Página escrita por Marx, parte dos manuscritos de A ideologia alemã. Imagem: Wikimedia Commons
Por Maurício Vieira Martins
Em 2010, referindo-se ao conhecido texto A ideologia alemã de Marx e Engels, o acadêmico Terrell Carver publicou um artigo com um título intrigante: “The German Ideology Never Took Place”. Numa tradução livre, algo como: “A ideologia alemã nunca aconteceu”. O título — talvez hiperbólico — refere-se às descobertas fornecidas pelo avanço da nova publicação das obras completas de Marx e Engels, projeto conhecido com o nome de MEGA2. Tal avanço evidenciou que A ideologia alemã, longe de ser um texto acabado, foi composta na verdade a partir de um conjunto bastante heterogêneo de manuscritos redigidos entre 1845 e 1846 por Marx e Engels, mas que contaram também com contribuições de outros autores, e que foram unificados editorialmente apenas nas primeiras décadas do século XX1. Suas primeiras edições utilizaram critérios que induziam o leitor a pensar que se tratava de uma obra já finalizada com uma certa concepção homogênea do pensamento de Marx e Engels; este foi precisamente o aspecto que sofreu um escrutínio mais detalhado pelo menos a partir de 2003.
Notemos que quando os pesquisadores da MEGA2 trouxeram a público suas descobertas, A ideologia alemã já gozava de considerável fama em amplos setores do marxismo. Afinal, esses manuscritos (alguns especialistas vêm preferindo usar o termo no plural), que completam 180 anos agora em 2026, desde há muito chamavam a atenção. Já em 1965, impressionado com a abrangência das formulações materialistas ali encontradas, o filósofo Louis Althusser declarou que em suas páginas encontrava-se o corte epistemológico operado por Marx no interior de sua própria obra; corte que teria rompido com sua formação filosófica anterior, alcançando um novo patamar explicativo estruturado. Ecoando as palavras das apresentações editoriais existentes naquela época, que supunham uma organicidade em A ideologia alemã, Althusser escreve: “Nessa nova concepção, tudo se encaixa também rigorosamente, mas é um novo rigor” (Althusser, 2015 p. 188). Não seria este o momento para discutirmos as teses althusserianas, mas vale lembrar que elas incentivaram, ao fim e ao cabo, um olhar pouco dialético sobre a obra marxiana, que postulava a existência de disjuntivas no seu interior — contrapondo um “jovem Marx” ao “velho Marx” — ao invés de reconhecer uma trama de relações entre seus conceitos. A pesquisa filológica posterior ao filósofo francês evidenciou, por exemplo, que uma categoria como Entfremdung (normalmente traduzida como estranhamento ou alienação) permanece central tanto na juventude como no pensamento posterior de Marx2, inclusive em O capital.
Retornando às modificações que a MEGA2 documentou em relação às edições anteriores de A ideologia alemã, merece atenção o fato de que os manuscritos originais de Marx e Engels apresentavam majoritariamente um caráter polêmico, iniciando pela crítica de Bruno Bauer. Já o capítulo dedicado a Ludwig Feuerbach, usualmente apresentado como o primeiro, foi na verdade escrito posteriormente, e nunca chegou a ser concluído. Fato que é consistente, aliás, com o relato rememorativo de Friedrich Engels na década de 1880, em que ele se refere ao antigo manuscrito: “A seção sobre Feuerbach não está completa. […] Falta ali a crítica da teoria de Feuerbach porque, para o propósito daquele momento, ela não tinha serventia” (Engels, 2024, p. 36).
Hoje, passado o período mais áspero das polêmicas em torno de A ideologia alemã e reconhecido seu caráter inacabado e fragmentário, é preciso dizer que, não obstante isso, as vertentes fecundas do texto são tão numerosas que chega a ser uma tarefa difícil enumerá-las. Neste breve artigo de divulgação, mencionemos apenas três delas. A primeira é uma ênfase muito decidida por parte de Marx e Engels na necessidade cotidiana dos seres humanos transformarem a natureza para satisfazerem suas necessidades materiais:
“a produção da própria vida material, e este é, sem dúvida, um ato histórico, uma condição fundamental de toda a história, que ainda hoje, assim como há milênios, tem de ser cumprida diariamente, a cada hora, simplesmente para manter os homens vivos” (Marx e Engels, 2007, p. 33).3
Distanciando-se de uma história das ideias desencarnada, ou mesmo de uma historiografia apenas política, A ideologia alemã aponta com firmeza para a importância da produção material da nossa existência, condição básica para que outras atividades humanas — como fazer política ou dedicar-se à filosofia — sejam desenvolvidas. É a partir desse solo fundante que Marx e Engels endereçam suas críticas à filosofia de sua época, comprometida por uma singular miopia quanto à importância daquilo que, alguns anos mais tarde, nossos autores nomearão como uma estrutura econômica.
