"Cubanos são como o recheio de uma sanduíche: Há 2 forças a oprimi-los"
Um parricídio ocorrido numa família próxima à de Leonardo Padura foi o motor para "Morrer na Praia", o mais recente romance do escritor cubano editado em Portugal. Na ótica do autor, "Cuba tem de mudar", mas "não porque o governo dos Estados Unidos obrigue o governo cubano a fazê-lo".
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Cultura
Foi com base num parricídio ocorrido numa família próxima à de Leonardo Padura que nasceu "Morrer na Praia", o mais recente romance do escritor cubano que, ainda hoje, reside no mesmo bairro e na mesma casa onde nasceu. O autor, que descobriu que "a única forma de lidar com os [seus] medos sociais e literários [era] enfrentá-los", leva-nos numa viagem pelos últimos 50 anos da história de Cuba, que culmina no "destino final de uma geração" que, ao fim de quatro décadas de trabalho, se vê "numa situação muito precária".
De facto, como frisou ao Notícias ao Minuto, "em Cuba a realidade não bate à porta". Numa vivência marcada por apagões, fracassos e carências, "Morrer na Praia" mostra, através da possibilidade do perdão, da redenção, da solidão e da velhice, que "pode haver uma luz de esperança".
Na ótica do autor, que esteve em Portugal por ocasião da Feira do Livro de Lisboa, "os cubanos [...] são como o recheio de uma sanduíche: há duas forças que o estão a oprimir e é o povo que está a sofrer". Nessa linha, e face às ineficiências internas e à pressão externa, Leonardo Padura defende que "Cuba tem de mudar", mas "não porque o governo dos Estados Unidos obrigue o governo cubano a fazê-lo". "Os cubanos precisam que Cuba mude para que Rodolfo e Nora não se encontrem nessa situação de vulnerabilidade e desproteção na sua velhice e para que não ocorram muitas outras coisas dolorosas que estão a acontecer em Cuba neste momento", salientou.
Estes irmãos serviram-me para este parricídio, que ocorreu na vida real, numa família muito próxima da minha. Conheci todos, conheci o assassino, a vítima, os irmãos, todos. E isso funcionou imediatamente para mim, porque o papel deles no romance é o motor dramático. [...] Claro que incluí outras questões importantes a partir desse facto tão definitivo e tão violento, que é a possibilidade do perdão, da redenção, da solidão e da velhice, que são assuntos que, além disso, não são apenas domésticos, são universais
Este livro baseia-se num parricídio que ocorreu numa família próxima da sua. O que é que o levou a querer abordar este caso?
Queria escrever um romance sobre o destino final de uma geração, da minha geração, em Cuba. Quando chegam a uma certa idade, na altura da reforma, que deveriam receber como recompensa por tantos anos de trabalho, – 40, 45 anos de trabalho – encontram-se numa situação muito precária. Vou dar-lhe um exemplo; a aritmética ajuda muito nestes casos. Uma reforma média em Cuba ronda os 1.500 (53,83 euros) a 3.000 pesos (107,66 euros), e uma caixa de 30 ovos custa 3.000 pesos. Pode imaginar como é que um reformado vive. Essa situação, mesmo a partir de 2023, ano em que se passa a narrativa, até ao momento tornou-se mais complicada, mais tensa, mais difícil, com maior inflação, preços mais altos. E, para contar esta história, percebi que não avançava, porque tinha um grande problema social, mas faltava-me um grande problema dramático. O romance não é um ensaio; não ia escrever um ensaio sobre como vive um reformado cubano e o que isso significa, nem sobre o desencanto e o fracasso. Queria que isto fosse visto através das personagens e de uma história, e lembrei-me deste parricídio.
