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sexta-feira, 31 de maio de 2019

Um grande livro, uma grande personalidade

“O colonialismo é uma ferida que nunca foi tratada. Dói sempre, por vezes infeta, e outras vezes sangra”

29.05.2019 às 20h21
Manuel Almeida/Lusa

Os discursos coloniais e patriarcais ainda ocupam uma grande mancha e ainda não permitem que os portugueses sintam “culpa” ou “vergonha” do seu passado colonial e assumam as suas responsabilidades, mas há agora uma nova geração “que sabe que a glorificação colonial e a demonização do feminismo já não são credíveis”. E isso é um bom sinal. Entrevista com a artista, escritora e teórica portuguesa Grada Kilomba, por ocasião do lançamento do seu livro em Portugal, mais de dez anos depois de ter sido publicado em inglês

O olhar estanca logo na primeira página do livro, prende-se nisto: “Ao longo de vários anos, fui a única estudante negra em todo o departamento de psicologia clínica e psicanálise. Nos hospitais onde trabalhei, era comum ser confundida com a senhora da limpeza e por vezes os pacientes recusavam-se a ser vistos por mim ou a entrar na mesma sala e ficar a sós comigo. Deixei Lisboa, a cidade onde nasci e cresci, com um imenso alívio”.
As palavras foram escritas pela artista, escritora, psicóloga, teórica portuguesa Grada Kilomba, como introdução ao seu livro “Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Quotidiano”, lançado há mais de dez anos mas só agora traduzido para português, numa edição da Orfeu Negro. Fala-se de racismo e do trauma do racismo, das feridas abertas e que não saram “porque a história foi mal contada, contada exatamente ao contrário”, e há sempre cortes que vão atingindo o mesmo sítio, e fala-se também do feminismo negro, que foi ignorado mas tomou entretanto “o seu próprio espaço”. “O feminismo ocidental fez um erro fatal, que foi dividir o mundo entre meninas e meninos, entre mulheres e homens, sendo as mulheres oprimidas pelos homens”. Só o facto de se falar sobre isto justifica, na opinião da autora, a edição tardia. “Até há relativamente pouco tempo, tínhamos em Portugal um discurso muito colonial e patriarcal”, diz ao Expresso, numa entrevista durante a sua breve passagem por Portugal (ela vive há dez anos em Berlim) para o lançamento do livro.
Na carta que escreve como introdução à edição portuguesa, diz que este livro nunca poderia ter sido publicado antes “pois os comuns gloriosos e românticos discursos do passado colonial, com os seus fortes acentos patriarcais, não o permitiram”. O que significa isto? Enfrentou entraves à publicação por parte de editoras cá?
Até há relativamente pouco tempo, tínhamos em Portugal um discurso muito colonial e patriarcal, com uma grande romantização do que é colonial e patriarcal. Durante muito tempo, houve uma ausência de um discurso crítico e isso vê-se pelo facto de muitas obras como a minha estarem a ser agora publicadas pela primeira vez no país. Antes do meu livro, foi traduzido o de bell hooks [intelectual e ativista afro-americana, autora de “Não serei eu mulher?”, publicado em 2018] e o de Judith Butler [“Problemas de Género”, 2017], que trata das questões da branquitude, feminismo, sexualidade e queerness. E depois de mim virá Gayatri Chakravorty Spivak [“Pode a Subalterna Falar?”, considerado um marco teórico nos estudos pós-coloniais e com lançamento previsto para outubro]. Alguns destes livros foram escritos há 30 anos e estão a ser traduzidos pela primeira vez em português. É possível que haja agora um espaço para o discurso crítico que não havia antes.
O que facilitou a criação desse espaço?
Creio que há uma nova geração que precisa urgentemente de uma nova linguagem e que sabe que as linguagens antigas não são credíveis e não têm legitimidade. Sabem que a glorificação colonial não é credível, sabem que a demonização do feminismo não é credível e sabem que a patologização da sexualidade não é credível. Os discursos normativos que nós temos na academia, nas estruturas, nos currículos e nos museus não são mais credíveis nem compatíveis com o presente. São discursos que pertencem ao passado. Também acho que uma grande parte desta nova geração teve experiências de intercâmbio internacional e vê que aquilo que aprendeu noutros países ainda não chegou a Portugal. É necessária uma nova linguagem que pertença ao presente.
De facto, nessa mesma carta introdutória refere que há países onde já foram inventados novos vocabulários ou desmontados termos em que estava presente essa herança colonial, ao contrário de Portugal.
Quando falo em vocabulário ou linguagem não é apenas em termos semânticos. Tem que ver com o discurso e com as imagens e com o desenvolvimento de novos formatos que devolvem ao público uma perspetiva que não existia antes. Há essa urgência de descolonizar a linguagem. A tradução deste livro foi feita sem terminologias porque muitas dessas terminologias ainda não existem na língua portuguesa. Foi um trabalho extremamente moroso e problemático. Também aí apercebemo-nos do quão colonial e patriarcal é a língua portuguesa. Dou-lhe um exemplo: o livro é escrito por uma mulher mas as frases são transformadas no género masculino porque os termos só existem nesse género e, de repente, há frases que deixam de fazer sentido. Todas as terminologias existem apenas no masculino. Isto leva a que se questione a violência da língua e o significado de se ter uma identidade que não existe na língua falada e escrita ou que é identificada como erro ortográfico. É violento isso. Cria-se uma normalidade que exclui uma série de identidades da condição humana, daquilo que é considerado normal.

