russos podem agora concentrar-se no seu principal objectivo, nomeadamente a liquidação de Mariupol detida pelo regimento neonazi azov e a redução do caldeirão de Kramatorsk, onde a maior parte do exército ucraniano está entrincheirado. Depois disso, podem decidir se querem lançar os seus tanques através da planície ucraniana para Lviv ou parar por aí.
Vencedores e vencidos
Analisemos agora o aspeto político. Quem são os verdadeiros vencedores e vencidos desta guerra? Há um verdadeiro vencedor, vencedores menores e muitos perdedores. O maior vencedor é, sem dúvida, os Estados Unidos. Há que reconhecer que a equipa Biden, apesar da senilidade do seu presidente, tem manobrado magistralmente. Ao sair do Afeganistão em agosto passado, abriu-se aos olhos da opinião pública e impediu-o de ser responsabilizado pela invasão e ocupação desastrosas daquele pobre país. Ao montar um guião que o brilhante comediante Zelensky interpretou bastante bem, apareceram à opinião ocidental como piedosos cavaleiros brancos enquanto foram eles que criaram tudo. Cerraram as fileiras da NATO e transformaram os europeus em úteis idiotas ansiosos por defender as democracias ameaçadas pelo odioso ditador-Putin. Obrigaram-nos a comprar o gás de xisto, enquanto a esquerda alemã e os Verdes se apressaram a mobilizar 100 mil milhões de euros em créditos militares para comprar os seus F-35. Bingo, bingo! A única sombra no quadro: o plano não correu como planeado. Os russos não caíram na armadilha. A Ucrânia será neutralizada e não entrará para a NATO como se esperava.
Os outros vencedores são a China, a Índia e os países do Sul, que estão a observar gananciosamente os ocidentais, especialmente os europeus, a combaterem entre si e a enfraquecem-se para durante muito tempo. Inesperadamente, encontram a posição conveniente da neutralidade ou do não alinhamento. Os chineses teriam preferido um acordo amigável, mas não tinham escolha: sabem que, se deixarem a Rússia, serão os próximos da lista, como evidenciado pelo dilúvio de Cinofobia derramado pelo Ocidente sob o pretexto de defender os direitos dos uigures (enquanto os direitos dos iemenitas bombardeados impiedosamente durante seis anos são completamente indiferentes aos ocidentais).
O grande perdedor será, naturalmente, a Ucrânia, desmembrada, mutilada, quebrada, devastada e massacrada para nada, uma vez que, no final, perderá muito mais do que os acordos de Minsk a teriam forçado a ceder se os tivesse aplicado em vez de os ter desprezado. O Presidente Zelensky assumirá uma grande responsabilidade a este respeito, à luz da história, uma vez que preferiu a ruína do seu país em vez de um compromisso, quando ainda havia tempo.
Os outros grandes perdedores são os europeus. Num futuro imediato, é claro, podem gabar-se da sua nova unidade, do seu rearmamento acelerado, da sua feroz vontade de defender a democracia e a liberdade até ao último ucraniano, da sua generosidade para com os refugiados, da sua futura independência energética da Rússia, etc. Tudo isto é certo e verdadeiro, de facto. Mas amanhã, o preço a pagar será extremamente pesado. O seu comportamento mostra que a sua opinião não pesa absolutamente nada para os americanos, uma vez que para eles se tornaram em seus puros vassalos. A decisão de Ursula von der Leyen, de transferir os dados pessoais dos cidadãos europeus para os americanos mostra bem a extensão da submissão europeia.
Idem para a economia: que sentido faz o libertar-se da dependência energética russa para cair na dos americanos com preços de gás quatro ou cinco vezes mais altos? O que dirá a indústria alemã quando se tratar de pagar a conta? Especialmente porque não existem transportadoras do GNL, portos com instalações para armazenar gás liquefeito, nem gasodutos suficientes na Europa. Como é que o gás de xisto americano será distribuído aos eslovacos, romenos e húngaros? Na parte de trás de um burro?
O que dirão os Verdes alemães quando tiverem de aceitar a construção de novas centrais nucleares para satisfazer a procura de electricidade? Os jovens e os ambientalistas europeus quando descobrirem que foram enganados e que a luta contra o aquecimento global foi sacrificada em nome de sórdidos interesses geopolíticos? Os franceses, quando verão o seu país desvalorizado não só a nível mundial, mas também a nível europeu, depois de terem testemunhado o rearmamento da Alemanha e a compra maciça de armas americanas pelos polacos, bálticos, escandinavos, italianos e alemães? E a opinião pública europeia, quando for necessário manter milhões de refugiados ucranianos depois de lhes oferecer passes de comboio gratuitos?
E o que ganhará a Europa quando se encontrar cortada em dois por ódios profundos e por uma nova Cortina de Ferro que, pura e simplesmente, se terá movido um pouco mais para Leste do que a da Guerra Fria? E o que fará quando descobrir que, longe de ter isolado a Rússia, é por si só que se verá isolada do resto do mundo? Quando olhamos atentamente para a votação das resoluções das Nações Unidas, vemos que os quarenta países que se abstiveram ou não participaram na votação representam a maioria da população mundial e 40% da sua economia. Longe de diminuir, o apoio à Rússia melhorou mesmo entre os votos de 2 de março e 25 de março. Quanto aos países que se recusaram a aplicar sanções contra a Rússia, constatamos que uma imensa maioria se absteve e que só os países ocidentais as adotaram...
Finalmente, há a Rússia. Vencedor ou perdedor? Ambos, na verdade. Por um lado, é provável que a Rússia vença militar e estrategicamente. No final dos combates, a Rússia poderá muito bem obter a neutralização da Ucrânia, a sua desmilitarização parcial (ausência de bases militares estrangeiras e armas nucleares), bem como uma possível divisão do país. Terá derrubado os fanáticos da hegemonia americana que assombram os escritórios de Washington e Bruxelas. Terá provado que não compromete a sua segurança e a dos seus aliados. E terá mostrado ao mundo que estava a fazer o que estava a dizer e a dizer o que estava a fazer, uma vez que tinha indicado claramente as suas linhas vermelhas, três meses antes do conflito. E isto sem a sua economia e moeda a vacilar, como os ocidentais esperavam.
Ao contrário do que se pensa, as sanções económicas, por mais severas que sejam, só vão reforçar Putin, como mostram as últimas sondagens de um instituto neutro, que confirmam o apoio de uma grande maioria da população à “operação especial”. Nunca nenhuma sanção conseguiu derrubar um governo, fosse em Cuba, no Irão ou na Coreia do Norte.
Mas Moscovo terá de suportar o estigma do agressor, mesmo que em termos legais a sua causa não seja menos má do que a invasão do Iraque em 2003 e a agressão da NATO contra a Sérvia em 1999, com a divisão do Kosovo que se seguiu alguns anos depois. O preço humano, cultural, económico e político a pagar será elevado. As tensões geradas pelo conflito não desaparecerão por magia e os russos terão de suportar as consequências desta guerra durante muito tempo."

domingo, 29 de maio de 2022

Oliver Stone: Vladimir Putin and War in Ukraine | Lex Fridman Podcast #286


Rashid Khalidi: “Cada povo colonizado resiste e é isso que os palestinianos estão a fazer”

O professor da Universidade de Columbia Rashid Khalidi acha que apesar de altos e baixos, a situação na Palestina tem uma continuidade: e quer sublinhar a dimensão colonial de Israel (por oposição à nacional) nessa continuidade.

Foto Protesto palestiniano em Nablus: Rashid Khalidi sublinha as consequências de palestinianos se manifestarem ALAA BADARNEH/EPA

Numa altura em que a tensão regressa a Israel e aos territórios palestinianos, o professor e investigador na Universidade de Columbia Rashid Khalidi falou com o PÚBLICO por videochamada a propósito da edição em Portugal do livro Palestina: uma biografia cem anos de guerra e resistência (Ed. Ideias de Ler).

Escreveu Palestina: uma biografia. Como vê a situação actual?

Penso que há mais continuidade do que mudança. O que o meu livro tenta argumentar é que tem havido uma continuidade há mais de cem anos no que se passa na Palestina. Dizer que há dois povos com a implicação de que estão em pé de igualdade é falso. Há dois povos, claro, mas não estão numa base de igualdade, e como isso aconteceu é essencial para perceber o ponto em que estamos hoje.

Como sou historiador vejo as coisas a mais longo prazo – um pouco mais de um século. E com esse foco torna-se muito claro que isto é parte de um processo através do qual a Palestina foi transformada em Israel. Alguns dos primeiros líderes do movimento sionista disseram isso: o nosso objectivo é transformar a terra da Palestina na terra de Israel. Isto foi feito também por forças globais. Isso não quer dizer que israelitas e palestinianos não sejam neste momento os protagonistas, claro que são. Não é o mesmo que dizer que não há dois povos –​ claro que há.

Mas...

Temos de perceber como é que a situação actual aconteceu, e por que é tão desequilibrada no presente e por que tem sempre havido desequilíbrio no passado. Israel tem tido muito sucesso a criar uma narrativa em que é a vítima.

Os palestinianos no seu próprio país eram mais fracos e muito menos organizados do que o projecto imigrante que tem um ethos nacional forte, que é bem financiado, é feito por pessoas cuja maioria tem formação, qualificação, contra uma população que era na maioria analfabeta e camponesa.

Foto Rashid Khalidi, autor de oito livros sobre o Médio Oriente, e professor na Universidade de Columbia Alex Levac

Hoje há uma soberania entre o Rio Jordão e o Mediterrâneo. Há um país, um exército, uma lei, um regime de entradas e saídas, que é o de Israel. Há um povo palestiniano sob ocupação. O que temos é uma solução de um Estado.

O que disse foi, em parte, usado por organizações (B’Tselem, Human Rights Watch, Amnistia Internacional) para dizer que Israel tem políticas de apartheid. Mas acha que ajuda? Como a definição de anti-semitismo servir para quem critica Israel. Não se acaba numa discussão de um lado a gritar apartheid e no outro anti-semitismo?

Vamos dividir isso em duas perguntas, uma sobre apartheid e outra sobre anti-semitismo. Há uma definição legal de apartheid, que requer alguém mais bem qualificado para julgar, como fizeram a Human Rights Watch ou a B’Tselem, por Israel ter dois sistemas de lei para dois grupos diferentes, definidos etnicamente.