Já tinha ali algumas personagens, uns irmãos, e estes irmãos serviram-me para este parricídio, que ocorreu na vida real, numa família muito próxima da minha. Conheci todos, conheci o assassino, a vítima, os irmãos, todos. E isso funcionou imediatamente para mim, porque o papel deles no romance é o motor dramático. Os romances, tal como os guiões de cinema, movem-se através de conflitos. E são os conflitos que vão impondo desafios às personagens para que a trama avance. Foi aí que o livro começou a avançar e assumiu a sua forma definitiva. Claro que incluí outras questões importantes a partir desse facto tão definitivo e tão violento, que é a possibilidade do perdão, da redenção, da solidão e da velhice, que são assuntos que, além disso, não são apenas domésticos, são universais. Isso é importante, porque acredito que a literatura, a arte em geral, tem de estender pontes entre circunstâncias por vezes muito locais e outras que sejam muito mais universais, porque isso permite uma melhor compreensão por parte de quem consome essa obra de arte.
E a literatura é necessária. A inteligência artificial coloca-a em risco?
Já há escritores que estão a utilizar a inteligência artificial. Eu, pessoalmente, recuso-me a fazê-lo neste momento, porque acho que é como se fosse um pouco perverter a natureza da criação artística, que é uma questão que acompanha a humanidade desde antes de nos tornarmos civilizados, de nos tornarmos letrados, porque os habitantes pré-históricos pintavam certas coisas nas paredes para atrair forças que, de alguma forma, os ajudassem. Penso que a arte, em geral, é uma forma de nos representarmos, de nos encontrarmos. No caso do romance, por exemplo, concordo plenamente com Milan Kundera, que diz que a essência da arte do romance é a investigação dos conflitos da condição humana. A inteligência artificial alimenta-se da condição humana, mas não tem condição humana.
A história é narrada por um escritor próximo da família. Já disse noutras ocasiões que não é Fumero, mas o que significa Fumero para si?
O romance tem quatro personagens principais. Um deles é o assassino, Geni, uma personagem que quase sempre vemos de fora. Vemo-lo da perspetiva de outra personagem. O seu irmão, Rodolfo, que cortou relações com Geni e que é uma personagem marcada por indecisões e medos que o acompanharam toda a vida. Há a personagem Nora, que foi namorada de Rodolfo na adolescência e esposa de Geni, e que também cortou relações com o assassino após o parricídio. E uma quarta personagem, que é Raimundo Fumero, um escritor que é amigo de infância de Geni e que é quem realmente o acompanha durante todo o tempo antes e, sobretudo, depois do crime. É um escritor porque eu precisava que essa personagem fizesse determinadas reflexões sobre o que aconteceu com Geni, sobre a sua própria história com Geni, mas também sobre a sua própria condição de escritor. E isto é importante. Fumero pertence a uma geração de escritores que me precede em cerca de 10 anos. E esses 10 anos mudaram completamente a perspetiva da arte em Cuba em geral, mas da literatura em particular. Ele começa a escrever naqueles anos 70, em que se estabelecem toda uma série de políticas culturais muito restritivas, por isso tem de aprender a escrever de acordo com essa política cultural, se quiser ser escritor.
Alguns anos depois, felizmente, essa política não altera a sua essência, mas muda os seus métodos. E foi nesse momento que comecei a escrever. É por isso que tenho uma relação com a literatura diferente da de Raimundo Fumero e completamente diferente a partir dos anos 90, quando comecei a escrever os romances do meu personagem Conde. Mas Fumero faz esta análise do processo da literatura cubana, porque acredito que o que lhe acontece e a forma como ele tem de escrever marcaram o desenvolvimento da literatura cubana até hoje. Instaurou processos de autocensura para não ser censurado e isso continua a funcionar ainda hoje, infelizmente. O problema é que, num país onde todas as instituições da indústria cultural pertencem ao Estado, têm de funcionar segundo as regras do Estado. As editoras são do Estado, as produtoras de cinema são do Estado, as galerias são do Estado. Atualmente, isso já não é tão fechado, não é tão homogéneo. Existem algumas galerias privadas, algumas produtoras de cinema independentes, e até há a possibilidade de alguma pequena editora publicar livros e trazê-los para Cuba, com muitas dificuldades, mas elas existem. Nos anos 70, esse panorama não existia. Um dos processos de redenção que ocorrem no romance acontece com Fumero, e a página final do livro – não vamos revelar o que lá está escrito, não vamos contar aos leitores até que eles próprios o leiam – é essa declaração de redenção da personagem de Fumero. O que ele vai fazer com a sua vida e com a sua literatura a partir desse momento.
