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terça-feira, 2 de junho de 2026

"Só a verdade é revolucionária", V. I. Lenine

 

A ressurreição de uma morte

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Por EDGAR MORIN*

Entre a memória resgatada e a dor de um crime mascarado, o triunfo tardio da verdade expõe como o fanatismo e a perseguição política aniquilaram dissidentes durante a Guerra Civil Espanhola

Ontem de manhã, durante o colóquio, passaram-me um bilhete informando que o senhor Solano viria me ver na sessão das 19h30. Pergunto: “Quem é?”, mas não sabem me responder. Esqueço o assunto.

Ao almoçar com meus amigos do Instituto Catalão de Estudos Mediterrâneos, estão conosco o delegado para assuntos exteriores da Generalitat da Catalunha e o vice-diretor do La Vanguardia. Eles mencionam um documentário da TV catalã, exibido há alguns dias, sobre Andrés Nin, baseado em documentos comprados da KGB[i] e procedentes do general Orlov[ii] – organizador e executor do assassinato, bem como autor das falsas provas da traição de Andrés Nin, o “hitlero-trotskista-franquista”. Prometem-me enviar a fita de vídeo. Uma intensa tristeza e uma não menos intensa alegria me invadem.

Lembro-me muito bem: eu tinha 16 anos em 1937 e lia a imprensa anti-stalinista de esquerda, Le Libertaire, SIA (Solidarité internationale antifasciste), Essais et Combats, La Flèche;[iii] e, embora a informação stalinista assegurava que o traidor Andrés Nin havia escapado do campo republicano para ir “a Salamanca ou a Berlim”, minhas leituras me convenciam de que Andrés Nin tinha sido liquidado pelo NKVD[iv] e pelos agentes do Komintern[v].

Penso (com tristeza): “eu sabia de tudo isso, incluindo a verdade sobre Joseph Stalin e os processos de Moscou, e cinco anos mais tarde, certamente em plena guerra, eu me tornei comunista”. Como contraponto, penso (com alegria): “este crime que parecia camuflado para sempre foi, por fim, irrefutavelmente desvelado; mais uma vez, a verdade triunfa enquanto ainda estou vivo”.

 

O reencontro com Wilebaldo Solano

Após o almoço, ibericamente terminado depois das 16 horas, sinto-me cansado, vou para o hotel e não compareço ao colóquio. Mas ao voltar do jantar, por volta da meia-noite, encontro uma nota de Wilebaldo Solano que me esclarece ser ele o ex-secretário-geral do POUM (Partido Obrero da Unificación Marxista)[vi] e me deixa seu telefone. No entanto, embora me trate por “tu” e me escreva calorosamente, não me recordo de onde e quando nos conhecemos (talvez com Gorkin[vii]?). Pela manhã, telefonei para ele; ele veio ao meu encontro no colóquio e vamos à cafeteria.

Então tudo se esclarece, porque ele me lembra que havíamos coincidido em Bruxelas, em 1956, num colóquio sobre a revolução húngara. Havíamos simpatizado muito e discutido por longo tempo. Ele é vivo, ardente e juvenil, embora deva ser mais velho que eu: participou da Guerra de Espanha, refugiou-se na França, foi detido em Montauban em 1941 e internado, para depois ser encarcerado na prisão central de Eysse, perto de Villeneuve-lès-Avignon, reservada aos presos políticos perigosos.

Lá, junto a alguns poumistas como ele, encontrou comunistas, bem organizados, e o trotskista Gérard Bloch.[viii] Como Gérard Bloch continuava defendendo Leon Trotsky e denunciando Joseph Stalin, a célula comunista na prisão decidiu estrangulá-lo. Um resistente detido, católico, indignado com esse plano, alertou os poumistas: “Não entendo nada de suas divergências políticas, mas eles querem matar um companheiro detido e isso eu não posso aceitar”.

Grave dilema: seria necessário alertar o diretor da prisão – e, assim, “colaborar” com o inimigo de classe – ou deixar que assassinassem Gérard Bloch? Wilebaldo Solano e seus amigos decidiram salvar Gérard Bloch. Mais tarde, os comunistas, cada vez mais desejosos de isolar o trotskista e os poumistas que criavam obstáculos com suas palavras a formação da “Frente Nacional”, conseguiram que o diretor da prisão os isolasse.

Libertado pelo maquis em 19 de julho de 1944, Wilebaldo Solano junta-se aos “gaullistas” do exército clandestino, em vez de unir-se aos comunistas que, beneficiados por seus serviços na enfermaria da prisão (ele havia estudado medicina), finalmente o haviam aceitado. Retoma sua atividade poumista e se posiciona na linha de frente de todas as causas anti-stalinistas.

 

A luta pela memória histórica

A revolução húngara fez com que eu o conhecesse, embora no ano anterior – antes do relatório Kruschov ao XX Congresso, mas depois do discurso de Mikoyan reabilitando de passagem dois velhos bolcheviques liquidados por Stalin – já tivéssemos estado juntos (com Breton, Cassou, Dechezelles, Duvignaud, Nadeau, Rivet, Rous, Laurent Schwartz e alguns outros [note-se a ausência da maior parte dos “grandes intelectuais de esquerda”])[ix] na assinatura de um telegrama dirigido ao presidente da URSS, Bulganin, no qual nós dizíamos “conscientes de expressar uma consciência universal democrática e socialista” e pedíamos “a revisão dos Processos de Moscou e a reabilitação de todos os velhos revolucionários condenados e desonrados nesses processos”. Também havíamos organizado um comício na Mutualité.

O POUM dividiu-se nos anos 1970. Uma parte ingressou no Partido Socialista, outros abandonaram a fórmula de partido para se agrupar em torno de uma “Fundação Andreu Nin”[x] em 1988, com atividades militantes não limitadas à recuperação da verdade histórica. Wilebaldo Solano reside em Barcelona. É escritor e jornalista. Na cafeteria, Wilebaldo me mostrou fotocópias de artigos publicados nestes dias na imprensa espanhola sobre o documentário intitulado Operação Nikolai (suponho que esse seja o nome dado pelo KGB ao documento sobre a liquidação de Andreu Nin).

 

Quem foi Andreu Nin?

Andrés – Andreu em catalão – Nin nasceu em 1892. Jovem militante revolucionário, defende a adesão da CNT[xi] (a grande central sindical) à Terceira Internacional; é delegado no primeiro congresso da Internacional Sindical Vermelha[xii] em 1921. Permanece nove anos em Moscou, onde chega a ser secretário-geral da Internacional Sindical. Ligado à oposição de esquerda[xiii] (Trotsky), abandona a URSS em 1930 após a eliminação desta; volta a Barcelona, onde vai vivendo graças à realização de traduções de clássicos russos.

Em setembro de 1935, funda o Partido Obrero da Unificación Marxista (POUM), uma organização pequena, mas combativa, situada entre os anarquistas e os stalinistas. O POUM, embora inspirando-se nas ideias de Leon Trotsky, possui uma organização mais flexível que a bolchevique e, mesmo polemizando com os libertários, mantém com eles relações corteses e inclusive cordiais.

Desde os primórdios da guerra civil, Andreu Nin se opõe aos métodos, à infiltração no aparato do Estado republicano e às mentiras do comunismo stalinista, o que debilita sua influência política, já que uma grande parte dos republicanos pensava que não se devia atacar os aliados soviéticos e respeitava a força organizadora dos comunistas.

De fato, a República espanhola, magnificada pela lenda que ocultou suas contradições e seus dramas, começou a se transformar na primeira democracia popular do mundo, frente ao sistema militar-clerical-fascistoide de Franco. O socialista Negrín, que viria a ser presidente do governo, foi então, sem dúvida, um “submarino” do partido comunista (um dia se poderá consultar os arquivos do KGB sobre esses infiltrados e submarinos aparentemente socialistas, democratas liberais ou católicos).

 

O desaparecimento e a “Operação Nikolai”

Andreu Nin “desapareceu” em 16 de junho de 1937. Foi sequestrado por policiais sob as ordens do NKVD e encarcerado na prisão de Alcalá de Henares, mas sem que sua entrada fosse registrada. Anunciou-se o seu desaparecimento e, depois, disse-se que ele havia se refugiado com Franco (em Salamanca) ou com Hitler (em Berlim).

Os arquivos do KGB revelaram uma carta de Orlov a seus chefes em Moscou, datada de 22 de maio, na qual se explica como seriam fabricadas as provas para demonstrar que Andreu Nin era um espião de Franco. As provas: um texto cifrado acompanhado de um mapa das defesas da Casa de Campo de Madrid, dirigido diretamente ao generalíssimo Franco e assinado com tinta invisível por “N”.

Essas “provas” serviram para provocar a detenção secreta de vNin. Hoje encontram-se nos Arquivos Nacionais de Madrid como “documentos históricos”. Os chefes militares soviéticos (o general Berzin e seu conselheiro Stacheski)[xiv] opuseram-se às liquidações do NKVD, pensando que se devia respeitar os partidos políticos que lutavam contra o franquismo, o que lhes custou, sem dúvida, serem eles mesmos liquidados após o seu retorno.

Ovide Gorchakov publicou em 1989, na revista soviética Nedelya, um artigo sobre as atividades dos serviços secretos soviéticos durante a Guerra de Espanha (que liquidaram poumistas, anarquistas, “anti-soviéticos e anti-comunistas” espanhóis e estrangeiros), no qual se considera que as atividades do NKVD durante esta guerra foram “mais perigosas para a república do que as da quinta coluna franquista”. O interrogatório de Andreu Nin não arrancou nenhuma confissão.

Então, Orlov decidiu colocar em marcha a “Operação Nikolai”: um cúmplice espanhol, cujo nome Orlov não revela, abriu a porta da prisão numa noite de meados de junho. Andreu Nin foi conduzido a um chalé próximo a Alcalá de Henares, pertencente ao comandante-em-chefe da aviação republicana, Ignacio Hidalgo de Cisneros, onde Nin foi torturado sem proferir nenhuma confissão. Dois ou três dias depois, Nin foi levado a um lugar próximo, onde foi assassinado e sepultado.

A carta de Orlov a seus superiores, de 24 de julho de 1937, relata esses fatos e indica quem foram os assassinos e testemunhas cúmplices: o próprio Orlov, José Escoy[xv] – brasileiro, agente do NKVD –, Ernő Gerő[xvi] – que se tornaria ilustre como torturador e assassino na Hungria após a prisão de Rajk, e mais tarde apelando às tropas soviéticas para reprimir a revolução húngara – e três espanhóis cujos nomes foram rasurados.

Os membros do KGB que entregaram os documentos dizem que suprimiram esses nomes para evitar possíveis ações judiciais dos descendentes dessas pessoas. Mas, considerando que esses documentos foram vendidos a preço de ouro à televisão catalã (que não declarou quanto lhe custaram), Solano e outras pessoas não excluem a hipótese de que, advertidos de possíveis revelações há um ano, delegados do partido comunista espanhol tenham comprado dos agentes atuais do KGB a supressão desses nomes (talvez outrora membros eminentes do partido), utilizando o tesouro de guerra clandestino de que dispõe todo partido comunista, obtido graças aos subsídios procedentes da URSS, de forma que o “ouro de Moscou” teria retornado à sua fonte.

 

O triunfo da verdade

A maquinação do NKVD foi desenmascarada desde 1937-38, embora não se conhecessem os detalhes de como Andreu Nin fora retirado da prisão de Alcalá, nem o nome e a localização do lugar onde permaneceu sequestrado, tampouco o nome dos executores. Desde o princípio, alguns “católicos” membros do aparato judicial e policial republicano, que haviam recebido relatórios confidenciais, comunicaram-nos aos membros do POUM. Diversos testemunhos permitiram esclarecer o essencial do assunto. Foi muito grande a comoção que tudo isso provocou nos meios antifascistas não stalinistas. Como já disse, lembro-me muito bem de ter lido numerosos artigos que não somente revelavam o absurdo da calúnia, mas também indicavam a origem do assassinato.

Em 1939, a revista Spartakus,[xvii] editada em Paris, preparou um número especial sobre o assassinato de Andreu Nin, no qual se reconstruía tudo o que acontecera e se precisava o papel do NKVD – que, evidentemente, seguia ordens de Moscou. Esse texto não foi publicado em setembro de 1939, pois a guerra estourou naquele momento. Sua publicação foi adiada. Em junho de 1940, os nazistas ocuparam Paris. A Gestapo visitou a gráfica antifascista, descobriu o texto, destruiu as matrizes e as provas. Apenas uma escapou à sua atenção. Sobreviveu e está em poder de Wilebaldo Solano.

