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terça-feira, 30 de maio de 2023

O FMI e os seus órfãos ideológicos

 

Álvaro García Linera

 

[...] no alvorecer do século XXI tudo começou a fraturar-se. A pobreza, escondida sob o tapete do "empreendedorismo", saltou pelo ar. Desigualdades brutais quebraram consensos e o livre mercado correu para se ajoelhar diante do Estado para exigir resgates financeiros ou subsídios; primeiro, diante da crise das hipotecas subprime; depois, frente ao grande confinamento da COVID-19; depois, diante do poder produtivo da China; depois, diante do aumento do preço dos combustíveis; depois, diante de falências bancárias; depois, face às alterações climáticas. A excecionalidade tornou-se a regra.

 

 

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Fundo Monetário Internacional (FMI) ao serviço do neocolonialismo. Foto: Stock.

 

Houve um tempo em que as "recomendações" do FMI sobre como reorganizar a economia eram lidas, defendidas e executadas como se fossem divinamente mandatadas. Eram os anos 90 do século passado quando, de cada estudo dos rumos da economia mundial ou acordo alcançado com este ou aquele país, não só emanava um otimismo histórico substancial com o que se propunha, como também era acompanhado por uma difusão colossal, sem margem para dúvidas e eficiente, que ia de ministros da economia a parlamentares; assessores económicos de governos; renomados empreendedores locais; universidades de prestígio a comentaristas de televisão e jornais; académicos a comentadores de café, que lambiam os lábios a cada frase, a cada facto, a cada sugestão dessa organização internacional.

Eram os tempos do "grande consenso social" tecido por uma profusa rede de opinião pública dedicada a consentir que os sacrifícios coletivos da perda de direitos, da expropriação de bens públicos e do abandono estatal, seriam redimidos com  o brilhante sucesso individual de se tornar empresário, acionista ou diretor de empresa. Privatizar tudo, desproteger tudo e deixar que o livre mercado cuidasse do resto foram os credos fundadores de um novo mundo de empresários, que imediatamente os clérigos dessa religião acompanharam, no meio de responsos e incensos, com frases ocas como "encolher o Estado para ampliar a nação", "país dos vencedores", "distribuição a conta-gotas" ou "fim da história".

Mas, no alvorecer do século XXI, tudo começou a fraturar-se. A pobreza, escondida sob o tapete do "empreendedorismo", saltou pelo ar. Desigualdades brutais quebraram consensos e o livre mercado correu a ajoelhar-se diante do Estado para exigir resgates financeiros ou subsídios; primeiro, diante da crise das hipotecas subprime; depois, frente ao grande confinamento da COVID-19; depois, diante do poder produtivo da China; depois, diante do aumento do preço dos combustíveis; depois, diante de falências bancárias; depois, face às alterações climáticas. A excecionalidade tornou-se a regra.

E agora acontece que, desse grande princípio ordenador supremo do capitalismo tardio, o "livre mercado", não resta nada além da nostalgia. Em 2020, o Estado salvou as empresas e bolsas de valores das grandes economias do Norte. O comércio mundial e o capital transfronteiriço abrandaram estruturalmente o seu crescimento. Os subsídios à energia, aos alimentos e ao consumo deslocaram a livre oferta e a procura. A "segurança nacional" ou o expansionismo geopolítico mataram a lei da oferta e da procura para definir os preços dos combustíveis, das redes de telecomunicações, dos microprocessadores ou da transição energética. Europeus e norte-americanos recompensam com dinheiro público empresários que retraem as suas cadeias de valor para cada país e punem a eficiência da externalização de custos. O globalismo está a ser substituído pelo nacionalismo económico e pela geopolítica.

O FMI sabe disso. E arrepende-se infinitamente. Num estudo recente (Fragmentação geoeconómica e o futuro do multilateralismo), ele relata esse recuo catastrófico do livre mercado. Mostra como, depois de um longo fluxo globalista que vai de 1980 a 2010, entrou num refluxo que pode durar décadas. Para isso, fornece dados sobre a contração do comércio mundial de bens, serviços e finanças, em relação ao PIB, de 45% para 33%. O aumento mundial, em até 400%, de medidas restritivas e protecionistas. Dá conta de estatísticas  que revelam o aumento substancial da desconfiança social com a globalização (50%) e o crescimento da procura de medidas projetivas (33%). O estudo também fornece dados sobre o terramoto no imaginário coletivo que acompanha tudo isto, vendo como as palavras "segurança nacional", "nearshoring" [1] ou "deslocalização" estão a substituir esmagadoramente o velho léxico mercantilista em instituições internacionais, empresários e gestores de negócios. Para completar este quadro adverso, o último relatório de abril sobre a economia mundial (World Economic Outlook), mostra como o investimento estrangeiro direto caiu de  5% do PIB em 2008, para menos de 2% em 2022. Para ofuscar o efeito desses eventos, os relatórios também indicam que esses "infortúnios" trarão uma possível queda do PIB mundial da ordem de 2 a 7% nos anos seguintes. Mas, apesar disso, só pode admitir que, longe de ser uma curva no caminho que será corrigida por um regresso imediato e triunfal do livre mercado, essa "desaceleração" é um facto estrutural e de longo prazo.

Dizer estas coisas a uma instituição que durante décadas foi o oráculo do triunfo inevitável do livre mercado não é fácil. Traz traumas internos, frustrações existenciais e uma cascata de contradições quase paranoicas.

Isso já era evidente em 2020, quando, no fim do "grande confinamento", perante a pandemia, o FMI recomendou que os governos dos países aumentassem os impostos sobre os ricos e aumentassem o investimento público, tanto na proteção social como no capital (World Economic Outlook, 2020). Exatamente o oposto  daquilo que exigiu durante os 40 anos anteriores. Ainda mais desconcertante é comparar as imposições anteriores aos países "em desenvolvimento" para levantar barreiras tarifárias, abrir os seus mercados e aceitar um mundo sem fronteiras "prejudiciais", com a nova teoria monetarista do semáforo de "compromissos diferenciais" (Outlook, 2023) em que cada país poderá escolher, de forma "pragmática", acordos comerciais irrestritos onde haja acordos globais (sinal verde); acordos regionais, onde não há alinhamento alargado de preferências (semáforo amarelo); e medidas protetoras unilaterais, em que cada governo opta pelos seus próprios interesses internos (sinal vermelho).

Mas onde essa inversão lógica do mundo atinge antinomias grosseiras é quando, no mesmo documento, dois caminhos antagónicos são oferecidos para o mesmo problema. Diante da crise da dívida soberana que nos últimos 5 anos disparou em todo o mundo, o FMI exige, de um lado, "consolidação fiscal", eufemismo para reduzir o investimento público, cortar gastos sociais e despedir trabalhadores, como tenta impor na Argentina.

Mas, por outro lado, dedica-lhe um capítulo inteiro para demonstrar que, pela experiência histórica comparativa em 33 economias de mercado emergentes e 21 economias desenvolvidas, entre 1980 e 2019, os casos de contração fiscal não geraram uma redução significativa do endividamento. E, ao contrário, os dados factuais mostram que a expansão dos gastos fiscais visando o aumento do PIB por meio de um "choque positivo de oferta e procura" reduz significativamente os índices da dívida pública em até um terço. Isto é certamente uma coisa óbvia. Só com o crescimento da economia e das receitas que o Estado tem, é que se podem reduzir as percentagens da dívida e pagar os créditos. Ainda mais num mundo em que há uma retirada estrutural do investimento estrangeiro que está a optar por se refugiar nos países economicamente mais fortes, devido às altas taxas de juros que concedem e à incerteza económica que corroeu qualquer indício de confiança no futuro.

Milton Friedman, guia espiritual dos tempos neoliberais, recomendou saber "quando a maré está a virar" para tornar efetiva uma doutrina económica. Significava ter a sensibilidade de entender as mudanças na opinião pública, na atmosfera intelectual e nas pessoas comuns. Ele soube percebê-lo nos anos 70, quando o quadro keynesiano estava a desmoronar-se e, junto com outros, foi capaz de difundir o novo credo económico. Mas é claro que hoje, para entender a nova "viragem da maré", os seus acólitos do FMI não o fazem com discernimento suficiente.

