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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Artigo de Pepe Escobar

 O enigma do Irão, dos Estados Unidos, dos Emirados Árabes Unidos e do Paquistão

 O que está a acontecer neste momento é uma reformulação do sistema operativo mundial. E o novo sistema operativo funciona com o petroyuan.

 Pepe Escobar.— O secretário das «guerras eternas», ao serviço do «babuíno da Barbária» que afirma estar «tão cansado de vencer», está a ponderar vários cenários de «invasão terrestre» em paralelo com uma campanha devastadora de bombardeamentos para, supostamente, desferir o «golpe definitivo» ao Irão.

A ilha de Kharg é uma manobra de distração: está demasiado longe do centro da ação. Capturar navios no lado oriental do estreito de Ormuz é inviável: isso provocaria inevitavelmente uma chuva de mísseis antinavio.

Restam dois cenários: tomar Abu Musa e as ilhas Tunb, grande e pequena, a norte dos Emirados Árabes Unidos (e reivindicadas por estes); ou a pequena ilha estratégica de Larak (a leste da maior, Qeshm), parte do corredor marítimo onde a Marinha do IRGC controla a passagem dos petroleiros que pagam a portagem no estreito de Ormuz.

A única forma de chegar a Larak é a partir de Qeshm.

Qeshm é maior do que Okinawa. Durante a Segunda Guerra Mundial, foram necessários três meses, 184 000 soldados e pelo menos 12 500 baixas em combate para tomar Okinawa. Qeshm está repleta de inúmeros mísseis antinavio e drones iranianos enterrados em falésias e cavernas ao longo de centenas de quilómetros.

Passemos agora às três ilhas iranianas que também são reivindicadas pelos Emirados Árabes Unidos.

Os Emirados Árabes Unidos rejeitam até mesmo a possibilidade de um cessar-fogo com o Irão. O seu embaixador nos EUA, Yousef al Otaiba, escreveu um artigo de opinião belicista no qual apelava a um «resultado conclusivo» da guerra, ou seja, o desmantelamento da «ameaça iraniana».

Posteriormente, confirmou que Abu Dhabi pretende liderar uma «coligação de voluntários» para reabrir o estreito de Ormuz (que não está fechado; apenas o está para as nações hostis ao Irão).

O que realmente importa é a abordagem de «siga o dinheiro»: Yousef al Otaiba reafirmou o compromisso de investimento de 1,4 biliões de dólares dos Emirados Árabes Unidos no Império do Caos, que abrange múltiplos acordos nas áreas da energia, infraestruturas de IA, semicondutores e indústria transformadora.

A infernal máquina da escalada está em pleno funcionamento. Teerão estudou minuciosamente cada caso de envolvimento direto dos Emirados Árabes Unidos, não só no início da guerra, mas também na atual escalada.

Abu Dhabi não só acolhe bases militares americanas, como também permitiu que os EUA utilizassem algumas das suas próprias bases aéreas para atacar o Irão e ajudou entidades hostis a desenvolver a sua base de dados de alvos utilizando a infraestrutura de IA dos Emirados.

Isto é mais do que previsível, uma vez que Abu Dhabi é, de facto, um aliado fundamental do eixo sionista no Golfo Pérsico.

Teerão abre a Abu Dhabi a autoestrada para o inferno

Para todos os efeitos práticos, os Emirados Árabes Unidos estão a entrar na guerra contra o Irão. Portanto, não é de admirar que Teerão já tenha identificado cinco alvos-chave para o seu contra-ataque letal, tal como revelou a agência noticiosa Fars:

    O complexo de energia e dessalinização de Jebel Ali, no Dubai.
    A central nuclear de Barakah, em Abu Dabi.
    A central elétrica de Al Taweelah.
    A Estação M de Dubai.
    O Parque Solar Mohammed bin Rashid.

Atacar estes cinco alvos confirmados provocará apagões generalizados, paralisará a dessalinização e encerrará os centros de dados em todos os Emirados.

Teerão está a ter a cortesia de mostrar a Abu Dhabi, antecipadamente, a autoestrada certificada para o inferno, caso os fuzileiros navais americanos iniciem a sua expedição para Ormuz a partir do território dos Emirados Árabes Unidos.

