Refiro-me à Inglaterra ou se quisermos à Grã-Bretanha. O tema
dava para uma tese de doutoramento. Recuando no tempo, convém lembrar
como durante os séculos XVI e XVII, a monarquia inglesa abraçou a
pirataria como um instrumento de política externa e como no século XVIII
a descartou quando já não lhe era conveniente, como a considerou fora
da lei e passou a perseguir os piratas. Este princípio da conveniência
com pouco apego a princípios éticos tem vindo a nortear a política
externa inglesa desde então.
Os oligarcas russos conhecem esta realidade em primeira mão.
Inicialmente foram recebidos de braços abertos. A City funcionou durante
muitos anos como a lavandaria industrial do seu dinheiro. Era a
participação nos fundos de investimentos, nas cadeias de hotéis, nos
iates e nos clubes de futebol, mas quando isso se tornou inconveniente
não tiveram qualquer pejo em os esfaquear pelas costas e congelar os
seus bens e o seu dinheiro. Está bem presente o que aconteceu a Roman
Abramovich e com o dinheiro da venda do Chelsea.
É assim que a Grã-Bretanha se tem comportado, e se continua a
comportar, não se inibindo de se autoproclamar um baluarte dos valores
liberais, que se desvanecem de imediato quando cheira a poder e
dinheiro. Não se estranha, por isso, que Londres tenha estendido a
carpete vermelha a ditadores e oligarcas. Recorde-se a proteção de Tony
Blair ao general Augusto Pinochet, cujo regime foi responsável por
milhares de mortes e desaparecidos, numa deslocação a um hospital
londrino para tratamento.
A recusa do Governo britânico a cumprir o mandado de captura
internacional contra Pinochet, emitido pelo juiz espanhol Baltazar
Garzón, foi sustentada pela decisão da Câmara dos Lordes (à época o
supremo tribunal) que entendeu que o princípio da imunidade de um
ex-chefe de estado prevalecia sobre as normas de direito internacional
relativas ao crime de tortura. Pinochet regressou ao acolhedor regaço de
Santiago do Chile, em 2000, onde morreu pacificamente com uma provecta
idade. Como prova da sua mentalidade pirata, o Governo inglês recusou-se
a cumprir as normas do direito internacional, apesar de hipocritamente
ter assinado em 1998 o Estatuto de Roma (que cria o Tribunal Penal
Internacional) e o ter ratificado em 2001.
Embora este texto não adiante nada que não se saiba e não seja
público, convém relembrar alguns acontecimentos procurando contrariar o
revisionismo histórico em curso, ciente de que será sempre exíguo o que
se escrever sobre a matéria.
A revisão histórica passa pela família real quando mudou de
nome para esquecer a sua origem germânica. Antes de Windsor, a casa real
britânica chamava-se Saxe-Coburg e Gotha, mas em 1917, durante a I
Grande Guerra, devido ao forte sentimento antigermânico existente no
Reino Unido, o rei Jorge V achou por bem metamorfosear as suas origens e
passar a chamar-se Windsor.
Segundo o historiador Stuart Laycock, os britânicos invadiram
ou participaram em conflitos em 171 países, dos 193 que integram
atualmente a ONU, tendo tido uma presença militar em cerca de 90% deles.
Numa estimativa conservadora, o número de mortes causadas pelo império
britânico nestas guerras ao longo dos séculos rondarão os 100 milhões.
Não admira que os britânicos sejam responsáveis por grande parte da
conflitualidade e dos problemas que presentemente defrontamos.
Basta lembrar-nos das quezílias entre a India e o Paquistão, o
Afeganistão, o Médio Oriente, Chipre. Foi este o legado que nos deixaram
cabendo às gerações atuais resolvê-los. Os britânicos conseguiram um
feito de longe superior ao milagre das rosas da Rainha Santa Isabel,
quando prometeram um território que não lhes pertencia a três
compradores distintos: aos árabes para os ajudarem na luta contra o
Império otomano, aos franceses com o tratado Sykes-Picot e aos judeus
através da declaração Balfour, sendo assim os grandes responsáveis por
décadas de morte e sofrimento. No novelo das confusões podíamos
acrescentar o Afeganistão e a Nigéria, entre muitos outros casos.
A Grã-Bretanha é igualmente responsável pelo processo da
partição da Índia em dois países, uma das maiores tragédias humanitárias
do século XX, marcada por violência comunal em massa, deslocamento
forçado e sofrimento extremo. Causou cerca de 1 milhão de mortos, 12 a
20 milhões de deslocados e cerca de 75 mil mulheres estupradas,
sequestradas ou forçadas a casamentos/conversões. Para não falar da
repressão sangrenta do movimento anticolonial pacífico liderado por
Mahatma Ghandi. A Grã-Bretanha não pode alijar responsabilidades por
estes acontecimentos.