O livro é o resultado da sua tese de doutoramento na Alemanha, para a qual entrevistou mulheres da diáspora africana que falam da sua experiência na Alemanha. No entanto, na introdução fala diretamente para o leitor português. É a ele que se dirige este livro?
O livro trata de várias questões, como o género, o racismo, a pós-colonialidade e a branquitude. E trata também de experiências coletivas universais. As mulheres que são entrevistadas, assim como eu, vêm de diásporas africanas diferentes mas partilham a mesma experiência. Há uma experiência coletiva, global, que é idêntica, uma experiência de opressão, assim como a branquitude tem uma experiência coletiva, que é a do privilégio, das políticas de ignorância, do não saber e não precisar de saber. Portanto, tanto aqui como na África do Sul, Brasil ou EUA, há uma violência que é global. A escravatura foi o primeiro movimento de globalização em que pessoas foram escravizadas para serem levadas para outro continente para enriquecer um terceiro continente. É uma história global que une vários continentes.
É formada em psicologia clínica, estudou psicanálise e trabalhou no antigo hospital psiquiátrico Miguel Bombarda com um psicanalista e sobreviventes de guerra. De que modo é que esta experiência viria a ser útil para abordar a questão do trauma no racismo, que é central neste livro?
Sempre me interessou a questão do trauma, e o trauma ligado ao racismo e à história colonial e patriarcal, precisamente por causa da forma subtil como a violência pode ser exercida e que sempre retira a humanidade às pessoas. O trauma é exatamente nisso. Tem um primeiro elemento, que é o choque, e o choque acontece não porque não se está à espera de se ser agredido ou vivenciar o racismo ou a opressão, mas porque se é retirado da humanidade. A pessoa não é vista como normal, mas como diferente, marginal, como ‘outro’. Há um segundo momento, que é o da separação, é-se fragmentado da sociedade, porque a sociedade é vista como branca e heterossexual e todas as outras identidades e corpos são colocados fora dessa normatividade. O que também leva imediatamente a um terceiro elemento, o da violência da intemporalidade — de repente, o presente é vivido como se fosse o passado e o passado coincide com o presente. O racismo e o sexismo e todas as formas de opressão fazem isso, colocam-me num passado que não faz parte do presente mas passa a fazer parte da minha vida presente. Esse desfasamento do tempo faz parte do trauma e faz precisamente porque o colonialismo é uma ferida que nunca foi tratada. Vejo muito a história colonial como um fantasma que vem e nos assombra, e assombra-nos porque não foi tratado de forma digna. As coisas não foram chamadas pelos seus próprios nomes, não houve um funeral digno, não há um nome que apareça nos livros no lugar certo. A história é mal contada, é contada ao contrário, e os personagens não têm um nome, uma data, um espaço. E por nunca ter sido tratada, a ferida colonial dói sempre, por vezes infeta, e outras vezes sangra. E quando sangra, nós ficámos aflitos e não sabemos porquê. Acredito que a literatura e a arte podem dar ferramentas e linguagem às novas gerações para tratar essa ferida, para colocar as coisas nos sítios certos e saber quem é quem e o que fez e porquê.
O livro propõe uma leitura do colonialismo e pós-colonialismo e racismo à luz de determinados conceitos da psicanálise. De que modo é que esta leitura poderá ajudar a uma melhor compreensão do racismo?
A psicanálise trabalha com o inconsciente, com as imagens, metáfora e associações, e, por isso, permite ver o que geralmente não é visto, fazer uma leitura para lá do consciente. O racismo tem uma coisa muito perigosa que é, precisamente, trabalhar com o irracional e o ilógico, e criar discursos e imagens que não são reais mas são experienciadas como tal. Tudo funciona através da associação; há uma cadeia de imagens e palavras que, por si, são ilógicas, mas tornam-se lógicas através da associação.
O medo desempenha aqui um papel importante, como refere no livro...
Sim, posso dar um exemplo. Quando falamos sobre imigração e imigrantes, geralmente fala-se de imigrantes ilegais, faz-se uma associação entre imigração e ilegalidade. E se o imigrante é ilegal, é porque está fora da lei, e se está fora da lei, está a cometer um crime, e se está a cometer um crime, é porque é perigoso, e se é perigoso, temos de ter medo, e se temos medo, podemos matar. Há uma associação de palavras e imagens que se dá a um nível irracional. E não há nada mais traumático do que o irracional. O racismo é traumático porque trabalha com o irracional. É essa a sua violência, assim como a violência do sexismo e de todas as outras formas de opressão — colocam-te fora da tua humanidade sem que haja razão para isso.

Ao longo destas páginas, fala muito sobre o racismo quotidiano e o trauma do racismo. Qual a relação entre ambos?
Acho que uma das funções do racismo diário é precisamente fazer prevalecer a supremacia branca, é colocar as pessoas do presente no passado, impedi-las de estar de facto no presente; há um ato de reencenação, daí que o livro se chame “Memórias da Plantação”. Foi isso que me interessou trabalhar neste livro e noutras peças. Hoje mesmo [17 de maio] inaugurou uma instalação em vídeo na Gulbenkian [“Illusions, vol. I, Narcissus and Echo”] que está em diálogo com o livro e que aborda precisamente estes temas. Narciso é como uma metáfora da sociedade colonial patriarcal que só se vê a si própria, só se repete, e inviabiliza todos os outros, e Eco é a mulher, que é reduzida ao silêncio, que não tem voz e quer falar. Na encenação, ela pega nos microfones mas ainda assim as únicas palavras que ouvimos são as do patriarca.
©Zé da Paiva
Também diz que a maior parte da literatura sobre racismo não conseguiu tratar da posição específica das mulheres negras e que estas também estiveram durante muito tempo invisíveis no projeto feminista global. Os movimentos feministas atuais já se redimiram disto? As mulheres negras já são ouvidas?
Não diria que se redimiram, diria antes que as mulheres negras é que tomaram o seu próprio espaço. O feminismo ocidental fez um erro fatal, que foi dividir o mundo entre meninas e meninos, entre mulheres e homens, sendo as mulheres oprimidas pelos homens. Isso não explica a nossa história global, se tivermos em conta a história colonial que dominou e definiu o mundo durante 500 anos: o homem negro foi dominado pela mulher branca e a mulher negra continua a trabalhar para a família branca. O feminismo ocidental ignorou essa história e é impossível, na minha opinião, não encarar o anti-racismo como parte de um movimento de libertação. A partir do momento em que este não é incluído, estão a excluir-se automaticamente uma série de identidades e realidades. Isso sempre foi muito claro para o feminismo negro, que acabou então por criar o seu próprio movimento, um movimento que é muito radical e alimentou outros movimentos, que é transdisciplinar e de solidariedade entre mulheres negras, mulheres queer e mulheres transgénero, estando também em solidariedade com os homens negros. O feminismo negro trouxe outro modelo de pensar o feminismo em que raça, género, classe e outra série de categorias não se excluem umas às outras; é muito mais avant-garde do que o feminismo por si, que ainda está a perceber que há outros níveis e camadas e que não se pode ignorar a branquitude. E não se pode ignorá-la porque a mulher branca posicionou-se como vítima de uma sociedade e nunca se viu como opressora e como dominante. Nunca se posicionou na sua história colonial e nos privilégios que sempre teve. A mulher negra, por outro lado, sempre foi excluída de todos os discursos. Não somos homens nem somos brancas, e portanto a nossa posição sempre foi mais frágil.