Não sou advogado, sou historiador. Penso que todos os regimes coloniais de povoamento, que Israel começou por ser e que ainda é, têm regimes legais diferentes para a população indígena e para os colonos. A primeira colónia de povoamento britânica foi a Irlanda, e cito alguém do séc. XVI dizer que valia o mesmo para um inglês matar um irlandês do que matar um cão, ou seja nada. E no sistema israelita hoje podem ver-se semelhanças.

O que quer que a lei diga, de facto há dois sistemas legais. Um israelita é morto, é aplicada a força total da lei. Um palestiniano é morto, a lei basicamente ignora. Por isso, argumentaria que este é um sistema legal de colonialismo de povoamento.

É de algum modo semelhante ao apartheid, de outros modos pior, de outros muito diferente, e de outros, melhor: há deputados palestinianos no Knesset israelita, embora claro que não têm os mesmos direitos que os deputados judeus (que podem comprar terrenos ou aceder a serviços do Estado, por exemplo).

O objectivo foi sempre o de privilegiar um grupo sobre o outro.

Quanto ao anti-semitismo?

Um flagelo horrível, mas se virmos a perspectiva histórica, onde é que predomina o anti-semitismo no século XX? Não é na Palestina. Não tem nada a ver com Israel, nada a ver com árabes, tem a ver com a cristandade. Levou ao Holocausto, levou à expulsão de judeus há centenas de anos. É um fenómeno fundamentalmente europeu.

Agora, há vestígios disso por todo o mundo, é verdade. Mas comparar as objecções do povo palestiniano a ter a sua terra retirada a anti-semitismo é grotesco. É uma manobra para evitar ter de discutir os factos, que são incontroversos. Em termos históricos, foram derrotados: não há historiadores respeitados que acreditem nos mitos que Israel viveu durante gerações, durante e depois do estabelecimento do Estado, como dizer que os palestinianos saíram porque os seus líderes lhes disseram para sair.

Este e outros mitos costumavam ser muito poderosos na opinião pública, mas as pessoas já não acreditam: vêem uma superpotência nuclear que brutaliza os palestinianos, que bombardeou seis ou sete dos seus vizinhos nos últimos 30 ou 40 anos, não tem nada a temer no seu quintal e não está em perigo, excepto talvez de dentro. E por isso mudou-se o campo do debate.

Voltando a algo muito recente: a propósito da morte da jornalista da Al-Jazeera Shireen Abu Akleh notou que desde 2000 morreram 46 jornalistas palestinianos. Como seguiu este caso?

O Exército israelita investiga-se a si próprio constantemente, e não acontece nada. Um israelita é morto e abre-se uma investigação, demolem a casa da família, castigam a comunidade, vão muito além do que um sistema penal iria alguma vez permitir. Os israelitas nunca são castigados, ou se são, é um castigo leve.

Todos ouvimos falar do funeral de Shireen Abu Akleh, mas ninguém ouviu falar do funeral que aconteceu ontem [na semana passada] em Jerusalém, em que outro cortejo fúnebre foi atacado.

Os stormtroopers [soldados do Império ditatorial de Star Wars], com os seus capacetes, viseiras e armas, são aterrorizadores – é isso que os palestinianos enfrentam. Não são permitidos protestos públicos, levantar uma bandeira. E o castigo não é ser-se multado, é ser-se atacado, atingido por balas de borracha, gás lacrimogéneo, preso, torturado, agredido.

Uma das coisas de que falo no livro é que Israel herdou o aparelho de segurança do Estado colonial britânico, incluindo os procedimentos extra-judiciais, as regras de emergência que permitem todos estes abusos. A ilegalidade legalizada. São as leis que foram usadas contra militantes sionistas durante alguns anos depois da II Guerra Mundial e desde então contra os palestinianos.

O local onde a jornalista foi morta, Jenin, também é relevante: o palco de grandes confrontos durante a segunda Intifada...

Por isso é que Shireen Abu Akleh estava a cobrir essa história. Para os palestinianos, locais como este, em que conseguem resistir a esta guerra, são muito importantes.

Como digo no meu livro, a resistência tem sido um resultado inevitável da colonização. Cito o líder e pensador sionista mais influente, [Zeev] Jabotinsky, a dizer “o que fazemos vai inevitavelmente provocar resistência”. Cada povo colonizado resiste e é isso que os palestinianos estão a fazer desde o início desta guerra. Há vários tipos de resistência, política, parlamentar, os media, manifestações, o BDS [Boicote, Desinvestimento e Sanções], e alguma da resistência é armada, e Jenin é, entre outros, um centro da resistência armada.

Os poderes coloniais não só lutam contra os combatentes, castigam a população. É importante perceber Israel neste contexto. É um projecto colonial que é também um projecto nacional. Criou um Estado-nação tal como aqui: vivo em Manhattan, é um nome nativo americano, aqui criou-se um Estado-nação, tal como Israel. O povo israelita é moderno, mas mesmo assim, é desenvolvido a partir de um projecto colonial de povoamento, tal como os americanos, australianos, canadianos, etc.

Quando fala destes Estados, isso não acabou bem para os nativos. Mas numa entrevista disse que no fim de contas há dois povos num país muito pequeno e que será preciso fazer a quadratura do círculo. Como?

Depende do tipo de solução em que acabarmos. Se for uma solução do género “lei do mais forte”, consigo ver o statu quo projectado no futuro –​ um povo oprime o outro, e o outro resiste, permanentemente. É uma perspectiva terrível.

No livro, apresento algumas das que penso que devem ser as bases de pensar uma solução. E uma seria a igualdade total. ão pode haver alguém a ter uma coisa e outra pessoa não porque é palestiniana.

Se Israel tivesse sido criado num país sem ninguém a viver lá, não haveria problema. O problema está, como aponto no início do livro, e como um antepassado meu dizia: ‘Com o sionismo, em princípio, está tudo bem, os judeus são primos de árabes, todos antepassados de Abraão, percebo, mas este país tem um povo, que não será substituído, suplantado’.

Diria que é preciso também ter algum tipo de justiça reparadora. Não é possível ter justiça total, não é possível restituir todas as propriedades, etc., mas tem de haver alguma forma de reparação.

Não penso que o statu quo projectado no futuro seja sustentável, vai acabar por ter de se mover para destruir preconceitos, descolonizar. Isso é muito difícil de fazer: como se descoloniza os EUA? O Canadá? A população foi praticamente eliminada, mas ainda há nativos americanos, das “primeiras nações” no Canadá.

A população árabe de Israel e dos territórios que ocupa tornou-se há pouco tempo ligeiramente mais numerosa do que a população judaica. E há tantos palestinianos fora da Palestina como na Palestina, todos têm direito a justiça de reparação.

Se as pessoas se vêem como parte do povo judaico, também têm direitos. Mas esses direitos não podem ser dados à custa de outros.

Durante alguns anos houve realmente uma tentativa, um processo de paz. Agora há um impasse diplomático. Quais são as consequências?

Há um capítulo no meu livro que fala disto. Este impasse não é criado só pelos actores, mas também pelo actor mais importante no Médio Oriente que ainda são os Estados Unidos. Israel é dependente de milhares de milhões de dólares de ajuda americana e do veto americano no Conselho de Segurança da ONU, e no Governo dos EUA impedirem uma solução justa e duradoura. Estive envolvido em negociações com Israel, fui conselheiro da delegação palestiniana no início dos anos 1990, encontrámo-nos dez vezes. E foi muito claro que os EUA estavam a pôr o seu dedo na balança a favor de Israel (...)

    in jornal PÚBLICO

29/05/2022

Tradução-edição recente de um grande livro sobre a história verdadeira da Palestina. Um grande mestre palestiniano.

 Wook.pt - Palestina - Uma Biografia

Sinopse

"Em nome de Deus, que a Palestina seja deixada em paz."
É desta forma que o presidente da câmara de Jerusalém termina a carta enviada em 1899 a Theodore Herzl, pai do movimento sionista, onde explicava que a Palestina tinha habitantes nativos e advertia para os perigos que se aproximavam. E é com este relato que Rashid Khalidi, o maior historiador do Médio Oriente nos Estados Unidos e sobrinho-neto do autor da dita carta, inicia a sua narrativa sobre os palestinianos e a guerra contra eles travada.
Original, envolvente e marcante, Palestina – Uma Biografia cruza eventos históricos, materiais de arquivo nunca antes explorados e relatos de gerações, tratando de forma simultaneamente sóbria e emotiva os factos de um confronto trágico entre dois povos que reivindicam o mesmo território.
Esta não é uma crónica de vitimização, uma tentativa de branquear os erros dos líderes palestinianos nem a negação da emergência de movimentos nacionalistas de ambos os lados. É, antes, uma nova e esclarecedora visão de um conflito com mais de um século, uma história de colonização e de resistência de um povo que não abdica de existir.

sábado, 28 de maio de 2022

ÉTICA- Prolegómenos

    Estive a ler o livro de Ilan Pappé, "Dez Mitos sobre Israel" (Edições 70, 2022)o historiador israelita dissidente que se exilou na Grã-Bretanha. E estou a ouvir, em entrevista para o canal online Thesswissbox, o suiço ex colaborador da OTAN e da ONU, Jacques Baud, explicando-nos os antecedentes desta guerra na Ucrânia. (Jacques Baud escreveu "Poutine, Maitre du Jeu?"

   Ambos desmitificam os mitos. Os mitos são sempre formas de propaganda, mesmo os mais primitivos na Antiguidade Clássica onde a religião desempenhava um papel que só mais tarde seria absorvido pela política ("Polis").

  O capitalismo dessacralizou os mitos que vigoravam anteriormente ao seu domínio económico-tecno-científico. Porém, criou outros. Estes novos mitos convertem-se em veículos de propaganda. Contudo, para que exerçam a ação para a qual são destinados vestem-se frequentemente com as vestes religiosas, Os EUA, País de economia burguesa liberal (neste caso ultra) possui uma narrativa mítica de cunho religioso. Noutros casos, nos nacionalismos, mistificam os seus "heróis". Veja-se o que se realizou na Ucrânia (na sua área ocidental). Esse mito é uma "falsa-bandeira", tal como o são os "Dez Mitos sobre Israel".