Mas onde o desarranjo cognitivo é muito maior, é nos filhos ideológicos dos organismos internacionais da ordem globalista. Portadores de um entusiasmo liberal que compensa um talento reduzido, todo o exército de "analistas económicos", consultores, professores, políticos e promotores do livre mercado que beberam do dogma derramado do FMI ou do BM, foram deixados de fora das suas mentes. A sua terra plana está a afundar-se e eles não entendem o porquê.

Alguns optaram pelo estupor paralisante. Sentem-se traídos por uma realidade que não se conformava com as suas profecias e mudava as perguntas para as suas respostas. O resultado é a perplexidade diante de uma sociedade que perdeu o rumo. Outros tornaram-se espectros chorosos de uma ordem económica que se esvaiu juntamente com as suas certezas e, diante das evidências, só podem apegar-se às memórias melancólicas de compromissos para os quais a história ainda não estava preparada.

E finalmente há as crianças zombis, que são criaturas implacáveis nascidas e alimentadas por um tempo histórico, paradigmas e circunstâncias económicas que já não existem hoje. O consenso e o otimismo globalista que lhes deram vida morreram como eles. Mas eles ainda não perceberam ou não aceitam; e deambulam furiosamente engolindo os fios corrompidos da velha ordem carregada pela inércia e pelo vento. Ao contrário do espectro, que só vagueia pelos cantos das consciências patéticas, o zombi é violento e destrutivo. Como já não procura seduzir com o livre mercado, mas impor e sancionar os seus detratores, propõe "dinamitar" as regras económicas; compete pela velocidade das "terapias de choque" e, há mesmo quem ressuscite propostas mal sucedidas de "cheques" educativos. São iliberais dispostos a defender um liberalismo à paulada.

Em suma, eles representam a memória fóssil de um fracasso que levou às explosões continentais de 2001-2003. Com a agravante de que, ao contrário de então, prometem não ser "brandos" e  pôr os revoltosos na ordem, ou seja, mais desastres em espiral. Talvez seja isso que Gramsci quis dizer quando falava das expressões mórbidas ou monstruosas de uma hegemonia a desvanecer, própria de um "interregno"

 

1 O nearshoring consiste na transferência do trabalho de uma empresa para empresas mais económicas e geograficamente mais próximas.

 

 

Fonte: El FMI y sus huérfanos ideológicos | Cubadebate, publicado e acedido em 07.05.2023

 

 

Tradução de TAM

in Pelo Socialismo, blogspot.com

domingo, 28 de maio de 2023

 Ouve-se proclamar o socialismo e as políticas pelas quais se diz lutar são efetivamente socializantes. Contudo, ser socialista hoje é ser anti imperialista nos acontecimentos principais que atravessam o mundo. Proclamar o socialismo e ceder a políticas da UE-OTAN-EUA não é socialismo. É outra coisa qualquer.

   Não estaremos sempre a repetir a rutura entre social-democratas e comunistas que aconteceu com a Primeira Guerra Mundial?

JULIANE FURNO: COMO FUNCIONA HOJE O IMPERIALISMO? - 20 Minutos Entrevistas

quinta-feira, 18 de maio de 2023

 

Marx, um pensador de frente para a história

Esse imenso pensador revolucionário se consolidou como intérprete da contemporaneidade e continua sendo uma trilha fértil para armar a intervenção humana no sentido da transformação do mundo em que vivemos.

Por Milton Pinheiro

Hoje, 5 de maio de 2023, completam-se 205 anos do nascimento de Karl Marx. Trata-se, nessa simples efeméride, de podermos reafirmar a importância da sua teoria social para o exame da realidade concreta, a partir de concepções, pesquisas e ações desenvolvidas por ele na história. Afinal, esse imenso pensador revolucionário se consolidou como intérprete da contemporaneidade e continua sendo uma trilha fértil para armar a intervenção humana no sentido da transformação do mundo em que vivemos.

Sua grandiosa obra nos permite desvelar o real na sua forma concreta e avançar para que se possa extrair lições da atual quadra histórica, que é marcada pela intensa condensação das diversas crises da ordem do capital, mas também pela perspectiva, inspirada em Marx, de intervenção do proletariado na luta de classes.

No entanto, diante dessas contradições societais, avança o pauperismo social, aprofunda-se a erosão do capitalismo a partir dos seus marcos fundantes, avoluma-se uma profunda crise ideológica que alimenta o ressurgimento do fascismo em nova configuração. É evidente que a sociabilidade dessa ordem entrou em decadência e configurou variadas manifestações de opressões. Esse conjunto condensado, entre outros fatores determinantes da crise em curso, está possibilitando a abertura do cenário político para a disjuntiva elementar do nosso tempo: socialismo ou barbárie.

O fundamental para compreendermos o pensamento de Marx, enquanto um rigoroso teórico do empreendimento contemporâneo, passa por três noções constitutivas que se estabelecem a partir da teoria do valor trabalho; do método dialético e da perspectiva da revolução. Esse tripé fundamental possibilita, em seu conjunto, um poderoso instrumento de análise para que possamos entender o modo de produção capitalista, a ordem da sociabilidade burguesa e a perspectiva de ruptura; necessários cenários que precisam ser desvelados para que o sujeito imanente da revolução possa abrir caminhos para o processo de emancipação humana.

Marx, ainda em vida, inspirou tradições revolucionárias e plurais interpretações sobre as questões do mundo contemporâneo. Seu legado cresceu nessa longeva jornada, tornou-se presente nas ciências sociais e humanas, nas revoluções do século XX e no movimento da classe trabalhadora por direitos e transformações. No atual momento histórico, mesmo com o imenso problema do déficit de organização revolucionária, uma densa militância ontologicamente comunista orientada pelos marxismos consegue ter um vasto campo de ação e acurada análise para enfrentar o projeto político do capital, ainda que o movimento da classe trabalhadora não seja o necessário para indicar uma relação de força pautada na contradição trabalho versus capital.

Embora o marxismo seja a teoria social com maior capacidade de aderência ao real para entender a crise societária, quando eivado de academicismo estéril e da marxologia diletante, perde a capacidade de ser sujeito de um projeto de futuro da classe trabalhadora, ficando encapsulado ao ambiente formatado por uma lógica sem fertilidade, fazendo com que seja incapaz de permitir que a teoria se torne ação concreta.

As contradições da perene cena política contemporânea, com seus impasses do fim de um ciclo, possibilitaram o reaparecimento da extrema direita como alternativa de poder em várias partes do planeta. Ressurgiu o individualismo, o obscurantismo, o fundamentalismo, a xenofobia, o reacionarismo e todas as formas de opressão da sociabilidade capitalista. Marx, como lição e ponto de partida, é uma fonte extraordinária para entendermos o processo em curso e avançarmos na procura do caminho que temos que construir para combater os monstros do fim de ciclo.

A atualidade de Marx encontra-se na análise fina que nos alerta o filósofo francês, Alain Badiou, “enfrentar a realidade do capital é ter uma solução de práxis para a revolução”. Essa trilha seminal é a manifestação da profunda atualidade de Marx. Esse motivo concreto inspira e opera a luta pela hegemonia de um projeto que confronta a ordem do capital no atual ciclo histórico. No entanto, essa perspectiva estratégica só será vitoriosa com a organização da classe trabalhadora e sua duradoura formação teórica.

A obra de Marx é inseparável de sua vida e da luta histórica que travou. Seus estudos sempre refletiram os passos concretos das batalhas que lutou e dos fundamentos que desvelou para avançar na construção da revolução mundial. Sendo assim, no momento em que o gigante pensador marxista, Ernest Mandel, completou cem anos, podemos, com base em sua contribuição, descortinar algumas etapas da “história” de Marx.