Disse, noutras entrevistas, que este é o seu romance mais triste. Porquê? Por ser o retrato de uma geração desiludida?
Sim, sim. O que reflete é triste em quase todos os sentidos, desde o ato violento que ocorre até ao destino destas personagens. E, ao contrário, por exemplo, dos meus romances com a personagem Conde, onde há sempre uma espécie de abertura para a ironia. Conde é uma personagem que se defende com a ironia. Aqui não, aqui tudo tem uma carga dramaticamente muito pesada e o que se reflete é uma realidade de desencanto, de frustração e, como se diz no final, a crónica de uma derrota.
Recentemente, falei com um jornalista que me disse que os povos insulares são quem mais sente saudades do seu país. No entanto, no caso de Aitana, por exemplo, parece haver mais tristeza por um país mergulhado na miséria do que nostalgia. Concorda?
As reações das pessoas que saíram do país por qualquer motivo, em alguns casos por razões políticas, em outros por razões económicas, por vezes por razões pessoais, são sentimentais. Nos últimos anos, essa emigração cubana atingiu, em cinco ou seis anos, cerca de um milhão e meio de pessoas, o que representa 10% da população, o que é muito. Ora, as atitudes são muito diversas. Não se pode classificar apenas aqueles que partem e olham para o país com rancor, ou aqueles que o olham com nostalgia, ou aqueles que se esquecem desse país. O meu romance, "Como poeira ao vento", procura, de certa forma, questionar essas diferentes visões através das várias personagens que abandonam o país. Uma vai para os Estados Unidos, outra para Porto Rico, outra vem para Espanha, outra vai para França, outra para a Argentina, porque é uma questão muito complexa e as reações, como disse, são muito diversas e há de tudo. Há uma personagem nesse romance, chamada Clara, que diz, a certa altura, que todas as razões para sair de Cuba são válidas, todas as razões para ficar também, e o importante é respeitar umas e outras. Acho que essa é a chave de tudo.
Mas o mar é um símbolo muito importante para Cuba.
Claro. Cuba é uma ilha, e o sentimento de insularidade está muito presente em tudo o que tem que ver com o pensamento, com a história e com a sociedade cubana. Voltemos a um livro anterior. Em "Ir a Havana", por exemplo, falo muito da relação de Havana com o mar, de como tudo o que de bom e de mau chegou a Havana veio pelo mar, porque foi uma cidade que viveu a partir da sua relação com uma baía que a ligava ao mundo, por onde entrou tudo o que construiu a cidade, não só no plano físico, mas também no plano cultural, de identidade, de sentimento, étnico. Portanto, não podemos viver sem contar com a presença do mar.
A arte cubana teve de superar esse sentimento de insularidade, esse sentimento que um grande poeta cubano, Virgilio Piñera, chama de "a maldita circunstância da água por toda a parte". Teve de se impor a isso com uma visão mais cosmopolita, porque, sem dúvida, a arte cubana teve uma projeção internacional, universal, muito notável. Isso acontece na literatura, nas artes plásticas, na dança. Lembre-se de que Cuba tem um dos ballet clássicos mais reconhecidos do mundo. E, acima de tudo, aconteceu na música, porque a música cubana teve uma expansão universal. Mas tem sido uma luta para superar essa circunstância, essa maldita circunstância da insularidade que está presente em tudo.
O livro começa com Rodolfo a pisar cocó de gato. Trata-se de uma metáfora da sua situação e da situação do país?
Sim. A palavra "merda" – não é "cocó", é "merda" – repete-se não sei quantas vezes no livro. Teria de verificar.
Ele percebe que não calculou o valor, pergunta à rapariga que atende e tem de lhe dizer para tirar um hambúrguer, porque com três hambúrgueres e dois refrigerantes estava a gastar o salário de um mês. Mas consegue fazê-lo porque a sua filha lhe enviou dinheiro e a filha de Nora também lhe enviou dinheiro. De outra forma, não o poderiam fazer, o que significa que há muita gente que não o pode fazer. Se comprarem a caixa de ovos, já não podem comprar um hambúrguer nem qualquer outra coisa que os satisfaça
85, segundo li na minha pesquisa.