Wilebaldo Solano salvaguardou a memória de Andreu Nin. Após o relatório Khrushchev[xviii], tentou obter a reabilitação. A perestroika e a criação em Moscou da associação “Memorial”, dedicada às vítimas de Stalin, estimularam suas energias. Criou uma Fundação Andreu Nin para reabilitar sua memória. Obteve o apoio do partido socialista no poder e o da Generalitat da Catalunha para a sua obra.

Finalmente, quando soube que o KGB vendia documentos de seus arquivos, incitou a televisão catalã a comprar a qualquer preço os documentos secretos sobre o assassinato de Andreu Nin. A equipe dessa televisão pôde filmar todas as peças e preparou um documento de cerca de 30 horas sobre a vida e a morte de Nin, com mais de cinquenta depoimentos, salvo o de Santiago Carrillo que, por outro lado, havia lamentado há alguns anos o que considerava um “erro”.

Em 5 de novembro de 1992, a TV3 catalã exibiu o documentário Operação Nikolai.[xix] A verdade triunfou depois de 55 anos. É muito confortante que tenha triunfado; é desolador que tenha sido necessário esperar 55 anos. Resulta inquietante pensar que o documento poderia ter sido destruído.

 

Reflexões finais

Wilebaldo Solano cita um trecho do “testamento” de Vladímir Lênin (um pouco modificado, creio): “não somos bastante civilizados para passar ao socialismo, e o socialismo é impossível sem a democracia”. Mas Lênin também não foi bastante civilizado para usar métodos democráticos. Acreditou na repressão, na aniquilação dos adversários, no terror.

Todo esse delírio assassino estava ligado ao fanatismo, e o fanatismo estava ligado a uma fé ardente na religião da salvação terrestre – fé-certeza, porque as leis do marxismo haviam provado cientificamente que a revolução liquidaria a exploração do homem pelo homem. Não esqueçamos, além disso, que a Revolução de Outubro não se realizou para a Rússia, mas para desencadear a revolução na Alemanha, na França, na Inglaterra e, encadeando-se uma após a outra, a revolução mundial.

Qual teria sido o produto da revolução na Alemanha, na França e na Inglaterra? Outra coisa, mas não sabemos qual teria se realizado entre todas as possíveis. O que é seguro é que o triunfo do “comunismo em um só país” foi o começo de uma catástrofe mundial.

Edgar Morin (1921-2026) foi antropólogo, sociólogo e filósofo. Autor, entre outros livros, de Lições de um século de vida (Bertand Brasil).

Publicado originalmente no portal da Fundação Andreu Nin [http://fundanin.net/2019/11/19/andreu-nin-resurreccion-de-una-muerte/]

Tradução: Alexandre Linares.

Notas

[i] KGB (Comitê de Segurança do Estado) foi a principal organização de polícia política secreta, inteligência e contra-inteligência da União Soviética, operacional de 1954 a 1991 (sucessora direta das estruturas do NKVD).

[ii] Alexander Orlov  (1895-1973), cujo nome de nascimento  Leiba  Feldbin e no exílio nos EUA adotou o nome de Igor Konstantinovich Berg foi o comandante da polícia secreta soviética e espião residente da NKVD na Segunda República Espanhola . Em 1938, Orlov recusou-se a retornar à União Soviética por medo dos expurgos de Stalin, em vez disso, fugiu com sua família para os EUA. Ele é mais conhecido por transportar secretamente todas as reservas de ouro espanholas para a URSS em troca de ajuda militar para a República Espanhola. É autor do livro “A História Secreta dos Crimes de Stalin”.

[iii] Le Libertaire foi um tradicional jornal anarquista francês, fundado originalmente no século XIX e reativado como órgão da União Anarquista na década de 1930. SIA (Solidarité internationale antifasciste) era uma organização e um periódico com o mesmo nome de solidariedade internacional de orientação anarco-sindicalista, criado para apoiar a Revolução Espanhola e os refugiados. Essais et Combats foi uma publicação da juventude socialista e revolucionária francesa de tendência anti-stalinista nos anos 1930. La Flèche era um semanário político francês dirigido por Gaston Bergery, de tendência esquerdista independente e antifascista, crítico da influência soviética stalinista.

[iv] NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos) foi a polícia política responsável pela perseguição de todos os dissidentes na URSS, Ela precedeu a KGB. Sob o comando de Stalin, foi o principal executor dos expurgos políticos e das operações secretas internacionais, como a eliminação de opositores na Guerra Civil Espanhola como Audrey Nin e o militar brasileiro Alberto Bomílcar Besouchet.

[v] Komintern é uma das formas de nomear a Internacional Comunista ou III Internacional, naquele momento já stalinizada.  Originalmente fundada por Lênin, Trotsky, Zinoviev e outros revolucionários em 1919 para unificar os partidos comunistas do mundo sob a liderança de Moscou. Durante o período stalinista, tornou-se um instrumento de controle, perseguição e expurgo de dissidências.

[vi] POUM (Partido Operário de Unificação Marxista): Partido marxista espanhol formado em 1935 pela fusão da Esquerda Comunista, então seção espanhola da Oposição de Esquerda Internacional liderado por Andreu Nin e pelo Bloco Operário e Camponês de Joaquín Maurín que era partidário das posições de Nikolai Bukharin. O POUM foi perseguido e colocado na ilegalidade pela Frente Popular sob ordens de Moscou.

[vii]Julián Gorkin era o pseudônimo de Julián Gómez García, escritor e um dos principais fundadores e dirigentes do POUM. Sobreviveu à perseguição estalinista e exilou-se na França e no México.

[viii] Gérad Bloch: Matemático e militante trotskista francês, membro do Partido Comunista Internacionalista (PCI) e esteve ao lado de Pierre Lambert na luta pela reconstrução da 4ª Internacional fundada por Leon Trotsky. Participou da Revolução Espanhola junto com o POUM e foi ativo na resistência francesa dentro das prisões. No Brasil há trabalhos seus traduzidos como “Marxismo e Anarquismo” (editora Kairós) e “Ciência e Luta de Classes”, parte da obra “Ciência e Revolução Social” (editora Nova Palavra).

[ix] Breton, Cassou, Dechezelles, Duvignaud, Nadeau, Rivet, Rous, Laurent Schwartz era um grupo de destacados intelectuais, cientistas e escritores franceses que, nas décadas de 1940 e 1950, mantiveram uma postura de esquerda independente e anti-stalinista militante. Entre eles destacam-se André Breton (líder do surrealismo), Jean Cassou (escritor e herói da Resistência), Jean Duvignaud (sociólogo), Maurice Nadeau (crítico literário e editor das obras de Sade), Paul Rivet (antropólogo), Jean Rous (jornalista político) e Laurent Schwartz (renomado matemático).

[x] “Fundação Andreu Nin” é uma Instituição cultural e política criada em 1988 por sobreviventes do POUM e familiares para preservar a memória histórica de Nin, recuperar a verdade sobre o seu assassinato e reabilitar a história da esquerda revolucionária espanhola não stalinista (https://fundanin.net).

[xi] A Confederação Nacional do Trabalho (CNT) era a principal central sindical espanhola de orientação anarcossindicalista. Foi uma das maiores forças revolucionárias da Espanha durante a Guerra Civil.

[xii] A Profintern, também conhecida como Internacional Sindical Vermelha era uma organização sindical internacional criada pela III Internacional para coordenar a ação sindical comunista global, rivalizando com os sindicatos social-democratas.

[xiii] Agrupamento político por Leon Trotsky originalmente no interior do Partido Comunista da União Soviética na década de 1920 e posteriormente em escala internacional para se opor à burocratização do regime e à teoria do “socialismo em um só país” defendido Stalin, defendendo a democracia operária na Internacional Comunista e seus partidos e a teoria internacionalista da “revolução permanente”.

[xiv] General Jan Berzin foi chefe da inteligência militar soviética na Espanha e Arthur Stashevsky  foi conselheiro econômico da URSS em Barcelona. Ambos priorizavam a eficácia militar contra Franco e se opunham aos expurgos políticos promovidos pelo NKVD. Foram chamados de volta a Moscou e executados por Stalin em 1938.

[xv] José Escoy (ou Escoi) foi o codinome de um agente do NKVD de origem brasileira, também chamado de Yusik, cujo nome real costuma ser associado a José Rodrigues Escofi ou variantes. Foi encarregado de forjar cartas falsas e mapas com tinta invisível que tentaram ligar o POUM à espionagem franquista.

[xvi] Ernő Gerő foi um agente húngaro do Komintern e do NKVD atuante na Espanha, onde era conhecido como “Pedro”. Anos mais tarde, tornou-se dirigente do Partido Comunista Húngaro e foi um dos principais responsáveis pela violenta repressão ao levante antiburocrático e democrático de 1956 na Hungria que ficou conhecida como “Revolução dos Conselhos”.

[xvii] A revista francesa Spartakus era uma publicação de tendência comunista de conselhos e anti-stalinista, ativa em Paris no final da década de 1930.

[xviii] Relatório Khrushchev foi o discurso proferido por Nikita Khrushchev, em fevereiro de 1956 durante o XX Congresso do Partido Comunista da URSS. O documento denunciou oficialmente os crimes de Stalin, o culto à personalidade e os expurgos, dando início ao processo de “desestalinização”.

[xix] “Operação Nikolai” é título do documentário investigativo exibido em 1992 pela emissora pública de televisão catalã (TV3). A produção teve acesso inédito aos arquivos recém-abertos do KGB em Moscou, provando cabalmente a autoria soviética no assassinato de Andreu Nin e localizando os documentos da farsa montada contra ele. Pode ser assistindo no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=nyvHKR6yjgo

Um canal seguido por milhões de franceses

 

EDGAR MORIN : a COMPLEXIDADE está no cerne da Dialética

 EDGAR MORIN

(RTP) Morreu aos 104 anos o reconhecido filósofo por nos ensinar que nada é simples. Edgar Morin, o pai do pensamento complexo e uma das mentes brilhantes do último século, foi resistente na juventude e humanista até ao último fôlego e deixa um manual de sobrevivência para o mundo moderno.

"Até aos seus últimos dias, Edgar Morin manteve-se atento ao mundo, aos outros e aos grandes desafios humanos que alimentaram o seu pensamento", referiu a mulher, Sabah Abouessalam Morin, num comunicado citado pela agência de notícias francesa AFP.
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O sociólogo francês deixou uma obra diversificada e reconhecida mundialmente, com reflexões originais sobre a humanidade baseadas em dados científicos. O seu trabalho procurou sempre a reflexão sobre o ser humano a partir de dados científicos, promovendo a epistemologia como a verdadeira ciência global da humanidade.

Apresentando-se como um "caçador de conhecimento", recusou sempre a fragmentação do saber, em favor de uma visão cultural e científica multidisciplinar, a fim de enfrentar aquilo que classificava como a "complexidade do real".

Era considerado por muitos dos seus pares como um "pensador planetário", que procurou, através do conceito de "pensamento complexo", conectar o que na "perceção habitual não está ligado".Edgar Morin - Wikipedia



Com assumida inclinação política à esquerda, manteve-se como uma figura proeminente e influente no debate intelectual, com reflexões sobre as mudanças nos estilos de vida da nossa era, impulsionadas pela globalização acelerada.

Edgar Morin considerava que quanto mais graves eram os riscos de crise, maiores eram as hipóteses de encontrar soluções e apresentava-se como um "optipessimista", explicando: "tenho esperança num contexto de desesperança".

Nascido filho único a 8 de julho de 1921 em Paris, numa família judia originária de Salónica, na Grécia, Edgar Nahoum aderiu em 1941 ao Partido Comunista e integrou a Resistência sob o pseudónimo de Morin, apelido que passou a usar como autor.

Entrou em rutura com o comunismo em 1959, tendo escrito a obra "Autocrítica", muito dura para o partido francês, as intervenções soviéticas e os erros políticos.

Precursor da "sociologia do presente", interessou-se por fenómenos pouco estudados pela sociologia como o cinema, novas tecnologias ou desporto.

No quinto volume da sua obra-prima, "O Método", escreve: "Quanto mais conhecemos o ser humano, menos o compreendemos. As dissociações entre disciplinas fragmentam-no, esvaziam-no de vida, de carne, de complexidade e certas ciências consideradas humanas esvaziam mesmo a noção de homem".

Em declarações anteriores à Lusa, numa das suas visitas a Portugal, Morin defendeu a riqueza da multiculturalidade, incluindo de uma lusofonia variada e extensa.