  Seria bom que se escrevessem "Dez Mitos sobre a Portugalidade". Mitos tão resistentes que sobreviveram perfeitamente à queda da ditadura fascista. Acrescentados com novos mitos que têm servido a legitimação (sem necessidade de sufrágios universais) de opções político-económicas que determinaram o rumo do País nos últimos quarenta e cinco anos. Por exemplo, a entrada na CEE e, depois, UE. Portanto, o mito da União Europeia pródiga e protetora.

  O que têm a ver os mitos com a Ética (no sentido de práticas morais ou normas)? Têm, porque todos os mitos são moralidades.

3e guerre mondiale ? Avec Jacques Baud, TSBC

 Poutine, maître du jeu ?

Quatrième de couverture

Poutine maître du jeu ?

Vladimir Poutine est-il devenu le maître du jeu ? Pourquoi et comment le président russe a-t-il décidé d'attaquer l'Ukraine ? A-t-il tenté d'empêcher ce pays de s'associer à l'Europe ? Cherche- t-il à reconstituer l'URSS ? L'OTAN a-t-elle promis de ne pas s'étendre vers l'Est après 1990 ?

En s'appuyant sur les dossiers des services de renseignement et sur des rapports officiels, Jacques Baud passe en revue les événements qui, dans l'Histoire récente de la Russie, ont conduit à la guerre avec l'Ukraine. Il analyse le conflit qui oppose la Russie à l'Occident et éclaire le rôle de Poutine sur la scène internationale.

Son travail répond à des questions d'actualité, ce qui facilite l'accès à une explication équilibrée des événements en jetant sur eux une lumière parfois très différente de celle que diffusent les principaux médias.

Biographie

Jacques Baud a été membre du renseignement stratégique suisse. Spécialiste des pays de l'Est et chef de la doctrine des opérations de la paix des Nations Unies, il a été engagé dans des négociations avec les plus hauts responsables de l'armée et du renseignement russes juste après la chute de l'URSS. Au sein de l'OTAN, il a suivi la crise ukrainienne de 2014, puis a participé à des programmes d'assistance à l'Ukraine. Il est l'auteur de plusieurs livres sur le renseignement, la guerre et le terrorisme, en particulier de Gouverner par les fake news et de L'Affaire Navalny, aux éditions Max Milo.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Texto controverso que vale a pena pensar

 

Greg Godels

A revolução bolchevique e a ascensão dos partidos revolucionários comunistas e operários criaram as condições para que um movimento extremista como o nacional-fascismo na Itália fosse adotado pela classe dominante italiana […]. A reação torna-se  fascismo apenas quando o socialismo revolucionário se torna uma ameaça existencial ao capitalismo.

 

 

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O ano de 2022 marca os 100 anos desde que o fascismo chegou ao poder.(1) No final de outubro de 1922, o rei Victor Emmanuel III cedeu o cargo de primeiro-ministro da Itália a Benito Mussolini, chefe do Partido Nacional Fascista, passando efetivamente o poder político aos fascistas.

 

O fascismo italiano começou como um movimento nacionalista heterogéneo, com poucos traços definitivos de esquerda ou direita, unidos apenas no seu apoio à entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial.

 

No rescaldo da guerra, o movimento fascista foi moldado como uma reação ao desenvolvimento de uma esquerda revolucionária. Com trabalhadores industriais a ocupar fábricas, trabalhadores rurais rebelando-se contra latifundiários e socialistas revolucionários a competir pela liderança do movimento operário, capitalistas italianos e grandes latifundiários fizeram um acordo com os fascistas para servirem como uma força de assalto paramilitar – esquadrão – contra a esquerda revolucionária. A Revolução Bolchevique, como um recente cataclismo social histórico, pairava sobre as elites italianas, conjurando o seu pior pesadelo.

 

Sem a conjunção de uma revolução socialista bem-sucedida num grande país, uma classe trabalhadora militante inspirada no exemplo e uma classe dominante desesperada para impedir uma revolução do tipo bolchevique, o fascismo italiano poderia ter permanecido um culto menor, dissipando-se com a restauração de uma ordem liberal estável do pós-guerra.

 

Sem dúvida, os ricos e poderosos da Itália pensavam que podiam usar os fascistas para os seus próprios propósitos. Mas eles estavam dispostos a entregar o poder político aos fascistas e permitir que eles reestruturassem o Estado pelo prémio de eliminar a ameaça revolucionária.

 

Foi esse medo desesperado tanto do reordenamento das relações de propriedade como da destruição do domínio de classe que criou o momento único em 1922 em que o fascismo passou de um movimento para um partido político e para uma ordem dominante.

E foi essa fusão historicamente nova do capital e outras formas de propriedade com um absolutismo, nacionalismo e populismo exclusivamente modernos que definiram o fascismo italiano após 1922.

 

Claro, houve movimentos de ultra-direita e ultranacionalistas antes da ascensão do fascismo.

 

Na França, por exemplo, após a derrota na Guerra Franco-Prussiana e a queda da Comuna de Paris, muitas elites francesas buscaram a restauração da “glória” da França. A explosão do nacionalismo assumiu muitas formas: revanchismo (ou vingança contra a Alemanha), antissemitismo (culpando os judeus pela manchada “glória”), bonapartismo (a procura de um líder forte) e monarquismo (a restauração da monarquia).

 

O movimento para restaurar uma França gloriosa imaginada uniu-se em torno de um líder militar chamado Georges Ernest Boulanger, conhecido pela sua persistente obsessão de entrar em  guerra com a Alemanha e acertar contas. O Boulangisme prosperou durante alguns anos, adicionando elementos de populismo à sua agenda nacionalista, atraindo até mesmo muitos ex-esquerdistas.

 

Superficialmente, o Boulangisme assemelha-se a movimentos fascistas posteriores, e alguns historiadores burgueses  veem-no como tal. Mas faltavam-lhe as duas características vitais que são características do fascismo e do seu tempo. Primeiro, não havia ameaça revolucionária anticapitalista iminente à ordem existente exigindo uma reação da classe dominante. E, segundo, a classe dominante não percebeu perigo existencial suficiente para descartar o republicanismo – a democracia burguesa.

 

Em janeiro de 1889, surgiu a oportunidade de Boulanger, mas a sua hesitação e a oposição da maioria da classe dominante e a sua agência frustraram um golpe.

É instrutivo que o Boulangisme tenha entrado na história como uma nota de rodapé do século XIX.

 

A revolução bolchevique e a ascensão dos partidos revolucionários comunistas e operários criaram as condições para que um movimento extremista como o nacional-fascismo na Itália fosse adotado pela classe dominante italiana, enquanto o movimento boulangisme se perde na obscuridade histórica. A reação torna-se  fascismo apenas quando o socialismo revolucionário se torna uma ameaça existencial ao capitalismo.

 

A ascensão do nazismo sublinha plenamente essa dinâmica que passámos a chamar genericamente  “fascismo”. A ascensão de seitas ultranacionalistas e revanchistas lideradas por veteranos da Primeira Guerra Mundial era comum na Alemanha do pós-guerra. O fenómeno nazi competiu com sucesso em elevar-se acima dos outros com a sua audácia e um elemento significativo do populismo fixado no seu nome: o nacional-socialismo.

 

Como na Itália, a ascensão do comunismo inspirou alguns capitalistas, incluindo um grupo de líderes industriais, a patrocinar a atividade do nazismo como uma proteção contra uma classe trabalhadora excitada e a perspetiva de revolução. Até a Grande Depressão atingir a Alemanha, os seus governantes suprimiram com sucesso o Partido nazi (o partido foi banido e Hitler preso no seu esforço para copiar a marcha insurrecional do fascismo italiano em Roma) e o partido recebeu menos de 3% dos votos nas eleições federais de 1928 .

 

Mas a crise económica deu alento aos partidos burgueses alemães que não tinham resposta para o colapso económico, para o desemprego e a militância operária que se seguiram, e para um Partido Comunista crescendo em tamanho e influência.

 

O Partido nazi, recebendo maior apoio de uma classe dominante desesperada e uma pequena burguesia  desorientada, era visto como um baluarte contra a revolução. À medida que o desespero aumentava, os partidos burgueses deram o seu apoio a um antigo general ultranacionalista amigo de Hitler, Erich von Hindenburg, elegendo-o presidente da república.

 

Era apenas uma questão de tempo até que Hindenburg, que não era amigo do republicanismo, entregasse a chancelaria a Hitler, seguindo o exemplo do rei italiano.

Esses dois exemplos europeus da ascensão de “salvadores” ultranacionalistas da dominação burguesa constituem o modelo do fascismo clássico. Por toda a Europa no período entre guerras, outras respostas à esquerda revolucionária levaram a outros regimes de extrema direita defendendo as elites dominantes contra um movimento operário ascendente. Esses movimentos de direita foram liderados por figuras bonapartistas como Mannerheim, Pilsudski, Horthy, Salazar e Franco. Embora nenhum siga estritamente o caminho para o poder ou o tipo de governo do fascismo clássico, compartilham a característica essencial de defender o domínio burguês contra a esquerda revolucionária, ao mesmo tempo que descartam a democracia burguesa para garantir o seu sucesso.

 

Se alguém escolhe chamar o franquismo (1939-1975 na Espanha) ou o pinochetismo (1973-1990 no Chile)  “fascista” ou “quase-fascista” é um equívoco, pois ambos compartilham com o fascismo clássico a destruição da democracia burguesa em resposta à ameaça pressentida à ordem capitalista.

 

Fascismo hoje

 

Desde o fim da União Soviética e o declínio ou dissolução dos partidos comunistas de massas na maioria dos países, as classes dominantes não procuraram nem apoiaram o derrube da democracia burguesa por causa de uma ameaça existencial da esquerda. No entanto, um amplo espectro de líderes e comentaristas, da direita à esquerda, atribuiu o termo “fascista” a outras figuras ou movimentos políticos. No extremo, “fascista” ou “fascismo” simplesmente se tornou um epíteto para demonizar um oponente.

