sábado, 16 de fevereiro de 2013


Ou as esquerdas se atualizam ou se tornarão cada vez mais irrelevantes

É preciso abandonar o conforto dogmático segundo o qual tudo na economia e na sociedade já foi resolvido pelos “clássicos”, bastando a nós repetir os textos como papagaios, sem consideração das imensas transformações pelas quais o mundo passou.

Dizia Marx na “Sagrada Família” que nenhuma formação histórica pode dar lugar a outra mais avançada se “o velho não estiver ao ponto de cair sozinho e o novo não estiver pronto para substituí-lo”. A crise atual aponta para um capitalismo financeirizado virtualmente falido, mas me exaspera o fato de não ver um projeto de base social nas esquerdas que se apresente como maduro para ocupar seu lugar. Há, sim, em algumas correntes esquerdistas, uma espécie de confiança dogmática, filha do marxismo bastardo, na autodestruição do capitalismo, e nenhuma proposta consistente sobre como ocupar o espaço supostamente a ser deixado vago.

Num contexto histórico diferente, quando o capitalismo fordista estava em ascensão nos Estados Unidos e invadindo a Europa, Gramsci formulou o conceito de “guerra de posição”, que seria uma estratégia de ocupar espaços sucessivos em favor das massas no lugar de pregar uma revolução momentaneamente impossível. Noventa anos depois, é tempo de remontar à guerra de posição para aproveitar em melhores condições as fraquezas do capitalismo. Ou será que alguém acredita numa revolução classista nos Estados Unidos ou no Brasil capaz de destruir a burguesia como classe, o que tornaria inevitável sua destruição também física numa guerra civil?

A democracia moderna é uma invenção burguesa. Mas, como tudo na história, seu resultado contraditório foi abrir frestas crescentes de oportunidade para as massas, muito bem aproveitadas, em seu auge, pelas sociais democracias européias e, em parte, também nos Estados Unidos e mesmo no Brasil. A conformação da atual crise – uma orgia especulativa privada nos países ricos que se converteu, para que num primeiro momento o sistema financeiro fosse salvo, numa crise fiscal sem precedentes – aponta diretamente para a destruição do estado de bem estar social (onde ele existe, ou onde ele é uma aspiração) financiado pelos orçamentos públicos.

A guerra de posição aqui significa, como prioridade máxima, salvar o que existe de estado de bem estar social. E o passo à frente significa radicalizar a democracia. É politicamente impossível, numa democracia de origem burguesa, destruir o direito de propriedade privada de todos os meios de produção. Mas é possível, primeiro, estatizar o sistema bancário, já que a emissão monetária e de crédito deveria ser uma prerrogativa exclusiva do Estado; segundo, é perfeitamente possível socializar a terra; e em terceiro lugar, é de todo conveniente, para a estabilidade social, que empresas produtivas estratégicas fiquem em mãos do Estado.

Não estou dizendo novidade: estou me remetendo às estruturas básicas do país mais bem sucedido econômica e socialmente nas últimas três décadas, a China. E em parte também à Índia, embora neste caso com menor brilho. Os dois países se beneficiam para um forte crescimento de planejamento centralizado, sistemas bancários públicos e grandes empresas estatais (ou nacionais) em setores estratégicos. Diante de um ciclo econômico de baixa, planeja-se, financia-se e executa-se o investimento e a inovação tecnológica no mesmo movimento. Não há vazamentos para fora do efeito multiplicador keynesiano como nos países onde vigora ampla liberdade de movimento de capitais.

Infelizmente, não tenho visto debates nessa linha entre as esquerdas. Vejo, sim, diagnósticos inflamados da crise e de seus culpados, o que é útil para formar uma opinião negativa sobre o capitalismo financeirizado, mas que não traz, em si, uma estratégia de superação. Daí a necessidade de romper com dogmatismos e forjar uma nova utopia. Antes que a direita o faça. Pois não pensem que o capitalismo, que na realidade é funcional da própria civilização em que vivemos, vai apodrecer sem reação num contexto democrático. O risco que corremos é vê-lo conduzir as reformas de cima para baixo, alienando uma vez mais as classes a ele subalternas.

Esse processo já está em curso pelo menos no campo da ideologia. Dois artigos recentes publicados pelo “Wall Street Journal”, o qual não se envergonharia de ser rotulado como porta-voz da ultra-direita norte-americana e mundial, mostram com clareza alguns movimentos táticos surpreendentes da classe dominante, vocalizada por seus intelectuais. Um dos artigos, relativo à Europa, é de Uri Dadush. Outro, sobre a situação atual norte-americana, é de Rex Nutting, da MarketWatch (também do Grupo Murdoch). Ambos foram publicados na edição de 1o de fevereiro.