Nos dias que correm sente-se a nostalgia britânica do Império
onde o sol não se punha. O Brexit foi uma tentativa fracassada de fazer
voltar o tempo para trás e matar esperanças vãs. O sempre excelso e
honesto ex-primeiro-ministro Boris Johnson afirmou que o colonialismo em
África nunca devia ter acabado e desvalorizou o papel da Grã-Bretanha
na escravatura.
Para satisfazer esse sonho das glórias passadas, Johnson veio
falar de uma “Global Britain” como a opção estratégica nacional a adotar
no pós-Brexit, alimentando um sonho irrealizável. Talvez efeito de
alucinações, o documento que dava voz a essa ambição identificava a
clara intenção de alargar a influência britânica à região do
Indo-Pacífico, mesmo quando o fundo dos cofres já estava à vista e a
enorme dificuldade em operar a sua frota de guerra era por demais
evidente. Ben Barry dá no seu livro
The Rise and Fall of the British Army, 1975-2025, uma explicação sobre o estado atual das forças armadas britânicas, expondo o irrealismo de tais propostas.
Manobrando cinicamente pela porta do cavalo, minando a sua
"special relationship" com os EUA, e reconhecendo implicitamente a farsa
da "Global Britain", Londres escreveu o guião que o primeiro-ministro
canadiano Mark Carney, Governador do Banco de Inglaterra de 2013 a 2020,
leu no Fórum Económico Mundial, em Davos (2026), em que alertava para a
necessidade de as médias potências se unirem e trabalharem em conjunto —
formando coligações ou uma espécie de “aliança das médias potências” —
para se protegerem e terem voz num mundo marcado pela rivalidade entre
grandes potências e pelo fim da ordem internacional baseada em regras.
Washington não dorme, está ciente de quem foram os autores da ideia.
E lá foi o rei Carlos III a Washington, em 2026, tentar salvar o
que ainda resta da "relação especial" entre os EUA e o Reino Unido,
procurando evitar a repetição de humilhações semelhantes à sofrida na
crise do Suez (1956), quando o presidente Eisenhower mandou as forças
britânicas, francesas e israelitas calar as armas e retirarem-se do
Egito. Mais recentemente, na sequência do Global Britain, quando Londres
anunciou o desejo de manter dois vasos de guerra permanentemente no
Indo-Pacífico, o Pentágono educadamente “desencorajou” a proatividade
britânica dizendo a Londres que era um aliado mais útil se dedicasse a
sua atenção à Europa.
A narrativa política e a hipocrisia confundem-se
permanentemente na política externa britânica. Como afirmou o antigo
presidente do Conselho de segurança da ONU Kishore Mahbubani “quando a
China estava fraca e indefesa, o Ocidente [a Grã-Bretanha] forneceu ópio
à China, quando a China está forte e bem-sucedida, o Ocidente [a
Grã-Bretanha] exporta a sua democracia.” Quando os britânicos falam em
direitos humanos, talvez irlandeses e indianos, entre muitos outros
povos, tenham alguma palavra a dizer sobre o sofrimento e as humilhações
que os britânicos lhes causaram. Os povos autóctones da Austrália têm
bem presente o que foi o respeito pelos seus direitos quando começaram a
chegar ao território os galeões de sua Majestade carregados com a fina
flor da escória prisional britânica, que para aliviar o seu sistema
prisional os despachou para o degredo no Novo Mundo.
E voltando ao insuspeito Huntington, o “Ocidente ganhou o mundo
não pela superioridade das suas ideias, ou valores ou religião… mas
pela sua superioridade na aplicação da violência organizada. Os
ocidentais esquecem frequentemente esse facto; mas os não ocidentais
nunca esquecerão”. Isso aplica-se à peugada deixada pelos britânicos no
mundo.
Na sequência do que disse Kishore, são muitos os povos que não
esquecem. As populações autóctones daquilo que é hoje a Austrália e os
EUA têm presente as “vicissitudes” a que foram sujeitas. Falamos da
limpeza étnica feita de uma forma sistemática.
Os chineses serão o povo com maiores razões de queixa das
humilhações a que foram sujeitos pelos britânicos. Dificilmente
esquecerão os acontecimentos do século XIX quando lhes foi imposta pelos
britânicos a obrigatoriedade de lhes comprar ópio para colmatar o
desequilíbrio das trocas comerciais. Talvez motivados por um imenso
espírito civilizacional, acrescentaram uma nova dimensão à pirataria: o
tráfico e a venda de droga.