“Tem-se negligenciado a realidade vivida do racismo, as experiências, as lutas, o conhecimento, a compreensão e os sentimentos das pessoas negras no que toca ao racismo”, escreve também. Como é que os órgãos de comunicação social, e em específico os portugueses, têm contribuído para isso? A nossa comunicação social é genericamente racista?
… Não sei. Eu já não vivo em Portugal, não posso responder a essa pergunta.
Mas da realidade que conhece...
Acho que não consigo responder a essa pergunta, não quero… Não.
Está bem.
Na primeira e última vez em que vim apresentar aqui o meu trabalho [MAAT e Galeria Avenida da Índia, em 2017, tendo a artista já exibido o seu trabalho em diversos contextos internacionais como a 10.ª Bienal de Arte Contemporânea de Berlim e a 32.ª Bienal de São Paulo], conheci muitas jornalistas mulheres que se mostraram muitos envolvidas nestes temas, muito interessadas, e que exigiram que o meu trabalho tivesse um grande impacto e visibilidade nos media. Achei impressionante que tenha sido coberto de uma forma tão digna e tão presente e tão exigente. Trata-se de decisões, a meu ver, muito importantes e que têm que ver com reeditar a estrutura. O racismo é um problema estrutural, institucional, e portanto é importante decidir qual o espaço dado e quanto espaço, quais temas ocupam quanto espaço e de que forma são tratados. Os media têm essa responsabilidade perante o público. Quando estamos a falar sobre racismo e todas as outras formas de opressão, não estamos a falar de moralidade, estamos a falar sobre responsabilidade, que tem que ver com um processo de consciencialização: começa com a negação, da negação passa-se à culpa, da culpa à vergonha, da vergonha ao reconhecimento e deste, finalmente, à reparação. Reparar significa precisamente isso, arranjar o que estava estragado e perceber a violência de certas estruturas. Mas este processo só pode acontecer se o que estamos a falar tiver visibilidade, tiver espaço. Os media têm um papel importante porque fazem uma sugestão — vejam isto, conheçam isto. É um trabalho de responsabilização, um ato político. Se posso responder à sua questão, é apenas por este caminho.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

«E enquanto se entretêm com o jogo das cadeiras a extrema-direita continua a crescer, a esquerda a definhar e a Europa a afundar-se.»
Daniel Oliveira, in Expresso Diário online, 30/05/2019

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Questões de tácticas

1. Em política, normalmente estratégia tem o significado de objectivo final, programático; por exemplo: uma sociedade socialista como antecâmara preparatória da sociedade comunista. Contudo, pode significar, em determinadas opções programáticas, uma sociedade moderna e avançada, um regime democrático (bem mais democrático) social, com governos das esquerdas (alianças ou coligações), em que a palavra "esquerda" esteja na prática, nas políticas a favor das massas trabalhadoras, com a participação efectiva e permanente destas (através de seus delegados), em que o capital esteja presente na economia mas sem poder exercer a dominação em qualquer esfera, e outras características profunda e realmente reformistas. Tal regime, descrito assim, não é menos social-democrata do que eram os projectos da social-democracia, no ponto de vista exclusivamente programático e teórico (na prática, a história é outra) em tempos antigos.
  Por táctica entende-se os modos como se pretende alcançar a estratégia (propor ou aceitar coligações eleitorais ou pós-eleitorais para constituir governos, acordos parlamentares, agir por meio de greves gerais e manifestações públicas maciças, etc.).
2. As tácticas podem alterar-se de um momento para o outro, dependendo de decisões de agrupamentos políticos ou dos dirigentes que entendem que as circunstâncias se alteraram e que o objectivo central estratégico pode ficar dificultado mantendo-se a mesma táctica. Dificultado significa nomeadamente a perda real e iminente de importantes posições políticas.
3. Quando uma determinada táctica se mostrou inteiramente correcta numa determinada fase histórica, pontual e temporal, não significa necessariamente que continue a sê-lo quando se verifica grave perda de forças e posições políticas.
4. Já o escrevi neste meu blogue: tanto nos podemos servir de exemplos históricos a favor de alianças, coligações, aproximação de posições, com os chamados partidos socialistas ou social-democratas (refira-se o nome aqui, não a prática), e exemplificamos com o Governo de Salvador Allende no Chile, O governo de Chavez na Venezuela, etc., como podemos recorrer facilmente a exemplos negativos que pretendem afastar coligações e outros acordos, e exemplificamos com o "Programa Comum" na França do século passado. Qualquer exemplo é concreto, não deve ser convertido em "tendência" e muito menos "lei". Isto é: o caso do Chile foi uma situação nacional muito própria; no caso francês tínhamos a hegemonia a Ocidente do chamado "eurocomunismo" (deriva dos PCs para a social-democracia).
Nozes Pires

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Uma vitória que não parece “poucochinho” num cenário que pouco muda

26.05.2019 às 23h41

O PS conseguiu o resultado que desejava, ficando bastante destacado do PSD. A verdade é que o PS fica cinco pontos percentuais acima do PSD e do CDS juntos que, apenas mais um do que em 2014, lhe deu uma vitória “poucochinha”. Ninguém fará esta conta e isso é que interessa. O Bloco de Esquerda é, com o PAN, o que mais tem a festejar nesta noite, recuperando a vantagem à esquerda. Mas não mudou muito em cinco anos

Como nota prévia, a abstenção. A comparação com 2014 é enganadora. É verdade que a abstenção, há cinco anos, foi de 66,2% e este ano foi de 69%. Mas a verdade é que até votaram mais eleitores. Por uma razão: o registo dos emigrantes que vivem noutros países europeus é automático, o que correspondeu a um aumento de um milhão de pessoas nos cadernos eleitorais (emigrantes), aumentando assim a base eleitoral e, por consequência, a taxa de abstenção. Para o que realmente interessa, a abstenção não aumentou de forma significativa. A abstenção é um excelente retrato do nosso europeísmo acrítico. Somos euroabstencionistas. Mas é a verdade é que fazemos parte do clube dos mais abstencionistas. Tenho uma tese sobre isso: nada se joga aqui. Em muitos países europeus, houve, por causa da extrema-direita, uma dramatização que levou mais gente às urnas.

