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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

 

No capitalismo mafioso Nicolás Maduro veste Nike

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Por IVANA BENTES*

A imagem de Nicolás Maduro em Nike Tech Fleece simboliza o capitalismo mafioso, onde a pilhagem geopolítica se converte em mercadoria viral e a guerra vira entretenimento consumível

A divulgação da imagem de Nicolás Maduro, algemado e vendado, envolto em um casaco cinza Nike Tech Fleece, não foi um detalhe secundário na invasão da Venezuela pelos EUA em 03 de janeiro de 2026. Foi a expressão visual da doutrina Trump, baseada em um “capitalismo mafioso”, que fere todas as convenções e acordos internacionais para expropriar o petróleo do país vizinho. A pilhagem geopolítica, brutal e indefensável, encontrou um símbolo irônico e fluído, pronto para ser remixado infinitamente pela lógica do capitalismo digital.


A reação nas redes e plataformas foi instantânea e viral. Usuários apontaram a já batida “contradição” entre o discurso anti-imperialista de Nicolás Maduro e o uso de um ícone do capitalismo global, a Nike. Piadas sobre marketing de “guerrilha”, comentários celebratórios e difamatórios, editoriais de moda e política seguiram a lógica do over exposição algorítmica e a imagem foi viralizada e remixada em memes, vídeos, incluindo várias montagens em que Maduro aparece como rapper ou um DJ.

A imagem pública de um chefe de Estado é construída sobre signos de autoridade: ternos, uniformes, bandeiras. A “semiótica do poder” é rígida. A foto de Nicolás Maduro, divulgada por Donald Trump em sua rede social, rompe com esse protocolo para mostrar um corpo vulnerável e vestido para o lazer.

O conjunto desportivo Nike Tech Fleece, associado ao estilo urbano e ao conforto casual, desloca completamente o contexto da violenta captura de Nicolás Maduro como um prisioneiro político, para mostrá-lo, primeiro ato de uma operação simbólica recorrente na retórica trumpista, como a banalidade cotidiana em pessoa.

A imagem de Nicolás Maduro se torna a do “cara qualquer” que vai à academia ou ao supermercado. A mensagem é clara: seu poder acabou; agora, você é apenas mais um. A narrativa geopolítica de captura e julgamento foi sobreposta por uma narrativa estética domesticada, da mesma forma que Donald Trump declarou que viu a operação militar e a captura de Nicolás Maduro “como se estivesse vendo um programa de televisão”.

Extrativismo cognitivo

Os ataques gravíssimos para a democracia no continente e no mundo não podem produzir turbulência. O que choca o mundo tem que ser naturalizado por Donald Trump como parte de um menu imperial banal.

Donald Trump banaliza ataques a outros países e violações do direito internacional de forma sistemática, primeiro pelo discurso, governa pelo uso da força e por memes e usa de forma performática as redes sociais e as imagens. Logo após o ataque a Venezuela, Katie Miller, esposa do vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, publicou uma imagem do mapa da Groelândia, em que a ilha dinamarquesa é pintada com as cores da bandeira dos Estados Unidos, as imagens concretizam um extrativismo cognitivo e ofensivo.

Donald Trump faz a guerra na lógica do extrativismo territorial do petróleo, mas também do extrativismo cognitivo. Imagens de Inteligência artificial geram um Donald Trump imperial e brutal retratado como o Papa (vestes brancas, mitra, crucifixo) ou usando uma coroa de rei, uma paródia de capa da revista Timemostrando Donald Trump sob o slogan “Long Live The King”.

Outro vídeo de Inteligência artificial mostra Donald Trump usando uma coroa, pilotando um jato chamado “King Trump” que despeja substância marrom em manifestantes, publicado no dia de protestos nacionais “No Kings” que tomaram as ruas em várias cidades dos EUA e que ironizavam seu desejo de onipotência.

Donald Trump aparece ainda como um “God-Emperor” gigante e dourado em um trono, inspirando-se no jogo Warhammer 40,000, ameaça opositores políticos. Outro vídeo de Inteligência artificial mostra Donald Trump “salvando” Gaza, com uma estátua dourada dele no cenário.

Mas nada se compara ao vídeo gerado por Inteligência artificial no dia 05 de janeiro de em que Donald Trump aparece de bigode e cabelo no estilo Maduro se autoproclamando o novo presidente da Venezuela, falando em inglês e espanhol e invocando “sexy mamacitas, mariachis e drinks de margaritas”.

As imagens de Donald Trump travestido de Nicolás Maduro são a captura do outro pela caricatura, uma forma de assujeitamento político, uma arma da guerra cultural, projetada para dominar o ciclo de notícias, humilhar os oponentes, inflamar a sua base e testar os limites do discurso público.

