Uma mera reflexão
Rousseau é, juntamente com Bento Espinoza (um século antes), um dos maiores filósofos de todos os tempos e é, seguramente, o teórico da política mais influente ombro a ombro com o filósofo posterior (século dezanove) Karl Marx. É habitual dizer-se que Hume foi o inspirador máximo de Imanuel Kant. Eu julgo que não. Não Existiria Kant sem Rousseau e sem a atmosfera proeminente, isso sim, do empirismo inglês e francês. Kant tentou renovar a metafísica , sem a qual, sem qualquer forma transcendente, não seria possível renovar a ética, distinguindo as matemáticas e a ciência em geral, da filosofia.
Ora, Rousseau foi o anti iluminista por excelência. É o oponente máximo do pensamento positivista (ou proto-positivista) que se anunciava no iluminismo francês (muito mais pró-ciência do que o empirismo inglês céptico de David Hume).
Rousseau foi racionalista, não irracionalista sem equívocos e sem reservas. Contudo, há mais do que um modo de entender o racionalismo. Rousseau não admitia a hegemonia da Razão soberana. Nem no conhecimento verídico, mas muito menos na moral. E aqui, pelo menos aqui, isso torna Kant bem próximo. As emoções e os sentimentos desempenham um papel decisivo na consciência e na mente. A Razão não serve para contrariar ou submeter o sentimento, bem pelo contrário ; sem o sentimento não tomaríamos atudes racionais, não construiríamos teorias para ara vida e para aas sociedades, racionais. O racionalismo cartesiano é a primazia do ego, do eu egoísta que tem a pretensão de achar as melhores soluções sozinho, de viver solitário. Ora, as sociedades são coletivos de indivíduos. Não existe nem nunca existiu um homem sozinho. Nos tempos e nos lugares onde os homens se solidarizavam, recusando hierarquias, egoísmos e o domínio de castas de sangue, de castas de académicos que submetiam ignorantes, de padres que submetiam os crentes ingénuos e temerosos, nesses tempos e nesses lugares os homens foram, são ou serão, felizes. Sem dedos do Além e dos poderosos de Aquém. Rousseau não recusava de modo nenhum a vida social, as sociedades, o que ele recusava eram os novos costumes, as novas culturas, o pior da Época moderna. O que observava à sua volta era a miséria , a ignorância, o medo e a vaidade. A nova sociedade, grávida do capitalismo, senão mesmo mãe já dos males do capitalismo que cresciam depressa, era a culpada dos vícios, da solidão e da melancolia que ele observava nos homens e mulheres cultas. E ele conviveu toda a vida com aristocratas e mulheres intelectuais de valor.
A Revolução Industrial que ele, no fim da vida, já adivinhava, os progressos das técnicas que já vinham desde , pelo menos, o século dezassete, trazia a alienação social e mental, a violência bruta e cada vez mais destrutiva, o luxo desregrado que exaltava a vaidade irracional, essa sim, irracional. Perdia-se o amor pela contemplação da natureza, pela harmonia entre o homem e o ambiente natural, e o que se assistia era já à destruição da natureza original e pura através das novas técnicas e das expropriações cruéis. Guerras entre os proprietários e destes contra os não proprietários. A propriedade privada era a raiz de todos males na época em que ele, Rousseau, vivia. Essa era a sua tese mais subversiva. Porém, não pretendia abolir a propriedade ganha pelo trabalho, mas, antes, a grande propriedade feudal de aristocratas parasitas e não produtivos. Portanto, não existe nada nas obras de Rousseau, congruentemente, que defenda uma utopia regressiva, i. e. a eliminação revolucionaria das sociedades modernas e o regresso a uma vida idêntica ao modo da vida dos hotentotes, dos índios das Américas. Quem vai levar as teses de Rousseau às últimas consequências, é um abade ateu e comunista, de nome Dom Deschamps, o qual elabora como solução salvífica radical, a comunhão dos bens e o regresso literal a uma sociedade de "bons selvagens".
Rousseau acusa a apropriação privada, a exploração do homem pelo homem, a cultura que desenvolve vícios e vaidades, os regimes políticos que, sob o domínio dos ricos, submetem os pobres e os pequenos proprietários. Rousseau é um pioneiro do cooperativismo. De uma sociedade onde, pela sua reduzida dimensão, fosse possível todos possuírem algo de seu para não dependerem de ninguém, exceto da cooperação.
Para Rousseau era essa a igualdade social e era nesta cooperação fraterna que se tornaria não só válida, mas necessária, uma única vontade, a Vontade Geral. Não uma sociedade em que todos pensariam da mesma maneira, ou que uns tantos impusessem a sua maneira de pensar com a justificação de que era amais racional, mas uma sociedade onde se governaria todos e cada um pela igualdade política. Essa igualdade política começaria no sufrágio universal e livre. Uma sociedade na qual fossem as assembleias populares a decidir o seu seu destino, e representantes , ainda que eleitos, fossem dispensáveis nos rumos e nas estratégias económicas e políticas. Poderiam existir mas como necessidade de administração, meros burocratas.
.........................Nozes Pires
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