Um novo relatório do World Inequality Lab (WIL) admite que é possível melhorar significativamente os níveis de vida da população mundial, reduzir as desigualdades económicas e manter o aquecimento global abaixo dos 2°C até ao final do século.
Apresentado como uma das análises mais abrangentes sobre os desafios interligados das alterações climáticas, da desigualdade social e da instabilidade política, o Global Justice Report propõe um conjunto de medidas estruturais destinadas a construir uma sociedade mais justa dentro dos limites ecológicos do planeta.
Entre as principais recomendações estão a aplicação de impostos elevados sobre as grandes fortunas, em particular sobre os multimilionários, a redução substancial do tempo de trabalho, alterações nos padrões alimentares, com menor consumo de carne vermelha, e uma reorientação do investimento para setores como a educação e a saúde.
Segundo os autores, citados pelo The Guardian, a implementação destas medidas permitiria duplicar os rendimentos de cerca de 89% da população mundial até 2100, ao mesmo tempo que limitaria o aumento da temperatura média global a 1,8°C face aos níveis pré-industriais.
O relatório foi elaborado por 45 investigadores com base em dados recolhidos por mais de 200 especialistas de vários países. No centro da proposta está o conceito de “suficiência”, que defende a possibilidade de assegurar vidas prósperas e saudáveis sem depender de um aumento constante do consumo material.
Entre as mudanças sugeridas encontra-se a redução do tempo médio anual de trabalho de cerca de 2.100 para 1.000 horas por ano, equivalente a uma semana laboral de aproximadamente dois dias e meio. Os autores defendem ainda uma forte expansão dos investimentos em educação e saúde, setores que apresentam uma pegada material e energética significativamente inferior à da indústria transformadora.
A redução das desigualdades é outro dos pilares do plano. O relatório prevê que, até ao final do século, o rendimento médio mundial possa atingir os 5.000 euros mensais por pessoa. Os maiores ganhos ocorreriam nos países do Sul Global, enquanto os mais ricos seriam alvo de uma maior tributação. Neste cenário, a parcela da riqueza mundial detida pelos multimilionários passaria dos atuais 6% para apenas 0,05%, enquanto a quota dos 50% mais pobres aumentaria de 2% para 30%.
No plano climático, os investigadores defendem uma aceleração do investimento em energias renováveis, como a solar e a eólica, através da transferência de capital das maiores fortunas para financiar a transição energética. O objetivo seria alcançar uma descarbonização quase total do sistema energético mundial até meados do século.
Para concretizar estas metas, o relatório propõe a criação de um Fundo Global para a Justiça, destinado a financiar a transição energética e a expansão dos serviços públicos, bem como de um fundo soberano mundial que contribua para uma distribuição mais equilibrada da riqueza.
Thomas Piketty, economista francês e coautor do estudo, considera que a combinação entre justiça social e ação climática é indispensável. Segundo o investigador, políticas ambientais que ignorem as desigualdades sociais correm o risco de gerar contestação e fracassar politicamente.
“A construção de um século XXI habitável e mais igualitário é materialmente possível. O principal obstáculo não é técnico, mas político”, conclui o relatório.
O documento foi debatido durante a Conferência Mundial sobre Desigualdade, que decorre entre 4 e 6 de junho, em Paris, reunindo académicos e especialistas de várias áreas.
(Notícia SAPO)
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