Mas, como os vírus, os memes “não tem moral” ou destino e podem ser reapropriados ao infinito. As imagens produzidas por Inteligência artificial de Nicolás Maduro capturado trazem uma linha tênue entre os que condenam e zoam o ditador venezuelano e os que o enxergam como um descolado DJ ou rapper, uma celebrity pop, um anti-herói.

Outras imagens e memes ridicularizando a “doutrina Monroe” de Donald Trump, sua voracidade pelo petróleo venezuelano, sua persona bufona e sua política de saqueio, “orange is the new black” , em trocadilhos com a cor do topete e do petróleo.

Comodities narrativas

O deslizamento infinito de sentidos mostra o quanto a fabricação das imagens é decisiva e prefiguração futura de cenários horríveis demais ou belos demais, que explodem inclusive os clichês. A imagem antecipa e “realiza” os fatos. As imagens são as fábricas de fatos desejáveis ou a exorcizar e a enxurrada de imagens e memes que recebemos pelas plataformas entram na disputa dos sentidos e desejos, na disputa de mundos.

Nos grupos de WhatsApp, em que a polarização se materializa em memes e mensagens, não recebo mais fake news simplesmente, mas imagens geradas por Inteligência artificial com o que extremistas e democratas querem expressar, prefigurando desejos e sentimentos moldados nas imagens. A questão hoje é que a fábrica das Big Techs e plataformas também desafiam e violam, como Donald Trump, as leis e regras nacionais e promovem conteúdos extremos, são um laboratório de modulações afetivas e políticas.

Para manter os usuários conectados, os algoritmos priorizam conteúdo que gera reações fortes (raiva, indignação, zoação, deboche, constrangimento), criando câmaras de eco e alimentando a polarização. Claro que a economia da atenção e do engajamento usa como métrica do sucesso o viralizar, não informar, formar ou educar. As imagens mais chocantes, falsas ou manipuladas, ganham uma sobrevida nesse modelo de negócio.

Enquanto o petróleo era um recurso para um sistema (industrial-militar), as plataformas digitais são o recurso e o próprio sistema (econômico, social, comunicativo, afetivo). O petróleo precisa de oleodutos e forças armadas para ser gerado e assegurado. As Big Techs já são em si, infraestrutura de poder em um capitalismo de dados e commodities narrativas, vitais na economia da atenção e para a mobilização política no século XXI.

O que aconteceu na Venezuela tem o nome que a América Latina conhece de cor: imperialismo nu, a guerra comercial e os negócios travestidos em guerra moral. Os espantalhos mudam de nome (combate ao comunismo, ao narcotráfico, ao “terrorismo”), mas o objetivo é o mesmo: assujeitar países e povos pela força para se obter vantagens comerciais, territoriais e desequilibrar o jogo geopolítico das influências.

E essa força se exerce também no campo das imagens, transformando a derrota de Nicolás Maduro em um espetáculo midiático em que o prisioneiro de guerra vira o garoto propaganda involuntário de uma das marcas globais mais icônica dos EUA: a Nike.


A guerra será memetizada

A invasão de um outro país é violação do direito internacional quando começa com bombardeio e termina com sequestro de um chefe de Estado (mesmo que este seja um ditador), violação que se agrava com o anúncio de que os EUA passam a “administrar o país” e expropriar as riquezas naturais: o petróleo venezuelano.

A imagem do corpo capturado de Nicolás Maduro, envolto em um produto Nike que imediatamente se torna objeto de desejo e dispara nas buscas de forma exponencial é o embrulho dessa operação: a guerra, e as suas violações, além de um negócio, é também um fenômeno de “merchandising” viral.

E a perplexidade aumenta quando o subtexto, se apropriar do petróleo, é a fala oficial. Donald Trump anunciou que grandes petroleiras americanas vão “investir bilhões” para “consertar” a infraestrutura de negócio venezuelana e que a presença militar fica “até as exigências serem atendidas”. Isso é extrativismo armado, uma carta branca para violar a soberania de um país e estabelecer um saque de riquezas.

O capitalismo tardio completa seu ciclo quando a brutalidade da pilhagem material se casa com a eficiência da pilhagem simbólica, convertendo a imagem do inimigo derrotado em algo humilhante ou “cool”, engraçado, banalizado, repetido infinitamente em um massacre simbólico e em um impulso de consumo para as massas globais.