 

Mais subtilmente, o “fascismo” é considerado um movimento de direita, nacionalista e/ou racista que se assemelha a algumas das características de alguns dos movimentos fascistas do século XX. Essa abordagem é especialmente comum  em académicos, liberais, políticos de centro-esquerda ou outros que se recusam a admitir o lugar crítico da ideologia anti-bolchevique e anticomunista no centro do pensamento fascista clássico e a sua utilidade operacional em angariar o patrocínio do burguesia.

 

Normalmente, os teóricos – académicos ou não – desenvolvem uma lista de características destiladas de um exame superficial do nazismo arrancado do seu contexto histórico. O chauvinismo, a violência política, os valores sociais conservadores, o culto da personalidade, etc., são características contingentes do fascismo histórico; mas nenhum sozinho ou em conjunto foi incompatível ou esteve ausente da República de Weimar anterior ou de outras eras históricas anteriores que testemunharam o surgimento de movimentos ultranacionalistas. Foi o medo da revolução e uma ordem burguesa complacente que serviram como elementos necessários para levar o fascismo ao poder.

 

Claro, é importante reconhecer como extremamente perigosa a nostalgia do fascismo histórico, como exibido pelo Partido nazi Americano, o Partido Nacional Socialista dos Povos Brancos e muitas outras organizações “nazis” dos EUA que foram desmembradas. Da mesma forma, o atual culto ucraniano em torno do fascista Stepan Bandera do século XX é extremamente perigoso. Com o passar do tempo distanciando o povo ucraniano da história sórdida da OUN [Organização dos Nacionalistas Ucranianos] e da colaboração nazi, a promoção de grupos ultranacionalistas por políticos oportunistas e intervencionistas ocidentais não é apenas perigosa, mas criminosa. Eles vão ocupar o mesmo lugar no inferno reservado para os EUA, a  NATO e os imperialistas israelitas que lançaram no mundo jihadistas fanáticos e ultraconservadores.

A incompreensão do fascismo, das suas origens e da sua lógica podem incapacitar a esquerda. As pessoas de esquerda ocidentais tiraram lições – boas e más – da frente unida e antifascista adotada pela Internacional Comunista em meados da década de 1930.

Os comunistas então compreenderam a natureza do fascismo, ligando-o à vulnerabilidade do capitalismo e ao seu objetivo: “… enterrar o marxismo, o movimento revolucionário da classe operária…”. Liderados pelo veterano antifascista Georgi Dimitrov, os comunistas resolveram deixar de lado as diferenças com outras organizações da classe operária – principalmente a social-democracia – para combater a ameaça do fascismo e o perigo crescente da guerra mundial. Isso tornou-se uma tática elástica, expandindo-se para defender a unidade com quaisquer elementos não da classe operária que se posicionassem firmemente contra o fascismo:

 

... quando os destacamentos proletários dispersos, por iniciativa dos comunistas, se unem para a luta contra o inimigo comum, quando a classe operária, marchando como uma unidade, começa a agir em conjunto com o campesinato, as classes médias baixas e todos os elementos democráticos , com base no programa da Frente Popular, então a ofensiva da burguesia fascista é confrontada com uma barreira intransponível. (Dimitrov, G.,Contra o fascismo e a guerra, p. 103)


Fica claro neste trecho do ensaio A frente popular, de Dimitrov, que uma frente popular é ampla, de facto. Mas também está claro que é defensiva e tática, destinada a afastar a ameaça fascista.

 

No entanto, Dimitrov também sugere noutras passagens que a tática da Frente Única pode ser uma forma de transição que leva ao derrube do capitalismo e um corretivo ao isolamento comunista das massas.

 

Foi essa ambiguidade que perdurou no pós-Segunda Guerra Mundial e levou muitos Partidos Comunistas e Operários a adotar o frentismo popular como  abordagem estratégica ou como etapa de transição para o socialismo. Seja sob a forma de uma frente ou partido antimonopolista, um amplo partido de trabalhadores, ou oportunisticamente, um “compromisso histórico” ou “Programa Comum” com partidos burgueses, como a estratégia do autodestruído Partido Comunista Italiano ou o agora quase esgotado Partido Comunista Francês, o frentismo popular tornou-se uma estratégia amplamente aceite, especialmente na esquerda ocidental. O debate sobre essa estratégia continua até hoje dentro do movimento comunista.

 

Mas foi a aplicação da tática da frente única contra o fascismo que se mostrou mais problemática desde o declínio da esquerda social-democrata e a ascensão de uma nova direita fundamentalista após a crise económica dos anos 1970. Nos EUA e no Reino Unido, Reagan e Thatcher foram a personificação da viragem à direita em direção ao ultranacionalismo, chauvinismo, individualismo vulgar, desregulamentação e privatizações. Dados os ganhos obtidos pelos países socialistas, a vitória na Indochina, a crescente popularidade do socialismo nos países emergentes e até mesmo uma revolução no Ocidente (Portugal), alguns sentiram um “cheiro de fascismo” nesta viragem à direita, uma reação de direita a uma ameaça crescente da esquerda.

 

Após a queda da União Soviética – o baluarte do socialismo – e a consequente desordem dos partidos comunistas, a viragem à direita acelerou-se, realinhando os partidos políticos burgueses ocidentais. Novos Democratas, Novos Trabalhistas, Novos Social-Democratas avançaram mais para a direita para acomodar a viragem à direita, em vez de combatê-la.

Em vez de reconstruir uma esquerda vigorosa em torno dos interesses do povo trabalhador, em vez de se afastar da deriva para a direita, em vez de preencher o vazio deixado pela capitulação da tradição centro-esquerda, muitas pessoas de esquerda pintaram a direita como fascista, aparentemente justificando o abandono do projeto socialista e unindo-se aos partidos burgueses para derrotar os elementos mais extremistas da direita. O projeto histórico da esquerda de derrotar o capitalismo e substituí-lo por uma economia popular deveria ser adiado até que a direita (a direita fascista!) estivesse morta e enterrada. Isto foi vendido como a revisitação da Frente Unida contra o Fascismo da década de 1930.

 

Com a ascensão de partidos populistas de direita e personalidades tóxicas como Orban, Trump e Johnson, a “luta contra o fascismo” atingiu o seu apogeu. Grande parte da esquerda remodelada do século XXI abraçou alianças eleitorais com instituições burguesas e partidos políticos contra o populismo de direita sob a bandeira da união contra a direita. Em todos os casos, essa estratégia ajudou a instalar políticos insípidos de centro-direita num momento de crise política e crescente raiva e alienação populares.

 

Esta análise e estratégia estão erradas em múltiplos aspetos.

Mais importante ainda, deturpa o fascismo, arrancando a ideologia das suas raízes históricas fundadas numa luta desesperada de vida ou morte com a esquerda revolucionária. A esquerda de hoje está longe de representar um desafio existencial ao sistema capitalista e permanecerá assim se continuar a organizar-se contra o fantasma de uma ameaça fascista iminente.

 

Em segundo lugar, a atual repetição da democracia burguesa foi corrompida e  esvaziada de conteúdo democrático na medida em que, embora apresente um obstáculo formidável a qualquer onda revolucionária popular, é um caminho bem lubrificado para os ditames das classes dominantes no poder. Isso não significa negar que todas as fações burguesas envolvidas no jogo eleitoral “apostam” no sistema para manter o poder com pouca consideração pelas “regras” procedimentais anunciadas pelas instituições democráticas burguesas. Não é necessário descartar a democracia burguesa para impedir a mudança no nosso ambiente político corrompido.

 

Em terceiro lugar, a direita populista não fez nenhum esforço sério para criar o tipo de esquadrão ideológico típico do fascismo histórico. Como Diana Johnstone escreveu recentemente em resposta à acusação de que Marine Le Pen, a populista de direita francesa, iria “confiscar o poder” e nunca desistiria dele:

E como faria ela isso? O seu partido não é muito forte e assenta totalmente na política eleitoral. Não há milícia organizada para usar a força para fins políticos (como no caso dos verdadeiros fascistas históricos). Existem muitos contrapoderes em França, incluindo partidos políticos,  comunicação social hostil, uma magistratura amplamente de esquerda, as forças armadas (ligadas à NATO), grandes empresas e finança que nunca apoiaram Le Pen, a indústria do entretenimento etc. , etc.

 

Ninguém poderia comparar seriamente a equipe desorganizada e desajeitada que fez uma visita indesejada ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021 com os organizados e disciplinados 30 000 Camisas Negras que marcharam sobre Roma há cem anos.

A exagerada “ameaça do fascismo” reflete a falta de confiança de que o povo dos países capitalistas avançados abraçará mudanças verdadeiras, qualitativas e revolucionárias, cria a ilusão de que a esquerda anticapitalista pode competir pela lealdade, votos e atividade dos trabalhadores. Em vez de construir um movimento ousado pelo socialismo, a esquerda tímida e desesperada escolhe um namoro não correspondido com as forças do centro numa luta quixotesca contra um inimigo distante e nebuloso.

Isto não é para minimizar o dano que a implacável marcha para a direita dos partidos burgueses nos países capitalistas avançados trouxe aos trabalhadores ao longo de muitas décadas. Mas esse impulso para a direita deve ser enfrentado no campo de batalha das ideias com propostas ousadas e agressivas que vão além da defesa de retaguarda; deve promover os interesses dos trabalhadores; e deve fornecer uma visão além da resignação de que não há alternativa para a recuperação  de um sistema capitalista falido.

Se conquistarmos os trabalhadores para essa visão, sem dúvida chegará o dia em que realmente encontraremos a cara feia do fascismo.


NOTAS:
(1) Para um relato divertido, mas notavelmente sofisticado da ascensão do fascismo e da sua lógica, nada melhor do que assistir ao filme de Bernardo Bertolucci, 1900. Este épico de 5 horas e meia captura a dinâmica de classe desde as raízes do fascismo italiano até à sua derrota em 1944. Perdoe-se o disparatado final do compromisso histórico que Bertolucci, sem dúvida, desenvolveu a partir do programa de 1976 do Partido Comunista Italiano.