Portugal é "um país extraordinário, que é atlântico e mediterrâneo ao mesmo tempo, ibérico e com ligação ao resto do planeta, com uma vitalidade e convivialidade e cordialidade extraordinária", afirmou.

Causa Palestiniana
Detentor de doutoramentos honoris causa de 38 universidades estrangeiras, escreveu cerca de quarenta livros, muitos dos quais foram traduzidos. Em 2024, ainda publicava quatro livros e continuava a contribuir com artigos de opinião para jornais.

Entre as obras próprias destacam-se uma biografia familiar, "Vidal e Sua Família" (1989, usando o primeiro nome do seu pai), e um texto comovente sobre sua esposa, falecida em 2008, "Edwige, a Inseparável".

Reconhecendo desde cedo a importância das questões ambientais, publicou "Terra-Pátria" em 1992 e, em 2007, "Primeiro Ano da Era Ecológica", um diálogo com Nicolas Hulot.

Como coautor de um artigo de 2002 que afirmava que "os judeus, vítimas de uma ordem implacável, impõem a sua ordem implacável aos palestinianos", foi processado por antissemitismo por duas associações. Ganhou o caso no Tribunal de Cassação, a mais alta corte da França.

Em 2012, debateu com o futuro presidente François Hollande sobre "caminhos para superar a crise da civilização", debate que mais tarde foi publicado em livro.

"O progresso do conhecimento levou a uma regressão do pensamento", escreveu no Le Monde em 2024, conclamando à "resistência da mente".

"Pai de duas filhas adorava fazer compras no centro de Paris, com o boné de marinheiro bem ajustado à cabeça e um sorriso nos lábios, antes de se mudar, aos 97 anos, para Montpellier (sul da França), feliz por “sair ao sol” e “conversar com os vizinhos” (Le Monde, 2019). (RTP. Inês Moreira Santos, 30/5)

Richard Levins : a Dialética materialista ao serviço da ciência

 JACOBINA

Vivendo a tese onze

O saudoso “biólogo dialético” Richard Levins completaria hoje 91 anos. Em seu aniversário, publicamos o ensaio autobiográfico em que narra a unidade de sua vida como cientista na academia e militante socialista – de trabalhador rural em Porto Rico a assessor para a transição ecológica em Cuba.

Richard Levins nasceu em uma comunidade de classe trabalhadora do Brooklyn, em uma família de judeus vindos da Ucrânia, em 1930. Um autêntico “fralda vermelha”, se orgulhava de ser a “quarta geração” de uma árvore genealógica convictamente socialista. Foi trabalhador rural em Porto Rico, ecólogo, biomatemático, geneticista de populações, filósofo da ciência, e terminou sua vida acadêmica em uma cátedra de Saúde Coletiva na Universidade de Harvard. Militou no movimento de independência porto riquenha, ajudou a fundar o movimento “Ciência para o Povo” nos Estados Unidos (em oposição a guerra do Vietnã), e assessorou a transição ecológica em Cuba. Foi um pioneiro tanto na modelagem de dinâmicas evolutivas em ambientes ecologicamente variáveis quanto no desenvolvimento da agroecologia.

Ao investigar os determinantes sociais na crise da saúde pública, provocativamente questionou se o próprio capitalismo não era uma doença. Com o geneticista, e amigo pessoal, Richard Lewontin, publicou duas coletâneas de ensaios sobre a utilidade do pensamento marxista para as ciências biológicas: o clássico The Dialectical Biologist (O Biólogo Dialético), de 1985, e, mais recentemente Biology Under the Influence: Dialectical essays on ecology, agriculture, and health (Biologia sob influência: ensaios dialéticos sobre ecologia, agricultura e saúde), que será publicado no Brasil esse ano pela editora Expressão Popular.

Levins foi um cientista de primeira linha, respeitado pelos pares e com contribuições marcantes nos vários campos de pesquisa em que atuou. Mas foi, e assim mesmo se via, acima de tudo um camarada: um internacionalista solidário com as reivindicações por liberdade, igualdade e justiça de onde quer que viessem. Faria hoje 91 anos, se estivesse vivo. Faleceu há 5 anos, orgulhosamente vermelho e comprometido com as lutas dos oprimidos e explorados até o final da vida.

Em homenagem, publicamos pela primeira vez em português seu ensaio autobiográfico sobre como levou, em profunda simbiose, uma vida de cientista acadêmico e militante político radical, fiel à injunção de Marx (com a qual conclui suas célebres 11 “Teses sobre Feuerbach”) de não apenas buscar entender o mundo, mas também se engajar em sua transformação.


 “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo
– Karl Marx

Quando menino, sempre imaginei que, quando crescesse, seria tanto um cientista quanto um “vermelho” [comunista]. Ao invés de me deparar com o problema de como conciliar a militância com a academia, minha dificuldade foi para separá-las.

Antes mesmo de me alfabetizar, meu avô lia para mim “Ciência e História para Meninas e Meninos”, de Bad Bishop Brown’s. Meu avô acreditava que todo trabalhador socialista deveria estar familiarizado, no mínimo, com cosmologia, evolução e história. Nunca separei história, na qual éramos participantes ativos, de ciência – da descoberta de como as coisas são. Minha família já tinha rompido com a religião organizada havia cinco gerações, mas meu pai me fazia estudar a Bíblia todas as sextas: porque era parte importante da cultura que nos rodeava (e importante para muitos), uma narrativa fascinante de como as ideias evoluem em condições mutáveis, e porque todo ateu deveria conhecê-la tão bem quanto os fiéis.

Em meu primeiro dia de escola, minha avó me estimulou a aprender tudo que pudessem me ensinar – mas não acreditar em tudo. Ela era muito consciente da “ciência racial” da Alemanha dos anos 1930 e das justificativas eugenistas e da supremacia masculina, que eram populares em nosso próprio país. Sua atitude vinha de seu conhecimento dos usos da ciência a serviço do poder e do privilégio, e da desconfiança genérica dos trabalhadores em relação à classe dominante. Seu conselho foi formativo para a minha postura na vida acadêmica: conscientemente na, mas não da, universidade

Cresci em um bairro de esquerda do Brooklyn, onde as escolas fechavam no Primeiro de Maio, e só fui conhecer pela primeira vez um eleitor do partido Republicano aos doze anos. Problemas de ciência, política e cultura eram debatidos em grupos no calçadão de Brighton Beach, e temperavam nossas conversas na hora da refeição. O compromisso político era uma certeza: como atuar perante esse compromisso era tema de acalorados debates.

Quando adolescente, quando comecei a me interessar por genética pela minha fascinação com o trabalho do cientista soviético Lysenko. No fim das contas, ele estava totalmente equivocado, especialmente por tentar chegar a conclusões biológicas a partir de princípios filosóficos. Entretanto, sua crítica à genética de seu tempo me conduziu à obra de Waddington, Schmalhausen e outros que ao invés de descartá-lo imediatamente, à moda Guerra Fria, responderam ao seu desafio desenvolvendo uma visão mais profunda da interação organismo-ambiente.

Minha esposa, Rosario Morales, me apresentou a Porto Rico em 1951 e os onze anos que passei ali deram uma perspectiva latino-americanista à minha compreensão de política. As vitórias da esquerda na América do Sul foram uma fonte de otimismo mesmo em tempos sombrios. A vigilância do FBI em Porto Rico me bloqueou dos empregos que procurei, então para ganhar a vida acabei como trabalhador rural em uma fazenda nas montanhas no lado ocidental da ilha.

Quando era estudante da Cornell University School of Agriculture, me ensinaram que o principal problema da agricultura nos Estados Unidos era o descarte dos excedentes das fazendas. Mas como um camponês em uma região pobre de Porto Rico, compreendi o significado da agricultura para a vida das pessoas. Essa experiência me apresentou às realidades da pobreza, e como ela debilita a saúde, reduz a expectativa de vida, limita oportunidades e brutaliza o desenvolvimento pessoal. Também conheci as formas específicas que o sexismo assume nas áreas rurais pobres. Combinei o trabalho de organização sindical nas plantações de café com o estudo. Rosario e eu escrevemos o programa agrário do Partido Comunista de Porto Rico, no qual aliamos análises econômicas e sociais amadorísticas com as primeiras intuições sobre os métodos de produção agroecológica, de diversificação, de conservação ambiental e de organização em cooperativas.

Fui a Cuba pela primeira vez em 1964, para ajudar no desenvolvimento das pesquisas de genética de populações na ilha e ver de perto a Revolução Cubana. Ao longo dos anos, me envolvi na contínua luta cubana pela agricultura ecológica e por uma via ecológica de desenvolvimento econômico que fosse justo, igualitário e sustentável. O pensamento progressista, tão forte na tradição socialista, assumia que os países subdesenvolvidos deveriam alcançar o nível de desenvolvimento dos países em uma única trajetória linear de modernização. Esse pensamento desprezava os críticos da trajetória high-tech do agronegócio industrial taxando-os de “idealistas”, sentimentalistas urbanos nostálgicos de uma idade de ouro rural bucólica que nunca existiu. Mas havia também uma visão alternativa: a de que cada sociedade cria suas próprias formas de se relacionar com a natureza, com seu padrão particular de uso da terra, com sua tecnologia adequada e seus próprios critérios de eficiência. Essa discussão se intensificou em Cuba nos anos 1970, de modo que ao chegar nos anos 1980 o modelo ecológico já havia basicamente ganhado o debate, ainda que sua implementação fosse demorar mais um tempo. O Período Especial, o momento de crise econômica após o colapso da União Soviética, quando materiais de alta tecnologia se tornaram indisponíveis, permitiu com que os ambientalistas por convicção recrutassem os ambientalistas por necessidade. Isso só foi possível porque os ambientalistas por convicção haviam preparado o caminho.

Meu primeiro contato com o materialismo histórico se deu na adolescência, por meio dos trabalhos dos cientistas marxistas britânicos J. B. S. Haldane, J. D. Bernal, Joseph Needham e outros, que depois me levaram a Marx e Engels. Fui imediatamente fascinado pelo materialismo histórico, tanto intelectual quanto esteticamente. Uma visão dialética da natureza e da sociedade tem sido um tema importante da minha pesquisa desde então. Encantei-me com a ênfase dialética na totalidade, na conexão e no contexto, na mudança, na historicidade, na contradição, na irregularidade, na assimetria, e na multiplicidade de níveis dos fenômenos – um revigorante contraponto ao reducionismo dominante tanto à época quanto agora.

Um exemplo: quando Rosario me sugeriu que eu observasse a mosca drosófila na natureza – e não somente em frascos de laboratório -, comecei a trabalhar com a drosófila no bairro onde morávamos em Porto Rico. Minha pergunta era a seguinte: como as espécies de drosófila suportam os gradientes temporais e espaciais em seu meio? Comecei a examinar as muitas maneiras em que diferentes espécies de Drosophila reagiam a desafios ambientais semelhantes. Em um único dia, podia reunir Drosophila nos desertos de Guánica e na floresta tropical de nossa fazenda no topo da serra. Algumas espécies se adaptam fisiologicamente a altas temperaturas em dois ou três dias, com relativamente poucas diferenças genéticas na tolerância ao calor ao longo de um gradiente de 3.000 pés. Outras tinham subpopulações genéticas únicas para cada diferente hábitat. Outras se adaptam a só uma parte dos ambientes, onde permanecem. Uma das espécies do deserto tinha tanta tolerância ao calor que qualquer drosófila da floresta tropical, mas era muito melhor em buscar microhabitats frescos e úmidos e esconder-se neles depois das 8 da manhã. Essas descobertas levaram-me a descrever os conceitos da seleção por cogradiente, na qual o impacto direto do ambiente aumenta as diferenças genéticas entre as populações, e da seleção por contragradiente, em que as diferenças genéticas compensam o impacto direto do ambiente. Uma vez que em meu recorte a alta temperatura estava ligada a condições secas, a seleção natural atuava aumentando o tamanho das moscas em Guánica, enquanto o efeito da temperatura em seu desenvolvimento as deixava menores. A conclusão é que as moscas do deserto do nível do mar e as da floresta tropical tinham mais ou menos o mesmo tamanho em seus próprios habitats, mas as moscas de Guánica eram maiores quando cresciam à mesma temperatura que as do bosque tropical.

Neste trabalho, questionei o viés reducionista dominante na biologia ressaltando que os fenômenos ocorrem em diferentes níveis, cada um com suas próprias leis, mas conectados. Meu enfoque foi dialético: a interação nas adaptações nos níveis fisiológico, comportamental e genético. Minha preferência por processo, variabilidade e mudança orientou minha tese.