E quando o próprio secretário de Defesa celebra que, desta vez, os EUA não “pagaram com sangue” para “não receber nada economicamente em troca”, como aconteceu no Iraque, a máscara cai de vez: a guerra foi vendida como moral e anunciada como negócio.

Slop – vida e morte das imagens

A imagem de Nicolás Maduro de Nike é a prova final desse cálculo: a operação militar gerou não apenas o controle do petróleo, mas também um “buzz” midiático gratuito para uma marca multinacional, demonstrando como a violência geopolítica alimenta diretamente as engrenagens do mercado. Tudo pode virar novo consumo e mercadoria.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, disse ao CBS Evening News que a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro, é o “exato oposto” da invasão do Iraque pelos EUA: “Passamos décadas e décadas e pagamos com sangue, e não obtivemos nada economicamente em troca, e o presidente Donald Trump inverte o roteiro”, disse Pete Hegseth ao apresentador do CBS Evening News, Tony Dokoupil, assumindo o objetivo comercial e de expropriação de riquezas.

Nesse “roteiro invertido”, a captura de um rival político vira um ativo de marketing, e sua imagem, também capturada torna-se um meme que será infinitamente remixado.

Parte da imprensa chamou a operação de Donald Trump de “imperialismo nu”, juristas ouvidos pela agência Reuters apontaram o nó lógico: tráfico e “gangues” não autorizam invasão sob o direito internacional. Dentro dos EUA, Tim Kaine chamou de ataque não autorizado e avisou que isso empurra a democracia norte-americana para a tirania.

Mas há um nó lógico ainda mais profundo, revelado pela foto: o nó que ata a violação da soberania à indiferença do mercado consumidor, que absorve e celebra o ícone da marca, ignorando ou “bypassando” o contexto de violações que o geram.

A imagem se torna “sujeito”: é da vida das imagens que falamos, pois é nelas que tudo acontece. Como já afirmou Gilles Deleuze em A imagem-tempo, ao anunciar o advento do cinema moderno, o que importa agora é a potência das imagens.

Mas poderíamos falar hoje de outro fenômeno, da geração de um amontoado de “lixo” visual, as imagens-lixo geradas por Inteligência artificial  de baixa qualidade e em grande volume e que recebeu o nome de “slop“, ou “lavagem”, “lama”, imagens com erros factuais ou deepfake, conteúdos genéricos, repetitivos e sem esforço ou originalidade, que poluem de forma semelhante ao spam, entopem os canais, sequestram, nosso tempo. Imagens clichês? Não apenas, um fluxo de imagens deslizantes em um design de rolagem hemorrágica viciante.

Slop” é mais que um defeito, é um sintoma do momento desregulado e massivo da geração por Inteligência artificial, de produção viral e da dieta fast food dos algoritmos. Entender suas camadas ajuda a separar a zoação, dos erros de conteúdo gerado e o extrativismo visual, com objetivo deletério, antiético, falso, alvo de qualquer discussão sobre regulação das plataformas e do negócio digital.

A retórica de Donald Trump é um desses geradores de memes e de lixo, mas o presidente dos EUA transforma imagens geradas por Inteligência artificial, “slop” e lama visual em uma fábrica de fatos.

Economia narrativa

Por isso anunciar ações ilegais, violentas, gerar imagens-lixo, pode redundar em atos: sequestrar um presidente (pouco importa se um ditador ou um democrata) ou saquear um país concretiza a economia narrativa e abre “precedentes” e ameaças. Amanhã poderá ser qualquer outro rival: Colômbia, Cuba, México, o Brasil ou a Groelândia.

Brasil 2026, temos uma eleição decisiva, estremos sob pressão, chantagem e desestabilização da operação retórica e bélica trumpista? Quando o direito internacional é violado e expropriar petróleo vira objetivo, a fronteira entre “intervenção” e pirataria geopolítica desaparece.

E com ela desaparece também a fronteira entre ato de guerra e cultura de consumo, entre prisioneiro político e garoto-propaganda involuntário da Nike, entre a bravata e a retórica e os atos de fala que buscam se concretizar.

O feed de notícias como campo de batalhas

Quando Donald Trump invoca a Doutrina Monroe, criada em 1823 sob o lema “a América para os americanos”, ele não está, e nunca esteve, preocupado em afastar potências europeias do continente. Seu objetivo, ao contrário, é reafirmar a tese de que as Américas são de interesse exclusivo dos Estados Unidos, utilizando-a para “justificar” a intervenção na Venezuela como pilar de uma nova hegemonia norte-americana.

Nessa visão, a América Latina volta a ser reduzida a um “quintal” sob sua influência direta: um território cujas reservas naturais estão à disposição para serem saqueadas e cujos governos podem ser derrubados ou desestabilizados conforme a conveniência de Washington.

