Motim de Tonghua: trabalhadores chineses revertem privatização no braço
Em 2009, mobilização operária em siderúrgica estatal brecou venda da empresa após anos de demissões, cortes de direitos e intensificação da exploração do trabalho
Há 17 anos, em 24 de julho de 2009, milhares de trabalhadores da Companhia Siderúrgica Tonghua, uma estatal chinesa, se revoltavam contra a tentativa de privatização da empresa.
Desde 2005, o controle acionário da Tonghua vinha sendo transferido gradualmente para a companhia privada Jianlong. A reestruturação da empresa foi seguida por vários ataques aos trabalhadores, submetidos a demissões em massa, corte de salários, extinção de benefícios e aumento das metas de produtividade.
Temendo uma deterioração ainda maior das condições de trabalho caso a venda fosse concluída, milhares de funcionários paralisaram a produção da companhia. Quando o gerente geral da empresa ameaçou os manifestantes de demissão caso não voltassem ao trabalho, os operários o lincharam até a morte. Assustado com a vigorosa reação dos trabalhadores, o governo chinês decidiu cancelar a privatização.
As reformas econômicas na China
Após a morte de Mao Zedong e o fim da Revolução Cultural, a China ingressou em um período marcado por grandes mudanças políticas e econômicas. O fracasso do “Grande Salto Adiante” e a instabilidade gerada pela Revolução Cultural convenceram a cúpula do Partido Comunista sobre a necessidade de revisar o modelo de planejamento econômico vigente até então.
As reformas de Mao Zedong produziram importantes avanços sociais, mas a China ainda enfrentava graves obstáculos. O país estava economicamente estagnado, com baixa produtividade agrícola e industrial e isolado no cenário internacional. Assim, em 1978, o Comitê Central do Partido Comunista deu início ao processo de abertura econômica.
As reformas foram coordenadas por Deng Xiaoping, presidente da Comissão Militar Central do Partido Comunista. Deng argumentava que a China ainda se encontrava na “etapa primária do socialismo”, o que justificaria o uso de mecanismos de mercado para desenvolver as forças produtivas antes de iniciar maiores alterações estruturais. O Estado chinês passaria a conciliar planejamento econômico com incentivos à economia privada, visando ampliar sua eficiência e competitividade em um mercado cada vez mais globalizado.
A partir dos anos 80, milhares de empresas estatais d China foram submetidas a processos de reestruturação. Muitas foram extintas por serem consideradas improdutivas, outras foram fundidas para aumentar sua escala de produção e várias passaram a operar sob modelos mistos, recebendo investimentos estrangeiros privados.
As reformas econômicas iniciadas por Deng Xiaoping produziram uma profunda transformação nas relações de trabalho na China e modificaram radicalmente o modelo de proteção social vigente desde a revolução.
Até o início dos anos 80, era comum que os funcionários das empresas estatais tivessem direito a benefícios e garantias como estabilidade no emprego, moradia subsidiada, assistência médica, educação para os filhos, aposentadoria garantida, etc. À medida que as reformas avançavam, esse conjunto de garantias foi gradualmente desmontado. Os contratos de trabalho foram flexibilizados e a estabilidade foi abolida, facilitando as demissões.
Benefícios e garantias foram suprimidos e a gestão das estatais passou a privilegiar uma lógica empresarial voltada à produtividade e à lucratividade. Em regiões tradicionalmente industriais da China, onde grandes complexos estatais sustentavam cidades inteiras, essas mudanças produziram crescente insatisfação na classe trabalhadora.

: Protesto dos trababalhadores do Grupo Tonghua.
New Tang Dinasty Television
Companhia Siderúrgica Tonghua
Localizada na cidade de Tonghua, na província de Jilin, a Companhia Siderúrgica Tonghua era um dos principais complexos industriais do Nordeste da China. Como tantas outras grandes estatais, a empresa desempenhava um papel estruturante na economia local, sustentando dezenas de milhares de trabalhadores direta e indiretamente.
Ao longo das décadas, bairros inteiros cresceram ao redor da companhia siderúrgica. Hospitais, escolas, centros recreativos e moradias foram construídos para atender os funcionários. A identidade dos moradores da cidade estava profundamente ligada à empresa, que era vista não apenas como um empregador, mas como uma instituição responsável pelo bem-estar coletivo.
Vinculada ao governo provincial, a Companhia Tonghua também foi submetida ao processo de reestruturação das estatais implementado pelas autoridades chinesas. Os gestores passaram a defender a necessidade de atrair investidores privados para modernizar a produção e tornar a empresa mais competitiva.
Em 2005, o governo provincial deu aval para um plano de reestruturação baseado em uma parceria com o Grupo Jianlong, uma das maiores companhias siderúrgicas do país. A Jianlong adquiriu 36% das ações da Tonghua, tornando-se seu principal acionista privado.