Abu Dhabi nem vai perceber o que lhe aconteceu. E um alvo adicional poderia ser — mais uma vez — o oleoduto Habshan-Fujairah: 380 km por terra, que liga os campos petrolíferos de Abu Dhabi ao porto de Fujairah, no Golfo de Omã, bombeando 1,5 milhões de barris por dia de uma produção total de 3,4 milhões de barris por dia, e evitando o Estreito de Ormuz.

Para Abu Dhabi, é um imperativo categórico aliar-se à loucura do Império do Caos devido a esses 1,4 biliões de dólares já comprometidos. Jebel Ali precisa de funcionar a plena capacidade porque os Emirados Árabes Unidos são um nó-chave do — por enquanto desaparecido — IMEC: o Corredor Económico Índia-Médio Oriente-Europa, que é, de facto, o corredor de Israel entre a Europa e a Índia, utilizando os Emirados Árabes Unidos.

O AD Ports Group de Abu Dhabi detém uma concessão de 30 anos em Aqaba: o único porto de mercadorias da Jordânia. A DP World, de Dubai, detém uma concessão de 30 anos e 800 milhões de dólares em Tartus, na Síria, no estratégico Mediterrâneo Oriental. Isto significa que os Emirados Árabes Unidos são um interveniente marítimo de peso nos corredores-chave entre a Ásia e a Europa.

Na situação atual, os Emirados Árabes Unidos estão a ser, para todos os efeitos práticos, excluídos do já problemático IMEC. A preciosa carga com destino à Ásia e proveniente da mesma já não passa por Jebel Ali; passa por portos de Omã, em direção à Arábia Saudita (corredor ferroviário de mercadorias para a Jordânia e, daí, para a Síria, Turquia e Europa) e/ou Catar (trânsito terrestre para a Arábia Saudita). Um corredor logístico completamente diferente.

Até agora, Jebel Ali beneficiava de se promover como o principal e incontornável centro de transbordo da Ásia Ocidental, obtendo uma renda fácil e considerável de um comércio anual de 1 bilião de dólares.

Este modelo de negócio está a desmoronar-se, tal como a ostensiva máquina de branqueamento de capitais do Dubai.

O papel obscuro do Paquistão

O Império do Caos contava — e talvez continue a contar — com a previsível recusa de Teerão em encetar «negociações» indiretas no Paquistão sobre a guerra para justificar a próxima ofensiva de bombardeamentos como «golpe final».

Nada disso parece perturbar o planeamento meticuloso de Teerão, uma vez que os objetivos principais continuam inalteráveis: criar uma nova equação geopolítica e de segurança na Ásia Ocidental; manter a dissuasão do Irão — adquirida sob fogo inimigo —; e estabelecer o domínio tanto sobre as monarquias petrolíferas árabes como sobre o culto da morte na Ásia Ocidental.

Será que os Emirados Árabes Unidos querem entrar na guerra? Do ponto de vista de Teerão, isso é ótimo: a justificação perfeita e completa para a destruição de toda a sua infraestrutura essencial.

Era mais do que previsível que o plano de 15 pontos que os lacaios da equipa de Trump apresentaram ao Irão através do Paquistão fosse um fracasso desde o início. Afinal, tratava-se de uma capitulação imposta: um documento de rendição disfarçado de «negociação».

Para começar, Teerão recusou-se a voltar a falar com Heckle e Jeckle, a patética dupla Witkoff-Kushner, descrita pelos diplomatas iranianos como traidores. A dupla nem sequer foi capaz de compreender as generosas propostas do Irão esboçadas em Genebra e traduzidas por diplomatas omanis para um inglês rudimentar.

Assim, o discurso teve de mudar instantaneamente: o novo «não plano» da Casa Branca seria discutido pelo vice-presidente J.D. Vance, que, em teoria, se reuniria com o presidente do Parlamento iraniano, Ghalibaf, este fim de semana em Islamabad.

Então tudo desmoronou. Basicamente porque é impossível confiar na atual junta militar paquistanesa.