A questão é que o “quintal” é agora também um feed de notícias, onde a demonstração de poder se dá tanto pelo bombardeio quanto pela produção de imagens virais consumíveis. Revisitada a doutrina, o petróleo vira objetivo, a fronteira entre “intervenção” e pirataria geopolítica desaparece e, na mesma medida, a política é convertida em entretenimento digital massivo, e a lógica dos algoritmos despejam milhares de imagens reais e geradas por Inteligência artificial, memes e textos.

O algorítmico não parou de despejar, nessas 24 horas pós ataque a Venezuela, milhares de memes e imagens criadas por Inteligência artificial, milhares de declarações de Donald Trump reafirmando suas imagens “slop”, centenas de comentários sobre Nike e Nicolás Maduro, centenas de imagens do uniforme da Nike: Nicolás Maduro DJ, Nicolás Maduro rapper, Nicolás Maduro cool, centenas de fake news sobre a invasão norte-americana, fake news de políticos de direita afirmando que “o MST vai invadir os EUA para libertar Nicolás Maduro” (risos), uma enorme quantidade de lixo, inventariada e desmentida nos sites de checagem em agências como Lupa, Aos Fatos e veículos de grande circulação. Que anticorpos estamos produzindo socialmente para neutralizar esses virais?


O capitalismo mafioso é um modo de acumulação em que a fronteira entre economia legal e ilegal fica estruturalmente borrada: negócios e Estado passam a operar por lógicas de “proteção” e tributo, captura de instituições e uso (ou ameaça) de violência para regular mercados, controlar territórios e extrair renda. Isto é, um capitalismo que funciona com regras de máfia.

A regra do capitalismo desde sempre é que tudo pode ser monetizado, inclusive as maiores violações de todos os tipos. Nada escapa à lógica da monetização.

O ano de 2026 mal começou e começou mal: Donald Trump voltou a tratar a América Latina como território de saques. Ao bombardear o território venezuelano e capturar Nicolás Maduro para levá-lo a Nova York, Donald Trump atropela o núcleo duro da ordem internacional: o princípio de não intervenção e soberania de Estados e povos, a proibição do uso da força, a não ser para autodefesa, etc.

No plano doméstico, a Casa Branca ignora o Congresso: sem declaração de guerra, sem aviso, na contramão da Constituição e da War Powers Resolution.

O método inclui, agora, a fabricação de ícones visuais que resumam e banalizem a complexidade dos conflitos, transformando-os em slogans visuais para geração de engajamento e consumo, uma inteligência artificial generativa para fabricar e extrair valor.

As ameaças de Donald Trump de anexar a Groenlândia pairam sobre esse território autônomo da Dinamarca, rico em recursos, e a ofensiva militar na Venezuela foi seguida por manifestações de integrantes do movimento Maga (Make America Great Again) ligado ao presidente Donald Trump, indicando a Groenlândia como um dos alvos dos EUA. O projeto imperial não se contenta em controlar territórios e recursos, busca dominar o imaginário global, ditando as narrativas.

Os EUA estão tentando fechar o cerco na América Latina para neutralizar a influência da China, enfraquecer os BRICS e frear qualquer movimento de desdolarização. A lógica é simples: tratar infraestrutura, energia, tecnologia e comércio como tema de “segurança nacional”, puxar investimentos e cadeias produtivas de volta para a órbita americana, e pressionar governos para não abrirem espaço para empresas, crédito e acordos chineses.

No mesmo pacote, quando países falam em ampliar pagamentos em moedas locais ou criar mecanismos alternativos, Washington reage com ameaça de tarifas e punições econômicas.

Nesta guerra por hegemonia, a batalha das imagens é crucial. A fotografia de Nicolás Maduro serve como advertência visual brutal: a desobediência ao poder unipolar será punida com a força e, em seguida, transformada em piada, slot, lixo ou produto, esvaziada de sentido.

Mas a memética é cruel e divertida e subverte em uma liquidação dos sentidos os que querem governar por memes. Jair Bolsonaro, no Brasil se tornou um presidente-meme, Donald Trump é sua própria caricatura. O veneno é o antídoto em uma economia dos memes.

Make America Latina again

Nesse cenário, Lula e o Brasil aparecem como foco de resistência porque defendem soberania e autonomia diplomática, sem aceitar alinhamento automático com Donald Trump. O governo brasileiro condena intervenções militares, condenou a invasão a Venezuela e insiste em saída política e negociação regional, recusando a ideia de intervenção dos EUA pela força.

