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domingo, 16 de agosto de 2026

 

HISTÓRIA DA OMISSÃO DA HISTÓRICA PROPOSTA ANTI-NAZI DA URSS
OU CURTA CRÓNICA SOBRE O LONGO BRAÇO DA MENTIRA
A 15 de Agosto de 1939, duas semanas antes da invasão hitleriana da Polónia, a URSS propôs às potências “ocidentais” um pacto anti-nazi. Ofereceu um milhão de soldados soviéticos para integrar uma força militar, e situá-la em torno da Alemanha. O dispositivo aliado assim formado disporia do dobro dos recursos bélicos de Hitler cuja aventura teria muito provavelmente acabado antes de começar, pelo menos na escala do que viria a ser a II Grande Guerra. Mas, EUA, França, Reino e Unido e Polónia recusaram.
Por um lado, por estarem confiantes em que Hitler podia acabar com a União Soviética (ao invés do que lhes tinha sucedido com a falhada invasão que perpetraram logo após a revolução russa de 1917). E, por outro lado, por se encontrarem comprometidos com Hitler desde 1938 na sua não-objeção à invasão alemã da Checoslováquia, no Pacto de Munique.
A omissão da proposta soviética não pode ser meramente posta na conta de mais um insignificante detalhe omitido na História moderna do mundo. É um dado fundamental, que tem sido sistemática e cuidadosamente silenciado desde então. Nunca a imprensa daquela época ou doutra, durante todas estas décadas o mencionou. A historiografia também não. Muito menos os manuais de história pelos quais, em todo o “ocidente”, gerações de crianças, jovens e respetivos professores têm sido formados.
Em contrapartida, todos nós somos servidos pela litania do pacto Estaline-Hitler de 1941, um facto histórico, que a URSS, todavia, explicou destinar-se a ganhar tempo para deslocar para oriente todo o seu dispositivo industrial-militar e preparar-se para a contraofensiva anti-nazi que, quando começou após Estalinegrado, em 1943, só parou em Berlim em Maio de 1945.
O silenciamento da proposta soviética aos aliados em 1939 e a propagação pelos megafones da propaganda da Meia-História do pacto com a Alemanha fazem, ambos, parte de uma monstruosa falsificação ideológica que permitiu ao “Ocidente” 1) apresentar, a milhões de cidadãos seus, Hitler e Estaline, a URSS e a Alemanha nazi e o comunismo e o fascismo como afinidades “naturais”, duas faces da mesma moeda e 2) enfatizar a historieta do “Ocidente” livre e democrático contra as forças das ditaduras.
Gerações inteiras foram assim doutrinadas. Portanto, o que estas revelações recentes vêm dizer-nos é que a identidade entre comunismo e fascismo não só não resulta dos factos, como só resulta contra os próprios factos.
Estaline oferecia para o dispositivo um milhão de soldados soviéticos (“20 divisões de infantaria (cada uma com cerca de 19 000 soldados), 16 divisões de cavalaria, 5 000 peças de artilharia pesada, 9 500 tanques e até 5 500 caças e bombardeiros nas fronteiras da Alemanha, no caso de uma guerra no Ocidente, como revelam as atas desclassificadas da reunião”, entre os responsáveis soviéticos e ocidentais, a 15 de agosto de 1939.
Este tipo de falsificação política da história com a guerra de 1939-1945 é também altamente sugestivo para irmos compreendendo a falsificação do presente político do envolvimento “europeu” na guerra na Ucrânia e nas campanhas de propaganda em que se baseiam as teses de que “ajudar o povo ucraniano” é sustentar o regime de Kiev.
Além de uma tradução integral do artigo do Telegraph de 2008 explicando o alcance da proposta soviética anti-nazi https://www.telegraph.co.uk/.../Stalin-planned-to-send-a..., deixo uma série de ligações para fontes primárias e secundárias à disposição de quem quiser aprofundar o assunto e perceber até que ponto a mentira pode não só não ter perna curta, mas braços longos.