Dadush se pergunta: Quem diz que a Crise do Euro acabou? E ele mesmo responde: “Mesmo que o euro sobreviva, a crise não acaba até que a periferia (europeia) comece a crescer e as pessoas comecem a encontrar empregos”. Por certo, são razões reais, mas não as do tipo que se encontra na imprensa da direita. Para 18 milhões de desempregados, diz ele, é espantoso o tom triunfalista com que o mercado reagiu à promessa do presidente do BCE, Mario Draghi, de que será comprado o que for necessário dos títulos dos governos dos países periféricos em crise. Isso é bom para os bancos, mas não gera necessariamente empregos.

Ele também cita um proeminente político de oposição de um dos países europeus atingidos pela crise que desmistifica a mudança de sentimento dos mercados em relação a essa promessa de Draghi, argüindo que as políticas correntes não levam a lugar algum. Quando perguntou a esse político como pensava que isso acabaria, ele respondeu com a alegoria da “rã fervida”: “se você põe uma rã em água escaldante, ele disse, ela saltará de lá. Mas se você a põe na água fria e vagarosamente aumenta a temperatura, ela ficará quieta, eventualmente sendo fervida até a morte.”

De fato, a Grécia está sendo fervida numa taxa de desemprego de 26,8%, a Espanha de 26,6%, Portugal de 16,3%, Irlanda de 14,6%, Itália de 11,1%, numa tendência ainda crescente. E é espantosa a divergência entre o desempenho da periferia em relação à Alemanha (desemprego de 5,4%) e os Estados Unidos (7,8%). Também o PIB italiano caiu 6% desde o nível pré-crise, enquanto o da Alemanha subiu 8% e os Estados Unidos 7%. Tudo isso, para Dadush, está longe de ser justificado por diferenciais de produtividade. Reflete principalmente a política econômica de agrilhoamento da zona do euro.

O artigo de Nutting é ainda mais surpreendente, considerando a obsessão da direita norte-americana com a redução do déficit e da dívida pública. Ele também se pergunta: O que poderia ser mais urgente que a redução do déficit? E imediatamente responde: Quase tudo. Nesse tudo ele relaciona cinco problemas maiores, pela ordem: desemprego (19 milhões de desempregados), mudança climática, infraestrutura, desigualdade, democracia (para ele a democracia americana está em retração).

Destaco alguns aspectos do problema da desigualdade, que tem sido justificadamente visados pelas esquerdas mas que não deixa de ser surpreendente aparecerem nas páginas do WSJ: entre 1979 e 2007, a renda média do 1% mais rico dos Estados Unidos cresceu 277%, enquanto a dos 80% que representam a classe média aumentou apenas 38%. Essa tremenda desigualdade foi construída ao longo dos últimos 30 anos, não pela crise. Esta apenas o acentuou. Atualmente, o 1% mais rico da sociedade norte-americana detém 50% da riqueza do país. 

Pode-se argumentar que esses comentaristas não representam o núcleo do pensamento de direita nos Estados Unidos e muito menos o grande capital. Contudo, saltando o Atlântico, o que se pode concluir do fato de que o principal representante do empresariado alemão, Hans-Peter Keitel, presidente da poderosa Federação das Indústrias Alemãs, tenha proposto um “plano Marshall” para a Grécia, em confronto direto com a estúpida política de estrangulamento fiscal imposto ao país pela chanceler Ângela Merkel, pelas mãos da Troika (FMI, BCE e Comissão Europeia)? 

Tudo isso significa que existe uma base comum de diagnóstico, imprescindível para algum nível de negociação entre os representantes de diferentes interesses sociais. Se as esquerdas quiserem ter relevância na formulação das políticas do futuro, elas terão de abandonar a utopia negativa da autodestruição do capitalismo e entrar no jogo da radicalização da democracia com o capitalismo regulado. A propósito: a crítica avassaladora que Nutting faz da regressão da democracia nos Estados Unidos, e que não tenho espaço para reproduzir aqui, está ao nível de qualquer intelectual radical de esquerda, o que é outra base comum de negociação!

Em suma, é preciso abandonar o conforto dogmático segundo o qual tudo na economia e na sociedade já foi resolvido pelos “clássicos”, bastando a nós repetir os textos como papagaios, sem consideração das imensas transformações pelas quais o mundo, e sobretudo o mundo industrializado, passou ao longo do último século. É preciso reconhecer na civilização contemporânea as lições objetivas de suas próprias contradições assumindo o risco de propor novas vias de ação em favor das massas mediante o aperfeiçoamento da democracia, não de sua destruição por alguma forma de ditadura “benigna” que a história tem provado sempre acabar em ditaduras sanguinárias.

P.S.: O Itamaraty está articulando a candidatura brasileira à diretoria geral da Organização Mundial do Comércio, OMC. Considerando que sua ala entreguista não conseguiu amarrar o Brasil à Alca, por oportuna oposição de Lula, pode ter aí três propósitos: 1) estourar o livre-cambismo por dentro; 2) subordinar de vez o país ao livre-cambismo; 3) arranjar empregos para diplomatas brasileiros em Genebra.

J. Carlos de Assis é economista, professor de economia internacional da UEPB e autor, entre outros livros, de “A Razão de Deus” (ed. Civilização Brasileira).

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