O Babuino da Barbária afirmou que o Irão lhe tinha oferecido oito petroleiros cheios de crude. Navegavam sob bandeira paquistanesa, e foi assim que atravessaram o estreito de Ormuz. Só então foram «oferecidos» aos americanos. Não é de admirar que o Irão tenha agora suspendido o trânsito de petróleo para o Paquistão através do estreito de Ormuz.

Que mais há de novo? O principal trunfo de Langley no Paquistão é o chefe do Exército, o general Asim Munir, membro do grupo que promoveu a mudança de regime que derrubou o ex-primeiro-ministro Imran Khan e o prendeu. Munir tem o Trump na marcação rápida.

Recentemente, tinham conversado em pormenor sobre o Irão, com Munir a instrumentalizar os canais secretos entre Teerão e a dupla Witkoff-Kushner, tudo isto envolto no subterfúgio das «negociações».

Munir é um anti-xiita ferrenho; quase um jihadista salafista na sua mente; e muito próximo da Arábia Saudita, que quer que Trump vá a fundo contra o Irão.

Perspetivas desoladoras para o CCG


Tudo isto aconteceu depois de os canais de inteligência russos terem transmitido informações verificadas ao IRGC, indicando que a guerra «rápida» do Sindicato de Epstein, centrada numa mudança de regime em Teerão, contava com o apoio total da Arábia Saudita, com financiamento de origem duvidosa proveniente da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Catar.

Acrescente-se a isso o facto de que a maioria dos mísseis lançados pelo Sindicato de Epstein tem apenas um alcance entre 200 e 300 milhas. Tradução: todos eles foram lançados contra o Irão a partir das monarquias petrolíferas do CCG.

E isso leva-nos ao que o futuro pode reservar, em termos extremamente desagradáveis, para o CCG — com a possível exceção do Catar e de Omã: ambos perceberam de que lado sopra o vento e já declararam ser essencialmente neutros, e não uma base para ataques contra o Irão.

O Kuwait é uma ficção. É possível que acabe por ser absorvido pela Arábia Saudita ou — por uma justiça poética histórica — pelo Iraque. Não há outras opções.

O Bahrein alberga uma enorme base militar norte-americana que foi destruída em tempo real. Se a maioria xiita der um passo em frente, com a ajuda do Irão, poderá acabar por ser absorvida pela esfera iraniana. A outra opção é uma anexação de facto por parte da Arábia Saudita.

Os Emirados Árabes Unidos, liderados pelo gangster MbZ, aliado aos sionistas, são um projeto ostentoso em vias de extinção. O modelo de Dubai já está morto: porto, esquemas financeiros, capital mundial da lavagem de dinheiro. Poderá acabar por ser absorvido por Omã, regressando à situação de 1971.

Os eruditos iraquianos, com o seu agudo sentido da História, já debatem alegremente que o Bahrein — que pertenceu ao Irão — acabará por regressar ao Irão; o Kuwait passará para o Iraque; os Emirados voltarão para Omã, um regresso às suas origens; e a Arábia Saudita poderá ficar também com o Catar.

A Arábia Saudita, claro, é o curinga do baralho. É bastante revelador que Riade não se encontre entre a tríade que tem tentado posicionar-se como mediadora entre os EUA e o Irão: Turquia, Egito e Paquistão.

Deixando de lado toda a propaganda exagerada, MbS encorajou de facto os EUA a atacarem o Irão antes da guerra, e poderá estar a considerar entrar na guerra agora: se isso acontecer, o Irão simplesmente destruirá toda a infraestrutura energética saudita, enquanto os houthis bloqueiam o Mar Vermelho para impedir qualquer possível exportação de energia saudita.

Tal como as coisas estão, existe uma clara possibilidade de que o CCG possa desempenhar um papel decisivo na implosão do sistema financeiro internacional, uma vez que terá de retirar fundos massivos do mercado norte-americano para poder apostar na sua precária sobrevivência.

A China observa tudo isto com grande expectativa. Pequim está plenamente consciente de que a queda de Assad cortou o nó terrestre absolutamente crucial que ligava as Novas Rotas da Seda/BRI ao Mediterrâneo Oriental.