Os escritos de 1837-1843 conformam o que identificamos como democratismo radical, marcado por trabalhos como Diferença entre a filosofia da natureza de Demócrito e Epicuro, A Gazeta Renana e a Crítica da filosofia do direito de Hegel.

Os fundamentos da emancipação política à emancipação social (1843-1844) são encontrados nos livros Sobre a questão judaica, na Introdução a uma crítica da filosofia do direito de Hegel e nos Manuscritos econômico-filosóficos.  

No ápice das revoltas europeias (1848-1850), Marx se dedicou ao movimento da revolução burguesa à revolução proletária. São desse período o Manifesto comunista, Trabalho assalariado e capital, e a Mensagem ao Comitê Central da Liga dos Comunistas.

Com a derrota da chamada primavera dos povos, Marx escreveu dois livros de balanço daquela vaga revolucionária, das lutas de classes e das lutas políticas daquele período (1850-1852): As lutas de classes na França (três ensaios publicados numa revista) e O 18 de brumário de Luís Bonaparte.

A partir daí um novo ciclo preocupa Marx, que começou a desenvolver pesquisas sobre o capitalismo (1853-1859), iniciando o processo de preparação de O capital. É também desse período a colaboração no jornal New York Daily Tribune (1852-1862), os Grundrisse e a Crítica da economia política.

Tendo como corte temporal os anos de 1860-1867, Marx aprofunda sua obra econômica e realiza debates na I Internacional. Sendo dessa etapa Teorias sobre a mais-valia, Manuscrito II de O capital, Discurso inaugural da Associação Internacional dos trabalhadores, O capital (Livro I), O capital (Vol. II – manuscrito), 1869-1870.

Podemos fechar esse ciclo intelectual (1867-1883) com as preocupações de Marx sobre a revolução proletária em marcha e os partidos políticos. Temos então os Dois informes sobre a guerra franco-prussiana, A guerra civil na França, Crítica do programa de Gotha, Carta aos dirigentes da socialdemocracia alemã, Carta a Vera Zassoulith e o Prefácio à segunda edição russa do Manifesto comunista.

Hoje, 205 anos depois de seu nascimento, o pensamento de Marx nos coloca de frente para a história e é fundamental no debate sobre a revolução no começo do século XXI. Afinal, quando os trabalhadores franceses dias atrás, em luta aberta por seus direitos, cantaram o hino da Internacional em manifestações nas ruas de Paris, um novo ciclo começou a ser apresentado com forte possibilidade de desvelar as lutas de classes e apresentar um real e concreto projeto de futuro para a humanidade.

Marx Vive!


A VIDA DE MARX EM TRÊS BIOGRAFIAS

Karl Marx: uma biografia, de José Paulo Netto
Com maestria e erudição, José Paulo Netto nos conta a história de Karl Marx neste livro fundamental, fruto de uma vida inteira dedicada ao estudo da obra marxiana.

Karl Marx e o nascimento da sociedade moderna, de Michael Heinrich
Neste primeiro volume, o autor investiga os anos iniciais de Marx, de sua infância aos anos de formação intelectual, em que doutorou-se na Universidade de Iena. 

O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1883), de Marcello Musto
Análise perspicaz dos anos finais e ainda pouco explorados da vida de Karl Marx. Combinando rigorosa abordagem acadêmica com uma escrita acessível

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Milton Pinheiro é Cientista Político e professor titular de história política da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Pesquisador na USP, editor da revista Novos Temas e autor/organizador de dez livros, entres eles, Ditadura: o que resta da transição (Boitempo, 2014).

 

Viagem à China


Por JOÃO PEDRO STÉDILE*

Relatório de viagem realizada de 12 a 24 de abril de 2023

Apresentação

Durante esse período foram realizadas muitas reuniões, com diversos setores do partido, federação dos sindicatos, universidades e conversas com pesquisadores e intelectuais da esquerda chinesa. Também realizamos visitas a fábricas e comunas rurais.

As anotações não têm ordem, nem prioridade, foram feitas a partir das reuniões e conversas, apenas procurei sistematizar por grandes temas e agora compartilhadas para que nossa militância popular do Brasil, tenham alguns elementos sobre a realidade chinesa, ainda pouco conhecida no Brasil.

Economia

A economia chinesa foi marcada por diversos períodos na sua história. Com uma economia baseada na agricultura e no mercado local. O primeiro período de 49-57 foi marcado pela implantação de uma indústria de base (energia, siderúrgica, indústrias de base) com a transferência de tecnologia da URSS, que transpôs fabricas inteiras. O primeiro trator chinês foi fabricado em 1956, copiando um modelo soviético. O segundo período de 1957-76 representou uma etapa de economia fechada voltada apenas para o mercado interno, atendimento as necessidades da população e início das indústrias de consumo.

No período de pré-reforma e abertura econômica de 29 anos (1949-1978), sob a liderança do Mao Zedong até 1976, a expectativa de vida da China aumentou 32 anos. Em outras palavras, para cada ano após a Revolução, mais de um ano foi adicionado à vida de um chinês médio. Em 1949, a população do país era 80% analfabeta, e em menos de três décadas o analfabetismo foi reduzido para 16,4% nas áreas urbanas e 34,7% nas áreas rurais; a matrícula de crianças em idade escolar aumentou de 20% para 90%; e o número de hospitais triplicou.

Esse processo incluiu o estabelecimento de escolas de ensino médio para trabalhadores e camponeses e o envio de milhões de agentes de saúde para o campo. Avanços significativos foram feitos na participação das mulheres na sociedade, desde a abolição dos costumes do casamento patriarcal até o aumento do acesso à educação, cuidados de saúde e creches. De 1952 a 1977, a taxa média de crescimento anual da produção industrial foi de 11,3%.

O terceiro período de 1976-2013, foi marcado pela aliança com EUA, e depois adoção de políticas neoliberais e de buscar de mercado externo. Foi o período que a China se transformou a fábrica do mundo, com implantação de alianças com empresas estrangeiras, que traziam suas máquinas e tecnologia industrial para aproveitar a mão-de-obra barata chinesa, que transferiu para as cidades mais de 100 milhões de trabalhadores.

Uma das bases da industrialização foi a indústria automobilística, em que fizeram parceria com os grandes grupos transnacionais para levar tecnologia e depois a China ampliou a tecnologia, como a adoção para os carros e ônibus elétricos. No ano 2000 produziam 1, 3 milhões de carros por ano. No ano passado produziram 20 milhões de carros. A outra base do crescimento da economia prolongado foi o investimento em construção civil, milhões de novas moradias e da infraestrutura urbana. Metros, estradas, e trens de alta velocidade. A China gastou, em menos de dez anos, mais cimento e ferro, do que os EUA durante todo século XX!!

De 2000 para cá estão em curso novas mudanças, em que a China está industrializada, tem 40% de sua economia voltada para o mercado externo, e agora controla as políticas neoliberais e prioriza os investimentos em tecnologia, buscando alta produtividade.

Neste último período houve a reativação e fortalecimento de empresas estatais, o aumento da renda dos trabalhadores (o salário médio na indústria é hoje superior ao do Brasil e México), e o controle absoluto do capital financeiro. Todo sistema financeiro que controla as finanças é formado por grandes bancos estatais, ainda que existam bancos privados.

Hoje a economia é formada por cinco setores de capital: Estatal, empresas privadas (em especial na construção civil e comercio) empresas coletivas de trabalhadores, empresas mistas, entre públicas e privadas e empresas estrangeiras.

O setor privado representa: 60% do PIB da China, 70% da inovação, 80% dos empregos urbanos e 90% dos novos empregos. Na década de 1990, diante do declínio dos lucros e da competitividade, o governo central adotou uma política deixar o capital privado entrar em muitos setores, mais deixando os setores mais importantes nas mãos do estado (por exemplo, energia, bancos, mineração, transporte aéreo e ferroviário, telecomunicações e outros setores estratégicos). Por exemplo, das 109 corporações chinesas na Fortune Global 500, 85% são de propriedade pública. Os quatro maiores bancos do mundo são chineses – e cinco dos 10 maiores bancos do mundo são chineses (ativos de US$ 5 trilhões), todos estatais (ICBC, CCB, ABC, BoC, CMB).

