A súbita ascensão do senhor X
A disseminação pelo Ocidente (Europa e Américas) de programas políticos elaborados e defendidos por partidos da extrema direita não é aleatória e meramente folclórica e populista. Pareceu mostrar-se assim enquanto fenómeno passageiro de desabafos de cadáveres saudosistas que se orgulhavam dos feitos militares nas três frentes da guerra colonial (ocultando ainda nessas ocasiões a participação, de alguns deles, em massacres e assassinatos seletivos), ou mal escondiam em público o ressentimento pelas perdas materiais sofridas com o regresso à metrópole. Entretanto, os preconceitos racistas que sobravam resistentes desses tempos ressurgiam aqui e acolá, pela chegada da redes sociais contemporâneas. Tudo isto e mais ainda que não referimos, já sobrevivia desde sempre e a brutal contra-revolução em Portugal e em Espanha foi prova provada. Contudo, é neste século, e há pouco mais que uma década, um vulcão pequeno já quase inofensivo explodiu com inesperada rapidez e violência. Num piscar de olhos do tempo histórico, tal como sucedeu nos anos vinte do século passado, o icebergue do qual só víamos o emerso, cresceu desmesuradamente por baixo e emergiu em lugares considerados os mais civilizados. Se melhor tivéssemos pensado , a velocidade e a violência do fenómeno não teria surpreendido tanto como surpreendeu. Observando retrospetivamente verificamos como foi geral a surpresa e, sobretudo, o consentimento. Como foi possível?, interrogavam-se académicos e políticos de carreira. A súbita abundância de ensaios académicos e artigos de análise britaram como cogumelos sob uma forte chuvada de outono.
No entanto, não ficaram menos surpreendidos aqueles, uma minoria embora, que observaram tanta surpresa geral , sobretudo nos que não deviam surpreender-se e, antes pelo contrário, deveriam andar a preparar-se para evitar ou, pelo menos, enfrentar o grande icebergue que se agigantava nas sociedades ditas mais civilizadas e nas quais os desastres das duas Guerras Mundiais mais teriam ensinado.
Nada ensinaram. Em pouco eram civilizadas. As aparências enganam. A memória é curta porque faz-se por esquecer o que não convém. À superfície navegava-se com segurança, as conquistas mostravam-se (enganadoramente) sólidas, a instrução massificara-se, a ciência avançava demolindo mitos um por um, caindo como tijolos de uma muralha com mil anos, as tecnologias revolucionavam filosofias, costumes e normas jurídicas.
Repentinamente (assim pareceu para quase todos) os preconceitos tornaram-se ódios, os insultos ameaças de morte, a ignorância tornou-se certezas, os direitos denunciaram-se como obsoletos e , principalmente, obstáculos. Os imigrantes que morriam aos milhares no mar Mediterrâneo passaram de notícias banalizadas a criminosos com a faca nos dentes a modos dos antigos piratas ingleses. Demagogos inescrupolosos acolitados por deliquentes sociais, identificaram perfeitamente as brechas no sistema por onde poderiam penetrar com o direito que o Direito internacional se não conferia pelo menos não proibia e instalaram tendas para campanhas militares. Até ver, tudo indica que têm vencido.
Ora, teoricamente, um demagogo ludibria se o auditório for ignorante até ao ponto de se empolgar com oratórias Inflamadas de vendedores vigaristas de feiras na aldeia. Um auditório de gentes de trabalho duro na sua maioria, cansados da vida que levam, das promessas que não se cumpriram, de instituições públicas que não funcionam bem para todos, desejosos de uma habitação por modestíssima que fosse, para casar e procriar uma família, invejosos uns do vizinho que comprou um carro elétrico e não se sabe como o fez, outros sentindo-se injustiçados porque trabalharam de manhã à noite a produzir, a produzir sempre, e, afinal, o que os espera? Que miragem é essa de um emprego seguro e bem pago?
Todavia, reduzir o auditório desses demagogos a esse público de feira é uma grave omissão. Porque há para eles um outro auditório. Não é de gente sentada em bancos de pau ao ar livre na praça da aldeia. É gente fina, de fatos de Louis Vuitton, vestidos de Prada, relógios Rolex e motorista à porta. Esta gente raramente se reune como la canaille anterior em multidões. Encontram-se em pequenos grupos, discretamente, nas mansões no Algarve com vistas para o campo de golfe, bebericando um uísque Jack Daniel´s, e selecionando o demagogo mais conveniente. O tal que melhor ludibriará aqueles que lhe oferecem os lucros. Esta gente não trabalha : acumula dividendos. Não quer saber de regimes democráticos para nada, só os suportam para silenciar, enganar e prender. Sufrágios universais? É uma chatice! Só se aguentam com uma boa imprensa e uma hipnótica televisão.
