sábado, 18 de fevereiro de 2017

Em coluna

Comentários à História da União Soviética de Peter Kenez

António Barata - Publicado em Segunda, 17 Outubro 2011 02:00
António Barata
Editado inicialmente nos EUA em 1999, a História da União Soviética, de Peter Kenez (Edições 70) foi publicado em Portugal em 2007, tendo sido reposto pela FNAC este Verão.

Como é um livro escrito a pensar no grande público, não é muito profundo nem se detém na análise política e ideológica. É principalmente uma descrição das circunstâncias que levaram à tomada do poder pelos bolcheviques e das transformações por que passou a URSS até à sua implosão. O resultado é um trabalho que respeita os factos e não confunde relato histórico com propaganda anticomunista. Lenine, Trotsky, Estaline, os bolcheviques em geral, não são tratados como criminosos, mas como revolucionários que, chegados ao poder, se viram impossibilitados de realizar o projecto igualitário a que se propunham (o autor refere o insucesso da revolução de 1917 como resultado da derrota da revolução alemã, do atraso económico e social de uma Rússia recente e escassamente industrializada e com um enorme campesinato, da mortandade de centenas de milhões de soviéticos provocada pela guerra mundial, guerra civil, epidemias, fome generalizada, liquidação durante a guerra civil da classe operária educada pelas décadas de luta revolucionária que culminaram na revolução). Por isso se "viram obrigados a improvisar".
Mas a verdade é que aqui e ali o verniz estala e surgem expressões que traem a "imparcialidade" do historiador. A sua formação liberal moderada transparece nas explicações políticas e sociais que faz de alguns acontecimentos.
O MELHOR...
Como para o autor o modo de produção capitalista e a democracia estão para além das ideologias, as políticas postas em marcha pelos bolchevistas, estalinistas e pós-estalinistas são ajuizados principalmente pelos resultados e eficácia na satisfação do bem-estar e das liberdades, tendo como padrão os modelos dos países ocidentais mais desenvolvidos. Por isso nas suas descrições e análises umas vezes ignora, noutras dá pouca atenção, às tentativas do poder soviético para substituir o modo de produção capitalista pelo socialista, eliminar as desigualdades sociais e a exploração do homem pelo homem. Considera a revolução "um acidente de percurso", simpatiza com a NEP e com as relativas liberdades económica, política e cultural proporcionadas por aquela abertura ao capitalismo e à iniciativa privada nos anos 20, a que chama a era de ouro da revolução, em contraposição ao "utopismo" dos primeiros meses de revolução e ao "comunismo de guerra", à fossilização e aos métodos ditatoriais que se seguiram de Estaline a Gorbatchov.
O autor, ao estilo académico, adopta uma aparente neutralidade ideológica. O que não o impede de fazer análises e observações acertadas. Particularmente interessante é o espaço que dá à questão camponesa e agrícola, sempre presente ao longo do livro, cobrindo todos os períodos da história da URSS. Tal atenção é plenamente justificada, dado o peso social esmagador do pequeno campesinato e dos camponeses sem terra que constituíam mais de 70% da população russa, condicionando assim de forma determinante a evolução da revolução e da União Soviética. O autor considera que, face ao atraso da Rússia, foi o campesinato quem pagou a industrialização da URSS e que foi à sua custa que esta fez a acumulação primitiva de capital. Sem o seu apoio, mesmo que relutante, os comunistas não teriam conseguido derrotar os "brancos" nem os nazis e manter-se no poder durante décadas. Igualmente acertada a observação de que, a partir dos anos 30, o marxismo tenha começado a ser substituído como ideologia do partido pelo pragmatismo e uma mescla de nacionalismo com elementos marxistas deturpados. Dá-se o abandono do internacionalismo e do incentivo às revoluções operárias, privilegiam-se os entendimentos com as pequena e média burguesias, alimenta-se a ideia de que é possível construir o socialismo num só país, que no socialismo cresce a resistência da burguesia e com ela a necessidade de reforçar o Estado e a repressão, que a igualdade é uma ideia pequeno-burguesa (Discurso de Estaline em Junho de 31, "revolução cultural", reavaliação da história da Rússia e recuperação do heróis nacionais do império czarista, "grande guerra patriótica", etc.). Evolução que é acompanhada pelo definhamento teórico e cultural, crescimento do poder dos burocratas e da polícia política, dos métodos ditatoriais e do culto de Estaline.
... E O PIOR
À medida que avançamos no tempo, a neutralidade do historiador vai cedendo à sua ideologia. Isso é particularmente notório no que se refere à guerra fria, diante da qual a sua "objectividade" branqueia o papel do Ocidente e em particular dos EUA – "os americanos não podiam ter consentido de ânimo leve o comportamento soviético na Europa de Leste. Tendo em conta a natureza de uma política externa controlada de forma mais ou menos democrática... os políticos teriam dificuldade em explicar aos seus eleitores que, se por um lado a Rússia estalinista era uma ditadura sanguinária, por outro não representava uma ameaça aos interesses vitais americanos".