Em cada grande cidade tem 20 a 30 empresas estatais que controlam a produção e a economia. Já o setor privado fica com distribuição, comércio, serviços e a construção civil.

Em 1991, não havia nenhuma empresa privada na construção civil (estradas, moradias etc.). Em 1993, com a reforma neoliberal surgiram 553 empresas privadas. E ao longo do processo hoje são 122.706 empresas privadas, 189 empresas de capital estrangeiro, 3.920 empresas estatais, e 1928 empresas cooperativas os trabalhadores.

O PIB chinês cresceu 8,4% em 2021 e 3% em 2022, em consequência das restrições do COVID. Nos próximos anos a previsão é de crescimento anual de 5%. A China precisa crescer no mínimo 5% ao ano, segundo o governo para poder gerar os empregos necessários para a população. Cada 1% de crescimento do PIB gera 2,2 milhões de empregos. E precisam criar 11 milhões de empregos por ano.

A taxa de inflação atual é de 2% ao ano e a taxa de juros de 4% para qualquer empréstimo, ou seja, uma taxa de 2% ao ano de juros reais.

A jornada de trabalho média é de cerca de 48 horas por semana! Mas há ainda muitos trabalhadores que trabalham 60 horas por semana. E a renda das famílias se divide, em 40% de consumo básico e 60% se transforma em poupança.

Em geral as famílias investiram em moradia (cerca de 65% dos ativos das famílias estão em imóveis), e agora guardam recursos para garantir educação de qualidade para os filhos. Mas também estão começando a investir em ações de empresas estatais, mistas e em ouro.

O maior problema da economia chinesa atualmente é a taxa de desemprego de 5%, e de 19% entre os jovens de 18 a 24 anos (março de 2023). Outro desafio da economia chinesa é como absorver o trabalho qualificado, versus o trabalho manual. Há 9 milhões de jovens que se graduam todos os anos, nas universidades e não estão sendo absorvidos pelo mercado de trabalho.

Há falta de mão-de-obra na indústria. Parou a migração do campo, e os jovens formados nas universidades não querem ir para a fábrica. Mas também não querem mais ir para o Ocidente, nem estudar. Há muita expectativa para trabalhar nas grandes empresas estatais. As vagas são disputadas como verdadeiros concursos (houve uma empresa que ofereceu 20 vagas e apareceram 20 mil jovens se candidatando).

Os planos do governo são de aumentar os investimentos na indústria (diminuir os investimentos em construção civil e infraestrutura que foi a marca do crescimento no período anterior. E ao mesmo tempo aumentar o mercado local, em detrimento da dependência do mercado externo. A maior parte dos investimentos são de empresas estatais. E o governo está buscando formas de canalizar a poupança das famílias para investimento em indústrias (no período anterior as famílias compravam casas…).

A estratégia no plano externo, que une economia a estratégias de geopolítica é a construção da Nova Rota da Seda (ou Iniciativa Cinturão e Rota) que implica em muitos investimentos em infraestrutura e transporte pelos países que percorre na Ásia, África, América Latina e até a Europa. E esses investimentos externos são feitos na moeda local dos países que ajuda as economias locais.

As conquistas econômicas da China e seus resultados se devem fundamentalmente ao componente de economia socialista, repartir a riqueza produzida com os trabalhadores. Se ela abandonasse essa política de priorizar o bem-estar da população, como querem setores neoliberais e as empresas privadas chinesas, certamente iria colapsar econômica e politicamente.

A China vem estimulando inúmeras iniciativas para combater a hegemonia do dólar. Já fez acordo para comércio e investimento sem uso do dólar com 25 países e regiões (como recentemente com o Brasil). Ela também lidera iniciativas importantes de criação de fundos alternativos ao FMI – como a Iniciativa Chiang Mai, com os países da ASEAN + Japão e Coréia do Sul – e o Acordo de Reserva Contingente (BRICS). O yuan vem sendo cada vez mais utilizado como moeda de referência entre diversos países.

O atual governo do Presidente Xi Jinping tem estimulado e fortalecido as empresas estatais, que atuam em áreas estratégicas, na pesquisa, na indústria etc., e são as mais poderosas. Procura combater a concentração da riqueza entre os bilionários, que se formaram no período anterior. Ainda que no país os ricos paguem relativamente pouco imposto de renda e não haja imposto sobre propriedade imobiliária. Mas o controle é político, para impedir – ou minimizar – o oligopólio de setores e preços. Essa é a política clara para combater o fortalecimento da nova burguesia e do surgimento de desigualdades sociais.

A atual situação da luta pela geopolítica mundial, trouxe como contradição que os empresários chineses perderam a confiança nos EUA e apenas procuram ampliar o comércio.

A sociedade chinesa vive agora a experiência de ter a primeira geração de capitalistas chineses e por tanto ressurgimento de uma burguesia industrial, de comercio e de serviços.

A China foi sempre historicamente “exportadora” de mão-de-obra com muitos chineses que migravam todo ano. Agora sua economia está atraindo migrantes, 1,5 milhão por ano, vindos das Filipinas e Sudeste Asiático, para trabalhar em Hong Kong e Xangai, sobretudo, nas indústrias e serviços.

As perspectivas da política de investimentos para o futuro vão na direção de substituir a atual matriz energética baseada em 60% no carvão, e nos próximos 20 anos, baixar para 30% e investir em energias renováveis, como eólica, solar, hidrogênio, e também investirem em novos formatos de energia nuclear (cuja tecnologia a China dominou em 2021).

Há também muitos investimentos e novas tecnologias, a empresa Huawei vai apresentar o 6G daqui a alguns anos, por exemplo. Também começa a ter preocupação com biotecnologias e agroecologia.

Economia agrária e meio rural

A base da sociedade chinesa no meio rural foi constituída pela reforma agrária de 1949-1950 que destruiu o latifúndio, os senhores feudais, e distribuíram todas as terras para os camponeses. Havia no campo 555 milhões de pessoas, que representavam 88% da sociedade. Cada família recebeu em média menos de um hectare. E o resultado principal é que pararam de trabalhar para os fazendeiros locais e resolveram o problema da fome (a medida popular utilizada no país é o MU = 0,15 hectares, na literatura agrária chinesa só aparece o MU).

A primeira reforma agrária destruiu a burguesia agrária e garantia terras a todas as famílias. Porém, nos anos 1960, se forçou a coletivização do trabalho agrícola. Isso desorganizou a produção, e trouxe um período inclusive da volta da fome. Na década de 1990 houve uma nova reforma agrária, em que foi permitido que as comunidades rurais que tinham a concessão de uso das terras pudessem “vender” a concessão para as empresas colocarem indústrias. E ao mesmo tempo o plano de industrialização do país, levou a migração de mais de cem milhões de jovens do campo para as cidades, atraídos pelos empregos e salários.

Mas o plano de industrialização trouxe também a mecanização do campo, baseada em pequenas máquinas que os camponeses e suas associações puderam comprar e utilizar. Há no país mais de 8 mil fábricas de máquinas agrícolas, distribuídas por todo país, e praticamente por todos municípios ou distritos.

Esse processo de mecanização do campo, dos últimos trinta anos, levou a que hoje se tem 21.730.000 tratores utilizados na agricultura, em seus 120 milhões de hectares. (No Brasil temos quase a mesma quantidade de terras utilizadas na agricultura, e apenas 1,3 milhão de tratores!!). Do parque de máquinas existentes na agricultura, 16 milhões são de pequenos tratores, 4 milhões de máquinas medias, em geral utilizadas por cooperativas e apenas 700 mil máquinas utilizadas em grandes unidades de produção.

Nos últimos 20 anos, e basicamente no governo de Xi Jinping, houve uma prioridade de eliminar a pobreza, que aparecia basicamente no campo. E neste período aplicaram políticas que tiraram da pobreza mais de 100 milhões de pessoas. Foi o maior programa de erradicação da pobreza do mundo.