A China apostava fortemente na linha ferroviária trilateral que liga o Irão, o Iraque e a Síria, o que seria excelente para contornar os estrangulamentos navais imperiais. No entanto, o controlo do Irão sobre o estreito de Ormuz deverá ser o início de um contra-ataque geoeconómico.

Afinal, o Irão acaba de institucionalizar o petroyuan como sistema de pagamento na passagem do estreito de Ormuz. Dado que 80 % das suas receitas petrolíferas já eram liquidadas em yuans através do CIPS, o sistema inclui agora os custos de envio, contornando simultaneamente o dólar americano, as sanções dos EUA e o SWIFT, e isto no gargalo mais transcendental da economia mundial.

Os Emirados Árabes Unidos estão a perder o comboio que realmente importa. O que está a acontecer agora é a reescrita do sistema operativo (SO) global. E o novo SO funciona com o petroyuan.

Tradução: Observatório dos Trabalhadores em Luta 

pubicado por Diario Octubre

 

 

Os comunistas do Líbano e o desarmamento do Hezbollah

Tradução
Pedro Silva

No Líbano da década de 1980, os comunistas eram frequentemente alvos das crescentes forças islâmicas. Contudo, hoje, o enfraquecimento do Hezbollah oferece poucas oportunidades para a política de esquerda. 

 

o leste e sul do Líbano, Israel continua sua campanha de bombardeios. Após os últimos ataques, nos quais vários membros do Hezbollah foram mortos, o grupo elevou o tom de sua retórica. Reafirmou sua promessa de revidar, apesar do grave enfraquecimento sofrido após a guerra de 2024.

Durante as últimas quatro décadas, o Hezbollah deteve um monopólio efetivo da resistência libanesa contra Israel. Mas não foi o primeiro a pegar em armas nem a apoiar a causa palestina em solo libanês. É o que me diz Hanna Gharib, secretário-geral do Partido Comunista Libanês (PCL), na sede do partido em Beirute. “Nós começamos a resistência”, salienta.

Mesmo antes da fundação de Israel em 1948, os comunistas libaneses lutaram lado a lado com os palestinos de esquerda contra as milícias sionistas de direita. Quando a guerra civil eclodiu no Líbano em 1975, os comunistas voltaram a entrar na luta. “Libertamos três quartos do território quando Israel invadiu em 1982. Começamos em Beirute e depois seguimos para o sul”, conta ele.

Mas os comunistas estavam travando uma batalha árdua. “Antes da queda da URSS, recebíamos nossas armas dos soviéticos”, continua Gharib.

Mas, com a queda da União Soviética, o fornecimento de armas foi interrompido.

Ao mesmo tempo, o Irã havia avançado suas posições no Líbano. Um grupo pouco organizado chamado “Amal Islâmico” realizou diversos massacres de membros do Partido Comunista Libanês (PCL). Em 1985, o Hezbollah foi oficialmente fundado. Em 1987, mais de quarenta comunistas foram mortos em dez dias.

“Primeiro, mataram nossos líderes e depois os intelectuais do partido. Nos atacaram porque éramos uma resistência nacional. Tínhamos membros de todas as religiões. Queriam o monopólio da resistência e impor suas ideias e valores a todos”, diz Gharib.

Resistência vacilante

Quando o genocídio em Gaza começou em 7 de outubro de 2023, o Hezbollah estava mais poderoso do que nunca. Desde 2006, quando uma guerra curta, mas intensa, com Israel se instaurou, o grupo havia se fortalecido. Com confiança e armamento pesado, o Hezbollah atacou Israel em solidariedade ao Hamas. Por quase um ano, uma guerra de baixa intensidade assolou a região.

Mas em meados de setembro de 2024, Israel detonou milhares de pagers pertencentes a membros do Hezbollah. Pouco mais de uma semana depois, o líder de longa data da organização, Hassan Nasrallah, foi assassinado com oitenta toneladas de bombas antibunker nos subúrbios do sul de Beirute. Bairros inteiros viraram crateras profundas.

“Mesmo antes da fundação de Israel em 1948, os comunistas libaneses lutaram lado a lado com os palestinos de esquerda contra as milícias sionistas de direita.”