Antes de tudo, temos de decidir o que é vencer ou perder nestas eleições. Uma parte é psicológica – não é nada irrelevante na política –, outra é importante para os efeitos que tem na vida político-partidária, outra é real no campo em que estas eleições acontecem: a Europa. Comecemos pela primeira. E socorro-me do excelente TEXTO preparatório deste dia feito pelo David Dinis, escrito na última quinta-feira, que é um bom guia não adaptado aos resultados quando eles já se conhecem.

Nas Europeias de 2014, o PS teve 31,5%, pouco mais de um milhão de votos – mas legislativas seguintes, em outubro de 2015, teve 32,3%, tendo ficado atrás da coligação de direita. Nas últimas europeias, o PS ficou quatro pontos percentuais acima do PSD e do CDS e António Costa considerou isso “poucochinho”. Se somarmos a votação do PSD e do CDS temos um resultado da direita de 28,2%. Se ainda lhe juntarmos a Aliança, que é uma cisão do PSD, fica com 30%. Com 33,4%, o PS ficou cinco pontos acima disso, no cenário mais simpático. No mais antipático ficou apenas a 3,5. Apesar do mau resultado da direita, não me parece que o PS tenha motivos para fazer uma festa de arromba. A diferença é a mesma que levou Costa a falar de “poucochinho”. Mas como estamos a falar de sensações...
O PS conseguiu o resultado que desejava, ficando bastante destacado do PSD. A verdade é que o PS fica cinco pontos percentuais acima do PSD e do CDS juntos, que, apenas mais um do que em 2014, lhe deu uma vitória “poucochinha”. O Bloco de Esquerda é, com o PAN, o que mais tem a festejar
Como a direita concorreu em conjunto nas últimas legislativas e europeias, só em conjunto pode objetivamente ser avaliada. É verdade que o PSD e o CDS tinham tido 27,7%, cerca de 900 mil eleitores. Tinham sete eurodeputados (seis para o PSD e um para o CDS). Mas não podemos ignorar que, nessas eleições, Marinho Pinto teve 7%. Um ano depois a PàF conseguiu 38,5%, que já era uma grande queda em relação às eleições anteriores. Como recordou David Dinis, o pior resultado do PSD sozinho em europeias foi de 31,1%, em 1999, e a última vez que concorreu sozinho, em 2009, teve 31,7%. Os 22% são uma derrota evidente. Uma pesada derrota, na realidade.

Quanto ao CDS, a última vez que foi a europeias sozinho, em 2009, teve 8,4%. As outras vezes que concorreu sozinho foi em 1999 (8,2%), em 1994 (12,5%), em 1989 (14,2%) e em 1987, quando houve eleições legislativas simultâneas (15,4%). Manteve o eurodeputado eleito mas, com 6,2%, tem um resultado catastrófico. O que tivemos nestas eleições foi uma deslocação de votos para a esquerda. E o CDS ficou preso num discurso radicalizado que não conseguiu segurar os eleitores. PSD e CDS podem ter sido punidos, numa eleição que mobiliza os mais convictos, os professores podem ter contado.

O Bloco teve 4,5% nas últimas europeias, com cerca de 150 mil votos. Só tinha conseguido eleger Marisa Matias. No entanto, este resultado aconteceu num momento extraordinariamente mau para o BE. Nas legislativas seguintes teve 10,2%. O melhor resultado do Bloco em Europeias foi em 2009, com 10,7%. O Bloco é, com o PAN, o maior vitorioso desta campanha. Teve 9,8%, elegeu dois deputados e isto foi um sinal fortíssimo para as próximas eleições.

Já a CDU foi o oposto. Teve um resultado especialmente bom em 2014: 12,7%, mais de 400 mil votos. Em termos de votos, quase o mesmo que teve nas legislativas (pouco menos de 450 mil), que corresponderam a 8,25%. O mais importante no PCP, que sofre menos com a abstenção, são os votos. Um mau resultado nas europeias é um péssimo sinal para as legislativas. Teve 6,8% e perdeu um deputado. É verdade o que diz o PCP: o extraordinário resultado de 2014 teve relação com um forte sentimento antieuropeísta logo depois da intervenção da troika. As coisas são mais difíceis agora. Mas o mais importante, por razões mais psicológicas do que políticas, é a posição relativa em relação ao Bloco. Depois da perda da liderança à esquerda nas legislativas e de ter recuperado, nas últimas europeias, esse lugar, esta derrota terá fortes efeitos nos próximos meses. A estratégia de isolamento do BE, para uma “geringonça” a dois com o PCP, é cada vez mais improvável. Nunca os comunistas se meteriam em tal aventura.

Há ainda os pequenos partidos. Nas ultimas eleições, MPT (com Marinho Pinto), Livre, PAN e MRPP foram os extraparlamentares que ficaram acima de 1%. Graças ao resultado de Marinho Pinto, os partidos fora dos cinco grandes tiveram, juntos, cerca de 16%, e mais de meio milhão de votos. Nestas tiveram cerca de 14%. Mas é evidente que se têm de destacar os resultados extraordinários do PAN: 5% e um eurodeputado. Tudo indica que os animalistas entraram definitivamente no cenário político português. Mas o resultado do PAN desmente a ideia de que o voto nos pequenos é a revolta de quem queria ouvir falar da Europa. O PAN foi, dos pequenos, o que menos o fez. E quem os ouviu a falar sobre o tema terá reparado que era, de todos eles, de longe, o menos preparado de todos. A diferença entre o PAN e Marinho Pinto é que o PAN, já estando na Assembleia da República, pode capitalizar isto para ser mais de um epifenómeno. Mas se este é o nosso fenómeno ecologista, estamos bem tramados. Mas é provável que o PAN venha a ser uma força importante na próxima legislatura. Talvez aquela com que o PS sonha aliar-se: uma aliança que sairia quase de borla. Como nota, Marinho Pinto, que teve direito a participar no debate dos grandes, teve 0,5%.