Ao mesmo tempo, Lula sustenta nos BRICS a discussão sobre meios de pagamento fora do domínio do dólar e maior uso de moedas locais no comércio. É exatamente por isso que o Brasil vira obstáculo: porque atrapalha o projeto de transformar a América Latina em zona de obediência econômica e geopolítica dos EUA.

Essa resistência, portanto, deve ser também no plano simbólico. É preciso recusar a leitura banalizadora e consumista que o capitalismo impõe aos eventos graves, reafirmando e construindo uma política das imagens, para além das imagens da política, restituindo a complexidade da história contra a redução a tendências de consumo ou imagens-lixo.

Em um Brasil polarizado e em ano eleitoral, a intervenção norte-americana vira ameaça concreta: pressão econômica, chantagem diplomática, turbulência na fronteira amazônida do Brasil com a Venezuela e Colômbia e em outros lugares de cobiça: taxações comerciais indevidas e nosso capital maior: a Amazônia brasileira e panamericana, território de terras raras, água, biodiversidade e culturas indígenas.


Diante dessa ameaça multifacetada, compreender a dimensão da guerrilha das imagens não é um exercício secundário, mas parte essencial de uma nova ética e ecologia visual.

Os EUA convivem e comercializam com regimes ditatoriais e arbitrários em todo o mundo. Mesmo o governo de Nicolás Maduro sendo condenável, a intervenção na Venezuela é indefensável, uma face explícita do capitalismo mafioso, em que o negócio e os lucros são o motor brutal, não existe moral ou ética que a sustente.

Não há o que sustente um capitalismo mafioso, a não ser a guerra, a violência e o uso da força e das armas, exatamente como o narco e as milícias que Donald Trump diz combater.

Violência semiótica

E essa violência é também semiótica: é a violência de esvaziar o significado, de roubar a narrativa, de vestir a tragédia com a camiseta do time vencedor, oferecendo-a ao público como mais um item descartável do espetáculo midiático esquecível no dia seguinte.

O presidente Lula e todos os líderes das democracias latino-americanas tem um enorme desafio: articulação política, econômica, cultural no continente e em torno de um sonho lúcido e concreto: os países dos BRICS, como um fórum político-diplomático, promovendo interesses do Sul Global e criando alternativas financeiras e culturais em tempos de turbulência.

Essa alternativa cultural precisa forjar imagens e narrativas, oferecendo sentido onde o capitalismo mafioso impõe apenas um liquidificador algorítmico que nos entrega dopamina.

Diante do retrocesso norte-americano, levando o mundo em direção a novos conflitos e investindo na manutenção de sua primazia global ilusória, uma visão de mundo unipolar, a realidade geopolítica aponta em outra direção: para uma multipolaridade sem volta.

Uma multipolaridade real, no entanto, será também uma batalha de imaginários, de plurimundos, de multiversos. Será a luta para que as imagens de países e povos não possam ser sequestradas ou reduzidas a banalidade e ao clichê.

Donald Trump lembra as figuras dos filmes hollywoodianos que romantizam o saque, o colonialismo, as velhas e novas formas de escravidão e assujeitamento e que diante de mudanças estruturais, reais e imateriais, caem atirando.

Vivemos a era da desregulação radical da imagem que correm em um esgoto público semiótico em fluxo contínuo. Essa avalanche tóxica de visões não solicitadas (o que gostaríamos de “desver”?) transforma o ato de olhar, historicamente violento, em umanova violência: somos forçados a consumir um lixo visual projetado para capturar nossa atenção e extrair mais dados, em um ciclo que converte nossa paisagem mental em território de mineração predatória.

*Ivana Bentes é professora titular da Escola de Comunicação da UFRJ. Autora, entre outros livros, de Mídia-Multidão: estéticas da comunicação e biopolíticas (Mauad X) [https://amzn.to/4aLr0vH]

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    Porque o exército venezuelano não lutou

    Igla-S, míssil portátil.O presidente norte-americano Donald Trump declarou numa conferência de imprensa que os Estados Unidos agora governarão a Venezuela, o que faz parecer que a nova presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, fará o que os Estados Unidos ordenarem. Horas depois da conferência de imprensa de Trump, Delcy Rodríguez proferiu um discurso televisionado à nação sul-americana, no qual deixou claro que considerava os Estados Unidos um invasor ilegal que deve ser repelido. O seu desafio a Trump deixou claro que os seus planos de invadir e governar a Venezuela como um prémio estado-unidense enfrentarão muito mais obstáculos do que ele sugeriu na sua conferência de imprensa de sábado, na qual declarou vitória na Venezuela.