Uma segunda vertente particularmente instrutiva do texto refere-se ao desdobramento das diferenças da concepção de Marx e Engels em relação à de Ludwig Feuerbach. Mesmo sabendo hoje que houve nas edições anteriores de A ideologia alemã um destaque indevido a essa seção (atribuindo a ela uma centralidade que não existia nos manuscritos originais), resta verdadeiro que ali encontram-se vetores fecundos que merecem toda a atenção. Recordemos: num primeiro momento de seu trajeto, Marx e Engels endossaram certos aspectos do pensamento de Feuerbach, filósofo ateu que afirmou o primado da natureza sobre a ideia, sustentando a fundação natural da espécie humana. Seu livro A essência do cristianismo, de 1841, despertou a aprovação dos fundadores do marxismo: “O entusiasmo foi generalizado: momentaneamente todos nós nos tornamos feuerbachianos”, escreveu Friedrich Engels anos depois (Engels, 2024, p.48).
Já em A idelogia alemã e nas Teses sobre Feuerbach, em contrapartida, encontramos enunciados alguns limites importantes do naturalismo feuerbachiano. Destaque-se especialmente a ênfase de Marx e Engels na categoria da atividade (Tätigkeit) humana, como modificadora contínua da realidade natural; era precisamente o impacto de tal atividade que Feuerbach tinha dificuldades em visualizar:
“Ele não vê como o mundo sensível que o rodeia não é uma coisa dada imediatamente por toda a eternidade e sempre igual a si mesma, mas o produto da indústria e do estado de coisas da sociedade, e isso precisamente no sentido de que é um produto histórico, o resultado da atividade de toda uma série de gerações […] …é por isso que Feuerbach, em Manchester por exemplo, vê apenas fábricas e máquinas onde cem anos atrás se viam apenas rodas de fiar e teares manuais” (Marx e Engels, 2007, p. 30 -31).
Para que o leitor se dê conta da relevância dessas considerações, basta fazer um teste trivial: olhar em volta do ambiente onde se encontra. Longe de uma natureza originária, encontrará um gigantesco conjunto de edificações, equipamentos e dispositivos transformados pelo trabalho humano: nossos próprios sentidos já estão saturados devido à milenar transformação da natureza. Por isso, quando mesmo um biólogo da grandeza de um Stephen Jay Gould escreve que “a ciência só pode trabalhar com explanações naturalistas; ela não pode afirmar nem negar outros tipos de agentes (como Deus)…” (Gould, 1992, p. 119), há um adendo importante aqui a ser feito. As categorias de análise próprias das explanações naturalistas devem ser continuamente complementadas — e em muitos casos retificadas — pela emergência de um mundo social profundamente transformado pela ação humana4.
Como terceiro aspecto a ser destacado neste breve artigo, vale frisar a seminal elaboração de A ideologia alemã sobre a força das ideias, que se constituem como uma ideologia, um sistema estruturado de crenças que dispõe de uma inegável eficácia causal. E, passo decisivo, Marx e Engels apontam para a gênese material e classista das ideias dominantes de uma época. Suas considerações abrem espaço para um vasto campo de pesquisa sobre as ideologias:
“As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios da produção material dispõe também dos meios da produção espiritual, de modo que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios da produção espiritual” (Marx e Engels, 2007, p. 47).
A atualidade dessas considerações de Marx e Engels sobre o controle da produção das ideias pela classe dominante é espantosa. Do século XIX aos nossos dias, o processo de produção e difusão das ideias dominantes pela via de corporações internacionais tornou-se cada vez mais generalizado. A grande imprensa brasileira pratica um mimetismo desavergonhado das matrizes estadunidenses e europeias de notícias. Quando Donald Trump invadiu a Venezuela em 03 de janeiro de 2026, até os termos escolhidos para o sequestro de Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores foram copiados. A chamada “extração” de Maduro da Venezuela não foi apenas um deplorável eufemismo de nossa imprensa, mas antes a tradução da referência a uma operação que “successfully extracted Mr. Maduro” (tal como se pode ler no The New York Times). Ou ainda: as insistentes notícias sobre a “captura” (termo reservado para criminosos que caem nas mãos da polícia) do presidente venezuelano. Em contrapartida, a categoria chave para o entendimento da invasão da Venezuela, o imperialismo, foi convenientemente abafada e decretada obsoleta.