Para desenhar o plano o governo deslocou para o campo mais de 3 milhões de militantes do Partido, que foram morar nas comunidades pobres, pagos pelo governo. Nestas comunidades eles tinham treinamento para fazer um diagnóstico da situação de pobreza, das principais necessidades familiares e coletivas. E a partir desse levantamento na sequência, realizavam debates a nível de partido local, com suas lideranças para desenhar que políticas o governo deveria aplicar para erradicar a pobreza. (E pior, entre os militantes enviados, 1.800 deles morreram durante a missão, em consequência de acidentes ou enfermidades graves!).

Esse foi o trabalho de dois a quatro anos, e em seguida o governo começou a aplicar as medidas necessárias, que se adequavam a cada região. Em 25 de fevereiro de 2021, o governo anunciou que a pobreza extrema havia sido superada na China. Desde a reforma econômica, 850 milhões de chineses foram retirados e se retiraram da pobreza; ou seja, 70% da redução total da pobreza no mundo ocorreu na China.

Na fase “direcionada” mais recente, que começou em 2013, o governo gastou 1,6 trilhão de yuans (246 bilhões de dólares) para construir e asfaltar 1,1 milhão de quilômetros de estradas rurais, levar acesso à internet a 98% dos vilarejos pobres do país, reformar casas para 25,68 milhões de pessoas e construir novas moradias para outras 9,6 milhões. Desde 2013, milhões de pessoas, empresas estatais e privadas e amplos setores da sociedade foram mobilizados para garantir que – apesar da pandemia – os 98,99 milhões de pessoas restantes da China em 832 condados e 128 mil vilarejos saíssem da pobreza absoluta.

O plano de erradicação da pobreza desde a presidência do Xi Jinping combinou várias iniciativas, como: (a) financiamento especial para as cooperativas e associações locais aumentarem a produção de alimentos e de bens (em média aplicavam 2 milhões de reais por cooperativas a juros subsidiados); (b) empresas estatais de outras regiões foram induzidas a colocarem fabricas nessas regiões, e ou comprarem seus produtos; (c) construção e ou melhoria das casas; (d) construção de banheiros coletivos nas comunidades; (e) garantia de energia elétrica e internet; (f) organização de aplicativos gratuitos para que as famílias e comunidades oferecessem seus produtos na sociedade e nas cidades próximas; (g) estímulo para colocarem indústrias de frutas, verduras, e moinhos de farinhas; (h) infraestrutura de estradas asfaltadas para chegar até as comunidades; (i) melhoria no acesso a água potável coletivo; (j) apoio na construção de escolas secundarias mais próximas dos povoados.

(l) algumas comunidades as famílias foram induzidas a se mudarem para distritos e cidades próximas, onde receberam moradias, capacitação para trabalho urbano e industrial; (k) e trabalho de base. Em 2014, cerca de 3 milhões militantes do Partido foram organizados para visitar e pesquisar todas as famílias em todo o país, identificando 89,62 milhões de pessoas pobres em 29,48 milhões de famílias e 128 mil vilarejos. Mais de dois milhões de pessoas receberam a tarefa de verificar os dados, removendo posteriormente os casos identificados incorretamente e adicionando novos. Mais notavelmente, três milhões de quadros cuidadosamente selecionados foram enviados para os vilarejos pobres, formando 255 mil equipes que lá residiram. Vivendo em condições humildes por um a três anos de cada vez, as equipes trabalharam ao lado de camponeses pobres, autoridades locais e voluntários até que cada família fosse retirada da pobreza.

Passado esse período de eliminação da pobreza, agora o plano do governo é garantir que as 550 milhões que vivem em comunidades rurais, permaneçam no campo e tenham as mesmas condições de vida da cidade. Para isso estão organizando um plano que chamaram de revitalização rural. A taxa de urbanização da China era de 64% em 2020, e espera-se que chegue a 70% até 2030.

As principais linhas do plano governamental de revitalização rural são:

Dar mais incentivos para novas agroindústrias; aplicar um plano de reflorestamento. Estão plantando arvores em toda parte. A China foi líder global em reflorestamento e foi responsável por 25% do crescimento total da área foliar do mundo entre 1990 e 2020, impulsionada por 15 anos de política de “águas claras, montanhas verdes”; garantir o fomento de novas tecnologias para agricultura, que aumentem a produtividade do trabalho e das áreas; redução de impostos e mais incentivos do governo em investimentos necessários.

Maior treinamento para adoção de mais mecanização agrícola; utilizar as tecnologias para controle de desempenho dos tratores, consumo etc. 1,5 milhão de tratores já são monitorados em tempo real por satélite, sobre como estão trabalhando, desempenho, consumo etc.; estimular o potencial do trabalho das mulheres, em diversas atividades produtivas; estimular atividades de turismo rural interno (com melhoria de instalações para receber visitantes); criaram um plano por aplicativo de que os operários migrantes podem investir sua poupança em investimentos produtivos das cooperativas do campo; reformar as casas vazias no campo, para alugá-las a visitantes; programa de proteção de rios e lagos para melhorias do meio ambiente, financiando essas atividades para as comunidades.

Estímulo à produção de ervas medicinais; houve um crescimento vertiginoso, nos últimos anos, da prática de venda de produtos agrícolas (muitas vezes, orgânicos) para os habitantes das cidades mais próximas, através de lives (o Tik Tok na China, chamado Douyin, tem a maior parte do seu faturamento aí); estímulo à produção de bens que podem ser vendidos na Rota da Seda. Estão treinando todos os líderes locais do partido, para que se preparem melhor para aplicar essas políticas.

Para implementar esse plano, mudaram o método. Antes todas as políticas eram coordenadas e repassadas para os presidentes das cooperativas e associações das comunas. Eles centralizavam e muitas vezes tinha corrupção. Agora, é o coletivo do partido na comuna que é o responsável pela aplicação da política de revitalização rural. Ou seja, a política agrária saiu do ministério da agricultura e agora é coordenada pelo partido, a nível nacional e geral.

 Eles têm apelidado essa política no campo de “como dançar com o lobo! Ou seja, como estimular maior investimento em capital, maior capital orgânico, sem, no entanto, desempregar as pessoas, para que permaneçam no campo.

Já a política de reflorestamento e defesa do meio ambiente, eles têm adotado o lema, de “Montanha verde e águas claras” que parece utilizar a cultura chinesa, das frases e poesias, que refletem o espírito dos objetivos políticos.

Sociedade e política

A sociedade chinesa está formada por classes e fracções de classe que levam a ter ainda uma luta de classes permanentes. Hoje, a maioria da população pertence à classe trabalhadora urbana, que atua nas fábricas, comércio, serviços, e serviço público. E se mantem no campo 500 milhões de pessoas que vivem como camponeses, organizados em comunas, associações e cooperativas. Mas há uma nova burguesia industrial e comercial, ainda que muito concentrada em bilionários (o que seria fácil controlá-los!!!); e há uma pequena burguesia nas cidades formadas por pequenos comerciantes e a juventude egressa das Universidades que no passado recebeu muita influência do neoliberalismo americano, que levou a um individualismo exacerbado. E há nove milhões de funcionários públicos, que embora sejam filiados ao partido, muitos deles se comportam como pequena burguesia.

Em 2022 a China tem 65% da população morando nas cidades e 35% no campo, onde vivem ainda 550 milhões de pessoas. Tem 167 cidades com mais de um milhão de habitantes cada uma, e mais de 30 cidades tem mais de 10 milhões de habitantes cada. Xangai é a sua maior cidade com 28 milhões de habitantes e Pequim tem mais de 20 milhões de habitantes.

No campo todos são proprietários de suas casas.  Em geral as pessoas trabalham em empresas da cidade com aproximadamente 100 trabalhadores, são raras as empresas que têm mais de mil operários.