O problema era como as espécies podem se adaptar ao ambiente quando o ambiente não é sempre o mesmo. Quando comecei a trabalhar na tese, fiquei intrigado com a fácil suposição de que, frente a demandas conflitantes, por exemplo quando o ambiente favorece um tamanho pequeno em parte do tempo e um tamanho grande o resto do tempo, um organismo teria que adotar um estado intermediário como uma forma de compromisso. No entanto, esta é uma aplicação acrítica do lugar-comum liberal de que quando há visões opostas a verdade deve ficar em algum lugar no meio do caminho. Na minha pesquisa, o estudo dos padrões de adaptação foi uma tentativa de analisar quando uma posição intermediária é realmente a ideal e quando é a pior escolha possível. Em resumo, o que observei foi que quando as alternativas não são muito diferentes, uma posição intermediária é seguramente a ideal, mas quando elas são muito diferentes em comparação com a amplitude de tolerância da espécie, então é preferível um extremo ou, em alguns casos, uma mistura de extremos.

Trabalhos sobre seleção natural em genética de populações costumam quase sempre supor um ambiente constante, mas o que me interessava era sua mutabilidade. Propus que a “variação ambiental” deve ser uma resposta a muitas questões de ecologia evolutiva e que os organismos se adaptam não só a características ambientais específicas, tais como alta temperatura ou alcalinidade do solo, mas também ao padrão do ambiente: sua variabilidade, sua incerteza, suas discrepâncias, as correlações entre diferentes aspectos do ambiente. Além disso, esses padrões do meio não são simplesmente dados, exteriores ao organismo: os organismos selecionam, transformam e definem seus próprios ambientes.

Independentemente do objeto de uma investigação (ecologia evolutiva, agricultura ou, mais recentemente, saúde pública), meu principal interesse sempre foi o de compreender a dinâmica de sistemas complexos. Além disso, meu compromisso político exige que eu questione a relevância do meu trabalho. Em um poema Brecht diz: “Realmente vivemos em uma época terrível… quando falar de árvores é quase um crime, porque é uma maneira de se calar sobre a injustiça”. Brecht, evidentemente, estava errado em relação às árvores: hoje em dia quando falamos de árvores não estamos ignorando a injustiça. Mas em uma coisa ele estava mesmo certo: a pesquisa acadêmica que é indiferente ao sofrimento humano é imoral.


Pobreza e opressão roubam anos de vida e saúde, encurtam os horizontes e podam talentos potenciais antes que eles possam florescer. Meu compromisso com as lutas dos pobres e oprimidos e meu interesse pela variabilidade se combinaram para focar minha atenção às vulnerabilidades sociais e fisiológicas das pessoas.

Tenho estudado a capacidade do corpo de se recuperar depois de sofrer de desnutrição, contaminação, insegurança ou acesso inadequado a serviços de saúde. O estresse continuado debilita os mecanismos estabilizadores dos corpos das populações oprimidas tornando-as mais vulneráveis a qualquer coisa, mesmo a pequenas diferenças em seus ambientes. Isto se mostra na maior variabilidade em pressão arterial, índice de massa corporal e expectativa de vida, quando se compara com resultados mais uniformes em populações privilegiadas.

Ao examinar os efeitos da pobreza, não basta analisar a predominância de doenças específicas em diferentes populações. Ao passo que certos patógenos ou contaminantes podem desencadear doenças específicas, as condições sociais criam uma vulnerabilidade mais difusa, que conectam doenças sem relação clínica. Por exemplo: desnutrição, infecção ou poluição podem romper as barreiras de proteção do intestino. Uma vez rompidas, por qualquer dessas razões, o intestino se torna um locus de invasão de contaminantes, micróbios ou alergênicos. Portanto, os problemas de nutrição, as doenças infecciosas, o estresse e substâncias tóxicas causam uma grande variedade de doenças aparentemente sem relação.

A noção dominante desde os anos 60 era que as doenças infecciosas desapareceriam com o desenvolvimento econômico. Na década de 90, contribuí para a criação em Harvard do Grupo para Doenças Novas e Reincidentes, que rejeitava essa ideia. Nosso argumento era em grande medida ecológico: a rápida adaptação de vetores a habitats variáveis, em transformação – de desmatamento, projetos de irrigação e deslocamento de populações, a guerras e fome. Também nos concentramos na igualmente rápida adaptação dos patógenos a pesticidas e antibióticos. Mas também criticamos o isolamento físico, institucional e intelectual da pesquisa médica em relação à patologia da flora e aos estudos veterinários, que poderiam ter mostrado mais rápido o padrão amplo de recrudescimento não só da malária, cólera e AIDS, mas também da febre suína africana, da leucemia felina, do vírus da “tristeza dos citros” e do vírus do mosaico do fumo. Devemos esperar por mudanças epidemiológicas com o crescimento das disparidades econômicas e com as mudanças no uso da terra, no desenvolvimento econômico, no assentamento humano e na demografia. A fé na eficácia dos antibióticos, vacinas e pesticidas contra os patógenos das plantas, dos animais e humanos é ingênua à luz da evolução adaptativa. As expectativas desenvolvimentistas de que o crescimento econômico levaria o resto do mundo à abundância e à eliminação das doenças infecciosas estão sendo desmentidas pelos fatos.

O ressurgimento das doenças infecciosas é apenas uma das muitas manifestações de uma crise mais geral: a síndrome de aflição ecossocial, uma crise (abrangente e multi nível) das relações disfuncionais no interior da nossa espécie e entre nossa espécie e o resto natureza. Essa crise integra em uma rede de ações e reações padrões de doenças, relações de produção e reprodução, demografia, o esgotamento e destruição temerária dos recursos naturais, a mudança no uso da terra e no assentamento humano, e a mudança climática global. É uma crise mais profunda do que as anteriores, chegando mais alto na atmosfera e mais profundamente na terra, mais disseminada no espaço e mais duradoura tempo, e penetrando em mais dimensões de nossas vidas. É a um só tempo uma crise geral da espécie humana e uma crise específica do capitalismo mundial. Por isso mesmo, é a preocupação número um tanto de minha investigação científica como de minha ação política.

A complexidade dessa síndrome mundial pode ser paralisante. Ainda assim, esquivar-se da complexidade fragmentando o sistema para tratar os problemas individualmente pode ser desastroso. Os grandes fracassos da tecnologia científica decorrem de uma visão reducionista dos problemas. Os cientistas agrícolas que propuseram a Revolução Verde sem levar em conta a evolução das pragas e a ecologia dos insetos, esperando, portanto, que os pesticidas fossem controlar as pragas, se surpreenderam que a pulverização de agrotóxicos levou ao aumento do problema das pragas. De forma semelhante, os antibióticos criam novos patógenos, o desenvolvimento econômico produz fome, e o controle de inundações gera inundações. Todos os problemas precisam ser resolvidos em sua rica complexidade. O estudo da complexidade torna-se também um problema prático urgente (não apenas teórico).

Esses são os interesses que informam meu trabalho político: dentro da esquerda, a minha tarefa tem sido argumentar que nossas relações com o resto da natureza não podem ser separadas da luta global pela libertação humana; e no movimento ambiental a minha tarefa tem sido questionar e desafiar o idealismo da “harmonia natural” da primeira fase do ambientalismo e insistir na necessidade de identificar as relações sociais que conduzem à disfuncionalidade atual. Ao mesmo tempo, minha política determinou minha ética científica. Acredito que estão erradas todas as teorias que promovam, justifiquem ou tolerem a injustiça.

Uma crítica, pela esquerda, da estrutura da vida intelectual é um contrapeso à cultura das universidades e fundações. O movimento antiguerra dos anos 1960 e 1970 levantou questões como a natureza da universidade como um órgão de dominação de classe e fez da própria comunidade intelectual um objeto de interesse tanto teórico quanto prático. Eu mesmo me uni à Science for the People (Ciência para o Povo), uma organização que começou em 1967 com uma greve de pesquisadores no MIT (Massachusetts Institute of Technology), como protesto contra a pesquisa militar no campus. Como membro, ajudei no questionamento à Revolução Verde e ao determinismo genético. A militância antiguerra também me levou ao Vietnã para investigar os crimes de guerra (especialmente o uso de desfolhantes) e a partir disso a organizar o Science for Vietnam (Ciência para o Vietnã). Denunciamos o uso do Agente Laranja (desfolhante usado na selva do Vietnã) que estava causando defeitos congênitos em camponeses vietnamitas. O agente de laranja era uma das mais cruéis formas de utilização de herbicidas químicos.

O movimento de independência de Porto Rico criou em mim uma consciência antiimperialista que me serviu bem em uma universidade que promove a “reforma estrutural” e outros eufemismos para imperialismo. O contundente feminismo classista de minha esposa é uma fonte constante de crítica ao elitismo e sexismo disseminados. O trabalho frequente com Cuba me mostra em cores vivas que há uma alternativa a uma sociedade competitiva, individualista e exploradora.

As organizações comunitárias, especialmente em comunidades marginalizadas, e o movimento de saúde das mulheres levantam questões que o mundo acadêmico prefere ignorar: as mães de Woburn percebendo que muitos de seus filhos do mesmo bairro tinham leucemia, as centenas de grupos de justiça ambiental que perceberam que o despejo de produtos tóxicos se concentravam em bairros negros e latinos, o Women’s Community Cancer Project e outros que insistem sobre as causas ambientais do câncer e outras doenças, enquanto os laboratórios universitários ficam à procura de “genes culpados”. Essas iniciativas me ajudaram a manter uma agenda alternativa para a teoria e a ação.

Dentro da universidade, tenho uma relação contraditória com a instituição e com os colegas, uma combinação de cooperação e conflito. Podemos compartilhar uma preocupação com as desigualdades na saúde e a pobreza persistente, mas divergimos quanto ao financiamento privado da pesquisa sobre patentes de moléculas e a respeito agências governamentais, como a AID (Agência para o Desenvolvimento Internacional), que promovem os objetivos do império.

Nunca aspirei ao que se convencionou chamar de uma “carreira de sucesso” na academia. Não busco reconhecimento pessoal no sistema formal de premiação da comunidade científica e tento não compartilhar das expectativas comuns de minha comunidade profissional. Isso me dá uma ampla liberdade de escolha. Assim, quando recusei o convite para ser membro da National Academy of Science (Academia Nacional de Ciência) e recebi muitas cartas de apoio elogiando minha coragem, ou considerando-a uma decisão difícil, pude dizer francamente que não foi uma decisão difícil, mas apenas uma escolha política tomada coletivamente pelo grupo Ciência para o Povo de Chicago. Avaliamos que era mais útil posicionar-se publicamente contra a colaboração da Academia na Guerra do Vietnam do que unir-se à Academia e tentar influenciar suas ações a partir de dentro. Richard Lewontin já havia tentado, sem sucesso, esse caminho, e renunciado a sua filiação juntamente com Bruce Wallace.

A maior parte da minha pesquisa coloca os seus objetivos em dois níveis: o problema particular do momento e alguma questão teórica ou controversa fundamental. O estudo da adaptação à temperatura de moscas das frutas também foi um argumento para múltiplos níveis de causalidade. A Teoria do Nicho também foi uma incursão na interpenetração dos opostos (organismo e ambiente). A biogeografia tratava dos múltiplos níveis da dinâmica ecológica e evolutiva. O manejo ecológico das pragas também foi uma demanda por estratégias que levassem em consideração o todo sistêmico. O trabalho sobre doenças infecciosas novas e reincidentes aliava biologia e sociologia. Examinamos por que a comunidade de saúde pública ficou surpresa quando as doenças infecciosas não desapareceram. Foi, portanto, um exercício de autocrítica da ciência.

Sempre apreciei a matemática e vejo como uma de suas principais funções tornar óbvio aquilo que parecia obscuro. Emprego com regularidade uma espécie de matemática de nível médio em formas não convencionais para alcançar compreensão, mais do que uma previsão. Boa parte do trabalho de modelagem atual visa equações precisas que resultem em previsões precisas. Isto faz sentido na engenharia. No campo das políticas públicas, isso faz sentido para os assessores dos poderosos que imaginam ter o controle suficiente do mundo para otimizar ao máximo seus esforços e investimentos de recursos. Mas nós que estamos na oposição não temos tais ilusões. O melhor que podemos fazer é decidir onde pressionar o sistema. Para isso, uma matemática qualitativa é mais útil. Meu trabalho com dígrafos marcados (“análise de circuitos”) é uma dessas abordagens. Ao rejeitar a oposição entre análise qualitativa e quantitativa, e a noção de que o quantitativo é superior ao qualitativo, trabalhei principalmente com as ferramentas matemáticas que auxiliam a conceitualização de fenômenos complexos.