É ridícula dsta forma aparentemente ingénua e cândida de explicar o envolvimento norte-americano num confronto por si inspirado e comandado, no qual foi referência e principal protagonista, dividiu o mundo em dois blocos durante toda a segunda metade do século passado e por mais de uma vez colocou o mundo à beira da guerra nuclear, espalhando a morte e a destruição por todo o mundo, com o argumento do "escrutínio" dos eleitores. É uma forma sonsa de dizer que os EUA foram empurrados pelas circunstâncias, que os aliados não estavam alarmados com a possibilidade de os comunistas – principais animadores dos movimentos de resistência e das guerrilhas na Europa ocupada e noutras partes do mundo – ocuparem o vazio deixado pela queda dos governos fantoches, principalmente na França, Itália e Balcãs, onde a derrota dos nazis abriu portas a levantamentos populares e alimentou sonhos em largos sectores populares de que a revolução social se seguiria à libertação; de "ignorar" que foi o medo desse cenário que levou Roosevelt e Churchill a "impor" a Estaline, em Ialta, uma nova ordem internacional, comprometendo a União Soviética com uma repartição de zonas de influência. À URSS reconhecia-se o direito de tutelar os países de Leste que tinha ocupado (teve de retirar da Áustria) e os Balcãs (à excepção da Grécia), ficando o resto sob influência anglo-americana. Foi nesta conferência ditada pelo alarme ocidental para conter a "ameaça comunista" que nasceu a guerra fria. E paralelamente a corrida aos armamentos nucleares e convencionais que a esgotou e levou ao colapso económico da URSS em 40 anos.
Para melhor fazer passar o seu ponto de vista, o autor adopta uma atitude centrista. Distancia-se tanto dos analistas "que acreditavam que os dirigentes soviéticos tinham um plano para a conquista do mundo em que a incorporação da Europa de Leste era apenas o primeiro passo", como dos que entendem que a guerra fria foi uma "consequência das políticas agressivas do Ocidente, em particular dos Estados Unidos". Chegado aqui, a objectividade sofre nova entorse. Os críticos dos EUA são convenientemente reduzidos a "uma nova geração de historiadores (que) iniciou o revisionismo" surgida nos anos 70, nos EUA. E são acusados de "pouca atenção prestarem à União Soviética", de não "se mostrarem particularmente interessados na cultura política soviética", de "não dominar completamente a opinião ocidental". E em jeito de absolvição, que "os arquivos americanos estavam disponíveis, mas não os arquivos soviéticos". Conclusão, os que responsabilizam o Ocidente e os EUA são ignorantes, não sabem do que falam.
"A eclosão da guerra fria estava predestinada". Ou seja, foi uma fatalidade porque os governantes dos EUA não conseguirem explicar aos seus governados que a URSS não constituía uma ameaça aos interesses americanos, e "os dirigentes comunistas perceberam, correctamente, que mais contactos com o Ocidente capitalista eram inerentemente subversivos... Era considerado fundamental isolar os povos soviéticos do resto do mundo... Os estalinistas descreviam o seu país como estando rodeado de inimigos implacáveis. A guerra fria servia os seus intentos: tornou-se um instrumento de mobilização que justificava as medidas mais severas".
É verdade que estes pontos de vista moldavam a política e a ideologia da URSS. O problema é que eles são o resultado da guerra fria e não a sua causa. Argumentar desta maneira é colocar as coisas de pernas para o ar. Porque se sentia ameaçada e, como diz o autor "desconfiada" – e tinha boas razões para isso, dada a hostilidade das democracias para com a URSS: pacto de Munique, abertura da segunda frente só quando se tornou evidente que os soviéticos iam vencer os alemães e libertar a Europa) a União Soviética procurava os compromissos e não o confronto, ordenava aos partidos comunistas contenção, entendimento com as suas burguesias e nada de revoluções. Para o Ocidente, pelo contrário, a perspectiva era outra, nada de compromissos e varrer das cabeças das pessoas qualquer ideia de revolução social. Por isso criou o Plano Marshal e aceitou que os trabalhadores tivessem melhores salários e condições de vida, segurança social, férias pagas, direitos sindicais e políticos, combinando e Estado providência com a diabolização do comunismo e a perseguição aos comunistas. A criação da NATO, a instalação de bases militares americanas e de mísseis nucleares e gigantescos meios de guerra por toda a Europa central cercando o bloco soviético não foram uma invenção. Tal como o não foram o maccarthismo, a instauração de ditaduras sanguinárias na América Central e do Sul, África, Ásia, Grécia e Turquia, o apoio a Salazar e Franco, ao apartheid. Nem o afogamento em sangue das revoluções no Congo, Nicarágua, El Salvador, Vietname e Camboja, Angola, Etiópia, ou golpes preventivos e genocídas na Indonésia, Filipinas, Chile e Argentina, entre outros de uma extensa lista.
in Diário Liberdade blogspot.com

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