 

Fonte: https://mltoday.com/fascism-after-a-hundred-years/, publicado e acedido em 16 de maio de 2022

Fonte da foto: https://www.wikiwand.com/pt/It%C3%A1lia_Fascista

 

Tradução de TAM

quarta-feira, 25 de maio de 2022

ÉTICA - Prolegómenos

   Admitindo a tese de Yvon Quiniou de que a a moral trata de uma possível normatividade universal ou pretendendo alcançá-la e a ética tratar-se-ia das práticas, é impossível que princípios e regras universais formalmente e apenas formalmente sejam seguidos e praticados nas sociedades de classes antagonistas. Depois de Marx observamos o evoluir da história das sociedades e é essa impossibilidade que constatamos. Aliás, já outros pensadores -observadores atentos da sua época e do passado - transmitiram essa opinião ainda que não tivessem condições para realizar a descoberta científica que Marx realizou. 

  Qualquer exemplo de um princípio ou regra universal ou com essa categoria formal ("Não matarás! Não roubarás!") não é obedecido pelos impérios e pelos Estados. Não é obedecido pela classe dominante. Pode ser exigido pela classe que ambiciona ser dominante (ou participar da dominação) como meio, porém não lhe obedecerá como finalidade.

  Somente numa sociedade sem classes sociais é possível praticar uma ética universal. Se for uma mera utopia jamais a humanidade chegará lá. Se for um horizonte, podemos eventualmente aproximarmo-nos.

Todavia, para isso se ir alcançando, não basta que um único país o tente, porque terá de desobedecer a esses princípios - a alguns deles - para se defender dos seus inimigos.

P.S. Yvon Quiniou, filósofo francês especialista nas questões do materialismo versus idealismo e da moral.

Este livro esclareceu-me sobre o que havia ainda de confuso. É de uma enorme oportunidade sobre a mitologia fabricada pela ideologia capitalista e burguesa, que já Adorno e Horkheimer haviam denunciado nos anos quarenta

 Wook.pt - Dez Mitos sobre Israel

Ilan Pappé (em hebraico: אילן פפה; Haifa, 7 de novembro de 1954) é um historiador israelense, professor de história na Universidade de Exeter, no Reino Unido. Foi docente em Ciências Políticas em sua cidade natal, na Universidade de Haifa (1984-2007).[1]

É um dos chamados Novos Historiadores, que reexaminaram criticamente a História de Israel e do sionismo. Pappé faz uma análise profunda sobre os acontecimentos de 1948 (criação do Estado de Israel) e seus antecedentes. Em seu livro mais importante, The Ethnic Cleansing of Palestine (no Brasil, publicado pela Editora Sundermann, como A Limpeza Étnica da Palestina, na tradução de Luiz Gustavo Soares), ele sustenta a tese de que houve uma limpeza étnica, ou seja, a expulsão deliberada da população civil árabe da Palestina - operada pela Haganah, pelo Irgun e outras milícias sionistas, que formariam a base do Tzahal - segundo um plano elaborado bem antes de 1948.[2] Pappé considera a criação de Israel como a principal razão para a instabilidade e a impossibilidade de paz no Oriente Médio. Segundo ele, o sionismo tem sido historicamente mais perigoso do que o islamismo extremista.[3]

Ao longo dos anos 2000, Ilan Pappé notabilizou-se por várias polêmicas, notadamente a controvérsia do massacre de Tantura, e por seu apelo ao boicote internacional às universidades israelenses, o que o levou a entrar em conflito com seus colegas da Universidade de Haifa, particulamente com Yoav Gelber. Ilan Pappé e Benny Morris, um outro "novo historiador", divergiram frontalmente quanto à análise dos eventos de 1948 e quanto à atribuição de responsabilidades no conflito israelo-palestino.

Ilan Pappé é um importante defensor da solução de um único estado para palestinos e israelenses.[4]

Em 2007, Ilan Pappé exilou-se na Grã-Bretanha, onde atualmente é professor de história na Universidade de Exeter e diretor do Centro Europeu de Estudos sobre a Palestina.

Antes de deixar Israel, ele havia sido veementemente condenado no Knesset, o parlamento de Israel. Um ministro da educação havia pedido a sua demissão da universidade, e sua foto havia sido publicada em um jornal, no centro de um alvo. Além disso, Pappé havia recebido várias ameaças de morte.[5]

segunda-feira, 23 de maio de 2022

 


George Mavrikos

 

Discurso de abertura do 18º Congresso da FSM

 

Nas fileiras da FSM, nas fileiras dos sindicatos militantes, está reunida a parte mais ativa e honesta do movimento sindical. Quadros que foram despedidos dos seus empregos pela sua atividade sindical e política, militantes que foram perseguidos por patrões e governos, trabalhadores pioneiros que dão a vida todos os dias pelos interesses universais das pessoas comuns.

 

 

 

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No fim de semana passado, o coração do movimento sindical internacional reuniu-se em Roma, Itália, onde ocorreu o 18º Congresso Sindical Mundial com 419 delegados de 95 países.

 

No primeiro dia (6 de maio de 2022), o secretário-geral cessante da Federação Sindical Mundial (FSM) George Mavrikos fez um discurso de abertura, analisando a experiência da atividade sindical no período anterior, bem como os desafios e lutas que se estão a colocar ao movimento da classe operária:

 

“Caros camaradas e companheiros militantes,

 

Caros colegas, irmãos e irmãs em todos os cantos do planeta. Saudamos os 105 milhões de membros da FSM que vivem e lutam em 133 países dos cinco continentes. Saudamos todos os que estão em greve e mobilizações nestes dias, saudamos todos os delegados que participam virtualmente por causa da pandemia, saudamos e agradecemos a todos vós que, apesar das muitas dificuldades, estais aqui presentes e a participar nos trabalhos de 18º Congresso Sindical Mundial.

 

Permitam-me também expressar o meu apreço e agradecimento à USB [Unione Sindicale di Base] por ter desempenhado um papel de liderança na organização do Congresso em Roma, Itália, e por fazê-lo acontecer em muito boas condições. Lembramos que na Itália, em Milão, ocorreu o 2º Congresso Histórico da FSM em 1949, onde se destacou o dedicado militante da FSM Giuseppe Di Vittorio, Presidente da FSM de 1949 até à sua morte em 1957. A USB é hoje, para a classe  operária italiana, a sua consciência de classe, a vanguarda militante, aquela que expressa e leva adiante as tradições mais gloriosas. A USB é a esperança para todos os trabalhadores sofredores da Itália e pedimos aos trabalhadores do país que a sigam e apoiem. Enviamos daqui uma mensagem de paz e diálogo pacífico aos povos da Federação Russa e da Ucrânia e pedimos o fim da guerra. Exigimos que o governo dos EUA e os seus aliados, finalmente, parem de lançar lenha na fogueira. Sabemos que as causas profundas desta guerra estão na estratégia expansionista da  NATO.

 

Apelamos a todos os sindicatos e a todos os sindicalistas que não  afrouxem. Os perigos de uma conflagração geral e de um conflito militar mundial são reais. Governos como os da Grã-Bretanha, Estados Unidos e Austrália estão constantemente a pôr lenha na fogueira. Com a propaganda global da comunicação social capitalista, eles distorcem a realidade, dizendo que a  NATO está a enviar armas para a democracia…

 

Caros colegas,

 

No período pré-congresso tentámos informar amplamente os trabalhadores. Publicámos em toda a parte  o documento central com o título: “Teses e Prioridades”. Utilizámos o máximo possível de comunicação ao vivo dentro dos setores e dentro dos locais de trabalho. Juntámos  comentários, sugestões e críticas. Agora, aqui em Roma, durante três dias, discutiremos todas as questões que preocupam a Classe Operária Mundial e o Movimento Sindical. Conseguimos estabelecer discussões abertas, democráticas e vivas, com confiança  na sustentação da nossa opinião. Este é o tipo de congresso que a FSM realiza. Este é o tipo de congresso que o Movimento Sindical militante e  de classe deve realizar. E temos certeza de que teremos um congresso assim, digno dos setenta e sete anos de história da FSM. Porque aqui estamos reunidos, trabalhadores e empregados manuais e intelectuais, trabalhadores da arte e da cultura, mulheres e jovens trabalhadores, agricultores e trabalhadores do campo, migrantes, refugiados, agricultores sem terra e indígenas.

 

Nas fileiras da FSM, nas fileiras dos sindicatos militantes, está reunida a parte mais ativa e honesta do movimento sindical. Quadros que foram despedidos dos seus empregos pela sua atividade sindical e política, militantes que foram perseguidos por patrões e governos, trabalhadores pioneiros que dão a vida todos os dias pelos interesses universais das pessoas comuns.

 

Estas são as características básicas da nossa vanguarda, as características básicas dos membros e quadros da FSM. Isto é quem nós somos. É isto que todos nós devemos ser. O que tem o sindicalismo amarelo,  comprometido com o patronato,   em contraste com a nossa equipe de quadros honestos? Burocracia, elitismo, corrupção, aristocracia sindical  e carreirismo nos tribunais da burguesia. São lacaios da Danone, do FMI, dos imperialistas e das multinacionais. Isto é quem eles são. Esse é o tipo de liderança que eles têm.


Caros amigos e camaradas,

 

Comecei o meu discurso introdutório com os nossos quadros, os nossos lutadores, porque acredito profundamente que o tesouro da FSM, o tesouro do movimento sindical de classe é a sua gente. A nossa gente, os nossos quadros, em conjunto com a nossa linha e ação, são a nossa força fundamental. É uma força invencível.

 

Tudo isto foi provado e confirmado na prática, na própria vida, nos últimos 17 anos. Em dezembro de 2005, assumimos uma FSM gravemente ferida e gravemente doente. Os seus edifícios e bens na República Checa foram confiscados. Tínhamos sido despejados da nossa sede e estávamos alojados fora de Praga  numa casa localizada  no campo. A FSM foi caluniada e desprezada. Tinha dívidas financeiras de $200.000 e uma equipe antiga e burocratizada. A média de idades era de 70 anos! Era, em geral, um mecanismo temeroso e, na maioria das vezes, sem contacto real com a base sindical. Hoje, a nossa equipe  nos Escritórios Centrais tem uma idade média de 35 anos e são militantes conscientes da FSM.