    Dito isto, o desafiador discurso televisivo de Delcy Rodríguez, condenando os Estados Unidos como invasor ilegal, pode ser um ato performativo estritamente conforme à sua parte de um pacto clandestino. Sua fúria pública e seus votos de resistência fornecem uma cobertura política essencial, permitindo-lhe manter credibilidade e autoridade perante a base e o exército bolivariano, enquanto em privado respeita os termos que permitiram a destituição de Maduro. Esta demonstração calculada de desafio garante que a arquitetura sobrevivente do governo venezuelano possa gerir a transição, posicionando Rodríguez como líder da «resistência» em vez de colaboradora numa rendição negociada.

    Desfazendo o acordo

    Trump também alegou uma série de detalhes operacionais específicos relacionados com a ação militar na Venezuela, sublinhando que, embora vários operacionais das forças especiais americanas tenham ficado feridos, não houve vítimas mortais americanas. Segundo Trump, o assalto aproveitou um poder aéreo esmagador, com aproximadamente 150 aeronaves destacadas para controlar o céu e responder a qualquer ameaça, embora um avião de asa fixa e vários helicópteros tenham sofrido danos reparáveis. Um fator fundamental para a suposta rapidez e sucesso da operação foi a destruição prévia dos sistemas de defesa aérea venezuelanos, o que permitiu que os helicópteros das forças especiais chegassem ao seu alvo sem impedimentos. No entanto, apesar de a Venezuela possuir defesas aéreas avançadas, como o S-300 e MANPADS portáteis úteis contra helicópteros, o exército venezuelano não os utilizou contra o ataque americano. Trump concluiu afirmando que os Estados Unidos mantinham a opção de executar novos ataques contra a Venezuela, se necessário.

    A narrativa meticulosamente elaborada de uma ousada incursão militar, completa com detalhes operacionais e relatos de heroísmo, cumpre um propósito político crucial:   ocultar o cenário muito mais provável de uma rendição negociada por parte da Venezuela. Ao glorificar o espetáculo violento de uma captura, o relato suprime ativamente a verdade incómoda de que o sucesso da operação quase certamente exigiu, e resultou de, um acordo prévio com facções poderosas dentro do próprio regime de Maduro. Essa ênfase na força esmagadora esconde um acordo nos bastidores em que as elites do regime, especialmente no exército e nos serviços de inteligência, trocaram o presidente por garantias de sua própria segurança, sobrevivência política e proteção contra processos judiciais, transformando uma possível invasão sangrenta em uma transição gerenciada que serviu tanto ao poder invasor quanto à estrutura de poder existente, às custas de uma narrativa revolucionária.

    Em outubro, escrevi um artigo intitulado “A Rússia e a China podem projetar poder militar para ajudar a Venezuela?” que os leitores curiosos deveriam ler para entender as limitações de qualquer ajuda das potências do hemisfério oriental. No entanto, a pergunta sobre por que a Rússia e a China não podem proteger seus supostos parceiros pode ser respondida hoje com outra pergunta:   por que o exército venezuelano não lutou contra os Estados Unidos?

    As perguntas interligadas de por que potências globais como a Rússia ou a China não podem proteger seus parceiros e por que os exércitos locais às vezes se recusam a lutar mostram um fator fundamental nas relações internacionais, que é que o cálculo do poder é, em última análise, local, nacional e profundamente pessoal. No caso da Venezuela, apesar de anos de apoio político, económico e retórico de Moscovo e Pequim, incluindo vendas de armas, exercícios militares conjuntos e proteção diplomática na ONU, acordos económicos, o exército venezuelano não montou uma defesa convencional diante da ameaça palpável de uma intervenção dos Estados Unidos. Isso não se deveu a uma falha do compromisso russo ou chinês naquele momento, mas ao facto de que a principal lealdade do governo e do exército venezuelano era a sua própria sobrevivência institucional e a estabilidade do Estado que representa. Para os oficiais superiores, uma guerra contra os Estados Unidos não era uma luta ideológica vencível, mas um ato suicida que garantiria a sua destruição e o colapso da nação.