Por aí. Porque o Rodolfo pisa a merda e depois diz que estão a viver uma vida de merda. Acho que essa merda que Rodolfo pisa é uma merda física, mas também é uma merda simbólica. A partir daí, já se começa a perceber qual é o panorama da vida dele, qual é o panorama da vida de Nora. Quando descobrem que Geni vai sair antecipadamente da prisão, afundam-se ainda mais na merda, que é uma merda muito dolorosa, porque foi nesse momento que uma família que já era distópica se tornou uma família completamente destruída. Então, sim, aí essa merda não tem apenas um fedor físico, mas também um fedor simbólico.
Como disse, Nora e Rodolfo também sofrem na pele a miséria do país, mas têm a sorte de receber donativos das suas filhas. É esta a realidade das gerações mais velhas? Trabalhar toda a vida e depender da caridade?
Sim, é uma realidade que se vive no país. E para muitos, ter familiares fora do país, familiares no estrangeiro, – em Cuba dizemos "tener FE" –, é uma solução que alivia a sua condição quotidiana, porque recebem algumas doações, como diz Rodolfo, que lhes permitem ter acesso a determinadas possibilidades. Há um momento na história em que a aritmética volta a ser importante. Rodolfo convida Nora para sair e vão a um café onde há ar condicionado. Entram e pedem quatro hambúrgueres e dois refrigerantes. Ele percebe que não calculou o valor, pergunta à rapariga que atende e tem de lhe dizer para tirar um hambúrguer, porque com três hambúrgueres e dois refrigerantes estava a gastar o salário de um mês. Mas consegue fazê-lo porque a sua filha lhe enviou dinheiro e a filha de Nora também lhe enviou dinheiro. De outra forma, não o poderiam fazer, o que significa que há muita gente que não o pode fazer. Se comprarem a caixa de ovos, já não podem comprar um hambúrguer nem qualquer outra coisa que os satisfaça. É muito dramático para pessoas que merecem ter outras condições de vida.
Humbertico, por sua vez, representa o luxo. Como é possível aceitar que haja pessoas que carecem do essencial, enquanto outras têm tudo o que desejam e até mais?
A sociedade cubana, até aos anos 80, era muito homogénea. Nos anos 80, quando comecei a trabalhar, nós, que estudávamos, recebíamos uma pequena bolsa e, com isso e com a ajuda dos pais, conseguíamos viver. Permitia-nos até ter alguns luxos: ir a um restaurante um dia, ir à praia num fim de semana, e todos tínhamos mais ou menos o mesmo. A partir dos anos 90, esse equilíbrio rompeu-se e a maior parte da população empobreceu. Depois, começaram a surgir outras alternativas, como os pequenos negócios privados ou pessoas que recebem dinheiro do exterior e vivem melhor do que outras que não têm negócios e trabalham para o Estado – que podem ser médicos, engenheiros ou professores universitários – e que ganham um salário estatal muito inferior ao que podem ganhar aqueles que têm negócios ou fontes estrangeiras que os sustentam. Isso tem vindo a aumentar e, nos últimos anos, surgiram já as pequenas e médias empresas, com pessoas que estão a acumular capital a partir das ineficiências do Estado.
Por exemplo, em Cuba, nos últimos dois anos, o único lugar onde se pode comprar frango é, talvez, nas lojas privadas, o que significa que essa proteína, que é a mais consumida pela população, tem de ser comprada a essas pessoas ao preço de mercado, porque a importam de fora de Cuba, e estão a criar-se diferenças económicas cada vez maiores. Essas diferenças económicas influenciam tanto quem vive em Cuba, como quem já saiu de Cuba. Quando disse que saíram de Cuba entre 1.200.000, 1.500.000 ou quase 2.000.000 de pessoas, talvez os que saíram sejam aqueles que puderam, e não aqueles que quiseram. A rota mais comum era a das pessoas que saíam pela Nicarágua e depois seguiam a "rota dos coiotes", como é conhecida, por toda a América Central até à fronteira dos Estados Unidos; essa viagem custava 10.000 dólares (8.611 euros), pelo que só a podiam fazer aqueles que tinham uma casa que venderam em Cuba ou que tinham um familiar que a pagou. Há outros que não têm nem casa nem familiares que a paguem e que gostariam de ter partido. Ou seja, mesmo para emigrar, a diferença económica tem sido determinante.