Em resumo: Poara o ambiente político de que precisa, o PS conseguiu o resultado que desejava, ficando bastante destacado do PSD. A verdade é que o PS tinha quatro pontos percentuais acima do PSD e do CDS juntos que, em 2014, lhe deu uma vitória “poucochinha”. Agora tem cinco. Ninguém fará esta conta - e isso é que interessa. O Bloco de Esquerda é, com o PAN, o que mais tem a festejar, recuperando a vantagem à esquerda. Uma vitória pessoal de Marisa Matias que veremos se o BE consegue transportar às legislativas. A CDU fica numa situação muito difícil, e a dificuldade dos comunistas mata à nascença o sonho infantil de fazer uma geringonça a dois. Não vai acontecer. O CDS talvez aprenda que a radicalização do discurso, tentada por Nuno Melo, não resulta. E o PAN, que terá um papel nas próximas legislativas, prova que não foram os temas europeus que moveram o voto de protesto. Bem espremido, a esquerda à esquerda do PS teve 17% em 2014 e tem 16,5% em 2019. O PS teve 31,5% e tem 33,5%. A direita teve 27,7% e tem 28,2%. E um partido vindo de fora, e que serve bem a função do protesto, teve 7% e agora tem 4,5%. Não mudou muito em cinco anos.

Depois há o impacto real que os resultados nacionais têm em Portugal, sobretudo sabendo que há eleições legislativas em outubro. Devemos ter em conta aquilo que já sabemos de europeias anteriores. Que os partidos extraparlamentares costumam ter a vida muito mais facilitada em legislativas, que não têm um circulo único e onde a pressão do voto útil é inexistente. Que o PCP, com um eleitorado mais fiel, costuma ser beneficiado em eleições onde a abstenção é maior. E que os partidos da oposição tendem a ter melhores resultados nas europeias, não sendo isso um padrão seguro. Vistos os resultados, percebemos o que andou a fazer António Costa. Não andou a falar da oposição à extrema-direita, andou a negociar com os liberais a forma destes e os socialistas poderem competir por lugares com os populares. É só sobre isso que se fala na Europa.

Nenhum destes resultados terá grande peso nos equilíbrios do Parlamento Europeu. Farei uma análise dos resultados no resto da Europa para o texto de terça-feira. Apenas uma ideia simples: que apesar do alívio absurdo, a extrema-direita ganhou mais espaço, que os verdes foram os grandes vitoriosos da noite, que os conservadores caíram muito e os social-democratas se despenharam aparatosamente, não sendo provável que aprendam que alianças à direita os fazem perder votos para todos os lados. É provável que os votos do partido unipessoal de Emanuel Macron chegassem para que os socialistas europeus ficassem à frente do PPE. Mas o aliado de Costa foi para os liberais. E é com eles que os socialistas falarão para conseguir lugares na luta contra os populares. As lições desta eterna cedência e incapacidade de construir um discurso próprio ficam para daqui a cinco anos, quando desaparecerem mais um pouco.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

sexta-feira, 24 de maio de 2019

“A CDU é uma voz incómoda na União Europeia”


“A CDU é uma voz incómoda na União Europeia”
Era num filme do Kusturika. Um doente queixava-se de dores na cabeça e apontava-a, e aqui, e apontava o coração e também aqui, e pressionava o estômago. E o médico responde-lhe: «Não há nada de errado com o seu corpo, é o seu dedo que está partido». Livrem-se de diagnósticos equivocados, de ideias engarrafadas e alheias, bebam directamente da fonte, que até é mais saudável. E isto não é um post sobre doenças (ou não apenas), mas sobre a importância de votar na CDU nas próximas europeias (a ordem é aleatória)
- Porque para nós não há «rectas finais», e a luta continua muito para lá da noite eleitoral. Porque não olhamos para as pessoas como eleitores cíclicos nem lhes oferecemos canetinhas.
- Porque por mais que repitam, insistam, moam, ecoem, repliquem… Não, os políticos não são todos iguais. E não é por nos massacrarem com essa frase batida até escorrerem baba, que a tornam verdadeira. Essa ideia é falsa, muito perigosa e tremendamente injusta.
- Porque nenhum candidato da CDU vai para o Parlamento Europeu para enriquecer, fazer carreirismo, malabarismos, tirar proveitos pessoais, armar negociatas. E temos a certeza de que não os iremos, um dia, encontrar em conselhos de administrações de empresas.
- Porque basta ver um – apenas um, disse Miguel Tiago – debate televisivo para percebermos que o João Ferreira, para enorme desconforto dos restantes candidatos, tem uma postura irrepreensível, um conhecimento de causa, de todos os assuntos, de todos os dossiers, uma inteligência rara, um raciocínio tão rápido quanto claro, tão sólido e firme quanto consistente. E em permanente disponibilidade de prestação de contas aos portugueses pelo trabalho desempenhado. Em linguagem cinematográfica, João Ferreira é aquele que «rouba» a cena. E nem precisa de efeitos especiais.
- Porque três deputados da CDU fazem mais e melhor pelo país do que os restantes 18 juntos.
- Porque não aceitamos que nos apequenem, não queremos ser os obedientinhos ou os alunos bem comportados da Europa, que a tudo dizem que sim, os deslumbradinhos com os fundos europeus, como se o que recebemos fosse solidariedade: não é. Tudo o que nos «oferecem», temos de devolver em dobro – e muito tem lucrado o Banco Central Europeu com a nossa dívida…
- Porque não queremos ser dissolvidos culturalmente, não queremos ser tratados como consumidores, mas sim como cidadãos.
- Porque a CDU é uma voz incómoda na União Europeia, a voz da não submissão, inequivocamente democrata e de esquerda. De absoluta confiança. Uma voz que não se amedronta nem se verga. E não há força política alguma em Portugal que celebre com tanta alegria e propriedade a democracia, a liberdade, a igualdade, a justiça social – que, aliás, o PCP ajudou e batalhou muito para construir.
- Porque assumirmo-nos publicamente enquanto comunistas e de esquerda é um orgulho, mas não um acto de coragem: essa está reservada para combates bem mais duros, e os comunistas sabem do que estão a falar. O preconceito ideológico existe, a invisibilização mediática também, mas estamos mais que habituados a caminhos agrestes. Isso não nos impressiona nem nunca nos imobilizou.
-Porque não deitamos as mãos à cabeça por causa do ambiente agora. Não embarcamos na moda do ambientalismo e dos direitos dos animais. Já é uma prioridade nossa desde os anos 80. Há quatro décadas que declarámos o planeta em estado de emergência.
- Porque os portugueses precisam de uma força que admita o óbvio: que este projecto de União Europeia é confuso e desconjuntado, sem referenciais de progresso, com um preocupante pendor neoliberal e até militarista. E nisto, o populismo a ganhar espaço, pasto fértil para extremas direitas e fascismos.
- Porque, como tem dito João Ferreira, em política não há inevitabilidades nem becos sem saída. É possível, sim, uma União de estados de cooperação solidária, com relações mutuamente vantajosas, menos invasiva das soberanias nacionais e menos destrutiva das forças produtivas internas. Como é possível que tenhamos de importar 70% do nosso pescado, mesmo possuindo a maior Zona Económica Exclusiva? Como é possível termos obedecido quando nos mandaram a abater metade da nossa frota pesqueira? Como é possível importarmos 90% do trigo que consumimos?
- Porque é preciso alguém que denuncie a desastrosa política de intervencionismo externo da União Europeia, nomeadamente no Iraque, na Líbia e na Síria. E responsabilizá-la também pela terrível crise humanitária dos refugiados, que tornam o Mediterrâneo numa vala comum.
- Porque vivemos tempos oclusos, sombrios, difíceis de decifrar, em que a incultura passou a ter poder e a mentira passou a valer. E o desmentido não tem a mesma força do que a prévia adulteração. Porque são os tempos de conceitos estranhíssimos, como o da pós-verdade, em que os factos valem menos do que as emoções que eles provocam, menos até do que aquilo em que as pessoas querem à força acreditar.
- Porque se, nos anos 70, Sophia disse a famosa frase «a cultura é cara, mas a incultura ainda é mais cara e a demagogia é caríssima», calculem o preço que estamos a pagar pelos populismos. Por esta escalada de disseminação de fake news, perfis falsos, empresas especializadas em viralizar vídeos fictícios, rios de dinheiro para criar uma malha de mentiras, de falsidades, difíceis de controlar. Portanto é preciso mantermo-nos em estado de alerta: a democracia é uma haste débil muito fácil de derrubar, basta um sopro; difícil é depois consertá-la.
- Porque obviamente não são tempos fáceis para candidaturas sérias, com provas dadas e projectos e convicções coerentes. O grotesco, o caricato, o ridículo passou a ter valia eleitoral. As pessoas zangadas com o que o capitalismo lhe fez à vida, optam por soluções auto-destrutivas, e elegem para cargos poderosos figuras de BD, com total impreparação e que conseguem reunir em si tudo o que de medonho e obscurantista existe na natureza humana.
- Porque, ainda assim, não nos moveremos um milímetro da nossa forma de estar e de fazer política.