A militância política, é claro, atrai a atenção das agências de repressão. A esse respeito, eu tive sorte, já que experimentei apenas uma repressão relativamente leve. Outros não tiveram tanta sorte: carreiras perdidas, anos de prisão, ataques violentos, assédio contínuo até contra suas famílias, deportações. Alguns, em sua maioria dos movimentos de libertação porto-riquenhos, afro-americanos e nativo-americanos, assim como os cinco antiterroristas cubanos presos na Flórida, ainda são presos políticos.

A exploração mata e fere as pessoas. O racismo e o sexismo destroem a saúde e frustram vidas. Estudar a ganância, brutalidade e presunção do capitalismo tardio é doloroso e enfurecedor. Às vezes tenho que recitar “Ballad of Evil Genius de Jonathan Swift:

Como o barqueiro do Tâmisa,
Passo remando a insultar.
Como o sábio de eterno riso
Gasto minha raiva em escárnio…
Ouçam-me bem:
Eu os enforcaria, se pudesse. 

A pesquisa acadêmica e a militância me deram, em sua maior parte, uma vida agradável e gratificante, trabalhando no que entendo ser intelectualmente estimulante, socialmente útil e com as pessoas que eu amo.

foi um geneticista e ecologista matemático, professor universitário na Harvard School of Public Health, e militante socialista. Ficou reconhecido por seu trabalho sobre a evolução em ambientes em transformação e introdutor do conceito de metapopulações.

 

La vigencia del pensamiento de Lenin: el peligro de una guerra a gran escala

Raúl Antonio Capote (Granma).— Han transcurrido más de cien años desde que Vladimir Ilich Lenin publicara El imperialismo, fase superior del capitalismo (1916); sin embargo, el eco de su voz no solo conserva su pertinencia académica: hoy resuena con una urgencia profundamente histórica.

Estamos presenciando, en tiempo real, una fase de transición sistémica global en la que el imperialismo estadounidense exhibe, ya sin máscaras, los rasgos que el estadista revolucionario diagnosticó con escalofriante lucidez.

Por un lado, una descomposición interna que avanza como una grieta sísmica, una política exterior intoxicada de militarismo, y por otro, una confrontación cada vez más violenta contra las potencias emergentes que se atreven a desafiar su hegemonía, lo que lo convierte en la más grave amenaza para la seguridad y la paz globales.

Lenin definió el imperialismo como la fase superior del capitalismo, un estadio al que atribuyó rasgos fundamentales como una concentración de la producción y del capital que iría mucho más allá de la simple competencia; una fusión entre el capital bancario y el industrial que alumbraría a una todopoderosa oligarquía financiera; habló de la exportación de capital como necesidad vital; de la formación de asociaciones internacionales que se repartirían el botín del mundo; y de la división del planeta entre las grandes potencias.

Esta caracterización, lejos de haber sido superada por el tiempo, se ha vuelto más densa y compleja; piénsese, si no, en el capitalismo contemporáneo, un puñado de corporaciones transnacionales y fondos de inversión –nombres casi espectrales como BlackRock, Vanguard o State Street– concentran hoy un poder financiero que empequeñece el Producto Interno Bruto de la mayoría de los Estados nación.

Aquella fusión de capital bancario e industrial que Lenin avizoró ha mutado en un entramado aún más intrincado y asfixiante, donde el capital financiero especulativo dicta, con la frialdad de un oráculo, las políticas económicas de los gobiernos.

La exportación de capitales, ese rasgo central del análisis leninista, no ha hecho sino acelerarse hasta convertirse en el latido mismo de la globalización neoliberal.

Las cadenas globales de valor, la deslocalización industrial que vacía fábricas en un continente para levantarlas en otro, y la financiarización de las economías periféricas, no son sino formas actualizadas de aquella succión de plusvalía que fluye, incansable, desde el Sur Global hacia los centros de acumulación del Atlántico Norte.

La gran vuelta de tuerca que Lenin apenas pudo vislumbrar, es que la maquinaria ha añadido nuevos y sofisticados mecanismos de endeudamiento perpetuo y condicionalidad macroeconómica –con el FMI y el Banco Mundial como celosos guardianes– que encajan, con precisión quirúrgica, en su esquema de dominación.

Y, sin embargo, el rasgo que hoy adquiere una dramaticidad más hiriente, es la relación intrínseca entre el imperialismo y la guerra, el siglo XX, con sus dos guerras mundiales, se encargó de confirmar aquella previsión.

Lo que observamos en esta tercera década del siglo XXI es el escalofriante regreso del peligro de una guerra a gran escala, esta vez bajo el signo de una potencia hegemónica que, sintiendo cómo se le escapa el mundo de las manos, recurre a la confrontación militar como último y desesperado intento de preservar un orden que se desmorona.

Fuentes:
Harvey, David (2004). El nuevo imperialismo. Akal, Banco Mundial y Fondo Monetario Internacional (FMI), Conferencia de las Naciones Unidas sobre Comercio y Desarrollo (UNCTAD).

sexta-feira, 29 de maio de 2026

 

Algum resumo de um bloco-de-notas
 
Israel é Um estado fundado na violência institucional, na expropriação e saque de territórios de povos que a estes pertenciam, colonialista recorrendo ao trabalho forçado dos despossuídos, que utiliza o sistema de Apartheid com o povo palestiniano nativo, pratica o genocídio, governado por partidos de orientação nazi, que fomenta e legitima comportamentos dos colonos de origem judaica que ostentam flagrantemente desprezo e crueldade na mais abjeta barbaridade contra crianças, idosos, doentes, mulheres, que viola com arrogante descaramento todos os códigos de conduta moral (nomeadamente de base religiosa) e todas as normas escritas internacionais. Por todas estas e outras razões é um Estado anti democrático, repressor e opressor que impõe na região do Médio Oriente ou Lesta da Ásia desde 1949 uma permanente história de guerra e provocações. Por todas estas razões existe apenas pela força das armas e pelo apoio - também ele militar e violento - a princípio da Grã-Bretanha e seguidamente dos Estados Unidos da América, e pela propaganda que conseguiu instalar na mente e cultura internacional mitos que ora se desfizeram em grande medida. Por tudo isto não merecia existir. 
  N.P.  

 

PEDAÇOS
I.
“Reformas sociais nunca podem ser realizadas pela fraqueza dos fortes; elas devem e serão realizadas pela força dos fracos.” Marx, 1847, Os protecionistas, os livre-cambistas e a classe operária.
II.
Na luta de classes nenhuma está predestinada a vencer, porém uma está predestinada a desaparecer.
III.
Não basta dizer-se comunista para ser-se comunista. A primeira condição é não ser-se social-democrata nas teorias e nas práticas.
IV.
A separação entre a social-democracia e os comunistas verificou-se primeiramente no apoio e no desapoio à deflagração da primeira Guerra Mundial e, secundariamente, no apoio e no desapoio à Revolução Soviética e Socialista na Rússia em 1917. A partir desses atos e escolhas a social-democracia é, por definição e premeditação em ato, anti comunista. O que não significa sempre que um indivíduo ou mesmo um partido político dito social-democrata seja hostil ou inimigo de um comunista . Pode até, e isto depende apenas das circunstâncias que determinada correlação de forças acciona, organizar-se Frentes Comuns, Plataformas programáticas com vista à tomada do poder ou/e à sua governação. Todavia, a diferença de classes está aí dentro deles e nas praças. Essas diferenças podem, então, estar contidas por conveniência mas explodirem logo a seguir. Depende, portanto, dos interesses.
V. O liberalismo ´foi no século dezanove e permanece a doutrina favorável aos capitalistas, portanto à ditadura económico-social sobre o Trabalho. Começou por ser adepta de regimes monárquico constitucionais de sufrágios censitários restritos, depois regimes republicanos de sufrágios ainda restritos e nunca democráticos no século dezanove. Os regimes designados como Democracias modernas (para distinguir do modelo inventado pela Atenas Clássica) são historicamente recentes (o Reino-Unido, como o nome indica. é ainda uma monarquia Constitucional e os Estados Unidos da América nem sequer dispõem de uma Constituição que mereça esse nome e que haja sido sufragada em sufrágio universal).
Vi. o capitalismo politicamente, isto é em termos de dominação e poder, evoluiu para a aceitação dos modelos de governação liberal.democrática forçado pelas circunstâncias geopolíticas, mas apenas quando capturou todos os pilares do Estado (Legislativo, Executivo, Judicial, Presidencial, cultural) e o Estado passou a ser o seu Estado, baseado no monopólio da força e no direito de indivíduos proprietários de meios de de produção particularmente de dinheiro, compraram uma força de trabalho humano a quem não resta outra alternativa.
VII. Deste modo e por vários meios relativos à geografia e à história regional, local e internacional, o Direito é o seu Direito na sua essência que trata do Poder, a Cultura é a sua Cultura no sentido geral e específico, o Mercado é o seu Mercado, a Guerra é a sua Guerra. 
 
Nozes Pires

Na retórica populista dos neo-fscistas o "sistema", o "socialismo", os comunistas sobretudo, constituem os inimigos e culpados únicos. Tratae, portanto, para a Direita neo-conservadora e para a sua fação de extrema-direita, de "infrahumanos" a liquidar fisicamente.

 

in JACOBINA

(Reprodução)

Por que os fascistas sempre atacam primeiro os socialistas?

Tradução
Pedro Silva

Ao contrário dos mitos da extrema direita de que os “nazistas eram de esquerda”, os fascistas desprezam o socialismo e querem destruí-lo. Eis aqui os motivo pelos quais a esquerda representa uma ameaça tão grande para eles.

Fascismo é um dos termos mais usados ​​em qualquer idioma, a ponto de até mesmo socialistas começarem a se cansar de vê-lo todos os cantos. Na história recente dos Estados Unidos, desde Barack Obama e Kamala Harris até Donald Trump e o movimento MAGA, todos foram chamados de fascistas. Um dos piores desdobramentos disso foram os esforços de comentaristas (principalmente de centro-direita) de sugerir que o fascismo era, na verdade, um movimento da extrema esquerda, ou que os fascistas eram até mesmo socialistas. Do livro “Liberal Fascism”, de Jonah Goldberg, hoje amplamente ridicularizado, a Peter Hitchens chamando os nazistas de “racistas de esquerda”, o gênero é popular o suficiente para ter gerado inúmeras respostas sarcásticas.

Esse argumento foi impiedosamente refutado aqui e em outros lugares, e parece cada vez mais ridículo à medida que mais e mais jovens republicanos se revelam admiradores declarados do fascismo e do nazismo. Portanto, não retomarei essa refutação. Em vez disso, quero examinar a inimizade inerente entre socialismo e fascismo, de onde ela vem e por quê. Obviamente, não pretendo sugerir que os socialistas sejam as únicas, ou mesmo as principais vítimas da maldade fascista: milhões de pessoas LGBTQIA+, com deficiência, judias, ciganas e de outros grupos também foram brutalmente oprimidas pelos coturnos fascistas. Ainda assim, como diz o famoso poema de Martin Niemöller, “Primeiro vieram buscar os comunistas”, e se quisermos entender e combater o fascismo hoje, é vital saber por que isso acontece. 

O fascismo e a direita em geral

A relação entre o fascismo e a direita em geral é complexa. No início do século XX, na Itália e na Alemanha, é bem provável que muitos conservadores e capitalistas preferissem uma ditadura conservadora mais convencional, que rejeitasse a política populista de massas — todos aqueles comícios disruptivos, desfiles, lutas de rua e esforços para construir um novo tipo de ordem nacionalista totalizante. Mas isso não os impediu de aderir ao fascismo quando a ameaçadora bandeira vermelha tremulava. 

Em seu livro Liberalismo, de 1927, o economista ultracapitalista (e posteriormente admirador de Ayn Rand) Ludwig von Mises aplaudiu o “fascismo e movimentos similares que visam ao estabelecimento de ditaduras” por estarem “cheios das melhores intenções” e por, “por ora, terem salvado a civilização europeia” da tomada do poder pelos comunistas. Como muitos na direita europeia, von Mises ficou horrorizado com a Revolução de Outubro, que levou os bolcheviques ao poder na Rússia, com as revoluções socialistas na Alemanha, que resultaram na República de Weimar, em grande parte construída pelo Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), e com a ascensão de partidos de esquerda em todo o continente. Nesse sentido, ele via o fascismo como uma necessidade emergencial, um “dispositivo de emergência” — opinião compartilhada por conservadores como Churchill, que chamou Mussolini de “o maior legislador entre os homens vivos”, por algum tempo. Contudo, em Liberalismo, von Mises expressou preocupação com os excessos autoritários e recomendou que Mussolini e outros se apressassem em restaurar ou criar uma sociedade de livre mercado. Para ele, assim como para outros, o fascismo situava-se algures entre uma medida de emergência útil e um mal necessário. Na Espanha e na Romênia, os ditadores conservadores convencionais por vezes elevavam movimentos fascistas locais, como a Falange e a Guarda de Ferro, para reforçar a sua legitimidade — apenas para os marginalizar ou esmagar quando estes se tornavam uma ameaça potencial.  

