Todos fazemos "futurologia". Contudo, esta expressão pejorativa somente devia cobrir opiniões desgarradas, despojadas de qualquer consistência lógica e factual, simplesmente emocional, sectária, desprovida por vezes do mínimo de literacia ou cultura geral, ou em suma : mera propaganda partidária sem fundamentos.
Não devia cobrir previsões e simulações, conforme métodos rigorosamente testados, consensuais , científicos tanto no respeito pelas descobertas comprovadas pelas ciências da natureza ou pelas ciências sociais, como pela logicidade da reflexão filosófica de teor realista e materialista a qual sempre desbravou caminhos para o pensamento científico.
Estas elucubrações vêm a propósito de infindáveis e cansativas sentenças opinativas e mesmo textos que defendem teses sobre esse mundo inexistente que é o futuro. O passado já não decorre no tempo como presente e o presente já é passado quando termino a frase.
A própria Historiografia (os historiadores) não é por si só, nem necessariamente, científica (consensual) , depende do método, da documentação, da interpretação e da articulação com outras ciências convergentes (arqueologia, antropologia, paleontologia, etc.). Sempre existiram historiadores que falsificam ou enviesam os factos segundo as suas conveniências. Só um exemplo : aqueles historiadores que falsificaram números e factos sobre os "mundo socialista" durante a chamada "Guerra Fria". Poderia citar vários "cientistas" reputados se fosse necessário, e que foram desmascarados ou deveriam ser. E até (pasme-se!) historiadores que ainda hoje procuram falsificar o longo período da ditadura fascista em Portugal (designam-na com o nome que o próprio Salazar se atribuiu: "Estado Novo"!).
Não surpreende, pois, que proliferem (por meio do direito de expressão conquistado pelo mundo fora com sangue, suor e lágrimas) teses e opiniões "adivinhando" (a imaginação é muito bonita mas é uma faca de dois gumes!) a vitória militar da Ucrânia sobre a Rússia, ou a destruição da Federação Russa pela "Europa unida" armada até aos dentes (não se sabe como nem quando), ou que a União Europeia que temos vai ser substituída por outra dominada absolutamente pelos partidos que se assumem fascistas.
Estes desejos que se disseminam pelas próprias estações e canais de televisão, embora aqui por processos sofisticados elaborados e dirigidos no vértice por organizações como a CIA e o M16, desenham um quadro do mundo futuro que corresponde às suas estratégias imperialistas. Inocula-se lentamente como um veneno desde a família, a escola, as televisões, imprensa escrita e redes sociais. Os manuais escolares desde o ensino básico, sobretudo no ensino da História, do Português ou da Filosofia, têm vindo a compor uma visão do mundo (passado e presente) conforme os interesses dessa estratégia de hegemonia dos países imperialistas unidos.
Neste contexto os "futurólogos" (ou "politólogos") são largamente otimistas. Os próprios desastres naturais ou provocados pelas atividades imperialistas são mistificados de modo a provocar o medo do "fim do mundo" e ódio a inimigos inventados que causarão esse tal futuro de insegurança permanente.
Previsão é outra coisa.
E na boa filosofia "A coruja de Minerva só levanta voo ao entardecer."
(expressão do filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel utilizada em o Prefácio da sua obra Linhas Fundamentais da Filosofia do Direito (Grundlinien der Philosophie des Rechts, 1821)
Ao lado destas futurologias, contra elas ou segurando-as sem o saberem, circulam aquelas opiniões otimistas nas quais se exibe a nossa crença, de recorte religiosa ainda que orgulhosamente ateia, de que ninguém do mal nos vencerá, Vitória ou Morte!, não vemos que estamos derrotados ali francamente, não entendem que para sobreviver é necessário adaptarmo-nos, tal qual na na seleção natural, e que por vezes mesmo dando dois passos atrás já não voltaremos mais a recuperar o mesmo pois o possível já se foi, o tempo não volta para trás, a história não se repete da mesma maneira. São os crentes. E todos os que assim não pensarem são derrotistas. Ámen.
(Pintura : Cena Aberta, António DaCosta, 1940)
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terça-feira, 28 de julho de 2026
Futurologias e politólogos
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