Quem visita o Palácio de Verão em Pequim vê à entrada dos
diferentes pavilhões uma placa que lembra ter sido aquele local
totalmente destruído pelas forças franco-britânicas em dezembro de 1860,
não sem antes o terem saqueado e incendiado. Os artefactos do Palácio
de Verão (Yuanmingyuan) resultantes do furto foram dispersos por várias
coleções públicas e privadas inglesas, em vários museus, pertencendo
alguns deles à Coleção Real. É mesmo difícil esquecer.
O “cosmopolitismo” britânico está patente nos muitos bens
culturais que adornam as coleções dos seus museus, não por doação, mas
pelo saque ilegal dos países “visitados” em África, Ásia, América Latina
e até mesmo na Europa rivalizando nesta matéria com os franceses. Esses
objetos são património cultural e histórico não da Grã-Bretanha, mas
dos Estados a que foram “subtraídos”.
O British Museum (Londres) concentra grande parte desse
espólio, tendo no Louvre um grande rival. Aí encontra-se a maior coleção
individual de “Bronze do Benin” (Nigéria), com mais de 900 objetos.
Alberga ainda a Estupa de Amaravati da Índia; esculturas do Partenon
(também conhecidas como Mármores de Elgin ou Parthenon Marbles); a Pedra
de Roseta do Egipto; estátuas da Ilha de Páscoa. E tantos outros
dispersos por outros museus. O Diamante Koh-i-Noor encontra-se na Torre
de Londres exposto na Jewel House, juntamente com as outras Joias da
Coroa Britânica.
Mas o dilacerante amor britânico pela cultura dos outros povos é
rapidamente posto de lado quando o vil metal entra em jogo. Quando
acordos para a devolução dos objetos são alcançados, não lhes subjaz um
motivo humanitário, têm como pano de fundo razões políticas e
económicas. Em 2024, uma escultura de bronze do século XVI de Tirumangai
Alvar foi devolvida à Índia porque Londres queria concluir um acordo de
livre comércio com Nova Deli.
Em 1953, quando o primeiro-ministro Mossadehg iraniano teve a
ousadia de nacionalizar a indústria petrolífera, numa operação que está
devidamente documentada, o MI6 e a CIA organizaram conjuntamente um
golpe de estado para derrubar um primeiro-ministro democraticamente
eleito, e no seu lugar colocarem um déspota servil e vassalo, uma
prática anglo-saxónica replicada ao longo da história.
A invasão do Iraque, em 2003, não difere essencialmente do que
aconteceu no Irão, em 1953. É uma repetição da história. Efetuou-se uma
operação de mudança de regime com base numa grotesca violação do Direito
Internacional para colocar no poder dirigentes “moldáveis”. O que
estava em causa não eram armas de destruição em massa, mas sim a
partilha do espólio das matérias-primas.
Os dirigentes iranianos ainda se lembrarão da dívida britânica
de £650 milhões ao Irão, na década de 1970, resultante de uma encomenda
1 500 carros de combate Chieftain e 250 veículos de recuperação de
blindados não entregues. Com a revolução em 1979, o Reino Unido cancelou
o contrato e, como fez com os oligarcas russos, ficou com o dinheiro.
Apesar da arbitragem internacional ter confirmado uns anos mais tarde a
dívida, o Reino Unido ainda não a pagou e nunca devolveu o dinheiro.
As parcerias com o Reino Unido requerem cautela e atenção de
quem as celebra. Os britânicos não são exatamente os pares mais fiáveis.
Londres nunca abdica de correr no seu próprio carril independente dos
objetivos comuns celebrados. Foi assim na "special relationship" que
mantém com os EUA (por exemplo, no Afeganistão e agora na Ucrânia) e que
manteve com a UE, quando foi Estado-membro.
O Reino Unido participou na Política Comum de Segurança e
Defesa (PCSD) da União Europeia alinhada com os objetivos geopolíticos
dos EUA, atuando como o seu "braço direito" no seio do aparelho
institucional da UE para que esta não se consolidasse. Fez tudo o que
estava ao seu alcance para impedir que a PCSD se desenvolvesse e
aprofundasse, obstruindo e minando qualquer tentativa da UE para
construir uma capacidade militar autónoma e credível. Para isso muito
contribui a britânica baronesa Catherine Ashton quando foi nomeada para o
cargo de Alta Representante da União para os Negócios Estrangeiros e
Política de Segurança e, por acumulação, chefe da Agência Europeia de
Defesa, que de uma forma sustentada a tentou matar à nascença.