    Essa dinâmica revela as severas limitações da proteção de “aliados percebidos” em um mundo unipolar, ou agora multipolar. A Rússia e a China podem fornecer dissuasores, salva-vidas econômicos e cobertura diplomática, mas não podem transferir sua vontade para as estruturas de comando de nações soberanas. A proteção que oferecem existe dentro de uma largura de banda específica, é poderosa contra sanções, poderosa em conflitos de poder onde controlam o terreno, como na Síria para a Rússia, e poderosa no fornecimento de ferramentas de segurança interna; no entanto, atinge uma linha vermelha dura numa confrontação militar convencional direta com os Estados Unidos. Para Caracas, Moscovo e Pequim eram fontes de resiliência face à mudança de regime, não garantes da vitória numa guerra ardente. Quando se apresentou a escolha definitiva entre a capitulação e a aniquilação, o poder local decidiu preservar-se, entendendo que os seus parceiros das grandes potências não iriam escalar, nem provavelmente poderiam escalar, para uma guerra mundial em seu nome.

    Além disso, o exemplo venezuelano sublinha que a própria natureza das alianças percebidas tende a ser assimétrica e transacional. Para a Rússia e a China, a Venezuela é um nó estratégico numa disputa mais ampla, um ponto de apoio no quintal dos Estados Unidos, uma fonte de acordos energéticos e um símbolo de resistência à hegemonia ocidental. No entanto, para o exército venezuelano, o dever principal é a integridade territorial da nação e a sua própria continuidade institucional. Quando se materializa uma ameaça externa de força esmagadora, os benefícios ideológicos e transacionais da aliança distante empalidecem perante a realidade imediata da sobrevivência. Nenhuma quantidade de propaganda russa ou empréstimos chineses pode convencer um general a ordenar que as suas tropas entrem numa batalha onde serão aniquiladas, convidando à ruína total do seu país, em benefício geopolítico de um parceiro do outro lado do mundo.

    Em última análise, a questão da proteção volta à essência da soberania e do interesse. A Rússia e a China protegem os seus aliados na medida em que servem os seus interesses estratégicos e não correm o risco de uma escalada catastrófica. Não são garantes da segurança global ao estilo de um tratado de defesa mútua como a OTAN. Pelo contrário, os exércitos de nações como a Venezuela não são forças mercenárias de potências estrangeiras, são instituições nacionais com um instinto profundamente enraizado de autopreservação. Portanto, a incapacidade de proteger nem sempre é um fracasso do protetor, mas, mais frequentemente, um reflexo da fria realidade local de que, diante de um confronto existencial, os protegidos acabarão agindo em seu próprio interesse nacional percebido, que pode ser retirar-se, não lutar uma guerra condenada ao fracasso pelo prestígio de um patrono distante. A retirada do exército venezuelano não foi uma traição a Moscovo ou Pequim, mas uma afirmação definitiva desta lógica sóbria e implacável.

    A retirada venezuelana e a comparação com a Síria

    O surpreendente colapso da resistência venezuelana diante de uma intervenção militar dos Estados Unidos, sem uma batalha defensiva importante e coordenada, pode ser melhor entendido como um fracasso catastrófico da “resiliência do regime”. Esse conceito é agora tragicamente ressaltado pelo colapso paralelo e definitivo do Exército Árabe Sírio e do regime de Assad no final de 2024. A comparação entre Caracas e Damasco revela um fator:   embora a coesão interna de um exército possa evitar o colapso durante anos, como na Síria, a sua resistência final diante de ameaças internas e externas combinadas depende de um cálculo frágil de clientelismo estrangeiro e da disposição do líder de lutar até a morte. Ambos os casos demonstram que, quando esse cálculo fica fora de controlo, a vontade do líder de fazer sacrifícios militares e institucionais pelo governo evapora-se, priorizando a sua própria continuidade ou sobrevivência.

    Na Venezuela, as forças armadas estavam estruturadas como um instrumento de controlo político interno e clientelismo, não para uma defesa externa existencial. As Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB) foram transformadas sob Hugo Chávez e Nicolás Maduro, com sua missão principal transferida para garantir a revolução socialista [NR]. A lealdade era conquistada através do controle das indústrias estatais, mas diante de um ataque direto dos Estados Unidos, essa organização se desintegrou. Para os oficiais superiores, a escolha era entre a sobrevivência pessoal e institucional e a aniquilação certa. A FANB não tinha um compromisso profundo e sacrificial com Maduro pessoalmente, uma vez que a sua principal lealdade era para com o aparelho estatal. Quando esse aparelho foi decapitado, seja pela sua desaparecimento ou pelo acordo que foi fechado enquanto os Estados Unidos apresentavam um ultimato, a vontade institucional de lutar evaporou-se e eles optaram por preservar a casca do Estado.

    Na Síria, o apoio russo e iraniano foi decisivo durante mais de uma década, mas condicionado à existência de uma entidade local viável e combativa. A Rússia podia oferecer asilo, mas não iria travar um cerco urbano condenado ao fracasso em Damasco em nome de um líder que já se tinha demitido. Da mesma forma, na Venezuela, o apoio russo e chinês criou uma ilusão de força, mas não conseguiu compensar a ausência de vontade local. Quando a crise chegou, o componente crítico, a vontade do alto comando venezuelano de ordenar o uso de defesas avançadas e absorver uma retaliação devastadora, estava ausente.