(face book)

Entre contradições (não querer sair da União Europeia e defender um programa radical de esquerda), como é seu timbre, o esloveno famoso diz aqui coisas interessantes.

Žižek: A eleição de Bolsonaro e a nova direita populista

Em entrevista exclusiva ao Blog da Boitempo, o filósofo esloveno comenta a eleição de Bolsonaro no contexto da onda global de ascensão da extrema-direita populista e provoca: “a única maneira de salvar aquilo que há de bom na tradição liberal será na base de uma política mais radical de esquerda”.

Blog da Boitempo entrevista Slavoj Žižek.

O filósofo esloveno Slavoj Žižek bateu um papo via Skype com Artur Renzo, editor do Blog da Boitempo, sobre a eleição de Bolsonaro no contexto da onda global de ascensão da extrema-direita populista e a implosão do centro político. Para ele, o desafio é saber diferenciar o sintoma de sua causa: o acontecimento-chave do mundo hoje não é o surgimento da nova direita, e sim a desintegração do grande consenso liberal capitalista ao qual ela responde. Assim, a resposta a esse fenômeno não deveria ser ensaiar um novo populismo de esquerda, nos moldes das figuras de direita que estão ganhando espaço. Mais do que nunca, a esquerda precisa manter sua vocação internacionalista para fazer frente ao capitalismo global. Maoísta de ocasião, Žižek vê na desordem da conjuntura atual uma janela de oportunidade diante da qual a esquerda deve ter a ousadia de propor uma nova visão básica da sociedade.
Quanto ao Brasil, o filósofo demonstra certa preocupação acerca da preservação de uma democracia formal no país com Bolsonaro, mas vê que a implementação de uma política de austeridade pode minar a legitimidade do novo governo e manter nas mãos da esquerda o monopólio sobre a política antiausteridade. Žižek alerta ainda para a armadilha de priorizar neste momento a composição de uma frente ampla de defesa da democracia com setores de centro e centro-direita, em vista de preservar um programa mínimo contra a ameaça posta pela extrema-direita. E provoca: “a única maneira de salvar aquilo que há de bom na tradição liberal será na base de uma política mais radical de esquerda”. Confira a tradução completa da entrevista abaixo.