Desde então, as exigências pelo desarmamento do Hezbollah se transformaram em um plano oficial, após pressão dos Estados Unidos e de Israel. Quando as autoridades em Beirute anunciaram a conclusão da primeira fase do desarmamento, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que ela estava “longe de ser suficiente”. Nesta fase, todas as armas e infraestrutura militar ao sul do rio Litani foram desmanteladas, o que foi aceito pelo Hezbollah. O governo libanês afirma que a próxima fase já começou, o que significa que as armas do Hezbollah ao norte do rio também serão confiscadas. A previsão é de que isso leve quatro meses, embora a relutância do grupo em cooperar ainda mais possa complicar o processo.

Para os comunistas libaneses, a situação é complicada. Hanna Gharib evita dar qualquer resposta clara sobre a posição do seu partido em relação às armas do Hezbollah, mesmo quando questionado repetidamente. Ainda no verão de 2025, o Partido Comunista Libanês (LCP) condenou as contínuas “agressões sionistas” contra o Líbano.

“Quando o Estado não faz nada contra a ocupação, para libertar a terra ocupada, o povo resiste. Mantemos um diálogo com o Hezbollah. Somos contra a ocupação e, nesse sentido, concordamos uns com os outros, mas isso não significa que estejamos com eles.” Ele acrescenta: “Historicamente, somos um partido de resistência, uma resistência nacional. Eles são uma resistência islâmica. Portanto, não podemos estar juntos. Quero que o Estado resista. Mas o problema é que ele não resiste.”

História da repressão

Na parede do escritório de Nabih Awada, está pendurado um mapa da Palestina histórica, incluindo o que hoje é conhecido como Israel. Seu cabelo está ralo, mas ele ainda tem o sorriso de um menino quando se lembra de como, aos treze anos, espionava pela porta do que ele chama de “quarto secreto” em sua casa de infância. Ele entrou direto no cômodo, onde sua mãe o havia proibido de entrar: “O quarto estava cheio de comunistas! Depois de ver aquele quarto, os combatentes que se escondiam lá dentro, tudo mudou para mim.”

Era meados da década de 1980 e a família fugia da Guerra Civil Libanesa e da ocupação israelense do sul do Líbano. Por várias gerações, sua família pertenceu à esquerda secular na região. A comunidade de Aitaroun, de onde eles vieram, ficou conhecida desde cedo como um bastião da resistência de esquerda. “Meu avô foi o primeiro comunista da aldeia na década de 1930”, explica ele.

Aos dezesseis anos, Awada realizou sua primeira missão para o PCL. A operação falhou. “Quando me prenderam, vieram em minha direção com uma luz forte. Pensei que fosse um pesadelo, que eu já estivesse morto.”

Ele foi levado para Israel e só foi libertado uma década depois. Até então, havia sido torturado, submetido a abusos sexuais e passado longos períodos em uma cela de isolamento na mais completa escuridão. Além disso, suas convicções ideológicas estavam mais aguçadas do que nunca, e ele havia conhecido combatentes palestinos que mais tarde seriam reconhecidos como os mentores do ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023.

Awada passou o maior tempo na prisão de Ashkelon, no norte de Israel. “Eu costumava jogar pingue-pongue com Yahya e basquete com Marwan. A relação entre os prisioneiros era muito forte, inclusive entre ateus e muçulmanos. Tínhamos o mesmo objetivo, então era fácil fazer amizade.”

“Libertado novamente em 1998, Awada logo percebeu que tudo havia mudado. O Partido Comunista havia parado de resistir, mas a ocupação continuava.”

Tanto Yahya Sinwar quanto Marwan Issa foram mortos por Israel durante a guerra em Gaza. O vídeo dos últimos momentos de Sinwar foi amplamente divulgado. Gravemente ferido, ele aparece sentado em uma poltrona em uma casa bombardeada, brandindo um bastão contra um drone israelense.

“Yahya era um cara muito sociável. Ele não era próximo apenas dos muçulmanos, mas de todos. Marwan gostava de debater e conversar. Ele era muito engraçado e sempre falava alto.”