    Em última análise, o destino da Síria e da Venezuela mostra uma hierarquia brutal no conflito moderno. No topo está um exército com uma profunda coesão existencial que luta por um líder que partilha o seu destino. Logo abaixo está um aparato militar e político com lealdade transacional a um líder que falha no teste final do destino partilhado, levando a uma rápida capitulação institucional, como se viu tanto em Damasco como em Caracas. Patrocinadores estrangeiros como a China e a Rússia são multiplicadores de força, não pilares fundamentais, e isso é ainda mais verdadeiro para os estados latino-americanos e da região do Caribe. A Rússia e a China só podem sustentar uma luta que já existe, não podem criar a vontade de lutar do zero, nem podem sustentá-la uma vez que o compromisso do líder local com uma fatalidade partilhada é quebrado. O exército venezuelano escolheu a preservação do Estado em vez de uma guerra para Maduro, assim como o exército sírio fez no final, aparentemente fazendo um cálculo semelhante de se retirar.

    [NR] Não é correto classificar a Revolução Bolivariana como "socialista" pois a sua ideologia é a de uma "terceira via".

     

    O “presidente da paz” vai para a guerra   Paul Craig Roberts     

    A criminosa acção de Trump na Venezuela é apenas um passo mais na escalada da agressão do imperialismo EUA. Outros estão já preparados, em particular os que visam agir conjuntamente com o genocida regime sionista. Estão em movimento todas as habituais componentes: acções visando minar a partir do interior (corrupção e imperialismo são indissociáveis); preparação e meios militares de muito larga escala; contra-informação por um coro mediático dominante inteiramente controlado; total falta de escrúpulos da clique dirigente. Com as instituições internacionais incapazes de agir, com a maioria mundial em posição recuada, apenas o levantamento geral dos povos de todo o mundo poderá contrariar tal marcha para o abismo.

    quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

    viva o novo ano!

     A saudação do Presidente da República Popular da China a Vladimir Putin, Presidente da Federação Russa, pela Passagem de Ano, esteve carregada de um significado significado que as potências decadentes imperialistas ocidentais souberam interpretar, a menos que os seus dirigentes europeus sejam definitivamente estúpidos . Não o são seguramente, muito embora sejam medíocres estadistas sem a envergadura de seus ancestrais. Seguramente  não encontram saída para o beco em que se meteram. Norte-americanos neo conservadores, ou manipulados pelas forças de elite, como Biden o foi, derreteram centenas de milhares de milhões de dólares e euros numa guerra que perderam sem apelo nem remédio. O grandioso plano norte-americano de dominarem o planeta foi por água abaixo, ou vemo-lo indo. Outro planeta, outros polos, outras alianças se ergueram contra as regras unilaterais de dominação e intimidação.  As forças financeiras, as elites políticas, norte-americanas quiseram impedir essa mudança e, contra isso, planearam e executaram planos para derrotar, destruir e dividir a Federação Russa, varrer do mapa o Irão  e, finalmente, esgotar a potência económica da China que temiam que ascendesse ao primeiro plano. No essencial, tudo foi por água abaixo. O ano de 2026 será, muito provavelmente, o tempo da derrota militar da Ucrânia, isto é, da sua rendição. O presidente dos EUA entendeu e não mentiu durante a sua campanha eleitoral. Entenderam que o que fizeram apenas serviu para fortalecer a Rússia, o Irão e a China. O tiro saiu pela culatra, literalmente falando. As leis da causalidade funcionam na História política (e económica) de modo dialético, essa grande herança do filósofo Hegel e de Karl Marx. É por isso que as grandes transformações são imprevisíveis (o método usado pelos químicos não são suficientes), ou, talvez, pelo contrário, sejam previsíveis. 

    Este novo ano - 2026 - pela recusa dos nazis ucranianos que manipulam Zelensky e de líderes medíocres da UE que querem aplicar a velha fórmula do capitalismo resolver as suas crises endémicas pela destruição de capitais, vai ser o ano da arrancada final da Rússia até ao Rio Dnieper ou para além dele retirando a Ucrânia do acesso ao Mar Negro, ou o ano em que os mísseis de vanguarda vão avisar governos europeus de que desta vez é melhor não experimentarem essa fórmula. 

        N. P.  

    Viagem à Polónia

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    Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

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    Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.