Apesar do Império Britânico já não existir, o Reino Unido ainda
possui 14 territórios ultramarinos por todo o mundo. Estes territórios
estão sob soberania britânica, mas não fazem parte do Reino Unido, e
cada um tem o seu próprio governo, sendo o Reino Unido responsável pela
sua defesa e relações externas. Falamos de Gibraltar, das Ilhas
Malvinas, Ilhas Caimão e o Território Antártico Britânico,
garantindo-lhe uma presença em locais geoestrategicamente relevantes. A
ocupação de Chipre e o legado colonial não foi abandonado. Ao que se
pode juntar as ilhas Chago e Madagáscar.
Uma rápida incursão no tema não podia deixar de referir o
comportamento do Reino Unido (e da França) nos tempos que antecederam a
II Guerra Mundial e que levaram ao sacrifício da Checoslováquia, em
1938, e oferta formal de uma "cooperação" abrangente com a Alemanha
nazi. Os Dirksen Papers trazem à luz do dia as conversações de Londres
com Berlim, através de canais secretos, sobre o alcance dessa tentada
parceria, a qual incluía um realinhamento das "esferas de interesse das
Grandes Potências", abrindo a porta a uma maior expansão territorial
nazi.
Portugal
O relacionamento da Grã-Bretanha com Portugal não foi diferente
daquele que teve com outros países, apesar da tão propalada mais antiga
aliança do mundo. Salvaguardando as escassas exceções, é notória a
sobranceria com que as elites britânicas olham para Portugal e para os
portugueses. O “Ultimato inglês” de 1890 constituiu o maior vexame
imposto pela Grã-Bretanha a Portugal. Exigia que Portugal retirasse as
suas forças militares dos territórios compreendidos entre Angola e
Moçambique, aquilo que ficou para a história como o “mapa cor-de-rosa”,
sob a ameaça do corte de relações e do uso da força militar caso
Portugal não recuasse de imediato, uma forma pouco amistosa de tratar um
aliado, quando existe um conflito de interesses.
Há, no entanto, quem em Portugal olhe ingenuamente para a
Grã-Bretanha como o salvador do país em momentos críticos da sua
história. É verdade que nos ajudaram quando lhes era conveniente, nunca
de uma forma altruísta, funcionando Portugal como um proxy nas querelas
que mantinha com os seus oponentes. O território português não passava
uma peça no tabuleiro de xadrez das grandes potências da época e da
Grã-Bretanha, em particular.
As humilhações foram demasiado frequentes para quem se arroga
de aliado histórico. Aquando da fuga da corte, do Governo português e de
toda a elite portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1807, os britânicos
escoltaram os navios portugueses, mas em troca de privilégios comerciais
e de um estatuto de preferência no Brasil, materializado mais tarde nos
Tratados de 1810 (de Aliança e Amizade, e de Comércio e Navegação),
assinados no Rio de Janeiro, que deram amplas vantagens comerciais aos
ingleses na colónia. Consumou-se assim a progressiva subserviência dos
interesses portugueses aos dos britânicos (tinham representação judicial
própria, de que já gozavam em Portugal, os litígios que envolvessem
súbditos britânicos só podiam ser julgados por juízes britânicos, as
tarifas alfandegárias pagas pelos comerciantes ingleses eram inferiores
às dos brasileiros, etc). As humilhações não se limitaram a este período
histórico, como é sabido.
A geografia determina que Portugal mantenha sempre uma relação
privilegiada com a potência marítima. Isso foi válido no passado e
continua a ser válido no presente. Compreendiam-se algumas “cedências”
nos tempos em que a Grã-Bretanha tinha esse estatuto, que já não tem e
não voltará a ter. Hoje, os EUA são a potência marítima. Por isso, não
se entende a contínua bajulação nacional, que os ingleses regurgitam, e a
subserviência a quem nos tramou sempre que lhe era conveniente.
Talvez a anglofilia acéfala tenha atingido o seu o zénite, em
2023. Não se entendem as razões profundas que levaram o então presidente
da República Marcelo Rebelo de Sousa a deslocar-se a Londres em junho
de 2023, para comemorar os 650 anos da Aliança Luso-Britânica e
condecorar o monarca britânico com o Grande Colar da Ordem da Torre e
Espada. Não havia necessidade de tremenda adulação a quem, ainda por
cima, se encontra em profunda decadência e a caminho da quase
irrelevância estratégica.
Fica muito por dizer, mas o que foi dito parece mais do que
suficiente para mostrar que quem teve os comportamentos apontados, quem
apoia sem pudor as ações genocidas de Telavive, devia ter alguma
contenção antes de dar lições morais sobre direitos humanos e terrorismo
aos outros. Não será por acaso que a expressão “pérfida Albion”, da
autoria do Marquês de Ximenes, passados dois séculos continua atual.
Haja vergonha, decência e brio.