* * *
Como você situa o caso brasileiro atual, com a eleição de Jair Bolsonaro, no contexto global mais amplo, marcado pela ascensão de populismos de direita e extrema-direita em diversos países?
Até onde sei, o caso brasileiro é bastante singular. Não é como na Europa Ocidental, onde oponente não é, como no caso de vocês, um movimento relativamente honesto de esquerda. O oponente lá é simplesmente o establishment – talvez um pouco de esquerda, democrático, mas ainda assim o establishment. Na Europa Ocidental, o que está desaparecendo é a social-democracia tradicional. O que se tem é uma oposição entre aquilo que denomino o establishment liberal de esquerda (que é economicamente neoliberal mas socialmente a favor de direitos LGBT, das mulheres etc.) e esse novo populismo de direita.
No Brasil, parecia que o populismo não era principalmente um populismo de direita. Com Lula e Dilma, a esquerda havia ocupado esse espaço. Mas aqui vou traçar algumas observações que provavelmente soarão problemáticas para muitos de vocês. Não concordo com toda essa ideia de um populismo de esquerda. Está na moda defender isso na Europa Ocidental e nos Estados Unidos: por que deixar o populismo – essa modalidade engajada de política, centrada no estabelecimento de um conflito com um determinado inimigo –, por que deixar o populismo exclusivamente na mão dos direitistas? Por que não responder a ele com um populismo nosso, de esquerda?
Por motivos teóricos e práticos creio que não devamos trilhar esse caminho. Como admite Ernesto Laclau – que é o teórico do populismo –, o populismo concentrou-se em construir uma imagem clara do inimigo. É claro que, no nosso caso, os inimigos não seriam os estrangeiros, os imigrantes etc., seriam algo como as elites financeiras, a classe dominante etc. Mas o problema aqui, fundamentalmente, é que as coisas não são tão simples assim… Vejamos o caso dos Estados Unidos. É claro que o inimigo imediato é Donald Trump, mas penso ser absolutamente crucial se colocar uma pergunta mais profunda. Como diz Michael Moore, logo no início de seu novo documentário, Trump não caiu do céu. Foi com o fracasso do establishment liberal de esquerda que abriu-se espaço para o surgimento de figuras como Trump. Essa é a grande decepção. O pacto político que regulou os países desenvolvidos nas últimas décadas foi o pacto desse establishment liberal.
Jamais devemos esquecer que uma democracia (e aqui não me refiro a uma autêntica democracia do povo, mas uma simples democracia multipartidária, em que diversos partidos disputam o poder) só funciona sob o pano de fundo de certo consenso ou pacto. Você pode fazer suas escolhas, promover seus debates etc., mas somente dentro dos limites de certo pacto ou marco consensual. De forma que, por exemplo, nos Estados Unidos você tem os Republicanos e os Democratas. É verdade que eles têm suas diferenças, mas eles compartilhavam todo um conjunto de ideias e premissas básicas. O mesmo valia para a Europa Ocidental.
O que mudou agora? Dois anos atrás, você lançou uma provocação ao afirmar que a eleição de Trump seria melhor do que a de Hillary, no sentido de que poderia abrir o caminho para o surgimento de uma esquerda radical mais autêntica, livre das amarras desse grande consenso liberal representado pelo Partido Democrata. Como você avalia essa questão agora, com dois anos de Trump na Casa Branca? Você arriscaria dizer que algo parecido talvez seria aplicável para o caso brasileiro, com a eleição de Bolsonaro?
O que está ocorrendo agora com Trump é que esse pacto liberal está se desintegrando. Penso que não devemos cair na armadilha (na qual boa parte dos liberais atualmente se encontra) de pintar Trump como o grande demônio e tentar implicitamente retornar a esse pacto liberal de esquerda, Estado de bem-estar social e tal. Não! Esse pacto está perdido. Devemos aprender com Trump a aceitar essa ideia de que o velho pacto político que sustenta nossa sociedade está ruindo. E é preciso agora ter a ousadia de propor um novo pacto social, nosso, mais à esquerda – um pacto, ou, se quiser, uma visão básica da sociedade. Nesse sentido, sou maoísta. Como dizia Mao: “Tudo sob o céu está mergulhado no caos; a situação é excelente”. Com Trump, há uma grande desordem sob o céu estadunidense. Por isso, eu diria que a situação também é um pouco propícia, no sentido de que há uma abertura única para que nós, uma esquerda mais radical, possamos fazer algo. E incluo aqui não apenas Bernie Sanders, mas todas as gerações de outros democratas de esquerda mais radicais que não temem reabilitar a palavra socialismo.
Agora, essa é a imagem geral. Sobre o que ocorre no Brasil, não posso dizer que sei o suficiente. Quer dizer, eu sei que houve uma grande manipulação. A forma pela qual Bolsonaro e seus demagogos populistas de direita foram capazes de mobilizar essa eterna acusação contra Lula, Dilma e seus partidários de que eles seriam os representantes da corrupção, que eles seriam parte de um Estado não transparente, corrupto e por aí vai… Eu não conheço suficientemente a situação brasileira para opinar aqui, mas diria o seguinte: quando disse ironicamente que votaria em Trump, o que eu quis dizer era que ele seria bom, negativamente, para estilhaçar a ideologia hegemônica existente e, nesse sentido, abrir espaço para o surgimento de uma esquerda mais radical. Mas não penso que essa seja uma fórmula universal. Mesmo no caso da Europa Ocidental – porque temos um tipo diferente de Estado na Europa, muito mais centralizado –, eu jamais teria dito algo como “Vote na Marine Le Pen!”, porque com ela no poder à frente do Estado francês teríamos algo muito maior do que Trump. O Estado francês é muito mais forte e centralizado e regula num grau muito maior a vida social como um todo. Teria sido uma verdadeira catástrofe. Temo que o mesmo valha para o Brasil.
Slavoj Žižek em entrevista via Skype com Artur Renzo, editor do Blog da Boitempo.
Em seus artigos mais recentes, você resume da seguinte maneira a “pervertida situação política” da Europa: por um lado, temos a “esquerda” oficial efetivamente implementando políticas de austeridade (ao mesmo tempo que assume a pauta progressista e multiculturalista no que diz respeito aos valores) e, por outro, temos a “direita populista” de fato tomando a frente das medidas antiausteridade (e empunhando a bandeira e o discurso da xenofobia e do nacionalismo). Nesse sentido, me pergunto se a infeliz novidade que temos agora no Brasil não seria que o nosso governo eleito parece juntar o pior desses dois mundos: ele é economicamente pró-austeridade e ao mesmo tempo extremamente reacionário no que diz respeito a direitos humanos, ações afirmativas, direitos das mulheres e das minorias etc.
Isso é muito interessante! Quer dizer, se o Estado brasileiro permanecer, ao menos em algum sentido formal (no sentido corriqueiro do termo), basicamente democrático, essa situação, apesar de tudo, abre espaço para que a esquerda ao menos retenha o monopólio da política antiausteridade, por assim dizer. Porque o que faz de Trump um perigo tão grande é precisamente esse aspecto. Se você prestar atenção ao que diz Steve Bannon, ele afirma abertamente coisas como “Eu não sou pró-austeridade. O Estado deveria gastar mais com os trabalhadores”, e por aí vai. Bannon é realmente um perigo. Ele quer aumentar os impostos dos ricos a 44%, até mais. E na Europa temos ainda mais disso. Na Hungria e especialmente na Polônia (que, como você sabe, é o caso mais perigoso), o atual governo, extremamente católico, implementou uma série de medidas que nenhuma social-democracia na Europa jamais teria se atrevido a fazer: reduzir a idade de aposentadoria, elevar a previdência, melhorar a saúde pública, ampliar o apoio financeiro aos estudantes etc.
E aqui devemos ter muita cautela na análise. Dou um exemplo. Muitos dos meus amigos ficaram horrorizados quando Syriza capitulou, sabe? E eu concordo, eles não deveriam ter feito isso. Mas também não era simplesmente como se eles tivessem uma escolha. Não se tratou de uma simples traição, mas da revelação de uma necessidade mais profunda. Esse para mim foi o momento de verdade daquele processo todo. É por isso que sou muito cético quanto àquela ideia bastante em voga hoje entre certos setores da esquerda de que, da mesma forma que novos populistas como Bannon ou Trump em geral investem no nacional populismo de direita, também a esquerda deveria defender algo análogo. Não, eu não acredito que seja possível derrotar o capitalismo global jogando com cartas nacionais. Não compro essa ideia de nos retirar da União Europeia, ou o que quer que seja, para tocarmos nossa própria política nacional.1 Não se pode fazer isso. O capital global é um fenômeno internacional. A resposta a ele também terá de ser internacional.
É por isso que vejo alguns sinais progressistas em certas movimentações hoje. Você sabe que há agora um eixo – que não é um eixo do mal, mas digamos um eixo do bem – se formando: Sanders e seus democratas de esquerda nos EUA estão estabelecendo ligações com Corbyn e com o Partido Trabalhista inglês, e com alguns movimentos de esquerda como aqueles em torno de Varoufakis e similares na Europa. Precisamos permanecer – e digo que isso é mais importante hoje do que nunca – precisamos permanecer internacionalistas.
O próprio Fernando Haddad está em Nova York agora, a convite de Varoufakis, para participar do lançamento dessa frente. Uma das questões que a esquerda brasileira debate hoje no que diz respeito à organização da oposição a Bolsonaro é o seguinte: até que ponto se deve investir na criação de uma frente ampla “democrática” contra o neofascismo e a extrema direita, priorizando assim a busca por pontos de contato mínimos com setores de centro e até centro-direita contra um perigo maior; ou se, pelo contrário, ela deve radicalizar ainda mais seu discurso e seu programa pra tentar atingir maior apoio popular. Como você avalia esse dilema?
Essa é uma pergunta traiçoeira! Penso que devemos tomar muito cuidado aqui. É claro que, por motivos táticos, quando você quer barrar determinada legislação perigosa de direita, não há problema algum em estabelecer coalizões táticas com quem quer que seja. Mas eu não diria que devemos renunciar totalmente nossa visão mais radical de esquerda. Não apenas por conta de algum tipo de purismo esquerdista. Penso que não devemos jamais perder de vista que a crise à qual Bolsonaro e Trump aparecem como respostas é a crise do establishment liberal de centro.
Há coisas boas no liberalismo: liberdades humanas, direitos LGBT, direitos das mulheres etc. Mas, no longo prazo, a única maneira de redimir, de salvar aquilo que há de bom na tradição liberal será na base de uma política mais radical de esquerda. Aquilo que, por exemplo, o Partido Trabalhista está tentando fazer na Inglaterra, com Jeremy Corbyn. Não penso que devamos apostar todas as fichas na direção do “agora estamos diante de um enorme perigo e devemos todos nos unir contra os novos populistas de direita”.2 Se fizermos isso, mesmo que tenhamos êxito, só voltaríamos à situação que ensejou o nascimento do populismo de direita.
Algum recado final para seus leitores brasileiros?
Mande um salve para todos aí no Brasil. Diga a eles que estamos todos na mesma merda. O jeito é tentarmos permanecer o mais alegre que pudermos neste inferno em que vivemos!3