 

Poucos na época acreditavam que, sob condições de perseguição, terror e pânico a FSM se poderia  erguer de novo. E,  mesmo assim, conseguimos. Nós conseguimos. Acontece que Ernesto Che Guevara estava certo quando disse e escreveu “devemos ser realistas, devemos exigir o impossível”. O percurso de 17 anos não é um milagre. Não é o resultado de uma oração divina nem a consequência de um fenómeno natural.

 

Como conseguimos este grande progresso, o grande salto, como lhe chamou o camarada Quim Boix? Como é que hoje conseguimos entregar uma organização de 105 milhões de membros em 133 países do mundo, enquanto em 2005 recebemos uma de 48 milhões?

Primeiro: pela convicção, pela convicção profunda de que, no mundo moderno, a classe operária precisa de uma arma própria. Precisa de uma ferramenta própria para elaborar a sua estratégia e tática; estratégia e tática para si mesma como classe social com uma missão histórica particular.

 

Contra a conceção reformista e revisionista que afirma que supostamente não há classe operária hoje e identifica a classe operária com os trabalhadores braçais dos séculos anteriores, respondemos, e estamos a responder cientificamente que, no mundo moderno, com as grandes mudanças e progressos tecnológicos, mantêm-se duas classes sociais básicas: os capitalistas, os exploradores de um lado e os operários e empregados do outro. Claro que a classe operária também está a evoluir, a desenvolver-se, a adquirir mais conhecimento, está mais educada do que antes, acumulou mais conhecimento e experiência e as suas necessidades básicas estão em constante expansão. Todas essas mudanças existem e nós levamo-las  em consideração. Mas, apesar de todas essas mudanças, o critério básico permanece: a exploração, a produção de mais-valia e o roubo do suor dos trabalhadores para os bolsos da burguesia.

 

Por isso, avançamos com a convicção de que no mundo moderno há injustiça social, há exploração social que é ainda mais cruel e ainda acreditamos que a classe operária atual com o seu grande conhecimento e experiência está mais próxima de tomar  nas suas próprias mãos mãos a viragem do processo produtivo.

 

Segundo: Com o trabalho coletivo e a posição militante comum da grande maioria de nossos membros e quadros. O que alcançámos não  foi  resultado do trabalho de uma única pessoa. Veio principalmente como um esforço coletivo, uma busca comum e uma postura comum de todos nós. Juntos construímos este edifício. Não negamos o papel do indivíduo. Sabemos que, na história social, o indivíduo certamente influencia os acontecimentos.  Mas são as massas que escrevem os desenvolvimentos, o progresso e o avanço; são os  coletivos que fazem isso e não reis, cardeais ou príncipes.

 

Terceiro: Prestamos atenção à base e tentamos não perder o contacto com a base; com os nossos sindicatos, com os trabalhadores, os desempregados, os imigrantes, os refugiados, os sem-abrigo e os excluídos. Reforçámos a democracia interna na nossa atividade.

Visitei pessoalmente 87 países ao longo de 20 anos e, alguns deles, muitas e muitas vezes. Membros do Secretariado e do Conselho Presidencial fizeram o mesmo. Muitos outros  quadros visitaram muitos países e estiveram perto da base.

 

Com todos esses contactos fomos  ganhando a força da base e dando coragem às lutas.  Tentámos ter os nossos ouvidos e olhos abertos para as lutas e reivindicações da base. É assim que se conquista a confiança  dos trabalhadores e a base se torna mais militante, mais combativa, porque percebe que não está sozinha nas suas lutas. Nós amamos e apoiamos a base da FSM e a base está a retribuir com o seu amor e apreço.

 

Quarto: Utilizar a crítica, a autocrítica e a emulação indispensáveis ao nosso progresso e aperfeiçoamento a nível coletivo e individual. Como quadros da FSM, devemos sempre analisar objetivamente as situações. Devemos ter conhecimento objetivo da realidade  no nosso setor, na nossa região, no nosso sindicato e no mundo, como direção da FSM. Para atingir esse nível precisamos de autoconsciência, exame crítico e autocrítico das nossas decisões e ações. Temos o dever de fomentar a emulação coletiva, a ambição militante de melhoria e o desenvolvimento global da personalidade nos nossos quadros. E, acima de tudo, a nossa lei básica foi e será a obrigação de aprender com nossos erros; estudar as nossas fraquezas e os nossos erros para analisá-los. O lutador inteligente aprende com os seus erros. O superficial nunca!

 

Quinto: Neste curso de duas décadas, caminhámos utilizando a nossa rica história. Com os seus pontos positivos e negativos, com os seus passos em frente e para trás; com os seus compromissos dignos e as suas concessões inaceitáveis; com os seus grandes acertos e os seus poucos mas existentes erros. Para nós, hoje, a experiência histórica, tanto a positiva  como a negativa, é um ativo positivo e uma arma positiva para o presente e o futuro. E para construir o amanhã precisamos de utilizar a experiência de ontem.

 

A utilidade da história do movimento sindical a nível setorial, local, nacional e internacional é grande, hoje. E, ao mesmo tempo,  defender-nos  e contra-atacar   a tentativa indecente de reescrever a história é uma tarefa fundamental.

 

Defendemos antes e defendemos hoje a verdade histórica. Assim, fizemos em cursos especiais sobre a história do movimento sindical, em seminários especiais,  em concursos de livros e cartazes, em publicações, artigos e discursos. Em 17 anos estimamos que mais de três mil dos nossos quadros, na sua maioria jovens, tenham  participado em seminários relevantes.

 

Sexto: Assumimos a FSM em estado de paralisia. Então a tarefa imediata era a ação. Por isso, lançámos a palavra de ordem “Ação – Ação – Ação” no XV Congresso Sindical Mundial em Havana, Cuba. Não podíamos perder tempo com introversão, inação e discussões intermináveis. Enfatizámos que íamos trazer a FSM de volta à vida “em ação”. Era através da ação que provaríamos se e o que poderíamos alcançar. E desenvolvemos toda essa rica ação que todos vocês conhecem, que está descrita nos textos e principais documentos do nosso Congresso e está disponível no nosso Manual “Estatísticas 2005 – 2022”, e  nos nossos vídeos e publicações.

 

Por isso, a lição e a conclusão é a ação, a ação com os nossos objetivos e prioridades. Em ação nos últimos anos, organizámos a educação sindical e muitos cursos de formação sindical.

 

Sétimo: Contávamos financeiramente apenas com os nossos filiados, na base, nos trabalhadores comuns. Recebemos a FSM em dezembro de 2005 com uma dívida financeira de 200 mil dólares. Hoje entregamos a FSM sem nenhuma dívida. Não devemos um centavo! E gostaria de agradecer desta tribuna do Congresso a todas as organizações que, durante todos esses anos, apoiaram a FSM pelo seu “querer”. O seu apoio deu-nos  força. Hoje cobrimos todas as despesas do 18º Congresso com as quotas doa filiados e o apoio financeiro exclusivamente dos filiados da FSM.

 

Caros colegas e irmãos,

 

Após as viragens da correlação de forças internacional sofridas no período 1989-1991, o Movimento Sindical Internacional também enfrentou grandes dificuldades e grandes desafios. Esses desenvolvimentos deram origem a sérios debates, conflitos e confrontos dentro dos sindicatos. Podemos dizer sem exagero que a situação não tinha precedentes. Vimos sindicalistas e movimentos em pânico. Vimos alguns a esconderem-se por medo, outros a mudar as suas convicções da noite para o dia, outros a baixar e a esconder as suas bandeiras, a sua história, os seus símbolos.

 

As mudanças do século aconteceram e todos nós estávamos diante de  acontecimentos que abalaram o mundo. Estive presente, em 1994, em nome do movimento sindical de classe grego, como então Secretário-Geral da ESAK, no congresso crucial em Damasco, na Síria. E sinto a necessidade de agradecer à GFTU – Síria [General Federation of Trade Unions (Syria) – Federação Geral de sindicatos – Síria] e ao então Presidente do país Hafez Al-Assad, mesmo  após 28 anos, por aceitar e arcar com os múltiplos custos   da organização do 13º Congresso da FSM durante um período de perseguição à FSM.

 

Foi um Congresso existencial. As discussões versaram questões ideológicas, teóricas e organizacionais complexas e centrais. Por exemplo, se havia uma razão para manter a FSM ou se ela deveria ser dissolvida e  integrar-nos  todos na CSI (então CISL). Se a classe operária existia ou não, se a luta de classes existe ou foi abolida pela colaboração de classes e muito mais. Foi um conflito generalizado porque ambos os polos, ambas as linhas, eram fortes.

 

Naquele congresso quebraram-se as amizades, as uniões fraternas dividiram-se e cada um de nós escolheu um lado. A posição maioritária no congresso era manter a FSM e tentar modernizá-la e preservá-la. Durante aquele duro conflito interno, grandes personalidades desempenharam um papel importante, entre eles o secretário geral cubano da CTC [Central de Trabalhadores de Cuba], Pedro Ross, o  histórico comunista vietnamita CU THI HAU, secretário geral do VGCL [Confederação Geral dos Sindicatos do Vietname], o indiano Mahendra, presidente da AIUC [All-India Trade Union Congress – Congresso dos Sindicatos de Toda a índia], o sírio Izz al-Din Nasser, líder da GFTU e muitos outros, como o sírio Adib Miro, sindicalistas da Líbia…

 

Se menciono estes, é porque quero sublinhar que, desde que assumimos a liderança da FSM e até hoje, aqueles que têm estado constantemente a atacar a FSM, a linha da FSM e a sua atividade, são os dirigentes de sindicatos principalmente europeus que deixaram a FSM naquela época. Os seus ataques são sujos, caluniosos e em colaboração com mecanismos obscuros e suspeitos, também com a utilização de organizações internacionais, governos capitalistas e a burguesia internacional.

 

Todas as lideranças que deixaram a FSM seguiram durante 30 anos um caminho de integração no sistema capitalista. Juntaram-se à CSI e à CES, dizendo que supostamente iriam alterar estes mecanismos “a partir de dentro”. Depois de trinta anos, qual é a conclusão? Quem mudou afinal? Quem foi transformado? Que cada um tire suas próprias conclusões.