A chegada da Jianlong foi acompanhada de demissões em massa, substituições dos gestores e redução expressiva dos salários e benefícios. O plano de reestruturação previa o corte de mais de 10.000 funcionários. Até mesmo o sistema de aquecimento da empresa foi desligado para conter gastos, obrigando os funcionários a trabalhar sob frio intenso no inverno. Enquanto os operários perdiam direitos e tinham rendimentos reduzidos, as metas de produtividade se tornavam cada vez mais agressivas.
A crise econômica iniciada em 2008 agravou ainda mais as tensões na siderúrgica. A retração da economia global derrubou a demanda pelo aço, provocando queda na produção e gerando dificuldades financeiras para as empresas do setor. Alegando a deterioração das condições de mercado, o Grupo Jianlong ampliou os cortes de empregos e benefícios e suspendeu seus investimentos, ameaçando romper a parceria com a Tonghua.
Poucos meses depois, com a recuperação do mercado siderúrgico graças aos estímulos econômicos do governo chinês, a Tonghua voltou a registrar lucros. Diante da mudança do quadro, o Grupo Jianlong resolveu não apenas retomar a parceria, como propôs assumir o controle acionário da estatal.
O motim
Em julho de 2009, o governo provincial de Jilin anunciou a privatização da Tonghua, repassando 65% das ações da empresa para o Grupo Jianlong. O anúncio causou descontentamento entre os funcionários, que temiam novas demissões em massa, cortes nos salários, retirada de mais direitos e deterioração das condições de trabalho. Havia também a desconfiança generalizada de que a operação estaria ligada a esquemas de corrupção, com favorecimento de empresários ligados à burocracia estatal e desvio de verbas públicas.
Os trabalhadores também se ressentiam da crescente disparidade salarial entre os gestores da companhia e os operários. Enquanto os executivos indicados pela Jianlong tinham rendimentos superiores a três milhões de yuans por mês, o salário dos operários não chegava a 500 yuans mensais.
Para conduzir a reorganização administrativa, o Grupo Jianlong nomeou o executivo Chen Guojun como gerente geral da Tonghua. A indicação caiu como uma bomba entre os funcionários. Além da postura arrogante e autoritária, Chen teria defendido um corte radical no quadro de funcionários, propondo a demissão de até 25.000 pessoas.
Em 24 de julho de 2009, data em que a Tonghua anunciaria formalmente a posse da nova diretoria, os funcionários deram início a um motim. Milhares de trabalhadores interromperam as atividades e se concentraram em frente ao prédio da diretoria, entoando gritos de “não à privatização” e “fora, Jianlong”.
Os protestos não se limitaram às instalações da siderúrgica. Uma enorme multidão se concentrou nos portões da empresa e outras manifestações eclodiram pela cidade. Os populares invadiram as plantas fabris e interditaram as linhas férreas, bloqueando o transporte de matérias-primas e forçando o desligamento dos altos-fornos. A produção foi completamente interrompida.
Cerca de 30.000 trabalhadores tomaram parte das manifestações. Os operários reivindicavam o cancelamento imediato da transferência do controle acionário da Tonghua para a Jianlong e exigiam garantias de que os empregos e benefícios seriam mantidos.
Quando Chen Guojun ameaçou demitir todos os funcionários caso não voltassem ao trabalho, os grevistas se revoltaram. O gerente foi cercado e agredido pelos trabalhadores. Chen conseguiu se desvencilhar da multidão e se esconder em outro prédio da siderúrgica. Os trabalhadores, no entanto, conseguiram localizá-lo e o espancaram brutalmente. O executivo foi posteriormente resgatado e levado para um hospital, mas acabou falecendo em consequência das agressões.
A morte de Chen deu ao conflito trabalhista os contornos de uma grave crise política, evidenciando o grau de insatisfação acumulada. Assustadas com a intensidade da reação popular e temendo que o conflito se espalhasse para outras regiões, as autoridades chinesas decidiram retroceder e reverter a privatização.
Ainda no dia 24 de julho, o governo provincial anunciou o cancelamento definitivo da aquisição da Tonghua pelo Grupo Jianlong. O presidente, o vice-presidente e vários membros do conselho diretor da Tonghua renunciaram aos seus cargos.
Embora os trabalhadores tenham alcançado seu principal objetivo, o governo chinês deixou claro que não toleraria a violência empregada durante o motim. Investigações foram abertas para identificar os responsáveis diretos pela morte de Chen Guojun e vários manifestantes foram presos. Em 2010, Ji Yigang, um dos operários da siderúrgica, foi condenado à prisão perpétua por seu envolvimento no assassinato de Chen. A pena foi posteriormente convertida para 16 anos de prisão.
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