Nos tempos da revolução e de Mao, havia 40 milhões de pessoas organizadas no partido, sendo que quatro milhões eram soldados e atuavam no exército. De uma população total de 500 milhões de pessoas. Hoje a sociedade chinesa tem 1,4 bilhão de pessoas, e o partido organiza e tem como filiados 97 milhões de membros. Destes apenas 10 milhões seriam militantes e com formação marxista. Nos últimos anos foram expurgados quatro milhões de filiados por desvios e corrupção, muitos deles foram presos.

Há 40 mil quadros do partido que dirigem os cargos chaves nas empresas estatais, e no controle das instâncias governamentais, das províncias.

A sociedade chinesa é hegemonizada pelas ideias de Confúcio (551- 479 a.C.) que como filósofo ordenou uma série de valores que são adotados pela sociedade e até hoje orientam comportamento das pessoas e do coletivo. Não é uma religião, são normas e valores de comportamento.

As ideias do socialismo foram muito atacadas desde trinta anos atrás quando as ideias ocidentais e do neoliberalismo influenciaram amplos setores da sociedade, em especial as universidades, a mídia e a juventude. Hoje, o presidente Xi Jinping diz claramente que se deve fazer um esforço para recuperar o espírito socialista na sociedade chinesa, e que o partido deve ser o exemplo e zelador desta política.

A direção política do partido pelo Presidente Xi Jinping representa uma retomada dos ideais socialistas e do papel do partido. Frente a degeneração do partido, da corrupção e da influência dos americanos, foram as bases sociais do campo, que recuperaram o partido.

Na China quem controla as forças armadas é o partido. E a linha política do presidente Xi Jinping tem total hegemonia nos quadros que atuam nas forças armadas, que são milhões de oficiais e soldados nas três armas e na pesquisa tecnológica militar.

No congresso do partido de 1990 cerca de 50% dos delegados se consideravam capitalistas. A partir da eleição do presidente Xi Jinping e das mudanças e expurgos do partido, no último congresso estima-se que apenas 15% se consideravam capitalistas. Antigamente havia a presença de empresários capitalistas inclusive no comitê central.

O presidente Xi Jinping tem defendido que o partido precisa melhorar muito seu funcionamento e apreender com o povo, e voltar a ser humilde para se fortalecer seguir dirigindo o estado e o governo na direção do bem-estar de todo povo.

Recuperou-se o método de direção coletiva das instancias do partido. E o fortalecimento das quatro grandes escolas de formação de quadros do partido. O processo de promoções é feito a cada quatro anos, e segue critérios rigorosos, de avaliação de cada militante. E há uma política de aposentadoria compulsória dos cargos aos 65 anos.

A classe trabalhadora está satisfeita com a melhoria das suas condições de vida que melhorou muito nos últimos dez anos. Ainda que a saúde não seja ainda totalmente socializada, mas a educação é mais de 90% pública, inclusive as universidades.

O governo e o partido tiveram ótimo desempenho no combate à poluição nas cidades, que já era insuportável há dez anos, e ao tratamento e proteção na COVID. Com isso, a população em 90% apoia ao partido e ao governo.

Há ainda muitos casos de desvios e corrupção sobretudo nas instancias de governos das províncias, que, no entanto, são denunciados pela própria população. Há alguns anos, as redes sociais difundiam e combatiam o partido e geravam divisionismo dentro do governo. Mas isso fracassou. Hoje com a política do partido sob comando do Presidente Xi Jinping, de eliminação da pobreza, aumento dos salários e melhoria das condições devida nas cidades, levou a que a classe trabalhadora e amplos setores da juventude passassem a defender essa política e o partido.

No período do neoliberalismo e das reformas pró-ocidentais, cerca de 90%da mídia chinesa, incluindo a oficial, eram de ideias de direita. Os quadros do partido ainda estão aquém das necessidades de realizar de forma eficiente os programas de agitação e propaganda dos resultados da China, tanto para o povo chinês, quanto e mais ainda para a classe trabalhadora a nível internacional, que poderia ser aliada, dessas políticas.

Há ainda uma luta de classes no campo ideológico. Uma elite minoritária formada por grandes empresários, parte de professores universitários e parte da juventude, criticam a linha atual e sonham com o modelo americano. Mas são amplamente minoritários.

Há também um conflito geracional entre a militância do partido. Os que tem entre 40 e 55 são frutos da reforma e continuam a maioria neoliberais e burocratas, em sua maioria. A atual geração que conduz o processo para revitalização do socialismo está entre quadros com mais de 60 anos e os quadros mais jovens. E a esperança dos socialistas é que a gestão do Presidente Xi Jinping vá até ser substituído na presidência e no comitê central por essa geração mais jovem. Para muitos, o ideal seria Presidente Xi Jinping permanecer por mais um mandato além do atual, até 2032.

O papel dos sindicatos na China é diferente do mundo ocidental, onde sempre tiveram papel atuante na luta de classes. Na China seu papel está relacionado com a organização no local de trabalho, sobretudo organizando atividades culturais, de lazer e cultura, e espaços de atuação coletiva, social.

Desde a revolução de 1949 se adotou um método de trabalho político que persiste até hoje, em todas as unidades de trabalho. No primeiro horário antes de começar o turno, todos os trabalhadores da sessão, se reúnem, de pé, e em reuniões que vão até 30 minutos, diariamente, analisam o que há de errado e o que devemos melhorar. É um método de crítica e autocritica muito interessante, e esse processo é seguido de forma disciplinar e coordenado pelo dirigente no partido na sessão laboral (Vi algumas dessas reuniões e é impressionante!).

A atual direção do partido está recuperando a política da “linha de massas”. Ou seja, de fortalecer as organizações do povo e a luta das massas, e convocá-las sempre que necessário para as disputas da luta de classe. O Partido tem recuperado também um método histórico do trabalho, quando querem fazer uma mudança na política econômica, na organização da produção e na aplicação política, primeiro aplicam numa região ou distrito como projeto piloto. Analisam os pros e contras e aí passam a aplicar a nível nacional.

Geopolítica

A China está no centro da disputa da luta de classes mundial. Passou pelos cem anos de humilhação (1840- 1949) dedicou-se a superar a pobreza de 1949-2020; e agora sendo a maior potência econômica mundial, ascendeu na disputa pela nova ordem mundial. As bases da atual ordem mundial, hegemonizada pelos EUA e pela Europa, como resultado da segunda guerra mundial e da derrota da URSS, chegaram ao seu fim.

Os EUA tiveram uma vitória estratégica, histórica e fantástica ao derrotarem e destruírem a URSS. Primeiro a derrotaram economicamente induzindo a corrida armamentista que implicou em priorizar gastos militares em detrimento das melhorias das condições de vida da população soviética, dos avanços na tecnologia industrial, que melhoraria a produtividade da produção em geral. Depois atacaram politicamente nas alianças e cooptação de Gorbachev, que apesar das boas intenções de combater os desvios do partido e da democratização da sociedade, se rendeu a cantilena ocidental.

Agora os EUA estão usando as mesmas táticas para tentar derrotar a China. Segue atacando na economia, criando bloqueios e impondo condições no avanço da tecnologia, como tentaram com 5G e com o bloqueio do acesso de empresas chinesas aos chips de tecnologia mais avançada. Porém, hoje a economia americana depende mais da China, do que a China deles, e esta contradição os impede de fazer uma verdadeira guerra econômica.

Na política tentaram criar adeptos entre os membros do Comitê Central do partido, mas não conseguiram sucesso. Assim como tentaram transformar a região dos Uigures (Xinjiang) e da dissidência de Hong Kong, como se fosse um problema política interno grave da China, que poderia construir um movimento de massas de oposição. Mas como não tinha base social real, não prosperaram.

Na geopolítica internacional os EUA provocaram a Rússia e utilizaram a OTAN e o governo títere da Ucrânia, para levar a guerra. Mas seu objetivo era desgastar economicamente a Rússia, e trazer a China para a guerra. No entanto, nenhuma das duas situações aconteceu. O povo da Ucrânia e a economia europeia estão pagando um alto preço pela política imperialista dos americanos, que certamente trará consequências, como está visto nas visitas a Pequim, do governo da Alemanha e da França. E na retaguarda que a China tem dado economicamente à Rússia, sem se envolver na guerra.