 

As nossas portas estão sempre abertas. Todos os sindicatos de classe são bem-vindos. Durante dezassete anos, promovemos consistentemente a unidade da classe operária e de todos os trabalhadores. Construir uma unidade sólida é a nossa tarefa diária. Claro que todos sabemos o que a palavra unidade sofreu nos vocabulários de todas as línguas do mundo. É a palavra mais usada. Como um doce, todos o têm na boca: tanto os que, sinceramente, a querem e a procuram, como os que a odeiam, mas fingem que a procuram.

Mas a unidade não é uma palavra oca. Não é uma bebida incolor, inodora e insípida. Todas as vezes tem um conteúdo específico.

 

Vejamos a questão palestina, por exemplo. Os palestinianos pedem unidade, alianças e apoio internacional para  alcançar o seu próprio Estado independente. Israel, por outro lado, também está a pedir unidade, alianças e apoio internacional, mas para expulsar os palestinianos de Jerusalém.

 

Vejamos o exemplo de Cuba. Os norte-americanos e todos os imperialistas pedem   unidade para isolar Cuba. E todos nós estamos a pedir unidade, a organizar campanhas e a unir forças e juntar esforços para apoiar Cuba, o CTC [União Central dos Trabalhadores de Cuba] e o povo cubano. Apelamos à unidade com os objetivos de Cuba, contra os objetivos da unidade imperialista. Portanto, a chave é sempre perguntar: unidade com quem e com que objetivo? Esses são avaliados no tempo e no lugar. É assim que tentamos enfrentar as necessidades dos tempos ao longo de todos estes anos, apoiando ao longo do tempo a unidade, em primeiro lugar da própria classe operária, as suas alianças com o campesinato pobre, com a juventude e com o intelectualidade que se junta aos objetivos da classe social de vanguarda. Esta unidade, a nossa unidade, unidade de classe, visa satisfazer as necessidades contemporâneas dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, exigir mudanças sociais que cheguem até ao derrubamento da exploração capitalista. Pelo contrário, a pseudo-unidade dos reformistas, dos burocratas, da aristocracia sindical e dos chamados “neutros” visa maquilhar e  branquear o capitalismo e a colaboração de classes. Visa cativar os sindicatos na colaboração de classes em linha com os imperialistas.

 

Caros amigos,

 

A FSM e  o congresso da sua fundação em 1945 foram identificados com a visão do mundo mais progressista e universal formulada e fundada pelo gigante do Pensamento Mundial Karl Marx com a ajuda e colaboração de Engels.

 

Com base nestes princípios tentámos proceder nos últimos 17 anos; fortalecendo as características do Internacionalismo, da Solidariedade Internacional e da solidariedade entre os Povos do mundo. Contamos com a rica história internacionalista da FSM, que apoiou as lutas moralmente, materialmente e de todas as formas possíveis. O internacionalismo da FSM em todos os continentes, na África, Ásia, América Latina, Caribe e América Central é conhecido e reconhecido tanto por amigos como por inimigos. Muitas vezes temos enfatizado que o internacionalismo, o internacionalismo proletário entre os trabalhadores e os povos, é a arma nuclear do movimento sindical de classe. Enfatizamos e continuamos a enfatizar que ninguém deve estar sozinho nas suas lutas.

 

Durante estes 17 anos, nunca afirmámos ser neutros. Geralmente apresentam-se  como neutros, independentes ou sem “patrono” aqueles que balançam uma vez para este lado e outra para aquele; aqueles que querem agradar a todos, aqueles que têm medo de se posicionar com clareza sobre algo ou que se posicionam com critérios oportunistas.

Não somos neutros nem independentes! Estamos 100% comprometidos e dependentes dos princípios e valores da luta de classes, da história e sacrifícios dos nossos heróis, da necessidade de emancipação da classe operária. E porque somos quem somos, não temos medo das ameaças imperialistas.

 

Os imperialistas e a classe burguesa internacional estão com medo e preocupados com o fortalecimento da FSM. É por isso que  usam sempre as mesmas medidas antidemocráticas como, por exemplo, em 1952, quando o conhecido presidente da FSM, Giuseppe Di Vittorio, foi proibido de se dirigir aos Estados Unidos para falar na ONU; da mesma forma, hoje, o Secretário Geral da FSM foi proibido de entrar nos Estados Unidos pela mesma razão; da mesma forma continuam com julgamentos fraudulentos contra o nosso quadro, Cliff, em Los Angeles e contra os nossos dirigentes em todos os países capitalistas. Todos estes anos nós lhes enviámos – e estamos a enviar-lhes mais uma vez da tribuna do 18º Congresso Sindical Mundial – a mensagem de que não temos medo deles. Não esquecemos ou perdoamos os seus crimes.

 

A FSM de hoje será respeitada ou temida. Não existe uma terceira via.

 

Assim, organizámos quatro campanhas internacionais e apoio material ao Povo Palestiniano. Organizámos um ataque global contra navios mercantes israelitas em todos os portos do mundo. Organizámos acampamentos infantis para jovens palestinianos, campanhas pela libertação de prisioneiros em prisões israelitas, intervenções em organizações internacionais pelo direito do povo palestino a ter o seu próprio Estado independente com Jerusalém Oriental como capital com base nas fronteiras de 1967. Organizámos iniciativas semelhantes de internacionalismo e solidariedade com Cuba e com o povo cubano e, em  conjunto com muitos outros movimentos conseguimos a libertação dos 5 cubanos que estavam presos nas prisões dos Estados Unidos.

 

Em todos os foros internacionais rechaçámos as calúnias lançadas pelos dirigentes sindicais amarelos em conjunto com a máfia anticubana que vive em Miami. E assim continuaremos até que o bloqueio seja abolido e a terra de Guantánamo seja devolvida a Cuba. Tivemos a mesma posição com a Venezuela, com a Bolívia, contra o golpe no Brasil e em toda a parte. Em todos os cantos do mundo ficou conhecida a postura internacionalista da Federação Sindical Mundial.

 

Os anos de que falo foram marcados por muitas guerras imperialistas. Aqueles que afirmavam que os derrubes de 1989-1991 seriam a favor da paz internacional revelaram-se hipócritas. O absurdo politicamente tolo da figura desprezível de M. Gorbachev de que todos viveríamos como irmãos numa casa comum também se mostrou hipócrita. Duas guerras na Europa, na Jugoslávia e a guerra Rússia-Ucrânia,  as guerras no Iraque, Afeganistão, Mali, Líbia, Síria, Azerbaijão e outras, confirmam que o imperialismo é um perigo para os povos e os trabalhadores.

 

A invasão da Ucrânia pela Rússia traz à tona questões sempre atuais e sempre úteis para os trabalhadores e os Povos. Lembramos que a guerra da NATO contra o Iraque foi “em nome da democracia”, o bombardeamento de 79 dias da NATO à Jugoslávia foi “pela liberdade”. No Afeganistão, na Síria, na Líbia, em todos os lugares onde os EUA, a União Europeia e a NATO atacaram, foi porque a NATO é apaixonada pela democracia, como nos dizem!!!

E todos os grandes meios de comunicação de massas  se mobilizam em torno dessas mentiras para enganar o povo. Guerras como a atual são travadas por recursos, pela  energia, por portos e mares. Além disso, agora na Ucrânia estamos testemunhar outro evento sério: a estreita cooperação entre neoliberais, neonazis e social-democratas. Na Ucrânia, a máscara dos hipócritas está a cair. Por exemplo, na França toda a gente está feliz porque a formação neofascista de Marine Le Pen perdeu, mas ao mesmo tempo apoiam o governo neofascista da Ucrânia e os batalhões neonazis. Por um lado, supostamente acusam Orban da Hungria de ser racista, mas ao mesmo tempo apoiam o governo racista polaco. Veja-se também o exemplo da Itália e da Grécia, onde aprovam a participação e o apoio a governos de racistas e neoliberais como Matteo Salvini, Panos Kammenos, etc.

 

Assim, o apoio e o armamento dos neonazis na Ucrânia provam a verdadeira face dos EUA, da  NATO e da União Europeia. Todos eles, com essa atitude, legitimam o nazismo. É por isso que estamos a tocar a campainha de alarme. Por trás de todos esses mecanismos negros a nível sindical está a CSI e a sua subsidiária na Europa, a CES. Eles escolheram o lado. Sempre estiveram com os imperialistas.

 

Apoiaram as guerras imperialistas no Iraque, aplaudiram as guerras na Líbia e na Síria, no Afeganistão e fizeram declarações a favor do bombardeamento da NATO à Jugoslávia. Mais uma vez,  estão agora ao lado dos imperialistas da NATO. Apoiam descaradamente as forças neonazis e tornam-se instrumentos da estratégia dos EUA e seus aliados que querem a Federação Russa derrotada, a República Popular da China isolada, cativos todos os países que não alinham com os seus planos como a Índia.

 

Agora querem redesenhar as fronteiras, dominar o Ártico e o espaço. Este grande quadro vem confirmar nos nossos dias que a tolerância aos fenómenos do neofascismo  traduz-se em grandes perigos para os sindicatos e os trabalhadores, e também que a cooperação e as alianças com a social-democracia cativam os sindicatos e priva-os  dos seus objetivos fundadores.

 

A história ensina que é um erro mortal que os sindicatos participem de rivalidades intra-imperialistas e escolham um campo imperialista. Além disso, fica cada vez mais claro que a luta antifascista mais consistente e eficaz é aquela que leva à emancipação dos trabalhadores e a uma sociedade socialmente justa.

 

Como uma organização sindical anti-imperialista firme, a FSM opôs-se a essas guerras, organizou grandes iniciativas de massas, comícios anti-imperialistas e antifascistas e fóruns internacionais. Estávamos nas zonas de guerra na Jugoslávia, Síria e Iraque. Durante a guerra na Síria, fomos muitas vezes a Damasco. Hoje, quando crescem os riscos de uma guerra generalizada, é necessário intensificar a nossa luta pelo fim da guerra Rússia-Ucrânia e pela resolução de todas as disputas por meio de negociações. A nossa principal tarefa agora é fortalecer as vozes e as ações para o desmantelamento da NATO. É a NATO que incendeia as guerras em toda a parte. A nossa proposta de anunciar o dia 1º de setembro de cada ano como um dia de ação internacional dos sindicatos pela paz e amizade entre os povos é oportuna e realista. Escolhemos e propomos o 1º de setembro porque em 1º de setembro de 1939, a Alemanha nazi iniciou a Segunda Guerra Mundial que custou a vida de 85 milhões de pessoas. Portanto, vale a pena concordar que estamos a revivee e a reativar uma decisão anterior tomada pela FSM na década de 1980.