NOTAS
1 Tariq Ali defendeu recentemente essa posição no contexto do Brexit em entrevista a Edemilson Paraná e Gustavo Capela para o número 29 da revista da Boitempo, a Margem Esquerda. Žižek desenvolve sua crítica a essa ideia em sua coluna no Blog da Boitempo aqui. [N. E.]
2 O cientista político André Singer, organizador de As contradições do lulismo, defendeu essa posição na plenária pós-eleições convocada por Ruy Braga, com Marilena Chaui e Vladimir Safatle no dia 1º de novembro de 2018 na USP. Confira a gravação completa da intervenção dele na TV Boitempo clicando aqui. [N. E.]
3 Tradução de Artur Renzo, com colaboração de Thaisa Burani. [N. E.]

Depois de muitos pedidos, ele chegou: o livro de Žižek sobre cinema ganha nova edição, totalmente revista e ampliada! Em Lacrimae rerum: ensaios sobre cinema moderno, o filósofo esloveno propõe um estudo aprofundado das motivações de diretores renomados internacionalmente, como Krzysztof Kieślowski, Alfred Hitchcock, Andrei Tarkovski e David Lynch. Esta nova edição traz seis novos textos e análises originais sobre o cinema contemporâneo: Žižek analisa sucessos hollywoodianos recentes como “Blade runner 2049”, “Batman: O cavaleiro das trevas ressurge”, e o novo “Pantera Negra” da Marvel, além de uma análise leninista de “La La Land”.
“Os ensaios reunidos neste livro estão conectados não só pela riqueza do método, mas também pelas referências reiteradas a ideias que se manifestam em obras tão distintas quanto as de Kieslowski, os irmãos Wachowski, Hitchcock, Tarkovski e David Lynch.” — Sérgio Rizzo
***
Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidas, Primeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013), Violência (2014),  O absoluto frágil (2015) e O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política (2016). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.
Artur Renzo é editor do Blog da Boitempo, da TV Boitempo e da revista Margem Esquerda. Formado em Filosofia e em Comunicação Social com habilitação em Cinema, traduziu, entre outros, A loucura da razão econômica: Marx e o capital no século XXI (Boitempo, 2018), de David Harvey.

quarta-feira, 22 de maio de 2019


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