Esses 60% da população de que lhe falei vive com 30 a 40 horas de corte de eletricidade. Li numa publicação que há uma zona do país com 40 horas de apagão e três de eletricidade. Pode imaginar como isso é ridículo. Como é que se conservam os alimentos? Como é que se dorme? Porque em Cuba, quando faz calor, se não tiver um ventilador, não consegue dormir
É muito ingrato.
Ingratíssimo, ingratíssimo, o que mais posso dizer? E muito triste, por isso digo que é um romance triste. É uma situação muito desesperante para muita gente, porque não têm possibilidade de encontrar uma solução, e estou a falar de uma percentagem que pode ser de 60 a 70% da população. Há uns 20% que sobrevive mais ou menos e há uns 10% que vive melhor. Em Cuba, a realidade não bate à porta. Pessoas que têm determinadas condições económicas que lhes permitem estar melhor, quando falta a luz no seu bairro, ficam sem ligação. A todos e a todas falta a luz. Alguns têm baterias e possibilidade de ter eletricidade, mas a ligação depende das antenas e, quando as antenas se desligam, não há ligação. O preço das coisas está caro para todos e conseguir gasolina em Cuba, neste momento, é um problema. Podes ter um carro, mas não tens gasolina para o fazer andar. Tenho um carro de 1997, o meu carro de sempre, e cuido muito bem dele; o carro está novo. Tivemos um problema de saúde na família e comentei com o meu irmão: "Olha, cada viagem que fazemos não é mais uma viagem que fazemos, é menos uma viagem que podemos fazer."
Disse que a sua "geração nadou, nadou, nadou, chegou à margem e, quando deu os primeiros passos na areia, a areia engoliu-os". Do que é que Cuba precisa para mudar? Ou já é tarde demais para mudar?
Cuba tem de mudar. Cuba tem de mudar e essa necessidade tornou-se agora mais evidente, porque não são apenas as ineficiências internas que estão a fazer-se sentir, mas também a pressão externa. Acho que os cubanos, o povo cubano, são como o recheio de uma sanduíche: há duas forças que o estão a oprimir e é o povo que está a sofrer. Qual será a solução para este conflito entre duas forças antagónicas, cujas possibilidades de diálogo são desconhecidas? Não sei. O que vai acontecer? Não sei. O que sei é que as pessoas precisariam que aquele país mudasse economicamente, socialmente e politicamente para poder recuperar alguma esperança. Esses 60% da população de que lhe falei vive com 30 a 40 horas de corte de eletricidade. Li numa publicação que há uma zona do país com 40 horas de apagão e três de eletricidade. Pode imaginar como isso é ridículo. Como é que se conservam os alimentos? Como é que se dorme? Porque em Cuba, quando faz calor, se não tiver um ventilador, não consegue dormir. Na verdade, há dois artigos em Cuba que são de primeira necessidade: um frigorífico, para guardar os alimentos, e um ventilador, para se poder viver. Não apenas dormir, mas viver de verdade. Se nem o frigorífico nem o ventilador funcionarem, pode imaginar como é a sua vida.
O muro que separa a casa da casinha pode ser comparado ao Muro de Berlim. Será que a sua queda deixará marcas na família de Rodolfo, tal como o Muro de Berlim as deixou no mundo soviético?
Bem, espero que sim, que a queda desse muro tenha consequências, porque ele cai no final do romance. Estamos a falar do que aconteceria depois de o romance terminar. Entre os diferentes processos de redenção que existem no romance, um deles está na relação que Rodolfo e Nora estabelecem – não gosto de falar muito sobre isso, porque acho que são coisas que os leitores têm de descobrir – que demonstra que, mesmo em circunstâncias económicas e sociais muito difíceis, mesmo em determinadas idades em que se pensa que aquela pessoa já viveu a sua vida, pode haver uma luz de esperança. É isso que acho que torna o ser humano forte, poder encontrar algo.