Agora estão tentando criar conflito militar, ao redor de Taiwan. Mas a China demonstrou que não vai cair em provocações militares e correr o risco de entrar numa guerra. Os EUA provocaram uma contradição na política chinesa, quanto mais ele ataca a China a nível internacional, mais enfraquece seus aliados internos, as elites empresariais e os setores universitários que antes os apoiavam internamente. Assim, inviabilizou também uma possível contrarrevolução capitalista na China.

A China tem adotado uma série de iniciativas na política internacional, que a tem fortalecido, como: (i) fortalecimento dos BRICS como espaço de articulação econômica e política, formando um bloco econômico, mais poderoso do que os EUA; (ii) construiu uma aliança entre Irã-Arábia Saudita, que derrotou politicamente os interesses dos EUA no Oriente Médio; (iii) A China está organizando diversas cadeias produtivas, baseadas em alta tecnologia, em aliança com a Rússia; (iv) A China ampliou seus laços políticos com os países da África.

A China precisa mudar sua política com o Sul global, para fazer parcerias de mútua ajuda, para reindustrialização da região. Abandonar a política de apenas comprar commodities agrícolas e minerais. E sobretudo a china precisa mudar sua política e construir alianças com a classe trabalhadora e os povos do sul. A verdadeira defesa da China virá do Sul global e não dos governos do Norte. Esse desafio é visto como um enigma a ser resolvido, por setores intelectuais do partido, de forma cada mais acentuada.

Nos próximos anos, ou décadas, assistiremos a construção de uma nova ordem mundial, agora fundada em outros princípios e certamente será multipolar, com a participação de muitos países, do Norte e do Sul global.

Desafios do próximo período

A Economia chinesa tem uma base de economia mista entre o caminho chinês ao socialismo e a empresas privadas capitalistas. Esse processo leva ainda a concentração da riqueza e a desigualdade das classes. A médio prazo aumentarão as contradições e a luta de classes dentro da sociedade chinesa.

A “prosperidade comum” refere-se tanto a uma visão quanto a um ciclo de reformas iniciadas pelo governo que visam conciliar a eficiência econômica com o fortalecimento dos mecanismos de bem-estar. Também faz parte do esforço para combater as “três montanhas” de altos custos de educação, moradia e saúde enfrentados pelos chineses atualmente. O objetivo é abordar a crescente desigualdade entre o campo e a cidade, as classes sociais e as regiões por meio do desenvolvimento e da distribuição de renda, das reformas tributárias e do bem-estar social e da filantropia.

Em 2022, a riqueza dos bilionários chineses caiu 18%, a maior queda em 24 anos, e houve uma redução de 11% no número de bilionários, em grande parte devido a medidas governamentais que limitaram os monopólios e o setor de tecnologia. Mas a China ainda tem mais de 800 bilionários, superando os Estados Unidos.

A China está se tornando uma sociedade envelhecida, com baixa taxa de crescimento populacional, e teve o primeiro declínio da população em números absolutos em 2022 (desde que o censo nacional começou em 1961). Há 300 milhões de idosos com mais de 60 anos, o que traz problemas de diminuição da força de trabalho, menos impostos para aposentadorias, grande déficit previdenciário e pressão sobre a assistência médica.

A China tem se relacionado com o Sul-global em busca de commodities agrícolas e minerais que sustentam as necessidades de seu desenvolvimento. Porém, esse modelo representa no sul global uma aliança e o fortalecimento das burguesias locais. Aumentando a exploração dos trabalhadores e os crimes ambientais. Por outro lado na luta de classes internacional e na construção, de uma nova ordem mundial, a China vai precisar do apoio das populações do Sul global. Já as burguesias do sul global sempre foram aliadas dos EUA, e assim seguirão, apesar de venderem para a China.

Os EUA já estão em guerra fria contra a China, embora ela não queira. Nesta guerra vai adotar todos os métodos possíveis, seja da economia, comercio, mediático e ideológico. Para a China derrotar os EUA, mesmo sem cair nas suas provocações, precisara necessariamente adotar uma linha política anti-imperialista, não poderá mais conviver, dormindo com o inimigo que quer derrotá-la.

Os EUA sempre usaram o dólar, como arma econômica de exploração de todos os povos e países. E agora em crise, a moeda tem um papel ainda mais relevante. A China terá que acelerar sua política de mudança do uso do dólar, a nível internacional, e criar condições no plano dos BRICS ou outras alianças para ter outros parâmetros de moeda no comercio internacional.

O estágio atual da luta de classes a nível local e internacional é fundamentalmente a luta ideológica, da batalha das ideias, sobre o futuro da humanidade. Os EUA têm usado os meios de comunicação, a cultural, as redes sociais nesta guerra ideológica. Porém, parece que a China não está priorizando esse campo de atuação, em especial na sua relação com os povos do Sul global.

O modo de produção capitalista em crise tem priorizado com suas empresas imperialistas, uma verdadeira ofensiva contra os bens da natureza, se apropriando de forma privada e espoliando as reservas em todo mundo. Isso tem causado crimes ambientais, com graves consequência que aparecem nas mudanças climáticas e no desaparecimento de muitas, milhares de formas de vida vegetal e animal, que podem colocar em risco a vida humana no planeta. A China deu passos a nível interno para combater a poluição e buscar fontes de energia alternativa. Mas a China teria enormes possibilidades de usar seus avanços tecnológicos e ajudar os povos do Sul, para buscar alternativas de energia, de combater os crimes ambientais e reconstruir a defesa do meio ambiente em todo planeta. Isso traria resultados ideológicos fantásticos para um projeto global de socialismo.

*João Pedro Stédile é membro da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MS

 Le Chaos Ukrainien ; Comment En Est-On Arrivé Là ? Comment En Sortir ?

quarta-feira, 17 de maio de 2023

 A marca da nossa época é a da luta anti-imperialista. É nesse quadro que se fazem alianças entre países e forças patrióticas e anti-imperialistas.

terça-feira, 16 de maio de 2023

 Podemos constatar no marxismo quatro vertentes. Verificamos nas obras de Marx (as de Engels também ajudam) que as quatro vertentes estão lógica e historicamente (ou socialmente) articuladas entre si (o que faz do marxismo uma doutrina ímpar, uma Teoria Crítica como nunca existiu). Elas são :

- A vertente teórica : Está expressa no próprio trabalho de Marx e na primeira frase da célebre TESE ONZE. Toda a filosofia é, tem sido, uma interpretação, o marxismo também o é. Há interpretações mais próximas ou coadjuvadas pelas ciências e com a práxis e outras que chocam com elas ambas. O marxismo -enquanto materialismo histórico e dialético - é a filosofia mais próxima das ciências.

- A vertente crítica do existente : a formação económico-social capitalista desde a essência aos fenómenos.

- A vertente projeto alternativo, utopia concreta e programa ético-político.

- A vertente Conhecimento da realidade : a investigação necessária da situação concreta particular e universal, integradas, para fundar o agir imediato.