Essas reservas qualificadas não impediram que muitos na direita em geral cooperassem com as tomadas de poder fascistas quando isso lhes fosse vantajoso. Em seu recente livro Fascism: A Quick Immersion [Fascismo: Uma Rápida Imersão], Roger Griffin destaca como, nos primórdios, a orientação ideológica exata do fascismo era debatida, e Mussolini oscilava entre suas convicções socialistas anteriores e o crescente anticomunismo e nacionalismo do movimento. Após outubro de 1922, quando Mussolini se tornou primeiro-ministro, o fascismo italiano “sofreu uma nova mutação, e o próprio Mussolini passou a usar chapéu-coco e um ‘terno burguês’, para além do uniforme militar”. Isso sinalizava aos conservadores que o novo regime estava decididamente do lado deles. Durante sua estadia no poder, o fascismo italiano “desfrutou da conivência ativa da monarquia, da Igreja Católica e de grande parte da burguesia industrial e rural, todas forças profundamente reacionárias”, o que ajuda a explicar “a rápida guinada do fascismo para a extrema direita e sua subsequente nova iteração como um regime totalitário”. Essa conciliação ocorreu em grande parte porque muitos na direita concordavam com Von Mises que os fascistas italianos, embora um tanto rudes, eram muito bons em suprimir comunistas e socialistas. (Para a Igreja, em particular, qualquer coisa era melhor do que a ameaça existencial representada pelo marxismo e seu materialismo “sem Deus”.) 

Em A Chegada do Terceiro Reich, Richard Evans observa como, na Alemanha, conservadores do exército, das grandes empresas e de outros setores colaboraram para ajudar os nazistas a chegar ao poder: 

Os conservadores que levaram Hitler ao poder compartilhavam muito da sua visão. Eles realmente olhavam para o passado com nostalgia e ansiavam pela restauração da monarquia de Hohenzollern e do Reich de Bismarck. Mas eles deveriam ser restaurados de uma forma expurgada do que consideravam concessões imprudentes feitas à democracia. Em sua visão de futuro, todos deveriam conhecer o seu lugar, e as classes trabalhadoras, em especial, deveriam ser mantidas onde pertenciam: completamente fora do processo de tomada de decisões políticas.

Em outras palavras, eles queriam o melhor dos dois mundos: manter todos os avanços no poder militar e na produtividade industrial que a modernidade havia trazido, ao mesmo tempo que revertiam as mudanças democráticas na estrutura da sociedade que vieram com eles. 

Em particular, Evans destaca que os conservadores alemães e as grandes empresas toleraram ou cooperaram com os nazistas expressamente para evitar fazer qualquer concessão ao poderoso Partido Social-Democrata (SPD), embora social-democrata. Richard Paxton é ainda mais enfático em A Anatomia do Fascismo, ao apontar que o movimento nazista poderia ter “acabado como uma nota de rodapé na história se não tivesse sido salvo nos primeiros dias de 1933 por políticos conservadores que queriam se apropriar de seus seguidores e usar sua força política para seus próprios fins”. Chegou ao ponto de o Partido Nacional Popular Alemão, um partido mais genericamente conservador, formar uma coalizão com o NSDAP e apoiar suas ambições ditatoriais. 

Compreender essa história de conciliação mais ampla da direita com o fascismo pode nos ajudar a entender por que muitos autoproclamados conservadores ainda cooperam com a extrema direita para combater o que consideram “degeneração esquerdista”. Recentemente, a Heritage Foundation foi criticada por acobertar a conversa de Tucker Carlson com Nick Fuentes, provavelmente o neonazista e negacionista do Holocausto mais proeminente da atualidade. Para aqueles que têm a sorte de não saber, Carlson é notório por propagar o nacionalismo branco e dar voz a revisionistas nazistas. Mas uma conversa amigável com Fuentes ainda chocou muitos (embora não devesse). J.D. Vance também escreveu a recomendação de um livro que elogia explicitamente o general autoritário espanhol Francisco Franco, e recentemente minimizou a revelação de que muitos funcionários do Partido Republicano invocam rotineiramente a retórica nazista, alegando que são apenas “jovens” (muitos deles com 30 anos ou mais) que gostam de humor ácido e de provocar os liberais. Muitos continuam a expressar surpresa com o fato de um movimento conservador, outrora normal, parecer tão disposto a conciliar-se e a idolatrar fascistas. Contudo, se analisarem a história, poucas coisas serão menos surpreendentes. Fascistas e conservadores sempre foram capazes de se unir em torno de seu ódio veemente pela esquerda. Quando se considera como a direita alemã via até mesmo o socialismo liberal e democrático do SPD uma calamidade, ou como muitos republicanos de extrema-direita contemporâneos viam Joe Biden como a reencarnação de Stalin, tudo faz sentido. 

O que é o fascismo? 

O fascismo jamais teria alcançado poder significativo sem o apoio da direita conservadora mais ampla e tradicional. Mas o fascismo não é apenas conservadorismo ou capitalismo com esteroides. Tampouco pode ser compreendido apenas como uma força contrarrevolucionária ou reacionária definida por suas negações. Uma das fragilidades de longa data das análises de esquerda sobre a direita tem sido a tendência de vê-la puramente como reacionária. Isso implica que a esquerda é a verdadeira agente da história, que propõe e impulsiona mudanças, as quais a direita então tenta retardar ou impedir. 

Ora, em certos momentos, é isso que muitos na direita farão. Mas as doutrinas da direita não são definidas puramente por instintos reacionários. Elas são definidas por afirmações e crenças próprias — principalmente, a convicção de que as pessoas (e os povos) são fundamentalmente desiguais, e a melhor sociedade é aquela que reflete as desigualdades naturais ou inatas. Obedecer a um superior real é uma grande virtude social, parafraseando o conservador James Fitzjames Stephen. Esse anti-igualitarismo pode assumir uma forma conservadora, na qual aqueles à direita buscam defender as autoridades hierárquicas existentes que consideram, em geral, legítimas. Mas também pode assumir formas revolucionárias e até utópicas, nas quais a direita radical fantasia sobre restaurar ou criar tipos utópicos de sociedade onde a verdadeira hierarquia “orgânica” se expressará. Muitas vezes, isso é codificado em linguagem restauracionista, como no livro Ride the Tiger [Cavalgar o Tigre], do autoproclamado “superfascista” Julius Evola: 

Assim como o verdadeiro Estado, o Estado hierárquico e orgânico deixou de existir. Não existe nenhum partido ou movimento comparável que se apresente como defensor de ideias superiores, às quais se possa aderir incondicionalmente e apoiar com absoluta fidelidade. O atual mundo da política partidária consiste apenas no regime de políticos mesquinhos que, independentemente de suas filiações partidárias, são frequentemente figuras decorativas a serviço de interesses financeiros, industriais ou corporativos. A situação chegou a tal ponto que, mesmo que existissem partidos ou movimentos de um tipo diferente, eles quase não teriam seguidores entre as massas desenraizadas que respondem apenas àqueles que prometem vantagens materiais e “conquistas sociais”.

Mas, como Corey Robin observa em The Reactionary Mind [A Mente Reacionária], a própria radicalidade da nostalgia da extrema-direita significa que alguém como Evola é forçado a admitir que é o futuro, e não o passado, que constitui o horizonte de suas fantasias políticas. O momento presente é percebido como tão podre e corrompido pelo liberalismo, socialismo e democracia que, na prática, não resta nada a ser preservado. Muitos fascistas chegam a expressar hostilidade em relação aos conservadores, embora se sintam compelidos a cooperar com eles. Os fascistas frequentemente veem os conservadores como esclerosados, tímidos e incapazes de reverter a onda de forças decadentes que estão dominando a cultura nacional. Em How to Read Hitler [Como Ler Hitler], Neil Gregor observa como Hitler se radicalizou na cosmopolita Viena. Ele passou a desprezar os social-democratas, os judeus e os marxistas, que considerava uma força singular e corruptora. Mas, como Gregor destaca, ele não culpou apenas a esquerda, mas também a “estupidez e credulidade” das “forças da ‘velha direita’, os ‘dez mil superiores’, cuja incapacidade de resolver ‘o problema social’ tornou possível que o marxismo, e consequentemente os judeus, espalhassem sua influência perniciosa”. 

Para alguém como Hitler, a velha direita conservadora não conseguiu realizar o trabalho e falhou em expandir o poder da nação alemã. A ação radical era o que se exigia para alcançar um tipo superior de rejuvenescimento nacional, e é isso que os fascistas oferecem. Dependendo do momento tático, isso significava que os fascistas ora cooperavam com os conservadores mais convencionais, ora os desprezavam. Grande parte da sensibilidade populista e oportunista que define o fascismo, tanto naquela época quanto agora, deriva desse desejo distintamente pequeno-burguês de consolidar a autoridade, ao mesmo tempo que ascende ao topo da hierarquia social, onde os fascistas acreditam que deveriam estar. Quando figuras da extrema-direita moderna, como Fuentes, falam sobre “conservadores covardes” e “Con Inc.” — zombando do establishment do Partido Republicano enquanto tentam, com considerável sucesso, forçá-lo e substituí-lo — isso ecoa essa história.  

A definição acadêmica mais amplamente aceita de “fascismo genérico” é a de Griffin. Em seu livro clássico The Nature of Fascism [A Natureza do Fascismo], ele define fascismo da seguinte forma: “O fascismo é um tipo de ideologia política cujo núcleo mítico, em suas várias permutações, é uma forma palingenética de ultranacionalismo populista. 

Em outras palavras, os fascistas projetam a existência de uma “ultranação”, que raramente se conforma às fronteiras e aos cidadãos reais de um Estado-nação existente. Eles insistem que a ultranação é o locus total do significado na vida das pessoas e que precisa ser restaurada. O termo “palingênese” refere-se a renascimento ou recriação. A ultranação frequentemente recebe uma qualidade orgânica, como na obra de Evola, concebida como um superorganismo que transcende os indivíduos que a compõem. Muitas vezes, essa conexão orgânica é feita apelando diretamente à raça e à pseudociência racista para definir uma comunidade ariana de sangue “puro” que corre o risco de infecção. Em Minha Luta, Hitler fez exatamente essas afirmações, descrevendo a saúde racial da nação como vital para a restauração milenar da Alemanha:

O Estado racial deve compensar o que todos os outros negligenciaram nesse campo. Deve colocar a raça no centro de toda a vida. Deve zelar por sua pureza. Deve declarar a criança como o tesouro mais precioso do povo. Deve assegurar que apenas os saudáveis ​​gerem filhos; mas há apenas uma desgraça: trazer filhos ao mundo apesar das próprias doenças e deficiências, e a maior honra: renunciar a fazê-lo. E, inversamente, deve ser considerado repreensível: privar a nação de crianças saudáveis. Aqui, o Estado deve agir como guardião de um futuro milenar diante do qual os desejos e o egoísmo do indivíduo devem parecer insignificantes e submeter-se.

Mas, em sua essência, a ultranação é uma ideia mitológica, uma fé secular (o que não significa que formas de fascismo cristão e religioso não existam, frequentemente combinadas com o exagero nacionalista). Às vezes, os fascistas até demonstram ter consciência de que a ideia da ultranação é simplesmente uma invenção, mas não se importam. O que importa não é a realidade da ultranação, mas o significado que ela proporciona. Como Mussolini disse em um discurso de 1922:

Criamos o nosso mito. O mito é uma fé, uma paixão. Não precisa ser uma realidade. É uma realidade no sentido de que é um estímulo, é esperança, é fé, é coragem. O nosso mito é a nação, o nosso mito é a grandeza da nação! E é a esse mito, a essa grandeza, que queremos traduzir em realidade plena, que subordinamos tudo o mais.  