A palavra redenção significa a recuperação ou a recompra da liberdade de um escravo; essa era a origem da palavra. Cristo é o redentor porque, com o seu sacrifício, veio encontrar ou comprar a nossa liberdade. E, bem, creio que Rodolfo e Nora, a partir da queda desse muro e das suas ações, terão a possibilidade dessa redenção. Este é um tema importante, porque fala da transcendência da importância que a companhia tem na velhice. Está demonstrado por estudos científicos que os idosos que vivem sozinhos morrem mais facilmente do que aqueles que vivem acompanhados, porque o ser humano é gregário. Somos a única espécie capaz de estabelecer relações com mais de 60 indivíduos. Os orangotangos e os gorilas têm as suas tribos. As abelhas são outro caso, porque não têm essa capacidade de raciocínio e cooperam mecanicamente, mas não cooperam intelectualmente. O ser humano é a única espécie capaz de estabelecer cadeias de relações, e as relações humanas são extremamente importantes ao longo de toda a vida das pessoas, mas na velhice são fundamentais como apoio e como forma de encontrar algo de que todos precisamos: diálogo, companhia, compreensão e alívio da dor.
"Morrer na Praia", Leonardo Padura © Porto Editora
Apesar de triste, o livro também conta uma história de amor. Considera que o amor, a amizade e a cultura continuam a ser formas de resistência e de não perder a memória histórica?
Sim, a amizade, o amor e a fraternidade são formas de resistência, mas não só em Cuba. Em todas as sociedades, o mundo está a evoluir para certas formas de individualismo que são bastante novas no que diz respeito às relações sociais. Por exemplo, está a ocorrer um fenómeno muito lamentável, porque já tem consequências, inclusive de caráter sanitário, na relação dos jovens com os telemóveis. Existe um conceito psicológico e sociológico chamado "cultura do jogo", e nessa cultura as crianças aprendem a colaborar, a relacionar-se. Por exemplo, quando sete ou oito crianças jogam futebol em duas equipas, têm de aprender que uma tem de passar a bola à outra para ver se consegue ultrapassar aquela e desenvolvem toda uma série de estratégias de competitividade e assim por diante. Agora, isso está a relacionar-se mais com o telemóvel, o que cria uma forma de entender as relações que é bastante nova e que está a trazer consequências para a saúde, inclusive, como disse, suicídios e doenças como a depressão, a ansiedade, enfim. Por isso, acho que é muito importante encontrar formas de promover a compreensão entre as pessoas e, como dizia, não só numa sociedade como a cubana, com todos os problemas que tem, porque este é um conflito universal que está em curso.
Outro dos temas do romance é o medo. Continua a viver em Cuba, no mesmo bairro e na mesma casa onde nasceu, mas os seus livros são muito políticos. Não tem medo do regime?
Às vezes, não se consegue evitar o medo, porque provém de forças que estão além de nós. Num dos meus romances, a personagem de Mario Conde reflete sobre o medo e diz: "Há medos humanos que são totalmente compreensíveis." O medo da morte, o medo da dor, o medo das baratas; há pessoas que têm medo de baratas ou de rãs. Até agora, nenhuma barata e nenhuma rã comeu alguém, mas há pessoas que têm muito medo delas e isso é compreensível. Os medos que são lamentáveis são os medos sociais; os medos que uma sociedade pode provocar e que são muito diversos. Ter medo de sair à rua porque há insegurança na rua ou medos políticos, medos económicos. Descobri que a única forma de lidar com os meus medos sociais e literários foi enfrentá-los. Escrevo o que escrevo.