- A vertente prático-política : a transformação do mundo (TESE ONZE)

 Michael Löwy
Marxismo e religião: ópio do povo? ∗∗
*Filósofo e diretor de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França
(CNRS).
∗∗ Tradução de Rodrigo Rodrigues

   (excertos)

(...) Mas seus escritos mais importantes sobre religião se encontram nos Cadernos
do Cárcere. Apesar de sua natureza fragmentária, pouco sistêmica e alusiva, estes
contêm observações penetrantes. Sua irônica crítica às formas conservadoras de religião
–particularmente o ramo jesuítico do catolicismo, pela qual sente sincera aversão– não
lhe impediu de perceber também a dimensão utópica das idéias religiosas:
a religião é a utopia mais gigante, a mais metafísica que a história jamais
conheceu, desde que é a tentativa mais grandiosa de reconciliar, em forma
mitológica, as reais contradições da vida histórica. Afirma, de fato, que o gênero
humano tem a mesma ‘natureza’, que o homem [...] como criado por Deus, filho
de Deus, é portanto irmão de outros homens, igual a outros e livre entre e como
outros homens [...]; mas também afirma que tudo isto não pertence a este mundo
mas sim a outro (a utopia). Desta forma, as idéias de igualdade, fraternidade e
liberdade entre os homens [...] estiveram sempre presentes em cada ação radical
da multidão, de uma ou outra maneira, sob formas e ideologias particulares
(Gramsci, 1971).
Gramsci também insistiu nas diferenciações internas da Igreja segundo orientações
ideológicas –liberal, moderna, jesuítica e correntes fundamentalistas dentro da cultura
católica– e segundo as diferentes classes sociais: “toda religião [...] é realmente uma
multiplicidade de distintas e às vezes contraditórias religiões: há um catolicismo para os
camponeses, um para a pequena burguesia e trabalhadores urbanos, um para a mulher, e
um catolicismo para intelectuais”. Além disso, acredita que o cristianismo é, sob certas
79 Gramsci parece estar também interessado, no começo da década de 20, em um movimento camponês
liderado pela esquerda católica, Guillo Miglioli. 

 As observações de Gramsci são ricas e estimulantes, mas em última análise
seguem o padrão clássico marxista de analisar a religião. Ernst Bloch é o primeiro autor
marxista que trocou radicalmente a estrutura teórica –sem abandonar a perspectiva
marxista e revolucionária. De forma similar a Engels, distinguiu duas correntes sociais
opostas: por um lado, a religião teocrática das Igrejas oficiais, ópio dos povos, um
aparelho mistificador a serviço dos capitalistas; pelo outro, a secreta, subversiva e
herética religião dos albigenses, husitas, de Joaquim de Flores, Thomas Münzer, Franz
von Baader, Wilhelm Weitling e Leon Tolstoi. Entretanto, distintamente de Engels,
Bloch negou-se a ver a religião unicamente como um “manto” de interesses de classe:
criticou expressamente esta concepção, enquanto a atribuía somente a Kautsky. Em suas
manifestações contestadoras e rebeldes, a religião é uma das formas mais significativas
de consciência utópica, uma das expressões mais ricas de O Principio Esperança.
Através de sua capacidade de antecipação criativa, a escatologia judaico-cristã –
universo religioso favorito de Bloch– contribui a dar forma ao espaço imaginário do
ainda não–existente (Bloch, 1959; 1968)

 A obra de Lucien Goldmann é outra tentativa de abrir o caminho para a
renovação do estudo marxista da religião. Embora de uma inspiração muito distinta da
de Bloch, estava também interessado no valor moral e humano da tradição religiosa. Em
seu livro O Deus oculto (1955) desenvolveu uma muito sutil e criativa análise
sociológica da heresia jansenista (incluindo o teatro de Racine e a filosofia de Pascal)
como uma visão trágica do mundo, expressando a peculiar situação de um estrato social
(a nobreza togada) na França do século XVII. Uma de suas inovações metodológicas é
relacionar a religião não só aos interesses da classe, mas também a sua total condição
existencial: examina, portanto, como este estrato legal e administrativo, entre sua
dependência de e sua oposição à monarquia absoluta, deu uma expressão religiosa a
seus dilemas na visão trágica do mundo do jansenismo. De acordo com David
McLellan, esta é a “análise específica mais impressionante da religião produzida pelo
marxismo ocidental” (McLellan, 1987: 128).
A parte mais surpreendente e original do trabalho é, entretanto, a tentativa de
comparar –sem assimilar um ao outro– crença religiosa e crença marxista: ambas têm
em comum o rechaço do puro individualismo (racionalista ou empirista) e a crença em
valores trans-individuais –Deus para a religião, a comunidade humana para o
socialismo. Em ambos os casos, a crença está apoiada em uma aposta –a aposta
pascaliana na existência de Deus e a marxista na libertação da humanidade– que
pressupõe o perigo do fracasso e a esperança do êxito. Ambos implicam algumas
crenças fundamentais que não são demonstráveis no nível exclusivo de julgamentos
80 Ver, de minha autoria, os artigos “Revolution against Progress: Walter Benjamin's Romantic
Anarchism” (1985) e “Religion, Utopia and Countermodernity: The Allegory of the Angel of History in
Walter Benjamin” (1993).
311

objetivos. O que os separa é obviamente o caráter supra-histórico da transcendência
religiosa:
A crença marxista é uma crença no futuro histórico que o ser humano cria por si
mesmo, ou melhor dizendo, que devemos fazer com nossa atividade, uma
“aposta” no êxito de nossas ações; a transcendência da que é objeto esta crença
não é nem sobrenatural nem trans-histórica mas sim supra-individual, nada mais
mas tampouco nada menos (Goldmann, 1955: 99).
Sem pretender de maneira nenhuma “cristianizar o marxismo”, Lucien Goldmann
introduziu, graças ao conceito de crença, uma nova maneira de ver a relação conflitiva
entre convicção religiosa e ateísmo marxista.
A idéia de que existe um campo comum entre o espírito revolucionário e a
religião já foi sugerida, em uma forma menos sistemática, pelo peruano José Carlos
Mariátegui, o marxista latino-americano mais original e criativo. No ensaio “O Homem
e o mito” (1925), propôs uma visão heterodoxa dos valores revolucionários:
Os burgueses intelectuais ocupam seu tempo em uma critica racionalista do
método, da teoria e da técnica revolucionária. Que mal-entendido! A força dos
revolucionários não está baseada em sua ciência, mas sim em sua crença, sua
paixão, seu desejo. É uma força religiosa, mística, espiritual. É a força do Mito
[...] A emoção revolucionária é uma emoção religiosa. As motivações religiosas se
mudaram do céu para a terra. Não são mais divinas, mas sim humanas e sociais”
(Mariátegui, 1971a: 18-22).

 Celebrando Georges Sorel, o teórico do sindicalismo revolucionário, como o primeiro
pensador marxista em entender o “caráter religioso, místico e metafísico do socialismo”,
escreve poucos anos depois em seu livro Defesa do marxismo (1930):
Graças a Sorel, o marxismo pôde assimilar os elementos e aquisições substanciais
das correntes filosóficas que vieram depois de Marx. Substituindo as bases
positivistas e racionalistas do socialismo em seu tempo, Sorel encontrou em
312

Bergson e nas idéias pragmáticas que fortaleceram o pensamento marxista,
restabelecendo sua missão revolucionária. A teoria dos mitos revolucionários, ao
aplicar a experiência dos movimentos religiosos ao movimento socialista,
estabeleceu as bases para uma filosofia da revolução (Mariátegui: 1971b: 21).
Tais formulações –expressão de uma rebelião romântica-marxista contra a interpretação
dominante (semi-positivista) de materialismo histórico– podem parecer muito radicais.
Em qualquer caso, deve estar claro que Mariátegui não quis fazer do socialismo uma
igreja ou uma seita religiosa, mas sim tentou restaurar a dimensão espiritual e ética da
luta revolucionária: a crença (“mística”), a solidariedade, a indignação moral, o total
compromisso, a disposição em arriscar a própria vida (o que chama “heróico”). O
socialismo para o Mariátegui era inseparável de uma tentativa de re-encantar o mundo
através da ação revolucionária. Transformou-se em uma das referências marxistas mais
importantes para o fundador da teologia da liberação, o peruano Gustavo Gutiérrez. (...)

      in MARXISMO HOJE,  A teoria marxista hoje. Problemas e perspectivas Titulo
Boron, Atilio A. - Compilador/a o Editor/a; Amadeo, Javier - Compilador/a o Editor/a;
Gonzalez, Sabrina - Compilador/a o Editor/a;
Autor(es)
Buenos Aires Lugar
CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales Editorial/Editor
2007

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.