E também, já agora, para que, à luz da historieta com que temos sido ideologicamente intoxicados durante décadas, não se julgue que eu endoideci de vez:
Tradução do artigo integral do Telegraph, de 18.10.2008:
“Estaline «planeava enviar um milhão de soldados para deter Hitler, caso a Grã-Bretanha e a França concordassem com um pacto»
Estaline estava «disposto a mobilizar mais de um milhão de soldados soviéticos para a fronteira alemã, a fim de dissuadir a agressão de Hitler, pouco antes da Segunda Guerra Mundial»
Por Nick Holdsworth, em Moscovo 18 de outubro de 2008 • 17h16
Documentos que permaneceram secretos durante quase 70 anos revelam que a União Soviética propôs o envio de uma poderosa força militar, numa tentativa de convencer a Grã-Bretanha e a França a formar uma aliança antinazi.
Tal acordo poderia ter alterado o curso da história do século XX, impedindo o pacto de Hitler com Estaline, que lhe deu carta branca para entrar em guerra com os outros vizinhos da Alemanha.
A oferta de uma força militar para ajudar a conter Hitler foi feita por uma delegação militar soviética de alto nível numa reunião no Kremlin com oficiais britânicos e franceses de alta patente, duas semanas antes do início da guerra, em 1939.
Os novos documentos, cujas cópias foram consultadas pelo The Sunday Telegraph, revelam o vasto número de forças de infantaria, artilharia e aerotransportadas que os generais de Estaline afirmaram poderem ser enviadas, caso as objeções da Polónia à passagem do Exército Vermelho pelo seu território pudessem ser previamente superadas.
Mas a delegação britânica e francesa — instruída pelos seus governos para dialogar, mas sem autorização para assumir compromissos vinculativos — não respondeu à oferta soviética, feita a 15 de agosto de 1939. Em vez disso, Estaline voltou-se para a Alemanha, assinando o notório tratado de não agressão com Hitler apenas uma semana depois.
O Pacto Molotov-Ribbentrop, que leva o nome dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos dois países, foi assinado a 23 de agosto — apenas uma semana antes de a Alemanha nazi atacar a Polónia, desencadeando assim o início da guerra. Mas isso nunca teria acontecido se a oferta de Estaline de uma aliança ocidental tivesse sido aceite, segundo o major-general reformado do serviço de inteligência exterior russo Lev Sotskov, que organizou as 700 páginas de documentos desclassificados.
«Esta foi a última oportunidade para abater o lobo, mesmo depois de [o primeiro-ministro conservador britânico Neville] Chamberlain e os franceses terem entregue a Checoslováquia à agressão alemã no ano anterior, no Acordo de Munique», afirmou o general Sotskov, de 75 anos.
A oferta soviética — feita pelo ministro da Guerra, marechal Klementi Voroshilov, e pelo chefe do Estado-Maior do Exército Vermelho, Boris Shaposhnikov — teria colocado até 120 divisões de infantaria (cada uma com cerca de 19 000 soldados), 16 divisões de cavalaria, 5 000 peças de artilharia pesada, 9 500 tanques e até 5 500 caças e bombardeiros nas fronteiras da Alemanha, no caso de uma guerra no Ocidente, como revelam as atas desclassificadas da reunião.
No entanto, o almirante Sir Reginald Drax, que liderava a delegação britânica, disse aos seus homólogos soviéticos que estava autorizado apenas a conversar, e não a celebrar acordos.
«Se os britânicos, os franceses e a sua aliada europeia, a Polónia, tivessem levado esta oferta a sério, então, juntos, poderíamos ter colocado cerca de 300 ou mais divisões no terreno em duas frentes contra a Alemanha — o dobro do número que Hitler tinha na altura», afirmou o general Sotskov, que ingressou nos serviços secretos soviéticos em 1956. «Esta foi uma oportunidade para salvar o mundo ou, pelo menos, para travar o lobo.»
Quando questionado sobre quais as forças que a própria Grã-Bretanha poderia mobilizar no Ocidente contra uma possível agressão nazi, o almirante Drax afirmou que havia apenas 16 divisões prontas para o combate, deixando os soviéticos perplexos com a falta de preparação da Grã-Bretanha para o conflito iminente.
A tentativa soviética de garantir uma aliança antinazi envolvendo britânicos e franceses é bem conhecida. Mas nunca antes tinha sido revelada a extensão até onde Moscovo estava disposta a ir.