 

Caros camaradas,

 

Outra palavra de ordem que lançámos nos últimos anos foi, que no mundo em que vivemos, a nossa esperança está nas nossas lutas. E, de facto, as lutas dos trabalhadores trouxeram muitos resultados concretos. Sem as lutas que ocorreram em todos os continentes, as perdas para os assalariados teriam sido maiores. Através das lutas, tanto a solução de algumas reivindicações imediatas, a defesa de direitos e conquistas e a  luta contra as privatizações, despedimentos, mudanças antissindicais e outras foram alcançadas. Mas o ganho mais importante das lutas foi e é a compreensão dos trabalhadores de que o nosso poder está apenas na luta de classes.

 

Além disso, por maior que a consciência de classe seja e as massas compreendam que a ação no quadro do sistema capitalista não seja ilimitado, isso também é um grande ganho. O trabalhador que veja por experiência própria que as lutas vão além da satisfação das suas necessidades contemporâneas, chegando ao conflito e ao questionamento direto do sistema explorador, esse trabalhador torna-se um militante mais forte e consciente. Como resultado de todas essas lutas e ricas ações veio o fortalecimento organizacional da FSM com a criação da Comissão das Mulheres Trabalhadoras, da Comissão da Juventude, da Comissão de Imigrantes, da Comissão de Assessoria Jurídica, etc.

 

Ao longo dos últimos anos,  foram organizadas grandes lutas de todas as formas. Desde os protestos mais simples, petições, comícios, até formas mais elevadas e complexas como paralisações, greves, ocupações de fábricas, etc.

 

Não vou falar de países porque corre-se o risco de esquecer um país, um setor ou uma greve. Afinal, todos sabemos que em todos os continentes a classe operária mobilizou-se e lutou. Mas deixem-me fazer três exceções. Uma, as grandes greves na Índia, com 200 milhões de manifestantes numa ocasião e 260 milhões na outra, foram greves que deram força e coragem a todo o planeta.

 

A outra foi a greve militante dos sem-terra em Curuguaty, Paraguai, liderada pelo camarada Villalba, que foi manchada com o sangue dos militantes e penas pesadas que obrigaram o líder da FSM a passar 12 anos na prisão, em condições desumanas que vimos com nossos próprios olhos durante uma visita ao presídio de Assunção. E a terceira, que não é uma, mas muitas juntas, são as greves sangrentas dos trabalhadores palestinianos que resistem aos postos de controle do exército israelita e enfrentam o terrorismo israelita.

 

Caros colegas,

 

Como FSM, destacamos a necessidade de defender o direito à greve. É um direito sagrado, conquistado com o sangue dos nossos companheiros. A burguesia internacional exige a abolição do direito à greve, colocando tantos e tantos obstáculos que será impossível organizar uma greve. Afirmamos  desta tribuna que defenderemos a todo custo o direito à greve e os direitos às liberdades democráticas e sindicais.

 

Camaradas,

 

Para uma Organização Sindical Internacional como a FSM, as nossas lutas começam nas ruas, nas praças públicas, nas fábricas e as nossas vozes chegam às Organizações Internacionais nas quais participamos. Discutimos em congressos anteriores e decidimos utilizar a nossa presença nas Organizações Internacionais para promover e assinalar as questões dos trabalhadores. Não temos ilusões sobre o papel atual das Organizações Internacionais, principalmente após as mudanças no equilíbrio de poder internacional. Hoje, as Organizações Internacionais são controladas pelos governos dos Estados Unidos e da União Europeia.

 

Lembremos quantas resoluções a ONU tomou para deter o bloqueio contra Cuba. Muitas. Qual é o resultado prático? Palavras vazias. Pelo contrário, foi necessária apenas uma decisão para os imperialistas atacarem a Líbia e a guerra foi travada. Esta é a foto de hoje. No entanto, podemos, sem ilusões, usar a nossa presença na ONU, na FAO,  na UNESCO e na OIT para revelar a verdade do ponto de vista das pessoas comuns.

 

Seguindo essa tática nos anos anteriores, destacámos dentro das organizações internacionais os assassinatos de sindicalistas pioneiros na Colômbia, a brutalidade patronal contra os trabalhadores rurais em Foggia, Itália, as responsabilidades do governo da França com os ataques em Gardanne, lutámos dentro da FAO contra os altos preços dos alimentos básicos, destacámos na UNESCO a defesa das línguas maternas e dialetos locais que são património mundial.

 

Dentro da ONU, a nossa persistência e as nossas intervenções para as mulheres trabalhadoras tiveram um impacto significativo. E, é claro, que tanto na ONU como na OIT temos exposto consistentemente o papel sujo dos governos e do patronato contra Cuba, Venezuela, Síria, Líbia, Iraque, Irão e todos os povos que exigem decidir por si mesmos sobre seu presente e futuro.

 

Colegas,

As nossas lutas e a nossa atenção incluíram todas as reivindicações que dizem respeito ao povo trabalhador em todos os cantos do planeta. Durante o período da pandemia revelámos que “o Rei vai nu” e que os pobres pagaram com a vida as carências na saúde pública. Ao mesmo tempo, insistimos na importância de defender as liberdades democráticas e sindicais enquanto os governos, sob o pretexto da pandemia, intensificam os seus ataques antidemocráticos através do teletrabalho e da generalização do trabalho a tempo parcial.

 

As questões das alterações climáticas, a utilização dos recursos hídricos, a necessidade de habitação digna, o acesso a água limpa e potável para todos os residentes de África, os cuidados de saúde públicos e gratuitos, bem como a nossa luta contra o trabalho infantil, têm sido há muitos anos a linha de frente das nossas reivindicações centrais nas Jornadas de Ação estabelecidas desde 2008 e organizadas todos os anos sem  interrupção.

 

Mas permitam-me destacar as nossas lutas por condições de saúde e segurança nos locais de trabalho. É nosso princípio básico exigir que todos os trabalhadores voltem para casa com saúde, sãos e salvos. Para voltar do trabalho como saíram de casa para o trabalho. Lamentamos as vítimas todos os anos. Os crimes são cometidos pelos patrões, pelos monopólios e os seus governos. Trezentos e um mineiros ficaram soterrados em Soma, Turquia e o Presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, disse que era a vontade de Deus!!! Não, não era a vontade de Deus. Foi um crime do patrão. Em Dhaka, Bangladesh, 1.400 operárias de vestuário ficaram soterradas sob as ruínas da antiga fábrica. No Qatar, mais de 6 500 trabalhadores perderam a vida nas obras da Taça do Mundo. Em todos os lugares, em todos os continentes, a situação é trágica. A OIT estima que 2, 3 milhões de homens e mulheres percam a vida por acidentes ou doenças profissionais todos os anos, ou seja, 6 000 mortes por dia. Em todo o mundo ocorrem 340 milhões de acidentes de trabalho e 160 milhões de vítimas de doenças ocupacionais são registados todos os anos.

 

Governos e capitalistas são os perpetradores morais e físicos. Esses incidentes são crimes, não o resultado de fenómenos climáticos. Pois bem, sabemos que nos incêndios são os pobres que se queimam, nas inundações são os mais pobres que se afogam, durante os terramotos geralmente são os mais pobres que são esmagados. A verdadeira causa de tais crimes está na sede de lucros. Como sindicatos, temos a sagrada obrigação de aumentar diariamente a nossa consciencialização e as reivindicações pela saúde e segurança dos trabalhadores. Não apenas quando tais crimes ocorrem. A prevenção é valiosa, por isso é um dever diário para nós.

 

Caros irmãos e irmãs, colegas

 

Após cinco anos como vice-presidente da FSM e 17 anos como seu secretário-geral, estou profundamente convencido de que a classe operária mundial e todos os trabalhadores do mundo precisam da FSM. Eles precisam de uma FSM que dê esperança, inspire e defenda seus interesses. Sem a FSM, a situação dos trabalhadores e do movimento sindical seria muito pior e com mais dificuldades do que temos hoje.

Pense-se no que a FSM contribuiu para seus próprios países de 1945 até os dias atuais. Presente em todos os lugares e sempre ao lado dos seus povos e dos seus sindicatos. Pense-se em quantos sindicatos a FSM ajudou a fundar nos primeiros e difíceis anos.

Pense-se nos líderes que surgiram nos seus países e nos seus setores, que deram as suas vidas pela luta de classe. Não nos esqueçamos que as reivindicações sindicais mais avançadas dos trabalhadores  foram apresentadas e exigidas nas faixas, publicações e reivindicações da FSM. Todos nós temos o dever de difundir e defender esta verdade histórica, e de denunciar os mentirosos e falsários que espalham metodicamente mentiras através das várias fundações como a Friedrich Ebert, através das várias ONG que, na sua maioria, são mecanismos de corrupção da consciência dos trabalhadores..

 

Camaradas,

 

Para concluir, quero dizer a todos vós, a todos os nossos membros, que estou otimista  em que, com a unidade de todas as nossas fileiras e fortalecendo as características de classe da FSM, fortalecendo a nossa ação no que diz respeito aos trabalhadores hoje podemos atender às reivindicações dos tempos.

 

O poeta pioneiro revolucionário russo Vladimir Mayakovsky escreveu: “o futuro não virá por si mesmo” no seu grande poema com o título geral: “Tirem o futuro da lama!”. Depende da nossa ação tirar o futuro da lama do capitalismo. O futuro de todos nós não pode ser o capitalismo. O futuro pertence ao mundo do trabalho e das lutas. Por um mundo sem exploração do homem pelo homem. Continuemos unidos na nossa linha militante, na linha testada da luta de classes e do internacionalismo proletário.

 

Para tirar o futuro da lama!

 

VIVA A FSM ANTICAPITALISTA

VIVA A FSM ANTI-IMPERIALISTA”.

 

Fonte: https://mltoday.com/outgoing-wftu-leader-pull-the-future-out-of-the-mud-of-capitalism/, publicado e acedido em 10.05.2022

 

Tradução de TAM

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.