Libertado novamente em 1998, Awada logo percebeu que tudo havia mudado. O Partido Comunista havia parado de resistir, mas a ocupação continuava. “Eu não entendia, porque quando seu país é ocupado, você tem que lutar. Eu vi que o Hezbollah estava fazendo isso. Isso foi o suficiente para eu dizer: ‘Ok, eu os apoio’.”

Resistência nacional

O Hezbollah foi fundado em meio à guerra civil no Líbano.

“O Irã começou a enviar combatentes para o Líbano; a partir de 1982, eles lutaram ao lado de soldados libaneses e palestinos. Foi uma boa oportunidade para o regime iraniano aumentar sua influência”, afirma o analista político Amine Kammourieh.


O Irã aumentou sua presença principalmente em áreas muçulmanas xiitas, que haviam sido as mais negligenciadas desde a independência do Líbano do domínio colonial francês em 1943. Foi também nessas regiões que o PCL obteve — e ainda obtém — seu maior apoio. O Hezbollah e os comunistas mantêm, desde o início, uma relação próxima e complexa.

“Podemos pensar nisso como pequenos grupos ou células. O Irã colocou indivíduos fanáticos e doutrinados em todos esses grupos. Essas são as pessoas que mais tarde fundaram o Hezbollah e se tornaram seus primeiros líderes”, diz Kammourieh.

Até o final da década de 1980, foram os comunistas que realizaram a maioria das operações contra Israel: “Eles podem não ter sido a resistência mais espetacular. Mas foram a base da resistência nacional e a mais eficaz”, acrescenta o analista.

O cientista político estadunidense Robert Pape argumentou que combatentes socialistas e comunistas foram responsáveis ​​por 75% dos ataques suicidas durante a Guerra Civil Libanesa. Além disso, os comunistas eram mais frequentemente feitos prisioneiros de guerra.

Energia regional

Ahmad Ismail foi libertado na mesma troca de prisioneiros que Awada, em 1998. Ele está sentado em frente a um fundo verde nos escritórios do Janoubia News, em Beirute. O jornal online socialista é um crítico ferrenho tanto de Israel quanto do Hezbollah.

Quando a guerra civil estava em pleno curso e Israel iniciou a ocupação do sul do Líbano, Ismail era um jovem. “Não recebíamos salário; não tínhamos carros nem qualquer luxo. O mais importante era defender nosso país.”

Ismail participou de diversas batalhas e realizou muitas operações antes de ser preso no final da década de 1980. Ele vivia com medo e presenciou a morte de muitos amigos. “Quando o Hezbollah foi fundado, tudo mudou.”

Para a Frente de Resistência Nacional Libanesa (LNRF), o objetivo era libertar o Líbano da ocupação e, em seguida, construir um Estado forte e laico. O Hezbollah era o oposto disso: sectário e religioso. Ismail acende um cigarro. A fumaça sobe lentamente em direção ao teto enquanto ele compara o Hezbollah a outros movimentos de resistência nacional.

“Para a Frente de Resistência Nacional Libanesa, o objetivo era libertar o Líbano da ocupação e, em seguida, construir um Estado forte e laico. O Hezbollah era o oposto disso: sectário e religioso.”

“Você realiza operações; captura alguém e coloca uma bomba em algum lugar. Mas você não precisa de um arsenal tão poderoso quanto o do Hezbollah. Eles são mais fortes que o exército libanês. E por que eles precisam de mísseis de longo alcance? Rapidamente entendemos que a agenda do Irã é dominar a região. Suas armas são usadas na Síria, no Iraque e no Iêmen.”

Segundo Ismail, o Hezbollah é apenas uma extensão do Irã. “Eles se tornaram um exército regional”, afirma, e continua: “O lema do Hezbollah é que eles são uma resistência contra Israel. Mas é apenas uma fachada.”