Não acho que a minha literatura seja essencialmente política, como diz. Acho que tem leituras políticas, mas é uma literatura que, acima de tudo, tenta fazer uma crónica social. Todos os meus romances têm personagens da minha geração, falam da sociedade cubana que tem vindo a evoluir ou a involuir nestes anos. Por exemplo, os romances com a personagem Conde começam no ano de 1989 e, embora alguns deles falem de épocas anteriores, o tempo presente é o ano de 1989. Neste romance, o tempo presente é 2023. Estamos a falar de 30 anos e, nesses 30 anos, é claro, essa sociedade evoluiu. Eu evoluí, a minha literatura evoluiu e a tentativa de fazer uma crónica dessa sociedade na sua evolução tem sido o meu objetivo fundamental, porque acredito que, se tivesse feito uma literatura exclusivamente de caráter político, o assunto ter-se-ia esgotado. Teria, não sei, a história de um dissidente ou de um preso político, isto e aquilo e já seria praticamente tudo. Tenho dissidentes em alguns dos meus romances. Em "O Romance da Minha Vida", há uma personagem que se encontra nessa condição em Cuba, um escritor que se foi radicalizando politicamente e se tornou um dissidente. Mas volto a citar Milan Kundera. Milan Kundera diz que o problema do escritor dissidente é que tem de começar a alimentar o dissidente mais do que o escritor. Por isso, prefiro alimentar o escritor e dizer as coisas que tenho de dizer com a maior liberdade possível, sem transformar a minha literatura num panfleto político, num documento político.
E os seus livros são publicados em Cuba?
Muitos dos meus livros foram publicados em Cuba. Bem, os primeiros livros do Conde foram publicados, "O Romance da Minha Vida" e até "O Homem que gostava de cães". Fiz uma apresentação quando foi lançado em Cuba e disse que estava a assistir a um evento a que nunca pensei que assistisse, que era a publicação desse romance em Cuba. Os últimos seis livros, quatro romances, o livro de ensaios, "Água por toda a parte" e o livro "Ir a Havana", não foram publicados em Cuba. Dizem-me que é por falta de papel e sei que não há papel, mas acho que também falta um pouco de vontade de publicar os livros.
Alguns youtubers tinham uma fila de 500 pessoas e os escritores tinham uma fila de 20. Esse youtuber vende 10 vezes mais do que o escritor. Então, isso torna muito complexa a relação com a leitura dos jovens – e não há mal nenhum em as pessoas lerem o youtuber. O que está errado é ler apenas o youtuber. Se o youtuber servir de trampolim para que esse jovem passe depois para uma literatura que o possa ajudar a compreender o mundo, que lhe permita desenvolver a sua cultura e torná-lo mais compreensivo, isso seria o ideal
Censura, essencialmente?
Sim, mas é uma censura que não se pode comprovar. Não se pode comprovar porque é real, é real que não há papel. Então, dizes: bem, é verdade que não há papel, mas também podes pensar que não há vontade de publicar esses livros. De qualquer forma, os livros circulam em Cuba por vias alternativas: os livros físicos que as pessoas levam ou conseguem de alguma forma e os livros em versões digitais que passam de mão em mão e circulam através dos meios de comunicação atuais. É muito fácil transmiti-los.
E quais são os comentários dos leitores?
Tenho muitos leitores em Cuba e, em geral, faço poucas apresentações públicas lá porque, bem, se os meus livros não forem publicados, as universidades não me convidam. Mas, nas que já fiz, vi muitas pessoas, por vezes mais do que as que cabem nos locais onde as realizo, e muitas delas são jovens. Isso dá-me uma certa esperança de que estes jovens tenham uma relação com a minha literatura que é muito importante, porque não se trata apenas de falar do que foi, mas de falar do que está a acontecer. O facto de ter essa aceitação por parte de pessoas de outras gerações é importante.
Mas dizem muitas vezes que os jovens não estão interessados em ler.
Há muitos jovens que não estão interessados em ler, mas também há muitos jovens que continuam interessados em ler. O que acontece é que este é um tema muito complexo sobre o qual poderíamos falar durante horas, mas vou resumir-lhe a questão. Acho que, hoje em dia, as pessoas leem mais do que nunca. O que acontece é que leem coisas diferentes. Vai no metro e vê muita gente a ler, mas estão a ler no telemóvel, já não estão a ler livros. Ou seja, as pessoas leem mais. Leem a outro ritmo. Fico horrorizado quando, por exemplo, abro certos sites de notícias e me dizem que o que vou ler demora dois minutos. Isso atrai o leitor, dizendo-lhe que vai investir pouco tempo. Quando investes pouco tempo, geralmente investes poucos neurónios.