Geralmente, os fascistas evocam com nostalgia e seletividade uma época em que a ultranação era forte, vigorosa e poderosa: o Império Romano, o Segundo Reich Alemão sob Bismarck ou os dias gloriosos em que os húngaros defenderam a Cristandade dos bárbaros otomanos islâmicos. (Ou, para a extrema-direita estadunidense de hoje, uma versão idealizada dos anos 1950, criada em grande parte por meio de propagandas.) Mas, desde então, a ultranação declinou devido à influência nefasta de inimigos internos e externos que semeiam a corrupção, a letargia e a decadência: o socialismo, o comunismo, o materialismo, o feminismo, a democracia, o liberalismo, as formas mais consumistas do capitalismo, invasores e imigrantes estrangeiros, ou todos os anteriores. Os fascistas prometem que um movimento revolucionário restaurará a glória da ultranação. Mas somente se o movimento que representa o povo comum for chancelado com controle quase absoluto.

 Os fascistas rejeitam a democracia, mas tendem a abraçar o populismo. O líder — quase sempre um homem vaidoso e dramático — é apresentado como uma figura visionária que personifica a verdadeira vontade do seu povo, o que significa que deve ter permissão para agir sem restrições. Os mecanismos liberais ou democráticos de controle da autoridade do líder fascista são percebidos como neutralizadores da vontade popular e como um risco de regressão política a debates democráticos e intelectuais enfadonhos entre facções rivais.

Uma vez no poder, o movimento e o líder prometem expurgar os inimigos nacionais e tornar a ultranação grande novamente. Para muitos fascistas, isso significou uma expansão imperial em massa, empreendida tanto como meio de empoderar a nação quanto como um fim em si mesma. (A invasão da Etiópia por Mussolini em 1935 se enquadra nessa categoria.) Os fascistas veem a violência e o exercício do poder como espiritualmente edificantes, libertando o povo do egoísmo decadente e intensificando a vivência existencial. 

Antissocialismo fascista 

A doutrina judaica do marxismo rejeita o princípio aristocrático da Natureza e substitui o privilégio eterno do poder e da força pela massa numérica e seu peso morto. Assim, nega o valor da personalidade no homem, contesta o significado da nacionalidade e da raça e, com isso, retira da humanidade a premissa de sua existência e de sua cultura. Como fundamento do universo, essa doutrina traria o fim de qualquer ordem intelectualmente concebível para o homem.
Adolf Hitler, Mein Kampf


Tendo definido o fascismo e o descrito em relação à direita em geral, estamos agora em melhor posição para compreender a história do antissocialismo fascista. Os fascistas desprezam muitas coisas no socialismo. Em particular, e relacionados a isso, estão o seu racionalismo, o materialismo, o universalismo cosmopolita e, sobretudo, o igualitarismo. 

Os fascistas desprezam o racionalismo e o intelectualismo do socialismo, associando-os à supressão das aspirações heroicas da personalidade. Parte disso alinha o fascismo a uma repulsa mais ampla da direita pela razão excessiva e à celebração daquilo que Roger Scruton, em The Meaning of Conservatism [O Significado do Conservadorismo], destacou como “pessoas que não pensam”. De modo geral, a direita não gosta que os indivíduos exerçam sua razão em excesso, pois isso tem a perigosa tendência de transformar súditos passivos em cidadãos exigentes. O fascismo difere da direita em geral por aceitar e, às vezes, até mesmo desejar a participação das massas na política, ainda que sujeitas à direção e ao controle do líder populista autoritário. Mas eles ainda associam o intelectualismo excessivo, do tipo que os socialistas sempre defenderam como parte da conscientização de classe e vital para uma sociedade bem administrada, a algo desanimador e confuso. Sob a perspectiva fascista, ele inibe a vontade de agir. O filósofo fascista Giovanni Gentile deixou isso explícito em Origini e dottrina del fascismo [Origem e Doutrina do Fascismo], quando criticou a forma como o intelectualismo “separa o pensamento da ação, a ciência da vida, o cérebro do coração e a teoria da prática. É a postura do falastrão e do cético, da pessoa que se entrincheira na máxima de que uma coisa é dizer algo e outra é fazê-lo; é o utópico quem fabrica sistemas que jamais enfrentarão a realidade concreta […]”. Não são apenas pensamentos específicos que o fascismo desencoraja, mas o próprio ato de pensar.

Mais especificamente, os fascistas consideram os socialistas pouco diferentes dos liberais, pois ambos estão fixados em preocupações econômicas racionalistas e, consequentemente, reduzem a humanidade a um rebanho indiferenciado de gado a ser cuidado pelo que o supremacista branco Sam Francis chamou depreciativamente de um Estado “gerencial” que levará à passividade. Em A Doutrina do Fascismo, de Mussolini (texto foi, na verdade, em grande parte escrito por Gentile), o fascismo é descrito como a “negação resoluta” do “chamado socialismo científico e marxista”, que descreve a história em termos de luta de classes. Ideologicamente, isso ocorre porque os fascistas não compartilham a visão otimista dos socialistas de que, com o fim da luta de classes, virá o advento de uma sociedade mais racional. Politicamente, como vimos, os fascistas frequentemente angariavam apoio das grandes empresas na Itália e na Alemanha prometendo acabar com a luta de classes sem a necessidade de desafiar a propriedade dos meios de produção pelo capital. 

O nacionalismo pode pôr fim à luta de classes internamente, mas então o esforço ultranacionalista precisa perseguir novos projetos heroicos em outros lugares. Isso porque os fascistas negam que a precariedade econômica seja o problema social fundamental, e também que usar a razão para conceber um sistema econômico eficiente que garanta o bem-estar de todos seja uma aspiração digna. Mussolini (ou melhor, Gentile falando por meio de Mussolini) insistia que o fascista “acredita agora e sempre na santidade e no heroísmo, isto é, em atos nos quais nenhum motivo econômico — remoto ou imediato — esteja em jogo”. 

Frequentemente, os fascistas confundem socialismo e liberalismo como gêmeos bastardos do Iluminismo, nessa fixação com o materialismo metafísico e espiritual. Em sua Introdução à Metafísica, o filósofo nazista Martin Heidegger proclamou que a União Soviética e os Estados Unidos eram “metafisicamente iguais”. Capitalistas liberais e socialistas concordavam que o mundo consistia em matéria em movimento, conduzida por leis científicas que podiam ser compreendidas e manipuladas pela razão humana. O objetivo da vida era, consequentemente, aproveitar o poder da ciência e da tecnologia para satisfazer os desejos humanos. Esse ponto tem sido amplamente mal interpretado por muitos críticos socialistas e liberais, que projetam suas próprias fixações econômicas na ideologia e na práxis fascistas. De modo geral, pensadores e políticos fascistas desprezavam esse economicismo iluminista compartilhado, considerando-o reflexo de uma decadência materialista mais profunda. 

Os fascistas viam a economia como uma atividade inferior (frequentemente judaica) que deveria ser subordinada a preocupações políticas e raciais/populares. Em Fascism: Comparison and Definition [Fascismo: Comparação e Definição], o historiador Stanley Payne enfatiza como Hitler não tinha “ideias muito precisas de economia ou estrutura política, exceto que a economia não era importante em si mesma e deveria ser subordinada a considerações políticas nacionais”. Heidegger pensava o mesmo, em termos mais rebuscados. Para ele, o suposto confronto épico entre capitalismo e socialismo não passava de um debate patético sobre como construir e distribuir geladeiras da melhor forma. Em contraste, o movimento nazista havia surgido do povo alemão, mais espiritualmente sintonizado e heroico, uma espécie de espírito coletivo místico, e, portanto, estava destinado a destruir tanto o capitalismo quanto o socialismo para realizar a grandiosa redenção de todo o Ocidente. Essa fantasia atesta a perspicácia de críticos marxistas como Theodor Adorno e Erich Fromm, que enxergaram no “jargão da autenticidade” do fascismo uma tentativa de escapar da realidade e de seu caos para um mundo de fantasia mítica baseado no poder e na ordem.  

O universalismo cosmopolita e o pacifismo aspiracional do socialismo também são uma enorme fonte de antagonismo. Os socialistas diferem dos liberais (pelo menos os clássicos) por aceitarem, em grande medida, a inevitabilidade do conflito social, nomeadamente a luta de classes. Isso fez com que filósofos fascistas como Carl Schmitt por vezes expressassem uma preferência relutante pelo realismo socialista em detrimento da ambiguidade liberal. Mas, desde Marx, a luta de classes é geralmente entendida como tendo uma dimensão global profundamente ligada à crença socialista de que um dia até mesmo esse conflito chegará ao fim. Os trabalhadores do mundo se unirão porque todos eles, independentemente de raça ou credo, são explorados pelo capitalismo. Em suas formas menos ambiciosas, os socialistas podem abandonar essa visão historicamente dramática, mantendo ainda uma moralidade universalista. Acreditamos que as obrigações morais são devidas a todos; portanto, uma característica problemática do capitalismo é o seu egoísmo individualista.

Os fascistas desprezam esse “cosmopolitismo desenraizado” e a crença adjacente de que um mundo de paz e harmonia entre todos é alcançável uma vez eliminada a exploração de classe. Em On Hitler’s Mein Kampf: The Poetics of National Socialism [Sobre Mein Kampf de Hitler: A Poética do Nacional-Socialismo], Albrecht Koschorke explica que Hitler descreveu seu antissocialismo como emergindo de um “ódio — e mais, de repulsa — pelos social-democratas, que ‘enganam’ ou ‘seduzem’ os trabalhadores”. Hitler manipulou os trabalhadores para que rejeitassem a ideia socialista de uma comunidade internacional unida na luta contra a exploração global. Em vez disso, deveriam se conceber como um Volk [Povo] especificamente alemão e ariano, onde a luta de classes seria eliminada internamente, mesmo que as classes ainda existissem de fato. Isso porque toda a atividade econômica, inclusive a da iniciativa privada, seria direcionada para o único objetivo digno de uma nação rejuvenescida: a busca pelo Lebensraum (espaço vital) e a imposição de um império por meio da guerra. Assim, o nazismo garantiria a eliminação interna do conflito de classes (mesmo que as classes econômicas reais ainda existissem na Alemanha), e Hitler estava certo de que uma violenta luta global entre “raças” era inevitável e desejável. Tudo isso determinado pelo “princípio aristocrático da natureza”, que sustentava que as raças fortes deveriam dominar as inferiores, ou sub-humanas

Isso nos leva ao ápice do desprezo fascista pelos socialistas: nosso compromisso com a igualdade. Os socialistas são instintivamente e, muitas vezes, reflexivamente igualitários. Acreditamos que (pelo menos) toda vida humana é igualmente sagrada, o que significa que temos deveres universais para com todos. Isso nos impede de priorizar nossos desejos individuais ou nacionais a ponto de ignorarmos as necessidades dos outros ou até mesmo explorá-los. Os fascistas rejeitam isso completamente. Koschorke observa que, da “perspectiva nacionalista — especialmente na forma extremista e biologista defendida por Hitler —, [se] vê um princípio vertical de separação em ação. Vistos em termos nacionais, todos os membros do povo são, em essência, exultantes. A divisão interna, portanto, equivale a uma traição à sua natureza compartilhada. Da mesma forma, os membros de outros povos permanecem fundamentalmente estrangeiros”. Para os fascistas, muitos seres humanos não têm direito a nada e, portanto, podem ser usados ​​e abusados ​​conforme a necessidade das raças superiores. Ou pior, muitos são considerados simplesmente como “comedores inúteis” ou “vidas indignas de serem vividas”, seja por inferioridade racial, corrupção ideológica, deficiência ou outros motivos. A ultranação orgânica é enfraquecida, até mesmo adoecida, por sua presença, o que justifica o uso de violência massiva contra eles.

Muitos socialistas têm dificuldade em compreender o apelo da visão de mundo fascista; frequentemente a reduzem a um reflexo deturpado de interesses econômicos, e pouco mais que isso. Mas suas dimensões são bastante simples. O fascismo oferece uma narrativa de desapropriação e vitimização, projetando uma visão de mundo paranoica onde progressistas sinistros estariam sempre tentando se apoderar da propriedade conquistada com mérito e da grandeza nacional. A lógica é que, se não fosse pela presença dessas forças decadentes, você, alemão ou italiano comum, seria reverenciado como a raça superior que é. O oposto também é verdadeiro: o fascismo ofereceu e oferece aos homens e mulheres comuns da “ultranação” a sensação de serem aristocratas raciais. Dá a eles um gostinho de poder e status, contanto que se submetam inquestionavelmente ao partido e ao seu líder. Se você adere, de repente não é apenas um trabalhador comum; você faz parte da Grande Máquina de Guerra Ariana Heroica do Destino, ou talvez do Comboio de Trump. Para muitas pessoas, a oferta de igualdade da esquerda nunca será tão sedutora quanto a oferta de superioridade da direita, especialmente quando combinada com o ressentimento de ser uma vítima despojada de seu status aristocrático por aqueles que não o merecem. A combinação fascista de exaltação e vitimização ressentida pode ser inebriante. 