Simon Sebag Montefiore, autor dos best-sellers «Young Stalin» e «Stalin: The Court of The Red Tsar», afirmou que era evidente que havia detalhes nos documentos desclassificados que eram desconhecidos dos historiadores ocidentais.
«Os pormenores da oferta de Estaline sublinham o que já se sabe: que os britânicos e os franceses podem ter perdido uma oportunidade colossal em 1939 para impedir a agressão alemã que desencadeou a Segunda Guerra Mundial. Isso mostra que Estaline pode ter estado mais empenhado do que pensávamos ao propor esta aliança.»
O professor Donald Cameron Watt, autor de How War Came — amplamente considerado o relato definitivo dos últimos 12 meses antes do início da guerra — afirmou que os detalhes eram novos, mas mostrou-se cético quanto à alegação de que tivessem sido explicitados durante as reuniões.
«Não houve qualquer menção a isto em nenhum dos três diários da época, dois britânicos e um francês — incluindo o de Drax», afirmou. «Pessoalmente, não acredito que os russos estivessem a falar a sério.»
Os arquivos desclassificados — que abrangem o período desde o início de 1938 até ao início da guerra em setembro de 1939 — revelam que o Kremlin tinha conhecimento da pressão sem precedentes que a Grã-Bretanha e a França exerceram sobre a Checoslováquia para apaziguar Hitler, cedendo a região de etnia alemã dos Sudetas em 1938.
«Em todas as fases do processo de apaziguamento, desde as primeiras reuniões ultra-secretas entre britânicos e franceses, compreendíamos exatamente e em pormenor o que se estava a passar», afirmou o general Sotskov.
«Era evidente que o apaziguamento não se limitaria à cedência da região dos Sudetas pela Checoslováquia e que nem os britânicos nem os franceses moveriam um dedo quando Hitler desmembrasse o resto do país.»
As fontes de Estaline, afirma o general Sotskov, eram agentes dos serviços secretos externos soviéticos na Europa, mas não em Londres. «Os documentos não revelam com precisão quem eram os agentes, mas provavelmente estavam em Paris ou em Roma.»
Pouco antes do infame Acordo de Munique de 1938 — no qual Neville Chamberlain, o primeiro-ministro britânico, deu efetivamente luz verde a Hitler para anexar a região dos Sudetas —, o presidente da Checoslováquia, Eduard Beneš, foi informado em termos inequívocos para não invocar o tratado militar do seu país com a União Soviética face a novas agressões alemãs.
«Chamberlain sabia que a Checoslováquia tinha sido dada como perdida no dia em que regressou de Munique, em setembro de 1938, agitando um pedaço de papel com a assinatura de Hitler», afirmou o general Sotksov.
As discussões ultra-secretas entre a delegação militar anglo-francesa e os soviéticos, em agosto de 1939 — cinco meses após a invasão nazista da Checoslováquia —, sugerem tanto o desespero como a impotência das potências ocidentais perante a agressão nazista.
A Polónia, cujo território o vasto exército russo teria de atravessar para enfrentar a Alemanha, opunha-se firmemente a tal aliança. A Grã-Bretanha tinha dúvidas quanto à eficácia de quaisquer forças soviéticas, pois apenas no ano anterior, Estaline tinha purgado milhares de altos comandantes do Exército Vermelho.
Os documentos serão utilizados por historiadores russos para ajudar a explicar e justificar o controverso pacto de Estaline com Hitler, que continua a ser infame como exemplo de oportunismo diplomático.
«Era claro que a União Soviética estava sozinha e teve de se virar para a Alemanha e assinar um pacto de não agressão para ganhar algum tempo para nos prepararmos para o conflito que se avizinhava claramente», afirmou o general Sotskov.
Uma tentativa desesperada dos franceses, a 21 de agosto, para reativar as negociações foi rejeitada, uma vez que as negociações secretas entre soviéticos e nazis já se encontravam bastante avançadas.
Só dois anos mais tarde, na sequência do ataque «Blitzkrieg» de Hitler à Rússia, em junho de 1941, é que a aliança com o Ocidente que Estaline tinha procurado finalmente se concretizou — altura em que a França, a Polónia e grande parte do resto da Europa já se encontravam sob ocupação alemã.”
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