De qualquer forma, os números das editoras de todo o mundo dizem que continuam a vender-se muitos livros. Aí, e é por isso que digo que é um tema muito complicado, há alguns livros que são fabricados. Acabo de chegar da Feira do Livro de Madrid; alguns youtubers tinham uma fila de 500 pessoas e os escritores tinham uma fila de 20. Esse youtuber vende 10 vezes mais do que o escritor. Então, isso torna muito complexa a relação com a leitura dos jovens – e não há mal nenhum em as pessoas lerem o youtuber. O que está errado é ler apenas o youtuber. Se o youtuber servir de trampolim para que esse jovem passe depois para uma literatura que o possa ajudar a compreender o mundo, que lhe permita desenvolver a sua cultura e torná-lo mais compreensivo, isso seria o ideal. Mas, de qualquer forma, acho que sim, que ainda há muitos jovens que leem, felizmente.
Espero que a solução não seja militar. O que tenho dito muitas vezes nestes últimos dias é que acredito que Cuba deve mudar, tem de mudar em muitos aspetos; não porque o governo dos Estados Unidos obrigue o governo cubano a fazê-lo, mas porque os cubanos precisam que Cuba mude para que Rodolfo e Nora não se encontrem nessa situação de vulnerabilidade e desproteção na sua velhice
É um pouco o jogo do capitalismo que as editoras têm de jogar: investir num youtuber para investir no escritor que nos faz pensar.
Sim, sem dúvida que o livro faz parte de um mercado e, como se sabe, os mercados são bastante cruéis, mas necessários. Na Feira de Madrid, comentei isto com uma pessoa que me perguntou o preço de um livro. A livreira disse-lhe, e eu acrescentei: "Olha, este livro na Argentina custa o dobro." Custava 20 euros, mais ou menos. Na Argentina custa 40 dólares (34,46 euros) e acho que não é muito caro. E ela disse-me: "Bem, isso depende." Respondia: "Não, olha, o problema é que esse livro que tens na mão percorreu uma cadeia composta por um escritor, uma editora, uma editora onde há editores, designers, revisores e depois uma gráfica, e dessa gráfica saem uns comerciais que iniciam a distribuição do livro, é preciso armazenar o livro, levá-lo à livraria e o livreiro coloca-o nas tuas mãos. Vê quantas cadeias de pessoas existem para que o livro chegue até ti." E isso funciona graças ao mercado. Por isso, temos de considerar o mercado como um mal necessário.
A situação em Cuba, que já não era boa, agravou-se com a pandemia. Receia que a liderança de Donald Trump e as ameaças de uma intervenção militar piorem ainda mais o panorama?
Neste momento, todas as alternativas estão em cima da mesa. Desde uma intervenção militar, que pode ocorrer, até à famosa fórmula d"O Leopardo": mudar tudo para que nada mude. Portanto, no meio, há muitas possibilidades. Uma intervenção militar é sempre um ato violento que pode ter muitas consequências. Pode até ter consequências como as da Venezuela: mudar algo para que nada mude. Portanto, não sei o que pode acontecer, nem quando pode acontecer, e se algo vai acontecer. Não sei. Estamos a viver um momento de total incerteza em relação ao futuro mais próximo, ao que pode acontecer amanhã, na próxima semana, daqui a um mês. O governo de Trump tem aplicado essa política de pressão máxima sobre Cuba. Tem surtido efeito porque, por exemplo, a falta de combustível é uma questão que afeta imediatamente uma sociedade, pois o país está meio paralisado e as pessoas estão a viver com 30 horas de apagão. Não sei se o governo cubano tem recursos para comprar o combustível necessário e se consegue alterar o sistema das centrais termoelétricas cubanas para que funcionem bem. Não sei. Mas o facto de não terem combustível afeta diretamente essa questão. Por isso, espero que a solução não seja militar. Espero que não seja militar, porque o que tenho dito muitas vezes nestes últimos dias é que acredito que Cuba deve mudar, tem de mudar em muitos aspetos; não porque o governo dos Estados Unidos obrigue o governo cubano a fazê-lo, mas porque os cubanos precisam que Cuba mude para que Rodolfo e Nora não se encontrem nessa situação de vulnerabilidade e desproteção na sua velhice e para que não ocorram muitas outras coisas dolorosas que estão a acontecer em Cuba neste momento.