Agora podemos ver como, em muitos aspectos, o fascismo constitui a visão de mundo exatamente oposta à do socialismo. Os socialistas partem do princípio de que todas as pessoas são iguais, consideram o chauvinismo nacional e individualista contrário às nossas profundas obrigações morais, enfatizam que temos mais em comum como seres humanos finitos e vulneráveis ​​do que aquilo que nos separa, e desejam usar a razão e a ciência para construir uma sociedade melhor para todos. Os fascistas acreditam que as pessoas são fundamentalmente desiguais desde o nascimento e tornam-se ainda mais desiguais com o tempo, insistem que nações e raças “superiores” têm direitos especiais para se preservarem e se fortalecerem, mesmo às custas dos mais fracos, consideram isso um reflexo da grandeza interior que as distingue das formas de vida inferiores e rejeitam o humanismo e o racionalismo em favor de uma luta pela supremacia e dominação. Sua visão de mundo, portanto, legitima a violência desenfreada contra socialistas e outros inimigos “inferiores”.

A banalidade do mal 

O fascismo infligiu enorme sofrimento ao mundo antes de implodir em um fracasso humilhante em meados do século XX e, em seguida, fazer um retorno indesejado. Grande parte dessa violência foi direcionada a seus oponentes socialistas, que — para grande preocupação da direita em geral — pareciam estar ganhando terreno em todos os lugares após a Primeira Guerra Mundial e durante a Grande Depressão. Os fascistas eram antissocialistas e antiesquerdistas tão eficazes que sua reputação na direita permaneceu relativamente intacta mesmo após a Segunda Guerra Mundial. 

Mesmo nos Estados Unidos, onde nunca houve um partido fascista significativo que tenha chegado ao poder, movimentos e simpatizantes relacionados causaram danos consideráveis ​​no século XX e em épocas anteriores. Em A Anatomia do Fascismo, Paxton observa, com um tom sombrio, que “um fenômeno antigo que pode ser funcionalmente relacionado ao fascismo é a Ku Klux Klan”. Eles adotaram um uniforme e usaram técnicas de intimidação e violência para subjugar inimigos da raça branca, juntamente com supostos comunistas e outros “vermelhos”. Em Fascism in America [Fascismo nos EUA], Alex Reid Ross observa como grupos simpatizantes do nazismo na década de 1930 buscavam se apresentar como brancos e patriotas, ao mesmo tempo em que repudiavam o governo Roosevelt, que “identificavam com o poder judaico e o comunismo”. Embora, em última análise, tenham fracassado, dada a guinada à esquerda do país na década de 1930, os simpatizantes do fascismo contribuíram para uma tendência isolacionista durante grande parte do início da guerra. 

Isso culminou nos esforços do Comitê EUA Primeiro (AFC) para influenciar a opinião pública a favor da Alemanha, ou pelo menos em direção a uma neutralidade benigna. Assim como na Europa, o AFC recebeu considerável apoio das grandes empresas, que buscavam cada vez mais qualquer munição que pudessem usar contra FDR e o New Deal. Em seu artigo para o livro Fascism in America, Matt Specter e Varsha Venkatasubramanian observam como o AFC funcionou como um “grupo de pressão com o objetivo de enfraquecer o Partido Democrata e desacreditar o presidente Roosevelt. Os conservadores anti-intervencionistas temiam que a entrada dos Estados Unidos na guerra desviasse a atenção dos cidadãos das limitações da recuperação econômica e da condução autoritária de Roosevelt na Suprema Corte”. Após a guerra, o antissocialismo e o anticomunismo fascistas continuaram influenciando os assuntos estadunidenses. A infame “Operação Paperclip” trouxe cientistas nazistas aos EUA para ajudar na Guerra Fria. Isso se deveu em grande parte ao seu conhecimento científico. Mas, é claro, também porque eles eram considerados anticomunistas militantes e eficazes, em quem se podia confiar para trabalhar com entusiasmo contra a União Soviética.  

Mas, é claro, o verdadeiro dano foi causado na Europa, onde movimentos abertamente fascistas tomaram o poder e puderam executar sua visão ditatorial. Após 1919, o Partido Fascista Italiano organizou esquadrões paramilitares, os “camisas negras”, para servirem como sua força bruta. Os fascistas italianos prometeram trazer ordem a uma Itália dividida por classes sociais. Durante os “Anos Vermelhos”, isso os ajudou a ganhar considerável popularidade como militantes muito eficazes contra operários, socialistas e comunistas. Em Fascismo: Uma Breve Introdução, Kevin Passmore descreve como os fascistas italianos inicialmente conquistaram o “apoio de muitos pequenos camponeses conservadores e trabalhadores rurais sem-terra, que concordavam que as autoridades não os protegiam da esquerda. Os esquadrões fascistas (squadristi) iniciaram uma violenta campanha de intimidação contra católicos e, especialmente, socialistas, na qual centenas foram mortos”. Em Fascism: Comparison and Definition, Stanley Payne descreve o apelo ideológico do fascismo, principalmente entre os jovens. Contra a “revolução socialista antinacionalista”, propôs uma revolução alternativa de um governo nacionalista mais autoritário, liderado por novas elites e que promovesse novos e amplos interesses nacionais. 

Essa foi uma das razões pelas quais as elites conservadoras e burguesas estavam dispostas a apoiar Mussolini após a marcha sobre Roma em 1922. No poder, o Partido Fascista Italiano inicialmente implementou muitas medidas pró-capitalistas. Em seu livro A Ordem Capital, a economista Clara Mattei observa como os fascistas foram aplaudidos por capitalistas italianos e internacionais por esmagarem a coalizão entre o Partido Socialista e o Partido Popular, que havia se tornado ameaçadoramente popular, conquistando 32% das cadeiras parlamentares em 1919. Mussolini então implementou políticas pró-austeridade que restringiram os direitos econômicos ao longo da década de 1920, antes de mudar parcialmente de rumo na década de 1930 como resposta à Grande Depressão. O regime de Mussolini prendeu milhares de dissidentes, incluindo socialistas icônicos como Gramsci e Carlo Rosselli, mesmo antes de entrar na órbita de Hitler.

Por outro lado, a maioria dos comentaristas atuais considera o General Franco um autoritário conservador, e não um fascista declarado. Como católico conservador, Franco desconfiava profundamente das dimensões populistas do fascismo e, como muitos conservadores europeus, também desconfiava de suas aspirações utópicas de rejuvenescimento total da sociedade. Mesmo assim, Franco recebeu imensa ajuda das Potências do Eixo para ascender ao poder, cooperou com a Falange espanhola fascista e contribuiu longamente com homens e equipamentos para a causa nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Em Fascists, Michael Mann estima que o número de mortes promovidas por nacionalistas tenha ficado entre 50.000 e 200.000, com centenas de milhares de pessoas presas e torturadas. Muitas das vítimas de Franco eram republicanos, comunistas e socialistas. De forma arrepiante, Mann observa que, quando Heinrich Himmler visitou a Espanha em 1940, ficou “surpreso com as execuções e as prisões superlotadas” e sugeriu a reintegração de militantes à nova ordem. Mann ironiza dizendo que Himmler “parecia não perceber que os militantes da classe trabalhadora eram para Franco o que os judeus eram para ele próprio. Franco recusou os repetidos pedidos de Hitler e Himmler para entregar os judeus espanhóis, mas com os esquerdistas foi implacável.”  

Mas foi na Alemanha nazista que o antissocialismo e o anticomunismo atingiram seu ápice de virulência. Desde o início, a violência paramilitar nazista foi fortemente, ou mesmo em grande parte, direcionada contra socialistas e comunistas. Em Fascists, Mann analisou 581 ensaios escritos para o jornal do partido nazista sobre “Por que me tornei nazista”. Os militantes enfatizavam fortemente o desejo de combater inimigos, e “marxistas/comunistas/socialistas”, em vez de judeus ou qualquer grupo racial ou religioso, “eram vistos como o principal inimigo em 63% dos ensaios”. Como Mann afirmou, os “principais inimigos” dos nazistas “tornaram-se bolcheviques, embora frequentemente associados a judeus e ao ‘sistema’ de Weimar”. Quanto mais as coisas mudam, mais permanecem as mesmas, e as teorias da conspiração sobre judeus marxistas insidiosos e outras minorias corrompendo a nação continuam muito presentes em nossa sociedade. 

Isso explica por que parte do apelo dos nazistas às elites conservadoras tradicionais era a promessa de excluir e, eventualmente, destruir o Partido Social-Democrata (SPD) e o Partido Comunista (KPD), que haviam conquistado consistentemente um grande número de votos. Ajudou o fato de o SPD ser o maior rival eleitoral dos nazistas, especialmente entre a classe trabalhadora, e ter sido um dos principais fundadores da odiada República de Weimar, de cunho liberal democrático. Não por acaso, os únicos votos contrários à Lei de Habilitação vieram dos 94 deputados do SPD no Reichstag (o KPD comunista já estava efetivamente desmantelado). Em O Terceiro Reich no Poder, Evans observa que, poucos meses após a ascensão dos nazistas ao poder ditatorial, já havia cerca de 45.000 prisioneiros em campos de concentração, e a “grande maioria era composta por comunistas, social-democratas e sindicalistas”. Jane Caplan apresente um vislumbre ainda mais sombrio em Nazi Germany: A Very Short Introduction [Alemanha Nazista: Uma Brevíssima Introdução]. Ela observa como “os colaboradores de elite de Hitler o haviam preparado para resolver sua crise de controle, concedendo liderança e um mandato popular a um governo autoritário […] Hitler cumpriu a primeira parte do acordo na primavera de 1933 com o ataque esmagador dos nazistas ao KPD e ao SPD (ainda paralisados ​​pela hostilidade mútua) e aos sindicatos; sua rapidez e violência deixaram seus membros em estado de choque e desordem”. 

Após o início da guerra, a perseguição se intensificou, culminando na imensa Operação Barbarossa, a guerra para derrubar a União Soviética e, com ela, a sede do chamado bolchevismo judaico. Aproximadamente 20 milhões de soviéticos morreram na guerra — o maior número de mortos de qualquer nação combatente. Isso incluiu milhões nos campos de extermínio, além das inúmeras outras vítimas nazistas. A espiral descendente foi retratada de forma devastadora no icônico poema de Niemöller, que começa com “Primeiro vieram buscar os comunistas” — um verso inicial que, com o início da Guerra Fria na década de 1950, era frequentemente omitido nas reimpressões estadunidenses.

A magnitude da violência do fascismo — sua selvageria e brutalidade — é assombrosa. Mas é importante não exagerar na projeção de um poder demoníaco e genialidade nos fascistas, que entrarão para a história como fracassos colossais. “A força faz o direito” é sempre a filosofia do perdedor a longo prazo.

Socialistas autoproclamados cometeram muitos erros. Alguns deles foram brutalmente trágicos e impiedosamente genocidas. Socialistas autoritários como Stalin cometeram atrocidades em massa que servem como um lembrete arrepiante dos horrores que podem ser infligidos por aqueles que proferem clichês bem-intencionados. Mas o núcleo ético do socialismo permanece inspirador porque, em nítido contraste com o fascismo, exige muito mais de nós. Os socialistas querem um mundo onde, mesmo que nem todos sejam felizes, a miséria humana comum substitua o sofrimento desnecessário. Este é um objetivo tão exigente eticamente que ainda não conseguimos construir uma sociedade que o concretize plenamente. Apesar de toda a pompa sobre heroísmo e poder, no fim das contas, o fascismo ressoa porque apela aos nossos instintos mais baixos. É tão tentador imaginar-se um aristocrata racial roubado, em parte porque isso torna muito mais fácil ignorar todas as exigências éticas que se opõem à nossa ganância e sede de poder. Os fascistas lutam inutilmente por uma grandeza que as aspirações medíocres de suas almas jamais alcançarão. O fascismo é o sonho banal de homens insignificantes e merece seu lugar no esgoto da história.


Artigo publicado originalmente na Current Affairs.

é professor visitante de política no Whitman College. Ele é o autor de "The Rise of Post-Modern Conservatism and Myth" e co-autor de "Mayhem: A Leftist Critique of Jordan Peterson".

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