Retornando à Ideologia alemã, é certo que ao lado de sua grandeza, o texto apresenta também seus limites. Em termos do debate com a economia política, ainda estamos ali muito distantes das grandes elaborações da maturidade de Marx, que vão se adensando principalmente ao final da década de 1850. Toda a reconstrução marxiana da teoria do valor, essencial para a crítica da economia política, só ocorrerá anos depois desses manuscritos de 1845-465. Já no que diz respeito ao que hoje nomeamos como uma teoria do conhecimento, é possível detectar em A ideologia alemã um aposta controversa no mundo sensorial como a fonte e o critério do conhecimento verdadeiro. É o que nos mostra a presença de enunciados como: “Aliás, nessa concepção das coisas tal como realmente são e tal como se deram, todo profundo problema filosófico é simplesmente dissolvido num fato empírico”. E, mais adiante: “A observação empírica tem de provar, em cada caso particular, empiricamente e sem nenhum tipo de mistificação ou especulação, a conexão entre a estrutura social e política e a produção” (Marx e Engels, 2007, p. 31 e 93).
Nessa vertente em particular, a diferença com as obras marxianas posteriores precisa ser destacada. Nelas, a realidade empírica e sensorial é constantemente ultrapassada por um método que perfura a aparência imediata em busca de suas relações mais essenciais6. Basta analisar as categorias do mais valor ou do trabalho abstrato — tão decisivas na economia política marxiana —, para reconhecer que elas não são visíveis mediante uma inspeção do mundo empírico. Na verdade, pressupõem uma rede categorial mais abrangente e, portanto, uma teoria para que sejam demonstradas. Os textos da maturidade de Marx evidenciam de modo eloquente que, para além da realidade sensorial, existe uma estrutura oculta a ser arduamente decifrada.
Dito isso, é provavelmente injusto avaliar A ideologia alemã por seus limites: mais produtivo é conhecer a ampla crítica da filosofia de seu tempo que Marx e Engels ali realizaram. Crítica que contribuiu substantivamente para a autocompreensão (ou, em alemão, Selbstverständigung7) de seus autores; aquisição considerável mencionada por Marx, anos depois, no seu Para a crítica da economia política.
Referências
Althusser, Louis. Por Marx. Editora da Unicamp, 2015.
Carver, Terrell. The German Ideology Never Took Place. History of Political Thought, vol 31, n. 1, 2010.
Engels, Friedrich. Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã. Boitempo Editorial, Edição Kindle, 2024.
Gould, S. J. Impeaching a Self-Appointed Judge. Scientific American, 267, 118-121, 1992.
Heinrich, Michael. A Teoria do Estado de Marx após “Grundrisse” e “O Capital”. Lavra Palavra, 18/03/2021.
Martins, Maurício Vieira. Marx, Spinoza and Darwin: materialism, subjectivity and critique of religion. Palgrave MacMillan, 2022.
Marx, Karl. “Zur Kritik der Politischen Ökonomie”. In: Karl Marx Friedrich – Engels Gesamtausgabe (MEGA), Band 2. Berlin: Dietz Verlag, 1980.
Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA). Deutsche Ideologie. Manuskripte und Drucke. 2017.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
Musto, Marcello. Repensar Marx e o marxismo. São Paulo: Boitempo, 2022.
Notas
- Uma apresentação da equipe da MEGA2 à Ideologia alemã pode ser acessada aqui. ↩︎
- Esta permanência da Entfremdung (alienação/estranhamento) na obra de Marx é desenvolvida detalhadamente por István Mészáros em A teoria da alienação em Marx, livro que lhe valeu o prestigioso Deutscher Prize. ↩︎
- Adotamos aqui a tradução de A ideologia alemã publicada pela editora Boitempo, que mereceu um elogio superlativo por parte de Gerald Hubmann, diretor da MEGA2. ↩︎
- Abordei este aspecto com mais vagar no capítulo 3 (“Toward a Theory of Emergence”) do meu livro Marx, Spinoza and Darwin: materialism, subjectivity and critique of religion. ↩︎
- Marcello Musto alerta, por exemplo, que “Até o fim da década de 1840, Marx tinha essencialmente aceito as teorias de Ricardo”, economista do qual se distanciará – ainda que reconhecendo sua grandeza – a partir da década de 1850. Cf. Musto, 2022. ↩︎
- Michael Heinrich, dentre outros, aborda com clareza este ponto: “Que há uma estrutura escondida, não estava claro para Marx durante a segunda metade da década de 1840. O empirismo da “Ideologia alemã”, o enfatizar permanente de que temos apenas que apresentar os fatos empíricos (…)”. Cf. Heinrich, 2021. ↩︎
- Cf. Marx, 1980, p. 102. ↩︎
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Maurício Vieira Martins é
doutor em Filosofia e professor da Universidade Federal Fluminense.
Membro do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre Marx e o
Marxismo (NIEP-Marx/UFF).
in Boitempo

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