Paz sectária

Quando a guerra civil no Líbano terminou, muitos comunistas ainda estavam detidos em prisões israelenses. No escritório de Gharib, é como se o tempo tivesse parado. “Ainda temos nove membros presos em Israel”, diz ele. Novos membros continuam a se juntar ao grupo, mas os comunistas são afetados pelas mesmas tendências que o resto do Líbano: “Todos os jovens que podem estão deixando o país”, conta Gharib. Impasse político, crise econômica e guerras repetidas sem fim à vista contribuem para essa situação.

As tratativas que puseram fim à guerra civil, o Acordo de Taif, dividiram o poder político com base em seitas religiosas. Na prática, muitos senhores da guerra tornaram-se políticos. Os partidos laicos foram ainda mais marginalizados do que antes da guerra. “Os comunistas não sabiam para onde ir; não havia lugar para eles”, diz Kammourieh.

Assim como as outras milícias sectárias, o Hezbollah se tornou um partido político. Mas, diferentemente de outros grupos, recusou-se a depor as armas e continuou a luta contra Israel. Somente em 2000 Israel se retirou do Líbano.

A retirada foi descrita como um “momento culminante” para o Hezbollah. Isso apesar de, quando os israelenses partiram, as disputadas Fazendas de Shebaa permanecerem ocupadas. Em 2006, uma nova guerra eclodiu entre o Hezbollah e Israel. Ela terminou após trinta e quatro dias, com a Resolução 1701 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Tanto o Hezbollah quanto Israel se declararam vencedores. O Hezbollah se tornou uma das milícias mais poderosas do mundo.

Mas a saída de Israel do Líbano em 2000 também foi resultado de uma promessa eleitoral, e não apenas da resistência do Hezbollah. O primeiro-ministro israelense, Ehud Barak, havia prometido, antes de ser eleito, “trazer os rapazes de volta para casa”.

Ninguém mencionou os comunistas, os pioneiros da resistência. “Eles são os maiores perdedores”, afirma o analista Kammourieh.

Assim como os comunistas, o Hezbollah depende do apoio de aliados poderosos. A queda da ditadura de Bashar al-Assad na Síria foi um duro golpe, e os governantes iranianos, cada vez mais desesperados, lutam pela sobrevivência após os recentes acontecimentos. Assim como aconteceu com a queda da União Soviética, o ataque estadunidense ao Irã implicou grandes consequências no Líbano, segundo Kammourieh. “Temos que esperar para ver a extensão dos impactos. Mas é evidente que não há volta.”

Impasse

O líder do Hezbollah, Naim Qassem, afirmou recentemente que é um “grave pecado” o governo libanês concentrar-se no desarmamento do grupo enquanto os ataques israelenses continuam em ritmo acelerado. Israel alega que o Hezbollah continua a representar uma ameaça. Após a última guerra, em 2024, cinco colinas no sul do Líbano permanecem sob ocupação. Israel parece não ter pressa em abandonar esses locais “estratégicos”. A situação chegou a um impasse, mas, na realidade, nem o Hezbollah nem o governo libanês detêm o poder sobre o próximo passo.

Ismail e Awada lutaram pelo mesmo partido e foram libertados na mesma troca de prisioneiros. Mas, desde então, suas análises têm sido completamente diferentes. Ismail apoia um Hezbollah sem armas. “Isso reduzirá o risco de guerra”, afirma.

Awada pediu um uísque no Abo Elie, muitas vezes chamado de “bar comunista”. A bandeira do PCL está pendurada no teto, mas já faz muito tempo que ele deixou o partido. Awada gesticula para a bebida à sua frente: não concorda com o Hezbollah em tudo. Mas está convencido de que a resistência armada ainda é necessária.

O quarto em que ele entrou por acaso na adolescência tornou-se uma metáfora:

O “quarto secreto” ainda não foi fechado. A natureza de Israel exige que eu continue mantendo um “quarto secreto” aberto dentro de mim. Mesmo quando libertamos o sul do Líbano [em 2000], sabíamos que não havia terminado. Continuamos esperando pela próxima guerra. O “quarto secreto” mudou de lugar. Enquanto a natureza de Israel não mudar, precisaremos de quartos secretos de resistência.

Hanna Strid

é uma jornalista sueca radicada em Beirute, no Líbano. Ela escreve principalmente sobre o Oriente Médio e as políticas migratórias da Europa.

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