Esta gente vive por meios infalíveis : a mentira que no Direito se aprende como a legalidade, a força que fora da imprensa servil se chama genocídio ou massacre, mas na imprensa servil se nomeia “autoridade para repor a ordem”, e os truques financeiros.
Infalíveis? Nem por isso. Essa gente já apanhou sustos valentes noutros tempos e nesta galáxia. Ora, que eu saiba, a galáxia move-se.
----------------------------------------Nozes Pires
No entanto, não ficaram menos surpreendidos aqueles, uma minoria embora, que observaram tanta surpresa geral , sobretudo nos que não deviam surpreender-se e, antes pelo contrário, deveriam andar a preparar-se para evitar ou, pelo menos, enfrentar o grande icebergue que se agigantava nas sociedades ditas mais civilizadas e nas quais os desastres das duas Guerras Mundiais mais teriam ensinado.
Nada ensinaram. Em pouco eram civilizadas. As aparências enganam. A memória é curta porque faz-se por esquecer o que não convém. À superfície navegava-se com segurança, as conquistas mostravam-se (enganadoramente) sólidas, a instrução massificara-se, a ciência avançava demolindo mitos um por um, caindo como tijolos de uma muralha com mil anos, as tecnologias revolucionavam filosofias, costumes e normas jurídicas.
Repentinamente (assim pareceu para quase todos) os preconceitos tornaram-se ódios, os insultos ameaças de morte, a ignorância tornou-se certezas, os direitos denunciaram-se como obsoletos e , principalmente, obstáculos. Os imigrantes que morriam aos milhares no mar Mediterrâneo passaram de notícias banalizadas a criminosos com a faca nos dentes a modos dos antigos piratas ingleses. Demagogos inescrupolosos acolitados por deliquentes sociais, identificaram perfeitamente as brechas no sistema por onde poderiam penetrar com o direito que o Direito internacional se não conferia pelo menos não proibia e instalaram tendas para campanhas militares. Até ver, tudo indica que têm vencido.
Ora, teoricamente, um demagogo ludibria se o auditório for ignorante até ao ponto de se empolgar com oratórias Inflamadas de vendedores vigaristas de feiras na aldeia. Um auditório de gentes de trabalho duro na sua maioria, cansados da vida que levam, das promessas que não se cumpriram, de instituições públicas que não funcionam bem para todos, desejosos de uma habitação por modestíssima que fosse, para casar e procriar uma família, invejosos uns do vizinho que comprou um carro elétrico e não se sabe como o fez, outros sentindo-se injustiçados porque trabalharam de manhã à noite a produzir, a produzir sempre, e, afinal, o que os espera? Que miragem é essa de um emprego seguro e bem pago?
Todavia, reduzir o auditório desses demagogos a esse público de feira é uma grave omissão. Porque há para eles um outro auditório. Não é de gente sentada em bancos de pau ao ar livre na praça da aldeia. É gente fina, de fatos de Louis Vuitton, vestidos de Prada, relógios Rolex e motorista à porta. Esta gente raramente se reune como la canaille anterior em multidões. Encontram-se em pequenos grupos, discretamente, nas mansões no Algarve com vistas para o campo de golfe, bebericando um uísque Jack Daniel´s, e selecionando o demagogo mais conveniente. O tal que melhor ludibriará aqueles que lhe oferecem os lucros. Esta gente não trabalha : acumula dividendos. Não quer saber de regimes democráticos para nada, só os suportam para silenciar, enganar e prender. Sufrágios universais? É uma chatice! Só se aguentam com uma boa imprensa e uma hipnótica televisão.
Esta gente vive por meios infalíveis : a mentira que no Direito se aprende como a legalidade, a força que fora da imprensa servil se chama genocídio ou massacre, mas na imprensa servil se nomeia “autoridade para repor a ordem”, e os truques financeiros.
Infalíveis? Nem por isso. Essa gente já apanhou sustos valentes noutros tempos e nesta galáxia. Ora, que eu saiba, a galáxia move-se.
----------------------------------------Nozes Pires
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